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REVOLUÇÃO E GUERRA CIVIL NA

ESPANHA
A experiência francesa com a Frente Popular foi central, mas,
na década de 1930, a prova de forças decisiva entre revolução
e contrarrevolução teve por teatro a Espanha. Nas primeiras
décadas do século XX, Espanha era um país capitalista atrasado,
o “elo fraco” do capitalismo europeu ocidental. Numerosos
problemas democráticos estavam por resolver, entre eles a
questão da terra, os movimentos nacionalistas em algumas
regiões do país, a tradição intervencionista do exército na vida
política. A burguesia espanhola, que havia perdido em fins do
século XIX o que lhe restava das suas colônias americanas,
contemplava a repartição do mundo pelas grandes potências.
O capitalismo espanhol promoveu seu desenvolvimento
apoiando-se nos restos do sistema feudal que ainda sobrevivia,
e na super-exploração das classes trabalhadoras. Nesse
contexto, os políticos republicanos pretendiam oferecer à
burguesia um projeto de desenvolvimento livre dos “perigos
revolucionários”. Para tanto, necessitavam de uma aliança com
os dirigentes das organizações tradicionais do movimento
operário. À medida que tal projeto se revelou incapaz de
solucionar os problemas da sociedade, foi necessário o
enfrentamento com um movimento revolucionário em
ascensão, no campo e nas cidades. A política repressiva deste
projeto provocou seu rápido desgaste e a burguesia, temerosa
em face da revolução, chegou a posições fascistas, na década
de 1930, quando a crise mundial golpeou a fraca economia
espanhola.
As exportações espanholas, vitais para um país cronicamente
deficitário na sua balança de pagamentos, cairam 70%,
golpeando sobretudo o setor agrícola, ainda de longe o maior
empregador. A crise mundial de 1929 abalou a ditadura de
Primo de Rivera, desacreditada por escândalos financeiros
estrepitosos, inclusive na sua base social, o Exército e a
pequena burguesia. Foi para preservar a própria monarquia
que o rei Alfonso XIII se decidiu a demitir o general. Mas, da
mesma maneira, a oligarquia, menos de um ano depois,
dispensou a própria monarquia, sem fingir recorrer ao
simulacro de um golpe. Não houve necessidade de que os
operários e os camponeses começassem um movimento para
inspirar medo: aparentemente ausentes do cenário político, foi
o “perigo” que eles constituiam que fez os abastados e os
políticos se posicionarem contra a monarquia: os
acontecimentos de 1931 (instauração da República) não podem
ser explicados de outro modo. Logo depois da queda de Primo
de Rivera, a agitação estudantil contra o governo do general
Berenguer constituiu um sinal anunciador de lutas e
movimentos sociais muito mais decisivos.
As organizações tradicionais do movimento operário eram o
PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), socialdemocrata,
e seu sindicato, a UGT (União Geral dos Trabalhadores), uma
organização moderada e com amplo histórico no que tange à
colaboração com os diferentes governos, incluídas as ditaduras.
Era hegemônico em todo o país, com exceção da Catalunha,
onde sua política centralista e oposta ao movimento nacional
catalão o converteu numa organização insignificante. A CNT
(Confederação Nacional do Trabalho), sindicato
anarcosindicalista, cuja linha política oscilava entre a
colaboração com os republicanos e o antiestatismo, contava
com uma longa tradição de lutas, e havia protagonizado
frequentes revoltas com sangrentos resultados. Era
hegemônica na Catalunha, onde se agrupava a metade do
proletariado espanhol, e possuía também uma forte
implantação em outras áreas do país. À margem das principais
correntes existia o comunismo, fragmentado em vários grupos.
O Partido Comunista Español (PCE), fundado em 1920 e 1921 a
partir de cisões do Partido Socialista, era uma organização
debilitada por numerosas expulsões na década anterior, e
encontrava-se muito desprestigiado durante os anos 1931-
1932, quando a monarquia de Alfonso XIII caiu, e foi
proclamada a República, por sua política sectária em face das
grandes correntes do movimento operário. A Federação Catalã-
Balear (posteriormente BOC-Bloco OperárioCamponês),
implantada principalmente em Catalunha, era fortemente
influenciada pelo nacionalismo catalão, tendo se separado do
PCE em razão da política ultraesquerdista deste em relação ao
problema nacional catalão.
A situação espanhola começou a mudar rapidamente com o
esgotamento das ilusões dos trabalhadores no governo
republicano instaurado em 1931. A sublevação de um setor do
exército, dirigido pelo general Sanjurjo, a 10 de agosto de 1932,
foi sufocada pela mobilização operária frente à paralisia do
governo. A brutalidade policial empregada contra os
trabalhadores contrastou com o tratamento generoso recebido
pelos golpistas. O desgaste da coalizão republicana-socialista
no governo desembocou na derrota eleitoral da esquerda em
novembro de 1933. A chegada ao governo de uma nova
coalizão “de centro”, dirigida por Lerroux, detrás da qual se
adivinhava a sombra escondida da direita (CEDA), foi
considerada como o avanço do fascismo na Espanha. O BOC e
os trotskistas (ICE, Izquierda Comunista de España) propuseram
a formação das Alianças Operárias (AO). No entanto, seu
desenvolvimento não alcançaria uma dimensão nacional pelo
rechaço do anarquismo e do PCE, e pela ambiguidade do
Partido Socialista. A primeira AO se constituiu em 9 de
dezembro de 1933, em Barcelona. Nela participou a quase
totalidade das organizações operárias (com a exceção da CNT,
hegemônica entre o proletariado catalão, e do minúsculo PCE).
Também apareceram outras AOs em Madri e em Astúrias, o
único caso em que ingressaram todos os partidos e sindicatos
operários. A CNT regional, dirigida pelos “treintistas” formou
parte da AO desde o começo; o PCE entrou às vésperas dos
acontecimentos de outubro de 1934. A radicalização
revolucionária dos trabalhadores teve seu reflexo político na
evolução para a esquerda do PSOE. Depois de romper com os
republicanos, alguns de seus líderes proclamaram a iminência
da revolução e a implantação da ditadura do proletariado.
Desde as páginas da imprensa das Juventudes e da Esquerda
socialistas se convidava aos militantes trotskistas para que
entrassem no partido, para “bolchevizá-lo”.

Aliança Operária em Astúrias, 1934

Também apareceram outras AOs em Madri e em Astúrias, no


único caso em que ingressaram todos os partidos e sindicatos
operários. A CNT regional asturiana formou parte da AO desde
o começo, o PCE entrou nela às vésperas dos acontecimentos
de outubro de 1934. A radicalização revolucionária dos
trabalhadores teve seu reflexo político na evolução para a
esquerda do PSOE. Depois de romper com os republicanos,
alguns de seus líderes proclamaram a iminência da revolução e
a implantação da ditadura do proletariado. As Alianças
Operárias foram, o centro do processo revolucionário. Em todo
o período, a situação espanhola havia passado totalmente
desapercebida para os dirigentes do Kremlin. Apesar da
precipitação dos acontecimentos, a revolução espanhola
apenas interessou aos dirigentes da URSS.
Os temores sobre um golpe fascista cresceram depois de uma
manifestação da CEDA em Covadonga a 9 de setembro de 1934.
As Cortes Generales se reuniram a 1º de outubro, dia em que a
a CEDA retirou seu apoio ao governo presidido por Ricardo
Samper exigindo suaa entrada, o que conseguiu três días
depois, no governo radical-cedista presidido por Alejandro
Lerroux. Em setembro de 1934, o PCE pediu sua entrada na
Aliança Operária. Não houve nenhum balanço sobre a linha
anterior. Não houve condições, apesar de que no seio destas
participavam os trotskistas da Esquerda Comunista. De noite
até a manhã, as Alianças passaram de ser o “receptáculo da
contrarrevolução” a encarnar a essência da Frente Única dos
trabalhadores. Poucas semanas depois, estouraram os sucessos
revolucionários do mês de outubro. A ameaça que continha a
entrada dos ministros direitistas da CEDA no governo foi
respondida pelos trabalhadores espanhóis com uma greve
geral em todo o país e com numerosos enfrentamentos com as
forças policiais. Sem embargo, foi em Astúrias onde as
mobilizações alcançaram o clímax revolucionário. Durante
várias semanas, inclusive depois da derrota da greve geral, os
mineiros asturianos mantiveram sua comuna revolucionária na
região, frente a forças militares procedentes de Marrocos, mais
numerosas, e mais bem armadas e organizadas. Durante várias
semanas, Astúrias se converteu em uma nova Comuna, onde os
trabalhadores, organizados nas Alianças Operárias locais,
organizaram e administraram a vida cotidiana nos povoados
onde se haviam feito fortes. Dessa forma, o proletariado
afirmava com seu próprio sangue, sua vontade de
emancipação.
A 5 de outubro, a UGT declarou greve geral; Lerroux reagiu
proclamando o “estado de guerra”. Começou assim o
movimento grevista e insurreicional decretado pelo Comité
Revolucionário Socialista presidido por Francisco Largo
Caballero, que fracassou na maior parte do país, mas em
Astúrias a Aliança Operária foi vitoriosa. Em Astúrias a CNT
anarquista, que no restante do país se recusara a entrar na AO,
afirmando que “por sí sola se bastaba para destrozar al
fascismo”, integrou-se à Aliança Operária. A “Comuna
Asturiana” instaurou um regime socialista nas localidades onde
dominava a esquerda socialista ou comunista, como Mieres ou
Sama de Langreo, onde se proclamou uma República Socialista;
ou “comunista libertário” onde predominavam os anarco-
sindicalistas da CNT, como Gijón e La Felguera. A Comuna foi
duramente reprimida pelo governo radical-cedista de Lerroux,
com uso de tropas coloniais marroquinas e da Legión
procedente do Marrocos espanhol, por decisão do general
Franco, que dirigiu as operações militares a partir de Madri.
Depois da derrota do “outubro asturiano”, a ICE e o BOC
defenderam a reconstrução das AOs, que tão bons resultados
haviam dado em Astúrias. Em seu balanço, ambos grupos
concordavam com a existência de um partido revolucionário,
capaz de dirigir a revolução até a vitória. Ambos grupos
iniciaram um debate sobre a unidade política e orgânica dos
partidos, que se concretizou no POUM (Partido Operário de
Unificação Marxista). Esse partido passou de 1.000 a 70.000
membros durante o ano de 1936. Apesar da derrota, a
insurreição de outubro de 1934 havia conseguido fazer
fracassar os projetos da reação direitista. Nos meses seguintes
à crise entre os partidos de centro e a CEDA (direita) no
governo, esta só fez agravar-se, e a explosão de alguns
escândalos financeiros em que Lerroux se viu envolvido
obrigaram o presidente da República, Alcalá Zamora, a dissolver
as Cortes (parlamento) e convocar novas eleições.
Considerando o processo de radicalização revolucionária, o
PSOE e o PCE abandonaram seus discursos “esquerdistas” do
período anterior, para relançar a ideia de uma nova aliança com
os “republicanos de esquerda”.
Depois da experiência de 1931-1933, os líderes socialistas e
comunistas justificavam o pacto da Frente Popular como um
passo para deter o avanço da direita e de conseguir a anistia
para os 30.000 detidos de outubro de 1934. As promessas sobre
a iminência da revolução socialista foram postergadas para um
futuro mediato. Antes de chegar ao socialismo era necessário
apoiar a revolução burguesa, contra o fascismo (que aparecia
representando o feudalismo). A tarefa das organizações
operárias seria, portanto, apoiar os republicanos de esquerda,
e apaziguar a impaciência revolucionária de suas próprias
bases. O POUM, inicialmente, denunciou a Frente Popular
como um organismo de colaboração de classes que defendia
uma política alheia aos interesses do movimento operário e do
campesinato. A alternativa era a reconstrução das velhas
Alianças Operárias. As Alianças Operárias, no entanto,
declinaram rapidamente, por falta de interesse da maior parte
das organizações operárias. Simultaneamente à decadência
destas, iniciou-se um processo que conduziria a princípios de
1936 à formação de uma coalização eleitoral que seria a
negação do Outubro revolucionário de Astúrias, e na qual a
totalidade da esquerda acabou por se integrar.
Guarda Civil espanhola com trabalhadores asturianos prisioneiros
Em abril de 1935, o PCE propunha uma criação de um Bloco
Popular Antifascista, seguindo o modelo francês: “A Frente
Popular é a forma original do desenvolvimento da revolução
espanhola em sua etapa atual”. Desde a ótica do stalinismo
espanhol, era necessário estabelecer laços de colaboração com
a pequena burguesia e com a burguesia democrática. A
realidade, no entanto, não tinha nada a ver com sua linha. Os
supostos setores “democráticos” da burguesia espanhola
formavam um bloco sem fissuras com os latifundiários e com os
setores mais reacionários, incluindo o exército e a igreja. A
pequena burguesia do campo e das cidades tendia a se dividir
em torno dos polos nos quais se encotrava polarizada a
sociedade espanhola. O proletariado urbano e o campesinato
pobre, por sua vez, fazia tempo que havia esgotado suas ilusões
nas possibilidades da República burguesa. O POUM, no
entanto, optou por integrar-se na Frente Popular, para evitar o
seu isolamento das massas, que se viam arrastadas
temporalmente pelas ilusões na coalizão. Para Trotsky, a
adesão do POUM à Frente Popular equivalia a uma traição. No
caso de uma vitória eleitoral, a Frente Popular iria transformar-
se em um obstáculo para o movimento revolucionário. As
eleições foram convocadas para o mês de fevereiro de 1936.
A formação da Frente Popular não foi fácil, pela negativa dos
dirigentes da ala esquerdista do PSOE, Largo Caballero, a
comprometer-se com os republicanos, o que obrigou os
dirigentes da IC a intervir. Em novembro de 1935, Duclós,
dirigente do PCF, foi enviado para a Espanha para convencer
Largo Caballero. A reunião resultou infrutífera. Mas o flerte
entre os republicanos e o PSOE acabou por arrastar os setores
da esquerda socialista, e o PCE integrou-se na coalizão. O
anarco-sindicalismo e o POUM dariam seu apoio, por diferentes
caminhos, à aliança. O programa da Frente Popular era mais
que moderado e não defendia as reivindicações mais
importantes do movimento operário e do campesinato pobre.
As massas populares, no entanto, o interpretaram como um
passo tático, destinado a frear o ascenso da reação e a
conseguir a anistia para os detidos de outubro 1934. Depois da
vitória eleitoral, haveria tempo para avançar no caminho
socialista.

O triunfo eleitoral da Frente Popular desencadeou um novo


ascenso revolucionário. As prisões foram assaltadas sem
esperar o decreto do novo governo. Nos meses seguintes,
estourou um vasto movimento de ocupações de terra e de
greve operárias. As classes proprietárias, assustadas pela
debilidade do governo republicano para conter a onda
revolucionária, precipitaram-se em apoio do exército, a única
barreira que eles consideravam que todavia lhes separava da
revolução. No entanto, a mudança tardou em ser assimilada
pelo PCE. Os chamados à moderação e ao cumprimento do
programa da Frente Popular combinavam-se com análises
contraditórias. Apenas alcançado o triunfo eleitoral, a 18 de
fevereiro, o jornal do partido declarava que seguiria avançando
pelo caminho da revolução democrática até que a situação
estivesse madura para a revolução socialista. A situação
espanhola era comparada com a da Rússia de 1917. Apesar das
contradições, os partidos socialista e comunista passaram a
apoiar o governo republicano, mas este, golpeado pela direita
e pela esquerda, se mostrou incapaz de reagir, enquanto o
crescente ruído de armas pressagiava o desenlace.
Depois da vitória eleitoral da Frente Popular, a mobilização dos
trabalhadores demonstrou que a classe operária e o
campesinato utilizavam seus próprios métodos para conseguir
suas reivindicações. A ficção republicana se sustentava pela
Frente Popular no governo, e demonstrava sua impotência para
controlar a situação. Simultaneamente a burguesia se voltou
para o apoio ao exército que, depois do fracasso da CEDA, era
o último baluarte diante da ameaça revolucionária. Mas, a
sublevação do exército, em 1936, provocou o contrário do que
pretendia. O movimento revolucionário que se desatou não só
derrotou aos militares na maior parte do país, mas provocou
também a derrocada da República. A zona antifascista ficou
coberta espontaneamente por milhares de organismos
revolucionários que refletiam a desconfiança dos trabalhadores
frente a República (que havia frustrado suas expectativas
durante mais de cinco anos) e sua decisão de organizar a
sociedade conforme seus interesses. Com sua ação
espontânea, a classe operária e o campesinato pobre
demonstravam a natureza da revolução espanhola, não só
democratica, mas socialista.
Apesar da vasta onda de expropriações que os trabalhadores
protagonizaram, as organizações operárias tradicionais foram
incapazes de dar uma resposta à vasta onda revolucionária, e
levála a suas últimas conseqüências: a tomada do poder
político. Pelo contrário, dedicaram-se a defender a restauração
das instituições republicanas que a revolução acabava de varrer
(socialistas de esquerda), ou aceitaram de bom grado a
colaboração com estas, esperando escapar do poder que a
revolução lhes exigia (anarco-sindicalistas). Nesta situação, fiel
às diretrizes stalinistas, o PCE defendeu a velha ordem
republicana e a submissão dos trabalhadores aos limites de
uma hipotética revolução burguesa. O POUM dedicou-se a
apoiar os dirigentes da CNT, esperando convencê-los de que a
revolução só podia sobreviver mediante a implantação do
socialismo. Para o POUM, a Esquerda Socialista e o anarquismo
eram os grandes protagonistas da revolução. Ao POUM
correspondia somente o papel de conselheiro, impossibilitado
de promover o desenvolvimento de seu partido mediante uma
política independente.

Entre a incapacidade das organizações operárias para tomar o


poder, e a impossibilidade da República para mantê-lo, surgiu
uma situação de duplo poder. Na Catalunha estava
materializada pelo Comitê Central de Milícias Antifascistas, que
se converteu no único poder reconhecido pelo população,
enquanto a Generalitat da Catalunha assumia a existência
simbólica do governo. O Comitê Central de Milícias tendia a ser
um governo operário e camponês na Catalunha. Por outro lado,
os novos governos (o autônomo catalão e o central), apesar de
integrarem a CNT e o POUM, representavam a
contrarrevolução republicana. Sua verdadeira natureza seria
vista nos meses seguintes com a dissolução dos comitês, a
restauração da antiga polícia, o reforço do cerco em torno das
coletivizações agrárias e a criação de um exército
governamental, que substituiría as antigas milícias operárias.
Enquanto isso, aproveitando o isolamento da República e
mediante a ajuda material, o peso do stalinismo internacional
começou a ser sentido. Para Stalin, a revolução espanhola era
uma “revolução inoportuna”, que punha em perigo sua aliança
com França e Grã Bretanha frente a ameaça da Alemanha
nazista. Era necessário evitar o triunfo de uma revolução que
não estivesse sob seu controle, e que questionasse seu domínio
burocrático sobre a URSS. O PCE converteu-se, sob o controle
dos “agentes da Internacional” (na verdade, da NVKD,
sucessora da GPU, polícia política do regime da URSS), em um
formidável instrumento de repressão no interior da República,
frente a um PSOE dividido e sem política própria, e uns
republicanos que pouco representavam. O PCE passou a ser o
principal defensor da República e o mais fiel adversário da
revolução no campo antifascista.
A sublevação do exército, a 18 de julho de 1936, que pretendia
ser um golpe preventivo, desencadeou a revolução que todos
temiam e pretendiam evitar. A rapidez com que se
desenvolveram os acontecimentos demonstrou até que ponto
havia amadurecido a consciência revolucionária das massas.
Sua intervenção no combate, e o fato de conseguirem se armar,
provocaram a derrubada da República. As escassas forças
militares e policiais que não se somaram à sublevação do
exército, evaporaram-se, vítimas do contágio revolucionário. As
tentativas das organizações operárias da Frente Popular de
manter a ordem republicana nas primeiras horas do
levantamento militar sob a palavra de ordem: “O governo
manda. A Frente Popular obedece” resultaram inúteis.
Desprestigiadas por sua atitude frente ao exército nos meses
anteriores ao golpe, as instituições republicanas pouco
representavam. Fracassada a sublevação militar na maior parte
do país, este foi coberto por uma multitude de organismos
revolucionários, que só confiavam em suas próprias forças. A
situação de duplo poder que se abriu se resolvia entre os
dirigentes das organizações operárias, e suas próprias bases. A
explosão da revolução espanhola inquietou bastante a Stalin.
Os acontecimentos podiam desbaratar as tentavas
diplomáticas para estabelecer uma aliança com a França e a
GrãBretanha. Stalin temia que os dois países, temerosos pela
situação revolucionária na Espanha, se lançassem nos braços de
Hitler e Mussolini, isolando todavia mais a URSS. Por outro lado,
uma revolução dirigida pelo socialismo de esquerda e pelo
anarco-sindicalismo, ambas formações de caráter
marcadamente anti-stalinista, podia converter-se em um
perigo mortal para a sobrevivência da burocracia stalinista,
porque questionaria seu próprio domínio ditatorial.
A reação dos dirigentes da URSS foi de surpresa e vacilação.
Uma coisa era a República e outra, a revolução. Em agosto de
1936, o Pravda publicava um artigo sob o título de “o fascismo
quer a guerra”, acusando à Alemanha de inspirara a sublevação
militar na Espanha. Mas a única medida que se adotou foi a de
coletar dinheiro através dos sindicatos. Quando o governo
francês propôs um acordo internacional que comprometesse
todas as potências para não intervir no conflito, através do
envio de armas, a URSS exigiu a assinatura de Alemanha, Itália
e Portugal. Durante o mês de agosto, os sucessivos governos
foram decretando o embargo das exportações e armas para
Espanha. O acordo, porém, era uma formalidade, no qual
ninguém acreditava. Stalin conhecia os acordos de Hitler e
Mussolini com Franco, mas a denúncia da quebra do acordo
aproximaria a França e a Inglaterra do nazismo. A Internacional
Comunista definiu a natureza da revolução como burguesa:
Espanha “não estava madura para o socialismo”, antes era
necessária uma longa etapa de luta contra os restos feudais,
representados pela reação fascista e alentados pelas ânsias
expansionistas da Itália e Alemanha. Qualquer desejo
socializante das massas revolucionárias era fruto do engano e
da manipulação dos anarquistas e trotskistas. Todas as energias
tinham que se direcionar para ganhar a guerra do fascismo e
conseguir a ajuda frencesa para a ameaçada República
Espanhola. A evidência de que Itália e Alemanha violavam os
acordos de não-intervenção serviu a Stalin como justificativa
para intervir. Em fins de julho de 1936, começaram a chegar na
Espanha os primeiros “assessores politicos” enviados pela IC
para dirigir o PCE: contando com o fato de que a URSS era o
único país que ajudava a Espanha republicana, o PCE
experimentou um rápido crescimento.
A insurreição militar dirigida por Francisco Franco Bahamonde
se iniciou em 17 de julho de 1936 nas colônias africanas. Nos
meses que se seguiram à vitória da Frente Popular, até a
sublevação militar que deu lugar à guerra civil, a atuação do
POUM vacilou entre a crítica e o apoio ao novo governo. Depois
da vitória eleitoral da Frente Popular, a mobilização dos
trabalhadores demonstrou que as ilusões democráticas
estavam definitivamente superadas. A classe operária e o
campesinato não esperavam as reformas parlamentárias, mas
utilizavam seus próprios métodos para conseguir suas
reivindicações. A ficção republicana, que só se sustentava pelo
apoio da Frente Popular ao governo, demonstrava sua
impotência para controlar a situação. Simultaneamente a
burguesia se voltou para o apoio ao exército que, depois do
fracasso da CEDA, era o último baluarte a que voltavam frente
a ameaça revolucionária.
A sublevação do exército, em 1936, provocou exatamente o
contrário do que queria conseguir. O movimento
revolucionário que se desatou não só derrotou aos militantes
na maior parte do país, mas provocou também a derrocada da
República. A zona antifascista ficou coberta espontaneamente
por milhares de organismos revolucionários que refletiam a
desconfiança dos trabalhadores frente a República (que havia
frustrado suas expectativas durante mais de cinco anos) e sua
firme decisão de organizar a sociedade conforme seus
interesses. Com sua ação espontânea, a classe operária e o
campesinato pobre demonstravam a natureza da revolução
espanhola. Em só algumas semanas completaram as tarefas
pendentes da revolução democrática e transformaram-na em
socialista. Nos primeiros momentos, o POUM era uma pequena
organização que desempenhou um papel destacado na luta.
Sua debilidade numérica contrastava com o prestígio de seus
dirigentes, o que lhe permitiu multiplicar-se nos primeiros
meses (de 6.000 para 30.000 militantes). Porém, a situação em
seu interior era delicada. Seu ndirigente Joaquin Maurín havia
desaparecido na Galícia, que do mesmo modo que muitas das
zonas onde se encontravam as seções do POUM, estava em
poder dos sublevados franquistas. Muitos de seus militantes
foram assassinados.
O governo republicano, na intenção de chegar a um acordo com
os golpistas, reteve a notícia. Apenas um dia depois, quando já
era impossível ocultar os fatos, divulgou uma nota
tranquilizadora, assegurando que tinha o controle da situação.
As tentativas de negociação foram consideradas pelos golpistas
como um sintoma de debilidade, sendo rejeitadas. O governo
republicano foi substituído por outro, situado à direita da
Frente Popular, para fazê-lo mais aceitável aos golpistas. O
novo governo também fracassou, pois as massas populares
reagiram contra o golpe, atropelando seus dirigentes que
tentavam mantê-las subordinadas ao governo. Os
trabalhadores se lançaram às ruas contra os insurretos,
assaltaram os quartéis, se apoderaram das armas e, em poucas
horas, os derrotaram na maior parte do território. Apenas em
algumas zonas, onde as massas ainda esperavam pela iniciativa
do governo, venceram os militares. Se encontravam face a face
as duas personagens principais da revolução: o exército, coluna
vertebral do Estado, e as massas revolucionárias. A ficção do
governo republicano caiu, impotente. Suas forças repressivas
passaram, em sua maior parte, para o lado fascista, e o restante
se dissolveu na revolução.

Sede do POUM em Barcelona

Em Barcelona, principal centro industrial do país, o proletariado


dirigido pela CNT e pelo POUM, massacrou os fascistas e se fez
dono da situação. O governo autônomo catalão se rendeu aos
dirigentes anarquistas. Em diversas regiões, as massas não se
limitavam a vencer, mas também a formar comitês, um novo
poder, nas cidades, fábricas, minas... Criaram sua própria
polícia revolucionária para evitar os saques e iniciar a
depuração dos elementos reacionários. Criaram suas milícias,
que se enfrentaram com os fascistas onde estes haviam
triunfado. Apoderaram-se das fábricas abandonadas por seus
donos e, em poucos dias, organizaram novamente a produção
para poder satisfazer as necessidades de guerra. O campesinato
pobre se apoderou das grandes propriedades e, em muitos
lugares, apareceram formas socialistas de produção, as
denominadas coletividades agrícolas. O poder revolucionário,
disperso entre os múltiplos comitês de governo locais, todavia,
não era o bastante consciente da sua própria força. Os comitês
existiam por toda parte, mas dispersos, desarticulados entre si.
Nenhuma organização havia tomado para si a missão de
estruturá-los para os converter num Estado operário. No país
todo, a revolução não alcançou a profundidade que se verificou
na Catalunha. Os dirigentes do PSOE e do PCE viam com
hostilidade os novos comitês. O governo republicano sobrevivia
graças ao apoio dos dirigentes operários da Frente Popular. A
dualidade de poderes encarnava-se nos comitês
revolucionários, em face das direções da Frente Popular, que
representavam os destroços do Estado republicano. O PCE
defendia o caráter democrático-burguês da revolução
espanhola e atacava “os excessos revolucionários dos
operários, enganados e iludidos”.
A 4 de setembro de 1936, Largo Caballero, o máximo dirigente
da Esquerda Socialista, ficou encarregado de formar um novo
governo. O PCE incorporou-se ao gabinete com dois ministérios
de pouca importância. A operação completou-se com a
incorporação da CNT. O anarcosindicalismo que havia
rechaçado a tomada de poder em nome de seus princípios,
incorporouse ao governo, como uma concessão em lugar de
alcançar a vitória na guerra. Na Catalunha, dissolvia-se o comitê
Central de Milícias, o organismo que haviagovernado os
primeiros meses da revolução e todas as organizações que o
conformavam, incluído o POUM, passavam a formar parte do
governo autônomo. Desta forma, as organizações que
simpatizavam com a revolução ficavam com as mãos e pés
atados, comprometidas com a reconstrução do estado
republicano. A suposta neutralidade dos governos da França e
Grã-Bretanha não ocultava que, ante Franco e a revolução, o
primeito era o mal menor. Era preferível negociar a vitória, para
que se comprometesse a respeitar as propriedades espanholas
das empresas de seus respectivos países e pata que se
mantivesse uma atitude neutra na Europa. O que não podiam
consentir sob nenhuma hipótese era que triunfasse uma
revolução socialista na Espanha. A república espanhola não
havia sido capaz de acabar com o processo revolucionário nos
anos anteriores, portanto tampouco era nenhuma garantia de
que uma vitória sobre Franco e uma reconstrução de seu
aparato de Estado não acabaria desembocando em uma nova
revolução no futuro. De qualquer modo, a república estava
condenada. A Grã-Bretanha tentava evitar a guerra com a
Alemanha e a Itália. Frente às vacilações do governo de Frente
Popular francês, o governo britânico advertir que a França
nãocontaria com seu apoio, se a ajuda militar à república
espanhola provocasse um enfrentamento com a Alemanha.
Nos despachos do Kremlin, a burocracia stalinista dirimia qual
ia ser sua política para enfrentar a revolução. Dimitrov
defendeu a tese de que o povo espanhol lutava por um estado
especial, não socialista, mas sim com autêntica “democracia
popular”, um estado antifascista, no qual tinham que caber a
pequena burguesia e a burguesia “democrática”. A luta pelo
socialismo só viria depois de que o fascismo fosse derrotado no
campo de batalha. Para recontruir a República era necessário
reestruturar as milícias para transformá-las em um exército
regular leal ao governo. As conquistas revolucionárias
conseguidas nas semanas seguintes às jornadas de julho tinham
que ser primeito contidas e, em seguida, desmanteladas. O
novo governo republicano tinha que demonstrar sua
legitimidade e, para isso, tinha de acabar com qualquer
veleidade revolucionária. No plano internacional, a IC alcançou
uma campanha de recrutamento de voluntários para formar
Brigadas Internacionais, que iam se converter em um dos
baluartes da intervenção stalinista na Espanha.
Os partidos comunistas europeus lançaram uma vasta
campanha de apoio político ao governo da república espanhola.
A 25 de julho, o secretário do PCF, Thorez, declarava que
“nossos pensamentos e nossos corações estão com os
republicanos espanhóis e seu governo, com aqueles que se
enfrentam com valor ao ataque dos fascistas”. Poucos dias
depois, insistia na legalidade do governo da república, nascido
de eleições democráticas, sustentado por uma maioria
parlamentar e respeitoso em relação à propriedade. Indignado
pelas acusações que procediam da direita, considerou que era
“uma calúnia alegar que se lutava pelo comunismo, pela
ditadura do proletariado”. Na Inglaterra, o dirigente do PCGB se
expressava e,m termos semelhantes, defendendo a tese de que
que o povo espanhol “não luta para estabelecer os soviets ou a
ditadura proletária”, mas para manter a democracia. A 7 de
outubro, em uma sessão do comitê de não-intervenção. A
delegação soviética declarou nulos os acordos, pela repetida
violação destes por parte da Itália e da Alemanha, que seguiam
enviando armas a Franco. Apesar de tudo, a política de Stalin na
Espanha seguiu sob a bandeira da prudência. A intervenção não
podia deixar lugar para equívocos. A URSS não pretendia
estender a revolução, mas acabar com ela. Era necessário a
todo custo vencer as possíveis suspeitas dos governos francês
e britânico.
A 12 de outubro começaram a chegar as primeiras provisões de
armas e, com elas, os primeiros assessores militares. A
princípios de novembro, as armas soviéticas e as brigadas
internacionais fizeram sua primeira intervenção em Madri,
frente ao assalto das tropas franquistas que pretendiam
conquistar a capital. A presença das brigadas foi importante,
mas o aparato de propaganda da IC a transformou em uma
lenda, convertendo-as nas salvadoras da cidade. Antes do final
do mesmo mês, a ofensiva franquista havia fracassado. O PCE e
os assessores do Komintern aproveitaram a chegada das armas
soviéticas para se incrustarem no aparato do Estado
republicano, concretamente no novo Exército Popular, através
do corpo de comissários. Alvárez del Vayo, socialista filo-
stalinista e responsável pelo comissariado, encarregou-se de
abrir as portas da instituição. Paradoxalmente, a presença do
PCE nos distintos governos nunca tinha importância. Era
fundamental deixar claro que sua presença só era de
colaboração fiel com o governo e que não existia nenhum outro
motivo. Os membros da NKVD, dirigidos por Orlov, logo
dominaram a polícia secreta republicana, com a qual levaram a
cabo suas próprias atividades a serviço dos interesses da URSS.
A repressão contra os revolcionários anarquistas, trotskistas e
poumistas iria sistematicamente aumentando, a medida que a
revolução retrocedia.
A 15 de novembro o PCE publicou um manifesto, no qual exigia
que todos os esforços seriam dedicados à obtenção da vitória
militar. As milícias tinham que desaparecer para se unificarem
no novo exército. As indústrias tinham que se adaptar às
necessidades da guerra e não se perder em experimentos
coletivistas desatinados. Uma semana depois, Stalin, Molotov e
Vorochilov enviavam uma carta pessoal a Largo Caballero, em
termos “fraternais”. Nesta carta, aconselhava para que evitasse
experimentos radicais que afastaram da república os pequenos
proprietários do campo e a pequena burguesia das cidades.
Havia que impedir as expropriações e respeitar a propriedade
privada daqueles que não colaboraram com Franco. A carta foi
rechaçada taxativamente por Largo Caballero; a partir daquele
momento, as relações entre este e o PCE se deterioraram
rapidamente. Em vias de reconstrução do aparato de Estado
republicano, com um governo no qual estavam representadas
praticamente todas as organizações operárias, os comitês
revoluionários e as Juntas territoriais que haviam tido o poder
nos meses anteriores começaram a ser desmanteladas. As
milícias foram sendo militarizadas progressivamente. Apesar
disso, a forte resistência que apareceu em seu interior, fez com
que o processo fosse lento e que não terminasse até o verão de
1937. As milícias de vanguarda, que se haviam encarregado da
ordem pública, foram integradas ao novo aparato policial. As
coletivizações seguiram existindo, mas sufocadas pela fatla de
créditos, acabaram controladas pelos representantes do
governo, a espera de que o final do conflito abrisse a
oportunidade de devolvê-las a seus antigos proprietários. A
revolução, abandonada por todas as organizações, perdia
terreno por todas as partes
Fruta da incapacidade das organizações operárias para tomar o
poder e da impossibilidade da República para mantê-lo, surgiu
uma situação de duplo poder. Na Catalunha ela estava
encarnada pelo Comitê Central de Milícias Antifascistas, que se
converteu no único poder reconhecido pelo população,
enquanto a Generalitat da Catalunha permitia a existência
aparentemente simbólica do governo. Seguindo a tradição
“maurinista”, o POUM considerava que os soviets eram
estranhos à natureza da revolução espanhola. Na Rússia haviam
ocupado o espaço das grandes organizações operárias,
entretanto estas já existiam na Espanha: os sindicatos. Assim, o
POUM desprezou a tarefa de transformar os comitês em
verdadeiros soviets, articulando-os e democratizando-os . Para
o POUM, a natureza de um governo dependia da correlação de
forças que existisse em seu seio, e não das estruturas sobre as
que descansava. Essa confusão levou Andreu Nin, em setembro
de 1936, a proclamar que na Espanha já existia a ditadura do
proletariado, justamente quando os dirigentes da CNT se
preparavam a liquidar o Comitê de Milícias para reforçar o
governo catalão, prelúdio de sua entrada no governo central.
Para ele, não existia nenhuma diferença, se a mesma correlação
de forças se mantinha. Tampouco parecia existir contradição
alguma em sua colaboração na dissolução dos comitês, para
substituí-los por agrupamentos a imagem e semelhança do
governo em que haviam entrado. Para o POUM, estas
mudanças se reduziam a uma simples reorganização.
O Comitê Central de Milícias poderia ter-se convertido em um
governo operário e camponês na Catalunha, se se tivesse
vinculado aos comitês locais. A atividade de Nin no novo
governo catalão centrou-se na legalização das conquistas
revolucionárias. O fato de pretender legalizar o que os
trabalhadores haviam imposto pela força, tão somente uns
meses antes, refletia o retrocesso da revolução, e implicava o
reconhecimento da autoridade do governo, em troca da vã
pretensão de que uma armação jurídica impediria a
restauração da antiga ordem. Enquanto isso, aproveitando o
isolamento da República e mediante a ajuda material, a sombra
do stalinismo começou a ser sentida. Para Stalin, a revolução
espanhola era uma “revolução inoportuna” (na definição de
Fernando Claudín), que punha em perigo sua aliança com
França e Grã Bretanha frente a ameaça da Alemanha nazista.
Era necessário evitar o triunfo de uma revolução que não
estivesse sob seu controle e que questionasse seu domínio
burocrático sobre a URSS. O PCE converteu-se, sob o controle
dos “agentes da Internacional” (na verdade, da NVKD,
sucessora da GPU, polícia política do regime da URSS), em um
formidável instrumento de combate, frente a um PSOE dividido
e sem política própria, e uns republicanos que não
representavam nada. O PCE passou a ser o principal defensor
da República e o mais fiel adversário da revolução no campo
antifascista.
Os representantes da burguesia nacionalista catalã e seus
aliados, os stalinistas, completamente impotentes, tiveram que
aceitar a situação e esperar melhores momentos para
recompor o Estado e fazer retroceder a revolução. Na
Catalunha, nos dias posteriores ao início da guerra, vários
grupos sem representatividade, como socialistas, stalinistas e
nacionalistas, se uniram para formar o Partido Socialista
Unificado da Catalunha (PSUC), que rapidamente aderiu à III
Internacional. A decidida defesa da propriedade privada e da
república, o prestígio da revolução russa, a chegada das armas
soviéticas e a entrada das Brigadas Internacionais -corpo de
voluntários dispostos a enfrentar o fascismo na Espanha e
organizados em sua maior parte pela III Internacional-
converteram o PSUC e o PCE em poderoso pólo de atração para
as classes médias e setores do movimento operário. O
stalinismo tornou-se a coluna vertebral da contrarrevolução na
Frente Popular, enquanto a socialdemocracia, dividida e em
crise, acabou subordinando-se à política stalinista. Em todo o
país, e principalmente na Catalunha, se improvisaram
rapidamente milícias revolucionárias para combater os
fascistas.
Na Catalunha, os anarquistas cometeram um novo erro ao
permitir que as milícias se mantivessem subordinadas a
partidos e sindicatos, ao invés de ao Comitê Central de Milícias.
Com a chegada das armas soviéticas, estas foram parar nas
mãos das colunas stalinistas da Frente Popular, enquanto que
as milícias anarquistas e “poumistas” continuaram mal
armadas.
No restante do país, a revolução nunca alcançou a
profundidade que se verificou na Catalunha. Os dirigentes do
PSOE e do PCE viam com hostilidade os novos comitês. O
governo republicano sobrevivia graças ao apoio dos dirigentes
operários da Frente Popular. A dualidade de poderes
encarnava-se nos comitês revolucionários em face das direções
da Frente Popular que representavam os destroços do Estado
republicano. Stalin, depois da ascensão de Hitler ao poder e
diante dos preparativos para a guerra mundial, buscou, para
fazer-lhe oposição, uma aliança com o bloco franco-britânico. A
revolução espanhola era inoportuna para os seus planos. O PCE
e o PSUC, fiéis ao mandato da III Internacional, defendiam,
contra a evidência dos fatos, o caráter democrático-burguês da
revolução espanhola e atacavam “os excessos revolucionários
dos operários, enganados e iludidos”.
Por outro lado, os novos governos (o autônomo catalão e o
central), apesar de integrarem a CNT e o POUM (este, somente
na Catalunha), representavam a contrarrevolução republicana.
Sua verdadeira natureza iria ser vista nos meses seguintes com
a dissolução dos comitês, a restauração da antiga polícia, o
reforço do cerco em torno das coletivizações agrárias e a
criação de um exército governamental, que substituiría as
antigas milícias operárias. Seguindo os passos da CNT, o POUM
integrou-se ao Conselho de Economia da Catalunha, que apesar
de se definir como um organismo de planificação da economia
era um órgão conselheiro do governo da Generalitat. Também
formou suas próprias milícias, não se integrando às milícias
libertárias, para evitar o enfrentamento com a direção
anarquista. O POUM considerava o Comitê Central de Milícias
da Catalunha como uma coordenação de organizações
antifascistas, e não como a ponta de lança do poder
revolucionário dos comitês. A situação embrionária do poder
operário permitiu ao Estado iniciar sua recomposição. Na
Catalunha, os dirigentes anarquistas aceitaram a dissolução do
Comitê Central de Milícias e sua integração ao governo da
Generalitat. O POUM seguiu os passos dos anarquistas. Isto
significou o primeiro passo em direção à recomposição do
Estado burguês. O governo de Largo Caballero reconstruiu a
dispersa polícia republicana e dissolveu as patrulhas operárias.
Deu os primeiros passos em direção à reconstrução do exército
tradicional, que devia substituir as milícias revolucionárias. Os
comitês iniciaram sua dissolução, o poder dos comitês fabris foi
limitado. O processo de liquidação das milícias e a constituição
do novo exército recebeu um forte impulso com a chegada das
armas soviéticas.
A ocupação policial do edificio da Telfónica em Barcelona, nas
mãos da CNT desde as jornadas de julho de 1936, desencadeou
uma greve geral em toda Catalunha. Os trabalhadores
abandonaram as fábricas para levantar barricadas por toda a
cidade. Durante três dias, o poder esteve em suas mãos,
enquanto as forças partidárias do governo autônomo ficaram
reduzidas a uma pequena zona do contra da cidade. Entretanto,
uma vez mais, os revolucionários se encontraram sem saída. Os
líderes anarquistas chamaram à reconciliação dos dois grupos e
que os trabalhadores abandonassem as barricadas e voltassem
ao trabalho. O POUM, depois de tentar convencer a CNT de que
devia tomar o poder, e ante a negativa desta, aceitou a ordem
de retirada. Foi o último estertor do movimento revolucionário.
Poucos dias depois, chegava a Barcelona uma coluna policial
para recuperar o controle da situação. A repressão contra os
revolucionários foi imediata. A instâncias do PCE e do PSUC
tornaram o POUM ilegal e seus dirigentes foram preses,
acusados de colaborar com Franco.
As fábricas coletivizadas sofreram o bloqueio governamental.
Uma férrea censura se levantou contra a imprensa de esquerda.
Em maio de 1937, irrompeu a provocação: a polícia republicana
assaltou a central telefônica de Barcelona, controlada pelos
trabalhadores, o que deu lugar a uma greve geral espontânea.
Os dirigentes anarquistas chamaram à reconciliação e à volta
ao trabalho, em nome da unidade antifascista. O movimento
revolucionário fora derrotado pela negativa de suas direções a
impulsioná-lo. Como consequência da derrota, centenas de
militantes revolucionários foram encarcerados e vários deles
assassinados pela polícia e pelos agentes stalinistas. Uma
autêntica “caça às bruxas” foi deflagrada no campo
republicano, vitimando trotskistas, poumistas e anarquistas. O
governo de Largo Caballero aproveitou o momento para ocupar
Barcelona com reforços policiais e militarizar a frente de
Aragão, controlada por anarquistas e poumistas. Com ajuda dos
assessores russos iniciou-se a reorganização das milícias, para
transformá-las em um exército regular, um dos pilares sobre os
quais se devia reconstruir o novo aparato de Estado da
República.
A revolução começou seu declive juntro à impossível
reconstrução da velha ordem republicana. O PCE incorporou-se
ao gabinete, com dois ministérios. A operação completou-se
com a incorporação da CNT ao governo. Na Catalunha,
dissolvia-se o Comitê Central de Milícias. Los Amigos de Durruti,
expulsos da CNT, e a seção bolchevista-leninista espanhola
foram postos na ilegalidade e muitos de seus seguidores e
militantes detidos e assassinados. O triunfo da
contrarrevolução republicano-stalinista alcançou também o
governo. Em fins de maio, eclodiu uma crise e Largo Caballero
teve que se demitir. O governo era demasiado esquerdista para
levar a contrarrevolução até suas últimas conseqüências. Em
um momento em que os republicanos haviam perdido todo seu
peso polític e em que os socialistas se encontravam divididos e
sem rumo, o PCE, com sua política moderada, converteu-se no
único partido que defendia de forma intransigente os
interesses da pequena burguesia, aterrorizada pelos excessos
da revolução. A intervenção também tinha de possuir sua parte
propagandística. A princípios de agosto, chegavam a Espanha o
jornalista Koltov, correspondente do Pravda, o escritor Ilya
Ehremburg, do Izvestia. A finais do mesmo mês, chegava Marcel
Rosenberg, o primeiro embaixador da URSS na Espanha,
acompanhado de uma multitude de agregados e especialistas
militares. Resulta significativo que Antonov Ovsenko, um dos
protagonistas do assalto ao Palácio de Inverno em 1917, foi
nomeado cônsul na Barcelona revolucionária, todavia sob a
hegemonia do anarco-sindicalismo. A primeira tarefa dos
assessores russos foi iniciar a reorganização das milícias, para
transformá-las em um exército regular do velho tipo, que ia ser
um dos pilares sobre os quais se devia reconstruir o novo
aparato de Estado da República.
Os membros da NKVD russa dominaram a polícia republicana, a
repressão contra os anarquistas, trotskistas e poumistas
aumentou à medida que a revolução retrocedia. As milícias
foram integradas ao novo aparato policial. As coletivizações,
sufocadas pela falta de créditos, acabaram controladas pelos
representantes do governo, à espera de que o final do conflito
abrisse a oportunidade de devolvê-las a seus antigos
proprietários. A ajuda militar da URSS se converteu numa
chantagem contra as forças republicanas A ocupação policial do
edificio da Telefónica em Barcelona, nas mãos da CNT,
desencadeou uma greve geral em toda Catalunha. Foi o último
estertor do movimento revolucionário. Poucos dias depois,
chegava a Barcelona uma coluna policial para recuperar o
controle da situação. A repressão contra os revolucionários foi
imediata. O POUM foi tornado ilegal. Derrotada a revolução, os
esforços da política de Stalin se dirigiram para consolidar a
imagem de respeitabilidade da República. Na Grã-Bretanha,
Neville Chamberlain centrava todos os esforços para evitar que
o conflito transpassasse as fronteiras e se estendesse por
Europa. O governo francês mostrava-se cada vez mais aberto
para negociar com Franco e sacrificar a República Espanhola,
em troca da estabilidade continental. A neutralidade dos
governos da França e Grã-Bretanha não ocultava que, entre
Franco e a revolução, o primeiro era para eles o mal menor:
para respeitar as propriedades das empresas de seus
respectivos países, não podiam consentir que triunfasse uma
revolução anticapitalista na Espanha. A República estava
condenada: Grã-Bretanha tentava evitar a guerra com a
Alemanha e a Itália. Frente às vacilações do governo de Frente
Popular francês, o governo britânico advertiu à França que não
contaria com seu apoio, se a ajuda militar à república espanhola
provocasse um enfrentamento com Alemanha.
Em dezembro de 1936 firmou-se o pacto anti-Komintern, entre
Alemanha, Itália e Japão, que invadira à China. A princípios de
1938, o envio de armas da URSS à Espanha começou a se
reduzir: “os envios soviéticos continuaram sendo o apoio
principal [à República], embora chegassem como se quisessem
evitar a derrota mais do que garantir a vitória”. A ameaça das
potências do Eixo e a impotência da diplomacia francesa e
britânica inquitevam o Kremlin. Stalin dirigiu seus esforços para
uma nova aproximação com a Alemanha. Se França e Inglaterra
se mostravam reticentes em estabelecer uma aliança com a
URSS, Alemanha poderia ser a nova candidata. A meados de
março de 1938, Hitler havia entrado em Viena e anexado
Áustria ao Terceiro Reich. Stalin aproximava-se da Alemanha:
em julho de 1938, o chanceler russo Litvinov havia expressado
para diplomáticos alemães o desejo da URSS de abandonar a
guerra espanhola. A última batalha do Ebro atrasou o avanço
das tropas franquistas durantes alguns meses, mas seu fracasso
final abriu as portas da Catalunha aos falangistas espanhóis,
com pouca resistência organizada. O avanço das tropas
franquistas foi rápido: liquidada a revolução, apenas
enfrentaram as massas desmoralizadas pela eliminação das
conquistas revolucionárias.
Na Espanha, a repressão contra os revolucionários no campo
republicano (apoiada pelos socialdemocratas) foi um aspecto
central da política contrarrevolucionária que levou à vitória da
direita clerical franquista na guerra civil. No final desta, o
governo republicano de Negrín, que substituiu o do
“esquerdista” (do Partido Socialista Espanhol, PSOE) Largo
Caballero, foi produto de um compromisso entre as duas
principais tendências da reação triunfante: os stalinistas e os
socialistas de direita. Ambas as tendências, ainda que
estivessem de acordo com os passos a seguir, representavam
blocos distintos: o primeiro, a contrarrevolução russa; o
segundo, os imperialismos “democráticos”. Os dois
acreditavam poder manejar o novo governo, mas apenas o
stalinismo, mais audaz e clarividente, o conseguiu. Por isso,
Trotsky o chamou de “governo Stalin-Negrín”. Em suas
primeiras declarações, Negrín já insinuou o propósito de sua
política: negociar uma “paz aceitável” com Franco. Mas, para
isso, era necessário acabar com os últimos vestígios da
revolução. A nomeação de Negrín como chefe de governo foi
um novo êxito político do PCE e dos assessores da IC. De origem
burguês, socialista da ala direita do partido e casado com uma
russa, era o candidato ideal de Stalin no governo republicano.
O chamado “governo da vitória” realizou uma série de medidas
orientadas para liquidar os restos da revolução que acabava de
ser derrotada. A censura voltou a ser implantada. Em uma
circular de 14 de agosto de 1937, proibia-se qualquer notícia ou
comentário crítico em relação à URSS. Dissolvidos os tribunais
populares, o antigo corpo jurídico voltou a ocupar seus cargos.
Criou-se o Serviço de Inteligência Militar, um organismo policial
destinado à contra-espionagem que foi controlado pelo PCE
desde a sua fundação. Centenas de revolucionários foram
detidos e encarcerados nas tchecas. A celebração do culto
católico foi autorizado de novo (não há que se esquecer que a
Igreja apoiava Franco), como primeiro passo para a restauração
total. Os proprietários que demonstraram que não apoiavam os
sublevados puderam reclamar as propriedades que lhes haviam
sido expropriadas no período revolucionário. O decreto de
coletivizações promulgado na Catalunha foi suspenso por ser
contrário ao espírito da Constituição. Com sua política de
normalização, Negrín pretendia forçar a entrada da França e da
Grã-Bretanha na guerra, permitindo que a República pudesse
comprar armas no estrangeiro.
Em dezembro de 1937, o exército republicano lançou uma
ofensiva sobre Teruel. Com a operação militar se pretendia
aliviar a crescente pressão a qual Madrid estava submetida,
depois do desaparecimento da zona republicana do norte. A
cidade caiu em poder dos republicanos e permaneceu em seu
poder até fevereiro de 1938. A batalha desvelou os limites do
exército republicano. Em meio aos contínuos ataques e contra-
ataques, algumas cidades da CNT, mas também do PCE, as
dirigidas por Líster e “El Campesino”, retiraram-se do campo de
batalha , desobedecendo ordens. Segundo as declarações deste
último, anos depois (quando já havia rompido com o PCE e se
havia convertido em um anticomunista, com todas as dúvidas
que isto implica), a divisão que ele comandava havia sido eleita
para ser sacrificada, e havia sido capturada, por não ter saído
de Teruel, com grandes perdas, por sua própria iniciativa e sem
ajuda. O objetivo do PCE e de seus assessores internacionais
havia sido que a operação militar resultara em um desastre,
porque havia desprestigiado o ministro de guerra, Indalecio
Prieto, e haviam-no obrigado a se demitir.
Na segunda metade de 1937, 60% dos militares eram membros
do PCE, 5 dos 11 comandantes do corpo do exército e 56 dos 72
chefes da brigada. Dos 1173 comissários militares, 800 também
o eram. Prieto, máximo dirigente da ala direita do PSOE e
homem considerado próximo dos interesses britânicos, não
estava disposto a se converter em um instrumento de Stalin.
Logo se mostrou partidário de negociar a paz com Franco, sob
a intermediação inglesa. A influência no exército e no aparato
do Estado republicano dos stalinistas era um obstáculo para os
seus objetivos. A Grã-Bretanha nunca aceitaria uma República
fortemente controlada pela URSS. Prieto denunciou a
intromissão dos conselheiros russos no exército e no SIM, e o
fato de que suas atividades não estiveram controladas pelo
governo. Desde aquele momento Prieto havia se convertido em
uma nova besta negra do PCE. Na primavera de 1938, o exército
franquista lançou uma ofensiva ao sul de Aragão para tentar
dividir a zona republicana em dois.

Mulheres republicanas combatentes pela República na guerra civil


espanhola
O revés militar e os contatos secretos com Franco para negociar
a paz deram ao PCE a oportunidade esperada. Organizou-se
uma imensa manifestação com o apoio da CNT, exigindo a
demissão dos ministros traidores. No final de março, em uma
reunião do gabinete de governo, Negrín se viu obrigado a
destituir Prieto. Em abril de 1938, Negrín apresentou um novo
programa de governo de 13 pontos. O novo programa, na
realidade, foi escrito por uma comissão do Comitê Central do
PCE, dirigida por Togliatti e Stepanov. A situação ]era muito
delicada e Stalin desconfiava da capacidade dos dirigentes
espanhóis do partido. De fato, as relações entre seus homens
de confiança e a maioria da direção espanhola nunca foi fácil.
Poucos dias antes, José Díaz havia repreendido severamente o
periódico “Mundo Obrero” por um artigo no qual se defendia
que a luta era entre o fascismo e o comunismo, não a
democracia, tal como defendiam as teses da IC. O programa
constituía um retrocesso com respeito ao anterior. Pretendia-
se manter a independência e a integridade da Espanha, a
democracia e os direitos civis, incluindo a propriedade privada
e a liberdade de cultos religiosos. Insistia-se também na
proteção das propriedades estrangeiras no país. Já não se fala
da Frente Popular, mas da Frente Nacional, porque a guerra já
não é considerada civil, mas de agressão estrangeira, das
potências fascistas, que apoiam Franco, contra a democracia
espanhola. A 23 de maio, a “Passionária” Dolores Ibarruri
lançou um chamamento aos que estivessem orgulhosos de
serem espanhóis e se decidiram a expulsar o invasor”. Na
realidade, o programa não estava destinado a ganhar a guerra,
mas a negociar a paz. Na mesma época Negrín realizou vários
encontros com o embaixador da Alemanha em Paris e tentou
infrutiferamente entrar em contato com Franco.
O governo de Negrín evoluiu até uma ditadura policial.
Centenas de revolucionários e dissidentes do stalinismo foram
encarcerados e muitos deles assassinados pela repressão
stalino-republicana. A CNT anarquista, uma vez concluído seu
trabalho de desmobilização e comprovado que as massas já não
a obedeciam, foi alijada do governo. A autonomia catalã foi
suprimida e as liberdades limitadas. A ofensiva reacionária
contra a economia coletivizada se realizou em nome da
estatização e acabou com as últimas conquistas operárias. Os
antigos interventores governamentais se converteram em
verdadeiros diretores das fábricas, enquanto os comitês eram
marginalizados. As coletividades agrícolas foram devolvidas aos
seus antigos donos. A contrarrevolução também se fez patente
no terreno militar. As tropas franquistas, que encontraram
grandes dificuldades no primeiro período da guerra, avançaram
rapidamente. A zona republicana do norte do país caiu quase
sem luta. A burguesia basca, aliada da GrãBretanha, uma vez
esta tendo chegado a um acordo com Franco, já não tinha razão
de seguir lutando, considerando melhor entregar-se e buscar a
reconciliação.
O governo de Negrín buscava a capitulação negociada que lhe
permitia conciliar seus interesses com os de Franco. Toda a
tática militar do exército republicano se baseou em obrigar
Franco à negociação ou em resistir, à espera da explosão
iminente da guerra europeia. Os escassos êxitos republicanos
nos campos de batalha foram em vão, em face desta política. O
programa dos “treze pontos para a paz”, de Negrín, era o
reconhecimento da capitulação.1 Os membros da NKVD russa
dominaram a polícia republicana espanhola, a repressão contra
os anarquistas, trotskistas e poumistas aumentou à medida que
a revolução retrocedia. As milícias foram integradas ao novo
aparato policial. As coletivizações, sufocadas pela falta de
créditos, acabaram controladas pelos representantes do
governo, à espera de que o final do conflito abrisse a
oportunidade de devolvê-las a seus antigos proprietários. A
ajuda militar da URSS se converteu numa chantagem contra as
forças republicanas.
A repressão republicano-stalinista contra os revolucionários (o
POUM foi tornado ilegal pela própria República) foi o prólogo
da vitória franquista. Em 1937 a NKVD levou sua atividade ao
mundo inteiro, contra todos aqueles que Stalin designava como
trotskistas. Há uma longa lista de mortes que lhe foram
atribuídas na Espanha, através das suas agências locais,

1Existem numerosos estudos sobre a guerra civil espanhola, sendo os mais importantes:Burnett Bolloten.
El Gran Engaño. Las izquierdas y su lucha por el poder en la zona republicana, Barcelona, Caralt, 1975;
Pierre Broué. Staline et la Révolution. Le cas espagnol. Paris, Fayard, 1993, e La Revolución Española (1931-
1939). Barcelona, Península, 1977; Agustín Guillamón. Documentación Histórica del Trotsquismo Español
(1936-1948). Madri, De La Torre, 1996; Felix Morrow. Revolución y Contrarrevolución en España. Madri,
Akal, 1978; Grandizo Muniz. Jalones de Derrota, Promesas de Victoria. Madri, Zero, 1977; Luis Oviedo.
Andres Nin, Leon Trotsky y la Revolución Española. Una crítica de “La traición de la revolución española” de
Andrés Nin, Buenos Aires, sdp.; Pélai Pagès. El Movimiento Trotskista en España (19301935). Barcelona,
Peninsula, 1977; Leon Trotsky. La Revolución Española (1930-1936). Barcelona, Fontanella, 1975; Émile
Témime e Pierre Broué. La Rivoluzione e la Guerra di Spagna. Milano, Oscar Saggi Mondadori, 1980.
chamadas de tchekas. Sob a responsabilidade de russos como
Orlov e Eitingon,2 de italianos como Vittorio Vidali,3 de alemães
como Herz, de húngaros como Gerö, da ítalo-americana Tina
Modotti, do ítalo-argentino Vittorio Codovilla, se sucederam
sequestros e mortes de adversários políticos de Stalin.4 A
Espanha da guerra civil (1936-1939) foi campo fundamental de
ação da polícia política internacional de Stalin, como
reconheceu o seu chefe Pável Sudoplátov: “De 1936 a 1939
houve na Espanha duas lutas de vida ou morte. Uma enfrentava
as forças nacionalistas dirigidas por Francisco Franco, ajudado
por Hitler, contra os republicanos, apoiados pelos comunistas.
A outra a livravam os próprios comunistas entre si. Stalin, na
URSS, e Trotsky, no exílio, abrigavam a esperança de serem os
salvadores e fiadores dos leais à República, transformando-se
assim na vanguarda da revolução comunista mundial. Os
soviéticos enviamos para a Espanha nossos jovens e
inexperientes agentes de espionagem, assim como nossos
instrutores avançados. Espanha foi uma escola magnífica para
nossas operações futuras”.5 O autor do fragmento citado
parece esquecer que os mortos dessa “guerra civil paralela” só
se encontravam em um dos lados em disputa, e que a “escola

2 Leonid Eitingon [Naum Iakovlevich Ettingon], filho de um fabricante de papel de origem judia, era primo
do psicanalista, colaborador de Sigmund Freud, Max Eitingon. Ocupou cargos de responsabilidade na
NKVD, em países como China, Turquia e, sobretudo, na Espanha. Foi acusado, entre diversos assassinatos,
daquele do general bielo-russo Miller e do general Skoblin. Caiu “em desgraça” em 1951, quando foi preso,
depois de uma “missão de limpeza” nos países bálticos, anexados à URSS em 1939, como parte do pacto
Hitler-Stalin. Depois da morte de Stalin, seu ex-chefe Lavrentiy Beria o libertou, mas foi novamente detido
sob ordens de Kruschev, passando doze anos na prisão, até 1964. Morreu em 1981, sendo oficialmente
reabilitado em 1991, já no fim da URSS.
3 Depois da Segunda Guerra Mundial, Vidali foi deputado no parlamento italiano pelo PCI, passando boa

parte do restante da sua vida se defendendo das acusações de assassinato de mlitantes das mais diversas
tendências de esquerda, incluído o dirigente anarquista Carlo Tresca, que choveram sobre ele.
4 Sobre o papel de Tina Modotti, atriz, pintora, fotógrafa, na “segurança” staliniana na Espanha, e no

México, existe uma vasta documentação recolhida por Pierre Broué nos Cahiers Léon Trotsky de 19781980.
Numa biografia que às vezes descamba para a hagiografia, Christiane Barckhausen-Canale (No Rastro de
Tina Modotti. São Paulo, Alfa-Omega, 1989) descartou esse aspecto da sua biografada, desprezando as
alegações dos “trotskistas”, aos quais se refere com um linguajar tipicamente staliniano. Margaret Hooks
(Tina Modotti. Fotógrafa e revolucionária. Rio de Janeiro, José Olympio, 1997, p. 262) confirma que, na
Espanha e no México, “Tina estava envolvida em algum tipo de trabalho clandestino”.
5 A. e P. Sudoplátov. Op. Cit., p. 59.
de espionagem” se exercitou contra o restante da esquerda,
não contra o fascismo franquista.
Na verdade, Espanha foi o cenário de uma luta política
fundamental entre a revolução e a contrarrevolução. Nas
retaguardas republicanas, a burguesia “democrática” e seus
aliados stalinistas realizaram uma verdadeira “guerra suja”
contra os “comitês” que levantaram os trabalhadores
espanhóis para defender sua revolução. Acredita-se que o
brigadista internacional brasileiro Alberto Besouchet tenha sido
assassinado desse modo: “O PCB desconfiava que Besouchet
fosse trotskista...Há dados que comprovam que os PCs francês
e espanhol o investigaram e, provavelmente, o assassinaram
por lutar em uma milícia trotskista”.6 A brutalidade da
repressão no campo republicano levou o escritor mexicano
Octavio Paz, que visitou Espanha durante a guerra civil, a mudar
sua posição de simpatia pelo Partido Comunista mexicano:
“Octavio e Elena [sua esposa] ficaram impactados pelas lutas
partidistas existentes nas fileriras anti-franquistas... Em contato
com socialistas verdadeiramente independentes, pôde
conhecer a fundo a crua realidade da retaguarda republicana...
A posição de Octavio Paz diante do assassinato de Andreu Nin,
dirigente do POUM, despertou a admiração e a estima para o
POUM de jovens socialistas [mexicanos]”.7
Os “comissários” da NKVD foram os chefes dos “grupos de
tarefa” que assassinaram revolucionários, anarquistas,
poumistas e trotskistas. Assassinando a revolução, o stalinismo
colaborou para abrir o caminho para a vitória de Franco. Foram
esses homens, transformados em assassinos profissionais de
revolucionários, os recrutados para assassinar Trotsky. Seu
arquétipo era o italiano Vittorio Vidali, “comissário” do “5
Regimento” da guerra civil, e responsável pelo sequestro,
6 Thais Battibugli. A Militância Anti-fascista: Comunistas Brasileiros na Guerra Civil Espanhola. Dissertação de
Mestrado, FFLCH-USP (Departamento de História), 2000.
7
Bartomeu Costa-Amic. Leon Trotsky y Andreu Nin. Dos asesinatos del stalinismo. Cholula, Altres CostaAmic,
1994, pp. 19 e 31.
tortura e assassinato do dirigente do POUM, e ex-presidente da
Internacional Sindical Vermelha, Andreu Nin. Fizeram também
sua carreira na repressão na Espanha homens como Palmiro
Togliati e Vittorio Codovilla, secretários-gerais "vitalícios" dos
PCs da Itália e Argentina. Ramón Mercader também "serviu" na
Espanha.

Andreu Nin, dirigente do POUM

O assassinato de Andreu Nin,8 ex-dirigente da Internacional


Comunista e amigo pessoal de Trotsky, revestiu-se de particular
crueldade. Em 1937, no quadro da ofensiva contra o POUM, Nin
foi sequestrado por um comando da NKVD chefiado pelo
“general Alexandre Orlov” (do qual voltaremos a falar), que
tentou arrancar-lhe em vão uma confissão de colaboração com
o fascismo. De acordo com o ex-dirigente do PC espanhol, e ex-
ministro da República, Jesús Hernández, depois de
8 Andreu Nin nasceu em 1892 em El Vendrell (Tarragona), filho de um sapateiro e uma camponesa. Estudou
para professor, e militou no republicanismo nacionalista catalão, deslocando-se depois para o socialismo.
Em Barcelona, antes da Primera Guerra Mundial, trabalhou como professor em uma escola libertária,
dedicando-se depois ao jornalismo e à política. Em 1917 participou da greve geral de agosto, e se integrou
ao Partido Socialista Obrero Español (PSOE), indo depois para o sindicalismo revolucionário. Filiado à
Confederación Nacional del Trabajo (CNT), em 1918 organizou o Sindicato de Profesiones Liberales; no
segundo congresso da CNT, em 1919, defendeu a entrada da CNT na Internacional Comunista. Em 1921 se
transformou em secretário geral da CNT, em substituição de Evelio Boal. Foi amigo de Salvador Seguí, e
trabalhou com Angel Pestaña, David Rey, Manuel Buenacasa, Joaquín Maurín. Participou do III da
Internacional Comunista (1922) como delegado da CNT, sendo membro de seu Comitê Executivo, e
presidente da Internacional Sindical Vermelha (Profintern). Escreveu, nesses anos, dois importantes
trabalhos: Os Movimentos de Emancipação Nacional, e O Movimento Sindical Mundial. Em 1926 vinculouse
à Oposição de Esquerda da URSS. Foi expulso de Moscou antes dos grandes expurgos, em 1930, por sua
“afinidade com Trotsky”. Membro da Oposição de Esquerda Internacional, fundou a Izquierda Comunista
de España (em 1931), publicando El Soviet. Como parte da Alianza Obrera interveio nos
interrogatórios intermináveis, nos quais “Nin não capitulava”,
seus sequestradores “decidiram abandonar o método ‘seco’. O
sangue vivo, a pele rasgada, os músculos destroçados, poriam
à prova a sua capacidade de resistência. Nin suportou a
crueldade da tortura e a dor do tormento refinado. Depois de
alguns dias seu corpo tinha virado uma massa informe de carne
machucada”.775 Para disfarçar sua morte, foi desastradamente
fingido um “sequestro” por um comando da Gestapo alemã
infiltrado... nas Brigadas Internacionais. O suposto “comando”
nunca foi identificado, e o corpo de Nin nunca foi achado. A
Espanha foi a “prova de fogo” que treinou e “formou” esses
homens, que alguma vez haviam sido comunistas sinceros.
Depois da batalha do Ebro, entre julho e novembro de 1938,
cessou a ajuda soviética à Espanha. O governo republicano de
Negrín enviou uma carta desesperada a Stalin solicitando novos
envíos, sem resposta. O avanço das tropas franquistas foi
rápido. Uma vez liquidada a revolução, os franquistas apenas
enfrentaram as massas desmoralizadas pela eliminação das
conquistas revolucionárias. Em janeiro de 1939 caiu Barcelona,
o grande pilar da revolução. Poucos dias depois toda a
Catalunha estava em poder dos franquistas. As Cortes
Republicanas reuniram-se pela última vez em um povoado,
para ditar seu epitáfio. Em poucas semanas, as tropas
franquistas chegavam até os Pirineus e mais de meio milhão de
pessoas cruzavam a fronteira com a França, para fugir da
repressão (o goveno da Frente Popular francesa as confinaria
em campos de detenção). Em março de 1939, formou-se uma
Junta de Governo republicana, em Madri, sem participação do
PCE. O general republicano Casado estava convencido de que a
guerra estava decidida. O objetivo do golpe era conseguir a
demissão de Negrín e instaurar uma Junta Nacional de defesa
que prepararia as negociações de paz com Franco, para acabar
com a inútil carnificina. Como anticomunista que era, esperava
que a Grã-Bretanha intermediasse as negociações e que fosse
ela a grande beneficiária. No entanto, sem querer, Casado iria
proporcionar a Stalin a restrição quase perfeita para manter
intacta a lenda do antifascismo. Se prestarmos atenção aos
dados que demonstram que o exército, a força aérea e o corpo
de tanques se encontravam sob o controle do PCE, resulta mais
que suspeito que Casado pudesse

acontecimentos de outubro de 1934 na Catalunya. Em 1935 convergiu


com o BOC (Bloc Obrer i Camperol) de Joaquin Maurín para criar o POUM
(Partido Obrero de Unificación Marxista). Nin foi diretor de sua revista
La Nueva Era; foi nomeado secretário geral da Federación Obrera de
Unidad Sindical (FOUS) em maio de 1936. Nesse período aconteceu sua
ruptura política com Trotsky, que qualificou o POUM de “centrista” (o
POUM assinou o programa da Frente Popular, qualificado por Trotsky de
contrarrevolucionário). Durante a guerra civil, como máximo dirigente
do POUM, Nin entrou no Consell d'Economia de Catalunya (entre agosto
e setembro de 1936) e foi conselheiro de justiça da Generalitat (governo
catalão) até dezembro desse ano, sendo demitido por pressão do PSUC
(stalinista). Depois dos acontecimentos de maio de 1937 em Barcelona,
Nin foi detido pela policia, junto com Julián Gorkin e José Escuder
(dirigentes do POUM) acusados, com base em documentos falsificados
pela NKVD, de colusão com o franquismo. Os dirigentes do POUM foram
levados a Valencia e depois a Madri, mas Nin foi separado de seus
companheiros, sendo trasladado para Alcalá de Henares, interrogado e
torturado de modo selvagem (18, 19 e 21 de junho de 1937). A pesar das
torturas, Nin negou toda cumplicidade com os " nacionais". Nin foi
assassinado a 22 de junho, sob ordem do “general Orlov”, em Alcalá de
Henares, estrangulado pelo húngaro Erno Gëro, da NKVD.
Imediatamente circulou a versão de que Nin fora “libertado” por "seus
amigos da Gestapo": assim o declarou Juan Negrín, chefe do Governo da
República. Em março de 2008 foi achada uma fossa com restos de cinco
corpos da época da guerra civil: supõe-se que um deles seja Nin. A neta
de Negrín afirmou que este sabia a verdade, e a encobriu com a “versão
da Gestapo”, por ter sido “enganado” pelo Partido Comunista da
Espanha (!). Oficialmente, Nin foi dado como “desaparecido”.
775
Apud Victor Alba. Dos Revolucionarios. Andreu Nin y Joaquin Maurin.
Madri, Ediciones Castilla, 1975, p. 508.
levar a acabo com êxito o golpe contra o governo de Negrín e
que a cúpula do PCE fugira do país sem opor resistência. O
governo e o Ministério da guerra não controlavam mais nada.
Nem sequer conheciam a quantidade de aviões com os quaisa
força aérea contava, nem onde estavam situados os
aeroportos. Tudo estava nas mãos dos comandos militares do
PCE. Casado não contava com tropas próprias.
A 6 de janeiro, em pleno desmoroanamento da frente de
Catalunha, a Passionária fugia de Barcelona com Erno Gerö, o
representante do Komintern na zona. Poucos dias depois,
voltou a aparecer em Madri, onde se encontrou com Casado.
No encontro, este lhe comunicou seu projeto de abandonar
Madri e trasladar-se a Cartagena. Para levar a cabo o golpe,
Casado contactou e conseguiu o apoio de todas as forças
políticas e sindicais, a exceção do PCE, através do anarquista
Cipriano Mera e dos socialistas Wenceslao Carrillo e Julián
Besteiro. A 17 de fevereiro, quando os planos do golpe já
estavam maduros, a direção do PCE decidiu mudar-se para o
povoado de Elda (Alicante). Apesar de a conspiração ser um
segredo, os dirigentes comunistas não tomaram nenhuma
iniciativa para destituir e deter a Casado. A mudança para Elda
dificultava as possibilidades de comunicação e movimento da
cúpula do partido, mas facitiva os planos do golpe. A 20 de
fevreiro, chegava a Madri Joseph M. Kennedy, filho do
embaixador dos EUA em Londres para se encontrar com Casado
e comunicar-lhe o apoio dos EUA e a Grã-Bretanha. Nos
mesmos dias, os três chefes dos corpos do exército que
defendiam Madri, todos eles membros do PCE, se encontravam
com Casado, que esperava poder envolvêlos em seus planos.
Segundo Félix Montiel, que esteve presente no encontro no
qual informaram do assunto à Passionária, a resposta desta foi
“decidle a Casado que estáis de acuerdo con él”. E quando o
golpe acontecer?. “Então não fala nada, espere, espere até que
o partido comunique o que devem fazer”. O golpe estourou na
noite de 5 para 6 de março. Na mesma noite, formouse um
Conselho Nacional de Defesa, do qual formavam parte o
general Miaja (o antigo chefe da defesa de Madri) e Besteiro
(dirigente histórico do PSOE).
A Junta golpista exigiu a demissão do governo para poder iniciar
conversações de paz imediatamente. No dia seguinte, Negrín se
demitia e a cúpula do PCE fugia do país da base aérea de
Monóvar (Alicante). As tropas do exército republicano que
defendiam Madri, que não conheciam as ordens da cúpula do
PCE de não fazer nada até receber ordens, rebelaram-se contra
Casado. A luta entre golpistas e partidários do governo durou
vários dias e deixou um rastro de 2.000 mortos. Naquelas
jornadas ocorreu um fato aparentemente insólito. Enquanto o
governo demitia e os dirigentes stalinistas fugiam, a aviação
republicana, comandada por Hidalgo Cisneros, também
membro do PCE, bombardeava os quartéis de seus próprios
camaradas “rebeldes” em Madri, que pretendiam enfrentar o
golpe. Do povoado de Alicante, Palmiro Togliatti enviou seus
representantes a Madri, para sufocar a resistência, enquanto
escrevia um documento no qual pedia o fim da resistência e
admitia que as massas haviam abandonado o PCE, porque
queriam a paz. Os comandos da resistência madrilenha contra
o golpe, o coronel Barceló e o comissário Conesa, foram
entregues a Casado e posteriormente fuzilados. Denunciando
um golpe de estado, Negrín se demitiu. Trotsky denunciou o
golpe de estado: era o final da farsa que se havia iniciado com
a Frente Popular, e acusou Stalin de abandonar seus aliados,
quando estes já não mais lhe serviam. A nova Junta pretendia
negociar a capitulação, mas esta se deu sem quaisquer
condições.
O último episódio da revolução europeia da década de 1930 se
fechava. Para Trotsky, con a derrota da República e da
revolução espanhola, o caminho estava aberto para a Segunda
Guerra Mundial. Quase todos os oficiais soviéticos enviados à
Espanha durante a guerra civil espanhola - Berzin, Berov, Kulik,
Stashevsky, Antonov-Ovseenko - foram executados logo após
terem sido chamados de volta à União Soviética, depois de
submetidos a julgamentos sumários, sem saber sequer do que
eram acusados. Uns poucos - como Konstantin Rokossovski e
Gorbatov - conseguiram sobreviver a brutais espancamentos,
torturas e internação nos campos de trabalhos forçados da
polícia política, para serem reabilitados, reintegrados ao
exército e desempenhar papel de destaque nas operações da
Segunda Guerra Mundial. Esses sobreviventes reabilitados,
contudo, eram raríssimas exceções, como exceções foram
também os casos de Timoshenko, que chegou a ser interrogado
pela polícia secreta, e Ivan Bragamyan, que em 1941 era o chefe
do Estado Maior de Zhukov, então comandante do distrito
militar de Kiev, e foi acusado de ter colaborado com o exército
“branco” (em 1919!).

Adolf Hitler e Francisco Franco

Em 1938, no programa destinado a criar a nova Internacional


Operária, Trotsky fazia um balance devastador da política das
direções operárias, em especial da Internacional Comunista
nesse periodo: “Em todos os países, o proletariado está
envolvido por uma angústia profunda. Massas de milhões de
homens lançam-se sem cessar no caminho da revolução. Mas,
a cada vez, chocam-se com seus próprios aparelhos
burocráticos conservadores. O proletariado espanhol fez,
desde abril de 1931, uma série de tentativas heróicas para
tomar o poder em suas mãos e a direção dos destinos da
sociedade. Entretanto, seus próprios partidos
(socialdemocrata, stalinista, anarquistas, POUM), cada qual à
sua maneira, atuaram como freio e, assim, prepararam o
triunfo de Franco. Na França, o poderosa onda de greves com
ocupação de fábricas, particularmente em junho de 1936,
mostrou com clareza que o proletariado estava completamente
pronto para derrubar o sistema capitalista. Entretanto, as
organizações dirigentes (socialistas, stalinistas e sindicalistas)
conseguiram, sob a égide da Frente Popular, canalizar e deter,
ao menos momentaneamente, a torrente revolucionária. A
onda sem precedentes de greves com ocupação de fábricas e o
crescimento prodigiosamente rápido dos sindicatos industriais
(ClO), nos EUA, são a expressão indiscutível da instintiva
aspiração dos operários norte-americanos a se elevarem à
altura das tarefas que a História Ihe reservou. Porém, aqui
também, as organizações dirigentes, inclusive a CIO,
recentemente criada, fazem todo o possível para conter e
paralisar a ofensiva revolucionária das massas.
“A passagem definitiva da Internacional Comunista para o lado
da ordem burguesa e seu papel cinicamente
contrarrevolucionário no mundo inteiro, particularmente na
Espanha, na França, nos Estados Unidos e nos outros países
"democráticos", criaram extraordinárias dificuldades
suplementares para o proletariado mundial. Sob o signo da
Revolução de Outubro, a política conciliadora das "Frentes
Populares" vota a classe operária à impotência e abre o
caminho ao fascismo. As "Frentes Populares" de um lado e o
fascismo de outro, são os últimos recursos políticos do
imperialismo na luta contra a revolução proletária. No entanto,
do ponto de vista histórico, estes dois recursos são apenas
ficções. A putrefação do capitalismo continua, tanto sob o signo
do barrete frígio na França como sob o signo da suástica na
Alemanha”.9

Refugiados republicanos espanhóis na França republicana


Trotsky condenou com renovado vigor a política
frentepopulista: “Os teóricos da Frente Popular não vão além
da primeira regra da aritmética: a soma. A soma de comunistas,
de socialistas, de anarquistas e de liberais é maior que cada um
dos seus termos. Sem dúvida a aritmética não basta, faltam, no
mínimo, conhecimentos de mecânica. A lei do paralelogramo
de forças verificase inclusive na política. A resultante é, como
se sabe, tanto menor quanto mais divergentes sejam as forças
entre si. Quando aliados políticos puxam em direções opostas,
a resultante é zero. O bloco dos diferentes agrupamentos
políticos da classe operária é absolutamente necessário para
resolver as tarefas comuns. Em certas circunstâncias históricas,
um bloco deste tipo é capaz de arrastar as massas pequeno-
burguesas oprimidas, cujos interesses estão próximos aos do
proletariado, já que a força comum deste bloco é muito maior
que as resultantes das forças que o constituem. Pelo contrário,
a aliança do proletariado com a burguesia, cujos interesses,
atualmente, nas questões fundamentais, formam um ângulo de
180°, não podem, em termos gerais, senão paralisar a força

9 Leon Trotsky. El Programa de Transicion para la Revolucion Socialista, ed. cit.


reivindicatória do proletariado. A guerra civil, onde tem
importância a força da violência, exige um supremo
compromisso dos participantes. Os operários e camponeses
não são capazes de assegurar a vitória a não ser quando lutam
por sua própria emancipação. Nestas condições, submetê-los à
direção da burguesia, é assegurar de antemão sua derrota na
guerra civil.
“Estas verdades não são de nenhuma maneira produto de uma
análise teórica, pelo contrário, representam a irrefutável
conclusão de toda a experiência histórica, no mínimo desde
1848. A história moderna das sociedades burguesas está cheia
de Frentes Populares de todo tipo, quer dizer, das mais diversas
combinações possíveis para enganar os trabalhadores. A
experiência espanhola não é senão um novo trágico elo nesta
cadeia de crimes e traições. Politicamente, o mais
surpreendente é que a Frente Popular espanhola não teria
paralelogramo de forças: o lugar da burguesia estava ocupado
por sua sombra. Pela mediação dos stalinistas, socialistas e
anarquistas, a burguesia espanhola subordinou o proletariado
sem sequer dar-se ao trabalho de participar da Frente Popular.
A esmagadora maioria dos explorados de todos os matizes
políticos passou para o bando de Franco. Sem teoria alguma da
revolução permanente, a burguesia espanhola compreendeu
desde o começo do movimento revolucionário das massas que,
qualquer que fosse o ponto de partida, este movimento estava
dirigido contra a propriedade privada da terra e dos meios de
produção, e que era absolutamente impossível acabar com este
movimento por meio da democracia”.
Segundo Trotsky, “esta é a razão pela qual, no campo
republicano, não ficaram mais que os restos insignificantes da
classe possuidora, os senhores Azaña, Companys e outros
parecidos, advogados políticos da burguesia, porém de modo
algum a própria burguesia. Além de ter apostado tudo no
movimento militar, as classes possuidoras continuaram ao
mesmo tempo utilizando os seus representantes políticos do
período anterior, para paralisar, destruir e posteriormente
esmagar o movimento socialista das massas no campo
republicano. Do mesmo modo que não representavam em
nenhum aspecto a burguesia espanhola, seus representantes
de esquerda representavam muito menos os operários e
camponeses: não representavam mais do que eles mesmos.
Sem dúvida, graças a seus amigos stalinistas, socialistas e
anarquistas, estes fantasmas políticos desempenharam na
revolução um papel decisivo. Como? Muito simples.
Encarnavam o princípio da revolução democrática, quer dizer,
da inviolabilidade da propriedade privada”.10
Somente a revolução operária, recomeçando na Espanha ou na
França, poderia ter impedido uma nova guerra na Europa, pois,
na ausência daquela, a guerra estava inscrita nas relações entre
as potências econômicas e militares capitalistas. A rivalidade
entre os impérios coloniais antigos e bem aquinhoados
(Inglaterra e França) e os imperialismos que chegaram
atrasados à partilha do mundo (Alemanha, Itália, Japão) levava
a uma nova partilha. Frente à agressividade do imperialismo
alemão, que se rearmara poderosamente depois de sua derrota
em 1918, as “democracias”, primeiro a Inglaterra e depois a
França, tinham julgado poder conjurar os perigos cedendo a
cada exigência de Mussolini ou de Hitler. Desde 1935, Mussolini
empreendeu a conquista da Etiópia, sob a indiferença das
“democracias” europeias. O Japão já invadira a China, as bases
de um novo conflito mundial estavam lançadas. A tríade guerra
– barbárie – revolução, que irrompera na grande guerra de
1914-1918, voltava a aparecer na Europa e no mundo. A
explosão da Segunda Guerra Mundial submeteria o movimento
operário internacional a uma prova mais dura ainda.

10 Leon Trotsky. La Revolución Española (1930-1936). Barcelona, Fontanella, 1975.