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Aluno: Vinícius Naguti Resende – 118A

A Lei de Execução proclama como um de seus objetivos, prevenir o crime e


orientar o retorno do preso à convivência em sociedade, sendo a assistência ao
detento e ao internado um dever do Estado, incluindo orientação, apoio para
reintegrá-lo à vida em sociedade. Esse sistema prevê a punição do indivíduo,
bem como sua reeducação. Considerando esse discurso, disserte sobre o
Regime Disciplinar Diferenciado, apontando seu conceito, sua aplicação e suas
principais críticas relacionadas aos objetivos de prevenção e repressão
criminal.

De acordo com o art. 1º da Lei nº 7.210/84, a execução penal tem por objetivo
efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições
para a harmônica integração social do condenado e do internado. A pena, no sistema
jurídico brasileiro possui natureza polifuncional, ou seja, tem tríplice finalidade:

a) A prevenção geral atua antes mesmo da prática de qualquer infração


penal, pois a simples cominação da pena conscientiza a coletividade do
valor que o direito atribui ao bem jurídico tutelado;
b) A prevenção especial e o caráter retributivo atuam durante a imposição
e execução da pena;
c) Finalmente, o caráter reeducativo atua somente na fase de execução.
Nessa etapa, o escopo é não apenas efetivar as disposições da sentença,
mas, sobretudo, a ressocialização do sentenciado, isto é, reeducá-lo para
que, no futuro, possa reingressar ao convívio social.1

Em consonância com tais finalidades da pena, é imprescindível a existência de


regimes de cumprimento de pena que acompanhem as garantias fundamentais
asseguradas pela Constituição Federal e pela Lei de Execução Penal. Ademais,
ressalta-se que o cumprimento da pena deve ser concretizado segundos os seguintes
ditames principiológicos: princípio da legalidade (art. 3º), princípio da igualdade (art.

1
CUNHA, Rogério Sanches. Execução Penal para Concursos: LEP. 6 ª ed. Salvador: Juspodivm, 2016, p. 13. Grifo
nosso.
3º, parágrafo único), princípio da individualização da pena (art. 5º) e princípio da
jurisdicionalidade (art 2º).

Diante das afirmações feitas, é possível o questionamento: o Regime


Disciplinar Diferenciado, previsto na LEP, consolida os objetivos traçados pelo
legislador constituinte e ordinário? O RDD, de fato, reprime e previne a ocorrência de
novas infrações penais?

O art. 52 da Lei de Execução Penal, o qual prevê o Regime Disciplinar


Diferenciado, possui a seguinte redação:

Art. 52. A prática de fato previsto como crime doloso constitui falta grave e,
quando ocasione subversão da ordem ou disciplina internas, sujeita o preso
provisório, ou condenado, sem prejuízo da sanção penal, ao regime
disciplinar diferenciado, com as seguintes
características: (Redação dada pela Lei nº 10.792, de 2003)

I - duração máxima de trezentos e sessenta dias, sem prejuízo de repetição


da sanção por nova falta grave de mesma espécie, até o limite de um sexto
da pena aplicada; (Incluído pela Lei nº 10.792, de 2003)

II - recolhimento em cela individual; (Incluído pela Lei nº


10.792, de 2003)

III - visitas semanais de duas pessoas, sem contar as crianças, com duração
de duas horas; (Incluído pela Lei nº 10.792, de 2003)

IV - o preso terá direito à saída da cela por 2 horas diárias para banho de
sol. (Incluído pela Lei nº 10.792, de 2003)

§ 1o O regime disciplinar diferenciado também poderá abrigar presos


provisórios ou condenados, nacionais ou estrangeiros, que apresentem alto
risco para a ordem e a segurança do estabelecimento penal ou da
sociedade. (Incluído pela Lei nº 10.792, de 2003)

§ 2o Estará igualmente sujeito ao regime disciplinar diferenciado o preso


provisório ou o condenado sob o qual recaiam fundadas suspeitas de
envolvimento ou participação, a qualquer título, em organizações criminosas,
quadrilha ou bando. (Incluído pela Lei nº 10.792, de 2003)

Em relação a conceituação, “como o próprio nome já anuncia, a disciplina


imposta com a novel medida é diferenciada, restringindo, como nenhuma outra, a já
limitada liberdade de locomoção do preso e alguns dos seus direitos”. 2

Esta espécie mais drástica de sanção disciplinar, possui as seguintes


características:

2
CUNHA, Rogério Sanches. Execução Penal para Concursos: LEP. 6 ª ed. Salvador: Juspodivm, 2016, p. 80.
a) duração máxima de trezentos e sessenta dias, sem prejuízo de repetição
da sanção por nova falta grave da mesma espécie, até o limite de um sexto
da pena aplicada.

Por meio da simples leitura do texto legal, parece que a sanção poderá se dar
tantas vezes quantas forem as faltas graves repetidamente perpetradas.

b) Recolhimento em cela individual.

A execução da pena se dará em cela individual (conhecida por “solitária”), com


o devido acompanhamento psicológico. Ressalta-se que o isolamento dever
implementado de acordo com a tecnologia do art. 45, § 2º da LEP.

c) Visitas semanais de duas pessoas, sem contar as crianças, com duração


de duas horas.

Acerca desse trecho legal, existem dúvidas na interpretação da expressão


“sem contar as crianças”. Para Rogério Sanches, considerando os princípios basilares
traçados no ECA, a proibição de visitas de crianças parece mais correta.3

d) O preso terá direito à saída da cela por 2 horas diárias para banho de sol.

Explanadas as características do Regime Disciplinar Diferenciado, passa-se a


comentar as hipóteses de cabimento de tal instituto. A primeira situação corresponde
a prática de fato previsto como crime doloso, constituindo falta grave e, quando
ocasione subversão da ordem ou disciplina internas. Isto é, o preso provisório ou
condenado fica sujeito ao RDD quando a prática de um crime doloso cause tumulto
carcerário.

Outra hipótese diz respeito aos presos provisórios ou condenados, nacionais


ou estrangeiros, que apresentem alto risco para a ordem e a segurança do
estabelecimento penal ou da sociedade. Rogério Sanches traz o exemplo do interno
que, mesmo dentro do presídio ou estabelecimento prisional, comanda crimes do lado
de fora (extra muro), colocando em risco a sociedade e a própria milícia.4

Por fim, estará igualmente sujeito ao RDD o preso provisório ou o condenado


sob o qual recaiam fundadas suspeitas de envolvimento ou participação, a qualquer

3
CUNHA, Rogério Sanches. Execução Penal para Concursos: LEP. 6 ª ed. Salvador: Juspodivm, 2016, p. 81.
4
CUNHA, Rogério Sanches. Execução Penal para Concursos: LEP. 6 ª ed. Salvador: Juspodivm, 2016, p. 82.
título, em organizações criminosas, quadrilha ou bando. Sanches afirma que deve ser
devidamente comprovado algum fato ligando o interno, a qualquer título, a uma
sociedade criminosa.5 Isto é, a expressão “fundada suspeita” deve ser interpretada
de forma cuidadosa.

A partir de agora serão apresentadas as principais críticas relacionadas a


concretização dos objetivos de prevenção e repressão criminal diante da aplicação
do RDD.

Grande parte da doutrina afirma que o Regime Disciplinar Diferenciado fere a


dignidade da pessoa humana, constituindo sanção de caráter cruel, desumano e
degradante. De acordo com parecer do Relator especial do Conselho de Direitos
Humanos em relação à tortura e outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou
degradantes, Juan E. Méndez:

O relator especial reconhece que o isolamento social viola o disposto no


artigo 10, parágrafo 3o do pacto internacional sobre direitos civis e políticos,
o qual dispõe que: “o regime penitenciário consistirá num tratamento cujo
objetivo principal seja a reforma e a reabilitação social dos presos.”
(resolução da assembleia geral 2200 (xxi), anexo). Períodos longos de
isolamento não contribuem para a reabilitação ou ressocialização dos
presos (e/cn.4/2006/6/add.4, para. 48). Os efeitos psicológicos e
fisiológicos negativos, sejam eles agudos ou latentes, decorrentes do
isolamento prolongado representam uma grave dor ou sofrimento
mental. Portanto, o relator especial endossa a visão do comitê contra a
tortura em seu comentário geral no. 20, segundo o qual regime de
isolamento prolongado equivale a atos proibidos pelo artigo 7o do
pacto, e consequentemente a um dos atos definidos no artigo 1o ou
artigo 16 da convenção. Por estes motivos, o relator especial reitera que,
em sua opinião, qualquer imposição de regime de isolamento que exceda 15
dias constitui tortura ou outro tratamento ou pena cruel, desumano ou
degradante, dependendo das circunstâncias. O relator convida a
comunidade internacional a endossar este parâmetro e impor uma
proibição absoluta à detenção em regime de isolamento que exceda 15
dias consecutivos. (grifo nosso).

O isolamento em cela pelo período de até trezentos e sessenta dias,


combinado com a inexistência de meios de comunicação, banho de sol e visitas com

5
CUNHA, Rogério Sanches. Execução Penal para Concursos: LEP. 6 ª ed. Salvador: Juspodivm, 2016, p. 83.
horário extremamente reduzido, conduz o preso a uma degradação física e
psicológica inevitável. Não há como imaginar a ressocialização, isto é, a reintrodução
do sentenciado na vida em sociedade.

Ademais, o RDD configura sanção desproporcional aos fins da pena, uma vez
que o deficitário sistema carcerário brasileiro acaba por precarizar ainda mais as
condições do apenado submetido a esse regime, o qual agonizará em celas imundas,
escuras e sem o mínimo de higiene.

Portanto, nas palavras de Fernanda Ravazzano, é possível afirmar que o


discurso declarado do Estado, consubstanciado na Carta Magna e na Lei de
Execuções Penais é a ressocialização do indivíduo, é o Estado Democrático de
Direito garantista. Trata-se, em verdade, de um discurso perverso, pois na realidade,
diante do sistema carcerário brasileiro e da aplicação da pena, visualizamos que o
cárcere embrutece o sujeito, prova maior disto são os índices de reincidência.6

6
RAVAZZANO, Fernanda. O castigo dentro do castigo: a imposição do RDD a partir da falta grave, 2016.
Disponível em: https://canalcienciascriminais.com.br/rdd-falta-grave/. Acesso em: 19 de outubro de 2019.

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