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MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE

ILMº SR. DELEGADO DA RECEITA FEDERAL DE JULGAMENTO DE CABO FRIO-RJ

CMATOS, com sede à AV. Ver. Antônio Ferreira dos Santos, 339, Braga, Cabo Frio/RJ, CEP: 28.908-200, CNPJ nº
84127198753/0001-99, não se conformando com o indeferimento do seu pleito para extinção do tributo federal, em
especial o IPI, pela compensação nautilização de precatórios, pela Unidade da Receita Federal de Cabo Frio-RJ, do qual
tomando ciência em 03.12.2019, vem, por intermédio de seu representante estabelecido em conformidade com a lei, no
prazo legal, amparada no que dispõe o art. 203 do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal, e aprovado pela
Portaria do Ministro da Fazenda de nº 259, de 24 de agosto de 2001, apresentar MANIFESTAÇÃO DE
INCONFORMIDADE ao indeferimento de seu pleito, considerando os seguintes motivos de fato e de direito.

I - DOS FATOS

A empresa CMATOS, ora Autora, era possuidora de créditos devidos pela União, em razão de danos causados por obra
pública à sede de sua empresea, no endereço acima indicado num total de créditos de R$650.000,00, tendo a União
quitado o referido valor por meio compensação de débitos do IPI com créditos de precatórios federias.

Com o fim de extinguir os referidos débitos a empresa Autora apresentou à Secretaria da Receita Federal de Cabo Frio-RJ
sua pretensão em realizar tal compensação apresentando declaração específica que foi entregue, acompanhada de toda
documentação exigida pela própria Delegacia Especial da Receita Federal de Administração Tributária em Cabo Frio-RJ,
conforme documentos em anexo.

Entretanto, inobstante o cuidado em atender as exigências da Lei, a empresa Autora, em 03.12.2019, foi intimada do
indeferimento da referida compensação solicitada na forma da Lei, simplesmente porque a Receita Federal não validou
tal pedido.

Assim, esta empresa Autora, irresignada com a decisão da Delegacia da Receita, vem apresentar a presente
manifestação de inconformidade, com o fito de que seja assegurado o seu direito líquido e certo de quitar seus débitos
de IPI por meio da compensação de créditos precatórios, tudo na forma da lei.

II - DO DIREITO

Tratando-se da competência tributária da Administração Pública, que se submete ao estrito rigor da lei (princípio da
reserva legal), a expedição de precatórios encontra-se amparada legalmente pelo artigo 100 da Constituição Federal
de 1988:

“Artigo 100:

§ 9º No momento da expedição dos precatórios, independentemente de regulamentação, deles


deverá ser abatido, a título de compensação, valor correspondente aos débitos líquidos e certos,
inscritos ou não em dívida ativa e constituídos contra o credor original pela Fazenda Pública
devedora, incluídas parcelas vincendas de parcelamentos, ressalvados aqueles cuja execução
esteja suspensa em virtude de contestação administrativa ou judicial.”

Invocando o princípio da indisponibilidade dos bens públicos o instituto da compensação é autorizado na forma do art.
156, do Código Civil de 2002: “Art. 156. Configura-se o estado de perigo quando alguém, premido da necessidade de
salvar-se, ou a pessoa de sua família, de grave dano conhecido pela outra parte, assume obrigação excessivamente
onerosa.”

O Princípio da Indisponibilidade do Interesse Público, supraprincípio pilar do regime jurídico-administrativo,


encontra-se diretamente presente em toda e qualquer atuação da Administração Pública. Portanto, tal fundamento
manifesta-se tanto no desempenho das atividades-fim quanto no das atividades-meio da Administração, visando o
interesse público primário e secundário, atuando sob o regime de direito público assim como sob regime
predominantemente de direito privado (a exemplo da atuação do Estado como agente econômico).
Nesse sentido, podemos dizer que o princípio em tela decorre de outro princípio, o da Supremacia do Interesse
Público do qual destaca-se uma de suas principais prerrogativas: A presunção de legitimidade dos atos
administrativos que deixa para os particulares o ônus de provar eventuais vícios no ato, a fim de obter decisão
administrativa ou provimento judicial que afaste a sua aplicação.

Mostra-se evidente que esse conjunto de regras, dá ao Estado um estatus privilegiado em relação ao particular dando
a este autoridade para impor seus objetivos, mas também lhe estabelece várias restrições. São esssas prerrogativas e
restrições dadas é que são apresentadas nos princípios da Supremacia do Interesse Público e da Indisponibilidade do
Interesse Público.

Fica claro que o agente administrador tem em suas mãos o poder, que decorre do dever, de administrar bem os
interesses do Estado.

Tal princípio se consubstancializa na forma do art 156, inciso II, do Código Tributário Nacional, norma de status de Lei
Complementar:

“Modalidades de Extinção Art. 156.

Extinguem o crédito tributário:

i – o pagamento;

ii – a compensação;”

Entretanto, tal autorização está condicionada à previsão legal conforme artigo 170 do mesmo diploma legal.

A empresa Autora segue à risca as regras gerais em matéria tributária, o que permite a realização de compensação
tributária não havendo espaço para discricionariedade do agente estatal no desempenho de sua atividade
fiscalizatória:

“Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso
atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos
líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública.”

Mais especificamente é a Lei nº 9.430/96, que regula as conpensações, que em seu artigo 74, disciplina a compensação
de créditos de origem judicial com quaisquer tributos e contribuições administrados pela Receita Federal.

“Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a
tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de
ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e
contribuições administrados por aquele Órgão.”

A compensação somente não deve ser admitida como não declarada nas hipóteses previstas no § 12 do mesmo diploma
legal:

“§ 12. Será considerada não declarada a compensação nas hipóteses:

I - previstas no § 3o deste artigo;

II - em que o crédito:

a) seja de terceiros;

b) refira-se a "crédito-prêmio" instituído pela art. 1o do Decreto-Lei no 491, de 5 de março de 1969;

c) refira-se a título público;

d) seja decorrente de decisão judicial não transitada em julgado; ou

e) não se refira a tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal - SRF.
f) tiver como fundamento a alegação de inconstitucionalidade de lei, exceto nos casos em que a lei:

1 – tenha sido declarada inconstitucional pela Supremo Tribunal Federal em ação direta de inconstitucionalidade ou em
ação declaratória de constitucionalidade;

2 – tenha tido sua execução suspensa pela Senado Federal;

3 – tenha sido julgada inconstitucional em sentença judicial transitada em julgado a favor do contribuinte; ou

4 – seja objeto de súmula vinculante aprovada pela Supremo Tribunal Federal nos termos do art. 103-A da Constituição
Federal.”

De acordo com a relação acima, a compensação debatida pela autora não encontra impedimentos na lei haja visto que
náo se enquadra em nenhuma das hipoteses de vedação ou mesmo de compensação não declarada. Ademais, os
precatórios constam de uma ordem, através de ofício, encaminha por um Juiz ao Presidente do Tribunal de Justiça
determinando que o valor da condenação seja comunicado ao ente público.

Destaca-se as hipóteses do ar. 74, parágrafo 12, “d” e “e” que afirma que a compensação é considerada não declarada
quando: 1) seja decorrente de decisão judicial não transitada em julgado; ou 2) não se refira a tributos e contribuições
administrados pela Secretaria da Receita Federal - SRF. Significa que a lei admite ambas as hipóteses.

O artigo 74, no seu parágrafo 3º, ainda acrescenta, dentre outros, os seguintes incisos:

“§ 3o Além das hipóteses previstas nas leis específicas de cada tributo ou contribuição, não poderão ser
objeto de compensação mediante entrega, pelo sujeito passivo, da declaração referida no § 1o:

V - o débito que já tenha sido objeto de compensação não homologada, ainda que a compensação se
encontre pendente de decisão definitiva na esfera administrativa;

VII - o crédito objeto de pedido de restituição ou ressarcimento e o crédito informado em declaração de


compensação cuja confirmação de liquidez e certeza esteja sob procedimento fiscal;”

III - DO PEDIDO

Assim, após a extensa apreciação das normas legais, requer a empresa autora que seja apreciada por Vossa Excelência
a presente Manifestação de Inconformidade, com o reconhecimento do direito com a consequente autorização da
compensação pretendida pela empresa Autora, CMATOS LTDA., com a liquida;áo dos d[ebitos relativos ao IPI, eis que
encontra-se plenamente amparada pela lei, conforme o art. 74 da Lei nª 9.430/96, eis que não se enquadra nas
hipóteses de vedação elencadas no art. 74, §§ 3º e 12, do mesmo diploma legal.

IV - DOCUMENTOS ANEXADOS

Estão anexados a esta Manifestação de Inconformidade os seguintes documentos:

· Instrumento de Procuração;

· Certidão de Titularidade de Precatório;

· Declaração de compensação tributária;

Cabo Frio, 04 de novembro de 2019.


MINISTÉRIO DA FAZENDA

SECRETARIA DA RECEITA FEDERAL

DELEGACIA DE JULGAMENTO EM CABO FRIO – RJ

ACÓRDÃO nº 18-573, de 05 de dezembro de 2019.

Vistos, etc., acorda a 1ª Turma da Delegacia de Julgamento da Secretaria da Receita Federal do


Brasil em Cabo Frio, por unanimidade dos votos, NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO.

A Lei 9.430/96, em seu artigo 74, disciplina claramente a prática da compensação de débitos, com créditos da mesma
natureza, junto a Fazenda Pública Federal, no que se refere especificamente à obrigação tributária:

“Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo
a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição
ou de ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer
tributos e contribuições administrados por aquele Órgão.”

Destaca-se a redação final do referido artigo: “quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão.”

Entretanto, a prática da compensação será vedada e dada como não declarada na hipótese em que os créditos
existentes, cuja administração não seja realizada pela Receita Federal do Brasil, conforme o art. 74, §12, II, “e”, da
Lei nº 9.430/96:

“§ 12. Será considerada não declarada a compensação nas hipóteses:

[...]

II - em que o crédito:

a) seja de terceiros;

e) não se refira a tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal - SRF.”

O inciso “e” é claro. Impossível a compensação, tendo em vista que a pretensão da empresa Autora foi extinguir seus
débitos referentes ao IPI através de créditos de precatórios federais. Estes créditos não estão sob a administração da
RFB.

Corroborando tal entendimento, todas as normas relativas a compensação, restituição, ressarcimento e reembolso
dos tributos de competência da União foram regulamentadas pela Instrução Normativa da Receita Federal do Brasil,
nº 1717 de 17.07.2017, conforme seu artigo 40:

“Art. 40. Na hipótese de remanescerem, ao final do trimestre-calendário, créditos do IPI passíveis


de ressarcimento depois de efetuadas as deduções e transferências admitidas na legislação, a
pessoa jurídica poderá requerer à RFB o ressarcimento do saldo credor ou utilizá-lo na
compensação de débitos próprios relativos a tributos administrados pela RFB.”

Em consonância com esta norma, o artigo 105 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) já incluída
pela Emenda Constitucional nº 94, de 2016, se aplica somente aos Estados e Municípios, não se referindo à União.

“Art. 105. Enquanto viger o regime de pagamento de precatórios previsto no art. 101 deste Ato das
Disposições Constitucionais Transitórias, é facultada aos credores de precatórios, próprios ou de
terceiros, a compensação com débitos de natureza tributária ou de outra natureza que até 25 de
março de 2015 tenham sido inscritos na dívida ativa dos Estados, do Distrito Federal ou dos
Municípios, observados os requisitos definidos em lei própria do ente federado.”

Conclui-se que a compensação não declarada é hipótese expressa que veda qualquer possibilidade de compensação
de débitos junto à RFB, desde que sejam créditos que não se refiram a tributos e contribuições por aquele órgão
administrados, conforme o art. 74, alínea “e”, inciso II, §12, da Lei nº 9.430/96, acima transcrita.

Assim, a 1ª Turma da Delegacia de Julgamento da Secretaria da Receita Federal do Brasil em Cabo Frio, por
unanimidade dos votos, NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO.

Referências bibliográficas:

1. BRASIL. Secretaria da Receita Federal do Brasil. Pesquisa Ementário dos Acórdãos das Delegacias da Receita
Federal de Julgamento, disponível em http://decisoes.fazenda.gov.br/netahtml/decisoes/decw/pesquisaDRJ.htm,
acesso em 19.11.2019.

2. BRASIL. Secretaria da Receita Federal do Brasil. Sistema Normas. Instrução Normativa RFB nº 1717, de 17 de
julho de 2017, disponível em
http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/link.action?visao=anotado&idAto=84503, acesso em 19.11.2019.

3. BRASIL. Secretaria da Receita Federal do Brasil. Sistema Normas. Atos Decisórios – Ementário, disponível em
https://atosdecisorios.receita.fazenda.gov.br/consultaweb/index.jsf, acesso em 19.11.2019.

4. BRASIL. Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional), disponível em


http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5172.htm, acesso em 19.11.2019.

BRASIL. Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9430.htm,


acesso em 19.

http://www.conteudojuridico.com.br/consulta/Artigos/32017/principio-da-supremacia-do-inter
esse-publico-e-principio-da-indisponibilidade-do-interesse-publico-pilares-do-regime-juridico-a
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