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DIREITO CIVIL II

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL

Anderson Schreiber

Professor Titular de Direito Civil da UERJ


Teoria do Fato Jurídico

“fatos jurídicos são os acontecimentos em virtude


dos quais começam ou terminam as relações
jurídicas” (Savigny)

fato jurídico é o acontecimento em virtude do qual


começam, se modificam ou se extinguem as
relações jurídicas
Toda a realidade se dividiria, assim, em (a) fatos jurídicos,
que produzem efeitos jurídicos, e (b) fatos não jurídicos,
que não produzem efeitos jurídicos.

Exemplos

Crítica: Pietro Perlingieri

Todo fato social é jurídico

Relevância jurídica x Força jurígena (Edmond Picard)


Fatos jurídicos Atos jurídicos
stricto sensu stricto sensu
(naturais) (art. 185)

Fatos Jurídicos Atos lícitos


Ato-fato
(art. 1.264)

Atos jurídicos
(humanos)
Negócio jurídico
(art. 104 e ss.)
Fatos Não-Jurídicos
Atos ilícitos (art. 186)
Negócio Jurídico

Pandectística alemã

Efeitos ex voluntate

Programa ou propósito do agente

Negócios jurídicos unilaterais (ex. testamento)

Negócios jurídicos bilaterais (ex. compra e venda)


Três Planos do Negócio Jurídico

Existência, Validade e Eficácia

Pressupostos de Existência

Sujeito (Vontade), Objeto (Bem) e Forma (Exteriorização)


O Problema das Circunstâncias Negociais

Um convite para jantar


cria obrigação em sentido jurídico?

O caso Rodolfo Landim x Eike Batista

Bilhete escrito em guardanapo


Três Planos do Negócio Jurídico

Existência, Validade e Eficácia

Requisitos de Validade (CC, art. 104)

Sujeito capaz (declaração hígida de vontade x defeitos)

Objeto lícito, possível e determinável (e.g., art. 426)

Forma prescrita ou não defesa em lei (art. 107 x 541, 108)

Invalidade (Nulidade ou Anulabilidade)


Três Planos do Negócio Jurídico

Existência, Validade e Eficácia

Aptidão para a produção de efeitos jurídicos

Todo negócio jurídico existente e válido é, a princípio,


eficaz

Fatores de ineficácia (termo, condição e encargo)


CONDIÇÃO

“a cláusula que, derivando exclusivamente da


vontade das partes, subordina o efeito do negócio
jurídico a evento futuro e incerto” (art. 121)

x “condição” legal (ex. Testamento)

Condição Suspensiva (art. 125)


x
Condição Resolutiva (art. 128)
CONDIÇÃO PURAMENTE POTESTATIVA (ART. 122)

Cláusula si volam

Ex. STJ, REsp 291631 – Caso Juninho Paulista (SPFC x Ituano)


Venda ao Middlesbrough 40 d após fim do prazo contratual de 18 m
CONDIÇÃO PURAMENTE POTESTATIVA (ART. 122)

CONDIÇÃO SIMPLESMENTE POTESTATIVA

(ex. “se eu for morar em Buenos Aires”)

CONDIÇÃO PERPLEXA (ART. 122)

(ex. “deixo meus bens para ele se ele falecer antes de mim”)
CONDIÇÃO IMPOSSÍVEL

(ARTS. 123 E 124)

CONDIÇÃO MALICIOSAMENTE OBSTADA OU


IMPLEMENTADA

(CC, 129)

Ex. Venda de Ações com Earn Out condicionado a metas cujo


atingimento é maliciosamente obstado pelo comprador
TERMO

TERMO INICIAL, SUSPENSIVO OU DILATÓRIO

TERMO FINAL, RESOLUTIVO OU PEREMPTÓRIO

TERMO E PRAZO

TERMO (ART. 131)


X
CONDIÇÃO (ART. 125) = EXPECTATIVA DE DIREITO
“É de extrema valia a classificação apresentada por San Tiago
Dantas, conforme a qual os eventos futuros podem ser agrupados em
quatro espécies: (a) acontecimentos que são certus an et certus
quando, como uma data – aí não há dúvida de que se trata de termo;
(b) acontecimentos que são certus an et incertus quando, como a
morte de certa pessoa, que ocorrerá inevitavelmente, mas não se sabe
quando – também aí se trata de termo; (c) acontecimentos incertus
an et incertus quando, como o fato de certa pessoa se casar – não se
sabe se nem quando se casará, razão pela qual se trata aí
inegavelmente de condição; e, finalmente, (d) acontecimentos
incertus an et certus quando, como a maioridade de alguém que, se
ocorrer, se sabe quando ocorrerá, mas que pode não vir a ocorrer.”
(Schreiber, Manual de Direito Civil Contemporâneo)

Problema de interpretação da vontade das partes.


“Na dúvida, condição” (San Tiago Dantas)
AINDA SOBRE O TERMO

Regras gerais de contagem de prazos (CC, art. 132)

Prazos se presumem instituídos em favor do devedor (CC, art. 133)

Sem prazo é exigível à vista (CC, art. 134)


ENCARGO OU MODO

Ônus assumido pelo beneficiário de uma liberalidade

O ônus não deve ser de tal monta que possa configurar uma
contraprestação

Ex. Contrato de doação com encargo (doação modal)

x Contrato de prestação de serviços

Efeitos do descumprimento do encargo:


CC, arts. 553, 555, 562 e 1.938
ENCARGO OU MODO

Art. 137: Encargo impossível ou ilícito

Ex. cuidar de cão pré-morto ou providenciar enterro do cadáver

Art. 136: Encargo estipulado como condição suspensiva


DEFEITOS DO NEGÓCIO JURÍDICO
ERRO

Erro ou ignorância é a falsa representação da realidade que


influencia a declaração de vontade do agente

Erro substancial + cogniscível = ANULABILIDADE (art. 138)

Erro substancial (art. 139) x erro incidental (qualidades secundárias)

Ex. Erro de cálculo (art. 143) ou erro sobre o material usado em


quadro de artista plástico
AINDA ERRO

Erro cogniscível ou perceptível pela pessoa de diligência normal


(contraparte, que tinha dever de desfazer o equívoco)

Inovação do CC2002

Distanciou-se o CC2002 do parâmetro da escusabilidade do erro


(ainda defendido por parte da doutrina e da jurisprudência), que se
baseia na avaliação do cuidado na conduta do agente emissor da
vontade

Inescusável é o erro grosseiro


ERRO SOBRE MOTIVO

Falso motivo (interno) não vicia (art. 140).


Ex. compra de presente de aniversário para amigo que não
aniversaria.

ERRO DE DIREITO

Art. 139, III x LINDB, art. 3º.

Ex. STJ, Resp 1.163.118/RS: Compra de imóvel por quem já é


proprietário em virtude de usucapião
CONSERVAÇÃO DO NEGÓCIO CELEBRADO EM ERRO:

Art. 144

Constante na disciplina dos defeitos: salvamento do negócio jurídico

“Princípio” da conservação do negócio jurídico


DOLO

Dolo é o erro provocado

Artifício ou expediente astucioso, ardiloso, empregado para induzir


alguém em erro

Dolo-defeito x dolo-culpa (art. 186)

Dolo Principal = ANULABILIDADE (Art. 145)

Dolo Acidental (ou Incidental) = INDENIZAÇÃO (Art. 146)

X Dolus Bonus
Dolo por omissão (art. 147)

Dolo de terceiro (art. 148)

Dolo recíproco (art. 150)

Nemo auditur propriam turpitudinem allegans

(Ninguém pode se beneficiar da própria torpeza)

Equity must come with clean hands


COAÇÃO

Ameaça de dano (art. 151 + p.u.)

Avaliação da ameaça (art. 152)

Vis compulsiva (coação moral) x vis absoluta (coação física)

Vis absoluta resulta em inexistência do negócio, não em defeito

Não configuram coação o temor reverencial ou a ameaça de


exercício regular de um direito (art. 153)
LESÃO

Evolução histórica

Laesio enormis : direito de rescisão se o vendedor vende por


preço menor que a metade do seu valor (direito romano)

Influência do cristianismo e combate à usura

No Brasil:

Ordenações Filipinas (“metade do preço justo”)

x CC1916: suprime a lesão


LESÃO

Decreto-lei 869/1938 (crime de usura): “obter ou estipular, em


qualquer contrato, abusando da premente necessidade,
inexperiência ou leviandade da outra parte, lucro patrimonial
que exceda o quinto do valor corrente ou justo da prestação”

Elemento subjetivo: dolo de aproveitamento

Caio Mário da Silva Pereira, Lesão nos contratos bilaterias

Código Civil de 2002, art. 157: elemento objetivo (onerosidade


excessiva) + elemento subjetivo (necessidade ou inexperiência)
LESÃO atua no desequilíbrio originário do contrato

“Teoria da Imprevisão” (CC, art. 478 e ss. + 317)

Conservação do negócio lesivo: art. 157, par. 2º, do CC

ESTADO DE PERIGO (art. 156)

“Uma coação por circunstâncias” (sem ato de ameaça)

Conhecida necessidade de salvar-se (ciência não integra lesão)

Ex. cheque-caução em hospitais


FRAUDE CONTRA CREDORES

Consilium fraudis + eventus damni

Consilium fraudis dispensado em contratos gratuitos (art. 158)

Contratos onerosos (art. 159)

Ação Pauliana contra fraudadores ou terceiros de má-fé (art. 160)

Garantias tardias (art. 163 + 165, p.u.)

Vantagem resultante da anulação reverte ao acervo (art. 164) para


rateio entre os credores conforme suas preferências
AINDA FRAUDE CONTRA CREDORES

Diferença com outras espécies de fraude:

A) Fraude à lei (art. 166, VI, CC) – nulidade, e não


anulabilidade

B) Fraude à execução (CPC, art. 792)


NULIDADE DO NEGÓCIO JURÍDICO
CAUSAS DE NULIDADE: CC, ART. 166

III – MOTIVO DETERMINANTE ILÍCITO

(não exige a lei que seja expresso no ato)

Ex. aluguel de imóvel para venda de produtos de crime


ou prática de crimes sexuais

V – FRAUDE À LEI IMPERATIVA

Fuga à lei imperativa. Figura genérica.

VII – A LEI DECLARAR NULO (ex. CC, art. 426, pacta corvina)
SIMULAÇÃO

Negócio jurídico fictício

Hipóteses legalmente definidas (Art. 167, par. 1º)

Simulação absoluta x relativa (dissimulação)

Ex. 1. venda simulada para permitir despejo de inquilinos (simulação


absoluta)

Ex. 2. doação disfarçada em compra e venda para burlar ITCMD ou


credores (simulação relativa)

Preservação do negócio dissiumlado (art. 167, caput)


NULIDADE x ANULABILIDADE

Não convalesce x convalesce (art. 170)

Não pode ser confirmado x pode (art. 170)

Pode ser alegada por todos x só pelas partes (art. 168)

Devem ser de ofício x só mediante alegação (168, pu)

Ato nulo não prodz efeitos x produz até anulado (177)


CONFIRMAÇÃO DO NEGÓCIO JURÍDICO ANULÁVEL

Expressa ou tácita (arts. 172 a 176)

CONVERSÃO DO NEGÓCIO JURÍDICO NULO (art. 170)

Conversão formal x conversão substancial

Ex. testamento militar em testamento comum (formal) ou endosso de


nota promissória já vencida em cessão de crédito (substancial)

INVALIDADE PARCIAL (art. 184)

Ex. pacto de convivência com cláusula que impede mudança de


religião
INTERPRETAÇÃO DO NEGÓCIO JURÍDICO

Interpretação x Hermenêutica

O que é interpretar?

Interpretação das leis x interpretação dos negócios jurídicos

Elementos de interpretação (literal, sistemático, histórico e


teleológico) se aplicam ao negócio jurídico

+ Regras Específicas de Interpretação


INTERPRETAÇÃO DO NEGÓCIO JURÍDICO

CC, 112: TEORIA DA DECLARAÇÃO X TEORIA DA VONTADE

CC, 113: BOA-FÉ OBJETIVA + USOS DO LUGAR


(+ LEI DA LIBERDADE ECONÔMICA)

CC, 114: INTERPRETAÇÃO RESTRITIVA DOS NEGÓCIOS


JURÍDICOS GRATUITOS E RENÚNCIA

CC, 423: INTEPRETAÇÃO CONTRA PROFERENTEM NOS


CONTRATOS DE ADESÃO
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