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Civilização sem religião?

Um ensaio magistral sobre a dependência da civilização para com a religião.

Russell Kirk

Ensaio número quatrocentos e quarto


24 de julho de 1992

Austeras vozes dizem-nos, atualmente, que a civilização da qual fazemos parte não durará
muito neste mundo. Muitos países caíram sob o domínio de oligarquias sórdidas; outras
regiões estão reduzidas à anarquia.   A ‘’revolução cultural’’, rejeitando nosso patrimônio
cultural e costumes, tem feito quase tanto estrago no Ocidente quanto no Oriente,
embora menos intensamente. A crença religiosa é reduzida, na melhor das hipóteses, para
muitos, se não convertidos, depois de tornarem-se secularizados, em um instrumento de
transformação social. Livros dão lugar à televisão e vídeos; universidades,
intelectualmente democratizadas, foram reduzidas a condição de centros de certi cado
para trabalho. Uma crescente proporção da população, especialmente na América, é
desumanizada pelo vício em narcóticos e sexualidade insana.

Essas calamidades são apenas sintomas da desintegração social e individual. Basta olhar
para as nossas semiarruinadas cidades americanas, com seus elevados índices de
assassinato e estupro, para perceber que nós modernos carecemos de imaginação moral
e do motivo certo necessário para manter a comunidade tolerável. Escritores em
reconhecidas colunas trimestrais ou diárias sindicadas usam os termos ‘’Pós era cristã’’ ou
“pós-modernismo” para sugerir que nós estamos rompendo completamente com nosso
passado cultural e estamos entrando em uma nova era de caráter incerto.
Algumas pessoas, os humanistas seculares militantes em particular, parecem satisfeitos
com essa probabilidade; mas nos últimos anos o meliorismo foi muito enfraquecido na
maioria dos grupos. Mesmo os ideólogos marxistas quase que cessaram de profetizar a
vinda da Era de Ouro. Para muitos observadores, T. S. Eliot entre eles, parece bem mais
provável que estejamos cambaleando em direção a uma nova Idade das Trevas,
desumana, impiedosa, uma dominação política totalista em que a vida do espírito e o
intelecto investigador serão denunciados, atormentados e negativamente
propagandeados: “1984” de George Orwell, em vez de “Admirável Mundo Novo” de Aldous
Huxley de nauseosa sensualidade. Ou talvez a maldita e abjeta terra de Mordor de Tolkien
sirva como símbolo da condição humana no século XXI (o qual, no entanto, não pode ser
chamado de século XXI, tendo sido a inscrição Anno Domini abolida assim como incluída
nas superstições de infância do povo).                             

No Fim de uma Era

Alguns anos atrás eu estava sentado na sala de estar   de uma antiga casa próxima à
Catedral de Iorque. Meu an trião, Basil Smith, o tesoureiro da catedral até então, um
homem de cultura e fé, disse-me que situamo-nos no m de uma era; em breve a cultura
que conhecemos será varrida para a lixeira da história. Sobre nós, enquanto
conversávamos naquela mansão medieval, agigantavam-se, preenchidas com belos
volumes, as altas estantes de Canon Smith; seu relógio doxológico badalava a meia hora
musicalmente; chamas fulguravam na lareira. Seria toda essa consolidação cultural, e
muito mais, banida como se o Espírito Maligno as tivesse condenado? Basil Smith já foi
sepultado, e também o foi muito da sociedade à qual ele ornamentou e tentou resgatar.
Na época achei-o muito desesperançoso; mas esse grande evento que ele previu já está
para ocorrer.

O parágrafo nal do ensaio The Great Liberal death Wish  de Malcolm Muggeridge deve
bastar, considerando o limite do meu tempo com vocês, como um resumo da condição
humana no m do século XX.

‘’Enquanto os astronautas elevam-se às vastas eternidades do espaço,’’ escreve


Muggeridge, ‘’elevam-se na terras as pilhas de lixo, enquanto as alamedas acadêmicas
estendem seus domínios, os braços de seus alunos arriam, enquanto o culto fálico se
propaga, também o faz a impotência. Em grande riqueza, grande pobreza; na saúde,
doença; nos números, fraude. Glutonaria, subalimentação; sedado, permanece inquieto;
contando tudo, escondendo tudo; unidos na carne, para sempre separados. Caminhamos,
então, pelo vale da abundância em direção ao terreno baldio da satisfação, passando
pelos jardins da fantasia, caçando ainda mais avidamente a felicidade e encontrando
certamente o desespero’’.

Precisamente. Esses escritores éticos americanos recentes como Stanley Hauerwas e


Alasdair MacIntyre concordam com o veredicto de Muggeridge sobre a sociedade de nosso
tempo, concluindo que nada pode ser feito, exceto pelos poucos que se reúnem em
‘’comunidades de caráter’’ enquanto a sociedade desliza em direção à sua ruína. Ao longo
da metade do século passado, muitas outras vozes, de homens e mulheres apreensivos,
foram ouvidas com o mesmo efeito. Contudo deixe-nos explorar a questão de se a
restauração da nossa cultura é concebível.

A Reviravolta Surpresa

É o rumo das nações inevitável? Há um destino xo para os grandes estados? Em 1796, um


ano terrível para a Grã-Bretanha, o velho Edmund Burke declarou que nós não podemos
prever o futuro; amiúde os deterministas históricos são tolhidos pela vinda de eventos que
ninguém pode prever. Bem no momento em que alguns estados “pareceram mergulhar
em um incomensurável abismo de desgraça e desastre” escreveu Burke em sua First Letter
on a Regicide Peace :

“eles emergiram subitamente. Eles iniciaram um novo curso, e abriram uma nova
conta; e mesmo nas profundezas de sua calamidade, e nas grandes ruínas de seu
país, estabeleceram as fundações de uma altiva e duradoura grandeza. Tudo isso
ocorreu sem nenhuma aparente mudança prévia nas circunstâncias gerais que
acarretaram em sua miséria. A morte de um homem em uma circunstância crítica,
seu desgosto, seu refúgio, sua desgraça, trouxeram incalculáveis calamidades à toda
nação. Um soldado comum, uma criança, uma garota na porta de uma pousada,
mudaram a sionomia do destino, e quase da Natureza”.

O “soldado comum” a que Burke se refere é Arnold Winkelried  que atirou-se às lanças
austríacas para salvar seu país; a criança é o jovem Hannibal, enviado por seu pai para
promover uma cruel guerra contra Roma; a garota na porta da pousada é Joana D’Arc. Nós
não sabemos porque tais súbitas reviravoltas ou progressos ocorreram, observa Burke;
talvez realmente sejam obra da Providência.

“Nada é, mas o pensamento o faz”, diz o velho provérbio. Se a maior parte da nação vier à
acreditar que a cultura deve colapsar, então ela irá. Mesmo Burke, depois de tudo, estava
certo naquele pavoroso ano de 1796. Apesar do esmagador poder do movimento
revolucionário francês naquele ano, a longo prazo a Grã-Bretanha derrotou seus
adversários, e após o ano 1812 a Grã-Bretanha emergiu dos seus anos de adversidade
para o auge de seu poder. Será concebível que a civilização americana, e em geral o que
chamamos de “Civilização Ocidental’’, poderá recuperar-se do Tempo das Perturbações
que teve iniciou em 1914 (assim instrui-nos   Arnold Toynbee) e no vigésimo primeiro
século entrar em uma Augusta época de paz e ordem restaurada?

Para entender as palavras “civilização” e “cultura”, o melhor livro para se ler é Notas para a
De nição de Cultura do T.S Eliot, publicado 40 anos atrás.

Certa vez recomendei esse livro para o Presidente Nixon, em uma discussão privada sobre
as desordens modernas, como o único livro que ele deveria ler para guiar-se em seu alto
cargo. O homem é a única criatura que possui cultura, como distinguida do instinto; e se a
cultura é obliterada, então é a diferença entre o homem e os bárbaros que perece. “A Arte
é a natureza do homem’’ nas palavras de Edmund Burke; e se as artes humanas, ou
cultura, deixarem de existir, então a natureza humana também deixará de existir.

Qual é, então, a origem das muitas culturas da humanidade? Pois dos cultos. Um culto é
uma reunião para adorar algo, a tentativa das pessoas de comungarem com um poder
transcendente. É da parceria no culto, o corpo de éis, que a comunidade cresce. Esta
verdade fundamental foi exposta nas últimas décadas por grandes historiadores como
Christopher Dawson, Eric Voegelin e Arnold Toynbee.

Uma vez que as pessoas estão reunidas no culto, cooperação em muitas outras coisas
torna-se possível. Defesa comum, irrigação, agricultura sistemática, arquitetura, as artes
visuais, música, artefatos complexos, produção e distribuição econômica, tribunais e
governo – todos esses aspectos da cultura surgiram gradualmente do culto, da formação
religiosa.

Além desses pequenos grupos de éis, no Egito, no Crescente Fértil, Índia ou China
cresceram culturas singelas; para aqueles que foram unidos pela religião poderem habitar
e trabalhar juntos em considerável paz. Atualmente tais culturas singelas puderam tornar-
se culturas complexas, e essas culturas complexas em grandes civilizações. A civilização
americana de nossa época está arraigada, por mais estranho que o fato nos pareça, a
pequenos grupos de éis da Palestina, Grécia e Itália de milhares de anos atrás. As
enormes conquistas materiais realizadas por nossa civilização resultaram, mesmo que
remotamente, do conhecimento espiritual dos profetas e videntes.

Mas suponha que o culto decaia com o decorrer dos séculos. O que será então da cultura
que está arraigada no culto? O que será da civilização que é a grande manifestação da
cultura? Para responder tais perguntas nada fáceis, podemos fazer uso de uma metáfora
do século XX. Penso aqui na observação de G. K. Chesterton que diz que toda forma de
vida é uma alegoria, podemos entender isso apenas por parábola.

Parábola do Futuro

O autor de minha parábola, de todo modo, não é Chesterton, mas um autor bem
diferente, o recentemente falecido Robert Graves, que visitei uma vez em Mallorca. Tenho
em mente o romance Seven Days in New Crete publicado na América sob o título Watch the
North Wind Rise.

Naquele romance demasiado aprazível de um futuro possível, somos informados que até
o m da ‘’época Cristã tardia’’ o mundo terá ruído por completo, depois de uma guerra
catastró ca e devastação, sob a dominação coletivista, uma variante do Comunismo. A
 religião, a imaginação moral e aproximadamente tudo que torna a vida melhor foi quase
extirpado pela ideologia e guerra nuclear. Um sistema de pensamento de governo
chamado Logicalismo, ”economia pantisocrática divorciada de qualquer teoria nacional ou
religiosa’’, domina o mundo por um  breve tempo.

Nas palavras de Grave:

O Logicalismo, estruturado na ciência internacional, surgiu em uma era sombria e


antipoética. Durou apenas uma ou duas gerações e  terminou em um grande
derrotismo, um senso de perfeita futilidade, que rastejou lentamente sobre os
diretores e gestores do regime. O homem comum nalmente triunfou sobre seus
aperfeiçoadores espirituais, mas o que viria a seguir? O que ele poderia esperar
ansiosamente com ambos esperança e medo? Pela abolição do estado soberano e o
desarmamento das forças policiais, a guerra tornou-se impossível. Ninguém que
nutria qualquer crença religiosa que seja, ou estava interessado em esporte, poesia,
ou as artes, estava permitido a possuir uma posição de responsabilidade pública. A
‘’Lógica fria’’ era a qualidade cívica mais valorizada, e aqueles que não podiam
pretender à ela eram tidos por insigni cantes. A ciência continuou laboriosamente a
expandir seu colossal corpus de informação, e os tópicos da pesquisa cresceram
cada vez mais remotamente belos e abstratos; já a obsessão cienti ca, tão forte no
início do terceiro milênio de Nosso Senhor; estava em decadência. Os logicalistas
o ciais que não eram nem derrotistas nem secretamente religiosos e que
mantiveram seus narizes à mó de um senso de dever, sentiam-se cruelmente
presos à colobromania, um distúrbio mental…

Estatísticas de aborto e infanticídio, ou suicídio, e outros índices de tédio social crescem


com aterradora velocidade sob esse regime logicalista. Gangues de jovens andam por ai
roubando, espancando e assassinando, por uma questão de emoção. Parece que a raça
humana se extinguirá se tais tendências continuarem; para homens e mulheres
descobrirem que  a vida não vale a pena ser vivida sob tal dominação. Os desejos
profundos da humanidade foram ultrajados, de modo que a alma e a ordem cambaleiam
à beira das derradeiras trevas. Mas nesta crise Israeli Sophocrat escreve um livro chamado
A Critique of utopias, no qual examina setenta obras utópicas de Platão a Aldous Huxley.
‘’Devemos refazer nossos passos’’ ele conclui, ‘’ou perecer’’. Apenas pela ressurreição da fé
religiosa, a descoberta de Sophocrat, é que a humanidade pode ser mantida longe da
destruição; e aquela religião, como Graves descreve em seu romance, brota do solo
primitivo do mito e do símbolo.

Grave está realmente escrevendo sobre nossa era, não sobre um futuro remoto: da vida
no atual EUA e atual União Soviética. Ele está dizendo que a cultura resulta do culto; e que
quando a crença no culto torna-se miseravelmente enfraquecida, a cultura irá decair
rapidamente. A ordem material repousa sobre a ordem espiritual.

Isso dar-se-á, então, aqui, nos anos próximos ao século XX. Com o despertar da ordem
moral, ‘’as coisas se desfazem; a mera anarquia é solta no mundo[…]’’. A cultura helênica e
romana decaiu à morte empoeirada depois dessa moda. O que pode ser feito para atingir
a restauração?

Sem Substituto

Alguns povos bem intencionados falam de uma ‘’religião civil’’, um tipo de culto do
patriotismo, fundado sobre o mito da virtude nacional e sobre a veneração de certos
documentos históricos, junto a uma moral utilitária. Mas tais experimentos de caráter
secular nunca funcionaram satisfatoriamente; e é-me parcamente necessário pontuar os
perigos de crença tão arti cial atada ao nacionalismo: o exemplo do Partido Nacional
Socialista na Alemanha, meio século atrás, deve bastar. A veneração do Estado, ou do
Estado democrático nacional, não é um substituto saudável para comunhão com amor e
sabedoria transcendentes.

Nem as tentativas de persuadir o povo de que a religião é ‘’útil’’ cumprem-se com sucesso
deveras genuíno. Nenhum homem põe-se, sinceramente, de joelhos ao divino porque lhe
foi dito que tais rituais conduzem às conseqüências bené cas do comportamento tolerável
e honesto no comércio. As pessoas conformam suas ações aos preceitos religiosos apenas
quando eles acreditam sinceramente que as doutrinas daquela religião são verdadeiras.

Menos ainda pode ser su ciente a rmar que a Bíblia, interpretada literalmente, é uma
autoridade infalível sobre tudo, em desa o às ciências naturais e outras disciplinas
conhecidas; alegar ter recebido revelações privadas de Jehovah; ou adotar alguma mística
autoproclamada do esplêndido Oriente, cujos ensinamentos são evidentemente absurdos.

Resumindo, a cultura pode ser restaurada apenas se o culto for restaurado; e a fé no


poder divino não pode ser invocada meramente quando se acha conveniente. A fé deixou
de produzir milagres entre nós: alguém deve, portanto, mirar às típicas igrejas construídas
atualmente, feias e grosseiras, para discernir como a arquitetura não mais está nutrida
pela imaginação religiosa. Assim o é em aproximadamente todos os trabalhos da
civilização do século XX: a mente moderna foi secularizada tão minuciosamente que
‘’cultura’’ é adotada pela maioria das pessoas que não tem conexão com o amor Divino.

Como podemos explicar esse notório declínio do ímpeto religioso? Parece que a principal
causa da perda da idéia do sagrado é a atitude chamada ‘’cienti cismo’’ — que é a noção
popular de que as revelações das ciências naturais, durante o último século e meio ou dois
séculos, de algum modo provaram que homens e mulheres são meramente símios nus,
que os ns da existência são meramente produzir e consumir; que a felicidade é a
grati cação dos impulsos sexuais; que os conceitos de ressurreição da carne e a vida
eterna são meras superstições destruídas. Sobre essas premissas cienti cistas, está
fundado, implicitamente, o ensino público na América.

Esta visão da condição humana tem sido chamada por C. S. Lewis de singular
reducionismo: tal reduz o ser humano quase que à estupidi cação; nega a existência da
alma.

O reducionismo tornou-se quase uma ideologia. Isso é cienti cista, mas não cienti co: por
isso é um grito distante do entendimento da matéria e energia que alguém encontra nos
endereços dos vencedores dos prêmios Nobel de física, por exemplo.

Noções populares de ‘’o que a ciência diz’’ são arcaicas: re etindo sobre a rmações dos
cientistas da metade do século XIX; tais visões estão a um mundo de distância dos escritos
de Stanley Jaki, cosmologista e historiador da ciência que foi premiado com o Prêmio
Templeton por progresso na religião no último ano.

Como Arthur Koestler ressalta em seu pequeno livro ‘’The roots of Coincidence’’, as
doutrinas cienti cas precedentes do materialismo e mecanismo deveriam agora ser
sepultadas em uma missa fúnebre de música eletrônica. Mais uma vez, tanto na biologia
como na física, as disciplinas cienti cas entrarão no reino do mistério.

Contudo, o grande público sofre amiúde da a ição chamada atraso cultural. Se a maioria
das pessoas continuar a idealizar que aquela teoria cienti ca de um século atrás é o
veredito dos atuais cientistas sérios, não continuará o entendimento religioso à murchar e
a civilização à desmoronar?

Verdade Dura 

Talvez. Mas o futuro, arrisco-me a recordá-los, é incognoscível. Concebivelmente, pode ser-


nos dado um Sinal. Ainda que tal evento esteja nas mãos de Deus, se está para ocorrer de
qualquer modo, entrementes algumas pessoas re etivas declaram que nossa cultura deve
ser reanimada por uma grande aplicação da vontade.

Mais de quarenta anos atrás, o memorável historiador Christopher Dawson, em seu livro
Religion and Culture  expressou vigorosamente esta verdade dura. ‘’Os eventos dos últimos
anos,’’ escreveu Dawson, “prognosticaram ou o m da história humana ou uma reviravolta
nesta. Eles nos avisaram, em letras de fogo, que nossa civilização teve seu equilíbrio e
alicerce postos à prova no intuito de que houvesse algures um limite absoluto para o
progresso que pode ser alcançado pelo aperfeiçoamento das técnicas cienti cas
separadas dos objetivos de ordem espiritual e dos valores morais… A recuperação do
controle moral e o retorno a ordem espiritual tornou-se a condição indispensável para a
sobrevivência humana. Mas eles podem ser alcançados somente por uma profunda
mudança no espírito da civilização moderna. Isso não signi ca uma nova religião ou uma
nova cultura mas um movimento da reintegração espiritual que poderia restaurar aquela
relação vital entre religião e cultura que tem existido em todas as eras e em todos os nível
de desenvolvimento humano’’.

Amém para isso. A alternava à tal esforço exitoso, um esforço conservador, para revigorar
nossa cultura seria uma série de eventos catastró cos, do tipo previsto por Pitirim Sorokin
e outros sociólogos, que eventualmente poderiam colapsar nossa sensata cultura atual e
acarretar em uma nova cultura ideacional, cujos aspectos sequer poderíamos imaginar.
Tal cultura ideacional indubitavelmente teria sua religião: mas tal poderia ser a adoração
do que tem sido chamado de o Deus Selvagem.

Tal ruína ocorreu repetidamente na história. Quando a religião clássica deixou de comover
corações e mentes, dois milênios atrás, por conseguinte, a civilização Greco-Romana
desceu ao Averno. Como minha pequena lha Cecilia espontaneamente propôs alguns
anos atrás olhando um livro ilustrado  da história romana, ‘’E então, no m de um longo
dia de verão, veio a morte, a lama, a doença’’.

Grandes civilizações ndaram-se no lodo. Fora da antiga cidade de York, onde o ministro
de York permanece no local do pretório romano, reside um hipódromo conhecido como
Knasvesmire. Aqui, na idade Média, foram sepultados os patifes, criminosos e os pobres.
Quando, alguns anos atrás, o hipódromo estava sendo ampliado, os escavadores
chegaram a um cemitério romano embaixo, ou em parte adjacente, ao cemitério medieval.
Este parece ter sido um cemitério de pobres dos tempos romano-britânicos. Poucos
artefatos valiosos foram descobertos, mas havia interesse pelos ossos. Muitas das pessoas
ali enterradas, nos anos nais do domínio romano sobre a Grã-Bretanha, foram
severamente deformadas, aparentemente sofrendo de raquitismo e outra a ições –
espinhas, membros e crânios deformados. Provavelmente sofreram de extrema
desnutrição a vida inteira. No m, para quase qualquer um, a decadência se resume a isso.

Foi na cidade de York que Septimus Severus, que estava para morrer, depois de sua última
campanha (contam os escoceses), foi questionado por seus lhos brutais, Geta e Caracalla,
‘’Pai, quando você se for, como devemos governar o império?’’ O duro velho imperador
tinha sua lacônica replica ponta: ‘’Pague os soldados. O resto não importa’’. Viria um tempo
em que os soldados não mais poderiam ser pagos, e então a civilização cairia em pedaços.
O último exército romano na Itália – diz-se ter sido inteiramente composto de cavalaria –
lutou em aliança com o general bárbaro Odoacer contra Teodórico, rei dos Ostrogodos, no
ano de 491; na derrota de Odoacer, os soldados romanos vagaram para casa para nunca
mais pegar em armas: o m de uma antiga poesia lírica. Somente os primeiros estágios da
decadência social parecem libertadores para algumas pessoas; o último ato, como Cecília
Kirk percebeu, consiste na morte, lama e doença.

Em resumo, parece-me que nossa cultura opera em um estágio avançado de decadência;


o que muitas pessoas confundem, atualmente, com o triunfo de nossa civilização, consiste,
na verdade, em poderes que estão desintegrando nossa cultura; que a vangloriada
‘’liberdade democrática’’ da sociedade liberal em realidade é a servidão aos apetites e
ilusões que atacam a crença religiosa; que destrói a comunidade pela excessiva
centralização e urbanização; que apaga a tradição e costume vivi cadores.

“History has many cunning passages, contrived corridors


And issues, deceives with whispering ambitions,
Guides us by vanities”.

(A história engendra muitos e ardilosos labirintos, estratégicos


Corredores e saídas, que ela seduz com sussurrantes ambições,
Aliciando-nos com vaidades.).

Instrui-nos Gerontion, no famoso triste poema de T. S. Eliot. Para essas e algumas linhas
seguintes, Eliot explica aquela experiência humana vivida sem o Logos, a Palavra; vivida
meramente pelo a rmado conhecimento da ciência empírica – pois, a história nesse
sentido é uma  traiçoeira bruxa cigana. Civilizações que abandonam a imaginação religiosa
devem ndar-se, como o foi com Gerontion, em átomos fraturados.

  Restaurando os Insights Religiosos

Para concluir, é meu argumento que a elaborada civilização que conhecemos permanece
em perigo; que ela pode ou expirar por letargia, ou ser destruída pela violência, ou perecer
de uma combinação de ambos os males. Nós que pensamos que a vida é digna de ser
vivida devemos direcionar-nos por meios pelos quais a restauração da nossa cultura possa
ser alcançada. Uma necessidade primordial, para nós, é restaurar a apreensão de insights
religiosos em nosso desejado aparato de instrução pública, que – intimidado por
militantes humanistas seculares e tribunais federais presunçosos – foi deixado somente
com ruinosas respostas às perguntas nais.

O que a ige a civilização moderna? Fundamentalmente, a a ição de nossa sociedade é a


decadência da crença religiosa. Se é para uma cultura sobreviver e orescer esta não deve
ser separada da visão religiosa da qual surgiu. A grande necessidade dos homens e
mulheres re exivos é, então, trabalhar pela restauração dos ensinamentos religiosos
como o corpo de uma doutrina digna de con ança.

“Resgatar o tempo, resgatar o sonho”, escreveu T.S. Eliot. Isso permanece possível, dado o
motivo certo e a imaginação moral, para confrontar audaciosamente as desordens das
eras. A restauração do verdadeiro ensinamento, humano e cienti co; a reforma das
muitas políticas públicas; a renovação da nossa consciência de uma ordem transcendente
e da presença de um Outro, o esclarecimento dos que virão onde nos encontramos, tais
abordagens estão abertas àqueles, entre a crescente geração, que procuram por um
propósito na vida. É concebível que recebamos um sinal antes do m do século XX. No
entanto, com ou nenhum Sinal, os remanescente devem lutar contra as loucuras de nosso
tempo.

Tradução de Ramon Martins Cogo

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