Você está na página 1de 7

·... .......· ·.

....
....· . ·.
·. ...
.· •.

·.
..

..


.. .
...
···:·.
...
->:·.·
JERUSA PIRES FERREIRA
,
, .

O PENSADOR DE TÁRTU

Em novembro de 1993, foi sepultado em Moscou um dos mais imponantes pensadores JERUSA PIRES
das ciências sociais deste século, aquele que levou a pequena cidade de Tánu, na Estônia, FERREIRA 6 profa 11 Oi&
da ECA·USP e da PUC-
onde vivia, a ser cogitada como espécie de Meca do pensamento semiótico, da reflexão SP. é. ...iota da,-•
renovadora sobre comunicação, arte, sociedade. outl'Oll, Annadllha da
Memdtúl (Caa de Jorge
Os jornais italianos que noticiaram e comentaram o fato destacaram a notícia e presta· Amado) • o Livro de
ram comovidas homenagens a Lotman e, no suplemento de cultura de La Repubblica (l) Slo C/prlllno
(29110/93),ocupando uma ~ginainteira, lê·se,sobo título" Aquele Homem Formal": "lúri (Perspectiva).
Mikháilovich Lotman que, à primeira vista, parecia com as velhas fotos de Einstein, devia
dar-se conta disso. Só que havia uma diferença. Em vez de ser um gênio da ffsica o era das
Ciências Humanas, e para ser mais preciso, da Semiótica". Nesse tom, dá-se conta do seu
falecimento depois de prolongada enfermidade, aos setenta e um anos, do mesmo modo
que é referido o fundamental rigor com que ele desenvolveu seus modelos interpretativos
e, comosemioticista, apoiou-se num terreno histórico, filológico, textual, no qual mantinha
bem fumes os pés. Aí mesmo se diz:

"Na primavera passada, Feltrinelli publicou de Lotman' A Cultura e a Explosão', um


ensaio, com m.u.ito sucesso. Mas quando em 1958 saiu seu grande estudo sobre Andrei
Sergeievic Kajsarov e a.luta socioliterária de seu tempo, bem poucos prestaram atenção
ao jovem docente de Tánu. E, no entanto, o primeiro volume dos trabalhos de filologia
eslava e russa, saindo no mesmo ano na mesma série da Universidade de Tánu, põde
revelar retrospectivamente, qualquer que fosse a direção que andavam tomando e
resultando as pesquisas, aquele grupo de estudiosos da literatura russa. Os historiadores
da semiologia soviética fazem remontar os começos a um seminário de 1962, e en·
quanto corria nas ~ginas das revistas soviéticas um debate sobre literatura e
cibernética (e de fato bastante preso à contraposição ideologia x ciências
exatas), em 1964 se realiza o primeiro Seminário do Verão sobre os siste·
mas modelízan.tes secundários, cujos materiais eram recolhidos em 1 Ot teX10I 00 ·~'° de
CYl1uta 110 : ·ouel Uomo
volumezinhos anesanais, com as ridículas tiragens de 250 a SOOexcm· Fonnaltº por Ceute G. de
~. iron1oo.o.nw.·
piares. Já no segundo, de 1966, o comitê organizador (Lotman era por Etwico FtMCleChlni.

115
af o reda.tor responsável) podia escre- los XIX e XX, que provém de Potebniá e
ver: 'Em dois anos, o desenvolvimento Vesselóvski. pmando por Baudouim de
dascienciasdeàmbitosemióticoprogre- Courtenay, Roman Jakobson e Níkolai
diu, de modo significativo. Muito daqui- Trubetskói~ (2).
lo que soava c:omo pioneiro e audaz foi
aceito ou pelo menos bastante difundi· Na introdução a um dos mais recentes
do'. Naquele$ anos, imediatamente de- livrosdetrabalhosdeJWiLotman, Universt
pois da queda de Kh.nlschóv, poderia of lhe Mind (3), ao apresentá-lo e, situando
pare<:erdespropositadofundarnaRússia sua dimensão e o alcance de suas teses, co-
wnacienciaque,acertandoasoontasoom menta Umberto Eooque seus trabalhos vão
omelborpensamentomodemo,simples- da análise dos fenômenos culturais, oomo o
mente nãose punba interrogaçõessobre uso dos jeans, às observações sobre
sua oompatibilidade maior ou menor demonologia, da leitura de textos poétioos,
oom o marxismo-leninismo (uma carac- da oonsideração dos problemas da inter·
terísticade grupoera seroonstitufdo por pretação até incursões nos domínios da
pessoas da mais heterogenea posição matemática e da biologia. Aliás, o prefácio
ideológica e religiosa, equanto a Lotman, de Eoo é importante para situar, com clare·
el.e foi membro do Partido até 1942). A za, a atuação de Lotman e fazer um peque·
capa dos Seminários de Verão tinha o no mas agudo histórico dessa aventura des·
título em grego Semioúkt, a mesma que bravadora num todo.
desde 1964abrigava a série de trabalhos Recentemente, e em sua homenagem,
sobre sistemas s!gnieos, inaugurada por escreveu V. V. lvanov (4) que Lotman é um
um volume de L.otman: Lições de Potti· capítulo inteiro da história da ciencia, desta·
ca Estrutural; aqueles que se seguiram cando sua luta contínua contra o
foram miscelAneas, sempre mais oons· establishment, apontando ao lado de seu
tantemente repartidas entre os vários heróico papel de batalhador por novas idéi·
campos de indagação: o mito, folclore as o profundo senso de humor e a devoção
religião, semiótica da cultura, semiótica à ciencia e à literatura.
da ane, poética. Um grande sigma logo
apareceu na capa de uma refinada série UMA TIPOLOGIA DA CULTURA
da casa editorial moscovita lskusscvo,
dedicada aos estudossemióticos sobre a A tese central de L.otman,emmatériade
teoria da arte, que no ano de 1970é inau- tipologia da cultura (S), uma de suas pro-
gurada oom a 'Poética da Composição' postas, é a de que é possível adotar,apriori,
de Boris Us~nski,professorda Univer· oomo quadro de classificação dos códigos
sidade de Moscou. Outros oolaborado- da cultura, sua relação do signo aos signos e
res fixos dos seminários e trabalhos de aos sistemas de signos ·e que a sucessão de
Tártueramde Leningrado, por exemplo códigosdominantesdaculturaserá,aomes·
Boris Mylack, e além disso Lotman ti- mo tempo, uma penetração, cada vez mais

____
2 Toem• '""*liQ6ee <li» . .
......
,,.,
nha estudado ali. Nos anos seguintes,
alguns volumes de Semiotikt Coram de·
dicadosa alguma personalidade russa do
passado recente, que tinha marcado os
profunda, da oonsciencia cultural coletiva,
nos princfpios que regem os sistemas de sig·
nos. Aproximando, de modo exemplar,
Cultura, História. Comunicação, enquanto
3 ~al*Ytwl.As...tbfG
,,_,.otCu!On. Ttod. AM
estudos russos soviétioos de Teoria e procedimentos semiótioos, ele nos instiga:
.......,_
8""kman. Londoft. T1t.1l1•.
1--p.Camp-•
História da Cultura.1971 ·Em memória
deVladúnirPropp;1973-Mikhail.Bakhtin;
"A cultura não é um depósito de informa·
ções;éummecanismoorganizado,demodo
4 V. V. ~. "ln "'9110riem.: 197S·Pioll'Bogatirév,marcandoimimum extremamente complexo, que conserva as
I~ E~
LotmM•, WI mapa dos princi~ pontos de reierencia informações,elaborandooontinuamenteos
- · -511-,,.
~1- da F.scola de l..olman, certamente ao lado procedimentos mais vantajosos e compalf·
6 k:lrtLA*Mn•lkllll''lpl - . da tradição dos formalistas (Cllklóvslci, veis. Recebe as coisas novas, codifica e
~ ,,... CullCN•.
- -....... 1117&, p.
Tynianov) e uma linha genética, aguda· decodifica mensagens. traduzindo-as a um
291. Ct . .,.,,. P-.dc:o oi
E\fetyôlY hh•~Of ln
mente identificada por D'Arco Silvio outro sistema de signos".
~­ Avalie que.em 19tll, preparou um m1me· Ao abordar cultu.ra oomo informação,
_a..nl,_,,,_
1-
c..iour.·. - - oi
ro memorável de 'Strumenti Critici' dedi· ele nos deixa passar por algumas idéias vi·
Vortc.. CCN'Mll Univ. Pr....
cado à cult.ura de tradição russa dos sécu· vas, oomo por exemplo a de que a cultura é

116
o mecanismo complexo e dl1ctil da consci- com um código 11nico, quanto um conjun·
Cncia e queo Ambitoda cultura éo teatro de to de textos com determinados conjuntos
uma batalha ininterrupta de tCnues de códigos correspondentes". ele nos diz.
desenoontros e conflitos de toda ordem, lu-
tando-se pelo monopólio da informação. E CULTURA E MEMÓRIA
aí nos diz que definir a essência da cultura OU CULTURA É MEMÓRIA
como informação significa colocar o proble-
ma relacional entre a cultura e as categorias Lotman afirma que a cultura. em~n­
fundamentais de sua transmissão e conser· cia, se dirige contra o esquecimento. Seu
vação, e as noções de língua e texto. O seu pensamento parece estar muitas vezes par·
conceito de texto cultural, muito difundido tindo de uma dialética, que aliás tem preo-
e ao mesmo incorporado na linguagem uni- cupado muitos pensadores da Cultura e da
versitária, Cala da cultura como um sistema Ane: a memória e sua contrapanida, o es-
designosqueorganizadeummodoenãode quecimento (7). Entram em consideração
outro as informações recebidas. Assim, que os barradores, os elementos que propiciam
ela não se contrapõe à natura mas à não- a lembrança. os vários tipos de lembrança,
eultura, àqueles conjuntos cujos pressupos- as estratégias e os impasses que geram o
tos de organização experimentam uma ou· esquecimento. Assim. Freud. Laean. Lévi·
tra ordem, ou seja, a desordem. A cultura é Strauss, Vemant, Zumthor, cada um a seu
um feixe de sistemas semióticos (linguagens) modo, trouxeram importantes contribui-
formalizados historicamente e que pode ções. Recentemente foi realizado em paris
assumir a fonna de uma hierarquia ou de um seminário, "Políticas do Esquecimen-
uma simbiose de sistemas autônomos. to". cm que Paul Zumthor, num rico texto,
Traduzirumcenosetordarealidadeem consegue recuperar algumas imponantcs
linguagem, transformá-la num texto. isto é, formulações de Lotrnane U~nski, perqui-
numa informação codificada de um ceno rindoos meeanismosdcscleçãoou rejeição
modo,introduziresta infonnaçãona memó- das informações, no grande texto da memó-
ria coletiva é para ele um ponto fundamen· ria de um grupo. O próprio Paul Zumthor
tal. Num crescendo, vai nos mostrando que nos Cala de uma energia imemorial e se apro-
cultura é informação, codificação, transmis· xima bastante de Lotman, ao seguir os mo-
são, memória, e conclui, de forma a não dos pelos quais a comunidade expulsa os
deixar lapsos: somente aquilo que foi tradi..· elementos indesejáveis e, mais claramente.
tido num sistema de signos pode vir a KT ele nos lembra que os dois semioticistas,
potrim6nio da melTWrla. esboçando os prindpios de uma tipologia
Neste sentido foi muito imponante a da cultura, enfatizam de que modo oesque-
publicação no Brasil de dois dos textos de cimentoéummccanismoexploradoporuma
Lotman em&mWtica Russa (6)- "Sobre o instituição hegemõnica, tendo em vista ex-
Problema de Tipologia da Cultura" e "So- cluir da tradição os elementos indesejáveis
bre Algumas Dificuldades de Princípio na da memória coletiva. E é interessante ver
Descrição Estrutural de um Texto"; no pri· como aí o esquecimento pode se transfor-
meiro, nos é passada, com bastante clareza. marnummeeanismodc memória.pois .. uma
a noção fundamental de códigos principais cultura concebe-se a si própria como exis·
e secundários que permanecem e se reite- tente, identifieando-sceom as normas cons·
ram na criação de novos textos. Aliás, essa é. tantcs da própria memória" ,sendo que eles
de ce.no modo, a base de uma avaliação do constatam e nos passam a noção de que a
sistema adaptativo que venho fazendo no continuidade da memória e a da existência

·--orv-
universo da literatura oral, quando compa· OC$$C caso coincidem. Ao observar as trans·

ro a passagem de matri7.Cs impressas às cri· formações sociais e ao discorrer sobre os


açõc.~ orais. Lotman nos passa imponan· mecanismossemióticos da cultura, fala-nos. -....n. 8'oP-.
1919. ,,. -'96oo - -
tes tomadas, rumo à percepção, e por exemplo, Júri Lotman, da decidida ele- tllllllm de l'*'-\ q.19 . , "'6m.

sedimenta seu conceito de texto único, ao vação de semioticidade do componamen· "'° °' Wty Sedd • IWtol•
FOmoti ..,.,.dnl, ,.._..
referir-se ao grande texto oral e popular: to, oquese pode seguir na transformação de ............
'I Em NffMdUhM tM ,.,,,.,.
"Antes de mais nada é preciso notar que nomes, marcas, etc., mostrando que a luta (Solv•do<. e .... ci. Jo<119
qualquer texto cultural pode ser examina- contra velhos rituais poderá assumir um NNdo. 1M1) me OQ4IO do
lllN.e ~ ~OOCU·
do tanto como uma espécie de texto 11nico caráter duplame nte ritualizado e w.açto eotw'e o .......,.

'17
semiotizado. Então ve a cultura, enquanto ra seus contíguos, como inscriç6es, signos
memória não-hereditária (sic) da comuni· comemorativos, etc., como os próprios sig·
dade,expressa.numdetenninadosistemade nos da existencia. É então que nos fala da
interdiç6es e de prescriç6es. captação do mundo, mediante sua transfor·
Num ótimo texto sobre os mecanismos mação em texto cultural.
semióticos da cultura (em TlpOlogia ~lla Comenta que, em tal sentido, no entan·
Cultura) surge uma definição desta como a to, todo texto contribui tanto para a me mó·
Memória daColetivida~.pondo-seem ter- riaquantoparaoesquecimento,quepoderá
mos gerais o acompanhamento de como a realizar-se de formas diferentes. Ao notar
experiencia da vida do genero humano se que se excluem da cultura, cm seu próprio
faz cultura. E, nessa ordem de raciocínio, ãmbito,determinadostextos, verifi.ca-seque
nos diz que o problema da cultura, enquan- a história desta destruição. de sua retirada
to mecanismo voltado para a organivição e da reserva de memória coletiva. se move
conservação das informações, é o da paralelamente à criação de novos textos
/ongevi~.Convida-nosentãoadistinguir culturais. E é interessante observar esta di·
a longevidade dos textos na memória cole· nãrnica recriadora.
tiva e a dos códigos na memória seletiva das Mas o que fica em várias passagens res·
comunidades. Todaculturasecriaeomoum saltado é que de um modo ou de outro a
mode.lo inerente à duração da própria exis- cultura se dirige oonira o esquecimento.
tencia, nos diz, e à continuidade da própria Vive-o, transformando-o num dos mecanis·
memória. Em tal sentido, todo texto contri· mosdamemória. PorconseqUência,podem-
bui tanto para a memória como para o es· se criar hipóteses sobre precisas limitaç6es
queàmento. E um texto não é então a "re· no volume da memória coletiva que deter-
alidade" mas os materiais para reconstruf· minaram a substituição de uns textos por
la. 16 o csquocimcnto se rcalizarit1 também outros. Mostra quee.Jásrc um profundoabis-
em sentido contrário. A cultura exclui, em moentre o esquecimento enquanto elemen-
continuação, no próprio ãmbito, determi· to de memória e enquanto instrumento de
nados textos, levando em conta todos os ti· destruição desta memória. Ocorre levar em
pos de injunção. conta que uma das formas mais agudas de
Instiga-nos ainda uma vez, quando nos luta social na esfera da cultura é a imposição
lembra que a história intelectual da humani· de uma espécie de esquecimento obrigató·
dade (e eu acrescentaria a da criação. seja rio de determinados aspectos da experiên·
popularounão)sepodeconsiderarwna/uta cia histórica. É claro que esta afirmação tem
pela memória. A origem da história e, antes, de ser relativizada, e há de se pensar que não
do mito como determinado tipo de consci- existe passividade que acolha um "esqueci·
encia é urna forma de memória coletiva. E mcnto obrigatório", imposto por um siste·
em tal sentido, mostra-nos como são impor· mapolíticooupelaeomunicaçãodemassas.
lantes as crônicas medievais russas, que re- Retomando o ponto de vista de que a
presentam um modoextremamenteinteres- continuidade da memória é a da existência,
sante de organizar a experiencia histórica pensa que cultura é a memória longeva de
de uma coletividade. A crônica era, na rea· wnacotnllDid~.oonsiderandoacapacida­
tidade, isomorfa, como nos afirma. eo regis· de de mudar e levando em conta os estados
tro anual do fatos consentia eo.nstruir um precedentes. Distingue nessaordemde idéi·
texto, sem limite final, que se acrescia, as o aumento do volume deconhcc.imentos,
continuamente, ao longo eixo do tempo. A a redistribuição, quando há uma mutação
noção de fim trazia um toque escatológico, do conceito daquilo que é um "fato
que vinha coincidir com a idéia fixa de tem- memorizável", e a valorização hierárquica
po, isto é, o tempo da terra. A modelização daquilo que é registrado na memória.
fundada sobre princípios de causa e efeito O esquecimento seria a terceira etapa da
trouxe, no entanto, o fim do texto e o faz sequência. A transformação de textos numa
passar da crônica à história e ao romance. cadeia de fatos é acompanhada inevitavcl·
Fala-nos que a transformação da vida em mente da seleção e da fixaçãodedetermina-
texto não é interpretação mas a introdução dos aspectos a serem mantidos.
de eventos na memória coletiva. Lotman vê O que depreendemos. e que nos serve
os textos de crônicas e daquilo que conside- parareflcúrsobreurnasériedcquestõescom

',.
que nos vemos às voltaS, é a idéia de que há de sistemas que admítem um grau vário de
um esquecimento que não é pardialttico da desorganiz.ação. Se, diz ele, um modelo nu-
lembrança, aquele que é nJo.ailtura, mas clear do mecanismo da cultura fornece um
que é desordem e fragmentação. Perde-se a sistema semiótico perfeito que apresenta os
noção de nllclco e de unidade. Depois de nexos estruturais de todos os níveis, ou
nos ter feito perceber adinamica da mobili· melhor, se fornece o máximo possível de
dade, chegamos à conclusão de que um dos aproximação àquele "ideal", nas condições
conceitos em que se firma o texto cultural é históricas dadas, então as formações que o
o da unidade, e Lotman chega a nos falar circundampodemvirconstruídascomocul-
que a cultura necessita de prinápios de uni- turas que violam os níveis de tal estrutura e
dade, e para colocarem ato sua função soci- tem necessidade de uma constante analogia
al há de se apoiar numa trama de prinápios com o nllclco. Esta construção não-finita,
construtivos unitários. estaordenaçãoincomplctadaeultura,é uma
A Sc.miótica da Cultura não consiste. condição de seu próprio funcionamento.
apenas no fato de que a cultura funciona Diz-nos,então,queo texto não é apenas
como um sistema de signos. ~a relação sig- o gerador de novos significados mas um
nolsignicidade que representa uma das ca· condensador de memória cultural, e que é

racterlsticas fundamentais da cultura, cqui· sempre para quem percebe a metonímia de
valendo a um mecanismo que cria um con- um sentido integral rec::onstituklo, um signo
junto de textos. Prosseguindo, é muito intc· discreto de ~ncia não discreta. Ele nos
rcssantc a noção trad.uzida por Lotman de f.aJa também, e ar já em fase bem adiantada
que a cultura não se contrapõe ao caos mas de sua obra, que há todo um espaço de sig·
a um sistema de signos oposto, por exemplo, nificações que o texto incorpora das rela-
aquele que opõe ao santo o anticristo. O ções com a memória cultural (tradição} já
diabo é para ele o falso cordeiro, o guia da formada na consciência de quem ouve ou
malvasia. Na Idade Média, eleve uma cor- ve.Como resultado, nosdiz, o texto adquire
re.lação espetacular entre aquilo que era vida semiótica.
considerado correto e o errôneo, portanto Refere-se também ao fato de toda cultu-
os textos repudiados são exatamente os tex- ra ser constantemente bombardeada por
tos sacros aos quais foi aplicado um sistema textos isolados que caem como uma chuva
de subst.ituições antitéticas. A questão evo- de meteoritos ou de invasões disruptivas, e
ca diretamente o caso das orações ao con- parece que, procurando romper o esquema
trário, o credo às avessas que constatei, ao diádico cm que muilll$ veresscdcixaaprisio-
estudar o Livro de Silo Cipriano (8), como nar, consegue ver no processo de criação,
forma de intensificação de sentido. o pró- dentro de uma cultura, uma reserva de dina-
prio tema da conversão religiosa (turco·cris· mismos. Afuma que o texto tem capacidade
iao, pecador-santo, herege-converso, etc.). de acumulação e reserva de memória, con-
O interessante é também a identificação de seguindo exemplificar de modo primoroso:
Apoloaodiabo,eadcfiniçãododiabocomo hoje Hamlet, dizele, não é apenas uma peça
o ser malévolo que resolve consciente ou de Shakespeare mas é a memória de todas
inconscientemente o seu poder sobre o ho- as suas interpretações e, ainda mais, a me·
mem. Numa criativa e instigante seqUCncia, mória de todos os eventos históricos que
traz-nos Lotman a voz de Santo Agostinho, ocorreram fora do texto mas cujas a.'>SOCia·
definindoodiabocomo uma força cega. uma ções a peça de Shakespeare pode evocar.
entropia dirigida objetivamente contra o Tudo conta, o que sabiam os coetãneos e o
homem, por causa de sua fraqueza e igno- que aprendemos desde então. Assim é que
rância. E assim, para ele e cm sua interpre· nos lembra que a comunicação com outrem
tação. o diabo é aquele que se contrapõe à só é possível se há algum grau de memória
cu.ltura. Em outro sentido, e se fuglsscmos comum, e um texto se define pelo tipo de
desse dualismo escravizante, o diabo pode- memória que ele necessita para ser entendi·
ria gerar cultu ra, em sua rebeldia e do. Reconstru indo o tipo de memória co-
irreverencia. Mas continuando com as ra- mum que partilham o texto e seu consumi-
1.õcsdc hlri Lotman,acstruturahierárquica dor, descobre-se a imagem da leitura cscon·
de uma cultura se constrói como uma com- dida nele. A antflese da simples memória eo,,,.... ... u.~aoo
binação de sistemas altamente ordenados e comum a todos os membros de uma comu· Pat.Ao. P~tl8:)

119
Didade à memória extremamente individu- ma distância semãntica, concluindo que
aliuda de uma pessoa particular pode ser quanto maíor for esta distancia mais alto o
comparada à relação discurso oficial/discur- !ndice energétioo do texto.
so Intimo. Unive~eo/~Mind(9)éumlivroprovo­
Otemadequemeocupoagora,odaprcs- cante, inteligente e, sintomaticamente, se
suposiçãodeumaespéàedemcmóriaicõnica, divide em tJts panes. Na primeira, procura
seja a captação de reprcsenlaQÕCS visuais na entender os textos culturais em seus mcca·
oralidade, tem em Lotman seu apoio, na nismos narrativos como Mgeneros",
medida em que ele organi7.a os princípios de aprofundando llQ9ÕCS para o entendimento
uma MretóricaioôiúcaK. A transfonnaçãodo dos modos de ser da comuiúcação. Particu-
mundo dos objetos em mundo dos signos larmente inovadora é a reflexão sobre odiá-
funda~.dizele,napres.suposiçãoontológica logo. que discute os processos de
dequeé~velfa7.erréplicas:queaimagem autocomunicação,odiálogointemo,molada
refletida de uma coisa rccona-se de suas as- linguagem dialogada e da própria criação. A
sociações práticas (espaQO, contexto, inten- segunda parte é aquela que ele denomina de
ção, etc.). Ao dizer que uma palavra oral é semios/era,conoeitoqueinauguraumaslnte-
muito maís ioônica do que na língua escrita, se de algumas das formulações esparsas so-
fala.nos, de fato, de uma palavra visfvd. sen- bre tempo e lugar. Al.iás, Paul Zumthor vem
do que o texto se reali7.a num espaço icõnico. também se inte~do por esta dimensão,
Disccmeatradiçãocomoumsistemadctcx- e de tal forma intensifica sua busca, que aca-
tos, preservados na memória de uma dada ba de publicar La Mesuredu Monde(lO),um
cultura,subculturaoupersonalidade,emos- belo texto de quinhentas páginas, tratando,
tra que a geração de novas significações é a aoseumodo,estapreocupaçãoretomadapela
mais imponante tarefa dos textos no siste- poética dos tempos-espaQOS. Também Aron
ma cultural, racioánio provocante e alicia- Gurévitch (11) que em suas Quegorias da
dor. Pane então para confrontar o sistema Cuúura Medieval, inevitave.lmente, se preo-
do criador ao sistema do leitor ou do recep- cupa como o fizera Balcthin, ao criar seus
tordo texto cultural, distinção básica sobre- cronotopos, com os tempos/espaços na
tudo quando se leva cm conta a mobilidade sernioticidadedelinguagenscriadas. No caso
destes e a integração ~vel dos vários sis- de Lotman, a semiosfera abriga o espaQO
temas. Detecta os tipos em que se concentra sernióticoeosdescnvolvimentosdosimbóli-
um alto grau de semioticidadc e aos quais se co e da trama, no espaço geográfico e social.
relacionam alguns conceitos: o santo, oca- Aí se reúnem, com felicidade, o sernioticista
valeiro, o louco. e o historiador.
Seria impossível dar conta da riqueza da Na terceira parte, que ele denomina
contribuição de Lotman, sobretudo nas "Memória Cultural, História e Semiótica",
nuances do relacionamento coletivo/indivi- concentra, de fato, a observação numa prc-
dual. Ele observa, por exemplo, que num ocupaçãoqueé,emgcral,adossemioticistas
texto irão trabalha.r dois mecanismos: um críticos em relação ao próprio percurso: a
deles servirá para manter na consciência do inserção do diacrônico na estrutura.
receptor ou do auditório a memória de uma Vencendoosdesafios,superando-seasi
cena organização tradicional do texto, for- mesmo a cada passo, quer trate do medievo,
necendo-lhe com isso alguma estrutura es· do iluminismo ou do oonfronto entre am-
perada: o outro irá destruir essa estrutura, bos, nos dá este pensador, a panir de suas
desscmantizando a percepção e constituin- próprias oontingencias, algumas respostas
do o individual. Como o faz Paul Zumthor, fundamentais para se pensar os modos de
nãodescartacmsuaobservaçãoa mobilida- ser dos passos que nos norteiam, a constru-
de dos sentidos e a noção de luta na çao e a desconstruÇ<'lo do que se mantém e
tMWils-M•~*"
ic 11t•••••oom•Cl°'OIP'C*"
violentação dos códigos. Chega a nos falar. renova e do que se esfacela e se perde. Ao
ta de r •l•tl\ft•~Ao d•• em seus trabalhos mais recentes, de lndices ligar Cultura e Memória faz a síntese que se
*'°'°"'.... ôt .........
cMdcoea...no ... energéticos, propondo que, ao analisar a ajusta a um pensar que se transmite, e fora

-s.u..·-
toCI. uu~w~.

11 Cf. LH C•tlgof/ff do ..
Culwt• ltlfHIUwlll. Patt..
obra de anc, se atente para esse momento
energético. Não estaria muito distante de
Walter Benjamin, convidando-nos a pensar
do qual só se encontram estilhaQOS. A Hu-
manidade, imersa em seu espaQO cultural,
sempre eriacm tomo de si uma esfera espa-
o ··•d.181). a tensão criadora como a superação de algu- cial organizada, é o que ele nos lembra...

120 Rt~Ílt'1 USP. S4o P4w/o (24): 114- 120. ,J.c1mbro!ftuu1;,o 1 99~195

Você também pode gostar