Você está na página 1de 13

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA LETRAS E CIÊNCIAS


HUMANAS

Prof. Dr. Ricardo Ribeiro Terra

Nome: Daniel Sposito Coelho

NºUSP: 9339859

2016
“Aos que desprezam o corpo quero dizer-lhes minha opinião. Não devem mudar de
preceito ou de doutrina, mas, simplesmente, desfazerem-se do corpo, o que lhes
tornará mudos.”(Nietzsche)1

111
Nietzsche; Assim falou Zaratustra “ Dos que desprezam o corpo” Pg ,Ed. Vozes, 2011., 6. ed. - Petrópolis, RJ
O FEM (Fórum Econômico Mundial) divulgou recentemente uma pesquisa2 acerca da desigualdade
de gênero, indexando dados de 144 países por critérios de paridade econômica, acesso a educação e
a saúde, bem como proporcionalidade de representação política. O órgão ainda lançou uma
estimativa de 170 anos para que alcancemos a igualdade de gênero, 52 anos a mais que a previsão
feita em 2015. O Brasil ocupa a 79º posição no ranking, e os apontadores de maior relevância foram
determinados como sendo a participação econômica e política.

De fato, por mais que seja uma notícia triste, ela é promissora e até mesmo audaciosa, mas na mesma
linha, demasiado ingênua. Uma afirmação como essa presume que o problema sofrido pelas
mulheres não é uma questão estrutural, mas apenas de configuração sistemática, sendo possível então
estabelecer medidas estimativas para uma mágica emancipação, sem antes pensar em como se dão
os processos de dominação e até onde eles vão. Ela não resiste a mínima análise crítica dos
problemas levantados pela teoria feminista contemporânea, ainda mais se considerarmos todas as
matizes do conceito de gênero, bem como a complexidade multifacetada dominação da mulher, que
vai muito além do que tal reducionismo econômico poderia atingir.

Pretendo aqui analisar, através de uma concepção da categoria de gênero, aspectos de injustiças
sociais, políticas, e morais sofridas pelas mulheres em nossa sociedade com foco no ambiente
“privado”, dando ênfase à sua importância para a tarefa do feminismo.

 A QUESTÃO DO SER MULHER: A DESESSENCIALIZAÇÃO EXISTENCIALISTA COMO


SEMENTE DA CONCEPÇÃO DE GÊNERO.

A missão central de onde parte, em geral, o pensamento feminista é a tarefa de desnaturalizar o ser
mulher, afastando a ideia de uma essência feminina determinante de sua personalidade, identidade e
comportamento. Isso se faz na chave de compreensão segundo a qual a significação do que é ser
mulher é determinada pelo sistema patriarcal, isto é, pela noção básica de que as qualidades
normalmente atribuídas às mulheres não são de fato delas, mas injustamente atribuídas a elas pelos
homens. A depreciação do ser mulher se dá então por uma essencialização pejorativa constituidora
de um “eterno feminino” eternamente inferior e oposto a um “eterno masculino”.

Certamente uma das filosofias mais exitosas na tarefa de descristalizar essências é o Existencialismo,
especialmente como posto por Sartre e Beauvoir. Em “O segundo sexo” Simone Beauvoir nos
mostra as dificuldades que o afastamento do determinismo nos traz por suas consequências:

2
http://g1.globo.com/economia/concursos-e-emprego/noticia/2016/10/igualdade-de-genero-no-mercado-so-sera-
alcancada-em-2186.html
“Se a função da fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos também
explicá-la pelo "eterno feminino" e se, no entanto, admitimos, ainda que
provisoriamente, que há mulheres na terra, teremos que formular a pergunta: que é
uma mulher ?3”

Se não há propriamente um “ser-mulher”, uma essência pré-configurada que determine a


feminilidade, o que seria então ser mulher ? ou mesmo ser feminina(o) ? Esta herança platônica é tão
profundamente em nós arraigada que torna difícil pensar sem as categorias de essência. Embora o
existencialismo nos dê uma saída através do conceito de existência e de liberdade, segundo o qual
nós primeiramente existimos em situação e construímos nossa própria identidade na medida em que
vivemos e escolhemos de forma absoluta e inexoravelmente livre, não é a isso que nos convém ater
aqui.

Cabe observar que, se não é a natureza a determinante de nossas personalidades, e portanto não
nascemos da forma que somos, é claro que nos tornamos o que viemos a ser, isto é, somos formados
através da experiência individual, social, política, econômica e histórica de nossas vidas. Ora, a
categoria de gênero caminha nesse sentido pois, como Joan Scott afirma:

“No seu uso mais recente, o “gênero” parece ter aparecido primeiro entre as feministas
americanas que queriam insistir no caráter fundamentalmente social das distinções
baseadas no sexo. A palavra indicava uma rejeição ao determinismo biológico
implícito no uso de termos como “sexo”ou “diferença sexual”. O gênero sublinhava
também o aspecto relacional das definições normativas das feminilidades”4

Observando essa proximidade da categoria de gênero com a atitude filosófica existencialista fica
claro seu poder “desubstancializante”, e portanto crítico. É claro que não existe apenas essa
concepção de gênero, e de fato essa é por só uma grande questão não só na teoria feminista mas nas
ciências humanas em geral5. Contudo, pretendo aqui analisar problemas de gênero não segundo sua
causa ou natureza mesma, buscando de fato os porquês da dominação masculina, mas antes efetuar
um diagnóstico de nossa sociedade atual da forma como se apresenta, a fim de apresentar possíveis
soluções políticas para bloqueios da emancipação humana, bem como fundamentá-las
filosoficamente. Por tanto, estamos aqui próximos ao trabalho da teoria crítica, e nos importa mais a

3
Simone de Beauvoir. “Introdução”, em O segundo sexo (difusão européia do livro, 1949). P. 16
4
Joan Scott – Gender: a useful category of historical analyses. Pg 3 da Versão digital traduzida por Christine Rufino
Dabat e Maria Betânia Ávila.
5
Cf: J.Butler, que possui concepções radicalmente diferentes desta aqui exposta. Com base na crítica da metafísica da
substância de Foucault para Butler o próprio corpo também é construído, assim como o gênero.
eficiência analítica dos termos para compreender a situação dada, e seu poder de apresentar saídas
aos problemas e problematizar aparentes soluções. Tendo isso em mente o conceito de gênero como
tradução sócio-política de diferenciações biologicamente determinadas em nossos corpos, ou a “
institucionalização social das diferenças sexuais”6, já nos é suficiente para o fim que será proposto.

 A IMPORTÂNCIA DA ANÁLISE DO AMBIENTE PRIVADO SEGUNDO A ÓTICA DE


GÊNERO.

Susan Moller Okin em seu artigo “ Gênero, o público e o privado” acusa a negligência da filosofia
política contemporânea para com resultados importantes dos estudos feministas em teoria política,
principalmente com a categoria de gênero. Contudo, para Okin, “ essa marginalização será mantida
apenas à custa da contínua coerência, abrangência e capacidade de persuasão da teoria política.”
Considero essencial para a análise das injustiças sofridas pelas mulheres u m olhar sobre o ambiente
familiar e a noção de “privado”.

Façamos o exercício mental de imaginar que os dois fatores considerados pelo FEM os mais
problemáticos para nossa situação no Brasil, a desigualdade econômica e de representação política,
fossem sanados nos termos colocados, e na acepção na qual se entende ambos no nosso país.
Teríamos uma sociedade na qual homens e mulheres têm salários iguais para as mesmas funções e
uma paridade proporcional de representantes políticos, isto é, uma quantidade de homens e mulheres
nas cúpulas do governo segundo a proporção dos dois gêneros na população brasileira7.
Alcançaríamos assim uma igualdade de gênero ? ou antes, Justiça ? Creio que não. Embora não se
deva menosprezar os efeitos que a disparidade econômica têm na situação da mulher, como sua
direta dependência financeira para com o homem, não se pode reduzir a questão a esse fator, afinal
muitos se interseccionam para engendrar nosso quadro e, a despeito das teóricas feministas
marxistas, o econômico está longe de ser o principal ponto de sustentação do patriarcado.

Parte fundamental do problema reside na dicotomia público e privado, central na teoria política
desde a modernidade, mas que tem sido cada vez mais menosprezada e tomada como certa, como
acusa Okin em seu artigo:

6
OKIN, Susan Moller: "Gênero, o público e o privado", PG 306
7
Iris Marion Young desenvolve discussão importante sobre essa acepção de representação política em seu artigo:
“Representação política, identidade e minorias”. Lua Nova, São Paulo, 67: 139-190, 2006
“(...) é a permanência dessa dicotomia que torna possível que os teóricos ignorem a
natureza política da família, a relevância da justiça na vida pessoal e, conseqüentemente,
uma parte central das desigualdades de gênero. Vou me referir a essa dicotomia como
“público/doméstico”.

Nossas exigências de justiça entre homens e mulheres foram durante muito tempo barradas por um
véu que essa dicotomia liberal jogou sobre o ambiente da família, categorizado como privado, e
portanto legalmente fora da jurisdição do público, do estado. Este véu lhe dava um estatuto de esfera
“apolítica”. Mas antes mesmo dessa proteção maliciosa do privado, temos um problema na própria
dicotomia, pois historicamente o homem foi cada vez mais identificado na esfera do público, isto é
do político e econômico, e a mulher confinada na esfera do privado. Presa as responsabilidades
domésticas e de reprodução, as mulheres foram consideradas naturalmente inaptas para a prática
social-política. 8Essa dicotomia foi um grande avanço para a teoria política da modernidade,
principalmente por dar importância aos direitos a privacidade, proporcionando coisas como a
liberdade religiosa e a liberdade individual. Como expoente desse trabalho temos que lembrar de
John Locke em seus “ Tratados sobre o governo”. Contudo, o grande problema do pensamento
liberal de autores como Locke e Rousseau é a pressuposição do indivíduo como o “pai de família”, o
que dentro da perspectiva do público/doméstico causa a apolitização da família como
necessariamente suporte da opressão feminina. Como Okin bem observa:

“Como os estudos feministas têm revelado, desde os princípios do liberalismo no século


XVII, tanto os direitos políticos quanto os direitos pertencentes à concepção moderna
liberal de privacidade e do privado têm sido defendidos como direitos dos indivíduos; mas
esses indivíduos foram supostos, e com freqüência explicitamente definidos, como adultos,
chefes de família masculinos.”9

Através da ótica de gênero podemos perceber como esse”indivíduo” moderno sustenta uma falsa
neutralidade. Mesmo após muitos desenvolvimentos da filosofia política desde o século XVII,
devido a negligência do pensamento feminista, grande parte dos teóricos continuam a acreditar na
neutralidade e pacificidade da distinção público/privado. O véu “ apolítico” do ambiente familiar
desconsidera que existam relações de poder internas ao doméstico pois ingenuamente considera
marido e mulher como uma só entidade completa e eternamente pacífica e consciente de seus laços,

8
Ibidem pg308
9
Ibidem
uma ficção jurídica de cunho claramente religioso10. Okin ressalta bem que os direitos a privacidade
concedidos a esses “indivíduos”, isto é, aos homens significava também a proteção contra a intrusão
do estado ou da esfera pública em geral dentro de sua casa, ou seja também eram:

“(...)os direitos desses indivíduos a não sofrerem interferência no controle que exerciam
sobre os outros membros da sua esfera de vida privada – aqueles que, seja pela idade, sexo
ou condição de servidão, eram vistos como legitimamente controlados por eles e tendo sua
existência limitada à sua esfera de privacidade. Não há qualquer noção de que esses
membros subordinados das famílias devessem ter seus próprios direitos à privacidade.”11

A vantagem de pensar em termos de gênero ao tratar dessas situações é perceber as diferenças entre
os diversos tipos de indivíduos, que não podem ser considerados como átomos iguais em condições
para uma ação social totalmente autônoma, como frequentemente se pressupõe nas teorias políticas,
principalmente devido a herança moderna da concepção de sujeito, como desenvolvida em Descartes
e Kant. O gênero de um indivíduo é a forma pela qual uma dada sociedade num dado momento
histórico categoriza seus papéis sociais e essencializa características meramente situacionais, ou
mesmo mal interpreta propositalmente dados biológicos e fisiológicos a fim de manter uma
supremacia de determinado grupo, no caso o masculino, algo frequentemente motivado por visões
religiosas de mundo, mas certamente não exclusivas a essas. Através da mesma categoria podemos
perceber também a falsa binaridade da divisão dos gêneros, como Judith Butler trabalha bem em seu
“Problemas de gênero”. Contudo pretendo focar a discussão na situação das pessoas que se
encontram no gênero normativo de feminino cis.

A situação do ambiente familiar para a mulher só pode ser compreendida como questão de justiça
social se for entendida a precedente discussão acerca dos problemas da dicotomia público/privado
sobre ótica de gênero.Como exemplo da importância da perspectiva que a categoria de gênero nos dá
podemos analisar a própria história do feminismo. Desde aquilo que se convencionou,
problematicamente, chamar “protofeminismo”, até as feministas do século XIX ao início do XX, e
também da chamada segunda onda do feminismo, nos anos 1960, os papéis sociais da mulher dentro
do ambiente familiar não foram profundamente criticados. As suffragettes, por exemplo, muitas
vezes argumentavam que os direitos que reivindicavam eram importantes também porque tornariam

10
A” Coverture” era uma doutrina legal comum em países como Inglaterra e E.U.A durante muito tempo e tratava
justamente disso. Homem e mulher eram considerados uma mesma pessoa jurídica unida pelo casamento, sendo os
direitos da mulher não separados dos do homem.
11
Ibidem
as mulheres melhores mães e esposas, apelavam até mesmo para uma suposta sensibilidade moral
hiper-aflorada no feminino que poderia contribuir no espaço público. 12

Dado essa problemática do ambiente privado, a teoria feminista caminhou cada vez mais para uma
redefinição da esfera chamada de “pessoal”, ressaltando os aspectos da dinâmica do poder que se
articulam dentro das relações privadas entre os sexos.

 A REDEFINIÇÃO DO PRIVADO: DOS DIREITOS DE PRIVACIDADE DE ENTIDADE A


PRIVACIDADE INDIVIDUAL.

Jean L. Cohen faz uma bela contribuição dentro dessa redefinição do “privado”. Seu trabalho é ainda
mais importante quando consideramos que muitas feministas encararam a dicotomia privado/pública
como sendo não só central ao patriarcado13, mas sendo ela própria a raiz do problema, tornando-se
necessário abolir tais conceitos, por estarem contaminados pelo pensamento liberal machista,
renegando até mesmo o conceito de família e espaço privado em geral.Abordagens dessa estirpe são
comuns entre as comunitaristas e feministas "igualitaristas", que questionam direitos a privacidade
como uma medida desigual e reforçadora da ideologia liberal e patriarcal de público/privado. Contudo :

“Resumidamente, ambas as abordagens supõem que o que tomam pela interpretação liberal
dos direitos à privacidade é a interpretação definitiva desses direitos e, por isso, propõem o
abandono do discurso da privacidade como um todo.”14

Queremos aqui nos aliar ao pensamento de Cohen, no sentido de valorizar o conceito de privado e se
afastar do pensamento radical de algumas feministas marxistas, que chegam a conclusões como a
supracitado. Cohen bem atenta que:

“Mas “desmascarar” (ou, em um jargão mais contemporâneo, “desconstruir”) a


mobilização de conceitos que servem às finalidades da dominação é apenas metade da
tarefa da crítica. Cabe-nos agora movermo-nos para além de uma hermenêutica de
suspeição e redescrever, em termos mais propícios para as mulheres, o bem que é
protegido pela privacidade.15”

12
Ibidem Páginas 312 e 313
13
Pateman diz que ““a separação e oposição entre as esferas pública e privada na teoria e na prática liberal [...] é, em
última instância, aquilo a que se refere o movimento feminista”. Em “Feminist Critiques of the Public/Private Dichotomy.”
In: BENN, Stanley I., and GAUS, Gerald F. (eds.). Public and Private in Social Life. London: Croom Helm, 1983.
14
Cohen. “ Repensando a privacidade autonomia, identidade e controvérsia sobre aborto” pg 171
15
Ibidem PG 169
Para Cohen o pensamento sobre o ambiente privado foi sempre produzido na chave da entidade
familiar, sendo os direitos a privacidade não consentidos realmente aos indivíduos, como a teoria
liberal desde o começo pretende sustentar, mas a entidade família, que obviamente possui relações
internas de dominação e submissão provenientes do patriarcado.

Estando desmascarada a falsa neutralidade dos direitos à privacidade até então, expondo sua função
preservadora das desigualdades e injustiças sociais entre homens e mulheres, cabe a nós pensar o
privado como uma esfera de direitos individuais, estando então a mulher protegida ao escrutínio
público e a intromissão do estado não só referente à esfera pública do social, mas também dentro de
seu ambiente familiar. Ancorados dessa forma, "os direitos à privacidade individual devem servir
como proteção para a integridade pessoal e corporal dos membros da 'família', no caso dessas
relações virem a sofrer distorções ou se romperem"16.

Os direitos individuais à privacidade são essenciais para a própria formação de um indivíduo. Dentre
os direitos que circulam nesse núcleo estão o direito a inviolabilidade da intimidade, da integridade
corporal e moral. Ele proporciona condições básicas para a construção da identidade de uma pessoa,
seja pela proteção ao desenvolvimento de vínculos íntimos consigo mesmo quanto a garantia da
liberdade para desenvolver nossas capacidades mentais e criativas17.

 DIREITOS À PRIVACIDADE COMO DIREITOS AO PRÓPRIO CORPO: O ABORTO


COMO ASSUNTO DE FÓRUM PRIVADO.

Cohen analisa muito bem como dentre os casos sobre aborto nos tribunais dos E.U.A, em especial
nos mais paradigmáticos como o caso Roe vs Wade, a noção de privacidade vem mudando 18 no
pareceres dos juízes “passando de uma preocupação “tradicional” em manter fora da visão do público
certos fatos pessoais, íntimos – ou uma privacidade informacional – para um direito contemporâneo a
engajar-se em certas condutas sem restrições governamentais, em nome da escolha individual.” Na
medida em que redescrrvemps o privado, temos que pensar novamente nos tópicos que legitimamente
pertencem a esse domínio. Pretendo demonstrar que o aborto é um tema cuja decisão deve se dar nessa

16
IBIDEM pg 178
17
Este último ponto é muito bem analisado por Virgínia Woolf em “ Um quarto só seu”
18
Felizmente, podemos diagnosticar esse tipo de tendência emancipatória no pensamento legal brasileiro
recente, como o voto do ministro Luís Roberto Barroso sobre um caso envolvendo o aborto nos deixa ver. É
inegável a similaridade de seu discurso com o do juiz Blackmun citado por Cohen em seu artigo como
exemplo do novo pensamento acerca da privacidade.
esfera do privado, por mais que a opinião geral costume, mesmo que sorrateiramente, pensar o
contrário.19

Como vimos, os direitos à privacidade devem ser concedidos aos indivíduos, estando o círculo do
privado demarcado em torno deles, e não das entidades familiares, pois esse ambiente não é imune às
relações de poder e portanto só pode constituir uma esfera privada ao redor de sí mediante livre
consentimento e acordo entre os participantes da família, o que a ótica de gênero nos permite
observar que não ocorre de fato, pois a autoridade do pai de família sobrepuja a de todos os outros
membros, especialmente os do gênero feminino. Contudo há ainda outro aspecto da privacidade que
deve ser destacado: Os indivíduos em poder de seus direitos são corpos, “ somos todos individualidades
corporificadas.”20

Em última instância advogar em favor da existência de um espaço privado individual, isto é, a favor
do direito de um indivíduo possuir “assuntos pessoais” protegidos da intromissão da sociedade ou do
estado, acerca dos quais a última palavra cabe somente a ele, é defender o direito ao próprio corpo.
Que esfera poderia ser mais íntima que essa? Ainda sim, não se trata da defesa do direito a posse de
seu próprio corpo e dos assuntos que o concernem, pois afinal nós somos nossos próprios corpos.
Esse é um tipo de pensamento que rodeia muitas discussões acerca de direitos individuais, mas
normalmente não refletido.

Isso é devido a uma tradição filosófica dualista, principalmente forte no pensamento cristão, mas que
depois foi laicizada por pensadores como Renè Descartes, tornando-se aspecto distintivo da
metafísica da modernidade. Segundo essa concepção há uma dimensão do corpo e uma dimensão do
espírito, estando nossa identidade localizada na última, e na primeira meros traços de uma
sensibilidade pretensamente enganosa. Hoje em dia só é possível pensar assim mediante uma
gigantesca porção de ignorância filosófica. É importante perceber que isso não se trata de mero
preciosismo técnico, mas tem consequências sócio-políticas gravíssimas. Este é o caso do aborto.

A proibição institucionalizada do aborto é necessariamente um desrespeito aos direitos individuais da


mulher, e portanto dos seus direitos ao seu próprio corpo, ou seja, ela mesma. Quando o estado

19
IBIEM pg 178.
20
IBIDEM pg 195 . Cohen resume este ponto com essa frase ao falar do aborto. É clara a referência a filosofias como a
fenomenologia de Merleau Ponty.
proíbe uma mulher de interromper uma gravidez indesejada ela é destituída de sua autonomia
corporal e ética. Cohen destaca que:
“Sem o reconhecimento pelos outros do controle autônomo de alguém sobre o próprio
corpo, sobre sua integridade corporal, sem pelo menos esse reconhecimento mais básico da
dignidade de alguém, a autoimagem do indivíduo fica mutilada (perda da autoconfiança), o
mesmo ocorrendo com a segurança que lhe é necessário para interagir adequadamente com
os outros e expressar suas próprias necessidades e sentimentos”21.

Como já citei, dentre os direitos que circulam no núcleo da privacidade está o direito a integridade
corporal e moral. Se não descolamos o corpo da identidade de um indivíduo então temos que esses
mesmos direitos devem assegurar uma integridade da personalidade de um ser, isto é, a proteção
legal das escolhas que um ser vivo toma como as suas próprias no decorrer de sua vida, a soma de
sua identidade. Portanto negar as condições minimamente necessárias para um aborto seguro e legal
é querer impor autoritariamente uma identidade à mulher, a de mulher gravida, ensejada pela ficção
religiosa e desrespeitosa da gravidez como uma grande maravilha, como uma experiência que não é
tão perigosa, difícil, trabalhosa e dolorosa quanto, em realidade, é.

Em última instância medidas públicas que proibem ou dificultam o acesso legal ao aborto se
fundamentam na ideia de que esse não é um assunto de fórum privado, mas público. Na medida em
que desprezam o corpo, aqueles que apoiam tais medidas o fazem segundo a opinião de que toda
vida é sagrada, e que o ser em potencial em gestação tem o direito a viver, direito esse que deveria
sobrepujar o direito pessoal da mãe de decidir ou não dar continuidade a algo tão grande e
transformador na vida dela, vida que já está em ato, complexa e singularmente. Essas medidas
proibitivas forçam uma opinião geral, fundamentalmente religiosa, afinal nem ao menos é posto em
prática um trabalho para definir de fato o que é vida, num domínio estritamente privado. Muitos
inclusive, num claro sinal de desonestidade intelectual, ou mesmo pura ignorância, argumentam que
uma lei que descriminaliza o aborto é ruim pois o incentiva. Dentre outras formas possíveis,
argumentar sobre o direito ao aborto como direito à privacidade, como direito ao corpo e a
integridade da personalidade de uma mulher, é mais que o suficiente para rebater tal absurdo. Como
Cohen bem coloca:

Assim, quanto à justificação para a escolha reprodutiva, uma mulher pode decidir
favoravelmente ou contra o aborto com base nos valores de sua comunidade, em sua visão de
mundo religiosa ou em suas discussões com “outros significativos”– sua relação com a

21
IBIDEM pg196.
tradição, com a comunidade ou com as pessoas que ama não está em questão aqui. Seu direito
de decidir não determina o fundamento de sua decisão. Os direitos de privacidade decisória
designam o indivíduo como o lócus do processo decisório quando estão envolvidos certos
tipos de questões éticas ou existenciais – eles não determinam a quem se precisa justificar as
escolhas éticas nem os tipos de razões que se deve oferecer”22

Seu direito de decidir não determina nem o fundamento nem o conteúdo de sua decisão. O estado se
alia determinantemente ao patriarcado e ao autoritarismo ao proibir o aborto. Nem precisamos apelar
para argumentos práticos, como o fato desse assunto ser também um caso de saúde pública, mas já
nos é suficiente demonstrar que a mulher, se for considerada como dona de sí e de seus destinos,
deve ter o direito de decidir se será mãe ou não, estando ela já grávida ou não. A proibição não só
tuteliza e infantiliza a mulher, não reconhecendo sua autonomia decisória, sua autonomia e
integridade corporal, e nem mesmo sua responsabilidade e competência ética. Trata-se de uma
medida que sintetiza em um grau perturbador a opressão que sentem as mulheres cotidianamente. O
estado estupra a privacidade da mulher, penetrá-lhe o âmago de sua personalidade, seu próprio corpo
é retirado de sí, ela se retira de sua própria jurisdição e é tratada como mera reprodutora da espécie.
A liberdade reprodutiva é necessária, pois:

“envolve o cerne da identidade de uma mulher – estão em jogo sua corporificação, seus
processos de autoformação, seus projetos de vida e sua compreensão sobre si própria.
Todos os indivíduos necessitam de algum sentimento de controle sobre seus corpos, sobre
suas autodefinições, sobre a síntese autocriativa que só o indivíduo pode produzir a partir
de suas várias localizações, experiências passadas e projetos futuros. A inviolabilidade da
personalidade e o sentimento de controle sobre os territórios de si, incluindo o corpo,
permanecem indispensáveis a qualquer concepção de liberdade”23

A discussão sobre o aborto é um exemplo bom para mostrar como a gama de coisas consideradas de
fórum privado são muitas vezes as mais importantes no trabalho do feminismo. É nesses espaços que
os valores morais se afloram, e onde a ideologia machista se sente mais à vontade para ser,
especialmente nos últimos tempos, onde os movimentos feministas têm feito forte pressão contra o
pensamento machista dominante, especialmente nos espaços públicos. Argumentei aqui no sentido
de demonstrar como o descaso geral para com a categoria de gênero esconde problemas cruciais para
a subordinação feminina, desde todos aqueles que ocorrem no ambiente familiar, quando
unilateralmente coberto por um direito à privacidade de entidade, e também em casos

22
IBIDEM pg
23
IBIDEM pg 198
subterraneamente considerados públicos, quando na verdade são de fórum privado, como o caso do
aborto.