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A GINÁSTICA LABORAL NA ERGONOMIA DO TRABALHO EM


ENFERMAGEM

Marli de Souza1

RESUMO
Com o avanço tecnológico, as facilidades da vida moderna e os desconfortos gerados
durante o trabalho, vemos o corpo, que é uma das mais importantes ferramentas de
trabalho. A ergonomia, que se caracteriza pelo estudo do comportamento do homem em
relação ao seu trabalho, busca poupar seus funcionários de incômodos que prejudicam
suas atividades e sua saúde, onde a Ginástica Laboral se caracteriza como uma prática da
atividade física durante a jornada de trabalho, que se atrela à programas de qualidade de
vida aplicados nas empresas, visando além da melhora da percepção do bem-estar dos
colaboradores, previnem a ocorrência de LER/DORT. Dentre suas diferentes
classificações e objetivos, a ginástica laboral proporciona benefícios fisiológicos,
psicológicos e sociais, principalmente aos trabalhadores de enfermagem, que possuem
uma sobrecarga e a exigência por produtividade como fator estressante, obtendo um ritmo
exaustivo de trabalho, inclusive com regime de plantões, carga horária de trabalho
elevada, trabalho em turno noturno, etc. Dessa forma, a inclusão da Ginástica Laboral em
trabalhadores de Enfermagem, propicia a redução de danos característicos a esta
profissão, dado o seu grau considerável de insalubridade, devendo haver um incentivo e
esforço para sua implementação juntamente com outras ações de promoção à saúde, pois,
contribuindo significativamente nessa necessidade na consideração de que o exercício
físico prescrito corretamente é considerado o maior promotor, não medicamentoso para
o bem-estar e saúde.

Palavras-chave: Ginástica Laboral. Ergonomia. Enfermagem.

ABSTRACT
With the technological advancement, the facilities of modern life and the discomforts
generated during work, we see the body, which is one of the most important tools of work.
Ergonomics, which is characterized by the study of the behavior of the man in relation to
his work, seeks to save his employees from discomforts that harm his activities and his
health, where the Gymnastics Labor is characterized as a practice of physical activity
during the work day, which is linked to the quality of life programs applied in companies,
aiming at improving the perception of employee well-being, prevent the occurrence of
RSI / DORT. Among its different classifications and objectives, labor gymnastics
provides physiological, psychological and social benefits, mainly to nursing workers,
who have an overload and the requirement for productivity as a stressing factor, obtaining
an exhaustive rhythm of work, including a work schedule, High working hours, night
shift work, etc. Thus, the inclusion of the Labor Gymnastics in Nursing workers, favors
the reduction of damages characteristic to this profession, given its considerable degree
of insalubrity, and there should be an incentive and effort for its implementation along
with other health promotion actions, since, contributing significantly to this need in the

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Especialização em Medicina do Trabalho pela Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão
(FAEPE) de Serviços à Comunidade da FAMERP, São José do Rio Preto, São Paulo, Brasil. E-mail do
autor:.... Orientador: .....
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consideration that correctly prescribed physical exercise is considered the major


promoter, not medicated for well-being and health.

Keywords: Labor gymnastics. Ergonomics. Nursing.

INTRODUÇÃO

Com o avanço tecnológico, as facilidades da vida moderna e os desconfortos


gerados durante o trabalho, vemos o corpo, que é uma das mais importantes ferramentas
de trabalho, quase sempre dolorido, tenso ou forçado a permanecer em uma posição
desconfortável, tendo ama maior probabilidade de danos ao desempenho profissional.
A expressão, Lesões por Esforços Repetitivos (LER), usada no Brasil, vem sendo
substituída por Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT). Essa
denominação destaca a palavra “distúrbio”, eu ao invés de lesões, refere-se ao que se
percebe, na prática: ocorrência de distúrbios em uma primeira fase precoce (como fadiga,
peso nos membros e dor) e obtendo em uma fase mais adiantada, as lesões (BARBOSA
et al., 1997; MENDES, 1998).
Os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho são doenças
ocupacionais ocasionadas em incidência de lesões por traumas cumulativos, resultando
uma descompensação entre a capacidade de movimento da musculatura e a execução de
movimento rápido e constante (OLIVEIRA, 2006; MARTINS; DUARTE, 2001).
A ergonomia, que se caracteriza pelo estudo do comportamento do homem em
relação ao seu trabalho, busca poupar seus funcionários de incômodos que prejudicam
suas atividades e sua saúde. As empresas, em busca da diminuição de distúrbio e
problemas que afetem a saúde de seus colaboradores, cada vez mais, adotam Ginástica
Laboral como uma prática da atividade física durante a jornada de trabalho, atrelando
programas de qualidade de vida aplicados nas empresas (MARCHAND; SIQUEIRA,
2008). Além de visar uma melhora da percepção do bem-estar dos colaboradores,
previnem a ocorrência de LER/DORT.
Este estudo de revisão bibliográfica, busca ressaltar a importância da Ginástica
Laboral na rotina dos trabalhadores de enfermagem, utilizando de uma abordagem
qualitativa, pesquisando em livros, dissertações, artigos e outros bancos de dados.
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1 A ERGONOMIA

A palavra ergonomia, derivada do grego ergon, significa trabalho e nomos


significa normas, regras, leis, se caracterizando como uma disciplina científica
relacionada ao entendimento das interações entre seres humanos e outros elementos de
um sistema (ABRAHÃO, 2005). A ergonomia é também a profissão que aplica teoria,
princípios, dados e métodos para projetar a fim de otimizar o bem-estar humano e o
desempenho geral de um sistema (FERNANDES, 2007 apud GIORDANI, 2011).
Seu intuito é configurar, planejar e adaptar o trabalho ao homem (IIDA, 1990),
definindo-se como um conjunto de conhecimentos científicos referentes ao homem,
necessários na concepção de máquinas, dispositivos e ferramentas que podem vir a ser
empregados com o máximo de segurança, eficiência e conforto (WISNER, 1987).
Os estudos feitos a respeito da relação do homem com o ambiente de trabalho são
constantes, relacionando o conforto ou mesmo as horas de descanso. Ambos são de grande
importância, mas poucas pessoas prestam atenção nestes detalhes.
De acordo com Abrahão (2005), a ergonomia vem justamente estudar estas medidas
de conforto, a fim de uma melhor produção e rendimento no trabalho, prevenindo acidentes
e proporcionando uma maior satisfação do trabalhador.
Segundo este autor, a ergonomia possui três domínios de especialização:
 A Ergonomia Física: se relaciona com as características da anatomia humana,
antropometria, fisiologia e biomecânica em sua relação à atividade física. Trata das respostas
do corpo humano à carga física e psicológica. Inclui a manipulação de materiais, demandas
do trabalho e fatores relacionados com lesões músculo-esqueléticas. Os tópicos relevantes
incluem o estudo da postura no trabalho, manuseio de materiais, movimentos repetitivos,
distúrbios músculo-esqueléticos relacionados ao trabalho, projeto de posto de trabalho,
segurança e saúde
 A Ergonomia Cognitiva: se refere aos processos mentais e recuperação de
memória, como eles afetam as interações entre seres humanos e outros elementos de um
sistema. Os tópicos relevantes incluem o estudo da carga mental de trabalho, tomada de
decisão, desempenho especializado, interação homem computador, estresse e treinamento
conforme esses se relacionem a projetos envolvendo seres humanos e sistemas
 A Ergonomia Organizacional: está relacionada com a otimização dos sistemas
socio-técnicos, programação e satisfação no trabalho, teoria motivacional, trabalho em
equipe, trabalho à distância e ética. Os tópicos relevantes incluem comunicações, projeto de
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trabalho, organização temporal do trabalho, trabalho em grupo, projeto participativo, cultura


organizacional, organizações em rede, teletrabalho e gestão da qualidade.

1.1 A ergonomia e o enfermeiro do trabalho

Com inadequadas condições de trabalho dos trabalhadores, principalmente os de


enfermagem, a Organização Internacional do Trabalho (OIT), vem desde a década de 40,
considera este problema em suas discussões e faz recomendações quanto à higiene e
segurança na finalidade de adequar as condições de trabalho destes profissionais
(COUTO, 1995).
As condições insatisfatórias se relacionam com fatores biológicos, físicos,
químicos, psicossociais e ergonômicos, que podem causar danos à saúde dos profissionais
atuantes (MARZIALE, 1990).
Alexandre (1998) aponta que os fatores ergonômicos incidem no comportamento
do trabalhador, através do desenho dos equipamentos, do posto de trabalho, a maneira de
execução da atividade exercida, a comunicação e o meio ambiente (grau de insalubridade,
iluminação, temperatura, etc.).
Para Couto (1995), aplicando os princípios da ergonomia, propicia-se a interação
adequada e confortável do ser humano com os objetos eu maneja e o ambiente de trabalho,
além de melhorar a produtividade, reduzindo custos laborais que podem se manifestar
através de absenteísmo, rotatividade, conflitos e pela falta de interesse para o trabalho.
Mauro et. al. (1976) foram os pioneiros no Brasil em utilizar os princípios
ergonômicos analisando o trabalho de enfermagem e atualmente com maiores estudos
realizados.
Marziale (1990), utilizou da abordagem ergonômica para analisar a fadiga mental
entre enfermeiras que atuavam em hospital em esquema de turnos alternantes, resultando
que este referido esquema de horários gerava a inadaptação das enfermeiras as condições
de trabalho.
Diversos estudos constatam que grande parte das agressões à coluna vertebral
estão relacionadas à inadequação de mobiliários e equipamentos que são utilizados nas
atividades cotidianas de Enfermagem juntamente com a adoção de má postura corporal
realizadas pelos trabalhadores (BENEDITO; CONTIJO, 1996; ALEXANDRE, 1998).
Martins (2005) aponta como crucial a informação sobre ao posto de trabalho e
consequentemente, aos seus ajustes ergonômicos, facilitem ao máximo em uma
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intervenção positiva do indivíduo em seu posto de trabalho, através de programas


ergonômicos que proporcionem aos trabalhadores um conhecimento ergonômico e
habilidades que ajustem adequadamente o ambiente de trabalho, tendo eficácia na
redução dos índices de lesões e custos associados a tais lesões.
O trabalho em enfermagem envolve diversos fatores de risco que comprometem
a saúde, onde muitas organizações de saúde possuem atendimento de níveis elevados de
complexidade e diversidade de serviços que geram riscos ocupacionais que possam
propiciar distúrbios osteomusculares nestes trabalhadores (GURGUEIRA;
ALEXANDRE; FILHO, 2003).
Cavalcante, Enders e Menezes (2006), observando a prática diária de profissionais
de enfermagem, verificam um déficit na relação entre o processo de trabalho e sua relação
saúde-doença, que ocasionam agravos a saúde, que atrelado a falta de informações sobre
os riscos ocupacionais aos quais estão expostos, há um destaque aos riscos físicos,
químicos, biológicos, ergonômicos, riscos de acidentes.
Moreira (2003), apontam que riscos físicos são ruídos: provocados por aparelhos
e poluição sonora interna ou externa ao hospital, temperatura e desconforto térmico;
riscos químicos são aqueles que podem penetrar no organismo assim como poeira do
ambiente, gases Hélio, Oxigênio; vapores, álcool e éter, glutaraldeido, hipoclorito de
sódio, sabão germicida, medicamentos citotóxicos, imunossupressores; riscos biológicos
são aqueles que compreendem as bactérias, fungos, parasitas e vírus; riscos ergonômicos
são aqueles de exigência de atenção e vigilância permanente, exigência de ritmo de
trabalho intenso, exigência de posturas inadequadas, monotonia e repetitividade física,
gestual, mental, sobrecarga de trabalho e dentre os riscos de acidentes destacamos:
iluminação inadequada, piso impróprio, equipamento de proteção individual inexistente
ou inadequado manipulação de perfuro-cortante; equipamentos elétricos sem proteção.
No desenvolvimento do cuidar da enfermagem, estes profissionais muitas vezes,
desenvolvem atividades em um ambiente insalubre, estando sujeitos aos mais diversos
riscos, como contato constante com material biológico, presença de microrganismos,
utilização de dispositivos perfuro cortantes, sobrecarga de trabalho, jornadas prolongadas
e cansativas, materiais e equipamentos desapropriados, sucateados e não padronizados
em suas dimensões. Isto que exige frequentes adaptações, comprometendo a segurança
do trabalho, transporte e movimentação de pacientes, contato direto com a dor e morte,
estando desta forma, vulneráveis ao adoecimento tanto físico quanto psíquico.
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Utilizando do conhecimento aos riscos ergonômicos e realizando uma mecânica


corporal adequada, pode-se evitar afastamentos do trabalho decorrentes de problemas
osteomusculares entre outros.

2 A GINÁSTICA LABORAL

A primeira manifestação da atividade esportiva no âmbito interno de empresa no


Brasil ocorreu na fábrica de tecidos Bangu, sediada no Rio de Janeiro, em 1901, com os
trabalhadores dessa indústria têxtil, de capital e gestão inglesa, reunindo-se em torno de
um campo de futebol para praticar atividades físicas (LIMA, 2003).
A adoção de programa de atividades físicas dentro das empresas, com a
denominação de GL, vem sendo efetuada em nosso país por alguns empresários e
instituições mais esclarecidas e com idéias inovadoras.
Com pioneirismo de uma iniciação experimentada, no Rio Grande do Sul, em
1973, houve a implementação de um projeto experimental em cinco empesas do Vale
Sinos, onde em uma dessas empresas, foi afirmado que o índice de ocorrência mensal de
acidentes, caiu praticamente a zero após a inserção destas atividades, obtendo também
em uma outra empresa, um período de dois anos sem acidentes (GOULART; BECKER,
1999).
Segundo Lima (2003), os estudos sobre a GL iniciaram-se em outubro de 1995,
com a análise da importância da reeducação postural, o alívio do estresse e do método de
ginástica no local de trabalho, na finalidade de valorização da prática de atividade física
como instrução da saúde e da prevenção de lesões como as LER – Lesões por Esforços
Repetitivos – e os DORT – Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho.
O autor caracteriza a GL como “[...] um conjunto de práticas físicas, elaborada a
partir da atividade profissional exercida durante o expediente, que visa compensar as
estruturas mais utilizadas no trabalho e ativar as que não são requeridas, relaxando-as e
tonificando-as” (p. 07).
Esta atividade busca criar um espaço em eu os trabalhadores possam executar
várias atividades e exercícios físicos que vão além do condicionamento mecanicista,
repetitivo e autônomo, devendo ser em planejada e variada, pois se enquadra como uma
pausa ativa do trabalho e servindo para quebrar o ritmo da tarefa desempenhada pelo
trabalhador e rompendo a monotonia (ibidem).
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Verderi (2005), como objetivos da GL: Promover saúde e bem-estar; Prevenção


do DORT; Reeducação da postura corporal dos trabalhadores; Aumento do
condicionamento físico geral dos trabalhadores; Aumento da motivação e disposição para
o trabalho; Aumento da produtividade; Redução do número de acidentes no trabalho.
A GL deve ser empregada com um programa de exercícios planejados mediante a
atividade exercida e as necessidades da empresa (LIMA,2003). Sua classificação se dá
quanto ao horário de execução e objetivo definidor. Na divisão do expediente de trabalho
existem três momentos: o preparatório (no começo do expediente de trabalho), o
compensatório (no meio do expediente) e o relaxante (no fim do expediente) (MENDES;
LEITE, 2004).

2.1 Classificação da GL por horários e por objetivos de execução

A GL possui uma classificação de acordo com o horário de execução, podendo


ser antes, durante ou após o período de trabalho, se dividindo respectivamente em: GL
preparatória, GL compensatória ou de pausa e GL relaxante.
De acordo com Lima (2003), a GL preparatória engloba um conjunto de medidas
preventivas contra acidentes do trabalho, preparando e adaptando o indivíduo ao seu posto
de serviço e compensando os efeitos negativos da organização no mesmo; ocorre
anteriormente à jornada de trabalho, ou seja, no início do turno e com duração aproximada
de 5 a10 minutos. Objetiva principalmente, a preparação dos funcionários para suas
tarefas, com o aquecendo os grupos musculares que irão ser solicitados em seus trabalhos
laborais, despertando uma maior disposição ao iniciá-las.
Em empresas japonesas, a prática de atividades físicas antes do início da jornada
de trabalho acontece rotineiramente, que segundo Cañete (2001), este hábito foi difundido
mais amplamente pelo país após a Segunda Guerra Mundial e atualmente um terço dos
trabalhadores japoneses exercitam-se em suas empresas.
Lima (2003) expõe que na GL compensatória ou de pausa se refere à ginástica
que interrompe a tarefa que está sendo executada; sua aplicação é no meio do expediente
ou no horário de pico de fadiga. Busca impedir que se instalem os vícios posturais das
atividades de vida diária e de vida prática, tendo uma duração aproximada de 10 minutos,
interrompendo a monotonia operacional, aproveitando as pausas para executar exercícios
específicos de compensação para esforços repetitivos, estruturas sobrecarregadas e
posturas solicitadas nos postos de trabalho.
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A GL relaxante exibe as mesmas características da ginástica compensatória,


porém, com ocorrência no término da jornada de trabalho, em maior ênfase aos exercícios
de relaxamento, durando aproximada de 10 minutos. Baseia-se em exercícios de
alongamento e relaxamento muscular, objetivando a oxigenação das estruturas
musculares envolvidas na tarefa diária, massageando todo o corpo e extravasando as
tensões acumuladas nas regiões dorsal, cervical, lombar, plantar dos pés e nos ombros
(MENDES; LEITE, 2004).
De acordo com o objetivo de execução, a GL pode ser classificada como: GL
corretiva, GL de compensação ou compensatória, GL de manutenção ou de conservação,
GL preparatória.
A GL corretiva visa restabelecer o antagonismo muscular através de exercícios
físicos específicos que fortalecerão os músculos que já se encontram alongados e
alonguem os que estejam encurtados, tem sua destinação à indivíduos portadores de
deficiências não-patológicas, com aplicação a um grupo reduzido de 10 a 12 pessoas, que
apresentam a mesma característica postural, fora da sessão comum de ginástica laboral
(TARGA, 1973).
A GL de compensação ou compensatória usualmente é aplicada no meio do
expediente de trabalho visando impedir a instalação de vícios posturais das atividades de
vida diária (AVDs) e do ambiente de trabalho utilizando exercícios físicos que trabalhem
as musculaturas pouco solicitadas e relaxe àquelas que trabalham em demasia (ibid.).
De acordo com Mendes (2000) a GL de manutenção ou de conservação objetiva
a manutenção do equilíbrio morfofisiológico em que o indivíduo possa alcançar,
proporcionando que sua forma e funções se permaneçam estáveis. Usualmente, sua
caracterização está em um programa de condicionamento físico aeróbio, para previnir
e/ou combater doenças crônico-degenerativas como: o diabetes, as cardiopatias, a
obesidade, o sedentarismo, as doenças respiratórias e outras. Sua realização pode ocorrer
no início do expediente de trabalho, durante o intervalo do almoço ou outro intervalo
equivalente, ou ainda após o expediente de trabalho, com duração de 30 a 60 minutos.
Targa (1973) caracteriza a GL preparatória por uma série de exercícios que
preparam o trabalhador para atividades de velocidade, força ou resistência, objetivando o
aquecimento e a preparação da musculatura e das articulações que serão utilizadas no
trabalho sendo aplicada no início do expediente. Atua também como um meio preventivo,
aquecendo e despertando o funcionário para o trabalho, prevenindo acidentes, distensões
musculares e doenças ocupacionais (CAÑETE, 2001).
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2.3 Benefícios da GL

Os benefícios de realização da GL, encontram-se em dois parâmetros: o primeiro


para o trabalhador, que visa reduzir e prevenir problemas ocupacionais; e o segundo, para
a empresa visando diminuir gasto com as indenizações.
MOTA (2002) expõe como benefícios da GL aos praticantes:
a) Fisiológicos: Redução dos fatores de riscos coronarianos; Melhoria da
resistência muscular localizada; Melhoria no sistema cardiorrespiratório; Redução de
traumas, inflamações e tensão muscular; Melhoria da qualidade do sono; Possibilita uma
melhor utilização das estruturas osteo-mio-articulares, com maior eficiência e menor
gasto energético por movimento especifico; Promove o combate e prevenção das doenças
profissionais; Promove o combate e prevenção do sedentarismo, estresse, depressão,
ansiedade; Melhoria da flexibilidade, força, coordenação, ritmo, agilidade e a resistência,
promovendo uma maior mobilidade e melhor postura; Promove a sensação de disposição
e bem estar para a jornada de trabalho; Redução da sensação de fadiga no final da jornada;
Contribui para a promoção da saúde e da qualidade de vida do trabalhador; Propicia
através da realização dos exercícios características preparatórias; compensatórias e
relaxantes no corpo humano.
b) Psicológicos: Motivação para a rotina de trabalho; Melhoria do equilíbrio
biopsicológico; Melhoria da autoestima e da autoimagem; Desenvolvimento da
consciência corporal; Combate às tensões emocionais; Melhoria da atenção e
concentração as atividades desempenhadas.
c) Sociais: Favorece o relacionamento social e o trabalho em equipe; Melhoria das
relações interpessoais.
Aos benefícios da GL para a empresa pode-se destacar: a redução dos custos de
assistência médica; o aumento da produtividade; a melhoria do ambiente de trabalho; a
diminuição da rotatividade de empregados; uma maior proteção legal à empresa contra
possíveis processos de empregados por ocasião de LER/DORT ou similares; a diminuição
no número de acidentes no trabalho; uma melhora da imagem da empresa; Melhora da
integração no trabalho; determinada elevação da moral da empresa por parte dos
empregados; uma redução nos afastamentos por LER/DORT (VERDERI, 2005).
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3 GINÁSTICA LABORAL NO TRABALHO EM ENFERMAGEM

Gondim et al. (2009) afirma que, com relação ao serviço hospitalar, não há uma
realidade diferente de outros ambientes de trabalho, havendo na realidade dos hospitais
brasileiros, uma sobrecarga e a exigência por produtividade como fator estressante para
seus funcionários. Muitos destes trabalhadores possuem um ritmo exaustivo de trabalho,
inclusive com regime de plantões, carga horária de trabalho elevada, trabalho em turno
noturno, pessoas com mais de um emprego devido aos baixos salários, grandes
responsabilidades, risco de acidentes, atividades anti-ergonômicas e sedentarismo. Isto
acaba por gerar ao final do expediente, na maioria dos funcionários, dores na musculatura,
nas articulações, nos membros, tudo devido a posturas inadequadas durante a realização
das atividades.
Lima et al. (2007) expõe que se torna cada vez mais importante, a inserção de
programas de saúde ocupacional que intencionem a eliminação ou a redução dos riscos a
que os funcionários estão expostos em seu ambiente de trabalho, através de atitudes pró-
ativas, ou seja, aquelas que antecipe à situações de risco de acidentes, doenças
ocupacionais, danos materiais ou ambientais, visando a redução de custos e melhoria das
condições de trabalho dos trabalhadores.
Para Oliveira (2007) a equipe de enfermagem, na maioria das vezes, não realiza
alongamentos e momentos de reflexão durante sua atividade de trabalho, mesmo sendo
uma profissão na qual se exige muito da força física e do trabalho corporal, com os
profissionais ficando muito tempo em pé, e realizando uma alternância de decúbito dos
pacientes, o que acarreta em problemas de saúde a esses profissionais, como lesões
musculares cumulativas, doenças ocupacionais e estresse. Tais lesões são ocasionadas
pelo uso biomecanicamente incorreto dos músculos, tendões, fáscias ou dos nervos,
resultando em mialgia, fadiga, que geram automaticamente, uma baixa rentabilidade no
trabalho e em inaptidão provisória, proporcionando uma evolução para uma síndrome
dolorosa/crônica que quando agravada, gera problemas psíquicos no âmbito de trabalho
ou na família, podendo assim, ser capaz de reduzir o limiar de sensibilidade dolorosa do
indivíduo.
Em seu estudo transversal, Gondim et al. (2009), ao inserir um programa de GL
em funcionários de uma unidade hospitalar, verificou que funcionários se encontravam
repletos de vícios posturais e sedentarismo, além de terem poucas relações interpessoais.
A prática das atividades proporcionou a esses trabalhadores a correção dos vícios e,
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consequentemente, a diminuição das dores localizadas e proporcionando um ambiente


favorável ao convívio, além da melhora d a qualidade de vida dos referidos funcionários.
Concluíram os autores que a ginástica laboral atende às necessidades da maioria
dos participantes, que perceberam mudanças positivas em seu cotidiano laboral, uma vez
que trabalha com estruturas corporais que, se não forem constantemente observadas e
exercitadas, podem causar prejuízos físicos a esses trabalhadores.
Finalmente, através da aplicação da ergonomia, constatou-se que:

[...] nos diversos postos de trabalho do grupo avaliado, existem inúmeros riscos
ergonômicos para esses funcionários dentro de suas funções específicas, como
a má postura, a manutenção da mesma posição durante longos períodos, a
sobrecarga, a mecanização e a monotonia do trabalho, o esforço físico, dentre
inúmeros outros. Percebemos, ainda, que é um programa que têm gerado
bastantes resultados positivos, apesar do pouco tempo de implantação em
alguns setores do hospital pesquisado. Tais progressos estiveram relacionados
à melhoria no desempenho pessoal no trabalho (77,2% dos entrevistados);
melhora na postura durante a jornada de trabalho (54,5% dos participantes);
bem como redução das queixas físicas (54,5% dos funcionários). Em menor
número, mas não menos significativos estiveram as afirmações de aumento da
disposição para desempenhar suas funções, melhoria na interação com a
equipe, promovendo, assim, um ambiente de trabalho saudável e favorável
para a melhora na qualidade de vida no trabalho (ibidem, p. 101).

Para Brum et al. (2011) a ginástica laboral, quando realizada com os profissionais
atuantes em ambientes hospitalares, influencia na qualidade de vida e no desempenho das
atividades de trabalho dos mesmos. Incluindo a ginástica laboral na rotina diária dos
enfermeiros, proporciona a estes indivíduos um viver saudável, que corrobora com o
cuidado que esses prestam ao outro.
Candotti et al. (2011) ao analisar o efeito da GL na prática de atividade física
regular, aponta que o objetivo da GL está associado à priori, à prevenção de dores
musculares por meio do relaxamento, compensação ou preparação dos grupos musculares
solicitados no trabalho. Nesse estudo, os autores concluíram que a GL pode também vir
a ser utilizada como uma ferramenta capaz de motivar seus participantes a realizar
atividade física regular fora do ambiente laboral.
Mendes (2000) salienta que a GL desde a sua implantação, pode ser idealizada
como prevenção de doenças dos trabalhadores que a praticarão, mas que sozinha não
conseguirá resolver todos os problemas, ou seja, não é a única solução das doenças
ocupacionais, mas tendo uma contribuição significativa para a promoção da saúde, uma
vez que o exercício físico prescrito corretamente é considerado o maior promotor, não
medicamentoso, isolado de saúde.
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Rocha et al. (2013) corrobora que há a necessidade de uma maior atenção às


posturas realizadas por esses profissionais durante as atividades laborais, principalmente
nas atividades que exijam força e agilidade, devido à sobrecarga durante o manuseio dos
pacientes. A associação de medidas preventivas no trabalho com períodos adequados de
descanso, posturas corretas durante o atendimento e a GL, podem influenciar na redução
dessas dores e colaborar para a promoção da saúde dessa classe de trabalhadores.
A GL pode se caracterizar como um importante fator de promoção da saúde para
profissionais da Enfermagem e trabalhadores em geral. Integrada ao perfil de
profissionais e empresa, se adapta em qualquer situação com o entendimento dos
benefícios orgânicos, emocionais e sociais destes indivíduos (IGNATTI, 2004).

CONCLUSÃO

Evidentemente, demonstrou-se neste trabalho, a importância da Ginástica Laboral


na prevenção de doenças ocupacionais, tais como LER/DORT, na redução dos acidentes
de trabalho e das faltas, bem como no aumento da produtividade, na diminuição dos
gastos com assistência médica, que corroboram com um maior retorno financeiro para as
empresas.
Cabe ressaltar que a ginástica por si só, não terá resultados significativos, sem
uma elaborada política de benefícios sociais, além de estudos ergonômicos, sendo
reforçados com a colaboração dos gerentes, dos técnicos de segurança do trabalho, dos
médicos ocupacionais e dos profissionais de recursos humanos.
Pode-se concluir que a inclusão da Ginástica Laboral em trabalhadores de
Enfermagem, propicia a redução de danos característicos a esta profissão, dado o seu grau
considerável de insalubridade, devendo haver um incentivo e esforço para sua
implementação.

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