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Lutando por Nós - Prefácio

A primeira vez que conversei com Maulana Karenga foi em 1966, quando realizei
uma longa entrevista com ele para um artigo de Los Angeles Free Press. Ele já era
amplamente conhecido na área de Los Angeles como um jovem nacionalista negro
influente. Na UCLA (NT: Universidade da Califórnia em Los Angeles), onde era um
estudante de pós-graduação em lingüística africana e eu finalizava uma graduação em
história, seus poderosos discursos, salpicados de humor sardônico, sempre atraíam
multidões. Ele criou um grupo de seguidores bem organizado e leal chamado US (NT: US, a
sigla da organização, pode ser traduzida como “Nós”) - "Em qualquer lugar que estivermos,
NÓS somos”. Eu tinha desconfiança daqueles nacionalistas negros que ficavam nas laterais
da luta de liberdade do sul (dos EUA) durante a primeira metade da década de 1960 , mas
fiquei impressionado com o fato de Karenga ter surgido como um líder eficaz no pós revolta
de Watts, Los Angeles. Em um momento de incerteza e desorganização na luta de
liberdade africano-americana, a US de Karenga apresentou-se com confiança e disciplina.
Karenga impressionou-me com a sua capacidade de trazer nova vitalidade ao nacionalismo
negro tradicional. Ele adaptou as idéias tiradas das culturas africanas e dos movimentos
políticos, mas suas declarações públicas transmitiam uma originalidade atraente e uma
inteligência excepcional. Aguardei ansiosamente encontrá-lo quando cheguei para a
entrevista no escritório de um grupo chamado Self-Leadership for ALL Nationality Today
(Auto-liderança para TODAS as Nacionalidades Hoje) ou SLANT, liderada pelo amigo de
Karenga, Tommy Jacquette. Havia um élan associado à US que era imediatamente
aparente. Os membros usavam batas verdes de estilo africano e usavam termos de Ki-
swahili. De forma semelhante aos membros da Nação do Islã, eles eram orgulhosos de sua
aparência e muitas vezes abriam suas observações com palavras de deferência a Maulana,
seu Mestre Professor. As indicações de que a US formou um culto à liderança me
preocuparam, mas o próprio Karenga foi tranquilizadoramente modesto, ansioso por
expressar sua admiração por outros líderes, como Malcolm X, e por organizações como o
Comitê de Coordenação de Estudantes Não Violentos (SNCC). Descobri que ele tentou
sem sucesso estabelecer vínculos com o SNCC. Durante a entrevista, ele descreveu os
sete princípios que mais tarde seriam celebrados durante Kwanzaa, o feriado afro-
americano que ele propôs. Eu podia ver, mesmo assim, que Karenga se tornaria uma força
importante na luta de libertação afro-americana. Não fiquei surpreso quando ele
desempenhou papéis importantes nas conferências nacionais de Poder Negro nos anos
seguintes.
Mantivemos contato ocasional durante os anos tumultuados que seguiram minha
entrevista inicial. Em 1968, quando voltei à UCLA após a formatura e um período de evasão
da convocação militar na Europa, a organização US consolidou sua influência no Congresso
Negro, o grupo de guarda-chuva que incluia a maioria dos grupos que estavam ativos no
centro-sul de Los Angeles. Entretanto, o Partido Panteras Negras também se tornou uma
força política importante e competitiva. Eu apoiei o Panteras Negras, porque eles tinham o
mesmo tipo de militância impetuosa que eu admirava no SNCC, mas lamentei que os dois
grupos estivessem lutando um com o outro. Eu acreditava que não havia conflito necessário
entre o chamado "nacionalismo revolucionário" do Panteras Negras e o "nacionalismo
cultural" da US. Eu sabia por minhas conversas com Karenga que ele queria se tornar o
braço cultural da SNCC e do Panteras Negras. Ele tentou forjar uma relação de trabalho
com o último grupo no início de 1968, durante a campanha "Libertem Huey" para salvar o
Ministro da Defesa do Panteras Negras de ser executado por supostamente assassinar um
policial de Oakland. O grupo de Karenga até forneceu segurança para a reunião de apoio a
Newton realizada em fevereiro de 1968 na área de esportes de Los Angeles.
À medida que as relações entre a US e o Panteras Negras se deterioraram em
1968, vi as terríveis conseqüências da maneira abrasiva com que alguns líderes Panteras -
especialmente Eldridge Cleaver - provocaram conflitos através de seus ataques contra o
nacionalismo cultural. Eu entendi que o Panteras Negras se viam como revolucionários
diante de uma repressão brutal e, portanto, eram impacientes com qualquer grupo que não
adotasse seu estilo político de confronto. Mas também apreciei a dedicação dos membros
da US e o amplo apoio popular ao nacionalismo cultural nas comunidades negras em todo o
país. Nesse momento, a relação estreita de Karenga com Amiri Baraka ampliou sua
influência na Costa Leste. No entanto, enquanto o Panteras Negras começou a se
preocupar legitimamente com agentes policiais em suas próprias fileiras, eles também
começaram a ridicularizar Karenga e seus seguidores. Eles se referiram a eles como
"nacionalistas de costela de porco", dando a entender que Karenga colaborou com o chefe
de polícia de Los Angeles e com o governador da Califórnia, Ronald Reagan. Karenga,
como nacionalistas negros anteriores, incluindo Elijah Muhammad, Marcus Garvey e Martin
Delany, deu abertura a essa acusação, insistindo que todas as pessoas brancas eram a
mesma coisa e que, portanto, negociar com poderosos conservadores brancos fazia tanto
sentido quanto a disposição do Partido Panteras em colaborar com esquerdistas brancos
menos poderosos. O FBI previsivelmente explorou o conflito entre US/Panteras, em
detrimento de ambos os grupos.
Em janeiro de 1969, assisti a uma reunião no Campbell Hall da União de Estudantes
Negros da UCLA, onde os Panteras Negras e os membros da US se encaravam de lados
opostos de uma sala de aula na qual estudantes intimidados discutiam como estabelecer
um programa de estudos pretos na UCLA. Karenga promoveu seu candidato para
encabeçar o programa de estudos pretos planejado no campus, argumentando que a US, e
não o Panteras, poderiam mobilizar a comunidade negra de Los Angeles em nome do
programa. Eu não fiquei completamente surpreso quando a escalada das tensões
intergrupais explodiu dois dias depois da reunião em um choque mortal que deixou dois
Panteras Negras mortos. Invasões policiais subseqüentes prejudicaram gravemente os dois
grupos e, finalmente, contribuíram para o declínio de toda a luta de libertação afro-
americana. A alegação subseqüente de que os assassinatos foram uma execução
planejada em vez de um tiroteio também prejudicou gravemente a reputação de Karenga e
sua organização.
Eu então concluí que o conflito do US/Panteras representava uma oportunidade
perdida para fundir os dois principais elementos da resistência afro-americana à opressão
racial. O Partido das Panteras Negras contribuiu de forma importante para a tradição afro-
americana da luta política militante, enquanto a US fez um contributo igualmente importante
para a tradição da luta psicológica e cultural. Ambas as tradições eram componentes
necessários da nossa libertação, mas, infelizmente, muitas vezes eram tradições
concorrentes. Como o combate verbal que prejudicou as relações entre Malcolm e King, o
conflito entre a US e o Panteras enfraqueceu a luta afro-americana moderna e gerou
conflitos ideológicos divisivos que continuam até hoje.
Embora ainda existam poucos estudos acadêmicos sérios sobre o Partido Panteras
Negras, há ainda menos estudos sobre a US e outras grandes organizações nacionalistas
negras do final da década de 1960 e 1970. As poucas referências a US na literatura
histórica refletem principalmente a perspectiva do Partido Pantera Negra, vendo-a como um
grupo reacionário de colaboradores policiais responsáveis pelo assassinato de dois
revolucionários negros. A história verdadeira é mais complexa e iluminadora, pois o
nacionalismo cultural tornou-se o elemento mais duradouro do movimento do Poder Negro.
O feriado proposto por Karenga, a Kwanzaa, continua sendo celebrado, mesmo por
pessoas que desconhecem seu artífice. Karenga também continua a ser uma influência
importante no movimento afrocêntrico, que é ele mesmo uma das formas mais populares de
resistência cultural afro-americana.
O estudo de Scot Brown sobre Karenga e a US é um grande contributo para a
literatura histórica do nacionalismo negro moderno. Ele escreveu um dos poucos estudos
acadêmicos que leva a sério o pensamento nacionalista negro inovador do final da década
de 1960 e o único estudo que chama a atenção adequada para as contribuições singulares
de Karenga para o pensamento cultural afro-americano. Ele escreveu um relato
complacente, mas também judicioso, que chama a atenção para os papéis desempenhados
por ativistas além de Karenga na construção da US. Ele lança luz sobre o relacionamento
entre Karenga e Baraka e entre a US e o Partido Pantera Negra, oferecendo o balanço mais
equilibrado dos assassinatos da UCLA já feito. Finalmente, Brown fornece uma avaliação
perspicaz do impacto duradouro de Karenga e da US. Estou convencido de que o “Lutando
por Nós” será visto como um contributo pioneiro para uma literatura emergente sobre a
militância afro-americana durante o período após as principais reformas dos direitos civis da
década de 1960. Este trabalho cuidadosamente pesquisado representa um estudo
acadêmico engajado no que há de melhor.

Clayborne Carson Professor de História na Universidade de Stanford, Diretor do


Martin Luther King Jr. Papers Project

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