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Diálogos Juvenis no Sudoeste Piauiense: as juventudes, o rural e a cidade 1.

Valéria Silva

A investigação que deu origem ao presente artigo partiu do entendimento de que o


lugar do sujeito juvenil pode ser lugar ativo de acionamento de novas referências para a
reflexão acerca de suas realidades. Lugar de potência, gerador de endosso,
complementaridade, contraditoriedade ou negação do discurso teórico adotado; criação de
novas ideias sobre o mundo, o espaço partilhado e a vida juvenil rural. Com essa disposição,
neste estudo utilizei-me da entrevista grupal como recurso metodológico capaz de gerar esse
lugar de potência juvenil, quer individual ou coletiva, junto aos jovens de algumas localidades
rurais de Sebastião Leal-PI, no Sudoeste piauiense.
As narrativas dos jovens são tomadas, portanto, como contributo efetivo para a
construção do conhecimento acerca deles próprios e de suas circunstâncias sociais, culturais,
políticas etc. Penso que esses pressupostos redefinem a postura do pesquisador na interação
com o real, modulando a interlocução com o campo por inteiro e a construção do
conhecimento resultante. Assim, neste trabalho, a troca efetiva com os sujeitos surge como
estratégia de abordagem no sentido de possibilitar que o conhecimento produzido seja, de
fato, ancorado na participação substantiva dos jovens.
Com essa compreensão, inicialmente trago ao texto alguns entendimentos sobre as
juventudes, os jovens rurais e a questão ruralidades/urbanidades que foram levados a campo
para troca com os sujeitos e, em seguida, ofereço as sínteses que construí no diálogo entre o
suporte teórico e a proposição do/as jovens. Neste exercício de construção coletiva, os
diálogos juvenis adensaram as análises da pesquisa, por vezes dirigindo-as para focos antes
despercebidos. Orientada pelo mesmo movimento, trago ao texto as narrativas que poderão
permitir ao leitor interpretações diversas daquelas que faço no decorrer do texto,
descomprimindo os sentidos das categorias tomadas e estabelecendo a complexidade no
entendimento acerca do rural, do urbano e dos jovens.
Ao fim, apresento que, para os sujeitos, os lugares e eles próprios enquanto jovens
rurais se mostram experimentando fronteiras esmaecidas, resultantes dos intercâmbios que

1
Publicado na obra: LUZ, Lila; ADAD, Shara Jane e SILVA, Valéria. (orgs). Juventudes rurais e urbanas:
territórios, culturas, sociabilidades e identidades. Teresina, EDUFPI, 2016. p. 89-125.
operam com o urbano. Esta realidade traz o hibridismo, o nomadismo e o interculturalismo
para o centro da cena, tanto de suas vidas quanto dos espaços por eles praticados.

1 O rural e o urbano: realidades em trânsito


A notória diminuição das distâncias físicas e simbólicas entre os ditos meios rural e
urbano guardam estreita relação com a maior facilidade de deslocamento das pessoas e das
informações que, no Brasil, se consolida no Século XX e ganha complexidade no século atual.
A comunicação de massa, a diversificação e rapidez dos transportes, o constante surgimento e
uso de novas tecnologias e, especialmente, a internet ocasionaram uma retradução das noções
de tempo e espaço, possibilitando, em tempo real, a convivência de referências objetivas e
manifestações culturais diversas, não apenas entre países, mas também entre áreas ermas
dentro de um mesmo território. Esse fato gerou desdobramentos variados nos diversos pontos
do globo e no particular das experiências de cada local, de cada sujeito, ao obrigar as
sociedades a conviver no cotidiano de um mundo líquido, intercultural ou multicultural.
(BAUMAN, 2001; CANCLINI, 2009; HALL, 2003 e 2009).
Paralelo a essas questões, o urbano e o rural, conforme historicamente manifestos no
Brasil, ainda permanecem interferindo nas configurações de ambos os ambientes. Por um
lado, grande parte das populações urbanas segue lidando com a miséria humana provocada
tanto pela concentração de renda quanto pelo profundo imbricamento da subjetivação com a
noção do consumo. Por sua vez, a articulação de ambas condições com as incertezas dos
novos tempos vem se manifestando entre nós como miséria social, individualização
exacerbada, desgaste/retradução de instituições sociais etc.
Por outro lado, a realidade rural enfrenta, cada vez mais, processos de deslocamentos
espaço-temporais e sócio-econômico-culturais. Além das questões antigas – dificuldade de
acesso à terra, à água, ao crédito, à assistência técnica, gerando o recrudescimento da escassez
– em vários pontos do país surgem novos e velhos problemas postos pela forte presença do
agronegócio e novas dinâmicas impostas quanto às relações de trabalho, economias locais,
novas ‘colonizações’ e identidades sociais.
O rural e o urbano se redesenham, portanto, colocando novas questões para análise,
como os novos valores assimilados por parcelas da população acerca da validade do estilo de
vida urbano e do valor do meio ambiente. Nesse processo, o desgaste urbano, materializado
na sensação de insegurança, de intranquilidade, de vulnerabilidade, de impotência etc. tem
levado muitos a buscar no campo a sensação perdida do bucólico, do simples, do refúgio, da
paz (CARNEIRO, 1998), implicando em trocas no âmbito da produção, mas também do
consumo, da paisagem, da estética, da subjetividade etc., tanto junto àqueles que habitam as
cidades quanto aos que vivem no campo (WANDERLEY, 2009 e CARNEIRO, 1999).
Objetos dessas novas sociabilidades fluidas, desterritorializadas (BAUMAN, 2001) e
partilhando, cada um a seu modo, uma herança histórica, o rural e o urbano perdem seus
contornos e, holograficamente, retratam a complexidade típica da nossa contemporaneidade
diaspórica (HALL, 2009). Associados, retraduzidos, matizados os caracteres de ambos se
replicam ad nauseam pelas experiências humanas, sem ancoragem definitiva a quaisquer
territórios materiais ou culturais. Essa experiência geral, mais comumente nomeada de
multiculturalismo (HALL, 2009) ou interculturalismo (CANCLINI, 2009), tem implicado,
portanto, em que as realidades culturais do nosso tempo se construam menos a partir de
matrizes particulares, unas, isoladas, e mais no contexto de incessantes diálogos culturais.
Embora atentando para as particularidades, é possível dizer que também nesse
âmbito de estudo os sujeitos e suas práticas passam a povoar complementarmente o campo e a
cidade, transitando com certa facilidade nos diversos ambientes, imprimindo novas
configurações em cada contexto, instalando alterações inevitáveis nas realidades rurais e
urbanas locais e colaborando para o estabelecimento da polissemia do que possamos vir a
entender o que vem a ser o rural e o urbano no Brasil.
Dialogando com tais condições, o rural e o urbano se distanciam cada vez mais de
uma essencialidade que os caracterize exaustiva e separadamente enquanto contextos
díspares. Na atualidade, o rural e o urbano rompem qualquer entendimento de lugares isolados
de tradução e se constroem processualmente como realidades interdependentes e
complementares; manifestas quanto aos sujeitos, às paisagens, ao trabalho, ao lazer etc. etc.

2 Juventudes e jovens e rurais: de quem falamos?

Do lugar que observo, também a categoria juventudes não se dá pronta e acabada,


mas se apresenta atravessada pela materialidade que partilha. Assim, dialoga com as
circunstâncias culturais, referências etárias, além dos matizes históricos que lhe imprimem
certa localização de gênero, de etnia, de orientação sexual (SILVA, 2007). Notadamente a
fluidez e flexibilidade conceitual acenam para a compreensão de que as juventudes objetivam-
se muito mais em um fazer-se constante, em vez de um fixo existir, implicando que as idades,
os gêneros, as gerações, os papeis sociais etc. deixem de possuir caráter estrutural. Dessa
referência é que podemos compreender que, no âmbito de suas particularidades, experiências,
vivências, desejos, pertenças, possibilidades, limites, realizações, signos, identificações,
dentre outros, só se configuram enquanto expressões, sinais de juventudes – ou não – quando
observados no interior das materialidades e simbologias em trânsito, as quais os sujeitos
constroem, experimentam, abandonam e retomam no pulsar cotidiano de suas vidas. Ante as
alterações observadas, corroboro com Canevacci (2005:29), quando este pensador diz que na
contemporaneidade

Cada jovem, ou melhor, cada ser humano, cada indivíduo pode percorrer sua própria
condição de jovem como não-terminada e inclusive como não-terminável. Por isso, assiste-se
a um conjunto de atitudes que caracterizam de modo absolutamente único nossa era: as
dilatações juvenis. O dilatar-se da autopercepção enquanto jovem sem limites de idade
definidos e objetivos dissolve as barreiras tradicionais, tanto sociológicas quanto biológicas.
Morrem as faixas etárias, morre o trabalho, morre o corpo natural, desmorona a demografia
[...].
Dessa referência geral postulo que as juventudes não são algo a ser ‘encontrado’ num
certo padrão, mas algo a ser delineado numa existência concreta, no diálogo com as
materialidades e as referências simbólicas que as cercam, sem abandonar o cuidado com as
particularidades sobejamente colocadas dentre os diversos segmentos juvenis. Desse modo,
acredito que são múltiplas as juventudes que povoam os cenários das sociedades
contemporâneas (SILVA, 2006) e também os ambientes rurais e urbanos.

2.1 As juventudes de um certo rural


Pensar os jovens rurais implica, à primeira vista, abordar um segmento de difícil
visualização, diluído na representação dominante existente acerca das juventudes, a qual se
consubstancia na concepção urbana do que vem a ser os jovens. Um esforço maior pode
identificar os jovens rurais como aquele segmento juvenil que vive numa condição de certo
isolamento, compartilhando certas tradições e construindo suas relações com o mundo a partir
da adoção do trabalho enquanto centralidade da vida (CASTRO, 2010), ganhando menor
relevância as demais condições de reprodução, como lazer, sexualidade, moradia,
alimentação, informação, religião etc. Os jovens rurais são vistos como partilhando tradições
– por vezes, entendidas como sinônimo de atraso – e estando menos sujeitos à volatilidade do
mundo contemporâneo. Essa impressão leva em conta as ideias de vínculo à terra,
sistemáticas tradicionais de trabalho, observância à disciplina familiar, respeito aos mais
velhos, ausência de maiores expectativas que não o casamento, uma vida simples, material e
simbolicamente falando, a qual ancoraria a reprodução do modo de vida dos seus
antepassados.
Entretanto, um olhar mais acurado sobre as condições de vida dos jovens rurais da
atualidade informa sobre uma situação de vida mais complexa do que aquela anteriormente
referida, profundamente imbricada a uma série de circunstâncias experienciadas pelos jovens
da cidade (CASTRO, 2010; SALES, 2006). Esse fenômeno tem se tornado possível em face
da troca entre campo e cidade por meio das novidades verificadas na telemática, do
transporte, das estradas, da escola etc. O chamado mundo rural, ora distante da imagem de
isolamento e tradição, encontra-se atravessado no seu cotidiano por aspectos de natureza
cultural, social, política, econômica, ambiental etc., etc., que, atuando articuladamente,
modificam contextos antes nitidamente apartados das cidades. Além das trocas territoriais,
fenômenos como os processos produtivos, as relações de trabalho (CARNEIRO, 1999), as
relações afetivas, as experiências de lazer, possibilidades comunicativas, aspectos estéticos
adotados etc. têm povoado com força os dois ambientes e, repito, implicando em certa
dificuldade de leitura acerca do observado na contemporaneidade como sendo de natureza só
rural ou exclusivamente urbana.
Na verdade, as realidades têm obrigado novas interpretações sobre os trânsitos e
impermanências que se dão no espaço de cada território, nas vidas dos segmentos sociais.
Compreender as juventudes rurais, portanto, implica na tarefa de situá-las nos contextos
novos das ruralidades, onde o que é urbano e o que é rural escorregam entre os cenários,
desenhando várias possibilidades de configuração de ruralidades e urbanidades. Assim
entendido, não poderíamos pensar de modo diferente também em relação aos segmentos que
vivenciam o cotidiano dessas territorialidades.
Com isso não quero dizer que inexistam diferenças entre os segmentos juvenis que
habitam as cidades e aqueles que habitam o meio rural, mas indicar que portadores de uma
experiência cultural vinculada ao campo, os jovens rurais, na atualidade, também se
relacionam intensamente com a cosmovisão urbana, tanto em nível local, como nacional e
internacional. Deste lugar, experimentam simultaneamente as tensões e novidades cotidianas
trazidas pela televisão, pelo rádio, pela internet. Relacionam-se com a realidade da educação
como requisito indispensável para a formação profissional da mesma maneira que os jovens
urbanos. Possuem demandas em relação a emprego, estudo, cultura, lazer (CARNEIRO,
2005) e consumo similares aos demais jovens. Estão, portanto, em zona fronteiriça, realidade
impeditiva de classificação excludente desses territórios e dos seus sujeitos.
Como então, pensar esse segmento juvenil? Os aportes trazidos pelo campo de
pesquisa e por outros estudos sinalizam que a maioria dos jovens rurais vivencia relações
ainda assentadas num grau maior de aproximação com a terra, na sedimentação familiar, no
interconhecimento (WANDERLEY, 2007), sofrendo de modo mais direto a imposição dos
limites naturais, também usufruindo das possibilidades naturais que conseguem identificar no
campo a partir da convivência com determinados segmentos urbanos. A meu ver, esta
contingência favorece a possibilidade de persistência de algum encantamento do mundo rural,
realidade que influencia todo o universo simbólico dessas territorialidades.
Outra questão é a hierarquia familiar que, quando ainda presente e fortalecida,
orienta o respeito às ordens paternas e escolhas familiares, esmaecendo os desejos, iniciativas
e projetos de natureza individual (CARNEIRO, 2001). Não raro, também a flexibilização da
obediência aos genitores, resultante da interação com os códigos ditos urbanos, impõe aos
sujeitos – jovens e adultos – uma realidade marcada pela interculturalidade (CANCLINI,
2009), possibilitando a releitura das convivências, a adoção de posturas mais horizontais,
ambiente propício à busca de realização pessoal, não necessariamente à sua conquista, como
mostra a realidade cotidiana de meninos e meninas.
Sob outra perspectiva, na cultura hegemônica que partilhamos, as prerrogativas de
ser alguém, ter uma profissão definida, ter visibilidade social etc. são todas associadas aos
valores ditos urbanos, aos jovens urbanos. Assim, ter acesso à escola, emprego, salário regular
são questões que passam ao largo das considerações feitas em relação à juventude rural, que
frequentemente aparece associada ao estigma da pobreza, pouco estudo, atraso; pessoas que
falam errado e não sabem se conduzir (diga-se, na cidade...), explicitando, a partir de uma
posição notadamente etnocêntrica, a distância cultural e social existente entre os jovens da
cidade e os jovens do campo. Assim, ao buscar se afirmar nos grupos de relação a partir das
prerrogativas ditas urbanas, o jovem rural não encontra ali um lugar de pertença, pelo
contrário.
Por outro lado, ao assumir na sua localidade de origem as linguagens, hábitos, tipo de
consumo, expectativas sociais, demanda por tempo livre, formas alternativas de relação com a
hierarquia etc., entendidos como urbanos, sofre a rejeição dos seus, em face da inquietação
que provoca dentre aqueles que, de algum modo, se opõem à diferenciação individual, à
mudança, a qual pode ser compreendida como desrespeito aos preceitos de convivência
locais. Essa reação inaugura outro não-lugar juvenil. De algum modo, os códigos rurais,
ancorados na autoridade paterna e na precedência dos mais velhos, destinam aos mais jovens
lugares onde não exercem a autonomia, a subjetividade positiva e propositiva, dificultando a
fruição da maioria das prerrogativas adultas porque os jovens seriam ‘irresponsáveis’, “sem
juízo’, “bestinhas”, “muito verdes”, não dominariam o saber que decorre da vivência, sendo,
portanto, desautorizados socialmente.
Quanto à remuneração, os jovens rurais aparecem enfrentando dupla dificuldade. Se
trabalham na propriedade familiar, no geral, não têm direito a um rendimento fixo, posto que
a renda gerada é controlada pelo pai e destinada ao sustento coletivo (SILVESTRO et al 2001;
HEREDIA, 1977; CARNEIRO, 1976; Diário de Campo). Se trabalham fora da unidade
familiar, submetem-se às oscilações do mercado, a condições precarizadas de trabalho,
desautorização do conhecimento construído intergeracionalmente, sub assalariamento e
ausência de direitos trabalhistas. No geral, são atividades que implicam em dispêndio
considerável de energia física e jornadas descomunais de trabalho, as quais impedem a
conciliação com outras experiências.
O momento do trabalho na terra propriamente dito talvez seja o espaço em que os
jovens experimentam condições similares aos demais adultos, muito embora a penosa rotina,
por vezes, se mostre incompatível com a idade, a condição física e maturidade psicológica de
meninos e meninas. Nesse contexto, as necessidades entendidas como próprias das juventudes
– como a permanência nos estudos, a possibilidade de uma escolha profissional, o acesso ao
lazer etc. – podem ser adiadas diuturnamente, privando os jovens rurais de usufruir daquilo
que a sociedade consolidou como sendo os direitos de juventude. Se, como já citei, na cidade
sofrem o veto do preconceito, não alcançando as prerrogativas urbanas de trocas e no campo
não conseguem alçar lugares de independência, os jovens rurais que transitam culturalmente
entre os dois ambientes passam a viver no interstício vigente entre ambos, no não-lugar
(AUGÈ, 1994), marcados pela privação.
Considerados os diversos aspectos que pontuam as realidades das juventudes rurais,
é possível dizer que, para grande parcela, um diferencial substantivo em relação aos jovens
urbanos é, seguramente, a realidade da exclusão, como aponta Castro, 2010: “A fronteira
[entre jovens rurais e urbanos] está na ausência. O que define o [jovem] rural é a ausência;
esta é a diferença.”. Resta, então, escutar os sujeitos.

3 CAMPO E CIDADE: localizando diferenças, construindo referências.

A aproximação com o campo de pesquisa, à medida que favoreceu o repensar das


categorias estudadas, revelou proximidade entre as proposições teóricas adotadas e as
avaliações construídas pelos jovens, mais especificamente em torno das seguintes ideias:

3.1 O rural é “o interior”.


Uma primeira questão que surge na fala dos jovens do Sudoeste é quanto à
denominação que atribuem ao rural, ao campo. Para os jovens, o rural é o interior. Este termo
unifica a diversidade do campo encontrada no município estudado e demais ao seu redor, que
fazem parte do circuito de sociabilidades juvenis rurais de Sebastião Leal. Adotando a
concepção dos sujeitos, passo a utilizar este termo como correspondente aos demais utilizados
neste trabalho para nominar o rural.

Parte dos jovens entrevistados, respondendo à pergunta sobre o que seria o interior e
o que seria a cidade, explicitam pensar o meio rural sempre em relação ao urbano.

A área rural é, assim, a área mais afastada da cidade, é a área com menos população. [...] na
nossa realidade, o pessoal trabalha muito com roça, é um pessoal que [...] trabalha muito na
questão de produção de subsistência, só para o consumo, muito pouco pra venda ou para o
comércio. A área rural, no meu pensar, é fora da cidade, fora do centro. Pra nós aqui
funciona essa realidade. Então, o que não é Sebastião Leal, é zona rural. (Cícero, jovem de
Roça Nova. Grifos meus).
Os entrevistados também recorrem a adjetivações, originadas no cotejamento em
relação ao que imaginam (ou sabem) ser ou existir na cidade. Para quem ver o rural dessa
maneira, a relação se mostra menos de partilha e complementaridade e se insurge mais como
dependência do rural em relação ao urbano ou de existência ‘residual’ do rural. A cidade é, o
interior não é; a cidade tem, o interior não tem.

[...] a cidade tem mais uma oportunidade, maior facilidade sobre os serviços para alguns
jovens também é... pra nós, que estudamos, arrumar uma casa, trabalhar pra manter o seu
estudo, na cidade tem mais uma oportunidade, mais uma facilidade de que aqui na nossa
região. Num tem essa oportunidade, num tem ninguém que tenha condição de pagar cem
reais pra uma pessoa cuidar de sua casa. E na cidade tem mais oportunidade, porque tem a
pessoa que é professor, de outra área... nós, jovens, acha na cidade maior facilidade pra ter
um troquim no final do mês (Edenilde, localidade Jenipapo).
Para alguns sujeitos, o campo se constrói na sua narrativa numa relação de
subordinação extremada, fazendo com que o interior desapareça na sua especificidade e
ressurja subsumido tão somente na condição de germe de uma futura cidade: “[...] as pessoas
do interior procura ir para a cidade buscar uma coisa melhor para trazer... trazer alguma coisa
para o interior, pra que um dia isso venha a se tornar uma coisa grande, que se torne uma
cidade... o interior” (Denise, localidade Vereda dos Tinguis).

Por outro lado, a compreensão da maioria dos jovens remete à inexistência de uma
essência rural, à constatação de que também para eles o rural não está dado, mas implica uma
condição relacional, muito embora, como visto, o meio rural assuma um lugar inferior. Em
outras narrativas, os jovens já situam o rural a partir de especificidades, empregando
qualificativos “próprios” ao meio rural, como comumente pensado, para configurá-lo. Alguns
argumentos retomam a natureza, os processos de trabalho, os modos de vida e chamam a
atenção para o aspecto da complementaridade rural/urbana:

Porque, por exemplo [em] Bertolínia, minha vó falou que antigamente a gente pegava os
frutos do campo pra levar pra lá, pra vender na feira. Então, se não fosse o campo não teria
esses frutos pra vender na cidade, né? Porque muitas vezes na cidade não têm um local
apropriado para plantar esses frutos. (Tatá, localidade Vereda dos Tinguis).
No meu ponto de vista, eu acho que a cidade depende do interior, quem mora na cidade
dificilmente pode comer uma fruta, alguma coisa sem ser do interior. Aí, tem que vir no
interior buscar pra levar pra cidade ou que o pessoal da cidade vá deixar lá. E o interior
depende da cidade, em primeiro lugar na área da doença, que na hora que alguém adoece, já
vai pra cidade. (Abacate, localidade Jenipapo).
As narrativas apontam que, para esses jovens, duas questões perduram. A primeira, o
entendimento prioritário do campo como espaço de produção agrícola familiar, muito embora
em suas localidades o diálogo com o agronegócio seja cotidiano e o comércio do excedente
(ou de frutas) venha diminuindo ano após ano. Não obstante esta realidade, a memória
ancestral é que surge qualificando o espaço de vida. A segunda é a questão da escassez do
acesso aos serviços públicos. É comum os jovens se referirem ao interior como o lugar onde
não se tem assistência à saúde, escolas, transporte adequado etc., como mais bem explorado à
frente. Neste caso, realidades concretas, verificáveis no cotidiano das localidades.

3.2 O interior é “atrasado”, “parado”, “difícil”. A cidade tem “evolução”, tem


movimento, tem “novos horizontes”.

Quando analisadas, as entrevistas demonstram que as características acima referidas


aparecem marcando fortemente as opiniões de todos os jovens, quando se manifestaram sobre
o “interior”, fazendo desses conotativos as diferenças entre o rural do urbano. Nos
cotejamentos que fizeram, o rural surge como lugar quieto, onde não acontece nada, exceto
algum “festejo de vez em quando”. No rural não há nada para se fazer, a não ser trabalhar,
“sentar, deitar”. O cotidiano é sem qualquer novidade, preenchido pelas rotinas, pessoas,
experências e sociabilidades já conhecidas por todos, ao contrário da cidade.

A cidade é outro mundo pra mim. Em todos os termos: de comunicação, de evolução, da


economia e a cidade também ela é um meio de você se tornar mais evoluído na vida, como
por exemplo, você encontrar um emprego você vai ter mais... você vai ser mais popular, vai
ser bem mais conhecido. A cidade também é um meio onde também você aprende também
várias coisas, por exemplo, a internet. [...] Tem vários comércios [...]: tem supermercado,
tem festas, tem igrejas, etc. [...]. Tem missa todo domingo de manhã, toda semana. [...]
(Patrícia, localidade Roça Nova)
[...] a cidade é importante porque lá tem tudo que nós precisa. Nem tudo né, mas o básico
muita coisa a gente vai buscar na cidade, tem que comprar lá pra trazer pra cá. Você
entendeu? (Paulo, localidade Jenipapo).
Tais qualidades são apontadas como negativas para uns e positivas para outros. Para
uma menor parte, paradoxalmente, as características assumem tom positivo e negativo, ao
mesmo tempo. Possivelmente, isso revele as necessidades dúbias que reclamam quanto a
poderem viver num lugar tranquilo, mas dinâmico o suficiente para terem acesso às
alternativas de estudo e formação, de trabalho, de lazer, de informação (internet), serviços e
consumo, especialmente aquele mais identificado como das juventudes. Para esses jovens, em
tal lugar não há como se gerar quaisquer perspectivas, o que os faz desejar ir para o meio
urbano a fim de buscar satisfazer suas necessidades objetivas e subjetivas.
A noção de evolução, progresso, diversificação etc. vai qualificando os depoimentos
dos jovens quando se ocupam de diferenciar o rural do urbano. Muito embora pontuem as
complexidades do ambiente urbano, todos os jovens também entendem a cidade – no caso, as
cidades maiores – como o lugar do imprevisível, do inusitado, de conhecer e experimentar
coisas novas e também o lugar das oportunidades, das possibilidades. O discurso juvenil
identifica o rural à ausência, à carência, à falta. Na cidade tem, no interior não tem.

[...] pra nós que mora aqui no interior eu acho que a cidade é assim a melhor forma da gente
procurar novos empregos, estudar mais, porque aqui a gente só tem até o terceiro ano, aí
quando termina o terceiro ano muitos param e vão trabalhar nessas fazendas aí, e as
mulheres normalmente se casam; eu acho assim: que poderiam ir pra cidade pra procurar
empregos, fazer uma faculdade, alguma coisa assim. (Tatá, localidade Vereda dos Tinguis)
Os depoimentos da maioria dos jovens pontuam as condições de abandono em que se
encontram enquanto moradores do meio rural. As políticas públicas de educação superior,
esporte, lazer, cultura não chegam até aquele destino. Retomando as reflexões de Wanderley,
1996, encontramos junto aos jovens do sudoeste piauiense a mesma realidade de exclusão
localizada em suas pesquisas, fazendo com que também no Piauí a escassez, as ausências
apareçam, talvez, como o diferencial mais forte entre os meios rural e urbano, como seguem
indicando as narrativas colhidas:

É uma falta de oportunidade pra nossa vida estudantil, nem na área de trabalho, nem na área
de educação [...] Já aqui, se você quiser se formar, tu vai ter que sair do teu interior e ir pra
uma cidade mais abrangente que tem esse tipo de estudo: Floriano, Teresina ou Uruçuí. [...]
Exceto das dificuldades que tem, porque pra vim alguma coisa pro interior... pra gente já
tá... por exemplo, se vier algum concurso na cidade, quando os do interior vier saber, já
passou o concurso. [...] (Mulher Maravilha. Localidade Roça Nova).
Conhecedores que são de outras realidades – através de viagens que realizam, do
contato que estabelecem com parentes e amigos que migraram e da própria comunicação de
massa a que têm acesso (rádio, TV, internet) – propugnam suas escolhas e demandas, cientes
das distâncias que se interpõem ao acesso desejado. Ao mesmo tempo fazem a crítica daquilo
que fortemente caracteriza o rural que vivenciam: a escassez, produto da lógica excludente
operada pelas escolhas políticas dos gestores dos recursos públicos que, como tais, deveriam
contemplar a todos, indistintamente da área geográfica em que habitam.

A escassez histórica, acompanhada de um percurso cultural urbanizado/urbanizante


vivido pelo Brasil, gera marcas simbólicas e materiais que definem o interior como um espaço
menor, feio, insuficiente, atrasado e indesejável. Tal realidade concorre para que os próprios
jovens rurais também construam visão estigmatizada acerca do seu lugar, muito embora já
vivenciem mudanças, como destaco na seção a seguir.

3.3 Mudanças: a cidade também abriga o caótico e o interior ganha novos contornos.
Os modelos de urbanização consolidados no Brasil, os modos como se produz,
circula e distribui a riqueza, as escolhas políticas consumadas, dentre outras razões, têm
gerado por um lado, a objetiva concentração de renda e por outro, o profundo imbricamento
do processo de subjetivação humana com a noção do consumo. Articuladas, ambas têm
apresentado como consequência direta a miséria social e humana, as quais não escapam à
percepção dos jovens entrevistados, que fazem a crítica aguda sobre os problemas gerados
pela urbanidade, apontando especialmente a diversidade de problemas presentes nos médios e
grandes centros. Tais problemas são traduzidos pelos jovens como quebra de vínculos, medo,
drogas, violência, desrespeito, insegurança, impotência, desesperança etc.
A partir dos meios de comunicação de massa os problemas urbanos são apresentados
aos jovens rurais e por eles interpretados como fator de desgaste da qualidade de vida nas
cidades. O medo, a violência, o anonimato, a insegurança são aspectos frequentemente
reportados como perturbadores da vida na cidade. Muito embora ainda apareça como o lugar
de realização dos projetos individuais mais ambiciosos, os jovens reconhecem a condição
dúbia do ambiente urbano e sinalizam desencanto com a promessa da cidade enquanto lugar
de construção plena da vida: “O ambiente [da cidade] é bem mais ativo, tem assim... as
atraências são bem maiores, tanto pro lado bom quanto pro lado ruim[...]”; (Nanda,
localidade Roça Nova. Grifos meus). [...] porque nos interiores as pessoas geralmente todo
mundo se conhece, é amigo. Na cidade, às vezes, é diferente. Às vezes, você mora ao lado de
um pessoa, convive há um ano ao lado de uma pessoa, sem ter relação nenhuma com aquela
pessoas [...]. (Paulo2, localidade Jenipapo).
[...] como todos já falaram, a cidade é um lugar muito bom, porque você vai pra lá, vai
trabalhar, vai estudar, mas também tem a questão da violência, porque hoje a violência tá
tomando de conta – acho – que do mundo, que você só vê falar em assassinado, estrupo... Se
torna muito perigoso pra gente. Assim você num pode andar na rua tranquilo, porque alguém
pode lhe assaltar, pode lhe assediar sexualmente... (Émile, localidade Jenipapo);

Aqui é uma vida bem mais tranquila [...] as mulheres não tão envolvida com a prostituição;
[...] no interior a prostituição é menos que na cidade e na cidade você vê menina de nove,
dez anos, já tá envolvida com homem ou até com menino. E no interior, não. [...] (Patrícia,
localidade Roça Nova);
[...] você tá aqui no interior, nem toda hora você vê alguém falando: “mataram um de tiro,
mataram um de faca, um carro virou, explodiu uma coisa ali”. Na cidade, não. Toda hora
você tá vendo morte de tiro, de faca, carro virando, terra tremendo como aconteceu lá no
Japão, né? Pra mim, a diferença é essa daí. (Gabriel, localidade Vereda dos Tinguis).
Muito embora a fala dos jovens possa explicitar traços da cultura midiática do horror
acerca da violência urbana, é inegável que dialogam com realidades concretas e que traçam
um distanciamento afetivo/cultural em relação às mesmas, fazendo com que uma idealizada
realidade do campo surja contraposta ao urbano caótico. Sabendo que a intensidade dos
problemas apontados, de fato, são díspares, é pertinente pensar que o cenário do caos total
versus o cenário da tranquilidade total podem pontuar as narrativas como símbolos pictóricos
de afirmação definitiva da escolha do rural como o melhor lugar.
Assim, para alguns, o meio urbano só tem vantagens no estrito oferecimento de
condições de estudo, trabalho ou algum lazer. Assim, afirmam pretender se fixar no campo,
limitando sua expectativa de relação com a cidade estritamente quanto às possibilidades de
acesso às condições aludidas, à aquisição de meios viáveis para conquistarem a
independência, estabelecerem suas vidas com certa segurança, inclusive, fora do trabalho da
roça. “Eu, se não achar um trabalho aqui, aí não tem outra opção. Tem que sair, trabalhar em
outros lugares, mas a minha visão é aqui.”. (Flor, localidade Roça Nova).
Pra mim assim, eu quero ficar morando aqui, só que também eu quero trabalhar e aqui num
tem muito meio assim da gente encontrar essas coisas. Eu penso assim em estudar, fazer uma
faculdade, alguma coisa assim e conseguir um emprego aqui mesmo e vim morar aqui. E
ficar trabalhando lá e morando aqui. (Tatá, localidade Vereda dos Tinguis);
Eu acho que preferia ficar aqui, porque, em meio a tudo, a gente gosta daqui. É bom, eu não
acho tão ruim assim. Aí, a falta de opção [é] que faz a gente querer ir bem mais longe, mas
acho que se tivesse aqui, seria bem mais fácil pra mim. (Safira, localidade Roça Nova);
As narrativas contam de um reencontro dessas novas gerações com o rural.
Possivelmente, outro fenômeno venha contribuindo para isso. Nos últimos tempos, a partir do
contato com alguns segmentos urbanos e neles identificando a preferência pela vida no
campo, também nas localidades estudadas os jovens vêm redescobrindo o rural sob os novos
signos da multifuncionalidade e da pluriatividade (CARNEIRO, 2002) e da sustentabilidade
(MERLLINGUER, 2010) e, inclusive, da vivência tradicional. Chama a atenção, por
exemplo, a comum manifestação de jovens que pretendem conquistar um emprego, mas
declaram que o plano é também manter alguma plantação, embora pequena, buscando meios
de trabalhar de maneira menos penosa.
É por este novo crivo geral de análise que o interior surge também como lugar
tranquilo, com muita natureza, onde todos se conhecem, onde os jovens contam com suas
famílias e amigos. Esses aspectos vêm sendo retraduzidos, revalorizados pelos que vivem ali,
fazendo com que o meio rural venha sendo considerado por alguns desses jovens como o
melhor lugar para se viver, conforme também apontou Carneiro, 1999, em estudos feitos no
sudeste do Brasil. Os depoimentos apontam: “[...] acho que o lugar em que você nasceu deve
ter orgulho. Eu, pelo menos, tenho orgulho de morar aqui no interior”; “aonde você pode
respirar um ar bem mais puro [...]; “é onde eu me sinto livre” (Patrícia e Safira, localidade
Roça Nova. Grifos meus).

Eu penso em fazer igual a meu pai. Me casar... estudar, me casar, trabalhar fora e vim pra cá,
pra onde meus avôs e morar junto com meu pai. Eu penso em fazer igual a meu pai: estudar
até terminar os estudos, casar, arrumar um novo emprego, me mudar pra cá. Perto dos meus
avôs e do meu pai, só. (Luquinha, localidade Vereda dos Tinguis);
[Na cidade] Há muitas festas, muito som, me incomoda. A poluição... Aqui a gente vive
numa zona rural que não tem poluição, na cidade já tem. Eu me dou muito mal. Aqui...
temperatura também, eu acho uma diferença. [...] a cultura aqui é de um lugar mais tranquilo.
[...]. No nosso caso, a área rural é uma área sossegada, em contato com a natureza, hum,
mais calmo, limpo e isso te traz uma qualidade de vida muito grande, muito boa. E o que é
aliado à qualidade de vida é justamente o que falta. Pontos ruins: falta de um serviço ótimo,
de educação, de saúde, é... de saneamento básico. Então, aliando qualidade de vida ótima,
sossego, natureza com esses três pontos fundamentais, acho que tornaria a área rural um
ambiente muito agradável pra se viver. (João, localidade Roça Nova).
Pelo que percebi, as apreciações feitas a partir da releitura do rural contribuem para
que a atual visão sobre o “interior” também traga avaliações positivas, engendrando vantagens
em relação à cidade, o que faz a absoluta maioria dos jovens entrevistados desejar permanecer
no lugar onde nasceu, com o qual construiu relação de pertença. Não obstante, os jovens
participantes da pesquisa vivem, no seu tempo e de maneira mais intensa, o momento de
construção de suas vidas, vez que já são interpelados a responder às demandas do mundo
acerca do lugar que ocupam na família, na comunidade etc. e o que pretendem fazer de suas
vidas.
Nesse contexto, a relevância do “lugar onde nasceu” na vida de cada um ainda
aparece secundarizada em relação ao estudo e trabalho, considerados requisitos indispensáveis
para se reproduzirem, como Felipe, jovem da Vereda dos Tinguis, notifica acerca das
recomendações de seus pais: “olha, estude pra você não ficar igual a mim. Depender da roça,
um dinherim só do Bolsa Família... estude muito, pra um dia você se formar e ter melhor
condição, ter mais desenvolvimento do que eu”. Ao se manifestarem, os jovens demandam
condições de vida, acesso a bens e serviços públicos, posto que componentes necessários à
reprodução social digna, ao tempo em que denunciam a escassez permanente no campo e o
trabalho penoso da roça como nocivos ao pleno desenvolvimento das juventudes como
sujeitos sociais deste nosso tempo.
4 Juventudes e juventudes rurais: conceituando a própria vivência

A partir da perspectiva aqui assumida, pensar a juventude é situá-la dentre vários aspectos a
ela relativos e, ao mesmo tempo, ambientá-la nas condições sócio-ecomômico-culturais
particulares de existência, focando a análise no específico que as marca. Assim orientada,
pude encontrar nas narrativas dos jovens do sudoeste piauiense reflexões que qualificam as
juventudes nesse mesmo sentido: “Ser jovem não é só pela idade, mas também tem que estar
por dentro da coisa. Tem uma moda, [...] às vezes tem umas palavras, tem umas coisas...”
(Abacate, localidade Jenipapo);

[...] interagir nas atividades que envolvem os jovens, se divertir também. Faz parte da
juventude participar, estudar, trabalhar, descobrir novos caminhos... de trilhar os bons que a
vida oferece, porque ela oferece os bons e ruins. A gente tem que saber em qual trilhar.
(Jaíra, localidade Vereda dos Tinguis);
[..] porque nossos pais já tem a preocupação com a gente, em a gente sair eles fica naquela
preocupação, sem saber o que pode está acontecendo. E nós, jovens, não tem essa
preocupação mermo definitivamente. Assim... num tem nenhum filho, casa. Vida mansa.
Sair e chegar a hora que bem quiser, num tem a aquela preocupação de dizer: “eu tenho que
chegar aquela hora certa”. [...] Muitos dizem: “eu num tenho nenhum filho em casa
chorando, então eu chego a hora que eu quiser”. Tem alguma preocupação de algum estudo,
de algum trabalho (Edenilde, localidade Jenipapo);
[...] desde que seja a melhor parte que a gente viva com responsabilidade. [...] devido à falta
de responsabilidade por parte de alguns, é que a gente tem visto os acontecimentos mais
terríveis na sociedade. Por causa da juventude usando a liberdade, mas é transferindo a
liberdade para a libertinagem. (André, localidade Roça Nova);
[...] jovem é o cara ser livre, se sentir mais à vontade. Não sem compromisso, com
compromisso, sim. Mas com nem tanta responsabilidade. Pro cara casar, né, tem a
responsabilidade, tem a família, tem tudo. O jovem é mais livre, tem mais liberdade pra sair,
de curtir [...] (Paulo2, localidade Jenipapo).
Analisando as falas dos jovens pude identificar que a noção construída pelos sujeitos
encontra-se delimitada especialmente pelos entendimentos de fase de vida, dimensões
culturais e de gênero, hierarquia, moratória social, futuro, assunção de responsabilidades e
diversão. Nas falas juvenis, aqueles que, de um modo ou de outro, têm sua vida cotidiana
pautada pelas práticas, limites e valores do grupo familiar ascendente, são consideradas
jovens. É certo que a referência etária aparece nas interpretações, mas é igualmente
verdadeiro que a mesma esmaece ante as considerações que ressaltam, no intertexto, a questão
da autonomia, que guarda estreita relação com a hierarquia paterna e materna.
A questão da independência, da autonomia surge noutro contexto importante: não
obstante o peso que a questão financeira e o vínculo do casamento possuem no esforço que
fazem para enxergar nos liames da realidade quem seja a juventude, fica claro que um, outro
ou ambos não parecem sumarizar o entendimento construído. Durante a pesquisa encontrei
pessoas consideradas jovens que são autônomas financeiramente, assim como alguns casados
que são apontados como jovens. O que parece estar centralmente implicada é, sim, a ideia de
“nem tanta responsabilidade”, isto é, a possibilidade de transferir o peso de encargos
financeiros, familiares, socioculturais e morais a pai, mãe ou congêneres, o que possibilita ao
jovem “aproveitar” mais o “momento” da juventude. O entendimento traz à cena principal a
questão da forte hierarquia presente dentre os grupos familiares rurais e como este parâmetro
cultural é vivenciado e explorado de forma funcional aos interesses juvenis.
Quando atribuem alto valor à não responsabilidade com a família, deixam entrever
que se referem ao fato de ter a inteira responsabilidade pela gestão de uma unidade produtiva,
no caso do homem, e de assumir o controle da casa, no caso da mulher, e de assumirem
solitariamente a reprodução do grupo familiar (de ambos) que coloca a pessoa numa condição
diferenciada dos jovens: ela passa a ser entendida como adulta. Como sabido, no meio rural
esses fenômenos quase sempre coincidem com o casamento, o que, embora ainda ostensivo na
atualidade, começa a mostrar alterações, em face das modificações do próprio casamento e da
família como um todo.
Certamente, pelo mesmo critério, não apontaram como jovens os casados, de faixa
etária menor de 25 anos, que moram em casa própria, produtivos, autônomos econômico e
socialmente falando. Também consideram jovens os rapazes com idade superior à faixa etária
apontada, autônomo financeiramente, porém residindo na casa dos tios ou pais, observando ali
as regras de hierarquia vigentes. Por último, deixam de entender como jovem uma mulher,
dentro da faixa etária considerada, mãe solteira, responsável pela sua família, embora
residindo com o irmão. Foi apoiando-se em tais referências que a juventude de Roça Nova –
respondendo quem são os jovens da localidade – elegeu aqueles e aquelas que considera como
os jovens locais e nessa classificação incluiu duas pessoas, que convivem juntas, mas moram
com os avós, vivendo sob a orientação destes, muito embora ambos situem-se na faixa etária
apontada e o rapaz trabalhe para sustentar-se, à esposa e filha.
Outros aspectos aparecem imbricados à análise dos jovens, como a condição
transitória juvenil, como afirma Tyson, jovem de Roça Nova: “Eu também vejo o que é ser
jovem como também um tempo de preparação [...]”. Esse entendimento imprime à juventude
a noção de fase de vida. O jovem é quem ainda está em fase de planejamento da vida; são
aqueles que estão “correndo atrás”, “em busca”, mas “presente nas conquistas né, nas
batalhas” e, por isso, os sonhos e a responsabilidade são também lembrados como aspectos
constitutivos daquilo que enxergam como sendo a melhor parte da vida.
Nesse ponto ressaltam duas importantes questões: a primeira, mesclam menções ao
prazer no curto prazo, à visão hedonista de juventude (“aproveitar a vida”), à questão da
moratória social (preparo para a vida adulta, para a responsabilidade). Mas também é a
juventude um estágio em que recebem as cobranças, no sentido de se colocarem proativos,
dizerem ao mundo como veem a realidade e qual contribuição oferecerão ao grupo e à
comunidade, candidatando-se aos deveres e compensações da idade adulta (autonomia,
fruição do peso e da vantagem de conduzir-se responsavelmente no mundo). Por isso, tempo
onde também vivenciam planos e projetos para a vida futura.
Algo interessante encontrado nas narrativas foi a persistente percepção de juventude
como sinônimo de futuro: “O jovem hoje tem o futuro. De Roça Nova, de Sebastião Leal, do
país. O futuro depende dos jovens de hoje. O jovem de hoje que se interessa [...] em estudar e
trabalhar, com certeza o futuro daqui vai ser brilhante". (Tyson, localidade Roça Nova). Os
cenários que compõem a narrativa do jovem não incorporam as dinâmicas rurais que
marcaram as vidas dos seus genitores, havendo um “esquecimento” da agricultura de
aprovisionamento tradicional local como participante do futuro dos jovens. Mesmo aqueles
jovens que se veem no futuro lidando com sua própria produção, veem-se numa perspectiva
diferente:

[...] não [tem futuro]. Pra mim, no projeto, eu vou ser peão e eu montando um negócio, eu
vou mandar no negócio. Vai ser bom, diferente. Mas eu vou ter que sair pra ganhar esse
dinheiro, não tem jeito, não. Tem que passar pelo menos um ano fora e também não é só sair,
eu quero aprender também. Porque o cara, não adianta, o curso, em si, o cara não aprende. O
cara aprende trabalhando. (Paulo, localidade Jenipapo).
Nas narrativas, sempre que a agricultura local passa pelos planos de futuro da
juventude local, marcando-a como certo segmento juvenil, aparece como propósito de
superação da sistemática tradicional de trabalho, como visto acima, tanto na técnica adotada
quanto no tipo de produção. Para os jovens que fizeram cursos técnicos, pensar em produzir
passa pela soja e pelo uso de tecnologias e insumos diversos, posto que o trabalho da roça,
conforme o aprendizado geracional, permanece na representação juvenil como pesado, difícil
e pouco frutífero: “Ah! daqui a dez anos eu quero tá trabalhando assim... não num serviço não
tão pesado, porque eu não sou homem de tá fazendo serviço pesado, não. Um serviço
maneiro, que dê pra passar [...]”. (João2, localidade Jenipapo). 2
É por este prisma que fazem o apelo ao estudo e à oportunidade de trabalho dele
decorrente como garantia de futuro pessoal e do lugar onde vivem. Mas a crítica às
circunstâncias locais, restritivas ao estudo e às possibilidades de trabalho no mercado
existente, o do agronegócio, já desponta nas análises de alguns:

a maioria dos jovens que estuda faz só o ensino fundamental, o ensino médio. Ele não tem o
conhecimento na área técnica, aí tem dificuldade, sim. Que aí ele vai ter que sair pra
trabalhar como peão de projeto pra ganhar dinheiro. Aí, pronto! Ele não vai pegar
Universidade, porque ele quer saber de dinheiro e jovem não fica sem dinheiro. Aí, vai pros
projetos ganhar dinheiro, quando recebe o salário de 800 conto, mil conto ele se conforma
com aquilo...”. (Paulo, localidade Jenipapo).
Sobre este aspecto, já demonstrei em outro momento (SILVA, 2014) que a geração
de postos de trabalho pelas fazendas de soja de Sebastião Leal é insatisfatória quanto-
qualitativamente. É diminuta, tanto em números absolutos, quanto se comparada às
oportunidades geradas pela agricultura camponesa. Como vemos, estão em discussão questões
estruturais da monocultura granífera, as quais não se dão para solução no campo das
individualidades, como sugere os jovens entrevistados quando afirmam que se o jovem

2
A ideia da roça como trabalho que não rende conforme o investido fica mais clara quando Paulo organiza sua
interpretação da roça conforme os novos parâmetros trazidos pelo agronegócio: “foi estudando que eu aprendi
trabalhar com técnica, às vezes eu trabalho hoje já na roça, eu já trabalho mais diferente, não trabalho como eu
trabalhava antigamente, que eu não sabia de nada como é que trabalhava. Hoje eu trabalho com técnica. [...] A
roça [...] melhorou assim em termos de plantio. [...] foi melhorando assim porque antigamente o cara que
trabalhava na roça antigamente era mais difícil, [...] o cara limpava só na enxada. Hoje é diferente. Tem
maquinário pra arar ali a terra, mas ainda falta maquinário ainda pra plantar. Hoje ainda tem gente que planta
com a máquina tico-tico, ainda não sabe o espaçamento que seria pra produção. A produção não tá tão boa causa
disso, em termo do plantio. A adubação, a gente aduba, é adubado, mas é de qualquer jeito, ninguém faz uma
análise da terra pra fazer adubação correta, pra ter uma produção também muito boa. Aí, o pessoal, todo mundo
aqui planta do jeito que der. Adubo, nem todo mundo tem condição de botar adubo, uns bota outros num bota... o
espaçamento num é correto, aí por isso a produção na roça aqui não é tão boa.”. Este é o futuro que o jovem
busca para si, enquanto produtor. Claro, quando tratamos de agronegócio, estamos falando de jovens do sexo
masculino, posto que as meninas sofrem restrições a mais nas possibilidades de trabalho na soja, como
mostramos em SILVA e LIMA, 2015. Nas localidades, muito embora algumas jovens já trabalhem no comércio
local, as possibilidades de trabalho para as meninas permanecem sendo mais frequente aquelas atinentes ao
trabalho doméstico, o qual exercitam desde criança. É Émile quem nos diz: “[...] sempre trabalhei em casa de
família, desde 16 anos que trabalho em casa de família. [...] Tenho uma tia que num pode fazer toda coisa, aí, eu
faço faxina na casa dela. Aí, vou levando. Às vezes, quando num posso, peço à mamãe, pai... aí, vai empurrando
(Localidade Jenipapo).
estudar e trabalhar, terá um futuro brilhante; se juntar seu dinheiro poderá montar sua área de
produção.
Sabemos, muito mais está implicado na atual situação de trabalho e emprego dos
jovens de Sebastião Leal. Trata-se de questão social complexa, ambientada num contexto de
avanço do agronegócio sobre a agricultura familiar, conforme abordada em Silva, 2014.
Desenhar um futuro para os jovens rurais da região assentado na ideia do agronegócio e na
superação individualizada dos obstáculos parece ter comprometimentos de partida, que não
estão dados aos jovens solucionar a partir apenas de esforços pessoais.
Outro ponto que estabelece contornos à experiência dos entrevistados é a questão de
gênero. Ser homem ou mulher define o modo como experienciam suas juventudes, como – de
resto – em todo lugar. Em todas as localidades encontramos bem marcada nas narrativas a
diferença das sociabilidades permitidas para homens e mulheres, restando aos homens “maior
liberdade” e às últimas, maior controle, menor estímulo à autonomia etc. engendrando
contextos de dominação das mulheres, ou pelos homens (pais, irmãos, maridos, namorados)
ou por outras mulheres que assimilam tal cultura (mães, avós, irmãs mais velhas, vizinhas
etc.). É comum nas famílias as meninas terem as companhias e os namoros mais controlados
por pais e mães, assim como as saídas. Para irem às festas, grande parte das jovens só podem
fazê-lo se acompanhadas pelos irmãos, inclusive, mais jovens que elas, como podemos
conferir: [...] só que não é igual a menina ao homem. Não têm a liberdade que os homens têm.
Muitas vezes deixa de sair pra festa, porque a mãe não deixa. Mais fácil passear com as
colegas [...] (Patrícia, localidade Roça Nova).
Especialmente quanto às sociabilidades afetivas e relações sensuais, as meninas são
alvo de controle social rígido. Mães, irmãos, pais e a intervenção ativa da comunidade e dos
próprios rapazes delineiam os limites de ser jovem mulher no sudoeste piauiense: “[...] sei lá,
eles [meninos] se sentem mais no direito de ficar com quantas que forem e não fica mal
falado. E as mulheres se pegar muito, já era! (Monique, localidade Jenipapo). O “já era” diz
respeito a passar a ser “falada”, perder a moral de moça de bem e restar sem valor para casar
etc. A situação de gênero, portanto, não se apresenta diferente de outras regiões rurais do
Brasil, denotando que a mulher rural, apesar dos recentes avanços, ainda sofre restrições ao
seu desenvolvimento político, emocional, profissional meramente por ser mulher.
Quando os entrevistados se ocuparam em analisar as juventudes rurais, a partir de
suas próprias experiências, também o fizeram em comparação com os segmentos urbanos,
recortando, no cotejamento feito, alguns matizes diferenciais entre as diversas juventudes,
assim como apontado na discussão teórica, e abordando outros aspectos não tratados por mim.
Para os jovens entrevistados, a vivência cotidiana do trabalho é o grande marcador das
diferenças entre rurais e urbanos, como narram: “[...] geralmente, o jovem rural trabalha mais,
ajuda os pais. Muitos jovens da zona urbana nem trabalham, só estudam, tem tudo que quer e
muitas vezes nem valoriza o que tem”. (Jaíra, localidade Vereda dos Tinguis);
É o jovem que estuda, vai pra escola e quando chega vai ajudar seus pais na roça, na
agricultura que é o que se pratica na zona rural. Na agricultura, no cultivo dos alimentos, na
criação de animais, que é o gado, que é a nossa realidade aqui [...] A menina do interior, a
mulher do interior vai pra escola, aí chega em casa, ajudar a mãe na casa, só... [...] o jovem
da cidade é aquele que estuda, dedicado aos estudos, exclusivo, porque o pai ou a mãe, a
família trabalham, sustentam suficiente para que possa viver mais exclusivo para o estudo. E
depois ficar na pracinha, depois fazer suas tarefas, [...] passeios com seus colegas. [...] é uma
vida assim um pouco diferente da vida dos jovens do interior. [...] não tanto a questão da
liberdade, mas assim a liberdade deles é em devido dos pais, em ter mais condições, em não
ter tanta necessidade em tá ajudando seus pais. [...] E o jovem do interior tem por obrigação
ajudar seus pais, porque se ele não ajudar seu pai, quem vai ajudar? (André, localidade Roça
Nova);
[...] os meninos é pra roça assim... porque o pessoal da cidade aqui, eles num se identificam
muito... a vida deles, por exemplo, num vão se identificar muito com a roça né? Porque estão
na cidade. E as meninas... cuidar de casa, acordar certo, porque eu tenho... minhas amigas,
minhas colegas da cidade elas vão dormir, dorme o mesmo horário que eu, né? Quando nós
chega da escola, dez e quinze, elas vão dormir, acorda no outro dia nove, dez hora da manhã.
Nós aqui do campo, não. Seis horas, seis e meia tem que tá ali, em pé. Se não acordar por
conta, os pais vão lá acordar pra trabalhar... papai, ave maria! Não deixa eu dormir nem até
sete horas! (Tatá, localidade Vereda dos Tinguis);

[...] ele não tem muito tempo pra... pra diversões, pra festa, pra mexer com esses tipos de
coisa da vida, com drogas, com maconha [...]. E é uma vida mais é.... mais simples e até, por
um lado, até boa de viver [...]. Eu entendo que os jovens da cidade, alguns são bem mais
sofisticados que a gente, evoluídos, porque tá tudo ali presente no meio da população [...], as
notícias. E já os jovens do interior, da zona rural são menos evoluídos, porque, no entanto,
não tem muita tecnologia que venha até nós, a gente já fica num mundo mais excluído da
cidade. [...] (Mulher Maravilha, localidade Roça Nova).
Como vemos, não só para os genitores, mas também para os jovens, o trabalho se
constitui em esfera de particular relevância das sociabilidades partilhadas no meio rural.
Meninos e meninas experimentam-no desde tenra idade, pelo envolvimento com as atividades
de cultivo da terra e cuidado com a casa. Para os jovens, o trabalho é visto como
compromisso junto ao grupo familiar, do qual não podem declinar. Isso repercute tanto no
processo de aprendizado juvenil, quanto na assunção efetiva de responsabilidades para com o
núcleo familiar, seja quanto ao trabalho na terra – quando se trata do menino – ou na casa,
quando menina.
Trata-se de aspecto em tudo diferenciador desses jovens em relação aos urbanos, que
em grande parte não têm responsabilidades para com o labor dos pais e mães em face do
modo como a maioria das famílias se insere nas atividades laborais. Na cidade as realidades
do mundo do trabalho, normalmente descoladas das dinâmicas familiares, do conhecimento
geracional e das sociabilidades comunitárias distanciam os jovens da partilha cotidiana das
atividades dos pais, estabelecendo modos de vida diversos entre as gerações e diminuindo o
espectro de influência dos pais no processo de socialização dos filhos 3.
Mas os entrevistados também se reportam às territorialidades enquanto marcadores
de diferenças. Pensam, por exemplo, que jovem rural é quem mora em área rural, partilhando
de relações e cotidianidades específicas, nas quais a presença da família e da comunidade tem
papel central:
[...] o jovem do setor rural, ele, de certa forma, é um jovem mais... entre aspas, “matuto”. É
um jovem que é mais ligado aos pais, que vive desde a infância, desde criança, é... ligado
com a família diretamente. Então, isso gera um convívio de conforto, porque você estar num
lugar onde você tem o apoio dos pais e dos parentes, então isso gera uma liberdade e um
apoio e uma segurança muito grande. Muito maior do que na cidade [...] a gente aprende
desde a infância com os pais. A cultura ela é quase oitenta por cento repassada pros filhos. É
a tradição [...]. (Cícero, localidade Roça Nova).
Penso ser uma novidade o modo como os jovens se colocam diante das
sociabilidades geracionais rurais, especialmente aquelas que envolvem diretamente as
famílias. Posso destacar que em todas as entrevistas a avaliação feita pelos jovens acerca do
papel da família na sua vida foi positiva. As narrativas atribuem valor aos mais velhos e aos
aprendizados intergeracionais a que têm acesso, identificando em tais processos um suporte
positivo que também diferencia os rurais dos urbanos. Para eles, a convivência familiar
cotidiana reafirma a família como a referência maior de aprendizado, operando a reprodução
de postura mais conservadora por parte dos jovens rurais.
Mas pensar sobre os jovens rurais foi também pensar o preconceito que os açoita. O
estigma tem feito parte da vida de meninos e meninas, marcando os lugares e relações sociais
que partilham em diversos ambientes, como mostram outros estudos (PAULO, 2013). Nas
entrevistas, apontaram que a simples condição de residirem no interior tem sido suficiente
para definir situações de discriminação e constrangimento porque passam, como apontaram:
“A diferença é que muitos [jovens] da cidade... é... humilham bastante. [...] eu já percebi
bastante humilhação. [...] A parte de Sebastião Leal tem com os daqui[...]. (Tatá, localidade
Vereda dos Tinguis).
Você vê alguma diferença, não na escola. Na escola foi sempre super legal. Fora da escola,
tipo assim, em festa... festinha, sabe, as pessoa... têm algumas pessoas que estudava junto.
Na escola a gente se dava muito bem, só que em outros lugares a pessoa se afastava mais. E

3
Claro deve restar que falo de uma parte importante dos jovens urbanos, sem esquecer que nem toda a juventude
urbana pode ser compreendida por este prisma. Os jovens de periferias, por exemplo, que experimentam duras
realidades de exclusão e cujos pais e mães desenvolvem atividades laborais informais, não raro participam
dessas atividades familiares.
alguns jovens rurais eles quando são, tipo assim, quando estão em alguma repartição, eles
são excluídos para os jovens urbanos. Eu observo isso. (Monique, localidade Jenipapo);
Acontece... [discriminação] assim, porque é do interior, é do mato mesmo. Tem algumas
coisas que eu tenho vergonha, porque os do interior tem mais vergonha que os da cidade.
Tipo assim, oh... nós tamo bem aqui: o jovem do interior chega, ele vai ficar acanhado pra
falar alguma coisa. Já o da cidade, não. Já é acostumado. Ele chega aqui, dá bom dia, boa
tarde. Já entra falando, porque vive na cidade no meio de gente. Já o do interior vê gente,
mas não tem aquela convivência do meio da turma de muita gente. Só os meus amigos aqui
do interior. (Abacate, localidade Jenipapo).
Tratamos, portanto, de um problema que atinge toda a população rural brasileira e,
particularmente, os jovens. A cada vez manifesta, a discriminação traz à tona e revitaliza as
concepções que a sociedade brasileira pratica, já historicamente, sobre o rural. As ideias de
atraso, pobreza, isolamento, feiura, inadequação etc. são acionadas para qualificar segmentos
populacionais e realidades a quem o país – e sua sociedade – negam o direito à existência
diversa. Nesse movimento, os urbanos cometem dois equívocos: o primeiro, de conduzir-se a
partir de um etnocentrismo míope, que não deixa ao outro a possibilidade de existência para
além dos seus domínios culturais. O certo, o bom, o bonito e desejável é ser urbano e viver
orientado pelos parâmetros que conformam este universo sociocultural. Essa visão
hegemônica, historicamente praticada no país, define um lugar subalternizado para o rural,
associando-o ao oposto do que viria a ser o urbano. Assim, dá estofo para o sentimento de
inferioridade, de vergonha, os quais, por seu turno, se afirmam como mecanismos de
reprodução de lugares subalternizados e de controle dos sujeitos, numa ordem social injusta e
estigmatizante. E o segundo, pratica o esquecimento de que daquilo que existe no rural de
verdadeiramente indesejável – a miséria, por exemplo – deve-se à implementação, dos anos
50 até os anos 2000, de um projeto de país que penalizou o campo, especialmente os
segmentos menos aquinhoados pela riqueza socialmente construída, como podemos conferir
em Delgado, 2010. No caso dos segmentos mais empobrecidos, a literatura dá conta do
constante processo de vitimização que os rurais sem posses sofreram, desde os primeiros
desdobramentos da chegada de Cabral por estas terras até a contemporaneidade, onde sequer
o direito à terra para o trabalho, vida e sustento conseguimos resolver (MIRALHA, 2006).
A memória da exclusão ainda hoje faz com que os entrevistados percebam que ser
jovem rural é, por fim, viver na escassez. Em vários momentos de interação os jovens
deixaram claro entender que a dificuldade de acesso à escola, ao trabalho, ao lazer, à saúde, às
novas tecnologias e ao consumo marca o jovem como do interior. Normalmente têm maior
dificuldade de acesso a mercados, a produtos, serviços etc., mesmo que detenham as
condições para consumir, consolidando a máxima muito utilizada “o rural é difícil”. Para os
entrevistados, não ter o acesso faz com que os jovens rurais sejam menos “evoluídos”,
estando em desvantagem em relação aos jovens urbanos.
Os limites existentes são interpretados como instransponíveis no ambiente rural, o
que justifica a busca da cidade, mesmo ante as críticas que fazem e aos riscos que julgam
correr. A busca de superação da carência generalizada, da construção dos projetos pessoais,
isto é, a reafirmação da sua condição juvenil propositiva para o jovem rural está, portanto,
cada vez mais se distanciando dos modos de reprodução que engendraram aquilo que hoje
ainda aparece valorizado nos diálogos travados pelos jovens. De certa maneira, a realidade
juvenil rural é atravessada pela contingência de que ser jovem rural no Sudoeste é também
conduzir-se sob padrões e códigos urbanos, de modo complementar e interdependente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS.
Os estudos realizados indicam que os percursos analíticos construídos pelos jovens
expõem a complexidade das categorias analisadas, bem como mostram a flexibilidade que
operam quando se põem a pensar sobre as referências teóricas por mim adotadas. É entre
fronteiras esmaecidas que situam miséria e celular; enxada e colheitadeira, falta de escola e
cartão de crédito, hierarquia patriarcal e internet, festejos e tatuagens, namoro na porta e
mechas californianas nos cabelos... o leque de atributos é extenso e surge costurado no leito
das contingências, mediações e possibilidades da realidade local em que se inserem. É no
deslocamento ‘entre uma coisa e outra’ que as falas apontam o que é o rural e o urbano. É
trançando questões econômicas, ambientais, culturais, etárias, estéticas, sociais, geracionais e
de gênero que marcam as compreensões expostas sobre suas juventudes.
Ao vivenciarem, ao mesmo tempo, a agricultura familiar, as atividades do
agronegócio, experimentos urbanos e a revolução telemática os jovens participam das práticas
sociais e códigos culturais tradicionais, porém sob as mediações das urgências e contingências
verificadas local e mundialmente. Assim, delineiam a ideia de ‘jovem rural’ como
especialmente construída sob a marca da pluralidade, da mobilidade, fazendo da juventude
uma realidade em trânsito, metamorfoseada.
Ao tempo em que vivem carências recrudescentes como símbolos persistentes do
rural, lançam-se no espaço urbano em busca de estudo e trabalho, condições que consideram
habilitá-los para superar a representação do ‘atraso’, espaço onde também acessam atributos
que possibilitam a ressignificação do próprio espaço rural, o qual se lhes aparece sob nova
leitura. Apontam, por fim, que, diferente dos jovens da cidade, ser jovem rural é viver na
dubiedade de trazer consigo referências urbanas e rurais, é ser “os dois juntos”, é ter “um
pouco de cada um; um pouco daqui, um pouco de lá”, como resultante dos intercâmbios que
operam, fazendo do hibridismo, do nomadismo as marcas maiores dos diálogos construídos
acerca de si e dos territórios de suas vidas. A meu ver, entender-se situados na indefinição
implica uma realidade que instala a contingência nos processos vividos pelos jovens na
família, na comunidade e demais grupos sociais a que pertencem, no sentido já exposto
anteriormente.
Essas são as referências gerais que auxiliam o observador na compreensão acerca do
ambiente e dos sujeitos abordados no estudo. Não obstante a complexidade apontada nas
falas, a qual vejo respondendo pela realidade daquela juventude, penso que os jovens
entrevistados, como os demais, também não representam uma unidade que se dá à captura
total a partir do aqui apresentado. Pelo contrário, preservam particularidades diversas,
expostos que se encontram às inquietações contemporâneas de maneiras várias, as quais não
se esgotam nos limites deste artigo.
Assim, é também sofrendo as vicissitudes do tempo em que vivem, recebendo todas
as influências do contexto histórico – e gerando outras – que experimentam, que os jovens
constroem dialogicamente o espaço a que pertencem e a si próprios. Constroem o rural, o
urbano e os sujeitos por mim e por eles delimitados enquanto os jovens rurais do Sudoeste
Piauiense.

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SOBRE A AUTORA

Valéria Silva
Doutora em Sociologia Política-UFSC, com Pós-doutorado pelo CPDA-UFRRJ.
Profa. Associada-UFPI, com vínculo permanente junto ao Programa de Pós-Graduação em
Sociologia-UFPI. Membro do Laboratório de Observação Permanente sobre as
Transformações do Mundo Rural do Nordeste-LAE RURAL-UFCG. Membro do Núcleo de
Estudos sobre Ruralidades Piauienses-NERUT e do Núcleo de Pesquisas sobre Crianças,
Adolescentes e Jovens–NUPEC, ambos da UFPI.

E-mail: valeriasil@uol.com.br