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ORGANIZADORES Conceitos como modernidade e modernização são usual- Filipe Campello

MODERNIZAÇÕES AMBIVALENTES
mente associados a uma gradual transformação em dife- Benjamin Gittel
Filipe Campello é doutor em Filosofia pela rentes âmbitos da sociedade e de modos de vida ligados a
Universidade de Frankfurt e Professor do
(Orgs.)
uma crescente racionalização, industrialização, individua-
Departamento de Filosofia da Universidade
ção e secularização. No entanto, as diversas tentativas de
Federal de Pernambuco, além de coordenar,
nesta mesma instituição, o Núcleo de Estudos definição desse conceito têm demonstrado, antes de tudo,
em Filosofia Política e Ética. Tem publicações as suas ambivalências, seja nos seus critérios de conceitua-
em temas como filosofia política, Hegel, teoria ção, nas dificuldades de diagnóstico de época, ou, ainda, no
crítica e estética. seu controverso ideal normativo.

Benjamin Gittel é doutor em literatura alemã A partir da polissemia do conceito de modernidade e da


pela Universidade Humboldt de Berlim e foi avaliação de processos distintos de modernização, este
professor visitante na Universidade Federal de livro reúne contribuições que colocam em debate o pró-
Pernambuco. Atualmente, ensina e pesquisa na prio sentido de modernização e de suas possíveis ambiva-
Universidade Humboldt de Berlim. Suas áreas
de interesse compreendem temas como lite-
lências. Com uma perspectiva interdisciplinar e transna-
cional – como nos exemplos do Brasil, da Alemanha e de
MODERNIZAÇÕES
AMBIVALENTES
ratura no contexto da história do pensamento,
Moçambique –, o livro apresenta tanto textos-chaves para
história e teoria da ficção, literatura e emoções
e teoria da literatura.
este debate como ensaios sobre uma variedade de temas
que incluem cidade e desenvolvimento urbano, dimensões
perspectivas interdisciplinares

Filipe Campello, Benjamin Gittel (Orgs.)


políticas e culturais de desenvolvimento, processos de mo-
dernização no cinema e na literatura. Este leque de temá-
e transnacionais
ticas pretende contribuir não só para o debate acadêmico
sobre os sentidos controversos de modernização, como
também para qualquer leitor interessado nas ambivalên-
cias do diagnóstico de nosso tempo.
MODERNIZAÇÕES
AMBIVALENTES
perspectivas interdisciplinares
e transnacionais
Filipe Campello
Benjamin Gittel
(Orgs.)

MODERNIZAÇÕES
AMBIVALENTES
perspectivas interdisciplinares
e transnacionais

R E C I F E
2016
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
DAS EDITORAS UNIVERSITÁRIAS

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ou parcial, por qualquer meio ou processo, especialmente por sistemas
gráficos, microfílmicos, fotográficos, reprográficos, fonográficos e
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parte da obra em qualquer programa cibernético. Estas proibições se
aplicam, também, às características gráficas da obra e à sua editoração.

Catalogação na fonte
Bibliotecária Joselly de Barros Gonçalves, CRB4-1748

M689 Modernizações ambivalentes : perspectivas interdisciplinares e


transnacionais / [organizadores] Filipe Campello, Benjamin
Gittel. – Recife : Editora UFPE, 2016.
305 p.

Inclui referências.
ISBN 978-85-415-0783-7 (broch.)

1. Planejamento urbano – Brasil – Aspectos sociais. 2.


Desenvolvimento social. 3. Evolução social. 4. Política social. I.
Campello, Filipe (Org.). II. Gittel, Benjamin (Org.).

711.40981 CDD (23.ed.) UFPE (BC2016-040)

Rua Acadêmico Hélio Ramos, 20, Várzea


Recife, PE | CEP: 50.740-530
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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO 7

INTRODUÇÃO 9
Polissemia e normatividade da modernidade
Filipe Campello, Benjamin Gittel

PARTE I
Conceitos de modernidade e modernizações

CAPÍTULO I 33
Modernidades múltiplas
Shmuel N. Eisenstadt

CAPÍTULO II 77
O universal sob o múltiplo: aceleração social
como chave de compreensão da modernidade
Hartmut Rosa

PARTE II
Dimensões sociais e políticas da modernização

CAPÍTULO III 117


Estado, cidadania, modernidade:
tendências de desenvolvimento
José Mauricio Domingues
CAPÍTULO IV 159
‘Desenvolvimento’ – resultado ou
mito da modernidade?
Elísio Macamo

CAPÍTULO V 181
A cidade brasileira:
moderna demais para o século XXI?
Martin Gegner

CAPÍTULO VI 229
Cidades e diversidade: em defesa
do perspectivismo moral no desenho urbano
Érico Andrade, Andréa Storch

III Parte
Crítica cultural e dimensões culturais
da modernização

CAPÍTULO VII 255


Crítica cultural:
um modo de reflexão da modernidade
Georg Bollenbeck

CAPÍTULO VIII 271


Os potenciais ambíguos da imagem
na era das modernizações aceleradas
Kathrin Rosenfield

SOBRE OS AUTORES 303


APRESENTAÇÃO

A ideia inicial deste livro surgiu a partir de um ciclo


de palestras realizado em abril de 2014 no Recife, no âmbi-
to da “Temporada Alemanha+Brasil 2013-2014”. Com o tema
“Modernizações ambivalentes”, o projeto visou debater e re-
pensar interpretações mais consolidadas em torno dos conceitos
de “Modernidade” e “modernização” – compreendida, usual-
mente, como uma gradual transformação em diversos campos
da sociedade e dos modos de vida ligados a uma crescente ra-
cionalização, industrialização, individuação e secularização.
Os diferentes processos de modernização nos casos do Brasil
e Alemanha – bem como interno a esses dois países – suge-
rem importantes elementos para repensar um conceito fixo de
Modernidade. Com o enfoque na pluralidade de experiências
nesses dois países, tratava-se de colocar em debate o próprio
conceito de modernização e de suas ambivalências, abordando
uma variedade de temas que incluíram cidade e desenvolvimen-
to urbano, dimensões políticas e culturais de desenvolvimento,
processos de modernização no cinema e na literatura.
Reunindo algumas das contribuições apresentadas no ci-
clo de palestras, e incluindo outros trabalhos relevantes para a
temática proposta, este livro está dividido em três partes. A pri-
meira parte apresenta um panorama em torno da pluralidade
do conceito de modernidade, sua história e implicações, reunin-
do artigos de Shmuel N. Eisenstadt e Hartmut Rosa. A segun-
da parte discute dimensões sociais e políticas da modernização
a partir de contribuições de Érico Andrade e Andréa Storch,

7
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

José Mauricio Domingues, Martin Gegner e Elísio Macamo.


A terceira parte, por fim, reúne ensaios de Georg Bollenbeck e
Kathrin Rosenfield em torno do debate sobre crítica cultural e
dimensões culturais da modernização. O livro inclui ainda um
artigo introdutório, onde procuramos apresentar a polissemia
do conceito de modernidade e um possível sentido normativo
para este amplo debate.
Gostaríamos de agradecer, primeiramente, às instituições
que possibilitaram o ciclo de palestras no Recife, ponto de par-
tida deste livro: o Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico
(DAAD), o Centro Alemão de Ciência e Inovação São Paulo
(DWIH), o Centro Cultural Brasil Alemanha no Recife (CCBA),
a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e a Fundação
Joaquim Nabuco. Somos muito agradecidos aos autores(as) pe-
las suas contribuições, bem como a Bárbara Buril, Thiago Paz,
Luiz Tavares de Lucena e Bruno Hinrichsen pelo gentil apoio
na tradução e formatação dos artigos. Agradecemos ainda ao
DAAD, ao CCBA e à UFPE pelo apoio financeiro que possibili-
tou a publicação deste livro.

Os organizadores

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INTRODUÇÃO

Polissemia e normatividade
da modernidade
Filipe Campello, Benjamin Gittel

I. Modernidade(s)
É recorrente a ideia de que a semântica de um conceito
seja indissociável de sua incorporação de sentido, ou seja, do
nosso uso desse conceito. Em muitos casos, a imprecisão de um
determinado conceito decorre justamente da polissemia que ele,
num sentido pragmático, adquire ao longo de um percurso his-
tórico. O conceito de modernidade é um exemplo emblemático
dessa pluralidade de sentidos, dependente de um amplo leque
de definições. Com efeito, encontramos na vasta literatura um
dissenso interpretativo: enquanto algumas correntes aliam-se
ao sentido de “pós-modernidade”, diversas concepções dis-
tintas entendem a modernidade enquanto projeto inacabado1,
modernidades múltiplas2, ou mesmo, propõem que jamais fo-
mos modernos3. No entanto, no que se refere à polissemia do
conceito de modernidade, trata-se não apenas de tentativas de
1 Habermas 1992.
2 Eisenstadt, artigo neste livro. Para uma apreciação crítica, cf. Schmidt 2007.
3 Latour 2009.

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Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

definição, como também da busca por autocompreensão de seu


tempo. Afirmar que somos ou não modernos depende, em larga
medida, tanto da definição daquilo que entendemos por este
conceito, como da clareza de um diagnóstico de época, ou seja,
da compreensão de nosso tempo.
Este duplo sentido envolvido na polissemia de “moder-
nidade” – o da definição do conceito, por um lado, e do diag-
nóstico de época, por outro – compreende a especificidade e a
recorrente atração por sua definição, cujas raízes remontam a
uma tradição filosófica em que tentativas de precisão conceitual
e de autocompreensão se entrecruzam. Com efeito, o pionei-
rismo do debate em torno do sentido de modernidade deu-se
fora do âmbito da ciência e, portanto, externo às limitações
das disciplinas científicas. Trata-se da assim chamada “Querelle
des Anciens et des Modernes”, ocorrida no fim do século XVII
na França, em que, segundo uma proposta de compreensão de
sua época como necessidade de renovação, se discute a questão
de se a arte moderna deveria ou não se pautar por um retorno
à antiguidade. Desde então, a modernidade tornou-se objeto
de reflexões diversas, e a pluralidade dos significados de “mo-
dernidade” e “modernizações” deve-se, em parte, às tradições
de cada disciplina, que passam a se referir a esses conceitos de
maneiras distintas e de acordo com diferentes interesses de pes-
quisa. Além disso, tais tradições são, muitas vezes, internamente
heterogêneas. Embora seja impossível oferecer, aqui, uma visão
geral dessas tradições, gostaríamos de ao menos apontar algu-
mas particularidades dessas perspectivas divergentes, expondo
alguns conceitos-chaves por elas utilizados para se pensar a
modernidade.
A partir da mencionada querela oriunda do contexto
artístico, o primeiro âmbito do conhecimento a refletir sobre

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Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

a modernidade foi a filosofia, o que pressupôs uma transfor-


mação na autocompreensão dessa disciplina enquanto ciência.
Antes concebida fundamentalmente como disciplina a-histórica
que reflete sobre a essência dos seus objetos, ela passa a ser
compreendida, de maneira mais sistemática a partir de Hegel,
como uma forma de conhecimento que reflete a historicidade
das suas próprias tentativas de “apreensão da verdade”4. O
diagnóstico filosófico viu-se confrontada com reinvindicações
de progresso associada, por um lado, ao Iluminismo e, por
outro, à ruptura sociopolítica através dos acontecimentos da
Revolução Francesa. Trata-se, portanto, da proposta de apreen-
são do seu próprio tempo como época das luzes e esclarecimen-
to, concebendo a si mesmo como “modernos” e a sua época
como “modernidade”.
Foi Kant o primeiro a refletir filosoficamente sobre os cri-
térios para uma autocompreensão do Iluminismo em termos
de modernidade e progresso5. Em seu conhecido texto O que
é o Iluminismo?, o filósofo de Königsberg busca compreender
o seu tempo como acontecimento filosófico, tentando discernir
aquilo que no presente seria relevante para uma reflexão filo-
sófica. Kant vê no Iluminismo uma época que assume para si
a tarefa de conduzir o sujeito a sua maioridade (Mündigkeit),
enquanto é afirmada a sua autonomia e reflexão6. Ainda que
com o pé em um universalismo forte, é com o questionamen-
to sobre o significado do Iluminismo enquanto acontecimento
do seu próprio tempo que Kant insere a reflexão filosófica em
uma historicidade instransponível. No opúsculo O conflito das

4 Habermas 2003, p. 177.


5 Kant 2005 [1784].
6 Cabe notar que, na língua alemã, a expressão “Mündigkeit” refere-se à “boca“
(“Mund”), remetendo à ideia de um falar por si próprio.

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Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

faculdades (“Der Streit der Fakultäten”), o filósofo tenta en-


contrar aqueles critérios ou “signos” que nos autorizam a com-
preender um acontecimento como sendo expressão de progres-
so. Tendo diante de si a Revolução Francesa, Kant propõe que
um dos critérios centrais para discernir um sentido legítimo de
progresso é o sentimento de entusiasmo, não só dos atores da
Revolução, mas principalmente de quem está “de fora” como
“espectador”7.
No entanto, ainda que, diante do caráter de ruptura po-
lítica da Revolução Francesa, os alemães compartilhem um
sentimento de espectadores, eles reivindicam o protagonismo
de uma outra revolução. Com efeito, Kant, seguido pelos ro-
mânticos, entende que a revolução na Alemanha seria levada
a cabo como revolução de ideias, como uma autêntica ruptura
que poderia ser resultante da filosofia alemã, encontrando num
sentido amplo de “Kultur” o caráter unificador da nação8.
Mas é somente com Hegel que a modernidade passa a ser
propriamente tematizada enquanto problema filosófico. Pois, se
para Kant o Iluminismo e a época moderna eram vistos a partir
de uma autocompreensão de progresso, Hegel passa a colocar
em questão uma visão fundamentalmente positiva, deslocando
o foco para os critérios de autocertificação da modernidade9.

7 Como afirma Foucault em referência a Kant: “Qual é esta minha atualidade? Qual é
o sentido desta atualidade? E o que faço quando falo desta atualidade? É nisso que
consiste, me parece, essa nova interrogação sobre a modernidade” (Foucault 2008,
p. 340).
8 Heinrich Heine escreve que, à diferença da Revolução Francesa, “[a] revolução ale-
mã não será mais suave e branda por ser precedida pela crítica kantiana, pelo ide-
alismo transcendental de Fichte e mesmo pela filosofia da natureza. Através dessas
doutrinas desenvolveram-se forças revolucionárias que apenas aguardam o dia que
poderão irromper e encher o mundo de temor admiração.” (Heine [1835] 1964, p.
282 ss.)
9 Habermas 2000.

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Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Como afirma Habermas, “Hegel não é o primeiro filósofo que


pertence aos tempos modernos, mas o primeiro para o qual a
modernidade se tornou um problema”10. Se tivermos em mente
a já mencionada querela entre os antigos e os modernos, Hegel
teria, semelhantemente a seus contemporâneos românticos,
problematizado o sentido da modernidade, mas a sua tentativa
de resposta não se deu por um retorno à antiguidade clássica.
Pois, a partir de uma concepção teleológica da história, Hegel
defende que a modernidade deixa como legado uma ideia ir-
retrocedível, a saber, o princípio da subjetividade. Ao mesmo
tempo, Hegel busca superar aquelas cisões advindas com a
modernidade – uma inquietação compartilhada com colegas
como Hölderlin e Schelling. A resposta hegeliana aos supos-
tos impasses da modernidade encontra no conceito de razão
o lugar de reconciliação outrora ocupado pela religião: é no
poder unificador da razão que Hegel vislumbra a reconciliação
de uma subjetividade ao mesmo tempo afirmada e dilacerada
na modernidade.
Após Hegel, contudo, a filosofia passa a autolimitar-se
em sua pretensão de alcance intransponível. É nesse sentido
que ela perde um estatuto exclusivo de pretensão de validade,
passando a pôr-se o seu próprio limite11. Diante dessa autolimi-
10 Habermas 2000, p. 62. E, numa outra passagem: “Hegel foi o primeiro a tomar
como problema filosófico o processo pelo qual a modernidade se desliga das su-
gestões normativas do passado que lhe são estranhas. Certamente, na linha de uma
crítica da tradição que inclui as experiências da Reforma e do Renascimento e reage
aos começos da ciência natural moderna, a filosofia dos novos tempos, da escolásti-
ca tardia até Kant, já expressa a autocompreensão da modernidade. Porém apenas
no final do século XVIII o problemada autocertificação da modernidade se aguçou
a tal ponto que Hegel pôde perceber essa questão como problema filosófico e, com
efeito, como o problema fundamental de sua filosofia.” (Habermas 2000, p. 24).
11 Cf. Schnädelbach 1991, Löwith [1988] 2014. Enquanto Löwith propõe uma certa
continuidade nas tradições que ligam de Hegel a Nietzsche, Schnädelbach vê um
momento de crise na filosofia após a morte de Hegel, conduzindo a uma revisão

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Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

tação, a resposta aspirada pela filosofia, numa espécie de bus-


ca por autossobrevivência, é encontrada através de um intenso
entrecruzamento com outras ciências particulares, que, por sua
vez, passam por um crescente processo de autonomização. É
nesse contexto que ciências como sociologia, história ou psi-
cologia passam a se autonomizar no seu próprio domínio de
conhecimento, restando à filosofia uma reflexão metateórica.
Desse modo, não é mais a filosofia por si só que detém o saber
sobre a história, a natureza ou a sociedade, mas, pelo contrário,
o específico de sua reflexão passa a ser indissociado de outros
saberes. Na esteira do que viria a ser entendido como pensa-
mento pós-metafísico, uma das saídas autocríticas da filosofia
foi a de tornar-se uma “guardadora de lugar” (“Platzhalter”):
por um lado, abrindo-se a um diálogo constante com outros
âmbitos do conhecimento, e, por outro, demarcando sua tarefa
particular em pensar os limites desses âmbitos12.
Em Hegel, como mencionado, a modernidade ‘pensa’ a
partir de si mesma, seja como noção de progresso ou como
autocrítica, de modo que o vínculo entre racionalidade e mo-
dernidade passa a ser uma orientação obrigatória. No entanto,
com Nietzsche se viria o rompimento com o projeto de concep-
ção da modernidade como progresso da razão, em que as duas
noções centrais desse processo, modernidade e racionalidade,
sofrem seus mais duros golpes. Como diagnostica Nietzsche de
maneira incisiva: “pois de nós mesmos, nós, os modernos, não
temos absolutamente nada”13.

crítica de conceitos fundamentais como valor, verdade e história, que teria resultado
no pensamento de Nietzsche e, posteriormente, de Heidegger.
12 Cf. Habermas 1990.
13 Nietzsche [1872] 1967, p. 273.

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Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

É nesse sentido que o pensamento filosófico sobre a mo-


dernidade vinculou-se, por um lado, a conceitos como “auto-
consciência”, “subjetividade” e “autonomia”, e, por outro, a
uma reflexão crítica sobre o projeto iluminista, considerando
as ambivalências internas a tal projeto. A esse segundo sentido
crítico referem-se Adorno e Horkheimer naquilo que denomi-
naram “Dialética do esclarecimento” – a saber, a ligação entre
o ideal da autonomia, de um lado, e a ideia de poder e a razão
instrumental, de outro14 –, ou ainda, em uma outra vertente im-
portante do pensamento filosófico sobre a modernidade, as as-
sim chamadas teorias da “pós-modernidade” – em grande parte
inspiradas por Lyotard. A sua expressão “o fim das metanarra-
tivas” (em francês: métarécits15) simboliza, de certa forma, uma
outra dimensão da crítica da modernidade: Enquanto posições
próximas de uma crítica do Iluminismo tentam frequentemente
salvar um projeto normativo de modernidade, posições pós-
modernas dissolvem a crença em tal projeto num relativismo
que se despede da ideia de progresso como realidade e ideal
normativo. É esta ambivalência que, de um modo ou de ou-
tro, orienta a reflexão sobre a modernidade, persistindo até os
nossos dias, seja na busca por sua definição, como na tentativa
de compreendermos se somos ou não modernos e, não menos
importante, na defesa ou crítica dessas noções de modernidade
como projeto normativo.
A história fornece, sobretudo, modelos que diferenciam
vários graus de modernidade, como, por exemplo, a “moder-
nidade de estabilização” (1640-1680/1715), a “modernida-

14 Atualmente, o projeto de crítica do Iluminismo é levado a cabo em diferentes ver-


tentes, como pode ser encontrado em Charles Taylor e Hartmut Rosa (ver artigo de
Rosa no presente volume).
15 Lyotard 1987, 32f.

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Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

de evolutiva” (1770-1880) e a “modernidade heroica (1880-


1945/89)16. Tais modelos, os quais diferem frequentemente en-
tre si, são tão indispensáveis como facilmente criticáveis, ainda
que eles prescindam da suposição de uma teleologia e se deli-
mitem à filosofia de história. Se se aceita o alto grau de abstra-
ção que eles pressupõem, uma das questões centrais para esses
modelos parece ser, na esteira da supracitada reflexão kantiana,
quais são os indicadores de mudança histórica, acontecimentos,
estruturas, intenções de atores históricos ou os símbolos e as
narrativas de autores sobre a época em que viveram, como foi
discutido mais recentemente17. Uma outra dificuldade consiste
na limitação regional ou cultural desses modelos que preten-
dem englobar frequentemente a modernidade do mundo oci-
dental. Mas esse ponto também indica um aspecto importante
da pesquisa historiográfica sobre a modernidade ou, mais espe-
cificamente, do projeto iluminista: a sua localização geográfica.
Podemos designá-lo como “projeto normativo do Ocidente”18?
E, se respondemos “sim”, o que isso significa para a sua reivin-
dicação de verdade? Essa questão e um certo eurocentrismo do
discurso sobre a modernidade são fundamentais para os assim
chamados postcolonial studies, como encontramos, entre ou-
tros, em autores como Homi Bhabha, Enrique Dussel, Edward
Said e Gayatri Chakravorty Spivak19.
Para as disciplinas que se ocupam com o estético nas suas
diversas formas, “modernidade” é uma categoria central, em
que grandes narrativas (grand récits) descrevem uma transfor-
mação da área do estético, ou seja, uma mudança da relação en-

16 Segundo Kittsteiner 2003 (tradução nossa).


17 Kittsteiner 2003, p. 95-97.
18 Winkler 2000, p. 7 (tradução nossa).
19 Cf., por exemplo, Dussel 1993; Spivak 2010.

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Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

tre modernidade estética e modernidade social. Uma primeira


metanarrativa propõe que a modernidade conduz a uma racio-
nalização e marginalização do (verdadeiro) estético (Adorno);
uma segunda sugere que a modernidade conduz a uma autono-
mização do estético (Luhmann); já uma terceira defende que a
modernidade conduz a uma penetração do estético na vida coti-
diana20. Entre essas disciplinas, as filologias caracterizam-se por
um uso mais frequente dos conceitos “modernidade” e “mo-
dernismo” do que “modernização”. Os dois conceitos usam-se
na historiografia de literatura para designar uma época (a mo-
dernidade) ou uma vertente literária (por exemplo, o Segundo
Modernismo para a literatura de Portugal).
Pelo menos dois aspectos da pesquisa dos filólogos são
interessantes para uma análise mais abrangente do fenômeno
de modernidade. Além das caraterísticas do modernismo literá-
rio – que, em grande parte, ainda são estudadas a partir de filo-
logias nacionais – filólogos discutem também o contexto social
no qual o modernismo surge. Isso inclui pesquisas amplas sobre
o uso histórico do conceito de “moderno” e conceitos relacio-
nados sobre o surgimento de uma consciência de modernidade
que é, muitas vezes, ligada a certas percepções de crise21. Além
disso, a literatura, em especial a literatura de ficção, parece ser
um lugar onde se articulam de maneira sutil experiências cole-
tivas devido a processos de modernização como uma crescente
racionalização, industrialização, individuação ou seculariza-
ção. No entanto, o problema metodológico consiste na deter-
minação exata dessa relação da literatura com o mundo social,
sobre a qual até agora parecem existir somente aproximações

20 Reckwitz 2012.
21 Pelo contexto alemão veja, por exemplo, Kiesel 2004, p. 13-34.

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Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

promissoras22. Além da interligação entre história social e mo-


dernismo, a filologia, desde o estruturalismo de Praga, também
estuda modernizações literárias, tais como inovações estilísticas
ou literárias e suas respectivas avaliações23. Um fenômeno no-
tável é que um estilo moderno de escrita muitas vezes carrega
conteúdos antimodernos, daí a ambiguidade do conceito “mo-
derno” com respeito a uma obra literária24.
Certamente, modernidade, modernismo e modernizações
são temas também de várias outras disciplinas que seguem os
seus interesses de pesquisa e usam os seus próprios conceitos.
Em vez de expor mais amplamente essa heterogeneidade, gosta-
ríamos de tratar de uma outra razão pela qual a reflexão sobre
esses fenômenos é diversa e multiperspectivista: os diferentes
contextos culturais em que essa reflexão surge e se desenvolve.

II. Contextos de modernizações


Assim como em outros âmbitos, talvez a melhor manei-
ra de conceber também o processo de modernização no con-
texto brasileiro seja justamente o da ambivalência. Tal senti-
do refere-se não somente a um diagnóstico sociológico, mas a
uma dimensão conceitual, ou seja, ao próprio modo de com-
preensão do que é considerado moderno. Desde a Semana de
Arte Moderna, assim chamada “Semana de 22”, encontramos
definições de modernidade divergentes entre si, muitas vezes
associadas ao modernismo artístico e às vanguardas. Um das
resistências ao purismo de um sentido hermético de cultura
torna-se emblemática na ideia de antropofagia, na busca por

22 Por uma visão geral veja os artigos na oitava edição do Journal of Literary Theory
(2014).
23 Striedter 1989.
24 Lohmeier 2012, p. 86-87.

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Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

delineamento de uma identidade autenticamente brasileira, sem


que, com isso, seja preciso negar a assimilação do que é estran-
geiro. As tentativas de autocompreensão marca um processo
que, até hoje, permanece ambivalente justamente na dinâmica
(in)apreensão do que seria uma identidade genuinamente brasi-
leira, cujo significado talvez permaneça produtivo devido a sua
própria indefinição.
Tais questionamentos refletem precisamente as ambi-
guidades presentes desde o início da reflexão sobre a moder-
nidade, ou na busca por resposta à pergunta: “O que sig-
nifica ser moderno?”. Desde a recepção do Iluminismo em
Kant e no pensamento alemão, como vimos, o processo de
modernização, em sentido mais amplo, recebeu uma ampla
atenção na Alemanha ou, mais precisamente, nos territórios
de língua alemã, o que sempre foi causa de certo desconfor-
to e acompanhado de críticas. O conhecimento dessas tra-
dições críticas e a sua avaliação depois de 1945 facilitam o
entendimento do debate atual no país. De maneira simplista
e esquemática, podemos distinguir três dessas tradições que
correspondem a fases diferentes de modernização: a crítica
contemporânea do Iluminismo, o romantismo e a “crítica cul-
tural” (Kulturkritik).
O Iluminismo enquanto projeto intelectual, que na
Alemanha é inseparavelmente ligado ao nome de Kant, pro-
move primeiramente o pensamento autônomo em face de au-
toridades e dogmas tradicionais e é, ainda na época da sua
gênese, alvo de críticas. Tal recepção crítica se acha já nos au-
tores do movimento literário Sturm und Drang (p.ex. Johann
Georg Hamann, Johann Gottfried Herder) e do movimento
Empfindsamkeit (p.ex. Matthias Claudius, Friedrich Gottlieb

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Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Klopstock)25. Nessa fase já surgem dois pontos que terão um


papel importante nas fases seguintes: a ênfase da emocionalida-
de enquanto Innerlichkeit contra uma concepção do ser huma-
no como animal racional, e a contraposição entre vida e ciência,
que põe em dúvida os benefícios de uma existência erudita26.
Nesse sentido, o romantismo alemão desenvolve concei-
tos e ideias que podem ser compreendidos como contraposições
ou tentativas de compensação de vários processos de moderni-
zação. Contra a secularização exigiu-se uma “Nova Mitologia”
(Friedrich Schlegel); contra a racionalização, um “reencanta-
mento” (Wiederverzauberung), ou seja, uma “romantização do
mundo” (Novalis); e, para compensar a diferenciação funcional
da sociedade, desenvolve-se o ideal do amor romântico que se
refere à totalidade da pessoa27. Um modelo histórico-filosófico
triádico substitui a ideia do progresso: um estado harmônico
de sociedade é seguido por uma época de declínio antes de po-
der novamente atingir no futuro um novo estado de harmonia,
uma “modernidade salva”28, na qual opostos como natureza
e cultura, arte e política, indivíduo e estado se dissolveriam.
Dependendo da interpretação desse terceiro grau, o modelo
oferece duas possibilidades para superar a modernidade que
estruturam os debates futuros: a superação da modernidade
através de sua radicalização ou de uma estratégia regressiva29.

25 Enquanto por muito tempo os dois movimentos foram vistos como movimentos
essencialmente antiiluministas, esse ponto foi colocado em questão na pesquisa mais
recente em contraposição a uma perspectiva que os vê como complementários em
relação ao Iluminismo. Veja os trabalhos de Gerhard Sauder (1974-80).
26 De forma exemplar no “Diário de minha viagem no ano 1769” de Herder, cuja
primeira parte foi resenhada por Kant. Cf. Sauder 2001.
27 Luhmann 1994.
28 Herzinger 1999.
29 Breuer 2000, p. 103.

20
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Na recepção alemã no século XX, o romantismo é fre-


quentemente identificado como núcleo de um “discurso ale-
mão” que se caracteriza pelo conservadorismo nacional e a
atitude retirada do mundo da burguesia. Essa opinião – que se
interessou apenas pela dimensão poética do romantismo (re-
fletividade da obra e o fantástico), e que une intelectuais tão
diferentes como Georg Lukács, Karl Mannheim, Carl Schmitt
e Max Weber – foi relativizada na pesquisa mais recente em
torno de dois eixos, a saber, a diferenciação, primeiramente,
entre primeiro romantismo (Frühromantik) e segundo roman-
tismo (Spätromantik), e, em segundo lugar, entre a mentalidade
cunhada pelo romantismo de uma grande parte da burguesia e
a atitude positivista-realista da elite política30.
O conceito de Kulturkritik pode designar, em seu sentido
mais amplo, um estilo de pensamento que põe em questão de
maneira fundamental a ideia de progresso e critica vários fe-
nômenos de uma determinada época de maneira generalizante
como sintomas de crise. Uma tal conotação de estilo de pensa-
mento encontra-se em várias épocas e regiões do mundo desde
Hesíodo. Um sentido mais restrito de Kulturkritik, por sua vez,
está ligado ao contexto alemão, no qual os conceitos “Bildung”
e “Kultur”, conceitos de inspiração neo-humanista, ganham, es-
pecialmente entre 1880 e 1945, uma força normativa extraor-
dinária e são usados para criticar processos de modernização.
A busca da autoperfeição (Wilhelm von Humboldt definira
“Bildung” como “o processo de estimular a todas as capacida-
des para desenvolvê-las por meio da apropriação do mundo a
fim de formar um indivíduo autônomo”31) e a estima extraor-
dinária dos bens artístico e culturais passam a caracterizar, du-
30 Bohrer 1999, p. 50-58.
31 W. Humboldt 1809, cit. segundo Ellwein, 1985, p. 116 (tradução nossa).

21
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

rante o século XIX, uma parte influente da burguesia instruída


(o assim chamado Bildungsbürgertum). Quando esse mundo
de bens culturais, que de certa maneira substituía a unidade
nacional em falta, incorre no fim do séc. XIX numa contradi-
ção crescente com o mundo real de industrialização e de mo-
vimentos sociais, os ideais de “Kultur” e “Bildung” passam de
motores da modernização a fontes de crítica da modernização.
O quanto foi influente esse pensamento mostra o fato de que
a grande maioria dos intelectuais alemães, entre eles Thomas
Mann, justificou a Primeira Guerra Mundial como “guerra de
cultura” (Kulturkrieg) contra a “civilização” (Zivilisation) do
Ocidente, civilização sendo associada com democracia, razão
instrumental e superficialidade.
Nesse sentido, o papel da Kulturkritik na gênese do na-
cional-socialismo foi discutido de forma controversa. Enquanto
pesquisas mais antigas postulam que ela e movimentos próxi-
mos como a “filosofia da vida” (Lebensphilosophie) e a “revolu-
ção conservadora” (Konservative Revolution) são, nas suas for-
mas populares, ideologias pré-fascistas ou contribuíram, devido
a seus elementos irracionais, para a dissolução de uma cultura
de debate, pesquisas recentes rejeitam essa posição. Segundo
elas, essa perspectiva ignora as mudanças objetivas no “mundo
da vida” (Lebenswelt) e instrumentaliza a história da Alemanha
para difamar uma visão crítica da modernidade32 – o que, em
parte, até constitui uma fonte para a crítica do Iluminismo na
Escola de Frankfurt33.
Em todo caso, após 1945, a Kulturkritik, também por
causa da suspeita de ideologia, perdeu a sua influência no de-
bate sobre a análise da contemporaneidade. A classe portado-
32 Beßlich 2000, p. 18; Rohkrämer 1999, p. 22.
33 Großheim 1996; Pauen 1999.

22
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

ra, o “Bildungsbürgertum”, em grande parte desapareceu, o


conceito de “cultura” foi pluralizado, e “Bildung”, no sentido
humboldtiano, embora continuando sendo o ideal das univer-
sidades, quase se tornou sinônimo de formação (Ausbildung)34.
Porém, a Kulturkritik continua existindo e desde a reunificação
da Alemanha vive uma volta não só em textos-ensaios, como no
polêmico texto de Botho Strauss “Anschwellender Bocksgesang”
(1993), mas também na literatura de ficção35. Embora ainda se
careça de uma análise mais abrangente da ‘crítica cultural’ de-
pois da reunificação, parece que ela, principalmente nas suas
formas no discurso científico, assume uma forma menos totali-
zante: “a crítica das imposições da modernidade torna-se uma
voz no processo da autocompreensão da modernidade que re-
conhece seus valores e suas condições de base”36.
Essas três tradições (a crítica contemporânea do
Iluminismo, o romantismo e a Kulturkritik) cunham o discurso
atual sobre a modernidade e modernizações mais recentes por
duas razões. Primeiramente, esse discurso recorre, em parte, a
conceitos como “Bildung” e “Kultur”, formas de pensar e ideias
como “alienação” ou “objetificação” que devem as suas forças
avaliativas a essas tradições. Segundo, esse discurso não usa cer-
tos conceitos - como “Geist” (espírito), “Leben” (vida), “Tiefe”
(‘profundidade’) – na medida em que podem levantar suspeitas
ideológicas. Por isso, cada tentativa de apontar ambivalências
de modernização nos países de língua alemã pode, por um lado,
recorrer a recursos semânticos ricos, mas, por outro lado, corre
o risco de cair na armadilha da objeção de ideologia.
34 Bollenbeck; Saadhof 2007.
35 Quanto aos textos fatuais, cf. Herzinger 1995. Exemplos de ficções pertinentes
são Reinhard Jirgl “Abtrünnig: Roman aus der nervösen Zeit”, Alexander Osang
“Königstorkinder” e de Uwe Tellkamp “Der Eisvogel”.
36 Bollenbeck 2007, p. 274.

23
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

III. Para um sentido normativo da crítica de processos


de modernização
A expressão “modernizações ambivalentes” não somente
indica um mal-estar vago em uma época que chamamos, de
maneira geral, de “moderna”, senão que, compreendida literal-
mente, implica a possibilidade de avaliar modernizações. Isso
significa por duas razões um desafio muitas vezes subestimado:
Primeiro, a base normativa de que cada avaliação precisa é, no
mundo pluralista, muito restrita. Justiça social, bem público e
direitos humanos – conceitos de valores fundamentais razoa-
velmente aceitos no discurso público – são meios eficazes para
criticar consequências de uma política social, porém parecem
menos relevantes para avaliar processos como, por exemplo,
aceleração, individuação, racionalização ou secularização. Em
segundo lugar, a ideia de que seria possível avaliar moderniza-
ções por si mesmas mostra-se muitas vezes simplória, na medida
em que cada processo de modernização exprime, dependendo
da contexto ou época, diferentes narrativas (concorrentes entre
si), que pretendem justificar que a modernização em questão
está em harmonia com os valores acima referidos. Portanto, a
avaliação das modernizações é, muitas vezes, resultado de uma
negociação discursiva com várias partes e interesses em jogo.
No que se refere ao primeiro ponto, a base normativa,
pode-se diferenciar de maneira sistemática diferentes opções
propostas ou estratégias que foram aplicadas:
a) A tradição: a mais antiga fonte de uma critica da mo-
dernidade é obviamente a tradição, a ideia de que seja
melhor preservar que mudar. Críticas desse tipo têm a
reputação de serem conservadoras ou regressivas.

24
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

b) Uma crítica imanente: seja a modernidade como proje-


to iluminista ou o modernismo numa certa área prática,
eles mesmos articulam promessas ou ideais, que podem,
consequentemente, ser usados para criticar efeitos dos
processos dos quais foram ponto de partida. Um lócus
clássico dessa estratégia é a já mencionada “Dialética
do esclarecimento” de Adorno e Horkheimer37;
c) Uma crítica com valores universais: por um lado, isso
se pode referir a valores como justiça social ou os va-
lores que fazem parte dos direitos humanos. Por ou-
tro lado, existem tentativas de basear uma critica de
modernizações numa concepção de “vida bem sucedi-
da”38. Essas tentativas são interessantes, porque pare-
cem estabelecer uma base normativa mais ampla que
permite redefinições de conceitos como “alienação”39.
d) Uma crítica com valores não-universais: como nossa
visão geral sobre a crítica de modernidade no Brasil
e na Alemanha evidencia, essa crítica é muitas vezes
enraizada em certos contextos históricos e culturais.
Tal modelo de crítica tem pelo menos duas dificul-
dades. Primeiro, como processos de modernizações
acontecem frequentemente num nível transnacional, o
alcance dessa crítica é limitado. Segundo, o processo
da globalização cultural, que em si pode ser compreen-
dido como processo de modernização, tende a enfra-
quecer ou dissolver os valores enraizados numa cultura
nacional.
37 Um exemplo para uma área mais específica – no caso, desenvolvimento urbano – é
a contribuição de Martin Gegner encontrada no presente livro.
38 Rosa 1998, p. 163-180 e p. 382-413.
39 Cf. por exemplo Rosa 2010.

25
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

e) Um tipo particular, uma ‘crítica externa’, parece ser a


crítica dos estudos pós-coloniais, anteriormente men-
cionados. Mostrando o eurocentrismo do discurso so-
bre a modernidade, eles tentam minar a universalidade
do projeto de modernidade ou mostrar que esse ‘proje-
to’ sempre serviu certos interesses de poder. Entretanto,
em parte essa crítica se sobrepõe não somente a uma
crítica com valores universais (p. ex. justiça social),
cuja descoberta é de certa maneira o resultado da mo-
dernidade, mas também a uma crítica com valores
não-universais: O projeto de uma “transmodernida-
de” (trans-modernity), baseada em uma “troca criativa
mutuamente frutuosa” entre a modernidade e “a sua
alteridade negada”40 (its negated alterity), parece obri-
gado a recorrer a valores culturais e locais.
Pelo que procuramos esboçar, a tentativa de conceituar
a modernidade compreende, antes de tudo, as suas ambivalên-
cias, não só pela polissemia do termo, como também pelos seus
critérios de definição, pelas dificuldades de autocompreensão,
e, por fim, pelo seu controverso ideal normativo. Em outras pa-
lavras, trata-se de, por um lado, compreendermos se somos ou
não modernos, e, por outro, se e em que sentido queremos ou
não ser modernos. Parece que, assim como já em Kant e Hegel,
permanece atual a tentativa de compreensão de nossa própria
época e do horizonte para o qual queremos prosseguir.

40 Dussel 1993, p. 76.

26
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

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30
I PARTE

Conceitos de modernidade
e modernizações
CAPÍTULO I

Modernidades múltiplas1
Shmuel N. Eisenstadt

I
A noção de “modernidades múltiplas” denota uma certa
visão do mundo contemporâneo – também da história e das ca-
racterísticas da era moderna – que contraria as visões desde há
muito prevalecentes no discurso acadêmico e geral. Contraria a
visão das teorias “clássicas” da modernização e da convergên-
cia das sociedades industriais, prevalecentes na década de 50,
e contraria as próprias análises clássicas de Marx, Durkheim
e, em grande medida, mesmo a de Weber, pelo menos no que
respeita a uma das leituras que permite a sua obra. Todas elas
assumiam, mesmo que só implicitamente, que o programa cul-
tural da modernidade, tal como se desenvolveu na Europa, e
as constelações institucionais básicas que aí emergiram, acaba-
riam por dominar todas as sociedades modernas e em moder-

1 Uma primeira versão deste artigo foi publicada em inglês na revista Dædalus:
Journal of the American Academy of Arts and Sciences, 129 (1), 2000. Versão em
português publicada originalmente em Sociologia, problemas e práticas, n.º 35,
2001, p. 139-163. Tradução de Frederico Ágoas. Reimpressão autorizada pela
editora.

33
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

nização; com a expansão da modernidade, viriam a prevalecer


por todo o mundo2.
A realidade que emergiu na sequência do chamado co-
meço da modernidade, e especialmente depois da II Guerra
Mundial, não suportou estas assunções. Os desenvolvimentos
concretos nas sociedades em modernização refutaram as assun-
ções homogeneizadoras e hegemónicas deste programa ociden-
tal de modernidade. A par de uma tendência generalizada que
se desenvolveu na maior parte destas sociedades, no sentido da
diferenciação estrutural entre diversas instituições – na vida fa-
miliar, nas estruturas econômicas e políticas, na urbanização, na
educação moderna, nos meios de comunicação de massas e nas
orientações individuais –, as formas através das quais estas are-
nas se foram definindo e organizando variaram fortemente, nos
diversos períodos do seu desenvolvimento, dando origem a múl-
tiplos padrões institucionais e ideológicos. Significativamente,
estes padrões não se constituíram, na era moderna, como sim-
ples prolongamentos das tradições das respectivas sociedades.
Todos eles eram distintamente modernos, apesar de largamente
influenciados por premissas culturais, tradições e experiências
históricas específicas. Todos eles desenvolveram dinâmicas mo-
dernas e modos de interpretação distintos, para os quais o pro-
jeto original do ocidente se constituiu como referência crucial
(e, normalmente, ambivalente). Muitos dos movimentos que se
desenvolveram em sociedades não ocidentais articularam for-
tes temas antiocidente, ou mesmo antimodernos; no entanto,
todos eles eram distintamente modernos. Isto se aplicava não
só aos vários movimentos nacionalistas e tradicionalistas que
surgiram nestas sociedades, a partir de cerca de meados do sé-
2 Kamenka 1983; Weber 1978, 1968a, 1968b e 1958; Runciman 1978; Bellah 1973;
Jay 1984.

34
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

culo XIX até a II Guerra Mundial, mas, também, como faremos


notar, aos movimentos fundamentalistas mais contemporâneos.
A ideia de modernidades múltiplas pressupõe que a me-
lhor forma de compreender o mundo contemporâneo – e tam-
bém para explicar a própria história da modernidade – é vê-lo
como uma história contínua de constituição e reconstituição de
uma multiplicidade de programas culturais. Estas incessantes
reconstruções dos múltiplos padrões institucionais e ideológi-
cos são levadas a cabo por atores sociais específicos em estreita
relação com ativistas sociais, políticos e intelectuais, e também
por movimentos sociais que perseguem diferentes programas
de modernidade, defendendo visões muito diferentes acerca do
que torna uma sociedade moderna. Através da ligação destes
atores com sectores mais alargados das suas respectivas socie-
dades, são realizadas expressões únicas de modernidade. Estas
atividades não se confinaram a nenhuma sociedade ou estado
específico, apesar de certas sociedades e estados se terem revela-
do arenas privilegiadas para que ativistas sociais pudessem im-
plantar os seus programas e lutar pelos seus objetivos. Apesar
de se terem desenvolvido diferentes interpretações da moder-
nidade múltipla nos diferentes estados-nação, no interior de
diferentes agrupamentos étnicos e culturais, entre comunistas,
fascistas e movimentos fundamentalistas, cada um deles, por
mais diferente que fosse dos restantes, era, em diversos sentidos,
internacional.
Uma das implicações mais importantes do termo “mo-
dernidades múltiplas” é que a modernidade e a ocidentaliza-
ção não são idênticas; os padrões ocidentais de modernidade
não constituem as únicas modernidades “autênticas”, apesar de
gozarem de precedência histórica e de continuarem a ser um
ponto de referência básico para os restantes.

35
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Ao admitir-se uma multiplicidade de modernidades em


contínua evolução, somos confrontados com o problema de sa-
ber o que se constitui como núcleo comum da modernidade.
Este problema é não só exacerbado como é também transfor-
mado pela desconstrução ou decomposição contemporânea de
muitos dos componentes dos modelos “clássicos” da nação e
dos estados revolucionários, em particular como consequência
da globalização. O discurso contemporâneo levantou a possi-
bilidade de o projeto moderno, pelo menos nos termos da sua
formulação clássica, se ter esgotado. Uma visão contemporânea
defende que esse esgotamento é manifesto “no fim da histó-
ria”3. A outra visão mais difundida é a noção de Huntington4 de
“choque de civilizações”, em que a civilização ocidental – a sín-
tese aparente da modernidade – é confrontada por um mundo
em que civilizações tradicionais, fundamentalistas, antimoder-
nas e antiocidentais são predominantes, algumas delas vendo o
ocidente com animosidade ou desdém (de forma mais evidente,
os agrupamentos islâmicos e os chamados confucionistas).

II
O programa cultural e político da modernidade, como
começou por ser desenvolvido na Europa ocidental e central,
implicava, como nota Björn Wittrock5, premissas ideológicas e
institucionais distintas. O programa cultural da modernidade
implicava alterações muito diferentes na concepção de ação hu-
mana e do seu lugar no fluir do tempo. Carregava consigo uma
concepção de futuro caracterizada por um número de possibi-
lidades realizáveis através da ação humana autônoma. As pre-
3 Fukuyama 1992.
4 Huntington 1996.
5 Wittrock 2000.

36
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

missas em que assentava a ordem social, ontológica e política,


e a legitimação dessa mesma ordem, já não eram dadas como
garantidas. Desenvolveu-se assim uma intensa reflexividade em
torno das premissas ontológicas básicas das estruturas da auto-
ridade social e política – uma reflexividade partilhada mesmo
pelos críticos mais radicais da modernidade, que negavam por
princípio a sua validade. A melhor formulação deste processo
foi conseguida por Weber. Seguindo a apresentação de James D.
Faubian6 sobre a concepção weberiana de modernidade:
Weber descobre o limiar existencial da modernida-
de numa certa desconstrução: daquilo a que se re-
fere como o “postulado ético de que o mundo é go-
vernado por Deus, e é portanto um cosmos que, de
alguma forma, possui um significado e é eticamente
orientado…
A asserção de Weber – o que em qualquer caso pode ser
extrapolado das suas asserções – é que o limiar da moderni-
dade pode ser marcado precisamente no momento em que a
legitimidade incontestada de uma ordem social divinamente
pré-ordenada entra no seu declínio. A modernidade emerge –
ou, de modo mais preciso, uma variedade de possíveis moder-
nidades emergem – tão somente quando aquilo que tinha sido
visto como um cosmos imutável deixa de ser dado como certo.
Os que se opunham à modernidade rejeitam essa abordagem,
acreditando que o que é imutável não é a ordem social, mas as
tarefas exigidas pela construção e pelo funcionamento de qual-
quer ordem social…
Podem ser extraídas duas teses: 1) em toda a sua varieda-
de, as modernidades, o que quer que possam ser, são respostas
à mesma problemática existencial; 2) em toda a sua variedade,
6 Faubian 1993, p. 113-115.

37
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

as modernidades, o que quer que possam ser, são precisamente


essas respostas que deixam intacta a problemática em questão,
que formulam visões da vida e da prática que não a ultrapas-
sam nem a negam, que as formulam antes no seu interior, mes-
mo em deferência para com ela…
O grau de reflexividade característico da modernidade ul-
trapassou aquilo que estava cristalizado nas civilizações da era
axial7. A reflexividade que se desenvolveu no seio do programa
moderno não se centrou somente na possibilidade da existência
de diferentes interpretações das visões transcendentais nucleares
e das concepções ontológicas básicas prevalecentes numa socie-
dade ou civilização particular; questionou-se também a própria
evidência dessas visões e dos padrões institucionais com elas
relacionados. Surgiu assim uma consciência da possibilidade de
múltiplas visões que, de fato, podiam ser contestadas.
Esta consciência estava estreitamente ligada a duas com-
ponentes centrais do projeto de modernidade, sublinhadas em
estudos anteriores sobre a modernização, tanto por Daniel
Lerner8, como por Alex Inkeles e David H. Smith9. O primeiro
reconheceu entre os modernos, ou entre os que se tornavam
“modernizados”, a consciência da existência de uma grande
variedade de papéis para lá dos papéis estreitos, determinados,
locais e familiares. Os segundos reconhecem a possibilidade de
pertença a comunidades translocais alargadas, sujeitas a possí-
veis mudanças.
No centro deste programa cultural encontrava-se a ênfase
colocada na autonomia do homem: a emancipação do homem
ou da mulher (na sua formulação original, tratava-se certamen-

7 Eisenstadt 1982; e Eisenstadt (org.) 1986.


8 Lerner 1958.
9 Smith 1974.

38
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

te do “homem”) dos grilhões da autoridade política e cultural


tradicionais. Neste processo de contínua expansão do domínio
da liberdade e da atividade pessoal e institucional, essa autono-
mia começou por implicar a reflexividade e a exploração; em
segundo lugar, implicou também a construção ativa e o domí-
nio da natureza, incluindo a natureza humana. Este projeto de
modernidade colocava uma ênfase muito forte na participação
autônoma dos membros da sociedade na constituição da ordem
social e política, no acesso autônomo de todos os membros da
sociedade a estas ordens e aos seus centros.
Da conjugação destas diferentes concepções surgiu uma
crença na possibilidade de a sociedade poder ser constituída
ativamente por meio da atividade humana consciente. Duas
tendências complementares, mas potencialmente contraditó-
rias, desenvolveram-se no interior deste programa, em torno
das melhores formas de concretizar a construção social. A pri-
meira, cristalizada sobretudo nas grandes revoluções, deu ori-
gem, talvez pela primeira vez na história, à crença na possibi-
lidade de diminuir o fosso entre a ordem transcendente e a or-
dem mundana – de realizar, através da ação humana consciente,
praticada ao nível da vida social, grandes visões utópicas e es-
catológicas. A segunda sublinhou o crescente reconhecimento
da legitimidade de múltiplos objetivos e interesses, individuais
e coletivos, permitindo, como consequência, múltiplas interpre-
tações do bem comum10.

III
O programa moderno implicava igualmente uma trans-
formação radical das concepções e das premissas da ordem

10 Eisenstadt 1992, 1978, 1985 e 1981; Voegelin 1975; Seligman 1989.

39
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

política, da constituição da arena política e das características


do processo político. O rompimento com todas as legitimações
tradicionais da ordem política era central na ideia de moderni-
dade, o que implicava a abertura a diferentes possibilidades de
construção da nova ordem. Estas possibilidades combinavam
temas de rebelião, protesto e antinomismo intelectual, permi-
tindo a formação de novos centros e a construção de novas ins-
tituições, dando origem a movimentos de protesto que se trans-
formaram em componente permanente do processo político11.
Estas ideias, associadas às características que então
emergiam, definindo a arena política moderna, sublinharam
a abertura desta arena e dos processos políticos, que, de um
modo geral, se encontrava em estreita relação com uma forte
aceitação da participação ativa da periferia da “sociedade” em
questões de interesse político. Fortes tendências para a perme-
abilização das periferias sociais pelos centros, e o impacte das
periferias sobre os centros, levaram, inevitavelmente, ao esba-
timento das distinções entre centro e periferia. Estavam lança-
dos os fundamentos para uma nova e poderosa combinação da
“carismatização” do centro, ou centros, com temas e símbolos
de protesto; estes, por sua vez, tornaram-se nos componentes
elementares das visões transcendentais modernas. Temas e sím-
bolos de protesto – igualdade e liberdade, justiça e autonomia,
solidariedade e identidade – tornaram-se componentes centrais
do projeto moderno da emancipação do homem. De fato, foi a
incorporação dos temas de protesto da periferia no centro que
anunciou a transformação radical de diversas visões utópicas
sectárias em elementos centrais do programa político e cultural.

11 Ackerman 1991.

40
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

A partir da ideologia e das premissas do programa po-


lítico da modernidade e das características nucleares das ins-
tituições políticas modernas, emergiram três aspectos centrais
do processo político moderno: a reestruturação das relações
centro-periferia como principal foco da dinâmica política nas
sociedades modernas; uma forte tendência para politizar as exi-
gências de diversos sectores da sociedade e os conflitos entre
eles; e a luta contínua sobre a definição do domínio do político.
De fato, foi só com o advento da modernidade que o traçado
dos limites da esfera política se tornou num dos maiores focos
de contestação aberta e de luta política.

IV
A modernidade implicou também um modo distinto
de construção das fronteiras das coletividades e das identida-
des coletivas12. Desenvolveram-se novas definições concretas
dos componentes básicos das identidades coletivas – civis,
primordiais e universalistas, transcendentais ou “sagradas”.
Desenvolveram-se fortes tendências que procuravam enqua-
drar estas definições em termos absolutos, sublinhando os seus
componentes civis. Ao mesmo tempo, desenharam-se ligações
entre a construção das fronteiras da esfera política e as das
coletividades culturais. Desta forma, tornou-se inevitável que
se enfatizasse a importância das fronteiras territoriais dessas
coletividades, criando tensões contínuas entre os componentes
territoriais e/ou particulares e outros mais alargados, mais uni-
versalistas. Em contraste com as civilizações da era axial, pelo
menos parcialmente, as identidades coletivas já não eram da-

12 Eisenstadt e Giesen 1995; Shils 1975.

41
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

das como adquiridas, pré-ordenadas por uma qualquer visão


e autoridade transcendente, ou sancionadas por um costume
ancestral. Constituíam focos de contestação e de luta expressas,
muitas vezes, em termos profundamente ideológicos.

V
À medida que a civilização da modernidade se foi desen-
volvendo, primeiro no ocidente, foi assolada por antinomias
e contradições internas, dando origem a um contínuo discur-
so crítico e a contestações políticas. As antinomias básicas da
modernidade constituíram uma transformação radical em re-
lação às que eram características das civilizações da era axial.
Centradas em questões desconhecidas nessa época anterior,
revelavam desta forma consciência sobre um amplo leque de
visões e interpretações transcendentais. No programa moderno,
estas foram transformadas em conflitos ideológicos entre ava-
liações concorrentes das principais dimensões da experiência
humana (especialmente a razão e as emoções e o seu lugar res-
pectivo na vida e na sociedade humanas). Não existiam afirma-
ções acerca da necessidade de construção ativa da sociedade; o
controlo e a autonomia, a disciplina e a liberdade tornaram-se
assuntos polêmicos.
A clivagem mais crítica, em termos tanto ideológicos
como políticos, talvez tenha sido a que separava visões univer-
salistas e particularistas – entre uma visão que aceitava a exis-
tência de diferentes valores e racionalidades e uma visão que
via diferentes valores e, acima de tudo, a racionalidade, de um
modo totalizante. Esta tensão desenvolveu-se, antes de mais, a
respeito do próprio conceito de razão e do seu lugar na cons-
tituição da sociedade humana. Era manifesta, como Stephen

42
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Toulmin13 mostrou, de uma forma algo exagerada, na diferen-


ça entre as concepções mais particularistas de Montaigne ou
de Erasmus, por oposição à visão totalizante promulgada por
Descartes. O movimento mais significativo, que procurou uni-
versalizar diferentes racionalidades – muitas vezes identificado
como a principal mensagem do iluminismo –, foi o da soberania
da razão, que subsumia a racionalidade orientada para valores
(Wertrationalität), ou a racionalidade substantiva, à racionali-
dade instrumental (Zweckrationalität), transformando-a numa
visão utópica de cariz moralista e totalizante. A par destas
tensões, desenvolveram-se no interior do programa da moder-
nidade contradições contínuas entre as premissas básicas das
dimensões culturais e políticas e os grandes desenvolvimentos
institucionais. De particular importância – tão fortemente su-
blinhada por Weber – foi a dimensão criativa inerente a visões
que levavam à cristalização da modernidade, e o esbatimento
destas visões, o “desencantamento” do mundo, inerente à cres-
cente rotinização e burocratização. Tratava-se de um conflito
entre uma visão englobante, através da qual o mundo ganhava
significado, e a fragmentação desse significado pela força de
uma dinâmica imparável no sentido do desenvolvimento autô-
nomo de todas as arenas institucionais – econômica, política e
cultural14. Aqui se reflete a tensão, inerentemente moderna, en-
tre a tônica colocada sobre a autonomia humana e os controles
restritivos, inerentes à realização institucional da vida moder-
na: na formulação de Peter Wagner15, a tensão entre liberdade
e controle.

13 Toulmin 1990.
14 Elias 1983 e 1978-1982; Foucault 1973, 1988, 1975 e 1965.
15 Wagner 1994.

43
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

VI
No interior do discurso político moderno, estas tensões
têm sido manifestas no conflito insanável entre a legitimida-
de de um sem-número de interesses abstratos, individuais e de
grupo, de diferentes concepções de bem comum e ordem moral,
e as ideologias totalitárias que negavam taxativamente a legiti-
midade desses pluralismos. Uma das formas principais da ide-
ologia totalitária sublinhava a primazia das coletividades per-
cepcionadas como entidades ontológicas distintas, assentes em
atributos primordiais ou espirituais comuns – principalmente
a nacionalidade coletiva. Uma segunda forma era a visão ja-
cobina, cujas raízes históricas remontam a fontes escatológicas
medievais. A crença na primazia da política, na possibilidade
de a política ser capaz de reconstituir a sociedade, transfor-
mando-a através da mobilização da ação política participativa,
era central ao pensamento jacobino. Quaisquer que fossem as
diferenças entre estas ideologias coletivistas, elas partilhavam
entre si fortes suspeitas acerca da discussão aberta e pública dos
processos políticos e, especialmente, a respeito das instituições
representativas. Não é surpreendente que partilhassem fortes
tendências autocráticas.
Estas várias tensões inerentes ao programa político da
modernidade estavam fortemente relacionadas com as que
existiam entre os diferentes modos de legitimação dos regimes
modernos – entre, por um lado, a legitimação legal em termos
de adesão civil às regras do jogo e, por outro, os modos de le-
gitimação “substantivos”, os quais dependiam acima de tudo,
na terminologia de Edward Shils16, de diversos componentes
primordiais, “sagrados”, religiosos ou secular-ideológicos.

16 Shils 1975.

44
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Contradições paralelas desenvolveram-se em torno da constru-


ção de identidades coletivas, promulgadas por novas formas
ativistas – os movimentos nacionais.

VII
Entre estes ativistas, os movimentos sociais, muitas ve-
zes movimentos de protesto, eram de especial importância. No
cenário moderno, transformaram algumas das principais hete-
rodoxias das civilizações da era axial, especialmente as que pre-
tendiam realizar certas visões utópicas, através da ação política
e da reconstrução do centro. Entre os movimentos que se desen-
volveram durante o século XIX e as seis primeiras décadas do
século XX, os mais importantes foram o movimento liberal e o
socialista/comunista; os quais foram seguidos por outros dois,
assentes em preconceitos nacionalistas, o fascista e o nacional-
socialista. Estes movimentos eram internacionais, mesmo quan-
do as suas bases ou raízes assentavam em países específicos.
Os que alcançaram maior sucesso cristalizaram-se em padrões
ideológicos e institucionais distintos, que se vieram a identifi-
car muitas vezes com um estado específico (como no caso da
França revolucionária e, mais tarde, da Rússia soviética), mas
o seu alcance ultrapassou largamente as fronteiras nacionais17.
Os conflitos entre estes movimentos e outros – religiosos,
cooperativos, sindicalistas ou anarquistas – não eram simples-
mente ideológicos. Todos eles tiveram lugar dentro de limites
específicos da arena política moderna, acabando por ser tam-
bém afetados pelo processo político moderno, especialmente
17 Sobre revoluções e modernidade ver, por exemplo, o número especial sobre “A re-
volução francesa e o nascimento da modernidade”, Social Research (1989). Sobre
o papel desempenhado por grupos de intelectuais heterodoxos em algumas das re-
voluções e em períodos anteriores, ver Augustin Cochin 1924; e 1979; J. Baechler
1979; François Furet 1982; Vladimir C. Nahirny 1981.

45
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

pela luta contínua em torno da definição das fronteiras da es-


fera política.
Em todas as sociedades modernas desenvolveram-se pa-
drões de conflito entre estes atores sociais, em torno de polos
fundados nas antinomias inerentes aos programas políticos e
culturais específicos da modernidade. O primeiro desses polos
centrava-se em torno do grau de homogeneização das princi-
pais coletividades modernas, significativamente influenciadas
pelo grau de articulação entre as dimensões ou componentes
primordiais, civis ou universalistas, da identidade coletiva nes-
tas diferentes sociedades. O segundo polo refletia o confronto
entre orientações particularistas e universalistas.
Estes choques emergiram em todas as coletividades e em
todos os estados modernos, primeiro na Europa, mais tarde na
América e, com o decorrer do tempo, em todo o mundo. Foram
de uma importância crucial na configuração dos diversos pa-
drões de sociedades modernas, primeiro no interior de estados
territoriais e de estados-nação, gerando aí diferentes definições
das premissas da ordem política. Definiram os termos de res-
ponsabilidade das relações de autoridade entre estado e socie-
dade civil; estabeleceram padrões de identidade coletiva, mol-
dando as autopercepções das sociedades individuais, sobretudo
a sua autopercepção como moderna.
À medida que estas contestações surgiram na Europa,
o padrão dominante destes conflitos fundou-se em tradições
europeias específicas, centrando-se em torno das clivagens
existentes entre orientações utópicas e civis. Os princípios de
hierarquia e de igualdade competiam na construção da ordem
política e dos centros políticos. O estado e a sociedade civil
eram vistos por alguns como entidades separadas. A identidade
coletiva, muitas vezes expressa em termos ideológicos, era defi-

46
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

nida de um modo diferente. A variedade dos resultados sociais


pode ser ilustrada pelas diferentes concepções de estado que se
desenvolveram no continente e em Inglaterra. Existia, por um
lado, a forte “laicização” da França, com resultados homoge-
neizadores, ou, num sentido diferente, dos países escandinavos
luteranos, e por outro lado, as disposições muito mais consoli-
dadas e pluralistas, comuns à Holanda e à Suíça e, numa escala
muito menor, à Grã-Bretanha. A forte concepção semifeudal e
aristocrática de autoridade na Grã-Bretanha contrastava com
visões mais democráticas, mesmo mais populistas, de outros
países europeus18.
Nas décadas 20 e 30, marcadas indelevelmente pelas
tensões e antinomias da modernidade, à medida que se ia de-
senvolvendo na Europa, surgiram distintamente as primeiras
modernidades ideológicas “alternativas” – as de tipo comunis-
ta soviético e as de tipo fascista/nacional-socialista19. Os mo-
vimentos socialistas e comunistas estavam em acordo absolu-
to com o enquadramento traçado pelo programa cultural da
modernidade e, acima de tudo, com o enquadramento traçado
pelo iluminismo e pelas principais revoluções. A sua crítica ao
programa da sociedade capitalista moderna girava em torno
do conceito de imperfeição destes programas modernos. Em
contraste, os movimentos nacionais ou nacionalistas, especial-
mente o fascismo extremista ou o nacional-socialismo, preten-
diam acima de tudo reconfigurar os limites das coletividades
modernas. Procuravam assim provocar um confronto entre as
componentes universalistas e as mais particularistas e primor-

18 Graubard 1986; Kuhnle 1975; Rothstein 1996; Rustow 1956; Thomas 1978;
Thompson 1968; Thomson 1940 e 1960; Geyl 1958; Beloff 1954; Daalder 1971;
Bergier 1974; Lehmbruch 1972; Lorwin 1971; Steiner 1974.
19 Arnason 1990 e 2000; Sun-ker e Otto 1997.

47
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

diais das identidades coletivas dos regimes modernos. A sua


crítica à ordem social existente negava as componentes univer-
salistas do programa cultural da modernidade, especialmente
na sua versão iluminista. Revelavam menor zelo missionário
em transcender as fronteiras puramente nacionais. No entanto,
e de modo significativo, apesar de repudiarem as componentes
universalistas do programa cultural e político da modernidade,
procuravam transpô-las de diversas formas para as suas visões
particularistas, tentando apresentá-las em certos termos semiu-
niversalistas – de que, paradoxalmente, raça pode ser um caso.
Por meados do século, o desenvolvimento incessante de
modernidades múltiplas na Europa testemunhava uma evo-
lução contínua. Como observou Nilüfer Göle20, uma das ca-
racterísticas mais importantes da modernidade é simplesmen-
te a sua capacidade potencial para a autocorreção contínua.
Essa qualidade, já manifesta no século XIX, no encontro das
sociedades modernas com os muitos problemas criados pe-
las revoluções industriais e democráticas, não podia, contu-
do, ser tomada como um dado adquirido. O desenvolvimento
da modernidade gerou no seu seio possibilidades destrutivas
que foram expressas, muito frequentemente, de um modo algo
irônico, através de alguns dos seus críticos mais radicais, que
acreditavam que a modernidade era uma força moralmente
destruidora, sublinhando os efeitos negativos de algumas das
suas características nucleares. A cristalização da modernidade
europeia e sua expansão posterior não foram, de forma alguma,
pacíficas. Contrariamente às visões optimistas da modernida-
de, que a concebiam como progresso inevitável, a cristalização
das modernidades era continuamente entretecida por confron-
tos e conflitos internos, fundados nas contradições e tensões
20 Göle 1996.

48
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

implícitas ao desenvolvimento dos sistemas capitalistas e, na


arena política, às crescentes exigências de democratização. A
composição destes fatores foi desenhada por conflitos interna-
cionais, que foram depois exacerbados pelo estado moderno e
pelos sistemas imperialistas. A guerra e o genocídio não eram
fenômenos novos na história. No entanto, viram-se radicalmen-
te transformados e intensificados, gerando modos de barbárie
especificamente modernos. A ideologia da violência, do terror
e da guerra – testemunhada pela primeira vez e da forma mais
expressiva na revolução francesa – tornou-se num dos compo-
nentes de cidadania mais importantes, senão mesmo nos com-
ponentes exclusivos, para a sustentação dos estados modernos.
A tendência existente para essas ideologias da violência veio a
relacionar-se de modo estreito com o fato de o estado-nação se
ter tornado no foco central dos símbolos de identidade coleti-
va21. O holocausto, que teve lugar no centro da modernidade,
foi a sua manifestação extrema e tornou-se num símbolo do
seu potencial negativo e destrutivo, da barbaridade latente no
interior do seu próprio centro.

VIII
Desenvolveram-se diversos temas no seio do discurso da
modernidade sem que nenhum tivesse sido mais importante do
que o que sublinhava o confronto contínuo entre os sectores
mais “tradicionais” da sociedade e os chamados centros ou sec-
tores modernos que se desenvolviam no seu interior. Desta for-
ma, existia também uma tensão inerente entre a cultura da mo-
dernidade, o modelo “racional” moderno do iluminismo que
emergia hegemonicamente em certos períodos e locais, e outros
21 Giddens e Held 1982; Schumpeter 1991; Furet 1982; Furet e Ozouf 1989; Joas
1996.

49
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

programas construídos de modo a refletir as tradições culturais


mais “autênticas” de sociedades específicas. Entre os apoiantes
das ideologias da autenticidade tradicional, e no interior dos
sectores mais tradicionais de certas sociedades, desenvolveu-se
igualmente uma ambivalência duradoura a respeito das culturas
modernas (e, consequentemente, das suas premissas e dos seus
símbolos universalistas e exclusivistas), e uma oscilação contí-
nua entre cosmopolitismo e localismo. Estes temas começaram
por ser desenvolvidos no interior da própria Europa; com a
expansão da modernidade para as américas e (especialmente)
para os países asiáticos e africanos, estes temas continuaram a
ser desenvolvidos, ainda que num sentido diferente.

IX
A primeira transformação radical das premissas de or-
dem cultural e política teve lugar com a expansão da moderni-
dade para as américas. Emergiram então modernidades distin-
tas, refletindo novos padrões de vida institucional, com novas
autoconcepções e novas formas de consciência coletiva. Dizê-lo
é sublinhar que praticamente desde o começo da expansão da
modernidade se desenvolveram modernidades múltiplas, todas
elas no interior do que pode ser definido como o enquadramen-
to civilizacional ocidental. É importante notar que tais moder-
nidades, de cariz ocidental, mas significativamente diferentes
das europeias, se desenvolveram em primeiro lugar não na Ásia
– Japão, China ou Índia – ou em sociedades muçulmanas, a que
podem ter sido atribuídas pela existência de tradições distinta-
mente não europeias, mas no interior do enquadramento geral
das civilizações ocidentais. Elas refletiam uma transformação
radical das premissas europeias.

50
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

A cristalização de padrões de modernidade distintos


nas américas ocorreu, através do confronto discursivo com a
Europa – particularmente com a Inglaterra e a França22. Apesar
de não ser normal sustentar estes argumentos em termos de
diferentes interpretações de modernidade, eles estavam, de fato,
centrados nas vantagens e desvantagens de padrões institucio-
nais que se desenvolveram nos Estados Unidos, os quais eram
marcadamente diferentes dos que se tinham desenvolvido na
Europa. Para além disto, os principais temas relacionados com
a dimensão internacional da modernidade encontravam-se cla-
ramente articulados neste discurso. Esses confrontos tornaram-
se característicos do discurso contínuo acerca da modernidade
à medida que ele se foi difundindo pelo mundo. Apesar de esta
ideia se aplicar também à América Latina, existiam importan-
tes diferenças entre as américas, especialmente entre os Estados
Unidos e a América Latina. Nesta última, pontos de referên-
cia “externos” – ainda que muitas vezes ambivalentes – man-
tinham uma importância crucial (Ortiz, 2000). A importância
prolongada destes pontos de referência, sobretudo na Europa –
Espanha, França e Inglaterra – e mais tarde nos Estados Unidos,
foi de importância crítica para a autoconcepção das sociedades
latino-americanas. Semelhantes considerações foram gradual-
mente perdendo importância nos Estados Unidos, que se viam
a si próprios, cada vez mais, como o centro da modernidade.

X
A variabilidade das modernidades foi concretizada, so-
bretudo, através do imperialismo econômico e militar e através
do colonialismo, e efetivada pela superioridade econômica, mi-

22 Heideking 2000.

51
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

litar e das tecnologias de comunicação. A modernidade ultra-


passou os limites do ocidente, pela primeira vez, ao penetrar
em diferentes sociedades asiáticas – Japão, Índia, Birmânia, Sri
Lanka, China, Vietname, Laos, Cambodja, Malásia, Indonésia
–, em países do médio oriente, chegando finalmente a África.
No final do século XX, engloba quase o mundo inteiro, na pri-
meira verdadeira vaga de globalização.
Em todas estas sociedades o modelo básico do estado ter-
ritorial e, mais tarde, do estado-nação foi adoptado, tal como
as premissas e os símbolos básicos da modernidade ocidental, e
as instituições modernas do ocidente – representativas, legais e
administrativas. Mas ao mesmo tempo, o encontro da moderni-
dade com sociedades não ocidentais causou transformações de
longo alcance nas premissas, símbolos e instituições da moder-
nidade – fazendo surgir, como consequência, novos problemas.
O poder de atração de muitos dos temas e formas institu-
cionais da modernidade sobre muitos grupos nestas sociedades
resultava, em primeiro lugar, do fato de ter sido o padrão eu-
ropeu (mais tarde, ocidental), desenvolvido e difundido atra-
vés do mundo pela expansão econômica, tecnológica e militar
ocidentais, a enfraquecer as premissas culturais e os centros
institucionais destas sociedades antigas. A apropriação destes
temas e instituições permitiu que muitos dos que viviam em
sociedades não europeias – especialmente elites e intelectuais –
participassem ativamente na nova tradição moderna e universal
(apesar de inicialmente ocidental), podendo do mesmo passo
selecionar muitos dos seus aspectos, com especial destaque para
aqueles que garantiam a hegemonia das formulações ocidentais
do programa cultural da modernidade. A apropriação destes te-
mas da modernidade possibilitou que estes grupos incorporas-
sem alguns dos elementos ocidentais da modernidade de cariz

52
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

universalista na construção das suas próprias identidades cole-


tivas, sem que abdicassem das componentes específicas das suas
identidades tradicionais (sustentadas frequentemente, tal como
os temas da modernidade ocidental, em termos universalistas,
especialmente religiosos). Não aboliu também as atitudes nega-
tivas ou, pelo menos, ambivalentes, em relação ao ocidente. Os
temas de protesto e a construção institucional, característicos
da modernidade, e a redefinição do centro e da periferia, servi-
ram para encorajar e acelerar a transposição do projeto moder-
no para cenários não europeus, não ocidentais. Muitos destes
temas, apesar de inicialmente terem sido expressos em termos
ocidentais, encontraram ressonância nas tradições políticas de
muitas destas sociedades23.

XI
A apropriação por parte de sociedades não ocidentais de
temas e padrões institucionais específicos das sociedades da ci-
vilização moderna ocidental implicou a seleção, a reinterpreta-
ção e a reformulação contínuas destas ideias importadas. Estas
vieram produzir inovação contínua, com a emergência de novos
programas culturais e políticos, que exibiam novas ideologias e
padrões institucionais. Os programas culturais e institucionais
que se desenvolveram nestas sociedades eram caracterizados,
sobretudo, pela tensão entre concepções de si mesmo como par-
te integrante do mundo moderno e atitudes ambivalentes para
com a modernidade em geral e o ocidente em particular.
Em todas estas sociedades ocorreram transformações de
longo alcance. Estas transformações, moldadas em cada uma
das sociedades pelo impacte combinado das suas respectivas

23 Eisenstadt 1982 e 1986.

53
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

tradições históricas e dos modos diversos de incorporação no


novo sistema-mundo moderno, são admiravelmente interpre-
tadas num ensaio de Sudipta Kaviraj24. O autor analisa o im-
pacto das tradições políticas e da experiência colonial imperial
na constituição das características distintas de modernidade tal
como se cristalizaram na Índia. Investigações semelhantes para
os casos da China ou do Vietnã parecem indicar os modos espe-
cíficos que permitem que noções “alternativas”, revolucionárias
e universalistas do programa moderno de modernidade surjam
dos seus contextos civilizacionais. O caso do Japão é diferente;
aí, a sobreposição entre o estado e a sociedade civil, a fraqueza
das orientações utópicas, a ausência de conflitos de princípio
com o estado entre os principais movimentos de protesto e o
significado relativo de componentes universalistas e particula-
ristas contribuíram para a criação de uma identidade moderna
coletiva diferente de todas as outras sociedades25.

XII
Os múltiplos e divergentes casos da idade “clássica” da
modernidade cristalizaram-se durante o século XIX e, sobretu-
do, nas primeiras seis ou sete décadas do século XX, em esta-
dos-nação e estados revolucionários, e em movimentos sociais
na Europa, nas américas e, depois da II Guerra Mundial, na
Ásia. Os contornos institucionais, simbólicos e ideológicos dos
estados nacionais e revolucionários modernos, que chegaram
a ser vistos como a síntese da modernidade, mudaram radical-
mente com a recente intensificação das forças de globalização.
Estas tendências, manifestas sobretudo na crescente autonomia

24 Kaviraj 2000.
25 Eisenstadt 1996.

54
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

do mundo financeiro e dos fluxos financeiros, intensificaram as


migrações internacionais e o desenvolvimento paralelo, a um
nível internacional, de problemas sociais tais como a propa-
gação de doenças, da prostituição, do crime organizado e da
violência juvenil. Tudo isto serviu para reduzir o controlo do
estado-nação sobre os seus assuntos políticos e econômicos,
apesar dos esforços contínuos para fortalecer políticas tecno-
cráticas, de cariz racional e secular, em diversas arenas. Os es-
tados-nação perderam também parte do seu monopólio sobre a
violência interna e internacional, que foi sempre um monopólio
parcial, para grupos locais ou internacionais de separatistas ou
terroristas. Em muitos países, os processos de globalização são
também evidentes na arena cultural, com a expansão hegemô-
nica, através da influência dos principais mídias, do que apa-
rentemente são programas ou visões uniformes de proveniência
ocidental, sobretudo americana26.
A centralidade simbólica e ideológica do estado-nação,
a sua posição enquanto lugar carismático nas principais com-
ponentes do programa cultural da modernidade e da identida-
de coletiva, foi enfraquecida; novas visões políticas, sociais e
civilizacionais, novas visões de identidade coletiva estão cor-
rentemente a desenvolver-se. Estas novas visões e identidades
foram proclamadas por uma variedade de novos movimentos
sociais; todos eles, por muito diferentes que fossem, desafiaram
as premissas da nação clássica moderna e do seu programa de
modernidade, que ocupavam, até então, o centro incontestado
do pensamento político e cultural.
Os primeiros desses movimentos a desenvolverem-se na
maioria dos países ocidentais – o movimento feminista e o mo-

26 Friedman 1994; Hannerz 1992; Marcus 1993; AA.VV 1999; Smolicz 1998.

55
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

vimento ecologista – estavam estreitamente relacionados ou en-


raizados nos movimentos estudantis e anti-Vietnã dos finais da
década de 60 e do início da década de 70. Eram indicativos de
uma mudança mais geral em muitos países, quer fossem “capi-
talistas” ou comunistas: um abandono dos movimentos orien-
tados em torno do estado, em favor dos movimentos com um
alcance e com programas mais locais. Em vez de se centrarem
na reconstituição dos estados-nação, ou na resolução de confli-
tos macroeconômicos, estas novas forças – muitas vezes apre-
sentando-se a si próprias como “pós-modernas” e “multicultu-
rais” – promulgaram uma política cultural, ou uma política de
identidade, sustentada, muitas vezes, como multiculturalismo, e
estavam orientadas para a construção de novos espaços sociais,
políticos e culturais autônomos27.
Os movimentos fundamentalistas emergiram um tanto
mais tarde entre comunidades muçulmanas, judias e protestan-
tes, e conseguiram ocupar o palco central em muitas socieda-
des nacionais e, de tempos a tempos, na cena internacional. Os
movimentos religiosos comunais desenvolveram-se de modo
paralelo no interior das culturas hindu e budista, partilhando,
geralmente, fortes temas antimodernos e/ou antiocidentais28.
Um terceiro e novo tipo de movimento, que ganhou di-
nâmica especialmente nas duas últimas décadas do século XX,
tem sido o movimento “étnico” particularista. Observado ini-
cialmente nas antigas repúblicas da União Soviética, emergiu
igualmente de formas horrendas em África e em partes dos
Balcãs, especialmente na antiga Jugoslávia.
Todos estes movimentos desenvolveram-se por arrasta-
mento, tendo sido mesmo acelerados por transformações so-
27 Marcus 1993.
28 Eisenstadt, s. d.; Marty e Appleby 1995, 1994, 1993a, 1993b, 1991.

56
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

ciais muito importantes, servindo para consolidar novos cená-


rios e enquadramentos sociais. Para mencionar apenas dois dos
mais importantes, o mundo vê surgir agora novas diásporas,
especialmente de muçulmanos, chineses e indianos, algumas
investigadas num artigo de Stanley J. Tambiah29. A seguir ao
colapso do império soviético, as minorias russas surgiram como
forças visíveis, em muitos dos estados que sucederam à União
Soviética nos antigos países comunistas da Europa de leste.
Nestes e em muitos outros cenários emergiram novos ti-
pos de identidade coletiva, superando os modelos do estado-
nação e do estado revolucionário, deixando de se centrar neles.
Muitas destas identidades étnicas locais, regionais e transna-
cionais, até então “subjugadas”, moveram-se, mesmo que de
um modo altamente reconstruído, para os centros das respec-
tivas sociedades e, muitas vezes, também para a arena interna-
cional. Ao reclamar o seu próprio lugar autônomo em arenas
institucionais centrais – programas educativos, comunicações
públicas, emissões nos média –, contestavam a hegemonia dos
anteriores programas homogeneizadores, vindo a ter cada vez
maior sucesso na afirmação de exigências de longo alcance, a
respeito da redefinição da cidadania e de direitos e garantias a
ela associados.
Nestes cenários, as preocupações e os interesses locais
surgem muitas vezes sob novas formas, indo além do modelo
clássico do estado-nação, selecionando alianças com organiza-
ções transnacionais como a União Europeia, ou com enquadra-
mentos religiosos alargados fundados nas grandes religiões do
islão, do hinduísmo, do budismo ou das ramificações protestan-
tes do cristianismo. Simultaneamente, vemos uma decomposi-

29 Tambiah 2000.

57
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

ção contínua da imagem relativamente compacta oferecida por


sistemas de crença que sustentam estilos de vida, que definem
o “homem civilizado” – todas associadas à emergência e di-
fusão do programa original da modernidade30. Ninguém pode
duvidar de que ocorrem presentemente mudanças significativas
e duradouras na posição relativa e na influência detida pelos
diferentes centros de modernidade – oscilando entre o ocidente
e o oriente. Este fato pode apenas produzir maior contenção
entre centros, a respeito do seu grau de influência num mundo
em processo de globalização31.

XIII
Todos estes desenvolvimentos atestam a decomposição
das principais características estruturais e o enfraquecimento
da hegemonia ideológica dos outrora poderosos estados-nação.
Mas assinalarão eles o “fim da história” e o fim do programa
moderno, sintetizado no desenvolvimento de diferentes pós-mo-
dernidades (assim são chamadas) e, acima de tudo, num recuo
da modernidade patenteado nos movimentos fundamentalistas
e religiosos de cariz comunal, tantas vezes retratados pelos pró-
prios como diametralmente opostos ao programa moderno?
Uma análise mais próxima destes movimentos apresenta
um retrato bem mais complexo. Em primeiro lugar, muitos dos
movimentos fundamentalistas radicais revelam características
distintas do jacobinismo moderno, mesmo quando combina-
das com fortes ideologias antiocidente e antiiluminismo. De
fato, as diferentes visões dos movimentos fundamentalistas têm
sido formuladas em termos comuns ao discurso da moderni-

30 Eickelman 1993, 1983; Eickelman e Piscatori 1996; Hefner 1998.


31 Tiryakian 1996.

58
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

dade; procuram assim apropriar-se da modernidade nos seus


próprios termos. Enquanto os fundamentalistas radicais cons-
troem elaborados temas aparentemente antimodernos (ou an-
tes, antiiluministas), eles constituem basicamente movimentos
revolucionários jacobinos que se inserem na tradição moderna,
partilhando, paradoxalmente, muitas características (por vezes,
refletindo-se como um espelho) com movimentos comunistas
de épocas anteriores32. Partilham com os movimentos comu-
nistas a promulgação de visões totalizantes, as quais implicam
a transformação tanto do homem como da sociedade. Alguns
afirmam preocuparem-se com a “purificação” de ambos. Trata-
se da reconstrução total da personalidade, de identidades indivi-
duais e coletivas, através da ação humana consciente, nomeada-
mente pela ação política, e da construção de novas identidades
pessoais e coletivas, que implicam a submersão do indivíduo
na sociedade que procuram realizar. Tal como os movimentos
comunistas, estes movimentos procuram estabelecer uma nova
ordem social, fundada em dogmas ideológicos revolucionários
e universalistas, transcendendo em princípio todas as unidades
primordiais, nacionais ou étnicas. No caso dos primeiros re-
gimes comunistas, os objetivos declarados reclamavam a pro-
dução de coletividades de “operários” e de “intelectuais” que
se alargariam a todo o gênero humano; no caso dos regimes
fundamentalistas islâmicos, o domínio do islão, como nova
concepção do ummah, transcende qualquer lugar específico,
possuindo fronteiras alargadas e em constante mudança, ainda
que ideologicamente fechadas. Tanto os movimentos comunis-
tas como os fundamentalistas – sobretudo, mas não exclusiva-
mente, os muçulmanos – são transnacionais, sendo cativados

32 Eisenstadt, s. d.

59
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

por redes intensivas em contínua reconstrução, que facilitam


a expansão das visões sociais e culturais proclamadas por es-
ses grupos. Ao mesmo tempo, vão sendo confrontados com vi-
sões concorrentes. De todas estas formas, tanto os movimentos
como os seus programas constituem parte e parcela da agenda
política moderna.
Existem, certamente, diferenças marcantes nas visões res-
pectivas dos dois tipos de movimentos e regimes jacobinos (os
comunistas e os fundamentalistas), sobretudo no que se rela-
ciona com a sua atitude para com a modernidade e nas suas
críticas. Na sua análise das antinomias básicas da modernida-
de e na sua interpretação e rejeição de diferentes componentes
dos programas culturais e políticos da modernidade clássica, os
fundamentalistas islâmicos partilham, como Nilüfer Göle33 de-
monstra, uma preocupação com a modernidade. Esta constitui
o seu principal quadro de referência34.

XIV
As tentativas de apropriação e de interpretação da mo-
dernidade nos seus próprios termos não se confinam, contudo,
aos movimentos fundamentalistas. Eles constituem antes par-
te de um conjunto de desenvolvimentos muito mais alargados
que têm tido lugar por todo o mundo, como mostra Dale F.
Eickelman35, num ensaio a respeito das sociedades islâmicas.
Dando continuidade aos confrontos entre movimentos religio-
sos reformistas e outros movimentos tradicionais mais antigos
que se desenvolveram nestas comunidades, as tensões inerentes

33 Göle 2000.
34 Idem 1996.
35 Eickelman 2000.

60
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

ao novo programa moderno, especialmente entre valores plura-


listas e universais, são jogadas em novos termos. Quer se trate
de atitudes utópicas ou outras mais abertas e pragmáticas, de
identidades multifacetadas ou fechadas, todas elas implicam
uma mudança importante, mesmo radical, no discurso acer-
ca do confronto com a modernidade, no reenquadrar da rela-
ção entre civilizações, religiões e sociedades, ocidentais e não
ocidentais36.
É possível identificar paralelos significativos entre estes
diversos grupos religiosos, incluindo o fundamentalismo, e os
seus opositores aparentemente extremos – os diversos movi-
mentos pós-modernos com os quais entram muitas vezes em
confronto a respeito da hegemonia entre os diferentes secto-
res da sociedade. Assim, em muitos destes movimentos “pós-
modernos” ou “multiculturais”, desenvolveram-se orientações
profundamente totalitárias, manifestas, por exemplo, em dife-
rentes programas de correção política. Ironicamente, por causa
da sua grande variedade e da sua dinâmica interna e pragma-
tismo mais pluralista, vemos também certos temas “pós-moder-
nos” surgirem em movimentos fundamentalistas. Para lá deste
paradoxo, estes movimentos partilham uma preocupação gene-
ralizada acerca da relação entre as identidades que promulgam
e os temas universalistas promulgados por outros programas
hegemônicos de modernidade, sobretudo no que respeita à re-
lação entre as suas identidades que pretendem ser autênticas e a
presumida hegemonia cultural do ocidente, especialmente ame-
ricana, na cena contemporânea. De modo significativo, o medo
da erosão das culturas locais como resultado do impacte da
globalização levou estes movimentos a criarem suspeitas acerca

36 Eickelman 1993.

61
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

dos centros emergentes de um mundo em globalização, dando


origem uma vez mais a uma oscilação contínua entre cosmopo-
litismo e diversas tendências “particularistas”37.

XV
A saliência contínua das tensões entre programas plura-
listas e universalistas, entre identidades multifacetadas por opo-
sição a outras fechadas, e a ambivalência contínua dos novos
centros da modernidade para com os principais centros tradi-
cionais da hegemonia cultural atestam o fato de que, ao ultra-
passar o modelo do estado-nação, estes novos movimentos não
ultrapassaram os problemas básicos da modernidade. Todos
eles são profundamente reflexivos, possuindo a consciência de
que nenhuma resposta às tensões inerentes à modernidade será
a resposta final – mesmo se cada um deles procura à sua pró-
pria maneira fornecer respostas finais e incontestáveis aos dile-
mas irredutíveis da modernidade. Todos eles reconstituíram os
problemas da modernidade em novos contextos históricos, em
novas formas. Todos eles procuram um alcance mundial e a di-
fusão através das diversas mídias. Os problemas que enfrentam,
reconstruindo continuamente as suas identidades coletivas por
referência ao novo contexto global, constituem desafios de pro-
porções sem precedentes. A própria pluralização dos espaços
quotidianos no enquadramento global leva-os a ideias absolu-
tistas altamente ideológicas e, do mesmo passo, transporta-os
para o centro da arena política. O debate em que se inserem
pode ser descrito em termos “civilizacionais”, mas estes mes-
mos termos – o próprio termo “civilização” integrado nesse dis-
curso – são já expressos na nova língua da modernidade, utili-

37 Friedman 1994; Marcus 1993; Smolicz 1998; AA.VV 1999.

62
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

zando termos totalizantes, essencialistas e absolutistas. Quando


nos debates culturais esses choques se interceptam com lutas
políticas, militares ou econômicas, podem rapidamente tornar-
se violentos.
As reconstruções das diversas visões políticas e culturais,
através do espectro de identidades coletivas na cena contem-
porânea, implicam uma mudança no confronto entre as civili-
zações ocidental e não ocidental, entre religiões e sociedades, e
também na relação destes confrontos com o programa cultural
da modernidade do ocidente. Por oposição à aparente aceita-
ção generalizada das premissas da modernidade e da sua con-
tínua reinterpretação, característica dos antigos movimentos
religiosos e nacionais reformistas, a maior parte dos movimen-
tos religiosos contemporâneos – incluindo movimentos funda-
mentalistas e a maioria dos movimentos religiosos comunais
– parecem enveredar por uma rejeição muito mais intensa e se-
letiva de pelo menos algumas destas premissas. Assumiram uma
atitude conflituosa para com o ocidente, para tudo o que seja
concebido como ocidental, procurando apropriar-se da moder-
nidade e do sistema global nos seus próprios termos, muitas ve-
zes antiocidentais. O seu confronto com o ocidente não assume
a forma de desejo de incorporação numa nova civilização hege-
mónica, mas de apropriação da nova cena global internacional
e da modernidade para eles próprios, celebrando as suas tradi-
ções e “civilizações”. Estes movimentos tentaram desassociar
a ocidentalização da modernidade, negando o monopólio oci-
dental sobre a modernidade e rejeitando o programa cultural
ocidental como a síntese da modernidade. Significativo é o fato
de muitos destes temas serem também abraçados, apesar de em
diferentes idiomas, por muitos movimentos “pós-modernos”.

63
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

XVI
A análise anterior não implica que a experiência histórica
e as tradições culturais destas sociedades não possuam qual-
quer importância no desdobrar das suas dinâmicas de moder-
nidade. O significado das suas tradições anteriores é manifesto
no fato de que entre as sociedades modernas e contemporâneas,
os movimentos fundamentalistas se desenvolvem sobretudo em
sociedades que ganharam forma em contextos de religião mo-
noteísta ecumênica – as civilizações muçulmana, judaica e cris-
tã. Nestes contextos, o sistema político tem sido percepcionado
como a principal arena para a implementação de visões utópi-
cas transcendentais. Por contraste, a reconstrução ideológica do
centro político na forma jacobina tem sido muito mais fraca em
civilizações com orientações “além-mundo” – especialmente na
Índia, e numa medida de certa forma menor, em países budis-
tas. Nestes casos, a ordem política não é percepcionada como
fórum para a implantação de uma visão transcendental38.
Trata-se de um lugar comum observar que as distintas
variedades de democracia moderna na Índia ou no Japão, por
exemplo, podem ser atribuídas ao encontro entre a modernida-
de ocidental e as tradições culturais e as experiências históri-
cas destas sociedades. Isto se aplicava também, evidentemente,
para os diferentes regimes comunistas. Menos compreendido é
o fato de o mesmo se ter passado no que respeita ao primeiro
caso de modernidade – o europeu –, profundamente enraizado
nas premissas culturais e na experiência histórica especifica-
mente europeia39. Mas, tal como no caso da Europa, todas estas

38 Eisenstadt, s. d.
39 Eisenstadt 1987.

64
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

influências “históricas” ou “civilizacionais” não perpetuaram


simplesmente um velho padrão de vida institucional.
Nem, tão pouco, o mesmo acontece na cena contemporâ-
nea, como se nada mais do que a continuação dos respectivos
passados e padrões históricos fosse nela perpetuada. Pelo con-
trário, estas experiências particulares influenciam a emergência
contínua de novos movimentos e redes entre diferentes atores
– juízes, especialistas, deputados e outros – de um modo trans-
versal a todas as sociedades, mantendo um fluxo entre elas. A
dinâmica política em todas estas sociedades está estreitamente
entretecida com realidades geopolíticas, influenciada pela histó-
ria e moldada sobretudo por desenvolvimentos e conflitos mo-
dernos, o que torna impossível qualquer esforço no sentido de
construir entidades “fechadas”40.
Assim, o processo de globalização na cena contemporâ-
nea não implica nem o “fim da história” – no sentido do fim dos
choques ideológicos conflituosos entre diferentes programas de
modernidade – nem um “choque de civilizações” entre um oci-
dente secular em confronto com sociedades que parecem rejei-
tar, ou negar, o programa da modernidade. Não constitui sequer
um regresso aos problemas das civilizações axiais pré-moder-
nas, como se tal fosse possível. Pelo contrário, as tendências da
globalização nada revelam de forma tão clara como a contínua
reinterpretação do programa cultural da modernidade, como a
construção de modernidades múltiplas, como as tentativas por
parte de diversos grupos e movimentos de se apropriarem e re-
definirem o discurso da modernidade nos seus próprios termos.
Ao mesmo tempo, estão a provocar um reposicionamento das
principais arenas de contestação em que são moldadas novas

40 AA.VV. 1999.

65
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

formas de modernidade, distanciando-se do fórum tradicional


do estado-nação em direção a novas áreas em que diferentes
movimentos e sociedades interagem continuamente.
Não só continuam a emergir modernidades múltiplas –
indo, hoje em dia, para além das premissas do estado-nação
– como surgem igualmente novos modos de questionar e rein-
terpretar as diferentes dimensões da modernidade no seio de
todas as sociedades. É inegável a tendência, no final do século
XX, para a crescente diversificação dos modos de compreensão
da modernidade, dos programas culturais básicos de diferentes
sociedades modernas – muito para além das visões homogêneas
e hegemônicas da modernidade que prevaleciam na década de
50. Para além disto, em todas as sociedades, estas tentativas de
interpretação da modernidade encontram-se em contínua mu-
tação, submetidas ao impacte de forças históricas que se vão
alterando, dando assim origem a novos movimentos que che-
garão, a seu tempo, a reinterpretar uma vez mais o sentido da
modernidade.
Se é verdade que o ponto de partida comum foi outro-
ra o programa cultural da modernidade tal como se desenvol-
veu no ocidente, desenvolvimentos mais recentes viram uma
multiplicidade de formações culturais e sociais superar esses
aspectos homogeneizadores da versão original. Todos estes de-
senvolvimentos atestam, de fato, o contínuo desenvolvimento
de modernidades múltiplas, ou de múltiplas interpretações da
modernidade – e, sobretudo, atestam as tentativas de “desoci-
dentalização”, privando o ocidente do seu monopólio sobre a
modernidade.

66
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

XVII
Estas considerações encontram-se em estreita relação
com os problemas levantados nos ensaios reunidos na revis-
ta Daedalus41. Todos eles discutem, de diversas perspectivas e
através de um grande leque de casos, as características centrais
da modernidade. Do mesmo passo, os estudos aí apresentados
atestam a contínua expansão do leque de possibilidades de in-
terpretações ideológicas, tanto das construções do sentido da
modernidade como dos padrões institucionais da vida políti-
ca e social. Estas considerações confirmam, como demonstra
Nilüfer Göle42, que uma das características mais importantes da
modernidade é simplesmente, mas de modo profundo, o seu po-
tencial para a autocorreção, a sua capacidade de enfrentar pro-
blemas nunca imaginados no seu programa original. Hoje em
dia, os problemas mais importantes são provavelmente aqueles
que se relacionam com o ambiente, com a igualdade entre sexos
e com os novos conflitos políticos e internacionais que já dis-
cutimos. Ao procurar lidar com estes problemas, as diferentes
sociedades contemporâneas podem utilizar de modos cada vez
mais diversos, como nota Tu Weiming43, os recursos culturais
das respectivas tradições civilizacionais.
Do mesmo passo, estes mesmos desenvolvimentos – so-
bretudo a tendência para a constante autocorreção caracterís-
tica da modernidade – tornam mais premente a grande dificul-
dade que é dar resposta a respeito dos limites da modernida-
de. Não se trata de afirmar a inexistência desses limites; mas o
simples fato de levantarmos essa questão, insere-a no seio do
discurso da modernidade.
41 Dædalus: Journal of the American Academy of Arts and Sciences, 129 (1), 2000.
42 Göle 2000.
43 Weiming 2000.

67
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Elucidar e descrever o caráter essencialmente moderno


dos novos movimentos e identidades coletivas, desenhando
percursos que de alguma forma ultrapassam o modelo clássico
do estado, territorial, nacional ou revolucionário, não nos leva
necessariamente a assumir uma visão optimista. Pelo contrário;
as ramificações são de tal ordem que tornam evidente a fragili-
dade e mutabilidade de diferentes modernidades, bem como as
forças destrutivas inerentes a certos programas modernos, que
se revelam de forma mais vincada na ideologia da violência, do
terror e da guerra. Estas forças destrutivas – os “traumas” da
modernidade que puseram em questão as suas grandes promes-
sas – surgiram claramente depois da I Guerra Mundial, tornan-
do-se ainda mais visíveis na II Guerra Mundial e no holocausto,
e foram geralmente ignoradas ou postas de parte no discurso da
modernidade nas décadas de 50, 60 e 70. Ultimamente, ressur-
giram de um modo assustador – no novo conflito “étnico” em
partes dos Balcãs (especialmente na antiga Iugoslávia), em mui-
tas das antigas repúblicas da União Soviética, no Sri Lanka e,
de uma forma terrível, em países africanos como o Ruanda ou
o Burundi. Não são simples erupções de velhas forças “tradicio-
nais”, mas o resultado de um diálogo contínuo entre forças de
reconstrução modernas e outras aparentemente “tradicionais”.
Do mesmo modo, desenvolveram-se também movimentos fun-
damentalistas e religiosos de cariz comunal no quadro da mo-
dernidade, que não podem ser compreendidos completamente
senão no interior desse mesmo quadro. A modernidade – para-
fraseando a bem conseguida e humorada expressão de Leszek
Kolakowsky44 – está de fato “em julgamento contínuo”.

44 Kolakowsky 1990.

68
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

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75
CAPÍTULO II

O universal sob o múltiplo:


aceleração social como chave de
compreensão da modernidade1
Hartmut Rosa

I. Modernização e aceleração
Teorias da modernidade como as encontramos, primeiro
nas abordagens clássicas de Weber, Durkheim, Marx e Simmel,
depois na esteira de Talcott Parsons, conceituam modernização
usualmente como um processo contínuo de diferenciação (es-
trutural), racionalização (cultural) e/ou individualização (pes-
soal), e, às vezes, como um processo de comoditização ou con-
trole instrumental (van der Loo/van Reijen, 1997). Entretanto,
essas teorias receberam ataques de dois lados. Primeiro, parece
que teorias de modernização concebem a modernidade como
um desenvolvimento unidirecional, reto e contínuo. Assim sen-
do, são incapazes de levar em consideração as várias rupturas,
reveses e variações mesmo dentro da modernidade ocidental.
Depois, alega-se que elas são por demais etno ou eurocêntri-

1 O artigo original foi publicado em: Schmidt, Volker H. (Org.): Modernity at the
Beginning of the 21st Century. Newcastle, UK 2007, p. 37-61. Tradução: Thiago da
Silva Paz.

77
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

cas, usando particularidades culturais da civilização ocidental


como metas universais de desenvolvimento social, enquanto,
na verdade, modernização pode levar a resultados estruturais
e culturais muito diferentes na África, no sudeste asiático ou
na América Latina. Em ambos os casos, é objetado que essas
teorias negam a possibilidade de uma pluralidade de moderni-
dades histórica, geográfica ou cultural.
Entretanto, as abordagens pós-modernas ou pós-colo-
niais prevalecentes para uma concepção alternativa de moder-
nidades múltiplas ou plurais, que focam nas muitas diferenças,
heterogeneidades e contradições entre distintas fases históricas
ou regiões geográficas da era moderna, têm, assim, falhado em
prover considerações sobre o unificante “moderno” interior à
pluralidade de formações sociais. A dissolução do conceito de
modernidade na mera ideia de uma pluralidade de moderni-
dades conflitantes eventualmente nulifica nossa concepção do
moderno: a conversa das “múltiplas modernidades”, então,
implica em não mais que a observação de uma pluralidade de
(potencialmente conflitantes) formas de vida e culturas. Se a
teoria sociológica seguisse este caminho, renunciaria a qual-
quer esperança de identificar a especificidade característica da
moderna forma de vida e da experiência de modernização que
fundamenta suas variações e contradições. Portanto, a meu
ver, o desafio fundamental à sociologia hoje é tentar redefinir
modernidade ou, se aceitarmos sua natureza processual, mo-
dernização, de uma forma em que possamos simultaneamente
considerar sua diversidade histórica e cultural, assim como sua
unidade conceitual.
O argumento que quero desenvolver neste capítulo é o de
que a reinterpretação da modernidade como um processo con-

78
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

tínuo, “tridimensional”, de aceleração social, de fato, cumpre


seu desafio. Ela não apenas permite uma vasta e persistente di-
versidade cultural e institucional, assim como pausas e rupturas
históricas, mas também auxilia a causalmente explicar as últi-
mas e a definir precisamente os momentos críticos de ruptura
internos ao processo de modernização. Portanto, reivindico que
a definição de modernização como aceleração social é capaz
de aceitar os argumentos válidos em favor da multiplicidade
da modernidade, enquanto, ao mesmo tempo, considera sua
unidade.
Colocar o princípio de aceleração – que permite várias
formas de diferenciação, racionalização ou individualização, e é
compatível mesmo com seus parciais inversos – como o núcleo
da modernização, provê a sociologia com a chave para entender
a conexão entre a homogeneidade estrutural abstrata e a hete-
rogeneidade substancial da modernidade. Consequentemente,
meu argumento repousa na reivindicação de que a experiência
da modernização, em todas suas fases históricas e regiões cul-
turais, está intimamente conectada à experiência de uma estra-
nha dinamização e aceleração da história, cultura, sociedade ou
mesmo a própria vida ou o tempo2.
Infelizmente, essa mesma experiência, que domina a cul-
tura da modernidade de Shakespeare e Rousseau a Nietzsche,
Baudelaire e Heidegger, e de Mann e Proust a Douglas Coupland
e Speed Metal3, e da qual os “pais fundadores” da sociologia

2 Por isso o historiador cultural Peter Conrad 1999, p. 9 ousadamente reivindica que
“[m]odernidade diz respeito à aceleração do tempo”, enquanto o teórico cultural
francês Paul Virilio 1986 chama ao estudo da velocidade (dromologia) como a cha-
ve para entender a política e a sociedade.
3 Rosa 2005a, p. 71-89.

79
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

estavam vividamente cientes4 é quase completamente negligen-


ciada pelas teorias contemporâneas de modernização e inter-
pretações filosóficas da modernidade. Essa fatídica negligência
resulta em todas as muitas e falsas asserções, mesmo no interior
da outrora altamente distinta literatura sociológica, de que com
a modernidade, “simplesmente tudo” está acelerando. Portanto,
é necessária, em princípio, uma clara definição categórica de
aceleração social, i.e., uma identificação dos vários tipos de di-
namização que podem ser empiricamente observados e suas in-
terconexões. Assim, as forças de aceleração social precisam ser
cuidadosamente equilibradas contra os poderes e fenômenos da
desaceleração ou inércia social – pois claramente algumas esfe-
ras da vida social não aceleram, em absoluto. A reivindicação
de que modernização é aceleração será sustentável apenas se
puder ser demonstrado que as antigas forças, categoricamente
ou sistematicamente, superam novas.
No presente capítulo, eu gostaria de estabelecer preci-
samente esta reivindicação. Para tal, primeiro distinguirei três
dimensões de aceleração social, que serão equilibradas contra
cinco formas de desaceleração. Na terceira seção, discutirei bre-
vemente as causas e a autodinâmica, ou autopropulsão, carac-
terísticos do processo de aceleração. Ambas seções serão cur-
tas e apodíticas, visto que desenvolvi e discuti os argumentos
à exaustão outrora5. Na quarta seção, identificarei dois limites
ou pontos de inflexão críticos na história da aceleração social
(ocidental) que significativamente alteraram todo o tecido da
sociedade e resultaram em uma mudança nas formas de sua au-

4 Considere a explicação da vida metropolitana por Simmel 1970, a noção de Marx


e Engels de que tudo o que é sólido desmancha no ar, ou a ênfase de Weber na dis-
ciplina da Ética protestante, para quem o desperdício de tempo era “o mais mortal
dos pecados”. Cf. Rosa 2005a, p. 89-111.
5 Rosa 2003, 2005a e 2005b.

80
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

tointerpretação histórica, assim como nos seus padrões políticos


e de identidade. Se eu for bem-sucedido em levantar esses pon-
tos, a reivindicação de que aceleração não apenas permite, mas
explica ou implica em rupturas, pausas e reveses no processo
de modernização parecerá muito mais plausível. Ainda que me
faltem dados empíricos para substanciar a reivindicação adicio-
nal de que modernização é predominantemente experimentada
como aceleração social fora do mundo ocidental (i.e., na Índia,
como no Brasil ou com os Zulus6), encerrarei com uma breve
consideração sobre a universalidade da hipótese da aceleração.

II. Modernização como aceleração: a estrutura


categórica7

A) Três dimensões de Aceleração Social


Para entender o processo de aceleração social, precisamos
distinguir analiticamente três dimensões ou tipos diferentes de
fenômenos, visto que a experiência da aceleração pode estar
relacionada à velocidade de processos orientados a metas (a),
à taxa de mudança social (b), e ao sentido de uma crescente
escassez de tempo (c).

a) Aceleração tecnológica
A primeira, mais óbvia, e mais facilmente mensurável
forma de aceleração é a aceleração de processos intencionais
orientados à meta, de transporte, comunicação, e produção
que podem ser definidos como aceleração tecnológica. Ainda
que não seja sempre fácil de medir a velocidade média desses
6 Hylton White me salientou recentemente que a experiência social dos Zulus poderia
ser interpretada nesse sentido (White 2006).
7 Nesta seção, usei vasto material de um artigo publicado pela Constellations, em
2003 (Rosa 2003).

81
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

processos, a aceleração nesse domínio é inegável. Na verdade,


a revolução industrial e a recente “revolução digital” podem
ser interpretadas como claras “revoluções democráticas” nesse
sentido. Assim, a velocidade da comunicação, diz-se, foi elevada
a 107, a velocidade do transporte pessoal a 102, e a velocidade
do processamento de dados a 106 8. Os efeitos da aceleração
tecnológica na realidade social são certamente tremendos. Por
exemplo, como Harvey9 e muitos outros salientaram repetida-
mente, nossa percepção de tempo e espaço tem se transformado
significantemente, visto que o espaço parece virtualmente “se
comprimir” e gradualmente perder sua significância para orien-
tação no mundo moderno.

b) Aceleração da mudança social


Enquanto fenômenos da primeira categoria podem ser
descritos como processos de aceleração internos à sociedade,
os fenômenos dessa segunda categoria podem ser classificados
como acelerações da própria sociedade. Quando romancistas,
cientistas e jornalistas desde o século dezoito observaram a
dinamização da cultura, sociedade ou história ocidentais, eles
não estavam muito preocupados com os espetaculares avan-
ços tecnológicos como estavam com os (muitas vezes simultâ-
neos) acelerados processos de mudança social que proveram
constelações e estruturas sociais assim como padrões de ação e
orientação instáveis e efêmeros. Logo, internas à modernidade,
as taxas de mudança estão mudando. Assim, atitudes e valo-
res, modas e estilos de vida, relações sociais e obrigações, assim
como grupos, classes ou cercanias, linguagens e práticas sociais,
e hábitos tendem a mudar a taxas cada vez mais altas.

8 Geissle 1999, p. 89.


9 Harvey 1990.

82
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

No entanto, medir empiricamente (taxas de) mudança so-


cial permanece um desafio. Há pouca concordância em socio-
logia sobre o que os indicadores de mudança relevantes são e
quando alterações e variações de fato constituem uma genuína
ou “básica” mudança social10. Logo, quero sugerir que a socio-
logia utiliza abordagens desenvolvidas em filosofia social assim
como em teoria de sistemas, e define a aceleração da mudança
social como uma constante contração do presente11. Tal con-
tração é a consequência das taxas de aceleração da inovação
cultural e social. A medida é tão simples quanto instrutiva: se
definimos o passado como aquilo que já não é mais/não é mais
válido, enquanto o futuro denota aquilo que ainda não é/ainda
não é válido, então o presente é o período de tempo pelo qual
(para usar uma ideia desenvolvida por Reinhart Koselleck) os
horizontes da experiência e expectativa coincidem. Apenas no
interior desses períodos de tempo de relativa estabilidade po-
demos extrair experiências para orientar nossas ações, e ape-
nas no interior de tais períodos há alguma certeza de orien-
tação, avaliação e expectativa. Em outras palavras, aceleração
social pode ser definida pelo aumento nas taxas de deteriora-
ção da confiança nas experiências e expectativas, e pela con-
tração dos períodos de tempo qualificáveis como o “presente”.
Conceitualmente, então, podemos aplicar essa medida de esta-
bilidade e mudança às instituições culturais e sociais, e práticas
de todos os tipos: o presente aceita o político assim como o
ocupacional, o tecnológico e o estético, o normativo e o cientí-
fico ou dimensões cognitivas, i.e., nos aspectos culturais assim
como nos culturais.

10 Cf. Sztompka 1993 ou Müller/Schmid 1995. Peter Laslett 1988 distingue entre 19
diferentes taxas de mudança social interna (econômica, política, cultural, etc.).
11 Lübbe 1998.

83
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

No entanto, como podemos verificar isso empiricamente?


Parece haver aparente acordo geral nas ciências sociais de que
as estruturas básicas da sociedade são aquelas que organizam os
processos de produção e reprodução, que, nas sociedades oci-
dentais, são organizados pela família e pelo sistema ocupacio-
nal. Logo, ganhamos alguma medida de mudança se prestarmos
atenção aos indicadores que sugerem que a mudança nesses dois
domínios – família e trabalho – acelerou de um ritmo interge-
racional nos princípios da sociedade moderna para um ritmo
geracional na “modernidade clássica” para um ritmo intragera-
cional na modernidade tardia. Assim, o tipo ideal de estrutura
familiar na sociedade agrária tendia a permanecer estável por
séculos, com a circulação geracional deixando a estrutura bási-
ca intacta. Na modernidade “clássica” ou “alta”, em contraste,
essa estrutura era criada para durar por apenas uma geração: era
organizada em função de um casal e tendia a se dispersar com
suas mortes. Na modernidade tardia, há uma crescente tendência
a círculos familiares durarem menos que o período de uma vida
individual: crescentes taxas de divórcio e novos casamentos são
as mais óbvias evidências disso. De maneira similar, no mundo
do trabalho, nas sociedades pré-modernas, o filho herda a ocupa-
ção do pai – novamente, potencialmente por muitas gerações. Na
modernidade “alta”, estruturas ocupacionais tendiam a mudar
com as gerações: filhos (e depois as filhas, também) eram livres
para escolher suas profissões, mas geralmente escolhiam apenas
uma, i.e., pela vida toda. Na modernidade tardia, as ocupações
deixam de se estender por toda a vida profissional; os trabalhos
mudam a velocidades mais altas que as gerações12.

12 Para uma justificação dessas duas (obviamente, muito contestáveis) reivindicações,


ver Rosa 2005a, p. 176-194.

84
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Logo, para formular o argumento de maneira mais ge-


ral, a estabilidade das instituições e práticas sociais pode servir
como parâmetro para a aceleração (ou desaceleração) da mudan-
ça social. No trabalho de autores como Peter Wagner13 e Beck,
Giddens, e Lash14, adicional suporte teórico e empírico pode ser
achado para a tese de que a estabilidade institucional está, geral-
mente, em declínio nas sociedades na modernidade tardia.

c) Aceleração do ritmo da vida


Significativamente, há um terceiro tipo de aceleração
nas sociedades modernas que não está nem logicamente nem
causalmente ligado pelos dois primeiros, mas que parece um
paradoxo no que diz respeito à aceleração tecnológica. Este ter-
ceiro processo é a “aceleração do ritmo da vida”, que tem sido
postulado repetidamente no desenrolar da modernidade15. Este
é o foco de muitas das discussões sobre aceleração cultural e
a suposta necessidade por desaceleração. O sentimento gene-
ralizado de que estamos ficando sem tempo, de que o tempo
está ficando crescentemente escasso e de que temos que ace-
lerar nossas ações para manter o passo com as demandas que
nos surgem, concomitante a uma crescente sensação de estresse,
tem sido bem documentada por virtualmente todas as socie-
dades modernas16. Ainda que seja difícil enxergar a razão, do
lado subjetivo, sentimos estresse temporal apesar da abundân-
cia dos recursos temporais ganhos via aceleração tecnológica,
a aceleração do ritmo de vida pode ser objetivamente definida
como um aumento no número de episódios de ação ou expe-
13 Wagner 1994.
14 Beck, Giddens e Lash 1994.
15 e.g., Simmel 1971, ou Levine 1998.
16 Cf. Robinson/Godbey 1999.

85
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

riência que vivemos em uma dada unidade de tempo, i.e., em


uma hora, semana, um ano ou uma vida. Este aumento é ob-
tido pela aceleração das próprias ações individuais (como em
fast-food, encontros rápidos ou power-naps17), ou pela redução
das pausas e tempos de espera entre episódios de ação, ou fi-
nalmente sendo “multitarefa”, i.e., completando muitas tarefas
simultaneamente18.

B) Cinco formas de Desaceleração Social


Dado que achamos evidências convincentes para acele-
ração em todas as três esferas definidas acima, o que precisa-
mos para determinar o sentido em que podemos falar da ace-
leração das sociedades é um entendimento do status, função, e
estrutura daqueles fenômenos que escapam a dinamização ou
mesmo representam formas de retardamento e desaceleração.
Analiticamente, podemos distinguir cinco formas de desacele-
ração e inércia que cruzam as esferas de aceleração identifica-
das até agora.
1) Primeiro, há limites de velocidade naturais e antropo-
lógicos. Algumas coisas não podem ser aceleradas em
princípio. Dentre as quais, há muitos processos físicos,
como a velocidade de percepção e processamento em
nossos cérebros e corpos, ou o tempo necessário para
que muitos recursos naturais se reproduzam.
2) Ademais, há “nichos” territoriais, assim como sociais e
culturais, que ainda não foram tocados pela dinâmica
da modernização e aceleração. Eles têm simplesmen-
te sido (total ou parcialmente) isentados dos proces-

17 N.T.: Um power-nap é um sono curto que termina antes da ocorrência do sono


profundo, com o objetivo de revitalizar-se rapidamente.
18 Para evidências empíricas, ver Rosa 2003 e 2005a.

86
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

sos de aceleração, ainda que estejam acessíveis a eles


em princípio. Em tais contextos, o tempo parece estar
“parado”, como diz o ditado, e.g., ilhas esquecidas
no mar, grupos sociais ou seitas religiosas excluídas
socialmente, como os Amish, ou formas tradicionais
de prática social (como produzir uísque, no famoso
comercial da Jack Daniels). Sem dúvida, esses “oásis
de desaceleração” estão sob pressão crescente na mo-
dernidade tardia, a menos que sejam deliberadamente
protegidos contra a aceleração e caiam, assim, na ca-
tegoria (4).
3) Também há fenômenos de retardamento como conse-
quências não-intencionais da aceleração e dinamiza-
ção. Isso frequentemente implica em formas disfuncio-
nais e patológicas de desaceleração; a versão mais co-
nhecida da primeira são os engarrafamentos, enquanto
a depressão psicológica pode servir como o mais re-
levante exemplo da última19. Recessões econômicas –
chamados retardos econômicos – também poderiam
ser interpretados nesse sentido.
4) Contrárias a essas formas não-intencionais de retar-
damento, há formas intencionais de desaceleração
(social), que incluem movimentos ideológicos contra
a aceleração moderna e seus efeitos. Tais movimentos
têm acompanhado mais ou menos cada novo passo
na história da aceleração moderna, e em particular
da aceleração tecnológica. Assim, a máquina a vapor,
a linha férrea, o telefone, o computador e o celular
foram todos recebidos com desconfiança e mesmo

19 Ehrenberg 1999.

87
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

hostilidade; mas em todos os casos, os movimentos


de oposição eventualmente falharam20. Entretanto, a
desaceleração intencional não é sempre antimoderna
ou ideológica, mas, com frequência, um requerimento
funcional para manter o processo de aceleração social.
Em nível individual, consideramos tais formas acelera-
tivas (ou funcionais) de desaceleração, em que pessoas
“dão um tempo” em monastérios ou se inscrevem em
cursos de ioga que prometem uma “folga da raça” –
com o propósito de permitir uma participação mais
bem-sucedida em sistemas sociais aceleratórias poste-
riormente. Em nível político e social, “moratórias” são
introduzidas para remover obstáculos tecnológicos,
políticos, legais, ambientais ou sociais que se ponham
no caminho da modernização. De maneira similar, al-
gumas esferas da sociedade moderna, tais como os ins-
titucionalmente estáveis domínios da lei, a formação
da vontade política, ou, por algum tempo, o Estado
de bem-estar, têm sido deliberadamente isentados da
mudança dinâmica visando criar condições de estabi-
lidade e calculabilidade, o que permitiu investimentos
intelectuais e econômicos de longo prazo.
5) Por fim, para uma teoria sistemática da aceleração so-
cial, é vital contabilizar os fenômenos de inércia es-
trutural e cultural, que representam a quinta e final
forma de desaceleração social. Paradoxalmente, eles
são experimentados em estreita conexão com proces-
sos de aceleração radical, e tem levado ao surgimento
de teorias sobre o fim da história (Fukuyama), inér-

20 e.g., Levine 1998.

88
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

cia polar (Virilio), ou uma paralisação hiper-acelerada


(Baudrillard, Jameson). Elas compartilham da percep-
ção de que, apesar das aceleração e flexibilidade gene-
ralizadas (que criam a aparência de contingência total,
hiper-possibilidades, e abertura ilimitadas), mudança
“real” não é, de fato, mais possível: o sistema da so-
ciedade moderna está se fechando e, logo, a enorme
velocidade dos eventos e alterações é um fenômeno
superficial encobrindo parcamente uma inércia estru-
tural e culturalmente entranhada. Na quarta seção,
arguirei que esses processos de paralisia e inércia não
são apenas contingentes, mas sistemática e estrutural-
mente conectados ao próprio conceito de aceleração
social e, portanto, ao coração da modernidade.

C) Porque há aceleração e não desaceleração?


A questão fundamental que surge neste ponto é o relacio-
namento entre processos de aceleração e desaceleração social
na sociedade moderna. Duas possibilidades são concebíveis:
Primeiro, os processos de aceleração e desaceleração estão, ge-
ralmente, em equilíbrio, tal que enxergamos ambos os tipos de
mudança nos padrões temporais da sociedade sem uma clara e
permanente dominância de um ou outro. Segundo, o equilíbrio,
na verdade, desloca-se em direção aos poderes de aceleração, de
forma que as categorias de desaceleração precisam ser interpre-
tadas ora como residuais ora como reações à aceleração. Sugiro
que o segundo caso é verdadeiro. (Do contrário, claro, a reivin-
dicação de que a modernização é, em sua essência, aceleração
pareceria refutada). Minha reivindicação repousa na suposição
de que nenhuma dessas formas de desaceleração corresponde
a uma contracorrente genuína e estruturalmente igual à acele-

89
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

ração moderna. Os fenômenos listados sob as categorias (1) e


(2) apenas denotam os (recuantes) limites da aceleração social;
não são contraposições, em absoluto. As desacelerações da ca-
tegoria (3) são efeitos da aceleração e, como tais, derivativas, e
secundárias, a ela. A categoria (4) identifica fenômenos que, sob
exame cauteloso, se afiguram como elementos ou condições que
autorizam processos de aceleração, ou (em último caso, frustra-
das) reações ideológicas a eles. Assim, a única forma de desace-
leração que parece não ser derivativa ou residual é a categoria
(5). Esta dimensão parece um aspecto inerente, complementar
ou mesmo constitutivo da própria aceleração moderna e, como
tal, configura um “epifenômeno” de aceleração social que cres-
ce e diminui com os poderes da aceleração. Isso certamente não
constitui uma força contrária.

III. Autodinamização: as forças motrizes da aceleração


O que, então, é a força motriz da aceleração social? Se
quisermos defender a reivindicação de que aceleração é o prin-
cipal núcleo da modernização tout court, então, é claro, ela
deve resultar em uma força autopropulsora que não é redutí-
vel a outros processos fundamentais da modernização, como
a racionalização ou diferenciação. E, de fato, podemos traçar
a existência de “ciclos de retorno autodinâmicos” entre as três
dimensões da aceleração social identificadas acima: aceleração
tecnológica, conceitualmente e empiricamente, pode ser vista
como uma resposta social ao problema da escassez do tempo,
i.e., à aceleração do “ritmo da vida”. No entanto, a aceleração
tecnológica, que está frequentemente conectada à introdução
de novas tecnologias (como a máquina a vapor, o automóvel,
o computador), quase inevitavelmente traz à tona uma gama

90
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

de mudanças nas práticas sociais, estruturas de comunicação,


e formas correspondentes de vida. Por exemplo, a Internet não
apenas elevou a velocidade das trocas comunicativas e a “vir-
tualização” de processos econômicos e produtivos; ela também
estabelece novas estruturas ocupacionais, econômicas e comu-
nicativas, abrindo novos padrões de interação social e mesmo
novas formas de identidade social. Logo, é fácil perceber como
e por que a aceleração tecnológica está inclinada a ir de mãos
dadas com a aceleração da mudança social.
Outrossim, se a aceleração da mudança social implica uma
“contração do presente” no sentido discutido acima, isto natu-
ralmente leva a uma aceleração do “ritmo da vida”. A expli-
cação para isso se encontra num fenômeno bem conhecido no
domínio da produção capitalista, e pode ser chamado de “fe-
nômeno bola de neve”21. Da mesma forma que, com Marx ou
Weber, o produtor capitalista não pode jamais dar uma pausa
ou descansar, visto que ficar parado é equivalente a ser deixado
para trás, numa sociedade com aceleradas taxas de mudança
social em todas as esferas da vida, os indivíduos sempre sentem
que estão numa “bola de neve”: dar uma pausa prolongada
significa sair de moda, estar ultrapassado, anacrônico em seu
conhecimento e experiência, em seus equipamentos e vestimen-
tas, assim como em suas orientações e mesmo em sua lingua-
gem22. Assim, as pessoas se sentem pressionadas a acompanhar
a velocidade da mudança para evitar a perda de potencialmente
valiosas opções e conexões23. Logo, uma acelerada mudança so-

21 Rosa 2005a, p. 190ff.


22 Assim, pessoas idosas na sociedade ocidental são frequentemente incapazes de enten-
der o jargão tecnológico usado pelos jovens quando falando sobre seus Gameboys,
emails, iPods, DVDs, etc.
23 Esse problema é agravado pelo fato de que, em um mundo em incessante mudança,
é cada vez mais difícil dizer quais opções eventualmente se revelarão valiosas.

91
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

cial irá, por sua vez, levar a uma aceleração do “ritmo da vida”.
E finalmente, como vimos no começo, novas formas de ace-
leração tecnológica serão exigidas para acelerar os processos
de vida produtiva e cotidiana. Assim, o “ciclo de aceleração”
se torna um processo fechado e autopropulsor que, no curso
da modernização, se revela cada vez mais difícil de quebrar ou
interromper (Figura 1).
Todavia, deve ao menos ser mencionado (visto que não
posso desenvolver esse ponto em detalhes aqui) que, em adi-
ção a esse caráter auto-dinâmico da aceleração, há três podero-
sos motores “externos” que historicamente convergiram para
formar o ciclo identificado e que continuam a emprestar-lhe
impulso adicional: o processo de aceleração é compelido pela

Figura 1: Dimensões/Motores da Aceleração

92
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

lógica econômica do capitalismo, para a qual tempo é dinheiro


e dinheiro é necessariamente escasso; pela institucional e estru-
tural lógica da diferenciação funcional; e finalmente pelo domi-
nante programa cultural da modernidade, de acordo com o qual
aceleração é uma resposta ao problema da finitude humana e
da morte: se vivermos velozes o bastante, poderemos ter (as
experiências de) uma centena de vidas dentro de um único pe-
ríodo de vida. A velocidade, assim, tende a substituir as noções
religiosas de uma vida eterna24. Em vez de me preocupar mais
com as conexões causais por trás do sistema aceleratório da
modernidade, quero me focar numa análise das vias nas quais a
identificada lógica da aceleração inevitavelmente leva a pausas
qualitativas e rupturas na composição cultural e institucional
das sociedades modernas e, por isso, já implica na emergência
de uma pluralidade de modernidades.

IV. Descontinuidade cultural como consequência


da aceleração progressiva
Logo que aceitamos a ideia de que, com o advento da mo-
dernidade, a velocidade da mudança social está continuamente
aumento – ainda que, claro, empiricamente, a aceleração social
venha em ondas e encontre resistência e reveses parciais tais que
a ideia de uma aceleração linear é uma exagerada simplificação
no sentido de um tipo ideal weberiano, somos pressionados a
concluir que este processo de dinamização encontra limites crí-
ticos além dos quais aparecem mudanças qualitativas no regime
espaço-tempo social, assim como na experiência da história e
sociedade, e, portanto, nas predominantes formas de política,
autoimagem e identidade.

24 Ver figura 1. Cf. Rosa 2005a, capítulos VIII e IX.

93
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Mais significativamente, como autores como Jan


Assmann25 ou Reinhart Koselleck26 mostraram, a memória co-
municativa social e a consciência coletivamente compartilhada
do passado e presente são limitados a um período de aproxi-
madamente 80-100 anos, período de tempo em que as três (no
máximo quatro) gerações vivendo juntas ao mesmo tempo na
história podem, na verdade, supervisionar e comunicar a partir
de suas próprias experiências. Isso implica que a divergência
dos horizontes de experiência e expectativa, tão característicos
na descrição de Koselleck da modernidade, e a efetiva experiên-
cia de uma contração do presente, podem apenas se tornar uma
realidade cultural e ganhar relevância social quando processos
significativos de mudança social endógena ocorrem no interior
do tempo de vida dessas três (ou quatro) gerações vivendo jun-
tas, i.e., quando a velocidade da mudança social cruza o limiar
de um ritmo intergeracional para um ritmo geracional. Em ou-
tras palavras, apenas quando avós, inspirados em suas próprias
experiências do passado, esperam que o futuro de seus filhos
e netos seja significativamente diferente dos seus próprios, a
percepção de uma história progressiva, e de uma sociedade em
mudança, pode assumir o controle. Por outro lado, quando
processos de fundamentais mudanças sociais ocorrem tão rapi-
damente que as condições básicas parecem ser instáveis mesmo
no tempo de vida de uma única geração (quando a mudança
social, em outras palavras, alcança o limiar de um ritmo intra-
geracional), a relação entre gerações é, obviamente, fundamen-
talmente alterada mais uma vez27, e a erosão das estabilidades
e certezas do mundo da vida assume um novo caráter, trans-
25 Assmann 1992.
26 Koselleck 1985.
27 Mannheim 1964.

94
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

formando mais uma vez a experiência da história, os padrões


de identidade e as possibilidades da política. Além de mesmo
um limiar mais alto, finalmente, a mudança social não será ex-
perimentada como uma mudança nas estruturas e instituições,
mas como um processo de (potencialmente caótica) incessante
indeterminação. Logo, a proeminência de ideias pós-modernis-
tas em nosso tempo pode bem significar a ultrapassagem de
tal limiar, além do qual as formas de narrativa transmitidas,
experiências cumulativas e lineares do mundo não podem mais
ser sustentadas.
Como indiquei na seção II, a ideia de uma aceleração
progressiva da mudança social no processo de modernização
supõe precisamente um aumento na velocidade da mudança
social (nas sociedades ocidentais) de um ritmo intergeracional
na pré-modernidade e nos princípios desta para, mais ou me-
nos, um ritmo geracional na modernidade alta ou “clássica”,
e para um ritmo intrageracional na nossa tardia era moderna
da globalização. Salientei como tal reivindicação poderia ser
empiricamente validada ao fazer referência à diminuição da es-
tabilidade e durabilidade de um tipo ideal de família e estrutu-
ras ocupacionais. Em vista disso, me restrinjo a notar que, em
nível de ideais normativos, essa mudança pode também pode
ser observada em sociedades pré-modernas, em que se esperava
que os indivíduos perpetuassem as estruturas familiares e ocu-
pacionais (assim como as religiosas e políticas) de seus antepas-
sados; ao passo que a ideia central da “modernidade clássica”
que todo individuo deveria achar sua própria família, sua qua-
lificação profissional, seu posicionamento político e religioso
perante o mundo e assim por diante. Assim, renovação, e não
perpetuação, era um desafio geracional, mas – em seu núcleo
assim como em suas dimensões periféricas tais como hobbies e

95
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

hábitos de consumo – essa tarefa de autoinvenção e escolha foi


tomada como um desafio definitivo da adolescência. A possi-
bilidade de conversões não obstante o ideal normativo da mo-
dernidade “alta” ou clássica envolvia a aderência estável a um
plano de vida individual definido e gradualmente desenvolvido.
Na modernidade tardia, em contraste, tal ideal é considerado
totalmente distante dos requisitos de uma sociedade altamente
dinâmica. Aderir estritamente às escolhas de vida feitas, ou a
um plano de vida, parece não apenas entediante (quem gostaria
de ter o mesmo trabalho, ou mulher, ou aderir a uma convicção
política para a vida toda?), mas também perigosamente inflexí-
vel e imóvel na era do capitalismo turbodinâmico28.
É um pressuposto central deste capítulo que a dinamiza-
ção progressiva das condições sociais leva a um duplo retroces-
so na experiência cultural do tempo e história, que está intima-
mente conectado aos limiares geracionais e intrageracionais da
mudança social identificada acima. Considerando tudo o que
sabemos sobre as sociedades pré-modernas e do princípio da
modernidade, não é implausível assumir que, para elas, o tem-
po histórico (mesmo apesar da expectativa cristã por um apo-
calíptico fim dos tempos) parecia ter um caráter muito estático.
Os horizontes de experiência (o que é conhecido do passado) e
expectativa (o que se deve esperar do futuro) se sobrepunham
extensivamente, apesar das vastas e frequentemente incontro-
láveis contingências, e do caráter cíclico da vida cotidiana. Por
isso, o tempo histórico parecia ser um “reservatório” para múl-
tiplas histórias que frequentemente se repetiam, tal que a histó-
ria poderia ser a mestra da vida (historia magistra vitae, como
Koselleck salientou incessantemente): se podia aprender com o
passado a como agir no futuro.
28 Sennett 1998, e Bauman 2000.

96
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Pelo contrário, no brevíssimo período entre 1750 e


1830, chamado “tempo-sela” por Koselleck e os editores da
Geschichtliche Grundbegriffe, uma inteiramente nova forma
de experimentar o tempo e a história emergiu. Para observa-
dores e comentadores da cultura, política e sociedade, passado
e futuro se tornaram notavelmente diferentes, as expectativas
começaram a divergir da experiência e, logo, a história come-
çou a se mover como se fosse, como nota Koselleck, um “único
objeto”. A história, como tal, tornou-se quase uma força inde-
pendente, com uma direção identificável, e como a grande “juí-
za” das ações humanas. Não quero citar todas as evidências
históricas que Koselleck e seus colegas forneceram para provar
essa mudança. Quero repetir meu ponto de que tal ruptura
na experiência cultural do tempo, da história e da sociedade é
uma consequência, quase “natural” e esperada, da aceleração
da mudança social do nível intergeracional – condições básicas
parecem endogenamente invariáveis nos últimos 80 a 100 anos
– para o nível geracional, i.e., para a velocidade da mudança
social endógena cruzando o primeiro limiar crítico da percep-
ção cultural. Além desse limiar, os atores são convencidos de
que o futuro será estruturalmente do passado e que a mudan-
ça é compelida endogenamente, i.e., não por eventos exóge-
nos contingentes como a guerra ou a estiagem. Assim, o ponto
principal de Koselleck é a identificação de uma “temporaliza-
ção” histórica da história e da política29. Ele não nos deixa
29 No entanto, Koselleck permanece ambivalente quanto às causas dessa mudança.
Ele acha evidências empíricas para a aceleração social apenas no período após a
revolução industrial, i.e., consideravelmente mais tarde. Dessa forma, ele atribui
a transformação cultural à crise política e às emergentes expectativas políticas do
tempo, que levam a uma série de eventos tumultuosos. Entretanto, esta explicação
permanece inteiramente insatisfatória, visto que rupturas políticas são explicadas
precisamente pela mudança na concepção social de tempo e história, deixando as-
sim o argumento em um círculo explicativo. A razão para esse busílis, a meu ver,
reside no fato de que Koselleck examina apenas a aceleração tecnológica como uma

97
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

dúvida de que essa mudança temporal estava essencialmente


conectada à percepção de uma aceleração das próprias história
e sociedade. Aceleração, ele nos assegura, era o elemento cen-
tral da nova concepção de sociedade e história, e a ideia de pro-
gresso era um elemento necessário e complementar dessa nova
concepção cultural: ela sinalizou a direção da mudança social.
No entanto, o que Koselleck, sendo um historiador, não
poderia e não anteviu foi a emergência de uma segunda e signi-
ficativa ruptura na percepção moderna do tempo (histórico) até
o final do século vinte. Ainda que essa segunda ruptura – tão
monumental e essencial quanto a primeira – tenha sido anun-
ciada por vários escritores do começo do século vinte, ela se tor-
nou o modo dominante da experiência cultural, eu diria, apenas
após 1989, após o fim da Guerra Fria e com a revolução digital
culminando na internet. Desde então, não se percebe mais a his-
tória se movendo, ainda que, é claro, haja mais guerras, estados
falidos e reconstruídos, novas coalisões, movimentos e assim
por diante, i.e., ainda que haja uma mudança frenética, pare-
ce não mais haver história no singular, com uma direção, uma
história se movendo. A história deixou de ser um processo evo-
lutivo. Isso é o que os arautos do fim da história, da pós-histó-
ria, nos dizem, de Gehlena Fukuyama, Baudrillard ou Virilio. É
também o que inúmeras evidências da alta e também da domi-
nante cultura pop nos dizem, de Couplanda Roger Waters, do
Pink Floyd, ou a Imre Kertesz30. Na percepção moderna tardia
do tempo, a história é frenética e também estática em seu ritmo.
Está se abrindo mais uma vez para dar espaço a uma miríade

dimensão empírica da mudança, enquanto negligencia evidências das outras duas


dimensões identificadas na seção dois supra.
30 Ver o celebrado romance Geração X, de Douglas Coupland, o álbum solo Amused
to Death, de Roger Waters, ou o romance Sem destino, laureado com o Nobel, de Imre
Kertesz.

98
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

de histórias que não configuram uma história progressiva, asse-


melhando-se, assim, ao estado pré-moderno, exceto pelo fato de
que mudança e contingência (produzindo as histórias episódi-
cas) são endógenas agora. Se Lübbe31 nos lembra que energias
políticas utópicas vicejam apenas quando a história é experi-
mentada como um processo de mudança direcionada, então seu
virtual desaparecimento no final do século vinte não é um fato
contingente, conectado apenas à crise do Estado de bem-estar
e da sociedade do trabalho (como entende Habermas)32, mas
um sinal do enfraquecimento da crença no poder político para
formar o destino da sociedade como tal.
Esta segunda transformação fundamental da moderna
concepção do tempo pode ser entendida como uma destem-
poralização da história: eventos sociais, políticos e culturais
não são mais interpretados como um elo em uma corrente
progressiva, mas como episódios contingentes em um univer-
so altamente contingente. Uma sucessão randômica de even-
tos, episódios fragmentados e desenvolvimentos contraditórios
(como a secularização e dessecularização, democratização e
desdemocratização, construção de nação e estados-nação des-
moronando, a evolução do Estado de bem-estar e o retorno do
capitalismo de Manchester) tomou o lugar do que se pensavam
ser sequências históricas de desenvolvimento (ou progresso) so-
cial. Isto é refletido no fato de que os conceitos políticos que
Koselleck identifica como significantes da ideia de (irreversível)
movimento dinâmico no tempo-sela – todos os ismos da época
– representam hoje apenas um arranjo “estático” de alternativas
políticas reversíveis: socialismo, fascismo, conservadorismo, li-
beralismo, etc. Neste sentido, o tempo político-histórico da era
31 Lübbe 1998, p. 277.
32 Habermas 1985.

99
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

da globalização é, ao mesmo tempo, eterno e “temporalizado”


no sentido de que a sequência de eventos não é pré-determina-
da por nenhuma lógica ou princípio meta-histórico. Nenhuma
teoria social ou filosofia da história poderia predizer o curso
da história ou identificar uma subjacente lógica do progresso.
Ainda que essa possa ser a primeira impressão, esse retorno do
tempo eterno não é um simples retorno à concepção pré-mo-
derna de tempo estático-cíclico. Não há “ciclo natural” de pro-
gressão como no modelo constitucional de Políbio, enquanto a
mudança frenética no nível dos eventos e associações é causada
pelas forças sociais endógenas, dentre as quais as não menos
importantes inovações tecnológicas e científicas. Isto, a meu ver,
ajuda a explicar por que, na virada do milênio, a experiência da
mudança frenética e a contingência social radical, por um lado,
e as percepções de inércia (estrutural) radical – para muitos ob-
servadores, a sociedade globalizada parece representar a perpé-
tua repetição do “mais do mesmo”, a ausência radical de ino-
vação significativa – por outro, floresceram simultaneamente: a
sociedade está mudando, mas não está indo a lugar nenhum33.
Argumento que essa segunda mudança na concepção
sociocultural do tempo é a consequência do ritmo em que a
mudança social alcança o limiar crítico de uma velocidade in-
trageracional. Após a onda de aceleração social emanando das
revoluções política e digital os idos de 1989, indivíduos em so-
ciedades avançadas não podem mais esperar que seus mundos
da vida básicos provejam condições estruturais estáveis para
seu evolutivo curso de vida. Mais que desenvolver e promulgar
uma concepção de identidade pessoal pela vida toda, as acele-
radas estruturas do mundo da vida agora demandam que os su-

33 Cf. Niethammer 1989.

100
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

jeitos estejam prontos para mudar sua autoimagem, convicções


políticas, etc. de acordo com um ambiente em mudança.
Assim, história no singular, como sujeito e juiz, só é con-
cebível no interior de uma “velocidade controlada” de mudan-
ça social. No “tempo-sola”, aparentemente, seu limiar mais
baixo foi cruzado e a história começou a se mover, enquanto
na modernidade tardia a barreira superior é transcendida e a
história parece cair de volta na inércia, ainda que em uma al-
tamente dinâmica desta vez. No entanto, com o cruzamento
dos limiares críticos identificados, não apenas a percepção do
tempo muda, mas com isso todo o tecido e substância cultural
da sociedade são transformados também. Isto se deve ao fato
de que a sociedade e o eu, em suas próprias essências, são tem-
porais e processuais e não estáticos e sólidos34. Isso provê a base
para minha reivindicação de que transformações substantivas
do eu e da sociedade não são apenas compatíveis com, mas
também um efeito inevitável do contínuo e abstrato processo
de aceleração social.
Deixe-me enunciar brevemente essa reivindicação através
de uma análise das mutáveis concepções modernas da política e
identidade (pessoal). Começo pela primeira.
Apesar de raramente admitido, parece autoevidente que
nossa concepção do papel, função e limitações da política no
desenvolvimento social é altamente contingente sobre nossa
percepção social da história. Assim, a ideia e o ideal modernos
de autonomia política, i.e., de um autodeterminado controle
e modelagem de nossa forma de vida compartilhada, apenas
ganharia plausibilidade e credibilidade uma vez que a história,
ou o mundo social per se, fossem considerados como estando

34 Lauer 1981.

101
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

em deslocamento e mudança. Antes do “tempo-sela”, quando


mudanças básicas eram tão lentas que, para a memória cultural
comunicativa, os horizontes de experiência e expectativa eram
basicamente idênticos, tal concepção – e a ideia de democra-
cia no sentido moderno – não era uma opção real. Não havia
nada que necessitasse ou sugerisse modelagem ou planejamento
político, condução e desenvolvimento, embora, claro, houvesse
decisões cotidianas práticas a serem tomadas para manter a or-
dem social intacta.
Apenas quando o processo de mudança social se tornou
uma realidade cultural, a moderna concepção da sociedade
como um projeto coletivo que poderia ser politicamente mol-
dado no tempo, e com isso o projeto político da modernidade,
pôde se desenvolver. Logo, a moderna concepção de democra-
cia política, i.e., de coletiva modelagem e planejamento de um
futuro compartilhado, é um complemento à temporalização da
história. Quando a história começou a se mover de forma “pro-
gressiva”, a sociedade se tornou um projeto inclinado à mode-
lagem política democrática, e visões utópicas foram projetadas
para o futuro político. Após isso, a escola de Koselleck mantém,
toda a política se tornou “temporalizada” em torno do eixo
progressista-conservador: a política poderia tentar acelerar a
mudança social na direção do progresso histórico, ou preservar
o máximo possível de um passado valioso contra o fluxo da
história. A política progressista figurava, então, como o marca-
-passo da história.
Entretanto, tal como a concepção da história, a moderna
concepção da democracia política pode se revelar convincente
e atrativa apenas no interior de uma “velocidade controlada”
de mudança social, pois processos democrático-deliberativos
da formação da vontade política e tomadas de decisões, ine-

102
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

vitavelmente, levam tempo; e levam ainda mais em sociedades


pluralistas e pós-convencionalistas.
Quanto mais elementos do mundo da vida são destradi-
cionalizados e, portanto, abertos para o debate político, e quan-
to mais condições de base se tornam instáveis, mais tempo leva-
rá para que uma comunidade política se organize e tome uma
decisão racional ou consensual35. Assim, parece haver um pro-
blema crescente de dessincronização para tomada de decisões
políticas na era global: enquanto a velocidade das transações
econômicas, inovações tecnológicas e predominâncias socio-
culturais crescem incessantemente, os processos de tomada de
decisão democrática são parados ou retardados. Logo, em um
mundo de mudança social intrageracional, dirigismo e plane-
jamento políticos não podem mais reivindicar o papel de mar-
ca-passo e centro controlador da história. Mais que conduzir
(futura) mudança social, os governos cada vez mais assumem o
papel de unidades de emergência, envolvidas no trabalho diário
de apagar incêndios em vez de moldar o futuro coletivo. A polí-
tica hoje parece, assim, estar destemporalizada. Um novo situa-
cionismo ou “improviso” substituiu a ideia de uma modelagem
política da história, e cientistas políticos estão prestes a postu-
lar uma era “pós-democrática” de “legitimidade da eficiência”.
O declínio do Estatismo36 desde os anos 1970 significa
esse declínio no papel da política. Com isso, o sentido dos ter-
mos progressista e conservador quase parecem invertidos hoje.
Política progressista, se esta ainda possui algum significado, in-
siste em um controle político da mudança social e tenta conter
a velocidade dos fluxos globais de finanças, bens, e inovações

35 Rosa 2005b.
36 N.T.: Etatism, no original. A palavra é derivada do francês étatisme, e pode aparecer
também como Statism, no inglês. Castells 1996.

103
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

tecnológicas. Ao contrário, muitos dos que antes se considera-


vam conservadores são hoje “neoliberais”, no sentido de que
ainda desconfiam do dirigismo político e, por isso, argumentam
contra a colocação de limites às crescentes forças de mercado
da mudança social. Consequentemente, agora são os progres-
sistas que defendem a desaceleração política, enquanto os con-
servadores pressionam por uma aceleração da mudança e do
desenvolvimento.
Se esse desenvolvimento anuncia o fim da ideia moder-
na da autonomia coletiva, algo muito similar também pode ser
dito sobre o fim da moderna concepção de autonomia indi-
vidual. A “moderna alta” concepção de identidade individual
era baseada na ideia de que cada indivíduo poderia e deveria
achar seu lugar e posição no mundo: ache uma profissão, cons-
titua uma família, desenvolva convicções políticas e religiosas
que sejam “verdadeiras para você mesmo” e “autênticas”, en-
tão cresça e desenvolva seu plano de vida individual baseado
nesses elementos: esta, em poucas palavras, é a concepção mo-
derna não apenas de identidade, mas de autonomia individual,
de autenticidade, e também da boa vida. Claro, tal concepção
é inimaginável no interior de uma ordem social projetada para
permanecer estável de uma geração para outra, i.e., para a qual
as básicas estruturas produtivas e reprodutivas, assim como a
ordem política e religiosa, não são feitas para mudar dinamica-
mente de uma geração para a próxima, mas para serem trans-
mitidas invariavelmente por muitas gerações. Mais uma vez,
isso só pode se tornar um ideal cultural uma vez que a mudança
social tenha cruzado a barreira inferior de ser culturalmente
perceptível. Com o ritmo geracional da mudança social, a pró-
pria vida individual é experimentada como “progredindo” con-
comitantemente a linhas de desenvolvimento (do curso da vida,

104
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

do ciclo familiar e do percurso profissional37). As experiências


e eventos do curso da vida são interpretados e narrados como
elementos cumulativos e elos de uma evolutiva e direcionada
história de vida, como uma história de crescimento, desenvolvi-
mento e satisfação38.
No entanto, essa concepção se torna insustentável e pou-
co atraente uma vez que a velocidade da mudança social cruza a
barreira intrageracional. Como já salientei, assim como políticos
se tornam situacionistas na idade moderna tardia, identidades,
também, perdem o caráter de “projetos temporalizados”: o que
somos é algo que tem que ser decidido de contexto em contexto
e de um momento cronológico a outro, não durante o curso de
uma vida individual inteira. A ideia de viver um plano de vida
– profissional, familiar ou político – parece estranhamente ana-
crônico em um mundo de incessante mudança econômica, ocu-
pacional, cultural e política. Essa transformação das identidades
da modernidade tardia pode ser facilmente traçada mesmo no
interior da linguagem comum. Hoje, nós temporalizamos ou re-
nunciamos criadores de identidades: não somos mais padeiros,
nova-iorquinos, maridos, republicanos ou católicos tout court –
trabalhamos como padeiros agora, somos nova-iorquinos desde
cinco anos atrás, vivemos com isso e aquilo (agora), votamos
nos republicanos da última vez e frequentamos cerimônias cató-
licas. Todos esses alicerces de identidade podem mudar a qual-
quer tempo, devido a nossas próprias decisões ou a mudanças
nas circunstâncias, embora possam permanecer inalterados por
um longo tempo. Em todo caso, se tornaram instáveis e contin-
gentes mesmo se não mudarem. O que, onde e com quem esta-
remos em seguida (e por quanto tempo nossa autoimagem atual
37 Cf. Kohli 1986, e Rosa 2005a, p. 352-362.
38 Sennett 1998.

105
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

permanecerá válida) será decidido com o passar do tempo, não


de acordo com um plano de vida.
Assim, as identidades (como a história e a política) são
destemporalizadas, o próprio tempo é temporalizado, no senti-
do de que a ordem, duração e sequência dos eventos estão aber-
tas ao próprio processo temporal.
Significativamente, esta mudança não tem sido apenas
forçada sobre nós – ela tem sido também abraçada pela cultura
moderna tardia. Logo, uma nova concepção de identidades fle-
xíveis, experimentais, reversíveis, relacionais, situacionistas ou
mesmo múltiplas – como autores pós-modernos tem advogado
há um bom tempo – parece ser um complemento “natural” para
um ritmo intrageracional de mudança social39. Claro, há muitas
pessoas no mundo globalizado que se sentem desconfortáveis
com essa tendência e, como reação, se voltam a soluções fun-
damentalistas para o desafio da instabilidade e insegurança da
modernidade tardia. Entretanto, essa reação também pode ser
entendida como um indicador da crescente fragilidade ou mes-
mo implausibilidade da concepção “moderna alta” das estáveis
autonomia e identidade individuais, visto que isso indica um
anacrônico retorno às concepções pré-modernas de estabilidade
intergeracional (ou mesmo a-histórica).
No caso da política, da mesma forma que no da formação
da identidade, o situacionismo moderno tardio está correlacio-
nado à experiência da mudança frenética, mas não direcionada,
i.e., da inércia veloz.

39 De maneira similar, Zygmunt Bauman 1993, p. 240 compara o “peregrino moder-


no”, que sente que está no caminho rumo a um fim destinado, ao vagabundo pós-
moderno, que é um “nômade sem itinerário” ou destino, e ao turista que “sabe que
não ficará por muito onde está. E, como no caso do vagabundo, tem apenas seu
tempo biográfico para combinar os lugares que visita; do contrário, nada os ordena
nisso mais do que outra moda temporal”.

106
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Quadro 1: Continuidade aceleratória e descontinuidade cultural


na modernidade

Pré-modernidade Modernidade “Alta” Modernidade Tardia


e Princípios da
Modernidade

Velocidade Taxas de trocas Taxas de mudança Taxas de mudança


da Mudança estruturais e se aproximando acima da velocidade da
Social culturais abaixo da do ritmo de troca troca geracional (ritmo
Endógena velocidade da troca geracional (ritmo intrageracional)
geracional (ritmo geracional)
intergeracional)

Indicadores: Estabilidade Estruturas familiares Sucessões de


Estruturas intergeracional de e ocupacionais trabalhos e parceiros
familiares e estruturas familiares mudando com o íntimos substituem
ocupacionais e ocupacionais ritmo geracional: compromissos
(família no sentido individualização para a vida toda:
de uma unidade do trabalho e da “monogamias seriais”
econômica) família; gerações são de ambos o trabalho e
os portadores da a família
inovação

Percepção Congruência Separação dos “tempo eterno”


do Tempo dos horizontes horizontes do e “tempo
da experiência e passado, presente e temporalizado”: a
expectativa; tempo future; tempo linear sequência, o ritmo e a
cíclico duração dos eventos
são contingentes no
curso do tempo

Concepção Concepção estática Temporalização da O “Fim da história”


da História da história: tempo História: no sentido da
histórico como História como modernidade alta;
uma miríade de processo inteligível história
“histórias” e direcionado destemporalizada:
inclinado à não-dirigida, errática,
modelagem política mas mudando
(índice temporal da freneticamente;
política: progressista “política situacionista”
versus conservador) deixa de ser o “marca-
passo” histórico

107
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Pré-modernidade Modernidade “Alta” Modernidade Tardia


e Princípios da
Modernidade

Concepção Percepção ‘situativa- Temporalização da Destemporalizaçãoda


de Vida estática”da vida, Vida: Vida:
Individual centrada nos Perspectiva de Perspectiva de
desafios diários, por um curso de vida um curso de vida
um lado, e baseada progressivamente contingente e
nas substantivas evoluindo com base reversível, adição
identidades nas identidades episódica substitui
“transindividuais”, individuais a narrativa do
por outro estáveis, mas crescimento
autodeterminadas. cumulativo;
identidades
“situacionistas”

V. Conclusão: universalidade e pluralidade,


heterogeneidade e homogeneidade na modernidade
Com isso, o deslocamento da modernidade clássica ou
“alta” para a modernidade tardia pode ser precisamente iden-
tificado como o momento na história da aceleração social em
que as forças de dinamização excederam as capacidades inte-
grativas de indivíduos e sociedades ao ponto em que as con-
cepções modernas de vida temporalizada e história progressiva
cede à percepção da (vida) história não-cumulativa, episódica.
Assim, o “projeto cultural” da modernidade centrado na ideia
da autodeterminação e autonomia, e as forças estruturais da
modernização no sentido de aceleração, deixam de ser aliados
e passam a estar cada vez mais em desacordo. Este momento
crítico, defendi, está essencialmente ligado ao cruzamento do
limiar de velocidade da mudança social de um ritmo geracional
para um intrageracional, pois o último erode os requisitos de
continuidade e coerência conectados ao ideal de preferências
resistentes ao tempo e identidades pessoais estáveis.

108
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

No entanto, é essa uma concepção de modernidade que


pode superar as limitações etnocêntricas e funcionalistas da
teoria da modernização e reivindicar verdadeira universalida-
de? De fato, é isto o que reivindico ao defender que a moder-
nização, em todas as suas manifestações, em todos os lugares
e em todas as épocas, é intrinsecamente definida por (ou ao
menos conectada a) processos de aceleração em todas as três di-
mensões identificadas acima. Modernização é, invariavelmente,
caracterizada pelos fenômenos da aceleração tecnológica, pela
aceleração da mudança social endógena (mesmo onde possa es-
tar conectada à estabilização de elevadas condições de violência
ou conflito), e pela aceleração do ritmo da vida40.
A dinâmica autopropulsora do ciclo de aceleração, claro,
pode reivindicar validade universal também. O mesmo não é
o caso, porém, para os três “motores externos” da aceleração
social. Claro, um modo de produção capitalista e a lógica da
diferenciação funcional causarão aceleração social sempre que
forem aplicados, mas não há razão para assumir que esses dois
princípios são elementos decisivos da modernização per se:
também há versões socialistas ou “funcionalmente integradas”
da modernidade. Isso é ainda mais verdadeiro para o motor
cultural da aceleração social: a ética protestante e a ideia de
que a aceleração pode ser uma resposta ao problema da fini-
tude humana são específicos fenômenos culturais “ocidentais”.
Contudo, a autodinamização da aceleração poderia impor (adi-
cional) modernização mesmo na ausência de um, dois ou dos
três motores externos. Além disso, poderia, claro, haver outros
motores em outros contextos socioculturais. Por outro lado, o

40 Os dados produzidos por Robert Levine e seu grupo de pesquisas (1998) sobre a
velocidade da vida em 31 países empresta suporte empírico ao menos para a última
reivindicação.

109
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

elo identificado entre a velocidade da mudança social e a expe-


riência social do tempo e história pode acabar por envolver al-
gumas constantes antropológicas invariáveis, mesmo que haja,
obviamente, uma ampla gama de variações culturais nisso.
Em todo caso, a definição de modernização como um
processo contínuo de aceleração social nos fornece a chave para
identificar a, ainda que abstrata, lógica unitária ou princípio de
desenvolvimento perante a diversidade cultural, histórica e geo-
gráfica de modernidades. Tal definição não é apenas compatível
com a persistência de uma quase ilimitada gama de diferenças
culturais ou institucionais entre sociedades “modernas”, mas
permite mesmo a crescente divergência como uma consequên-
cia de pressões aceleratórias sob circunstâncias variáveis. Ao
mesmo tempo, a conexão identificada entre a percepção do
tempo e a dinâmica da mudança serve para reconstruir analiti-
camente e explicar causalmente as pausas e rupturas culturais
e institucionais internas ao trajeto do desenvolvimento da mo-
dernidade ocidental.
Por fim, a visão aceleratória da modernidade proposta
neste artigo joga alguma luz sobre o aparentemente insolúvel
debate entre os que diagnosticam uma imparável convergên-
cia e homogeneização entre sociedades e culturas na era global
e os que, pelo contrário, enxergam uma crescente divergência
e insuperável heterogeneidade. Em nível das estruturas mate-
riais, associações sociais e convicções sociais, pode haver rápida
mudança assim como dramática divergência entre sociedades
modernas tardias, mas quando se trata da estruturalmente pro-
funda lógica da transformação global, elas vão invariavelmente
seguir os ditames e a lógica da aceleração social, o que pode es-
tar no coração da “gaiola de ferro” da modernidade, há muito
identificada por Max Weber.

110
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

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113
II PARTE

Dimensões sociais e políticas


da modernização
CAPÍTULO III

Estado, cidadania, modernidade:


Tendências de desenvolvimento
José Maurício Domingues

I. Introdução
A sociologia desenvolveu-se, sob esta ou outra designação
(como “materialismo histórico”), sobretudo combinando acha-
dos teóricos e evidências empíricas. Ao menos foi assim que
os sociólogos “clássicos” procederam – nomeadamente Marx,
Weber, Simmel, Tocqueville e Durkheim. Como é sobejamente
conhecido também, o desenvolvimento da modernidade, fosse
lá como cada um deles a definisse, mais uma vez, usassem ou
não este termo, encontrava-se no cerne de seus esforços. Após
um longo e talvez, mais recentemente, não particularmente pro-
dutivo debate sobre a modernidade e a dita pós-modernidade,
o campo de discussão foi em larga medida evacuado. Isso se
deveu até certo ponto a uma falha intrínseca no quadro em que
o debate se desenrolou, terminando por esposar um caráter for-
temente descritivo antes que analítico, embora apontasse para
uma tendência de longo prazo. Desde então muito da contri-
buição teórica da sociologia foi posta à margem, com avanços

117
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

na identificação das tendências de desenvolvimento na melhor


das hipóteses empalidecendo. O pós-colonialismo e o desco-
lonialismo (latino-americano) reconhecem aspectos centrais da
modernidade em termos de subordinação da periferia pelo cen-
tro, mas não teorizam esses processos enquanto tais, na verdade
evidenciando em larga medida uma visão estática do processo,
o qual muitas vezes ademais declinam de explicar.
Assim, o empiricismo muitas vezes calcado na análise do
discurso e mesmo na oferta de um novo discurso, de denúncia
e crítica, antes que em construções teórico-analíticas (e mesmo
de cunho ideal-típico) obtiveram preeminência após a radica-
lização desses debates. Em vista dessas limitações, precisamos
retomar mais sistematicamente aqueles propósitos teóricos,
que ademais foram sempre centrais para a teoria crítica, des-
de Marx. Isso tem de incluir uma compreensão e teorização
da modernidade em um plano global, apresentando seu surgi-
mento e tendências originais de desenvolvimento, para além de
operações discursivas, que em particular inundam as recentes
abordagens pós-/descoloniais. Tem de ir além igualmente da
mera descrição dos países ocidentais e a descrição de e compa-
ração direta com fenômenos similares alhures, o que demanda
um robusto quadro analítico1.
Para chegar a isso, proponho uma estratégia específica de
modo a relacionar perspectivas empíricas e construção teórica,
apresentações descritivas e abordagens analíticas. Apoiar-me-
ei inicialmente na obra de Roy Bhaskar, sem porém me ater a
qualquer ponto de vista “crítico realista” ortodoxo. Na verda-
de, criticamente deixarei de lado alguns elementos-chave nas
concepções de Bhaskar, rumo a uma démarche mais orientada

1 Ver Domingues 2012, 2013.

118
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

aos processos e antirreificadora. Espero mostrar que os concei-


tos-tendência não devem ser contemplados segundo um ponto
de vista empiricista, que se calca na conjunção de eventos e na
ideia de “uniformidade da natureza” (contrariamente à visão
de Boudon2). Mecanismos explicativos podem ser em vez disso
construídos que nos permitam retomar o que aqueles sociólo-
gos clássicos alcançaram, conquanto sua obra seja mais reve-
renciada hoje que emulada nesse sentido específico. Isso signifi-
ca também que o conceito de mecanismo deve ser salvo de sua
forma por vezes trivializada e da articulação quase empiricista
na maior parte do que hoje passa por “teoria analítica”3, embo-
ra essa corrente tenha de fato explicitamente escolhido uma via
de teorização preciosa e oferecido algumas soluções conceituais
interessantes. Isso não é, de todo modo, exclusivo dos autores
que nela se incluem, nem se encontra confinada a um individu-
alismo metodológico mais ou menos rigoroso, apresentando-se
em vez disso nas obras de Marx, Weber, Parsons, bem como de
uma gama de outros autores “macrossociológicos”4.
Um segundo passo consiste da discussão do realismo,
de estratégias analíticas, de mecanismos e conceitos-tendência.
Isso nos deve permitir entender os processos mediante os quais
a modernidade emergiu, se desdobrou, se reafirma e pode ser
superada. O giro seguinte leva à aplicação dessa estratégia te-
órica a um problema específico, a saber, o desenvolvimento do
estado moderno. Sua dinâmica contraditória e os mecanismos
que a engendram são evidenciados, bem como sua separação
e entrelaçamento com a “sociedade” moderna. Permaneço do

2 Boudon [1989] 2004.


3 Hedström e Swedberg 1998.
4 Ver, para um apanhado geral, Manicas 2006, cap. 5.

119
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

início ao fim em plano muito geral, distante de um engajamento


com metamorfoses mais concretas do estado, seus regimes his-
tóricos e as questões de que vem tratando ao longo da moderni-
dade. Enfim, articulo as implicações dos argumentos propostos
nesse plano mais geral para uma nova visão da modernidade e
a noção de conceitos-tendência como chave para sua adequada
compreensão em um nível global, assim como analiticamente
definindo um conjunto de mecanismos que subjazem a esses
processos.

II. Para além do empiricismo


O principal alvo de Bhaskar nas obras que dedicou à fi-
losofia da ciência foi o empiricismo, ou melhor, sua equivocada
compreensão do que fazem os cientistas – basicamente com re-
ferência às ciências naturais, na verdade principalmente à física.
Somente depois ele aplicou essa perspectiva às ciências sociais
(nas quais os pesquisadores, pode-se sugerir, realmente esposam
perspectivas decididamente mais empíricas, inclusive quando
escolhem abordagens hermenêutico-interpretativas). Uma teo-
ria realista da ciência foi o resultado desse empreendimento,
apresentando uma visão “estratificada” da realidade, na qual
se supõe que os “mecanismos” que geram “eventos” existem e
perduram independentemente destes últimos. Bhaskar atacou
em especial a teoria de Hume da causalidade e a ideia de “con-
junção de eventos” como uma condição necessária e suficiente
da ciência. O “real” subjacente às leis causais é então fornecido
pelos “mecanismos gerativos (generative) da natureza”. Estes
não são “nada mais que as maneiras de atuação das coisas (the
ways of acting of things)”, com as leis causais consistindo em
“suas inclinações” (tendencies), que podem ser vistas como os

120
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

“... poderes ou suscetibilidades de uma coisa que podem ser


exercidos sem se manifestar em qualquer resultado particular”.
Este tipo de “condicional” pode ser caracterizado como “nór-
mico”, concluiu ele5.
Bhaskar aduziu que os “mecanismos” – que em algum
momento definiu como equivalentes a “inclinações” e fundam
“afirmações de tipo científico-legal (law-like)” – “persistem”
mesmo quando não “agem” e “agem” de “maneira normal”
mesmo quando os efeitos não se produzem devido a “mecanis-
mos intervenientes” ou “causas contrapostas (countervailing)”.
As conjunções dependem da ação humana e de experimentos,
conduzidos em geral dentro de laboratórios. Alternativamente,
portanto, precisamos construir uma “ontologia de estruturas”
e “seres transfactualmente ativos”, levando em conta os “pode-
res causais” de modo a desenvolver uma abordagem “realista
transcendental”. A ciência se mostra assim vinculada a “pos-
sibilidades”, não a “efetividades” (actualities): “as inclinações
(tendencies) podem ser possuídas sem ser exercitadas, exerci-
tadas sem se realizar, e [se] realizadas [permanecer] sem serem
percebidas (ou detectadas) pelos homens”. Eventos e estados
momentâneos de coisas não dependem de experiência empírica
– são também independentes dos seres humanos, exceto quan-
do produzidos em condições – experimentais – controladas6. O
realismo crítico, transcendental, é uma maneira de perguntar
e responder como o mundo deve ser para que a ciência seja
possível, como de fato é, com suas duas dimensões – “transi-
tiva”, dada pelo conhecimento humano prévio, e “intransiti-
va”, porquanto o mundo exista independentemente dos seres

5 Bhaskar 1975, p. 12-15.


6 Bhaskar 1975, p. 16-26, 46 e 52.

121
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

humanos. De modo contrário, o realismo empírico (do qual


o verificacionismo e o falsificacionismo são variantes) mistu-
ra, redutivamente, através da “falácia epistêmica”, ontologia e
epistemologia, com aquela terminando baseada na categoria de
“experiência,” relacionada aos eventos atomísticos e sua con-
junção. Contra Hume e seus seguidores empiricistas, mas no
contexto de um descarte rápido (por más razões, argumento
adiante) do realismo platônico, Bhaskar crê ter por conseguinte
uma “base perfeitamente lógica para as leis causais”: ele pôs
de lado sua reificação, bem como a reificação dos mecanismos,
mas pensou que “não pode ser errado reificar coisas!”7.
Numa série de passos complementares, Bhaskar afirmou
que o conceito de “inclinação” (tendency) implica na ideia de
“atividade contínua”, logo uma concepção dinâmica de poder
(causal). Elas são possuídas e podem ser exercidas na medi-
da apenas em que seus possuidores não mudem. Uma vez pos-
tas em movimento, uma inclinação é realizada, a menos que
impedida por outra tendência. Isso é o que fornece uma base
adequada para afirmações de tipo científico-legal. Mas somente
uma direção se concretiza: se duas inclinações estão em jogo, a
resultante não é uma combinação de seu impulso causal (afir-
mação que não é clarificada e parece ser com efeito arbitrária
– e errada). Ele explicou também por que seus “condicionais”
são “nórmicos”, em vez de “subjuntivos” (contra a visão de
Hume): as inclinações apontam para o que está acontecendo,
não para o que aconteceria; elas não geram “contrafactuais”,
senão “transfactuais”, sejam seus efeitos “manifestos” ou não.
A “essência” ou “substância” “real” ou “nominal” de uma coi-
sa, prosseguiu Bhaskar, aparentemente desconhecendo as impli-

7 Bhaskar 1975, p. 16, 36, 46 e 56.

122
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

cações platonistas da afirmação, são suas “propriedades e po-


deres”, de passagem asseverando que “…estruturas agem…”8.
Na visão de realidade estratificada que Bhaskar propôs,
os mecanismos pertencem assim ao domínio do “real”, eventos
ao “efetivo” (actual), ao passo que a experiência ao “empírico”.
O empiricismo é incapaz de entender isso, aquilo que faz a ci-
ência realmente possível. A taxonomia é portanto uma questão
para a ciência, mas a explicação também. O empiricismo pode,
todavia, oferecer uma lógica para esta última somente calcado
no princípio do “determinismo de regularidades”. De acordo
com essa ideia, a mesma causa corresponde sempre ao mesmo
efeito – o que significa que a operação oposta, simétrica, de-
veria ser igualmente considerada: segundo ele, nessa perspec-
tiva o mesmo efeito teria sempre a mesma causa. A ideia de
“uniformidade da natureza” está obviamente vinculada a esse
ponto de vista. Está porém errada, porquanto se refira à “inva-
riância de padrões de eventos (ou experiências)”, conquanto
Bhaskar parecesse aceitá-la no que tange ao domínio do real: a
indução se justifica se se refere a generalizações tomadas como
“leis da natureza”. Em contrapartida, para o realismo transcen-
dental “afirmações nórmicas” se referem a “estruturas”, não a
“eventos”, ao “gerador” antes que ao “gerado.” Não se trata de
“generalizações empíricas meramente substitutas (second best
kind)”, “sequer são na verdade afirmações empíricas”, mas o
que permite a ocorrência dos próprios eventos e do empírico,
sua realidade subjacente, mais profunda. Elas fornecem as te-
orias, os modelos, que se pretendem “reais” (embora ele tenha
aduzido que não há “correspondência”, “conformidade” ou
“similaridade” entre “objetos” e “pensamento”, uma afirmação

8 Bhaskar 1975, p. 50-51, 91, 97-98, 100, 109, 189-92 e 221.

123
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

estranha, incongruente, para um realista). Contudo, enquanto


que eles têm poder explicativo, não os têm necessariamente no
que concerne à predição9.
Condensei os argumentos longos, densos, por vezes tortu-
osos de Bhaskar devido a sua riqueza e também porque eviden-
ciam problemas que demandam revisão de modo a chegar-se a
uma concepção mais adequada do que trata e deveria tratar a
ciência, em especial em seus ramos sociais, que Bhaskar enfren-
ta em uma série de volumes subsequentes, sem realmente por
vezes uma compreensão mais profunda da literatura e do que
os pesquisadores mais avançados, próximos a sua perspectiva –
inclusive o realismo – propunham. Considero que sua refutação
do empiricismo e a identificação de mecanismos relativos aos
poderes causais como muito importante para nosso entendi-
mento da ciência, bem com sua visão de que precisamos mergu-
lhar em profundidade na realidade (social). Isso não autoriza,
porém, sua noção de “estrutura” ou de camadas estratificadas
da realidade. Inclinações não consistem em um aspecto oculto
da realidade que subjaz aos eventos, mas sim processos que
conformam resultados – que na longa duração em particular
podem configurar tendências de desenvolvimento, que podem
estar em oposição a outras tendências, oriundas de processos
que se inclinam em outras direções, opostas inclusive, ao con-
trário da afirmação aparentemente gratuita de Bhaskar, geran-
do-se uma direção específica, uma mistura ou nova flecha cau-

9 Bhaskar 1975, p. 21-23, 52-56, 69, 101, 104, 141, 212, 247-48 e 250. A indução
para ele se refere a “que justificativa temos para raciocinar de casos particulares na
direção de afirmações gerais”; a edução se refere a extrapolações do “observado”
ao “não observado” ou do passado para o futuro e se justifica apenas se o sistema
é fechado, ou seja, consiste de um processo experimental, uma vez que, dada uma
inclinação, necessariamente se realizará. Ele não tem simpatia pelo “dedutivismo”
porquanto este seria estreitamente ligado ao “efetivismo” (actualism) – a necessária
ocorrência de eventos sendo nele onipresente (Bhaskar 1975, p. 129, 216 e 219).

124
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

sal, que não era o que tendências independentes em princípio


gerariam10.
Sua identificação de estruturas e coisas com poderes cau-
sais leva contudo a uma confusão, com ele além do mais por
vezes misturando-as com “processos”, especialmente ao pro-
por uma concepção “naturalista” da vida social11. Cai assim
em uma reificação massiva ao fortemente e sem qualquer ar-
gumento ontológico suplementar fiar-se na ideia de estrutura
social (a despeito de sua limitada e até certo ponto ingênua fle-
xibilização dialética mediante sua combinação com a “ação”)12.
Talvez – conquanto eu duvide disso – se possa atribuir poderes
causais a “coisas” na natureza (na verdade creio que processos
deveriam ter lugar de destaque também nessa dimensão). Na
vida social isso é, todavia, patentemente absurdo, derivando de
um acolhimento não controlado do realismo platônico, com
suas referências a “essências” e “substâncias.” Não por acaso
Bhaskar passou apressadamente por esse tipo de concepção, de
maneira ligeira e não efetiva a criticando, com efeito a abraçan-
do. Um tipo de realismo diferente é necessário.
10 É interessante notar ademais que nas línguas latinas, bem como em alemão, há uma
superposição de significados nas palavras tendence, tendencia, Trend, etc., mas que
sua diferenciação em inglês entre tendency e trend permite uma compreensão mais
sutil da questão. Para solucionar aquela polissemia potencial e a confusão que inevi-
tavelmente causaria, rende-se aqui o primeiro como “inclinação” e o segundo como
“tendência”.
11 Bhaksar [1979] 1998.
12 Ver também Archer, Bhaskar, Collier, Lawson e Norrie, 1998, bem como Manicas
2006, para outras análises nessa direção. A noção de estrutura é algo esfumaçada
em Bhaskar, sendo endurecida por seus seguidores realistas críticos. Originalmente
bebeu na visão radicalmente reificada das ciências naturais (a física) sobre as “coi-
sas” como possuidoras de inclinações e, quando isso foi transposto para as ciências
sociais, concepções de raiz estruturalista tomaram conta dos argumentos. Manicas
(2006, p. 67ss e 115ss) reconheceu isso e adotou em vez disso a noção de Giddens
das estruturas como “virtuais”, destarte negando poderes causais a “estruturas” e
falando apenas de “pessoas” como agentes causais. Isso é, porém, como argumenta-
rei adiante, também redutivo, embora escape às deficiências de um realismo platôni-
co das essências.

125
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Para isso é mister recorrer ao legado da teorização ana-


lítica nas ciências sociais. Em sua não publicada “Introdução”
aos Grundrisse ([1857-58] 1983) Marx esboçou o que na prá-
tica faria em O capital ([1867] 1968), a saber, uma vasta re-
construção do “universal concreto” da realidade econômica na
modernidade em termos de um sistema de categorias analíticas,
inspirado pela lógica de Hegel13. De modo similar, Parsons pro-
pôs na realidade um termo e um método ao qual foi fiel por
ao menos certo tempo, nomeadamente, o “realismo analítico”,
em espírito mais kantiano14. Ambos identificaram a necessida-
de de mentalmente reconstruir os mecanismos que causalmente
moldam a realidade, começando pelas categorias mais gerais.
Mas não recorreram a estruturas (exceto como uma sorte de
modelo descritivo e como um instantâneo, no caso de Parsons).
Em vez disso, ambos focaram em processos, tecidos por indi-
víduos e coletividades, mudança incessante e mecanismos que
a produzem, bem como se antepõem, intencional ou não inten-
cionalmente, para preveni-la ou ao menos controla-la e dirigir
a transformação da realidade (sem tampouco pressuposições
individualistas metodológicas). O platonismo foi claramente
rejeitado. Se aqui e ali Marx usou o que me parecem palavras
inadequadas, tal como “essência” e “aparência” (ou de modo
explícito conectou “estrutura” a relações dinâmicas) para falar
de realidades subjacentes, isso na verdade nada tinha que ver
com noções de substância15. Ele estava determinado a por a nu
todos os tipos de reificação que ocorrem na “sociedade” mo-

13 Jessop (1990, p. 340-44) assinalou a necessidade de seguir a mesma estratégia no


que tange ao estado, mas nunca a realizou plenamente.
14 Parsons [1937] 1966 e [1951] 1979.
15 Ver Domingues 1995 e 1999, cap. 2.

126
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

derna, em especial através de sua crítica da economia política,


assinalando as interações, práticas recorrentes e relações sociais
que subjazem à mercadoria, ao dinheiro, à fórmula trinitária e
a outras construções sociais. Seja como for, tanto Marx quanto
Parsons concordam com Bhaskar na recusa do empiricismo e
sobre a necessidade de interpretar a realidade através da teoria
e da identificação de mecanismos.

III. Mecanismos e conceitos-tendência


Eis o que, precisamente, quero aqui desenvolver. Logo,
antes de tratar diretamente no tópico substantivo da emergên-
cia e desenvolvimento do estado moderno e de sua relação com
a sociedade moderna, gostaria de delinear a conexão entre me-
canismos e conceitos-tendência no plano analítico, antes que
naquele mais comum, empírico, no qual é amiúde articulado.
Isso nos situa no coração de um tipo de realismo antireificador.
Os conceitos-tendência têm sido, ou costumavam ser, uma
questão-chave nas análises sociológicas. “Democratização” em
Tocqueville, desenvolvimento “capitalista” e suas consequências
comunistas em Marx, “ascetismo mundano” e “racionalização”
em Weber, a autonomização objetiva da “cultura subjetiva” em
Simmel, uma nova forma de “solidariedade” (“orgânica”) em
Durkheim, “diferenciação” desde os começos da teoria social
moderna até Parsons e Bourdieu, Habermas e Luhmann, “dis-
tanciamento tempo-espacial” e “mecanismos de desencaixe”
em Giddens, para tomar apenas alguns temas dos mais famosos
e centrais autores sociológicos. Mas também “secularização”,
“capitalismo monopolista”, a emergência e desenvolvimento
do “estado moderno”, a “crise” da ética protestante e o cres-
cimento do hedonismo, o desenvolvimento de traços “pós-mo-

127
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

dernos” desde os anos 1970, o surgimento da “sociedade pro-


gramada”, o estabelecimento de uma “sociedade em rede”, a
chamada “globalização” contemporânea, o florescimento das
“modernidades múltiplas”, assim como muitos outros temas
menos abrangentes, têm pululado na sociologia desde seu iní-
cio até as abordagens dos anos 1980. São estes os processos
que foram considerados típicos da modernidade. As chamadas
“teorias da modernização” e o marxismo se destacaram no sé-
culo XX em relação a esses processos e os conceito-tendência a
eles associados.
Todavia, como teorizá-los tem sido muito menos frequen-
temente um tópico para os sociólogos (ver o Capítulo 1 deste
livro). De modo geral eles têm sido enquadrados pelo empiri-
cismo, ou seja, têm sido entendidos de acordo com uma mera
associação de variáveis, como conjunções empíricas de tipo hu-
meano, justo daquele tipo que figura como o principal alvo das
críticas de Bhaskar. Uma vez A, logo B, o que significa que se
B está ausente deve-se supor que A tampouco estará presente,
ao passo que se A está presente e B não ocorre o analista está
virtualmente perdido, porquanto a explicação de por que essas
associações entre varáveis têm lugar ou não é defeituosa, su-
perficial (principalmente pela reiteração de questões empíricas,
na melhor das hipóteses mediante generalizações empíricas e
conceitos descritivos) ou simplesmente não dá o ar da graça.
Na verdade algum tipo de “teoria” rudimentar e empiricamente
articulada é amiúde encontrada na maioria dessas abordagens.
Mas teorização ao mesmo tempo aberta e robusta está geral-
mente em falta, não obstante a riqueza de intuições e conceitos
que as ciências sociais têm sido capazes de produzir em vários
momentos.

128
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Proponho levar a ideia de conceitos-tendência a um ní-


vel mais alto de teorização, a saber, o nível analítico. Em lugar
da mera associação de variáveis ou mesmo generalizações em-
píricas que supostamente dão sustentação a afirmações mais
gerais sobre as tendências modernizadoras, é através da defi-
nição desses processos por meio de construções analíticas que
deveríamos tratar a modernidade. Podemos assim reconstruir
os mecanismos de modernização, bastante gerais, que são capa-
zes de fornecer uma explicação de por que esses resultados se
verificam, quer dizer, de por que a secularização pode ou não
ocorrer, de por que o capitalismo se desenvolve ou não, de por
que o estado moderno (racional-legal, burguês, relativamente
autônomo) emerge, também com aspectos neopatrimoniais, de
por que a individualização e a complexificação, para levar a
questão para um plano ainda mais geral, têm lugar ou não. É
preciso, ao construir conceitos, superar o status de meras gene-
ralizações empíricas.
“Inclinações” contidas em processos que são típicos da
modernidade têm de ser identificadas – não como propriedades
de “coisas” ou “estruturas”, mas como a propensão de tendên-
cias específicas entendidas em termos de processos sociais não
reificados, nem redutíveis a indivíduos ou “pessoas”, mas igual-
mente para além do caráter social geral frequentemente a eles
atribuído. Devem ser compreendidos de modo a nos permitir
ir além do mundo empírico difuso, ao qual temos acesso mais
imediato (conquanto até certo ponto inevitavelmente mediado
ao menos pelas categorias do senso comum, carregadas ade-
mais de elementos ideológicos, como Marx e Freud apontaram,
algo que os cientistas sociais muito facilmente esquecem). Isso
é o que nos permitiria também ir além do empiricismo sem a

129
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

problemática – e reificante – assertiva sobre o caráter “estra-


tificado” da realidade no plano ontológico –, descartando en-
tão as “estruturas”, que devem ser substituídas por processos
que geram processos. A estratificação deveria ser confinada ao
nível epistemológico, ao conhecimento, a nossa possivelmen-
te crescente penetração cognitiva da natureza e da vida social,
por meio da construção de categorias e mecanismos, proven-
do esquemas analíticos gerais que contêm também relações
causais (explicações assumindo posição importante, mas não
exclusiva). Não há um caminho luminoso para a construção
da ciência, todavia pode-se sugerir que descobertas empíricas
particulares, generalizações empíricas e a construção de cate-
gorias analíticas, qualquer que seja a direção que essa relação
dinâmica tome, estão, ou têm de estar, no coração da teorização
sociológica (a despeito do relevante papel das analogias e coisas
do mesmo estilo em estágios iniciais da teorização). Poder-se-ia
assim reconciliar o realismo de Marx e Parsons, do tipo ana-
lítico, com a crítica de Bhaskar do empiricismo e sua própria
variedade de realismo, retomando sua compreensão dos meca-
nismos como crucial para a articulação do conhecimento cien-
tífico e a impulsionando rumo a uma aplicação às tendências
de modernização.
Ulteriormente neste texto formalizarei algumas ideias
mais específicas vinculadas a essa perspectiva geral, vinculando
mecanismos a subjetividades coletivas e detalhando analitica-
mente suas multifacetadas características nessa conexão mo-
dernizadora. Em vez de fazer isso abstratamente a esta altura,
lançar-me-ei agora em uma discussão mais concreta de uma
tendência e conceitos modernizadores, em termos de sua emer-
gência, desenvolvimento (reiteração) e possível superação.

130
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

IV. O estado moderno e a sociedade moderna


O estado e sua relação com a sociedade têm sido evi-
dentemente centrais, temas sobre os quais se escreveu muito
nas ciências sociais. Proponho especificamente uma maneira de
enquadrar analiticamente a questão e de trabalhar a ideia de
tendências modernizadoras a ela vinculadas. É importante en-
fatizar que o tipo particular de formação social moderna, isto
é, a “sociedade”, em sua forma agudamente delimitada, é em
larga medida engendrada pelo próprio estado moderno, com
seu poder territorial cortante e capacidade sem precedentes de
penetrá-la e dirigi-la. Este é um tipo peculiar de desenvolvimen-
to histórico. Convém observar também, embora este não seja
nosso foco aqui, que esse estado, desde sua concepção, tem se
situado em um sistema cada vez mais globalmente abrangente
de estados formalmente soberanos. A separação formal entre
estado e sociedade – real, mas em grande medida também ide-
ológica –, bem como seu mais profundo entrelaçamento, é ade-
mais um aspecto importante da modernidade16.
Possamos ou não falar propriamente de “estado” em ci-
vilizações anteriores ou se devemos nos referir a um “sistema
político” mais difuso17, porquanto aquela entidade não apareça
como uma “forma” separada e centralizada de dominação18,
é questão que não nos ocupará aqui. Mas quero sublinhar
que o sistema político – nomeadamente, a instância na qual
decisões e políticas que afetam a sociedade de maneira ampla
são definidas – é muito maior que o estado, com forças sociais
operando fora deste último, bem como se projetando sobre ele

16 Poulantzas 1978; Giddens 1985; Jessop 1990; Mann 1993, cap. 3.


17 Almond 1960.
18 Como em Weber [1921-22] 1980, p. 9.

131
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

e se cristalizando em seu seio (Jessop, 2008, p. 1-11). Some-


se a isso que a burocracia – a dimensão administrativa – deve
ser distinguida do sistema político propriamente dito, embora
tome decisões políticas de forma mais discreta e limitada (algo
que Habermas19 por exemplo, sistematicamente confunde, pos-
sivelmente seguindo a pista equívoca de Weber). O estado tem
sido um meio crucial por meio do qual a “questão existencial”
social, crucial, da distribuição do poder na vida social tem sido
respondida na modernidade, com seus aspectos e dinâmica es-
pecíficos e desiguais, bem como amplamente independentes (as
relações de poder além do mais atravessando a vida social de
cabo a rabo, em termos pessoais ou econômicos, por exemplo).
O estado contém ainda um elemento decisivo de poder executi-
vo, que é exercido sobretudo pela burocracia.
A discussão encetada adiante se calca na identificação de
duas tendências principais no que concerne ao estado e à socie-
dade na modernidade – ou àquilo que quero chamar aqui de
sistema estado-sociedade. Trata-se do crescimento contínuo do
poder do estado (não obstante mudanças de regime e função,
incluindo recentes reorientações globais) e o desenvolvimento
de uma cidadania cada vez mais autônoma. Examinemos pri-
meiramente a literatura sobre o tópico, em certa medida teó-
rica, mas com demasiada frequência se detendo no nível das
generalizações empíricas. Podemos então apresentar uma con-
cepção analiticamente articulada.
Sabemos ao menos desde Weber20 que o estado moderno
tem como um de seus traços centrais seu caráter “racional-le-
gal”. Isso significa que tem sido abstratamente concebido de
acordo com o sistema legal e a racionalidade instrumental (a
19 Habermas 1981.
20 Weber [1921-22] 1980, p. 122-76, 387-513 e 541-868.

132
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

crescentemente mais adequada conexão entre fins e meios) pos-


suída pela burocracia (incluindo também o judiciário sobretu-
do), através do que encontra sua “legitimidade”. Há certa di-
ficuldade com a caracterização do direito moderno em Weber,
uma vez que a “common law” anglo-saxônica é costumeira an-
tes que realmente formal, embora originalmente sistematizada
de acordo com o cânone do direito romano, o que é antes um
aspecto da tradição da “civil law” da Europa continental e da
América Latina. Contudo, de modo geral ele queria dizer que
em sua aplicação os modernos sistemas legais abstraem das ca-
racterísticas específicas do contexto e das pessoas envolvidas
(conquanto pareça haver mais recentemente algum tipo de con-
vergência entre os dois sistemas, com questões concretas escor-
rendo para dentro da variante do direito civil). A burocracia
também mantém um interesse abstrato no estado na medida
em que, separada dos “meios de administração”, da mesma ma-
neira que os trabalhadores dos “meios de produção” na abor-
dagem de Marx do capitalismo, ela não teria nada em jogo
patrimonialmente e trabalharia segundo um código de honra
específico e regras formais, visando meramente a eficiência ra-
cional na realização de suas tarefas. Weber viu a dominação
estatal como autônoma, uma corporificação e fonte particular
do poder. Era uma realidade peculiar existente apenas na mo-
dernidade, quando controla o território e monopoliza os meios
legítimos de violência, diferentemente da dominação “tradicio-
nal” e da “carismática”, embora em sua obra nunca fique clara
a relação entre o poder político e a burocracia.
No marxismo, ao menos um elemento chave da visão de
Weber tem se feito presente, a despeito de divergências funda-
mentais: nomeadamente, o caráter abstrato do estado moder-

133
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

no, que o próprio Marx21 opôs em seus escritos de juventude


aos elementos concretos (de classe e religiosos) que se encon-
tram na “sociedade civil burguesa” (expressão tomada da filo-
sofia do direito de Hegel). Obviamente a dominação de classe
era um elemento decisivo na concepção posterior de Marx22
e o marxismo a assimilou como um aspecto crucial de sua
incompleta teoria do estado. A face concreta das operações
do estado “capitalista” tem sido tratada pelos marxistas, por
exemplo Gramsci ([1929-35] 2001), Poulantzas (1968 e 1978)
e Milliband (1971), com uma perspectiva mais “instrumentalis-
ta”, “funcionalista” ou “relacional” (por vezes asseverando sua
quase total autonomia, conquanto condicionada)23. Os agentes
que manejam o executivo e o parlamento, as forças armadas
e a polícia, o sistema jurídico e os bancos centrais, bem como
o “estado alargado” (a “sociedade política” mais a “sociedade
civil”) ou seus “aparelhos ideológicos” (escolas, igrejas, sindica-
tos, etc.) têm sido de suma importância nesse sentido.
Estranhamente, não houve muito desenvolvimento na
corrente weberiana no que concerne à dominação racional-le-
gal, a maioria dos autores mostrando-se satisfeita em reafirmar
a visão clássica. Tilly24 e Mann25 mais indireta e parcialmente
representam desenvolvimentos recentes, heterodoxos, das ideias
de Weber, limitados sobretudo ao nível das generalizações em-
píricas (ainda que ideal-típicas) sobre a concentração do poder
no aparato estatal e seus laços com o capital e a sociedade, que
Mann enfeixou conceitualmente em termos de “cristalizações”

21 Marx [1844] 1956.


22 Marx [1871] 1986.
23 cf. Jessop 1990, cap. 12.
24 Tilly 1992.
25 Mann 1993, especialmente cap. 3.

134
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

em seu seio (com, por sua vez, Evans, Rueschemeyer e Skocpol,


1985, enfatizando as “capacidades” burocráticas do estado
em termos de seu exercício do poder). Nesse sentido, embora
recorrentes reclamações sobre o esboço inconcluso da teoria
emirjam, o marxismo foi mais longe e refinou certo número
de perspectivas sobre estado e seu duplo societal. Isso é visível
na teoria geral do direito de Pasukanis ([1926] 1969), na qual
se encontra de novo a tese de seu caráter abstrato, bem como
sua forte ideia de que a relação com o “proprietário de merca-
dorias” é a chave para apreender a totalidade do sistema, que
tem no “contrato” seu principal elemento dinâmico. Pasukanis
afirmou também que a “forma” da lei, com seu próprio “feti-
chismo” – opondo, com par complementar as dimensões pri-
vada e pública, pessoas privadas e membros da sociedade po-
lítica –, era absolutamente crucial tanto para o estado quanto
para a sociedade moderna, que no fim das contas se interpene-
tram. Poderíamos complementar isso e introduzir a conexão de
Lukács26 entre a teoria do direito em Weber e a teoria de Marx
sobre o lado abstrato da mercadoria, cujo resultado era sua tese
acerca desta última como provedora da “abstração real” sobre
a qual toda a “superestrutura” da sociedade moderna, capitalis-
ta, se baseia. O próprio Poulantzas27 esteve também atento ao
caráter abstrato do direito em sua teoria final.
Portanto, se a separação entre estado e sociedade foi
introduzida inicialmente como aspecto básico da vida social
moderna, podemos ver também que o estado é definido espe-
cificamente por seus elementos abstratos, em contraposição à
dinâmica concreta da vida social, com seus interesses e identi-
dades particulares. Aquelas são todas enquadradas e mediadas
26 Lukács [1923] 1977, p. 169-86, 271-2 e 183-5.
27 Poulantzas 1978, p. 54-55, 94-99.

135
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

pelo direito moderno, a começar pela cidadania como uma abs-


tração real, como eu gostaria de pôr a questão, de certo modo
invertendo a perspectiva de Marx, Pasukanis e Lukács, com
respeito à mercadoria e à “superestrutura”, o que significa que
muito da vida social moderna depende desse andaime imaginá-
rio e institucional para funcionar e inclusive produzir contratos
econômicos entre agentes igualmente livres28. Há um vínculo
óbvio entre esses dois lados da divisão e do entrelaçamento en-
tre estado e sociedade que é dado pela própria ideia de um siste-
ma bifurcado de direito publico e privado, cujos sustentáculos
são em larga medida os mesmos indivíduos que concretamente
produzem a vida social de modo amplo e são simultaneamente
membros do estado. Podemos dizer, recorrendo à concepção de
Marx sobre a mercadoria em O capital, com seus valores de
uso e troca, que o sistema estado-sociedade consiste em uma
unidade dialética de contrários cuja influência recíproca é cru-
cial para a dinâmica de desenvolvimento da modernidade.
Posta desta maneira, tal conceitualização poderia nos le-
var entretanto a uma compreensão estática das operações do
estado moderno, não obstante o componente em princípio in-
troduzido por aquela tensão dialética. Cumpre mover-nos para
além desta possível limitação. Em primeiro lugar, cumpre re-
conhecer o que é já corrente na literatura: dentro da própria
cidadania o concreto fez uma irrupção de grande monta, atra-
vés de seu aspecto social, de certos tipos de direitos coletivos,
de direitos difusos e categorias semelhantes. Quando não foi
pela cidadania que se chegou a isso – ou se andou dela para
outras categorizações menos universais, como nos quadros de
um liberalismo social do século XIX ou contemporâneo – foi

28 Ver Domingues 2002, cap. 3.

136
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

pela política social, ao criar populações-alvo, que o concreto se


afirmou em relação ao caráter meramente abstrato que compa-
recia tanto à cidadania civil quanto à cidadania política. Como
mecanismo impulsionador desse processo podemos sem dúvida
indicar a preocupação de círculos privados e estatais dominan-
tes, mas foi nas lutas populares pela ampliação das instituições
da modernidade que se deve localizar a dinâmica que levou
àquela relativização do abstrato, ainda que, com a cidadania
social universal este ainda tenha grande peso nas definições dos
indivíduos modernos. Isso se desenha de forma tanto positiva
– pois possuem direitos – quanto negativa – pois tendem esses
sujeitos a terminar como clientes e numa posição passiva. Por
sua vez, as políticas focalizadas fazem o mesmo, mas singu-
larizando-se grupos apenas com benefícios de prazo definido,
sem falar de formas mais tradicionais de clientelismo (fino ou
denso)29. De todo modo, uma verdadeira tendência histórica se
localiza na afirmação do concreto da vida social. Mas a discus-
são não deve deter-se aí.
Em uma sugestiva discussão, Karatani retomou o deba-
te sobre O Dezoito Brumário de Louis Bonaparte30. Para ele,
Marx estava preocupado com a “repetição” como “compul-
são” e via a história como uma oscilação entre a representação
(Vertretung) normal da burguesia no estado (que, uma vez cons-
tituída por meio das urnas, se torna independente dos eleitores,
como “representantes da nação”) e sua crise. Desde Bonaparte,
bem como no fascismo (uma forma de “bonapartismo”, afirma
Karatani) uma figura societal específica tem emergido suposta-
mente para unificar a sociedade e imaginariamente superar suas

29 Marshall [1950] 1964; Domingues [2009] 2011.


30 Karatani [2004] 2011 e 2005, p. 147 e 276.

137
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

“classes fragmentadas”, implicando num “retorno do reprimi-


do” (a soberania absolutista) e seu buraco não preenchido.
Embora eu considere a identificação de Karatani de bonapar-
tismo e fascismo totalmente absurda (e politicamente perigosa),
o ponto válido em seu argumento é a oposição entre represen-
tação abstrata e o surgimento súbito de forças baseadas direta-
mente na sociedade – ou mesmo vinculadas ao estado, deve-se
aduzir – que, em momentos de crise, empalmam o poder e reor-
ganizam a vida social, como um movimento dialético intrínseco
à civilização moderna e não apenas transitório enquanto não
foi esta plenamente constituída e estabilizada. Em contribui-
ção ligeiramente mais antiga, esse é mais ou menos o ponto de
vista de Zavaleta (1990) também. Ao passo que a democracia
burguesa seria a forma normal da dominação capitalista, diz
Zavaleta (no que é uma afirmação discutível), espelhando a li-
berdade civil de estabelecer contratos desfrutada pelas pessoas
no mercado, em tempos de crise os “mediadores” se posicionam
no centro do sistema político. Logo, fora da política normal,
aqueles que eram anteriormente “mediadores”, os quais são em
parte baseados no estado, em parte na sociedade, e usualmente
operam para fazer mais perfeita a dominação, são liberados
da dominação estatal (que valoriza tão somente a si própria,
com sua parcial autonomia e o ofuscamento ideológico de seus
laços sociais) e podem até mesmo converter-se em agentes es-
tatais que diretamente representam a sociedade – em uma di-
reção reacionária ou progressista, mas sempre dinamicamente.
O cesarismo “progressivo” ou “progressivo”, em face de “crises
orgânicas”, segundo Gramsci31, de alguma maneira comparti-
lha esse irrupção dos elementos concretos extra-institucionais.
31 Gramsci [1929-35] 2001, vol. 3, p. 1619–20.

138
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Vale notar que, com uma sensibilidade e intenção diame-


tralmente opostas, a teoria da modernização observou tipos si-
milares de fenômenos. Huntington (2006) sugeriu que durante
os processos de modernização, que podem entrar em colapso,
em especial se as instituições são fracas, “forças pretorianas”
podem emergir como poderes estatais para organizar a socie-
dade, que não seria de outra maneira capaz de se vertebrar po-
liticamente. Ele estava de fato falando de golpes militares na
América Latina, em relação aos quais era simpático e tentava
legitimar (embora mais de passagem mencionasse também os
estudantes e o clero como “forças pretorianas”). De todo modo,
isso significaria na verdade o deslocamento de forças dentro
do estado, ou a emergência de forças diretamente sociais, en-
gendrando uma ruptura tanto com caráter abstrato do sistema
legal e da racionalidade burocrática que em princípio, ideal-
mente, molda seu aparato administrativo. O ocidente, em espe-
cial os países anglo-saxônicos, tendo desenvolvido a moderni-
dade em um período de tempo muito mais largo que o resto do
mundo não teve, Huntington argumentou também, que lidar
com essa situação ingrata, e ele o considerou, tudo somado (em
uma apologia), já para além de seus riscos. Antes dele, referin-
do-se à Argentina, mas inaugurando também o debate geral (e
problemático) latino-americano, Germani (1965) argumentou
que as “elites” do “populismo” seriam, no curso da transição
à modernidade, capazes de oferecer alguma forma de liberda-
de e um “ersatz” de participação às massas populares postas
em uma situação de disponibilidade social e política, devido a
sua falta de integração no sistema político (uma responsabili-
dade das classes altas, acrescentou). A dominação carismática

139
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

em Weber32 mais uma vez aponta, personificando o poder, para


essa irrupção dos elementos concretos extra-institucionais.
Para limpar o ar de mistificações ideológicas, vale acres-
centar que se o caráter racional-legal do estado é realmente tí-
pico da modernidade, seus traços neopatrimoniais não devem
ser esquecidos. Eles têm a ver tanto com as cristalizações sociais
identificadas por Mann em seu funcionamento concreto quan-
to com o acesso que funcionários públicos e políticos têm aos
recursos estatais, embora estejam formalmente separados deles
e seu comportamento neopatrimonial seja então considerado
corrupto, ilegítimo e ilegal; o que não quer dizer que não te-
nha lugar regularmente, em maior ou menor grau, em todos os
estados modernos33. Por outro lado, precisamos levar em con-
ta que a representação é apenas um elemento na “dialética do
controle” que se estabelece entre o forte estado moderno e os
cidadãos cujas vidas são agora muito mais dependentes de suas
intervenções34, a qual é tão mais relevante quanto mais a demo-
cratização se desdobra. Contatos mais diretos entre cidadãos e
o estado, de muitas formas, devem ser considerados nesse sen-
tido, seja pessoalmente ou por meio de organizações tais como
associações e sindicatos.
Muitas dessas teses oferecem uma revisão sumária das
discussões acerca do estado e da sociedade, originando-se já
de uma passagem não necessariamente elaborada das genera-
lizações empíricas às categorias analíticas, no caso de Weber
(e no de Eisenstadt) permanecendo em nível mais empírico,
conquanto muito generalizado, em termos de conceitos ideal-
típicos, que foram aqui no entanto mesclados com categorias

32 Weber [1921-22] 1980, p. 140ss e 654ss.


33 Eisenstadt 1973; Domingues [2012] 2013, Parte II.
34 Giddens 1985, especialmente p. 11.

140
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

analíticas e inicial e implicitamente empurrados na direção de


uma transformação sua neste tipo de conceito. Por outro lado,
eu mesmo (em especial vis-à-vis Karatani e Zavaleta, Germani
e Huntington, mas também Eisenstadt) levei a cabo esta mesma
sorte de operação analítica – referindo-me à relação dinâmica
entre estado e sociedade ante os sistemas político e administra-
tivo. Em certa medida essa relação aponta para contradições
dinâmicas – que giram principalmente em torno à dialética do
controle, na qual a representação política se destaca, e o poder
estatal, bem como em torno a elementos abstratos e concretos.
Estes por vezes convergem, mas com frequência divergem e se
chocam, como Marx35 percebeu no Dezoito Brumário, embora
a ideia de contradições dinâmicas desempenhasse um papel es-
pecialmente em sua economia política posteriormente, em ter-
mos de mecanismos e tendências de desenvolvimento, que eram
mediados pelo comportamento dos agentes, amiúde porém es-
capando de suas intenções, implicando um papel duplo para
a subjetividade coletiva, para além de qualquer automatismo
simplista36. Em outras palavras, uma tendência contraditória
se desenvolve por toda a modernidade, combinando e opon-
do controle cidadão, representação política e poder estatal,
elementos abstratos e concretos, com a possibilidade de crises
agudas sempre à espreita.

35 Marx [1852] 1972.


36 Marx [1968] [1867] 1968, [1893] 1963 e [1894] 1983. A saber, a passagem da
mais-valia absoluta à relativa, a concentração e centralização do capital, a produ-
ção, circulação e consumo, a tendência da taxa de lucro cair, mudanças na compo-
sição da população, etc., levando à expropriação dos expropriadores. O mecanismo
desta última parecia ser a intervenção política intencional da classe trabalhadora. A
conceituação dos impactos de efeitos incontroláveis, e amiúde opacos, não intencio-
nais, é a melhor maneira de render contemporaneamente o conceito de “lei natural”
nos escritos de Marx, do que ele estava ao menos em certa medida ciente (Marx
[1857-58] 1983, p. 127).

141
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

É verdade que os sistemas políticos podem ser estabiliza-


dos e em certa medida imunizados contra os efeitos potencial-
mente disruptivos dessas contradições, que estão ademais vin-
culadas a lutas sociais, calcadas nas classes ou em outra ques-
tão. O marxismo em particular lidou sistematicamente com esse
tipo de questão, com êxito notório no que se refere ao conceito
de “hegemonia” de Gramsci ([1929-35] 2001) com a criação de
uma sorte de “consenso” social ao lado da “coerção”, eles em si
mecanismos de estabilização. Esta corrente nunca simplesmente
supôs a mera estabilização da democracia “madura”, graças ao
desenvolvimento de seus “requisitos” (alfabetização, desenvol-
vimento econômico, existência de classes médias, etc.)37 ou uma
“integração funcional” efetiva38, contrariamente ao que pensa-
ram distintas versões do liberalismo, sequer no que tange a uma
“legitimidade” que parece pertencer automaticamente ao esta-
do moderno (como na formulação de Weber). Talvez ao lado
da institucionalização do liberalismo, a maior independência
dos sistemas políticos (incluindo os partidos) da influência dos
cidadãos e a degradação da democracia em mera política da
“audiência” no ocidente hoje39 sejam mais relevantes para sua
estabilidade que construções realmente hegemônicas, acom-
panhada aquela democracia restringida de explosões sociais
eventuais e a irrupção do que muitos hoje definem (de maneira
bastante vaga e problemática) como “populismo” de direita40.
É preciso levar em conta o que pode ser chamado de densifica-
ção burocrática do estado, mediante sua complexificação e a

37 Lipset 1959; Dahl 1989.


38 Parsons 1971.
39 Manin 1997.
40 Cf. Laclau 2005.

142
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

diversificação41, bem como a penetração “infraestrutural”42 do


estado na vida social de modo a compreender sua resistência
em face das crises e a possibilidade de desorganização. Eis aí
uma tendência de longo prazo, acrescentando poder ao estado.
Cumpre aduzir que, inversamente, em certa medida ao menos
um tipo de subjetividade rebelde, intensamente avessa à defe-
rência43, vem também se desenvolvendo, expandindo os limites
da cidadania e inclusive por vezes transbordando-a (como em
algumas formas de mobilização “autonomista” recente). Ela de-
riva tanto da radicalização da autonomia social dos indivíduos
e coletividades na modernidade quanto da falta de respostas a
eles por parte do estado contemporâneo44.
Mecanismos disruptivos e estabilizadores encontram-se
portanto operando na dinâmica contraditória do estado mo-
derno. A disrupção em potencial e as crises nunca desaparecem.
Não podem ser totalmente evitadas, em qualquer fase da mo-
dernidade, a despeito de mudanças na própria forma do estado,
incluindo distintos tipos de regime político (liberal, welfarista,
keynesiano, workfarista, desenvolvimentista, etc. embora dese-
nhos abertamente autoritários e em especial os fascistas tentem
levar a autonomia do estado em relação à sociedade – logo em
relação à representação – a seus extremos) e as questões que
têm de enfrentar (acumulação do capital, bem-estar, meio am-
biente, etc.).

41 Huntington [1968] 2006.


42 Mann 1993.
43 Therborn 2009.
44 O conceito de “multidão” foi introduzido por Negri precisamente para lidar com
isso, mas seu caráter ontológico, imediato, além de empiricamente abrangente de-
mais e vago, leva a uma solução teórica e politicamente inadequada da questão. Cf.
Hardt e Negri 2005.

143
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Nossa análise até aqui permitiu identificar a ascensão do


concreto em relação à cidadania e um retrato daquelas duas
tendências do desenvolvimento político e administrativo mo-
derno, do crescente poder do estado e de uma cidadania re-
lativamente autônoma, secundada pela unidade dialética e as
contradições entre elementos abstratos e concretos dentro do
estado e em especial entre estado e sociedade. Identificamos
igualmente processos que podem gerar crise bem como estabili-
zar a dominação estatal. Comportássemo-nos como historiado-
res, ou como sociólogos históricos do século XX, seríamos ten-
tados a buscar a origem do estado moderno e de seus elos com a
sociedade, mesmo se tivéssemos como um foco mais específico
a emergência da cidadania, a concentração do poder e a bu-
rocratização (como realizado por Bendix para certo número
globalmente situado de casos45), embora outros autores tenham
sido ainda mais seletivos a esse respeito (como Elias com sua
reconstrução eurocêntrica do monopólio estatal da violência e
da pacificação46). De qualquer modo, a lógica para esse tipo de
démarche tem que ser feita mais explícita e o elemento histó-
rico encolher mais: as análises devem ser históricas apenas em
certa medida e com intenção precisa47. Devemos nos restringir
estrategicamente à identificação tão somente dos elementos es-
pecíficos que historicamente levaram a essa conjunção de ele-
mentos “estruturais” e dinâmicos (reiterativos, mas ao mesmo
tempo relativamente transformativos) (embora conhecimento
histórico extenso seja necessário para alcançar essa restrição
dos processos formativos).

45 Bendix [1964] 1977 e 1978.


46 Elias [1939] 2000.
47 Como argumentou Marx [1857-58] 1983, p. 371-72 e 376ss.

144
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Em outras palavras, uma primeira tarefa é tomar os ele-


mentos que acabamos de dispor analiticamente e defini-los em
termos de categorias analíticas e mecanismos reiterativos. A di-
nâmica social concreta e o caráter abstrato do estado podem
assim se destacar, nenhum deles dois de fato estabelecido de
modo tão seco, mercê da existência da própria cidadania como
uma “abstração real” e a penetração da “sociedade” pelo es-
tado, assim como devido a suas “cristalizações” e ao impacto
da dinâmica social no funcionamento concreto do estado, seja
através de representantes, do pessoal burocrático estatal ou ou-
tros tipos de elo. Somente então devemos buscar os mecanis-
mos gerativos que historicamente engendraram essa situação.
Não tentarei fazer isso aqui, mas cumpre afirmar que é apenas
com esse tipo de perspectiva teoricamente saturada que a his-
tória tem interesse para uma abordagem sistemático-categorial
(o que não quer dizer que se trata da única estratégia para a
sociologia, sem falar das ciências sociais em geral)48. Também
a identificação dos mecanismos transformativos que poderiam
superar a presente conformação do estado e da sociedade, com
mudanças possivelmente se desenvolvendo a partir dos mecanis-
mos reiterativos, seria de fundamental interesse para uma ava-
liação plenamente crítica, analítica, para uma plena apreensão
do tema e um ponto de vista emancipatoriamente produtivo.
48 Esta foi, creio, a estratégia de Marx ([1867] 1968) em O capital no que se refere à
chamada “acumulação primitiva”, desnudando como a divisão da sociedade entre
aqueles que tinham e os que não tinham se produziu, e, mais geralmente, as “ten-
dências gerais da acumulação capitalista”. Além disso, essa perspectiva permitiria
por exemplo evitar a busca de “requisitos da democracia”, seja no desenvolvimento
econômico, na alfabetização ou qualquer outra coisa, típicos da teoria da moderni-
zação, procurando-se em vez disso os elementos que contribuíram para ela, incluin-
do lutas sociais e valores, tais como a liberdade, que subjazem a seu estabelecimento.
Ademais, a história como um processo contingente se acomodaria melhor em uma
abordagem sociológica mais modesta, rigorosa porém do ponto de vista de suas
estratégias propriamente analíticas. Devem-se evitar fortes e unilineares suposições
evolutivas. Ver Domingues 2016.

145
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

V. Subjetividade coletiva, mecanismos, modernização


Como funcionam esses mecanismos? Uma vez constitu-
ídos, indivíduos e subjetividades coletivas, operando dentro
do estado e da sociedade, respondem dinâmica e causalmente
por isso. Aqui é preciso ser cuidadoso para evitarem-se duas
soluções tradicionais, mas equivocadas, a saber, o individua-
lismo e o coletivismo reificados, considerando-se em vez disso
processos, como já argumentado anteriormente. “Estruturas”
não existem realmente e devemos afastar qualquer forma de
platonismo das ideias e “essências” (bem como qualquer forma
nova disso através de mecanismos gerativos mentais, como se
encontra em algumas variantes do estruturalismo). Contudo, se
realmente queremos descartar o individualismo, necessitamos
não apenas levar em conta os indivíduos socializados – o que
é trivial para as teorias sociológica, antropológica ou da psi-
cologia social –, mas também introduzir subjetividades coleti-
vas49. Marx, Parsons e Mead estiveram particularmente atentos
a essa questão (assinalando, respectivamente, “classes sociais”,
“atores coletivos” e “classes” ou “subgrupos” mais vagamente
concebidos). Alguns deles implicam nas intenções e projetos de
indivíduos e coletividades, muitos outros se originam das con-
sequências não intencionais que deles derivam.
Dois elementos têm de ser enfatizados em uma caracte-
rização mais sistemática das subjetividades coletivas. Elas são
enquanto tais sistemas de interação, entre indivíduos e também
entre outras subjetividades coletivas, a partir das quais, através
da reiteração, mas sempre passíveis de mudança, as relações so-
ciais se desenvolvem (e não devem ser reificadas como se possu-
49 Discuti, sistemática e extensamente essas questões em especial em Domingues 1995
e 1999, caps. 1-2 e 4, bem como ao longo de todo este livro.

146
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

íssem existência autônoma). Elas têm uma propriedade coletiva


específica relativa à causalidade. Uma vez que reconheçamos
as coletividades (forma cômoda de se referir às subjetividades
coletivas) como importantes e possuidoras de “propriedades”
específicas (conquanto não “emergentes”, uma expressão que
no fim das contas trai uma sorte de atomismo/individualismo
subjacente por parte do teórico), qual seria a razão para redu-
tivamente conceber a causalidade e vinculá-la exclusivamente
aos indivíduos? Este é de fato o último recurso do individualis-
mo metodológico. Em contrapartida, precisamos reconhecer a
causalidade coletiva como uma propriedade que pertence e em
parte define as subjetividades coletivas. Todavia, não devemos
incorporar o modelo de ator individual moderno (como tal já
muito contestado ao menos desde que Freud mostrou que sua
intencionalidade não pode ser suposta como dada, ainda me-
nos valendo isso para a transparência de motivações e os fins).
Cumpre enfrentar o descentramento do sujeito (embora não em
viés pó-estruturalista). As subjetividades coletivas são variavel-
mente “(des)centradas”, quer dizer, têm identidade e organiza-
ção que variavelmente permite (antes que “ação” individual)
movimento intencional (expressão aristotélica que aponta para
a capacidade do agente de produzir estase ou mudança, neste
caso coletiva e referida aos mundos social e natural). Isso não
tem relação com seu impacto coletivo causal sobre outras sub-
jetividades coletivas (subjetividades coletivas inteiramente des-
centradas podem ter um tremendo impacto causal, dependendo
do contexto em que se exerce). Todos os tipos de mecanismo,
implicando na reiteração de padrões sociais (“memórias”), bem
como sua transformação criativa (intencional ou não) se acham
claramente vinculadas ao movimento de subjetividades coleti-
vas (assim como à ação individual).

147
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Quando pensamos acerca do sistema moderno estado-so-


ciedade, isso deve ser levado em consideração. Na teoria social
e política, “classes” e “elites” (seja implicitamente em teorias
“pluralistas” e “deliberativas” ou explicitamente nas “elitis-
tas”50, ou agentes coletivos mais frouxamente definidos, são
usualmente assinalados como aqueles que tecem o surgimen-
to, desenvolvimento e desaparecimento dos sistemas políticos
concretos ou tipos historicamente característicos, mesmo quan-
do focalizamos autores que, como Weber, em princípio sus-
tentam uma metodologia individualista (comparecendo aí as
coletividades como “categorias residuais” na terminologia de
Parsons51: elas têm de estar lá para que se apreenda a realidade,
mas permanecem confinadas a um nível não sistemático de teo-
rização). Precisamos portanto claramente reconhecer a agência
variavelmente (des)centrada de famílias e firmas, movimentos
sociais, “elites” (uma expressão excessivamente carregada ideo-
logicamente) e círculos dirigentes, partidos políticos, sindicatos
e burocracias, classes, gêneros, grupos étnicos e “raças” (social-
mente definidas) ou quaisquer coletividades que identifiquemos
como importantes em situações concretas, até mesmo simples
correntes difusas de opinião. Elas exercem um impacto causal
na vida social que engendra os processos de que consistem os
mecanismos gerativos, reiterativos e transformativos. Isso é o
que pode permitir, em plano teórico muito geral, um realismo
analítico que evite o empiricismo e na verdade a identificação de
toda a vida social através da polarização que é (ideologicamen-
te, logo epistemologicamente) típica do pensamento moderno,
a saber, entre indivíduos ativos e coletividades passivas. Essa
polarização estrutura o senso comum, assim como muito dos
50 Cf. Dahl 1972 e 1989; Habermas 1992; Schumpeter [1942] 2008, caps. 21-23.
51 Parsons [1937] 1966, p. 16ss e 28ss.

148
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

conceitos e investigações sociocientíficas, subjazendo ao realis-


mo empiricista bem como a outras formas de realismo (como
a própria versão de Bhaskar) e também de idealismo. Além do
mais, em planos menos gerais, esse tipo de categoria geral deve
ser especificado em termos mais particulares, de acordo com a
espécie de questão que queremos entender e explicar.
Como isso funciona em relação ao moderno sistema es-
tado-sociedade? Isso se esclarece quando identificamos a dinâ-
mica reiterativa daquela dialética “unidade de contrários”, bem
como as questões de sua geração e transformação mais ampla.
O que se requer, em primeiro lugar, é identificar os agentes co-
letivos dos mecanismos reiterativos que reproduzem (com mu-
danças incrementais, logo socialmente criativas, a despeito de
possíveis colapsos) essa divisão e o funcionamento interno a
cada lado, bem como aqueles que levam a crises institucionais e
imaginárias, implicando no deslocamento parcial da cidadania
rumo ao concreto e no avanço de forças societais direta e dis-
ruptivamente dentro do aparato do estado ou no que algumas
que efetivamente lhe pertencem, como os militares, tomam o
poder. Na vida social moderna ordinária essa divisão é mantida
pelo funcionamento suave do sistema político, com um nível
usualmente bastante elevado de autonomia do aparato estatal,
não obstante “cristalizações” societais, assim como com o con-
finamento das forças societais ao outro lado da vida social.
A geração de tal sistema deve ser buscada, como os his-
toriadores o fizeram, provavelmente nos caminhos da Idade
Média e na resistência ambivalente dos elementos burgueses ao
Estado Absolutista, assim como focalizando a dinâmica contra-
ditória implicada pelos múltiplos sistemas modernos de domi-
nação e exploração, em especial econômicos e políticos. Mais
complicado hoje é localizar os elementos transformativos dessa

149
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

situação, para além da “ditadura do proletariado” ou as ten-


tativas anarquistas (às vezes sindicalistas) e bolchevique/spar-
taquista/comunista de esquerda (de maneiras muito diferentes
entre si) de criar conselhos revolucionários que dissolveriam
e reabsorveriam o estado na sociedade (unilateralmente, com
as em parte não intencionadas consequências de fortalecer o
estado no primeiro caso). Originalmente membros do partido
e a classe trabalhadora (e por vezes o campesinato) como sub-
jetividades coletivas forneciam alicerces às operações concretas
desses mecanismos transformativos, mas hoje não está claro
“quem” eventualmente lideraria a transformação do estado e
da sociedade e que direção esta deveria tomar. Uma análise e
exposição mais realista-categorial deve levar em conta esses
processos dinâmicos e contraditórios, até que sejam totalmente
mudados de uma maneira que somente em algum momento fu-
turo será claro para nós, ainda que a auto-organização das clas-
ses populares, contando com formas ampliadas e variavelmente
tempestuosas de cidadania, mais concretas porém sem descar-
tar seus fundamentos universais-abstratos, permanece um meio
através do qual tomar um rumo emancipatório, contra o forta-
lecimento do estado contemporâneo e sua na verdade crescente
conexão com às organizações globais e o capital financeiro52.
De todo modo, em que medida a superação da modernidade
resultará do exercício da subjetividade individual, intencional
ou não intencional (descentrada), é algo sobre o que podemos
aspirar a encontrar pistas, mas que não podemos plenamente
responder, uma vez que a criatividade social não pode ser intei-
ramente antecipada.

52 Sassen, 2006.

150
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Em suma, estamos tratando de tendências contraditórias


de desenvolvimento (que podemos articular como um concei-
to-tendência definido em relação à construção do sistema mo-
derno estado-sociedade, seus polos abstrato e concreto e sua
reiteração por distúrbios e/ou estabilização, bem como possível
superação). Eles têm como suporte giros modernizadores de
subjetividades coletivas, originalmente somente episódicos, isto
é, que não visavam criar esse arranjo histórico, mas que, uma
vez que esteja este estabelecido, em certa medida o têm como
meta intencional, embora na maioria dos casos isso seja apenas
o resultado de ação e de movimento não intencional53, con-
formando de fato uma tendência causal (processo dependente),
não obstante o quão dialeticamente contraditória ela possa ser,
na medida em mecanismo estabilizadores tais como a hegemo-
nia operam exitosamente. Eles estão em jogo com qualquer tipo
de (des)equilíbrio interno ou mesclados com outras tendências
que podemos encontrar na vida social, e devem ser teorizados
também quando encontrados regularmente, como outro tipo
de conceito-tendência; ou, quando não é este o caso, como um
processo mais acidental, circunscrito, que não precisa assumir
uma elaboração categorial sistemática. Isso significa que não
precisamos abraçar a ideia de “determinismo de regularidades”
ou a “uniformidade da natureza”, mesmo que no nível dos me-
canismos. Estes são processos (em parte traduzíveis pela noção
de Bhaskar de “eventos”) que são todos contingentes, incluindo
os próprios mecanismos-processo que reinam sobre o desenvol-
vimento de processos mais específicos e concretos. Eles devem
ser compreendidos de modo não reificado, como a tradução
analítica daqueles processos empíricos que sejam passíveis ini-

53 Ver Domingues [2012] 2013.

151
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

cialmente de generalização empírica. Uma vez que possuamos


os construtos analíticos delineados desta maneira podemos rea-
lizar descrições empiricamente orientadas da realidade e talvez
projetar estrategicamente desenvolvimentos futuros.
Não há ruptura entre esses níveis de conhecimento. Eles
devem ser conceitualmente alterados uma vez que empiricamen-
te verifiquemos mudanças que demandam esse tipo de recons-
trução. Em que medida a superação da modernidade resultará
do exercício da subjetividade individual e coletiva intencional
e não intencionalmente (des-centrada) é algo que podemos nos
esforçar para resolver, sem nunca consegui-lo totalmente na
medida em que a criatividade social jamais pode ser inteira-
mente antecipada.

Palavras finais
Propus-me no começo deste artigo a discutir o realismo
no que se refere a conceitos-tendência. Isso deveria permitir
uma apreensão do desenvolvimento direcional da modernida-
de. Bhaskar serviu criticamente como nosso ponto de partida
e o moderno sistema sociedade-estado, com seus subjacentes
mecanismos gerativos, reiterativos e transformativos, como seu
foco substantivo. A meta era mostrar como essa abordagem,
assumindo uma intenção analítica sistemática, deveria ser ar-
ticulada de acordo com uma perspectiva analítica, apresentan-
do uma concepção estratificada do conhecimento, antes que da
realidade. Isso se combinou com uma perspectiva orientada aos
processos. É verdade que mais trabalho precisa ser feito nessa
direção, em termos gerais e no que toca à relação entre estado
e sociedade modernos. Este artigo ofereceu um esboço desse
empreendimento.

152
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

As ideias aqui dispostas se aplicam tanto aos países que


se encontram imbricados na expansão global do moderno sis-
tema estado-sociedade quanto à Europa, onde a modernidade
originalmente emergiu. Se suas origens iniciais no ocidente de-
vem ser reconhecidas, elas foram de algum modo reproduzi-
das, tendo-o como um modelo coletivo intencional ou surgindo
ao menos em parte como uma consequência de processos não
intencionais. A América Latina acha-se estreitamente ligada
à emergência do moderno sistema estado-sociedade, mas de
modo mais restrito, o Japão logo tratou dele por conta própria,
e o resto do mundo não demorou a trilhar essa via, inicialmen-
te por meio do colonialismo, depois com movimentos de libe-
ração nacional. Desde então mecanismos reiterativos (que são
sempre parcialmente criativos) têm operado.
Ainda precisamos de uma descrição abrangente, de uma
narrativa detalhada desse processo, assim como de uma ava-
liação sociológica dessa via que possua um cunho analítico.
Questões e mecanismos transformativos valem para todos eles,
a despeito de seu impasse e abandono de alternativas a certa
altura na finada União Soviética e outros países. Este é por-
tanto, juntamente como outros temas que descansam no cerne
da civilização moderna, aspecto crucial de uma sociologia de
caráter global, extremamente necessária, que seria articulada,
pode-se sugerir, a um sutil enquadramento realista. Uma vez de
posse das categorias que nos permitem ir além dos casos especí-
ficos, podemos reconhecer os problemas postos por críticas ao
eurocentrismo sem desconsiderar a dinâmica intencional e não
intencional da construção do estado moderno mais geralmente,
assim como suas contradições internas, sem ficarmos prisionei-
ros das formas históricas específicas que assumiu no ociden-
te. As descrições podem tornar-se mais sistemáticas e os traços

153
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

gerais e particulares da modernização em diferentes países e


regiões podem ser mais frutiferamente discutidos, de maneira
crítica e emancipatória. Além disso, devemos e podemos deste
modo oferecer interpretações conceituais renovadas para arti-
cular os processos específicos, em especial aqueles vinculados
às lutas sociais, que atravessam a vida política contemporânea.

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CAPÍTULO IV

“Desenvolvimento”: Resultado
ou mito da modernidade?
Elísio Macamo

I. Introdução
“Desenvolvimento” é um conceito difícil de tratar. É politi-
camente controverso e academicamente polémico. É controver-
so do ponto de vista político porque, primeiro, sugere relações
de poder que colocam certos países ou grupos de pessoas em
posição subalterna enquanto confere a outros países ou grupos
de pessoas o privilégio de dizerem aos primeiros como devem
organizar as suas vidas. É essencialmente sobre este problema
que se debruçam algumas das críticas que têm sido feitas à no-
ção de desenvolvimento. O destaque vai para a extremamente
influente crítica de Arturo Escobar, um antropólogo colombia-
no, numa obra em que ele defende a ideia segundo a qual as
instituições de auxílio ao desenvolvimento constituiriam uma
indústria cuja função é a produção dos países em desenvolvi-
mento1. O outro exemplo interessante das críticas que se têm
feito ao conceito de desenvolvimento é de William Easterley,

1 Escobar 1995.

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Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

economista americano que trabalhou para o Banco Mundial.


Nessa crítica Easterley essencialmente opõe duas lógicas, no-
meadamente a lógica dos que fazem planos e a lógica dos que se
desembaraçam no cotidiano, e define a primeira como sendo a
lógica de acção das instituições do desenvolvimento, enquanto
a segunda seria a dos indivíduos2. A noção de “desenvolvimen-
to” é academicamente polêmica porque levanta questões rela-
cionadas com a sua articulação com modelos de sociedade, por
um lado, e com a função do trabalho científico. Em relação ao
primeiro ponto pode se colocar a questão de saber se o campo
semântico coberto pela noção de “desenvolvimento” não esta-
rá irremediavelmente comprometido com, digamos, o modelo
capitalista de desenvolvimento de tal sorte que falar da sua ne-
cessidade seria o mesmo que emular esse modelo. Com efeito,
num passado não muito recente, este ponto de vista permeou
uma das críticas mais formidáveis ao desenvolvimento, ainda
que de forma indirecta. Trata-se das críticas da famosa escola
da dependência3 que era, na verdade, uma crítica às teorias da
modernização4, as quais, por sua vez, constituíam um quadro
de referência para pensar o processo de desenvolvimento de
uma certa maneira. Sobre a função do conhecimento científico
levanta-se a questão de saber até que ponto é da competência
do académico falar do que deve ser feito5 e não do que é e como
surgiu, ou pelo menos, em que circunstâncias se dá o que é. Esta
é uma questão bicuda, pois ela envolve questões do pelouro da

2 Easterley 2006.
3 Por exemplo, Amin 1974, 1986; Frank 1966.
4 Por exemplo, Rostow 1978.
5 Recordemo-nos aqui da interjeição feita pelo filósofo escocês, David Hume, sobre a
necessidade de se não confundir o que é com o que devia ser (“no oughtfromanis”).
Esta discussão encontra-se no livro III, parte I, secção I do seu livro “A Treatise of
Human Nature”(Hume 2009 [1740]).

160
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

metodologia das ciências sociais sobretudo na vertente que diz


respeito à capacidade das ciências sociais de produzirem des-
crições do mundo susceptíveis de – e com potencial suficiente
para – enformar políticas que transformem o mundo. A preocu-
pação com o desenvolvimento é tão forte que ela é usada como
critério de validação da produção científica. Dito doutro modo,
só é válido o conhecimento científico que tenha a pretensão de
“resolver” problemas de desenvolvimento.
Portanto, não há dúvidas que estamos a lidar com uma
questão extremamente difícil. A dificuldade é tanto maior
quanto nos interessamos por saber em que medida o “desen-
volvimento” estaria ligado à modernidade. A referência ao lado
político e acadêmico das questões que o conceito levanta já dá
uma ideia do que está em jogo. Com efeito, dependendo do
nosso entendimento da própria noção de “modernidade” po-
demos supor que o “desenvolvimento” seja mito ou realidade,
isto é mito no sentido de representar uma quimera inalcançável
em virtude da forma como o mundo está estruturado6, ou reali-
dade no sentido da emergência de novas potências económicas
como o Brasil, a China e a Índia que parecem confirmar a ideia
de que desenvolvimento seja realmente possível. Esta conclusão
não resolve, contudo, os problemas conceituais que a articula-
ção do “desenvolvimento” com a “modernidade” sugere. No
fundo, a dificuldade advém do fato de estarmos a lidar com
conceitos discursivos, isto é, conceitos usados no quotidiano
sem muita precisão analítica e cujo significado, geralmente, é

6 Na verdade, a essência da crítica que a escola da dependência faz à noção de moder-


nização deriva toda a sua carga analítica do pressuposto segundo o qual o subde-
senvolvilmento seria um efeito da forma como o mundo está estruturado. Vide a este
propósito a obra de Amin 1986 e, muito antes dele, de Rodney 1978. Sobre alguns
problemas de natureza argumentativa vide Macamo 2005b, 2010, 2013 assim como
Chang 2007, 2010, e Gould 2007.

161
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

tido como óbvio. Assim, “modernidade” é entendida como algo


que descreve o nosso presente tecnologicamente determinado e
associa-se a esse entendimento o “desenvolvimento” como pro-
cesso através do qual se chega até esse presente ou, por vezes
até, como o culminar desse processo. Nessa ordem de ideias, a
questão de saber se estamos perante um mito ou uma realida-
de resolver-se-ia, de fato, através duma postura ideológica – a
favor ou contra os fatores estruturais que tornam o presente
possível – praticamente impenetrável à discussão analítica.
Há um certo sentido, portanto, em que podemos aventar
a hipótese segundo a qual estaríamos, neste caso, perante um
problema essencialmente de natureza epistemológica. Trata-
se, com efeito, de saber que estatuto tem o que nós sabemos e
donde esse conhecimento deriva a sua validade. Ao colocarmos
dois conceitos em relação e, por essa via, levantarmos uma pro-
blemática que nos desafia a interpelarmos o mundo estamos,
na verdade, a pressupor, não sem razão, que há vida no interior
dos nossos conceitos. Dito doutro modo, os campos semânticos
cobertos pelos conceitos que usamos não são necessariamente
apenas a explicitação dos conceitos em si, mas sim tentativas
de recuperar algo cuja existência é real e exterior a eles. Este é
o velho conflito entre o realismo e o nominalismo na filosofia,
isto é o conflito entre a ideia segundo a qual conceitos seriam a
representação de algo que existe de forma independente deles
no caso do realismo ou que conceitos produziriam os objectos
do mundo simplesmente através do próprio acto de nomeação.
Acresce-se a isto o fato de intervirem na nossa relação com con-
ceitos dois problemas bicudos, nomeadamente o problema da
normatividade e do fatalismo. A normatividade insinua-se no
tipo de conotação que fazemos quando falamos dum conceito.
Assim, a “modernidade” ou o “desenvolvimento” seriam, dum

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Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

modo geral, vistos numa perspectiva positiva ou negativa de


acordo com o pano de fundo ético a partir do qual com eles
dialogamos. Na verdade, o normal é olhar para estes conceitos
como termos que se referem a algo positivo e que colocam na
defensiva todo o indivíduo com reticências em relação a eles.
O fatalismo é uma questão de perspectiva histórica que con-
siste um pouco na convicção segundo a qual conceitos não se-
riam apenas rótulos descritivos ou normativos, mas também
descrições de processos inevitáveis que tarde ou cedo se irão
impor. Há, no fatalismo tal e qual descrito aqui, um elemento
do historismo no sentido em que foi criticado por Karl Popper7,
sobretudo no que se refere à expectativa de produção de leis do
mundo social que permitiriam um maior controlo do futuro.

II. O nominalismo dinâmico


Vale à pena olhar mais de perto para esta relação entre
o realismo e o nominalismo, pois a dificuldade de lidar com a
relação entre a modernidade e o desenvolvimento pode muito
bem ter a sua origem aí mesmo. O olhar que se exige parece
convidar a uma incursão, ainda que breve, pelos meandros da
filosofia da linguagem. Esta incursão vai fazer paragens em vá-
rias estações, a saber numa ilustração empírica que relata um
episódio elucidativo do que, na esteira de Ian Hacking8, será
tratado aqui por “nominalismo dinâmico”, mas também numa
estação que nos vai permitir discutir a noção do desenvolvi-
mento como uma espécie duma ilusão dum futuro sem história.

7 Karl Popper 1980.


8 Ian Hacking, um filósofo do Canadá, define o nominalismo dinâmico como a in-
teracção entre nomes e o que é nomeado, e muito particularmente a forma como
algumas entidades ganham a sua existência a partir do acto da nomeação (Hacking
2006).

163
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

A passagem por essas estações vai criar as condições para que


voltemos à questão inicial, nomeadamente se o desenvolvimen-
to é mito ou resultado da Modernidade9.
Podemos, para entabular conversa, começar por fazer um
reparo trivial. Podemos, por exemplo, imaginar um copo de
água, uma substância que como sabemos consiste numa com-
binação específica de moléculas de hidrogênio e de oxigênio.
Essa substância apresenta-se-nos em forma líquida. Chama-se
“água” em Português, “mati” em Tsonga, “maji” em Kiswahili
e “Wasser” em alemão. O que interessa notar a este respeito é
que essa substância será o que ela é, isto é algo que se constitui
a partir duma certa combinação molecular independentemente
do nome que a ela atribuirmos. Na verdade, mesmo antes de
termos uma palavra para descrever essa substância ela já exis-
tia. Era água, isto é uma certa combinação molecular mesmo
antes de ser água para nós. Este reparo é importante. Existem
certas coisas no mundo cuja existência não depende dos nomes
que as sociedades humanas lhes atribuem. Existem, contudo,
também certas coisas no mundo cuja existência é difícil de dis-
sociar do próprio processo de nomeação. Dito doutro modo,
ao contrário da água que seria na acepção de John Searle10 um
fato social bruto existiriam também coisas que são o resultado
do nosso acto de nomeação.

9 Fica de fora uma questão não menos pertinente, a saber se a modernidade ela pró-
pria não seria resultado (ou mito) do desenvolvimento. Não existe nenhuma razão
teoricamente pertinente para excluir estes termos de colocação do problema. Na
verdade, esta questão tem vindo a ser colocada amiúde quando se procura perceber
o que realmente foi determinante para o sucesso económico e político de certas na-
ções. O sucesso económico dos BRICS, sobretudo da China, coloca um forte ponto
de interrogação em torno da tese normativa que define a democracia ou o respeito
pelos direitos humanos como pré-condições do desenvolvimento económico.
10 Searle 1995.

164
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Conceitos propensos à normatividade, isto é cuja com-


preensão depende muito do investimento ético que fazemos, têm
a tendência de produzir os seus objectos referenciais no próprio
acto de nomeação. “Desenvolvimento” e “Modernidade” são,
ao que tudo indica, exemplos típicos disso. Não existe nada
no mundo que seria a manifestação natural do que é moderno
ou do que se desenvolve. Existe uma percepção desses dois fe-
nómenos que nos convida a apreendermos certas coisas dessa
maneira. São fenômenos, na verdade, que se constituem his-
toricamente e, por causa disso mesmo, merecem serem vistos
numa outra perspectiva. Essa perspectiva corresponde ao que
o filósofo do Canadá, Ian Hacking, chama de nominalismo di-
nâmico. O que está por detrás deste conceito é a ideia de que
a realidade depende do tipo de categorias e nomes que usamos
para a descrever. Da mesma forma, qualquer nova designação
pela qual optarmos abre um espaço de possibilidades que per-
mite aos indivíduos agirem de forma coerente e legítima. Dito
de outro modo, o nominalismo dinâmico seria uma forma de
categorização de actores sociais que influenciam o tipo de ex-
periências que esses actores podem ter. O “desenvolvimento” e
a “modernidade” prestam-se a uma abordagem ancorada nesta
ideia dum nominalismo dinâmico na medida em que se trata de
conceitos que para além de descreverem a realidade tornam viá-
veis certas maneiras de estar no mundo e certas formas de ação.

III. A invenção de novos tipos de pessoas


Eis uma breve ilustração anedótica desta ideia. Refere-se
ao desafio do HIV-SIDA em Moçambique. Durante uma pes-
quisa de terreno realizada há sensivelmente 10 anos no sul de
Moçambique, mais particularmente na província de Gaza, re-

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Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

uni-me com um grupo de habitantes duma aldeia para discutir


assuntos relacionados com o tema da pesquisa. Fiz-me acom-
panhar, nesse encontro, por um indivíduo que conhecia os al-
deões no contexto do seu trabalho como facilitador de projetos
de desenvolvimento financiados por organizações estrangeiras.
Depois da entrevista comigo, esse indivíduo dirigiu a palavra
aos aldeões mais ou menos nos seguintes termos:
Facilitador de projetos: Há AIDS aqui nesta aldeia?
Aldeões: Não, não sabemos o que é isso. O que é?
Facilitador de projetos: Vocês não conhecem a doen-
ça do século, a doença que está a ceifar muitas vidas
em África?
Aldeões: Não, não conhecemos.
Facilitador de projetos: Mas vocês praticam o traba-
lho migratório aqui!11
Aldeões: Sim, muitos jovens daqui da região vão tra-
balhar na África do Sul.
Facilitador de projetos: E mesmo assim não têm
AIDS?
Aldeões: Não, não temos isso aqui.
Facilitador de projetos: Estranho. Então passa por
aqui perto a Estrada Nacional número 1. Passam
aqui muitos camionistas de longo curso.
Aldeões: Sim, temos a Estrada Nacional Número 1
sim, mas não temos essa doença.

11 O trabalho migratório ocupa um lugar fulcral na economia moçambicana. Essa mi-


gração de trabalho é feita sobretudo para a África do Sul, onde tradicionalmente os
moçambicanos trabalham na indústria mineira e nas plantações. A tradição vem já
do período colonial (que terminou em 1975 com a independência de Moçambique
de Portugal) e continua até aos dias de hoje. Esse trabalho fez da economia moçam-
bicana uma espécie de satélite da economia sul africana. Há toda uma literatura his-
tórica de interesse. Vide por exemplo: Aurillac 1964; Enes 1893; Freire de Andrade
1925; Lopes Galvão 1925.

166
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Facilitador de projetos: Mas de certeza que há pros-


tituição lá na estrada. Não há?
Aldeões: Sim, há. Algumas jovens do sexo feminino
vendem o seu corpo aos camionistas, mas elas não
são daqui. Os homens daqui não vão lá.
Facilitador de projetos: Mesmo muito estranho. Esta
região foi afetada pela guerra civil12, não foi? Os
“bandidos armados” violaram sexualmente muitas
mulheres.
Aldeões: Violaram, sim. Mas não temos essa doença!
Facilitador de projetos: Que pena! Muita pena mes-
mo. É que há uma organização americana que criou
um fundo de apoio a iniciativas de prevenção e com-
bate ao HIV/SIDA…
Aldeões: Ah, essa doença! Porque não disse logo?
Temos isso aqui também!

Esta história é a história da invenção do “doente de


SIDA”. É a ilustração do nominalismo dinâmico, isto é de
como categorias conceituais podem produzir fenómenos reais.
Há cinco momentos nessa nomeação, momentos esses que são
classificados por Ian Hacking da seguinte maneira: classifica-
ção, gente, instituições, saberes e especialistas. Especifiquemos e
analisemos estes momentos na tentativa de colocar em perspec-
tiva o nominalismo dinâmico e sua pertinência para a análise
da relação entre “desenvolvimento” e “modernidade”.

12 Após a independência de Moçambique em 1975 o país sofreu uma guerra civil que
durou praticamente 16 anos quando um acordo assinado em Roma pôs termo às
hostilidades e permitiu a abertura do sistema político nacional. Foi uma guerra hor-
rível marcada por atrocidades terríveis cometidas contra civis indefesos e inocentes.
Existem vários livros que documentam a brutalidade desta guerra. Vide a propósito
Magaia 1988; Finnegan 1992; Vines 1991; Minter 1994; entre outros.

167
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

O momento da classificação, segundo Hacking, ocorre


quando se atribui nome a algo específico. Este processo de atri-
buição de nome ocorre no dorso dum acto de discriminação,
isto é de estabelecimento de relações de diferença e semelhança.
É um momento que fixa uma identidade entendida num sentido
lacto de indicação do que é e do que não é. Este é um exer-
cício central a toda a actividade científica. Ao classificarmos
destacamos a relevância de alguma coisa, relevância essa que a
torna diferente de outras coisas. Sendo assim, podemos definir
a classificação, no caso da história aqui relatada, como um pro-
cesso que envolve dois momentos. O primeiro momento é o da
definição duma nova doença. O segundo momento consistiria
em estabelecer os termos em que essa nova doença constitui um
problema que precisa de ser resolvido.
O HIV-SIDA é um problema médico, obviamente, cuja
virulência reside também no seu modo de transmissão que é
essencialmente comportamental. Atacar este problema médico
consiste, assim, na identificação de formas comportamentais
consideradas como sendo eticamente adequadas, mas que são
justificadas com recurso a toda a etiologia que caracteriza essa
nova doença. As perguntas que o facilitador de projetos coloca
recuperam essa etiologia. São, na verdade, uma descrição des-
sa etiologia. Os trabalhadores migrantes que vivem em lares
masculinos geridos pelas companhias mineiras são um exército
libidinoso à solta nos centros urbanos e que se entrega a for-
mas de sexualidade que promovem as infecções. Igualmente,
os camionistas de longo curso e o seu papel na promoção da
prostituição, a violação sexual de mulheres em contextos de
guerra civil, tudo isto concorre para existam condições sociais
que estimulam os índices de infecção.

168
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

O segundo motor de descoberta identificado por Ian


Hacking é o que ele chama de “gente” ou também “coisas”.
Isto refere-se ao que é objeto da classificação. Classifica-se o
mundo, mas também faz-se o inventário do que é abarcado por
essa classificação. Nesse processo intervém também um mo-
mento de “normalização” no sentido da introdução da norma
que estabelece o padrão de abordagem do objecto. No caso
do HIV-SIDA a normalização faz-se através da medicalização
do comportamento humano, conferindo a quem é descrito pela
categoria “doente de HIV” uma identidade que lhe confere um
perfil social que o define. Assim que se identifica o HIV-SIDA
como fenómeno (classificação) define-se uma nova categoria
empírica, nomeadamente o “doente do HIV-SIDA” que pode
expressar a sua identidade segundo normas consideradas legíti-
mas e normais para as pessoas assim descritas.
No contexto africano, um contexto que é fortemente de-
terminado pela indústria do auxílio ao desenvolvimento, esta
nova categoria empírica precisa de ser (a) enumerada, (b) nor-
mada e (c) adoptar padrões de comportamento que respondem
às necessidades dessa indústria. A enumeração é um processo
normal também considerado por Hacking e consiste simples-
mente em fazer a contagem das pessoas que fazem parte dessa
categoria. O processo em si não é necessariamente linear. Em
parte devido também à própria dificuldade de fazer o diagnós-
tico13 a contagem do número de infectados passou a ser um
ponto controverso uma vez que mais ou menos infectados po-

13 Na África, no início do problema, havia dificuldades sérias em fazer o diagnóstico


pelo fato de a presença do vírus poder ser também uma manifestação da presença
de outros tipos de doenças muito frequentes naquelas zonas climáticas. Dizia-se, a
título de exemplo, que o método mais seguro de alguém diagnosticado com o vírus
do HIV se livrar dele era de ir fazer um novo teste na Austrália, onde os limites de
tolerância dos próprios testes eram mais sensíveis a esses outros fatores etiológicos.

169
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

dia fazer a diferença entre intervenção ou não, novas priori-


zações e até a retirada do estigma moral que pesava sobre os
infectados. Curiosamente, neste ponto há diferenças importan-
tes a ter em conta. Enquanto no Ocidente duma forma geral a
abordagem do infectado individual esteve sempre eivada dum
forte moralismo – por exemplo, o caso dos homossexuais e dos
consumidores de droga – que colocava toda a responsabilidade
no próprio indivíduo, em África a moralização abarcava dois
níveis algo paradoxais.
O primeiro nível era o nível geral de culpabilização moral
de toda a cultura – a proverbial promiscuidade africana – algo
que se reflectia sobretudo no tipo de campanhas de prevenção
que eram feitas, muitas delas concentrando a sua atenção na
limitação e controlo do líbido africano14. O segundo nível, o
individual, pelo contrário, praticamente retirava toda a respon-
sabilidade do indivíduo o qual era (e continua a ser) essencial-
mente apresentado como vítima de fatores estruturais cuja re-
solução é essencial para o controlo do problema. Sendo assim,
os infectados, muitas circunstâncias, passaram a merecer um
tratamento especial e privilegiado por parte não só das autori-
dades como também da própria indústria do desenvolvimento.
Na África do Sul, por exemplo, já houve tumultos por parte
de pessoas que tiveram resultados negativos, portanto “bons”,
mas que ficaram desapontadas por não poderem receber o tipo
de identidade que lhes permitiria receberem apoios que nas
suas circunstâncias bastante precárias significavam a vida ou a
morte. A “normalização” consistiu essencialmente na medicali-
zação consequente do problema ao nível individual e pessoal.

14 A este propósito chamo atenção para um texto da minha autoria que discute justa-
mente os efeitos sociais desta condição. Vide Macamo 2005a.

170
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Em consequência disto produziu-se um novo tipo de indi-


víduo, o “doente do HIV” que podia viajar pelo mundo a con-
vite das organizações de auxílio ao desenvolvimento. Durante
essas viagens para participar em conferências, falar com jovens,
fazer depoimentos perante comissões oficiais dos países doado-
res o doente especializou-se na produção e manutenção duma
identidade que correspondia ao perfil que um “doente do HIV”
devia ter, o que que inclua também adoptar novas maneiras de
falar, novos vocabulários e novas formas de apresentar a sua
biografia.
O outro motor de busca na produção desta nova cate-
goria empírica foram as próprias instituições do combate ao
HIV. Do ponto de vista duma sociologia das organizações po-
deríamos descrever estas instituições como fazendo parte dum
processo normal de racionalização da acção que culmina com
a burocratização da resposta a um problema. Surgiram várias
organizações, iniciativas, organismos estatais, etc. cuja função
manifesta era responder ao problema, mas tinham também
como função latente traduzir o problema institucionalmente re-
tirando-o da esfera privada e do cotidiano. Neste contexto, ser
“doente de HIV” ou ser uma comunidade afectada pela “pan-
demia do século” deixou de ser algo que qualquer um poderia
definir para si, e passou a ser a satisfação escrupulosa de crité-
rios burocráticos definidos por essas organizações. As regras
para a submissão dum pedido de financiamento dum projecto
qualquer de intervenção no contexto do HIV-SIDA passaram a
ser uma espécie de descrição do mundo visto por essas institui-
ções e com todo o enfoque virado para o HIV.
Neste contexto, surgiu um saber muito particular que
está bem patente no diálogo entre o facilitador de projetos e os
aldeões. Na verdade, nem se tratou dum diálogo. Tratou-se do

171
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

preenchimento duma lista pré-estabelecida (check-list) em que


o inquiridor simplesmente se certifica que todas as dimensões
dum problema estão presentes ou não. “Sabe-se” no contexto
do combate ao HIV que o trabalho migratório, os camionistas,
o estupro, a prostituição, etc. são fatores importantes. O que o
facilitador, na circunstância, fez, foi simplesmente verificar se
o perfil da aldeia correspondia ou não a esse saber. Para além
destas listas pré-estabelecidas há todo o tipo de correlações que
são feitas que conferem maior realidade ainda ao fenômeno.
Assim, convocam-se critérios como a pobreza e o gênero para
estabelecer relações que, aparentemente, explicariam a manifes-
tação social da doença. “Saber” neste contexto não é apenas ter
algum conhecimento sobre o fenómeno e o que deve ser feito,
mas é também usar a doença para proporcionar novas perspec-
tivas de descrição da sociedade.
Este motor está ligado ao último, nomeadamente o que
Hacking chama de “especialistas”. Consiste daquelas pessoas
que produzem conhecimento sobre a condição humana, mas
também sobre um determinado fenómeno de interesse. O HIV-
SIDA para além de ter produzido “doentes do HIV” produziu
também pessoas dedicadas ao seu estudo. Desse processo resul-
taram instituições, programas e controvérsias académicas que
fazem parte de todo um processo de invenção dum novo tipo de
pessoa, ou por outra, dum contexto existencial dentro do qual
certas pessoas encontram espaço socialmente legitimado para
se manifestarem duma certa maneira.

IV. Nomes e coisas


Friedrich Nietzsche escrevia, em A Gaia Ciência15, que
muita coisa depende de como se chama do que do que é. Creio
15 Nietzsche 2012 [1882].

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Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

que esta é uma forma elegante de sugerir a ideia de que novos


nomes e novas verdades seriam suficientes para produzir coi-
sas. A Modernidade e o Desenvolvimento são, neste sentido,
mais do que descrições de realidades empíricas exteriores aos
próprios conceitos que as sugerem. São, na verdade, formas de
fazer o mundo (e as pessoas que o habitam). No caso particular
do “desenvolvimento” intervém um fator de extrema importân-
cia, pelo menos do ponto de vista epistemológico, que é a sua
articulação com uma certa visão histórica.
Essa visão histórica foi analisada com bastante perspicá-
cia teórica pelo sociólogo alemão Friedrich Tenbruck16 (1987)
que quase que numa abordagem Simmeliana17 descreveu o “de-
senvolvimento”, primeiro, como uma categoria que tem a sua
origem na necessidade de estruturação duma intervenção insti-
tucional e, segundo, como uma visão dum futuro sem história.
Passo a citar as duas passagens pelo seu valor instrutivo:
Países em desenvolvimento são sumariamente defini-
dos com base na ausência de certas características de
desenvolvimento, no caso mais simples com base na
constatação do Produto Social baixo como indicador
de pobreza. Esta definição promove a ideia segundo
a qual os países em desenvolvimento seriam países
em desenvolvimento devido às condições objetivas
lá existentes e que podem ser nomeadas. Contudo,
estamos aqui perante um equívoco. Os países em de-
senvolvimento surgiram como parte integrante dum
sistema internacional; na verdade, eles são o resul-
tado da política de desenvolvimento que tem como
objetivo acabar com o subdesenvolvimento.18

16 Tenbruck 1987.
17 A referência aqui é ao texto de Georg Simmel sobre o “pobre”. Simmel 1983 [1908].
18 Tenbruck 1987, p. 14; tradução de Elísio Macamo.

173
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

E ele prossegue:
De forma abstrata o conceito de desenvolvimento
constrói o futuro como uma sequência interminável
de “melhorias” e vira, por via disso, uma espécie de
instrução geral para a eliminação de todos os proble-
mas. Ignora que o “desenvolvimento” constitui um
procedimento concreto que produz novas situações
reais que, por sua vez, produzem novos problemas,
e não apenas o “desenvolvimento”. Mas é desta ma-
neira que todos os problemas do futuro são integra-
dos numa ilusão que crê no seu desaparecimento ao
longo do desenvolvimento e que vai conduzir a his-
tória da humanidade a uma espécie de ecumenismo
secular. Em nenhum momento esta visão dum tempo
sem história é perpassada pela ideia dum mundo que
termina como em contos de fadas: e viveram felizes
para todo o sempre.19

Esta visão histórica que consiste, na essência, na rejeição


da própria história é, no fundo, função da própria natureza do
desenvolvimento que se insinua nas vidas das sociedades africa-
nas como aparelho de “disciplinarização”20. Isto tem a ver com
a razão manipulativa que enforma a sua relação com os países
africanos e que consiste no que Stephan Musto21, um sociólogo
alemão, tão bem explicou:
A razão institucional vira razão manipulativa quan-
do passa da exigência mínima necessária à garantia
da sua própria existência para uma situação em que
com ou sem o consentimento dos outros, por vezes até

19 Tenbruck 1987, p. 29; tradução de Elísio Macamo.


20 Vide aqui a excelente obra de Abrahamsen sobre a disciplinarização, Abrahamsen
2000. Talvez interesse também Macamo 2003.
21 Musto 1987.

174
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

persistentemente e contra a sua vontade, quer tornar


esses outros felizes. A razão manipulativa é a razão
que força sobre os outros uma pergunta para a qual
ela própria diz ter. A manipulação é um atentado e,
portanto, o contrário de deixar que as coisas aconte-
çam: é obrigar as coisas a acontecerem. É pedagogia
no sentido negativo; é o direito que alguém outorga
de saber mais e melhor; é a autoridade que confere
o direito de punir e recompensar; é a indelicadeza de
pensar e agir pelos outros. A manipulação está sem-
pre e em todo o lugar onde existem instituições.22

O que Musto aqui faz também não difere do que outros


estudiosos, noutros contextos, já haviam tornado claro. James
Scott, por exemplo, com a sua desconfiança em relação aos es-
quemas que apostam na melhoria da condição humana23 ou
mesmo William Easterley24 com as suas reticências em relação
ao mesmo. Todos eles manifestam, nessa atitude crítica, algo
que Arturo Escobar25 já havia detetado na sua própria aborda-
gem do desenvolvimento como algo que produz os países em
desenvolvimento, portanto como algo que não é inocente em
relação à forma como apreendemos a realidade.

V. Conclusão
O que esta contribuição tentou mostrar é que conceitos
como desenvolvimento e modernidade são termos com conse-
quências. Dito doutro modo, trata-se de termos que não podem
ser usados de forma inocente. O seu uso implica uma certa con-

22 Musto 1987, p. 427; tradução de Elísio Macamo.


23 Scott 1998.
24 Earsteley 2006.
25 Escobar 1995.

175
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

cepção do mundo que se impõe pela vontade (e disponibilidade)


de poder de quem desenha esse mundo. Há uma ligação muito
forte entre os dois conceitos. A força dessa ligação vem da car-
ga normativa neles contidos. Essa carga é normativa porque os
conceitos não são uma descrição do que é, mas sim instruções
sobre o que devia ser. Esta carga normativa insinua-se com mais
força ainda quando estes conceitos são aplicados para dar con-
ta da condição de certos países no mundo, a saber os países
que não registam os mesmos níveis de desempenho econômi-
co e político que os países ditos industrializados do mundo.
Nessas circunstâncias o apelo a esses conceitos incorpora os
países com níveis relativamente fracos de desempenho econô-
mico e político numa narrativa sufocante constituída por três
elementos centrais. O primeiro consiste numa leitura bem espe-
cífica da História da humanidade que identifica o desempenho
econômico e político forte com a comunhão com os próprios
objectivos e a própria lógica da história26. Há uma certa circu-
laridade no argumento que sustenta este elemento da narrativa,
pois parte-se do princípio de que a condição actual dos países
constitui uma confirmação do bom desempenho num contexto
em que o “bom desempenho” é visto como a acção em confor-
midade com a lógica da História. O segundo elemento é uma
consequência do primeiro na medida em que a narrativa parte
do pressuposto dum mundo justo. Dito doutro modo, a justiça
é vista como uma propriedade do mundo e não da sociedade
humana. Sendo assim, maus ou bons resultados econômicos e
políticos seriam sempre a punição ou recompensa que o mun-
do dá às sociedades humanas pelo que as sociedades fizeram.
Finalmente, a narrativa assenta na redução da História humana
26 Cf. Macamo 2013.

176
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

à imitação e emulação do que aconteceu até agora. Isto é, a


História não é vista como algo cujo desfecho é necessariamente
aberto, mas sim como um conjunto de elementos susceptíveis
de serem controlados pelas sociedades humanas. Este elemento
manifesta-se, ao nível dos países com desempenho político e
econômico relativamente fraco, como compulsão para fazer o
que os outros querem.
Na verdade, o „desenvolvimento“ e a „modernidade“
são nomes que se dão a mundos ainda por construir. Não são
descrições desses mundos. São instruções no sentido de moto-
res de busca descritos por Ian Hacking. Neste sentido, a ques-
tão de saber se o “desenvolvimento” seria mito ou realidade da
“modernidade” merece ser abordada doutra maneira. Estamos
na presença de mitos em ambos os casos, mitos esses que con-
sistem na produção de narrativas plausíveis sobre a natureza
da realidade ao mesmo tempo que traçam os perfis ideais das
pessoas que devem povoar os mundos por eles sugeridos. O de-
senvolvimento não é realidade. É um mito. Um mito que ganha
a sua coerência pelo seu poder de nomeação. A modernidade
também não é uma realidade. Na relação entre a Europa e a
África, a noção de modernidade desempenha o papel dum mito
que torna plausível uma certa versão da História humana ao
mesmo tempo que produz as condições normativas para a jus-
tificação do poder que a Europa exerce sobre a África.

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180
CAPÍTULO V

A cidade brasileira: moderna


demais para o século XXI?
Martin Gegner

I. Introdução
Como será discutido em um outro texto é problemáti-
co falar das cidades brasileiras no singular e aconselhável falar
delas no plural1. No entanto, em meio a toda essa pluralidade,
existe no Brasil um Estatuto da Cidade que define as regras
básicas do desenvolvimento urbano para todas as cidades bra-
sileiras2, e, além disso, uma tradição concreta de construção das
cidades brasileiras no século XX, que se caracteriza por uma
recepção especial do Modernismo Europeu.
Neste artigo iniciaremos com a revisão desse histórico da
recepção para mais tarde esboçarmos o caminho próprio brasi-
leiro para a modernidade. Utilizamos os termos “Modernismo“
e “Modernidade” aqui referente à época histórica da arquitetu-
ra e do urbanismo entre os anos de 1920 e 1960. A pergunta
do título faz referência a essa época e questiona se o urbanis-

1 Gegner 2015.
2 Presidência da República 2001.

181
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

mo brasileiro não se baseou demais nos conceitos da primeira


metade do século XX. As exigências específicas para o século
XXI, determinados de forma não objetiva, serão definidos ao
final, fazendo referência ao Millennium Development Goals
das Nações Unidas3 definido na jurisdição do Programa de
Assentamentos Humanos4. Desta maneira os desenvolvimentos
concretos da urbanização brasileira para o início do século XXI
serão confrontados com os objetivos abstratos supranacionais
e nacionais, como escrito no Estatuto da Cidade. Levando em
consideração que partimos do pressuposto que os desenvolvi-
mentos atuais dependem veementemente do contexto histórico,
o objetivo desse trabalho é a reconstrução histórica do urbanis-
mo brasileiro moderno.

I. O que é uma cidade moderna?


A urbanização e a arquitetura modernas tiveram seu
início no final do século XIX com os movimentos artísticos
Arts and Crafts e Art Nouveau, sendo este último chamado de
Modernisme em sua versão catalã. A partir de 1907 estes movi-
mentos se condensaram no Deutscher Werkbund5, que propôs
uma arquitetura funcional com uma estética limpa. A “AEG-
Turbinenhalle” de Peter Behrens em Berlin (1907), a “Robie
House” de Frank Lloyd Wright (1908), os “Fagus-Werke” de
Walter Gropius e Adolf Meyer em Alfeld an der Leine (1911),
assim como, a “Casa do Michaeler Platz” em Viena de Adolf
Loos (1911) são as construções mais marcantes e, em um sen-
tido mais recente da palavra, “mais modernas” deste período.

3 UN 2001.
4 UNHABITAT 2010.
5 Gegner/Metz 2014, Schwartz 2014.

182
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Depois da primeira guerra mundial, na Alemanha a rup-


tura com o antigo regime se manifesta na arquitetura com o
início de um complexo movimento da modernidade. Os berli-
nenses Bruno Taut, Erich Mendelsohn e Hans Scharoun foram
os primeiros destaques da nova arquitetura. Porém por volta
de meados dos anos 1920, estava à frente do movimento a
Bauhaus fundada em 1919 em Weimar que tinha como prota-
gonistas Walter Gropius, Hannes Meyer e Mies van der Rohe.
No entanto, também há em muitos outros lugares da Europa
escolas de arquitetura moderna, como De Stijl na Holanda,
os Construtivistas na soviética Moscou ou o Razionalismo na
Itália. Todas elas fusionam a busca por uma arquitetura funcio-
nal, voltada às necessidades do homem moderno. Os projetos
modernos preferencialmente são realizados com os materiais
vidro, aço e cimento.
Esteticamente falando não existe de forma alguma um
estilo moderno uniforme. Enquanto na Alemanha primeira-
mente o expressionismo dominava, de um lado com ângulos
agudos (Taut, Scharoun) e do outro com formas arredondadas
(Taut, Mendelsohn), o “Bauhaus-Stil” foi ficando popular com
o passar dos anos 1920, e culminou mais tarde no International
Style6. Este estilo, comprometido ao funcionalismo e com uma
ortogonalidade rigorosa como princípio estético, é baseado nas
teorias de Walter Gropius (2004): a unidade de arte, técnica e
indústria.
Nesse ponto Gropius concorda completamente com Le
Corbusier, o qual se apresentou como o arquiteto europeu mais
importante para o caminho brasileiro da modernidade. No iní-
cio dos anos 1920, Le Corbusier entra em contato com Behrens,

6 Recamán 2013.

183
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Gropius e Mies van der Rohe e desenvolve, ainda antes de reali-


zar suas primeiras construções modernas, um plano urbanístico
em “une ville contemporaine”7 (uma cidade contemporânea) e
uma escrita programática em Vers une Architecture8 (rumo a
uma arquitetura). Como os princípios essenciais do design de
sua arquitetura Le Cobusier define a linha reta e o ângulo reto:
Uma cidade moderna vive, praticamente, da linha
reta: Construção alta e subterrânea, canalização,
ruas, calçadas etc. O trânsito exige a linha reta.9

E considera formas curvas e arredondadas “perigosas”,


retrógradas e inadequadas a Modernidade:
A linha reta é saudável para a alma das cidades, a
curva é perecível, difícil e perigosa. Ela trava [... ].
A rua curva é o caminho das mulas, a rua reta o ca-
minho dos homens. O ângulo reto é o instrumento
necessário e suficiente para agir porquanto serve para
fixar o espaço com um rigor perfeito.10

Baseado nesse veredito estético, Le Corbusier nomeia


ordem, planejamento e organização como princípios do urba-
nismo. De encontro a essa ideia está a cidade antiga com seu
labirinto de ruas pequenas, construções aninhadas e suas estru-
turas organicamente desenvolvidas por séculos. Le Corbusier as
considera um obstáculo a ser enfrentado:
Eu penso muito friamente sobre isso, de que precisa-
mos encontrar uma solução para destruir e recons-
truir os centros das grandes cidades; que precisamos

7 Le Corbusier 1922a.
8 Le Corbusier 1922b.
9 Le Corbusier 1925a, p. 5.
10 Le Corbusier 1925a, p. 10-13.

184
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

da mesma forma destruir o cinturão ensebado dos


subúrbios...11

Em sua significativa “Carta de Atenas”12, o arquiteto e


teórico explica a separação espacial de diferentes atividades so-
ciais como meio de reestabelecer a ordem nas cidades.
A chave para a urbanização está nas quatro funções
seguintes: Morar, trabalhar, divertir-se e circular.13

Ao trânsito (de automóveis) não é atribuído somente o


papel de conexão das diferentes zonas, mas também a urbani-
zação orientada implicitamente para a necessidade dos auto-
móveis, que leva vantagem sobre os reais encargos funcionais
da época, como a construção de moradias suficientes e de boa
qualidade. De fato, a cidade deveria ser pensada a partir das
moradias. No entanto, isso levou a concepção de que o espaço
de troca social será transferido das ruas públicas para espaços
separados e semipúblicos dos prédios residenciais:
Temos a rede rodoviária que cruza com vias de pas-
sagens inferiores e superiores e vão até a porta... Em
seguida, o plano mostra outra rede – desta vez em
vertical – que atravessa a casa de baixo para cima
e interliga a fábrica do térreo com todos corredores
para o serviço... Cooperativas de consumo ou hote-
leiros assumem a administração da alimentação.14

Dessa forma com os planos teóricos de Le Corbusier para


a cidade moderna os espaços públicos funcionais são deprecia-
dos e os espaços semipúblicos separados são revalorizados.

11 Le Corbusier 1925a, p. 83.


12 Le Corbusier 1943.
13 Le Corbusier 1943, p. 157 (§77).
14 Ibid, p. 184.

185
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

A ênfase na ordem e no progresso, slogan positivista


que o Brasil leva em sua bandeira desde 1889, explica o por-
quê de Le Corbusier ter ganhado um papel tão dominante no
desenvolvimento da arquitetura e urbanismo modernos neste
país. A visão de mundo de Le Corbusier é moldada pela ci-
ência, pelo fascínio na viabilidade técnica e pelo planejamen-
to para o bem das pessoas. Da mesma forma nos anos 1920
se construí a autoimagem de indivíduos importantes da nova
república brasileira15. Perante esta ênfase nas linhas e ângulos
retos derivados das teorizações de Le Corbusier é mais que no-
tável, que pelo menos na arquitetura e no paisagismo (isto é: de
Niemeyer, Reidy e Burle Marx) siga-se um caminho brasileiro
próprio para a Modernidade que se mostre ondulado, quase
balançando.

II. As promessas da modernidade


O urbanismo moderno representa – sem contar os dife-
rentes conceitos individuais de seus protagonistas – cinco pro-
messas principais.
a) Solução da questão habitacional
b) Ordem e Progresso
c) Separação das funções
d) Maior Mobilidade
e) Dissolução da cidade em uma paisagem urbana

a) Solução da questão habitacional


Todos os arquitetos renomados tomaram como seus ob-
jetivos a eliminação do déficit habitacional tanto no aspecto
15 Goulart 2010.

186
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

quantitativo quanto no qualitativo. A urbanização europeia,


implementada devido à industrialização na segunda metade do
século XIX levou o mercado imobiliário a condições intoleráveis
em quase todos os lugares, sobretudo nas metrópoles: os apar-
tamentos construídos rapidamente para os trabalhadores eram
em sua maioria superlotados, sem higiene, frios, úmidos, escu-
ros, pouco arejados e apesar da baixa qualidade eram muitas
vezes relativamente caros16. Em contrapartida os Modernistas
estabeleceram uma arquitetura que deixava o ar e sol entrarem
nos cômodos, que organizava centralmente o fornecimento de
água, esgoto, energia e calor, que impunha bairros com área
verde e também de valor acessível a famílias da classe operária.

b) Ordem e Progresso
Todos os modernistas tinham a opinião, de que a cau-
sa da situação deplorável citada acima era a construção des-
regrada nos antigos centros das cidades desde a idade média.
No entanto já a primeira onda de modernização na Europa
a partir da metade do século XIX destacada pelas plantas de
Haussmann (1893) em Paris, Hobrecht (1893) em Berlin e de
Cerdà (1867) em Barcelona, assim como a construção da es-
trada circular de Viena (“Ringstraße“) foi marcada para a in-
trodução de regras de construção obrigatórias. Estes tiveram
uma paisagem urbana representativa como objetivo, além de
disciplinar o proletariado. A consequência foi um urban design
com conjuntos habitacionais ortogonais, cortados por grandes
avenidas e bulevares, nas quais o exército e a polícia pudessem
agir eficientemente em rebeliões sociais. Mas a expulsão força-
da dos planejamentos urbanos de grandes áreas de construção
levou primeiramente a uma enorme especulação imobiliária
16 Cowan 2001.

187
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

que aumentou a carência de habitação até o final do século


apesar da construção extremamente intensa em todas as metró-
poles europeias. Assim pode-se constatar nesse ponto, que uma
urbanização organizada não gera automaticamente moradias
de qualidade e quantidades suficientes. Ao invés disso, pode-se
afirmar com alguma razão que o sistema de avenidas largas e
bulevares, como descritos acima, foram uma preparação bem-
sucedida para a construção estabelecida de cidades construídas
para carros no século XX. Os motoristas de Berlim, Viena, Paris
desfrutam ainda hoje dos largos corredores batidos que cortam
as cidades do século XIX.

c) Separação das funções


Com essa lógica, segue-se a exigência por uma separação
funcional da área urbana. As áreas residenciais deveriam ser
construídas longe de áreas industriais, da época de alta emis-
sividade, principalmente no oeste da cidade (uma vez que na
Europa Central dominam os ventos oeste e assim o ar ruim das
indústrias não são levados para as áreas residenciais, mas para
as regiões “vazias” fora da cidade). Separados de ambas, áreas
residenciais e industriais, deveriam ser implementadas áreas de
lazer, para cultura, compras e esportes. Em alguns planos (por
exemplo, em Le Corbusier Plan Voisin (1925b) previa-se a se-
paração das áreas residenciais por classe social e com isso uma
área residencial separada para os operários, os empregados e
para a classe alta. Os bairros separados socialmente não são
uma criação da Modernidade, no entanto também dela não
parte um impulso igualitário, em nenhum de seus formatos
ocidentais. É de se admirar, por que a maioria dos arquitetos
modernistas se considerava simpatizante da socialdemocracia,
quando não do comunismo.

188
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

d) Maior Mobilidade
A separação em grande escala das áreas urbanas segundo
critérios funcionais fizeram necessária uma melhor mobilidade
dos moradores das cidades, comparada ao século XIX, e acima
de tudo acelerada. Enquanto na cidade da idade média se podia
fazer quase todos os caminhos a pé devido a curta distância
entre a casa e o local de trabalho; depois da primeira onda de
modernização e expansão das cidades a partir de 1850 isso se
torna quase impossível por conta das longas distâncias entre o
centro e os subúrbios urbanos ou industriais. Os novos meios
de transporte como os bondes elétricos (a partir de 1881, an-
tes eram movimentados por cavalos) possibilitaram o acesso
das pessoas da cidade às áreas forçadamente distantes. Com os
trens suburbanos assim como com os metrôs a partir de 1900
(Londres como metrópole mais desenvolvida do mundo foi a
primeira a receber já a partir de 1863 um metrô) não foram
diminuídas somente as distâncias, mas os meios de transporte
possibilitaram também que a metrópole incluísse os subúrbios
que por vezes se transformaram em bairros distantes do centro.
Sem exceção, os modernistas ficaram encantados com o
novo meio de transporte a partir de 1920, o automóvel. Ainda
que na época este tenha sido um luxo que somente os ricos
obtinham. Os modernistas sonhavam que o automóvel pudesse
substituir os meios de transporte de massa como ônibus e me-
trô. Até que nesse ponto os modernistas foram bem igualitários,
eles anteciparam a motorização em massa e imaginaram que
no futuro cada cidadão trabalhador teria seu próprio carro. No
entanto, esse sonho só se tornou realidade na Europa após os
anos 1950 – no Brasil somente no século XXI – mas o planeja-
mento de trânsito da cidade já estava voltado para a motoriza-
ção em massa desde 1920.

189
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

e) A dissolução das cidades


Com a separação funcional dos espaços de grandes ci-
dades e a mobilidade melhorada e acelerada de forma forçada,
alguns Modernistas, nem todos, sonharam com uma dissolução
das cidades e a criação de paisagens urbanas.
Essas reflexões se basearam no movimento da cidade jar-
dim no final do século XIX, no qual reformistas como Ebenezer
Howard17 diante da decepção com o estado deplorável persis-
tente das cidades, apesar dos esforços da primeira moderniza-
ção urbana por Haussmann, Hobrecht e Cerdà, apelam para
a fundação de novas colônias habitacionais no campo. Estas
cidades jardim foram implementadas em diferentes lugares na
Europa em frente aos portões da cidade, sempre no contex-
to de ideias que mudassem o modo de vida das pessoas. Na
Alemanha, a colônia Hellerau próxima a Dresden foi a maior
e mais importante dessas cidades jardim18. Este conceito foi
transformado por Bruno Taut em 1920, que já em 1912, utili-
zando seu trabalho extraordinário com cores, realizou a assim
chamada Tuschkastensiedlung (colônia “caixa de tinta”) em
Berlin-Falkenberg, uma importante cidade jardim. Em seus cro-
quis Alpine Architektur (Arquitetura Alpina) e Auflösung der
Städte (Dissolução das cidades)19, imaginou habitações integra-
das a uma paisagem ampla, na qual faltasse a característica ur-
bana como densidade e verticalidade arquitetônicas. Nenhum
desses projetos foi realizado. As ideias de Taut foram retomadas
por Hans Scharoun, que como diretor do conselho urbanísti-
co da ainda unificada Berlim propôs em seu assim chamado
“Kollektivplan” (Plano coletivo) para o desenvolvimento do
17 Ebenezer Howard 1898.
18 Deutscher Werkbund 2009.
19 Taut 1919, 1920.

190
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Berlim pós-guerra, de uma dissolução da cidade, mesmo que


somente de um descongestionamento área urbana. Scharoun
imaginava uma “paisagem urbana” cortada por áreas verdes,
que ao invés da vedação urbana teria como objetivo, uma ar-
quitetura solitária em um ambiente semelhante a um parque.
Desse modo, está nova disposição intencionada da cidade
e a sua nova expansão deveriam ser mantidos de maneira fun-
cional através de uma via expressa para carros em alta veloci-
dade. O planejamento de Scharoun não foi realizado, mas ele
influenciou o planejamento do novo centro de Berlim Oriental
e a criação do Hansaviertel, bairro modernista estabelecido
para a exposição internacional de urbanização de 1957 com
participação da elite internacional de arquitetura (inclusive Le
Corbusier e Oscar Niemeyer) em Berlim Ocidental20.

f) Considerações intermediárias: da paisagem urbana à cidade


em função do automóvel
As cinco principais promessas foram todas mal aplica-
das, também na Europa. A questão da habitação foi respon-
dida somente no final da década de 1960 e início de 1970 de
forma satisfatória com a construção de edifícios habitacionais
de massa em grande escala no Oriente e no Ocidente. Com isso
as ideias da estética moderna clássica foram direcionadas (ou
como os críticos diriam “pervertidas”21 fortemente a favor de
uma realização quantitativa dos planos na Europa Oriental, ou
de outro lado que pudesse gerar um maior retorno possível de
investimento através do alto índice de rendimento bruto por
metro quadrado em Europa Ocidental.

20 Schulz/Schulz 2008.
21 Mitscherlich 1965.

191
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

O dogma de ordem de Le Corbusier foi implementado


na Europa no pós-guerra, também somente de forma rudi-
mentar. Muito embora a destruição causada pela guerra (na
Alemanha, por exemplo, 40% das grandes cidades, com exce-
ções (Colônia, Dresden, Hamburgo) até um máximo de 80%
teoricamente permitisse uma reconstrução “ordenada” radical
baseada nos princípios modernistas22, esta somente foi realiza-
da parcialmente na Europa socialista do Leste. No Ocidente,
em contraposição foram reestabelecidas as parcelas de proprie-
dade privada em edifícios. Consequentemente, a maioria das
cidades da Europa Ocidental foram reconstruídas segundo os
antigos pré-modernos layouts de cidade. A separação funcio-
nal também não pode ser aplicada devido ao já tradicional
desenvolvimento industrial. Ela também se tornou inaplicável,
por exemplo, no caso de Berlim, por circunstâncias políticas.
Como Berlim Ocidental após a construção do muro em 1961
tornou-se uma ilha político-econômica no socialismo, foram
construídos (ou continuaram funcionando) mesmo nas regiões
geograficamente a oeste áreas de indústria pesada e usinas elé-
tricas. O muro também impediu em grande parte a emigração
do centro e o estabelecimento de bairros puramente residenciais
nos subúrbios. No entanto, este não foi o caso na maioria das
outras cidades da Europa Ocidental. Aqui houve uma suburba-
nização conhecida nos Estado Unidos, ou, como era chamado
críticamente “aldeização da paisagem” (Schwick et al. 2010). A
partir da dissolução das cidades, isso passou a ser a “urbaniza-
ção da paisagem” que foi acompanhado pela rápida expansão
da rede rodoviária. Quase todas as cidades da Europa Central
assim como seus centros foram reconstruídos para a melhoria

22 Kleßmann 1986, p. 354.

192
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

do trânsito com o automóvel. Os críticos chamaram esse movi-


mento de o estabelecimento da “cidade amiga do carro”, após
um livro eufemístico do arquiteto alemão Bernhard Reichow23.
Para muitos, essa adequação ao carro é compreendida como a
promessa mais congruente da modernidade urbana24.

IV. A Modernidade no Brasil


Como um movimento de arte, a Modernidade chegou ao
Brasil com a “Semana de arte Moderna” de 11 a 17 de feverei-
ro de 1922 no teatro municipal de São Paulo, com o apoio do
então governador do estado de São Paulo, Washington Luis.
Artistas como Mário e Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Di
Cavalcanti, Heitor Villa-Lobos apresentaram seus trabalhos.
Desde a pintura, escultura, poesia até a música, todas as artes
foram representadas. Para os organizadores e líderes de opinião
como os Andrade, a introdução da arte moderna foi a cria-
ção de uma consciência nacional que contrapunha a herança
colonial25.
Apesar desta abordagem nacionalista, a influência do
futurismo italiano, do cubismo e do expressionismo era clara,
o que não surpreende considerando o contexto europeu pre-
sente, com as experiências de viagem dos artistas. Dois arqui-
tetos também participaram da Semana apresentando modelos
de arquitetura e desenhos na exposição: o espanhol Antonio
Garcia Moya e o polonês Georg Przyrembel. Enquanto Moya
apresentava suas plantas, em partes emprestadas do molde de
construção de povos indígenas do sul da América do Norte,
consideradas de certa forma “modernas” ainda que inconscien-
23 Reichow 1959.
24 Ver Mitscherlich 1965, Knie/Marz 1997.
25 Andrade 1924.

193
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

temente, as ideias de Przyrembel não se pareciam em nada com


as ideias do Modernismo26. Portanto, a arquitetura não foi bem
representada na “Semana de 22”.
Foram necessários mais três anos até que em 1925 as
concepções da arquitetura moderna fossem concretizadas no
Brasil com os manifestos de Rino Lévi e Georgi Warchavchik.
Em ambos o chamado para uma arquitetura nacional que fos-
se adequada às condições climáticas, sociais e econômicas era
inconfundível.
É necessário que o que se fez e faz no exterior seja
estudado e colocado no nosso questionamento sobre
estética das cidades e resolvido com alma brasileira.
Pois nosso clima tem outras características que o da
Europa. Eu acredito que nossa vegetação exuberante
e nossas belezas naturais incomparáveis possam in-
centivar nossos artistas para realizar algo único, o
que nossas cidades marcam por seu encanto e vivaci-
dade de cores é único no mundo27.

Em Warchavchik a arquitetura é voltada para as pró-


ximas gerações, o que hoje seria notavelmente chamado de
“sustentabilidade”.
Para que nossa arquitetura tenha sua própria origi-
nalidade, assim como nossas máquinas a têm, o ar-
quiteto moderno não pode se limitar a copiar velhos
estilos, ou mesmo refletir sobre eles. O caráter de
nossa arquitetura assim como das outras artes, não
deve criar um estilo somente para nós contemporâ-
neos, mas também para as gerações que nos seguem.
Nossa arquitetura deve ser prudente, ela não deve se

26 Amaral 1979, p. 152; Kessel 2002.


27 Lévi 1925, p. 1.

194
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

basear somente na lógica e nós precisamos contra-


por essa lógica àquela que aspira imitar outros estilos
arquitetônicos.28

A exigência de racionalidade vai incondicionalmente ao


encontro das concepções publicadas num mesmo momento por
Gropius e Le Corbusier em 192529. Entretanto Warchavchik en-
fatiza também a busca por uma independência brasileira; ele
exige que não se copie exemplos nem da Europa nem de tempos
antigos.
Exatamente este Gregori Warchavchik, um imigrante ju-
deu de Odessa, construiu em 1927 em sua casa no bairro da
Vila Mariana em São Paulo a primeira casa moderna do Brasil.
Warchavchik estudou arquitetura em Roma depois de sua fuga
da guerra civil russa de 1918 a 1920 e, apesar de sua forma-
ção predominantemente clássica, antes de sua emigração para
o Brasil no ano de 1923 entrou em contato com as ideias de
Gropius e Le Corbusier. Sua “Casa Warchavchik” é uma cons-
trução estritamente cubista. Com a decoração de interiores, de-
senhada por ele mesmo, Warchavchik segue a ideia conhecida
de outros arquitetos modernistas de criar uma “obra de arte
completa”.
Depois de seu casamento com a filha de um industriário,
Mina Klabin, e sua naturalização em 1927 o arquiteto rompeu
com seu até então empregador, tornou-se trabalhador autôno-
mo e passou a construir a partir de então uma série de casas
modernistas30. A mais significativa está na rua Itápolis em São
Paulo, que devido ao paisagismo feito por sua esposa, o mo-
biliário autoconcebido, bem como as obras de Anita Malfatti,

28 Warchavchik 1925, p. 1.
29 Gropius 1925; Le Corbusier 1925a.
30 Lira 2011, p. 148.

195
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Lasar Segal, Di Cavalcanti e outros, expostas de 24 de março


até 20 de abril de 1930, passa a ser outra “obra de arte comple-
ta” sendo assim considerada a exposição de arte moderna mais
importante do Brasil, depois da semana de 1922.
Na época era caro fazer uma construção moderna. Aço,
vidro e até mesmo cimento precisam ser importados. Com isso
a construção de casas modernas até os anos 1940 era um fenô-
meno da elite brasileira. A decisão pela arquitetura moderna se
baseia em considerações estéticas e não funcionais.
O primeiro planejamento urbanístico modernista, o Plano
Agache – em homenagem a seu criador, o francês Alfred Agache
– foi concebido 1929 para o Rio de Janeiro. Característico des-
te plano são os eixos radiais que saem do centro, e colocam em
primeiro plano o desenvolvimento do tráfego. O plano não foi
concretizado, mas influenciou a criação de um departamento
de planejamento do desenvolvimento urbano no gabinete do
prefeito do Rio.
Rascunhos urbanísticos para São Paulo e Rio de Janeiro
também foram desenhados por Le Corbusier em sua viagem a
essas cidades31. No desenho para a cidade de São Paulo foram
representados somente três prédios: um edifício alto em cruz
semelhante ao Plan Voisin (1925b), um alto edifício alongado
em cujo telhado passa uma via rápida e ao fundo uma grande
construção em formato de bloco com pátio. Todos os outros
edifícios foram indicados apenas esquematicamente, até mesmo
os antigos bairros com torre de igreja (na sombra da via eleva-
da do prédio). Claramente emerge a topografia ondulada de
São Paulo. Em vista disso pensava-se ter entendido o mal-estar
de Le Corbusier: sobre uma morfologia como esta, não se deixa
realizar qualquer conceito estritamente ortogonal. Por conse-
31 Le Corbusier 1929a/b.

196
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

guinte, o prédio-estrada está em primeiro plano por onde estão


desenhadas quatro passagens inferiores com estradas sinuosas.
O sistema de mobilidade das vias expressas está sem dúvida
em primeiro plano nas reflexões de Le Corbusier. Ao lado disso
chamam a atenção os amplos terrenos.
As ideias para o Rio de Janeiro foram ainda mais ra-
dicais, mas consideraram a morfologia da cidade com seus
pontos marcantes como pão de açúcar, baía de Guanabara e
Corcovado. Le Corbusier também faz uma faixa de prédios al-
tos (no entanto, elevados) que iam do Pão de Açúcar beirando
a praia do Flamengo até o centro. Ali estão três blocos maciços
integrados transversalmente aos prédios. No desenho não fica
claro se a faixa de prédios foi também pensada como via ex-
pressa. A faixa se estende tanto para oeste quando para leste,
onde pode-se supor uma continuação para a Pedra da Gávea.
Excepcional para Le Corbusier consiste em que essa faixa não
seja reta e não se ramifique em ângulos retos, mas que seja si-
nuosa. Isso nos leva a crer que a fisionomia da cidade do Rio de
Janeiro inspirou Le Corbusier a contradizer suas próprias con-
vicções. Ambos os projetos não foram concretizados, no entan-
to, pode-se detectar no domínio do desenvolvimento voltado
para o tráfego de automóveis considerações preliminares para
posteriores vias de trânsito realizáveis nas duas cidades.

a) Habitações sociais a partir de 1930


A crise econômica mundial de 1929 também atingiu o
Brasil sensivelmente. A exportação de café, principal fonte de
receita do país irrompe; seu preço cai de 1929 a 1932 em 60%32.
Essa crise leva a intensificação de tensões políticas; o domínio
da elite paulista foi colocado em questão por forças sulistas. Os

32 Rinke/Schulze 2013, p. 142.

197
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

até então apoiadores dos “paulistas”, os oligárquicos de Minas


Gerais mudaram de lado. Depois de ser eleito democraticamen-
te a presidente, Júlio Prestes não chegou a tomar posse do cargo
por conta de um golpe militar em 24 de outubro. Como con-
sequência o fazendeiro Getúlio Vargas é apontado pela junta
militar como novo presidente. A partir de 1934 Vargas gover-
na cada vez mais autoritariamente. Três anos depois em 1937
Vargas aplicou um outro golpe político contra a constituição, e
cria o Estado Novo ditador. “O sistema pode ser descrito como
autoritário, burocrático, nacionalista, populista, corporativista
e desenvolvimentista”33.
A política de Vargas deixa clara uma moldura tropical do
que Peter Wagner chama de “Modernidade organizada”34: uma
mobilização de toda a sociedade sob a direção do estado contra
o fracasso evidente de um sistema econômico liberal, mas com
a manutenção dos princípios capitalistas. Ao lado de um curso
fortemente nacionalista (aclamado por muitos intelectuais bra-
sileiros contemporâneos) também faz parte uma intensificação
das ideias de ordem e progresso. A concessão de direitos sociais
deveria assegurar a Vargas um grande apoio da população e
ao mesmo tempo uma forma de discipliná-la. Concretamente
Vargas se dedicou a estatização de indústrias destinadas à ex-
ploração de minérios, à redução dos privilégios dos oligarcas e
à introdução de uma previdência social assim como a institui-
ção de um salário mínimo, pagamento de férias e uma regula-
mentação obrigatória da jornada de trabalho.
Já na década dos anos 1920 o país começou a se industria-
lizar, principalmente no estado de São Paulo. As cidades cresce-
ram rapidamente. A forte imigração da Europa e Japão pressio-
33 Rinke/Schulze 2013, p. 13.
34 Wagner 1995.

198
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

nou ainda mais o mercado imobiliário. No Rio e em São Paulo


aumentam o número de Favelas, um fenômeno conhecido desde
a abolição da escravatura em 1888. Nesta situação, Vargas in-
troduz uma política estatal de moradia para os operários. Quem
fica responsável por essa política é o Ministério do Trabalho que
desenvolveu por meio do Instituto de Aposentadoria e Pensões
(IAP) um programa de habitação de massa, que aplica a expe-
riência da Europa, com especial consideração pelos projetos de
habitação de Ernst May em Frankfurt/Alemanha, adequadas e
aproveitadas para as condições brasileiras. De 1937 a 1964 os
IAPs levantaram com o financiamento de seus fundos de pensão
e subvenção estatal em um total de 125.025 moradias simples
segundo os critérios modernistas, em média 4630 por ano35. Os
números comprovam que esta foi somente uma gota de água na
pedra quente da demanda, pois a população brasileira cresceu
de 45 milhões em 1940 para 82 milhões em 196436. Com isso
se instaura uma forte migração interna que consequentemente
atrai a população pobre rural para as novas vagas de trabalho
nas indústrias estabelecidas nas cidades. No entanto, estes pro-
jetos abrem caminhos para a progressiva autocompreensão do
Brasil, sobretudo porque depois do estabelecimento da ditadu-
ra militar em 1964 não houve outra política coerente de habi-
tação37. O que gera uma explosão dos bairros de miséria, tanto
que nas grandes cidades vivem atualmente até um terço da po-
pulação em Favelas38. A parcela da modernidade na arquitetura
brasileira realizada pelos IAPs está pouco representada tanto na
consciência cotidiana quando nas discussões acadêmicas. Isso

35 Farah apud Bruna 2010, p. 121.


36 IBGE 1941: XVI, IBGE 1965, p. 67.
37 Bruna 2013, p. 246.
38 IBGE 2011, p. 44pp.

199
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

pode ter razões “ideológicas”, como acredita Paulo Bruna que


acusa a cena da arquitetura acadêmica brasileira marxista de
apreciar uma indignação contra as conquistas sociais da Era
Vargas39. Por outro lado essa pouca representação pode estar
no fato de que nem as – mais tarde – estrelas da arquitetura
Lúcio Costa e Oscar Niemeyer nem Gregori Warchavchik faze-
rem parte do programa. Os atores que dominaram no progra-
ma do IAP eram os até hoje desconhecidos arquitetos Rubens
Porto, Joaquim de Almeida Santos, Carlos Frederico Ferreira
ou Bruno Simões Magro.
As construções mais conhecidas do programa do IAP
foram construídas por Affonso Reidy com os complexos
“Pedregulho” (1948) e “Gávea” (1952). Estes projetos ganha-
ram o primeiro prêmio na 1ª Bienal de São Paulo em 1951 que
teve como presidente do júri Sigfried Giedion, o primeiro secre-
tário geral do CIAM (Congrès Internationaux d’Architecture
Moderne). Eles correspondiam com suas 272 e 748 moradias
respectivamente tanto as exigências funcionais do CIAM de
preços acessíveis e alta qualidade das moradias de massa como
também a noção de estilo brasileiro independente, expressa em
suas formas sinuosa, sua extensa área verde e o paisagismo por
Roberto Burle Marx. Quem não conhece esse fato atribui a au-
toria do complexo habitacional a Oscar Niemeyer por conta de
sua estética. Estas obras de Reidy entraram na história da ar-
quitetura como as construções mais conhecidas e emblemáticas
do programa dos IAPs.
Exceto estes poucos exemplos, as habitações sociais no
Brasil quase não deixaram vestígio no cânone da arquitetura
do país40. De Warchavchik e Lúcio Costa ficaram conhecidas
39 Bruna, p. 246.
40 Bonduki 1996.

200
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

as habitações de operários de Gamboa no Rio de 1933, no en-


tanto, elas não podem ser comparadas às habitações de massa
com suas 14 moradias. Ocorre que depois da lenta venda de
apartamento dos primeiros três blocos habitacionais, somente
metade do projeto Parque Guinle de Lúcio Costa foi realizado
de acordo com seus planos. Além disso, tratava-se de um pro-
jeto de habitacional para a classe média alta. Oscar Niemeyer
apresentou suas ideias em favor da responsabilidade social da
arquitetura e urgência das habitações de massa em 195541. No
entanto, seus planos só foram concretizados a partir de 1951
com o Edifício Copán e outros prédios habitacionais em São
Paulo e Belo Horizonte e por fim pelas construções habitacio-
nais de Brasília. Estas, no entanto, não abrigavam moradias
simples e baratas de trabalhadores, mas até mesmo na inau-
guração eram relativamente caros, portanto eram moradias
bem equipadas para a classe média alta. Sendo assim, é possível
concluir que nos tempos da “Modernidade organizada” havia
abordagens para a solução da questão de moradia, mas estas
não foram nem de longe satisfatórios até mesmo no governo
Vargas. Nesse contexto, vale lembrar que há pouco foi lançado
um estudo abrangente sobre a contribuição das habitações so-
ciais para o Modernismo brasileiro por Bonduki42. No entanto,
não foi possível incluir uma discussão sobre ele neste trabalho.
A nomeação pessoal de Vargas a Lúcio Costa como dire-
tor da Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), considerada na
época a melhor escola de arquitetura do país, foi essencial para
o desenvolvimento do urbanismo moderno brasileiro. Embora
Costa tenha assumido a direção da escola somente por cerca de
um ano, ele consegue com a nomeação de Gregori Warchavchik
41 Niemeyer 1955.
42 Bonduki 2014.

201
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

como professor, mobilizar um corpo discente jovem e entusias-


mado pela modernidade do qual faziam parte Affonso Reidy,
Milton Roberto além de Oscar Niemeyer.

b) O domínio do arquiteto Oscar Niemeyer


O modernismo arquitetônico brasileiro ficou conheci-
do mundialmente pelos projetos icônicos de Oscar Niemeyer,
começando por sua participação em 1937 na construção
do Ministério da Educação no Rio de Janeiro (hoje Palácio
Capanema), cuja obra foi realizada ainda sob a direção de Lúcio
Costa e a participação de Le Corbusier. Mesmo a contribuição
para a exposição mundial em 1939 é de Niemeyer e Costa e fez
com que ambos ficassem também conhecidos no exterior.
O primeiro grande projeto sob a direção única de
Niemeyer foi o conjunto arquitetônico em torno do lago arti-
ficial Pampulha em Belo Horizonte a pedido do então prefeito
Juscelino Kubitschek em 1942. Com a igreja São Francisco de
Assis, a Casa de Baile, e o Iate Tênis Club, desenvolveu pela
primeira vez uma linguagem própria e mais tarde caracterís-
tica, que troca a ortogonalidade de Le Corbusier pelas formas
arredondadas e sinuosas. O projeto foi apresentado com desta-
que na exposição “Brazil Builds” do museu de arte moderna de
Nova Iorque43. A popularidade causada por esta exposição foi
importante também para sua vitória no concurso para a cons-
trução da sede das nações unidas em 1947 em Nova Iorque,
em qual o arquiteto passou a frente de outros 44 projetos, en-
tre eles o de Le Corbusier com quem trabalhou em conjunto
na concretização. Mas o projeto que deixa todos os outros a
sombra é a realização de Brasília, a construção completa de
uma cidade inteira de 1956 a 1960. Construções iconicamen-
43 Goodwin 1943.

202
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

te representativas de Niemeyer como o Congresso Nacional,


Palácio da Alvorada, Itamarati e a Catedral Metropolitana de
Brasília são mundialmente conhecidas. Nesse contexto também
é importante citar que com o planejamento de Lúcio Costa foi
construída a maior cidade planejada, e, depois de Chandigarh
na Índia a segunda planejada conforme os critérios de urba-
nismo do CIAM. O famoso plano piloto de Lucio Costa se
destacou pelo formato de avião44, cujas asas acompanham a
curvatura do lago artificial Paranoá, criado anteriormente para
o abastecimento de água potável. No extremo leste do plano
em direção ao lago encontra-se o lugar dos três poderes com
as representações do parlamento, da suprema corte e do exe-
cutivo semelhante à cabine de um piloto de avião. A oeste, se
estende como o tronco de um avião, o Eixo Monumental com
dezesseis ministérios, construções de dez andares, ortogonais
dispostas como os outros blocos de localizados atrás. Depois
de cerca 1,5 quilômetros o Eixo Monumental se cruza com o
eixo rodoviário, a faixa parabólica de quatorze quilômetros de
uma via expressa. No entorno da rodoviária municipal de três
andares encontram-se os setores de banco, hotel e comércio em
sua maioria em prédios altos. As vias expressas em conexão
com duas vias adjacentes, uma para o lado oeste e a outra para
o lado leste, assim como as faixas verdes localizadas entre elas,
cortam o corpo da cidade por quase 500 metros. Nas asas se
encontram os bairros residenciais. Estes são estruturados pelas
assim chamadas “superquadras”, cada uma com tamanho 240
por 240 metros, que contém diferentes tipos de blocos residen-
ciais, na maioria com prédios de seis andares, unidades eleva-
das construídas de modo estritamente ortogonais e alinhados

44 Mesmo que Lúcio Costa tenha afirmado ter copiado uma borboleta.

203
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

uns com os outros. Em cada quatro superquadras encontra-


se uma igreja, uma escola, uma creche e um centro comercial.
Figurativamente na cauda da aeronave, encontram-se os clubes
esportivos, parques e outros espaços de lazer.
Brasília reflete igualmente brilho e equívocos de pensa-
mentos da Modernidade urbanística. Por um lado, a qualidade
de moradia e vida nas superquadras estão hoje entre as melhores
do Brasil45. As moradias, grande parte concebida por Niemeyer,
são espaçosas, recortadas funcionalmente e protegidas contra
o calor da região central brasileira pelas Brises Soleils. Entre
os blocos residenciais estendem-se áreas verdes de parques e o
caminho para o centro das superquadras podem ser feitas a pé.
No entanto não existe, depois de quarenta anos de desenvolvi-
mento em uma sociedade capitalista, em cada superquadra a
mesma variedade de lojas. Pelo contrário: em uma existe dúzias
de lojas de produtos de ferro, na outra, por exemplo, as lojas
de decoração. Em algumas superquadras não existe sequer um
mercado.
O desenvolvimento do uso não pode ser planejado no
contexto de um regime de livre comércio. Com isso os morado-
res precisam utilizar o carro para fazer compras. A posse de um
carro é indispensável em Brasília tendo em vista as distâncias
(por exemplo, para local de trabalho, bancos e lazer). Até mes-
mo a utilização dos espaços térreos livres não correspondem
nem de perto à ideia de Niemeyer e Costa. Os idealizadores pre-
tendiam criar com estas áreas espaços semipúblicos, nos quais
os moradores dos blocos residenciais pudessem se encontrar à
sombra. Muitos destes espaços foram nesse meio tempo fecha-
dos para a prevenção da criminalidade ou transformados em

45 Nunes 2006.

204
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

estacionamentos. A utilização das áreas verdes depois do escu-


recer também é evitada pelos moradores devido a segurança46.
Eles passam seu tempo livre preferencialmente nos shoppings
centers que também foram construídos em Brasília ou em clu-
bes privados à beira do lago47. Os grandes espaços públicos que
existem em Brasília não são dominados por transeuntes, mas
pelo trânsito descontrolado de carros. Existem em Brasília pou-
cos cruzamentos e semáforos, apesar disso, toda manhã o trân-
sito fica ruim entre sete e nove horas e à noite entre dezessete e
dezenove horas. Com isso a realidade do exemplar Plano Piloto
mostra o fracasso da doutrina de mobilidade modernista: até
mesmo um completo direcionamento do conceito do trânsito
para os automóveis não pode impedir o congestionamento,
pelo contrário: como o deslocamento sem carro em Brasília é
quase impossível, os moradores à medida que podem, se obri-
gam a comprar um carro. Em suma, isso leva à sobrecarga desta
melhor organizada “cidade amiga do carro” do mundo.
A grande promessa da modernidade também foi de ma-
neira insuficiente mantida em Brasília: dar uma resposta à de-
manda de moradia. De fato, as unidades de habitação no Plano
Piloto são exemplares e muito amadas pelos seus moradores.
Mas trata-se aqui somente de uma área habitacional para 250
mil servidores públicos privilegiados. O grande número de qua-
se três milhões de habitantes do Distrito Federal vive em subúr-
bios como Ceilândia, Taguatinga e Núcleo Bandeirante. Nestas
cidades não existe moradia em grande quantidade na qualidade
e no design urbanístico de Brasília.
Estas cidades são marcadas pela alta concentração de
bairros de moradia informal, de segregação social e uma má
46 Ibid.
47 Nunes 2004.

205
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

condição de segurança48. Apesar de estes distritos terem sido


povoados também de forma ilegal pelos trabalhadores e depois
regulamentados em um plano posterior, aqui pode-se ver o pon-
to crucial de qualquer urbanismo modernista. A alta funciona-
lidade e qualidade estética de Brasília não é reproduzível, muito
menos mais de uma vez. Ela é simplesmente muito cara! “As a
result, Brasília remains Brazil´s most segregated city”49.
Ordem e progresso são com certeza representados da
melhor forma por Brasília. O símbolo do avanço do país em
direção ao futuro se concretiza perfeitamente na cidade50. Mas
assim como em outras expressões essa forma de política sim-
bólica não reflete positivamente na realidade do cotidiano da
maioria dos brasileiros. Pelo contrário, com a aversão sempre
maior da população contra a corrupção declarada e supostas
da casta de políticos do país, Brasília tornou-se símbolo dis-
to, contra o qual se direciona o cansaço político. “Aqueles em
Brasília” passou a ser um ressentimento corrente no Brasil e que
superou o orgulho inicial pela capital mais moderna do mundo.
A dissolução da cidade em paisagem urbana, por outro lado,
tem também em Brasília dois gumes. De fato, existem grandes
áreas verdes na cidade, no entanto elas não são utilizadas por
conta dos motivos citados acima. A expansão da cidade para
o campo em especial ao redor do lago não foi planejada ini-
cialmente e só seguiu uma lógica de mercado. Hoje em dia o
Distrito Federal está, assim como as outras regiões metropoli-
tanas brasileiras, fortemente suburbanizado e “aldeizado” pelos
condomínios fechados e urbanizações informais.

48 Caldeira, Holsten 2005.


49 Caldeira, Holsten 2005, p. 400.
50 Holsten 1989.

206
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Por fim, a separação funcional continua como uma pro-


messa exemplar realizada da Modernidade. Mas atualmente
em Brasília se mostram os efeitos negativos desta medida que
inicialmente tinha como finalidade o aumento da qualidade ha-
bitacional: Como os caminhos para a atuação do trabalho e do
lazer são longos, o uso do automóvel é indispensável, especial-
mente porque há apenas uma conexão de metrô para algumas
cidades satélites no Distrito Federal. Além disso, há um projeto
de bonde para a zona residencial do eixo central W3 que não
chega a lugar nenhum desde 2007. Restrições de diferentes gru-
pos interessados acabaram em disputas judiciais e fizeram com
que o projeto fosse deixado na geladeira de novo desde 2012.
Com isso a situação do trânsito, que poderia ter uma melho-
ra significativa, não é melhorada por motivos inconsistentes e
tudo isso à custa da população.

c) Aterro do Flamengo
O ponto final da primeira fase do urbanismo moder-
no brasileiro51 é o projeto do Aterro do Flamengo no Rio de
Janeiro, concretizado de 1961 a 1965, sob a responsabilida-
de em grande parte por Affonso Reidy e Roberto Burle Marx.
Para este projeto foi utilizada a recuperação de terras entre as
praias do Flamengo e da Glória para o plano paisagístico e de
tráfego de carros, para além da construção de conexões de vias
expressas do centro em direção à Botafogo. No total passam
pela praia do Flamengo quatro vias expressas de quatro faixas
de circulação, cada uma com até trezentos metros de vastas
áreas verdes intercaladas que são utilizadas para esporte e são
chamadas de “Parque do Flamengo”. No ápice da Marina da

51 Às vezes esta fase é chamada “heroica” (Corrêa 2014).

207
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Glória construída juntamente ao aterro se espalham as vias em


direção ao aeroporto Santos Dumont, Museu de Arte Moderna,
Bairro da Glória e centro.
O resultado são quase oitocentos metros de largura, in-
tercalados por espaços verdes e pequenos grupos de árvores em
meio ao labirinto de estradas praticamente impossível de serem
atravessadas por conta do tráfego rápido de automóveis, o que
também é perigoso pelo risco de roubo mesmo à luz do dia.
O Aterro de Flamengo é parte da paisagem cultural do Rio de
Janeiro que desde 2013 foi considerado Patrimônio Mundial
pela UNESCO, alegando que ali existe uma “fusão criativa en-
tre cultura e natureza, com base em ideias científicas, ambien-
tais e de design que criaram uma paisagem significantemente
inovadora no coração de uma cidade”52, que por sua vez “fo-
ram inspiração para a arte, literatura, poesia e música”53.

d) Desenvolvimento depois de 1964


Após o golpe militar, o centro da arquitetura moderna
mudou definitivamente para São Paulo, onde os “Brutalistas”
Vilanova Artigas e Paulo Mendes criaram a sua própria esco-
la, que entendia o concreto cru como o principal elemento de
sua arquitetura. O discurso urbano foi determinado por enge-
nheiros (pouco por arquitetos) até os anos oitenta, e permitia a
suburbanização e a verticalização das cidades do interior, sem
planejamento significativo. Sob o pretexto da “modernização”,
as principais empresas que operavam no setor imobiliário, con-
cretizaram o projeto nacional de “cidades amigas dos carros”54.

52 UNESCO 2013.
53 Ibid.
54 Ver os levantamentos gerais de Villaça 1999, Mori 1999, Nunes 2006, Wisnik 2009,
Observatório das Metrópoles 2009.

208
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

A luta dos movimentos sociais na década de 1980 por um


“direito à cidade”55, levou em 1988 à introdução do artigo 182
dos princípios da política urbana na Constituição56 e, finalmen-
te em 2001, o “Estatuto da Cidade”57. Na prática, isso levou,
sobretudo, a interesses privados de investidores que se opuse-
ram às propostas públicas ou formuladas por ONGs e fortale-
ceram tanto a segregação social e verticalização estrutural em
áreas centrais com a utilização quase exclusiva de conceitos de
transporte para o tráfego de automóveis58.
Este resultado generalizante é comprovado por vários es-
tudos sobre São Paulo,59 Rio de Janeiro60, Salvador61, Recife62,
Fortaleza63, Curitiba64, São Carlos/SP65, bem como sobre outras
cidades. Como consequência dessa situação, no final da primei-
ra década do século XXI, em alguns casos, os escritórios de
planejamento urbano aumentaram mais uma vez a utilização

55 Caldeira, Holsten 2005, p. 402.


56 República Federativa do Brasil 1988. Assim, o objetivo da política urbana reside em
ordenar „o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade é garantir o bem-
-estar de seus habitantes” (República Federativa do Brasil 1988: §182 Preâmbulo).
57 Presidência da República 2001. Aqui a função social da cidade é mais uma vez
frisada e, entre outras a “justa distribuição dos benefícios e ônus decorrentes do
processo de urbanização” (Presidência 2001: § IX) assim como, a prevenção dos
efeitos negativos do crescimento urbano para o meio ambiente “de modo a evitar e
corrigir as distorções do crescimento urbano e seus efeitos negativos sobre o meio
ambiente” (Ibid.: § IV).
58 Ver nota 54.
59 Anelli 2011.
60 Amado 2013.
61 Santos Mota 2012.
62 Santana 2012.
63 Pequeno 2011.
64 Zanini 2005, Garcez 2006, Zattoni, Bonadio 2012.
65 Gegner 2013.

209
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

do planejamento modernista “top-down” para conter os efeitos


negativos da política urbana liberal66.
Pois no mesmo período, a indústria automotiva, ao lado
do setor agrícola, se desenvolve e se transforma no maior setor
industrial brasileiro. Com a entrada de Lula Inácio da Silva,
ex-líder do sindicato dos metalúrgicos, na Presidência em 2002,
a motorização em massa se expandiu para outras parcelas da
população. Desde então, quase todas as cidades brasileiras de
médio e grande porte estão sufocadas em engarrafamentos diá-
rios. A fim de resolver os problemas de trânsito ainda recorre-se
em grande parte ao velho paradigma modernista: mais e maio-
res estradas. Políticas contrárias que se baseiam nos conceitos
de cidades europeias de mais e melhores transportes públicos,
assim como de expansão ampla das ciclovias (como proposto,
por exemplo, no Observatório das Metrópoles 2008), encon-
tram uma forte resistência da elite formadora de opinião67.

V. Do sonho ao pesadelo: as promessas


da modernidade no século XXI
Resumidamente podemos constatar, que o programa ur-
banístico moderno como foi descrito na Carta de Atenas, foi
aplicado no Brasil somente de forma rudimentar e seletiva. Isso
se mostra, sobretudo no fracasso evidente do urbanismo brasi-
leiro na primeira promessa do modernismo:

a) Solução da questão habitacional


No quarto capítulo foi apresentado que mesmo no ápice
da “Modernidade organizada” durante o governo de Getúlio
Vargas, foram disponibilizadas quantidades insuficientes de
66 Böttger 2013.
67 Folha de São Paulo 2014.

210
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

áreas habitacionais para a população pobre. Este descaso se


potencializa após a era da ditadura militar, o que resulta em
11 milhões ou 6%68, por outras fontes 50 milhões ou 25% da
população brasileira vivendo em favelas em 201069, apesar da
propaganda militar da chamada “limpeza” ter obrigado o reas-
sentamento nos anos 197070. Somente muito tempo depois com
a política de habitação do governo Lula “Minha Casa, minha
vida”71 é que, em 2009, foi lançado um programa de habitação
de massa financeiramente adequado, que deveria disponibilizar
até um milhão de moradias. Entretanto, os grandes projetos
realizados não correspondiam muitas vezes nem as prescrições
funcionais nem estéticas do Modernismo clássico. Ao invés de
se construir na paisagem da cidade edifícios que cumprissem
as exigências de quantidade e qualidade, na maioria das vezes,
são construídos na periferia da cidade uma série casas gemina-
das unifamiliares de má infraestrutura. Estas seguem aos clichês
pré-modernos de “cada família com seu próprio teto” e obriga
os moradores à mobilidade por meio de automóveis devido a
sua localização suburbana.
Os projetos de construção semelhantes ao conceito fun-
cional e estético do modernismo são implementados há déca-
das nos “condomínios fechados” privados, projetadas e geren-
ciadas por construtoras habitacionais, como por exemplo no
complexo Alphaville próximo a São Paulo72. Estas áreas habi-
tacionais se definem ao lado de características do modernismo
como separação funcional, incorporação na paisagem urbana,

68 IBGE 2010.
69 UN 2010.
70 Brum 2012.
71 Presidência da República 2009.
72 Reis 2006.

211
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

direcionamento do projeto a partir da posse de automóveis,


mas sobretudo pela sua extrema segregação social: As mora-
dias são caras, o público-alvo das construtoras é a classe média
alta bem de vida. Esse conceito de urbanização privada vem
sendo oferecida sob a marca Alphaville com muito sucesso já
em 21 estados do Brasil73. No geral pode-se dizer que moradia
no Brasil ainda é considerada uma questão privada. O urbanis-
mo moderno une seu programa funcional e estético contra essa
situação, com a proclamação do direito de uma moradia huma-
na, cuja concretização era uma tarefa do estado e organizações
da sociedade. Na época da modernidade chegou-se na Europa
também a uma modernização organizacional e a um coletivis-
mo, que teve como consequência a construção de milhões de
moradias simples mas funcionais, feita por milhares de asso-
ciações públicas, de sindicatos, cooperativas e industriais de
habitação. Só as habitações na Siemensstadt (Cidade Siemens)
em Berlim disponibilizaram nos anos de 1920 moradias boas e
baratas para cerca de 10 mil pessoas. Um programa parecido
do “social corporate responsibility” ainda não foi realizado no
Brasil nem por uma empresa alemã, nem por outras empresas
estrangeiras. Assim nem a Volkswagen, nem Ford ou Toyota
construíram bairros populares no centro industrial automobi-
lístico em São Bernardo do Campo (SP). Foram realizados so-
mente pequenos projetos como a colônia industrial em Angra
dos Reis na usina nuclear da estatal Eletrobrás Termonuclear
construída com a participação da Siemens (no entanto sem fun-
cionalidade moderna, mas na forma de um conceito de casas
unifamiliares geminadas.)

73 Alphaville 2014.

212
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

b) Ordem e progresso
A promessa da modernidade que foi realizada no Brasil
(pelo menos em um exemplo) de forma mais consequente,
foi apresentado a partir dos conceitos de ordem e progresso.
Brasília simboliza por excelência o desejo de desenvolvimen-
to social, modernidade e proteção do futuro sob forma de seu
urbanismo ordenado e da arquitetura funcional. Aqui se mos-
tram os esforços para a formação de uma cultura brasileira
original. Acabar com a história é parte central do programa
de modernização. “O Velho” era tido para intelectuais moder-
nistas radicais como “abrasileiro”74. O que resultou na destrui-
ção do patrimônio colonial em cidades existentes, sem que este
fosse substituído por uma paisagem moderna adequada75. No
espírito de Le Corbusier imperava uma mania de demolição
sob a influência da ideologia dominante de “desenvolvimentis-
mo”76. Dessa forma, os centros históricos do Rio de Janeiro,
São Paulo, São Vicente e outras cidades mais antigas, foram
sistematicamente destruídos a partir de 1930 e substituídos por
uma reconstrução de má qualidade, que por sua vez, tinha mui-
tas vezes apenas 30 anos de existência. A constante “moderni-
zação” das cidades configurou, pelo menos desde o início da
ditadura militar um processo desordenado. O estado retirou
grande parte de sua responsabilidade e a deixou nas mãos de
promotores privados e de sua visão da modernidade. Com isso
foram implementadas nas cidades brasileiras, além dos poucos

74 Ribeiro 1996, p. 60.


75 É sabido que o patrimônio urbano da era colonial foi incluído no cânone cultural
da desejada „brasilianidade“ por influência de Sergio Buarque de Holanda (1936) e
Gilberto Freyre (1940). Um ótimo indicativo disso é o estabelecimento do Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 1937, por iniciativa e
sob a liderança do modernista Mário de Andrade.
76 Rinke, Schulze 2013, p. 153.

213
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

edifícios do modernismo clássico, prédios pós-modernos, cha-


mados “neoclássicos” e outros ecletismos em diversas alturas
e formatos diferentes. Por isso hoje, com exceção de Brasília,
todas as metrópoles brasileiras e a maioria das cidades grandes
trazem uma impressão desordenada, o que também se aplica a
cidades supostamente padrão, tal como Curitiba77.

c) Separação funcional
O meio urbanístico de separação funcional em prol da
melhoria qualitativa das condições de moradia foi utilizado
dogmaticamente na urbanização brasileira. Conceitos como
o das “cidades de curtas distâncias”78 no qual, pelo menos as
funções de morar, descansar e também em parte, trabalhar são
combinadas, não são muito conhecidos e não puderam ser im-
plementados no planejamento das cidades brasileiras. Sem dú-
vida, este conceito é aplicável com mais facilidade na Europa
“pós-industrial”. O Brasil é caracterizado por uma concentra-
ção muito mais elevada de indústrias pesadas e “sujas”. Dessa
maneira, é compreensível um zoneamento mais radical. No
entanto, há no Brasil um grande setor de serviços “limpos”,
que se estabeleceram acima de tudo, em zonas especiais dos
quais os bairros residenciais e as oportunidades de lazer estão
espacialmente separados, o que aumenta a necessidade da mo-
bilidade individual (automóveis). Projetos para revitalizar os
centros históricos das cidades são susceptíveis de ter sucesso
apenas se for possível torná-los novamente atrativos para além
de indústrias de serviços, restaurantes e locais de diversão além
da moradia. Só desta forma será possível parar o tempo da de-
cadência e do risco individual nos espaços públicos dos cen-

77 Zanini 2005, Garcez 2006.


78 Kemper et al. 2012, Brunsig, Frehn 1999.

214
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

tros urbanos brasileiros, e ter uma revitalização bem-sucedida.


Mas uma mistura funcional não é um remédio universal: novos
conflitos, por exemplo, entre moradores e estabelecimentos de
diversão podem se desenvolver.

d) Mais mobilidade
O dogma da segregação funcional resulta que a parte
mais ameaçadora do Modernismo para a qualidade de vida da
população urbana, oriente no Brasil o planejamento urbano
para a necessidade individual de proprietários de carros quase
que incondicionalmente79. Só em face do colapso do tráfego
permanente e com o apoio de alguns políticos, são promovidas
de maneira consistente algumas formas coletivas de transporte
desde 201280. Por fim, ficou suficientemente claro que a massa
de tráfego com as suas emissões de CO2, o ruído e a pretensão
estética já batida das ruas das cidades, rodovias e estradas é
uma desgraça permanente e um pesado encargo para os mora-
dores além de perverter os objetivos do modernismo.

e) Dissolução das cidades


A utopia da dissolução das cidades em “paisagens urba-
nas” foi realizada no Brasil, de forma rudimentar especialmente
em Brasília. Nesse processo, foi adotada a típica “visão pano-
râmica de aves” para o planejamento urbano: “de cima” foram
construídos blocos residenciais, ruas e estradas construídas em
grande escala, sem levar em consideração suficientemente a
“visão térrea humana”. Ainda hoje é utilizada em partes esta
perspectiva no planejamento urbano brasileiro. Aqui nos referi-
mos apenas ao planejamento atual do Arco do Futuro, em São

79 Gegner 2011.
80 Prefeitura de São Paulo 2014.

215
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Paulo81. Em grande escala são feitos planejamentos “de cima”,


em todo caso as necessidades dos indivíduos são submetidas
à perspectiva dos motoristas. Assim, há uma perpetuação da
“cidade amiga do carro”. Brasília é uma referência extravia-
da, que apesar da total mudança nas condições e premissas do
Modernismo ainda é imensamente eficaz para o planejamento
urbano brasileiro.
O conceito da paisagem urbana realizado em Brasília em
parte vem sendo “pervertido” no sentido de uma periferização
e suburbanização82. A construção desenfreada no campo levou
a problemas citados acima da mobilidade forçada por automó-
veis, assim como à expansão urbana e à desurbanização. Tudo
o que a cidade compacta apresenta de vantagem (diversidade,
comunicação em locais públicos, uso econômico dos recursos
da terra, água e energia) tornou-se erroneamente no oposto
com a transformação das cidades brasileiras em aglomerações.
Isto é em parte desculpado devido ao fato de o Brasil ser
um país muito grande. E a mentalidade de seus habitantes (e
urbanistas) é que: terra e outros recursos parecem estar dispo-
níveis sem limites. Nas crises, como a falta de água no estado de
São Paulo, de abril a outubro 201483 fica claro que os recursos
também no Brasil não são ilimitados. O fato de as cidades e
vilas na costa do país terem de duas a três vezes mais densidade
populacional do que as capitais da Europa indicam (em conjun-
to com os preços exorbitantes dos terrenos), que neste país tão
vasto, há, no entanto, escassez de terra.
Com a urbanização ainda desenfreada no campo, as cida-
des brasileiras começam a formar as chamadas “mega-regiões

81 Prefeitura de São Paulo 2014.


82 Caldeira, Holsten 2005, p.398.
83 Folha de São Paulo 2014b.

216
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

urbanas”84, por exemplo São Paulo, São José dos Campos e


Campinas. Nelas, a taxa de impermeabilização do solo é enor-
me e não há praticamente um quilômetro quadrado de terrenos
não urbanizados ou um retiro natural para os seres humanos,
flora e fauna. O que leva, entre outras coisas, os cidadãos a
terem que ir cada vez mais longe em busca de descanso, resul-
tando em consequências ainda mais negativas para o ecossis-
tema. Assim, pode-se considerar como uma urgência da época
seguir o conceito de “cidade compacta”85, acabar com terrenos
baldios urbanos e estacionamentos térreos ou melhorar a qua-
lidade e torná-los espaços disponíveis para o lazer. Enquanto a
expansão urbana informal já é atendida com reavaliação e ur-
banização estratégicas (Conde/Magalhães 2005), a destruição
da paisagem por meio de condomínios fechados, no entanto,
ainda não é combatida.

VI. Conclusão
A cidade brasileira é moderna no sentido estritamente
ideológico. O velho é considerado um obstáculo. A abordagem
diferenciada dos modernistas da década de 1930 sobre a cida-
de colonial deu lugar a uma outra avaliação influenciada pela
prevalecente ideologia desenvolvimentista e pela concepção de
lucro bruto no mercado imobiliário em expansão desde os anos
1960. Depois disso o desenvolvimento é dificultado por anti-
gas estruturas de construção e precisa ser substituído por no-
vas construções com número maior possível de área de útil. A
verticalização das cidades brasileiras apresenta apenas superfi-
cialmente o resgate da promessa de progresso e funcionalidade,
porque as torres residenciais são a expressão da segregação so-
84 Castells 2003.
85 Wentz 2000.

217
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

cial, desperdício de recursos hídricos e de energia. Edifícios sem


ar condicionado ou aquecedores elétricos são no Brasil ainda
uma exceção.
O programa do urbanismo moderno foi associado a uto-
pias socialistas e a crença em um Estado forte. Portanto, não é
surpreendente que as promessas da Modernidade no contexto
do “capitalismo tropical” brasileiro tenham sido em parte per-
vertidas, e em parte apenas parcialmente executadas. A princi-
pal promessa da modernidade que era fornecer também para
as classes trabalhadoras habitação de qualidade e quantidade
suficientes, não puderam ser correspondidas sob essas condi-
ções. Não obstante ainda vale o dogma modernista de que o
automóvel é o meio de transporte mais adequado ao homem
moderno. Então, desde os anos 1960, o planejamento urbano
e de transportes está voltado para isso. Uma política contrá-
ria provocou uma resistência massiva das elites (motorizadas).
Uma reformulação abrangente da política de transporte urbano
brasileiro não está prevista.
A adesão a uma visão ideologicamente estreita da moder-
nidade, ou seja, as negações de elementos sociais associados a
ela, fazem com que as cidades brasileiras respondam apenas de
maneira insuficiente aos desafios do século XXI. As exigências
descritas nas Millenium Declaration Goals das Nações Unidas,
assim como no Estatuto da Cidade (Presidência 2001), de inte-
gração social, a sustentabilidade86 econômica e ambiental, as-
sim como o uso econômico da terra, da água e proteção dos

86 “O desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem


comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer as suas próprias ne-
cessidades. Significa possibilitar que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um nível
satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e cultu-
ral, fazendo, ao mesmo tempo, um uso razoável dos recursos da terra e preservando
as espécies e os habitats naturais” (ONU 1987, “Brundtland Report”).

218
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

cidadãos contra as emissões e ruído, não fazem jus às cidades


brasileiras. Fica em aberto ainda saber se isso pode ser resolvi-
do pela modernização do modernismo ou apenas pelo domí-
nio de novos conceitos. Um primeiro passo seria uma revisão
crítica do urbanismo moderno no Brasil. No entanto, isso vem
sendo impedido por protagonistas que dominam o discurso ur-
banista. Enquanto, por exemplo, na 14ª Bienal de arquitetura
em Veneza, cujo tema foi “Absorbing Modernity 1914-2014”,
os pavilhões da França, Reino Unido, Portugal e mesmo Rússia
trataram seus próprios patrimônios modernos de maneira crí-
tica, André Corrêa do Lago, mostrou o modernismo Brasileiro
como uma verdadeira história de sucesso, a qual está sendo in-
vejada por alguns estrangeiros. No entanto, um urbanismo que
não pode ou não quer refletir sobre sua história criticamente,
não está preparado para o futuro.

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227
CAPÍTULO VI

Cidades e diversidade: em defesa do


perspectivismo moral no desenho urbano
Érico Andrade, Andréa Storch

“A diversidade é natural às grandes cidades.”


Jane Jacobs, Morte e vida das grandes cidades

I. Introdução
Ao longa da história a cidade tem uma característica que
lhe acompanha, a saber, a diversidade. Muitas vezes portuárias,
outras vezes centro de importantes rotas comerciais, as cidades
sempre estiveram no epicentro da circulação de ideias, merca-
dorias e pessoas – não é sem motivos que ainda hoje usamos
a expressão centro da cidade para designar o local por onde
passam mais pessoas, diferentes pessoas, e que consegue con-
centrar o comércio e serviços de modo geral. Parte dessa di-
versidade comporta elementos históricos contingentes. Isso é
claro. No entanto, permanece a ideia de que um dos processos
característicos da vida urbana é modo como as pessoas se or-
ganizam no espaço que depende de fatoressociais, históricos e
culturais. Nesse sentido, a essência da cidade é as pessoas e o
modo como elas se organizam espacialmente. O desafio a que

229
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

nos propomos aqui é investigar como a cidade pode abrigar a


expressão da diversidade dos desejos e das práticas sociais que
compõem a vida urbana e que são exercidas por diferentes ato-
res sociais, nem sempre identificáveis. Acreditamos que esse é
um modo viável de legitimar tese de Jacobs de que a diversidade
é natural às grandes cidades, pois para que a cidade seja o lugar
da diversidade é necessário que essa diversidade se manifeste
politicamente sobre os rumos do planejamento e de seu conse-
quente desenho urbano.
Para sustentar que a cidade deve ser o lugar da diversi-
dade vamos estruturar o artigo em três etapas. Faremos, pri-
meiramente, uma breve apresentação dos principais vetores que
permitem caracterizar, em linhas gerais, o liberalismo que é o
modelo ideológico por meio do qual os empreiteiros buscam
influenciar o planejamento urbano em Recife e em parte im-
portante do Brasil. Para isso, iremos apresentar alguns pressu-
postos básicos do liberalismo. Em seguida, mostraremos como
o discurso liberal é apropriado pelas construtoras e pelo po-
der público como argumento para lastrear uma compreensão
atomizada da cidade, conforme a qual as tipologias edilícias,
denominadas, por nós, de autoreferentes, não promovem uma
integração sócio-espacial; e negam o significado da urbe. Essas
edificaçõesestabelecem um diálogo mudo com o entorno, visto
que se relacionam com as prexistências de forma desassociada,
como se delas fosse independentes. Elassão sustentadas por ar-
gumentos liberais que enfatizam as liberdades individuais em
detrimento de uma compreensão coletivista da cidade (enten-
demos por coletivista a percepção da cidade que privilegia o
encontro de pessoas de diferentes culturas e de diferentes clas-
ses sociais).

230
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Por fim, considerando que partimos da ideia de que o


desenho urbano é resultado de uma política, mostraremos que
para mudar o planejamento urbano liberal calcado na ideia de
que o mercado deve influenciar, quando não determinar, a ges-
tão da cidade, é necessário mudar o modelo de gestão da coisa
pública, o modelo político. Defenderemos um modelo que ca-
minha na direção de uma democracia real com forte partici-
pação popular. Argumentaremos, por conseguinte, que a única
forma da cidade expressar a diversidade é legando às pessoas o
direito de participar de seu planejamento. Para esse argumen-
to vamos recorrer por um lado, a uma leitura heterodoxa dos
conceitos gregos de cidade e democracia para sustentar que a
democracia exige uma integração das diversas partes da cidade,
como os bairros. Por outro lado, defenderemos que é preciso
ampliar o conceito de democracia no sentido de comportar a
participação política não só dos habitantes da cidade, mas tam-
bém de quem vive a cidade porque circula por ela. Durante
o meu texto lançarei mão de alguns exemplos, concentrados
especialmente no Recife.

II. O modelo liberal


Como parte importante das correntes da filosofia política
contemporânea o liberalismo é diverso e tem matizes diferentes.
Contudo, acreditamos que o epicentro do liberalismo ainda é
a liberdade instanciada no indivíduo. Esse é o ponto de con-
vergência entre teorias liberais igualitarista e libertárias. Nesse
aspecto, o liberalismo em geral pretende respeitar ao máximo o
modo espontâneo como os indivíduos se organizam em função
do exercício de suas respectivas liberdades – inalienáveis liber-
dades. Nessa perspectiva, o liberalismo entende por soberania

231
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

a ação do indivíduo independente de uma tutela externa que


lhe constranja, especialmente por meio da força, a agir de um
modo contrário à sua vontade. Com essa convicção Hayek de-
fende que o caráter individualista do liberalismo repousa no re-
conhecimento do autogoverno como elemento constituinte da
noção de indivíduo: “É esse reconhecimento do indivíduo como
juiz supremo dos próprios objetivos, é a convicção de que suas
ideias deveriam governar-lhe tanto quanto possível a conduta
que constitui a essência da visão individualista”1.
Ser livre implica poder decidir por si mesmo como reali-
zar seus interesses e determinar o fim, no sentido de finalidade,
para a sua vida. Nesses termos, o liberalismo pretende susten-
tar uma igualdade moral entre os indivíduos – reconhecidos
como tais porque separados numericamente e temporalmente
uns dos outros – repousa no fato de que todos podem exercer
plenamente a sua liberdade e perseguir o que consideram bom,
útil e vantajoso para as suas vidas. Em outras palavras, ser livre
significa poder deliberar sobre seu comportamento; fala, ges-
tos, trajes e valores. A liberdade passa a ser substancializada na
própria determinação do comportamento. Assim, a liberdade
constitui-se num bem primário ou direito básico a partir do
qual se derivam todos os valores.
Essa compreensão da liberdade confere ao indivíduo a
posse sobre si mesmo, sobre as suas ideias e sobre o seu traba-
lho. Por isso, no liberalismo clássico, pautado em Locke, que
não pode ser considerado ainda um filósofo estritamente liberal
por várias razões que não posso descrever aqui, a ideia de que
somos proprietários legítimos do que é fruto de nosso trabalho
é tomada como uma extensão natural da propriedade de si. Se

1 Hayek 1999, p. 77.

232
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

sou proprietário de mim mesmo, sou igualmente proprietário


do que faço por meio do trabalho ou do que adquiro por meio
do trabalho. Nesses termos o liberalismo, nessa acepção que
tocamos aqui, articula a propriedade de si mesmo com a pro-
priedade que decorre do trabalho. Do apropriar-se de si mesmo,
entendido como deliberar sobre seu comportamento, sobre seu
corpo, tronando-se senhor de si mesmo, segue-se o apropriar-se
do que decorre do trabalho realizado pelo corpo.
Para que o comércio das propriedades legitimamente ad-
quiridas seja igualmente legítimo é suficiente, para filósofos li-
bertários ou mais precisamente minicartistas como Nozick, que
ele seja feito sem nenhuma coerção física, sem o uso da força.
Se não há violência e as propriedades comercializadas foram
adquiridas de modo legítimo, não há razões para restringir a li-
berdade de comercializar. Nessa perspectiva, considerando que
uma troca é legítima quando ocorre de modo consensual, sem
a imposição da força, o mercado livre legitima a propriedade
que decorre dessas trocas. Nesses termos, o Estado não deve se
instituir como uma instância externa que cerceia a relação livre,
o comércio entre as pessoas, por meio da qual os indivíduos
realizam as suas vontades autônomas. O que legitima o merca-
do novamente é a liberdade.
A liberdade do mercado é a realização da liberdade dos
indivíduos no seu sentido mais radical, pois os indivíduos esten-
dem a atuação da sua vontade para os objetos sobre os quais
eles podem deliberar. Eles podem regular as suas propriedades
por meio da agregação ou não de valor a elas de acordo com
a decisão de cada vontade de dar valor aquilo que é ofertado
como produto (propriedade a ser vendida). Assim, por negociar
o liberalismo, em geral, entende a capacidade de ceder interes-
ses em troca de outros interesses cuja balança sempre é definida

233
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

pelas vontades livres e nunca tem como resultado uma soma


zero, isto é, todas as pessoas lucram, de algum modo, com o co-
mércio. O processo de negociação encerra a raiz mais depurada
do processo de sociabilização porque nele vontades se reconhe-
cem como livres e como independentes, sendo, por conseguinte,
capazes de determinarem para si mesmas a melhor forma de
orientar a relação com os outros. Essa capacidade de negociar
retira do objeto, que pode ser uma coisa ou mesmo uma ideia
a ser negociada, o valor que poderia lhe ser atribuído enquanto
um valor intrínseco, e projeta sobre as vontades a possibilidade
de definirem, conforme as suas próprias determinações, o valor
de mercado desse objeto. Por isso, a liberdade do mercado é
a expressão da liberdade dos próprios indivíduos que deter-
minam livremente o valor de cada coisa no mercado. Vejamos
agora como essa posição liberal é apropriada pelas construto-
ras e pelo poder público para sustentar uma fragmentação do
planejamento urbano.

III. Cidade liberal: o caso de Recife nas últimas décadas


A imagem da cidade liberal consolida a compreensão de
que os indivíduos podem se apropriar de terrenos, determinar
construções, seus gabaritos e escala sem que lhe seja imposta
alguma proibição externa.O argumento liberal é que as cida-
des devem ser pensadas em função do desejo dos indivíduos.
A cidade deveria funcionar analogamente ao mercado. Assim,
compreendendo a cidade como o mercado, o liberalismo confe-
re às empreiteiras e aos proprietários de terreno a decisão sobre
o desenho urbano desejado. A cidade no modelo liberal é cons-
truída seguindo a lógica da auto regulamentação no sentido
de que o negócio ou comércio que determina a compra e ven-

234
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

da de construções poderia chegar a um equilíbrio espontâneo.


Assim, ainda que as normatizações urbanísticas, que impedem
que este modelo liberal seja posto em prática na sua totalidade,
procuraremos mostrar que ele exerce influencia significativas
na produção do espaço quando interpretam os regulamentos
vigentes a seu favor e contam com a leniência do poder público.
Não faltam razões históricas – que não podemos detalhar aqui
– para explicar as razões da ancoragem desse modelo no Brasil
e em especial em Recife que traz como consequência a mutila-
ção de partes da cidade e faz a cidade como um todo perdera
sua organicidade: transformando-a numa quase não cidade.
Mostraremos agora como os argumentos liberais foram usados
em Recife para reforçar e financiar sua mutilação.
Primeiro, um argumento importante usado pelos agentes
envolvidos no projeto e na construção dessas edificações em
Recife é que as pessoas têm direito à segurança e à privacidade
e que, portanto, se justifica a criação de prédios com exten-
sos e longos muros sem nenhuma abertura e com fachadas que
promovem uma dissonância com a morfologia predominante
de seu entorno2. Esse argumento se apoia na ideia de que os
potenciais ladrões não teriam acesso ao que se passa no interior
dos prédios, especialmente no estacionamento para o qual são
reservados os primeiros pavimentos dos edifícios, e, por isso,
não poderiam planejar assaltos. O argumento da segurança é
aliado ao da privacidade, visto que se argumenta que as pes-
soas têm direito a circularem sem o olhar das pessoas que estão
nas ruas. O discurso que as moradias podem se isolar das ruas

2 O discurso da prefeitura e dos empresários do setor imobiliário foram recolhidos


nas audiências públicas sobre o polêmico projeto Novo Recife que consiste na
construção de 13 torres de 40 andares em média no antigo cais José Estelita que
fica no coração do Recife, numa área estratégica para a cidade e, portanto, muito
valorizada.

235
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

conjuga, numa mesma base, dois argumentos liberais de cunho


libertário, quais sejam, o direito à privacidade e o direito à se-
gurança. Esse dois direitos compõem os direitos individuais so-
bre os quais se assenta, grosso modo, a doutrina liberal. Vamos
primeiramente criticar esses dois argumentos. Num segundo
momento, vamos tecer uma crítica à ideia de que o mercado,
por meio da defesa da verticalização excessiva, poderia regular
o desenho de partes da cidade. Vamos mostrar que este tipo edi-
fícionão é condizente para responder as demandas ecológicas
da cidade, visto que diminuem a lâmina construída e inserem
recuos acentuados em relação ao entorno. Nosso ponto é que
esta tipologia verticalizada, promovida, pelo menos, em Recife,
torna o adensamento construtivo um problema na estrutura da
cidade sob vários aspectos.
Não é fácil traçar a distinção entre o público e o privado.
Essa dificuldade é bastante conhecida e esse tema já foi bem
trabalhado. Poucas pessoas discordariam quanto à necessidade
de resguardarmos a nossa privacidade. O desafio nunca é eli-
minar a privacidade, mas traçar a fronteira até onde podemos
isolar a nossa vida privada da vida pública. O ponto é que a
defesa da privacidade em espaços de convivência, por onde cir-
culam pessoas que não se restringem ao núcleo familiar, não
pode ser feita por analogia com a privacidade presente no in-
terior de nossas moradias que guardam efetivamente o nosso
anonimato. Estacionamentos, que compõem os primeiros pa-
vimentos da maior parte das edificações multifamiliar verticais
em Recife, podem ser propriedade do edifício, mas são espaços
por onde circulam pessoas no sentido que pelo seu interior cir-
culam pessoasdo prédio e trabalhadores em geral (zeladores,
por exemplo) e que, por isso, não podem ser um espaço de pri-
vacidade no sentido de resguardar a vivência pessoal e anônima

236
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

que encontramos diariamente no interior das nossas moradias.


A privacidade deve se referir ao espaço do lar. Por isso, caso
estejamos tratando de um lugar por onde as pessoas, que não
fazem parte de nosso lar, circulam, não há mais privacidade
no sentido do anonimato das ações que só o nosso lar pode e
deve preservar. Por esse motivo, não tem sentido promover uma
descontinuidade radical entre as edificações privadas e o tecido
urbano no qual elas estão inseridas por meio do argumento da
privacidade.
No que concerne à segurança é preciso alinhavar dois ar-
gumentos. Primeiramente, há uma confusão frequente quando
se considera que fachadas com baixa ou nenhuma permeabili-
dade no térreo podem gerar segurança. Confunde-se a seguran-
ça das pessoas, que moram nas propriedades, com a segurança
da cidade por meio da ideia de que a segurança poderia ser
estritamente privada e restrita aos proprietários das casas ou
apartamentos. Assim, a defesa da impermeabilidade visual se
materializa numa rua completamente cercada por muros que
têm a pretensão apenas de proteger quem está murado dentro
de suas propriedades, deixando à deriva os que estão murados,
porque cercadas de muros, nas ruas, no espaço público. O iso-
lamento promovido por fachadas com baixíssima ou nenhuma
permeabilidade visual não protegem nem os que estão dentro
do espaço privado, nem os que estão nas ruas porque o maior
fator de segurança ainda consiste na circulação de pessoas nas
ruas.
É por isso que Newman, dentre outros urbanistas, disser-
ta sobre diferentes tipologias para sustentar que o comprome-
timento com o espaço, onde se mora, depende da sensação de
pertencimento, ou ainda, como ele insiste, da familiaridade que
os habitantes guardam com ele. Newman insiste na importân-

237
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

cia de aberturas entre o interior e o exterior (janelas e jardins


frontais, sem fachadas cegas) para garantir uma identificação,
por parte da comunidade, das pessoas que por ela circulam.
Nesse ponto ele concorda com a jornalista Jacobs, que chama-
va, sem se restringir à própria comunidade, de segurança do
“olho de rua” a segurança feita pelas pessoas quando elas se
vigiam mutuamente. Essas duas posições, embora sejam distin-
tas quanto à ideia de cidade que procuram defender, convergem
quando partem da tese de que a segurança das pessoas depende
das próprias pessoas, delas estarem no alcance da visão umas
das outras pessoas. Ou seja, mesmo que a intenção dos espaços
defensáveis de Newman tenha sido de garantir para a comuni-
dade, às famílias que habitam em determinada rua, uma capa-
cidade de identificação de pessoas estranhas à comunidade, ela
se coaduna com a perspectiva centrada no encontro de pessoas
diferentes, que se vigiam mutuamente, de Jacobs, uma vez que
está em jogo a regra básica de que pessoas nas ruas constituem
a maior garantia de segurança. Desse modo, a defesa da segu-
rança do espaço privado não entra necessariamente em conflito
com a defesa da continuidade (ou mesmo com a baixa ruptura
entre o público e o privado) pelo menos pensada do ponto de
vista da permeabilidade e do rodapé dos edifícios em relação à
rua.
Essa discussão teórica tem forte base empírica. A ocor-
rência de assaltos e furtos invariavelmente acontece em lugares
por onde circulam poucas pessoas. Eles ocorrem em Recife à
noite, momento em que há uma menor circulação, em lugares
em que se tem apenas comércio, que à noite estão fechados, e
em lugares, na frente de edifícios, com baixa ou nenhuma per-
meabilidade. Esses fatores contribuem de modo decisivo para a
sensação de inseguranças das pessoas nas ruas, uma vez que ,

238
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

como pontua, Gehl, “a diversidade de funções ao longo de ruas


e agradáveis espaços de transição são qualidades-chave para
boas cidades – também em termos de segurança e proteção”3.
Sem essa diversidade, associada a outros fatores, como, por
exemplo, bom espaço para circulação de pessoas e boa ilumina-
ção, a segurança fica completamente comprometida nas cidades
porque as pessoas simplesmente não estão nas ruas se vigian-
do e inibindo, com a sua presença, a ação de delinquentes. Os
dados relativos a assaltos reforçam a tese de que a segurança
não é um negócio privado, que poderia ser derivado do direito
à propriedade e restrita apenas aos que têm propriedade, mas
se trata de uma questão que se resolve de modo coletivo, visto
que, como dizia Jacobs, a continuidade entre as ruas (público) e
as edificações privadas, é o fator decisivo para levar segurança
para todas as pessoas porque umas tomam conta das outras:
vigiam-se mutuamente. Pessoas circulando nas ruas ainda são
as responsáveis tanto pela sensação de segurança quanto pela
própria segurança no sentido de que os assaltos ocorrem em
locais mal iluminados e sem pessoas por perto, à vista.
Outro argumento importante do discurso liberal é o direi-
to à autodeterminação do gabarito e da escala das construções
de edifícios cujos terrenos foram adquiridos num processo de
troca justa. É recorrente o argumento de que limitar o gabarito
é um processo arbitrário – típico da intervenção estatal – e des-
considera que a verticalização pode contribuir para uma cidade
mais sustentável. Vamos argumentar agora contra esses pontos.
Notavelmente o tamanho do gabarito não pode ser au-
todeterminado pelas construções. O impacto na construção de
moradias que contêm várias unidades na estrutura da cidade é

3 Gehl 2014, p. 101.

239
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

enorme. Para substituir uma casa por um prédio de trinta an-


dares é preciso dotar a rua de uma estrutura de esgoto e sanea-
mento várias vezes maior do que a estrutura inicial (ver espe-
cialmente o texto de Storch4 sobre essas dificuldades presentes
em bairros de Recife que sofreram forte especulação imobiliá-
ria). Numa rua em que se substitui quatro casas por edifícios
de trinta andares não é possível estabelecer uma rede de esgo-
to compatível com tamanha demanda sem um gasto público
exorbitante. Assim, mesmo que as pessoas queiram residir em
grandes torres, isso não se traduz numa auto-organização que
poderia resolver problemas como, por exemplo, do escoamento
do esgoto ou da coleta de lixo. O que fazer com o lixo acumula-
do numa rua cujas moradias crescem de modo exponencial? O
problema do lixo segue a mesma dificuldade do esgoto. Torna-
se bem mais difícil realizar a coleta do lixo quando os números
da coleta aumentam dezenas de toneladas e concentram-se em
algumas regiões da cidade. Ademais, com essa forma de aden-
samento não planejado, o trânsito se torna caótico e todas as
pessoas, sobretudo, as que moram longe e dependem do trans-
porte público, sofrem porque perdem parte de seu tempo de
lazer no transporte.
Um contra argumento do discurso liberal seria dizer que
a inépcia do Estado seria o principal fator que torna difícil a
construção de torres porque ele não cumpre a sua função de
garantir as condições materiais para o adensamento – desejado
– das cidades. No entanto, o argumento de que a verticaliza-
ção é desejável porque promoveria a concentração de pessoas
e uma maior racionalidade no manejo dos recursos é outra
confusão que o discurso liberal, sob o disfarce das construções

4 Storch 2000.

240
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

verdes, engendra. A verticalização sem planejamento torna o


adensamento um problema e não a solução. Adensar a cida-
de dividindo-a em áreas monofuncionais (áreas residenciais, de
um lado, e áreas de serviço, de outro) não viabiliza as vanta-
gens do adensamento. O epicentro do problema repousa na-
quilo que Jacobs já diagnosticava, a saber,“na inexistência de
uma diversidade ampla e concentrada pode levar as pessoas a
andarem de automóvel por praticamente qualquer motivo. O
espaço que as ruas e os estacionamentos requerem faz com que
tudo fique ainda mais espalhado e provoca um uso ainda mais
intenso de automóveis”5. Assim, esse tipo de adensamento não
promove a diminuição do uso do transporte individual motori-
zado porque as pessoas são forçadas a se deslocarem, provendo
engarrafamentos, responsáveis por altas taxas de emissão de
CO2 (nos EUA o transporte responde por 28 por cento da taxa
de emissão de carbono6), e pela poluição sonora e visual. Ou
seja, a verticalização sem planejamento, ou entregue ao desejo
da demanda dos que têm capital para a construção, produz em
Recife uma fragmentação sócio-espacial da cidade, que ao invés
de otimizar o adensamento, por meio da mistura das diversas
funções da cidade em cada bairro, promove um espraiamento
da cidade que se converte num trânsito caótico e poluente, visto
que as pessoas têm que se deslocar grandes distâncias, por meio
de veículos motorizados, para realizarem compras, levarem os
filhos à escola, irem ao médico etc. O adensamento em Recife é
setorizado e acontece porque o discurso liberal é o subterfúgio
para a entrega da cidade ao capital imobiliário que constrói
edifícios isolados do contexto urbano, autoreferentes, com alto
gabarito para otimizarem o lucro com cada unidade construída
5 Jacobs 1990, p. 253.
6 Cf. Newman, Beatley, Boyer 2009.

241
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

em detrimento da promoção de um diálogo mais amigável des-


sa construção com seu entorno, fato que resulta no predomínio
de um desenho urbano excludente.
Nessa perspectiva, se o direito à propriedade for respei-
tado à risca, no sentido de que um bairro pode se tornar uma
espécie de condomínio de luxo, formado por grandes torres e
em conformidade com a demanda dos construtores e, poste-
riormente, proprietários, colocamos em risco às vantagens do
adensamento porque eliminamos o principal fator que lhe tor-
na uma estratégia sustentável para as cidades, qual seja, a mis-
tura de moradias, de diferentes classes sociais, com serviços,
igualmente variados, que diminui, entre outras coisas, o deslo-
camento por meio do automóvel.
Mesmo um prédio que seja construído com uma preo-
cupação com coleta seletiva e com outras questões ecológicas,
quando feito de forma isolada do contexto, como uma constru-
ção autoreferente, elenão contribui para a diminuição do im-
pacto ambiental. O capital imobiliário constrói edifícios como
se eles pudessem ser um fim em si mesmo. No entanto, nem
um espaço na cidade, muito menos um espaço privado, pode
ser um fim si mesmo porque a decisão de construir um edifí-
cio privado tem um impacto social e ambiental que é custeado
por todas as pessoas que circulam pela cidade. Afinal, todas as
pessoas sofrem com a poluição, engarrafamento e com o esva-
ziamento das praças públicas e equipamentos de uso comum
(parques, por exemplo) que se convertem, pela falta da circula-
ção de pessoas, que preferem ficar nos equipamentos dos seus
edifícios e condomínios privados, em espaços inseguros. Desse
modo, as edificações verticais que perfuram o Recife transfor-
ma o que era para ser uma solução, a saber, o adensamento,
num dos maiores problemas da cidade do Recife que se traduz

242
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

num crescimento desordenado, quanto às relações entre suas


partes (bairros).
O mercado imobiliário se mostra ineficiente para promo-
ver uma cidade sustentável e diversa. Por essa razão acredito
que uma boa saída seria ampliar o poder de decisão sobre o
projeto de cidade que se deseja não o reduzindo aos interesses
do capital imobiliário; muitas vezes agentes financiadores dos
arranjos políticos intitucionais – como as campanhas eleitorais.
Vamos defender agora que a solução é compartilhar a decisão
sobre o desenho urbano com as pessoas, levando em conside-
ração o impacto das decisões individuais sobre a vida comum.

IV. Uma nova política para uma nova cidade

A arquitetura como construir portas,


de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas…
João Cabral de Melo Neto
Fábula de um arquiteto

Se a cidade pode ser caracterizada por esse viés cosmo-


polita, por ser uma laboratório ou, como costumava pontuar
Le Goff, “um campo de experiência sociais e políticas”7, não há
razões para sustentar uma política avessa ao cosmopolitismo,
à diversidade cultural e à diversidade de tipos edilíciose dos
usos dessas construções. O modelo liberal, aplicado à cidade do
Recife e a tantas outras cidades brasileiras, tende a modelar a
cidade em função de uma ótica unilateral, centrada no conforto
e segurança de uns em detrimento do bem estar social da maio-
7 Le Goff 1998, p. 102.

243
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

ria. Para subverter esse modelo não vamosnos engajar num dis-
curso que assume para si a determinação do que é o bem públi-
co, o qual poderia ser expresso, permitam-nos usar o conceito
de Rousseau, pela vontade geral. O modelo liberal, como ele foi
aplicado no Recife, falha porque é ineficiente no que concerne
à promoção da cidade como lugar da diversidade, mas uma saí-
da, por assim dizer, centralizadores, típica de alguns discursos
socialistas e modernistas, pode apresentar outra falha, que não
podemos em detalhes explicar aqui, mas que consiste, grosso
modo, em desconsiderar as vontades individuais em nome de
uma vontade geral; acessível para algumas pessoas, especial-
mente, claro, alguns burocratas do Estado e seus técnicos. Ou
seja, se o discurso liberal pode mutilar a cidade para, como
diz João Cabral, fechar secretos, o discurso de matiz socialista
pode, por outro lado, torna a cidade espelho de uma única pers-
pectiva que é acessível apenas a poucas pessoas (os burocratas
e técnicos) e que se sustenta no conceito vago de vontade geral
ou bem comum, que termina por usurpar das pessoas o direito
de decidir sobre a cidade.
Estado e capital podem compor uma forma muito pare-
cida de pensar a cidade de modo unilateral, ainda que para fins
diversos. Um planejamento centralizado, que retire a capaci-
dade de cidade de se reinventar, de ser criativa e que é feito em
nome de uma ideologia cuja legitimidade prescinde da escuta
das pessoas, parece próximo de um planejamento urbano se-
questrado pelo poder do capital, que molda a cidade em função
da conveniência da elite. Essas duas perspectivas sobre a cidade
guardam uma simetria quanto à falta de participação das pes-
soas no processo de decisão política sobre a cidade. De fato,
se é, como alerta Jacobs, “ridículo pensar que nossas cidades
grandes – variadas, cheias de vida, sempre em transformação

244
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

– devam depender de um punhado de autoridades e barões da


construção para se renovar”8, também não é menos problemá-
tico acreditar que um modelo centralizador, que prescinde da
expressão política dos seus cidadãos, possa se constituir como
alternativa ao modelo liberal. As motivações dos modelos li-
berais e centralizadores podem ser diferentes, pouco importa
para a presente discussão, mas o resultado dos dois modelos é
a inépcia e antipatia pela discussão pública e horizontal sobre
os rumos da cidade. Por isso, o que vamos propor, ainda que
de um modo incipiente, não é um modelo político que suposta-
mente poderia se constituir como a antípoda do modelo liberal,
mas que, no entanto, guarda para si problemas simétricos aos
existentes naquele modelo. Defenderemos o que chamamos de
democracia real por acreditar que ela pode financiar a ideia de
uma cidade diversa, múltipla e condizente com o cosmopolitis-
mo. Para isso vamos associar a discussão da democracia com a
própria concepção de cidade.
Primeiramente, permita-me revisar o termo grego demo-
cracia. A origem etimológica do termo, classicamente instituí-
da, não deixa dúvidas que ele se relaciona, para a maioria dos
estudiosos e estudiosas da cultura e da língua grega, à noção
de povo. No entanto, queremos partir de alguns interpretações
que conferem um toque diferente, mas não excludente, à com-
preensão tradicional do termo democracia. Cordero sustenta
que democracia se relaciona com a noção de um governo do
bairro. Demos, nesse caso, poderia se referir às pessoas que ha-
bitam determinada localidade no interior da cidade. O termo
demos se aplica então à junção entre localidade e pessoa e, com
isso, comporta a própria ideia de cidadão, aquele que é da ci-

8 Jacobs 2009, p. 369.

245
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

dade. Essa definição nos ajuda a pensar a cidade. Se o gregos


se dispunham, pelo menos os cidadãos, a irem à praça pública
para discutirem a cidade, eles fariam isso a partir dos bairros
que, numa espécie de federação, se reuniam para acertar os ru-
mos da polis, levando em consideração a realidade específica de
cada bairro e a sua relação com a cidade de Atenas. Não se tra-
ta de discutir abstratamente a cidade, mas de discutir a cidade
em função das diferentes perspectivas, enraizadas nos diferen-
tes lugares, que a compõem. A diversidade de realidades deve
ser exposta na arena pública para que as decisões passem a
contemplar maximamente a vontade das pessoas e a diversida-
de dessa vontade. Assim, se os gregos falharam, ou pelo menos
não foram suficientemente radicais, no que concerne à extensão
do conceito de cidadão, quando a restringiu a condições bem
específicas e, podemos falar, elitistas ou aristocráticas, eles não
deixaram de errar quando não pensaram uma dimensão mais
ampla da participação popular no interior de cada bairro.
Dentre as várias restrições que a democracia grega im-
punha às pessoas para se investirem da condição de cidadãos,
algumas delas, inaceitáveis, como a proibição da participação
feminina, queremos sublinhar uma que ainda permanece nos
dias atuais, qual seja, a restrição da participação política à
territorialidade ou mais precisamente ao local onde se mora.
Pretendemos discutir esse ponto para esclarecer o que entende-
mos por participação popular nas decisões sobre a cidade.
Defendemos que a discussão o projeto de cidade e, pos-
teriormente, a deliberação sobre o modo como devemos pro-
ceder na sua política devem ser públicas e acessíveis à partici-
pação das pessoas interessadas. Ela também não deve reduzir
o poder de veto e de deliberação sobre as políticas públicas
aos políticos profissionais. Ou seja, para que a cidade possa

246
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

manter a sua diversidade é necessário que haja uma simetria,


pelo menos de poder e institucional, entre os agentes políticos
e, por conseguinte, do poder político, no sentido de resguar-
dar a expressão da diversidade no planejamento urbano. Essa
é ideia que pode ajudar a construir uma cidade em que todas
as pessoas se sintam concernida por ela porque participam da
sua efetiva criação. Nesses termos é que Jabocs pontua que “as
cidades têm capacidade de oferecer algo a todos, mas só porque
e quando são criadas por todos”9. A cidade é as pessoas, apenas
quando as pessoas são a cidade; participam da sua constru-
ção de modo efetivo. A democracia real, que amplia o conceito
grego e subverte a sua dimensão de territorialidade, é a única
armadura política que garante as condições mínimas para que
a cidade seja concebida e, posteriormente, realizada por todas
as pessoas.
É evidente que operacionalizar isso não é uma tarefa fá-
cil. Não resta dúvida. Mas, a ideia de pensar a cidade e, com
ela, a democracia urbana, como uma federação de bairros é
interessante, pelo menos, no que diz respeito à viabilidade de
apresentar a cidade nos seus diferentes nuances e em sintonia
com quem vive a cidade. Sublinhamos a expressão quem vive
a cidade porque ao contrário dos gregos, que consideram cida-
dão apenas os que nela habitam, adicionada outras conhecidas
restrições, algumas já mencionadas, acreditamos que o conceito
de cidadão se estende para os que circulam pela cidade porque
trabalham nela, estudam, etc, isto é, de algum modo vivem ela;
o que notadamente inclui, novamente diferente dos gregos, os
estrangeiros (ξένος, o de fora). Não é preciso ter domicílio numa
cidade para decidir sobre os rumos dela. Basta viver a cida-
9 Jacobs 1990, p. 263.

247
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

de e não necessariamente na cidade no sentido de morar nela.


Nesses termos, pessoas que vivem a cidade devem participar
da decisão de seu planejamento, pois são frequentadores, inde-
pendente de serem moradores. Elas devem, consequentemente,
decidir a política da cidade porque elas transitam e de algum
modo habitam a cidade.
A nova política que propomos não é um sistema mágico
capaz de redimir nossos conflitos com soluções técnicas sobre
o que deve ser a cidade ou a própria política, nem é uma for-
ma de atenuar ou matizar a democracia representativa, que,
como mostramos um pouco aqui e mais especificamente em
outra oportunidade10 está a serviço do capital. Trata-se de pen-
sar um modelo político que empodera os (as) cidadãos no que
diz respeito à tomada de decisões sobre a cidade. Não é tor-
nar públicas as decisões, mas publicizar o espaço de decisões
políticas, no sentido de radicalizar a participação popular nas
referidas decisões. A nova política é uma renovação e amplia-
ção da política grega, da democracia grega. Nessa perspectiva,
acreditamos que o caminho para tornar viável a nova política
é procurar fortalecer os conselhos dos bairros, que devem ser
igualmente horizontais, paritários e formados em cada bairro
em função das diversas tendências e posições sobre a cidade
para formar uma federação de bairros que longe de rivalizarem
devem pensar a cidade como a ponte, conexão, entre eles. A
cidade não é apenas a reunião de pessoas, diferentes pessoas,
enraizadas, ainda que de modo transitório, num lugar, mas ela
é também o resultado orgânico dessa reunião, isto é, ela é a
expressão de como essas pessoas se relacionam na cidade, nos
seus diferentes bairros e nos espaços de convivência. A circu-

10 Cf. Andrade 2014.

248
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

lação de pessoas passa a ser, por conseguinte, um epicentro da


discussão entre os bairros no sentido de garantir a livre e segura
circulação de pessoas e, com elas, a circulação das ideias das
pessoas que efetivamente vivem a cidade.
Nesse contexto, empoderar os (as) cidadãos é lhes confe-
rir, a partir desses conselhos, o direito de participar realmente
do projeto da cidade que se deseja viver. Isso significa lhe dar
abertura política o que lhes confere, por conseguinte, uma sen-
sação de pertencimento, essencial para que as pessoas se mo-
bilizem pela cidade. Parte da falta de mobilização das pessoas
deve-se ao fato de que as pessoas não se reconhecem na cidade,
não se identificam com ela, quando não conseguem, entre ou-
tras coisas, decidir sobre seus rumos e a sua estrutura. Em parte
a sensação de pertencimento, que nos permite ter uma atenção
especial pelo nosso lar, repousa no reconhecimento de nossa
ação sobre o lugar. Se a cidade me é estranha, é porque estou es-
tranhamente fora do plano de decisão sobre a cidade que vivo.
Alienar o direito à cidade, alienar o direito a discutir a cidade
é, em parte, alienar o direito à própria vida porque consiste em
alienar o direito sobre o espaço no qual a vida se realiza, é, em
uma palavra, vivida. Por isso, a nova política passa pelo esva-
ziamento da estrutura burocrática clássica, própria da demo-
cracia representativa, e pelo fortalecimento dos conselhos que
devem ter o direito de participar efetivamente dos rumos que
terminam por definir o desenho urbano de cada parte da cidade
e do todo. Para isso, dois pontos devem ser levados em conside-
ração, quais sejam: a realidade da estrutura de cada bairro e a
integração equilibrada entre os diferentes bairros. Esses pontos
se ramificam em diversos instrumentos e normatizações – lei do
uso dos solos, plano setorial, plano diretor, por exemplo –, mas

249
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

para que se tornem legítimos devem ser objeto de discussão pú-


blica e aberta a todos interessados para que os rumos da cidade
sejam decididos efetivamente pelas cidadãs e pelos cidadãos.
Tenho consciência de que a nova política não pode ga-
rantir em termos absolutos a diversidade, defendida por nós
como sendo a característica essencial da cidade, mas ela abre
caminho para que os processos de decisão sobre a cidade possa
sair das paredes opacas do poder público institucional, presente
na democracia representativa, e possa finalmente caminhar nas
ruas. O processo de empoderamento dos agentes políticos de
modo paritário, simétrico e que leva em consideração a realida-
de local (bairro) e a realidade global (as relações entre os bair-
ros) é lento, mas acreditamos que aos poucos as pessoas vão
construindo a sensação de pertencimento na mesma proporção
que vão decidindo sobre a cidade. Outra dificuldade será per-
ceber que a cidade não pode ser reduzida à simples reunião de
bairros, mas que dessa reunião e da interrelação entre os bair-
ros é que emerge uma cidade desejadamente cosmopolita. No
entanto, essas dificuldades práticas não podem obliterar o fato
de que o caminho para que hoje as cidades expressem a diver-
sidade, que lhes foi própria ao longo da história, é fortalecer
a participação popular. Por isso, acreditamos que a utopia da
cidade cosmopolita não é pura e simplesmente a expressão do
impossível, do não lugar e, portanto, da não cidade. Ela deve
ser compreendida como o horizonte para o qual devemos se-
guir quando queremos entender a cidade como uma invenção
inacabada de pessoas, as quais, tal como a cidade, estão sempre
em construção.

250
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Referências
Andrade M. de Oliveira, Érico (2014): Direitos Urbanos: a luta em rede. In:
Coletiva, n.13. Recife: FUNDAJ.

Andrade M. de Oliveira, Érico (2014): Ocupe Estelita: as novas formas de


atuação política. Insight Inteligência, v. 66, p. 108-113.

Cordero, Néstor Luis (1999): A invenção da filosofia. São Paulo: Ed. Odysseus.

Gehl, Jan (2014): Cidades para pessoas. São Paulo: ed. Perspetiva, 2014.

Hayek, Friedrich (2010): O caminho da servidão. São Paulo: Instituto Ludwig


von Mises Brasil.

Le Goff, Jacques (1998): Por amor às cidades. São Paulo: UNESP.

Jacobs, Jane (1990): Morte e vida das cidades. São Paulo: Martins Fontes.

Melo, João Cabral (1997): A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro:
Editora Nova Fronteira.

Newman, Oscar. Creating defensible spaces (1996): Washington, DC: U.S.


Department of Housing and Urban Development.

Newman, Peter; Beatley, Timothy; Boyer, Heather (2009): Resilient cites:


responding to peak oil and climate change. Washington: Island Press.

Nozick, Robert (2000): Anarquia, estado e utopia. São Paulo: Martins Fontes.

Rousseau, Jacques (2007): O contrato social. São Paulo: L&PM.

Storch, Andréa Melo Lins (2000): Ponte a ponte: investigando os significados


das apropriações sócio-espaciais das margens do rio Capibaribe nos bairros
da Madalena e das Graças. Dissertação de mestrado. UFPE.

Vivan, Mariana (2012): Arquitetura, espaço urbano e criminalidade: relações


entre espaço construído e segurança, com foco na visibilidade. Dissertação de
Mestrado defendida junto ao PósArq – UFSC, Florianópolis, SC: UFSC, 2012.

251
III PARTE

Crítica cultural e dimensões


culturais da modernização
CAPÍTULO VII

Crítica cultural:
um modo de reflexão da modernidade1
Georg Bollenbeck †

I
Uso conceitual. A crítica cultural não designa nem uma
disciplina nem um método ou uma questão científica. Também
não há quaisquer objetos e temas crítico-culturais seguramente
delineados. O conceito é extensionalmente sem um limite níti-
do, intencionalmente desorganizado e heterogêneo.
Naturalmente há um denominador semântico comum:
quando a fala trata da crítica cultural, então se pensa, primei-
ramente, em manifestações de apelo público por parte de inte-
lectuais, a queixarem-se sobre o declínio dos costumes e da so-
ciedade, sobre a alienação2 e a racionalização, sobre o funesto
1 Tradução de Bruno Lemos Hinrichsen. O artigo original foi publicado pela pri-
meira em: Heinz, Marion; Gretić, Goran (Org.): Philosophie und Zeitgeist im
Nationalsozialismus.Würzburg: Königshausen & Neumann 2006, p. 87-99 e
em uma versão ligeiramente modificada em: Zeitschrift für Kulturphilosophie
1 (2) 2007, p. 201-209. Cf., outrossim: Georg Bollenbeck, Eine Geschichte der
Kulturkritik von Rousseau bis Günther Anders, München 2007.
2 N.T. O termo ‘Entfremdung’ é constituído pelo radical ‘fremd’, adjetivo que quer
dizer tanto ‘estranho’ quanto ‘estrangeiro’, bem como ‘alheio’. Ora, uma vez que se
está a falar em crítica cultura, optou-se pela tradução como ‘alienação’ em detri-
mento de ‘estranhamento’, pois tendo em vista que deve-se em algum ponto pensar
em subjetividade, o termo escolhido é mais relevante.

255
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

império do dinheiro, da técnica ou da mídia. A crítica cultural


serve frequentemente como um vago termo coletivo para his-
tórias de perdas e resultados patológicos, que se dirigem para
a nomeação de tempos melhores em contraposição ao seu pró-
prio tempo.
Parece haver, também, um tipo conjunto de proemi-
nentes críticos culturais: antigos pensadores como Diógenes
ou Lucrécio; antes de tudo, porém, nos novos tempos tantas
mentes distintas como Herder, Schiller, Carlyle, o jovem Marx,
Nietzsche, Simmel, Spengler, Anders ou Foucault. Nomes res-
peitáveis – e ainda assim a crítica cultural não tem uma das
melhores reputações. Frequentemente ela é associada, em con-
traste com a teoria social, a um rançoso ressentimento contra
a Modernidade; um tal ressentimento que induz a diagnósti-
cos da decadência com terapias ditatoriais. Assim, os homens
se identificam, em verdade, de bom grado, como filósofos ou
sociólogos, mas bem raramente como críticos culturais. Tanto
mais surpreendente atua o seu presente interdiscursivo em sin-
gulares disciplinas das ciências do espírito como na publicidade
jornalística.
Manifestamente o conceito é vago, mal reputado e, con-
tudo, inevitável. Mas o seu histórico de utilização permite-se
ordenável. A palavra é mais jovem que a “coisa”. O neologismo
surge por volta de 1900. Ele não designa o surgimento de um
novo tipo de objeto científico, de uma nova questão em termos
da história das ideias, teoria ou método, senão ele sintetiza re-
troprojetando o que fora mencionado várias vezes e diferente-
mente, a dizer, uma carregada crítica normativa ao estado de
coisas do seu próprio tempo, para o qual esse estado de coisas
se classifica em uma história de perda. O conceito não é, de for-

256
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

ma alguma, seguramente caracterizado. A crítica civilizacional


pode, frequentemente, ser utilizada como sinônimo de crítica
cultural. Entretanto, o conceito também não será arbitraria-
mente utilizado. Ele se deixa localizar em três históricos de uso
que abrangem diferentes intervalos de tempo e conceitos: a sa-
ber, um [sentido] amplo, um restrito e uma utilização conceitual
especificamente alemã.
O conceito amplo compreende todos os comentários,
reclamações e queixas contra “equivocados” sistemas econô-
micos, “maus” estados de coisas e “falsas” condutas desde os
antigos. Por conseguinte, a crítica cultural vai desde Hesíodo,
Diógenes ou Sêneca até a crítica medieval à Corte, à crítica da
moral e dos costumes, bem como até os tempos atuais ou à crí-
tica da mídia. Assim ela se atualiza “do lá detrás” até o nosso
presente.
Inconfundíveis são as semelhanças temáticas dos varian-
tes amplo e restrito: a crítica ao contexto da conquista civili-
zatória e da decadência moral, a tese da saudável sociedade
original e de seu declínio. A diferença crucial encontra-se em
uma nova consciência do tempo com pressupostos do percurso
histórico-filosófico sob o título de ‘progresso’, para o qual se
relaciona o crítico cultural. Enquanto os cínicos querem um
“retorno à natureza”, Rousseau e Schiller julgam o processo
civilizatório irreversível. A hipótese de Rousseau de um estado
de natureza deve, como já enfatizado por Kant, sugerir uma
recordação e não um retorno.
A crítica cultural em um sentido especificamente alemão
opera com um restrito e normativo conceito de cultura que con-
duz a consciência de crise como um ponto de referência con-

257
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

trastivo. O seu idealizador3 é Nietzsche, que, entretanto, não


pode ser dito responsável pelo fracasso global do Iluminismo
ocidental. A “inimizade dos alemães contra o Iluminismo”,
por ele arguida, origina-se de motivos diversos. Ela começa
com a degradação do Iluminismo como fase preparatória do
Classicismo e da filosofia do Idealismo Alemão; ela se instala a
partir do eficaz clichê do racionalismo (estranho à história) e do
utilitarismo do Iluminismo na consciência coletiva do instruído
e ganha nova energia próximo ao final do Século XIX. Agora
o Iluminismo é trazido às proximidades de um conceito que
deve agregar as conquistas individuais e muitos maus desenvol-
vimentos dos modernos: o Iluminismo cai em um elemento da
crescente e fracassada civilização ocidental.
Na verdade, podem ser constituídos diferentes históricos
de uso, mas a crítica cultural não se remete a nenhum campo de
atividade seguramente traçado com nexos objetivos evidentes.
É claro que nenhuma disciplina se sente responsável por esse
conceito, se bem que diversas disciplinas dele se utilizem – espe-
cialmente a filosofia, a sociologia e a historiografia. Isso ocorre,
em regra, através de um procedimento de evidência seletiva.
Quando, por exemplo, o pensamento de Rousseau, de Schiller
ou de Nietzsche, quando das queixas sobre a decadência geral,
sobre a técnica ou sobre a massificação devem ser caracteriza-
dos, então parece claro, por assim dizer, ocasionalmente, o que
significa “crítica cultural”. O conceito ganha, então, a cada vez
que restritamente contextualizado, sua identidade referencial.
Títulos como “a crise da crítica cultural: estudos de caso acerca
3 N.T. O substantivo alemão ‘Vordenker’ indica tanto um ‘mentor’ quanto um ‘pio-
neiro’ no campo intelectual. Sendo assim, optou-se por traduzir por ‘idealizador’,
preservando o sentido de ser um pioneiro e um guia para o desenvolvimento da
noção por ele iniciada.

258
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

de Heidegger, Lukács e outros”, “crítica cultural, mnemotécni-


ca e utopia depois de 1848” ou “Jugendstil4 e crítica cultural”
mostram que: no caso isolado acredita-se ser possível conviver
sem um conceito de crítica cultural.

II
Um conceito. A expressão remete a um até agora subes-
timado pensamento não disciplinado que mais facilmente pro-
cessa experiências assistemáticas e osmóticas diversas (do saber
cotidiano ao filosófico), bem como conjuntos de conhecimen-
tos. A crítica cultural reclama o direito de interpretar o decurso
da história assim como o estado de coisas e as possibilidades
da sociedade. Sua história abre acesso a uma produção de co-
nhecimento e [produção] de construção de sentido igualmente
substanciais concernentes à história das ideias e da mentali-
dade, resultando sempre novamente em reclamações contra a
Modernidade. Resultados patológicos centrais da modernidade
como a alienação, objetificação ou racionalização, que geral-
mente são atribuídos às teorias sociais marxista e sociológica,
provém dessas histórias de perdas crítico-culturais.
Para historiadores ou analistas do discurso a questão pela
determinação de regras do alcance comunicativo e do impacto
político é mais importante do que a questão pela produção do
conhecimento. O histórico de uso dos conceitos ideologizados
dá informação sobre as interpretações de mundo, mas não se
pode trasladar tais conceitos (quase como decadência ou dege-
nerescência) em categorias do conhecimento.
4 N.T. Embora parece que seja possível traduzir o termo sem problemas para o que
é mundialmente conhecido por “Art nouveau”, acredita-se que preservar o termo
em alemão faz melhor referência ao que se quer dizer, pois na Alemanha a forma de
expressão artística e cultural é conhecida do público como ‘Jugendstil’.

259
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

A crítica cultural é, contudo, um conceito que autoriza


uma mudança de perspectiva a partir do indicador de uma his-
tória discursiva ou social em direção a uma categoria analítica
para a história do conhecimento. Com isso, abre-se uma pers-
pectiva de pesquisa que não põe de lado a crítica cultural como
forma de conhecimento menor, senão uma [perspectiva de pes-
quisa] cujas ambivalências entre crítica e acomodação, entre
exatidão diagnóstica e cegueira antimoderna, chegam ao fim.
Para explicar o objeto do conhecimento é necessário es-
clarecer, primeiramente, o modo de conhecimento do objeto.
Quem leva à sério a reivindicação da crítica cultural, precisa
de um conceito de crítica cultural que aponte para as condi-
ções formais de possibilidade dos textos crítico-culturais. Esse
conceito abarca posturas determinadas, formas de avaliação e
de conhecimento de um padrão de pensamento, com o qual ex-
periências são processadas e expectativas articuladas; também
[abarca] determinados efeitos tanto de recepção quanto de re-
sultado. Trata-se de características que não são conhecimento;
características, porém, que permitem a produção e a apresen-
tação narrativa de conhecimento – e isso dentro de contextos
históricos mutáveis. Essa é a estabilidade do modo de reflexão
constitutivo da variabilidade do singular esboço crítico-cultural.
Posturas. Os críticos culturais tomam, em regra, a postu-
ra de “poetas-filósofos”5 (acadêmicos marginais) ou de intelec-
tuais, que defendem a distância perante a filosofia ou sociologia
acadêmica, que não se abrigam em nenhum disciplinamento ar-
gumentativo, que não dirigem seus textos para uma disciplina,

5 N.T. A palavra alemã composta por justaposição ‘Dichterphilosoph’ tem, na sua


composição, as palavras ‘Dichter’ (poeta) e ‘Philosoph’ (filósofo) e, por isso, foi
traduzida por “poeta-filósofo”. Acontece que a simples denotação não é suficiente
para expressar o valor exato do termo, sendo assim, a sua conotação é a de algo
como “um filósofo menor” ou “não puro”.

260
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

senão para uma ampla publicidade racional-cultural e que to-


mam uma atitude fundamental da brutal interpretação geral de
mundo. A crítica cultural é um pensamento osmótico com pre-
tensão crítica e de interpretação de mundo que vive do espírito
do tempo, se bem que ele [o pensamento] se volte ao seu pró-
prio tempo. Ela é impregnada filosoficamente, mas raramente
disciplinada de forma filosófica. Críticos culturais são não ra-
ramente poetas-filósofos e sempre public intellectuals6 que se
distinguem dos intelectuais liberais (para quem há o credo da
liberdade individual) a partir da crítica parcial e da confiança
na auto-harmonia dos “private vices and public benefits”7. Eles
são (e a eles junta-se Kant, o admirador de Rousseau) “eruditos
não-incorporados” que “vivem, por assim dizer, no Estado de
Natureza da erudição” e que alargam e querem difundir seus
conhecimentos “sem prescrições e sem regras abertas”. Eles in-
teressam-se menos com a observação de outros livros e mais
com a observação de sua própria época. Eles sempre eviden-
ciam sua referência com a atualidade.
Formas de avaliação e de conhecimento: como padrão de
pensamento, com o qual o saber é gerado, a crítica cultural con-
tém uma diferença avaliativa entre o passado embelezado, um
ideal como ponto normativo (do Estado de Natureza, dos gre-
gos, dos medievais, de “toda a humanidade”, do além-do-ho-
mem, da identidade bem sucedida) e das más relações e modos
de relação no presente. Nasce, então, uma pretensão de indivi-
duação elevada como pressuposto para o ponto de partida mo-
tivacional do pensamento crítico-cultural, para a discrepância

6 N.T. “Intelectual público” ou “intelectual como figura pública”. Respeitou-se o uso


de estrangeirismos nesta tradução, devendo-se indicar o significado das palavras,
expressões ou frases em nota, sempre que necessário.
7 N.T. “Vícios privados e benefícios públicos”.

261
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

entre expectativas e experiências. A diferença avaliativa aguça


a crítica e evoca confrontos antitéticos. Embora suas obras ad-
judiquem a fenômenos singulares uma expressividade simbó-
lica para cenários decadentes, da mesma forma o pensamento
crítico-cultural reivindica sempre uma atitude fundamental: ele
não é, portanto, nenhuma insatisfação parcial. Ele rejeita o seu
próprio tempo com um admirável olhar retrospectivo sobre
épocas passadas; e esboça saídas. Nisso ele se diferencia da crí-
tica da atualidade. Ele não valoriza de modo algum a existência
humana como um todo de modo negativo: dessa maneira, não
é nenhuma forma global de crítica do mundo. Nisso ele se dife-
rencia do pessimismo.
O padrão de pensamento aspira a uma construção to-
tal meta-política que julga fenômenos heterogêneos da
Modernidade com “avaliações” dos pontos normativos. Com
isso surge a configuração geral do problema do pensamento
crítico-cultural. A construção total pode estabelecer diferentes
acentos. Ela concede a aspectos singulares uma “expressividade
simbólica” para o diagnóstico da decadência: a desigualdade,
por exemplo, entre os homens, entre o estado de coisas das ci-
ências e das artes, a “era das máquinas”, a “mecanização” ou a
“racionalização”. A construção total é meta-política porque ela
não é comprometida com a esquerda e com a direita. Pensa-se,
por exemplo, na recepção política completamente heterogênea
de Rousseau, Schiller ou de Nietzsche.
Diferentemente da crítica do tempo, a crítica cultural
tem uma “consciência histórica de longa duração” (assim Karl
Löwith sobre Nietzsche). Ela surge da reconstrução avaliativa
de diversos estados civilizatórios; ela questiona o progresso da
própria era, renuncia o próprio presente com vistas para os sa-
crifícios dos indivíduos e procura saídas no futuro.

262
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Os efeitos resultantes da crítica cultural serão sensatos


quando se perguntar pelos potenciais cognoscitivos de seus
idealizadores: Rousseau, Schiller e Nietzsche. Eles não fundam
quaisquer disciplinas ou escolas, mas influem sobre diversas dis-
ciplinas e escolas. Eles são, como os clássicos da sociologia mo-
derna, igualmente “insuperáveis”. Suas evidências patológicas
crítico-culturais fornecem os “produtos semi-acabados” (Jürgen
Link) para a retórica indignada da simplificação presa ao espí-
rito do tempo. Tais produtos semi-acabados (ou evidências) pe-
netram, além disso, no governo mental do mundo erudito. Eles
circulam na publicidade cultural-racional e são empregados,
simultaneamente, por diferentes ramos e estilos de pensamento,
especialmente pela filosofia (Herder, Hegel, Heidegger, Jaspers),
pela teoria neomarxista (Luckács), pela sociologia (Tönnies,
Simmel, Sombart, M. Weber) ou pela teoria crítica. Seus discer-
nimentos atuam, além disso, dando impulso aos movimentos
artísticos e às objetivações estéticas. Eles são motivadores de
ação para a procura por uma outra Modernidade, por práticas
reformadoras da vida, tais quais a “arts and craft movement”8,
o movimento da juventude ou o movimento ambientalista.

III
Com o Iluminismo contra o Iluminismo (Ralf
Konersmann). O Iluminismo constitui (no sentido de um con-
ceito do conhecimento e das épocas) o contexto de possibilita-
ção para a crítica cultural da Modernidade. Faz parte de seu
substrato e da condição de ressonância; portanto, public intel-
lectuals dispostos criticamente e um novo tipo de publicidade
para sua crítica; além disso, formas determinadas de saberes, a

8 N.T. “Movimento das Artes e Ofícios”.

263
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

partir das quais podem emergir posturas e padrões de pensa-


mento crítico-culturais: prioritariamente a ligação da antropo-
logia e da filosofia da história, das experiências de melhoramen-
tos acelerados e de expectativas para com a sua individualidade
formativa.
No Iluminismo surge o ponto de partida motivado e a
configuração do problema em geral do pensamento crítico-cul-
tural. O pressuposto para isso é uma representação histórica
que se constitui em um resseguro avaliativo de passados dis-
tintos porque ela vê no presente possibilidades para um futu-
ro melhor. Já na “querela dos antigos e dos Modernos”, essa
disputa irrompida, portanto, no final do século XVII, acerca
da validade do modelo da Antiguidade greco-romana, forma
uma ideia de progresso que, não obstante, aceita obstáculos tais
como a tradição, o preconceito, o costume ou as superstições
em um crescimento contínuo do conhecimento e da experiên-
cia. A teoria do progresso do Iluminismo francês e escocês aca-
ba por agregar o avanço singular a uma filosofia da história
otimista, que produz o pensamento crítico-cultural simultane-
amente como pressuposto e provocação. Enquanto ele entende
a história como um fluxo reverso do desenvolvimento supe-
rior e da decadência, ele quebra com a teoria do progresso do
esclarecimento, sem rejeitar a “promessa emancipatória” do
Iluminismo: saídas para o depravado presente são pensáveis
porque uma antropologia maleável confia muito nos homens.
A todos os homens é atribuída autonomia e autodeterminação.
A partir de uma perspectiva da história das ideias que
enfatiza a relação da filosofia da história e da antropologia
como fundamental para a crítica cultural, fica claro que é me-
nos sensato estabelecer a precedência da crítica cultural já na
Antiguidade. Muito embora já se encontre em Hesíodo uma

264
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

história da decadência da era de “ouro” até o atual “bronze”;


embora para ele um passado “feliz” já sirva como medida para
o presente “infeliz”, ainda falta a essa crítica uma consciência
histórica que integre a soma das histórias singulares na história
singular-coletiva, que determine o sentido imanente da história
universal como progresso da razão e que comece a refletir so-
bre isso, ou seja, refletir que os homens “fazem”, na verdade,
sua própria história, ainda que não possam dispor dela. Já com
isso surge uma nova consciência de tempo, para a qual a his-
tória não mais se consuma no tempo, senão, como chamado
por Rousseau, “em virtude do tempo” (à force de temps). Disso
diferencia-se a crítica cultural da Modernidade da antiga crítica
da moral e dos costumes. Também são criticadas as transgres-
sões dos homens com o critério de certos valores (por exemplo,
com o mos maiorum ou a moral cristã) e disso derivam cenários
de decadência. Mas falta uma consciência de tempo que tam-
bém descobre o progresso com a história singular-coletiva.
Isso muda quando com o Iluminismo a história pode ser
determinada como um processo de aperfeiçoamentos crescentes
e o progresso como “progressus” permite projetos intramun-
danos – projetos que se relacionam com a sociedade e com os
indivíduos. Com isso, o diagnóstico de uma decurso da degene-
rescência social recebe uma outra dimensão temporal. A crítica
cultural não amplia com ela, no caráter do conceito amplo de
cultura, apenas o alargado horizonte da totalidade do campo
de crítica, [mas] ela também agrava sua crítica porque os males
da civilização não são mais justificáveis através de um tribunal
transcendental. Rousseau acredita, de fato, no Deus criador da
religião judaico-cristã e no evangelho de Cristo, mas sua crítica
cultural apresenta uma história da socialização carente de um
Deus. Para Schiller a religião é uma “falácia”, um resultado da

265
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

fadiga e do abatimento “pela luta com a miséria”. Então os crí-


ticos-culturais tem que saber lidar sem o apoio metafísico, mas
também, em contraste com Herder, Kant, Condorcet ou Hegel,
sem o consolo histórico-filosófico.
Em interação com a filosofia da história nasce uma antro-
pologia que liberta a reflexão sobre o homem da tradição esco-
lar-filosófica orientada de forma teológica. Isso também ocorre
no caráter da totalidade e da temporalização. Expressões como
“reabilitação da sensualidade”, “revalorização do sentimento”,
“unidade psicossomática do homem” mostram, por exemplo,
que por volta de 1750 o “todo humano” muda no seu ponto
central, de uma essência [ou ser] natural, a uma essência [ou
ser] social e cultural. Aqui é decisivo que a nova consciência
histórica promove-se com os flanqueados conceitos de progres-
so e desenvolvimento; representações do homem como histori-
camente pressuposto e como essência formadora de si mesmo.
Isso não é nenhuma invenção do neohumanismo. Já durante
o Iluminismo entende-se “formação” não só como educação
teleológica vinda de fora, senão também como autoformação
individual. Assim, constroem-se excedentes conceituais que não
assumem a pedagogia iluminista orientada à utilidade. Junto a
Leibniz deve-se nomear, antes de tudo, Shaftesbury. A metafísi-
ca da individualidade leibniziana enraíza-se na teologia mística,
na representação de um “Deus-Pessoa-Harmonia do mundo”.
É importante notar que sua Monadologia (1720) estima posi-
tivamente a individualidade; vislumbra-a em sua singularidade
e perfectibilidade. A mônada abre-se como infinita (essa per-
feição da acentuada autoatividade) e reflete sobre a essência
própria e individual do universo. Isso direciona as mônadas,
que “Eu” posso dizer (Leibniz chama-as de alma ou espírito
racional), a um cruzamento da consciência de si e do mundo.

266
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Leibniz pensa o universal e o individual como uma relação uni-


tária do arquétipo e da cópia em perfeita harmonia. Seu mo-
nismo compreende, sob a égide do espírito, também a sensu-
alidade. Não é apenas a representação leibniziana da mônada
promove a representação do indivíduo autônomo e indepen-
dente. Deve-se mencionar ainda os projetos de individuação de
Shaftesbury que propagam uma concordância da capacidade
ético-estética dos homens, tal como uma harmonia condicio-
nal do todo cósmico. Sua antropologia otimista, a qual confere
aos homens um sentido moral inato (moral sense), cuja esti-
ma da experiência externa, e cuja espiritualização dos sentidos
na unidade estético-moral da “autoformação” (selfformation)
agirá sobre Wieland e Winckelmann, Schiller e Goethe. Ela é
uma contribuição crucial para o ideal do homem harmônico e
aperfeiçoável.
A partir do cruzamento da antropologia com a filosofia
da história declara-se a pretensão de fazer o homem individual,
através da educação, “melhor e mais feliz”; [declara-se] a supo-
sição de que o grau da bem-aventurança da sociedade depen-
desse do número desses homens, e a expectativa sobre as pos-
sibilidades de autodeterminação do indivíduo. A isso também
se referem Rousseau e Schiller. Mas ambos os idealizadores da
crítica cultural moderna rejeitam a pedagogia do Iluminismo
orientada à utilidade e determinam, em contraste com a maio-
ria da Ilustração, o processo de civilização também como um
processo de decadência. A civilização não é mais entendida por
eles como um garante do autoaperfeiçoamento humano. Ao
mesmo tempo, porém, a representação do progresso constitui
um pré-requisito para as crescentes expectativas individualizan-
tes. Elas contam com o progresso e põem-no simultaneamente
em questão.

267
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Surge, então, uma autorreflexão relativista que é ineren-


te a um momento dialético, contanto que sejam confrontados,
entre si, os efeitos negativos e positivos da civilização. Com
isso, Rousseau e Schiller tomam os “estados de coisas bem su-
cedidos” no passado como um tipo de “expectativa retroativa”
(Reinhart Koselleck). Para Rousseau aquela “época mais feliz e
durável” de uma sociedade de caçadores e de pastores é a socié-
té naissante9. Para Schiller são os “atenienses” que personificam
o ideal do todo dos homens. Em ambas, nós achamos a dife-
rença avaliativa entre um passado embelezado e um presente
piorado, a pretensão abrangente para interpretar a história e o
estado de coisas da sociedade, e o modelo triádico de “presente
piorado, passado melhorado e salvação futura”.
Esse tipo de autorreflexão aguça o olhar para a imper-
tinência da civilização. Ele transfere a teodiceia da metafísica
para a sociedade: foi a civilização que golpeou no homem as
“feridas mais profundas”, e apenas por causa da civilização a
“cura” é possível. Essa é a hora do nascimento da crítica cultu-
ral como modo de reflexão da Modernidade.

IV
Panorama. Já em Rousseau nós achamos uma antecipa-
ção característica para a crítica cultural. Ele critica o sistema
do Absolutismo tardio, o poder da Igreja e o interior do antigo
regime da nascente sociedade civil – no sentido da sociedade
política, da société civile; no sentido dado por Hegel como dife-
rença entre Estado e sociedade; e, finalmente, no sentido trazido
por Marx como sociedade capitalista-burguesa. Em sua obra
crítico-cultural principal, ou seja, no discurso sobre a origem e

9 N.T. “Sociedade nascente”.

268
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

os fundamentos da desigualdade entre os homens (1755) ele le-


vanta a pretensão não imodesta de investigar “os fundamentos
da sociedade”. Assim, Rousseau reclama um tipo competência
geral para as ciências e para as artes, para as instituições políti-
cas, os estados de coisas sociais e a economia.
Seu “discurso sobre a desigualdade” pode ser entendido
como um protótipo de pensamento crítico-cultural. Nesse es-
crito manifestam-se as formas e as condições de possibilidade
do modo de reflexão – com o efeito de que aqui sejam pré-for-
mulados complexos de problemas centrais da crítica cultural,
que a partir de então constituem um repertório argumentativo.
O tempo das grandes obras crítico-culturais – que a an-
tropologia e a teoria da história unem, tematicamente e his-
toricamente possuem um longo alcançam, e representam o
processo civilizatório como o estado da civilização em uma
construção total – esse tempo já passou. Já nos anos cinquenta
do século passado, na esteira da crescente aceitação perante a
sociedade de consumo (consumer society) ocidental, o pensa-
mento crítico-cultural perde para a estabilização da democracia
parlamentar e para a erosão da classe-média intelectual a sua
base de ressonância proeminente. Ela parece ultrapassada. Não
porque isso que ela criticava desapareceu, senão também por-
que a sociedade para si compreendida democrática promove
uma crítica duradoura e porque os seus discursos-regulamenta-
dores incitam, para tanto, a segmentação do [objeto] criticado.
Inconfundíveis entram em fluxo os acervos, motivos e narra-
ções em outros campos de conhecimento sociais que foram ge-
rados pelo modo de reflexão crítico-cultural. Encontramo-los
proeminentemente na reflexiva (e não apenas no fato edifican-
te) sociologia (Sennett, Lash, Beck), na declaração dos cientistas
naturais que se dirigem para uma publicidade extensa, e encon-

269
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

tramo-los por toda a parte em controversos debates midiáticos,


onde se articula o desconforto sobre os resultados previsíveis
(ou ainda não previsíveis) da inovação técnico-científica e das
transformações sociais.

270
CAPÍTULO VIII

Os potenciais ambíguos da imagem na era


das modernizações aceleradas
Kathrin Rosenfield

O título Modernizações Ambivalentes evoca, é claro, os


processos de transformação científicos e tecnológicos que des-
vincularam a sociedade das crenças religiosas e das formas de
vida tradicionais. Entre o século XIX e o XX, esses avanços sur-
tiram a esperança de um progresso orgânico da sociabilidade,
de uma reestruturação respeitosa dos valores humanitários le-
gados pela cultura – uma modernização que deveria beneficiar
todos, os inventores e proprietários tanto quanto as massas de
trabalhadores operando o maquinário industrial e burocrático,
como também os artistas e intelectuais. Essa esperança ilumi-
nista vinculada a uma aposta na modernização tecnológica ain-
da faz parte dos nossos sonhos atuais – apesar de uma evolução
pouco alentadora.
Desde a filosofia positivista, as posturas dos grandes pen-
sadores da modernidade oscilam entre visões sombrias do desti-
no humano e promessas enraizadas numa fé inabalável no pro-
gresso que iria revolucionar as relações sociais entre os homens.
Em Auguste Comte, a redenção científica poria fim às eras re-
ligiosa e metafísica que precederam a habilitação racional da

271
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

humanidade1. Esse progresso concebido como um movimento


quase natural da história difere significativamente da visão de
Karl Marx, na qual a vitória do cálculo racional requer uma
ruptura violenta com a ordem e o poder estabelecidos2. Max
Weber analisa o correlato desse progresso intelectual: o desen-
canto (Entzauberung) que acompanha o desmantelamento das
crenças míticas e religiosas que sustentavam as sociedades tra-
dicionais3. E, paralelamente, uma série de antropólogos, soció-
logos e filósofos – Emile Durkheim e Marcel Mauss, Ferdinand
Tönnies ou Georg Simmel – iluminam os mais diversos aspectos
e as ambivalências dos processos de modernização.
No campo literário e artístico, esses sentimentos mitiga-
dos a respeito do moderno e da modernização são particular-
mente notáveis nos ensaios de Charles Baudelaire, o poeta que
registrou as transformações da vida moderna num amplo es-
pectro da sociabilidade. Quatro ‘coisas modernas’ recorrem na
sua obra com particular frequência: o jornalismo, a fotografia,
a grande cidade e a arte4. Os sentimentos de Baudelaire des-
crevem uma constante oscilação. Lembremo-nos da Exposição
Universal de 1846, cujas novidades industriais, tecnológicas e
comerciais o poeta saúda com curiosidade e entusiasmo:
Há poucas ocupações tão interessantes, tão fascinan-
tes – tão cheias de surpresas e de revelações para um
crítico, para um sonhador (...) –, quanto a compara-
ção das nações e dos seus produtos respectivos (…).
(...) pergunto: o que faria, o que diria um
Winckelmann moderno (e temos Winckelmanns em

1 Comte 1998, p. 43.


2 Marx 1993, p. 265 s.
3 Weber 1992, p. 135 s.
4 Compagnon 2014.

272
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

excesso, a nação regurgita-os, os preguiçosos se en-


cantam com eles), o que diria ele face a um produto
chinês, produto estranho, bizarro, no circulo fechado
de sua forma, intenso na sua cor e, às vezes, delica-
do até desmaiar? Mesmo assim, eis aí também uma
amostra da beleza universal; porém precisa-se, para
que seja compreendido, que o crítico, o espectador
operem em si mesmos uma transformação que tem
algo do mistério (...), da graça divina do cosmopoli-
tismo; mas todos podem adquirí-la em graus diver-
sos. Os mais dotados nesse sentido são os viajantes
solitários que viveram durante anos no fundo das
florestas, no meio de vertiginosas estepes e prairies,
sem outro companheiro além da sua espingarda:
contemplando, dissecando, escrevendo. Nenhum véu
escolar, nenhum paradoxo universitário, nenhuma
utopia pedagógica interpôs-se entre eles e a comple-
xa verdade.5

O que mais impressiona nos escritos de Baudelaire é sua


abertura acolhedora à diversidade dos objetos artísticos e à es-
tranheza das mercadorias que começam a inundar as galerias
e passagens comerciais das grandes cidades. A abundância de
novas impressões estimula a imaginação e a reflexão do poeta,
inspirando-lhe a fantasia de que o artista moderno talvez seja
um aventureiro cuja proeza consiste em aproximar-se das es-
tranhezas dos novos mundos sem preconceitos. Num primeiro
momento, ele se abstém de julgar as bizarrices exóticas e reco-
nhece que sua novidade ultrapassa a perspectiva e os critérios
tradicionais. Nessas circunstâncias, é melhor observar suspen-
dendo os juízos, a fim de ampliar as fronteiras do acanhado
gosto burguês. Somente essa atitude aberta viabiliza a conquis-
5 Baudelaire 1970, p. 680 ss. (tradução nossa).

273
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

ta de critérios mais abrangentes e, se necessário, a ruptura com


as estreitas normas europeias.
De um lado, portanto, Baudelaire está disposto a louvar
a conquista dos mundos mais amplos e ricos – inclusive as no-
vas tecnologias, os meios de transporte (trens como o Orient
Express, os navios transatlânticos) e o comércio internacional
que alimentam galerias e feiras europeias com preciosidades da
Ásia, da África e das Américas. De outro lado, porém, o poeta
detesta a voracidade dos mecanismos financeiros que tornam
essa riqueza possível – a Bolsa de Valores, a propaganda e o
entretenimento. Amante do rigor e da forma, o artista teme o
ritmo acelerado das modas, o inevitável relaxamento do estilo
e o desmantelamento das tradições, dos critérios e costumes.
Em nenhum momento, o entusiasmo de Baudelaire pela
vida moderna confunde-se com uma confiança cega no progres-
so unívoco da modernização ou da modernidade. Ao contrário,
o moderno é para ele sempre algo profundamente ambivalente
– longe do sentido corriqueiro que atribuímos à moderniza-
ção no uso cotidiano. Ser moderno significa de modo trivial
estar a par dos acontecimentos, atualizar comportamentos e
racionalizar as abordagens segundo os padrões ‘do dia de hoje’
(hodiernus). Nessa acepção, ‘modernização’ coincide com a
promessa de emancipação de crenças e de procedimentos que
contradizem a objetividade e a racionalidade científicas – sen-
tido esse que projetamos sobre épocas passadas. Assim, por
exemplo, quando nos referimos aos processos de emancipa-
ção e self fashioning do renascimento (no caso de poetas como
Shakespeare e Donne), ao imaginário iluminista moldado pelos
avanços científicos e filosóficos da época, ou à racionalidade da
Grécia clássica, ‘moderno’ adquire um sentido predominante de
resistência e da reação contra a irracionalidade.

274
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

E desta ideia da luta contra a violência mítica, as supers-


tições e os preconceitos, é preciso apenas um pequeno passo
para que sejam suscitados outros sentidos hoje mais correntes
do termo ‘modernização’: o da ruptura com padrões impostos
pela religião ou pelo estado e do desmantelamento de dogmas
e de instituições autoritárias. A modernização dos padrões es-
téticos pelo modernismo vinha de mãos dadas com a derrisão
das tendências conservadoras da arte burguesa; os movimentos
de vanguarda preferiam a anarquia à racionalidade utilitarista
e ao kitsch decorativo da Belle Époque. “O artista precisa ser
Anarquista”, já disse Kurt Eisner no seu apelo a todos os ar-
tistas em 1919. E os modernistas em luta contra a ‘fraude’ da
arte burguesa apostavam na abstração como meio de liberar
‘o espiritual na arte’ (Kandinsky), na força expressiva das co-
res (expressionismo), no despojamento e na objetividade cari-
catural para despertar a crítica e a revolta das massas (“Neue
Sachlichkeit”). “De que modo o artista tem sucesso na socieda-
de burguesa?” pergunta Georges Grosz. E responde “Pela frau-
de!”6. Tais provocações foram reproduzidas nos painéis da ex-
posição organizada por Goebbels em 19377. Mas entre todas as
correntes inovadoras da arte, nada havia de tão eficaz quanto a
fotografia e o cinema – os aliados tecnológicos dos artistas que
se tornariam os sustentáculos principais de toda modernização.

I. O novo olhar artístico pelo olho mecânico


O olho artificial provocou sensação e divertimento
quando foi lançado em 1839 por Daguerre. Mas a invenção
rapidamente ultrapassou seu papel de divertimento para re-

6 Barron 1991, p. 52.


7 Barron 1991, passim.

275
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

tratos de família. Aproximou a sociedade europeia de mun-


dos alheios, abrindo a mente para possibilidades jamais vistas
anteriormente. Já na metade do século XIX, a daguerreotipia
documenta os deslocamentos dos viajantes, por exemplo, na
viagem de Maxime du Camp e de Gustave Flaubert ao Egito
e o Oriente Médio, em 1850; ou nas reportagens dos horro-
res da Guerra Civil Americana (1861-1865) por Matthew B.
Brady8. Para além das suas funções como dispositivo de registro
realista, a fotografia se torna rapidamente um meio de expres-
são que entra em concorrência com as outras formas artísticas.
Em 1860, Julia Margaret Cameron tem pretensões artísticas e
esotéricas com seus retratos fotográficos de grandes persona-
gens – Carlyle, Darwin, Tennyson, entre outros. Suas tomadas
procuram desvelar algo além da realidade superficial; rivalizam
com os retratos de famosos pintores como Rembrandt que des-
vendaram o espírito e a alma dos seus modelos, “os traços inte-
riores desses grandes homens”, que posam em atitudes de prece
e contemplação9.
Num plano mais científico e tecnológico o novo apare-
lho dá lugar a métodos de observação e análise que superarão
tudo o que os olhos dos pintores e cientistas souberam discernir
até então. Em 1872, Edward Muybridge começa a explorar e
ampliar o potencial tecnológico da câmera fotográfica, usan-
do uma série de 24 câmeras sincronizadas: o zoopraxiscópio,
que permite captar em 24 fases a sequência dos movimentos
de cavalos de corrida (trote, galope, salto, etc.). O mecenas que
financia o experimento é Leland Stanford, fundador da univer-
sidade do mesmo nome10. A invenção abre vias inéditas de aná-

8 Gay 2008, p. 359.


9 Gay 2008, p. 359.
10 Hill 2001, passim.

276
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

lise e de compreensão da biomecânica e torna-se o precursor


da película de celuloide que, por sua vez, prepara o kinetógrafo
eletromecânico e o kinetoskópio, desenvolvidos duas décadas
mais tarde, por T.A. Edison e W.K.L. Dickson (1891).
Para ter uma ideia dos desdobramentos destes brinquedos
de curiosos excêntricos, basta olharmos para o triunfo da in-
dústria cinematográfica na última década do século XIX. Ainda
antes da virada do século, de 1895 em diante, esses protóti-
pos já são aprimorados na aparelhagem usada nos primeiros
estúdios de filmagem, inundando os cinemas metropolitanos
com milhares de filmes. Em 1908, Edison desenvolve a Motion
Picture Patents Company – o início do Edison Trust. Em 1910,
a audiência dos cinemas já chega a 26 milhões de ingressos
semanais. É o ano da primeira visita aos EUA de um ator-ci-
neasta desconhecido – Charlie Chaplin, que ganharia, em 1916,
o salário mais alto do show business: 670 mil dólares anuais11.
O cinema mudaria definitivamente os modos de percepção e o
gosto, a sociabilidade, a política e as concepções a respeito da
arte.
E no plano estritamente estético e artístico, o novo ima-
ginário voltado para as imagens moventes foi decisivo também
para a reflexão sobre outras formas artísticas. Não é um acaso
que o triunfo do cinema coincidiu com uma revolução na dança
e com o desenvolvimento de inúmeros métodos de notação e
terapia biomecânicas. A tecnologia permitiu apreciar o refina-
mento das formas exóticas de expressão e movimento e a re-
pensar os vícios e as virtudes das tradições e técnicas europeias.
Resulta, no campo da dança, no método Laban de notação e
análise e provoca, na literatura, uma intensa reflexão sobre o
papel do romance e das técnicas literárias.
11 Gay 2008, p. 377 ss.

277
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Não há gênero nem movimento artístico que não se de-


bata com as virtudes e os vícios das novas aparelhagens técni-
cas e, rapidamente, a esperança iluminista da possível aliança
entre arte e tecnologia começa a prevalecer em muitos ensaios
inovadores do século XX. Já em 1913, Alfred Döblin aposta
nas virtudes da nova visibilidade tecnológica ao ponto de pre-
gar o ‘estilo cinematográfico’ como nova via da literatura12; O
Homem visível de Bela Balázs (uma das primeiras teorias do ci-
nema, de 1924) anuncia a simbiose revolucionária como luz do
futuro próximo, os ensaios do jornalista e sociólogo Siegfried
Kracauer, inicialmente críticos a respeito da dispersão da in-
dústria do entretenimento, começam a absorver esse otimismo
a partir de 1927. Em 1924, Kracauer cultivava ainda ideias
mais místicas, na esteira do romantismo-idealismo alemão.
Trabalhava com a dicotomia contemplação-distração, opondo
o potencial contemplativo do tédio (Langweile) à distração-
dispersão (Zerstreuung) da indústria do entretenimento13. A
obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica de Walter
Benjamin (1935) retoma essas ideias na forma da teorização
filosófica.
Raros são os inovadores que mantêm um distanciamento
crítico destes entusiasmos progressistas e quase utópicos. Talvez
não seja um acaso que o ceticismo e a reflexão crítica mais apro-
fundada tenha partido de um escritor-cientista, Robert Musil,
cujo conhecimento de matemática e treino científico-tecnológi-
co permitia pôr em perspectiva os (des)caminhos das esperan-
ças utópicas. Os ensaios críticos, as ficções e teorias musilianas
são, já no início dos anos 20, um interessante antídoto contra
as apostas (muitas vezes ilusórias) dos artistas e pensadores mo-
12 Döblin 1978, p. 110.
13 Kracauer 1997a, p. 280.

278
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

dernistas. Musil desconfia da nova figura do artista-ideólogo,


cuja esperança de intervir no tabuleiro político e social nutre-se
do poder dos meios tecnológicos – em particular do poder das
imagens fotográficas e cinematográficas.

II. As promessas políticas e utópicas da tecnologia


cinematográfica
O cinema e a fotografia alteram a percepção e a consciên-
cia da realidade graças a uma série de inovações reveladores da
relatividade do ponto de vista: close up, corte, montage, trac-
king, animação, profundidade de campos, som, cor, e inúmeros
outros efeitos especiais começam a criar uma consciência alerta
do peso emocional e cognitivo da imagem (movente ou não).
No início da segunda década do século XX, as técnicas do ci-
nema já revolucionaram os modos de perceber e interagir, bem
como a sensibilidade e a demanda estéticas, pondo em questão
as tradicionais fronteiras entre as artes – e isto ao ponto das
vanguardas literárias acreditarem que o romance deveria adap-
tar-se a certas técnicas cinematográficas. Joyce, por exemplo,
introduziu em Dublin o primeiro aparelho cinematográfico des-
de 1909; Döblin lança o Berliner Programm, um manifesto pela
literatura cinematográfica em 191314, propondo a dissolução
do arco narrativo (início, meio, fim), dos nexos causais e dos
esquemas psicológicos. A narrativa que fornece explicações a
respeito da coerência lógica das relações pertence, doravante,
não mais à arte, mas antes aos relatos científicos: os casos freu-
dianos são os melhores exemplos destas ‘novelas’ prosaicas das
quais os artistas preferem manter distância. Musil, embora crí-
tico no que diz respeito ao alcance emancipatório da tecnologia,

14 Döblin 1978, p. 110 ss.

279
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

concorda neste último ponto com os vanguardistas: também


suas novelas estão em pé de guerra com as explicações psicoló-
gicas das relações de causa e efeito. Mesmo assim, ele se opõe à
aproximação literária das técnicas cinematográficas, pois acre-
dita que a sensibilidade poética pode ainda descobrir estados e
sentimentos não catalogados pelos manuais de psiquiatria15. De
Muybridge a Döblin e Duchamp, o olho mecânico demarcou
novos horizontes e eras, colocando os modernistas numa zona
cinzenta entre a aposta numa pletora do visível (o aparelho tec-
nológico viabilizou inúmeras descobertas preciosas) e num luto
pela perda de um espaço de reflexão mais integrado nas técni-
cas do corpo natural.
Além disto, o impacto popular do cinema e da fotografia
mostra também sua relevância no âmbito politico. O cinema
sem dúvida não teria se desenvolvido da mesma maneira, não
fosse seu papel de manipulação e de propaganda nas sociedades
de massa. Na Europa e na União Soviética o cinema adquire tre-
menda relevância ideológica nas mãos de uma série de cineastas
talentosos – de Eisenstein e Bela Balázs a Leni Riefenstahl. No
início dos anos 1920, Eisenstein sublinha o impacto político
da mais nova das artes nascida das conquistas tecnológicas,
ao citar Lenin, que considerava o cinema a mais importante
das artes. Em O Encouraçado Potiemkin, de 1925, o enredo
do motim dos marinheiros no encouraçado atracado no porto
de Odessa ocorre ao mesmo tempo em que o massacre de civis
na escadaria do porto. As duas histórias celebram a tomada de
consciência dos oprimidos no vigésimo aniversário da revolu-
ção russa. No filme, a revolução fracassada de 1905 recebe as-
sim um novo sentido: mais que um fracasso, ela aparece como

15 Musil 1978, p. 1311 ss.

280
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

ensaio e preparação para a bem sucedida revolução de 191716.


No campo ideológico diametralmente oposto, Leni Riefenstahl
usa seu extraordinário talento cinematográfico para consagrar
a convenção nacional-socialista de Nühremberg de 1934 com
o Triunfo da Vontade. Apresenta o programa de Hitler como
promessa de vitória de um povo trabalhador e próspero, mas-
carando ali a ideologia racista e odiosa do partido.
Mas as primeiras teorias do cinema – pensamos nos en-
saios de Bela Balázs, S. Krakauer e W. Benjamin – parecem ig-
norar em grande medida a profunda ambivalência dos papeis
que as tecnologias cinematográficas e os novos meios de comu-
nicação irão assumir. A maioria dos pensadores modernistas
valoriza as lentes fotográficas ainda num marco humanístico,
como revolução da visão no sentido mais amplo, liberador e
espiritual da palavra. A tecnologia faz notar traços, peculiarida-
des e detalhes que os hábitos cotidianos obliteram. No entender
desses teóricos, a surpresa desta outra visão suspende por um
momento os conceitos, as instruções e ideias que orientam a
vida do individuo e da sociedade; ao mesmo tempo em que
limita a liberdade individual, direcionando-a para os interesses
da comunidade e da sociedade. Na tradição cultural, esses inte-
resses materializaram-se em inúmeros gestos, comportamentos
e fórmulas que o trabalho cultural automatiza, mantendo os
desejos próprios dos membros da sociedade ocultos à luz do
dia. Mas o apelo popular das artes aliadas à tecnologia começa

16 O atrativo ideológico é tão sedutor que Eisenstein subordina (ou, pelo menos, pre-
tende subordinar) sua técnica cinematográfica ao método e à teoria marxistas. A
montagem teria sido calcada nos cortes de Madame Bovary de Flaubert: tomadas
contrastantes comentam-se umas às outras de modo dialético. Na verdade, entre-
tanto, a rapidez da filmagem e montagem do filme (filmado em dez semanas e cor-
tado em duas) dão a entender que ele se aproxima da mais perfeita expressividade
espontânea, da produção num estado de transe e, portanto, com pouca preocupação
teórica e ideológica. Cf. Gay 2008, p. 371.

281
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

a pôr em xeque esse status quo. Não há invenção mais pode-


rosa que o filme para alterar a forma e sentido da percepção.
Os novos meios parecem ampliar e inverter os mecanismos da
visibilidade cotidiana, rompendo com hábitos, doutrinas e con-
venções consagradas. Surge a esperança de uma redenção atra-
vés da arte e da tecnologia: as novas aparelhagens estilhaçam
as formas de percepção habituais, dizem os artistas revolucio-
nários; seu uso artístico tem o poder de revelar novamente as
estruturas mais profundas da sensibilidade – por exemplo, os
modos infantis e oníricos da experiência. Para indivíduos alie-
nados, oprimidos e sofridos, esse acesso a outro modo de sentir,
viver e pensar oferece um espaço mais verdadeiro e autêntico,
uma alternativa válida às formulas fixadas pela cultura oficial.
A expressão corporal, em particular, recupera na fotografia e
no filme uma visibilidade direta e liberadora, pois o silêncio da
imagem suspende o apelo dogmático da palavra, agindo apenas
com a força suave da sugestão. O programa da intelligentsia
artística volta-se para os dispositivos tecnológicos na esperança
de diversificar os modos de percepção e dissolver os moldes im-
postos pelos costumes ou por um aparelho doutrinário.

III. Bela Balázs


Um dos livros pioneiros neste sentido é o ensaio de um
cineasta do início do cinema mudo, Bela Balázs. Ele teoriza sua
experiência no tratado O Homem Visível, de 192417, que foi
reconhecido por teóricos como Siegfried Kracauer e Rudolf
Arnheim como uma contribuição seminal para a ‘dramaturgia’
do filme. O Homem Visível (Visible Man) é o primeiro tratado
que reivindica o estatuto artístico para o cinema, louvando a

17 Balázs 2010, p. 1-90.

282
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

tecnologia cinematográfica pela recuperação das capacidades


expressivas originárias do corpo visual18. O cinema é, no enten-
der de Balázs, a ‘única linguagem universal’ da humanidade. O
autor aposta na visibilidade cinematográfica do corpo humano
como um meio inédito de liberar a sensibilidade das formas
convencionais de ver e dos modos cristalizados de entender; a
visão mediada pelo cinema apresenta-se quase como uma pos-
sibilidade de revisão crítica do mundo e como redenção inscrita
no potencial da performance, do insight viabilizado por técni-
cas revolucionarias da percepção – visões tecnológicas nunca
antes possíveis como o close up e a montagem.
Balázs saúda o estilhaçamento da experiência totalizante
que regia as artes visuais e as narrativas tradicionais e atribuí a
essa fragmentação o poder de des-construir e re-construir as re-
lações de poder estabelecidas. As normas implícitas do ‘contar
histórias’ (epopeia e romance) prescreviam uma visão objetiva
do mundo e a construção de totalidades de tempo (ação com-
pleta) e de espaço (visão sintética do universo no qual a ação
tem lugar)19. Esta construção narrativa obedece a uma série de
premissas implícitas inscritas na estrutura social, econômica e
política da qual surge a arte de narrar e na qual a narrativa se
retroalimenta.
O novo meio predominantemente visual do cinema pare-
ce oferecer um potencial subversivo; a visualização direta das
relações concretas e tangíveis perfila-se como uma ameaça (re-
volucionária) para o discurso convencional que torna perene as
relações de poder estabelecidas. Aplicando a teoria marxista,

18 O autor analisa Tipo e Fisionomia, O jogo das expressões faciais, O Close Up e A


Face das coisas – fornecendo uma tipologia dos elementos expressivos da arte do
filme. Cf. Bálazs 2010, p. 17-25.
19 Balázs 2010, p. 58.

283
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Balázs vê no cinema um novo meio redentor permitindo livrar-


se das superestruturas sociais, políticas, imaginárias alienantes
que pré-determinam nosso horizonte de expectativa a partir
dos relatos do cânone ocidental: o cinema teria, assim, o po-
der de abolir essas imagens cristalizadas do mundo e reiteradas
pela sociabilidade burguesa. O homem visível do cinema deve
substituir às visões estereotipadas pelas quais o burguês fazia
de si um novo homem – aberto e transparente nos seus anseios
– e capaz de tecer novas relações com os outros homens.
Balázs sublinha o efeito antropomorfizante da imagem
cinematográfica e lhe atribui um poder ‘transcendente e fantas-
magórico’ – a formula retoma conceitos de Lukács, que falava
nesses termos das relações entre mercadorias e com a mercado-
ria: “uma coisa de fantasmagórica concretude que imprime sua
estrutura ao homem como um todo”20.
O primeiro ensaio de Balázs prapara a famosa fórmula de
Benjamin: “a visão da efetividade imediata tornou-se a flor azul
no país da técnica” (no parágrafo XIV de A arte na era da re-
produtibilidade técnica). O que Baláz chama de ‘homem visível’
é o homem enfim liberado do peso da cultura morta – graças
ao aparelho tecnológico. Seria esse desejo um mero fetiche –
mais ainda – uma ilusão fabricada com um conjunto eclético
de conceitos do seu tempo? Daniel Hermsdorf pensa assim ao
criticar a confusa mistura de crítica marxista do valor de troca
com outras teorias da cultura21.

IV. Siegfried Kracauer


Na visão de Kracauer, as imagens moventes são, num
primeiro momento, peças fundamentais de uma nova prática
20 Lukács 1975, p. 194.
21 Hermsdorf 2011, p. 337.

284
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

cultural: o entretenimento que Kracauer chama de ‘culto da dis-


persão’ (Kult der Zerstreuung)22 e critica como degradação da
cultura. Entre 1924 e 1927, Kracauer trabalhava ainda com a
dicotomia de duas disposições espirituais, que começam a so-
frer um sério desequilíbrio na era da tecnologia e das massas.
De um lado, há a atitude contemplativa, o ócio permeado de
tédio (Langweile) da sociabilidade tradicional, e de outro, a
disposição acelerada dos tempos modernos na qual se destaca
a procura do movimento constante e o relaxamento distraído
na dispersão (Zerstreuung), que inviabiliza o foco contempla-
tivo. Nos ensaios de Kracauer dos anos 1920 é nítida ainda a
valorização do tédio como o Grau Zero da contemplação. Sem
a sensação do vazio momentâneo que aflora na experiência do
tédio, pensa o sociólogo, a porta para o universo espiritual hu-
mano permaneceria fechada: “Não existisse o tédio, não existi-
ríamos enquanto seres espirituais”23. Durante milénios, o ócio
tivera como correlato o tédio, que, por sua vez, oferecia a chave
dourada para os tesouros contemplativos: a chance ímpar de
desvincular-se das agitações insignificantes para descobrir as ri-
quezas espirituais. O tédio permitia o distanciamento de uma
multidão de projetos e a descoberta do valor de não fazer nada,
a não ser estar consigo. Sentir o sem-sentido de estar aí, do mes-
mo jeito que um bibelô absurdo, como a forma bizarra de um
cacto, chega-se ao ponto de sentirmos nada além da inquietude
interior, um desejo sem propósito, e o enfado com tudo que está
aí sem ser24.

22 Kracauer 1997b, KuZe p. 311 ss.


23 Kracauer 1997a, p. 280.
24 Stalder 2003, p. 260.

285
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

No tédio, Kracauer via uma fase preliminar da redenção,


captada, no mais belo estilo místico, com a imagem do retorno
ao paraíso:
Aparece uma paisagem com pavões irisantes, acenam
imagens de seres humanos cheios de alma, e veja,
também tua alma se enche, sabendo nomear, em es-
tado de graça, tudo que sempre faltava: a grande pai-
xão. Se ela, que arde como um cometa, descesse sobre
ti, penetrando em ti, nos outros, no mundo – o tédio,
enfim, teria fim, e tudo o que é seria.25

Mas esse pensamento místico-redentório de Kracauer co-


meça a mudar a partir de 1927. Em ensaios sobre fenômenos
aparentemente anódinos da cultura de massa – por exemplo, os
ornamentos formados por massas em movimento26 – Kracauer
entretece suas descrições com análises mais sociológicas e po-
líticas. A tensão entre tédio e distração aparece agora sob a luz
de uma dialética com virtualidades redentoras – início de um
processo de conscientização. Divertimento e distração dos no-
vos meios de comunicação (sobretudo do cinema) não são mais
apresentados unicamente como as armadilhas diabólicas da
classe dominante. Se esta continua perseguindo a estratégia que
aliena a classe média das esperanças de salvação e de plenitude,
a diversão excessiva que fornece parece esvaziar-se ela mesma,
produzindo, por sua vez, o tédio que mediaria outro horizonte
imaginário. A sede de divertimento do “público homogêneo da
metrópole” é tão ávida de diversão, pois precisa compensar a
tensão do trabalho insignificante que lhe é imposto durante o
dia: a diversão (Amüsierbetrieb) é o avesso da disciplina diur-
na do trabalho vazio do assalariado (Geschäftsbetrieb), escre-
25 Kracauer 1997a, p. 281.
26 Kracauer 1992, p. 462-465.

286
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

ve Kracauer no ensaio de 1930, As Massas Assalariadas (Die


Angestellten)27. Esses assalariados formam uma classe média
espremida: ‘desamparados espirituais’ que vagam entre o pro-
letariado e a burguesia abastada. Com o proletário, a cultivada
classe média não se identifica, ao passo que cobiça os privilé-
gios da alta burguesia sem nunca alcançá-los. Assim, gasta o
seu tempo livre fugindo de sua realidade e esquecendo sua posi-
ção subalterna na ordem social; procura a distração nas ilusões
mais esplendorosas oferecidas pela indústria cinematográfica.
As ‘casernas do prazer’ mantêm a mente em constante excita-
ção superficial que corresponde, enquanto antídoto, à tensão
do trabalho nas fábricas e empresas que arregimentam o tempo
dos assalariados durante o dia. A tensão nunca relaxada desta
polaridade extenua a existência dessa classe errante28.
É um tanto triste constatar hoje que a ilusão do simu-
lacro tende a pesar mais na balança das ambivalências que o
potencial redentor que Kracauer via na indústria da disper-
são. Baudrillard certamente não concordaria com a análise de
Kracauer, que vê no vazio radical da diversão o momento da
transvaloração iniciada pelo abalo, a experiência do choque,
a revelação negativa. Repentinamente, a ilusão do entreteni-
mento torna-se palpável como um golpe assustador – expe-
riência de choque ilustrada no texto de 1928, Montanha Russa
(Berg-und Talbahn). Kracauer usa nesse ensaio a anedota de
um pequeno funcionário que se diverte dando uma volta na
Montanha Russa do Lunapark de Berlim. O cenário o desloca
para o grande mundo dos arranha-ceús nova-iorquinos, oferece
o prazer da ilusão de subir na vida: liberado por um momento
do trabalho nos obscuros escritórios que ocupam os andares de
27 Kracauer 1997a, p. 285.
28 Kracauer 1997b, KuZe, p. 313; Stalder 2003, p. 261 s.

287
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

baixo, ele sobe para os esplendorosos penthouses dos diretores


que reinam no topo. Mas o prazer da ascensão sofre, “na virada
brusca de uma curva”, o choque da fria realidade: o esplendor
não passa de um pano pintado, de um simulacro, uma ilusão29.
Assim, o vazio do Lunapark teria a virtude de desmascarar não
somente a própria superficialidade do assalariado e de sua avi-
dez por divertimento, mas também o vazio e a impostura do
comércio do entretenimento e do mundo opressor. O ensaio
de Kracauer parece antecipar o desfecho de filmes como The
Truman Show, porém sem as conclusões bem mais pessimistas
das análises do simulacro de Baudrillard30.

V. Walter Benjamin
Comparado com os escritos de Kracauer e Balázs, o en-
saio de Benjamin é tardio e surpreende, apesar de sua fama
atual no campo teórico, por uma série de pontos cegos e de-
negações. Não toma conhecimento de Bela Balázs31, nem da
longa resenha que Robert Musil dedica a O Homem Visível
em 192532. Exagera, contra as evidências factuais, as virtu-
des democráticas do cinema enquanto arte coletiva controla-
da por coletivos e comitês33. Na iminência dos processos de
Moscou, a teoria de Benjamin é alheia ao perigo que já se de-
senha, tanto na direita fascista, como nas esquerdas europeias

29 Kracauer 1997a, p. 117.


30 Baudrillard 1981.
31 A carreira de Bálazs foi seriamente prejudicada pelos exílios sucessivos: depois do
breve sucesso da república soviética de Bela Kuhn, Balazs foge para Hungria em
1919 e vive na Áustria e na Alemanha até 1933. Colabora com Leni Riefenstahl
antes da adesão dela ao nacionalsocialismo, mas o rápido recrudescimento do fas-
cismo em ambos os países o obriga a emigrar novamente para a União Soviética.
32 Musil 1978, p. 1137-1154.
33 Benjamin 2014, p. 68-69.

288
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

e na União Soviética (as advertências de Musil no Congresso


Internacional dos Escritores para a Defesa da Cultura, em Paris,
em julho de 193534, foram taxadas de alarmismo reacionário e
burguês). Quando os Processos de Moscou já custaram a vida
a Kameniew e Sinowiev, e logo enviaram para os gulags e ao
fuzilamento os artistas que defenderam a arte revolucionária
em Paris, o ensaio de Benjamin ainda aposta no controle co-
letivo da produção artística; já que mal contempla as provas
contundentes da operação fascista sobre a arte cinematográfica:
os filmes que difundem o culto à estrela (Hitler) e reprodução
em massa da magia do Führer nas fitas de celulóide de Leni
Riefenstahl (Triunfo da vontade).
A Obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica
festeja o fim da bela aparência e da aura burguesas35, compar-
tilhando o otimismo de Balázs (apesar do severo controle que
o cinema sofreu por conglomerados partidários, estatais e in-
dustriais no final dos anos 1920). É provável que essa relati-
va cegueira benjaminiana para com os fatos contemporâneos
deva-se ao referencial do autor. Benjamin escreveu este ensaio
sob a influência de Siegfried Kracauer e como uma resposta às
afinidades místicas deste. Assim, o ensaio benjaminiano talvez
seja uma reação (bastante tardia) às análises do cinema e da
indústria de entretenimento deste amigo-sociólogo. Em parti-
cular, Benjamin retoma e modula o conceito da experiência do
choque, com o qual Kracauer superou seu inicial ceticismo com
relação à cultura de massa e distração.
Também em Benjamin, a distração e o choque mediam
a transição do fascínio solene que provoca a obra única para
o brilho passageiro da cultura de massas, que estimulam a
34 Musil 1978, P p. 1259-1266.
35 Benjamin 2014, p. 70-73.

289
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

curiosidade do público. Benjamin prevê que o valor de culto


da obra de arte tradicional (e o controle da cultura burguesa)
seria substituído pelo valor de exposição dos objetos da arte
industrialmente reproduzidos, objetos estes que emergem das
massas e podem ser controlados pelas massas. A negativida-
de da dispersão encontraria na experiência do choque o abalo
necessário para a superação da tradição (morta), a conscienti-
zação e a revolta contra as estruturas culturais existentes36. O
choque destrutivo viabilizaria uma modificação da percepção
com carga revolucionária.
É bem conhecida esta tese que prognosticava a autodisso-
lução dialética do mito: isto é, uma diminuição da aura mágica
tradicionalmente atribuída às obras de arte. O ‘desencantamen-
to’ da arte nos liberaria de um julgo pesado e ameaçador. Ao
longo dos séculos e milênios, as obras auráticas funcionavam
como emblemas dos rituais mágico-religiosos e dos seus deri-
vados. Elas refletiam o prestígio dos sacerdotes e das famílias
poderosas. São esses elementos cultuais que começam a sofrer
um sério abalo, no entender de Benjamin, quando começa a
era da segunda técnica, que está sob o signo da fotografia e do
cinema – formas de arte mais democráticas e mais liberadoras
para as massas muitas vezes sem acesso às obras auráticas ou
intimidades pelo valor exorbitante atribuído a elas.
Invertendo a crítica inicial que Kracauer dirigia contra a
cultura tecnológica e industrializada, Benjamin trabalha contra
as tendências místicas de seu amigo (e suas próprias!). É níti-
do um certo voluntarismo político no modo como Benjamin
dá boas vindas à nova era em que as máquinas reduzem o es-
forço físico extenuante do trabalho humano. Nas artes, pensa

36 Benjamin 2014, p. 60.

290
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Benjamin, a tecnologia da reprodução em massa aproxima as


obras do grande público: a fotografia e o cinema, em particular,
introduzem assim novos vetores para o gosto e para a aprecia-
ção das obras: nessa interação a cultura de massa torna-se mais
lúdica e liberadora, pois dessacraliza o objeto de arte, dimi-
nuindo seu valor de culto. Ao mesmo tempo, sua difusão para
as massas reestrutura os cânones, as hierarquias e os juízos de
valor estabelecidos. Além de diminuir a aura, a técnica fami-
liarizaria as massas com o potencial crítico da arte. Benjamin
confere às massas o papel de experts, juízes e agentes de con-
trole da produção artística; além disto, o autor saúda também a
dispersão (divertimento) da produção industrial como o agente
da ‘desauratização’, e salienta que o riso desempenharia uma
função catártica, dando vazão a tensões patológicas que amea-
çam a sociedade por dentro.
Adorno é rápido a reagir às ideias do amigo; suas ‘breves
observações’ (dez páginas!) começam com elogios entusiásticos
do “ensaio extraordinário”, no qual haveria “nenhuma frase
sequer que eu não desejasse discutir exaustivamente com o se-
nhor”37. O que se segue na carta, entretanto, é uma severa críti-
ca que põe em questão quase todos os argumentos e a própria
perspectiva (redentora e utópica) de Benjamin. O maior peso da
crítica diz respeito à falta de uma análise adequada do sujeito
desta operação redentora: Benjamin vê as ‘massas’ (ou o ‘prole-
tariado’) à espera de liberação graças às novas formas de arte;
mesmo assim, ele atribui a elas uma consciência que suposta-
mente já superou os entraves da sociedade burguesa; Adorno,
ao contrário, duvida que as massas possam, de imediato, ocu-
par o lugar de experts capazes de julgar ou o lugar de críticos

37 Benjamin 2014, p. 147 (Adorno, carta de 18 de março 1936).

291
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

aptos a exercer o controle da produção cultural. Conhecemos


bem hoje essa ideia das instâncias coletivas de controle e dos
comitês democráticos cujo consenso pluralista dispensaria a di-
fícil questão do juízo de valor. Ela tende a transformar-se no
clichê instrumentalizado pelos governos e suas instituições –
começando com as máquinas de propaganda e financiamento,
passando por todas as malhas da sociedade até as instituições
de ensino e as iniciativas aparentemente individualistas, artísti-
cas e ‘rebeldes’.

VI. Robert Musil


Musil é bem mais cético que Balázs, Kracauer e Benjamin.
Sua primeira reação, quase imediata, ao livro de Balázs é uma
resenha eminentemente artística, na qual o escritor expressa
suas inquietações (que beiram a inveja) com as perdas que a
literatura sofrerá na concorrência das mídias. O autor coloca-
se a questão da hibridização das artes como problema mais
que como solução. Essa atitude poderia ser visto como uma
antecipação criteriosa de posições críticas que surgirão depois
da guerra – pensemos em Clement Greenberg que exorta as
artes plásticas a reconsiderar a especificidade de sua forma de
expressão38.
Mais próximo da ciência e da tecnologia (ele mesmo in-
ventou em 1906 um aparelho chamado Variationskreisel para
a investigação da percepção de formas e cores na Psicologia da
Gestalt), ele entrevê nas possibilidades tecnológicas também os
possíveis abusos e a rechaça à veneração irrefletida da técnica.
Esses abusos não começam com a máquina de propaganda (na-
zista ou stalinista), mas com um certo espírito compulsivamente

38 Greenberg 1940.

292
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

racional que confunde precisão com especialização e explora-


ção quantitativa do conhecimento científico. Esse espírito, que
Ulrich observa, desapontado, entre seus colegas engenheiros e
professores de lógica, é tão nocivo na arte quanto na ciência.
Contrariamente ao argumento de Hoffmann em “Der Dichter
am Apparat”, O Homem sem qualidades dá voz a essa posi-
ção ambivalente – ou talvez melhor: complexa e diferenciada
– do autor e de seu personagem do início ao fim do romance.
Assim por exemplo, no quarto capítulo “Se existe senso de rea-
lidade, tem de haver senso de possibilidade” (HsQ 15 s.), onde
o narrador sonha de um homem novo que unisse a precisão
científica-tecnológica com a capacidade de sonhar alto. Depois
da evocação de suas qualidades místicas “ele têm em si algo di-
vino, um fogo, um voo, um desejo de construção e uma utopia
consciente, que não tem a realidade mas a trata como missão e
invenção! (14) o capítulo continua:
Mas um homem desses não é um caso muito claro. Já
que, na medida em que não forem devaneios ociosos,
suas ideias são apenas realidades ainda não nascidas,
naturalmente também ele tem senso de realidade;
mas é um senso para a realidade possível, e chega
ao seu objetivo muito mais devagar do que o senso
para possibilidades reais, que a maioria das pessoas
possui. Ele deseja a floresta toda, o outro quer as ár-
vores; e floresta é algo difícil de expressar, enquanto
árvores significam tantos e tantos metros cúbicos de
determinada qualidade. (HsQ 15)

Passagens como essa mostram que já nos anos 1920,


quando estava às voltas com as primeiras versões de O Homem
sem qualidades, Musil temia a exploração utilitária da técnica e
aceitação pragmática da lógica tecnicista, que rapidamente le-

293
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

variam à sua apropriação pelo militarismo e à mecanização e


racionalização das relações comunitárias39.
Prevendo a rápida industrialização dos empreendimentos
cinematográficos, Musil vê claramente os efeitos nefastos que a
indústria irá trazer. Onde Balázs sublinha as possibilidades no-
vas e as mais criativas formas de expressão, Musil vê o perigo
da padronização da linguagem (visual e verbal) e da dessensi-
bilização das massas para fins partidários e totalitários. Já no
final dos anos 1920, Musil observa a brutalização da linguagem
cotidiana com a qual o fascismo condiciona seus seguidores a
aceitar uma nova sociabilidade de flagrante desrespeito dos tra-
dicionais direitos e responsabilidades cívicas. Expressões como
‘os fins justificam os meios’ ou o provérbio cinicamente repe-
tido nas situações mais delicadas – ‘Quando se aplaina, voam
as aparas’ ou ‘Willst du nicht mein Bruder sein, so hau ich dir
den Schädel ein’ (Quem se recusa a ser irmão, terá um buraco
no cabeção) – preparam um endurecimento que a propaganda
nazista transforma aos poucos em pressão e chantagem.
Entre o fim da Primeira Guerra Mundial e a ascensão
de Hitler em 1933, Musil é um atento observador da instru-
mentalização da arte pela política. O assunto da propaganda
o preocupa e angustia porque Musil sente, ele mesmo, a dura
culpa por ter participado da máquina propagandística que
criou o entusiasmo bélico de 1914. Assim, ele não vê com bons
olhos nem o departamento de Agitação e Propaganda, criado
em 1917 pelo Comitê Central Soviético40, nem o Ministério de
39 Embora haja criticos como Christoph Hoffmann (Hoffmann 1997, p. 141) que
acusam Musil de cultuvar “postulados estéticos” que subodinariam os conteúdos
poéticos a uma espécie de ditado científico, o método da psicologia experimental.
Cf. Gittel 2013, 178 s., para uma avaliação crítica desta leitura que atribui a Musil
um Credo tecnicista e uma fé no futuro do homem-aparelho.
40 O Agitprop, como era chamado, empregava artistas em inúmeras produções – do
teatro a monumentos públicos, desenhos arquitetônicos, design e um meio de divul-

294
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Esclarecimento Público e de Propaganda, que Goebbels cria em


1933, promovendo a mobilização mental para preparar o povo
alemão para a realização do programa partidário. Em ambos os
organismos, Musil observa como a literatura, as artes plásticas
e os novos meios de expressão e comunicação (rádio e cinema)
são absorvidos pela máquina industrial que, por sua vez, é su-
bordinada ao complexo militar e aos programas do partido e
do governo.
No seu romance O homem sem qualidades, Musil faz do
industrial e escritor Arnheim o personagem que incarna esse es-
pírito empresarial novo. Arnheim é o homem culto da segunda
geração, seu pai é o tycoon que construiu o império, ao passo
que o filho tem o lazer de dedicar-se a reflexões filosóficas a
respeito das configurações supraindividuais criadas pelas novas
relações entre tecnologia, finanças e trabalho. As reflexões de
Arnheim contêm elementos das teorias de Ernst Jünger e de
Walther von Rathenau, e deixam entrever que os meios tec-
nológicos, o sistema financeiro e as massas de trabalhadores
organizados formam estruturas que se tornam independentes
das tradicionais formas de organização comunitária e social.
Elas criam formas de acumulação de capitais, cuja lógica ul-
trapassa a antiga lógica (marxista) do valor e todas as ideias
humanistas da sociedade orgânica. Nas malhas do discurso hu-
manista valorizando os velhos conceitos – como, alma, espírito
e sentimentos, o homem e a sociedade íntegros – surge outra re-
tórica que pouco, ou nada, tem a ver com os ideais humanistas.
Citemos um exemplo com trechos do capítulo 89 do primeiro
livro de O homem sem qualidades, no qual Arnheim reflete so-

gação popular – os quadrinhos: desenhos simples com legendas como “você quer
livrar-se do frio, da fome? “Você quer comer e beber?”, “Junte-se às brigadas de
trabalho humano ou às Brigadas vermelhas”.

295
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

bre a reunião com artistas e intelectuais na noite anterior, na


casa de Diotima:
Sua amiga, decepcionada com os infrutíferos encon-
tros de homens muito importantes, fizera uma deci-
siva tentativa de atrair os espíritos mais modernos
para a Ação Paralela, e as relações de Arnheim lhe
tinham sido bastante úteis nesse sentido. Ele apenas
balançava a cabeça recordando as conversas que ti-
vera de escutar; achava tudo muito maluco, mas “é
preciso ser tolerante com a juventude”, pensou; “se
simplesmente a rejeitamos nos tornamos muito an-
tipáticos”. (…) sentia-se seriamente divertido com
tudo aquilo.41

A diversão faz parte de um momento de repouso que


Arnheim se concede depois de preparar a tomada de decisões
importantes com dois funcionários destacados de sua firma:
Os emissários queriam aproveitar o trem da tarde
para o retorno e, como sempre, ele saboreava essas
circunstâncias porque lhe proporcionavam certa
tensão. “Em dez anos” refletiu, “a técnica estará tão
avançada que a firma terá seus próprios aviões; então
vou poder dirigir meu pessoal também durante um
veraneio no Himalaia”.42

Time is money no universo de Arnheim, e a lógica do


dinheiro prescreve que não haverá mais férias sem trabalho,
nem ócio sem negócio, nem arte sem comércio. Seguindo seus
cálculos racionais, ele aposta (entre muitos outros negócios)
também em empreendimentos cinematográficos, investindo di-

41 Musil 1978, MoE p. 399, HsQ p. 287.


42 Musil 1978, MoE p. 400, HsQ p. 286.

296
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

nheiro na “principiante indústria do cinema”43. Não é preciso


reiterar que esse investimento não é uma aposta na nova forma
de expressão artística, nem no valor do filme. Como todas as
outras ponderações de Arnheim, também essas pertencem a um
plano estratégico de acumulação e de crescimento empresarial;
elas fazem parte dos esforços de rentabilização máxima do ne-
gócio pelo negócio. No capítulo que citamos, Arnheim parece
navegar nos argumentos humanísticos e cristãos, marxistas e
reacionários, como um habilidoso Lúcifer que encaixa os en-
tusiasmos e as disputas em torno dos mais recentes projetos
artísticos e humanitários na máquina de seu próprio império
industrial.
Com ironia amarga, Musil realça a semelhança quase
trágica das fórmulas das vanguardas, prognosticando a “reno-
vação fotogênica através do filme”44, que logo encontrarão seu
eco invertido na “renovação do espírito alemão” da propagan-
da fascista, que se apoia no apelo fotogênico de filmes como
O Triunfo da Vontade de Leni Riefenstahl. Embora esse tre-
cho do romance seja anterior ao O Triunfo da Vontade, Musil
estava plenamente consciente do potencial de manipulação
do novo meio de comunicação. Desde a resenha do livro de
Balázs, Musil mostra-se apreensivo de que a inovação em breve
será uma peça-chave de ‘saneamentos’ culturais que o ministro
Goebbels promoverá a partir de 1933.
Daí a recorrência em O homem sem qualidades de ob-
servações e cenas que mostram a íntima colaboração do sis-
tema militar com a mídia, suas constantes trocas de interesses
e favores que não tardarão de produzir frutos perversos: em
particular a diabólica aptidão dos chefes de propaganda que
43 Musil, 1978, MoE cap. 89, p. 403, HsQ p. 288.
44 Musil 1978, MoE cap. 89, p. 400 s., HsQ p. 287.

297
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

se orgulham, como o simpático General Stumm em O homem


sem qualidades, de saber transformar homens em canibais
(Menschen in Menschenfresser):
Se Vossa Alteza me confiar os jornais, o rádio, o ci-
nema e outros meios culturais, comprometo-me, em
poucos anos, a transformar o anthropos em anthro-
pófago, como disse certa vez meu amigo Ulrich, os
homens em canibais! Exatamente por isso a huma-
nidade precisa de liderança firme. Vossa Alteza sabe
disso melhor que eu, aliás!45

A reflexão romanesca e os ensaios de Musil nos anos


1920 e 30 evidenciam um estado de alerta diante das políticas
culturais fascistas e estalinistas, e sua perspicácia no que diz
respeito ao valor ambivalente dos novos meios tecnológicos no
domínio da arte. Via melhor que Balázs e Benjamin que a arte
na era da reprodução cinematográfica podia tanto liberar as
mentes como oferecer meios inéditos de enquadramento (polí-
tico e partidário) da cultura de massas.
O escopo das possibilidades de enquadramento
(Gleichschaltung) coloca, como nunca antes, a questão da res-
ponsabilidade do escritor. Diferentemente da maioria dos pen-
sadores do mesmo período, Musil resiste não apenas à ‘política
da organização espiritual’ nacional-socialistas, mas também aos
apelos socialistas e comunistas que pretendem definir a ‘função
política’ dos artistas. Contra a premissa do engajamento obri-
gatório, Musil vê a primeira tarefa do escritor na observação
analítica e no uso preciso da linguagem. Sua ética é a precisão
no ofício de expressar experiências e no entrelaçamento com-
plexo de emoções e ideias com ações e projetos. No elogio fú-

45 Musil 1978, MoE p. 1020, HsQ p. 726 s.

298
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

nebre de Rilke, em 1927, Musil já observava com cruel precisão


como interesses pessoais e partidários de escritores medíocres
se retroalimentam na fundação de instituições46.
Este tipo de minima moralia, praticada diariamente nos
diários como higiene espiritual e poética, funda a postura críti-
ca, cautelosa e resistente ao engajamento político. Se ela toma
forma polêmica no discurso de Paris, em 1935, não se trata de
nenhuma resistência à causa social (Musil assinou manifestos a
favor dos socialistas austríacos – e o gesto lhe custou o direito
à pensão nos anos 1930), mas de uma cautela intelectual e poé-
tica. Pois Musil observou os frequentes erros de avaliação dos
seus colegas (intelectuais, jornalistas e escritores) e sua própria
incompetência em assuntos políticos. Eis a razão pela qual deu
limites mais estreitos à responsabilidade do poeta: o rigor com
a linguagem e a palavra escrita, a imaginação e o pensamento.
E neste ofício ele era, no dizer de Canetti, insuperável.

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46 Ele cita como exemplo o presidente da Academia de Letras, Fulda. Cf. Musil 1978b,
p. 1229-1243.

299
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

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301
Sobre os autores

Érico Andrade é doutor em filosofia pela Sorbonne (Paris IV).


Atualmente, é professor de filosofia da UFPE, bem como mem-
bro dos Direitos Urbanos. As suas áreas de interesses são epis-
temologia, ética e ética aplicada.

Georg Bollenbeck foi professor de germanística e cientista cul-


tural na Universidade de Siegen. Suas linhas de pesquisa foram:
pré-história do nacional-socialismo, história dos conceitos, his-
tória das idéias e crítica cultural.

Filipe Campello é doutor em Filosofia pela Universidade


de Frankfurt, e Professor do Departamento de Filosofia da
Universidade Federal de Pernambuco, além de coordenar, nesta
mesma instituição, o Núcleo de Estudos em Filosofia Política e
Ética. Suas áreas de interesse compreendem temas como filoso-
fia política, idealismo alemão, teoria crítica e estética.

José Maurício Domingues é professor do IESP-UERJ. Foi pro-


fessor visitante em diversas Universidades, dentre as quais a
Universidade Livre de Berlim e na Universidade Humbolt, El
Colegio de México, fellow do Instituto de Estudos avançados da
Universidade Hebraica de Jerusalem, pesquisador visitante do
projeto Tramod, na Universidad de Barcelona, e Universidade
de Cambridge, e Universidade Federal de Pernambuco e na
Universidade Agostinho Neto, em Luanda (Angola). Trabalha
com teoria sociológica e teoria política, em especial teoria críti-

303
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

ca, atuando principalmente nos seguintes temas: teoria da sub-


jetividade coletiva, modernidade global, modernidade compa-
rada, modernidade brasileira, América Latina, Índia, China, so-
ciedade contemporânea, desenvolvimento, movimentos sociais
e cidadania. Tem vários livros publicados, em português, inglês
e espanhol.

Shmuel N. Eisenstadt foi um sociólogo israelense, professor


na Universidade Hebraica de Jerusalém. Foi professor convi-
dado em várias universidades, dentre as quais a Universidade
de Chicago, Harvard, Universidade de Zurique, Universidade
de Viena, Universidade de Berna, Stanford e Universidade de
Heidelberg.

Martin Gegner se formou como cientista política na Freie


Universität Berlin (Universidade Livre de Berlim) e é dou-
tor em sociologia urbana pela Technische Universität Berlin
(Universidade Técnica de Berlim). Foi professor visitante na
Faculade (FAU) e no Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU)
na Universidade de São Paulo (USP) em São Paulo e São Carlos,
e diretor do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD)
em São Paulo. Atualmente, trabalha no Wissenschaftszentrum
Berlin für Sozialforschung (WZB, Centro de pesquisa das ciên-
cias sociais) sobre aspectos políticos da arquitetura.

Benjamin Gittel é doutor em literatura alemã pela Universidade


Humboldt de Berlim com uma tese sobre a relação entre lite-
ratura e conchecimento. Foi professor visitante com apoio pelo
Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico na Universidade
Federal de Pernambuco. Atualmente, ensina e pesquisa na
Universidade Humboldt de Berlim.

304
Modernizações ambivalentes: perspectivas interdisciplinares e transnacionais

Elísio Macamo é sociólogo de nacionalidade moçambicana,


professor de estudos africanos e diretor do centro de estudos
africanos da universidade de Basiléia na Suíça. Os seus temas
atuais de pesquisa são a cooperação sul-sul, tecnologia no quo-
tidiano urbano africano e cultura política.

Hartmut Rosa é professor de sociologia geral e teórica na


Universidade de Jena na Alemanha. Suas linhas de pesquisa são:
diagnóstico do tempo e análise da modernidade, fundamentos
empíricos e normativos de uma crítica da sociedade, teorias da
identidade e subjetividade, bem como sociologia do tempo e te-
oria da aceleração. O seu último trabalho monográfico intitula-
se “Alienação e Aceleração. Esboço de uma teoria da temporali-
dade moderna tardia” (Alienation and Acceleration. Towards a
Critical Theory of Late-Modern Temporality). Uma edição em
português está em preparação.

Kathrin Rosenfield nasceu na Áustria e vive em Porto Alegre


desde 1984. É professora titular na Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (Estética) e leciona nos PPGs de Filosofia e de
Letras. Pesquisadora do CNPq desde 1984. Fez Pós-Doutorados
em Paris (École Normale) e na University of Massachusetts.
Desde 2013, membro da Academia Riograndense de Letras.

Andréa Storch é arquiteta urbanista, doutoranda no Programa de


Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano na Universidade
Federal de Pernambuco e professora da Universidade Católica
de Pernambuco.

305
Título Modernizações ambivalentes:
perspectivas interdisciplinares e transnacionais
Organização Filipe Campello
Benjamin Gittel

Capa e Projeto Gráfico Ildembergue Leite


Revisão de Texto Bárbara Buril

Formato 15,5 x 22 cm
Tipografia Lato (títulos)
Sabon (textos)
Papel Pólen 80 g/m2 (miolo)
Triplex 250 g/m2 (capa)
Tiragem 200 exemplares – fevereiro 2016
Impressão e Acabamento Oficina gráfica da Editora UFPE