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Cultura

Jornal Angolano de Artes e Letras


14 a 27 de Janeiro de 2020 | Nº 198 | Ano VIII • Director: José Luís Mendonça ..... Kz 50,00
Pág.
03 e 04 ECO DE ANGOLA

Proteger
o livro
Pág.
ARTES PATRIMÓNIO CULTURAL LETRAS
Pág. Pág.
10 13 a 15 05 a 07

Contraste
linguístico: Um canto ao
Suekí: kikonguismo
meu Congo
Exposição Individual N'Kunga kwa Kongo
nos falantes
“As Escadas do Mundo” dya me de Fragata
de português
no ELA de Morais
2 | ARTE POÉTICA 14 a 27 de Janeiro de 2020 | Cultura

Poema de Barros Neto


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No largo Rainha NJinga


entre o rebuliço
Propriedade
das gentes
das fomes
e o desvario
das buzinadelas
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Redacção 222 02 01 74 |Telefone geral (PBX): 222 333 344
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nos escombros esvaída
dos esgotos da curtição – Administradores Executivos
Caetano Pedro da Conceição Júnior,
na «Lello» José Alberto Domingos, Rui André
pairou Marques Upalavela, Luena Kassonde
seu triste reflexo Ross Guinapo
na montra mirou
Administradores Não Executivos
cabisbaixa Filomeno Jorge Manaças
seguiu Mateus Francisco João dos Santos Júnior
a camuflar-se

Cultura
por entre o vórtice
das gentes

sem norte

Jornal Angolano de Artes e Letras

Nº 198/Ano VIII/ 14 a 27 de Janeiro de 2020


E-mail: cultura.angolana@gmail.com
site: www.jornalcultura.sapo.ao
Telefone e Fax: 222 01 82 84
CONSELHO EDITORIAL

Director e Editor-chefe:
José Luís Mendonça
Editor:
Gaspar Micolo

Departamento de Paginação:
Irineu Caldeira (Chefe), Adilson Santos (Chefe adjunto),
Adilson R. Félix, Sócrates Simóns, Jorge de Sousa
e Waldemar Jorge
Edição online: Adão de Sousa

Colaboram neste número:

Angola: António Fonseca, Barros Neto, Carlos Lamartine,


Domingas Monte, Eduardo David Ndombele, Elizânela Rita,
Francisco Neto, Jacques Arlindo dos Santos, João Ngola Trin-
dade, Mário Pereira.

Portugal: António Justo

FONTES DE INFORMAÇÃO GLOBAL:


Afreaka, Africultures, Portal e revista de referência, Agulha,
Correio da Unesco, Modo de USAR & CO, História.com,
Obvious Magazine e Engenharia é.
Cultura | 14 a 27 de Janeiro de 2020 ECO DE ANGOLA | 3

Proteger
o livro
JACQUES
ARLINDO
DOS SANTOS

F
ui roubar o título do documen-
to que dá corpo à minha inter-
venção, a um trabalho escrito
nos primeiros anos deste novo século
pelo francês Markus Gerlach, um pro-
fessor de Estudos Comparados, a tra-
balhar na época, na Universidade de
Paris-XII.II, trabalho ao qual dedicou
bastante atenção e se interessou par-
ticularmente pelos aspectos cultu-
rais, económicos e políticos do preço
fixo do livro. A abordagem estendeu-
se naturalmente à crise que se vivia e
ainda vive, no mundo editorial euro-
peu, com naturais reflexos para a cri-
se que ainda persiste no mercado edi-
torial mundial.
Nesse trabalho mais voltado para a
realidade brasileira e recheado de
quadros estatísticos que abordam si-
tuações que vão desde a renda bruta
real dos consumidores de livros, até
ao número de exemplares de livros
vendidos pelas editoras, mostra-se
claramente que se trabalhou em nú-
meros e realidades de um mercado
que é funcional há muitos anos. Ma-
pas comparativos com outras situa- vo de que nada de concreto foi reali- esta ideia que realizamos em 2007 o 2 – a comissão criada, inclui nomes
ções do mundo editorial no geral, zado nesta matéria. primeiro encontro de escritores an- de figuras públicas, historicamente
surgiram plasmados nessa obra que, O livro, e quando falo do livro estou golanos, na cidade do Lubango. Nessa ligadas a esta problemática? Que no-
espero, nos venha a ser útil, quando o a ver toda a estrutura que lhe dá su- altura, cerca de uma centena de escri- mes e experiências práticas foram ou
nosso mercado passar pelas etapas porte, o livro, dizia, é para mim e su- tores e outros interessados no negó- vão ser indicados, tendo em vista a
que um mercado deve realmente pas- ponho que para todos nós, o assunto, cio do livro, trabalharam na discus- credibilização do processo?
sar, o que implica afirmar que nós, em senão o mais importante, um dos são de uma série de temas relaciona- 3 – numa conjuntura onde neste
Angola, estamos claramente no zero. mais importantes que o governo tem dos com o livro, tendo saído desse campo específico nada se encontra
Quando alcançámos a independên- entre mãos. Não é difícil chegarmos a conclave um conjunto de documen- feito, e se realmente se trabalha, co-
cia nacional não havia, que eu me re- esta conclusão, se tivermos em conta tos contendo ideias conclusivas, so- mo esperamos, que passos foram já
corde, editoras em Angola. Surgiu a o elevado grau de analfabetismo da bre o trabalho realizado e no qual se dados? Consta ao menos das suas in-
União dos Escritores Angolanos, a se- nossa população e dos baixos índices apontavam caminhos bem definidos tenções a subvençao do preço do li-
guir apareceram a Ler & Escrever, a de hábitos de leitura existentes. Um a seguir no futuro. Tais documentos vro como acontece em países como
Chá de Caxinde e a Nzila e pouco de- país de analfabetos, onde a pouca foram remetidos para o Ministério Cuba? As feiras do livro e o acesso das
pois a Kilombelombe. O mercado al- percentagem dos que sabem e que- da Cultura e para a Assembleia Na- crianças a este objecto fundamental
terou-se, entretanto, e hoje há já a rem ler enfrenta tremendas dificul- cional. Infelizmente, nunca recebe- está contemplado?
operar no nosso país um número ra- dades para adquirir um livro por vir- mos nenhuma resposta, nenhum co- 4 – por que razão os governantes se
zoável de casas editoras. Mas a verda- tude do seu alto preço, é um país que mentário. Mas, volvidos uns tempos, mostram receosos da sociedade civil
de é que este conjunto de empresas, não tem, garantidamente, o seu futu- longos meses, foi divulgado o diplo- e se afastam tanto das populações?
entidades ligadas ao livro, não se- ro assegurado. Não admira, portan- ma que regula a política das biblio- Porque não se solicita o nosso apoio?
guem, não tinham como seguir, uma to, que esta problemática esteja no tecas e dos hábitos de leitura (uma Porquê tamanha desconfiança?
política uniforme e abrangente que centro das preocupações do Executi- das várias decisões e recomenda- Termino, não com mais uma per-
garanta a regulação da edição e da co- vo, a par de outros assuntos que po- ções saídas do encontro de escrito- gunta, mas com uma constatação. E,
mercialização do livro e de todas as derão ser considerados de maior ou res) que, como vimos constatando com o devido respeito que se deve
componentes que lhe estão agrega- menor importância. Para nós, este não tem resultados práticos nem ter por pessoas e por instituições,
das. Neste momento, cada actor de- assunto do livro é fundamental, é abrangentes. É deste modo que, ha- atrevo-me a dizer que nunca acredi-
sempenha a sua acção de acordo com prioritário e, por isso entendemos vendo necessidade de se impulsio- tei em Comissões de Trabalho. Esta
os seus interesses particulares, e isto perfeitamente as medidas que foram nar este trabalho, perante a eviden- aversão vem do tempo colonial,
significa dizer que, sinceramente, es- tomadas já pelo Executivo do presi- te apatia da Comissão recentemente quando se dizia que o governo no-
ta é uma situação que não se pode dente João Lourenço, nomeadamen- nomeada (o termo obedece apenas meava comissões de trabalho quan-
mais tolerar. A despeito de ter sido te a nomeação de uma comissão que à evidência dos factos) e na base dos do não queria resolver o problema
criada, há anos atrás, a AELA, a Asso- integra funcionários dos Ministérios factos constatados, que fazemos as que originava a sua criação. Por cá, já
ciação dos Editores e Livreiros de An- da Cultura e da Educação, para aten- seguintes perguntas: vimos dezenas de comissões a serem
gola, que teria como missão funda- der às preocupações que lhe são im- 1 – é válida ou não a ideia de que o criadas, sem nunca termos sabido
mental, aquela que andamos anos e plícitas. E é a partir daí que come- governo incentina um tipo de actua- dos resultados que elas produziram.
anos à procura, ou seja, a organização çam, verdadeiramente, as nossas dú- ção que pressuponha uma governa- Espero que no caso concrecto não
da política do livro no nosso país, é vidas e os nossos receios. Vejamos: ção inclusiva, onde o cidadão e as ins- aconteça o mesmo.
caracterizada apenas por um vazio Foi nesse âmbito e com o pensa-
Luanda, 3 de Dezembro de 2019
tituições participam e ajudam com o
enorme neste domínio, demonstrati- mento voltado essencialmente para que podem e sabem?
4 | LETRAS

“Criar Lusofonia”
14 a 27 de Janeiro de 2020 | Cultura

Angolano vence concurso


O júri do Concurso Criar Lusofonia
declarou vencedor do mesmo, João
Ngola Trindade, informou a organiza-
ção do referido evento a 18 de Dezem-
bro de 2019.
Apoiado pelo Ministério da Cultura
de Portugal, e gerido pelo Centro Na-
cional da Cultura do referido País, o
Concurso Criar Lusofonia tem por ob-
jectivo a atribuição de bolsas no domí-
nio da escrita para cidadãos de países forme revelou ao Jornal Cultura: “rece-
de Língua Oficial Portuguesa e a cria- bi de Portugal a mensagem de felicita-
ção de contactos aprofundados com ção do Centro Nacional da Cultura, do
outros países lusófonos aos escrito- Ministério da Cultura e da Direção Ge-
res/investigadores de língua portu- ral do Livro, dos Arquivos e da Bibliote-
guesa, a fim de produzirem uma obra ca no meu e-mail quando o abri justa-
destinada à divulgação no espaço lu- mente para enviar ao Jornal Culturaum
sófono, lê-se no regulamento. artigo que, curiosamente, é uma parte
Colaborador do Jornal Cultura, João da pesquisa que tenho realizado sobre
Ngola Trindade referiu que, inicial- a obra de Castro Soromenho”.
mente, teve conhecimento do concur- A primeira parte deste artigo foi pu-
so através doSemanário Novo que, nu- blicada na edição nº197 (31.12.2019).
ma das suas edições do ano transacto, O leitor poderá encontrar nesta edi-
noticiou a realização do concurso. ção a segunda parte deste artigo.
Contudo, afirmou que não sentiu mui- A bolsa atribuída está avaliada em
ta motivação para concorrer. três mil euros e destina-se a cobertura
“O professor Francisco Soares, espe- das despesas inerentes investigação
cialista em Literatura Africana, colo- que João Ngola Trindade vai desenvol-
cou-me em contacto com o link da or- ver em Portugal.
ganização e aí encontrei o regulamen- Contudo, esclarece o Centro Nacional
to concurso que exige que os candida- da Cultura de Portugal, impõe-se a ne-
tos tenham já publicada uma obra e cessidade de o investigador enviar o
artigos, apresentem a cópia do BI, ou cronograma da investigação: “Para dar
do Passaporte, um projecto de criação início a esta condição de bolseiro, deve-
literária ou de investigação literária e rá enviar (entre 15 e 30 de janeiro) um
o curriculum”. programa de desenvolvimento do pro-
João Ngola Trindade afirma ter jeto e calendarização, incluindo previ-
apresentado a sua candidatura so- são de datas de deslocação e estada […].
mente a 31 de Outubro do ano em cur- O montante previsto para viagens é
so, portanto, no último dia de submis- de 1000 € (inclui viagens internacio- vro de ensaios que lancei em Maio no Semanário Folha 8 e, posterior-
são das candidaturas, depois de ter re- nais e internas) ”, lê-se na mensagem 2019, “O Papel do Escritor na Socieda- mente, no Novo Jornal.
flectido profundamente se valia a pe- de felicitação. de Colonial Angolana”, um outrolivro Porém, a maior parte da sua produ-
na concorrer. “Eu estava e continuo João Ngola Trindade afirma estar a que está no prelo e22 dos 50 textos ção intelectual foi publicada neste
empenhado numa pesquisa e tinha de aguardar apenas pela licença que soli- que escrevi e foram publicados na im- quinzenário de Artes e Letras, que
reservar tempo para preparar o dos- citou a sua entidade patronal para que prensa angolana. Penso que o traba- até este preciso momento trouxe a
siê da minha candidatura. Depois de a possa terminar o cronograma da in- lho que desenvolvo foi determinante lumemais 50 textos da sua autoria,
ter preparado, questionei-me se valia vestigação. para que o júri tivesse decidido decla- nomeadamente, artigos, ensaios e
a pena realmente concorrer. Tomei a Sobre o factor que terá pesado na rar-me vencedor do concurso”. recensões críticas.
decisão de concorrer no último dia da decisão do júri de atribuir-lhe a bolsa, Licenciado em História pela Facul- O historiador escreve igualmente
apresentação das candidaturas, 31 de o historiador refereque“no regula- dade de Ciências Sociais da Universi- textos para o Antologia – programa so-
Outubro de 2019”. mento afirma-se que os candidatos se- dade Agostinho Neto, João Ngola Trin- bre Tradição Oral, apresentado na Rá-
A decisão do júri foi-lhe comunicada riam apreciados com base no curricu- dade colabora no neste jornal desde dio Nacional de Angola pelo escritor e

A razão do Semba
por e-mail no dia 18 de Dezembro, con- lum. Eu inclui no meu curriculum o li- 2012, tendo inicialmente colaborado jornalista António Fonseca.

CARLOS LAMARTINE Velhas glórias do nosso carnaval...


Amaral Rodrigues,
O Semba com a sua magia Joy dos Tambores,
Faz o canto alto da nossa imaginação Joãozinho do Bairro Operário....
Vem do coração Ritimam o Semba
Flores e frutos, bendito condão. Na sua forma ao natural.

Acompanhamento do Conjunto “O
Beleza linda ____________________________________

Coração de Angola”, de Carlos Lamar-


Do Mundo Raínha,

tine, Gregório Mulato, Botto Trinda-


Na passarela

de, Teddy Nsingui e Zeca Terilene.


Ginga ao passo do osso do leão,

Participação de Hildebrando Cunha.


A ilustrar a moda

Música gravada nos Estúdios da


A alma da nossa nação,

Rádio Nacional de Angola em 1998 e


Ilumina a nossa tradição.

editada no CD Cidrália na África do


Sul em 1999.
Malé de Fontes P’reira,
Lindo da Popa e o Cerineu,
LETRAS |5

Um canto ao meu Congo


Cultura | 14 a 27 de Janeiro de 2020
ANTÓNIO FONSECA

C N'Kunga kwa Kongo dya me


remos que desde logo deve-
mos felicitar o confrade Fra-
gata de Morais por este livro
cujo título arrebatador nos
eleva para a mística do espaço socio-
cultural Kongo no qual se cruzam
makandas (as linhagens matrilinea-
res), se constroem lumbus (as linha- apanhado por um crocodilo, podes
gens patrilineares e residências pa- temer a água?” – Claro que não. É es-
trilocais, se narram nvilas (as genea- te o caso do autor de batuque mu-
logias) que permitem ao mukongo kongo que agora nos brinda com esta
com um simples nome de linhagem exemplar obra...
identificar familiares, ser acolhido, Escreve ainda o autor: “Ntinu We-
aqui ou noutro lugar. ne, arvorado em pai incansável, alti-
E é esse sentido de identidade pre- vo e extremoso, chamou para o as-
sente no título do livro que faz com sunto os mais velhos, os maduky, sa-
que, sejamos ou não linhageiramente pientes. – Trata-se de um bom exem-
mukongo, assumamos orgulhosa- plo que bem serviria nos dias de ho-
mente essa parte da nossa história e je, em muitas ocasiões. – En passant,
da nossa memória colectiva que nos aproveitamos para dizer que o ter-
permite afirmar que “a força de um rio mo MADUKY, DUKY, no singular, com
está nos seus afluentes” como de resto que no contexto sociocultural de lín-
o Kasai se tornou noiva de Mzadi e, fei- gua kikongo se designam os conse-
to o “muanga matoko, o espalha pre- lheiros, os anciãos, os decisores em
tendentes”, prestado o “o mbongo em uma assembleia, não será mais do
sinal de reconhecimento pela prenda- que uma corruptela ou nacionaliza-
da filha que receberia nos seus bra- ção do título DUQUE, o que nos pare-
ços”, ganharam grandeza e admiração ce poder ser explicado a partir da
e nunca mais se separaram. obra “ Angola Cinco Séculos de Cris-
Se quanto ao conto, o menino que tianismo”, de Dom Manuel Nunes
correu para o mar, devemos destacar Gabriel que nos diz ter sido ao abrigo
o plano ficcional conseguido pelo au- da Carta de Armas que o Congo pas-
tor, devemos dele sublinhar o resga- sou a ter armas próprias, as suas pro-
te do título máximo do poder político víncias passaram a chamar-se prin-
Kongo: NTINU, em vez de Ntotela, cipados, ducados, condados, etc. e os
que seria o epíteto do mesmo. Sobre seus chefes príncipes, duques e o rei
este aspecto, permitam-me chamar a concedia o Hábito de Cristo(…) a vas-
atenção dos estudiosos para o capí- salos que desejava premiar e o título
tulo subscrito pelo professor Theop- DOM torna-se tão frequente no Con-
hile Obenga, no primeiro volume da go. E conclui: Escreve o padre Cavaz-
História Geral de África. zi que quando os pais levassem os fi-
Neste conto, o menino que correu lhos ao baptismo, embora fossem
para o mar, como de resto nos demais, miseráveis e mal tivessem um farra-
podemos encontrar os ensinamentos po para cobrir a criança, ao pergun-
dos mais velhos expresso através de tarem-lhes o nome respondem:”
provérbios de que podemos destacar Dom Fulano, Dona Sicrana”.
que dar o nosso nome a uma criança, Acrescentamos nós que isto expli-
não se trata de escolher unicamente ca também que a expressão “NE” que
um nome, mas que um filho deverá ter constitui um distintivo de notorieda-
o comportamento digno e exemplar de e de respeito, que antecede o no- sentada pela Batalha de Ambwila, ses filhos ilustres do Kongo, aquele
do seu xará e, portanto, nessa pers- me de um mais velho, ou de um “mfu- tão brilhantemente aqui explicada, que ficou na história conhecido co-
pectiva deve ser educado. mu”, um dignitário, um titular de no conto Ulanga o Rio que Secou pa- mo o primeiro embaixador negro no
Fragata de Morais bebeu muito da cargo familiar ou público, coexista ra Sempre. Vaticano. Trata-se do Marquês Antó-
cultura e da história dos Akongo, com o mesmo valor com o título “ Ó Kongo eterno, que tanto filho nio Manuel de Funt , (e aqui, quanto
portanto, dela não tem medo nem “NDOM” que constitui a nacionaliza- ilustre soubeste produzir” – escreve ao nome Funta, mais um erro crista-
pode fugir, até porque, como ele mes- ção de DOM, pela agregação do som Fragata de Morais... e com razão... e lizado nas fontes escritas), de seu
mo escreve, - cito - “ Quando já foste pré-nasal. exemplos não nos faltam. nome vernáculo Nsaku Ne Vunda,
Um canto ao meu Congo, de FRA- Basta lembrar-nos de Ne Mvemba com cerca de 33 anos de idade, orde-
GATA DE MORAIS, é um percurso Nzinga ( D. Afonso I do Congo) que nado padre com o nome de António
ficcional sobre os diversos ciclos da marcou a história do Congo como o Manuel. Do Rei do Kongo Álvaro II
historia do Kongo que vão da sua primeiro governante a denunciar o recebe as credenciais que ele está
fundação, à sua cristianização, à tráfico de escravos negros, que era encarregado de apresentar ao Papa,
sua decadência e busca do renasci- feito com a autorização da Coroa em Roma, para consolidar o catoli-
mento cultural, neste livro repre- Portuguesa, assim como ter sido o cismo no país Kongo.
sentado pela história da ma- responsável pela implementação de Como se pode ler desta obra, com
mã ndona Beatriz, Kim- um sistema educativo moderno, vol- passagem pelo Brasil, com passagem
pa Vita, bem como ao tado para rapazes e raparigas, cujo por Portugal e Espanha, com vários
início da derrocada filho batizado com o nome de Henri- sequestros, Dom António Manuel
do Reino do Kon- que aos 26 anos viria a ser sagrado não desiste. Importa dizer que gra-
go, repre- bispo, tornando-se assim no primei- ças a uma troca de cartas com o Vati-
ro Bispo negro dos tempos moder- cano, ele defende a causa de que fora
nos e que exerceu o seu ministério incumbido e – cito – “a congregação
como Vigário Geral do Bispado do dos ritos do Vaticano, depois de ter
Funchal, na Diocese do Funchal, Ilha examinado a questão, decide que o
da Madeira, portanto.. enviado do Mani Kongo pode ser re-
Claro está e importa sublinhar que cebido tão solenemente como os em-
não escapou ao autor um olhar so- baixadores dos outros reis” – pode
bre a saga do mais emblemático des- ler-se numa nota conservada no Ins-

6 | LETRAS 14 a 27 de Janeiro de 2020 | Cultura

Fragata de Morais bebeu muito


da cultura e da história dos
Akongo, portanto, dela não tem
medo nem pode fugir, até por-
que, como ele mesmo escre-


ve, - cito - “ Quando já foste
apanhado por um crocodilo”

tituto Real Colonial Belga.


Embora tentando ser ficção, neste
aspecto como em muitos outros, Fra-
gata de Morais leva o leitor a saber
que após uma périplo de mais de
quatro anos, Dom António Manuel, o
embaixador do Kongo, chega a Roma
e pôde finalmente apresentar as
suas credenciais ao Papa Paulo V, tor-
nando-se no primeiro embaixador
negro junto da Santa Sé .
A 06 de janeiro de 1608, depois de
ter transmitido o essencial da sua
missão de que figurava , a demanda
de ajuda do Papa para o termo do trá-
fico negreiro (5) , dentre outras
questões importantes, D. António
Manuel, marquês de Funta que tinha
então a sua saúde muito debilitada
devido às vicissitudes da sua viagem,
infelizmente acabou por falecer. O
ilustre embaixador, que ficou conhe-
cido entre os romanos por Nigrita,
mereceu funeral com grande pompa

Agostinho Neto
e enterro na Basílica de Santa Maria
Maggiore, em Roma, onde ainda exis-
tem o seu túmulo e busto em mármo-
re, como narra o autor.
Para concluir este aspecto, a título de viria a acontecer mais tarde, ou se-
curiosidade, – acrescento que por iro- ja, tinham de lutar e a caneta do

Um Sintomatologista de Angola
nia da história, António Manuel de poeta torna-se nessa arma ideoló-
Funta “Para deixar as costas do reino gica e impulsionadora que os impe-
do Kongo, ele embarca no único galeão lia para o combate.
disponível: um navio negreiro que, an- O texto literário como instru-

O presente artigo pretende fazer uma radiografia ao pensa-


tes de aportar a Lisboa, vai primeiro mento-resistência vai ser objetiva-

mento de Agostinho Neto, expresso na sua vasta obra poética,


deixar a sua carga sórdida no Brasil”. do para influenciar atitudes e com-

por formas a perceber até que ponto ela é uma sintomatolo-


Finalmente, permitam-nos felicitar portamentos, por formas a interfe-

gia dos problemas e anseios vividos pelo povo angolano na


o confrade Fragata de Morais pelo rir na vida política e cultural dos

época da colonização. A literatura pode transformar-se nu-


facto de, com esta obra, vir dar corpo povos, tendo em vista a construção

ma análise minuciosa de questões sociais que enfermam uma


à ideia, segundo a qual, o “ homem de narrativas que vão forjar a sua

determinada sociedade; um documento-veículo-metamorfo-


angolano, confrontando com as exi- identidade. A partir daqui, pode o

se-linguagem própria de denúncia-fuga-revolta-libertação.


gências do progresso e do desenvol- escritor montar-construir uma pe-

A criação artística e literária é na visão de Deleuze, “um acto


vimento deve continuar cioso das ça denunciadora dos sintomas can-

de tornar visível o invisível, tornar pensável o impensável. A


nossas tradições, ser consciente da dentes da sua sociedade baseada

criação literária é principalmente resistir e quando ela pro-


nossa história e estar imbuído da numa ideologia colectiva de liberta-

duz linhas de fuga das situações de opressão ou nos imuniza


nossa cultura, ao mesmo tempo que ção de qualquer violência-domina-

de qualquer tipo de pensamento fascista, ela é saúde”.


seja detentor do saber técnico- cien- ção.
tifico moderno “. "Hoje/somos as crianças nuas
CONCLUINDO: cremos que FRAGA- das sanzalas do mato/os garotos

DOMINGAS MONTE
TA DE MORAIS neste livro dá-nos um sem escola a jogar a bola de tra-
bom exemplo de caminhos a seguir em Luanda, no dia 17 de Setembro pos/nos areias ao meio-dia/somos
para divulgar a nossa história e de co- de 1979. nós mesmos/os contratados a quei-

“A
mo a mesma pode ser usada no pro- certeza da vitória eras tu, No seguimento do que se afirma mar vidas nos cafezais/os homens
cesso educativo informal das novas que sabias sorrir diante acima consegue-se vislumbrar a negros ignorantes/que devem res-
gerações. Do mesmo modo relança o do perigo, que sabias bravura e a determinação do esta- peitar o homem branco/e temer o
debate sobre a actualidade das nossas criar com os olhos secos, que não dista-líder e poeta. Homem deste- rico/somos os teus filhos/dos bair-
tradições.... e quanto a isto, fica tam- conhecias nem o medo nem a dúvi- mido, forte e lutador natural com ros de pretos/além aonde não che-
bém o sublinhado quanto ao recurso da diante dos objectivos que desde objectivos definidos, tal como ga a luz eléctrica/os homens bêbe-
que o autor faz ao uso de provérbios cedo foram traçados”. Lúcio Lara, in anuncia no poema “Adeus à hora da dos a cair/abandonados ao ritmo
no livro o que em si mesmo acrescenta oração fúnebre pronunciada peran- largada, /eu já não espero/sou dum batuque de morte/teus fi-
à obra a dimensão estética das nossas te a urna com o corpo do presidente aquele por quem se espera". É uma lhos/com fome/com sede/com ver-
tradições e literaturas orais. Agostinho Neto, no salão do povo, tomada de consciência sobre o que gonha de te chamarmos Mãe/com

Cultura | 14 a 27 de Janeiro de 2020 LETRAS |7

(2017), “a poesia nos movimenta

"Hoje/somos as crianças nuas das sanzalas do mato/os garotos sem


num sangramento de perspectivas
que laceram o percepcionado, o ex-
escola a jogar a bola de trapos/nos areias ao meio-dia/somos nós perimentado, sim, cria novas possi-

mesmos/os contratados a queimar vidas nos cafezais/os homens


bilidades de existência, produz os-
moses de afecções-desviantes que
negros ignorantes/que devem respeitar o homem branco/e temer o
rasgam o mundo com o tempo unido

rico/somos os teus filhos/dos bairros de pretos/além aonde não


a cada instante”.
O poeta, homem formado em medi-

chega a luz eléctrica/os homens bêbedos a cair/abandonados ao


cina, conhece os sintomas do seu povo
e desenvolve linhas de fuga para o res-
ritmo dum batuque de morte/teus filhos/com fome/com sede/com


tabelecimento da liberdade, tornan-

vergonha de te chamarmos Mãe/com medo de atravessar as


do-se nessa figura incontornável da
história literária e política de Angola,
ruas/com medo dos homens/nós mesmos"
definida por Basil Davidson
(1979:6)da seguinte maneira: “como
porta-voz de um povo que luta pela li-
berdade, tornou-se figura simultanea-
mente amada e temida. É amado e te-
reivindicação que se impunha, em doença, cura e vida. O poema “velho mido como chefe de uma luta pelo fu-
função dos ideais da colonização, negro” constitui-se numa denúncia- turo, luta que tem de ser empreendida
que por décadas aprisionou e aco- doença como se pode ler nos seguin- por todos os homens de todos os tem-
meteu os sonhos do povo angolano, tes versos: pos e lugares, e também por todas as
como se pode verificar nos seguin- “Vendido/E transportado nas ga- mulheres, repelindo o passado e
tes versos do poema “Sombras: não leras/Vergastado pelos transformando o presente”.
grita seus anseios/ no receio de homens/Linchado nas grandes cida-
perturbar um mundo/ que o ofus- CONCLUSÃO
Sintomatologia de acordo com o di-
des/Esbulhado até ao último tos-
ca/ ouço vozes longínquas/ dos ho-
cionário da língua portuguesa reme-
tão/Humilhado até ao pó/Sempre
mens que não cantaram/ recordo
te para a análise detalhada dos sin-
sempre vencido/É forçado a obede-
dias felizes que não vivi/ existem-
tomas de uma doença, para melhor
cer/A Deus e aos homens/Perdeu-
me vidas que nunca foram/ vejo luz
interpretar o que aparece nos exa-
se/Perdeu a pátria/E a noção de
onde só há trevas”.
mes médicos; no mundo das artes e
ser/Reduzido a farrapo”.
O poeta nesses versos mostra-nos
segundo Roland Barthes é uma análi-
Esses versos carregados de dor e
alguns sintomas que representavam
se das definições que são atribuídas
mágoa representam uma invocação
o cancro, o caosdaquele sistema vio-
às situações sociais tidas como siste-
dos oprimidos a resistir a todo tipo
lento, que visava o aniquilamento
mas de significação; estudo das ima-
de humilhação e subjugação. É na vi-
de culturas inteiras, reduzindo o ho-
gens, dos gestos, dos costumes, das
são de Deleuze “uma possibilidade
mem a nada como se pode ler no
tradições etc.
de vida”.O “velho negro”, foi vendido,
poema “A renúncia impossível: não
O tema da presente análise “Agosti-
transportado, linchado, humilhado e
sou/ não existo/ nunca fui/ renun-
nho Neto: Um sintomatologista de An-
reduzido a nada, perdendo a pátria e
cio-me/ atingi o zero. Não existo/
gola” e a abordagem por nós digla-
a noção de ser. Isto é sintomático do
nunca existi/ não quero vida nem
diada, explica e detalha com exem-
sistema vigente na época e de algu-
morte/ nada!"
plos, como o homem travestido de
mas sociedades actuais.
Aqui começa um processo de ava-
poeta foi capaz de radiografar as en-
É nessa impossibilidade de vida,
liação-diagnóstico dos sintomas que
fermidades de um povo acometido por
nessa ausência de luz que surge o
enfermavam o povo angolano, num
um sistema funesto-imoral-asfixian-
sintomatologista para mostrar vias
medo de atravessar as ruas/com me- acto de negação-denúncia-resistên-
te, transformando-as em versos que
de fuga e de cura; “Ah/ faça-se luz no
do dos homens/nós mesmos" cia da opressão, por formas a encon-
sangram-vivificam até aos nossos
meu espírito/ LUZ!/ o meu lugar está
A poesia é desse ponto de vista um trar vias de fuga e de saúde. A litera-
dias. São diagnósticos-receitas que
marcado/ no campo da luta/ para
lugar de resistência e fuga, onde se tura também tem esse poder e Agos-
nos chegam através da literatura, fei-
conquista da vida perdida”. Havia es-
vão confluir sentimentos em órbita; tinho Neto soube utilizá-lo numa
tas por um génio-leitor de realidades.
capatória e várias possibilidades que
libertar vontades e gritos em clausu- busca permanente pelos signos de a poesia cria, como afirma Serguilha
ra. Ela tem a vocação de explorar os
mistérios irracionais, perscrutar a
vida social, vivificar os moribundos Domingas Monte (Domingas
dum sistema imoral-opressivo-mor- Henriques Monteiro), Mestre em
tal, buscando rastros de humanidade
Estudos Literários, Culturais e Inte-
para dignificar o homem-povo.
"Eu não existo/Palavra de honra rartes. Docente da Faculdade de Le-
que nunca existi./Atingi o Zero/o tras da Universidade Agostinho Neto.
Nada./Abençoada a Hora/do meu Presidente da Associação Mwelo Weto
super-suicidio/para vós/homens – Nosso Portal. Escritora e Blogueira.
que construís sistemas morais/para
enquadrar imoralidades".
________
De acordo com Deleuze (2010) “a
obra de arte é portadora de sintoma, NETO, Agostinho, Sagrada Espe-
tal como o corpo ou a alma, embora rança, Renúncia Impossível, Ama-
de uma maneira bem diferente. Nes- nhecer, União de escritores angola-
se sentido, tanto quanto o melhor nos, Luanda, 2009.
médico, o artista e o escritor podem SANTOS, Oluemi Aparecido dos,
ser grandes sintomatologistas”. Ele “nas sendas da revolução: a poesia de
deve tratar o mundo como um sinto-
Agostinho Neto e Solano Trindade”,
ma, e construir a sua obra não como
um terapeuta, mas, em todo o caso dissertação apresentada à Faculdade
como um clínico. de Filosofia, Letras e Ciências Hu-
Com efeito a criação poética de mandas da Universidade de São Pau-
Agostinho Neto remete para um le- lo, para obtenção do grau de Mestre,
vantamento psico-sintomatológico São Paulo, 20019
de questões de ordem social, cultural
e política, como alavancas para uma
Cultura

Língua, Literatura e
8 | LETRAS 14 a 27 de Janeiro de 2020 |

JOÃO
NGOLA
TRINDADE
Identidade Cultural (2 ͣParte)
A
abordagem em torno destas e
outras questões é tão relevante,
porquanto o domínio da língua
para todo e qualquer pesquisador per-
mite, entre outros aspectos, que se te-
nha uma visão endógena, ou que esteja
próxima desta, a respeito do povo que é
objecto de estudo.
Estas considerações foram feitas por
Castro Soromenho que afirma ser im-
possível compreender o africano fora
do seu universo cultural e que este,
quando integrado na sua cultura, só po-
de expressar-se através dos processos
formais criados pela história da sua
própria cultura.
Durante a sua permanência na Leste
de Angola (1928-1933), o escritor-et-
nógrafo recolheu abundante material
que esteve na origem das suas obras,
dentre as quais destacamos Noite de
Angústia e Homens Sem Caminho, a
respeito das quais iremos tecer algu-
mas considerações.
A primeira consideração que temos a


fazer diz respeito ao facto de o autor ter
recorrido a tradução para que pudesse ensinamentos transmitidos a menina lonial implantada em Angola visava, de (PEPETELA 2004:83), adquiria bens e
recolher as narrativas orais que foram pela mestra encarregue da realização um lado, a difusão da língua portuguesa exercia funções relevantes , ou regres-
vertidas para o papel. Neste sentido, a desta cerimónia. e, do outro lado, a eliminação das lín- sava a sua família . De acordo com Mário
sua obra é resultado da interpretação Em diferentes ocasiões, Castro Soro- guas nacionais. António (1990:504), a transposição de
das tradições culturais dos Lundas. menho (1965:135, 137,139-140, 145, A par do ensino e da religião, a Litera- abismos culturais não teve eficácia na
É através da língua portuguesa que 147, 1942: 124,138) refere-se ao kim- obra de Castro Soromenho; as obras em
Castro Soromenho procura “revelar” ao banda , ao thahi e ao feiticeiro como se análise destinam-se – e importa dizê-lo

É através da língua portuguesa


seu mundo (o mundo do homem bran- fossem a mesma entidade. Na cultura novamente – a comunidade literária de
co) um outro mundo (o do homem afri- Kimbundu, o exercício desta função - a que o escritor é originário, com a qual

que Castro Soromenho procu-


cano), traduzindo as suas vivências nu- de kimbanda - consiste na identificação se identifica e partilha a mesma visão
ma língua desconhecida pelo sujeito re- das causas das doenças (e de outros sobre o Angolano que, sendo conside-

ra “revelar” ao seu mundo (o


presentado na sua obra. males que afligem as pessoas) e no seu rado incivilizado, é forçado a adoptar a
Ora, a tradução é um processo cujo tratamento (Ribas 2009:36, 123). língua portuguesa de modo a adquirir a

mundo do homem branco) um


sucesso depende da competência lin- A realização da sessão de adivinha- cidadania e os direitos inerentes a esta
guística e comunicativa do tradutor. O ção, que permite identificar a origem condição.

outro mundo (o do homem afri-


exercício desta função implica a fluên- dos males, implica o manejo do ngom- As consequências da imposição da
cia no uso da língua originária e da lín- bo - caixa mágica através da qual o kim- língua portuguesa e da obrigatoriedade

cano), traduzindo as suas vi-


gua para a qual se traduz o texto. banda recebe o oráculo. do seu uso pelos Lundas podem ser
No contexto colonial, onde uma mi- Contudo, em virtude do poder pu- constatadas em A Chaga onde está pa-

vências numa língua desco-


noria insignificante de Africanos fala nitivo (RIBAS 2009:36) que o kim- tente a falta de concordância entre o su-
fluentemente o português, o domínio banda possui e exerce, quando solici- jeito, predicado e o substantivo, bem

nhecida pelo sujeito represen-


deficiente desta língua pelo tradutor- tado por alguém, o povo considera-o como a pronúncia incorrecta de pala-
informante ("indígena") condiciona a de feiticeiro. vras nos diálogos que os negros man-

tado na sua obra.


compreensão sobre a realidade cultu- O entendimento que Castro Sorome- têm com os funcionários da Adminis-
ral na qual assenta a obra do escritor. nho tem sobre o thahi é de que este se- tração Colonial: "é os selvagem, é porco,
Com efeito, as tradições culturais dos ria apenas um adivinho. Deste modo, a nosso secretário" (Soromenho
Lundas exprimem-se numa língua - o função de médico tradicional seria 1988:100) (sic).
cokwe - desconhecida pelo autor. exercida por outra entidade cuja desig- Convém recordar que o escritor re-
Nestas narrativas, situadas no perío- nação está omissa nas duas obras. tura seria um dos meios de expansão da conhece que o Negro-Africano enraiza-
do pré-colonial, porém, escritas no pe- Certamente que um leitor atento não língua portuguesa. Castro Soromenho do na sua cultura só pode exprimir-se
ríodo colonial, verifica-se a descrição ficará indiferente ao deparar-se com retira desta língua formas de tratamen- "naturalmente através dos processos
superficial, outras vezes inadequada, palavras como “chota” “melemba”, to usadas na Idade Média, como “fidal- formais criados pela história da sua
de alguns fenómenos socioculturais co- “Zambi”, “gombo” cuja grafia correcta go” e “amo”, para referir-se ora aos tu- própria cultura". Pelo que a utilização
mo a mukanda, visto que a definição seria “tchota”, “mulemba”, “Nzambi” e bungos, ora aos detentores de escravos forçada de uma língua produz resulta-
que nos é apresentada pelo autor se re- “ngombo”. numa sociedade onde a condição de es- dos que muitas vezes não correspon-
sume a “arte de amar”, ou ainda ao “sa- Com efeito, a subalternização das lín- cravo era temporária: o indivíduo que dem com os que são esperados.
crifício das virgens”, quando sabemos guas nacionais e a sua exclusão do ensi- não tivesse meios de pagar a dívida li- Na sociedade colonial, os mestiços
que se trata da iniciação feminina – o no colonial afiguram-se os motivos pe- quidava-a, entregando um dos seus fa- constituem um estrato social que em
processo de preparação da menina pa- los quais se podem entender os erros miliares ao credor para prestar-lhe ser- virtude da ligação com o pai (branco)
ra a vida conjugal, sendo a aprendiza- ortográficos existentes nestas duas viço durante determinado tempo, findo tendem a adoptar a sua cultura e o seu
gem da prática do sexo apenas um dos obras, na medida em que a política co- qual integrava a família do seu patrão modo de falar.
Cultura | 14 a 27 de Janeiro de 2020 LETRAS | 9

No capítulo IX de A Chaga, o autor in-


troduz um diálogo entre dois mestiços,
Benjamim e Severino, em que este criti-
ca aquele por falar um "português de
escarumba" , imperceptível para al-
guém que tendo sido escolarizado e


educado na língua portuguesa pelo seu
pai (branco, sublinhe-se) habituou-se a
falar e a ouvir "português de branco" – o
meio de comunicação que Benjamim
usa incorrectamente pelo facto de ter

Entre outros aspectos, civilizar


significava ensinar o negro e o
mestiço a falar e escrever cor-
rectamente a língua portugue-
sa e fazê-los com que se identi-
ficassem com e através desta
língua para que pudessem
conhecer a Geografia, a His-


tória, a Cultura e a Literatura
Portuguesa .
inóspito havendo ainda referência ao
"fim do mundo" (Soromenho 1942:53,
1988: 132).
A linguagem depreciativa reflecte os
preconceitos sobre a África, em geral, e
sido educado na língua cokwe pela mãe ela configura o discurso literário colo-
e de não ter estudado (Soromenho nial. Não podemos, no entanto, esque-
1988:202). cer que as narrativas assentam na cul-
No capítulo anterior, apresenta-se tura angolana, "exótica" para coloniza-
um quadro diferente: Castro Sorome- dor, em que estão inseridos os persona-
nho (1988:152-153) coloca-nos diante gens que nelas estão representados.
de um diálogo onde Domingos (mesti- Logo, e não obstante o viés colonial,
ço) é censurado violentamente pelo pai as duas obras enquadram-se na Litera-
por falar "português de preto". tura Angolana.
Domingos justifica o mau uso da lín-
gua pelo facto de o cokwe ser a língua manifestando assim distanciamento duzidas estavam integrados no mapa
Referências Bibliográficas


com a qual se comunica em casa com a (cultural) em relação a este continente; político-administrativo de Portugal ra-

GLISSANT, Édouard, Introdução à


mãe, o irmão e o pai, e que este prefe- - Nos territórios conquistados pelos zão pela qual estas literaturas eram

Uma Poética da Diversidade. Trad.


rencialmente fala português com ou- Portugueses: fala-se do "espaço lusófo- consideradas parte do património cul-

Enilce do Carmo Albergaria Rocha.


tros brancos (Soromenho 152-153). no", também denominado "espaço lin- tural português. De acordo com Agosti-

Universidade Federal de Juiz de Fora


Evidentemente que falar português guístico português", no qual se exerce a nho Neto (1977:19), no passado, a Lite-

(UFJF), Editora UFJF, Coleção Cultu-


era insuficiente para que tanto o negro ratura Angolana mergulhou profunda-

ra, v.1, 2005.


como o mestiço fossem considerados mente na cultura europeia, tendo feito

KANDJIMBO, Luís, Apologia de Ka-


"assimilados", visto que este estatuto parte da Literatura da Europa e sido ex-

De acordo com Agostinho Ne- litangi. Ensaio e Crítica.


era usufruído apenas pelos indivíduos pressa apenas numa das línguas euro-

Luanda:INALD, 1ͣ edição,1997.
que falassem "como o branco". peias (o português).

to (1977:19), no passado, a Li- KEITA, Boubakar, ‹‹Língua, Pala-


Entre outros aspectos, civilizar signi- O poeta (NETO 1975:28,10,19) cha-

vra, Identidade e Desenvolvimento».


ficava ensinar o negro e o mestiço a falar ma a atenção para que nunca se esque-

teratura Angolana mergulhou In: Maka – Revista Angolana de Ciên-


e escrever correctamente a língua portu- cesse a forma ultrajante pela qual os in-

cias Sociais, Outubro de 2011, Vol. 1,


guesa e fazê-los com que se identificas- telectuais portugueses trataram o povo

profundamente na cultura eu- Nº.2, pp.119-138.


sem com e através desta língua para que angolano, que a sua forma de ser fosse

KWONONOKA, Américo, ‹‹Diversi-


pudessem conhecer a Geografia, a Histó- reflectida na literatura e que esta espe-

ropeia, tendo feito parte da Lite- dade, Educação e Interculturalidade


ria, a Cultura e a Literatura Portuguesa . lhasse a cultura angolana.

Como Fundamentos para a Consoli-


No contexto histórico e cultural em Importa referir que a linguagem su-


ratura da Europa e sido expres- dação para a Nação Angolana». In:
que as obras de Castro Soromenho fo- porta a ideologia do grupo no qual o in-

MULEMBA – Revista Angolana de


ram publicadas, o conceito de Literatura divíduo está inserido, podendo ser con-

sa apenas numa das línguas Ciências Sociais. Luanda: Faculdade


Portuguesa denota hegemonia e ambi- siderada um elemento de identidade.

de Ciências Sociais da Universidade


guidade, na medida em que o mesmo diz Noite de Angústia e Homens Sem Ca-

Agostinho Neto (FCS/UAN), Vol. II,


respeito às obras literárias produzidas: minho são, de facto, duas narrativas so-

Nº. 3, Maio de 2012, pp. 129-146.


- Na metrópole: centro difusor da lín- bre o "bárbaro" e a "selva".

‹‹Sobre a Literatura», 1977. In:


gua portuguesa, e, simultaneamente, No primeiro caso, estamos diante do

NETO, Agostinho, …Ainda o Meu So-


quadro de referência cultural para os ser incivilizado que só deixará de o ser

nho … (Discursos Sobre a Cultura).


colonos. Não admira então que Vasco quando adoptar a língua e a religião do

Luanda: Ministério da Cultura, 2009,


Serra tivesse preferência pelas obras da soberania (cultural) por meio da língua civilizador; o adjectivo (bárbaro) dá

pp.13-22.
autoria de Eça de Queirós (A Relíquia) e portuguesa, excluindo-se deste modo a conta de um modo de vida de um povo
de Camilo em detrimento dos livros so- existência de literaturas africanas visto rude, grosseiro (1965:27). No segundo
bre África (Soromenho 1988:137-138), que os territórios onde elas eram pro- caso, considera-se a Lunda um local
10 | ARTES

Suekí: Exposição Individual


Cultura | 14 a 27 de Janeiro de 2020

“As Escadas do Mundo” no ELA


D
isponível desde 15 de Novem-
bro, o artista angolano Sueki
apresenta uma exposição indi-
vidual intitulada “Xibata Já Mundo: As
escadas do mundo, uns sobem, outros
as descem” ou “As Escadas do Mundo”,
no Espaço Luanda Arte (ELA).
Do provérbio em Kimbundo “YA AJI-
BANDA, YA AJIKULUMUKA” que quer
dizer “as escadas do mundo, uns so-
bem, outros descem”, este é o ponto de
partida para uma mostra que reúne


diferentes suportes artísticos: a foto-
grafia, a pintura, colagens e instala-
ções privilegiando materiais de uso
quotidiano para uma reflexão crítica
sobre as diferenças sociais com foco
na terra natal do artista, Angola.

“YA AJIBANDA, YA AJIKULU-


MUKA” que quer dizer “as es-
cadas do mundo, uns sobem,
outros descem”, este é o
ponto de partida para uma
mostra que reúne diferentes
suportes artísticos: a fotogra-
CONCEITO DA EXPOSIÇÃO


fia, a pintura, colagens e ins- “XIBATA JÁ MUNDU significa AS De facto, seguindo esse raciocínio, grupo de obras (sem perder o fio condu-

talações privilegiando mate-


ESCADAS DO MUNDO, e é relevante dividi o conjunto das obras, assim co- tor que as ligue às restantes fases) que

riais de uso quotidiano


porque serve como ponto de parti- mo na sua disposição física (dentro do represente o caminho que se percorre, a
da para uma análise sobre diferen- espaço expositivo) em três fases/par- luta de quem tenta ascender. Um cami-
ças sociais dentro de uma socieda- tes guiando o visitante através dessas nho que tanto nos pode levar ao suces-
de, como tais distâncias entre indi- fases, de forma ordenada. so (em cima) ou ao fracasso (em baixo).
víduos afectam essa mesma socie- Primeira fase: "EM BAIXO". Há um Por fim, terceira fase: "EM CIMA".
dade no seu todo. Revelando ou re- grupo de obras que serão representa- Outro grupo, obviamente seguindo
Suekí é um artista plástico autodida- presentando visual e conceptual- tivas da fase inferior das "escadas do a mesma lógica das outras fases", ex-
ta. Nasceu em 1981, na cidade de Luan- mente as várias faces e vicissitudes mundo" e que terão como base/supor- plica o artista SUEKÍ, cujo nome pro-
da. Entre 1997 e 2000 concluiu o ensi- desse fenómeno/processo e tam- te conceptual e também visualmente vém de um provérbio kimbundo
no médio em Cape Town, na África do bém as diferenças entre os dois reproduzido, um provérbio ou citação "NDONGO MUKONGO IA SUEKÍ",

Sílvio Nascimento apresenta Tellas


Sul. De 2001 a 2002 estudou designer mundos, o de quem está em cima e que faz referência a essa fase. que quer dizer: "Crocodilo à procura
gráfico na ETIC em Lisboa, Portugal. de quem está em baixo. Segunda fase: "NO MEIO". Há outro de dias mais brilhantes".

Maior plataforma de streaming da CPLP é apresentada oficialmente num evento dedicado a ilustres figuras nacionais

dados do panorama cinematográfico e têm agora um local para divulgarem nhar mais relevância e tornar-nos mais
cultural nacional. Sílvio Nascimento, os seus trabalhos ao público. Desafio atractivos a investimentos que podem
actor e produtor angolano com percur- todos os talentos nacionais a envia- contribuir para a divulgação do talento
so internacional, é o PCA deste projecto rem para a Tellas os seus projectos co- cultural nacional”.
inovador e empreendedor que preten- mo séries, vídeo-clips, programas de
de atrair filmes, séries e todo o tipo de entretenimento, programas informa-
conteúdos audiovisuais em todos os tivos ou peças de teatro para que estes Nota do Editor
países de língua oficial portuguesa. cheguem ao maior número de pessoas
O evento decorreu no CINEMAX do possível. Do nosso lado, asseguramos Streaming é uma tecnologia que
Xyami Shopping Nova Vida e contou a legendagem em diferentes línguas e envia informações multimédia, atra-
com a presença de diferentes perso- queremos produtores com talento pa- vés da transferência de dados, utili-
nalidades que apoiam o Tellas e os ra se juntarem a nós”. zando redes de computadores, espe-
projectos nacionais. A Tellas é uma Actualmente a subscrição à Tellas cialmente a Internet, e foi criada para
plataforma idêntica ao gigante Netflix pode ser feita em www.tellas.ao, es- tornar as conexões mais rápidas.
mas exclusivamente dedicada a con- tando já a aplicação disponível para Um grande exemplo de strea-
teúdos em língua portuguesa. Na Tel- Android e IOS. A subscrição tem um ming é o site Youtube, que utiliza
las, o subscritor poderá ter acesso a custo mensal de 1.000 Akz (mil kwan- essa tecnologia para transmitir ví-
Filmes, Documentários, Sessões de zas) que poderá ser pago por referên- deos em tempo real. Em inglês, a
Stand-Up Comedy, Eventos Live e ou- cia bancária, mas há uma promoção de palavra stream significa córrego
tros conteúdos que potenciem aquilo lançamento válida nos próximos 60 ou riacho, e por isso a palavra
. Sílvio Nascimento que é feito com qualidade em África no dias para os primeiros aderentes que streaming remete para o fluxo,
geral e em Angola em particular. poderão subscrever o acesso à plata- sendo que no âmbito da tecnolo-
Para Sílvio Nascimento, PCA da Tel- forma gratuitamente.

F
gia, indica um fluxo de dados ou
oi oficialmente apresentada no las, “esta plataforma é uma alavanca Os objectivos para 2020 são ambicio- conteúdos multimédia. Muitas
dia 11 de Janeiro a maior plata- importante de comunicação para pro- sos e Sílvio Nascimento adianta que “em pessoas assistem filmes, seriados
forma de streaming da CPLP – dutores, realizadores, comediantes e Agosto queremos atingir 1.000.000 de ou jogos de futebol em streaming.
Tellas – num evento dedicado a convi- outros agentes ligados à cultura que subscritores, o que nos permitirá ga-
GRAFITOS NA ALMA | 11

Na Passagem da Era do Petróleo e do Carvão


Cultura | 14 a 27 de Janeiro de 2020

para a Era das Energias Renováveis


sinais do tempo. A mentalidade extre-
mista e exclusivista de uma esquerda
activista e de extremistas da direita
mais não são que o fanatismo das anti-
gas guerras de religião só que enco-
berto com indumentárias de demo-
cracia e de luta em nome de algum
bem desgarrado.

ANTÓNIO
Pelo seu lado, o mundo do operaria-

JUSTO
do do sector produtivo sente-se inse-
guro perante a inteligência artificial
que o vai arrumando pouco a pouco. O
capital que o trabalhador possuía era a
energia do seu trabalho sublimada no

C
om 2020 iniciamos um ano re- Dinheiro. Atendendo à dicotomia en-
dondo de fim de década, o que tre economia produtiva e a economia
convida a fazer tentativas de ba- financeira e correspondente anulação
lanço sobre o passado e o que nos es- dos juros, desvaloriza-se também a
pera no futuro. energia laboral do trabalhador em be-
Como pontos relevantes de referên- nefício da energia das máquinas e do
Energia fóssil
cia básica temos a primeira guerra anónimo. As inovações tecnológicas já
mundial que iniciou o fim das nações se fazem sentir também no clima dos
na qualidade de potências individuais. ções sociopolíticas. A destruição do A vida é contínua mudança e a plata- trabalhadores e seus receios em rela-
Temos o comunismo a tornar-se no elo Globo não tem que acontecer, talvez forma que lhe dará consistência e sus- ção ao futuro; cada vez se torna mais
de ligação e coerência que deu expres- as nossas esperanças se encontram tentabilidade é a fé/esperança que seu anseio serem funcionários do apa-
são mundial à União Soviética como mais flutuantes nesta era muito ca- nos acompanha no caminho, não nos relho estatal. Por seu lado, as elites já
grande potência que hoje se prolonga racterizada pela mudança e pelo re- deixando ficar sozinhos! Um povo, que incluem no seu agir a instabilidade so-
na influência ideológica; por outro la- ceio do domínio de “dinossauros eco- não cultive a fé e a esperança, patina cial e o incómodo social; elas vão dan-
do os USA com o capitalismo que dei- nómico-políticos. em si mesmo e não avança. do um passo de cada vez, tendo abdi-
xaram de ser apenas um país para se Já não serão as políticas nacionais a A esperança assemelha-se ao nadador cado já da História.
tornarem na superpotência mundial, a determinar o desenvolvimento das re- que, para se afirmar em frente, se apoia Embora a pobreza mundial diminua,
partir da sua intervenção na I e II giões, mas sim grandes empresas anó- na resistência que lhe oferece a fragili- nunca houve uma época com tão gran-
Guerra mundial. Ficou assim a atuar nimas (Google, Apple, Facebook, Ama- dade da própria água que o sustem. des desigualdades sociais como a de
no subconsciente dos povos e nos bas- zon, Tencent, Alibaba, Visa, AT&T e ou- A atitude da classe política europeia hoje: regentes e oligarquias permitem-
tidores do palco mundial, de um lado, tros que surgirão, chamarão a si as ao transpor para o povo o peso das dí- se a nível de salários e de gestão da vi-
o capitalismo americano e do outro, o atenções e os interesses); estas con- vidas e ao reservar para as elites o lu- da (energia desviada) o que não se per-
socialismo facetado. correrão entre elas na tentativa de xo, fomenta assim a chamada reacção mitiam reis em relação aos seus súbdi-
A uma Europa enfraquecida pelas concentração de capitais e de poder ao do “populismo” e dos 'coletes amare- tos: hoje estamos a ser cada vez mais
guerras e reduzida ao mero âmbito de lado do poder ideológico político na los'; estes são muito sensíveis à mu- burilados como massa súbdita e anó-
nações, para poder sobreviver em rela- disputa comum pelo domínio das dança axial que paira no ar e de que nima na grande máquina da anonimi-
ção aos USA, à Rússia, às potências sur- grandes massas. muitos ainda se não deram conta. dade económica e política, que vê o seu
gentes da Ásia só lhe resta a alternativa A inovação tecnológica necessária, O Brexit pode ser interpretado como trabalho simplificado através do con-
de se organizar através de convenções se acompanhada por uma cultura do uma reacção de medo no mesmo con- trolo total de tecnologias e cabecilhas.
e contratos na União Europeia. senso comum e da honestidade pro- texto e também um sinal da falta de Estamos a passar do século do pe-
À II Guerra Mundial seguiu-se o meterá um futuro melhor e ainda mais coesão de uma Europa envelhecida in- tróleo para a era das energias reno-
grande crescimento económico euro- agradável do que o de hoje. Para isso capaz de dar respostas de carácter váveis… O expansionismo económi-
peu, tendo dado origem ao maior pe- seria necessário que os valores surgi- orientador e de sentido para o tipo de co chinês em rivalidade com o ameri-
ríodo de paz na História europeia e dos da civilização judaico-cristã e gre- nova sociedade que vai surgindo (O cano obrigar-nos-á, pouco a pouco, a
consequentemente houve um grande co-romana (baseados em relações Papa Francisco poderia servir de mo- desquitarmo-nos do domínio ameri-
desenvolvimento no que se refere aos pessoais humanas) não sejam substi- delo para o novo homo politicus que cano e também de muitos dos valores
direitos humanos, responsabilidade tuídos por relações individuais basea- urge criar – as peias ideológicas impe- da sociedade ocidental. A não ser que
social, espírito democrático, liberdade das no comercial. dem, porém, os políticos de reagir aos o poder asiático se torne tão forte
de imprensa e de mercado e à revolu- que provoque a união dos povos do
ção tecnológica em via. ocidente com a Rússia.
Temos pela frente o grande dilema Por enquanto a sociedade ocidental
climático e a necessidade de produção encontra-se numa fase de descons-
de energia sem base no carvão e no pe- trução não só por fraqueza própria,
tróleo (grande problema tecnológico a mas pela concorrência de novos pro-
solucionar será o do armazenamento tagonistas mundiais e por interesses
de energia em baterias) para apostar estratégicos da ONU, interessada em
certamente no desenvolvimento e desvalorizar a influência cristã no
construção de reactores de fusão à ba- mundo no sentido de adquirir o con-
se de hidrogénio como os ingleses já trolo total sobre as sociedades para ir
procuram fazer. substituindo a concepção cristã da
Como a vida social e política costu- pessoa pela de indivíduo da China (re-
ma andar atrelada à económica, tudo lação mais de serviço. Se olharmos pa-
dá a entender que, no futuro, as zo- ra os dados estatísticos do desenvol-
nas geradoras de riqueza e de confli- vimento económico dos países neste
tos passarão do Ocidente para o século, será de esperar que depois dos
Oriente, como se observa na afirma- anos 70 já não será relevante a proble-
ção mundial da China em relação aos mática política e económica entre a
USA. As tempestades económicas são China e os USA, mas sim entre a China
sempre acompanhadas por devasta- Energias renováveis e outros países asiáticos.
A era da conexão
12 GRAFITOS NA ALMA Cultura | 14 a 27 de Janeiro de 2020

pelos seus trabalhos, até porque é gra- humano consciente. Antes disso era e bloggers formadores de opinião capa-
ças aos mesmos que hoje temos os primitivo só comer da terra, não ter zes de movimentar uma multidão com
avanços científicos que temos. Mas de- restaurantes fast-food, comer com as uma postagem nas redes sociais.

ELIZÂNELA
vemos reconhecer que estes desenvol- mãos, poupar água ou não utilizar Ainda outro exemplo é a perda do poder

RITA
vimentos foram em maioria baseados plástico ou reciclar os restos de comi- da comunicação social formal. Os órgãos
numa só perspetiva: ocidental. A ciência da. Agora acompanhamos as tendên- de imprensa dominados pelos governos e
moderna colocou de parte a ciência mi- cias de moda voltarem-se para o natu- corporações estão com cada vez menos
lenar, os ensinamentos da natureza com ral e orgânico, tal qual já se fazia em influencia. O domínio das redes sociais é
os quais os humanos sempre trabalha- Africa, na Ásia e América antes das in- tão imparável que os alguns governos op-

E
stamos na era das redes. As cone- ram. A medicina cresceu para tratar sin- vasões europeias. E pior, só agora, que tam por limitar o uso de internet ou redes
xões sociais, que sempre caracteri- tomas e pouco desvendou os mistérios temos o selo de aprovação ocidental, é sociais e outros passaram a integrá-las na
zaram os seres humanos, e distin- da mente, pouco explica a origem dos que nósafricanos, em particular esta- sua forma de governar, seguindo a teoria
guiram da maioria dos demais animais, sentimentos ou a relação da fé com a cu- mos a aprender a voltar Às nossas ori- de que se não consegues combater, junta-
estão cada vez mais em voga. A humanida- ra. A física como a conhecemos só recen- gens. Foi preciso acontecer a mudança te a elas. Na era do fake news, está mais cla-
de está a sair de um período longo de sepa- temente começa a desenvolver o ramo de mentalidades no ocidente por ro que jornais impressos não são mais de-
ração e culto do individualismo, de siste- quântico, e cada vez mais, cientistas ad- exemplo sobre o uso de químicos no ca- tentores do conhecimento da verdade, e
mas políticos focados na produção, na for- mitem não conhecer a verdade de todas belo e no corpo para as mulheres afri- que o whatsapp torna qualquer suspeita
ça, na energia masculina de dominação. as coisas, e, religiosidades à parte, fica canas passarem a cultivar a sua beleza em sentença. O poder está a escorregar
A história do homem moderno, talvez, cada vez mais claro que enquanto não natural. Foi preciso as grandes corpo- das garras dominadoras das instituições e
desde o início do primeiro milénio,é carac- conhecermos o verdadeiro e completo rações encontrarem a margem de lucro a nova ordem mundial segue no empode-
terizada pelas invasões entre povos, as potencial da mente humana, ou da ori- e venderem estas teorias como apetecí- ramento daqueles que sabem navegar o
grandes guerras de expansão de territó- gem do universo, não podemos afirmar veis e válidas, para que fossem aceites informal, o casual e o digital. As pessoas
rio, organização das sociedades ociden- domínio da ciência da nossa existência. por todos. Repito, não que seja culpa mais ricas do mundo, são empreendedo-
tais modernas e sistemas políticos de do- A boa nova é que estamos a mudar o pa- nossa, foram séculos de condiciona- res, que em grande número não concluí-
minação em massa, passando pelas inva- radigma. Cada vez tornam-se mais pre- mento e imposição (literalmente na ba- ram o ensino superior ou não se afiliaram
sões europeias e exploração de Africa e sentes movimentos de cultivo à espiritua- se do chicote) dos padrões de beleza e a uma grande instituição ou corporação
América, culminando na era da energia e lidade à margem das instituídas religiões de aprovação social. Mas devemos re- para fazerem a sua fortuna. As grandes
da aceleração (desde o Sec. XVIII). Este pe- (movimento pronunciado mais desde os conhecer que precisamos sempre da instituições, governos e corporações já se
ríodo escuro da nossa existência humana anos 60). Aos poucos vai surgindo uma validação ocidental para ousarmos ser. aperceberam disso, e a prova são as alian-
acarretou consigo uma série de caracte- consciência de conectividade à natureza e A mudança no sistema mundial, a no- ças entre o poder politico e a camada em-
rísticas únicas na história, como a criação necessidade de cuidar dela. Pode ser que va ordem mundial, que já foi o domínio presarial.A eleição de empresários para
das nações e mais recentemente a criação esta preocupação súbita esteja a surgir do pelas instituições e grandes nações pas- presidência de repúblicas, o quasepânico
de sistemas políticos como totalitarismos, típico egoísmo humano, por agora nos sando para o domínio pelas grandes de empresas multinacionais diante do
o desenvolvimento da economia de pro- depararmos com as ameaças ambientais corporações, passa agora para o domí- crescimento e alcance dos negócios onli-
dução marxista, que evoluiu para uma de que comprometem a nossa própria exis- nio do povo, dos detentores de conheci- ne nas telecomunicações, por exemplo o
ainda mais produção, mas ainda mais in- tência. Talvez a falta de alternativas e a su- mento, dos ousados, dos desbravado- caso das grandes cadeias de hotéis diante
dividualista que chamamos de capitalis- posta eminencia de extinção da espécie res independentes, dos empreendedo- da aplicação de intermediação de aloja-
mo. Este período da humanidade pode ser gerada pelos avanços tecnológicos e de- res, dos anti-sistema. Vimos acontecer mento AirBnB.O poder vai de volta às
considerado o mais impactante na nossa mandas das sociedades modernas, esteja quase que um combate cerrado Às ins- mãos do povo, mas so à secção do povo
existência, já que por um lado englobou as a causar finalmente esse despertar pela tituições e governos. A economia está que já se apercebeu disso. Em função des-
grandes revoluções europeias, formando colectividade. Ou talvez não. em reformulação. Cada vez menos o po- sa mudança, surgem novas ideologias
as potências ocidentais como a França, In- O certo é que o paradigma indivi- der esta concentrado no poder político. voltadas à preservação ambiental, inte-
glaterra, e os EUA, que largamente defi- dualista e super-humanista parece es- O poder pertence a quem tem o poder gração humana na natureza, desenvolvi-
nem a política global, e por outro albergou tar em extinção. As sociedades oci- financeiro, e o poder financeiro vai se mento das ciências exotéricas e holísticas,
duas guerras mundiais e a mancha mais dentais estão finalmente a perceber o desligando cada vez mais do poder hie- propagação da economia voltada à ali-
suja da humanidade: o tráfico de seres hu- que os orientais e antigos africanos e rárquico. Sentimos uma verdadeira de- mentação saudável, curas naturais/me-
manos e sua escravização. nativos americanos já defendiam: a mocratização do poder, por exemplo, na dicina e terapias holísticas e criação artís-
O mundo e os homens nunca mais sobrevivência do individuo depende criação de criptomoedas que inventa- tica e livre de padrões. O empreendedor
foram os mesmos. O ser humano dito da sobrevivência do seu grupo. A bus- ram todo um sistema financeiro de substituiu o funcionário: As formas de fi-
“moderno” passou, desde então a de- ca da espiritualidade, a popularização blockchain. Nunca se poderia imaginar nanciamento alternativo com aplicações
senraizar-se de tudo o que lhe lembra- de práticas que no oriente já são secu- na década de 80 com a invenção da in- de telefones para a permuta, pagamen-
va da sua integração à natureza. Seja lares como o yoga, meditação, a com- ternet, que hoje, cerca de 3,9 biliões de tos e economia colaborativasó não subs-
na sua alimentação, indumentária, de- preensão da ancestralidade e do po- estão online, o que quer dizer que mais tituíram os bancos ainda por extrema
senvolvimento científico ou estrutura der dos laços culturais e do impacto na de metade da população mundial está força política e lobbies; O hacker substi-
social. Em tudo passamos a almejar o sobrevivência humana, estão (final- conectada. E é sobre essa plataforma tuiu o CEO; não existem mais donos de
artificial como alvo. Criamos metas e mente) na agenda do ocidente. E como comum de sinopses híper-rápidas que verdades absolutas, tudo é questionável
indicadores de sucesso baseados na o mundo é dominado pelas socieda- a economia global se tem sustentado. e contornável. Na era da informação di-
produção e exploração intelectual. Is- des ocidentais, infelizmente só quan- À margem do sistema institucional, gital, o conhecimento é livre e acessível.
so ficou claro, por exemplo, no desen- do as potências subscrevem a um con- onde algoritmos dominados por hac- As religiões têm de se reinventar, pois já
volvimento de profissões que susten- ceito é que o mesmo passa ser tido co- kers (outrora cidadãos à margem do pa- não são os sacerdotes os donos da pala-
tam as sociedades ocidentais, que pri- mo verdade absoluta. Só quando no drão de intelectuais donos e senhores vra da salvação. A salvação está na ponta
mam todas pelo estudo académico e ocidente o vegetarianismo e veganis- do saber) decidem o valor dos produtos. de um dedo, mas só se irá salvar quem
aprofundamento científico, mas da mo passaram à moda, é que passaram Outro exemplo são os e-negócios que estiver disposto a mudar com a mudan-
ciência conforme desenvolvida nos úl- a ser verdades supra-máximas do ser criam milionários à partir de telemóveis ça dos tempos. Temos estado a entrar
timos séculos, deixando de parte to- para a era da conexão. Era esta onde as
das as ciências exotéricas e de nature- civilizações orientais, africanas e nativas
za espiritual ou cuja percepção tenha americanas já se encontravam, mas que
escapado a compreensão dos grandes foram postas de parte e extintas por falta
pensadores e investigadores euro- de compreensão pelos povos dominan-
peus e norte americanos. Se Freud não tes, os ocidentais. Falamos aqui de cone-
explicou, não é psicanálise. Se Sócra- xão inter-humana, conexão de tecnolo-
tes não escreveu, não é psicologia. Se gias e comunicação e conexão com a na-
Newton não percebeu, não existe. Se tureza. Feliz mas tardiamente, o conceito
Darwin não teorizou, é mentira. E as- de conectividade e coexistência está a ser
sim seguimos. Porém, não podemos aceite e subscrito pelo ocidente e por este
condenar os pesquisadores ocidentais motivo o resto do mundo está a seguir.
Cultura | 14 a 27 de Janeiro de 2020 PATRIMÓNIO CULTURAL |13

N
Jo ano passado, decorreu em
Luanda uma semana de even-
tos, intitulada “O museu é vosso!
Um olhar para o futuro do Museu Nacio-
nal de Antropologia": para além de um
dia com acções especiais, da apresenta-
ção dos vídeos, da exposição das pro-
postas de estudantes de arquitectura
para o futuro café do museu, da apre-
sentação da nova página web do museu
e várias actividades para os visitantes
do museu, adultos e crianças, realiza-
ram-se dois debates, intitulados "Ofici-
na do Futuro“, e "Nossos Objectos – Nos-
sas Histórias“.
No dia 10 de Dezembro de 2018, a fun-
dação cultural prussiana “Stiftung Preu-
ßischer Kulturbesitz”, representada pe-
lo seu Presidente, Hermann Parzinger, a
Direcção Nacional dos Museus da Repú-
blica de Angola, representada pelo seu
director, Ziva Domingos, e o Goethe-Ins-
titut, representado pelo director para a
região da Africa-Subsaariana, Norbert
Spitz, assinaram em Luanda um Memo-
randum of Understanding sobre a cola-
boração de longo prazo a realizar entre
o Goethe-Institut Angola com o Museu
Nacional de Antropologia e o Museu de

O Museu Nacional de Antropologia


Etnologia de Berlim. A missão no Kongo A missão no Kongo
Por ser pensada e planeada logo de
início por todos os parceiros e ter ob-

no Terceiro Milénio
jectivos muito concretos, esta colabo-
ração tem um carácter muito especial.
Durante um workshop realizado pelo
Goethe-Institut, em Novembro de
2018, e em que os colaboradores e as
colaboradoras da Direção Nacional dos

Entre os anos 30 e 50 do século 20, durante o colonialismo, surgiram as colecções para o actual Museu de
Museus de Angola e do Museu Nacional

Etnologia de Berlim e para o Museu do Dundo no noroeste de Angola, cujos objectos compõem grande
de Antropologia foram convidados pa-

parte do acervo museológico do Museu Nacional de Antropologia (MNA) em Luanda. Os responsáveis


ra ir a Berlim, estes colegas angolanos e

destas entidades mantiveram um contacto estreito e marcaram decididamente a percepção sobre a arte
angolanas conheceram a colecção ber-

dos Cokwe em representação da arte nacional angolana.


linense, informaram-se sobre a sua his-
tória, visitaram o acervo e as oficinas de
restauração do Museu de Etnologia e
vários outros Museus de Berlim, con-
cretizando por fim em conjunto um sença do Presidente Parlamentar an- de Setembro. Até agora teve 11.662 visi- pantes por ser responsável pela con-
plano de acção para os próximos três golano, vários membros do Governo e tantes, principalmente de escolas. servação da colecção africana do Mu-
anos. Os campos de trabalho definidos representantes da imprensa angolana 6. Todas as acções no âmbito da coo- seu de Etnologia de Berlim.
foram a pesquisa da história da colec- e alemã o Presidente Günther salientou peração entre os museus foram ampla- 8. A produção de 5 filmes para a ex-
ção em Luanda e em Berlim, a restaura- a importância da cooperação destas mente divulgadas. Esse trabalho de re- posição permanente do Museu Nacio-
ção, a gestão e infra-estrutura, a divul- três instituições para as relações entre lações públicas garantiu uma boa pre- nal de Antropologia em Luanda e do
gação cultural e a formação. Angola e Alemanha. sença na imprensa angolana e alemã, e Museu de Etnologia de Berlim/Hum-
Desde Dezembro de 2018 todos os 2. A tradução do Alemão para o Por- também nos média sociais. Volker Hei- boldt-Forum: em cinco pequenos fil-
parceiros trabalharam em estreita co- tuguês de um estudo científico de Bea- se, realizador e produtor berlinense e mes e através de entrevistas com
laboração num ambiente de confiança, trix Heintze, aluna de Hermann Bau- galardoado com um Grimme-Preis, es- membros das comunidades é apre-
de que fazem parte sessões de trabalho mann, sobre as colecções etnográficas tá deste o início do ano de 2019 a traba- sentada a história de cinco objectos da
semanais em Luanda e conferências de Angola realizadas por exploradores lhar numa reportagem televisiva de 30 exposição, explicando o seu valor sim-
por Skype entre Berlim e Luanda. alemães dos séculos 19 e 20. minutos sobre a cooperação museoló- bólico e o seu papel nos ritos, bem co-
3. A entrega e tradução do registo gica e também num filme para o pro- mo a sua ligação actual à sociedade an-
O primeiro ano de trabalho em cola- completo da colecção angolana de Ber- grama "Titel Thesen Temperamente", golana. Foram escolhidos cinco objec-
boração foi constituído por diversos lim ao Museu Nacional de Antropologia. bem como num Podcast para as emis- tos das colecções de Berlim e de Luan-
sub-projetos: 4. A elaboração de um parecer sobre soras Radio Eins e RBB. Estes progra- da. De três destes existem exemplares
1. A compra de literatura especializa- as obras necessárias no edifício do Mu- mas pretendem ser estreados com a semelhantes em outros museus, e
da em falta na biblioteca do museu: seu Nacional de Antropologia. Actual- abertura do Humboldt-Forum. apontam por isso as características
pretende-se comprar regularmente mente, as salas de exposição encon- 7. A realização de um workshop inti- comuns das respectivas colecções; os
novas obras literárias para esta biblio- tram-se num estado tão deteriorado, tulado “Conservação e Restauração”, a outros dois objectos diferenciam as
teca especializada tão importante na que metade destas salas estão encerra- ter lugar no Museu Nacional de Antro- colecções, dando relevo à individuali-
paisagem cultural e científica da capital das. Foi elaborado um parecer por uma pologia. A restauradora berlinense Eva dade das colecções apresentadas. Os
angolana. O financiamento do Goethe- empresa alemã com actividade em An- Ritz, em Maio, realizou um workshop vídeos foram filmados durante o mês
Institut já permitiu a compra de 33 gola e a cargo desta sobre as necessida- de uma semana nas futuras instalações de Julho em várias localidades em An-
obras especializadas. Em Julho, o Presi- des de obras para uma possível renova- para a oficina de restauração do mu- gola e em Berlim, e estão na fase final
dente do Conselho de Estado alemão ção, para as quais já foi possível encon- seu. Como o Museu Nacional de Antro- de produção e foram apresentados pe-
(Bundesratspräsident) Daniel Günt- trar patrocinadores. pologia actualmente não tem um de- la primeira vez em Novembro, no Mu-
her, durante a sua viagem a Angola, en- 5. O apoio da exposição temporária Ri- partamento de restauração nem pes- seu de Antropologia, no âmbito de
tregou as obras oficialmente, em nome tos da Mulher“, que tem como tema as fa- soal com formação na área, havia ur- uma semana com vários eventos. De-
do Goethe-Institut e no âmbito da re- ses da vida tradicional e os respectivos ri- gência na realização de um workshop pois, passarão a estar integrados nas
cepção dada no Museu Nacional de An- tuais. Esta exposição foi aberta ao público nestas matérias. Eva Ritz está ao cor- duas exposições permanentes. No
tropologia, à Ministra da Cultura de An- no dia 1 Abril 2019 no Museu Nacional de rente das necessidades do Museu e das Humboldt Forum estarão disponíveis
gola, Maria da Piedade de Jesus. Na pre- Antropologia e está patente até ao dia 15 necessidades de formação dos partici- nos apresentadores de média.
14 | PATRIMÓNIO CULTURAL

Contraste linguístico:
14 a 27 de Janeiro de 2020 | Cultura

kikonguismo nos falantes


de português língua
não materna
local para a portuguesa nicação (oral ou escrita), pode re-
Contraste é um fenómeno de diferen- correr à sua língua materna para
ciação profunda entra línguas ou oposi- se libertar desse impasse co-
ção entre ambas. Estas diferenças são municativo. Por exemplo o
relacionadas nas suas estruturas apre- verbo comer (dya) em kikon-
sentadas, isto é, fonológica, morfossin- go, é polissémico, isto é, a

EDUARDO
tática e semântica, tendo a realidade lin- par do significado que tem

DAVID
guística bilingue, onde coabita o kikon- de tomar alguma coisa co-

NDOMBELE
go e português, ambas vão contrastan- mo alimento pode reenviar
do nas suas estruturas já referenciadas. para outras polissemias de
O primeiro contraste a destacar con- extensão semântica: bene-
siste nos seus sistemas alfabéticos en- fício (1), desperdício de
tre kikongo e Português. Lendo em tempo (2), tirar magica-
Quiala, M.B. (2013p. 20) encontramos mente a vida de alguém

E
m Angola, a língua portuguesa foi que «o kikongo tem 20 grafemas/letras (3), sofrer/cobra uma
instituída como língua oficial que são: a-b-d-e-f-i-k-l- m -n ng-o p-s t- multa:
após a conquista da Independên- u-v-w-y-z. A pronúncia deste alfabeto: 1. Desde que foste pro-
cia nacional em 11 de novembro de a-bê-e-fê-i-kê-lê-mê-nê-ngê-o-pê-sê- movido jamais comi o
1975. A língua portuguesa vive em regi- tê-u-vê-wê-yê-zê. Este alfabeto tem 13 teu dinheiro.
me de coabitação com outras línguas consoantes, b-d-f-k-l-m-n-ng-p-s-t-v-z, 2. Comeste muito
angolanas ditas nacionais maioritaria- cinco vogais, a-e-i-o-ue duas semivo- tempo para terminares
mente de origem bantu. Fruto desta gais, w-y, que têm comportamento este exercício
coexistência as interferências linguís- morfológico de consoantes». 3. Foi ele quem comeu


ticas são inevitáveis para os falantes Exemplo: wantu (pessoas), yeto a nossa mãe
que tem o português como língua se- (pronome pessoal da terceira pessoa 4. Comeram-lhe uma
gunda. Tal facto tem constituído um sé- do plural e no singular mono). O autor grande multa pelo crime
rio problema no processo de em referência defende que além de cin- que cometeu.
ensino/aprendizagem da língua por-
SISTEMA ALFABÉTICO KIKONGO
co vogais e duas simivogais, comporta
tuguesa na província do Uíge em parti- também dez vogais que ele considera
cular e em geral em Angola. Impõe-se ter cinco breves e outras cinco longas, e No entanto, há alguns autores que de-
que os professores da região e não só as breves são as que já mencionamos fendem que o alfabeto kikongo contém
possam dispor de informações que
lhes permitam distinguir nas produ-
(a-e i-o-u). As longas são: aa-ee-ii-oo-
uu. Eis alguns exemplos: nkaka (ani-
22 letras, enquadrando o c e h. Porém,
nós consideramos os depoimentos dos
O facto do kikongo e português
ções dos seus alunos o que são desvios, mal), nkaaka (avô/avó), yala (esten- autores acima epigrafados. serem línguas de origens e es-
truturas funcionais diferentes
portanto o que é tolerável, e como tal der), yaala (governar), yela (encher), O j não figura no sistema alfabético ki-
pode ser aceite como marca específica yeela (adoecer) (op. cit). kongo, enquanto em português temos

os alunos deparam-se com


da identidade linguística do falante. O português comporta 26 grafemas: os segmentos j-ej-i que vão formando
Entretanto, é comum no nosso dia- a-b-c-d-e-f-g-h-i-j-k-l-m-n-o-p-q-o-r-s- os sons ou sílabas je e ji. em kikongo, por

imensas dificuldades na apren-


a-dia ouvirmos, nos falantes de Por- t-u-v-x-y-z. A pronúncia deste alfabeto é: não existir este som, o seu sistema alfa-
tuguês Língua Não Materna e, parti- á-bê-cê-dê-é-efe-gê-agá-i-jota-capa/cá- bético usa oze e zi. o mesmo acontece

dizagem da língua portuguesa


cularmente, no contexto escolar, alu- ele-eme-ene-ó-pê-quê-erre-esse-tê-u- com a letra g que em todos os casos, isto
nos a perguntarem: professor, esta v-dablio/vê dobrado-xis-ípsilon-zê». é, antes de qualquer vogal tem sempre a
em quase todas estruturas


palavra escreve-se com “u aberto” ou Como podemos observar, o alfabeto pronúncia de guê. Em nosso entender
com “u fechado”; com “z” ou com “s”; kikongo não tem as letras c-h-j-q-r e x. aqui reside a incongruência na pronún-
outros ainda a falarem: “sou o pri- Assim, concluímos que estes dois siste- cia de muitas palavras dos falantes do (fonético-fonológica,
morfossintática e semântica).
meiro filho de rapaz dos meus pais”; mas alfabéticos, embora possuir a mes- português lingua não materna (L.N.M),
“a Balbina é a nossa única irmã da ma origem, porém divergem em núme- como nas palavras, energia (zia), (zi)
mulher”; "avô do homem/avó da mu- ro de grafemas e, por vezes no plano fo- ginguba) biologia (zia).
lher”; o Otniel “comeu” todo o meu nético-fonológico. O conceituado Lin- O q nesta língua é substituído por fo-
dinheiro... Portanto, analisando es- guista angolano Manuel Quivuna cha- nema k, exemplo: ´nkentu (mulher). De
tas e outras questões, relativamente ma a atenção para a necessidade de igual modo, o r em kikongo não existe,
a estes falantes, entendemos que es- compreendermos que o aluno de por- recorre-se ao grafema l para substituí-
te facto tem ocorrido por haver uma tuguês língua não materna é detentor lo. Esta realidade é facilmente detetada Em kikongo, a letra x é representada
coexistência da língua portuguesa de uma língua com uma estrutura mor- em alguns vocábulos de português ki- por s casi em vez de caixa e s em todos
com a língua kikongo e de um modo fossintática devidamente organizada, konguizados. Exemplo: carro (viatura os contextos, isto é, quer que esteja em
geral com as línguas angolanas de mas diferente, como é o caso do kikon- em português) em kikongo calu, o mes- posição intervocálica ou não: Makiese,
origem africana, o que faz com que os go. Em certa medida, o aluno não co- mo acontece também, nos nomes pró- Masala, o s em kikongo não se dobra, ao
mesmos realizem, intuitivamente, nhecendo a unidade lexical específica prios como, Pedro para Petelu/Mpetu- passo que em português este mesmo
uma tradução directa da sua língua para realizar uma determinada comu- lu (cf. Mudiambo, M. 2014). fonema além de ter o valor fonológico

Cultura | 14 a 27 de Janeiro de 2020 PATRIMÓNIO CULTURAL |15

de se, também tem o som de z entre vo- pos etnolinguísticos, contudo é preciso de certos enunciados e algumas pro-
gais exemplo: casa, asa, camisa etc. lembrar aqui que alíngua portuguesa núncias que se têm como consequên-

A questão em análise resulta


Neste contexto se houver s que têm va- não conseguiu estabelecer-se em todo cia o emprego inadequado de determi-
lor fonológico de (se) intervocálico é território nacional, apesar dos 500 nados grafemas, como é o caso de z, g, j,

das dificuldades que os falan-


obrigatório dobrar (ss) exemplo: pas- anos de permanência da administra- s, ss, c, ç, o, u, a maioria das crianças, es-
so, classe, massa, girassol, etc. çãocolonial em Angola, a inserção do pecialmente as das zonas rurais e fron-

tes de português língua segun-


No campo sintáctico, partimos das português foi mais notável nas zonas teiriças de Angola aprendem a língua
seguintes frases: urbanas como resultado constata-se portuguesa quando entram na escola.

da encontram no dia-a-dia das


1.Português: As meninas foram ao rio;
________________________________
que e aliás com um sentimento elevado
2.Kikongo: anaakentu ele kukoko.
Referências bibliográficas
de patriotismo que muitos angolanos

suas aprendizagens em con-


Aqui encontramos estruturas dife-
CASANOVA, Isabel. Dicionário ter-
têm o português como língua segunda.
rentes no artigo definido feminino do
minológico Compreender a TLEBS,
A questão em análise resulta das difi-

texto escolar e não só. Pois, o


plural apresentado em português. Em
Lisboa Plátanoe editor. Dicionário da
culdades que os falantes de português
kikongo, o género é determinado ante-
Língua Portuguesa, Portugal, Porto
língua segunda encontram no dia-a-

kikongo é uma língua organiza-


pondo a palavra yakala e n’kentu, como
Editora. 2010.
dia das suas aprendizagens em contex-
acontece em português nos nomes epi-
MUDIAMBO, Quibongue. Estudos
to escolar e não só. Pois, o kikongo é

da com estruturas léxicos se-


cenos recorrendo às palavras macho e
Linguística sobre a Lexicologia e a
uma língua organizada com estruturas
fêmea: mwana yakala, mwana n’kentu
Lexicografia, 2014
léxicos semânticas diferentes que es-

mânticas diferentes que estão


(português filho/filha). Pois, a forma-
QUIALA, Miguel Barbosa. Longoka-
tão em estreita interpenetração com o
ção do plural em português é sufixal,
kikongo, Angola, Mayamba Editora.
português. A situação é complexa e

em estreita interpenetração
recorrendo ao morfema preso/conjun-
QUIVUNA, Manuel. O Ensino de Por-
tem provocado, muitas vezes, dificul-
tural (s), ao passo que em kikongo é
tuguês Em Contexto Bilingue/ Plura-
dades de vária ordem, quer no plano

com o português.
prefixal recorrendo ao prefixo substan-
lingueAngolano , 2014
da escrita quer no plano da oralidade,
tival mais o radical. Exemplo: menina caracterizadas pelas traduções literais
singular meninas plural (português); e
em kikongo mwana n’kentu (singular),
ana akentu (plural), como defende
QUIVUNA, M.(2014p.138): que em ki- ção pré-verbal. Ao passo que em portu-
kongo o nome apresente a seguinte es- guês seria: vou lavar-me, o pronome re-
trutura: PS+Radical (prefixo substanti- flexo ou átono me aparece depois do
val e radical). Ao radical é associado a verbo (enclítico).
um morfema desempenhando a função No contexto semântico comungamos
flexional, isto é, caracterizando o nome a ideia de Quivuna, M. (2014a:117)
em número (singular e plural). Este quando se refere que "Semanticamen-
morfema é designado prefixo. Este pre- te, alguns vocábulos do kikongo (so-
fixo permitirá a inserção do nome na bretudo os verbos), têm provocado
respectiva classe a que pertence. É, muita confusão para os alunos de por-
portanto o prefixo de base». tuguês língua segunda (PLS), A multi-

POLISSEMIA
plicidade de polissemia que um mesmo
vocábulo tem em kikongo, é transpor-
Entre os distintos factores que influen- tada para o português, afectando assim
ciam na interferência linguística, em a boa comunicação. Por exemplo, o ver-
primeiro plano destaca-se a língua ma- bo comer significa tomar alguma coisa
terna (LM) ou língua primeira. como alimento. Mas, em kikongo, este
O facto do kikongo e português serem unidade lexical apresenta uma exten-
línguas de origens e estruturas funcio- são de sentidos: gastar, desperdício de
nais diferentes os alunos deparam-se tempo, benefício, tirar a vida magica-
com imensas dificuldades na aprendi- mente, multar. Em todas as circunstân-
zagem da língua portuguesa em quase cias em que o verbo comer é utilizado
todas estruturas (fonético-fonológica, por utente do kikongo, o seu uso torna-
morfossintática e semântica). se confuso e ambíguo, pois o indivíduo,
Na área fonético-fonológica, como já não tendo uma grande competência le-
referenciámos nos itens precedentes, xical, acabará por empregar o único
através dos grafemas que não existem sentido de tomar algo como alimento."
em kikongo (c, h, j, q, r, x) os aprenden- Nesta conformidade os falantes de
tes encontram muitos impasses quan- português língua não materna, ao en-
do pretendem comunicar-se e, como contrarem-se com uma realidade lin-
solução, procuram transferir a maneira guística diferente da sua língua, enfren-
como se fala ou se escreve na sua língua tam imensos problemas em termos co-
materna para português o que resulta municativos e, como solução, recor-
em determinados erros. O j, por exem- rem, muitas vezes, aos padrões do seu
plo, é um dos factores deste estudo. Es- idioma materno.

CONCLUSÃO
te grafema provoca interfências em
oposição ao grafema z. Na palavra ji-
boia, a tendência do falante do portu- Toda língua sofre mudança ao longo
guês língua não materna (PLNM) é pro- dos tempos, variações e influencias em
nunciar-se ziboia, por carência desta vários domínios como: fonéticos, mor-
letra j no seu sistema alfabético. fológicos, sintáticos, semânticos, lexi-
Na área sintática ocorrem desvios de cais, criando um certo desvio as normas
vária ordem, do mesmo modo, se uma gramaticais. Todos estes factores criam
forma verbal conjugada pronominal- incoerências tanto na fala como na gra-
mente, para o kikongo , o pronome é fia, criando no aluno um baixo desen-
sempre proclítico este fenómeno é volvimento vocabular. O bom uso da lín-
transportado para o português. gua depende da criatividade do falante.
Exemplo: Vou me lavar. O pronome A língua portuguesa, como estatuto
reflexo “me” para o utente do kikongo de língua oficial, exerce um papel pluri-
aparece antes do verbo (posiciona- funcional, de uso nos domínios da vida
mento proclítico): Ngiele kudisukala. socioeconómica e política, bem como
oku em Kikongo é o pronome pessoal cultural e veicular no país, pois, permi-
átono que é colocado sempre em posi- te a comunicação entre os vários gru-
BARRA DO KWANZA |15

O pecado do avô Zé
Cultura | 14 a 27 de Janeiro de 2020

FRANCISCO
NETO

S
ob um sol candengue na idade,
mas já muito feroz no agir, che-
guei ao Quadrado. Lá, debaixo
do alpendre, no velho sofá castanho,
estavam anichados três convivas. Os
outros dois estavam de pé. Abeirado
deles, estes meteram parança no pa-
leio que travavam e receberam-me
com alegria. O Avô Zé, com quem fir-
mara compromisso na noite tran-
sacta, assomou pela porta. Trajava
uns calções preto, daqueles que as
vendedeiras dos mercados luanden-
ses apelidaram de “pila doce”, e
anunciam-nos em altos pregões sem
qualquer pejo. Depois de me saudar,
deu meia volta.
A Bela, esposa do Avô Zé, que estava
mais afastada a tratar de uma banhei-
ra cheia de grossos carapaus, certa- preta às costas, na qual, decerto, esta- bos chegaram e colaram as nádegas Manhã alta de uma sexta-feira. O
mente, acabados de chegar da Praia vam os materias que lhe permitiriam no Quadrado. Abraçaram aquela vida Quadrado está às moscas, para es-
da Mabunda, assim que me viu, gri- executar mais um dos seus ofícios. até que a morte os encontrou, feitos panto do Avô Zé, o proprietário da
tou: - Eh!! Desde que nos prometeste Actualmente, o Avô Zê, um coevo indigentes. Primeiro fora o Sujo. Na única taberna que nele existe. Por lá,
oferecer o teu livro nunca mais vieste meu, é o “pai grande” do Quadrado, noite do seu komba, o André, alta- o dia-do-homem há muito que come-
aqui. Você não presta. Assim não po- um mítico lugar daquele burgo que mente embriagado, caiu na panela de ça antes do cacarejar dos galos da vi-
demos só ler também a estória do nos viu nascer e crescer. O movimen- canjica. Então, a partir desse dia, ao zinha Anita e dos pregões do Giboró,
Quadrado que está no teu livro?!! to no Quadrado inicia muito cedo e seu nome acresceu-se o apelido Canji- o madrugador lotador da paragem
Antes até de pensar em abrir a boca não tem hora certa para acabar. Avô ca. Até hoje, depois de morto, o faleci- de táxis ao lado.
para lhe responder, o Navo, um dos Zê vende cervejas, uísques dos paco- do André Canjica. Quedo, com as mãos presas à cintu-
que estava abancado no carcomido tinhos, também apelidados de bola Entrementes, deixo para outro dia a ra, de súbito, Avô Zê esboçou ligeiro
sofá, levantou-se impetuoso. Ao meu de fogo ou katula ó mbiza, e cigarros. história do Quadrado e, quiça, quando riso ao ver um freguês a chegar. Era o
lado, disse: - Kota, ainda bem que A sua esposa Bela é quem se encarre- voltar a falar dela, juntar-lhe-ei tam- jovem Navo, considerado bom-pa-
vieste. Aqui, há dias, o Avô Zé cometeu ga pelos petiscos, que, nesse dia, se- bém o mujimbo do 007, um kota do gante e cliente VIP, pois sempre que
um grande pecado que seria bom para riam mufetes de carapaus grossos. nosso arrabalde que acabou morto surgia no Quadrado era dia de dikom-
escreveres nos teus contos. – Os ou- Por lá, a história da venda de bebi- numa casa de Kimbombo da Banda Fi- ba na certa.
tros, sorridentes, pularam em seu das alcoólicas remonta desde o prin- xe, na zona do mais velho Chico Dya - Papoite Avô Zé, ninguém por aqui,
apoio. – E verdade, kota!! cípio dos anos oitenta. Naquele tem- Makanda, por causa de um pedaço de o que se passa? – Navo indagou.
Pus-me de ouvidos. O Navo, com a po, da nossa infãncia de calções ro- pão com peixe frito. O seu algoz até - Nem sei o que se passava, meu. Até
sua cerveja Cuca na mão, iniciou en- tos, o espaço contava com três casas era um gajo quase da nossa faixa etá- já estou a pensar que estão a me atirar
tão a contar-me o pecado do Avô Zé, que vendiam bebidas caseiras, no- ria, que jogava à bola connosco, o pemba nessas mboas que montaram
ganhando constantes apoios dos de- meadamente, o Kimbombo e o Ka- Nando. O nosso antigo adversário da as barracas aí à frente. – Disse o dono
mais convivas, ante os esgares de ad- porroto, e recebia gente vinda de vá- bola, feito facínora, golpeou fatal- da taberna, numa voz maviosa.
miração que nasciam no meu rosto. rias zonas de Luanda. mente o 007 com um garfo no pesco- - Deixa disso, Coroa. Você é pai gran-
No fim, todos sorrimos. Lembro-me que, nesse período, a ço. O chão daquele quintal fora aver- de. Nenhuma pemba vai te actuar. Dá-
Ainda gargalhavámos quando o “pe- Polícia surgia várias vezes com os seus melhado com o seu sangue. me uma Cuca bem gelada, vou ligar
cador” Avô Zé surgiu vestido a precei- cavalos: prendia os vendedores e dei- Segundo os mais velhos, 007 fora para os môs wis. Vamos já aquecer es-
to, facto que levou os seus fregueses a tava as bebidas, porque se dizia que um jovem de verdade. O que melhor ta cena!!
indagar se íamos a uma festa matinal. estava proibida a venda de tais bebi- trajava na banda. Conduzia motori- Já com o rosto alegre, Avô Zé entre-
Respondi que íamos ao Golf, onde o das caseiras pelo facto de que algumas zadas de grande gabarito. E as miú- gou a cerveja ao seu primeiro cliente
Avô Zé mataria o cabrito do “Kutakula pessoas, com o fito de obterem vanta- das então… só as da cidade. Mulatas e e, talvez temesse que lhe faltaria tem-
Papa” do óbito do nosso pai João Mi- gens, andavam a colocar nelas produ- morenas. As da zona não lhe mere- po mais tarde, correu à Pracinha da
guel Kabondela. Os homens, que ape- tos que causavam muitas mortes. ciam. Mas eu conheci-o já um maltra- Teixeira, de onde regressou com uma
nas apanharam a parte do “matar ca- Mas essas acções da Polícia nunca pilho das casas de Kimbombo e Ka- grande coxa de frango. Chegado, sua
brito”, começaram a dirigir pedidos se mostraram capazes de parar a vida porroto, a viver à pida. Sobre esse cadela achou-se a jubilar, com a cauda
ao Avô Zé: - Traz-nos só a cabeça. Traz daquele espaço. As bebedeiras e to- seu estado, uns alegavam que a wan- em dança interminável.
também o pescoço. Não esquece en- das as coisas que lhes são anexas ga lhe tinha acabado. No seu cansado sofá, estavam já
tão, pai grande!! prosseguiam, de dia e de noite. Lem- Retomo, então, a cena do Navo so- três pares de nádegas, sendo o do
O Avô Zé, como sempre pouco fala- bro-me ainda das muitas brigas que aí bre o pecado do Avô Zé, este homem meio o mais avantajado. Era o da Bibi-
dor e naquela sua forma sisuda de aconteciam e de muitos homens que de mil e um ofícios, que também sem- cha, a congolesa democrática que
ser: nem uma, nem duas. Antes de por lá passaram, como por exemplo pre nos ajudou a tirar o parasita da surguira na área e roubara a paz de
sairmos, prometi-lhes que arranjaria do Sujo, um intelectual que fora pro- língua dos cachorritos de casa. Outro muitos lares. Mas que mulher sosse-
tempo para escrever a cena que aca- fessor na Kiminha, no tempo colonial, ofício que executa com incomparável garia ao ver o seu parceiro a prosar
bavam de me contar. Partimos. O meu e do André, um mestre mecânico perícia. Como o seu pecado me foi pe- com aquele mulherão? Dessa vez, es-
companheiro levava uma mochila oriundo da Província de Malanje. Am- dido para escrever, vamos a isso: tava aí a convite do Navo, que ao ver o
16 | BARRA DO KWANZA

Okusungulula
14 a 27 de Janeiro de 2020 | Cultura

kwa ngongo
ditundisa manyinga Kala jinguma
jamwenyu; makamba ma kufwa
Okufwo kwo ilundijisa imbi yezala
malamba Malamba mazula kihanji
kya kwandala kwijiya Mukwanyi
utuma mu ngongo iyi mu twala!

MÁRIO
Sumbala kyenyeki pe, nzala ivu-

N
PEREIRA
la mu mala Ivudisa dingi okufwa
kwa ahetu se kumwanya Mwanya
wiza kwa atalalesa o utemenu wa
lamba Olamba lwenoyo kwila lwe-

giva kusungulula kwa ngon-


ne mwene owindwa Owindwa we-

go kujimbidila Kyoso kingi-


nyo wixi mwene mwene kalunga!
Kyoso kingimona ndumba dya
mona ndumba dya atu ku- atu kudibeta Ngiva kusungulula
dibeta Ndumba dya atu mwene ku- kwa ngongo kujimbidila!

as garrafas vazias nas mãos, respei-


tando o momento sagrado do homem,
Quedo, com as mãos presas à prenderam-lhe também o olhar, que
se ia pasmando ante a frigidez daque-
cintura, de súbito, Avô Zê esbo- le para com a sua cadela.
A cadela, cansada de esmolar sem
çou ligeiro riso ao ver um fre- sucesso, retirou-se. Fora deitar-se


adiante. O Avô Zé, no regalo da sua
guês a chegar. Era o jovem Na- apetitosa épula, esqueceu-se de tudo
e de todos. Não poupou os ossos. Com
vo, considerado bom-pagante os olhos fechados, mastigou-os até
lhes sugar todo o tutano. Findo, pegou
e cliente VIP, no prato em que havia os ossos amiga-
lhados. Levantou-se para ir despejá-
los no sujo prato da sua cadela. Esta,
ao vê-lo a aproximar-se, balanceou
lentamente a cabeça de um lado a ou-
pai grande do Quadrado fez logo um tro e simulou que dormia, acto que le-
aceno: aquele copiou e, sem delongar, vara os três clientes a ter os dentes à
meteu a Bibicha e sua acompanhante mostra. Boquiabertos.
com as mãos ocupadas. Nocal era a - Oh!! Vocês não avisam que as vos-
marca da cerveja. sas garrafas estão vazias?! – Regres-
Avô Zé sentou-se num escabelo de sando, Avô Zé indagou os seus clien-
madeira. Preparou a coxa com rapi- tes. A seguir, limpou a boca com as
dez, para gáudio da sua cadela. O seu costas da mão direita.
rabear infindável ganhou mais vigor. - Avô Zé, és pecador. Comes e não
As labaredas no fogareiro não tarda- dás também àquela que te protege?!
ram. O boss do Quadrado foi atenden- Por isso é que os clientes estão a te fu-
do os três fregueses ao mesmo tempo gir. Vais acabar sozinho aqui no Qua-
que cuidava do seu manjar. Depois de drado. Até perdemos o apetite... não
tirar a coxa de frango do fogareiro, vamos beber mais. – O Navo retrucou
preparou a salada. e pagou o consumo.

A sensatez
Tudo concluído, colocou uma pe- Dessa vez, quem ficara com o rosto
quena mesinha à frente do seu esca- aparvalhado fora o Avô Zé, o pai gran-

fortúnio/Desgraças que despem an-


belo de madeira. Pousou nela o pitéu, de do Quadrado, ao ver o freguês

do mundo
siedades de querer conhecer/Quem
uma gasosa Coca-cola e, sem sequer bom-pagante que lhe garantiria um

manda neste mundo em que nos en-


convidar os seus clientes, começou a dia-do-homem de bons lucros a ir-se

contramos!/Apesar disso, a fome


manducar. A cadela, à frente de si, au- embora, com as suas duas amigas que

cresce na barriga/Faz crescer de no-


mentara o pra-cá-e-pra-lá do balan- andavam num saracoteio de ancas

25 de Dezembro de 2019, vo o perecer das mulheres sem sol/Sol


çar da sua cauda. A língua de fora e os inebriante.

Natal, às 19: 35 que vem fazer esfriar o calor do infor-


olhos presos na boca do seu dono, que

(I) Sinto perdida a sensatez do mun- túnio/Infortúnio esse que é o mesmo


parecia não a ver. Os três clientes, com

do/Quando vejo muita gente agredir-se que a desgraça/Desgraça essa que


Muita gente a ensanguentar-se/Co- afirma ser ela mesma a eternida-
mo inimigos da vida; amigos da mor- de!/Quando vejo muita gente agre-
ISSN 2617-7986

te/Essa morte que vai fazendo com dir-se/Sinto perdida a sensatez do


que se enterrem corpos repletos de in- mundo!
9 772617 798007