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DADOS

DE ODINRIGHT
Sobre a obra:

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Copyright © 2019 Diane Bergher

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos


descritos, são produtos de imaginação do autor. Qualquer semelhança com
nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.

Revisão: Camille Chiquetti

Preparação de texto: Julia Lollo

Capa e diagramação: Layce Design

Esta obra segue as regras do Novo Acordo Ortográfico.

Todos os direitos reservados.

São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer parte dessa obra,


através de quaisquer meios — tangível ou intangível — sem o consentimento
escrito da autora.

A violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela lei nº. 9.610./98

e punido pelo artigo 184 do Código Penal.

Edição digital | Criado no Brasil

Sinopse

Apresentação
Prólogo

Capítulo 01

Capítulo 02

Capítulo 03

Capítulo 04

Capítulo 05

Capítulo 06

Capítulo 07

Capítulo 08

Capítulo 09

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Capítulo 18

Capítulo 19
Capítulo 20

Epílogo

Bônus

Nota da Autora

Agradecimentos

Outras obras

Próximos lançamentos

Sobre a autora

Contato

Ao ficar viúvo John Winter decide se livrar das filhas e as vende em Londres
para cavalheiros que não se importam em comprar uma esposa.

Solteiras e em idade para casar, as três senhoritas veem seus caminhos mudados
para sempre. Sarah é vendida a um fazendeiro americano. Delilah é comprada
por um mercador indiano. E Barbarah parte ao encontro do dono de uma
misteriosa propriedade na Cornualha.
Barbarah é a caçula das três irmãs Winter e a que o pai esperava casar com mais
facilidade por ser a mais graciosa delas, não fosse o fato de se esconder atrás das
grossas lentes de seus óculos. Cresceu protegida pelas mais velhas e assim se
tornou um espírito vivaz e curioso, cuja inteligência a coloca em situações
inusitadas. Não esperava ser dada em casamento a um nobre da Cornualha e
viaja para lá com o coração cheio de dúvidas.

George Hosken, o misterioso Conde de Carrick, precisa se casar o mais rápido


possível para garantir o nascimento do varão capaz de herdar o título e a
propriedade e assim evitar que seu primo e desafeto seja o próximo conde.

Porém, ele não quer qualquer envolvimento sentimental com a esposa, o que o
fez comprar uma. Amargurado e envolto em um grande segredo de seu passado,
não contava ter que lidar com o espírito aventureiro de Barbarah, que não mede
esforços para desvendar os mistérios que rondam a propriedade e o passado do
conde.

Às mulheres destemidas que lutam

por sua felicidade mesmo quando

tudo parece conspirar contra.

O Selo “Damas do Romance” é um projeto único e audacioso que reúne três das
mais talentosas autoras do romance de época brasileiro para contar histórias de
amor que se entrelaçam, onde cada uma delas irá trazer o brilhantismo de sua
narrativa.

As Irmãs Winter nos apresenta a história de três irmãs que foram vendidas pelo
pai para diferentes homens que buscam por esposas de uma maneira pouco
convencional. Cada uma das irmãs é entregue a um homem diferente e, por
diferentes motivos, partem em busca de seus destinos sem saber ao certo como
se portarem ou o que devem esperar de seus maridos.

Assim cada irmã traz uma história diferente e cada história é contada por uma
autora:

Flávia Padula e sua narrativa impecável e intensa narra a trajetória de Sarah, a


mais velha das irmãs, cujo temperamento centrado e religioso se choca com a
audácia destemperada do marido, um fazendeiro americano que lhe é uma
completa incógnita, mas que a faz questionar suas próprias crenças.

Silvana Barbosa, por sua vez, com um enredo muito romântico e preciso, nos
apresenta a doce e meiga Delilah, a irmã do meio, cujo casamento forçado com
um indiano a faz descobrir uma nova cultura e um homem com valores e
princípios diferentes do que estava acostumada.

Por fim, Diane Bergher e seu texto delicado e sensual conta a história de
Barbarah, a protegida caçula dos Winter, que é enviada para a Cornualha com o
objetivo de ser esposa de um nobre de vida reclusa e atitudes suspeitas e que a
levam a investigar os segredos que o castelo esconde.

Romances que prometem divertir, emocionar e encantar as mais românticas


leitoras.
Londres,

17 de setembro de 1790

18:30 horas

O SOM DOS passos ecoava pela Rathcliff Street. A noite começava a abraçar
um dos lados mais pobres de Londres, enquanto bêbados e prostitutas se
misturavam nas sombras dos arcos de bronze que sobrepunha os prédios de
paredes descascadas e mal construídos. O frio aumentava a cada segundo, e a
névoa seca avançava sobre a lama que se misturava ao lixo e ao perigo
disfarçado de penúria.

John Winter tentou fechar o casaco, mas a barriga protuberante não permitia. Sua
aparência desleixada, bem como o rosto rude e feio, refletia o mais profundo de
sua alma. O cabelo branco crescia apenas dos dois lados da cabeça, como duas
faixas que se encontravam na nuca e formavam um pequeno rabo de cavalo que
de tão sujo, não necessitava tira de couro para prendê-lo. As prostitutas lhe
torciam o nariz. Preferiam dormir com os bêbados imundos do que com o
miserável Winter.

Enquanto caminhava apressadamente, ele pensou que necessitava de roupas


novas, assim, aquelas mulheres lhe tratariam com mais respeito e implorariam
por sua companhia. Ele estava em uma maré de azar. O pouco

dinheiro que ganhara nas mesas de jogos naquele último mês, gastara no enterro
de sua esposa. Edith sempre lhe dera custos, bem como suas três filhas: Sarah,
Barbarah e Delilah. A vida lhe fora tão ingrata, que não lhe dera um filho varão
para ajudar nas despesas e sim três insuportáveis mulheres que não se
esforçavam sequer para encontrar um marido decente.

Edith lavava roupa para sustentar a casa, contudo, com sua morte, não acreditava
que as filhas seguiriam o mesmo caminho em ajudá-lo a pagar as dívidas de
jogo. Sua esposa entendia a importância de ser submissa à autoridade dele,
enquanto suas filhas eram mal-agradecidas e o viam como um homem
desagradável que não conseguia sustentar a própria casa, vivendo bêbado na
companhia das meretrizes e perdendo até mesmo o dinheiro que não possuía. Por
isso, não ia sustentá-las mais um dia. Sua obrigação terminara há muito tempo,
quando se tornaram mulheres e poderiam ter encontrado um bom casamento, se
não fosse a ideia infame de amor e destino.

Estava desesperado. Naquela semana, perdera muito mais do que esperava e


precisava colocar um fim em sua angústia. Então, depois de muito pensar,
encontrou a solução para salvar-se de tudo que o atrapalhava.

Entrou em uma porta aberta entre os prédios, parecia a cova da felicidade de


muitos desgraçados. Desceu as escadas escuras, quase caindo de um dos
degraus, tamanha sua ansiedade e nervosismo, até chegar ao salão ainda vazio.
Ali funcionava um dos prostíbulos administrados por Roger Klain, o parceiro de
John em sua vida de esbórnia e mentiras.

— Chegou cedo, John. – Klain comentou já servindo um copo de uísque para os


dois e dispensando a prostituta que estava em sua companhia. —

Trouxe meu dinheiro?

— Não. – Respondeu pegando o copo de uísque e tomando. — Mas tenho uma


solução para pagá-lo e ganhar mais dinheiro.

Klain gostou do que ouviu. Com um sorriso malicioso, imaginou que diante de
qualquer ideia que viesse do velho John, ele poderia tirar algum proveito. Era
magro demais, e durante a infância tornou-se um dos melhores ladrões de East
End por causa de sua agilidade e a facilidade em fugir da polícia. Os cabelos
escuros pendiam oleosos sobre o rosto cavado, olhos

grandes e azuis e dentes muito amarelados. De ladrão tornara-se um importante


gigolô daquele lado da cidade. A prostituta que não trabalhasse para ele, bem
como os garotos que roubavam nos portos e pelo centro da cidade que não lhe
dessem lucros, não podiam morar daquele lado do bairro.

E Klain matava sem piedade. Não lhe custava tirar a vida de quem quer que
fosse.

Quanto mais daquele verme parado a sua frente. Estava se cansando das
desculpas de John que apenas lhe trazia problemas.

— Espero que seja algo inteligente, John. Não quero ter que jogá-lo em uma
vala. – Seria um alívio fazê-lo, Roger refletiu com honestidade.

John forçou um sorriso, nervoso.

— Claro que não. – Assegurou. — Tenho uma ideia que fará de nós dois homens
muito ricos.

— E o que seria? – Klain perguntou, interessado. Ele adorava ganhar dinheiro,


ainda mais quando o acesso era fácil e indolor.

John o encarou com um sorriso, maldoso.

— O que acha de leiloar minhas três filhas e virgens? – Propôs.

Klain deu uma gargalhada, satisfeito. Havia um pouco de sensatez naquela


loucura de John. Já podia ver diante de seus olhos todo o dinheiro que ganharia
com aquela proposta. Não precisaria explorar aquelas prostitutas imundas por
um longo tempo com três lindas virgens à disposição.

— Tem certeza que quer fazer isso, John?

— Não tenho dinheiro para sustentá-las e nunca conseguiram um casamento


bom. – Culpou-as. — Preciso de sua ajuda, Klain. Para conseguirmos o máximo
de dinheiro que pudermos.

— E o que vai dizer a elas, John? Não posso fazer um leilão e depois suas filhas
se recusarem a vir.

— Elas virão, prometo. – Garantiu, autoritário. — Elas irão me obedecer.


— Como quiser. – Seus olhos brilharam sagazes. — No domingo, teremos um
leilão de virgens que ficará na história de East End. Talvez até

consigamos mais dinheiro se a vendêssemos como esposas aos homens ricos.

– Propôs pensativo.

— Acha mesmo? Homens nobres não se casam com mulheres sem origem. –
Duvidou.

Roger balançou a cabeça, desolado.

— Às vezes, lhe falta um pouco de inteligência, meu amigo. Estou falando de


homens ricos em ascendência, aqueles que querem esposas submissas para
apresentá-las à sociedade sem qualquer nódoa. Homens que precisam de esposas
idôneas para representarem seus sobrenomes. Isso vale muito dinheiro nos dias
de hoje, já que muitas mulheres não se dão ao devido respeito. A peso de ouro.

Os olhos de John brilharam fascinados com a fortuna que fariam em um futuro


próximo.

— E onde encontraremos estes homens ricos?

— Deixe isso comigo, John. Cuide apenas para que suas filhas não desconfiem
de nada. Atentarei para que nosso negócio dê certo. – E sorriu feliz por saber que
se tornaria um dos homens mais ricos em East End em poucos dias.
Castelo Hosken, Cornualha

Setembro de 1790

DEPOIS DE DIAS em um sacolejo interminável, a carruagem com o brasão do


condado acabava de parar em frente ao suntuoso e secular castelo dos Hosken,
uma tradicional família da Cornualha, cujo último descendente direto a
aguardava para desposá-la. Barbarah ainda estava atordoada com a reviravolta
em sua vida e na vida das irmãs. Cada uma fora dada em casamento a um
homem diferente e a separação que o pai havia imposto a elas era dolorida; ainda
mais quando mal haviam se recuperado da morte da mãe.

Agarrou-se ao terço que a irmã mais velha havia lhe entregado como um
amuleto da sorte. Sarah era a mais religiosa das irmãs e Barbarah queria ter a
mesma fé e devoção. Talvez assim o medo do desconhecido não lhe gelasse os
ossos. Aprumou-se e aguardou que o Senhor Brown, o seu acompanhante na
viagem, abrisse a porta e a ajudasse a descer sem provocar mais acidentes.

Apesar de nascer bela como um querubim, pele de pêssego, olhos azuis e


cabelos loiros, Barbarah não enxergava bem e a miopia a havia feito se esconder
atrás de óculos com grossas lentes, tirando-lhe a oportunidade de receber as
melhores propostas de casamento, como sempre lembrava seu pai.

John Winter era um homem que todos julgavam ser bom, mas quis o destino que
as dívidas e alguns negócios mal feitos o conduzissem à banca rota. Viúvo e com
três filhas, decidiu casá-las o mais rápido possível, enviando-as para lugares
distantes. No caso de sua caçula, não pensou duas vezes em quebrar os óculos
que sempre julgou ser um empecilho para um bom casamento, enviando-a para
seu futuro marido sem enxergar muita coisa.

E assim Barbarah desembarcava em seu novo lar: sem conseguir enxergar muito
além do que um borrão acinzentado daquilo que devia ser um antigo e
imponente castelo.

— Seja bem-vinda ao Castelo de Carrick, Senhorita Barbarah. – O senhor de


rosto gentil e olhos amendoados lhe estendia a mão com um sorriso afetuoso no
rosto. Desde o início o havia considerado muito jovem para desempenhar o
papel de casamenteiro. — Seu novo lar! – Completou feliz.

Atrapalhada, aceitou a mão do cavalheiro e tropeçou no último degrau da escada,


e se não fosse a rapidez de seu acompanhante teria caído de boca no chão, uma
forma nada lisonjeira para a futura Condessa de Carrick ser apresentada ao seu
novo lar.

Até então ninguém havia conseguido lhe explicar os motivos que levaram um
conde a querer se casar com uma plebeia, nem seu pai, nem o Senhor Brown, o
advogado de confiança de Lorde George Hosken e que serviu como procurador
para as tratativas de seu casamento. Devia seu noivo ser realmente o monstro
que haviam descrito as criadas da estalagem onde haviam passado a noite
anterior quando fora apresentada como sua noiva?! Seu coração saltou no peito
diante da expectativa de finalmente conhecê-lo.

Seu pai havia dito que devia ser grata por ter sido escolhida para ser esposa de
um conde quando suas irmãs teriam que enfrentar um futuro incerto ao lado de
um fazendeiro americano e um mercador indiano. Barbarah até poderia se
considerar agraciada não fosse todas as fofocas que havia ouvido sobre o noivo
assim que cruzou a fronteira da Cornualha.

George Alexander Hosken, o décimo Conde de Carrick, não era apenas um


homem misterioso aos olhos dos seus conterrâneos, mas também uma verdadeira
alma atormentada e capaz das piores atrocidades. Entretanto, tudo

havia se tornado mais apavorante quando Barbarah descobriu que ele era viúvo e
ninguém sabia ao certo o que havia acontecido com sua falecida esposa.

— Obrigada, Senhor Brown! – Agradeceu com uma mesura e alisou as mangas


de seu já gasto vestido de viagem. Não saberia como enfrentaria o noivo sem
sequer ter trazido consigo um enxoval. Talvez com a cabeça erguida, lhe diria
Delilah, sua irmã do meio, aquela que sempre tinha uma palavra carinhosa e de
incentivo para dizer.

— A apresentarei à governanta que cuidará de suas acomodações. – Disse o


advogado.

— Pensei que seria apresentada ao conde. – Soltou decepcionada.

— Lorde George dispensa as apresentações e a conhecerá no dia do casamento.


– Barbarah arregalou os olhos diante da surpresa que lhe tomou as faces. — Oh,
não tema, minha querida! – Ofereceu-lhe o braço tentando amenizar o
desconforto que causou. — É um bom homem, apesar de intimidante.
Barbarah apenas concordou com a cabeça, incapaz de conseguir falar o que
pensava. Na verdade, sentia vontade de fazer inúmeras perguntas, desvendar os
motivos que o levaram até ela quando deveriam existir damas de sangue azul
dispostas a desposar um conde. Afinal, um conde, e quem não gostaria de se
tornar uma condessa?

Foi recebida por uma senhora jovem com cabelos ruivos e o rosto salpicado de
sardas que se apresentou como governanta do castelo. Seu nome era Marjorie e
manteve um ar altivo e elegante até deixar Barbarah em um dos aposentos da ala
dos hóspedes.

E ali ficou pelos próximos dois dias até o Senhor Brown exigir sua presença no
salão principal para a realização da cerimônia do casamento.

Barbarah se alardeou ao constatar que não tinha um vestido para a cerimônia e


foi tomada de uma angústia tão grande que os olhos acabaram marejados.

Se suas irmãs estivessem ali a ajudariam a resolver o pequeno impasse e logo um


vestido antigo seria reformado, evitando que passasse vergonha diante dos
criados e talvez dos convidados. Sim, realmente poderia haver

convidados. Afinal, era o casamento de um nobre.

Se ao menos tivesse seus óculos Barbarah poderia tentar melhorar sua aparência
com um penteado mais elaborado. Nem sequer uma criada foi enviada para
ajudá-la com as roupas, não que precisasse de uma, mas considerando a falta dos
óculos, as dificuldades para uma simples troca de roupa exigiam muito de seu
tempo. Tudo era culpa dela por ter tentado esconder sua falta de visão. Porém,
admitir que não enxergava direito poderia colocar a perder o casamento com o
conde e assim ser enviada de volta ao pai, que a mandaria para um bordel.
Estava muito certa disso ao lembrar-se de sua ameaça quando ele se despediu
dela. Decididamente não poderia deixar que notassem que era praticamente cega
até as benditas bodas acontecerem e o casamento ser consumado.

Porém não tinha sequer tempo para as lamentações e tratou logo de abrir seu baú
em busca de um dos seus mais bonitos vestidos, um na cor azul que Delilah dizia
combinar com seus olhos. Mas de que lhe adiantava olhos tão bonitos se não
serviam para nada? Pensou frustrada.

Depois de vestir seu já velho, mas ainda bonito traje azul, tateou pelo quarto e
foi até a penteadeira onde encontrou a escova. Trançou os cabelos e os enrolou
em um coque da melhor maneira que pôde. Seus cabelos eram rebeldes e
soltavam facilmente dos penteados se não fossem bem presos.

Sobressaltou-se quando ouviu uma batida na porta e guardou o terço dentro do


bolso. Nem se atreveu a levantar para evitar bater em algum móvel ou mesmo
derrubar algum dos vasos decorativos que ali enfeitavam o quarto, apenas deu
permissão para que a pessoa entrasse.

Era o Senhor Brown. Barbarah se animou por reconhecer sua voz depois de dias
trancada dentro de um quarto espaçoso, mas que cheirava a ranço.

— Senhor Brown! – Cumprimentou-o, estendendo a mão com cortesia. —

Fico feliz em revê-lo.

— O prazer é todo meu, Senhorita Barbarah! Como tem passado em Carrick? –


Perguntou gentilmente.

— Bem! Pude descansar por longos dois dias... – Soltou um suspiro. —

Como pode constatar fui muito bem tratada, embora me sinta uma

prisioneira.

— Logo será a Senhora do Castelo e poderá desfrutar de longos passeios.

– O advogado tentou animá-la, mas foi em vão, já que a jovem não parecia ter se
animado com a afirmação.

— Perdoe-me a indiscrição, Senhor Brown, mas como não tenho com quem falar
sobre o assunto, devo me certificar de que estou apresentável para o casamento.
O que o senhor acha? Estou apresentável?

Jude Brown era um homem prático e um advogado ambicioso, tão seguro em


suas habilidades que sorriu ao constatar que havia escolhido a beldade daquele
infame leilão que havia se metido para conseguir uma esposa para seu cliente e
melhor amigo. Hosken lhe deveria a felicidade, pensou ao avaliar a noiva com
olhos de rapina. Para quem havia exigido apenas uma mulher não virgem,
ganharia uma formosura como esposa, embora precisasse de roupas novas e
aulas de etiqueta para aprender a ser menos estabanada.

— Está adorável, Senhorita Barbarah! – Estendeu-lhe a mão e a ajudou se


levantar. — Será um prazer conduzi-la até seu noivo.

— Confiarei em seu julgamento. Não porque acreditei em seu elogio, mas


porque não tenho muito o que fazer no momento para mudar minha situação.

– Ela sorriu. — Não tenho um enxoval, sequer um dote. Já deve saber da


delicada situação financeira do meu pai.

— Conversarei para que o conde lhe dê um adiantamento e assim poderá


comprar vestidos novos. – Brown se solidarizou com a garota Winter. Havia
aprendido a admirar aquela mulher de corpo frágil e voz penetrante, que sempre
enrugava os olhos quando o encarava. Era uma moça de beleza incomparável.
Muito crua, sim, mas era por lhe faltar o refinamento das damas da nobreza; no
entanto tinha um espírito inquieto e vivaz que a fazia mais charmosa do que a
mais bonita da temporada de Londres.

— Oh, não se faz necessário. Posso muito bem tratar do assunto com meu
marido. – Ela interrompeu a caminhada e se voltou a ele a fim de fitá-lo com os
olhos enrugados como se forçasse a visão. — Ou não poderei, Senhor Brown? –
Algo havia passado pela mente audaz da jovem, pensou o advogado. — Bem, o
senhor também assumirá o lugar dele na noite de

núpcias? – Levou a mão à boca em sinal de arrependimento e Brown soltou uma


gargalhada, amenizando o mal-estar que poderia ter se instalado.

— Não, minha cara! Embora não seria desgostoso cuidar de tal obrigação, a
senhorita foi trazida para cá com uma finalidade muito específica. – Piscou-lhe.

— Sim, para me casar com o conde.

— E lhe dar um filho, preferencialmente um varão. Quanto antes lhe der um


herdeiro homem, mais rápido poderá se ver livre de sua companhia. –

Barbarah engoliu em seco e Brown, então, se deu conta de que nada havia lhe
sido explicado, o que não foi uma surpresa já que John Winter estava muito
ansioso por se livrar das filhas. Mesmo estando sobre o entorpecimento do
álcool na ocasião, pôde constatar que aquele homem era um malandro.
— Oh, sim, compreendo! – Disse desviando de seu olhar. Mas Barbarah não era
uma alma dotada de parcimônia e autocontrole quando algo lhe deixava curiosa.
— E o que será feito de mim depois que eu lhe der o tão desejado herdeiro? –
Brown voltou a rir, pois havia previsto tal pergunta.

— Será enviada para uma das propriedades dos Hosken e viverá seus dias da
maneira que melhor lhe aprouver, com uma gorda renda anual.

— Viverei como uma viúva? – Arregalou os olhos espantada. — Mas de um


marido vivo?!

— Muitas ficariam felizes em se verem livres das obrigações conjugais.

— Como posso saber se ficarei feliz em me ver livre de tais obrigações se nem
as provei? Oh, Senhor Brown, isso não me parece um bom negócio. –

Ou deveria lhe parecer? Barbarah se sentia cansada de tanto pensar e tentar


entender o que lhe havia acontecido.

— Neste ponto em específico não posso ajudá-la. – Decidiu ser honesto.

— Terá que negociar diretamente com seu marido, creio eu.

— O que será um privilégio, devo acreditar! – Soltou frustrada. — Até então ele
só tem enviado o senhor para cuidar de seus interesses. Duvido muito que se
dignará a sentar comigo para decidir meu futuro depois que lhe der o tão
desejado herdeiro. – Tentou se recompor em uma figura altiva,

lembrando-se da postura impecável de sua irmã Sarah. — Senhor Brown,


poderia me ajudar a descer a escada? Temo chegar lá embaixo rolando e
provocar uma grande comoção entre os convidados. – Brown acabou soltando
mais uma gargalhada com seu pequeno atrevimento.

— Não tema, querida! – Estreitou o aperto em seu braço. — Não teremos


convidados, será uma cerimônia íntima e contará com as testemunhas
necessárias para a validade do casamento.

— Ah, sim! – Revirou os olhos. — E presumo que o senhor conseguiu uma


licença especial com o bispo para que nada impeça esse tão desejado casamento.
– Foi sarcástica de propósito.
— Tudo foi preparado com muito empenho para que se torne a mais nova
Condessa de Carrick e a mãe do próximo conde. – Barbarah respirou fundo,
fechou os olhos e deixou-se guiar escada abaixo rumo ao desconhecido, tentando
se manter firme e corajosa quando apenas desejava ter seus óculos e sair
correndo dali para perto de uma de suas irmãs. As três poderiam fugir e viver
felizes em algum condado da Inglaterra como criadas de alguma afortunada
família.

Barbarah havia passado a viagem toda tentando se convencer de que o pai havia
feito o melhor para as filhas, que havia se empenhado para conseguir um bom
casamento para ela e para as irmãs, mas nada conseguia apaziguar o rancor que
sentia por ele por tê-las separado e possivelmente jamais conseguisse perdoá-lo
por isso.

GEORGE ESPERAVA SUA futura esposa ao lado do pároco. Estava com a


mente confusa por coisas que não deveriam ser pensadas naquele momento, mas
o que poderia fazer se sua alma era atormentada por fantasmas do passado?
Precisava se casar e assim evitar que o primo herdasse o título e as propriedades,
e isso era motivo suficiente para enviar um advogado em busca de uma esposa.
Não lhe importava a origem da moça, nem mesmo seu passado, apenas que fosse
capaz de lhe dar um filho para acabar com as chances de Henry ficar com tudo
que estivesse atrelado ao título de Conde de Carrick.

É claro que tentou encontrar uma pretendente entre as donzelas de famílias


nobres, mas nem as viúvas aceitaram seu cortejo, uma vez que todos o tinham
por um homem sem coração, mas poucos se esforçavam para de fato
compreendê-lo.

Naquele fatídico dia de verão não havia apenas perdido sua mão esquerda, como
também sua capacidade de amar, o que o tornou uma pessoa vazia, cuja
existência havia se transformado em um borrão, uma alma perdida dentro de um
castelo carcomido pelo tempo, envolto em lembranças dolorosas. Há muito
George havia perdido a vontade de viver ou acreditar na felicidade.

Olhou para o alto da grande escadaria e avistou seu advogado e melhor amigo de
braços dados com a dama que havia sido comprada para ser a

Condessa de Carrick. Ela sorriu de algo que ele havia falado, abrindo charmosas
covinhas que revelavam uma jovem de rosto angelical. Sim, a noiva escolhida
era formosa apesar da simplicidade das vestes e dos gestos pouco refinados. Mas
esses detalhes também não lhe importavam e o casamento seria apenas mais uma
das obrigações que teria que cumprir por ter nascido o único filho de seu pai.

— Aqui está sua noiva, George! – Jude disse empolgado com a obrigação de
pajear a noiva até o noivo. — Senhorita Barbarah Winter! – Ela deixou de sorrir
assim que os olhos cruzaram com os dele.

George não sabia muito bem como agir em situação tão constrangedora.

Outrora, talvez, teria considerado a hipótese de flertar, ou mesmo tentado


conquistá-la por acreditar que um casamento poderia ser mais do que um mero
negócio. No entanto, ele havia abandonado o cavalheirismo e não tinha a
intenção de conquistá-la. Seria um casamento por aparência, cuja única
finalidade era gerar um herdeiro.

— É um prazer conhecê-la, Senhorita Barbarah. – Cumprimentou-a como se


estivesse a tratar com um negociante e não com a futura esposa, o que a deixou
irritada.

— O prazer é meu! – Barbarah respondeu engolindo seco, tentando se manter


firme e segura quanto a necessidade de se tornar a esposa de um conde
presunçoso. Era aquilo ou ter que morar em um bordel. Não havia muito a
considerar, pensou encabulada.

— Vamos logo que não temos o dia todo. – George estendeu a mão e ela aceitou
com os olhos voltados para a outra mão que caía sobre uma das pernas. Todos
sempre se chocavam com a prótese de couro que usava no lugar da mão, por isso
nem tratou de lhe explicar. Ali estava mais uma razão por ter decidido comprar
uma esposa: não ter que se preocupar em não chocá-

la com a ausência de uma de suas mãos.

O sacerdote trazido do vilarejo mais próximo os casou rapidamente e os criados


foram testemunhas dos votos mais frios que um casal trocou até então no castelo.
Quase não se pôde ouvir os votos de Barbarah, cuja voz saiu embargada pelo
receio que sentia do desconhecido. Já o conde apenas queria se livrar daquilo o
mais rápido possível e com isso voltar para a reclusão de

sua biblioteca, onde ninguém ousava entrar sem ser convidado.

Não houve comemorações, nem brindes. Os criados sequer os cumprimentaram


e nenhuma pessoa ousou se aproximar da nova Condessa de Carrick para lhe dar
as boas-vindas. Até mesmo o Senhor Brown havia se retirado sem se despedir de
Barbarah.

Ao menos George a levou até uma sala reservada e tentou lhe explicar suas
obrigações como condessa.

— Entendeu suas obrigações? – Olhou-a sentada com as mãos em cima das


pernas, enrugando os olhos como se precisasse forçar a visão para avaliar melhor
as coisas à sua volta. Mal sabia o conde que sua esposa não enxergava bem e que
o que menos lhe interessava eram suas obrigações naquele momento.

— Minha única obrigação é lhe dar um herdeiro. Ah... Também não devo lhe
causar problemas. – Barbarah deixou escapar sem pensar muito nas
consequências, mas como não poderia voltar atrás, tratou de se recompor antes
de ser repreendida pelo marido.

Ainda custava a acreditar que havia tido a coragem de dizer “sim” a ele.

O conde era um homem intimidante, alto e com cabelos negros que lhe caíam
sobre os olhos e lhe faziam misterioso. Apesar de sua debilitada visão, pôde
perceber a amargura que o envolvia como um fantasma, deixando-o taciturno e
com um ar amedrontador.
E aquilo a deixou curiosa. Tão curiosa que decidiu que investigaria os motivos
que o levaram a escolher uma vida reclusa quando poderia ter o mundo aos seus
pés. Olhando-o mais de perto quando estavam dizendo os votos um para o outro
e a sua visão permitiu capturar os poucos detalhes, pôde concluir que não era um
homem feio, apesar da tristeza de seus olhos escuros. Era um nobre rico além de
tudo. O que mais poderia lhe faltar?

Talvez a esposa falecida, considerou.

— Fico satisfeito com o fato de que meu advogado escolheu uma moça
inteligente para ser minha esposa. – Sorriu em um dos raros momentos que
deixava a alegria lhe tocar na alma. — Espere-me pronta depois do jantar em
seus aposentos. Será acomodada nos aposentos da condessa que tem ligação

direta com os meus. – Ordenou, voltando sua atenção à jovem que acabou se
sobressaltando pelo susto que levou.

— Não jantará comigo? – Perguntou surpresa com aquela instrução em


específico e ele negou com a cabeça. — É claro que entendi qual é minha
obrigação neste casamento estranho que meu pai arranjou, mas o senhor poderia
se esforçar em manter uma postura de cordialidade e me acompanhar na ceia.

— Apenas me aguarde em seus aposentos, minha cara! – Insistiu determinado a


livrar-se dela. E assim o fez quando a deixou sozinha na sala, sem saber como
conseguiria chegar até os benditos aposentos da condessa sem enxergar direito.

Odiou seu pai por ter lhe arranjado um casamento tão inconveniente e precisou
respirar profundamente umas vinte vezes para não gritar como uma louca.
Considerou a possibilidade de viver em um bordel, já que ali naquele castelo
misterioso também cumpriria o papel de uma cortesã apenas com uma diferença:
o benefício de ser respeitada por ser a nova condessa e mãe do herdeiro. Claro,
desde que conseguisse engravidar dele.

Em contrapartida teria que se acostumar a uma vida sem amor, com um marido
que lhe lembrava uma pedra de gelo e que jamais a aceitaria como uma
companheira. Todos seus sonhos de menina ficariam enterrados no passado;
apenas esperava que as irmãs houvessem tido mais sorte neste quesito em
especial. Crescera cercada de amor, e apesar de os pais não serem os mais
fervorosos em demonstrar paixão e ter visto sua mãe padecer por não ser amada
pelo marido como merecia, suas irmãs supriram todo o afeto que o pai não havia
lhe dedicado.

Levantou-se e concentrou-se na contagem dos passos que deveria dar para


chegar até a porta. Porém, acabou esbarrando em uma mesa e fazendo com que
um vaso decorativo se espatifasse no chão. Havia calculado mal os passos
quando havia sido trazida pelo conde à saleta. Também pudera, estava tão
nervosa que provavelmente pulou alguns pares em sua contagem.

Se as pessoas pudessem sentir as dificuldades de viver sem enxergar direito,


pensariam duas vezes antes de reclamar das frivolidades. Barbarah sentia não só
falta dos óculos que foram quebrados pelo pai, mas do conforto

que as irmãs sempre lhe traziam quando se sentia perdida. Eram tão unidas que
seu coração chorava todo dia a separação a que foi obrigada a suportar.

Nem Sarah, nem Delilah a teriam deixado sozinha em um lugar estranho.

E com certeza teriam sido seus olhos nessa situação.

Retornou até a poltrona onde havia sido deixada pelo conde e ali ficou até que
alguém sentisse sua falta e fosse à sua procura. Era melhor isso do que quebrar
todo o castelo, pensou com os olhos marejados.

Ficou ali presa por algumas horas que foram suficientes para relembrar de sua
infância e do quanto havia ficado feliz quando recebeu de seu pai os primeiros
óculos. John Winter havia demorado para atender os pedidos da esposa, que já
havia percebido que a caçula enxergava mal. Fora muito resistente à ideia de
deixá-la usar óculos por entender que a deixaria feia e que uma filha cega
poderia afastar os melhores pretendes. Mas como esconder algo do tipo? Não
havia como esconder o fato de que Barbarah não enxergava e acabou lhe
comprando os óculos, dando-lhe a chance de descobrir o mundo na exata
dimensão de suas formas e cores.

Foi como nascer novamente, pensou emocionada. A cabeça já não lhe doía tanto
por forçar a visão, e bordar e cozinhar já não lhe eram atividades perigosas, tudo
porque enxergava bem.

Com a ajuda das irmãs, rapidamente aprendeu a ler e a escrever e devorou todos
os manuais que encontrava no antigo escritório do pai, tornando-se muito boa
com os cálculos de matemática, ajudando-o inclusive na administração dos seus
negócios enquanto ele ainda era um homem honrado.

Mas nada parecia bastar para John Winter, que sempre havia se queixado de não
ter tido um filho homem que pudesse lhe ajudar. E para tudo piorar, nem uma
das irmãs havia conseguido arranjar um pretendente, o que o deixava irritado,
tornando-o intransigente quando a esposa faleceu. Era ela quem colocava freios
no marido e o fazia reconsiderar muitas das equivocadas decisões que havia
tomado no passado.

Talvez terem sido dadas em casamento a estranhos não havia sido assim tão
ruim, pensou Barbarah com os olhos fechados a fim de aliviar a dor de cabeça
que sentia por forçar demais a visão.

— Milady, o que faz aqui? – A governanta entrou e se colocou à frente de


Barbarah, mas não esperou a resposta quando olhou para o vaso espatifado no
chão. — Oh, meu Deus, a senhora quebrou o vaso preferido da falecida!

— Falecida? – Barbarah levou a mão à boca a fim de conter o espanto que lhe
tomou. — Esta saleta é da falecida condessa?

— Sim, milady! Na verdade, foi a sala íntima de todas as condessas. Mas a


falecida esposa de Lorde George a redecorou e aqui guardou sua coleção de
vasos chineses. A senhora derrubou justo aquele que ela mais gostava.

— Oh, meu Deus! – Barbarah queria que um buraco se abrisse e ela pudesse
sumir dentro dele. — Não foi de propósito! Eu sequer sabia que havia sido
trazida para a saleta da condessa.

— Infelizmente devo comunicar o fato a Lorde George. – A mulher sorriu de


canto, mas Barbarah não foi capaz de enxergar. — Que não gostará nem um
pouco de saber que a nova condessa destruiu o vaso preferido de sua amada
esposa.

— Senhorita Marjorie! – Barbarah procurou com os olhos o dono da voz gutural,


encontrando um vulto preto e branco. — Não perturbe a condessa em razão de
um vaso chinês. Não era a única peça favorita da falecida condessa.

— Mas o único da coleção chinesa que restou. – Respondeu a governanta como


se estivesse em uma disputa de egos com o estranho.
— Da coleção que foi destruída pelo próprio conde. Se fosse assim tão
importante, ele não a teria destruído, convenhamos, Senhorita Marjorie! – Os
dois continuavam a discutir como se Barbarah não estivesse ali presente.

— Perdoe-me, mas quem é o senhor? – Perguntou interessada.

— Perdoe-me, milady! Ainda não tive a chance de me apresentar, sou Geofrey


Monroe, o mordomo do castelo. – Ele aproximou-se e fez uma mesura
impecável e, com isso, Barbarah pôde observar alguns detalhes de seu semblante
e sua barba muito bem feita. Era um ancião muito elegante e que parecia muito
bem em seu papel de mordomo. — Sirvo aos Hosken por duas gerações com
orgulho.

— Oh, prazer em conhecê-lo! – Estendeu a mão e acabou ouvindo as

risadas de Marjorie. — Bem, eu não recebi a educação para ser uma condessa,
então, peço desculpas se cometi algum equívoco. – Recolheu a mão e a enfiou
dentro do bolso do vestido, temendo não ser capaz de se comportar como a
futura mãe de um conde, já que ao marido pouco importava sua existência.
Talvez o filho ele queira bem.

— Para começar, uma condessa jamais pediria desculpas a um criado. – A


governanta tentava ridicularizá-la, mas Barbarah estava convicta de que não a
deixaria atingir seu intento. Poderia não ter recebido a educação de uma lady,
mas não era uma ignorante.

— E uma criada jamais ousaria corrigir sua senhora! – Empertigou-se na


poltrona, assumindo a postura que imaginava que uma condessa deveria manter,
mesmo que ela não fizesse ideia de como se portar.

— Perdoe-me, milady! – Marjorie voltou atrás e Barbarah aceitou as desculpas,


pois não queria provocar uma confusão em seu primeiro dia como condessa e
senhora do castelo ao se recordar do discurso do marido de que deveria se
manter alheia aos assuntos domésticos.

Seu papel ali era exclusivamente engravidar de um herdeiro varão, assim como
as vacas da fazenda de sua amiga Betsy faziam quando precisavam de novilhas
para substituir as mais velhas. Senhor, ela havia se transformado em uma
reprodutora e com o selo de nobreza grudado em sua testa. Chacoalhou a cabeça
a fim de afastar tais pensamentos e tratou de pedir ao criado que a levasse até os
seus novos aposentos.

— O senhor poderia me acompanhar? O castelo é muito grande e temo me


perder. – Voltou-se ao mordomo, receando que a governanta assumisse a tarefa.
— A Senhorita Marjorie tem muito o que fazer para limpar o estrago que
provoquei. – Bateu os cílios e abriu covinhas no rosto de maneira inocente. — E
se não for um incômodo para a cozinheira, gostaria de cear em meus aposentos.

— Como a senhora desejar! – Geofrey estendeu o braço para acompanhá-

la até os aposentos. — Não ligue para os resmungos da Senhorita Marjorie. É

uma boa menina, mas como cresceu na companhia dos patrões, acha que pode se
intrometer em suas vidas.

Aquilo lhe pareceu uma grande oportunidade para saber mais sobre o marido e
os segredos do castelo.

— Como assim eles cresceram juntos? – Perguntou fingindo desinteresse.

— Marjorie é filha da antiga governanta e por isso foi criada junto de Lorde
George e seu primo Henry. Eles sempre a tiveram como a uma irmã.

Cheguei a comentar com sua falecida mãe que não faria bem ao juízo da menina
crescer como uma nobre, considerando que nunca poderia se tornar uma. Mas a
pobre não quis fazer uma desfeita para a condessa, que via em Marjorie a filha
que nunca teve e que sempre desejou. – Barbarah acabou tropeçando em um
tapete grosso. — Cuidado, milady! Mas como dizia, um dia ela precisou deixar o
quarto das crianças e aprender um ofício. Hoje, é a governanta do castelo e para
tanto tem que saber se portar.

— E Lorde Henry? Onde está? – Perguntou curiosa, porque se havia uma coisa
que não faltava à jovem Winter era a curiosidade.

— Vive no continente há anos. Mas já falei demais para um velho mordomo,


milady! – Parou a caminhada. — Aqui estão os aposentos da condessa. Tudo foi
preparado para recebê-la. Sua bagagem já foi trazida para cá e devidamente
guardada.

— Obrigada! O senhor foi muito gentil. – Barbarah sorriu.


— Sempre às ordens de minha senhora. – Despediu-se e deixou-a ali parada na
porta como uma estátua.

— Senhor Geofrey! – Chamou-o de volta. — Preciso de um favor.

— Claro, milady! – O mordomo retornou para junto de sua senhora.

— Preciso que afastem todos os móveis e objetos que poderão quebrar. –

Foi inevitável não corar e Barbarah sentiu as bochechas quentes. — Sou muito
estabanada. Como o senhor pôde constatar eu arruinei o vaso chinês da amada
falecida esposa do meu marido. – Ela havia novamente falado demais, mas se
havia uma coisa que a jovem não conseguia era controlar o ímpeto de falar
verdades, em especial, aquelas que a incomodavam ou a magoavam.

— Perdoe-me a sinceridade, Lady Barbarah!

— Oh, o senhor sabe meu nome! – Comentou surpresa.

— Sim, sim! O Senhor Brown nos deixou a par de tudo. Porém, não nos
preparou para receber a senhora apropriadamente. Se ele tivesse nos dito que a
senhora não enxergava bem, poderíamos ter nos preparado melhor para recebê-
la. – Barbarah sentiu um calafrio percorrer a espinha de ponta a ponta e o medo
de ser enviada de volta ao pai lhe corroeu a alma.

— Eu enxergo muito bem, Senhor Geofrey! – Tentou consertar o incorrigível e


tratou de mudar de estratégia para salvar a pele. — Enxergo muito bem desde
que eu tenha meus óculos, mas os perdi um pouco antes de viajar à Cornualha.

— Entendo! – Ele a avaliou por alguns segundos. — Podemos solicitar a vinda


de um médico especialista em olhos. O que acha?

— Não se faz necessário! Não quero incomodar meu marido com isso no
momento. E posso muito bem esperar até nossa próxima viagem a Londres. –

Barbarah precisava ganhar tempo até que conseguisse engravidar do conde,


afastando com isso a possibilidade de ser devolvida ao pai, que não pensaria
duas vezes em entregá-la a um bordel num piscar de olhos, pois sempre a teve
como um estorvo.
— Lorde George não costuma viajar a Londres...

— Não importa. – Apressou-se em interrompê-lo. — Eu darei um jeito, mas


prometa que não comentará com ninguém que não enxergo bem?! Por favor!

— Bem... – O velho mordomo coçou o queixo com a ponta do dedo. —

Estou aqui para servi-la bem, e se este é seu desejo posso ajudá-la a resolver um
assunto tão delicado sem que Lorde George se ocupe disso. – Piscou para sua
nova senhora, um ato impróprio para um mordomo, ele sabia, mas que ajudou a
tranquilizá-la. — Logo uma criada subirá para afastar os móveis e objetos e
enviarei para a senhora uma lupa ou talvez óculos velhos para ajudá-la a
enxergar melhor. Não é o ideal, mas amenizará o desconforto até conseguirmos
novos óculos para a senhora.

— Muito obrigada! – Sorriu em resposta e só não o abraçou porque ele a


impediu com um gesto muito discreto. — Perdoe-me, mas quando falei que não
recebi educação de uma nobre, estava falando a verdade. Sou tão plebeia

quanto o senhor ou a Senhorita Marjorie.

— Quem sabe é disso de que meu senhor precise para voltar à vida. –

Pediu licença, deixando Barbarah pensando em suas últimas palavras e de que


forma ela poderia fazê-lo voltar a querer viver. Algo havia acontecido com o
conde e ela estava tão curiosa para desvendá-lo que a ausência dos óculos não
lhe era mais um grande empecilho.

A lupa ou um par de óculos velhos haveria de lhe ser útil até que conseguisse
obter novos óculos.
UMA CRIADA HAVIA sido enviada para ajudar Barbarah a se banhar e trocar
de roupa, com isso ela se sentia mais confiante em sua noite de núpcias e
esperava cumprir com suas obrigações conjugais sem irritar o marido. Mas como
ela conseguiria tal feito se o conde era mais azedo do que um limão verde?

Depois de ingerir uma sopa quente na ceia, a caçula dos Winter penteou os
cabelos a fim de desembaraçá-los e deixá-los mais sedosos. Havia ouvido uma
vez que os cavalheiros gostavam de cabelos bonitos e bem cuidados. O

esforço poderia valer a pena, já que ninguém se atreveu lhe ensinar como seduzir
um homem em sua noite de núpcias.

E Barbarah precisava desesperadamente seduzir o marido e com ele ter um filho.

Seus pensamentos passeavam entre as lembranças de suas amadas irmãs e a


saudade que sentia delas. Sarah havia sido dada em casamento a um americano e
poderia já ter partido para o outro lado do mundo. E o que falar de Delilah que
havia ficado noiva de um indiano, cujos modos a assustaram?!

O velho Winter não considerou nem a ideia de consultá-las acerca dos


pretendentes e foram obrigadas a acatar sua decisão. Era o casamento com
homens desconhecidos ou um destino pior. Barbarah jamais poderia aceitar a
vida como uma cortesã, sendo tocada cada noite por um homem diferente. Ao

menos em Carrick ela seria a esposa de um conde e respeitada como a mãe do


herdeiro. Não era muito quando esperava ser amada, mas melhor do que viver
como uma prostituta à serviço de um cafetão.

Ouviu batidas na porta e autorizou a entrada com o coração disparado no peito.


Barbarah sabia que era seu marido e a confusão lhe tomou os pensamentos,
fazendo-a corar de vergonha assim que seus olhos cruzaram com os do conde.

Lorde George vestia um robe de seda negra e calças, e os pés estavam descalços.
Os cabelos estavam ainda molhados, revelando que havia se banhado
recentemente. O cheiro de almíscar de sua colônia ainda estava fresco. Apesar de
Barbarah não enxergar os detalhes, ela podia senti-lo e a cada passo dado em sua
direção o coração acelerava um pouco mais, fazendo-a suar frio.

— Boa garota! – Ele se ajoelhou diante dela, colocando uma mecha de cabelo
atrás da orelha. Usou a mão verdadeira para isso e depositou a outra em cima da
perna dela, fazendo-a se arrepiar ao sentir o frio do couro contra o fino tecido da
camisola. — Será rápido! O tempo necessário para minha semente ser despejada
dentro de você.

— Tempo necessário! – Soltou confusa. — Há como medir em segundos,


minutos ou horas? – Ele lhe puxou o queixo, pois ela havia desviado de seus
olhos.

— Depende de sua participação, minha cara. Uma mulher deve saber as


artimanhas para que um homem atinja o clímax.

— Bem... – Ela tentou se afastar do contato dele. — Antes de tudo, não me


chame de minha cara se terei que me deitar com o senhor.

— Por que não? – Voltou a lhe puxar pelo queixo para que o fitasse.

George poderia não ter estado com uma mulher há anos, mas ainda sabia como
seduzi-la.

— É muito frio para o tipo de envolvimento que teremos. O senhor deve


concordar que não é nada romântico.

— Não a fiz minha esposa pelo romantismo. Nosso casamento não é um conto
de fadas, Barbarah. – Ela engoliu em seco. — Está aqui por outra

razão.
— Ah sim! – Revirou os olhos cansada da falação. — Tenho que lhe dar um
herdeiro, preferencialmente um varão.

— Não exigi que o primeiro filho seja homem, minha querida. – Ele havia
dispensado o “minha cara” e Barbarah acabou sorrindo, fazendo com que as
malditas covinhas aparecessem só para provocá-lo. Apesar de negar, George
gostava das covinhas, lhe lembravam a doçura da infância. — Mas teremos que
continuar até conseguirmos gerar um filho. Nada tenho contra as filhas
mulheres, mas infelizmente elas não podem herdar e eu preciso de um herdeiro.

— Eu entendi muito bem essa parte do nosso casamento, milorde! Minha cabeça
é usada para muitas coisas além de separar as orelhas. – Levou a mão à boca por
ter falado demais. — Perdoe-me! Apenas quis dizer que o senhor deveria estar
me seduzindo e não me alertando sobre meus deveres nesse casamento pouco
convencional.

George continuava ajoelhado diante de Barbarah, tão próximo dela que podia
ouvir as batidas de seu coração, sua respiração ofegante e também enxergar os
pingos de suor que se acumulavam na testa. Estavam tão próximos que podia
colar sua boca na dela e exigir o que lhe era de direito como marido ao invés de
manter um estranho diálogo com a esposa.

Barbarah desejava um conto de fadas, o que era esperado de uma plebeia que
acabava de se tornar uma condessa. Mas George não poderia lhe dar isso quando
seu coração havia sido ferido há muitos anos. Ela teria que se conformar com
sexo e o conforto que o dinheiro dele poderia lhe dar, incluindo camisolas novas,
pensou quando começou a abrir os botões da puída e remendada camisa que ela
vestia.

— Você deveria me seduzir, Barbarah! – Ela enrugou os olhos, uma mania que a
deixava intrigante. — Paguei caro por uma esposa que soubesse seduzir, que já
estivesse pronta e soubesse o que fazer quando estivesse na cama com um
homem. – Encostou a testa na dela, forçando-a para que abrisse as pernas e o
envolvesse pela cintura. — Uma esposa que soubesse enlouquecer seu marido.

E assim a beijou, sem perceber que a esposa jamais havia sido beijada e que
merecia a delicadeza antes de um macho esfomeado. Forçou passagem entre os
lábios delicados de sua boca de anjo e exigiu que correspondesse aos seus mais
primitivos instintos.
Barbarah achou aquela invasão estranha, até imprudente, mas à medida que seus
músculos relaxavam ousou imitá-lo, abrindo a boca para lhe dar acesso. Nunca
tinha beijado e a curiosidade em descobrir mais a fazia querer mais do toque
dele. Mas havia algo que a incomodava e a fazia reconsiderar sua entrega. Ele
havia mencionado que havia comprado uma esposa experiente, talvez uma que já
não fosse mais virgem e infelizmente isso ela não poderia lhe dar. E se o pai
realmente a tinha vendido, o que já lhe era motivo para chorar, estava totalmente
perdida.

Mas Barbarah não podia chorar, nem se desesperar quando faltava tão pouco
para consumar o casamento. Se ousasse insinuar que era virgem, ele a devolveria
ao pai e isso ela não poderia deixar acontecer.

Engoliu, então, o choro e deixou que ele a levantasse com os fortes braços,
levando-a até a cama, onde a depositou com cuidado. Se o resto era como beijar,
ela poderia muito bem tirar de letra, e com o casamento consumado ele não
poderia devolvê-la ao pai.

Era só uma questão de imitar o que ele fizesse e tudo correria bem, pensou.

E assim ela abriu o restante dos botões da camisola enquanto ele se livrava do
roupão e da calça. Por estar sem óculos, Barbarah não percebeu a dificuldade de
George em abrir os botões da calça em razão da ausência de uma das mãos.

— Você é linda! – Disse ao olhá-la nua sobre os lençóis, alva e macia em todas
as partes, uma preciosidade que havia lhe sido trazida. Talvez precisasse
recompensar Brown pelo excelente trabalho que havia feito ao escolher uma
beldade como noiva. Houve muitas antes de Vivienne, mas nenhuma depois
dela, e George custava a acreditar que outra mulher pudesse lhe deixar excitado,
mas ali estava uma plebeia prestes a enlouquecê-lo de desejo.

— Obrigada! – Respondeu encabulada, procurando o lençol para se esconder,


mas ele não a deixou. Barbarah estava em choque, traquinando maneiras
possíveis de seu membro encaixar dentro dela sem provocar um grande estrago.
Diziam que era possível e natural, mas olhando para o tamanho do membro do
marido ela tinha suas desconfianças se iria caber todo dentro dela. E se não
coubesse? Jesus, seria enviada para o pai, e além da vergonha de ser mais cega
do que uma porta também seria conhecida como... Não, Barbarah se recusava a
pensar uma coisa assim.
George estava fascinado com a mulher que ofegava em seus braços e deixou-se
levar pelo desejo brutal e primitivo que sentia naquele momento.

Eram anos de celibato forçado e Barbarah lhe despertou para algo que acreditava
estar morto dentro dele. Beijou-a com sofreguidão, como se ela pudesse curar as
mazelas que o haviam feito um homem ferido e intransigente. Tocava-a com
tanta luxúria que sentia o corpo escaldado em todas as partes.

Porém, nunca havia sido um bruto e não seria com a esposa. As carícias tinham
uma finalidade de prepará-la para a penetração e só faria isso quando a sentisse
úmida e escorregadia o suficiente para recebê-lo. As preliminares que
antecediam a penetração sempre lhe foram a melhor parte de dividir a cama com
uma mulher e Barbarah era atraente para deixá-lo duro entre as pernas e desejoso
de fazê-la sentir o mesmo que ele.

Havia algo nela que o fascinava. Um ar de inocência que o atraía ainda mais e
cada sussurro rouco que ela soltava era como um elixir que ele bebia para
amortecer as dores da alma. Ela sentia cócegas na barriga, constatou animado, e
gemia quando lhe sugava os mamilos. Sobressaltou-se quando a tocou no sexo e
espontaneamente mordeu os lábios numa tentativa tola de conter uma onda de
prazer que a tomou quando ele a penetrou com dois dedos.

Barbarah queria gritar, exigir o alívio antes que acabasse vítima de sua própria
mentira. George a tratava como uma mulher experiente e isso poderia ter lhe
deixado apavorada no início, mas só no início, porque à medida que ele a tocava
e a fazia sentir coisas inexplicáveis ela se lançava a um mundo que nem fazia
ideia existir. Sim, a curiosa Winter queria mais daquilo e as preocupações quanto
ao seu futuro haviam desaparecido pelo entorpecimento

que a envolvia conforme ele a tocava, a massageava e fazia coisas com a boca
que eram muito indecentes, mas ao mesmo tempo tão deliciosas.

Ela queria poder participar, explorá-lo também, perguntar-lhe sobre as coisas. No


entanto, não ousava dizer um “ai” para não comprometer seu disfarce de mulher
experiente. Estava disposta a fazer qualquer coisa desde que não precisasse
voltar ao poder do pai, que havia sido um escroto ao vendê-la a um homem que
precisava de uma mulher para ter um filho e não uma companheira como sempre
havia sido seu sonho.

Tudo acontecia tão rápido que nada poderia tê-la preparado para quando George
resolveu penetrá-la, duro, forte e potente, fazendo-a se encolher pela dor que lhe
rasgou as entranhas.

— Por mil demônios! – Ele praguejou com todo seu membro dentro dela,
esforçando-se para não se movimentar e machucá-la mais. — Inferno, você é
virgem! – Falou em alto e bom tom.

— Era virgem! – Respondeu com os olhos cheios de lágrimas, não pela dor que
sentiu ao ser penetrada de forma bruta, mas por se sentir uma tola em acreditar
que ele não notaria sua pequena avaria.

— Comprei gato por lebre. – Soltou indignado. — Deveria ter dito a verdade...
Eu poderia... Eu poderia ter sido mais cuidadoso.

— E não iria doer?

— Acredito que doeria mesmo assim, mas, que inferno... Eu teria sido mais
suave e delicado, a teria penetrado com mais cuidado.

— Está feito, não está? – Ele concordou com a cabeça. — Alguém precisava ter
feito e alegro-me que foi o senhor. – Foi-lhe honesta. — Eu senti coisas que não
imaginava ser capaz de sentir e viver, por isso não me arrependo de ter mentido.

— Barbarah... O que faremos agora? – Perguntou confuso, ainda enfiado dentro


dela, lutando desesperadamente contra o instinto de terminar o que havia
começado.

— Termine o que começou, pois temos que fazer um bebê. – Sorriu e ele beijou-
a apaixonadamente, porque ali não havia uma donzela frágil, e sim

uma mulher que sabia o que precisava ser feito para sobreviver.

O beijo agiu como um afrodisíaco, fazendo-os relaxar um nos braços do outro


novamente. George voltou a se movimentar dentro do corpo da esposa em um
vai e vem lento, quase pesaroso, para que ela pudesse se acostumar com a
invasão e sentisse prazer. Sempre cuidava das necessidades de sua companheira
quando fazia sexo e iria dar a ela uma amostra do que poderiam compartilhar.

Não lhe daria o conto de fadas que ela esperava, mas prazer, ah, o prazer ele era
capaz de oferecer, embriagando-a de desejo e deixando-a atordoada.
Seria sua pequena vingança por ter mentido descaradamente. E quando ela gritou
ele aumentou o ritmo das estocadas e deixou-se levar pelo desejo de se derramar
dentro dela, saciando-se também.

Minutos depois, mais calmos e um deitado ao lado do outro, George girou o


corpo e a fitou em busca de respostas. Barbarah não sabia o que dizer e se sentia
acuada. A nudez lhe incomodava também, lhe fazia se sentir exposta.

— Eu mandei Brown comprar uma esposa experiente e não uma donzela.

– Soltou furioso. — Recebi uma virgem mentirosa.

— Não sou uma mentirosa. – Sentou-se na cama, enrolando-se no lençol.

— O que queria que eu fizesse? – Cuspiu a pergunta com angústia. — Sequer


sabia que havia sido vendida. Meu Deus, meu pai deve ter feito o mesmo com
minhas irmãs! – As lágrimas lhe tingiram a face.

— Não me compadecerei com suas lágrimas, Barbarah. – Também se sentou,


mas do outro lado da cama, dando-lhe as costas. — Já tive o bastante da lábia de
mulheres como você para não acreditar em lágrimas fingidas.

— Não sei o que lhe aconteceu, nem o que lhe fizeram, mas garanto que minhas
lágrimas não são falsas. Estou esgotada. Acabei de descobrir que meu pai,
aquele que eu amava com todo meu coração, teve a coragem de vender as filhas
para estranhos. Acabei de entregar meu corpo ao senhor porque era isso ou ser
devolvida para ele e entregue a um bordel. Eu precisava consumar o casamento
antes que descobrisse que não era experiente como havia exigido.

— Você mentiu e... – Levou as mãos até os cabelos, tentando recuperar a


lucidez.

— Eu lutei pela minha sobrevivência. Era o senhor ou uma vida como prostituta.
Eu escolhi o senhor. – George a fitava assustado e intrigado com sua coragem
em assumir as escolhas que havia feito. — E sinceramente que diferença faria
sua esposa ter sido virgem ou não quando você precisa de uma apenas para gerar
um herdeiro?

— Em termos práticos nenhuma! – Levantou-se e foi em busca do robe.


Vestiu-o e a olhou uma última vez. — Mentiu para mim, Barbarah! Perdi a
confiança em ti. Porém, nosso casamento não é baseado em amor ou lealdade.
Estamos juntos nisso para que o meu filho nasça.

— Irá me devolver ao meu pai? – Perguntou com a cabeça baixa, incapaz de


encará-lo.

— Ainda não sei! – Deu-lhe as costas e foi até a porta. — Preciso pensar e só
conseguirei longe de você. – Fechou a porta que ligava o dormitório dela ao seu,
abandonando-a com os pensamentos confusos e a dignidade ferida, encolhida
entre os lençóis que haviam testemunhado a sua entrega a um homem que jamais
conseguiria se abrir para o amor novamente porque alguém o havia machucado
além do suportável.

Mas isso não lhe dava o direito de julgá-la como uma oportunista quando havia
mentido para se proteger do infortúnio que seria uma vida como prostituta.
Barbarah faria tudo novamente, talvez teria fugido para longe se tivesse
descoberto a farsa que havia sido o casamento que o pai lhe arranjou.

Mas não conseguia se arrepender do que havia feito, mesmo que a humilhação
lhe fosse pesada demais para suportar naquele momento.

GEORGE HAVIA SE recolhido em seus aposentos depois de ter tirado a


virgindade da esposa sem ter consciência do que estava fazendo. Embora tenha
sido um ato prazeroso e de que havia se saciado nos braços da jovem e atraente
mulher que Brown havia escolhido para ser desposada, não contava com o fato
de ter que carregar mais uma culpa nos ombros. Já lhe bastava as que carregava
desde o dia em que a primeira esposa havia lhe deixado.

Atormentado pelas lembranças que Barbarah lhe trouxe, não pregou os olhos e
preferiu o conforto da biblioteca e dos livros até o dia raiar, quando mandou
chamar seu advogado para uma conversa muito séria. Jude tinha muito o que lhe
explicar.

— Onde estava com a cabeça quando deixou passar o fato de que Barbarah era
uma virgem? Foi a única exigência que lhe fiz, inferno! – Disse ao amigo
irritado. A cabeça de George latejava pela longa noite em claro que passou.

— Bem... – O advogado coçou a cabeça. — Confesso que havia bebido vinho e


algumas distrações tiraram minha concentração. Mas o que importa, meu caro, é
que te trouxe a mais bonita delas.

— Não pedi pela mais bonita! E sim pela mais experiente! – George revirou os
olhos e foi em busca de uma bebida forte a fim de amenizar o

desconforto que sentia.

— O que importa é que ela não é mais virgem e o problema foi resolvido.

– Ergueu seu copo para um brinde, mas George lhe deu as costas.

— Continua tão inocente quanto uma virgem. E ainda terei que ensiná-la muitas
coisas. – Disse pensativo.

— Pelo amor de Deus, George! Ensiná-la sobre sexo não será um suplício. A
moça é formosa, deveras rústica, mas nada que roupas elegantes não consigam
dar jeito.

Claro que era um suplício, pensou o conde calado. Teria que passar mais tempo
junto dela e isso poderia levá-lo a se envolver sentimentalmente com a esposa,
fato que havia riscado de sua vida desde que perdera a primeira esposa. Ele
precisava sim de uma mulher experiente, que pudesse tornar o ato sexual, além
de prazeroso, um interlúdio rápido e sem qualquer tipo de envolvimento
sentimental.

— Considerei a ideia de devolvê-la, mas não seria honroso de minha parte. Por
mais que todos acreditem que eu seja um monstro, ainda tenho princípios e
desonrei uma virgem. – Ponderou depois de um longo gole de uísque.

— Veja pelo lado bom da coisa, meu amigo! Ninguém poderá contestar a
paternidade do bebê. – Jude sabia que tocar nesse assunto poderia mexer com os
brios de seu amigo, mas era necessário que alguém lhe chamasse atenção para as
coisas que de fato importavam. — Precisa de um herdeiro e o fato da moça ser
virgem afastará as maledicências, você sabe muito bem disso.

— Só falta sugerir que eu mostre o lençol manchado de sangue para comprovar.


– Respondeu ainda mais irritado, levando a mão falsa até a cabeça.

— Sabe do que falo! Não é para os outros que precisa provar, mas para você
mesmo. – O advogado aproximou-se do amigo e lhe bateu nas costas.

— Cometi um equívoco e assumo, mas foi um erro providencial.

— Providencial... Sei!

— Claro que sim! Deixe de ser teimoso e aproveite a companhia da

jovem esposa que lhe arranjei. Barbarah, ou melhor, Lady Barbarah é uma dama
encantadora, de sorriso fácil e conversa atraente.

— Poupe-me, Jude! A moça é uma plebeia sem qualquer resquício de


refinamento. Que tipo de conversa poderei manter com ela?

— Possivelmente, meu caro amigo, é justamente tal qualidade que a faz única:
sua falta de refinamento. – O advogado ainda gostaria de lhe dizer que cogitou a
possibilidade de comprá-la para si. Poderia muito bem ter se casado com
Barbarah durante a viagem e ter partido em busca de uma nova pretendente para
o conde não fosse o fato de que não teria fundos suficientes para ressarci-lo.
Além disso, a história trágica envolvendo a primeira esposa apenas o deixaria
desconfiado e George ainda era seu melhor cliente, além de um amigo leal. — Já
que decidiu ficar com ela, não tenho mais o que fazer aqui. – Saiu em busca do
chapéu.

— Não tolerarei mais erros, Jude! – Apertaram as mãos.

— Ainda me agradecerá por esse pequeno deslize, caro amigo. –


Despediu-se e partiu.

George voltou a sentar atrás de sua suntuosa mesa de madeira de lei, tentando
recuperar o juízo que parecia ter perdido na cama da esposa. Não poderia negar
que a possuir mexeu com algo dentro dele e o fez sentir coisas que acreditou ser
incapaz de voltar a sentir. Talvez houvesse sido isso que o deixou confuso.
Barbarah não lhe pareceu uma mentirosa, ao contrário, era sincera e seus olhos
azuis como o céu sem nuvens em uma tarde primaveril o deixaram consternado.

Mas mulheres costumavam ser traiçoeiras, ardilosas e sabiam representar papéis


muito bem, ainda mais quando a natureza as havia agraciado com um corpo
escultural e um rosto angelical. Vivienne era assim, tão linda quanto Barbarah,
embora diferentes em aparência, mas ainda sim poderiam usar sua beleza para
confundir um homem e fazê-lo de tolo.

Precisava se livrar das recordações terríveis que ela havia trazido à sua mente já
tão desequilibrada, e se os livros não conseguiram fazê-lo esquecer, uma
cavalgada poderia ajudar. Tomou o último gole de seu uísque e foi em busca de
sua capa e chicote. Encontrou com Marjorie quando atingiu o

vestíbulo.

— O senhor pretende cavalgar? – Perguntou espantada com a decisão do patrão.


— Oh, perdão pela intromissão! – Recompôs-se ao lembrar que já não eram
mais dois jovens que brincavam juntos. — Mas o senhor tem preferido a
reclusão nos últimos anos.

— As coisas sempre podem mudar, Senhorita Marjorie! – Disse. — Onde está


minha esposa?

— Em seus aposentos, milorde. Preferiu fazer o desjejum lá.

— Melhor assim! – Pensou alto sem perceber. Talvez George voltasse a procurá-
la de noite para continuarem com as tentativas de gerarem o herdeiro, mas por
ora ele não queria encontrá-la ou mesmo ter que lhe dirigir a palavra.

Ainda se sentia enganado e tal sentimento o fazia um homem raivoso, capaz de


despejar sua ira em cima da pobre mulher que não fazia ideia dos fantasmas que
o rondavam. — Atenda-a da melhor maneira. Barbarah é minha esposa, uma
lady, e assim merece ser tratada. – Julgou por bem avisar a governanta de que
não toleraria insubordinações ou desrespeito com a nova condessa. Mesmo que
ela não fosse a mulher mais preparada para ocupar a posição, era a Condessa de
Carrick e deveria ser tratada com a dignidade que o título exigia.

— Sim, milorde! – Fez uma mesura impecável e pediu licença para se retirar.

George não gostava de repreender Marjorie, que havia crescido como sua irmã
somente para atender um capricho de sua mãe. Mas ele conhecia o
temperamento invejoso da serviçal e da paixão que nutria por ele. Da primeira
vez que trouxe uma esposa para o castelo, Marjorie havia tentado transformar a
vida de Vivienne em um inferno. Deveria ter atendido os pedidos da esposa para
enviar a governanta embora, mas não teve coragem de a colocar no olho da rua
quando a mãe a tinha por uma filha. E ao final de tudo, fora ela quem esteve ao
seu lado quando tudo aconteceu. Invejosa ou não, apaixonada ou não, Marjorie o
amparou quando sua vida se despedaçou.

Enquanto isso, Barbarah enxugava as lágrimas que não queriam parar de sair de
seus lindos olhos azuis desde que havia sido deixada pelo marido como se fosse
um estorvo. Ainda havia a dor de ter sido abandonada pelo pai, negociada como
se fosse um móvel ou um rés que não lhe era mais útil e enviada para o meio do
nada para ser a esposa de um conde sem coração.

Não havia pior destino, pensou depois de uma fungada escapar. Mas o que
poderia fazer a não ser tentar sobreviver em meio a dor que sentia?

Precisava enxugar as lágrimas, erguer a cabeça e lutar pelo pouco de dignidade


que havia lhe restado.

— Com licença, milady! – Uma criada acabava de entrar, sendo seguida por
mais duas segurando dois baldes de água. — O Senhor Geofrey nos enviou para
ajudá-la com o banho.

— Oh, sim! Um banho haverá de me fazer bem. – A jovem condessa respondeu


secando os olhos com as mangas da camisola. Despertou sem ânimo e sequer
teve vontade de trocar de roupa.

— Me chamo Isabelle e será um prazer cuidar de suas necessidades. Fui


designada para ser sua criada de quarto. – Barbarah nunca teve uma criada, nem
suas irmãs tiveram esse luxo, portanto não sabia como reagir a novidade.

Talvez uma condessa elegante deveria ter uma para andar sempre bem-vestida e
com os cabelos bem penteados, mas lhe faltava tanto para ser uma dama da
nobreza que sentiu medo em decepcionar a pobre moça que estava muito
empolgada com a promoção.

— Nunca tive uma criada de quarto e fico honrada de terem escolhido você,
Isabelle. – Sorriu para a jovem moça que poderia ter uns dois ou três anos mais
que sua patroa. — Acredito que não te darei muito trabalho. Não tenho muitos
vestidos para serem cuidados.

— Logo o conde haverá de comprar um guarda-roupa novo para a senhora. –


Disse feliz, já indo em direção do reservado, onde ficava uma espaçosa banheira
de louça. Barbarah nunca havia entrado em uma e até se

animou com o banho quando sentiu o cheiro do óleo de jasmim que foi pingado
na água quente. — Ah, sim! – Retornou secando as mãos com o avental. —
Devo entregar-lhe isso. – Pegou duas caixinhas de dentro de uma cesta e as
entregou à nova condessa. — Foi o Senhor Geofrey quem as enviou.

Barbarah abriu as caixinhas e encontrou, primeiro, uma lupa elegante com as


iniciais do Conde de Carrick gravadas no cabo de prata. Mas foi a segunda
caixinha que lhe revelou um par de óculos com lentes, não tão grossas quanto as
que usava, mas que poderiam lhe ser muito úteis ao aliviar o desconforto que
sentia por não enxergar. Precisava agradecer ao idoso mordomo quando tivesse
oportunidade para isso.

— Os vestidos que a senhora trouxe consigo precisam de reparos nas barras,


milady! – Isabelle a surpreendeu usando os óculos e para alívio de Barbarah não
fez caso deles. Pretendia manter em segredo e ainda não se sentia segura para
revelar ao marido que era defeituosa. Isso seria apenas mais uma razão para
devolvê-la ao pai e assim desfazer a venda, o que seria bem-feito ao velho
Winter se ela não tivesse que viver em um bordel por ter sido devolvida.

— Meus vestidos são simples. – Confessou, mas sem se sentir envergonhada. —


Meu pai estava falido e mal tínhamos para comer, assim os vestidos não nos
eram uma prioridade como pode ver.
— Tentarei consertar as barras. Porém, deve falar com o conde para que
possamos providenciar vestidos novos. – Barbarah concordou com a cabeça
porque não se sentia confortável em manter esse tipo de conversa.

Desconfiava que o marido pouco se interessasse com sua aparência ou se


preocupasse com suas necessidades. O herdeiro sempre seria mais importante
para ele e uma mulher não precisava de roupas para desempenhar a tarefa de
reprodutora. Acabou corada com o pensamento do que haviam feito na noite
anterior e do quanto havia gostado de estar nos braços dele. Era um homem
apaixonante quando não estava dedicado a ser um ranzinza sem coração. E

apesar de não ter tido o privilégio de ter se deitado com outro homem para
comparar, George havia se revelado um amante muito dedicado. — Não sei qual
a senhora poderia usar hoje. – Isabelle tirava os poucos e velhos vestidos que
havia trazido do baú e os jogava em cima da cama. — Todos eles estão

precisando de reparos.

— Separe o chambre, não pretendo sair dos aposentos no dia de hoje!

— Oh senhora, é uma pena! Faz um dia de sol tão lindo e tenho certeza de que
adoraria conhecer o jardim. – A criada sorriu e Barbarah considerou a ideia
muito tentadora. Mas não estava disposta a ser vista pelos criados e inquilinos
com vestes desgastadas. Se uma simples criada de quarto havia constatado o
péssimo estado de seu vestuário, qualquer outro comentaria a pobreza da nova
condessa. Também não estava disposta a ir conversar com o marido sobre seu
guarda-roupa, ainda lhe restava vergonha na cara.

— Um passeio seria muito agradável depois de dias presa neste castelo. –

Soltou sem pensar muito nas consequências de sua fala, o que sempre lhe foi um
péssimo hábito.

— Já sei! Como não tive essa ideia antes? – Comemorou a criada. — Irei até o
sótão em busca de um dos antigos vestidos de Lady Vivienne, a falecida
condessa. Acredito que ela tinha as medidas parecidas com a da senhora e um
vestido simples de tarde lhe cairá melhor do que um vestido remendado. É

claro que teremos que descer um pouco a barra, pois a falecida era mais baixa do
que a senhora.
— Como ela era? – Barbarah perguntou enquanto se enfiava dentro da banheira.

— Uma dama muito elegante, de modos impecáveis como toda francesa.

– Barbarah se encolheu tentando não se deixar abater pelas qualidades da antiga


condessa, as quais ela jamais conseguiria ter. — Era apreciadora das artes e da
boa música, por isso a casa vivia repleta de artistas e gênios da música. Mesmo
assim não sorria muito e vivia taciturna pelos cantos. Todos comentavam que ela
sentia falta da vida suntuosa que levava em Paris.

— Como o conde a conheceu? – Barbarah queria saber mais.

— Em uma viagem que fez anos atrás. Dizem que foi amor à primeira vista e
que não hesitou em fazê-la sua condessa. – Barbarah engoliu em seco, tentando
não chorar na frente da criada que ficaria chocada com o fato de ter sido vendida
pelo pai para um nobre que precisava de uma mulher para ter um filho.

No entanto, uma coisa havia ficado claro para a caçula das Winter. Ela jamais
poderia ocupar o lugar de Vivienne na vida de George e teria que se conformar
com isso colocando seu melhor sorriso no rosto. Não havia nascido uma lady e
por mais que todos se referissem a ela como uma, aquilo continuava a lhe deixar
sem jeito. Não havia sido educada para ser uma esposa refinada e elegante e
George a havia escolhido possivelmente porque as plebeias tinham fama de boas
parideiras.

— Não pretendo sair dos aposentos hoje, Isabelle! – Deu por encerrado o
assunto. — Apenas separe meu velho chambre.

— Quem sabe amanhã? – Sugeriu com alegria no semblante. — O tempo está


firme e penso que amanhã teremos mais um belo dia de sol.

— Quem sabe amanhã me sinta mais disposta.

— Então providenciarei um dos vestidos de Lady Vivienne. Até amanhã


conseguirei baixar a barra e a senhora ficará tão elegante quanto ela. –

Barbarah duvidava disso, mas não quis acabar com a empolgação da garota que
se esforçava para agradá-la.

— Agradeço a preocupação, Isabelle. – Deixou-a ajudar com os cabelos e


recebeu o auxílio com os olhos cheios de lágrimas e o coração inundado pela
saudade que sentia das irmãs. Delilah costumava lhe lavar os cabelos e
desembaraçá-los nas pontas. Eram rebeldes por serem encaracolados.

— Sinto-me honrada em servir a Condessa de Carrick, milady! – Disse


sorridente.

— Mesmo que ela seja um tanto estabanada, enxergue mal e possa envergonhar
o sobrenome Hosken a quem todos vocês servem com orgulho?!

– Soltou um suspiro longo. — Sou uma plebeia, Isabelle.

— Muitos de nós a enxergamos como a luz que o castelo precisava.

Estamos envoltos em sombras desde que Lady Vivienne morreu


misteriosamente. A chegada de uma nova condessa, seja ela uma nobre ou uma
plebeia, nos é motivo para esperarmos que este castelo volte a sua época de ouro
e ostentação.

Barbarah preferiu não comentar e mergulhou no silêncio dos próprios


pensamentos. Como poderiam acreditar que ela, uma simples moça, poderia

trazer luz para um castelo que havia sido enterrado junto a sua antiga senhora?
Não haveria bailes, nem saraus, nem jantares festivos, porque ela não saberia ser
a anfitriã deles. E mesmo que pudesse ser, George a proibiria de oferecê-los. A
amargura fazia parte de sua vida, havia se deixado envolver pelas sombras da
morte da esposa como se tivesse morrido com ela.

Era um homem atormentado pela perda de um grande amor e ela, bem, Barbarah
era uma mentirosa que pouco sabia da vida, que havia crescido sob a proteção de
duas irmãs mais velhas e de uma mãe que tentou poupá-la dos dissabores da
vida. E isso a havia transformado em uma garota de coração puro, ingênua para a
dureza do mundo e com uma curiosidade que a fazia ser diferente da maioria das
garotas de sua idade. Não era apropriada nem para um cavalheiro de sua classe,
quiçá para um homem cuja nobreza era uma herança de gerações.
O DIA HAVIA passado com a lentidão que Barbarah sempre evitou em sua vida.
Ela e as irmãs sempre arranjavam o que fazer e ler havia se transformado em um
dos seus passatempos preferidos. Mas ela não fazia ideia de como encontrar um
livro naquele imenso castelo e a haviam proibido de pisar na biblioteca do conde
que sequer sabia onde ficava.

Ali naquele suntuoso e ricamente decorado quarto da condessa, olhar para o


complexo intricado de arabescos do papel de parede havia se transformado em
sua única distração. Ao menos os óculos enviados pelo mordomo estavam lhe
sendo úteis e já conseguia enxergar os detalhes das coisas, as peças decorativas e
a beleza do lugar.

O marido a havia evitado durante todo o dia e ela havia feito as refeições
sozinha. Jamais imaginava que se casar com um conde pudesse lhe fazer tão
solitária. Se George não voltasse a procurá-la teria que ir ao seu encontro para
resolver a situação entre os dois. Embora um marido tivesse direitos sobre a
esposa, ele não poderia fingir que não tinha uma.

Acabou com o coração sobressaltado quando a porta que dividia seu quarto com
o dele rangeu e ele pisou duro na madeira do piso. Barbarah tratou de esconder
seus óculos antes que ele pudesse perceber mais uma das suas mentiras.

— Não queria assustá-la! – George disse sem se preocupar em sorrir.

Parecia continuar irritado com a pequena omissão da esposa.


— O senhor já tomou sua decisão? – Barbarah não estava com vontade de ser
gentil naquele momento. Sentia a cabeça latejar e o coração pulava no peito
como se pudesse saltar pela boca a qualquer momento.

— Não a devolverei ao seu pai, se é este seu medo. – Respondeu, fitando-a nos
olhos e Barbarah acabou agarrando a barra do chambre que vestia como se
pudesse se proteger daquele olhar que a amedrontava tanto. — Preciso de um
herdeiro. Já não sou um moço como bem pode ver. Enviá-la de volta a Londres
para dar início a uma nova busca só atrasará o nascimento do filho que desejo.

— Entendo. – Encolheu-se na cadeira que estava sentada.

— Posso relevar o fato de que mentiu para mim, Barbarah, a bem do filho que
me dará. – Aproximou-se da esposa e acariciou-a com a mão de couro.

— E ainda temos que considerar que já pode estar carregando meu filho.

— Por que usa luva apenas em uma mão o tempo todo? – Perguntou curiosa.

— Não é uma luva e sim uma prótese. Perdi a mão anos atrás e tenho usado esta
daqui para compensar alguns movimentos... E para não ser tão assustador ao
olhos dos outros.

— Mas...

— Sem “mas”, minha querida! – Ajoelhou-se diante dela, repetindo os atos da


noite anterior. — Entre nós dois não haverá respostas, nem perguntas ou
confidências. A visitarei todas as noites até que consiga engravidá-la e farei
amor com você todas as noites para que consigamos gerar um Hosken.

— Gostaria de saber mais sobre o homem com quem passarei todas as noites. –
Ela não desistia e isso o admirou.

— Não precisa saber, Barbarah! Foi comprada para não fazer perguntas e apenas
me dar pelo que paguei. Em troca não a enviarei de volta e terá meu dinheiro
para protegê-la da miséria, mas sem perguntas. – Beijou-a com paixão,
deixando-se levar pela tormenta de emoções que havia evitado o dia

todo.
— E o que farei nos meus dias até engravidar? – Perguntou, deixando-se levar
pela sedução dele.

— O que quiser! Leia, passeie, toque piano, borde, compre vestidos novos. Faça
o que tiver vontade. A única exigência é que não se meta nos assuntos
domésticos e que evite modificar as coisas e o funcionamento do castelo.
Também tenha tempo para descansar, porque a quero disposta à noite para me
atender.

— Quero jantar com o senhor. É a minha única exigência. – Atreveu-se e ele riu
ao invés de lhe repreender. Já era um bom começo, pensou Barbarah.

— Posso fazer a concessão, mas não todas as noites.

— Por que não todas as noites se terei que recebê-lo em minha cama todas as
noites? – Envolveu-lhe pelo pescoço e o cheiro de jasmim do banho que havia
tomado deixou-o atordoado. Era isso que ele temia, deixar-se envolver em
demasia por um mulher atraente e acabar enredado em um jogo sórdido, onde ela
conseguisse manipulá-lo ao seu bel-prazer.

— Algumas noites e não insista! – Voltou a beijá-la, levantando-a nos braços e


indo até a cama para depositá-la.

Barbarah usava apenas um chambre amarrado por um cordão e foi ainda mais
simples lhe livrar do pano rústico. Ela ficava mais bonita nua, pensou com a
boca salivando e considerando a possibilidade de prová-la. Mas beijá-

la no meio das pernas sem prepará-la para isso poderia chocá-la. Maldita hora
em que aceitou uma virgem como esposa.

Se fosse uma mulher mais experiente não precisava se conter, muito menos se
preocupar em deixá-la confortável, porque ela saberia o que fazer e tudo seria
mais prático. Por outro lado, saber que ela era só dele e que seria ele a lhe
ensinar sobre paixão e desejo o fazia feliz. Era como se o macho que vivia
dentro dele saltitasse de felicidade e isso o assustava. Houve o tempo em que
acreditou em tudo isso, que acreditou ser o único homem de uma mulher, e no
final tudo havia sido uma grande mentira, na qual foi traído duplamente por
aqueles em quem mais confiava.

George jamais foi o mesmo depois daquilo e fechou-se dentro de um


casulo de autocomiseração, incapaz de enxergar a esperança de uma vida feliz.

Mas uma jovem plebeia havia chegado para, em uma única noite de amor, fazê-
lo voltar a sentir as borboletas no estômago, despertando o desejo que havia
trancado dentro do peito.

— Não fique parado me olhando como se eu fosse um grande e suculento bife. –


Barbarah o tirou dos devaneios, fazendo-o soltar uma gargalhada tão bem-vinda
aos ouvidos dela que acabou se juntando a ele. — É verdade, senhor!

— É uma mulher bonita e apenas admiro o que irei tocar. – Ela corou de
vergonha e ele simplesmente se derreteu com isso. — Não me chame mais por
senhor quando estivermos na cama prestes a nos tocar de maneira tão íntima.
Chame-me pelo meu nome de batismo. É mais agradável aos ouvidos de um
homem que está prestes a possuir uma mulher.

— O que posso fazer para deixá-lo feliz, George? – Perguntou com um sorriso
grudado nos lábios e as malditas covinhas que tanto o encantavam se abriram.

— Me permita beijá-la em lugares poucos convencionais. – Provocou-a e apesar


de seu acanhamento ela concordou.

— Não há motivos para impedi-lo. Se tudo for como na noite anterior, creio que
apreciarei seus toques por mais lascivos que sejam. – Confessou com a voz
embargada, revelando que havia se excitado com sua provocação.

George não pensou duas vezes e se colocou no meio das pernas da esposa e ali
envolveu com a língua a ponta do clitóris, lambendo com delicadeza, sugando
aquele pequeno montículo de prazer, saboreando-a como um manjar delicioso.
Havia vindo determinado a fazer sexo com a esposa e da forma mais tradicional
possível para evitar envolvimento, mas bastou vê-la para pensar nas indecências
que poderia fazer com ela; e quando a viu lindamente nua, a vontade de provar-
lhe falou mais alto e deixou-se levar pelos mais inebriantes dos desejos carnais.

Barbarah aceitou aquele afago e deleitou-se com o toque lascivo que ele havia
lhe proposto, abrindo-se ainda mais para ele, deixando-se levar por

sensações que a faziam uma mulher fácil, provavelmente comparável a uma


cortesã. Não sabia muito sobre sexo e como deveria se portar como esposa, mas
não conseguia controlar o desejo que sentia de ser cada vez mais tocada pelo
marido e acabou gemendo indecentemente quando os espasmos a tomaram de
ponta a ponta, amortecendo-a por completo.

E quando o marido se afastou ela reclamou pelo sentimento de abandono que a


tomou. Ele sorriu em resposta, dando-se conta de que na presença dela sua
vontade de sorrir havia se tornado uma necessidade, mais que isso, ele desejava
sorrir simplesmente por ouvi-la falar.

— Mal começamos! – Garantiu. — Tenho ainda tanto para te fazer sentir,


querida. – Deitou-se ao lado dela, puxando-a para seus braços, beijando-a no
pescoço primeiro, depois na boca e, por fim, sugou a ponta dos mamilos numa
troca de sabores que o enlouquecia. Barbarah era doce e forte em todas as partes,
lhe lembrando o mel silvestre.

Barbarah sentiu a ponta inchada do membro dele em contato com a carne tenra
de seu sexo e fechou os olhos, preparando-se para a dor que sentiria.

— Sempre será assim? – Arriscou. — Me fará tocar as estrelas com a boca e os


dedos e depois somente a dor?! – Ele se retesou contra ela, enfiando o membro
apenas um pouco para dentro de seu interior macio, brigando para vencer a
vontade de se colocar todo dentro dela e acabar com a vontade que sentia de ter
o membro envolvido por sua delicada e apertada carne.

— Jamais sentirá dor, Barbarah! – Puxou-lhe pelo queixo para que o visse. —
Abra os olhos, minha querida! – Ela atendeu e ele sentiu-se um tolo diante de
tanta beleza. Barbarah era diferente de todas as mulheres que havia conhecido.
Até mesmo de Vivienne, a mulher que teve seu coração e o pisoteou. A Winter
era fresca e inocente, verdadeira e pura, e tudo isso poderia ser facilmente
decifrado no azul límpido de seus olhos, que lembravam o mar calmo do verão
da Cornualha.

— Jura? – Pediu encabulada, mas corajosamente sem desviar o olhar do dele.

— Juro! – Enfiou-se um pouco mais dentro dela, brincando com o prazer

que queria provocar nela. — Meu membro dentro de você tem que ser melhor do
que minha língua ou meus dedos, querida. Se não for melhor é porque não estou
fazendo a coisa certa contigo. – Mexeu-se mais um pouco dentro dela,
afundando-se mais alguns centímetros e o aperto delicioso o fez gemer. —
Nosso encaixe tem que ser perfeito, não menos do que perfeito. – Girou com ela
até que todo seu corpo estivesse sobre o dela e todo seu membro se encaixasse
dentro dela. — Está gostoso, Barbarah? Tem que me dizer! –

Exigiu com a voz alterada pela paixão que sentia pela esposa.

— Oh, sim... É tão incrível... Maravilhoso, George!

— Posso me mexer mais? – As perguntas dele a faziam se sentir especial e ela


acabou relaxando envolvida por braços grandes que a protegiam do mundo e de
um pai injusto. Barbarah poderia ter chorado de felicidade por ter se sentido
parte de um mundo, de alguém novamente.

— Vai ficar melhor? – Porque se não ficasse melhor ela não queria que ele se
mexesse. — Já está perfeito e tão bom que não quero que termine.

— Só vai melhorar, ficar mais intenso... Entregue-se para mim, querida, e se


junte a mim no prazer.

— O que devo fazer? – Perguntou inocentemente.

— Só diga sim e o resto é por minha conta.

Barbarah disse sim e George começou a se movimentar dentro dela com vigor e
empenho para satisfazê-la e provar-lhe que a melhor parte do sexo era a
penetração. A cada gemido que ela soltava ele se sentia seguro para avançar um
pouco mais, provando-lhe com isso que poderiam sim sentir prazer, fazendo-a
esquecer da dor que sentiu na sua primeira vez.

Instintivamente ela ergueu as pernas e ele pôde se afundar ainda mais dentro
dela, penetrando-a com vontade, num vai e vem repleto de lascívia e
sensualidade. Sua inocência o deixava louco de tesão, mas foi sua audácia em
querer mais e se entregar sem medo para o novo que o fez explodir dentro dela.

Saciado e com o corpo dormente pela satisfação da liberação, ele encostou a


testa na dela e a beijou em agradecimento. Haviam estabelecido uma conexão
estranha, mas tão interessante que o fazia desejar dividir uma

vida com ela. Mas não poderia se deixar levar pelo calor do momento e
consideraria melhor a situação quando não estivesse sob o efeito do
arrebatamento que sentia por tê-la feito dele.

Prendeu-a contra seu corpo e a manteve ali até que ela adormeceu, cansada e
atordoada pelo que havia vivido com ele. Estivera com outras mulheres antes da
primeira esposa e estava certo de que fora com Vivienne que havia encontrado a
paz, e assim acreditou até o maldito dia em que descobriu que ela não sentia o
mesmo por ele. Precisou que uma moça simples, nascida no berço de uma
família comum, lhe provasse que a paz era algo muito diferente do que havia
pensado. Barbarah lhe trouxe uma amostra de que a vida podia ser mais simples
do que ele imaginou e tão doce quanto o mel de seus lábios.

— Não posso te carregar para dentro da escuridão que vivo! – Disse em uma
confissão que ela jamais deveria ouvir. — Infelizmente chegou tarde em minha
vida, Barbarah Winter. – Afastou-a dele e beijou-a na testa, brincando por um
momento com os anéis loiros de seus cabelos.

Ela lhe atraía com uma força que o fazia sentir medo.

Um medo tolo, ele sabia. Mas quando se foi atingido tão duramente no coração o
medo não era assim tão tolo, apesar de não ser compreendido pela maioria das
pessoas.

BARBARAH DESPERTOU TARDE no dia seguinte e acabou perdendo o


desjejum, mas estava mais animada por ter sido aceita pelo marido. Por enquanto
não precisava mais se preocupar com a possibilidade de ser mandada de volta ao
pai. Além disso, havia tido uma noite maravilhosa nos braços do conde e se
pegava a sorrir sozinha por ter descoberto a paixão. Ele a havia feito gritar de
prazer e a deixado tão cansada que acabou adormecendo em seus braços.

Isabelle ajudou-a a se banhar e a se arrumar. Sentia-se feliz como há muito não


acontecia e havia tomado a decisão de fazer um pequeno passeio pelo castelo e
pelas suas adjacências. George havia lhe dito que poderia ocupar seus dias da
forma que quisesse e a ideia de ficar trancafiada em um quarto não lhe agradava
muito.

— O traje lhe caiu muito bem. – Isabelle a olhava admirada com o bom trabalho
que havia feito no vestido da falecida condessa, reformando-o para que tivesse
um melhor caimento em sua nova patroa.

— É muito precioso e nem parece que está fora de moda. – Barbarah comentou
girando em frente ao espelho. Os óculos a ajudavam a ver melhor os detalhes do
modelo de cetim com rendas nos punhos e na gola decotada.

— É melhor usar essa capa se pretende passear no jardim. Está fazendo

um tempo mais fresco hoje. – A criada lhe mostrou a capa em tafetá no mesmo
tom de vermelho do vestido. — Tomei a liberdade de descer a barra da capa e
ficará um lindo conjunto com o vestido.

— Obrigada! – Respondeu passando a mão pela vestimenta, sentindo a


suavidade de tecido tão refinado.

— A senhora não precisa agradecer, milady! É uma condessa e meu dever é


servi-la.

— Faz parte da minha natureza ser grata aos que me servem e tornam meus dias
mais amenos. Terá que se acostumar, pois se sou uma condessa e todos devem
me servir, creio que posso exigir que aceite minha gratidão. –

Piscou-lhe e a criada corou. — Dispensarei a capa, pois não pretendo sair do


castelo. Quero conhecer cada canto e memorizar os detalhes para não me perder.
Bem sabe, Isabelle, que não posso usar os óculos. Além de não serem os mais
apropriados para o meu problema de visão, me deixam pavorosa. De que adianta
um vestido tão lindo se tenho que usar estes terríveis óculos?

— É melhor a senhora levá-los consigo no bolso. Em caso de uma emergência,


poderá usá-los. – Considerou a moça sempre prestativa.

— É uma boa ideia!

— Qualquer dificuldade, procure por uma das sinetas e uma de nós irá ao seu
encontro. Não hesite em procurar ajuda, milady. O castelo é tão grande que é
muito fácil se perder. Evite a ala leste, por favor, é lá que dizem que o fantasma
aparece.

— Fantasma? – Barbarah se voltou à criada com os olhos curiosos por trás das
lentes.

— Sim, o da falecia condessa. Foi na escadaria da ala leste que Lady Vivienne
morreu. Os criados mais antigos dizem que desde então barulhos são ouvidos e
um vulto branco assusta os desavisados. Perdemos muitas criadas nos últimos
anos em razão do fantasma.

— Misericórdia! – Barbarah fez o nome do pai. Não era uma crente fervorosa
como sua irmã Sarah, mas seria conveniente se transformar em uma já que vivia
em um castelo mal-assombrado.

— Não se preocupe, milady! É só evitar a ala leste e não encontrará a


assombração de Lady Vivienne. Dizem que ela protege os mistérios de sua morte
e não deixa ninguém se aproximar. Imagine, ela não gostará nem um pouco da
senhora por lá. É a nova esposa do conde e tirou o lugar dela.

— Isabelle, por favor, podemos trocar de assunto?! – Pediu sentindo os pelos


arrepiados. Barbarah evitaria a ala leste até que sua curiosidade pudesse ser
controlada, pois não estava disposta a ser vítima dos ciúmes de uma esposa
fantasma.

Dispensou a companhia da criada e deixou os aposentos ainda se benzendo para


que a assombração não resolvesse lhe visitar tão cedo, afinal, estava vivendo no
quarto que foi dela. Preferiu fazer a excursão sozinha, assim poderia usar os
óculos sem se preocupar em ter que fingir que enxergava direito sem eles.
Examinou uma galeria de retratos à óleo e se encantou com uma tela em que um
jovem casal olhava um para o outro. As feições do homem lhe lembravam o
marido e logo concluiu que era ele ao lado da primeira esposa, uma dama muito
bem vestida, com os olhos amendoados e cabelos escuros recolhidos em um
intricado penteado.
Conforme andava outros casais apareciam e as diferentes vestes deixavam claro
que os Hosken eram uma família que atravessou gerações de prosperidade.

Mas tudo lhe parecia tão estranho, pois ali não havia alegria. O castelo era
apenas um amontoado de pedras velhas, com corredores escuros e paredes cujas
marcas do tempo guardavam os segredos de muitos que ali passaram.

Não era por acaso que as criadas da estalagem lhe alertaram sob a má fama do
lugar.

Fosse como fosse era o seu novo lar e teria que aprender a conviver até com
fantasmas se eles realmente existissem, desde que ela não se convertesse em
mais uma assombração. Pensar tais coisas não era apropriado quando estava em
um corredor pouco iluminado com olhos curiosos de pessoas mortas a lhe
fitarem e Barbarah tratou de sair dali com urgência.

Encontrou uma criada e perguntou pela biblioteca. A senhora gentil lhe indicou o
caminho da biblioteca particular da condessa, mas ali não encontrou nada além
de livros tediosos de mocinhas que só sabiam bordar.

Barbarah desejava outro tipo de literatura e ali não era o lugar em que teria o que
queria. Embrenhou-se para dentro do local proibido, onde todos sempre lhe
fizeram questão de avisar que não poderia pôr os pés. Mas se era uma condessa,
algum benefício teria que ter. Assuntou e descobriu que o marido estava reunido
com o administrador da propriedade e decidiu entrar na sua biblioteca em busca
de algum livro mais interessante.

Eram tantos que ele não sentiria falta de um mísero exemplar, mas acabou
encantada com as coleções e enciclopédias que perdeu a noção de tempo e foi
pega em flagrante por aquele que não devia tê-la visto ali.

— Milorde... Quer dizer, George! O que faz aqui? – Deixou escapar sem querer
depois de ter guardado os óculos dentro do bolso.

— Essa pergunta é minha, Barbarah! O que minha esposa faz em minha


biblioteca quando todos sabem que é proibido entrar aqui? – O conde a analisava
com ira, ela pôde perceber. — E quem disse que poderia usar um dos vestidos da
falecida condessa? – Barbarah relaxou por perceber que a irritação se devia ao
vestido e não aos óculos. Eles continuavam a ser seu segredo.
— Bem... Eu não tenho vestidos dignos de uma condessa e pensei que poderia
usar um da falecida.

— Onde estava? Quem o entregou? – Trincou os dentes e Barbarah considerou a


possibilidade de sair correndo.

— Não interessa quem o entregou. Fui eu que decidi usá-lo e sou eu que devo
ser punida se é isto que o senhor pretende. – Estufou o peito e o confrontou
porque estava cansada de ser tratada dessa forma. — O senhor disse que eu
poderia ocupar meus dias do jeito que quisesse, pois aqui estou, usando o vestido
da falecida condessa, porque não tenho outro melhor para a posição que ocupo,
em busca de um livro para ler.

— Você deveria ter ido até a biblioteca da condessa. Há vários exemplares lá


que...

— Eu estivesse lá, George!

— É óbvio que você já esteve lá! – Colocou a mão boa nos cabelos, revelando
uma tentativa frustrada de se controlar. — Você sempre está onde

não deve.

— Que culpa tenho eu se não gostei de nenhum dos livros de lá? E o que te custa
me emprestar um dos livros daqui?

— Barbarah, por Deus, o que te custa não se intrometer em minha vida e


obedecer uma vez na vida? – Aproximou-se dela com raiva e rancor e ela se
encolheu de medo. — Tire imediatamente este vestido.

— Por quê? – Perguntou com os olhos enrugados, tentando se manter incólume


perante as acusações que pareciam não parar de sair da boca do marido.

— Não percebe que o vermelho não lhe cai bem? Que nunca conseguirá chegar
ser como Vivienne?! – Barbarah engoliu em seco e deu-lhe as costas, estava farta
de ser humilhada. Não havia considerado que a cor não lhe favorecia. Apenas
queria um vestido mais elegante e jamais considerou a possibilidade de competir
com a falecida, que sempre seria a mais perfeita aos olhos do marido. Não havia
como competir com um fantasma, pensou consternada e as lágrimas lhe
invadiram os olhos sem piedade. — Diga-me quem lhe entregou o vestido.
— Não direi. – Estufou o peito e soltou um soluço, fazendo-o perceber que havia
sido muito duro com a esposa. Barbarah não passava de uma jovem curiosa e
talvez não tivesse agido de propósito, mas George havia sido pego de surpresa e
olhar para o vestido na cor preferida da esposa o deixou alarmado e assustado.
— Se o problema é o vestido, tome-o de volta. –

Tentou se livrar dele, mas sem a ajuda de uma criada era praticamente
impossível e começou a puxar os laços com força, totalmente desesperada para
se livrar daquele pano vermelho. Nunca mais conseguiria olhar para a cor sem
lembrar da humilhação que sentiu.

— Pare com isso! – George tentou acalmá-la. — Acabará se machucando.

— Ajude-me com ele! – Respondeu chorosa, com as bochechas ardentes pela


raiva que havia lhe tomado.

— Não pretende ficar nua aqui, não é?! – Disse indignado.

— Não será uma surpresa para ti. – Soltou também indignada. — Eu entendi
perfeitamente qual é o meu lugar neste casamento, milorde: servir o

senhor na cama. É lá que devo ser a condessa. Pouco te importa se terei que
andar com roupas remendadas durante o dia desde que não toque nos preciosos
vestidos da falecida.

— Maldição! Não foi isso que quis dizer. Compraremos vestidos novos para
você.

— Não preciso de vestidos novos! – Soltou irritada e foi em busca de uma


tesoura para se livrar de uma vez por todas do maldito vestido vermelho.

Porém, ele a impediu, puxando-a para perto do seu peito.

— Claro que precisa de vestidos novos. Mandarei uma modista vir ao castelo
para tirar suas medidas. Tem razão! Precisa se vestir como uma condessa, mas
não como Vivienne.

— Não quis me vestir como ela. Nem quero ser como ela. E maldita hora que
concordei com essa ideia estapafúrdia de usar o vestido da falecida. –
Fungou contra o peito do marido, tão ressentida que George pôde perceber que
sua dor era real e não um fingimento.

— Não precisa mais chorar, minha querida! – Abraçou-a com tanto carinho que
só queria lhe fazer voltar sorrir, abrir as malditas covinhas que tanto lhe
fascinavam. — Foi um mal-entendido.

Barbarah ergueu a cabeça e o fitou nos olhos.

— Molhei sua camisa! – Soltou e ele não foi mais capaz de controlar o desejo
que sentia por ela e simplesmente envolveu seu rosto com as mãos e a beijou
apaixonante em plena luz do dia, descumprindo a promessa de que só a tocaria
na calada da noite. — Ajude-me com o vestido, por favor! Quero devolvê-lo.

— Não precisa ser agora. – Ele respondeu com a testa colada na dela.

— Pois eu faço questão de devolvê-lo. É o vestido dela e você me humilhou por


isso. – Falou com tanto rancor que George sentiu uma punhalada no peito.

— Perdoe-me por isso! Eu acabei colocando os pés pelas mãos e falando coisas
que não devia.

— Falou verdades! Jamais serei como Vivienne. Não sou bonita como ela

e devo considerar que minha falta de refinamento só torna a situação ainda pior.
– George ergueu seu queixo de forma que ela o encarasse nos olhos.

— Você é linda, Barbarah! É sim diferente de minha primeira esposa, mas é tão
linda quanto.

— Jamais serei mais linda do que ela para você. Assim como jamais consegui
ser boa o bastante para o meu pai. Sempre faltará algo. – Confessou com os
olhos úmidos e George a abraçou com carinho, tentando compensar a tolice que
havia cometido.

— É linda à sua maneira, Barbarah. – Encostou os lábios nos dela e a beijou com
vontade, esquecendo por alguns minutos das amarguras que o faziam um homem
solitário.

E ali, entregues nos braços um do outro, revelando um para o outro parte de suas
dores e medos, se abriram para o novo e começaram a entender que juntos talvez
pudessem encontrar o caminho para a felicidade.

— Não posso acreditar nisso depois do que me disse. – Soltou desviando do


olhar dele.

— E se eu aceitar jantar contigo esta noite? Me perdoará pela minha falta de


jeito? – Ela sorriu e o mundo dele ficou mais colorido de repente.

— Jura?

— Juro, querida! – Trouxe-a novamente para os braços e um sentimento de paz o


envolveu naquele momento. Estava ali abraçando uma mulher com a roupa de
sua falecida esposa sem se importar mais com isso, desejando apenas Barbarah e
não sentindo mais o peso da culpa que havia tirado sua vontade de viver.

Ficaram em silêncio sendo observados por Marjorie através de uma fresta da


porta, desgostosa por seus planos terem dado errado. Foi ela quem entregou os
vestidos da falecida à Isabelle, e a moça querendo agradar a nova patroa não
pensou duas vezes em seguir os conselhos da governanta. Mas o tiro havia saído
pela culatra e o plano havia apenas feito George se aproximar da plebeia.

A MAIS NOVA das irmãs Winter subiu para seus aposentos a fim de se arrumar
para o jantar que teria na companhia do marido e sua empolgação acabou
amenizando o desconforto que sentiu ao ser humilhada por ele.
Porém, havia tomado uma decisão enquanto Isabelle tentava lhe convencer a
usar mais um dos vestidos da falecida: jamais voltaria a usar qualquer coisa que
havia pertencido à primeira esposa do marido e evitaria usar roupas nos tons de
vermelho.

— Não, Isabelle! Os vestidos da falecida condessa são maravilhosos, mas foram


dela e não quero mais usá-los. – Respondeu tentando não magoar a serviçal que
não tinha culpa dos rompantes do conde. — Irei com os meus velhos e puídos.
Separe o verde-água, por favor!

— Não consegui consertá-lo, milady. – A criada de quarto exclamou frustrada.

— Não tem problema! Irei usá-lo mesmo assim. – Barbarah já não se importava
com o que os outros pensariam da condessa vestir roupas tão velhas desde que o
marido não voltasse a compará-la com a falecida. Aquilo havia machucado sua
dignidade e já bastava ter sido vendida para ser usada para dar à luz ao seu filho,
por isso preferia não ter que ouvi-lo mais. George quando irritado não media as
palavras que usava, muito menos se preocupava com os sentimentos que poderia
ferir seu interlocutor, transformando-se em

uma besta sem coração.

Infelizmente estava casada com a besta sem coração e teria que arranjar uma
forma de aprender a conviver com ele, que verdade fosse dita, também sabia ser
amoroso e protetor quando queria, mas só quando queria.

— Como desejar, milady! Vamos tentar compensar a ausência de um vestido


mais apropriado com um belíssimo penteado. – Sorriu para a patroa.

— Não me leve a mal e nem pense que sou uma mal agradecida, mas prefiro os
cabelos como sempre os usei. – Pegou as mãos da criada e as apertou como um
gesto de carinho. — Creio que um penteado elaborado não irá combinar com o
vestido verde-água. É simples e exige um penteado mais simplório. Não fique
triste por isso! O conde me prometeu um guarda-roupa novo e logo poderá
pentear meus cabelos do jeito que desejar.

— Eu não deveria ter sugerido que usasse um dos vestidos da falecida. –

Abaixou a cabeça envergonhada. — Mas a Senhorita Marjorie me garantiu que a


senhora iria gostar.
— Bem, não foi nossa melhor ideia! – Barbarah sorriu, sentindo-se intrigada
com a revelação de Isabelle. Mas resolveu deixar o assunto para outra hora, já
que estava ansiosa para reencontrar o marido e com ele ter algumas horas de
conversa antes de subirem para o quarto. Ela gostava das atividades no quarto,
mas também sentia falta das pequenas coisas da vida, como jogar assunto fora, e
sabia que se iludia quando esperava um casamento normal. Jamais teria um, pois
foi comprada para um objetivo específico e quando ele conseguisse o herdeiro
que tanto desejava, a mandaria não de volta para o pai como sentia receio, mas
para um lugar distante dele, e no final de tudo acabaria a vida como uma mulher
solitária.

Dessa vez não precisou da ajuda da criada para se vestir e a dispensou antes.
Escovou os cabelos e os enrolou em um coque simples, deixando alguns fios
soltos caírem sobre a testa e a nuca. Tirou os óculos e os guardou em uma caixa
em cima da penteadeira. Estava pronta para encontrar o marido. Tocou a sineta e
Isabelle retornou para ajudá-la a descer as escadas.

Quando cruzaram a porta do salão de jantar principal George veio ao seu


encontro e dispensou a criada de quarto para que pudessem ficar a sós. A

proximidade dele deixou Barbarah sem fôlego, e como ela conseguia enxergá-lo
melhor pôde observar que havia se barbeado e vestia um terno de corte elegante,
fazendo-a se sentir desmazelada perto dele.

— Milorde! – Ela fez uma reverência e ele levou sua delicada mão ao encontro
de seus lábios.

— A aguardava ansiosamente, Barbarah! – Entrelaçaram os braços e seguiram


até uma das cadeiras elegantes e estofadas que guarneciam a maior mesa que a
Winter havia posto os olhos na vida, deixando-a perplexa ao tentar calcular por
alto o número de convidados necessários para ocupar todos os lugares. — Fico
feliz que esteja animada para nosso jantar.

— Oh! – Levou a mão à boca na tentativa de evitar que soltasse alguma


indelicadeza. — Preciso dizer que me sinto estranha aqui. É tão grande e
imponente e o senhor está tão bem-vestido que fico sem graça. – Olhou para
baixo tentando não pensar na simplicidade de suas roupas e na sua falta de
elegância.

— Você está linda! – Disse-lhe pegando-a pela mão.


— Não! Não estou bonita e muito menos vestida da forma apropriada. –

Confessou evitando encará-lo.

— A prefiro assim do que com as roupas da falecida. Talvez um dia eu tenha


coragem de abrir meu coração para explicar o porquê.

— Bem! – Ela puxou a mão para evitar o contato com a dele. — Sou uma
qualquer, uma garota comprada para um objetivo e devo servi-lo da melhor
maneira. Me falta elegância e até roupas apropriadas, mas talvez possa entretê-lo
com uma boa conversa durante a refeição. – Ergueu a cabeça e sorriu, disposta a
dar um fim no mal-estar que ela mesma havia ocasionado.

Não desperdiçaria a oportunidade de conhecer melhor o marido apenas porque


se sentia uma intrusa ali naquela sala suntuosa, repleta de obras de arte e louças
caras.

Mas foi surpreendida por George ao se levantar e se livrar de parte de seu


impecável traje. Retirou a casaca e o colete que o fazia um nobre intimidante.

Após abrir os botões dos punhos da camisa engomada, arregaçou as mangas e se


livrou do lenço, abrindo alguns dos botões da camisa.

— Agora sim estamos mais parecidos! – Voltou a se sentar, mas não na


cabeceira da mesa como era o esperado para o senhor do castelo, mas ao lado de
Barbarah que sorria encantada com seu gesto. — Confesso que me sinto mais
confortável assim. – Juntou suas mãos com as dela e admirou as covinhas que se
formaram por estar sorrindo para ele.

George bateu a sineta e criados entraram para servir uma sopa de ervilhas como
entrada. Barbarah se sentiu aliviada por não precisar usar garfo e faca sem estar
com os óculos e só não pediu para repetir o prato porque sabia que seria
deselegante.

— Como gosta de ocupar seu tempo livre? – O conde a observava de canto,


considerando que a escolha de ostras como prato principal não havia sido uma
boa ideia.

— Gosto de ler e fazer cálculos. – Ele sorriu com a resposta dela.


Barbarah se revelava uma grande surpresa à medida que a conhecia mais.

Apesar de jovem era uma mulher prática e objetiva e seus gostos nada peculiares
lhe faziam uma excentricidade a ser explorada. — E quanto a ti? O

que gosta de fazer? – Perguntou largando os talhares.

— Também gosto de ler! Gostava de caçar antes do acidente, mas a ausência de


uma mão dificulta as coisas.

— Compreendo! – Piscou sem jeito, considerando a pertinência de perguntar


mais sobre o acidente e decidiu que não era o momento. Barbarah era sim
curiosa e por vezes tal curiosidade tornava-se impertinente.

— As ostras não estão de seu agrado? – Perguntou preocupado por sua falta de
apetite.

— Estão deliciosas, mas já me sinto saciada. – Deu de ombros, tentando


disfarçar a fome que ainda sentia. Preferia evitar errar o prato e ser descoberta
em mais uma das suas mentiras. Comer ostras exigia uma habilidade cuja
ausência dos óculos não ajudava. E Barbarah ainda se recordava da última vez
que foi obrigada a jantar sem eles e a codorna assada foi parar no colo do
importante convidado de seu pai.

Barbarah se esforçava para não envergonhar o marido à mesa, mas não enxergar
direito dificultava e o jantar parecia interminável. Uma constatação

lhe passou pela mente e acabou corando pela vergonha que sentiu: tudo era mais
fácil e simples quando dividia a cama com o conde. Fazer amor com ele não
exigia que ela enxergasse bem e isso lhe era um alívio, além de ser muito
prazeroso.

— Barbarah, falo com você! – Chamou sua atenção e ela se sobressaltou na


cadeira.

— Oh, perdão! Não estava prestando atenção. – Disse envergonhada.

— Dizia que poderíamos subir. – George a fitou esperando por uma resposta e
recebeu um sorriso de volta.
— Claro que podemos! – Respondeu alegre por se livrar de ter que comer a
sobremesa e acabar com o vestido babado.

George puxou a cadeira para ela e os dois de braços dados tomaram o rumo dos
aposentos dela.

— Estive pensando e posso te emprestar alguns dos meus livros. – O

conde falou no exato momento que estava abrindo a porta para a esposa.

— Jura? – Barbarah o fitou com os olhos tão brilhantes que George acabou um
pouco mais encantado pela esposa.

— Sim, eu juro. – Respondeu, deixando-se contagiar por sua inocente alegria.


Ele era capaz de lhe dar o mundo se voltasse a olhá-lo daquela maneira doce. —
Posso? – Perguntou se aproximando dela depois de fechar a porta. Queria tocá-
la, beijá-la na boca e fazer amor com ela. Ele havia tentado se controlar durante
todo o jantar, mas seu jeito cativante o havia feito pensar nela nua o tempo todo.
— Quero te tocar, Barbarah!

— Bem... – Ela se engasgou vítima dos próprios pensamentos, no quanto


adoraria ser tocada por ele. — Você pode me tocar. – Consentiu e o envolveu
pelo pescoço com carinho.

Foi então que a delicadeza e a moderação cederam lugar à uma explosão de


sentimentos. Ele a desejava com todo o querer de sua alma e a paixão nublou
todos seus pensamentos, fazendo colar sua boca na dela, aprofundar o beijo com
a invasão de sua língua, exigindo que ela se entregasse a ele por completo.

Rapidamente, entre beijos e mordidas espalhadas pelo pescoço e colo dela,


George a livrava do vestido velho e se extasiava com aquele corpo cunhado no
calor do pecado para enlouquecê-lo. Beijou-a na barriga, descendo cada vez
mais rumo à sua feminilidade, cada vez mais viciado em seu sabor delirante de
mel silvestre.

— Tão divinamente deliciosa! – Com os dedos abriu o lugar que mais o


fascinava naquele momento e sugou com vontade, fazendo-a jogar a cabeça
contra os travesseiros e pedir por mais.

— Isso que você... Oh, meu Deus, eu gosto tanto! – Deixou escapar como uma
confissão profana, talvez um sacrilégio, mas como poderia se conter quando seu
corpo ardia pelos toques lascivos do marido.

George gostou do que ouviu e aprofundou a carícia, totalmente entorpecido pelo


prazer que sentia por prová-la daquela maneira tão erótica.

A cada lambida que deixava ali, bem no meio das pernas dela, seu membro
tornava-se mais ansioso em assumir o lugar da língua. Afastou-se então para
poder se despir e revelou-se para ela. Barbarah adoraria vê-lo com os óculos para
poder gravar cada pedacinho de seu corpo. Era grande, firme e tão quente ao
tocá-lo que os olhos acabariam encantados pela beleza masculina do marido. Ela
tinha certeza disso.

— Quando você enruga os olhos... Ah, Barbarah, quando você enruga os olhos é
como se algo dentro de mim explodisse. – Ela sorriu e o coração dele ameaçou
parar de bater, o sangue desceu para o meio das pernas e a paixão acabou por
assumir o comando de suas ações.

— Quero tocá-lo! Posso? – Perguntou movida pela curiosidade que sempre a


colocava nas situações mais inusitadas.

— O que faço com você, minha curiosa? – Deitou-se ao lado da esposa e pegou
em sua mão, levando-a até o lugar que tanto desejava explorar.

E aquele aperto delicioso o fez gemer vergonhosamente. Sua esposa o deixava


entorpecido e sua vontade em conhecer os mistérios do prazer o fazia desejá-la
ainda mais. Era uma donzela até outro dia, mas sua ânsia de descobrir e aprender
a deixava atraente.

— Oh... Misericórdia! Não pensei que fosse quente e tão duro! – Soltou

extasiada com sua pequena descoberta e atrevidamente apertou o membro com


vontade.

— Barbarah, cuidado! Está brincando com fogo. – Ele soltou com a voz
embargada, totalmente envolvido pelo prazer que aquelas pequenas e
impertinentes mãos o faziam sentir.

— Diga-me o que devo fazer, por favor! – Exigiu saber, pois se sentia impotente
e queria devolver o prazer que ele havia lhe proporcionado. —
Posso beijá-lo aqui também? – Deslizou a mão pela extensão enrijecida do
membro do marido, fazendo-o urrar pelo prazer que voltou a sentir. Ela o faria
gozar antes da hora se não parasse.

— Em outro momento! – Soltou embevecido com o toque dela.

— Você jura?

E ele consentiu com a cabeça porque era incapaz de negar alguma coisa à sua
jovem, curiosa e doce esposa. Tão meiga e tão valente que não saberia dizer se
conseguiria se manter alheio ao seu charme.

— Toda vez que você me olha com estes lindos olhos azuis e solta

“jura?”, faz meu coração estremecer no peito e meu corpo esquentar de desejo.
Como pode ser tão atrevida e tão inocente ao mesmo tempo?

Não a deixou responder, colocando-se sobre o corpo dela, beijando-a no mesmo


instante em que a penetrou com vontade. Barbarah estava preparada para recebê-
lo e o envolveu com as pernas, deixando-se fundir a ele como se sempre
tivessem sido destinados um para o outro.

Ele se enfiou dentro dela com vontade, pois sabia que ela o desejava, e
movimentou-se com vigor, fazendo-a relaxar e aproveitar o prazer que lhe
tomava aos poucos. Cada estocada era um passo a mais dado em busca do
paraíso. George admirava a entrega da esposa, fazia questão de saciá-la e se
esforçava para compartilhar o mais ardente êxtase. Ele poderia lhe dar prazer e
não negaria isso à sua doce esposa, que merecia mais do que um homem
quebrado e um conde ranzinza.

E o êxtase não demorou a chegar, tornando-os ofegantes e cansados.

— George, sei que jamais terei seu coração, mas ao menos consigo deixá-

lo feliz na cama? – Barbarah perguntou ainda agarrada ao corpo do marido,


como se tivesse medo de que ele a deixasse.

— Minha querida, você é perfeita na cama! – Beijou-lhe na testa, pensando que


não era somente na cama que ela era perfeita.
— Então, durma comigo essa noite. – Pediu com os olhos fechados e ao mirá-la
com os lábios entreabertos e os mamilos inchados pelas carícias que ali deixou
não foi capaz de negar o pedido.

— Só hoje!

— Se me ensinar poderei ser uma boa condessa, George! – Abraçou-o com


ternura, exigindo carinho e cuidado, como se ali sempre houvesse sido seu lugar
e adormeceu lindamente, deixando-o enternecido pela mulher que havia sido
trazida para ele como um refresco para seus dias de miséria.

Sim, George poderia dormir junto dela e despertar com seu sorriso cativante.
Poderia também voltar a amá-la ao amanhecer. Faria isso. E

entregou-se ao sono sem medo de ter pesadelos pela primeira vez depois de anos
de solidão e angústia.

BARBARAH ESTAVA ANIMADA com seu novo guarda-roupa embora nunca


lhe importasse muito o fato de estar na última moda. Mas era uma condessa e
acreditava que estar vestida como uma a ajudaria a ser respeitada.

Sentia-se feliz também pelo fato de que o marido apreciava sua companhia não
somente na cama. Ainda não tinha o casamento dos sonhos, mas estava em
melhor situação ali com George do que na companhia do pai, um homem que
decidiu vender as filhas para maridos que pudessem lhe pagar e nem sequer
ousava imaginar o quanto havia lucrado com os casamentos das filhas.
Não duvidava de que poderia tê-las vendido por uma bagatela.

A caçula dos Winter não conseguia esquecer a tristeza que atingiu sua família
quando a mãe morreu vítima de uma gripe mal curada. Pobre Edith, vivia pelo
marido e pelas filhas, dedicando-se à exaustão ao ofício de lavadeira, o qual
ajudava a pagar algumas regalias e uma educação melhor para que as filhas
pudessem ter um ofício mais digno.

E tudo se encaixava perfeitamente dentro da cabeça de Barbarah depois de ter


descoberto a verdade por trás de seus promissores casamentos. Cada reclamação
do pai por não ter tido um filho homem, a implicância com sua miopia e os
julgamentos dolorosos que ela e as irmãs tinham que enfrentar por não
conseguirem matrimônios, tudo havia desembocado na ideia de casá-

las a troco de dinheiro.

— A senhora não gostou dos vestidos? – Isabelle a olhava séria, possivelmente


estranhando a falta de ânimo da patroa com seus novos vestidos.

— São maravilhosos. Estava apenas pensando em minhas irmãs. – Secou uma


lágrima que teimou em escorrer. Barbarah evitava pensar muito sobre os últimos
acontecimentos.

— Compreendo! – A criada respondeu, mas não parecia estar convencida.

— A senhora ficou sabendo do surto de escorbuto entre as crianças do vilarejo?

— Oh, não! – Barbarah ficou espantada com a notícia e precisava fazer algo para
amenizar o sofrimento dos pequenos. Isso inclusive a ajudaria a esquecer as
dores que sua alma carregava. — Essas crianças precisam comer laranjas,
Isabelle!

— Mas laranjas são caras, milady! – Exclamou.

— Realmente, o preço da saca da laranja está para a hora da morte. –

Soltou ao se recordar da vida penosa que levava junto à família em Londres e a


Cornualha parecia não estar imune a tal miséria. Ao contrário, ali tudo parecia
ainda pior ao ouvir os relatos dos empregados que lhe contavam os dissabores de
depender dos pescados e das minas cada vez mais escassas em cobre. As
colheitas também não haviam rendido os frutos esperados. — Mas não posso
deixar nossas crianças sucumbirem ao escorbuto sem tentar fazer algo.

E foi assim que Barbarah tomou a decisão de procurar o conde para convencê-lo
a doar algumas sacas de laranjas.

— Está certa de que uma alimentação rica em laranjas ajudará essas crianças a se
curarem? – George olhou para a esposa com curiosidade.

Trajava um de seus novos vestidos e estava radiante discursando sobre os


benefícios da fruta para o tratamento do escorbuto, um mal que já o preocupava
há tempo.

— Claro que sim! Li há dois meses um excelente artigo médico sobre o tema. –
Comentou sorridente. George não devia, mas não conseguia resistir ao charme
da esposa quando se colocava a discursar sobre algum assunto que

a interessava e acabou por se aproximar dela, envolvendo-a pela cintura com as


mãos, atraindo-a para um beijo nada apropriado para aquela hora do dia.

Faltava muito ainda para poder levá-la para o quarto, pensou frustrado.

Barbarah correspondeu ao beijo com entusiasmo e acabou beijando-o de volta


com prazer.

— Aprecio seus beijos, George, mas gostaria de ter sua resposta quanto às
laranjas. – Fitou-o nos olhos e mordeu os lábios, deixando-o duro de desejo.

— Faça o que quiser com as laranjas, Barbarah! – Deu-lhe carta branca, tudo
porque era incapaz de lhe negar um pedido quando feito com tanto ardor. A
efusividade da esposa o fascinava e o modo como ela ousadamente pretendia
convencê-lo o fazia apenas querê-la mais.

— Jura?

— Ah, eu juro! – Respondeu, puxando-a em encontro aos seus lábios, beijando-a


com toda a vontade que tentava controlar em vão. — Juro que a levarei para a
cama antes mesmo do dia terminar se continuar me provocando.

— Oh, milorde! Temo que terei que desapontá-lo, mas tenho laranjas para
distribuir. – Piscou não uma, mas duas vezes como bem percebeu George,
beijando-o em seguida com tanta naturalidade que poderiam ser confundidos
com um casal enamorado.

— Serei trocado pelos inquilinos. – Provocou e ela voltou a rir.

— Muito justo considerando que não se reuniu a mim para jantar nos últimos
dias. – Ele sabia que ela estava querendo barganhar e acabou por soltar uma
gargalhada. — Não ria, George! Posso atrasar minha visita aos inquilinos e subir
contigo para os aposentos, desde que eu seja recompensada.

— Tudo seria mais fácil se nessa barganha me pedisse em troca joias.

Tenho um cofre cheio delas.

— Não quero joias! – Revirou os olhos. — Quero a companhia do meu marido.


Estou entediada de ter que passar os dias à procura do que fazer.

— Penso que tem sido exitosa em tal empreendimento. Vive às voltas com os
problemas dos inquilinos quando deveria se preocupar mais com seu

bem-estar.

— Não tenho me descuidado das minhas obrigações com o senhor. –

George a notou magoada. — Ocorre que não posso passar meu dia deitada ou
sentada porque tenho que me manter descansada para o senhor. – Barbarah se
soltou dos braços do marido, indo em direção à sua mesa de trabalho, onde uma
pilha de papéis e livros contábeis lhe chamaram a atenção. Ela adoraria poder
examinar cada um dos cálculos e até dar sugestões para melhorar a
administração, mas era uma condessa e provavelmente não se esperava que a
senhora do castelo bedelhasse nisso também. O conde já havia concedido muito
ao lhe permitir fazer caridades e cuidar para que todos recebessem sua porção de
laranjas. — Posso então providenciar mais laranjas? – Perguntou.

— Claro que pode. Falarei com o administrador para que as compre em maior
quantidade e vamos ter fé para que sua dica funcione. – Aproximou-se
novamente da esposa e a abraçou pelas costas.

— Nem sei como agradecê-lo! – Virou-se e abraçou-o com alegria para logo em
seguida sair saltitante como uma criança que havia ganhado um presente.

George poderia negar para si o quanto a esposa mexia com seus sentimentos e o
fazia sorrir, mas a atração que ele sentia por ela o deixava feliz. Fazia um mês
que estavam casados e todo dia ela o surpreendia com algo. Era curiosa e cheia
de vida, nem mesmo seu mau humor matinal costumava resistir à doçura de seus
lábios, e acordar ao lado da esposa havia se tornado uma mania.

Sorriu com a lembrança de tê-la nua junto de si e tomou a decisão de que


voltaria a se juntar a ela durante o jantar, mas dispensaria que fosse servido na
sala principal. George desejava algo mais íntimo e ordenaria que a refeição da
noite fosse servida em seu quarto, para evitar também ter que pisar no quarto que
fora da falecida esposa. Quando estava deitado na cama e com Barbarah nos
braços não havia tempo para se preocupar com as recordações que o lugar lhe
trazia, mas poderia ser diferente se resolvesse jantar ali, queria evitar lembrar de
coisas que ainda lhe doíam muito.

Tentou voltar para a conferência dos livros contábeis, mas foi incapaz de se
concentrar quando só conseguia pensar em Barbarah. Fechou-os e partiu

em busca da esposa, talvez conseguisse alcançá-la a tempo de poder ajudá-la


com a entrega das laranjas e sorriu ao se dar conta de que poderia não conhecer
mais os próprios inquilinos. Fazia anos que havia passado tal incumbência ao
administrador do castelo e estranhariam sua presença.

Encontrou Marjorie resmungando no vestíbulo por discordar das ordens da


condessa.

— Não seja uma pessimista, Senhorita Marjorie! – Reprendeu a governanta


porque não era bom que os demais criados ouvissem suas reclamações contra a
nova senhora.

— Perdoe-me, milorde! Mas como laranjas poderão ajudar crianças com


escorbuto?

— Sinceramente, não sei! Mas não nos custa tentar. – Deu o assunto por
encerrado e tomou a direção que lhe indicaram do local onde poderia encontrar a
esposa.

Barbarah havia organizado na ala central do jardim do castelo uma espécie de


banca, onde com a ajuda de alguns criados da cozinha entregava sacolas de
laranjas para as mães das crianças doentes. As mangas do impecável vestido de
renda haviam sido arregaçadas e o penteado que havia sido preso com tanto
cuidado horas antes tentava se soltar em sua base. E

apesar do desmazelo ele só conseguia admirá-la, fazendo-o lembrar de uma gata


selvagem.

Ficou ali por alguns minutos, apenas a contemplando como uma obra de arte
preciosa. Os raios de sol iluminavam seus cabelos e alguns pingos de suor
teimavam em lhe escorrer pelo rosto. Vivienne jamais havia tomado tanta
intimidade com os inquilinos e não ousaria manter tanta camaradagem com os
criados. Mas Barbarah sorria e trocava gracejos com todos, deixando-os felizes e
realizados.

— Milorde! – Uma das inquilinas mais velhas o reconheceu e esbugalhou os


olhos, apavorando as demais que se curvaram em uma reverência.

— George, que bom que resolveu se juntar a nós! – Barbarah o puxou para o
meio do alarde entregando-lhe alguns sacos para que pudesse ajudá-la.

— Iremos precisar de mais laranjas e estive pensando em doar algumas sacas

aos mineiros de Westfire. Os pobres também padecem de escorbuto.

— Barbarah, Westfire não está sob minha administração desde que assinei o
contrato de concessão das minas. – Lembrou-a George intrigado.

— Mas estão nas terras do condado. – Retrucou com propriedade.

— Sim, mas assinei um contrato com a companhia inglesa de mineração e não


pretendo me envolver com os mineiros. – Tentou não se zangar com a sugestão
da esposa.

— Oh, meu Deus! Como pode deixá-los assim à mercê dos burgueses?

Serão apenas mais algumas sacas de laranjas. – Ela não desistiria, pensou
cansado e acabou concordando com aquela ideia maluca de transformar Carrick
em um polo distribuidor de laranjas.
Apesar de parecer algo de outro mundo e distante da rotina que vinha levando
nos últimos anos, George se divertiu e apreciou a companhia divertida da esposa,
que conversava e ria descontraidamente com os inquilinos. Barbarah era como
um sopro de vida em meio ao caos que era sua alma atormentada por um
passado de tragédias. Fazia muito tempo que o conde não aparecia para seus
inquilinos e a experiência foi gratificante porque ela estava ao seu lado,
amenizando o mal-estar que poderia ter ocorrido ou mesmo evitando
comentários e julgamentos que ele sabia que seu povo fazia.

— Estou cansada! – Barbarah se jogou em uma das poltronas da sala principal


do castelo para aguardar pelo refresco que havia pedido, sentindo uma leve dor
de cabeça por ter forçado a visão. — E com muita sede.

— Os inquilinos gostaram de ti. – George a fitou em expectativa.

— Plebeus sempre reconhecerão outros plebeus. – Deixou os ombros cair.

— Não é apenas isso, Barbarah, e você sabe disso.

— Talvez eu possa saber, mas estou muito emotiva para falar a respeito. –

Confessou com o olhar perdido para um quadro medieval que ficava exposto em
uma das paredes, tornando o ambiente austero e masculino. — Bem, acredito
que estou naquele período em que as mulheres precisam se recolher.

Falhei nas primeiras tentativas de te dar um herdeiro, George.

Então era isso, pensou o conde mais feliz do que supunha ficar com a notícia.
Havia comprado uma esposa para com ela ter um filho e deveria ter ficado no
mínimo desapontado pelo fato de que teriam que continuar tentando. Mas não
estava, tudo porque ele a queria mais tempo junto dele.

— Deveria estar muito frustrado! – George se aproximou da esposa e sentou-se


ao seu lado, acariciando com o dorso da mão seu rosto de anjo. —

Ao contrário, fico feliz que não esteja grávida, assim poderei desfrutar mais um
pouco de sua companhia. – Ela sorriu e foi o momento mais sublime de seu dia.
DIAS DEPOIS, QUANDO Barbarah já se sentia mais disposta, ela voltou a
receber a visita do marido durante a noite e o fato de ele ter voltado a se reunir
com ela no jantar a deixava muito feliz. Eles se amavam todas as noites e aquilo
a deixava tocada de diversas maneiras, era como se os laços entre eles pudessem
se estreitar mais a cada noite que passavam juntos.

George estava satisfeito com a vida de casado, mas ainda relutava em aceitar que
estava se apaixonando pela esposa. Barbarah conseguia amolecê-

lo de uma maneira que espantava os criados mais próximos. A pequena curiosa


havia trazido luz para o castelo e para a vida de seu senhor e todos acreditavam
que uma nova era estava se iniciando em Carrick.

Porém, Barbarah ainda nutria desconfianças e o medo de ser enviada de volta ao


pai se falhasse em dar ao marido um herdeiro a atormentava. Não podia obrigá-
lo a se apaixonar por ela quando seu coração era de outra, uma defunta que
jamais poderia preencher o vazio de sua existência. Aquilo a deixava frustrada e
cansada, pois competir com uma morta era muito injusto.

— Em que posso ajudá-la, milady? – Barbarah se assustou com a súbita chegada


do mordomo.

— Estou apenas passeando. – Respondeu educadamente. — Aproveito para


agradecê-lo pelos óculos. Tem sido de grande utilidade. – Sorriu.

— Fico feliz em poder ajudá-la! – Fez uma reverência. — A senhora deveria


evitar este lado do castelo.

— Oh! Em razão do fantasma de Lady Vivienne, não é? – Deixou-se levar pela


curiosidade.

— Não acredito em fantasmas, milady! Não como as pessoas se referem.

Mas este lugar ficou marcado por uma tragédia que abalou a todo castelo. Foi
nesta escadaria que a falecida condessa caiu e perdeu a vida levando consigo o
herdeiro. Foi no salão desta ala que o conde perdeu sua mão.

— Misericórdia! Tudo aconteceu aqui? – Ergueu as mãos para o alto, um reflexo


da surpresa que a tomou. — Conte-me, Geofrey, como tudo aconteceu?

— Se pudesse compreender o que aconteceu naquele fatídico dia eu contaria.


Infelizmente, sei pouco sobre o ocorrido.

— Que lástima! – Barbarah soltou um suspiro. Daria um dedinho para saber


mais sobre como a primeira esposa do marido havia morrido. —

Duvido que Lorde George aceite me contar. É sempre tão reservado quanto ao
tema.

— Devo acompanhá-la de volta à ala oeste que é mais segura. – O

mordomo sugeriu e Barbarah acatou, conformada com o fim da conversa mesmo


que as dúvidas ainda pairassem em sua mente.

Chegando próximo a escadaria da ala oeste Barbarah encontrou o marido com


um semblante carregado de preocupação.

— Onde esteve? – Perguntou com a voz irritada.

— Estava passeando pelos corredores do castelo. É tão grande e imponente que


não resisto à vontade de explorá-lo. Precisa compreender que nunca estive em
um castelo e tudo é muito fascinante. – Foi sincera, mas acabou por irritar ainda
mais o marido.

— A ala leste é proibida para ti, Barbarah! Já mencionei que a acho muito
perigosa, considerando que foi construída na Idade Média e não passa por
reformas há muito tempo.

— Nada de mal me aconteceu, George! – Aproximou-se do conde e o

tocou no braço. Era uma carinho que sempre o acalmava e ela sabia disso como
a pequena prepotente que havia se transformado. — Estava entediada e pensei
em dar uma volta. Como foi sua reunião com Lorde Treaner?

Chegaram em algum consenso?

— Não mude de assunto! Não a quero na ala leste, especialmente quando estiver
grávida. – Deu-lhe as costas, fazendo-a se sentir uma criança birrenta, e isso ela
não iria admitir.

— Por que não posso me aventurar na ala leste? Oh, claro, talvez porque foi lá
onde tudo aconteceu. Por Deus, George! Precisa me contar o que aconteceu com
Lady Vivienne e o bebê que ela esperava... O que aconteceu com sua mão! –
Soltou exasperada.

— Por que, Barbarah, não consegue evitar de colocar o nariz onde não é
chamada? – Retrucou com desdém.

— Talvez porque me importe contigo! Talvez porque o enxergue além do


homem que se deita toda noite comigo e que será o pai do meu filho. Não
percebe que eu me importo com você, com o que sente? – Desabafou. —

Talvez eu não tenha o direito de me importar, mas não consigo evitar o


sentimento que sinto por você!

— Não pode me amar!

— Muito simples falar quando não é seu coração que bate mais forte por um
homem que te repudia. Não me permite nem tentar chegar perto dele.

Misericórdia, George, o que te fizeram? – Barbarah não conseguia mais conter


as perguntas que estavam engasgadas e simplesmente deixou-as sair sem se
importar com a impertinência do lugar ou do momento.

— A pergunta correta é: o que eu fiz para os outros?! – Aproximou-se


novamente da esposa e a puxou para um abraço apertado. — Não quero te trazer
para dentro da minha miséria.

— Não tenho medo da miséria! Vivia muito próximo dela há pouco tempo. –
Encostou a cabeça em seu peito e ficou ali ouvindo as batidas fortes do coração
do marido.

— Não é desse tipo de miséria que falo, minha querida! Mas de uma pior, de
difícil livramento: a miséria da alma. – Foi sincero e recebeu em troca um

sorriso que iluminou seu dia.

— Não há miséria capaz de perdurar quando o amor quer vingar. –

Encostou a mão no peito do conde. — Deixe seu coração bater pelas coisas boas
que a vida pode te oferecer. – Sorriu novamente e ficou nas pontas dos pés a fim
de encostar seus lábios nos dele.

— Está sugerindo que você é a coisa boa que a vida me trouxe? – Ela piscou
fingindo falsa inocência.

— Bem, não sou exatamente o melhor exemplo de coisa boa, mas foi o que a
vida lhe ofereceu no momento. Não sou uma dama e nem tenho sangue azul, sei
que sou xereta demais, mas gosto de você, o que me parece ser um bom começo
para te convencer de que a vida pode te oferecer coisas boas.

— Maldição, Barbarah, o que faço com você?

— Estou pensando na possibilidade de pularmos o jantar e nos recolhermos em


meus aposentos imediatamente. – Esfregou-se no corpo do marido, uma ousadia
que o pegou de surpresa. Jamais imaginaria que conseguisse chegar tão longe em
um flerte.

George sequer pensou em recusar a proposta da esposa e a pegou nos braços,


conduzindo-a até os aposentos, onde pretendia passar a noite amando-a,
deixando-se ser tocado pelas coisas boas da vida, por sua petulante, abelhuda e
irresistível Barbarah.

Trancou a porta do quarto e deu ordens para que ninguém os incomodasse, nem
mesmo se tratando de um caso de vida e morte. George precisava apagar o fogo
que o consumia provando do sabor da esposa.
Precisava esquecer as dores da alma entregando-se ao prazer nos braços da
mulher que estava transformando seu mundo, que conseguia enxergá-lo além das
feridas que carregava consigo durante anos.

— Seu novo guarda-roupa a deixou ainda mais bela. – Quis elogiá-la, mas ela
torceu o nariz em sinal de que não acreditava.

— Ajudou um pouco, mas falta muito para me tornar digna de ser a esposa de
um conde. – Ele tentou interrompê-la, mas ela não deixou, calando-o com um
beijo. — Não tente consertar o que disse ou fez no passado. É

inútil, tenho memória de elefante e não esqueço facilmente das coisas.

— A isso damos o nome de ressentimento.

— Prefiro usar a expressão memória de elefante. E digo mais! – Fitou-lhe nos


olhos. — Uma memória somente pode ser substituída por outra. – Ele a ajudava
a se livrar do espartilho.

— Dedicarei meus dias a substituir tal memória por outra mais agradável.

– Beijou-lhe no colo, sempre tentando seduzi-la.

— Não esperava menos de um conde. – Soltou uma risadinha marota que o


aqueceu, deixando-o duro e pronto para possuí-la.

— Gosta de seus vestidos novos, de sua nova vida como condessa? –

Atreveu-se a perguntar, uma ousadia que somente Barbarah conseguia impeli-lo


a praticar.

— Há coisas que me fascinam na minha nova vida e tento me agarrar a elas para
suportar as desilusões que passei, mas há outras que não me são tão agradáveis,
como ter que usar espartilhos tão apertados e forquilhas de cabelo que lembram
mais agulhas afiadas. Aprecio muito a banheira de louça! Não é nada agradável
se banhar em uma tina mofada. Mas sinto falta de minhas irmãs e creio que
nenhum banho perfumado é capaz de amenizar a dor da saudade.

— Nem se eu considerar me juntar a ti na banheira?


— Oh, você faria isso por mim? – Ela o envolveu pelo pescoço, beijando-o
primeiro nas bochechas, depois na boca. George sempre acabava encantado com
o jeito espevitado da esposa, que demonstrava os sentimentos de forma tão
genuína que fazia seu coração acelerar no peito. Nunca esteve com uma mulher
tão autêntica e cheia de vida, tão resiliente e capaz de tirar proveito das próprias
dificuldades. — Não tema quanto a sua mão! – Ela olhou para a prótese de
couro. Sei que resiste a ideia de tirá-la diante de mim, mas eu juro que não o
julgarei... Bem, eu posso fazer algumas perguntas, porque minha curiosidade é
mais forte do que minha determinação de não fazê-las. – E os papéis acabavam
de se inverter. Barbarah o seduzia descaradamente, colocando-se em cima do
corpo do marido, determinada a desnudá-lo por completo. — Deixe-me ver
você! – Pediu com os olhos de um azul tão único e brilhante que George apenas
concordou com a cabeça.

Aos poucos, peça por peça, Barbarah o livrou de todas as roupas e quando
chegou à prótese de couro, soltou um longo suspiro e a retirou com cuidado.

Ele fechou os olhos, sentindo o pavor lhe envolver. Sentia medo de que ela
sentisse repulsa por ele, mas acabou surpreendido por um beijo inesperado na
cicatriz que sempre o lembraria do dia em que teve que decidir entre uma mão e
a sua vida.

— Não precisava fazer isso! – Soltou, sentindo o corpo mais leve, o coração
mais quieto e a paz que lhe invadia por ter percebido que ela não o desprezava.

— Mas o fiz porque eu desejei. Não precisa se envergonhar, George! A ausência


de uma mão não o faz menos homem, talvez diferente.

— É preciosa para mim, Barbarah! – Declarou e assumiu o controle novamente,


rodando de modo que ele ficasse por cima do corpo dela e pudesse livrá-la das
peças íntimas que ainda a envolviam. Queria-a nua.

— Mesmo sendo uma abelhuda?! – Perguntou entre gargalhadas ocasionadas


pelas cócegas que a barba dele deixava em sua barriga. — Não sou perfeita e um
dia conhecerá todos os meus defeitos.

— Duvido disso! – Avançou mais para baixo, colocando-se no meio das pernas
dela.

Barbarah tentou afastar do pensamento a verdade sobre sua visão, sentindo-se


mal por exigir que ele se revelasse quando ela não conseguia fazer o mesmo.
Mas um dia ela contaria a ele que precisava de óculos que a deixavam feia para
poder enxergar e esperava que ele também a aceitasse.

As preocupações sumiram por completo quando ele se colocou dentro dela, duro
e exigente, beijando-a com vontade, deixando-a amolecida. Havia tantas coisas
entre eles para separá-los. Não viviam um casamento comum e talvez não
pudessem ter um, considerando que George a havia comprado.

Mas quando se amavam e buscavam pelo êxtase sexual, eles eram felizes.

Barbarah desejava muito dessa felicidade e se empenhava para que ele sentisse a
mesma urgência que a arrebatava.

— Mais forte! – Ela ousou pedir, dando voz aos impulsos, não se importando
com o fato de que uma dama não agiria de forma tão descarada.

Não era uma dama, diabos, então para que tentar se controlar?!

George atendeu ao pedido da esposa com furor, avançando para dentro do corpo
dela com ardor, exigindo mais do que ela poderia lhe dar, e entregou-se ao sabor
de prová-la por inteira. Arremeteu uma, duas, mais dez vezes dentro dela,
invadindo-a com estocadas fortes, trazendo-a para dentro de um mundo de
luxúria e desejo, onde os sentimentos acabavam aguçados pelo prazer que
compartilhavam.

Ela gemeu e suspirou em busca de sua boca, entregue a um frenesi que o deixava
enlouquecido de desejo. As unhas dela o arranhavam nas costas e a loucura do
que viviam era intensificada pela potência da paixão que ele sentia.

Não poderia ser amor, pensou George. O que viviam era puramente carnal e,
com o tempo, suavizaria a ponto de ser controlado, acreditou tolamente.

— Tomaremos banho, minha querida! E repetiremos tudo de novo. –

Pegou-a pelo queixo e se afundou dentro dela pela última vez, deixando que a
volúpia controlasse suas ações para que o prazer pudesse chegar para ambos.

E chegou como um elixir da paz. Nos braços de uma simples plebeia, um conde
havia encontrado a placidez que sua alma clamava e o mundo poderia acabar
naquele momento que ele não se importaria.

QUANTO MAIS BARBARAH ouvia os relatos sobre a ala leste do castelo,


mais curiosa ela ficava e com mais vontade de desvendar os mistérios que ali
eram guardados. Iniciou, então, uma busca interminável por informações e
estava decidida a descobrir o que havia acontecido com Lady Vivienne. Mas
apenas conseguiu reunir um punhado de informações desencontradas que
poderiam facilmente passar por fofocas da criadagem.

E quem de fato poderia ajudá-la não estava disposta a cooperar. A implicância da


governanta com sua pessoa havia deixado Barbarah mais atenta e ela acreditava
que Marjorie escondia coisas inclusive do patrão.

Alguns acontecimentos relatados pelos criados não batiam com as datas


mencionadas pela governanta, revelando um esforço para esconder a verdade.

Barbarah havia crescido entre comerciantes e isso a havia feito enxergar as


pessoas com outros olhos e a decifrá-las através de seus gestos. Por essa razão,
Marjorie não lhe demonstrava confiança. Mas evitava conversar com o marido
sobre isso, pois sabia que iria preocupá-lo à toa, já que não tinha provas das
artimanhas da empregada. George a tinha por uma irmã e dificilmente acreditaria
na palavra da esposa que lhe era uma desconhecida até outro dia.

Naquela tarde em especial, depois de percorrer a ala leste sorrateiramente em


busca de pistas, Barbarah foi ao encontro do marido com seu melhor traje
para se despedir dele, desgostosa por ele não querer acompanhá-la na recepção
oferecida por Lady Treaner. Seria a primeira aparição de Barbarah como
condessa, além de receber uma homenagem pela iniciativa exitosa de oferecer
laranjas às crianças com escorbuto.

— Dará tudo certo, querida! – Beijou-lhe na testa.

— Não estou tão segura disso, George! Envia-me para a cova dos leões e ainda
me deseja sorte. – Reclamou a condessa.

— Se há alguém que pode enfrentar os leões é você, Barbarah! E não me sinto à


vontade em eventos sociais desde que perdi a mão. – Foi verdadeiro.

— Estaria contigo, sempre ao seu lado.

— Como uma verdadeira heroína?! – Ele sorriu e ela o abraçou, não se


importando em amassar o elegante vestido que usava ou desarrumar o penteado
como Vivienne.

— Me basta ser sua esposa. – Ergueu o rosto e o beijou. — Não nasci para ser a
esposa de um conde, imagine ter que desempenhar o papel de condessa em um
evento tão elegante. Mal tive oportunidade de conhecer tua madrinha.

— A conquistou quando tomou a decisão de praticar a caridade com as crianças.


– George voltou a beijá-la com vontade, aprofundando o contato que o deixava
desejoso por mais.

Acompanhou-a até a carruagem e despediu-se da esposa com carinho. Os criados


os observavam de longe e alguns cochichavam clandestinamente que o patrão
havia se apaixonado pela jovem esposa. Já Marjorie sentia-se humilhada por ter
sido preterida por George no passado, simplesmente pelo motivo de que não era
uma nobre. Mas ela sabia que na época o jovem conde estava deslumbrado por
uma francesa e não media esforços para disputá-la com o primo. Acabou se
casando com Vivienne, saindo vitorioso de uma espécie de aposta tácita que
havia feito com Lorde Henry. E a governanta havia se conformado, ou tentado se
conformar, com seu destino como criada no castelo. Porém, a chegada da plebeia
que todos comentavam ter sido comprada em um leilão em Londres a deixou
desgostosa, fazendo com que todas as mágoas ressurgissem dentro do seu peito.

— Perdoe-me a intromissão, Lorde George! O senhor tem certeza de que ela


conseguirá representá-lo em um dos eventos de Lady Treaner? – Marjorie ousou
se intrometer no assunto no qual não era bem-vinda e o conde a encarou com
desdém.

— É claro que sim! Tenho acompanhado os esforços de minha esposa para se


tornar uma dama. É inteligente e aprende rápido. – Respondeu a contragosto.

— Mas sua origem... Bem, sua origem é humilde e creio... – Acabou


interrompida.

— Creio que não é de sua incumbência se preocupar com a origem humilde de


minha esposa e muito menos quanto a sua capacidade de representar o título. –
Deu por encerrado o assunto, voltando para o interior do castelo e deixando-a
irritada para trás. Marjorie não iria suportar tamanha humilhação e sua cabeça já
traquinava uma forma de punir Barbarah por ter ousado querer conquistar o
coração do conde para si.

Mas George não era capaz de perceber o sentimento de despeito que sua
governanta nutria pela nova esposa, nem sequer se dar conta de que Barbarah
corria perigo estando na mira de mulher tão vingativa. Simplesmente, estava
muito envolvido com a paixão que a Winter lhe despertava e cada vez mais
atraído por ela para se dar conta de que Marjorie desejava ocupar o lugar dela
em sua vida.

Tentou se envolver com o trabalho para esquecê-la por alguns minutos, chegou a
abrir um livro sobre o cultivo de laranjas a fim de tentar plantá-las em Carrick e
assim resolver de vez o problema de escorbuto das crianças.

Infelizmente nada foi capaz de afastá-la dos pensamentos dele. Queria-a muito
para imaginar que poderia ser vítima de alguma língua afiada. A nobreza
costumava ser desprezível com os plebeus e poderiam sim machucá-

la com comentários destemperados.

George sabia que Barbarah era capaz de se defender e ainda tirar proveito de
possível situação constrangedora. Não conseguia vê-la como uma mulher frágil e
indefesa sendo massacrada por um bando de mulheres cujo passatempo favorito
era se autoafirmar a partir da humilhação de outros.

Mesmo assim ele se preocupava com a esposa e se sentia um miserável por


tê-la deixado sozinha em sua primeira aparição como condessa, considerando
ainda que não tiveram um casamento pomposo, sem convidados, contando
apenas com a presença de seu advogado e criados.

Definitivamente Barbarah iria ser massacrada pelas línguas mais ferozes da


região e nem a cortesia e influência de sua madrinha seriam capazes de detê-las.

Terminou de beber seu cálice de vinho e foi ao encontro do valete para que
separasse um dos seus trajes de gala. Obviamente, o criado torceu o nariz ao
acreditar que não haveria um traje de gala à altura de um conde. Haviam se
passado vários anos desde que esteve em um evento da sociedade e verdade
fosse dita, talvez nenhum dos seus trajes ainda lhe caísse bem.

De tanto procurar e provar, acabou decidindo pelo fraque usado em seu primeiro
casamento. Foi o único que lhe serviu, embora aquela vestimenta não lhe
trouxesse boas recordações, nem más para ser justo consigo mesmo.

Apenas o deixou desconfortável e determinado a encomendar novos conjuntos


com o alfaiate. Faria qualquer esforço para manter Barbarah segura.

Uma carruagem foi imediatamente preparada para levá-lo à propriedade dos


Treaner, que ficava a 20 minutos de Carrick, e com a prepotência de um conde
com séculos de influência que seu sobrenome carregava, George foi anunciado e
todos os convidados de sua madrinha o olharam com espanto.

Eram quase dez anos que ele não se mostrava em sociedade e um alarde de
murmurinhos se formou rapidamente.
Mas o Conde de Carrick não se importava com nada além de sua esposa e a
procurou com os olhos até encontrá-la. Um furor se formou dentro dele, um
misto de alívio e raiva, quando reconheceu o homem que a pajeava
descaradamente. A visão lhe ficou turva e sem perda de tempo foi para junto de
Barbarah e se colocou ao lado dela, depositando a prótese em suas costas.

— George! – Ela sorriu ao ver o marido. — Fico feliz que tenha mudado de
ideia!

— É uma homenagem à minha esposa e não poderia perdê-la. – Puxou-a


possessivamente para perto do seu corpo, sem desgrudar os olhos do homem

que o encarava curioso. — Então, resolveu retornar à Cornualha, primo?!

— Tempos difíceis para os nobres na França com uma revolução em marcha. –


Henry respondeu com um sorriso grudado nos lábios que irritava George. —
Parabéns pelo casamento! Lady Barbarah é um espírito vivaz e uma ótima
companhia. – O conde apertou a mão em punho, tentando controlar a vontade de
ensiná-lo uma lição. — Foi uma grande surpresa descobrir que havia se casado
novamente depois de jurar que jamais o faria novamente. Como esquecer a
devoção que sentia por Lady Vivienne?!

— As obrigações com o condado exigiram. – Passou a mão nos cabelos e


Barbarah se sentiu desconfortável com o diálogo mantido entre os dois
cavalheiros. — Não permitiria que Carrick ficasse sem um herdeiro. – Sorriu,
sentindo-se vitorioso por ter deixado claro que o título jamais seria dele. —

Perdoe-me, primo, mas precisamos cumprimentar Lorde e Lady Treaner.

Barbarah se inclinou em uma reverência impecável e foi pajeada pelo marido até
os anfitriões da noite, sentindo-se deslocada e envergonhada por sua situação ser
exposta como uma vingança que o marido queria impor ao primo. Não era uma
tola para não ter percebido a troca de farpas entre os dois e o fato de ter sido
usada para que um pudesse atingir ao outro com tanta sordidez a fez se sentir
humilhada novamente.

No entanto, manteve-se calada durante o restante da recepção e sorriu aos


presentes como uma perfeita dama faria, agradecendo o fato de que em
encontros do tipo marido e esposa passavam a maior parte do tempo mais
separados do que juntos. Caso contrário, acabaria confrontando George com
perguntas nada apropriadas para a ocasião e não desejava dar mais motivos para
que toda a nobreza comentasse a falta de modos da nova Condessa de Carrick. Já
haviam chamado muita atenção por terem chegado separados.

Cansada e com uma dor de cabeça que lhe martelava a cabeça por estar sem os
óculos, Barbarah pediu para ir para casa, e quando pisaram no castelo George
resolveu acabar com o silêncio com uma reprimenda que ela não merecia.

— Jamais volte a se aproximar do meu primo novamente. – Pegou-a pelo braço,


forçando que ela lhe encarasse. — Henry não é uma boa influência para você
que não está habituada com os jogos da nobreza.

— Como? – Ela piscou confusa com a prepotência do marido. Havia sido


comprada sim, mas estava longe de aceitar se converter em uma escrava sem
vontade própria.

— Não gostei de surpreendê-la na companhia do meu primo, Barbarah. –

Insistiu e ela puxou o braço para evitar o contato com o marido.

— O que queria que eu fizesse? Fui apresentada a ele e mal tivemos tempo de
trocar algumas palavras. Tentei ser gentil como uma dama seria para não o
envergonhar. Mas se queria que eu tivesse sido hostil com um dos seus parentes
ou amigos precisava ter me instruído. Além do mais, como pode exigir algo de
mim se me deixou sozinha? Nada pode exigir de mim quando não se dispôs a me
acompanhar. – Deu-lhe as costas.

— Barbarah... Inferno, mulher! – Seguiu-a escadas acima. — Eu fui ao seu


encontro.

— Para confirmar suas suspeitas quanto ao meu fracasso como uma condessa. –
Ele tentou falar, mas ela o interrompeu por estar furiosa. — Não costumo
apreciar ser humilhada diante de estranhos. Que tola eu sou, não é?!

Sempre serei a esposa comprada para que possa cumprir com suas obrigações de
deixar um herdeiro para o título e assim Lorde Henry não poder ficar com ele e
com Carrick.

— Diabos, não foi isso! – Soltou frustrado e ela tentou lhe bater a porta na cara.
— Não pode me evitar, Barbarah... Eu e Henry dividimos um passado pouco
agradável e é praticamente impossível não o confrontar.

— Isso não justifica ter me usado para atingi-lo. Sinto alertá-lo de que não
comprou um objeto, e sim uma pessoa! De carne, ossos e sentimentos. –

Ergueu o rosto e encarou-o com lágrimas nos olhos.

— Ouça-me, querida! – O nervosismo lhe tomava as faces e o fazia tremer como


um menino encurralado. George precisava abrir seu coração ou tentar abri-lo
para não perder a esposa para sempre. Haviam construído uma cumplicidade que
não estava disposto a abrir mão, pois havia lhe devolvido a vontade de viver.
Respirou fundo e a olhou com ternura. — Foi Henry o responsável pela perda de
minha mão. Por favor, não me pergunte mais nada e apenas me deixe abraçá-la.
Ainda não estou preparado para lhe contar tudo

o que aconteceu.

— Oh, meu Deus, George! – Ela correu para os braços do marido e o abraçou
com carinho. — Eu não sabia disso. Perdoe-me!

— Não tinha a obrigação de saber! E por isso sou eu quem deve pedir desculpas
pelo comportamento hostil. Você não tem culpa do que nos aconteceu no
passado e não merece ser usada para atingi-lo.

— Vai ficar tudo bem, promete? – Barbarah queria embalá-lo no colo, curá-lo de
todas as dores que sentia, espantar os fantasmas que o impediam de ser
completamente dela.

— Prometo! – Encostou os lábios nos dela e a levou nos braços até a cama,
sempre em busca da paz que só ela era capaz de dar.
GEORGE SABIA QUE precisava contar a verdade sobre a morte da primeira
esposa para Barbarah e assim evitar que ela o julgasse um monstro como todos
sempre haviam feito até então. Ele não se importava com o que falavam a seu
respeito e preferiu assumir a culpa dos acontecimentos ocorridos há quase dez
anos ao invés de macular a memória da falecida condessa.

Porém, dessa vez não estava disposto a perder o carinho de Barbarah, a mulher
que havia lhe trazido novamente para a luz. Não suportaria ser desprezado por
ela. Tudo havia saído ao contrário do que fora planejado e aquilo que deveria ter
sido um casamento para atender uma obrigação com as gerações dos Hosken
transformou-se numa felicidade que há muito não sentia.

E por mais que soubesse que o melhor era enviá-la para uma das propriedades
depois que lhe desse o tão desejado herdeiro, para o bem dela, ele só fazia querê-
la ainda mais perto. Dormiam todas as noites juntos, desfrutavam de banhos
relaxantes e jantavam praticamente todas as noites um na companhia do outro;
eram encontros permeados de conversas interessantes e risos fáceis. Barbarah
havia se infiltrado aos poucos em sua rotina e sua inteligência genuína a tornava
um verdadeiro vício.

George considerou a ideia de que a amava, mas tentava afastá-la dos

pensamentos por ainda ser relutante em acreditar que merecia tamanha


felicidade. O peso de suas decisões no passado ainda o atormentavam e não
queria trazê-la para dentro de uma vida de amarguras e culpas. Barbarah não
merecia ser obrigada a viver no meio de tanta dor e decepção.

— George! – Bastava ele pensar na esposa que ela surgia como um sopro de
vida. Sorriu ao vê-la cruzando a porta de seu gabinete. Era uma xereta e jamais
havia conseguido cumprir a ordem de não interrompê-lo quando estava na
biblioteca. — Por Deus, George! Precisa fazer algo pelo namorado de Isabelle.

— Que diabos aconteceu com o namorado de tua criada de quarto? E por que
tem que ser eu a resolver o problema? – Perguntou, recebendo-a nos braços.

— Oras, porque você é um conde e o Senhor do Castelo. – Revirou os olhos


como se ele houvesse cometido uma falha imperdoável.

— Sim, mas não posso resolver o problema de todo mundo.

— Não estou te pedindo para que resolva o problema de todo mundo, só de


Isabelle. – Abriu as covinhas que sempre o convenciam a fazer o que ela pedia.
— O pobre garoto terá que deixar o vilarejo porque precisa de um emprego
melhor.

— Assim como outros já fizeram! – George respondeu confuso.

— Mas ele não pode deixá-la com um filho na barriga. – Soltou agoniada.

— Isabelle espera um bebê e os dois estão apavorados porque ele ganha pouco
como assistente do ferreiro e, então, eu pensei que você poderia ter seu próprio
ferreiro.

— Mas isso não agradará ao ferreiro, Barbarah!

— Será uma boa lição para aquele ferreiro barrigudo! – George acabou soltando
uma gargalhada. — Isabelle me contou que a maior parte do serviço fica por
conta de Mark.

— E quem é Mark?

— O namorado de Isabelle, é lógico! – Separou-se dele e foi para perto de uma


das prateleiras de livros. — Hum, terá que me emprestar este daqui. –

Tirou um livro da estante e passou a mão pela capa de couro.


— Nem pense que a deixarei ler O Príncipe de Maquiavel! – Foi para junto da
esposa e pegou o livro de suas mãos, devolvendo-o para o seu lugar.

— Oh, por que não? – Perguntou indignada.

— Já me dá trabalho o suficiente assim, imagine se sofrer a influência das ideias


de Maquiavel. Estarei perdido! – Envolveu-a pela cintura e a beijou na boca.

— Um dia eu o lerei, pode estar certo disso, mas não hoje! Tenho um assunto
mais importante para tratar. Tem que me prometer que irá contratar o namorado
de Isabelle como ferreiro do castelo em tempo integral.

— E o que farei com o Senhor Gordon? – Cruzou os braços e aguardou ansioso


pela resposta.

— Bem, não pensei no velho ferreiro, mas poderá recompensá-lo de alguma


maneira. Misericórdia, George, é você o conde! Não posso pensar em tudo.

— Contratarei o jovem Mark, mas não como ferreiro, porque não quero criar
confusão com o Senhor Gordon, que sempre serviu Carrick com lealdade.
Arranjei outra função para ele, talvez cavalariço.

— Jura? – Barbarah envolveu o pescoço do marido e abriu um sorriso de


satisfação.

— O que eu não faça por ti, meu amor? – Ela travou de repente com a sua
declaração espontânea.

— Sou seu amor? – Perguntou em um timbre de voz baixinho e ele ergueu seu
queixo para que pudesse lhe fitar.

— Bem, acredito que acabou se tornando meu amor. – George deixou-se


envolver pelo sentimento que crescia dentro de seu peito e o fazia um homem
melhor.

— Isso significa que não me mandará embora depois que o bebê nascer?!

– Ele notava lágrimas se formarem nos olhos azuis dela.

— Ainda não estou certo disso... – Viu nos olhos dela a decepção. — Por
favor, não tire conclusões precipitadas! Apenas quis dizer que talvez você não
me queira quando descobrir as verdades que as paredes desse castelo escondem.

— Pois terá que me contar para que eu mesma possa decidir! – Ela o encarou
nos olhos depois de secar as lágrimas com o lenço que ele havia oferecido. — E
logo, pois tenho algo a dizer a ti! Sei que deveria esperar mais algumas semanas,
mas sabe como sou ansiosa... Minhas regras estão atrasadas e acredito que estou
grávida do filho que sempre desejou.

— Diabos! – Ele soltou assustado com a notícia. — Assim tão rápido?

— Como pode perguntar algo do tipo, George? – Ela levou as mãos à cintura. —
Temos nos esforçado todas as noites e algumas tardes também para que isso
acontecesse o mais depressa possível. E pode ter acontecido, caso isso não seja
um atraso incomum de minhas regras. – Acabou corada. —

Veja bem, George! Minhas regras nunca atrasaram até hoje. Porém, até então eu
nunca havia dormido com um homem, o que me leva à conclusão de que espero
um bebê.

— Eu também! – Deixou-a e foi ao encontro de uma poltrona por sentir as


pernas fracas. — Barbarah... – Olhou-a de canto. — Desconfio que sempre será
assim contigo!

— Assim como?

— Poderia ter me preparado melhor para a notícia.

— Acreditava que era o que mais desejava no mundo! – Acabou rindo da cara de
apavorado do marido. — Convenhamos, milorde, tem se dedicado muito à
empreitada de gerar um herdeiro e quando consegue o feito, deve comemorar. –
Barbarah se sentou ao lado dele. — Eu achei que iria ficar feliz!

— Eu estou feliz! No entanto, também estou um pouco assustado. Querer uma


coisa é muito diferente de tê-la. – George precisava de um tempo para assimilar
a notícia.

— Bem, você será pai como havia planejado! – Pegou-o pela mão e a trouxe até
o colo.
— Muito obrigado, Barbarah! – Trouxe-a para perto de sua boca e a beijou com
prazer, deixando-o se envolver pelo sentimento de pertencimento que os
arrebatava e os faziam ainda mais próximo.

Como George pôde acreditar que conseguiria se deitar com uma mulher, noite
após noite, sem se deixar envolver por ela? Talvez tivesse conseguido se não
fosse Barbarah, se outra houvesse sido trazida até ele.

Barbarah era única, ousada, autêntica e tão incrível que era impossível não
acabar apaixonado por ela. Era como se ela houvesse sido feita para ser dele.

E aquele pensamento o alarmou e o fez perceber que tudo que havia vivido até
então havia sido apenas uma ilusão. Que Barbarah era o seu verdadeiro amor.
Não Vivienne. E tudo havia sido um grande erro desde o início.

No entanto, o pavor lhe envolveu a alma ao se recordar o que havia sido sua vida
no passado e o medo de acabar cometendo os mesmos erros de outrora o fizeram
se afastar dos lábios da esposa, levantando-se em seguida.

— Onde vai? – Ela perguntou confusa com sua reação.

— Preciso ficar um pouco sozinho! – E assim saiu, deixando-a decepcionada.

A jovem condessa encostou a cabeça no espaldar da poltrona e fechou os olhos


por alguns segundos, uma tentativa tola de tentar compreender a reação inusitada
do marido com a notícia da gravidez. Esforçava-se para entendê-lo, para
desvendar sua alma que parecia ser mais atormentada do que havia julgado ser
quando o conheceu. George escondia um passado marcado por uma grande
perda e ela sabia que ia além do fato de ter perdido a esposa para uma morte
trágica.

Também sabia que precisava parar de tentar encontrar justificativas para seu
comportamento estranho e que talvez seria melhor não saber a sua verdadeira
história. A ignorância muitas vezes era melhor do que a dor de uma decepção.

— Não deveria ter se casado com ele! – A voz da governanta a forçou a abrir os
olhos para procurá-la. Estava longe e apenas conseguiu perceber o

vulto acinzentado do seu uniforme. — Nada de bom poderá vir desse casamento
e deste filho. – A voz se aproximou e Barbarah conseguiu enxergar melhor a
fisionomia carregada de Marjorie.

— Então você ouviu o que eu disse ao conde?! – Foi mais uma constatação do
que uma pergunta. — Não era do meu conhecimento que bisbilhotar a vida dos
patrões fazia parte dos teus encargos.

— Foi uma coincidência! – A criada tentou se justificar. — Vim ao encontro de


Lorde George e acabei ouvindo.

— Ah, sim, compreendo! – Barbarah a encarou forçando os olhos para poder


enxergá-la melhor. — Minha gravidez não é nenhum segredo, penso eu, ou não
deveria ser... Casei-me para gerar o herdeiro e creio que todos devem
comemorar. – Levantou-se, alisando a saia de seu conjunto de tarde num tom de
verde que enaltecia a delicadeza de seus traços.

— Esse casamento o destruirá! – Marjorie disse com rancor, por se sentir


despeitada pela plebeia que julgava ser melhor do que ela. — Lady Vivienne o
arruinou e a senhora acabará com o que ela começou. Não é merecedora de ser a
Condessa de Carrick, assim como ela não foi.

— E quem seria a mulher merecedora, Senhorita Marjorie? – Barbarah se sentiu


incomodada e um pressentimento ruim lhe varreu a alma. — Talvez a senhorita
pudesse me contar os detalhes da vida do meu marido nos últimos dez anos. –
Arriscou saber mais.

— Já não bedelhou o suficiente para saber que a morte ronda este castelo?

– A governanta soltou exasperada. — Não lhe causa espanto saber que há um


fantasma que ronda a ala leste do castelo?

— Não o suficiente para ter medo de algo! – Foi para perto da mesa de trabalho
do marido e passou a mão no mais belo globo terrestre que havia posto os olhos.
— Talvez possa contar com sua boa vontade para que me revele os detalhes. –
Girou o corpo e voltou a encará-la em um tom desafiador.

— A condessa estava grávida do primeiro filho e caiu das escadas da ala leste
que estava sendo usada, já que esta daqui passava por uma grande reforma.
Morreu imediatamente. O médico foi chamado e disse que a queda

foi fatal, pois ela quebrou o pescoço. – Barbarah engoliu em seco tentando não
se deixar afetar pelo que lhe foi revelado. — Sua barriga já estava visível e,
apesar da criança ser aguardada por todos, ela e o conde viviam em pé de guerra.
Todos ouviam as suas discussões e isso apenas alimentou o falatório de que ele a
havia matado.

— Oh, misericórdia! – A Winter levou a mão à boca, sentindo-se nauseada. —


George não seria capaz.

— Nunca saberemos, milady! Um homem apaixonado e traído é capaz de tudo.


– Marjorie a encarou com raiva e algo mais que Barbarah não pôde decifrar, mas
que a fazia se sentir em perigo.

Tentando fugir daquele olhar intimidante, ela voltou a se concentrar no globo


terrestre, e quando se sentiu recuperada e capaz de voltar a confrontá-la virou-se
à sua procura.

— Você quer dizer que Lady Vivienne traiu o marido e isso o levou a assassiná-
la? – Acabou falando para o vazio, já que não encontrou a governanta. Ela havia
saído, deixando-a ainda mais intrigada.

AS IDEIAS MARTELAVAM na cabeça de Barbarah, que ansiava por tentar


descobrir a verdade sobre o passado do marido. Ela sabia que George era
atormentado por algo muito grave que havia acontecido em seu casamento e
tudo que ele havia lhe falado até então começou a fazer sentido para ela. Até
mesmo os comentários que os outros faziam passaram a ser mais bem
compreendidos. Porém, ainda havia coisas a desvendar.
Barbarah precisava respirar ar puro e sair da claustrofobia que o castelo lhe
provocava e decidiu fazer um rápido passeio pelos jardins. Possivelmente em
meio à natureza pudesse aquietar a mente e a vontade de confrontar o conde
sobre o passado que tanto lhe perturbava.

No entanto, se assim fizesse, ela tinha certeza de que ele fugiria e voltaria a se
distanciar dela. Isso ela não suportaria, não nesse momento em que se sentia
mais frágil pela gravidez. Estava mesmo grávida, embora ainda não sentisse
todos os sintomas típicos. Foi convencida quando percebeu que estava mais
sentimental do que costumava. Nunca se considerou uma chorona, nem uma
mulher incapaz de chorar, mas jamais se deixou abater tanto quanto nos últimos
dias. Além de temer ser enviada de volta ao pai, sentia-se cansada em tentar
entender os sentimentos confusos do marido ao mesmo tempo em que precisava
esconder sua falta de visão. Mas o pior de tudo foi ter se dado conta de que o
amava sem poder nutrir esperanças de que

um dia ele também viesse a amá-la.

Caminhou para longe do castelo e encontrou um banco onde pôde descansar por
alguns minutos. Ficou ali, ouvindo o coaxar dos sapos e o canto dos pássaros,
tentando silenciar os pensamentos que a massacravam.

Porém, nada parecia conseguir fazer efeito e só desejava ter aprendido a cavalgar
para correr pelos campos verdejantes de Carrick em busca de paz.

Acreditava que George havia feito isso e o invejava por poder escapar dos
problemas apenas subindo no lombo de um forte alazão.

Quem sabe ele poderia ensiná-la depois de ter dado à luz ao herdeiro.

Claro, desde que não a mandasse para longe para se ver livre dela e das
preocupações que uma esposa poderia lhe trazer.

Barbarah se encolheu dentro do xale que levou consigo, sentindo-se ferida por
ele desconfiar de sua fidelidade, talvez a comparando desde o início à primeira
esposa que poderia tê-lo traído. Se era isso que sempre tentava separá-los, ela
não sabia o que poderia ser feito para convencê-lo do contrário.

Ouviu folhas secas sendo amassadas contra o chão e imediatamente guardou os


óculos dentro do bolso do vestido, temendo que alguém descobrisse seu segredo.
Mais uma das coisas que a separavam do marido e que ela não sabia como
poderia contar, já que temia ser considerada imprópria para um conde. Havia
crescido com o pai lhe dizendo que um homem jamais poderia aceitar uma
mulher que escondia sua beleza atrás de lentes grossas, que nenhum cavalheiro
iria querer correr o risco de ter filhos cegos, mas o pior era ouvi-lo falar que a
considerava uma deficiente, o que lhe tirava valor no mercado matrimonial. Foi
por isso que acabou quebrando seus óculos antes de entregá-la ao Senhor Brown.

— Não é seguro para uma dama se afastar tanto do castelo! –

Reconheceu-o pela voz e soube se tratar de Lorde Henry Hosken.

— O senhor não deveria estar aqui. – Disse Barbarah com o coração disparado
no peito. — Meu marido não aprecia sua companhia e não quero problemas com
ele.

— Eu não mordo, Lady Barbarah! E nem represento uma ameaça como

meu primo faz parecer. Diga-me, milady, lhe pareço uma ameaça? – Fez uma
mesura e estendeu a mão para poder cumprimentá-la como um cavalheiro.

— Não me parece, milorde! Mas como disse, não pretendo arranjar problemas
com meu marido. – Recusou a mão. — Já temos problemas suficientes. – Deixou
escapar como um resmungo.

— Admiro sua obstinação em ser uma esposa leal e fiel. – Provocou-a e


Barbarah o olhou de soslaio, tentando decifrar a verdade que suas palavras
queriam encobrir. — Alerto-a de que nem tudo o que falam a meu respeito é
verdade.

— Talvez o senhor pudesse me contar a verdade! – Devolveu a provocação por


estar farta de lhe comentarem coisas sempre pela metade. —

Pouco sei sobre o passado que me parece ligar o senhor ao meu marido e à
falecida condessa.

— Mas é deveras inteligente para já saber que nós três temos um passado em
comum. – Ele sorriu e a admirou por um momento de distração, achando-a
adorável e ousada por confrontá-lo daquela maneira pouco apropriada para uma
dama. Mas Barbarah não era uma nobre dama e sim uma plebeia e isso o
fascinava muito.

— Talvez eu tenha uma curiosidade muito aguçada que me faz imaginar coisas.
– Ela respondeu forçando os olhos pare enxergá-lo melhor. E embora os olhos
não a ajudassem muito, podia notar que era um homem tão alto quanto o marido
e com os cabelos mais claros do que ele. Não era um cavalheiro feio, muito
charmoso e bem vestido, mas não chegava aos pés de George, talvez porque era
por ele que seu coração batia mais forte.

— Que a torna única aos olhos de meu primo. Compreendo seu encantamento
pela esposa. – Henry estava disposto a apostar em um jogo muito perigoso e
Barbarah sabia que não devia encorajá-lo a seguir com a brincadeira. Porém,
também sabia que poderia conseguir respostas para as suas dúvidas, um motivo
plausível para fazê-la arriscar.

— Não concordo com seu ponto de vista, milorde! Sempre haverá a memória da
falecida condessa a impedi-lo que me enxergue além da esposa que comprou. –
Não iria esconder o fato de ter sido comprada, por mais

vergonhoso que isso lhe fosse. Encarar a verdade sobre seu casamento trazia
alento para sua alma, por mais estranho que parecesse.

— George nunca a amou! Vivienne sempre foi um capricho para meu primo. E
se eu não tivesse me interessado por ela, nem a teria notado. – A declaração a
pegou desprevenida.

— Como pode estar tão seguro disso? – Encarou-o com curiosidade.

— Porque sou testemunha ocular e uma vítima do destino tanto quanto meu
primo alega ser.

— George jamais se sentiu uma vítima do que aconteceu, seja lá o que for.
Nosso casamento é sim recente, mas nosso convívio me leva a crer que ele se
considera mais o algoz do que a vítima. – Levantou-se do banco, sentindo-se
confusa. — Não sei o que levou o senhor a pensar algo do tipo, mas garanto que
meu marido não se considera uma vítima.

— Duvido que não se sinta como uma vítima quando eu fui o causador do
ferimento que o fez perder a mão. – Confessou com o olhar perdido no horizonte
e um arrepio tomou o corpo de Barbarah, fazendo-a se enrolar ainda mais no
xale.

— Não sei do que fala! – Exclamou.

— Mais um segredo que meu primo guarda de ti. – Cruzou os braços e sentou-se
no banco. — Poderia ajudá-la a entender melhor os acontecimentos se não
estivesse com tanta pressa em retornar para baixo das asas do marido.

— Acredito que quinze minutos de meu tempo não farão diferença. –

Encorajou-o para que prosseguisse, sentando-se ao seu lado.

— Sempre disputamos a mão de Vivienne desde que ele a viu pela primeira vez.
Fui eu que a apresentei, e como era um conde acabou saindo na frente na
preferência, já que seu pai julgou mais promissor o casamento com um conde do
que com o primo de um. Tentei me afastar assim que o compromisso foi
anunciado, mas foi impossível quando ela já havia se infiltrado dentro do meu
coração. Confesso que a cerquei de todas as formas e houve o tempo em que
acreditei que ficar apenas por perto me bastaria.

— Então, o senhor e a condessa... – Lembrou-se das palavras da

governanta e um nó na garganta se formou. — Bem, vocês dois mantiveram um


caso, traindo George?!

— Nunca o traímos, mas a mente perturbada de um homem é capaz de acreditar


em tudo que lhe falam. Vivienne engravidou de George logo nos primeiros
meses de casamento e isso nos manteve afastados. Era uma mulher honrada e
jurou que jamais se deitaria com outro sem deixar as coisas claras entre ela e
meu primo. Ela dizia me amar e havíamos combinado fugir logo após o
nascimento da criança. Estávamos dispostos a assumir nosso amor e
consideramos a possibilidade de fugir para a América, onde poderíamos viver
sem o peso do julgamento da sociedade.

— Mas e o bebê? O que a condessa pretendia fazer com o bebê? –

Barbarah desceu o olhar até sua barriga.

— Vivienne pretendia levá-lo conosco. No entanto, por ser o primogênito, era


praticamente impossível que George aceitasse e colocaria um exército atrás da
gente só para recuperar o filho.

— Ele se casou comigo pelo filho que darei a ele. – Acariciou a barriga.

— Não me espanta que pudesse mover céus e terras para recuperar o filho, fruto
do amor que sentia por Lady Vivienne.

— O herdeiro que ele quer ter contigo é mais para evitar que eu herde o título e o
condado. – Henry a olhou de canto. — E sabe muito bem disso! –

Ela concordou. — Como dizia, planejávamos fugir para outro país, mas algo deu
errado e George foi tomado de ciúmes desmedidos que nos colocaram frente a
frente em um duelo que lhe custou a mão. Recebi um recado de Vivienne para
que a encontrasse no castelo. Chegando lá, descobrimos que ela não havia me
chamado, e George nos surpreendeu e interpretou equivocadamente os fatos.

— Como pôde ter interpretado equivocadamente os fatos, Lorde Henry, se


pretendia fugir com a condessa assim que o bebê nascesse?! – Revirou os olhos,
considerando a ideia de dar um fim naquela conversa sem fundamento.

— Não demos motivos para que desconfiasse de algo. Jamais a toquei depois
que se casou, jamais dei a entender que a queria. Alguém o envenenou contra
nós e o fez acreditar que a esposa o traía comigo.

— Bem, poderiam não estar envolvidos fisicamente! – Corou com o comentário,


mas era tarde para se arrepender. — É claro que havia uma intenção, oras!

— Mesmo assim ninguém pode ser considerado culpado só por pensar. –

Deu de ombros.

— Oh, por favor, milorde, não tente confundir minha cabeça! – Encarou-o
enrugando os olhos. — Prossiga pois não tenho toda a tarde.

— Começamos, então, uma briga. Trocamos socos e acabamos no salão


principal da ala leste. George sempre foi um excelente lutador e me dominou
facilmente. Temendo pelo pior, saquei da parede uma espada antiga e tentei
acertá-lo. Compreenda, estava movido pela cólera! – Tentou justificar o
injustificável, pensou Barbarah. — George escapou dos meus avanços algumas
vezes, mas na quarta vez eu o encurralei, e só não cravei a espada em seu peito
porque ele a segurou com uma das mãos, provocando um corte profundo, que
por ter sido mal tratado acabou não sarando e, para que não acabasse morto,
optou por perder a mão.

— E Lady Vivienne? – Barbarah reuniu coragem e perguntou sem rodeios.


Precisava saber o que havia acontecido com a condessa, talvez assim pudesse
compreender a alma aflita do marido de uma vez por todas.

— Caiu das escadas na tentativa de apartar a briga. Quebrou o pescoço e morreu,


levando consigo o herdeiro dos Hosken. – Barbarah lhe notou os olhos
marejados, mas não conseguia se solidarizar com sua dor.

— E todos estes anos jamais o procurou para contar a verdade?! – Soltou


indignada, dando-se conta de que Henry havia deixado o primo acreditar na
traição e na mentira de que o filho era seu e não dele.

— Ele merecia sofrer! Na época, sentia tanta dor que somente conseguia pensar
em vingar-me de George e de sua prepotência em querer tudo que era meu.
Mesmo que eu tivesse tentado lhe contar a verdade, ele não acreditaria; então
usei disso como uma desculpa para atormentá-lo sem sentir remorso. –

Confessou.

— Mas o remorso nunca lhe abandonou verdadeiramente. – Encostou a mão em


seu braço, começando a sentir pena daquela pobre alma, tão

atormentada quanto a do conde. — O remorso e a culpa são sentimentos que


andam lado a lado, Lorde Henry! E são tão fortes que não será um ódio a
encobri-los, talvez por um tempo consiga, mas não para sempre. E agora está
aqui, não mais sentindo o mesmo ódio que outrora, mas sim atormentado pelo
remorso e pela culpa de não ter contado a verdade a seu primo. –

Levantou-se consternada com o que lhe foi revelado, apesar de ainda achar tudo
um grande absurdo. — Sinceramente, sinto muito pelos dois! Sinto pela
condessa ter tido um fim tão trágico e por jamais sua alma ter paz sabendo que
os dois homens que ela teve estima vivam envoltos em uma amargura sem fim.

— É muito sábia apesar da juventude! – Henry poderia lhe suplicar que o


ajudasse a consertar tudo. Sem saber ao certo o porquê desejava que ela o
ajudasse quando ainda queria que o primo sofresse.
— Está equivocado, milorde! Apenas sou uma plebeia que enxerga as coisas sob
um ponto de vista diferente, ou ao menos, tento enxergar. –

Engoliu em seco ao recordar das mentiras que também contava. Barbarah não
podia julgá-los quando também lutava para se ver livre dos sentimentos terríveis
que sentia pelo pai. — Agradeço por ter revelado parte do passado de meu
marido.

— E o que fará agora? – Ele a olhou surpreso. Talvez ela o deixasse, pensou. —
O abandonará?

— Não posso me dar ao luxo de pensar algo do tipo, milorde!

— Teme ser devolvida ao pai, é isso? Ouvi rumores de que foi comprada em um
leilão em Londres. – Henry tentava cercá-la.

— É um bom motivo, não acha? – Encarou-o nos olhos. — Mas há um ainda


mais forte do que esse. Eu o amo e quero estar ao lado dele! – O

Hosken fechou as mãos em punho. — Vivienne não o amava, mas eu o amo.

Escolho ele, Lorde Henry! E se me procurou para tentar me convencer do


contrário, devo alertá-lo de que perdeu seu precioso tempo.

— E quanto a mim? Contei parte das minhas aflições... – Pegou-a pela mão.

— Você as criou quando escondeu a verdade de George. Claro que ele

tem parcela de culpa por ter se recusado a ouvi-lo. Os dois são culpados, mas
não intercederei pelo senhor junto ao meu marido. George vive há anos
atormentado pelo que aconteceu no passado e merece encontrar a redenção.

Não sou ninguém para aconselhar, considerando que mal consigo lidar com
meus problemas, mas me atrevo a deixar um conselho ao senhor: procure
resolver as diferenças com seu primo e siga sua vida, livrando-se dos
sentimentos contraditórios que parecem dominá-lo quando se trata do meu
marido. Porém, entenda que entre ele e o senhor eu ficarei ao lado dele.

Tenha uma boa tarde, milorde! – Fez uma referência e se afastou rapidamente
para que ele não pudesse segui-la.
Barbarah havia dado um fim na conversa e jamais pretendia voltar a encontrá-lo
novamente. Lorde Henry representava apenas mais problemas para seu delicado
relacionamento com o marido e pretendia se distanciar dele antes que acabasse
sendo mal interpretada por George, que já tinha que lidar com muitos fantasmas
por conta da história que os envolvia.

Havia tomado a decisão de esclarecer aquele ponto com o marido e o faria assim
que o encontrasse. Não esconderia dele seu encontro com o primo e não o
deixaria alheio aos acontecimentos como havia acontecido no passado.

Quando chegou à entrada do castelo apoiou-se na parede, sentindo-se fraca e


enjoada por tudo o que havia descoberto. Não saberia explicar o que a fez agir
como se nada tivesse acontecido diante de Lorde Henry quando o seu interior
havia sido tomado de um medo angustiante. Algo naquela história, apesar de lhe
parecer verídica, ainda não se encaixava. Havia pontas soltas e não sabia como
conectá-las. Talvez George estivesse disposto a esclarecê-las e os dois pudessem
juntos resolver definitivamente o passado, permitindo-se acreditar em um futuro
diferente.

Havia chegado a hora de conversar com ele. Por mais difícil que viesse a ser,
precisavam enfrentar os fantasmas.

Decidida a ir em busca do marido, desencostou-se da parede, mas as pernas


voltaram a falhar e uma tontura tornou sua visão ainda pior. De repente, o mundo
borrado que enxergava sumiu diante de seus pés, as náuseas tornaram-se mais
intensas, fazendo-a cair na inconsciência.
GEORGE ANDAVA DE um lado para o outro do corredor, ansioso para receber
notícias da esposa. Barbarah havia sido encontrada desacordada e muito pálida
na entrada do castelo e um médico foi chamado para atendê-la.

Suas emoções já seriamente abaladas com a descoberta de que a amava entraram


em colapso quando a viu desmaiada em cima da cama, tão branca e imóvel que
parecia que a vida queria deixá-la.

E isso o conde não iria suportar, não pela segunda vez.

— Ela despertou, milorde! – O médico, um cavalheiro que já havia deixado a


juventude há tempo, o interceptou no corredor. — A condessa apenas precisa de
repouso e uma alimentação mais rica em frutas e vegetais.

— Mas e o bebê? – Foi para perto do ancião. — Minha esposa está mesmo
grávida?

— É mais sim do que não! Seu herdeiro finalmente chegará, meu jovem!

– Bateu-lhe nas costas com a intimidade que os anos atendendo os Hosken


haviam lhe dado. — Lady Barbarah é uma mulher de boa saúde e o mal-estar
que sentiu é normal para um início de gravidez. Mas aconselho a mantê-la
afastada dos incômodos. – George concordou, considerando qual seria a melhor
forma de mantê-la afastada dos problemas. Conhecendo a esposa, sabia que era
difícil manter uma jovem cheia de vida e ânsia de viver quieta.
— Posso vê-la, Doutor? – Perguntou, mas não esperou pela resposta.

George entrou nos aposentos da condessa e a encontrou encostada sobre os


travesseiros. Isabelle a havia ajudado a trocar o vestido por uma camisola
confortável e os cabelos estavam esparramados sobre as fronhas, deixando-a
com um ar angelical que o faziam perder o fôlego. Ainda estava pálida, mas
abriu um sorriso que o fez quase cair para trás.

Sim, ele a amava e já não poderia seguir com sua vida sem ela ao seu lado para
xeretar em tudo que não era chamada.

— George! – Ela soltou encabulada.

— Que susto nos deu, meu amor! – Sentou-se ao lado dela e a beijou na testa.

— Não pretendia assustá-lo! Doutor Bowel acredita que passei muito tempo sem
comer. – Pegou-o na mão. — Prometo que serei mais cuidadosa.

Mas preciso lhe contar uma coisa.

— Barbarah... – Repreendeu-a, pois desconfiava de que ela havia se metido em


assunto que não devia. — O médico orientou que descansasse e seja lá o que for
que precise me contar, pode esperar.

— Não posso esperar! – Fitou-o determinada a contar sobre o encontro com o


primo. — Encontrei com Lorde Henry e tivemos uma conversa. – A menção ao
nome do cavalheiro o fez retesar e soltar a mão da esposa, levantando-se para se
afastar dela.

— Por que insiste em me desobedecer... – Passou a mão boa entre os cabelos. —


Não bastava se expor ao perigo, ainda colocou em risco nosso filho.

— Escute-me, George! – Ela ameaçou se levantar, mas ele a impediu, voltando a


se sentar ao seu lado na cama. — Nada acontecerá comigo ou com nosso filho
porque eu escolhi você e deixei isso claro ao seu primo.

— Não compreendo! – Soltou confuso. — Ele ousou insinuar algo? Por Deus,
que sou capaz de... – Ela o conteve, segurando-o pela mão.

— Espere, por favor! Você não precisa fazer nada! Lorde Henry me contou o que
aconteceu no passado, como você perdeu a mão. – Trouxe a

prótese para perto do seu rosto e beijou-a.

— Ele não devia ter feito isso! – Esbravejou com o semblante tomado de
dúvidas. — Henry não tinha o direito de envenená-la contra mim.

— Eu não permiti que ele conseguisse me envenenar, George! E sabe por quê?
Porque eu amo você e quero ficar contigo para sempre se me aceitar... –

Os olhos dela encheram de lágrimas. — Se você me aceitar como sou... –

Considerou revelar sua deficiência visual, mas acabou desistindo. — Assim


plebeia e uma xereta como costuma falar, eu quero ser sua esposa para sempre,
não só no papel, mas também no seu coração.

— Você não pode me amar, Barbarah! – Encostou a testa na dela tomado de uma
emoção que julgou não ser capaz mais sentir. Mas aquela pequena e atrevida
mulher havia conseguido o inacreditável e seu coração havia sido tocado por ela.
— Eu não a mereço. Agora que sabe a verdade, deve entender que não mereço
seu amor, que a culpa que carrego me torna um homem amargo...

— Te tornou um homem incompreendido, meu amor! – Juntou as mãos em torno


do rosto dele e se perdeu nas profundezas dos seus olhos negros. —

Não pode carregar para sempre a incompreensão do que te aconteceu no


passado.

— Você não entende!

— Então me explique! Conte sua versão dos fatos.

E assim George confirmou cada palavra de seu primo, mas carregada de


sentimentos que o distanciavam de um homem ferido pela memória de uma
traição. O conde vinha sofrendo calado pela perda da mulher e de um filho que
ele nem sequer imaginava ser dele. E aquilo cortou o coração de Barbarah, que
prometeu amá-lo para sempre.

— Consegue entender? – Ele a encarou. — Eu os separei porque era soberbo e


não admitia ser vencido. Eles se amavam e podiam ter sido felizes se eu não
tivesse me deixado envolver pelos ciúmes. Eu fiquei cego, Barbarah, só pensava
em me vingar.

— Você a amava, George! E agiu como uma homem apaixonado.

— Não, não... – Ele insistiu demonstrando frustração. — Eu nunca cheguei a ter


com Vivienne o que tenho com você. É você quem me ensinou o significado do
amor. Reconhecer que jamais provei o amor com minha primeira esposa apenas
comprova o quanto não a mereço. – George se afastou novamente e foi para
perto da janela em busca de ar. — Eu a deixei sozinha quando me contou sobre a
gravidez porque me dei conta de que a amo. E junto com a descoberta do que
sinto por você a culpa me assolou por ter separado meu primo de Vivienne, tudo
porque era jovem e não admitia uma derrota.

— Você era muito jovem! – Barbarah se levantou e foi para junto do marido,
abraçando-o com carinho.

— Ser jovem não me isenta da culpa de ter provocado a morte do filho deles. –
Desabafou, trazendo-a para dentro de um abraço apertado.

— O filho era seu, George! Sempre foi seu.

— Não! – Soltou um suspiro. — Vivienne me traía com ele.

— Você os viu juntos em algum momento de intimidade? Ou tudo não passa de


fofocas que alguém lhe contou? Por Deus, George, tente usar a razão e não a
emoção para refletir sobre isso. Não duvido de que você acreditou em qualquer
coisa que lhe contaram, já que é orgulhoso demais e foi cegado pela ideia de
estar sendo traído! – Ele evitou o olhar dela e ela forçou com os dedos para que
ele voltasse a encará-la. — Henry me garantiu que jamais se deitou com
Vivienne e que a condessa o respeitava muito. Quem lhe jogou contra ela? Quem
lhe contou sobre os dois?

— Marjorie! – Ele soltou com os olhos marejados e Barbarah sentiu vontade de


embalá-lo como uma criança que acabava de sofrer uma queda.

Também sentiu por ter sido enganado pela governanta. Mesmo que nada pudesse
provar contra ela, Barbarah acreditava que Marjorie havia feito de propósito
envenenar o patrão contra a esposa. — Mas que motivos ela teria para criar
intriga tão perigosa se fomos criados como irmãos e não poderíamos ter mais
nada do que amizade? – Encostou o queixo na cabeça da esposa, tentando
acalmar a tormenta que havia lhe tomado.

— Não sei, George! Infelizmente, entre ela e Henry, eu prefiro acreditar

nele.

— Não sei em quem acreditar.

— Dê uma chance a Henry. Escute-o e tire suas conclusões. Vocês dois precisam
conversar e esclarecer alguns pontos. – Ela se colocou na ponta dos pés e beijou-
o na bochecha. — Eu o amo, George, e deixei isso claro a ele.

Eu sempre irei escolher você, porque se infiltrou em meu coração da maneira


mais torta possível, sejamos sinceros. – Levou a mão dele até o peito. —

Teria sido mais fácil odiá-lo, considerando que me comprou para dar à luz ao
herdeiro dos Hosken. Me fez sua condessa apenas para que Henry não pudesse
herdar o título, o castelo e toda a riqueza de sua família. Mas de onde venho, nos
acostumamos cedo a tirar proveito do pouco que temos. Já ouviu a expressão
“tirar leite de pedra”? – Ele concordou. — Literalmente, eu tirei leite de pedra e
acreditei que este casamento era minha salvação. Acabei apaixonada por você e
sofri calada por me dar conta de que jamais teria seu coração para mim.

— Barbarah...

— Não, George! Não repita que está quebrado demais para me deixar te amar,
para me amar como nós dois merecemos. Não as aceito, porque eu acredito que
você também pode tirar leite de pedra, que você pode voltar a viver.

— E se eu... – A voz dele ficou embargada de repente. — E se eu acabar te


machucando?

— Jamais acontecerá uma coisa dessas, porque diferentemente de Vivienne, eu


amo você. Meu amor é seu, basta você aceitá-lo e tudo ficará bem. – Estendeu a
mão para o marido, que hesitante a aceitou e a beijou na palma. — Eu o aceito
do jeito que é, mesmo quebrado... E você, George, aceita meu amor por você e a
vida que te ofereço ao meu lado? – Barbarah sorriu, abrindo as covinhas que a
faziam perfeita aos olhos dele.
As palavras ficaram presas na garganta de George que queria gritar para o
mundo que a amava. Puxou-a, então, para dentro de seus fortes braços e a beijou
como se pudesse falar tudo o que precisava declarar apenas com aquele contato
íntimo e alucinante.

— Eu amo você, Barbarah, e se consegue me aceitar quebrado, atormentado por


fantasmas do passado, eu posso arriscar... – Ergueu-a nos braços e a rodopiou
feliz. — Sim, eu posso tentar.

— Não me mandará para longe? – Perguntou entre risos.

— É minha esposa, minha condessa, e me escolheu. – Encarou-a com seriedade.


— Deus tenha piedade de ti, mas me escolheu e não pretendo renunciar a sua
companhia, nem mesmo quando você quiser me mandar embora. É um caminho
sem volta, meu amor!

— Então durma comigo está noite e prove que me quer. – Esfregou-se contra o
corpo dele e o fez despertar para pensamentos que deveriam ser evitados naquele
momento.

— Só dormir, meu amor, só dormir!

— Não pedi por mais ou pedi? – Provocou-o e os dois riram como dois tolos que
haviam descoberto a paixão pela primeira vez. — Só quero dormir ao seu lado,
agarrada ao homem que amo. Acredito que não se pode negar algo a uma mulher
grávida e apaixonada como eu.

Beijou-a novamente e carregou-a até a cama, deitando-se ao lado dela para trazê-
la para dentro do calor dos seus braços.

Ele a protegeria, a amaria e devotaria sua vida a ela. Talvez sua alma ainda
estivesse quebrada para acreditar que poderia ser amado. Talvez seu coração
pudesse não suportar a ideia de que ela pudesse abandoná-lo. Talvez o medo de
que pudesse arruinar com sua alegria genuína o fazia reconsiderar a decisão de
mantê-la junto de si para sempre. Porém, tudo acabava perdendo força dentro
dele quando ela sorria, o abraçava e dizia amá-lo independente dos defeitos que
ele sabia serem muitos.

Eram muitas as dúvidas e apenas uma certeza: eles se amavam e não custava
tentar fazer dar certo.
BARBARAH DESPERTOU ENROLADA ao corpo do marido, sentindo-se
protegida. Levou a mão até o rosto de George e afagou-o com carinho, sentindo-
se plena por ter lhe contado sobre o amor que ele lhe despertava, por ter deixado
claro que o havia escolhido.

Quando o pai havia lhe comunicado que se casaria com um Conde da Cornualha,
jamais ousou pensar que poderia se apaixonar por um estranho.

Desde o início havia enxergado naquele casamento arranjado uma oportunidade


de livrar-se das reclamações do pai, que haviam se convertido em ameaças da
noite para o dia.

— No que pensa? – George perguntou, fazendo-a sorrir lindamente.

— Que me sinto segura com você ao meu lado! – Disse, levantando a cabeça de
modo que pudesse vê-lo melhor.

— Do que tem medo, querida? – Deslizou as mãos pelas costas dela, um vai e
vem eletrizante que a fazia se sentir querida. — Tem medo de que eu a devolva
para seu pai?

— Exatamente! – Confessou enfiando o rosto contra o pescoço dele. —

Sinto-me envergonhada em admitir, mas não quero voltar a ver meu pai.

— Por que ele a vendeu para mim?


— Não somente por isso! Embora não seja uma atitude a se esperar de um pai
que ama suas filhas... Não o quero perto de mim porque me fez acreditar que um
homem jamais poderia me amar se... – Barbarah não foi capaz de admitir que
não enxergava bem.

— Se? – George tentou incentivá-la, mas ela desviou de seu olhar e da pergunta
que havia feito, oferecendo os lábios para um beijo que o incendiou.

— Interpreto mal ou está me seduzindo, condessa?!

— Me ame, George! – Ela pediu com os olhos repletos de paixão.

— Não quero que se canse. – Correspondeu à provocação, deslizando a mão


entre as coxas dela, brincando com seu sexo, provocando-a.

— Estou muito descansada e ansiosa para que me toque. – Sorriu para ele,
abrindo os botões de sua camisa, dedicando-se a tarefa de convencê-lo a fazer
sexo com ela. — Doutor Bowel falou que devo levar uma vida normal, continuar
fazendo o que sempre fiz desde que com alguns cuidados e... Bem, eu sempre fiz
amor com você e não vejo razão para deixar de fazer.

Principalmente agora que sei que você me ama. Terá outro sabor me juntar ao
homem que me ama no prazer.

— Ah Barbarah! – Girou e se colocou sobre o corpo da esposa, provocando-a


com mordidas no pescoço, beijos molhados na boca e cutucadas com seu
membro enrijecido contra sua virilha. — Provoca-me à exaustão e o que me
resta a fazer a não ser atender os teus desejos?!

Barbarah o ajudou com a camisa e a calça. A ausência de uma mão dificultava


um pouco sua desenvoltura para se vestir e se despir, mas ela o admirava por ter
se adaptado a uma vida sem a mão esquerda.

— Você sabe que é perfeito para mim? – Levou a prótese ao rosto e beijou-a,
retirando-a para em seguida guardá-la em cima do criado-mudo.

— Você sempre será mais perfeita, meu amor! – Tomou-a em um beijo que a fez
perder o fôlego e puxá-lo contra seu corpo para que a invadisse sem perda de
tempo, mas ainda não era o momento, percebeu quando ele continuou a falar. —
Às vezes penso que é cega por ser incapaz de perceber meus defeitos. –
Barbarah congelou embaixo do corpo do marido, pois realmente a visão não era
uma de suas maiores qualidades.

— Não preciso ter uma visão perfeita para reconhecer que é um homem
admirável. – Foi sincera e pela primeira vez desde que pisou no castelo como
esposa do conde se sentiu confortável por não ter que mentir sobre não enxergar
bem. — Porque não é o que você tem por fora que o faz admirável, mas o que
você carrega aqui dentro. – Tocou o lado esquerdo do peito dele.

— Teu coração é bom, George, e permitiu que eu pudesse tocá-lo. Não me


importa a cor exata dos seus olhos, nem se seus cabelos são mais castanhos do
que negros, ou mesmo se tem um rosto sem marcas ou cicatrizes. Nada disso me
importa! Não foram meus olhos que o reconheceram, George, mas minha alma
que me fez vê-lo como o homem que eu quero para sempre ao meu lado.

O conde emocionado se afastou do corpo dela, pois a queria nua, sem um pedaço
de pano a impedi-lo de senti-la pele contra pele. Barbarah o entendeu e começou
a abrir os botões da camisola, deixando-o duro de desejo apenas em vê-la se
despindo para ele.

— Acredite, meu amor, despir uma mulher sempre foi um ato prazeroso até a
noite em que a vi se despindo para mim e percebi que ainda não havia provado
do verdadeiro prazer. – Confessou um receio que lhe preocupava desde o dia em
que perdeu a mão. Barbarah havia sido a única mulher com quem se deitou
depois do acidente e não poderia ter sido mais agraciado do que tê-la encontrado,
tão autêntica, cheia de vida e corajosa.

— Gosto de tirar a roupa para meu marido! – Disse ela com os olhos repletos de
felicidade e a voz sedutora que o faziam querer se afundar dentro dela. — Minha
irmã Sarah diria que não é atitude de uma mulher honesta, mas sinto prazer em
lhe provocar o prazer, George. – Ajoelhou-se diante dele e envolveu seu pescoço
com os braços. — Te importa eu não ter um comportamento de mulher honesta?
– Perguntou.

— Nem um pouco! – Com a mão boa trouxe-lhe a boca de encontro a sua e


beijou-a com sofreguidão, empurrando-a contra os lençóis macios, forçando com
os joelhos para que abrisse as pernas e o recebesse dentro dela. —

Mulheres honestas são entediantes!


— Não quero ser uma mulher honesta, então! – Abriu as covinhas que sempre
lhe foram uma fraqueza. — Ao menos na cama! Mas terá minha

honestidade e meu amor como sua esposa. – Prometeu-lhe porque sabia que era
importante para ele.

— Eu a amo, Barbarah! – Declarou seu amor uma vez mais, sentindo-se livre e
feliz por ser capaz de voltar a acreditar no amor.

Ela fechou os olhos e deixou-se embalar pelo sentimento de completude que a


envolvia. Os lábios dele contra seus mamilos inchados a faziam delirar em busca
de um alívio que só viria quando ele a penetrasse. E não tardou muito para que a
invadisse com estocadas duras e exigentes, abafando seus gritos com beijos
repletos de malícia, uma simulação perfeita do encaixe de seus sexos.

George a beijava, a penetrava com vontade e a fazia explodir de desejo. O

prazer gravado em sua fisionomia e o brilho luxuoso dos seus olhos o faziam se
sentir pleno. Receber prazer de uma mulher era bom, mas dar prazer a Barbarah
significava algo maior, impossível de ser expressado por palavras, só podia ser
sentido.

E ele fazia questão de sentir absolutamente tudo o que ela lhe oferecia.

Desde a primeira vez havia sido intenso, perfeito e ousava dizer, mágico.

Como se ela houvesse sido feita para encaixar em seu corpo com maestria, para
permitir que sua alma pudesse encontrar um sentido em sua miserável existência.

Ousadamente retirou seu membro de dentro dela e a fez girar de modo que
ficasse de quatro e com o traseiro empinado para ele.

— Oh George! Isso é possível? – Perguntou inocentemente, sem ainda perceber


que tudo era possível entre um homem e uma mulher, bastava um confiar no
outro. — É como os animais. – Soltou curiosa e aquela curiosidade o fascinava.

— É de nossa essência os instintos animais, meu amor! – Ele ofegou quando


posicionou o membro contra o sexo dela. — Assusto-a com tal atrevimento? –
Perguntou preocupado em chocá-la. Mesmo que negasse ser uma mulher
honesta, Barbarah era inexperiente nos assuntos carnais e não queria assustá-la
unindo-se a ela em uma posição ousadamente escandalosa.

— Oh não! – Soltou em êxtase por ansiar tê-lo dentro dela. É claro que se

sentia exposta, mas tudo lhe era muito atrativo. — Ouso dizer que será uma boa
posição quando minha barriga estiver grande.

— Terá disposição para isso quando estiver com a barriga maior? –

Perguntou, enfiando-se dentro dela, controlando-se para não machucá-la.

— Sinceramente, não sei... Oh... – Soltou ao senti-lo todo dentro dela, o prazer
se espalhando pelo corpo e fazendo-a esquecer do que queria dizer.

— Posso me movimentar dentro de você? – Perguntou preocupado com sua falta


de reação e ela soltou um sim rouco. — Se não quiser mais, basta dizer. Promete
que vai reclamar se eu estiver machucando-a?!

— Oh, misericórdia! Nada sinto a não ser uma vontade louca de que continue a
se movimentar. Proíbo-te que pare, George!

Ele a atendeu com gosto, movimentando-se dentro do corpo dela naquela


posição erótica, que lhe dava uma visão perfeita do corpo dela. A mão boa
acariciava o clitóris com tanta devoção que um aperto no peito de Barbarah se
formou. Era estímulo e prazer demais, e podia jurar que era capaz de alçar voo
naquele instante como um pássaro em busca de um horizonte perdido.

Não haviam lhe falado sobre sexo antes do casamento e tudo sempre havia sido
um grande mistério, até uma grande preocupação, mas nada comparado com o
que vivia com o marido, que sabia ser ousado e provocante na medida exata de
sua curiosidade.

— Está satisfeita? – Ele perguntou quando ela deixou a cabeça cair sobre o
travesseiro, deixando-o louco para se derramar dentro dela. Inocentemente ela
havia empinado ainda mais o traseiro, provocando-lhe além do limite da
sanidade.

— Foi perfeito! – Soltou extasiada, com as bochechas tomadas pelo fogo que a
consumia. Barbarah podia ser jovem e inexperiente, mas era explosiva quando
provocada do jeito certo, reagindo de uma maneira que o fazia perder a
compostura, implorar para que o deixasse ficar grudado nela para sempre.

Aquilo foi o suficiente para George aumentar o ritmo das estocadas e se perder
no prazer que o corpo dela oferecia. Aquele encaixe era perfeito e tão incrível
que ele urrou quando atingiu o clímax e se juntou a ela no prazer que
prometeram compartilhar.

Cuidando para não esmagá-la com seu peso, deixou o corpo cair na cama e a
puxou para perto, desejando jamais se separar dela. Poderiam ficar assim
fundidos para sempre.

Era o que George mais desejava.

Com todos os fantasmas trancafiados na ala leste do castelo.

AMAR ERA MESMO uma das coisas mais curiosas e deliciosas que havia
provado em seus parcos anos de vida e Barbarah aproveitava cada demonstração
de afeto por parte do marido como uma dádiva recebida.

Às vezes se pegava a pensar nas irmãs, se elas tiveram a mesma sorte de


encontrar um homem que as amassem com devoção como George jurava amá-la.
Era um homem quebrado, com uma alma atormentada, mas que se esforçava
para ser um bom marido para ela, mimando-a muito agora que a gravidez havia
sido confirmada.

Nada lhe faltava em Carrick e isso a deixava sossegada quanto ao seu futuro. Já
não temia ser enviada de volta ao pai, mas se sentia insegura em contar sobre sua
falta de boa visão. Continuava a esconder do marido que necessitava de óculos
para ter uma vida normal. Sabia que deveria tentar explicar sobre o engodo que o
pai havia criado para que pudesse ser comprada por um conde e possivelmente
ele a compreendesse, afinal, dizia amá-la e ter encontrado a felicidade ao seu
lado.

Infelizmente, suas tentativas haviam sido falhas. George não lhe dava espaço
para conversas do tipo e ousava dizer que a havia colocado em um pedestal que
não lhe permitia enxergar seus defeitos. Também havia o medo de ele deixar de
amá-la por ser defeituosa. Uma insegurança que havia sido alimentada pelo pai e
que o levou a quebrar seus óculos. Era considerada a

mais formosa das irmãs, não somente por seus traços delicados como também
por seu espírito vivaz e festivo que acabava atraindo as pessoas ao seu redor.

Mas todas essas qualidades não bastavam quando descobriam que era
praticamente uma cega. Era como se tudo que a fazia bela e atrativa
desaparecesse por um passe de mágica. Já havia provado o gosto da humilhação
outras vezes e não queria repetir com George, o homem a quem amava mais do
que tudo.

George, por sua vez, a idolatrava como a mulher que havia lhe tirado da
escuridão. Era perfeita e amável na medida em que seu coração necessitava para
se curar e nem sua curiosidade exagerada a fazia menos perfeita; ao contrário, a
deixava irresistível. Os criados haviam se afeiçoado à nova Senhora do Castelo e
até os nobres locais davam o braço a torcer que seria uma condessa admirável.

Estavam construindo aos poucos uma vida em comum, o que o fazia derrubar as
muralhas que havia levantado para proteger seu coração.

Barbarah era persistente para fazê-lo enfrentar os fantasmas do passado e fazer


as pazes com o primo, a quem ela acreditava ter o direito de lhe explicar os fatos.
No entanto, George era reticente a procurar Henry e com ele resolver os
acontecimentos do passado; acabava sempre deixando para amanhã a tal
conversa que poderia livrá-lo do ressentimento que ainda nutria.

Ninguém poderia julgá-lo em querer desfrutar da paz e da felicidade que


compartilhava com a esposa depois de anos vivendo escondido entre as sombras
de um passado de dor e vergonha. Em alguns dias só desejava se isolar com ela
no quarto e aproveitar sua companhia. Havia se transformado em um egoísta por
querer Barbarah só para si.

— Quero que mude meu testamento, Jude! – George ofereceu o cálice com
conhaque ao seu melhor amigo. — Quero Barbarah e meu filho como herdeiros
de todos meus bens desatrelados do título. – O advogado soltou uma gargalhada
que retumbou na ampla biblioteca que era usada como gabinete pessoal do
conde. — Do que ri?

— De sua paixão pela jovem que lhe arranjei como esposa. Devo mudar de
profissão, pois de primeira selecionei a esposa perfeita para ti. – Voltou a sorrir.
— Barbarah Winter é bela como um querubim e isso qualquer homem

é capaz de perceber sem muito esforço. Porém, é sua personalidade que a faz
única, meu caro amigo. Considerei a hipótese de pegá-la para mim, mas não
ousei afrontá-lo e acabar tendo-o como inimigo.

— Está brincando?! – George o encarou sério.

— Não estou! Fique tranquilo que Barbarah é sua. Embora durante a viagem
houvesse cogitado a possibilidade de ficar com ela, sempre soube que ela era
perfeita para ser a esposa de um conde com má fama. – Levantou-se e bateu no
ombro do amigo. — Sabia que a jovem plebeia seria audaz e persistente o
suficiente para te tirar daquele marasmo em que se encontrava.

Perdeu a mão e a esposa, mas não a vida. Sempre acreditei que poderia
reconstruir tua vida com a mulher adequada.

— E julgou Barbarah ser a mulher adequada?! – O conde sorriu ao lembrar da


espontaneidade da esposa ao abordá-lo, sem ter se intimidado com seu mau
humor. Sempre o enfrentou de igual para igual, exigindo respeito e lhe
demonstrando lealdade.

— Deixe-a examinar os livros contábeis do administrador e confirme o que digo,


George! – Soltou uma gargalhada. — Tenho certeza de que as incongruências
que diz não conseguir encontrar nas contas e que o levam a desconfiar da lisura
do administrador serão facilmente resolvidas pela condessa. Além de bela como
um querubim, é a mulher mais inteligente com quem tive o prazer de ter uma
boa conversa.
— Como sabe de tais detalhes? – George encarou o advogado com curiosidade.

— Milhas de estrada dentro de uma carruagem em sua companhia, meu caro! E


não fique enciumado, porque não aconteceu nada demais, a não ser ter sido
humilhado em um simples carteado. Depenou-me aquela pequena e ainda ousou
dizer que não estava em seu melhor dia. – O conde acabou rindo.

— Devia ter pensado em lhe arranjar uma acompanhante. – Um pensamento que


não lhe passou pela cabeça quando enviou o advogado em busca de uma esposa.

— A entreguei imaculada, não entreguei? E de mais a mais, eu a comprei em um


leilão. Pouco importava se estivesse acompanhada de uma dama ou

não. Pediu por uma esposa independentemente de sua origem ou honra, e eu a


trouxe. – Deu de ombros.

— Mas se eu soubesse que ela iria se tornar importante, eu havia tomado todas
as precauções. – Soltou um suspiro. — Preocupo-me com seu pai.

Barbarah é atormentada pela ideia de ser devolvida a ele.

— É um sujeito estranho! Não demonstrou mais do que alívio por se livrar das
três filhas. – E assim Jude contou-lhe os detalhes da venda das irmãs Winter e o
destino que cada uma delas teve.

— Consiga os endereços delas. Será meu presente para Barbarah. Ela ficará mais
aliviada em saber dos paradeiros das irmãs. E jamais volte a comentar que um
dia ousou desejá-la para você. – Fechou a cara dando por encerrado o assunto,
fazendo com que o advogado sorrisse por ter conseguido atingir seu objetivo.

— Oh, George! – Barbarah acabava de invadir a biblioteca como se fosse uma


rajada de vento inesperada. — Ouvi bem o que pediu ao Senhor Brown?

Para que averigue sobre minhas irmãs?

— Tudo para vê-la feliz! – Respondeu, beijando-lhe as mãos com carinho. —


Terá o endereço delas, querida, e poderá enviar-lhe cartas. O que acha?

— Acho maravilhoso! – Sorriu ao se sentir feliz com a notícia. Parte de suas


preocupações poderia ser resolvida quando soubesse o paradeiro de Sarah e
Delilah. — Senhor Brown, como poderei agradecê-lo? – Desprendeu-se das
mãos do marido para se aproximar do advogado, mas foi impedida.

— Não há necessidade de agradecimentos, Barbarah! – George a puxou de volta


para perto dele. — Brown será muito bem remunerado pelo trabalho.

— Misericórdia, George! Agradecer não te custará nem um tostão a mais.

– Revirou os olhos. — Senhor Brown lhe sou grata desde já! – Separou-se do
marido e foi para perto do advogado para cumprimentá-lo da maneira
apropriada. — Nem te cairão os dedos... – Ela travou por ter se dado conta de
que havia falado demais. — Bem, quis dizer que agradecer um amigo, mesmo
que ele cobre pelo favor, nunca é demais. – Aproximou-se do marido e lhe deu
um beijo no rosto, cochichando em seguida. — Perdoe-me, não quis

ofendê-lo quando mencionei os dedos.

— Não há o que perdoar, meu amor! – Puxou-a para perto e beijou-a sem se
importar com a presença do advogado. — Eu ainda tenho dedos para perder. –
Mostrou sua mão boa, fazendo-a sorrir. — Sei que não fez de propósito.

— Bem! – Barbarah se desprendeu do aperto do marido e alisou as mangas de


seu vestido. Era um modelo novo que valorizava seu colo e George acabou
enciumado quando percebeu os olhares de cobiça do amigo sobre ela. Ele jamais
deveria ter confessado que havia cogitado a possibilidade de ficar com ela, pois
só de pensar nisso, o fazia quase perder a razão não fosse o fato de que confiava
tanto nela quanto nele. — Os deixarei para que possam tratar dos negócios. –
Antes de se retirar, voltou a atenção ao marido. — Sempre será você, não
esqueça! – Piscou-lhe antes de se retirar.

Ao chegar ao corredor buscou os óculos dentro do bolso do vestido e os colocou


sem demora. Não podia correr o risco de esbarrar nos móveis e objetos de arte
enquanto estivesse em busca de pistas sobre a morte da primeira condessa. Nada
tirava da cabeça de Barbarah que ela havia sido assassinada, uma hipótese que
lhe veio à mente quando ouviu uma conversa de Marjorie com uma mulher
estranha, que mais tarde descobriu ter sido a criada de quarto de Lady Vivienne.
Tentou não se deixar levar pela curiosidade que sentia, mas a ideia de que
poderia desvendar a misteriosa morte martelava em sua cabeça dia e noite.

E não havia melhor momento para fazer uma visita ao vilarejo do que nesta tarde
em que George estava ocupado com seu advogado. Preferiu não informá-lo
acerca da rápida excursão. É claro que o comunicaria depois, quando tivesse
provas suficientes de que aquilo que acreditou ser uma suspeita era de fato uma
verdade incontestável. Conhecia o marido muito bem apesar dos poucos meses
de convívio e sabia que ele não acreditaria nela se não lhe apresentasse provas
contundentes.

Levou consigo Isabelle e não precisava esconder os óculos da criada.

Assim que chegaram no vilarejo foram atendidas por uma senhora com pouco
mais de 30 anos, cabelos recolhidos em uma touca e bochechas

rechonchudas. Isabelle lhe contou que era francesa assim como Lady Vivienne,
mas que preferiu viver no vilarejo ao invés de retornar ao seu país quando a
patroa morrera. Era mais um indício de que algo de valioso lhe segurava em
Carrick.

— No que posso ajudá-la? – A mulher perguntou espantada com a súbita visita


da nova Condessa de Carrick.

— A senhora... – Barbarah olhou para os dedos da sua mão esquerda e não


encontrou o anel que simbolizava que estava casada. — Quer dizer, a senhorita
me foi recomendada por entender muito bem de etiqueta e moda.

— Milady busca uma criada de quarto? – A mulher abriu passagem para que a
condessa pudesse entrar em sua não tão modesta cabana. Estranhou à Barbarah o
luxo que ali encontrou.

— Já tenho uma! – Olhou para Isabelle. — Preciso apenas de uma conselheira e


talvez de uma professora que me ensine como uma condessa deve se comportar
em sociedade. Não fui criada como uma dama, mas posso aprender a ser uma. –
Sorriu. — Angelique é seu nome, não é mesmo? –

Tentou demonstrar simpatia.

— Sim, milady! A senhora aceitaria uma xícara de chá? – Perguntou intimidada


com a presença da jovem condessa, a quem todos comentavam esperar o
herdeiro, o papel que deveria ter sido de sua antiga patroa.

— Aceito com gosto! Todos comentam que Lady Vivienne era uma dama sem
igual, muito elegante e refinada. Se aceitar minha proposta, com certeza será
bem remunerada. – Barbarah olhou à sua volta, considerando mil e uma
possibilidades que poderiam justificar o fato de uma ex-criada de quarto viver
em casa tão confortável sem ter uma renda para lhe sustentar. Mas talvez não
passasse de invenção de sua mente criativa. A falecida condessa poderia ter lhe
deixado um legado ou mesmo Angelique poderia ter um protetor.

A francesa retornou com uma bandeja em mãos e serviu Barbarah com


educação. Seu sotaque diferente a deixava com um ar sofisticado.

— A senhora prefere com leite ou sem? – Perguntou prestativa e a condessa


dispensou o leite. — Posso ajudá-la, mas acredito que o conde não gostará de me
ver no castelo novamente. Expulsou-me de lá por minha

presença lhe lembrar a falecida esposa.

— Podemos ter nossas aulas aqui se não se importar! Posso inclusive


recompensá-la por oferecer sua casa para as aulas. – Barbarah sorriu e levou a
xícara até a boca, tentando soar a mais despreocupada possível.

— Devo alertá-la de que custará caro as aulas! – A francesa parecia querer criar
problemas e Barbarah não gostou de sua abordagem.

— Dinheiro não é um problema, Senhorita Angelique! Considero um


investimento me tornar uma dama elegante e refinada. – Devolveu a xícara na
bandeja. — Podemos começar amanhã mesmo, o que acha?

Angelique aceitou a proposta quando se deu conta de que não conseguiria se


livrar da nova Condessa de Carrick. Já Barbarah se despediu da mulher com um
sorriso de satisfação grudado nos lábios.

— Milady está segura de que a francesa poderá saber algo sobre a morte de Lady
Vivienne? – Isabelle perguntou assim que se acomodou ao lado de Barbarah na
carruagem.

— Certeza, certeza é algo que só terei depois de investigá-la melhor. –

Considerou pensativa. — Mas algo me diz que irei descobrir mais do que supus
ser possível.
— Dizem que não é bom mexer com os mortos, milady! – A jovem criada fez
uma prece baixinha e Barbarah se recordou de sua irmã mais velha.

— Lady Vivienne merece descansar em paz, Isabelle! E nunca terá seu descanso
eterno com tantas mentiras trancafiadas dentro daquele castelo.

Considerando que meu filho viverá lá, quero que seu fantasma se retire o mais
breve possível para nunca mais retornar. – Tratou de abrir as cortinas de veludo,
pois a escuridão lhe deixava nervosa. Já enxergava mal o suficiente e a luz
sempre lhe era bem-vinda.

— Temo por sua vida, milady! – Disse consternada. — E se realmente existir um


assassino? E se for o conde?

— Misericórdia! É claro que não é o meu marido! – Soltou indignada.

— Mas todos sempre comentaram que ele matou a esposa e agora a senhora
também suspeita de que tenha sido assassinada.

— Claro que não foi o conde! – Cruzou os braços na altura dos seios. —

Coloco minha mão no fogo de que não foi ele e haverei de provar para todos que
a Lady Vivienne foi assassinada, mas por outra pessoa.

— Mas quem?

— Não sei! – Deixou os braços cair sobre o colo. — Talvez alguém que sempre
esteve por perto e que enganou a todos. Prometa-me que se algo de ruim
acontecer comigo irá em busca do conde imediatamente. Confie nele e não tenha
medo, Isabelle! – A criada concordou com a cabeça e evitaram trocar mais
palavras até o castelo.
GEORGE AGUARDAVA ANSIOSAMENTE a chegada da esposa.

Havia mandado preparar uma refeição especial e pediu aos criados que a
servissem na sala de jantar mais íntima, um ambiente menos austero e mais
aconchegante, onde poderiam ficar mais próximos. Havia preparado também
uma surpresa para Barbarah e esperava que ela gostasse.

A Winter, por sua vez, havia escolhido um bonito vestido de brocardo, cujo
decote no estilo princesa a deixava mais atraente. Havia escolhido aquele
modelo de propósito, pois pretendia seduzir o marido e ter com ele uma noite
inesquecível. Isabelle a havia ajudado com o penteado e sentiu-se uma princesa
ao rodopiar diante do espelho. Guardou os óculos dentro do bolso como seu
talismã da sorte e desceu com a ajuda do mordomo até a saleta onde o marido a
aguardava. A maioria dos empregados do castelo sabiam de sua péssima visão e
a ajudavam sempre que podiam, fosse a acompanhando em suas excursões ou
até indicando os talheres que deveria usar à mesa. Sempre encontraria alguém
para lhe auxiliar nas pequenas atividades diárias. E o mais importante, ninguém
ousava delatá-la para o conde.

— George! – Barbarah chamou o marido com o coração acelerado ao imaginá-lo


tão bem arrumado, já que sua pouca visão não permitia admirar os detalhes. —
Está muito elegante esta noite. – Aproximou-se e deixou-se ser

cumprimentada com um beijo no rosto.

— A preciosidade aqui é você, meu bem! – Envolveu-a pela cintura e juntou sua
boca na dela com paixão.

— Jura? – Fitou-o em expectativa, sentindo o corpo arder de desejo.

— Ah, eu juro! – Voltou a puxá-la contra o corpo, perdendo-se no delicioso


perfume que emanava de sua pele. — Senti saudades! Onde esteve a tarde toda?
– Perguntou.

— Fui ao vilarejo comprar fitas para o meu cabelo. – Apontou para a cabeça,
sentindo-se uma traidora, mas não podia revelar suas intenções antes de ter
provas concretas que comprovariam suas suspeitas. Barbarah mentia, mas
acreditava que era por uma boa causa.

George a convidou para se sentar à mesa e os dois degustaram de saborosos


pratos enquanto conversavam sobre amenidades. Barbarah era uma excelente
companhia e conversava sobre os mais diversos assuntos, revelando-se uma
mulher inteligente e perspicaz. Isso a tornava encantadora e o conde só
conseguia admirá-la mais, compreendendo as palavras de Brown quando o
aconselhou a mostrar-lhe as contas feitas pelo administrador do castelo.

— Brown me falou que é uma exímia jogadora de cartas. – Ela o fitou curiosa.
— E que o depenou em uma partida durante a viagem de Londres até aqui. E
segundo ele você não estava no seu melhor dia.

— E não estava mesmo! – Barbarah abriu as covinhas ao sorrir para o marido,


com os olhos mais brilhantes do que costumavam ficar. — Digamos que estava
muito eufórica para enxergar bem as cartas. – Piscou-lhe temendo que tivesse
que revelar seu segredo. Naquele dia em específico Barbarah havia jogado mais
pelo instinto, deixando-se guiar pelo toque nas cartas, já que não estava com
seus óculos para poder enxergá-las bem. Foi durante a infância que a visão
começou lhe falhar e precisou desenvolver técnicas de sobrevivência. Delilah e
Sarah haviam sido valiosas em ajudá-la a reconhecer objetos apenas pelo toque e
pessoas pela voz. — Deve me considerar uma mulher vulgar por jogar cartas! –
Ficou séria de repente e George percebeu seu acanhamento.

— Uma mulher jogar cartas não é algo corriqueiro, mas não é proibido, querida!
– Pegou-a pela mão. — Principalmente quando o faz na companhia do marido.

— Jogaria comigo? – Perguntou, voltando a sorrir e deixando-o aliviado.


— Claro que sim! – Beijou-a no dorso da mão e sorriu como o tolo apaixonado
que havia se transformado. Muitas coisas haviam mudado e George se sentia
cheio de vida como há tempo não acontecia. — Tenho um presente para ti,
Barbarah. – Ergueu a mão e provocou um estalo com os dedos. Imediatamente,
um criado entrou com uma bandeja em mãos. —

Obrigado, Giles! – Agradeceu. — Aqui está, querida! Meu presente para você. –
Abriu a caixa diante da esposa, revelando um lindo colar de diamantes.

— É para mim? – Barbarah enrugou os olhos, forçando a visão de modo a


enxergar melhor a beleza do colar, deslizando os dedos sobre a peça a fim de
poder perceber os detalhes.

— Claro que sim! É minha condessa e merece usar as joias da família. –

Levantou-se e foi até ela para que pudesse colocar o colar em seu pescoço.

Puxou as mechas de cabelo que caíam sobre a pela alva e ali depositou um
beijinho, uma carícia que o acendeu para a luxúria. — Aprecio tocá-la aqui. –

Beijou-a na junção entre o pescoço e o ombro, deliciando-se com o toque de sua


boca naquela carne cunhada para o pecado. A muito custo concentrou-se na
tarefa a que havia se proposto executar e, depois, admirou-a com o colar, um
bonito par combinando com seus olhos azuis.

O conde estava encantado com a beleza da esposa e acreditou ter sido um


prepotente quando a comparou com Vivienne tempos atrás. Barbarah era bela à
sua maneira desde o primeiro dia em que a viu, mesmo lhe faltando a fineza e a
elegância de uma dama. Seus olhos azuis e suas longas madeixas loiras o faziam
lembrar um anjo. Mas agora, cercada de luxo e vestidos de corte impecável
havia se dado conta de que a falecida esposa jamais conseguiria se igualar à
beleza da Winter, à pureza de seu coração. Como havia sido tolo em se deixar
levar por um amontoado de panos e uma lembrança idealizada de uma mulher
que jamais se compararia ao que Barbarah havia se transformado em sua vida:
era o seu verdadeiro amor.

— Eu gosto quando me toca! – Ela confessou, deixando-se pajear pelo marido


até a saleta de música onde o som do piano os atraía.

— Aceita dançar comigo, meu amor? – Ele perguntou, acariciando-a na altura


dos seios, brincando com as minúsculas pedras do colar que estavam em contato
com a pele delicada do colo dela.

— Não sei dançar... Bem, não as danças elegantes que vocês nobres costumam
dançar. – Confessou envergonhada e ele não fez caso, apenas a puxou para seus
braços e começou a embalá-la, incentivando-a para que se entregasse ao som das
notas musicais e se deixasse conduzir por ele.

Aquela proximidade o fez imaginá-la nua em seus braços e o ardor tomou conta
de seu corpo, despertando-o para pensamentos indecentes. Fechou os olhos e
aproveitou a oportunidade para lhe confessar o que sentia, o quanto a amava e a
achava linda.

Barbarah aproveitou o momento e deixou-se levar pelo sentimento de


pertencimento que invadia sua alma como uma certeza. Sentia-se eufórica e
contente ao ouvi-lo devotar seu amor com palavras doces. Ela tinha certeza de
que George não havia assassinado sua primeira esposa como muitos
comentavam e lutaria para provar a todos que ele era um homem honrado.

— Podemos continuar nossa dança em nosso quarto? – Perguntou provocativa.

— Ah, Barbarah, você é quem manda! – Interrompeu a dança depois de um giro


e pegou-a no colo sem pensar duas vezes. — Eu havia planejado uma noite
romântica e tenho mais uma surpresa para você. – Sorriu para ela.

— Deixamos a surpresa para depois, amor! – O coração de George retumbou no


peito ao ouvi-la chamá-lo por amor. Foi a primeira mulher que o chamou dessa
forma e aquilo parecia um sonho do qual não desejava despertar.

As palavras ficaram presas na garganta dele, incapaz de externar todo o afeto


que sentia pela esposa, uma mulher comprada em um leilão, mas que havia se
infiltrado aos poucos em sua solitária rotina, sem deixar espaço para que ele
pudesse lutar contra o amor que ela lhe despertava.

Com a rapidez de um leopardo George subiu as escadas e caminhou até o

quarto dela, determinado a demonstrar com gestos o que sentia por ela.

Depositou-a na cama e a despiu lentamente, brincando com os laços do


espartilho a fim de provocá-la ainda mais. Beijou-a em todas as partes que
descobria, devotando o amor que ela havia lhe feito sentir. E quando não restava
nenhum pano a escondê-la dos olhos dele, admirou a preciosidade que era, um
contraste magnífico de seu corpo nu com o brilho dos diamantes, desejando
cobri-la das mais ricas joias como uma adoração à dona de seu coração.

— Às vezes penso que se eu tivesse a encontrado antes tudo poderia ter sido
diferente. Não teria me casado com Vivienne e ela teria sido feliz ao lado de
Henry como tanto desejava. – Deitou-se ao lado dela e deixou que ela lhe
ajudasse com os botões.

— Não teria me notado, George! – Soltou com certa indignação. — Me faltariam


os vestidos bonitos e me tornaria um borrão insignificante perto de qualquer
outra. Você não teria olhos para mim. Não esqueça de que nasci e cresci em
outro meio e que se não fosse o desejo de meu pai em se livrar das filhas e o seu
de encontrar uma esposa disposta a te dar um herdeiro a qualquer custo, não
estaria aqui. – Barbarah preferia enfrentar a verdade a se iludir com uma mentira.
— Não me queixo, querido! – Interrompeu-o, levando um dedo até a boca dele.
— Nos encontramos no tempo certo. Isso é o que importa.

— Amo você, Barbarah! – Disse olhando-a comovido, envolvendo-a com os


braços pela cintura de modo a tocá-la por inteira e a beijou com prazer,
provocando-a para o ato sexual.

Quando a cobriu com seu corpo, colocando-se dentro dela com vontade, ela
urrou seu nome em meio a palavras de amor que o fizeram tocar o paraíso, sentir
o gosto de fazer sexo por amor e se apoderar de uma felicidade que julgou nunca
merecer. Sentia-se completo dentro dela, capaz de mover céus e terra para
protegê-la e fazê-la feliz. Amava com vontade e uma determinação que haviam
lhe feito um novo homem.

Barbarah gostava de recebê-lo daquele jeito pecaminoso. Ele a tomava com


grande volúpia e a fazia se sentir especial, embora desejasse poder observar os
contornos do rosto de George com a precisão das lentes de seus

óculos. Ainda lhe faltava aquele detalhe: poder conhecê-lo com a nitidez de uma
boa visão.

Não poderia ter tudo, pensava enquanto o sentia se movimentar dentro de seu
corpo, convidando-a para que se juntasse a ele no prazer, mas aceitava tudo dele,
e sentia cada toque dele como uma parte que ele oferecia a ela, capaz de
compensar sua falta de visão. O amor tinha dessas coisas, tornava possível o
impossível e fazia enxergar até os mais cegos.

Se alguém ousasse descrevê-los naquele momento de intimidade teria dito que


haviam se tornado um só corpo, não sabendo onde terminava um para começar o
outro. Estavam colados em busca do prazer que prometiam um trazer para o
outro, envolvidos pela atmosfera de desejo que os faziam suar mesmo em uma
noite fria.

Inadvertidamente foram surpreendidos pelo arrebatamento e deixaram-se levar


pela sensação de entorpecimento que seus corpos produziam enquanto buscavam
a saciedade. E tudo porque George não tomava uma mulher apenas para cumprir
com uma obrigação conjugal, mas porque a amava e a queria saciada. E
Barbarah oferecia a ele o paraíso dos amantes, entregando-se com vontade,
deixando-se levar pelo amor que pairava sobre os dois como uma benção. Foi
então que o profano tornou-se divino e a completude foi atingida através da
consagração de uma união que estava escrita para acontecer independente do
tempo e do espaço.

Passaram-se alguns minutos para que a respiração dos dois voltasse ao normal e
pudessem voltar a ser capazes de falar. Já haviam feito sexo outras vezes, mas
dessa vez havia sido diferente, pois haviam tocado um ao outro de uma forma
diferente, haviam sentido o amor em sua forma mais pura e bruta.

— Eu gostaria de receber a próxima surpresa! – Barbarah provocou o marido,


girando na cama e esfregando-se no corpo dele.

— Como posso pensar em surpresa com você me provocando descaradamente?!


– Pegou-a pelo queixo e a puxou para um beijo. Beijá-la havia se tornado um
vício delicioso.

— Por favor, George! Deve ter notado que sou uma curiosa incorrigível.

— O que a torna ainda mais perfeita. – Mordiscou-lhe no queixo.

— Não minta, querido! Ser curiosa não é uma qualidade. Sarah me fazia rezar o
terço a fim de encontrar a salvação antes de ser condenada em razão de minha
curiosidade exacerbada.

— Não tenho do que me queixar! Especialmente quando é curiosa em cima de


uma cama e se entrega por inteira ao prazer que te ofereço. – Ela sorriu e ele foi
conquistado por aquele sorriso cativante, meigo e provocante.

— Ser curiosa tem suas vantagens! Mas vamos à surpresa! – Ela se animou.

— Daremos um baile para apresentá-la à sociedade como a nova Condessa de


Carrick.

— Um baile? Aqui no castelo? Onde terei que ser a anfitriã? Onde terei que
dançar com outros pares que não você? – Barbarah se sobressaltou, afastando-se
dos braços do marido, o que o deixou preocupado.

— Sim! E não tem o que temer, querida! Será uma anfitriã esplêndida e poderei
ser seu professor para que aprenda os principais passos das danças que
costumamos dançar. – Tentou confortá-la, sem saber que sua preocupação era
outra.

Barbarah sabia que a ausência dos óculos dificultaria seu desempenho em um


baile onde deveria cumprir o papel de anfitriã, onde teria que dançar com
diversos cavalheiros e se tornaria o alvo principal dos comentários. No entanto,
não poderia acabar com os planos do marido, que havia se mostrado muito
empolgado com a ideia.

— Se estiver ao meu lado acredito que poderei enfrentar mais essa provação. –
Sorriu sem graça, temendo que pudesse transformar o evento em uma tragédia.

— Barbarah! – George puxou o rosto da esposa para acariciá-lo com os


polegares. — Não quis deixá-la preocupada, apenas desejei demonstrar que eu
tenho apreço por ti e que desejo oficializar nossa união diante de todos.

Mas se não quiser não precisamos oferecer um baile. Já somos felizes só nós
dois.

— Eu sei, querido! – Devolveu a carícia. — Tenho certeza de que o baile será


um sucesso se estiver o tempo todo ao meu lado. Só quero dançar contigo,
George.

— Isso eu posso fazer, meu amor! Só dançará comigo e ficarei sempre ao seu
lado. – Beijou-a e Barbarah se entregou ao carinho dele, afastando os temores
para um canto da mente, entregando-se ao amor que ele oferecia sem condições.
BARBARAH VISITAVA REGULARMENTE a antiga criada de Lady Vivienne
com a desculpa de que precisava receber aulas de etiqueta e a mentira que havia
inventado para justificar as visitas à sua casa acabaram se tornando uma
necessidade, pois tinha um baile a oferecer dentro de algumas semanas, o que a
deixou com menos remorso por estar mentindo para o marido.

— Lady Vivienne ficava muito bonita usando vermelho e penso... –

Angelique foi interrompida subitamente.

— Vermelho não! Não pretendo usar a cor preferida da falecida. –

Barbarah respondeu a contragosto, revelando uma irritação incomum.

— Iria sugerir a cor azul ou verde para seu vestido. – A francesa respondeu
frustrada e tudo parecia ter fugido ao controle de Barbarah, que apenas queria
descobrir detalhes que pudessem ajudá-la a desvendar os segredos que rondavam
a morte da primeira esposa do marido.

— Perdão, Senhorita Angelique! A gravidez tem me deixado instável


emocionalmente. – Piscou despretensiosamente. — Acredito que vermelho não
combina com minha cútis.

— Oh, não concordo! O tom de seus cabelos favorece as cores exuberantes.


Talvez o fúcsia, então!
— O fúcsia me parece uma boa indicação. – Sorriu. — Como era a vida de Lady
Vivienne? – Perguntou determinada a descobrir detalhes que poderiam lhe trazer
respostas, ansiosa para que suas visitas pudessem ter valido a pena.

— Apesar de ser uma das damas mais elegantes da Cornualha, vivia infeliz
naquele castelo velho. O conde se casou com ela e a enfiou dentro daquele
mausoléu medieval sem considerar que ela era um espírito vivaz e que definharia
lá por falta do que fazer.

— A senhorita também acredita que a condessa foi assassinada pelo marido? –


Arriscou uma pergunta mais incisiva, pois sabia que logo que George
descobrisse sua pequena travessura suas visitas seriam interrompidas.

— Com certeza não foi o conde! – Deixou escapar e Barbarah se sentiu


vitoriosa, pois havia confirmado, mesmo que implicitamente, que não havia sido
um mero acidente.

— E por que todos acreditam nisso já que o próprio conde acredita ter sido um
acidente!? – Ousou ir mais longe.

— Nem sempre o que as pessoas comentam é o que aconteceu de verdade, Lady


Barbarah! Os nobres são invejados na maior parte do tempo e Lady Vivienne
não era aceita por alguns.

— Por ser francesa, presumo! – Comentou despreocupadamente, bebericando o


chá que acabava de lhe ser servido.

— Não somente por isso! Talvez a senhora também corra perigo por ter se
casado com o Conde de Carrick e aconselho que tome cuidado. – Os pelos do
corpo de Barbarah se arrepiaram.

— A senhorita quer dizer que corro risco de vida porque alguém deseja o meu
lugar como esposa do conde? – Soltou surpresa.

— Não devia ter comentado! – A francesa se esquivaria das perguntas dali em


diante, percebeu Barbarah, e precisava fazer algo para que lhe revelasse mais,
pois tinha certeza de que Angelique sabia mais.

— Devo lhe ser honesta, Senhorita Angelique! Vim até a senhorita para que me
ensine a ser uma dama, é claro. Mas não apenas por isso, tenho que
confessar! Quero descobrir o que aconteceu com a falecia esposa do meu
marido, pois julgo que sua alma não conseguirá descansar em paz até que a
verdade seja revelada. A senhora como sua criada pessoal deve querer o melhor
para ela, não é?! – Fitou-a em expectativa, apelando para o carinho que parecia
ter nutrido pela antiga patroa.

— A senhora a viu? Digo, viu o fantasma de Lady Vivienne?

— Não a vi, mas alguns criados juram tê-la visto na ala leste do castelo,
exatamente onde ela morreu. Eu acredito neles porque sinto que meu marido
precisa se livrar dessa história. – Decidiu ser honesta. — É como se um laço de
muita dor ainda os ligasse. Eu sei que Lady Vivienne não o amava e que preferia
ter se casado com o primo do marido. Também sei que ela não o traiu com Lorde
Henry. O próprio me confidenciou.

— Ela o amava muito, mas sempre foi fiel ao marido. Posso lhe garantir.

– Deixou uma lágrima escapar e a secou imediatamente. — Maldita hora em que


Lorde George a viu na companhia de Lorde Henry e colocou seus olhos nela.

— George não agiu certo com eles e acredite, ele se envergonha por isso.

– Barbarah saiu em defesa do marido. — Sua decisão em desposá-la apenas


trouxe a ruína para todos em Carrick.

— Desculpe-me, mas não sinto pena do conde neste ponto. Merece cada gota de
remorso que sente e o isolamento que isso lhe trouxe. – Disse com os olhos
molhados. — Lady Vivienne era uma flor rara e merecia ter desabrochado nos
salões parisienses e não ter morrido em um castelo velho.

— Compreendo-a! – Respondeu. — Infelizmente ela foi forçada a deixar esse


mundo e a verdade sobre sua morte deve ser conhecida. Sabemos que ela não
sofreu um acidente e que não foi George quem a matou. Precisamos honrar seu
nome com a verdade, Senhorita Angelique!

— Se eu contar a verdade, que acredito que a essa altura já deva suspeitar que a
conheça, colocarei minha vida em risco, milady.

— Posso ajudá-la nessa parte! Quem sabe eu lhe ofereça uma boa quantia para
que a senhorita volte para a França a fim de ficar longe das ameaças! –
Sugeriu com o coração saltitante no peito.

— Contarei a verdade, mas peço à senhora que a revele quando eu estiver longe
daqui. – Disse a criada.

E assim ela contou que no dia em que George havia surpreendido a esposa na
companhia do primo uma briga havia se iniciado, fato já conhecido por
Barbarah. Lady Vivienne, então, tentou apartá-los em vão e os dois se dirigiram
até o salão principal da ala leste, esquecendo-se da condessa, que os seguiu até a
altura das escadas. Iria descê-las para se colocar entre eles se não tivesse sido
impedida por Marjorie. Angelique, assustada com os gritos, resolveu ir ao
encontro da patroa e as viu no exato momento em que a governanta empurrava a
primeira esposa do conde escadaria abaixo. Tentou impedi-la, mas quando a
alcançou o corpo de Vivienne já estava estirado diante dos dois homens que se
olhavam espantados.

— Eu sabia que havia sido ela! – Desabafou Barbarah muito emocionada.

— Por que escondeu isso de todos? – Perguntou chocada.

— Fiz um acordo com Marjorie! Em troca de dinheiro eu guardei seu segredo.


Vendi o segredo à governanta, assim como acabei de vender à senhora. –
Confessou com o semblante tão pacífico que provocou náuseas na jovem
condessa.

— E não admitirá isso na frente do meu marido, presumo. – A francesa


confirmou com uma leve sacudida de cabeça. — Terei que encontrar outra forma
de provar a inocência de George. – Deu voz ao pensamento, sentindo-se parte
realizada e parte frustrada pela descoberta.

— Prometeu-me, além de dinheiro, discrição se lhe revelasse a verdade.

— E assim será! – Barbarah respondeu, pois quando prometia algo, levava a


sério. — Tome isso! – Entregou um maço de dinheiro. Era o dinheiro que havia
separado para pagar a modista. — Darei um jeito de enviar-lhe o suficiente para
sua mudança até o final da semana.

Barbarah deixou a casa da francesa atordoada e se não fosse Isabelle a lhe


amparar não teria chegado até a carruagem. Sentia-se miserável com a
descoberta, além de não saber o que fazer para lidar com a verdade ou como
faria para que George acreditasse nela.

Evitou conversar sobre o assunto com Isabelle, acreditando que foi

melhor à garota ter se ocupado com outras coisas no vilarejo e assim não ficou a
par do que havia sido contado pela francesa, afastando o risco de se tornar mais
um alvo da governanta.

Chegando ao castelo, enfiou-se no quarto alegando uma forte enxaqueca, o que


acabou por alarmar o conde, que não entendia o súbito abatimento da esposa.
Barbarah se recusava a conversar com ele e aquilo o havia deixado desconfiado
a ponto de supor que o primo a havia jogado contra ele.

— Não pense o impossível, George! – Disse Barbarah ao marido. —

Sempre que nutrir pensamentos descabidos, lembre-se, meu bem, que sempre
será só você para o meu coração.

— Confio em ti! – Ele a olhou ainda preocupado com o desalento incomum dela.
Até então, apenas havia lidado com seu lado curioso e despretensioso e não com
uma esposa taciturna e sem vida como a havia encontrado. — Mas ainda não
posso confiar em Henry.

— Não estive com ele, acredite! Estou apenas me sentindo indisposta.

Acredito que seja a gravidez que esteja me deixando apática e com enxaqueca. –
Estendeu a mão. — Venha aqui e deite-se comigo. Só quero o meu marido ao
meu lado. Pode fazer isso por mim, George? Passar uma noite ao meu lado sem
fazermos sexo? Entenderei se preferir dormir em seus aposentos.

— Jamais conseguiria ficar longe de ti, Barbarah! – Deitou-se ao lado dela e a


puxou para dentro de seu abraço. — Estive pensando em desativar o quarto da
condessa, querida! Podemos usar o meu, que é mais amplo e confortável. Talvez
podemos reformar esse para o nosso bebê, assim poderá ficar perto dele para
atendê-lo como me pediu.

— Seria maravilhoso! – Bocejou, entregando-se ao conforto dos braços dele e


deixando-se levar pelo sono que havia lhe chegado, acreditando que amanhã
haveria de encontrar uma solução para os tormentos que a afligiam.
GEORGE A AGUARDAVA com ansiedade, e quando viu a esposa no alto da
escadaria, impressionantemente elegante e com um lindo sorriso a lhe enfeitar o
rosto, julgou não ser merecedor de tamanha sorte.

Barbarah havia decidido usar naquela noite especial um traje na cor azul-
turquesa, com corpete ricamente bordado em dourado, amarrado atrás e que
terminava numa ponta bastante acentuada na cintura; já a saia acabava em um
barrado com o mesmo rico bordado do corpete. A modista havia insistido para
que estreasse um modelo que era a última moda em Londres, com a cintura
menos marcada e saia pouco volumosa, que procurava imitar a fluidez das
gregas dos tempos antigos. Apesar de lhe parecer mais confortável, aquele
modelo poderia chocar as matronas e só piorar sua fama junto à sociedade local,
que já a olhava desconfiada por sua origem plebeia.

Embora George pouco soubesse de moda e não ter entendido muito sobre os
detalhes da escolha do modelo conforme havia lhe contado a esposa naquela
tarde quando se reuniu a ela para o chá, apenas conseguia admirá-la e a recebeu
com um beijo na testa.

— Está encantadora nesta noite, querida! – Sussurrou ao pé do ouvido dela,


fazendo com que ela se arrepiasse por inteira ao recordar do interlúdio romântico
que tiveram naquela tarde.

— Mesmo que não esteja usando vermelho? – Encarou-o nos olhos como se
pudesse fazê-lo relembrar que ela não tinha apreço pela cor preferida da primeira
esposa. Um fato que acabou retornando à discussão quando a presenteou com
um anel de rubi horas antes.

George acabou sorrindo, considerando a ideia de que precisava acabar com a


implicância dela com aquela cor.

— Fica linda usando qualquer cor, meu amor, mas ainda a prefiro de azul.

– Tocou-a no queixo com o dedo e a beijou discretamente, já que os criados,


devidamente posicionados, os observavam seriamente. — Apenas realça seus
perfeitos olhos azuis.

— Jura? – Ela sorriu e ele quis abraçá-la.

— Juro, meu amor! Juro por minha vida que o azul apenas a enaltece.

Darei a você uma joia com safiras azuis da próxima vez.

E assim os dois se dirigiram ao salão para receber os convidados do baile de


apresentação da nova Condessa de Carrick.

Barbarah havia se empenhado para aprender a se portar como uma perfeita dama
e orgulhar o marido. Mas sua determinação acabava esmorecendo quando
lembrava que precisava desmascarar a sórdida governanta, que continuava a agir
como uma fiel e dedicada criada. Aquele comportamento a deixava nervosa e
considerou a ideia de contar a verdade para George mesmo que ainda não tivesse
conseguido reunir as provas necessárias.

Desde que havia descoberto a verdade sobre a morte da condessa, Barbarah


evitava encontrar Marjorie e quando isso acontecia era como se as duas
travassem uma batalha apenas com o olhar, onde uma desafiava a outra sobre os
segredos que poderiam ser revelados.

A governanta, por sua vez, havia desconfiado de Barbarah assim que descobriu
suas visitas à francesa. Mantinha uma rede de informantes e logo conseguiu
confrontar Angelique, que lhe revelou que foi obrigada pelas circunstâncias a
contar a verdade sobre a morte de Lady Vivienne. Seu segredo estava ameaçado
por uma bisbilhoteira que fora escolhida para ser a mãe do herdeiro de Carrick
como uma erva venenosa que poderia
comprometer seus planos.

No entanto, Marjorie estava determinada a dar um basta nas humilhações que


George a havia feito suportar durante anos antes que acabasse enforcada pela
morte de uma nobre. A governanta sabia o que havia feito e as consequências
que suportaria se seu crime fosse descoberto.

Sempre fora apaixonada pelo conde e não conseguia se conformar que ele a
havia trocado por uma plebeia, que além de não ter um sobrenome influente, era
cega. Aquele segredo poderia ser usado para uma barganha, mas Marjorie não
estava disposta a isso. Queria sim que Barbarah fosse humilhada quando todos
descobrissem que não conseguia enxergar bem, e principalmente vislumbrar o
desapontamento no semblante de George quando descobrisse a mentira da
adorada esposa.

George havia sido um fraco ao se deixar envolver por palavras gentis da plebeia
e isso Marjorie não perdoaria, por mais que o amasse e houvesse dedicado anos
de sua vida a servi-lo. Ele também teria que pagar pela dor que a havia feito
suportar ao apaixonar-se por uma qualquer.

Marjorie os observava recebendo os convidados em um canto escondido, sentido


a inveja lhe tomar a cada sorriso dado por George à esposa, a cada carícia velada
que deixava em suas costas. Ele amava a plebeia e aquilo a deixava furiosa como
jamais havia se sentido. Poderia suportar qualquer coisa dele, até a rejeição com
que sempre a tratou, mas trocá-la por uma mulher sem berço a havia feito uma
besta capaz de qualquer atrocidade apenas para vingar-se.

Do outro lado do salão Henry a observava desconfiando de suas reais intenções


ao manter-se tão compenetrada na direção dos anfitriões. Estava ali porque fora
convidado pelo primo, o que o deixou boquiaberto, mas sabendo que havia sido
resultado dos esforços de Barbarah em reaproximá-los. Já não odiava mais
George desde que havia se encontrado com sua nova esposa, que o fez repensar
as circunstâncias da morte de sua amada a ponto de decidir investigar melhor o
que havia acontecido naquele dia fatídico. Aos poucos foi ligando os pontos,
mas infelizmente havia chegado atrasado para confrontar a criada francesa de
Vivienne, que havia deixado a Cornualha poucos dias atrás. Nada lhe restou a
não ser aceitar o convite do conde e assim ter a

oportunidade de retornar à cena do crime em busca de novas pistas, mal sabendo


que a verdadeira assassina estava à espreita de uma nova presa.

Marjorie percebeu o olhar de Lorde Henry sobre si e tratou de se retirar


imediatamente, o que o deixou ainda mais desconfiado.

Porém, Henry tinha outros assuntos a cuidar antes de ir atrás da governanta, pois
algo havia lhe passado pela cabeça e precisava tirar a prova dos nove. Aguardou
que o casal anfitrião abrisse o baile e, logo em seguida, aproximou-se a fim de
tirar a condessa para uma dança, a oportunidade perfeita para perguntar-lhe se
havia descoberto algo de novo.

— Perdoe-me, Lorde Henry, mas prometi ao meu marido que só dançaria com
ele. – Barbarah sorriu por trás do leque, colocando a mão sobre o braço de
George de modo a acalmá-lo. — Não sou a melhor das bailarinas e evitarei
passar vergonha. Como sabe sou uma plebeia.

— Foi uma, querida! – George a interrompeu. — É a Condessa de Carrick e seu


passado pouco importa. – Sorriu como uma maneira de lembrá-la que a amava e
respeitava pelo que era e não em razão de suas origens.

— Bem sabe que é deselegante de sua parte, milady! – Henry apelou para a
etiqueta para ser persuasivo.

— Não me importo com a elegância! – O conde respondeu irritado. Havia


prometido que ficaria ao lado da esposa o tempo todo e já havia se arrependido
por ter cedido ao seu pedido de convidar o primo para o baile. —

E sua insistência é exasperante.

Henry aproveitou que a atenção do primo foi exigida por um nobre cavalheiro e
trocou rapidamente algumas palavras com a condessa.

— Vim até aqui porque pretendo averiguar a cena do crime e pensei em


conversar contigo para saber se descobriu algo. – Disse em tom de voz baixo.

— Não acredito que seja o melhor momento para isso. – Barbarah respondeu
apreensiva, considerando lhe revelar o que sabia como uma forma de pedir
ajuda.

— É a única que tenho. – Respondeu afoito.


— Pois bem, vou dizer o que sei, milorde, antes que enlouqueça com esse

segredo. – Levou a mão à testa para massageá-la, temendo que sua enxaqueca
retornasse em momento tão inoportuno. — Foi a governanta quem empurrou a
condessa, provocando sua morte. Descobri com a criada de Lady Vivienne, que
foi quem a viu empurrá-la sem piedade. Mas não tenho como provar a George e
não sei mais o que fazer.

— Tentarei obter as provas. – Prometeu Henry com as mãos cerradas em punho,


o coração disparado no peito e o desejo de matar Marjorie com as próprias mãos.
— Obrigado por me contar, Lady Barbarah! Meu primo é um homem de sorte
por tê-la encontrado. – Beijou-a na mão e retirou-se em busca de ar puro.

— O que ele lhe disse? – George a olhou desconfiado.

— Que adoraria conversar contigo, querido! – Barbarah piscou fingindo


inocência, sentindo-se culpada por deixá-lo alheio aos acontecimentos, mas
sabendo que o gênio desconfiado do marido interpretaria os fatos
equivocadamente. — Obrigada por ficar ao meu lado. — Enganchou-se ao braço
dele.

— Devo elogiá-la, meu amor, porque tem se comportado de maneira impecável.


Sua preocupação foi em vão, afinal! – Trouxe a mão enluvada dela aos lábios.

— Porque está sempre ao meu lado, guiando-me entre pessoas estranhas.

– Confessou encabulada, tomando a decisão de que deveria lhe revelar acerca da


sua quase cegueira. — Devo lhe confessar algo que muito me envergonha,
George. – Apalpou os óculos velhos que o mordomo havia lhe trazido meses
antes dentro do bolso de seu vestido. Havia escolhido aquele modelo
considerado ultrapassado pelas londrinas não só porque o novo iria chocar as
damas, mas também porque não haveria um bolso para escondê-los. —

Entenderei se me rechaçar depois que lhe contar... – Acabou interrompida pela


chegada da madrinha do marido que precisava lhe contar algo importante.

— Prometo ouvi-la depois, meu amor! – Disse George ao notá-la desiludida.

— Talvez depois me falte a coragem para contar, mas entendo que


precisamos ser gentis com sua madrinha. – Cochichou enquanto a velha senhora
lhes falava insistentemente.

— Encontraremos a coragem juntos, eu prometo! – Beijou-a na mão e voltaram


a atenção à Lady Treaner.

— Como dizia, meus queridos, fico imensamente feliz por meu afilhado ter
decidido retornar à vida social, abandonando a reclusão definitivamente, que
apenas alimentava as fofocas descabidas. Nada consegue estragar minha
felicidade, nem o fato de que a nova condessa veio da plebe, meu querido. –

Disse efusivamente como se Barbarah não estivesse presente. Mas ela não se
incomodou com o que pensava a madrinha do marido a seu respeito quando
estava preocupada com Henry e Marjorie. — A nova condessa é tão formosa e
contagiante que daqui alguns anos ninguém lembrará que se casou com uma
plebeia, George.

— Madrinha, não me importa o que os outros dizem ou pensam acerca de minha


esposa. A verdade é que eu a amo muito para me importar com os mexericos e
não pretendo esconder que mandei trazê-la de Londres porque já não acreditava
mais na vida. Barbarah me trouxe a luz e me devolveu a vontade de viver. –
Olhou-a apaixonadamente e o coração de Barbarah bateu mais forte com aquela
demonstração de amor incondicional. Ele a havia aceitado mesmo sendo uma
ninguém e desejava que continuasse a aceitá-la quando descobrisse que não
enxergava direito e que talvez os filhos que tivessem herdariam sua deficiência,
maculando com isso a linhagem dos Hosken.

— Bem, ainda acredito que deveria ter sido mais precavido e evitado que a
notícia se espalhasse pela Cornualha, meu querido afilhado. – A velha dama
insistia com aquele assunto que já chateava ao conde. — Tem um nome a zelar.

— Um nome que eu mesmo tratei de enterrar, madrinha! Não esqueça que todos
me têm por um assassino frio e calculista. – Soltou irritado, apertando a mão da
esposa em busca de conforto.

— Não é um assassino! – Barbarah os interrompeu. — Já consideraram a


hipótese de que Lady Vivienne tenha sido empurrada daquela escada por alguém
que a queria morta? – Estava cansada de esconder a verdade e ter que

fingir que nada sabia quando era obrigada a vê-lo se afundar na culpa que sentia
pela morte da primeira esposa.

— E quem poderia matá-la dentro do castelo da qual era a senhora? –

George a fitou curioso. — Não me diga que andou investigando sobre a morte de
minha primeira esposa?! – Indagou-a ansioso e ela evitou encará-lo.

— É claro que sim! Jamais conseguirá evitar a curiosidade.

— Só queria descobrir a verdade para que pudesse ter paz e não se culpar por
sua morte. – Confessou. — Sei que Lady Vivienne foi morta, mas não tenho
como provar e isso tem me dado muita dor de cabeça, como a que acabo de
sentir. – Olhou à Lady Treaner. — Perdoe-me, mas preciso de alguns minutos a
sós para me recompor. Senti-me indisposta momentaneamente.

— Irei contigo! – George a segurou pelo braço.

— Não se faz necessário. Fique aqui com sua madrinha, logo retornarei. –

Barbarah respondeu, curvando-se em uma reverência que se esforçou para


executar com perfeição, deixando-o com os pensamentos aguçados com aquela
revelação impressionante.

BARBARAH SENTIA A cabeça latejar e só queria se isolar daquele tumulto de


vozes e pessoas a olharem como se ela fosse um animal exótico a ser exibido
pelo Conde de Carrick. A figura do marido já atraía comentários suficientes e
sua união com uma plebeia apenas aguçou o interesse da nobreza local. Mas foi
a revelação da assassina da condessa ao primo de George que a deixou
preocupada a ponto de sentir dor de cabeça e sair em busca de silêncio na noite
em que deveria comemorar por ter sido apresentada como a nova Condessa de
Carrick, algo que meses atrás sequer havia passado por sua cabeça, já que o
marido havia prometido enviá-la para longe assim que o herdeiro nascesse.

Estava grávida e o marido a amava, o que mais poderia lhe incomodar?

Sabia que não podia se deixar impressionar por uma história que não lhe dizia
respeito, mas seu senso de justiça e seu amor por George a faziam querer
encontrar uma solução para aquele tormento que pairava sobre os dois e que
poderia ainda incomodá-los no futuro se a história não tivesse o seu final, mas o
final verdadeiro e não um inventado pela cabeça de um homem atormentado.

Evitando subir as escadas, já que não queria ser pega em flagrante com os
óculos, decidiu se abrigar por alguns minutos na biblioteca do marido até que
conseguisse se acalmar. Com ajuda de um dos criados, chegou ao seu destino

e adentrou no recinto iluminado por poucas velas, acomodando-se em uma das


poltronas de couro que ali faziam conjunto junto a lareira, cujo fogo fraco
ajudava a espantar a escuridão de uma noite sem luar.

Sobressaltou-se quando notou o vulto que a despertou do transe em que se


encontrava, totalmente envolta pelos problemas que aquele lugar havia lhe
trazido.

— George, que susto! – Relaxou os braços quando reconheceu o marido diante


de si.

— Eu que o diga! Marjorie avisou que pedia por minha presença na biblioteca. –
Ajoelhou-se diante da esposa e a tocou no rosto como uma necessidade para
espantar o medo que havia sentido.

— Que estranho! Não o mandei chamar, querido. – Devolveu a carícia. —

Já me sinto melhor e estava para retornar ao salão.

— Não devia ter tido a ideia do baile. Desculpe-me, Barbarah! Não queria lhe
trazer preocupações...
— Não é o baile, meu amor! – Encostou a testa na dele. — O que me atormenta
é a descoberta de que sua primeira esposa foi assassinada. –

Confessou disposta a contar o que sabia.

— Mas quem poderia odiá-la a ponto de matá-la? Ou talvez me odiar a ponto de


matar minha esposa? – Soltou um longo suspiro, considerando que aquela
desconfiança poderia ser uma verdade. E se alguém havia matado a primeira
esposa porque a odiava, Barbarah podia estar correndo o mesmo perigo. O medo
se apoderou do corpo de George e acabou abraçando-a. — Se assim for, eu juro
que não vou deixar que a tirem de mim, Barbarah.

— Nada acontecerá comigo, querido! – Tentou apaziguá-lo. — Sou sua e sempre


serei. – Beijou-o nos lábios e deixou-se levar pelo amor que sentia por ele, que a
fazia querer protegê-lo de todas as dores. — Se eu revelar o nome da assassina,
acreditará em mim? – Perguntou.

— Não é necessário! – A voz da governanta retumbou pela sala como um eco


seco e apavorante. — A assassina está aqui. Pronta para confessar seu crime.

— Marjorie! O que faz aqui? – George levantou-se, trazendo consigo Barbarah


que tremia junto ao corpo do marido. — O que sabe sobre a morte de Vivienne?
– Perguntou surpreso com a chegada súbita da criada que havia crescido como
sua irmã.

— É ela a assassina, George. – Barbarah soltou baixinho, agarrando-se mais ao


corpo do marido, temendo que algum mal acontecesse.

— Não pode ser! – Respondeu abalado com aquela revelação. — Por que
Marjorie mataria Vivienne?

— Porque eu sempre o amei e nunca fui correspondida. – A governanta se


aproximou ainda mais do casal e então a luz bruxuleante da vela que segurava na
mão mostrou a pistola que segurava com a outra mão. — Cansei de ser tratada
com desdém quando só fiz amá-lo durante todos esse anos.

Cansei de não ser vista e ser preterida uma segunda vez. Da primeira vez eu
havia me conformado, pois precisava se casar com uma nobre, mas dessa vez...
Não aceito que tenha se casado com uma prostituta leiloada em um clube para
cavalheiros.
Barbarah se encolheu envergonhada pela revelação do leilão em que o pai a
havia vendido como uma prostituta.

— Não dê ouvidos ao que ela fala! – George puxou o rosto da esposa para que o
encarasse nos olhos.

— Ela não mentiu, George! Fui vendida pelo meu pai, provavelmente em um
clube de cavalheiros, como uma prostituta, embora ele nunca nos tenha revelado
isso e nos feito acreditar que havíamos sido pedidas em casamento por
cavalheiros distintos.

— Não importa como a encontrei, nem que o infame do teu pai a vendeu em um
leilão, mas que eu a amo. – George queria que ela acreditasse em seu amor. —
Acredite nisso, por favor! – Barbarah sacudiu a cabeça com os olhos repletos de
lágrimas. — Como pôde ter matado Vivienne, Marjorie?

Não pode exigir meu amor quando fomos criados como irmãos. Podemos nos
sentar e conversar se desejar, mas deixe Barbarah sair daqui. – Pediu temendo
pela vida da esposa e do filho que carregava.

— Não é a prostituta que eu quero matar, seu tolo! – Soltou uma

gargalhada. — É você que merece morrer para acabar com meu tormento. De
nada adiantou ter me livrado da francesa se outra mais estúpida e mentirosa
chegou para ocupar o lugar dela. – Apontou a pistola para o conde. — Mas antes
de morrer saberá o que sua amada esposa sempre escondeu de você.

Conte para ele, lady plebeia! – Pronunciou o plebeia com sarcasmo. — Exijo
que conte a Lorde George o que sempre escondeu dele ou juro que a matarei
também, assim não haverá um herdeiro para perpetuar o nome dos Hosken.

Barbarah não hesitou em tirar os óculos de dentro do bolso e mostrá-los ao


marido que a olhava sem conseguir compreender o que se passava.

— Perdoe-me, George! Mas eu escondi de ti que sou praticamente cega. –

Abaixou a cabeça, evitando encará-lo mesmo que não conseguisse vê-lo direito
em razão da pouca claridade. — Sinto muito por talvez jamais poder vê-lo
direito. – Soltou entre lágrimas. — Nunca tive uma boa visão, mas jamais quis
mentir a respeito. Meu pai quebrou meus óculos antes de me levar até o Senhor
Brown e a mentira foi mantida porque tinha medo de que me devolvesse para ele
e acabasse meus dias em um prostíbulo de Londres.

Ele ameaçou de me entregar para um cafetão se você me devolvesse ao descobrir


minha falta de visão.

— Barbarah... Eu jamais a julgaria... – George estava atordoado com tantas


revelações.

— Todos sempre me julgaram uma incapaz e imprópria ao casamento por não


enxergar direito, como se eu pudesse levar a praga para dentro de suas famílias
ao gerar crianças também cegas. Tiveram outros pretendentes que me
rechaçaram quando descobriram a verdade e eu temia que acontecesse o mesmo
contigo... Que me rechaçasse. Por isso escondi de ti! Mas pretendia contar a
verdade, se isso ainda lhe importar.

George a puxou contra seu peito e beijou sua cabeça com ternura. Não podia
julgá-la por ter mentido para se proteger da promessa de uma vida terrível que
poderia levar, e mesmo que ele não tivesse se apaixonado por ela, sua falta de
visão não era motivo para enviá-la de volta a um monstro como seu pai. Poderia
ser muitas coisas, mas ainda tinha coração para protegê-la de um terrível destino.

— Tenha certeza, meu amor, de que sua revelação só a torna mais perfeita

aos meus olhos. Com pôde ser tão cheia de vida e obstinada não enxergando
praticamente nada? – Sorriu e ela o abraçou, deixando um soluço de alívio
escapar.

— Todos os criados me ajudaram e o Senhor Geofrey arranjou estes óculos que


me foram muito úteis, embora não sejam os mais indicados para o meu grau de
miopia.

— Quando tudo terminar, compraremos óculos novos para você.

— Mas eles me deixam feia!

— Duvido que um anjo consiga ficar feio, mesmo usando óculos com lentes
grossas como suponho que precise. – Deslizou as mãos pelas costas dela,
tentando acalmá-la.
George queria dizer que ela era sua preciosidade e que o amor que sentia por ela
não se importava com sua falta de visão ou mesmo com os óculos que teria que
usar para ter uma vida normal, mas acabou sendo impedido por Marjorie, que
estava determinada a matá-lo assim como havia feito com sua primeira esposa.

— Sinto muito, George, mas do lugar para onde pretendo enviá-lo não há
estabelecimento que venda óculos para cegas e mesmo que exista, não haveria
um meio de mandar entregá-los à doce e abnegada viúva do Conde de Carrick. –
Depositou o candelabro em cima de uma mesa e engatou o gatilho, mirando para
a cabeça do conde, que se colocou na frente de Barbarah a fim de protegê-la.

A penumbra não facilitava sua defesa e George fechou os olhos no exato


momento em que ouviu o disparo, mas nenhuma dor foi sentida por ele, que se
espantou quando percebeu que Marjorie havia caído com um tiro na cabeça a
julgar pela poça de sangue que se formava no tapete.

— Henry! – O conde gritou ao avistar o primo perto da porta com uma pistola
em mãos, com o semblante tranquilo e tão frio que fez os pelos do seu corpo se
arrepiarem.

— Tudo acabou do jeito que devia ter sido. Honrei a morte de Vivienne e o
salvei de ter o mesmo destino. Acredito que não temos mais dívidas a quitar um
para com o outro, primo. – Aproximou-se. — Acredita em minha palavra

quando digo que Vivienne não o traiu e que o filho que ela esperava era seu?

George agachou-se a fim de verificar os sinais vitais de Marjorie e confirmou


que estava morta pelo tiro certeiro.

— Acredito! – Respondeu com os olhos grudados no corpo imóvel da


governanta, sentindo pena dela por ter sido consumida pela inveja e pelo ódio.
— Sempre foi muito bom com a pistola e foi por isso que evitei desafiá-

lo a um duelo. Apesar de saber ter sido precipitado, agradeço por ter salvado
minha vida. – Levantou-se e foi para perto do primo. — Devo desculpas a ti,
Henry! Por ter me colocado entre você e Vivienne e ter acreditado que o que
você sentia por ela não passava de fogo de palha. Arrependo-me por tê-los
separado, embora à época não conseguisse compreender que se amavam, sequer
sabia o que era um amor verdadeiro.
— Peço desculpas pela mão que perdeu. Se eu não tivesse me deixado levar pela
ira teria evitado o confronto. – Soltou um suspiro cansado. —

Acredite, George, nós três temos nossas parcelas de culpa pelo que nos
aconteceu. Eu, você e Vivienne fomos muito imaturos para lidar com nossos
sentimentos.

— Eu mereci perder a mão! Mas o que importa uma mão quando o destino me
trouxe o amor verdadeiro? – Olhou para Barbarah encolhida próxima à lareira e
só conseguia agradecer por ainda tê-la. — Temos que dar um jeito nisso! –
Voltou a olhar para o corpo da governanta. — Tem que sair daqui o quanto antes.

— Não o deixarei lidar sozinho com a sujeira que eu provoquei, George.

Não dessa vez!

— Sou um conde e embora minha fama de assassino, ainda tenho influência para
afastar uma possível acusação. Tenho conhecidos no departamento de polícia
que me devem favores e este é o momento para cobrá-los. Vá e seja feliz!

Henry hesitou por alguns minutos e ao olhar para Barbarah teve a certeza de que
precisava reconstruir sua vida longe dali, do lugar que sempre o faria se lembrar
do amor que havia perdido. Talvez o destino também houvesse lhe reservado a
felicidade ao lado de uma mulher ou simplesmente a paz de

espírito que tanto precisava. Acabou acenando para os dois e saiu sem olhar para
trás, determinado a buscar uma vida sem ressentimentos e remorsos.

— Oh, George! – Barbarah correu para os braços do marido. Havia colocado os


óculos e a perfeita visão de seu rosto a deixou sem fôlego. —

Oh, meu Deus, como você é bonito! – Ele conseguiu sorrir apesar daquela cena
deplorável.

— Como se sente, querida? – Perguntou preocupado com sua delicada situação


de grávida, que exigia tranquilidade e não fortes emoções.

— Assustada e com um pouco de dor de cabeça. – Respondeu ainda encantada


com os traços do rosto do marido. Nunca o havia visto usando os óculos e os
detalhes nele a fascinavam. — Gostaria de sair daqui, mas não quero retornar ao
salão depois disso.

— Vou levá-la para os aposentos, onde poderá descansar.

— E os convidados? – Lembrou-se de que poderiam ter ouvido o disparo.

— E se o disparo chamou a atenção deles? Oh George, o que faremos? E se o


acusarem de assassinato?

— Duvido que alguém foi capaz de ouvir o disparo. O castelo é muito grande e
estamos muito longe do salão de baile para que alguém possa ter ouvido o
disparo. Trancarei a porta e só abrirei quando um dos detetives de minha inteira
confiança chegar.

— Jura que não o prenderão, que não o enforcarão? – Barbarah não sabia se as
leis eram diferentes para os nobres e temia que o marido fosse condenado a um
crime que não havia cometido.

— Juro, meu amor! Juro que ninguém será capaz de me separar de ti.

— Eu não queria que ela tivesse morrido. – Fungou contra a casaca dele e
deixou-se ser amparada ao sentir as pernas amolecidas. — Apenas queria que
você se livrasse do sentimento de culpa e compreendesse que não havia sido o
responsável pela morte de Vivienne.

— Você não foi a responsável pela morte de Marjorie e não quero que se aflija
por um final que ela mesma procurou. Se não tivesse sido ela, teria sido eu.

— Oh... Não brinque com isso! – Bateu-o no ombro.

— Tudo será resolvido e prometo que tudo será diferente a partir de agora. Eu,
você e nosso filho, livres dos fantasmas do passado, prontos para recomeçar uma
nova vida.

— E minha falta de visão? – Insistiu no ponto, porque ainda custava a acreditar


que ele a havia aceitado do jeito que era, mais cega do que uma porta. — Nossos
filhos poderão herdar minha deficiência.

— Sou rico o suficiente para lhes comprar tantos óculos quanto precisarem. –
Disse enquanto a arrastava para fora da biblioteca. — Talvez considere enviar
um prêmio ao meu sogro por ter quebrado seus óculos, só assim consegui
conquistá-la. Veja bem, minha querida, se tivesse vindo até mim enxergando
direito, talvez pudesse ter percebido com maior nitidez meu verdadeiro eu e
assim não teria se apaixonado por mim.

— Não seja tolo! – Ela ralhou com ele. — O reconheci como um bom homem e
não precisei de boa visão para saber que era o homem de minha vida.

— Talvez reconsidere a ideia de comprar novos óculos, já que corro o risco de


ser abandonado quando puder me enxergar bem. – Brincou com ela e sentiu-se
aliviado quando ela abriu as covinhas que tanto o encantavam e haviam lhe feito
prisioneiro dela.

— Não preciso de óculos para amá-lo, George! E não haverá óculos capaz de
ofuscar o amor que sinto por você. – Colocou-se na ponta dos pés para beijá-lo.

— Se for assim, terá seus óculos o quanto antes. – Beijou-a na ponta do nariz,
envolvendo seu rosto com as mãos, não se importando com o desconforto que a
prótese poderia lhe provocar. — Como pôde imaginar que não a aceitaria quando
me aceitou do jeito que sou, um maneta?

— Fui tola, eu sei! Mas tantas coisas aconteceram nos últimos tempos que
acabou por turvar meus pensamentos. Mamãe morreu, papai enlouqueceu e nos
vendeu para homens estranhos, separando-nos. Tive que atravessar o país para
me reunir a você, um conde recluso que vivia em um velho e misterioso castelo,
cujas más línguas davam conta de ter matado a esposa.

— Tudo passou! – Tirou a casaca e a envolveu com ela para aquecê-la. —

Depois de uma boa noite de sono perceberá que tudo não passou de um sonho
ruim. Me esforçarei para te fazer feliz, Barbarah.

— Jura?

— Juro com minha vida que dedicarei meus dias para te fazer feliz.

— Não conseguirei dormir sem você ao meu lado. – Ela reclamou.

— Dê-me tempo para que consiga falar com Lady Treaner. Ela é ótima para
inventar desculpas e despachar os convidados. Talvez levará uns minutos a mais,
pois terei que despachar um mensageiro em busca do detetive que me deve
favores. Acredite, amor, em um piscar de olhos estarei ao seu lado. Confia em
mim?

— Para sempre! – Ela encostou a cabeça no ombro dele e deixou-se ser pajeada
até a ala dos aposentos, sentindo-se segura por ter sido levada até o dormitório
dele, onde os seus objetos e pertences a fariam esquecer da morte trágica que
havia sido obrigada a presenciar.

OS DIAS EM Carrick haviam se tornado mais festivos com o anúncio da


gravidez da condessa. A chegada do herdeiro dos Hosken era motivo de
esperança e simbolizava que o passado havia sido definitivamente enterrado.

Todos acreditavam que a descoberta da assassina de Lady Vivienne havia


libertado seu espírito e ninguém mais havia visto seu fantasma a perambular na
ala leste.

George não escondeu a verdade sobre a morte da primeira esposa, embora


preferiu não falar sobre o assassinato da governanta, que todos acreditavam ter
fugido da Cornualha por ter sido descoberta como a assassina. Favores foram
cobrados e os policiais locais trataram o assunto como legítima defesa e no mais
absoluto sigilo.

E assim George se convencia de que tudo havia acontecido para que pudesse ser
feliz ao lado de Barbarah, a mulher que havia arriscado muito para convencê-lo
de que merecia ter paz, uma dama de espírito curioso, resiliente e com um
coração tão enorme que foi capaz de trazê-lo de volta à luz.

Barbarah havia se transformado em seu porto seguro, lhe devolvido a confiança,


e o mais importante: lhe ensinado a amar de verdade. Até então, George havia
vivido envolto em uma ilusão, incapaz de perceber o amor em sua verdadeira
forma: libertador e inspirador.

Não lhe importava se havia sido comprada em um leilão ou mesmo sua origem
plebeia. E como havia previsto Lady Treaner, todos já não se importavam com
isso e a recebiam como uma igual.

Era a condessa que seu coração havia escolhido.

Envolto por tais pensamentos, George fechou os livros contábeis e olhou para a
caixa que Brown havia lhe mandado entregar mais cedo. Pretendia ir ao encontro
da esposa para retribuir um pouco do carinho que ela lhe dedicava todos os dias.

Encontrou-a na saleta da condessa, envolta em livros e papéis. Aquele lugar já


não era o mesmo, pensou George encostado na porta, observando-a de longe
compenetrada nas contas que havia lhe trazido mais cedo para examinar.
Outrora, um ambiente requintado e feminino, enfeitado por flores e obras de
arte, havia se transformado naquilo que a esposa costumava chamar de bagunça
organizada, onde os livros ocupavam o lugar de destaque.

Barbarah vinha fazendo um trabalho extraordinário na conferência das contas


apresentadas pelo administrador do castelo.

— George! – Barbarah o notou, empurrando os óculos velhos para cima do


nariz. Aquele modelo não lhe caía bem por ser muito grande. — Descobri o furo
nas contas do ano passado. – Sorriu vitoriosa.

— Não duvido, meu amor! – George pulou uma pilha de livros para chegar até
ela, considerando a ideia de mandar construir estantes para acomodá-los
corretamente. — Encontrou o furo nas contas do ano retrasado.

Era apenas uma questão de tempo para resolver mais essa discordância de
valores.

— Acredito que seu administrador não agiu de má-fé. Como pode ver é muito
fácil se equivocar nesse cálculo. – Mostrou-lhe o papel com a prova da conta
errada. — Ele trocou os valores aqui. – Insistiu para que o marido prestasse
atenção, mas George não parecia interessado na sua descoberta. —

Pode fazer o favor de prestar atenção?! – Exigiu irritada.

— Impossível, querida! Há uma mulher linda desviando minha atenção no


momento. – Ela corou com o comentário, mas acabou sorrindo. — As contas
podem ficar para depois. Tenho algo para você, que te fará feliz.

— Oh... Não me diga que chegaram?! – Comentou empolgada e quando ele


confirmou com uma sacudida de cabeça, ela o abraçou. — Onde estão? –

Perguntou ansiosa e George soltou uma gargalhada, pois era praticamente


impossível esconder algo de uma abelhuda e já havia desistido de tentar
surpreendê-la. Ela sempre acabava descobrindo suas armações.

— Antes, quero um beijo! – E assim ela ergueu o rosto em sua direção e deixou-
se ser beijada por ele numa troca intensa de sentimentos que os faziam cada vez
mais apaixonados. — Como passou a tarde?

— Bem, não tive enjoos. – Ele deslizou a mão pela barriga dela já mais
arredondada. Barbarah dispensava o uso de espartilho quando não tinha que
receber visitas e preferia o uso de vestidos mais confortáveis, que marcavam as
suas curvas e o fazia desejá-la ainda mais.

— Isso é bom! – Disse, entregando a caixinha que guardava seus novos óculos.

Empolgada, Barbarah abriu-a e tirou de lá um precioso e delicado par de óculos.


Era um modelo discreto, feito de um arame muito fino e lentes mais leves em
comparação ao que usava. Trocou-os imediatamente e olhou para o marido
ansiosa por poder enxergá-lo com nitidez.

— São perfeitos! Posso vê-lo de uma maneira que jamais pude imaginar ser
possível. – Soltou encantada com os detalhes do rosto do marido e das coisas à
sua volta. — Eu fiquei bem? – Perguntou curiosa, considerando a ideia de que
poderia usá-los em sociedade sem chocar ninguém.

— Ficou linda! Mas desconfio de que sou suspeito, pois sempre a acho linda e
não entendo de moda, se é isto que a preocupa. – Abraçou-a pelas costas e a
empurrou até o espelho mais próximo. — Tire suas próprias conclusões.
— Eu gostei, George! É um modelo mais delicado e não esconde meu rosto, mas
acredito que ainda não poderei usá-los em público.

— Há outro na caixa, meu amor! Com apenas uma haste de ouro para você usar
nos bailes em que seremos convidados. E mandei cravejar a haste com safiras
azuis para fazer par com seus lindos olhos.

— Chegou também!? – Barbarah bateu palmas.

— Logo toda a Cornualha vai querer imitar a Condessa de Carrick. –

George sorriu e ela se jogou nos braços dele.

— Senti saudades, meu amor! – Beijou-o, puxando-o para uma das poltronas de
dois lugares. — Quero que me ame, George!

— Aqui? No meio dessa bagunça?

— Não fale mal de minha bagunça organizada. – Ralhou e ele soltou uma
gargalhada, mas era impossível não provocá-la. — Pode ou não me amar? –

Insistiu, não fazendo caso da implicância dele com sua bagunça.

— Sempre que quiser! – Puxou-a para seu colo e entre beijos e mordidas
começou a livrá-la das camadas de tecidos que a escondiam dele. Já havia
trancado a porta e ninguém se atreveria a interrompê-los.

— Quero fazer amor contigo usando meus óculos. Pode fazer isso por mim?

Ele concordou com a cabeça e deixou que ela o despisse. Barbarah se demorou
naquela atividade, deleitando-se com o corpo do marido, olhando com cuidado
para cada parte de sua anatomia, sorrindo apaixonadamente quando percebia
algo que a fascinava.

E a cada sorriso que ela abria ele despertava para a luxúria e precisava lutar para
se controlar. Desejava-a tanto que a rigidez dentro de suas calças exigia que ele
se saciasse dentro dela. Mas George queria que o momento fosse dela, que ela
pudesse se banquetear de seu corpo, explorando-o ao seu bel-prazer.

— Gosta do que vê, Barbarah? – Perguntou provocativo, sabendo que era a


primeira vez que ela o enxergava tão bem.

— Ah, eu aprecio muito o que vejo, milorde! É tão lindo e perfeito que passaria
o dia a lhe admirar como uma obra de arte. – Confessou. — Nunca pude vê-lo
direito quando nos amávamos, apenas o sentia de encontro a minha pele e
sempre desejei enxergá-lo enquanto me tomava.

— Realizarei teu sonho, meu amor! E alcançaremos o paraíso dos amantes de


olhos bem abertos. – Forçou para que ela se deitasse de costas na poltrona e
colocou-se no meio das pernas dela assim que abriu a braguilha e

se livrou das calças.

Penetrou-a quando a sentiu úmida e preparada para recebê-lo e ela o aceitou


extasiada, totalmente envolvida pelo sentimento de plenitude que a invadia por
poder enxergar seu rosto, além de tocá-lo. Tudo estava numa perfeita harmonia
de sentidos.

— George, você estava equivocado! – Soltou entre um gemido e outro.

— Com o quê, meu amor?

— Eu apenas consigo amá-lo ainda mais agora que posso vê-lo melhor com os
óculos.

— Considero-me um homem de sorte, então! – Afundou-se dentro dela com


prazer, deixando-se levar pelos gemidos perdidos entre juras de amor. —

Saiba que eu não seria capaz de amá-la menos por não enxergar bem. Com ou
sem óculos, és meu amor!

— Eu sei disso agora. – Disse olhando-o com amor, deixando-se ser tocada por
ele quando a fazia se sentir preciosa.

Barbarah sabia, na verdade, que os óculos novos haviam lhe dado a oportunidade
de ver melhor, mas já não temia a cegueira quando George estava o seu lado,
amando-a e protegendo-a como marido. Eram suas palavras de amor e a devoção
com que a tratava que a faziam se sentir segura e confiante de que havia
encontrado seu lugar no mundo. Precisou percorrer um longo caminho para
encontrá-lo, e apesar dos dissabores e dos receios que precisou enfrentar, o amor
a guiou até ele.

Sentia-se feliz ao lado daquele conde misterioso da Cornualha. Queria dividir


uma vida ao seu lado e não importava os mexericos que sempre os rondariam
por terem uma história incomum. Enquanto pudessem viver aquele amor,
estariam unidos.

Ainda abraçados, depois de terem atingido o clímax, seus olhos se encontraram e


a emoção ficou contida dentro do sorriso que um abriu para o outro.

— George, seus olhos são tão lindos! – Soltou encantada.

— Não mais que os seus, Barbarah! O azul é a minha cor favorita desde

que surgiu em minha vida. – Beijou-a nos lábios, agradecendo a chance de ser
feliz ao lado de seu amor verdadeiro.

Fim.

Querida Sarah,

Alegro-me em ter encontrado teu paradeiro depois de meses em aflição por não
saber qual havia sido teu destino. Meu marido esforçou-se para encontrá-las e
dar um fim em minha angústia e lhe sou grata por ter me dado presente tão
especial: o endereço das minhas amadas irmãs.
Sonho com o dia em que nós três poderemos nos encontrar para o chá e assim
colocar os assuntos em dia. Tenho tanto a contar que creio que uma tarde será
pouco. Como sabe fui dada em casamento a um conde e viajei até a Cornualha
para desposá-lo. Acabei encontrando um homem amargurado por lembranças
de um passado difícil, envolto por um grande mistério que o fez perder a
vontade de viver.

Meu marido se casou com uma francesa quando era mais jovem, acreditando
que ela o amava incondicionalmente; porém, precisou lidar com a suspeita de
uma traição, fato que desencadeou uma sucessão de mal-entendidos e tragédias.
George ficou viúvo no mesmo dia em que brigou com o primo, perdeu a esposa
que morreu ao cair de uma grande escadaria grávida de seu primeiro filho e se
feriu em uma luta que lhe fez perder a mão. Esse conjunto de acontecimentos lhe
renderam uma péssima fama, cara irmã, e cogitei a ideia de fugir dele para
evitar ter o mesmo destino.

Bem sei que deve estar chocada com minha narrativa sobre a vida do meu
marido. E isso é apenas o começo de toda a história, pois descobri depois de
exaustivas investigações que a falecida condessa foi assassinada pela
governanta do castelo e que ela não chegou a trair o marido com seu primo,
embora planejasse fugir com ele logo após o nascimento do bebê.

Nessas alturas já deve ter suposto que eu acabei por me colocar em perigo, mas
não fique preocupada, pois tudo acabou bem e pretendo contar os detalhes de
como tudo terminou pessoalmente, quando tivermos oportunidade de nos
encontrar.

Mas como estava contando, George era tão amargurado que se recusava a
deixar que qualquer um se aproximasse de seu coração e prometeu-me enviar
para uma das propriedades dos Hosken assim que nosso primeiro varão
nascesse. Sim, cara irmã, fui dada em casamento (ou melhor, vendida) para dar
à luz ao herdeiro do Conde de Carrick. Conformei-me com esse destino, pois
jamais aceitaria ter que retornar ao poder de nosso pai, que com certeza me
enviaria ao primeiro bordel que lhe passasse pela cabeça.

Acabei me apaixonando por George e ele por mim à medida que nos
conhecíamos melhor. Aos poucos fui derrubando as grossas muralhas que ele
havia levantado como um escudo de proteção e me enfiando em seu coração e
em sua vida, assim como ele se tornou meu maior motivo para querer viver.
Conhece-me o suficiente para desconfiar de que me envolvi em confusões,
provocando um grande alvoroço no Castelo de Carrick. Sei que não sou e nunca
serei uma condessa convencional, mas George está longe de ser um exemplo de
conde. E assim temos vivido como se nada mais nos importasse no mundo a não
ser nosso amor.

Salvei-o da escuridão em que vivia trancafiado, fato que costuma me lembrar


todas as noites. Mas ele também me aceitou do jeito que sou, mais cega do que
uma porta, perdoando-me por ter omitido a verdade por meses.

Tive receio em alguns momentos de não ser capaz de passar por tantas
provações sem vocês duas ao meu lado e sem poder enxergar direito e precisei
provar que eu era capaz de sobreviver, mas pude contar com a

ajuda dos criados que me foram simpáticos desde minha chegada. Quando o
desânimo tentava me abater, lembrava das palavras carinhosas de Delilah e das
orações que me foram ensinadas por você. Confesso que não rezei o terço tanto
quanto você gostaria que eu tivesse rezado, mas carreguei Deus em meus
pensamentos como um conforto.

Apesar da dor que papai nos fez passar, eu faço votos de que você e Delilah
tenham encontrado a felicidade ao lado de bons homens, assim como eu
encontrei a minha ao lado de George. Pego-me a pensar corriqueiramente nas
dificuldades que talvez as duas tenham passado, considerando minha própria
experiência com o casamento. Mas se eu fui capaz de conquistar um cavalheiro
e tirar o melhor de um casamento arranjado, acredito que vocês tenham obtido
o mesmo êxito. Sempre foram mais capazes do que eu e prefiro acreditar que os
vossos maridos são homens apaixonados e devotos.

Escrevo também para contar que tivemos uma filha. Madeline nasceu forte e
saudável numa noite de tempestade e tornou-se rapidamente a alegria de seu
pai, que a trata como um tesouro. Tem os cabelos escuros como os de George e
acredito que herdou o azul dos meus olhos. Quanto a sua personalidade, ainda é
muito cedo para sabermos a quem puxou, mas George acredita que será curiosa
como eu, e isso o coloca de cabelos em pé desde já.

Encerro por aqui, pois pretendo escrever também para Delilah antes que
Madeline acorde de seu cochilo vespertino.

Sinto muitas saudades, Sarah, e aguardo ansiosamente notícias tuas.


Com amor,

Lady Barbarah Anne Hosken, Condessa de Carrick (a sua Babi).

Quase 10 anos depois.

LORDE GEORGE ALEXANDER Hosken, o décimo Conde de Carrick,


admirava sua esposa sentada ao seu lado na carruagem. Barbarah havia mudado
pouco nos últimos anos e se talvez houvesse mudado, ele estava certo que havia
sido para melhor. Nem mesmo o refinamento adquirido ao longo dos anos como
condessa foi capaz de esconder a maior de suas belezas: seu enorme coração.

E que era todo dele.

— Tem certeza que as crianças ficarão bem? – A condessa fitou o marido com
seus enormes olhos azuis por detrás das lentes dos óculos. — Não costumamos
nos separar deles e minhas irmãs gostariam de conhecer os sobrinhos. – George
pegou em sua mão e a levou aos lábios, beijando-a com a mesma paixão e
devoção de outrora. Barbarah Winter havia lhe trazido para a luz e lhe dado três
lindas princesas e um valente cavalheiro, o seu tão sonhado herdeiro.

— Bem sabe que o cemitério não é o melhor lugar para elas. As crianças ficarão
bem na mansão e logo suas irmãs se juntarão a nós e nossos filhos poderão
brincar com os primos. – Envolveu-a com os braços, trazendo-a para perto dele
como se pudesse amenizar todo o tumulto que havia lhe atingido assim que
embarcaram para encontrar as irmãs.
— Estou ansiosa para revê-las. – Barbarah soltou um longo suspiro, remexendo-
se constantemente em busca de um conforto que só viria quando pudesse abraçar
Sarah e Delilah.

Quase uma década havia se passado em um piscar de olhos e Barbarah apesar de


se considerar uma mulher feliz por ser amada pelo marido e ter os filhos mais
maravilhosos que uma mãe poderia desejar, sentia um aperto constante no peito,
um buraco que jamais pôde ser tapado.

Barbarah sentia muita falta de suas estimadas irmãs.

Eram nas manhãs chuvosas que lembrava de Delilah e seus pães temperados que
impregnavam a casa de um aroma delicioso. Eram nas missas de domingo
quando o perfume do incenso chegava às suas narinas que seu pensamento corria
em busca de Sarah, a irmã mais velha que lhe serviu de esteio quando lhe faltou
coragem para continuar.

E Barbarah não costumava ser covarde, nem mesmo quando o pai lhe quebrou os
óculos e a meteu dentro de uma carruagem elegante para se casar com um nobre
cuja má fama o fazia um assassino. Simplesmente, secou as lágrimas, ergueu a
cabeça e com toda a dignidade que pôde reunir embarcou em busca de seu novo
mundo, encarando aquela mudança como a aventura que tanto sonhou em viver
um dia.

Aprendeu com Sarah a ter fé e por mais que não fosse a mais fervorosa das
religiosas, foi sua confiança na irmã que a fez acreditar que poderia ser feliz.
Aprendeu com Delilah a meiguice que lhe tornou empática com o desconhecido,
fazendo-a compreender que o mundo era maior que seu humilde casebre na parte
mais pobre de Londres.

E talvez fora esse conjunto peculiar de qualidades que a tornaram uma condessa
justa e leal, tão amada que ninguém mais se lembrava de suas origens humildes.

Sim, todos a amavam no Castelo dos Hosken.

E quando a carruagem parou, Barbarah despertou do transe e sequer esperou o


cocheiro abrir a portinhola para saltar. George poderia ter se alarmado, pois o
cemitério em que sua sogra foi enterrada ficava em uma parte perigosa de
Londres, mas foi incapaz de impedi-la. Eram anos de
saudade e não se julgava no direito de atrapalhar.

— Ficarei bem! – Barbarah se colocou na ponta dos pés e beijou o marido com
empolgação, sem perceber que os cunhados a observavam encostados junto ao
portão do cemitério. Eles a reconheceram como a caçula das Winter de tanto que
suas esposas falavam da bisbilhoteira irmã.

Barbarah recolheu seu sofisticado vestido, rendado na barra e com um caimento


que dificultava os passos largos, e correu entre as lápides, perdendo seu chapéu
no caminho. Mas o que era um chapéu perdido quando estava prestes a abraçar
as irmãs?! E a beijá-las!

E lá estavam elas de frente para a lápide da mãe, de mãos dadas, trocando


sussurros incompreensíveis naquela distância. Barbarah travou de repente e as
lágrimas lhe tingiram a face como se toda a dor da saudade pudesse ser lavada.

— Sarah! – Soltou com os ombros caídos, esperando que sua irmã mais velha se
virasse e ainda a reconhecesse como sua garotinha apesar dos anos lhe ter feito
uma mulher madura. — Delilah! – Arriscou com a voz embargada, esperando
que ainda quisesse lhe pentear os cabelos antes de dormir.

E as duas tão diferentes em aparência se viraram e correram para junto de


Barbarah, alcançando-a para se unirem em um abraço majestoso, o reencontro de
três almas que viram e sentiram muito, que encontraram no amor mútuo a força
para superar as desgraças que pareciam só crescer com o passar dos anos.

— Barbarah! – Sarah envolveu o rosto da irmã com as mãos. — Ou seria Lady


Barbarah? É uma condessa e nem sei como devo chamá-la.

— Oras! – Barbarah soltou sorridente. — Para vocês duas eu sempre serei a


Babi. – Pegou a mão de Delilah e a levou até os lábios, admirando-a. — E

você, Delilah, a Índia lhe deixou... Eu diria atraente. – A irmã do meio riu
envergonhada daquele comentário pouco convencional. — Vocês duas e suas
famílias serão nossos hóspedes. Temos uma enorme casa aqui em Londres e será
um prazer recebê-los.

— Não queremos incomodar. – Delilah deu de ombros.

— Jamais será um incômodo. Temos tanto para falar umas para as outras que
toda a casa está preparada para recebê-los e nos deixarem em paz. –

Barbarah enganchou os braços nos das irmãs.

— Ela combina com o papel de condessa, não acha, Delilah? – Sarah comentou,
repreendendo-as com os olhos para que não se empolgassem.

Estavam em solo sagrado e não deveriam perturbar a paz dos mortos.

— Mamãe não deve ter tido paz. – Considerou a irmã do meio. — Ou teve?

— É claro que sim, Delilah. – Respondeu a irmã mais velha. — Ensinou-nos a


sermos mulheres honradas, a acreditarmos em dias melhores, mesmo quando
tudo parecia ruir diante de nós. Tenho certeza que ela encontrou a paz e ainda
nos abençoou de onde estava para que pudéssemos encontrar nossos caminhos.

— Foi por ela que pedi a George que encontrasse nosso pai e o tirasse da miséria
em que vivia. – Barbarah surpreendeu as irmãs com aquela confissão inusitada.
— Ele vive recluso em um asilo não muito distante daqui. – Seu olhar entre as
lentes dos óculos se perdeu na lápide. — Mamãe o amou até o último suspiro,
mesmo quando ele a desprezou em seus últimos anos, mesmo quando ela mesma
não acreditava que ele pudesse voltar a ser um bom marido e pai. Ela
simplesmente não pôde deixar de amá-lo. Sabia que ela só teria paz quando John
Winter tivesse um lugar decente para passar seus últimos anos.

As irmãs se uniram em uma oração, agradecendo a dádiva da vida e a alegria de


terem se reencontrado.

— Oh! – Barbarah soltou ao se recordar que havia esquecido o ramalhete de


lírios brancos dentro da carruagem. — Esqueci as flores de mamãe na
carruagem.

— Então, vamos buscá-las! – Sugeriu Delilah. — Assim posso apresentá-

las ao meu marido.

— E eu a Hayden. – Sorriu Sarah em resposta.

— Bem, acredito que nossos maridos já tenham se conhecido. – Barbarah disse


feliz. — George também me espera junto ao portão.
Enlaçaram-se os braços como nos velhos tempos e seguiram entre as lápides,
cochichando sobre os anos que tiveram separadas, crentes que o que o amor
unia, nem o tempo, nem a distância era capaz de separar.

QUANDO FLÁVIA PADULA me convidou para escrever uma das histórias das
“Irmãs Winter” ao lado de Silvana Barbosa não imaginava ser conquistada pela
Barbarah e encarei o projeto “Damas do Romance” como um grande desafio
para minha carreira. É uma grande inovação para a nossa literatura, na qual três
autoras emprestariam suas marcas para criar três personagens inesquecíveis.

Eu, Flávia e Silvana nos reunimos para decidir os detalhes sobre as protagonistas
e os enredos, e quando Barbarah me foi apresentada como a irmã que se casaria
com um misterioso homem da Cornualha acabei atraída por ela e sem pensar
duas vezes a escolhi, sem saber que naquele momento conheceria uma das
minhas personagens mais cativantes.

Eu e Barbarah nos entendemos tão bem que sua história fluiu rapidamente.
Criamos um elo tão forte que foi capaz de alimentar minha criatividade e
rapidamente sua história de amor com o Conde de Carrick ganhou páginas e
páginas de aventura, emoção e muitas cenas tórridas de amor.

Foi por meio de Barbarah que realizei uma grande pretensão enquanto
romancista de época: contar a história de uma garota que precisava usar óculos
para poder enxergar o mundo à sua volta em uma época em que a tecnologia não
estava tão desenvolvida, e que apesar dos óculos já terem sido
inventados, ainda não conseguiam corrigir a visão tão bem quanto hoje.

Aliada a isso, sua personalidade curiosa e resiliente a tornara fantástica e de uma


vitalidade que acabou por conquistar o conde, devolvendo-lhe os motivos para
lutar por sua felicidade e esquecer os tormentos de um passado marcado por
erros que lhe custaram muito caro.

Também não posso deixar de mencionar o privilégio que foi trabalhar com duas
das mais talentosas romancistas de época da atualidade, cujas mentes brilhantes
e simpatia me conquistaram definitivamente. Trabalhar ao lado de Flávia Padula
e Silvana Barbosa foi a oportunidade que precisava para conhecê-las melhor; e a
troca de experiências que mantivemos durante a escrita dos livros foi
imprescindível para o resultado emocionante de cada uma das histórias a que nos
propomos contar.

Com muito orgulho e tomada de um sentimento de missão cumprida, as

“Irmãs Winter” ganharam vida e tiveram suas histórias contadas ao mundo por
meio de nossas palavras. Barbarah viveu sua aventura e com seu amor salvou o
homem que amava da escuridão que havia se transformado sua vida.

Assim, com ele construiu uma nova história independentemente das expectativas
sociais da época.

E você, caro leitor, foi nosso convidado especial.

Com carinho,

Diane Bergher.
AGRADEÇO A VOCÊ, querido leitor, que tem sido o principal motivo para me
manter no caminho de contadora de histórias. Sem você nada disso seria
possível.

Agradeço à minha generosa família que acreditou em meus sonhos e com seu
apoio incondicional me deu forças e esperanças para acreditar que os sonhos
valem a pena.

Agradeço ao meu esposo, companheiro de duas décadas, e com quem eu divido


planos e ideias de enredos que só parecem se multiplicar em minha mente.

Agradeço ao meu filho Augusto pelos dias em que não estive ao seu lado a fim
de concluir mais uma história e pelo orgulho que sente de sua mãe ao me
apresentar como escritora.

Agradeço às queridas Laizy Shaine, Julia Lollo e Camille Chiquetti,


profissionais habilidosas e dedicadas, trazendo primor às minhas histórias.

Agradeço às talentosas Flávia Padula e Silvana Barbosa, minhas parceiras de


projeto e estimadas amigas, por me ouvirem e me confortarem em momentos de
dúvidas e inseguranças, pela generosidade em compartilhar comigo suas
experiências e acima de tudo pela amizade que me ofereceram.

E, por fim, agradeço a Deus pela graça de ter a chance de espalhar amor em
forma de palavras, tocando corações mundo a fora.
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Sinopse

Ao ficar viúvo John Winter decide se livrar das filhas e as vende em Londres
para cavalheiros que não se importam em comprar uma esposa.

Solteiras e em idade para casar, as três senhoritas veem seus caminhos mudados
para sempre. Sarah é vendida a um fazendeiro americano. Delilah é comprada
por um mercador indiano. E Barbarah parte ao encontro do dono de uma
misteriosa propriedade na Cornualha.

Trilogia Irmãos Gallagher

Disponíveis na Amazon!

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Escolha de Mestre – Clique aqui!

Sinopse

Burke Gallagher é um irlandês que partiu rumo aos Estados Unidos com apenas
dez dólares no bolso e se tornou o dono da maior cervejaria do país, a Cervejaria
Gallagher, ficando conhecido no mundo todo pelo excelente produto e por sua
perspicácia nos negócios.

Preocupado com o futuro de seus três filhos, decide dar um basta nas suas vidas
boas e lhes dá uma ordem: cada um teria que partir para o Oeste com apenas dez
dólares no bolso e quem conseguisse ser mais bem-sucedido, no prazo de um
ano, ficaria com a fábrica de cerveja. Os irmãos então partem dispostos a vencer
o desafio e viverem suas próprias aventuras.
Sinopse

Ashworth Handeston tornou-se, aos trinta e cinco anos, um dos homens mais
ricos da Inglaterra investindo na indústria têxtil. Infelizmente, Ashworth não
pôde se casar com a mulher que amou em segredo, Ondine Cohen, sua
governanta, e se uniu a uma rica herdeira escocesa, Jessamy Heylock.

Contudo, o coração daquele homem sedutor não se conteve apenas com aquelas
mulheres, ele conquistou o coração e a devoção de Amabel Kershaw, uma jovem
londrina que abandonou tudo para tornar-se sua amante ao norte

do país. No final de uma tarde fatídica, parte da fábrica sofre um incêndio e


Ashworth e mais alguns empregados morrem queimados.
Três mulheres presas a um homem sem coração, livres para guiar seus próprios
destinos.

DIANE BERGHER é gaúcha de nascimento. Adotou Florianópolis como o lugar


para viver com o marido e filho. É advogada com duas especializações na área e
formação em coaching e mentoring. Uma leitora compulsiva e escritora por
vocação, acredita que sonhar acordada, fantasiar mundos e transformar
realidades é a vocação da sua alma. Quando Ela Chegou, sua primeira obra, foi
lançada na internet. Com um texto delicado e sensível, o romance conquistou o
público feminino do site em que está hospedado.
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Sinopse
Apresentação
Prólogo
Capítulo 01
Capítulo 02
Capítulo 03
Capítulo 04
Capítulo 05
Capítulo 06
Capítulo 07
Capítulo 08
Capítulo 09
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Epílogo
Bônus
Nota da Autora
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