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Revista Psicologia e Educação 7

Bateria de Provas de Raciocínio (BPR5-6): Estudo nacional de


validação e aferição
Leandro S. Almeida*
Adelinda Candeias**
Ricardo Primi***
Conceição Ramos****
António Paulo Rodrigues****
Helena Coelho*****
João Dias*****
Lúcia Miranda******
Ema P. Oliveira******

Resumo: Após alguns anos dedicados à construção da Bateria de Provas de Raciocínio


(BPR5-6) para alunos do 5º e 6º anos de escolaridade, este artigo apresenta alguns
resultados para a validação e aferição nacional desta bateria. Para o efeito a BPR5-
6 foi aplicada a uma amostra de 2167 alunos de várias regiões do País, estando
devidamente representados os alunos dos dois sexos e dos dois anos escolares a que
a presente bateria se destina. A bateria é formada por quatro provas, todas elas avaliando
as habilidades de raciocínio dos alunos, diferenciadas em função do conteúdo e do
formato dos respectivos itens (analogias figurativo-abstractas, analogias verbais,
sequências de números e problemas a resolver). A análise factorial dos resultados nas
quatro provas confirma a existência de um único factor, o qual explica 57% da variância.
Este factor mostra-se mais correlacionado com o rendimento académico dos alunos
do que qualquer uma das quatro provas tomadas isoladamente, justificando a sua inclusão
nas futuras normas. Por outro lado, a variável género mostra-se pouco diferenciadora
das médias de desempenho nas quatro provas, o que não ocorre com o ano escolar
e com a origem social dos alunos. O cálculo dos resultados normativos de aferição
nacional desta bateria considera o ano escolar dos alunos e uma nota global ponderada
das quatro provas.
Palavras-Chave: Avaliação cognitiva; Testes de raciocínio; Validade dos testes de
aptidão; Validade de critério.

Reasoning Tests Battery (BPR-6). National study for its validation and standardization

Abstract: After some years on Reasoning Tests Battery (BPR5-6) construction for
children of the 5th and 6th grades, this paper presents data concerning its validation

_______________
* Universidade do Minho
** Universidade de Évora
*** Universidade de São Francisco - SP
**** Direcção Regional de Educação Especial e Reabilitação - RAM
***** Casa Pia de Lisboa
****** Associação Nacional para o Estudo e Intervenção na Sobredotação - ANEIS

Vol. II, nº 1, Set. 2003


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and national standardization. The BPR5-6 was administrated to 2167 students from
different regions of Portugal, where have been equilibrated both sexes and both school
grades. This battery is formed by four reasoning tests, differentiated by items content
and format (figurative-abstract analogies; verbal analogies; numerical sequences; and
problem-solving situations). The factor analysis of four tests confirms a single general
factor, wich explains 57% of variance. This general factor show higher correlations
coefficients with students´ school classifications than the four subtests considered
separately, what may be considered in future norms. Differential analysis show that
sex variable is not so important to explain results in these four subtests, comparing
to the school grade and social class. In conclusion, future national standardization
of BPR5-6 must consider the school grade of students and a global score that combines
the four subtests.
Key-words: Cognitive assessment; Reasoning tests; Aptitude tests validity; Criterion
validity.

Introdução feita em termos de processos usados ou


de produtos atingidos. A perspectiva
A investigação em torno da “inteligência” cognitivista da inteligência (Almeida, 1988,
permanece actual na Psicologia, até pela 1994; Primi, 2000, 2002) serviu muito esta
sua relevância na prática dos psicólogos. descrição mais operativa ou
Nas palavras de Howe (1997, p.1) “Being comportamental das funções cognitivas,
intelligent matters; it makes a big difference recorrendo a processos cognitivos e
to human lives”. Divergindo nas suas metacognitivos comuns a toda a realização.
representações teóricas e no peso dado às Uma segunda orientação tem a ver com
suas manifestações, certo que um bom o retomar dos estudos psicométricos a
número de investigadores centram na propósito do número e estrutura
“inteligência” os seus trabalhos de organizativa dos factores da inteligência
pesquisa. Por outro lado, tomando as (aptidões). Após os esforços de Vernon
aplicações sociais da ciência psicológica, (1950) e de Cattell (1963) tendo em vista
também a inteligência e a sua avaliação a identificação e uma forma de convivência
saem reconhecidas, nomeadamente quando entre factores mais gerais (comuns) e mais
nos reportamos à organização dos específicos (primários), o debate sobre este
processos formativos dos indivíduos e à assunto reactivou-se através dos modelos
gestão das suas carreiras. Apesar das hierárquicos de análise (Gustafsson, 1994;
múltiplas controvérsias e limitações, a Horn & Noll, 1997; Carroll, 1993). Um
utilização dos conhecimentos científicos na dos marcos desta fase é o estudo de Carroll
área permite-nos decisões mais adequadas (1993) que analisou mais de 1500 artigos
que aquelas que poderíamos esperar obter de pesquisa nos últimos 60 anos sobre a
sem o seu concurso. estrutura da inteligência. Este estudo
Vários trabalhos alargaram, no presente, proporcionou um modelo de organização
o âmbito do construto “inteligência”, da inteligência, que designou de “Teoria
servindo isso para um renovado interesse dos Três Estratos”, e que se apresenta muito
pelo seu estudo. Uma dessas áreas de próximo da concepção moderna da teoria
desenvolvimento decorre da associação Gf-Gc de Horn (1991). Aliás, já no final
entre inteligência e resolução de problemas, da década de noventa, McGrew e Flanagan

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(1998) propuseram uma integração das geral. Seguramente, importaria cruzar a


teorias Gf-Gc e dos Três Estrados criando- informação relativa aos processos e
se a Teoria de Cattell-Horn-Carroll - CHC estratégias cognitivas decorrentes dos
das Habilidades Cognitivas. Trata-se de estudos experimentais na área da cognição
uma visão hierárquica multidimensional com as funções cognitivas supostamente
das habilidades cognitivas sendo avaliadas através dos testes disponíveis.
considerada, pelos pesquisadores da área, Com efeito, esses testes, ditos “clássicos”,
como uma das mais completas descrições poderão sair reforçados na sua utilização
da estrutura e organização das habilidades se os psicólogos conseguirem, através
cognitivas, e da inteligência, disponíveis deles, leituras mais operativas do
(cf. Primi, 2002). funcionamento e potencial cognitivo dos
Por último, insatisfeitos com uma leitura indivíduos. Referimo-nos, por exemplo, à
essencialmente lógica ou “intelectiva” da rentabilização de tais testes para uma
inteligência, vários autores alargaram o informação mais detalhada sobre os
âmbito deste construto. Gardner (1983), por processos de atenção e percepção, sobre
exemplo, propõe-nos sete ou oito a velocidade e a acuidade do
inteligências diferenciadas em termos processamento, sobre retenção e evocação
neurológicos, processos e produtos; outros de informação diversa, sobre o
autores trabalham nos últimos anos o armazenamento e recuperação da
conceito de “inteligência emocional” informação da memória a longo-prazo,
(Salovey & Mayer, 1990; Mayer & sobre a inferência e aplicação de relações,
Salovey, 1997); Sternberg e Wagner (1986) ou ainda sobre a fluência e a flexibilidade
salientam uma inteligência prática, de respostas ou produções. Estes são
enquanto outros na mesma linha enfatizam processos que os autores cognitivistas
a sua natureza sócio-cultural (Irvine & postulam como universais à resolução de
Berry, 1988; Roazzi & Souza, 2002). problemas e ao próprio processamento da
Parece-nos crescente o interesse, mesmo informação, os quais podem ainda
em Portugal (Candeias, 2003; Franco combinar com conteúdos verbais, visuo-
2003), como também no Brasil (Bueno & figurativos e quantitativos (Almeida, 2002).
Primi, 2001), por este alargamento do Neste sentido, o manual da Bateria de
âmbito da inteligência ou procura de Provas de Raciocínio traz nos seus
fundamento substantivo para outras fundamentos teóricos, uma interpretação
inteligências mais marcadas pelas cognitivista dos resultados nas várias
interfaces emocionais e sociais. provas auxiliando a compreensão dos
Estas novas concepções, ainda com pouca processos cognitivos subjacentes ao
expressão em termos de testes psicológicos, desempenho dos alunos (Primi & Almeida,
tenderão a afirmar-se no seio da 2000).
investigação e da prática psicológicas.
Entretanto, os testes clássicos mantêm-se
em utilizados. Apesar das limitações que As provas de raciocínio diferencial
os caracterizam, estes testes permitem
informação relevante sobre as habilidades Na linha dos Testes de Raciocínio
cognitivas dos indivíduos contribuindo para Diferencial (TRD - Meuris, 1969), temos
explicar os seus índices de sucesso na vindo em Portugal a adaptar, construir e
aprendizagem, formação e desempenho em validar provas similares (Almeida, 1982;

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1988; Primi & Almeida, 2000). A Bateria tendo o raciocínio como operação ou
de Provas de Raciocínio Diferencial função cognitiva dominante, cada uma das
(BPRD) pode servir de modelo ao conjunto provas faz essa avaliação recorrendo a itens
de baterias entretanto criadas e validadas. de formato e, sobretudo, de conteúdos
Trata-se de uma bateria formada por cinco diferentes. Assim, a Prova RA (raciocínio
testes, todos eles avaliando as capacidades abstracto) é formada por analogias
de raciocínio indutivo-dedutivo, mas envolvendo figuras sem qualquer
diferenciados no conteúdo dos respectivos significado aparente; a Prova RV
itens (verbal, numérico, espacial, abstracto (raciocínio verbal) é também formada por
e mecânico). Esta bateria veio dar origem analogias tomando as relações entre
a uma versão separada de cinco provas para palavras; a Prova RN (raciocínio numérico)
os 7º/9º anos de escolaridade (BPR5-Versão é formada por sequências numéricas,
A) e para os 10º/12º anos (BPR5-Versão lineares ou alternadas, cuja regra de
B), estudadas simultaneamente em Portugal sucessão dos números o sujeito deve
e no Brasil (Primi & Almeida, 2000). descobrir para depois continuar a série
Mais recentemente, avançámos para a (indicar os dois números seguintes); e a
construção e validação de uma nova versão Prova RP (raciocínio prático) apresenta
da bateria, agora para os alunos que problemas com alguma complexidade
frequentam os 5º e 6º anos de escolaridade. informativa que o sujeito deve organizar
Face aos resultados da análise factorial com e deduzir para poder resolver.
diversas amostras que realizaram a BPRD Em relação às baterias anteriores em que
e as versões BPR5 A e B, optámos por se baseia, a BPR5-6 não inclui as provas
retirar o termo “diferencial” para descrever de raciocínio espacial e de raciocínio
o raciocínio avaliado nas provas destas mecânico. Em relação à prova de raciocínio
baterias. Com efeito, tais análises espacial houve várias tentativas de a
permitiam-nos isolar apenas um único construir, tomando itens a duas dimensões
factor, o qual explicava entre 50 e 60% e de diferentes formatos. Para todas as
da variância dos resultados. Se quisermos, versões por que passou esta prova, os
o conteúdo e o formato (analogias e parâmetros psicométricos calculados
sequências) não parecem suficientemente ficaram sempre bastante aquém dos
decisivos, nem se agrupam, de forma a limiares mínimos exigidos (refira-se que
fazer emergir outros factores para além da nas baterias usadas com alunos mais
componente indutiva-dedutiva de velhos, esta mesma prova recorre a cubos
raciocínio em que assenta a avaliação em movimento, o que, implicando a
cognitiva destas baterias. tridimensionalidade na percepção do
A Bateria de Provas de Raciocínio (BPR5- espaço, não se adequa à faixa etária ou
6) é formada por quatro provas que têm escolar agora abarcada). Por sua vez,
em comum, como o nome o deixa entender, também as tentativas feitas de construção
a avaliação do raciocínio dos alunos. Esta de uma prova de raciocínio mecânico se
avaliação cobre o que geralmente se mostraram infrutíferas. A facilidade
entende por raciocínio indutivo (apreender introduzida nos novos itens construídos
relações entre elementos) e por raciocínio (demasiado perceptivos e intuitivos) tornou
dedutivo (aplicar as relações inferidas a a sua resolução sobretudo perceptiva
novas situações). Numa descrição sucinta (pouco apelo ao raciocínio); por outro lado,
das quatro provas, podemos afirmar que, mais que conhecimentos e raciocínios

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próprios de uma prova de “raciocínio baixa, 25% à classe média e 4% à classe


mecânico”, a resolução dos itens alta (em relação a 7% dos sujeitos não foi
construídos era marcadamente aleatória possível estabelecer esta classificação por
(ocasional) olhando às verbalizações dos falta de elementos ou imprecisões da
alunos. Acrescente-se que, já na bateria informação fornecida pelos próprios
BPRD, a prova de raciocínio mecânico alunos). Os alunos repartiam-se pelos dois
apresentava várias dificuldades a este sexos (49% do sexo masculino e 51% do
propósito (Almeida, 1988). sexo feminino), não se diferenciando em
Neste artigo, através da convergência de termos etários e dos anos de escolaridade.
interesses e disponibilidades de As idades dos sujeitos desta amostra
investigadores e psicólogos de vários oscilaram entre os 9 e os 16 anos, situando-
pontos do País, procedemos ao estudo da se a média em 11.4 (desvio-padrão de
validade da considerada versão definitiva
1.23).
da BPR5-6 e aos estudos do impacto de
certas variáveis descritivas dos alunos (ano
Instrumento
escolar, sexo e classe social) tendo em vista
Este estudo reporta-se à validação e
definir o tipo de resultados normativos a
aferição da Bateria de Provas de Raciocínio
construir. Mesmo não podendo assegurar
(BPR5-6). Trata-se de uma bateria formada
a representatividade nacional da presente
por 4 provas, todas formadas por itens
amostra, podemos falar na sua aproximação
em face do esforço feito para tornar a envolvendo o raciocínio e onde difere o
amostra heterogénea em termos de escolas conteúdo ou o material em que os itens
e de zonas do País. Posteriores aplicações são formulados: Prova RA (itens figurativo-
a novas amostras ajudar-nos-ão a perceber abstractos no formato de analogia com
se, fruto das oscilações nas médias e quatro alternativas de resposta); Prova RV
desvios-padrão, se justificam outros (itens verbais no formato de analogia de
cuidados em termos de amostra nacional palavras com quatro alternativas de
de aferição. resposta); Prova RP (itens de resolução de
problemas lógico-dedutivos onde o sujeito
tem que elaborar a resposta); Prova RN
Método (itens numéricos no formato de sequência
de números que o sujeito deve continuar
Amostra escrevendo os dois números que se seguem
A bateria foi aplicada a uma amostra de na sequência). As provas RA e RV
2167 alunos, repartidos pelo 5º (49%) e (assumidas como mais acessíveis e com
6º (51%) anos de escolaridade. Estes alunos alternativas de resposta para escolha) são
frequentavam escolas públicas e privadas formadas por 20 itens, enquanto as Provas
dos distritos de Braga, Porto, Lisboa e RP e RN possuem, apenas, 15 itens (aqui
Évora, localizadas em centros urbanos e o sujeito deve construir a sua resposta).
semi-urbanos. A amostra integrava ainda Os alunos preencheram, ainda, uma breve
387 alunos de escolas do Funchal e Câmara ficha de identificação. A par de outras
de Lobos, na Região Autónoma da informações, recolhemos a actividade
Madeira. Em termos de origem social, profissional dos pais e as classificações dos
tomando a profissão dos pais, classificamos alunos, no trimestre anterior à realização
65% dos alunos como pertencendo à classe das provas, a Português e a Matemática.

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Procedimento Como poderíamos antecipar, aliás, no


A aplicação da bateria foi feita sentido da validade dos resultados nas
colectivamente a nível do grupo-turma, em quatro provas de raciocínio, observa-se
tempos lectivos cedidos pelos professores. uma subida de um ponto na média dos
Os alunos foram informados dos objectivos alunos por prova quando passamos do 5º
do estudo e foi-lhes solicitada a para o 6º ano de escolaridade (um pouco
colaboração. Procurou-se que em termos maior a discrepância na prova de
de instruções e de acompanhamento dos raciocínio prático). As diferenças
alunos, a administração da bateria fosse
considerando os alunos segundo o sexo
sempre feita por um psicólogo com
não são expressivas. As médias nas provas
experiência. Não surgiram dificuldades na
RN e RP são mais baixas, por comparação
aplicação das provas, mesmo que os alunos
tenham sentido maiores dificuldades – e com as outras duas provas (RA e RV),
verbalizado na prova de raciocínio contudo não podemos esquecer que são
numérico. Esta prova requer que os alunos provas com apenas 15 itens face aos 20
acedam a folha de rascunho para efectuar itens das outras duas provas. Dado que
os seus cálculos (não podendo usar a média se situa num valor intermédio
máquinas calculadoras). O resultado em face ao número de itens em cada prova,

QUADRO I – Média e desvio-padrão dos resultados nas provas e disciplinas escolares


Ano Sexo Prova RA Prova RV Prova RN Prova RP Portug. Matem.

5º Masc. 8.6 (3.21) 9.4 (3.58) 5.6 (2.82) 7.8 (2.81) 3.1 (.74) 3.1 (.85)

Fem. 8.6 (3.19) 9.1 (3.60) 5.8 (2.88) 7.1 (2.87) 3.0 (.77) 3.1 (.80)

6º Masc. 9.8 (3.32) 10.9 (3.74) 6.9 (3.14) 9.1 (2.68) 3.1 (.74) 3.1 (.86)

Fem. 9.8 (3.27) 10.1 (3.56) 6.9 (3.09) 8.6 (2.71) 2.9 (.77) 2.9 (.88)

cada prova traduz o número directo de itens antecipa-se uma boa dispersão dos
correctamente respondidos. No caso da resultados dos alunos. A média das
Prova RN os dois números dados pelo classificações dos alunos nas disciplinas
sujeito para completar a sequência devem de Português e de Matemática situa-se
estar ambos correctos e indicados na devida em 3.0 (escala de 1 a 5 valores), não
posição (ordem). A folha de respostas usada se diferenciando nos dois anos, dois
sugere esse cuidado aos alunos, como sexos e nas duas disciplinas.
ocorre também na Prova RP. Numa análise da consistência interna
dos itens, apesar da aplicação das provas
ter ocorrido com limite de tempo, os
Resultados valores foram os seguintes: Prova AR
- .79; Prova RV - .78; Prova RN – .84;
No quadro I descrevemos os resultados obtidos e Prova RP – .78. Estes índices
nas provas psicológicas e nas duas disciplinas mostram-se satisfatórios e suplantam os
escolares, considerando os alunos repartidos coeficientes obtidos com a versão
pelos dois anos de escolaridade e sexo. A par anterior das provas, constituídas por um
do valor da média, acrescentamos dentro de número mais reduzido de itens (cf.
parênteses o valor do desvio-padrão. Sousa et al., 2002).

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Tendo em vista definir que variáveis dos conjunta das três variáveis (sexo, ano, e
alunos deveriam ser consideradas na classe social) nos resultados dos alunos nas
fixação dos resultados normativos da quatro provas. Da mesma forma não se
BPR5-6, procedemos ao estudo diferencial observou um efeito secundário de
dos resultados nas quatro provas segundo interacção do sexo e classe social, ou do
o sexo, o ano escolar e a classe social dos ano escolar e sexo. No entanto, tomando
alunos. Previamente a esta análise optámos a interacção do ano e classe social, regista-
por juntar os alunos do estrato social médio se um efeito significativo desta interacção
e elevado num único grupo, dada a sua na prova RA (F=6.21; p<.01), na prova
reduzida dimensão. Por outro lado, RV (F=4.77; p<.05) e na prova RP (4.27;
quisemos apreciar a distribuição etária dos p<.05). Nestas três provas, os resultados
alunos do 5º e 6º anos considerando o sexo obtidos apontam uma maior diferenciação
e a classe social de pertença. Este cuidado, das médias dos alunos dos dois estratos
sobretudo em relação aos alunos mais sociais no 5º ano, por comparação ao 6º
velhos, pretende evitar que nalguns desses ano assim como uma maior diferenciação
grupos a constituir possa existir uma das médias na passagem do 5º para o 6º
percentagem mais elevada de alunos mais ano, junto dos alunos do estrato social mais
velhos, ou seja, com maior número de baixo. Por outras palavras, assistimos a uma
retenções escolares, pelo significado recuperação relativa na média dos resultados
cognitivo de tais reprovações. Assim, junto dos alunos do estrato social mais baixo
tomando em cada ano escolar os alunos face aos colegas dos estratos sociais mais
de ambos os sexos, a média das idades elevados quando passamos do 5º para o 6º
não se diferenciava de forma estatisti- ano de escolaridade.
camente significativa. No entanto, tomando Outros valores desta análise multivariada
agora em cada ano os alunos dos dois da variância podem ser apresentados. Em
grupos sociais, os alunos do estrato social primeiro lugar, tomando a prova RN em
mais baixo apresentavam uma média etária que não havia sido encontrado qualquer
superior aos colegas do estrato social médio efeito secundário de interacção,
e elevado, sendo essa diferença verificamos um efeito principal quer da
estatisticamente significativa. Face a estes variável ano (F=63.25; p<.001) quer da
valores, optámos por não considerar nas classe social (F=50.13; p<.001), não
análises subsequentes os alunos de 14 e havendo qualquer diferenciação segundo
15 anos do 5º ano, assim como os alunos o sexo. Em segundo lugar, enquanto que
de 15 e 16 anos do 6º ano (refira-se que o efeito da variável sexo apenas se observa
a correlação entre a idade dos alunos e nas provas RV (F=4.99; p<.05) e RP
o seu rendimento nas quatro provas rondou (F=22.61; p<.001), quer o efeito da variável
-.30, significando uma associação ano quer da classe social assumem valores
estatisticamente significativa, e de sentido mais expressivos – sempre significativos
inverso, entre o número de retenções para p<.001 –, e cobrem as quatros provas
escolares dos alunos – inerente às idades da BPR5-6. Finalmente, enquanto que o
superiores – e as suas habilidades efeito da classe social é mais elevado nas
cognitivas). provas RV (F=127.06; p<.001) e RP
Os valores obtidos na análise da variância (F=147.94; p<.001), o ano de escolaridade
efectuada (F-Manova: 2 x 2 x 2) sugerem atinge um impacto mais uniforme ao longo
uma ausência de efeito de interacção das quatro provas, sendo maior nas provas

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RP (F=77.74; p<.001) e RN (F=63.25; Os coeficientes de correlação obtidos


p<.001). reflectem alguma associação entre o
Face aos valores das análises de variância desempenho cognitivo e académico dos
conduzidas e às ilações daí decorrentes para alunos do 5º e 6º anos de escolaridade,
a futura fixação dos resultados normativos informação esta que vai no sentido da
na BPR5-6, parece-nos que não se justifica própria validade empírica dos resultados
considerar a variável sexo na elaboração na bateria. Os resultados na prova RA
de tais tabelas de resultados. Por sua vez, (raciocínio abstracto) encontram-se menos
sendo mais difícil fixar a classe social dos correlacionados com o desempenho escolar
alunos, ou mesmo assumir que a presente dos alunos nas duas disciplinas e nos dois
amostra é representativa deste ponto de anos. Por sua vez os resultados na prova
vista, julgamos não incluir também a RN (raciocínio numérico) parecem marcar
variável “classe social” em tais tabelas. mais o desempenho escolar no 6º ano, e
Esta decisão assenta, ainda, no facto do sobretudo na disciplina de matemática. As
impacto do ano escolar ser mais uniforme duas restantes provas (raciocínio verbal e
ao longo das quatro provas, sendo o raciocínio prático) aparecem associadas de
impacto da classe social nitidamente maior forma bastante expressiva ao rendimento
nas provas envolvendo a componente da nas duas disciplinas escolares, e para os
linguagem (significação de palavras, leitura dois anos de escolaridade.

QUADRO II – Correlações entre resultados nas provas de raciocínio


e nas disciplinas escolares
Ano Disciplinas Prova RA Prova RV Prova RN Prova RP

5º Português .31 .50 .38 .50

Matemática .34 .42 .37 .44

6º Português .29 .44 .42 .51

Matemática .36 .45 .50 .45

Nota: Todos os coeficientes são significativos para p<.001

compreensiva, etc.), como é o caso das Em complemento a esta análise de


provas RV e RP. correlação, e após registarmos que um
Passando a algumas análises estatísticas, único factor emergia na análise factorial
tendo em vista apreciar a validade dos dos resultados nas quatro provas de
resultados nas quatro provas da BPR5-6, raciocínio (factor este que explicava 57.6%
apresentamos no quadro II as correlações da variância), procedemos ao cálculo da
observadas entre os resultados dos alunos correlação entre as notas escolares nas duas
nas quatro provas de raciocínio e as suas disciplinas (e sua média) e uma nota global
classificações nas duas disciplinas escolares na bateria. Esta nota global foi calculada
consideradas (Português e Matemática). através da média ponderada das pontuações
Por razões de especificidades curriculares, nas quatro provas de raciocínio (a
procedemos a esta análise separando os ponderação tornou-se necessária face ao
alunos dos dois anos de escolaridade da número diferente de itens nas provas).
amostra, e, como nas análises anteriores, Assim, a nota global foi calculada por meio
não consideramos os alunos com maior da seguinte fórmula: ((RA x 3)+(RV x
número de retenções escolares. 3)+(RN x 4)+(RP x 4))/4. No quadro III

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apresentamos os coeficientes de correlação em relação à classe social. Por outro lado,


agora obtidos. algumas diferenças obtidas em estudos
QUADRO III – Correlações tomando indicadores mais gerais
nas provas cognitivas e rendimento escolar
Ano Bateria Português Matemática Portug. + Matem.

5º Nota Global .57 .53 .62

6º Nota Global .56 .59 .63

Nota: Todos os coeficientes são significativos para p<.001

Como podemos constatar, os índices de similares considerando a variável sexo,


correlação são mais elevados quando tendem a acontecer, quer em amostras mais
passamos a considerar indicadores mais velhas, quer com provas cognitivas mais
globais quer do desempenho cognitivo quer voltadas para a avaliação das aptidões
do rendimento académico (cf. Almeida, específicas, por exemplo aptidão espacial
1988). Olhando à média que os alunos e aptidão verbal. No caso concreto desta
obtêm por referência às suas classificações bateria, não podemos esquecer que as
nas disciplinas de Português e de quatro provas avaliam essencialmente uma
Matemática, podemos antecipar que uma capacidade geral de raciocínio, embora em
nota ponderada nas quatro provas de situações diferenciadas em termos de
raciocínio consegue explicar cerca de 40% conteúdos e de formato de problemas,
da sua variância. Este valor, pela sua como aliás se veio a reconfirmar no
grandeza numérica e por se reportar a duas presente estudo em face do único factor
disciplinas que mais marcam o rendimento isolado na análise factorial dos resultados
dos alunos no 2º ciclo de escolaridade, nas quatro provas. Dado que estas análises
parece-nos muito relevante para a prática diferenciais pretendiam definir as variáveis
dos psicólogos escolares junto destes dos alunos, a considerar na fixação dos
alunos. resultados nacionais padronizados da
BPR5-6, a maior estabilidade do impacto
do ano escolar dos alunos no seu
Discussão e conclusões desempenho ao longo das quatro provas,
leva-nos a escolher esta variável como
Dois tipos de estudos foram conduzidos principal referência da normalização
com os resultados dos alunos do 2º Ciclo nacional dos resultados na BPR5-6.
do Ensino Básico na presente bateria de Passando à informação relativa à validade
provas de raciocínio (BPR5-6): estudos dos resultados, importa mencionar, desde
diferenciais e estudos de validade. Ao nível já, que os coeficientes de consistência
dos estudos diferenciais, os resultados interna dos itens nas quatro provas se
sugerem um maior impacto do ano escolar situaram, como desejável, acima de .70
e da classe social na média das pontuações, (Almeida & Freire, 2001). Falando de
por comparação ao impacto da variável validade dos resultados, propriamente dita,
sexo. Estes valores parecem-nos estar a análise factorial dos resultados nas quatro
adequados à investigação na área pois nesta provas da BPR5-6 destaca um único factor
faixa etária ou escolar o impacto da explicando quase 60% da variância, e
escolaridade é maior do que em níveis legitimando mais uma vez a retirada do
escolares ulteriores, o mesmo acontecendo termo “diferencial” na descrição da bateria.

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Os processos indutivo-dedutivos que bateria (Sousa et al., 2002), garantindo


marcam a realização das quatro provas também alguma consistência da informação
suplantam, em termos de importância, os relativa a um dos aspectos mais relevantes
conteúdos e formatos diferenciados dos da utilização deste tipo de provas
itens em cada uma dessas mesmas provas. psicológicas na prática dos psicólogos.
Por outro lado, já numa lógica de validade
por referência a critérios externos,
verificamos que as quatro provas se Referências
apresentam associadas ao rendimento bibliográficas
escolar dos alunos nas disciplinas de Almeida, L. S. (1982). Testes de Raciocínio
Português e de Matemática. Os coeficientes Diferencial. Porto: Faculdade de
de correlação são mais expressivos quando Psicologia e de Ciências da Educação.
passamos da prova RA para as restantes Almeida, L. S. (1986). Bateria de Provas
três provas, ou quando passamos a de Raciocínio Diferencial. Porto:
considerar uma nota ponderada quer do Faculdade de Psicologia e de Ciências
desempenho dos alunos nas quatro provas da Educação.
quer nas suas classificações escolares nas Almeida, L. S. (1988). O raciocínio
duas disciplinas. Nesta altura, os índices diferencial dos jovens. Porto: INIC.
obtidos sugerem uma associação de cerca Almeida, L. S. (1994). Inteligência:
de 40% da variância entre classificações Definição e medida. Aveiro: CIDInE.
escolares e resultados na BPR5-6, valor Almeida, L. S. (2002). As aptidões na
este que nos apraz registar como muito definição e avaliação da inteligência:
relevante para a prática psicológica nas O concurso da análise factorial.
situações de aprendizagem e de rendimento Paidéia, 12(23), 5-17.
destes alunos. Esta situação acompanha a Almeida, L. S. & Freire, T. (2001).
investigação na área, ou seja, a aceitação Metodologia de investigação em
de que indicadores mais globais, quer do psicologia e educação. Braga:
rendimento escolar, quer da realização em Psiquilíbrios.
provas cognitivas, se apresentam mais Almeida, L. S., Antunes, A. M., Martins,
correlacionados entre si, por comparação T. B. O. & Primi, R. (1997). Bateria
com a tomada de indicadores mais simples, de Provas de Raciocínio (BPR-5):
em virtude de traduzirem medidas mais Estudo de validação em contexto
compósitas da diversidade de variáveis escolar. Revista Galego-Portuguesa de
presentes em qualquer situação de Psicologia e Educación, 1(1), 355-365.
realização. Com efeito, quer o rendimento Bueno, J. M. H. & Primi, R. (2001).
académico quer a realização cognitiva não Inteligência emocional: definição do
podem ser assumidas como medidas construto e instrumentos de medida.
“puras” ou independentes de uma Em: Sisto, F.; Sbardelini, E. T. B.
multiplicidade de factores, sendo esta Guntert, A. E. V. A. & Primi, R. (Orgs.).
multiplicidade tendencialmente melhor Contextos e questões da avaliação
atendida através de indicadores compósitos psicológica. (135-154). São Paulo: Casa
(Almeida, 1988; Almeida et al., 1997). De do Psicólogo.
acrescentar que um valor similar de Candeias, A. M. (2003). As inteligências
variância explicada foi encontrado no que os testes de QI não avaliam:
estudo com uma das versões prévia desta Inteligência social, inteligência

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