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A Pedagogia da Contaminação

José Ortega y Gasset

In "Mision de la Universidad", Madrid: Alianza Editorial, 1882, pp.87-96

O que vão ouvir não é uma lição, não é um ensinamento. Dia a dia afirma-se a minha suspeita
de que nada que na verdade mereça a pena ser aprendido, pode, a rigor, ser ensinado. Por muito
grande que seja o afinco do professor, sempre haverá uma última precisão, uma claridade
próspera, a mais saborosa gota da essência científica ou artística, que não nos poderá transmitir,
que teremos que conquistar com o nosso próprio esforço doloroso. E essa última precisão, essa
claridade próspera, essa, a mais saborosa e essencial gota do sumo é na ciência, na arte e na
vida, tudo. O resto está como vago e artificial para impedir que esse valor essencial se evapore
e desvaneça.

Por toda a pedagogia e especialmente na contemporânea flui uma triste e inelegante hipocrisia
com a qual pode pactuar quem tenha feito um pacto-norma da sua conduta, mas que a um indócil
ânimo só pode inspirar desdém. A que chamam em nossas escolas ensinar ciência? A descarregar
sobre a alma dos discípulos um lastro de disciplinas científicas já feitas ou uma doutrina pronta
de método para a investigação. Mas por meio da sua fácil textura, falta o ser da ciência, como a
água numa canalização, e na alma do discípulo fica justamente o oposto da ciência - o
dogmatismo. Porque o real e concreto da ciência é a atividade sem descanso do intelecto, que
se enfrenta valentemente, perigosamente com os problemas e briga com eles para dar-lhes uma
solução. E como ao chegar a esta nova solução, do mesmo modo quando chegamos ao cume
mais alto, aumenta o conjunto dos problemas, e tem, por sua vez, que ser corrigida, servindo
apenas como ponto de apoio e pretexto para avançar, tal como a terra serve ao que caminha só
para tocá-la com o tacão e iniciar um novo passo. Quando o Físico acaba de escrever a última
página de um tratado de física, o que este tratado diz já foi avançado no seu pensamento, já
avançou sobre aquela momentânea cristalização do seu esforço e já se coloca um novo problema,
já está na sua mente vivaz a proa inquieta na rota de novas costas longínquas e confusas e muito
do que na obra foi imprimido parece solução concluída. Se se aceita, sem ironia, a ciência do
livro, a ciência concluída e petrificada, aceita-se exatamente o oposto da ciência verdadeira que
não está feita de conclusões, que é uma ação intelectualmente fluida, na perpétua superação de
si mesma. A ciência flui através de livros de ciência como um rio, móvel e liquido, pelo seu caudal
sólido e quieto. O que se ensina nas escolas modernas de todo o mundo é ciência congelada,
imobilizada, ultrapassada e dogmatizada, um caudal seco e estéril, pelo qual percorrem as gotas
essenciais. Ainda bem que nunca faltam homens que, apesar da escola e às vezes fora desta,
sentem desabrochar no seu peito o borbulhar da curiosidade cientifica. Mas não achar a objeção
de que o ensino moderno tende a ensinar, mais que um sistema doutrinal, os métodos de
investigação cientifica, por tanto, a fazer ciência. Este tópico contemporâneo é uma futilidade.
Os métodos de investigação não são mais que resultados do sistema doutrinal da ciência e só
dentro desta têm sentido. Ao variar os princípios da doutrina, variam os métodos de investigação.
A aparência impessoal, automática e imparcial induz a que muitos trabalhadores se julguem
isentos de construírem uma noção do que seja a ciência e fazendo funcionar os seus aparelhos
metódicos percam a sua vida em vão, como abelhas alojadas nos alvéolos de uma colméia
inexistente.

Veis pois, que da pedagogia ao uso desta, volatiliza-se o essencial da ciência, quer dizer, o
movimento de pensar flutuando numa atmosfera de problemas. Com toda a delicadeza repete-
se na história intelectual a metáfora do caçador, símbolo do cientifico: diz Platão; venator, diz
Santo Tomás. A ciência não é um trabalho cômodo que se faz ocultado por uma doutrina
aprendida. Ciência aprendida, contradictio: quem, a sério, aspira à dignidade de ser cientifico,
terá que ter o valor de viver sempre à intempérie espiritual, como um bom caçador.

O fato de que a sociedade contemporânea pareça, em todo o mundo, tão satisfeita com seus
centros de ensino superior, apesar de que neles não se ensine o que faz a ciência ciência, revela
simplesmente, dito sem hipocrisias, que à sociedade contemporânea não lhe interessa a ciência,
não tem suspeita do que é isso. As pessoas não querem sabedorias, querem receitas, receitas
para fabricar aparelhos de locomoção ou alcalóides e soros. Quando falam de cultura, entenda-
se o conforto, um progresso na rapidez dos veículos e na isenção das dores corporais. Dir-me-ão
que sempre aconteceu assim, que sempre o monstro do milhão de cabeças, que chamamos
“pessoas”, tem sido cego e surdo para toda a vida essencial e só aspirou a que lhe encha bem o
milhão de gargantas do milhão de cabeças. É verdade. Nas outras épocas as pessoas não
exerciam o papel de protagonistas responsáveis que exercem no nosso tempo, viviam mais ou
menos postas num segundo plano e permitiam que no eixo da Europa repercutisse a voz da
opinião seleta, hoje submergida pelo alarido torrencial da opinião pública.

É fatal e por acaso justo que a opinião pública, para quem a ciência real não pode existir, não
peça mais receitas, mas com esta preocupação ao informar e dirigir o ensino, trouxe e trará
consigo a mingua da verdadeira potência cientifica, chegará o tempo em que nem haverão
receitas. Talvez em nenhuma época se falou tanto de ciência como na nossa, por isso é
peremptório fazer notar que essa ciência de que as pessoas falam e pela qual se interessam não
é a ciência como saber, é uma utilização da ciência petrificada, materializada. Há tempos falava-
se muito menos de ciência, mas os que falavam sabiam do que falavam e ninguém abusava do
significado equivocado dessa palavra para fingir-se interessado do que lhe era indiferente ou
odiado. Hipocrisias desta índole são características da consciência contemporânea e é necessário
tempo para detalhá-las. O que sabe ou o que interessa ao bom burguês, ou ao bom operário, o
saber, esse permanente drama sutil do intelecto que vive sempre na dúvida de si próprio, no
afinco sem trégua, de sorte que ao fixar-se numa conclusão, numa doutrina é morrer? Quando
vejo um desses homens com um livro na mão, dizia Leonardo, espero que façam o mesmo que
os macacos que se lo mettino al naso e se domandan se sia cosa mangiativa.

Pois bem, onde há lugar na pedagogia contemporânea, que aspira a mecanizar o ensino, como
diz o clássico Pestalozzi, para ensinar isso que não se pode ensinar mecanicamente, essa única
realidade da ciência que é a atitude do pensamento criando-se mesmo assim um esforço cruel e
negando-se a não receber nada por herança, tradição ou autoridade?

Onde se vê esta incapacidade da nossa educação tão clara é no plano da arte. Perante a arte, a
opinião pública é mais sincera. Como é a arte tão evidentemente inútil, a opinião pública declara-
a francamente supérflua. Mais por inércia do que por outra coisa deixa que se perpetuem as
academias e as instituições artísticas e nos outros centros de ensino deixa que deslize a história
da literatura e das artes. Mas será que em alguma parte se ensina, mesmo que remotamente, a
sublime emoção estética?

Nem se ensina a apreciar, nem se ensina a criar arte, porque nem uma nem outra delicada função
da humanidade tolera ser mecanicamente ensinada. Ser artista é fazer soar a própria alma numa
modulação original, nunca antes ouvida, é libertar-se heroicamente dos estilos usados e ensaiar
uns novos, é, em suma, um elemento inesperado, a flauta de Pan.

As escolas prometem-nos ensinar moral, isto é, a viver. A vida faz em cada indivíduo o ensaio de
uma nova figura e gesto de homem. Hebbel costumava dizer: “Eu vivo, isto é, diferencio-me do
resto”. Cada um de nós é o projeto e o gérmen de uma personalidade única com gestos próprios,
desejos únicos, necessidades incomparáveis e deveres originais. E o professor só pode ensinar-
nos maneiras lógicas, gostos genéricos, ideais e deveres mostrengos. Só pode desvirtuar as
nossas possibilidades, habituando-nos a repercutir a vida de outros, a ser espectros e sombras
de outros, só pode ensinar-nos a enterrar a nossa possível vida, a matar a nossa vida pessoal.
Quantos por ventura são os afortunados que ao sair de anos de educação, levam vincada na sua
consciência a idéia de que, fortes ou fracos, melhor ou pior dotados, fecham no seu ser a
possibilidade delicadíssima de algo novo, belo e fecundo e que a própria vida deve ser para eles
o espetáculo mais harmonioso e a experiência mais valente? Pensai na enorme quantidade de
energias individuais que são quebradas para a humanidade, paralisadas, desperdiçadas, porque
as pedagogias pretendem ensinar moral aos homens, isto é, como deve viver cada homem.
Vejam, pois, que essas três coisas supremas - ciência, arte, moral - não podem ser
mecanicamente ensinadas, segundo o que se pretende e que a opinião pública fica só com essas
três palavras, renunciando de antemão às três coisas. Basta um mínimo desvio para que estas
realidades sutis se transformem no contrário destas, ou quanto menos, em vocábulos côncavos
e ocos. É tão fácil a suplantação!

São as palavras, místicas borbulhas incorpóreas que se desprendem do cento da alma e, às vezes,
quebram-se no ar vibrante derramando o seu licor interno.

Não me pareceria nada mau, que o bom burguês e o bom operário, o bom advogado e o bom
médico, o bom industrial e o bom político, nunca falassem da ciência, da arte, da moral, em
suma, da cultura. Não me pareceria nada mau, até me pareceria proveitoso. O mau, o grave, o
que pode fazer declinar o futuro da mesma cultura, é que se adultere o seu significado, que seja
defraudada e desvirtuada. Tem direito a dizer isto tudo o homem consciente, que tenha assistido
aos primeiros tempos desta guerra, quando se corria numa cortina de fogo, até incendiar toda a
linha do horizonte. E não, certamente, pela própria guerra, que é por contrário, uma profunda
realidade e, portanto, um gigantesco problema da cultura, mas pelo que todos os dias tínhamos
que ler em todos os jornais e ouvir de quase todos os lábios, aquela surpresa hipócrita de que a
Europa culta se lançasse ao campo de batalha, aquelas lamentações sobre o fracasso da cultura.
Se alguma dúvida restava ainda, apareceu então manifesto até que ponto é fictícia a adesão à
cultura, até que ponto a consciência pública desconheceu o sentido desta. Viu-se então que o
europeu médio tem da cultura a idéia, de esta ser, não sabemos bem que coisa, que se consegue
de uma vez para sempre, como um dessas receitas técnicas ou preceptivas artísticas ou morais
pragmáticas a que antes me referia, algo que se recebe de fora e que podemos meter num bolso
sem que conservá-lo nos exija um esforço sem trégua.

O homem verdadeiramente culto, perante um fenômeno como a guerra ou outra grave


emergência em que se patenteia algum defeito cruel ou insuficiência da vida, potencia a sua fé
na cultura, vê com maior lucidez que nunca o sentido desta, sem necessidade radiante. Porque
dar-se conta de um novo problema, ou o agravar de um problema antigo é, ao mesmo tempo,
dar-se conta de uma nova tarefa para o espírito, de uma nova solução a procurar. Não é inculta
a pedra porque não acerta as soluções, mas porque não tem a sensação dos problemas.

Os princípios de Galileu e Newton, último cimento da ciência natural moderna, solapados em todo
o seu redor, ameaçam hoje vir ruidosamente à terra. A democracia, idéia básica em que
transitoriamente descansa a perene ânsia da justiça política, prisioneira de inumeráveis objeções
que não pode subjugar, encontra-se num momento crítico de transe capitular. Pouco provável é
que não assistamos, os que ainda não são muito velhos, à derrocada da física de Galileu e Newton
e da democracia de Rousseau e Roberspierre. No dia em que isto suceder poderemos falar em
fracasso da cultura? Já terão sucumbido essas idéias, vítimas de alguma catástrofe telúrica, ou
antes, não obedecerá seu desvanecimento a uma visão mais ampla e mais estrita dos problemas
que elas, no seu tempo, pretenderam resolver, portanto, a uma maior perfeição da sensibilidade
para os problemas, a uma exigência de maior precisão nas soluções, portanto, a um novo triunfo
da cultura? A cultura não se rende a não ser a uma cultura melhor, à qual possa dizer como o
poeta Shelley à sua amada: ”amiga, tu és melhor que eu.”.

Se a opinião pública, por causa da guerra, ulula o fracasso da cultura, é porque pensa que esta
é a supressão dos problemas, em conseqüência, o oposto à própria cultura (com c ou k, como se
queira, porque não tenho agora tempo nem nunca o mau gosto de entreter-me com estes jogos
de palavras, sobretudo, com um tão pouco engenhoso e à tantas décadas inventado e usado já
pôr Tolstoi, num momento em que se esqueceu da elegância da sua alma.) O bom filisteu não
quer a inquietude das questões e quando pede cultura entenda-se que pede para voltar a ser
pedra.

Não tenhamos ilusões, falta á nossa época a consciência da cultura, isto é, daquela coisa que em
aparência mais a envaidece. A isso contribuiu a expansão democrática do ensino, que se
preocupou mais de estender o uso do vocabulário do que intensificar e purificar numa minoria
seleta a consciência das idéias. Devido a isto, multiplicaram os médicos, os engenheiros, os
advogados, os técnicos, os leitores de jornais; e em troca subtraiu-se os homens cultos. Causa
última, sintoma definitivo desta mingua é que a nossa idade padece uma forma específica da
incultura, precisamente o desconhecimento daquelas meditações em que se aclara o sentido da
cultura e em conseqüência, o sentido da vida humana. É a incultura do médico sábio, do
engenheiro sábio, do jurista sábio, a ignorância do geral que padece o sábio essencial. Do século
X até aos nossos dias, a época que se caracteriza pela sua incultura filosófica é o século XX,
século do especialismo. Porque a consciência da cultura não é outra coisa a não ser filosofia.

Por isso, convém que falemos de vez em quando de filosofia, somente falar dela, porque apesar
de ser a ciência mais sutil é a que menos pode ser ensinada. A filosofia não se ensina, a filosofia
contamina-se. Perante a pedagogia mecanizada, eu afirmo como única, verdadeira e sem
hipocrisias a pedagogia da contaminação. Não pretendo ensinar-vos nada de filosofia e terei feito
tudo se conseguisse seduzir-vos relativamente a ela.

Como uma gota vai arrastada na turbulência do rio, cada um vai submergindo nesta coisa imensa,
turva e violenta que é a vida. Não é oportuno que de vez em quando tratemos de levantar a
cabeça sobre a corrente e vermos onde o rio nos leva? Aristóteles no início da sua ética diz
belamente: ”o arqueiro procura um alvo para as suas flechas? E não o procuraremos para a nossa
vida?”

Espírito significa precisamente a serenidade no meio da agitação vital da multidão de desejos


parciais, de amarguras, de exaltações que nos faz perder a consciência de uma direção, de um
sentido que orienta e qualifica toda essa turbulência.

A maior parte dos homens vive atenta apenas ao pequeno negócio ou à ânsia que tem à frente.
Se os deixássemos sós, a vida neles teria cada vez menos pulsações. O pequeno negócio seria
cada vez mais pequeno, o campo visual mais angustioso e os corações mais apertados. Por isso
a missão do intelectua,l e sobretudo do filósofo é proclamar fervorosamente, exasperadamente,
a obrigação do esforço espiritual que dilata as almas e potencia a vida. Perante o homem utilitário
tem que adotar uma atitude absurda de desinteresse e viver como o fogo consumindo-se a si
mesmo.

O filósofo tem que ter esta atitude e por isso, quando aparece um filósofo verdadeiro, a
humanidade sente como um verdadeiro “espolazo” pela vida.

Não pretendo ser esse verdadeiro filósofo, nem sequer um filósofo aparente. Só por força
administrativa suporto o título de professor de metafísica, de uma coisa que não conheço bem e
que mesmo bem conhecida não se pode, a rigor, ensinar. Eu convido-vos, pois, a coincidir comigo
em não tomar a sério esta minha capacidade administrativa.

A minha pretensão é incomparavelmente mais modesta, contentar-me-ia em passar perto das


almas mais quietas que a minha e deixar cair nelas fermentações de dúvida, ambição e esperança.
Tereis notado que ao estarmos inclinados sobre um tanque ou perto de um lago de água morta
e vemos a superfície tão imóvel, polida, indiferente, onde se refletem as nuvens viajantes, as
nuvens de abril redondas e barrocas, se apodera de nós como uma irritação e um desejo de
acabar com aquela calma e polimento fictícios que escondem toda a radiante vida do fundo
lodoso. E sem darmos conta, a nossa mão apanha uma pequena pedra e a atira à água, cujo
cristal se parte e vibra trêmulo como umas costas vivas, e deixa escapar bolhas que ascendem
do fundo como suspiros. Feito isto, afastamo-nos ingenuamente satisfeitos. Pois algo não menos
ingênuo me seria grato fazer com as almas demasiado quietas. As minhas aspirações esgotam-
se, como vedes, em chegar a ser um professor de atirar pequenas pedras nos tanques.

Tradução de Ana Margarida Rua Filipe Martins no âmbito da cadeira “História e Filosofia da
Educação” no ano letivo de 1995/96