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CÂMARA CLARA

NOÇÃO DE PUNCTUM E DE STUDIUM


ANALISE DE UMA FOTOGRAFIA
DE ROBERT FRANK
ESCOLA SUPERIOR DE TEATRO E CINEMA
CURSO DE CINEMA – ANO 1 – SEMESTRE 1
ESTÉTICA I
ANO LECTIVO 2008/2009
TRABALHO ESCRITO DE DESNVOLVIMENTO
CÂMARA CLARA – NOÇÃO DE PUNCTUM E DE STUDIUM
ANALISE DE UMA FOTOGRAFIA DE ROBERT FRANK
PROFESSORA MARTA MENDES
ALUNO JOSÉ PEDROSO – Nº 618
“That crazy feeling in America when the sun is hot on the streets and
music comes out of the jukebox or from a nearby funeral, that's what Robert
Frank has captured in the tremendous photographs taken as he traveled on the
road around practically forty-eig ht states in an old used car (on Guggenhiem
Fellowship) and with the agility, mystery, genuis, sadness, and strange secrecy of
a shadow photographed scenes that have never been seen before on film.”
Jack Kerouac, texto de introdução à
primeira edição de “Les Americains”.

Introdução

Em 1955, o fotografo Suíço Robert Frank percorreu os Estados-Unidos da


América com uma bolsa do Guggenheim afim de realizar um levantamento da
população do país em questão. As imagens recolhidas sugerem uma população
nervosa e deprimida o que levou a fundação Guggenheim a não publicar o
trabalho. Foi em Paris que surgiu a primeira publicação através de Robert Delpire.
Na fotografia proposta a análise encontram-se elementos característicos
da série a que pertence (ela é, alias, a capa das várias edições). A bandeira à
janela que simboliza uma população patriótica. As pessoas que observam o
exterior a partir de um interior seguro e confortável reflectindo personalidades
inseguras. Prédios de tijolo que sugerem uma arquitectura moderna barata e de
carácter pratico. O rosto invisível do homem de sobretudo que traz à imagem
secretismo e desconfiança. Todos estes elementos enunciados pertencem ao que
Roland Barthes chama o studium. Este é uma característica de todas as fotos. Os
elementos presentes no studium transmitem ao espectador informações acerca
da época em que a imagem foi feita, das condições económico-sociais das
personagens e outros elementos de carácter prático, informativo e objectivo.
Para Barthes, o aspecto central de uma imagem encontra-se num
pormenor, um pequeno detalhe que faz despertar o interesse pela imagem em
questão. Este detalhe, o punctum, é de carácter subjectivo e é o ponto da
imagem que separa uma imagem banal de uma imagem que pode despertar no
espectador uma experiência estética.
Nesta imagem em particular o punctum (susceptível à interpretação de
cada espectador) não é exactamente o mistério da personagem cujo rosto é
invisível ou a relação incógnita entre as duas personagens (duvidas que podem
ter uma resposta especulativa mais ou menos claras).
Em vez disso o punctum, ou o pormenor que revela interesse é a acção
que o homem misterioso leva a cabo, que come ele com um ar tão descontraído?
Até aqui tem se analisado o punctum como um detalhe numa imagem. Pós
de parte até a agora um punctum que não tem a ver tanto com o detalhe mas sim
com o factor tempo do qual resulta o “ça-a-été”. Este factor permite-nos analisar
a imagem de Robert Frank com outros olhos. Agora não é o detalhe da sua mão
mas sim a sua presença na imagem em si.
Pegando este detalhe como exemplo ir-se-á procurar a importância do
punctum como elemento valorativo da imagem.

A Fotografia Unária.

Muitas fotografias, sobretudo de carácter jornalístico apresentam-se


unárias uma vez que o seu principal objectivo é o de informar. Tal não quer dizer
que elas não possam sensibilizar o sujeito que as vê ou mesmo despertar nele
uma vívida curiosidade. Quer dizer sim que uma fotografia não é viva só por si,
por apresentar realidades perturbadoras ou universos exóticos. Qualquer
fotógrafo poderia ir até um dos pontos quentes do mundo e fotografar uma
situação que lá seria banal mas que na sua terra natal seria poderosa nos
conteúdos informativos. Fotografias destas são segundo Roland Barthes dão
ordem do gostar / não gostar e nunca da ordem do adorar.
Seguindo pela descrição presente na “Câmara Clara” classificam-se estas
fotografias na ordem do pornográfico. A principal característica da imagem
pornográfica, e aquilo que a opõe da erótica, é que ela revela tudo (é esse o seu
objectivo). Deste modo ela não deixa espaço a suposições do Spectaror e torna-o
passivo em relação à imagem. Esta passividade rapidamente se torna em
aborrecimento e a imagem se torna desinteressante. Esta distinção entre a
imagem pornográfica e a imagem erótica, que esconde os elementos que
despertam desejo sugerindo-os, aplica-se de igual modo à distancia que existe
entre a fotografia de studium e a fotografia de punctum.

O Espaço Vazio.

A fotografia erótica, deixando um espaço aberto à insinuação do


espectador torna-o activo. Este elemento vazio só pode ser preenchido por ele.
Sendo este preenchimento mais ou menos óbvio nas imagens eróticas já não o é
tanto em imagens de carácter não sexual. Voltando à fotografia de Robert Frank
pode-se pesquisar que elementos no interior da imagem não estão explicitados. A
fotografia, perderia em interesse se o espectador soubesse: o que o homem está
a comer, o que faz ali e se as duas janelas pertencem à mesma divisão, à mesma
casa.
Estes elementos atribuem à imagem um carácter de mistério, de
incógnito, de suposição até. São os elementos utilizados para criar “suspence”
tanto nos “the last minute rescue” de D.W. Griffith como nos filmes de A.
Hitchcock. Sugerindo, estes elementos transportam o Spectator para dentro do
Operator, é ele que preenche a imagem.
Barthes, descreve este espaço vazio como a essência da própria imagem.
Numa tentativa de o ilustrar, compara-o com um tipo de poesia oriental, o haiku.
Esta comporta em si toda fragilidade do momento volátil, “l’evènement”
traduzindo-o numa pequena estrofe. Da passagem entre o acontecimento em si e
transcrição do mesmo está uma lembrança de um elemento representado no que
está para ser.
Barthes aproxima estes poemas do Satori Zen do Mu budista na medida
em que ele contem a força essencial do acontecimento. Este Satori é na realidade
o vazio necessário a interpretação subjectiva de qualquer imagem. No caso da
imagem de Robert Frank, o Satori é tudo aquilo que chama a atenção e não está
lá. São os elementos que estão na imagem apenas de forma latente e que o
Spectator tem que imprimir afim de sentir a imagem um poço mais completa.

Punctum.

O punctum é então tudo aquilo que se tem referenciado até ao


momento. Ele é o espaço vazio, o Satori da imagem, o seu ponto fulcral de
interesse. Este elemento presente numa fotografia não é algo racional e de
opinião partilhável. Torna-se muito complicado justificar perante terceiros as
razões porque um punctum lhe salta à vista.
A palavra punctum é usada por Barthes como uma derivação de
“pontada”. Ele descreve-o como se ele fosse um elemento que que “sai da cena e
se espeta em mim como uma flecha”. É a “pequena frecha, o pequeno buraco”
que vira a ser preenchido. É o elemento, filho do acaso que toca (do francês
“point”, “poigne”). No Robert Frank as duvidas que se sobrepõem à imagem são
de tal ordem que facilmente se esquece o studium da imagem, ele deixa de ser
interessante a partir do momento em que foi descodificado.
Será menos obvio visualizar tal processo de identificação e separação
entre os valores de studium e de punctum numa fotografia antiga. Nesta o nosso
olhar prende-se muito mais aos factores históricos. O nosso olhar pretende ser
informado dos costumes de uma época passada e é mais lento a dissociar-se
destes factor inscritos à superfície de uma obra. Por outro lado numa fotografia
contemporânea, possivelmente de um espaço familiar não nos traz nenhuma
informação relativa aos costumes, ao studium. À vista poder-se-á apenas ler o
punctum na sua essência.
Pensando agora num processo de osmose com a fotografia, poder-se-á
entender o espaço de paisagem de Henry Maldiney como um domínio do
punctum e o espaço geográfico como um domínio do studium.
A Memoria Involuntária.

Foi previamente no punctum enquanto objecto “poigant”. Isto é um


elemento que possibilita uma visão totalmente diferente da imagem, que nos
remete para um outro espaço, este, talvez de paisagem. Tal fenómeno dá-se de
forma análoga na memoria involuntária tal como ela é apresentada por Marcel
Proust no seu romance “À la Recherche du Temps Perdu”.

"Et dès que j'eus reconnu le gôut du morceau de madeleine trempé dans
le tilleul que me donnait ma tante ( quoique que je ne susse pas encore et dusse
remettre à bien plus tard de découvrir pourquoi ce souvenir me rendait si
heureux), aussitôt la vieille maison grise sur la rue, où était sa chambre, vint
comme un décor de théâtre s'appliquer au petit pavillon, donnant sur le jardim,
qu'on avait construit pour mes parents sur ses derrières (ce pan tronqué que seul
j'avais revu jusque-là); et avec la maison, la ville, depuis le matin jusqu'au soir et
par tous les temps, la Place où on m'envoyait avant déjeuner, les où j'allais faire
des courses, les chemins qu'on prenait si le temps était beau. Et comme dans ce
jeu où les Japonais s'amusent à tremper dans un bol de porcelaine rempli d'eau,
de petits morceaux de papier jusque-là indistincts qui, à peine y sont-ils plongés
s'étirent, se contournent, se colorent, se différecient, deviennent des fleurs, des
maisons, des personages consistants et reconnaissables, de même maintenant
toutes les fleurs de notre jardim et celles du parc de M.Sawnn, et les nymphéas
de la Vivonne, et les bonnes gens du village et leurs petits logis et l'église et tout
Combray et ses environs, tout cela qui prend forme et solidité, est sorti, ville et
jardins, de ma tasse de thé." pgs 51/52

in Du Cotê de chez Sawnn ;

Neste, Proust descreve como surgem ao protagonista memórias da sua


cidade natal, Combray, através do sabor da madalena. Este acto de levar a
madalena à boca funciona portanto como um elemento que marca de tal maneira
a percepção da realidade que se criam no herói imagens (nuas) sobre a sua
infância. Este momento “bien-heureux” “punctua” o herói levando em busca do
seu passado perdido em memorias involuntárias. A memoria inconsciente é então
um acontecimento que fulmina remetendo o sujeito para o universo distorcido do
seu passado. Tais memorias só são possíveis caso o sujeito alvo da memoria “não
tenha vivido, diz Walter Benjamin, expressamente e em consciência. Funcionam
como um flash que perturba uma leitura normal de uma determinada situação.
Estas características tudo têm a ver com o punctum de que Roland Barthes fala
dado que este também transporta o sujeito para um panorama de leitura da
imagem diferente do inicial (do spectrum).
Esta comparação pode ser levada mais longe se considerarmos o capitulo
7, “Percepto, Afecto e Conceito” da obra “O que é a Filosofia” de Gilles Deleuze e
Félix Guattari. Neste capitulo os autores falam de uma falsa memoria. É dito que
os “flash” de memoria (conscientes ou inconscientes) são de facto monumentos
mas não de memoria. São em vês disso monumentos de fabulação. Nestes
monumentos o sujeito afectado pela memoria parte de experiências sensíveis
concretas para desenvolver um campo (ir)real no qual muitos dos acontecimentos
são subconscientemente imaginados. Cria-se portanto espaço para uma nova
realidade subjectiva mas baseada em aspectos concretos.
Este espaço de fabulação da memoria é o mesmo que se cria quando um
sujeito é afectado pelo punctum. O espectador, não sabendo quem são nem que
fazem ali (o que comem?) as personagens da fotografia de Robert Frank, irá
fabular todas as respostas partindo de dados concretos encontrados no punctum.
Esta fabulação é da ordem do espaço de paisagem e é uma nova relidade.

Conclusão.

Qualquer tipo de imagem fotográfica tem portanto um studium, elemento


que lhe atribui um carácter puramente informativo.
O elemento que torna uma fotografia deveras interessante e passível de
ser analisada de forma mais profunda é o punctum. Este é de carácter totalmente
subjectivo e deixa ao espectador toda a liberdade do mundo para acabar a
fotografia.
É este o ponto fundamental da obra de Roland Barthes. O processo da
fotografia enquanto obra de arte pode ser reconhecido quando alguém a vê ou,
mais especificamente quando alguém a vive.
Assim a imagem de Robert Frank até eu a ter interpretado enquanto
endivido único e singular estava num estado de devir. Este estado permanece à
medida que eu vou colocando questões e encontrado resposta (na ordem das
fabulas). Do mesmo modo o seu estado de devir permanece quando a imagem
passa para o olhar de outras.
A imagem permanece então viva desde que consiga “poigner” o seus
espectadores.
Bibliografia.

• BARTHES, Roland, La Chambre Claire, 1980, Cahiers Du Cinema,


Gallimard

• PROUST, Marcel; À la recherche du temps perdu, Du côté de chez


Sawnn,1987,1992, Gallimard

• BENJAMIN, Walter, A Modernidade, Assírio & Alvim

• MALDINEY, Henry, Regard, Parole, Espace

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