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Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof.

Wilson Santana - 25/02/2013 - 1

Protestantismo e Cultura
Brasileira

Prof. Wilson Santana Silva

Disciplina ministrada no Curso de Validação e Teologia.

UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE.

2013
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 2

CAUSAS DA DECADÊNCIA DOS POVOS PENINSULARES NOS ÚTIMOS


TRÊS SÉCULOS.

Discurso proferido por Antero de Quental, numa sala do Cassino Lisbonense,


em Lisboa, no dia 27 de Maio de 1871, durante a 1ª sessão das conferências
Democráticas.

Meus Senhores:

A decadência dos povos da Península nos três últimos séculos é um dos factos
mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história: pode até dizer-se que
essa decadência, seguindo-se quase sem transição a um período de força
gloriosa e de rica originalidade, é o único grande fato evidente e incontestável
que nessa história aparece aos olhos do historiador filósofo. Como peninsular,
sinto profundamente ter de afirmar, numa assembléia de peninsulares, esta
desalentadora evidência. Mas, se não reconhecermos e confessarmos
francamente os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma
emenda sincera e definitiva? O pecador humilha-se diante do seu Deus, num
sentido acto de contrição, e só assim é perdoado. Façamos nós também,
diante do espírito de verdade, o ato de contrição pelos nossos pecados
históricos, porque só assim nos poderemos emendar e regenerar.

Conheço quanto é delicado este assunto, e sei que por isso, dobrados deveres
se impõem à minha crítica. Para uma assembléia de estrangeiros não passará
esta duma tese histórica, curiosa sim para as inteligências, mas fria e
indiferente para os sentimentos pessoais de cada um. Num auditório de
peninsulares não é, porém assim. A história dos últimos três séculos perpetua-
se ainda hoje entre nós em opiniões, em crenças, em interesses, em tradições,
que a representam na nossa sociedade, e a tornam de algum modo atual. Há
em nós todos, uma voz íntima que protesta em favor do passado, quando
alguém o ataca: a razão pode condená-lo: o coração tenta ainda absolvê-lo. É
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que nada há no homem mais delicado, mais melindroso, do que as ilusões: e


são as nossas ilusões o que a razão critica, discutindo o passado, ofende
sobretudo em nós.

Não posso pois apelar para a fraternidade das idéias: conheço que as minhas
palavras não devem ser bem aceites por todos. As idéias, porém, não são
felizmente o único laço com que se ligam entre si os espíritos dos homens.
Independente delas, se não acima delas, existe para todas as consciências
retas, sinceras, leais, no meio da maior divergência de opiniões, uma
fraternidade moral, fundada na mútua tolerância e no mútuo respeito, que une
todos os espíritos numa mesma comunhão - o amor e a procura
desinteressada da verdade. Que seria dos homens se, acima dos ímpetos da
paixão e dos desvarios da inteligência, não existisse essa região serena da
concórdia na boa-fé e na tolerância recíproca! Uma região onde os
pensamentos mais hostis se podem encontrar, estendendo-se lealmente a
mão, e dizendo uns para os outros com um sentimento humano e pacífico: és
uma consciência convicta! É para essa comunhão moral que eu apelo. E apelo
para ela confiadamente, porque, sentindo-me dominado por esse sentimento
de respeito e caridade universal, não posso crer que haja aqui alguém que
duvide da minha boa-fé, e. se recuse a acompanhar-me neste caminho de
lealdade e -tolerância.

Já o disse há dias, inaugurando e explicando o pensamento destas


Conferências: não pretendemos impor as nossas opiniões, mas simplesmente
expô-las: não pedimos a adesão das pessoas que nos escutam; pedimos só a
discussão: essa discussão, longe de nos assustar, é o que mais desejamos,
porque; ainda que dela resultasse a condenação das nossas idéias, contanto
que essa condenação fosse justa e inteligente, ficaríamos contentes, tendo
contribuído, posto que indiretamente, para a publicarão de algumas verdades.
São prova da sinceridade deste desejo aqueles lugares e aquelas mesas,
destinadas particularmente aos jornalistas, onde podem tomar nota das nossas
palavras, tornando-lhes nós assim franca e fácil a contradição.
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Meus Senhores: a Península, durante os séculos XVII, XVIII e XIX; apresenta-


nos um quadro de abatimento e insignificância, tanto mais sensível quanto
contrasta dolorosamente com a grandeza, a importância e a originalidade do
papel que desempenhamos no primeiro período da Renascença, durante toda
a Idade Média, e ainda nos últimos séculos - da Antiguidade. Logo na época
romana aparecem os caracteres essenciais da raça peninsular: espírito de
independência local e originalidade de gênio inventivo. Em parte alguma custou
tanto à dominação romana o estabelecer-se, nem chegou nunca a ser
completo esse estabelecimento. Essa personalidade independente mostra-se
claramente, na literatura, onde os espanhóis Lucano, Séneca, Marcial,
introduzem no latim um estilo e uma feição inteiramente peninsulares, e
singularmente característicos. Eram os prenúncios da viva, originalidade que ia
aparecer nas épocas seguintes. Na Idade Média a Península, livre de
estranhas influências, brilha na plenitude do seu gênio, das suas qualidades
naturais. O instinto político de descentralização e federalismo patenteia-se na
multiplicidade de reinos e condados soberanos, em que se divide a Península,
como um protesto e uma vitória dos interesses e energias locais, contra. a
unidade uniforme, esmagadora e artificial. Dentro de cada uma dessas divisões
as comunas, os forais, localizam ainda mais os direitos, e manifestam e firmam,
com um sem-número de instituições, o espírito independente e autonômico das
populações. E esse espírito não é só independente: é, quanto a época o
comportava, singularmente democrático. Entre todos os povos da Europa
central e ocidental, somente os da Península escaparam ao jugo de ferro do
feudalismo. O espectro torvo do castelo feudal não assombrava os nossos
vales, não se inclinava, como uma ameaça, sobre a margem dos nossos rios,
não entristecia os nossos horizontes com o seu perfil duro e sinistro. Existia,
certamente, a nobreza, como uma ordem distinta. Mas o foro nobiliário
generalizara-se tanto, e tornara-se de tão fácil acesso, naqueles séculos
heróicos de guerra incessante, que não é exagerada a expressão daquele
poeta que nos chamou, a nós Espanhóis, um povo de nobres. Nobres e
populares uniam-se por interesses e sentimentos, e diante deles a coroa dos
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reis era mais um símbolo brilhante do que uma realidade poderosa. Se nessas
idades ignorantes a idéia do Direito era obscura e mal definida, o instinto do
Direito agitava-se enérgico nas consciências, e as ações surgiam viris como os
caracteres.

A tais homens não convinha mais o despotismo religioso do que o despotismo


político: a opressão espiritual repugnava-lhes tanto como a sujeição civil. Os
povos peninsulares são naturalmente religiosos: são-no até de uma maneira
ardente, exaltada e exclusiva, e é esse um dos seus caracteres mais
pronunciados. Mas são ao mesmo tempo inventivos e independentes: adoram
com paixão: mas só adoram aquilo que eles mesmos criam, não aquilo que se
lhes impõe. Fazem a religião, não a aceitam feita. Ainda hoje duas terças
partes da população espanhola ignoram completamente os dogmas, a teologia
e os mistérios cristãos: mas adoram fielmente os santos padroeiros das suas
cidades: por quê? porque os conhece, porque os fez. O nosso génio é criador e
individualista: precisa rever-se nas suas criações. Isto (junto à falta de coesão
do maquinismo católico da Idade Média, ainda mal definido e pouco
disciplinado pela inexorável escola de Roma) explica suficientemente a
independência das igrejas peninsulares, e a atitude altiva das coroas da
Península diante da cúria romana. Os papas eram já muitos: mas os bispos e
as cortes eram ainda bastantes. Para as pretensões italianas havia um não
muito franco e muito firme. E essa resistência não saía apenas da vontade e do
interesse de alguns: saía do impulso incontrastável do gênio popular. Esse
gênio criador via-se no aparecimento de rituais indígenas, numa singular
liberdade de pensamento e interpretação, e em mil originalidades de disciplina.
Era o sentimento cristão, na sua expressão viva e humana, não formal e
ininteligente: a caridade e a tolerância tinham um lugar mais alto do que a
teologia dogmática. Essa tolerância pelos Mouros e Judeus, raças infelizes e
tão meritórias, será sempre uma das glórias do sentimento cristão da Península
da Idade Média. A caridade triunfava das repugnâncias e preconceitos de raça
e de crença. Por isso o seio do povo era fecundo; saíam dele santos,
individualidades à uma ingênuas e sublimes, símbolos vivos da alma popular, e
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cujas singelas histórias ainda hoje não podemos ler sem enternecimento.

No mundo da inteligência não é menos notável a expansão do espírito


peninsular durante a Idade Média. O grande movimento intelectual da Europa
medieval compreende a filosofia escolástica e a teologia, as criações nacionais
dos ciclos épicos, e a arquitetura. Em nada disto se mostrou a Península
inferior às grandes nações cultas, que haviam recebido a herança da
civilização romana. Demos à escola filósofos como Raimundo Lúlio; à Igreja,
teólogos e papas, um deste português, João XXI. As escolas de Coimbra e
Salamanca tinham uma celebridade européia: nas suas aulas viam-se
estrangeiros de distinção atraídos pela fama dos seus doutores. Entre os
primeiros homens do século XIII está um, monarca espanhol, Afonso, o Sábio,
espírito universal, filósofo, político e legislador. Nem posso também deixar
esquecidos os mouros e judeus, porque foram uma das glórias da Península. A
reforma da escolástica, nos séculos XIII e XIV, pela renovação do aristotelismo,
foi obra quase exclusiva das escolas árabes e judaicas de Espanha. Os
homens de Averróis (de Córdova), de Ibn-Tophail (de Sevilha) e os dois judeus
Maimónides e Avicebron serão sempre contados entre os primeiros na história
da filosofia na Idade Média. Ao pé da filosofia, a poesia. Para opor aos ciclos
épicos da Távola Redonda, de Carlos Magno e do Santo Graal, tivemos aquele
admirável Romancero, as lendas do Cid, dos Infantes de Lara, e tantas outras,
que se teriam condensado em verdadeiras epopéias, se o espírito clássico da
Renascença não tivesse vindo dar à Poesia outra direção. Ainda assim, grande
parte, a melhor parte talvez, do teatro espanhol saiu da mina inesgotável do
Romancero. Para opor aos trovadores provinciais, tivemos também trovadores
peninsulares. Dos nossos reis e cavaleiros trovaram alguns com tanto primor
como Beltrão de Born ou o conde de Tolosa. Quanto à arquitetura, basta
lembrar a Batalha e a Catedral de Burgos, duas das mais belas rosas góticas
desabrochadas no seio da. Idade Média. Em tudo isto acompanháramos a
Europa, a par do movimento geral. Numa coisa, porém, a excedemos,
tornando-nos iniciadores: os estudos geográficos e as grandes navegações. As
descobertas, que coroaram tão brilhantemente o fim do século XV, não se
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fizeram ao acaso. Precedeu-as um trabalho intelectual, tão científico quanto a


época o permitia, inaugurado pelo nosso infante D. Henrique, nessa famosa
escola de Sagres, de onde saíam homens como aquele heróico Bartolomeu
Dias, e cuja influência, direita ou indiretamente, produziu um Magalhães e um
Colombo. Foi uma onda que, levantada aqui, cresceu até ir rebentar nas praias
do Novo Mundo. Viu-se de quanto eram capazes a inteligência e a energia
peninsulares. Por isso a Europa tinha os olhos em nós, e na Europa a nossa
influência nacional era das que mais pesavam. Contava-se para tudo com
Portugal e Espanha. O Santo Império alemão oferece a orgulhosa coroa
imperial a um rei de Castela, Afonso, o Sábio. No século XV, D. João I, árbitro
em várias questões internacionais, é geralmente considerado, em influência e
capacidade, como um dos primeiros monarcas da Europa. Tudo isto nos
prepara para desempenharmos, chegada a Renascença, um papel glorioso e
preponderante. Desempenhámo-lo, com efeito, brilhante e ruidoso: os nossos
erros, porém, não consentiram que fosse também duradouro e profícuo. Como
foi que o movimento regenerador da Renascença; tão bem preparado, abortou
entre nós mostrá-lo-ei logo com fatos decisivos. Esse movimento só foi entre
nós representados por uma geração de homens superiores, a primeira. As
seguintes, que o deviam consolidar, fanatizadas, entorpecidas, impotentes, não
souberam compreender nem praticar aquele espírito tão alto e tão livre:
desconheceram-no, ou combateram-no. Houve, porém, uma primeira geração
que respondeu ao chamamento da Renascença; e enquanto essa geração
ocupou a cena, isto é, até ao meado do século XVI, a Península conservou-se
à altura daquela época extraordinária de criação e liberdade de pensamento. A
renovação dos estudos recebeu-a nas suas Universidades novas ou
reformadas, onde se explicavam os grandes monumentos literários da
Antiguidade, muitas vezes na própria língua dos originais. Entre as 43
Universidades estabelecidas na Europa durante o século XVI, 14 foram
fundadas pelos reis de Espanha. A filosofia neoplatónica, que substituía por
toda a parte a velha e gasta escolástica, foi adotada pelos espíritos mais
eminentes. Um estilo e uma literatura novos surgiram com Camões, com
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Cervantes, com Gil Vicente, com Sá de Miranda, com Lopes de Vega, com
Ferreira. Demos às escolas da Europa sábios como Miguel Servet, precursor
de Harvey, filósofos como Sepúlveda, um dos primeiros peripatéticos do tempo,
e o português Sanches, mestre de Montaigne. A família dos humanistas,
verdadeiramente característica da Renascença, foi representada entre nós por
André de Resende, por Diogo de Teive, pelo bispo de Tarragona, Antonio
Augustin, por Damião de Góis, e por Camões, cuja inspiração não excluía uma
erudição quase universal. Finalmente, a arte peninsular ergue nessa época um
voo poderoso, com a arquitetura chamada manuelina, criação duma
originalidade e graça surpreendentes, e com a brilhante escola de pintura
espanhola, imortalizada por artistas como Murillo, Velásquez, Ribera. Fora da
pátria guerreiros ilustres mostravam ao mundo que o valor dos povos
peninsulares não era inferior à sua inteligência. Se as causas da nossa
decadência existiam já latentes, nenhum olhar podia ainda então descobri-Ias:
a glória, e uma glória merecida, só dava lugar à admiração.

Deste mundo brilhante, criado pelo génio peninsular na sua livre expansão,
passamos quase sem transição para um mundo escuro, inerte, pobre,
ininteligente e meio desconhecido. Dir-se-á que entre um e outro se meteram
dez séculos de decadência: pois bastaram para essa total transformação 50 ou
60 anos! Em tão curto período era impossível caminhar mais rapidamente no
caminho da perdição.

No princípio do século XVII, quando Portugal deixa de ser contado entre as


nações, e se desmorona por todos os lados a monarquia anómala,
inconsistente e desnatural de Filipe II; quando a glória passada já não pode
encobrir o ruinoso do edifício presente, e se afunda a Península sob o peso dos
muitos erros acumulados, então aparece franca e patente por todos os lados a
nossa improcrastinável decadência. Aparece em tudo; na política, na influencia,
nos trabalhos da inteligência, na economia social e na indústria, e como
conseqüência de tudo isto, nos costumes. A preponderância, que até então
exercêramos nos negócios da Europa, desaparece para dar lugar à
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insignificância e à impotência. Nações novas ou obscuras erguem-se e


conquistais no mundo, à nossa custa, a influência de que nos mostrámos
indignos. A coroa de Espanha é posta em leilão sangrento no meio das nações,
e adjudicada, no fim de doze anos de guerra, a um neto de Luís XIV. Com a
dinastia estrangeira começa uma política antinacional, que envilece e
desacredita a monarquia. E esse rei estrangeiro custa à Espanha a perda de
Nápoles, da Sicília, do Milanês, dos Países Baixos! Em Portugal, é a influência
inglesa, que, por meio de cavilosos tratados, faz de nós uma espécie de
colônia britânica. Ao mesmo tempo as nossas próprias colônias escapam-nos
gradualmente das mãos: as Molucas passam a ser holandesas; na índia lutam
sobre os nossos despojos holandeses, ingleses e franceses: na China e no
Japão desaparece a influência do nome português. Portugueses e Espanhóis,
vamos de século para século minguando em extensão e importância, até não
sermos mais que duas sombras, duas nações espectros, no meio dos povos
que nos rodeiam!... E que tristíssimo quadro o da nossa política interior! As
liberdades municipais, à iniciativa local das comunas, aos forais, que davam a
cada população uma fisionomia e vida próprias, sucede a centralização,
uniforme e esterilizadora. A realeza deixa então de encontrar uma resistência e
uma força exterior que a equilibre, e transforma-se no puro absolutismo;
esquecendo a sua origem e a sua missão, crê ingenuamente que os povos não
são mais do que o patrimônio providencial dos reis. O pior é que os povos
acostumam-se a crê-lo também! Aquele espírito de independência que
inspirava o firme si no, no! da Idade Média adormece e morre no seio popular.
O povo emudece; negam-lhe a palavra, fechando-lhe as Cortes; não o
consultam, nem se conta já com ele. Com quem se conta é com a aristocracia
palaciana, com uma nobreza cortesã, que cada vez se separa mais do povo
pelos interesses e pelos sentimentos, e que, de classe, tende a transformar-se
em casta. Essa aristocracia, como um embaraço na circulação do corpo social,
impede a elevação natural de um elemento novo, elemento essencialmente
moderno, a classe média, e contraria assim todos os progressos ligados a essa
elevação. Por isso decai também a vida econômica: a produção decresce, a
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agricultura recua, estagna-se o comércio, desaparecem uma por uma as


indústrias nacionais; a riqueza, uma riqueza faustosa e estéril, concentra-se em
alguns pontos excepcionais, enquanto a miséria se alarga pelo resto do país: a
população, dizimada pela guerra, pela emigração, pela miséria, diminui de uma
maneira assustadora. Nunca povo algum absorveu tantos tesouros, ficando ao
mesmo tempo tão pobre! No meio dessa pobreza e dessa atonia, o espírito
nacional, desanimado e sem estímulos, devia cair naturalmente num estado de
torpor e de indiferença. É o que nos mostra claramente esse salto mortal dado
pela inteligência dos povos peninsulares, passando da Renascença para os
séculos XVII e XVIII. A uma geração de filósofos, de sábios e de artistas
criadores, sucede a tribo vulgar dos eruditos sem crítica, dos acadêmicos, dos
limitadores. Saímos duma sociedade de homens vivos, movendo-se ao ar livre:
entramos num recinto acanhado e quase sepulcral, com uma atmosfera turva
pelo pó dos livros velhos, e habitado por espectros de doutores. A poesia,
depois da exaltação estéril, falsa, e artificialmente provocada do gongorismo,
depois da afetação dos conceitos (que ainda mais revelava a nulidade do
pensamento), cai na imitação servil e ininteligente da poesia latina, naquela
escola clássica, pesada e fradesca, que é a antítese de toda a inspiração e de
todo o sentimento. Um poema compõe-se doutoralmente, como uma
dissertação teológica. Traduzir é o ideal: inventar considera-se um perigo e
uma inferioridade: uma obra poética é tanto mais perfeita quanto maior número
de versos contiver traduzidos de Horácio, de Ovídio. Florescem a tragédia, a
ode pindárica, e o poema herói-cómico, isto é, a afetação e a degradação da
poesia. Quanto à verdade humana, ao sentimento popular e nacional, ninguém
se preocupava com isso. A invenção e originalidade, nessa época deplorável,
concentra-se toda na descrição cinicamente galhofeira das misérias, das
intrigas, dos expedientes da vida ordinária. Os romances picarescos espanhóis
e as comédias populares portuguesas são irrefutáveis atos de acusação, que,
contra si mesma, nos deixou essa sociedade, cuja profunda desmoralização
tocava os limites da ingenuidade e da inocência no vício. Fora desta realidade
pungente, a literatura oficial e palaciana espraiava-se pelas regiões insípidas
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do discurso acadêmico, da oração fúnebre, do panegírico encomendado –


gêneros artificiais, pueris, e mais que tudo soporíficos. Com um tal estado dos
espíritos, o que se podia esperar da arte? Basta erguer os olhos para essas
lúgubres moles de pedra, que se chamam o Escorial e Mafra, para vermos que
a mesma ausência de sentimento e invenção, que produziu o gosto pesado e
insípido do classicismo, ergueu também as massas compactas, e friamente
correctas na sua falta de expressão, da arquitetura jesuítica. Que triste
contraste entre essas montanhas de mármore, com que se julgou atingir o
grande, simplesmente porque se fez o monstruoso, e a construção delicada,
aérea, proporcional e, por assim dizer, espiritual dos Jerônimo, da Batalha, da
Catedral de Burgos! O espírito sombrio e depravado da sociedade refletiu a
Arte, com uma fidelidade desesperadora, que será sempre perante a história
uma incorruptível testemunha de acusação contra aquela época de verdadeira
morte moral. Essa morte moral não invadira só o sentimento, a imaginação, o
gosto: invadira também, invadira sobretudo a inteligência. Nos últimos dois
séculos não produziu a Península um único homem superior, que se possa pôr
ao lado dos grandes criadores da ciência moderna: não saiu da Península uma
só das grandes descobertas intelectuais, que são a maior obra e a maior honra
do espírito moderno. Durante 200 anos de fecunda elaboração, reforma a
Europa culta as ciências antigas, cria seis ou sete ciências novas, a anatomia,
a fisiologia, a química, a mecânica celeste, o cálculo diferencial, a crítica
histórica, a geologia: aparecem os Newton, os Descartes, os Bacon, os Leibniz,
os Harvey, os Buffon, os Ducange, os Lavoisier, os Vico – onde está, entre os
nomes destes e dos outros verdadeiros heróis da epopéia do pensamento, um
nome espanhol ou português? Que nome espanhol ou português se liga à
descoberta duma grande lei científica, dum sistema, duma fato capital? A
Europa culta engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência: foi
sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradamos, que
nos anulámos. A alma moderna morrera dentro em nós completamente.

Pelo caminho da ignorância, da opressão e da miséria chega-se naturalmente,


chega-se fatalmente, à depravação dos costumes. E os costumes depravaram-
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se com efeito. Nos grandes, a corrupção faustosa da vida de corte, onde os


reis são os primeiros a dar o exemplo do vício, da brutalidade, do adultério:
Afonso VI, João V, Filipe V, Carlos IV. Nos pequenos, a corrupção hipócrita, a
família vendida pela miséria aos vícios dos nobres e dos poderosos. É a época
das amásias e dos filhos bastardos. O que era então a mulher do povo, em
face das tentações do ouro aristocrático, vê-se bem no escandaloso processo
de nulidade de matrimónio de Afonso VI, e nas memórias do Cavaleiro de
Oliveira. Ser rufião é um ofício geralmente admitido, e que se pratica com
aproveitamento na própria corte. A religião deixa -de ser um sentimento vivo;
torna-se uma prática ininteligente, formal, mecânica. O que eram os frades,
sabemo-lo todos: os costumes picarescos e ignóbeis dessa classe são ainda
hoje memorados pelo Decameron da tradição popular. O pior é que esses
histriões tonsurados eram ao mesmo tempo sanguinários. A Inquisição pesava
sobre as consciências como a abóbada dum cárcere. O espírito público
abaixava-se gradualmente sob a pressão do terror, enquanto o vício, cada vez
mais requintado, se apossava placidamente do lugar vazio que deixava nas
almas a dignidade, o sentimento moral e a energia da vontade pessoal,
esmagados, destruídos pelo medo. Os casuístas dos séculos XVII e XVIII
deixaram-nos um vergonhoso monumento de requinte bestial de todos os
vícios, da depravação das imaginações, das misérias íntimas da família, da
perdição de costumes, que corria aquelas sociedades deploráveis. Isto por um
lado: porque, pelo outro, os casuístas mostram-nos também a que
abaixamento moral chegara o espírito do clero, cavando todos os dias esse
lodo, revolvendo com afinco, com predileção, quase com amor, aquele montão
graveolente de abjeções. Todas essas misérias íntimas refletem fielmente na
literatura. O que eram no século XVII a moral pública, as intrigas políticas, o
nepotismo cortesão, o roubo audaz ou sub-reptício da riqueza pública, vê-se (e
com todo o relevo duma pena sarcástica e inexorável) na Arte de Furtar do
Padre António Vieira. Quanto aos documentos para a história da família e dos
costumes privados, encontramo-los na Carta de Guia de Casados de D.
Francisco Manuel, nas forças populares portuguesas, e nos romances
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picarescos espanhóis. O espírito peninsular descera de degrau em degrau, até


ao último termo da depravação!

Tais, temos sido nos últimos três séculos: sem vida, sem liberdade, sem
riqueza, sem ciência, sem invenção, sem costumes. Erguemo-nos hoje a custo,
Espanhóis e Portugueses, desse túmulo onde os nossos grandes erros nos
tiveram sepultados: erguemo-nos, mas os restos da mortalha ainda nos
embaraçam os passos, e pela palidez dos nossos rostos pode bem ver o
mundo de que regiões lúgubres e mortais chegamos ressuscitados! Quais as
causas dessa decadência, tão visível, tão universal, e geralmente tão pouco
explicada? Examinemos os fenômenos que se deram na Península durante o
decurso do século XVI, período de transição entre a Idade Média e os tempos
modernos, e em que aparecem os gérmenes, bons e maus, que mais tarde,
desenvolvendo-se nas sociedades modernas, deram a cada qual o seu
verdadeiro caráter. Se esses fenômenos forem novos, universais, se
abrangerem todas as esferas da atividade nacional, desde a religião até à
indústria, ligando-se assim intimamente ao que há de mais vital nos povos
estarei autorizado a empregar o argumento (neste caso, rigorosamente lógico)
post hoc, ergo propter hoc, e a concluir que é nesses novos fenômenos que se
devem buscar e encontrar as causas da decadência da Península.

Ora esses fenômenos capitais são três, e de três espécies: um moral, outro
político, outro econômico. O primeiro é a transformação do catolicismo, pelo
Concílio de Trento. O segundo, o estabelecimento do absolutismo, pela ruína
das liberdades locais. O terceiro, o desenvolvimento das conquistas
longínquas. Estes fenômenos assim agrupados, compreendendo os três
grandes aspectos da vida social, o pensamento, a política e o trabalho,
indicam-nos claramente que uma profunda e universal revolução se operou,
durante o século XVI, nas sociedades peninsulares. Essa revolução foi funesta,
funestíssima. Se fosse necessária uma contraprova, bastava considerarmos
um facto contemporâneo muito simples: esses três fenômenos eram
exactamente o oposto dos três factos capitais, que se davam nas nações que
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lá fora cresciam, se moralizavam, se faziam inteligentes, ricas, poderosas, e


tomavam a dianteira da civilização. Aqueles três fatos civilizadores foram a
liberdade moral, conquistada pela Reforma ou pela filosofia: a elevação da
classe média, instrumento do progresso nas sociedades modernas, e diretora
dos reis, até ao dia em que os destronou: a indústria, finalmente, verdadeiro
fundamento do mundo atual, que veio dar às nações uma concepção nova do
Direito, substituindo o trabalho à força, e o comércio à guerra de conquista.
Ora, a liberdade moral, apelando para o exame e a consciência individual, é
rigorosamente o oposto do catolicismo do Concílio de Trento, para quem a
razão humana e o pensamento livre são um crime contra Deus: a classe média,
impondo aos reis os seus interesses, e muitas vezes o seu espírito, é o oposto
do absolutismo, esteado na aristocracia e só em proveito dela governando: a
indústria, finalmente, é o oposto do espírito de conquista, antipático ao trabalho
e ao comércio.

Assim, enquanto as outras nações subiam, nós baixávamos. Subiam elas pelas
virtudes modernas; nós descíamos pelos vícios antigos, concentrados, levados
ao sumo grau de desenvolvimento e aplicação. Baixávamos pela indústria, pela
política. Baixávamos, sobretudo, pela religião.

Da decadência moral é esta a causa culminante! O catolicismo do Concílio de


Trento não inaugurou certamente no mundo o despotismo religioso: mas
organizou-o duma maneira completa, poderosa, formidável, e até então
desconhecida. Neste sentido, pode dizer-se que o catolicismo, na sua forma
definitiva, imobilizado e intolerante, data do século XVI. As tendências, porém,
para esse estado vinham já de longe; nem a Reforma significa outra coisa
senão o protesto do sentimento cristão, livre e independente, contra essas
tendências autoritárias e formalísticas. Essas tendências eram lógicas, e até
certo ponto legítimas, dada a interpretação e organização romana da religião
cristã: não o eram, porém, dado o sentimento cristão na sua pureza virginal,
fora das condições precárias da sua realização política e mundana, o
sentimento cristão, numa palavra, no seu domínio natural, a consciência
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religiosa. É necessário, com efeito, estabelecermos cuidadosamente uma


rigorosa distinção entre cristianismo e catolicismo, sem o que nada
compreenderemos das evoluções históricas da religião cristã. Se não há
cristianismo fora do grêmio católico (como asseveram os teólogos, mas como
não podem nem querem aceitar a razão, a equidade e a crítica), nesse caso
teremos de recusar o título de cristãos aos luteranos, e a todas as seitas saídas
do movimento protestante, em quem todavia vive bem claramente o espírito
evangélico. Digo mais, teremos de negar o nome de cristãos aos apóstolos e
evangelistas, porque nessa época a catolicismo estava tão longe do futuro que
nem ainda a palavra católico fora inventada! É que realmente o cristianismo
existiu e pode existir fora do catolicismo. O cristianismo é sobretudo um
sentimento: o catolicismo é sobretudo uma instituição. Um vive da fé e da
inspiração: o outro do dogma e da disciplina. Toda a história religiosa, até ao
meado do século XVI, não é mais do que a transformação do sentimento
cristão na instituição católica. A Idade Média é o período da transição: há ainda
um, e o outro aparece já. Equilibram-se. A unidade vê-se, faz-se sentir, mas
não chega ainda a sufocar a vida local e autonómica. Por isso é também esse
o período das igrejas nacionais. As da Península, como todas as outras,
tiveram, durante a Idade Média, liberdades e iniciativas, concílios nacionais,
disciplina própria, e uma maneira sua de sentir e praticar a religião. Daqui, dois
grandes resultados, fecundos em consequências benéficas. O dogma, em vez
de ser imposto, era aceite, e, num certo sentido, criado: ora, quando a base da
moral é o dogma, só pode haver boa moral deduzindo-a dum dogma aceite, e
até certo ponto criado, e nunca imposto. Primeira conseqüência, de incalculável
alcance.

O sentimento do dever, em vez de ser contradito pela religião, apoiava-se nela.


Daqui a força dos caracteres, a elevação dos costumes. Em segundo lugar,
essas igrejas nacionais, por isso mesmo que eram independentes, não
precisavam oprimir. Eram tolerantes. A sombra delas, muito na sombra é
verdade, mas tolerados em todo o caso, viviam Judeus e Mouros, raças
inteligentes, industriosas, a quem a indústria e o pensamento peninsulares
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tanto deveram, e cuja expulsão tem quase as proporções duma calamidade


nacional. Segunda conseqüência, de não menor alcance do que a primeira. Se
a Península não era então tão católica como o foi depois, quando queimava os
judeus e recebia do geral dos Jesuítas o santo e a senha da sua política, era
seguramente muito mais cristã, isto é, mais caridosa e moral, como estes
factos o provam.

Rasga-se, porém o século XVI, tão prodigioso de revelações, e com ele


aparece no mundo a Reforma, seguida por quase todos os povos de raça
germânica. Esta situação cria para os povos latinos, que se conservavam
aliados a Roma, uma necessidade instante, que era ao mesmo tempo um
grande problema. Tornava-se necessário responder aos ataques dos
protestantes, mostrar ao mundo que o espírito religioso não morrera no seio
das raças latinas, que debaixo da corrupção romana havia alma e vontade. Um
grito unânime de reforma saiu do meio dos representantes da ortodoxia,
opondo-se ao desafio, que, com a mesma palavra, haviam lançado ao mundo
católico Lutero, Zwingle, Ecolampado, Melanchthon e Calvino. Reis, povos,
sacerdotes, clamavam todos reforma! Mas aqui aparecia o problema: que
espécie de reforma? A opinião dos bispos e, em geral, das populações
católicas pronunciava-se no sentido duma reforma liberal, em harmonia com o
espírito da época, chegando muitos até a desejar uma conciliação com os
protestantes: era a opinião episcopal representante das igrejas nacionais. Em
Roma, porém, a solução que se dava ao problema tinha um bem diferente
carácter. O ódio e a cólera dominavam os corações dos sucessores dos
apóstolos. Repelia-se com horror a ideia de conciliação, da mais pequena
concessão. Pensava-se que era necessário fortificar a ortodoxia, concentrando
todas as forças, disciplinando e centralizando; empedernir a Igreja, para a
tornar inabalável. Era a opinião absolutista, representante do Papado. Esta
opinião (para não dizer este partido) triunfou, e foi esse triunfo uma verdadeira
calamidade para as nações católicas. Nem era isso o que elas desejavam, e o
que pediram e sustentaram os seus bispos, lutando indefesos durante 16 anos
contra a maioria esmagadora das criaturas de Roma! Pediam uma verdadeira
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reforma, sincera, liberal, em harmonia com as exigências da época. O


programa formulava-se em três grandes capítulos fundamentais. 1 °
Independência dos bispos, autonomia das igrejas nacionais, inauguração dum
parlamentarismo religioso pela convocação amiudada dos concílios, esses
estados gerais do cristianismo, superiores ao Papa e árbitros supremos dó '
mundo espiritual. 2 ° O casamento para os padres, isto é, a secularização
progressiva do clero, a volta às leis da humanidade duma classe votada
durante quase mil anos a um duro ascetismo, então talvez necessário, mas já
no século XVI absurdo, perigoso, desmoralizador. 3 ° Restrições à pluralidade
dos benefícios eclesiásticos, abuso odioso, tendente a introduzir na Igreja um
verdadeiro feudalismo com todo o seu poder e desregramento. Destas
reformas saía naturalmente a humanização gradual da religião, a liberdade
crescente das consciências, e a capacidade para o cristianismo de se
transformar dia a dia, de progredir, de estar sempre à altura do espírito
humano, resultado imenso e capital que trouxe a Reforma aos povos que a
seguiram. Os graves prelados, que então combatiam pelas reformas que acabo
de apresentar, não desejavam, certamente, nem mesmo previam estas
consequências, o próprio Lutero as não previu. Mas nem por isso as
consequências deixariam de ser aquelas. Bartolomeu dos Mártires e os bispos
de Cádis e Astorga não eram, seguramente, revolucionários: representavam no
Concílio de Trento a última defesa e o protesto das igrejas da Península contra
o ultramontanismo invasor: mas a obra deles é que era, pelas consequências,
revolucionária; e, trabalhando nela, estavam na corrente e no espírito do
grande e emancipador século XVI. Se houvessem alcançado essa reforma,
teríamos nós talvez, Espanhóis e Portugueses, escapado à decadência. Quem
pode hoje negar que é em grande parte à Reforma que os povos reformados
devem os progressos morais que os colocaram naturalmente à frente da
civilização? Contraste significativo, que nos apresenta hoje o mundo! As
nações mais inteligentes, mais moralizadas, mais pacíficas e mais industriosas
são exactamente aquelas que seguiram a revolução religiosa do século XVI:
Alemanha, Holanda, Inglaterra, Estados Unidos, Suíça. As mais decadentes
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 18

são exactamente as mais católicas! Com a Reforma estaríamos hoje talvez à


altura dessas nações; estaríamos livres, prósperos, inteligentes, morais... mas
Roma teria caído!

Roma não queria cair. Por isso resistiu longo tempo, iludiu quanto pôde os
votos das nações que reclamavam a convocação do concílio reformador. Não
podendo resistir mais tempo, cede por fim. Mas como o fez? Como cedeu
Roma, dominada desde então pelos Jesuítas? Estamos em Itália, meus
senhores, no país de Machiavelli !... Eu não digo que Roma usasse deliberada
e conscientemente duma política maquiavélica: não posso avaliar as intenções.
Digo simplesmente que o parece; e que, perante a história, a política romana
em toda esta questão do Concílio de Trento aparece com um notável carácter
de habilidade e cálculo... muito pouco evangélicos! Roma, não podendo resistir
mais à ideia do concílio, explora essa ideia em proveito próprio. Dum
instrumento de paz e progresso, faz uma arma de guerra e dominação;
confisca o grande impulso reformador, e fá-lo convergir em proveito do
ultramontanismo. Como? Duma maneira simples: 1 °, dando só aos legados do
Papa o direito de propor reformas: 2°, substituindo, ao antigo modo de votar por
nações, o voto por cabeças, que lhe dá com os seus cardeais e bispos
italianos, criaturas suas, uma maioria compacta e resolvida sempre a esmagar,
a abafar os votos das outras nações. Basta dizer que a França, a Espanha,
Portugal e os estados católicos da Alemanha nunca tiveram, juntos, número de
votos superior a 60, enquanto os italianos contavam 180, e mais! Nestas
condições, o concílio deixava de ser universal: era simplesmente italiano; nem
italiano, romano apenas! Desde o primeiro dia se pôde ver que a causa da
reforma liberal estava perdida. Provocado para essa reforma, o concílio só
serviu contra ela, para a sofismar e anular!

Composta e armada assim na máquina, vejamo-la trabalhar. Para sujeitar na


Terra o homem, era necessário fazê-lo condenar primeiro no Céu: por isso o
concílio começa por estabelecer dogmaticamente, na sessão 5.ª, o pecado
original, com todas as suas consequências, a condenação hereditária por seus
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merecimentos, mas só por obra e graça de J. Cristo. Muitos teólogos e alguns


poucos sínodos particulares se haviam já ocupado desta matéria: nenhum
concílio ecuménico a definira ainda. Um concílio verdadeiramente liberal
deixava essa questão na sombra, no indefinido, não prendia a liberdade e a
dignidade humanas com essa algema: o Concílio de Trento fez dessa definição
o prólogo dos seus trabalhos. Convinha-lhe logo no começo condenar sem
apelação a razão humana, e dar essa base ao seu edifício. Assim o fez. De
então para cá, ficou dogmaticamente estabelecido no mundo católico que o
homem deve ser um corpo sem alma, que a vontade individual é uma sugestão
diabólica, e que para nos dirigir basta o Papa em Roma e o confessor à
cabeceira. Perinde ac cadaver, dizem os estatutos da Companhia de. Jesus.

Na sessão 13 a confirma-se e precisa-se o dogma da eucaristia, já definido,


ainda que vagamente, no 4 ° Concílio de Latrão, e vibra-se o anátema sobre
quem não crer na presença real de Cristo no pão e no vinho depois da
consagração. É mais um passo (e este decisivo) para fazer entrar o
cristianismo no caminho da idolatria, para colocar o divino no absurdo. Poucos
dogmas contribuíram tanto como este materialismo da presença real para
embrutecer o novo povo, para fazer reviver nele os instintos pagãos, para lhe
sofismar a razão natural! Parece que era isto o que o concílio desejava!

Na sessão 14.ª trata-se detidamente da confissão. A confissão existia há muito


na Igreja, mas comparativamente livre e facultativa. No 4 ° Concílio de Latrão
restringira-se já bastante essa liberdade. Na sessão 14 a de Trento é a
consciência cristã definitivamente encarcerada. Sem confissão não há
remissão de pecados! A alma é incapaz de comunicar com Deus, senão por
intermédio do padre! Estabelece-se a obrigação de os fiéis se confessarem em
épocas certas, e exortam-se a que se confessem o mais que possam. Funda-
se aqui o poder, tão temível quanto misterioso, do confessionário. Aparece um
tipo singular: o director espiritual. Daí por diante há sempre na família, imóvel à
cabeceira, invisível mas sempre presente, um vulto negro que separa o marido
da mulher, uma vontade oculta que governa a casa, um intruso que manda
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mais do que o dono. Quem há aqui, espanhol ou português, que não conheça
este estado deplorável da família, com um chefe secreto, em regra hostil ao
chefe visível? Quem não conhece as desordens, os escândalos, as misérias
introduzidas no lar doméstico pela porta do confessionário? O concílio não
queria isto, decerto: mas fez tudo quando era necessário para que isto
acontecesse.

Na parte disciplinar e nas relações da Igreja com o Estado predomina o mesmo


espírito de absolutismo, de concentração, de invasão de todos os direitos. Na
sessão 5 a tornam-se as ordens regulares independentes dos bispos, e quase
exclusivamente dependentes de Roma. Que arma esta na mão do Papado, que
já de si não era mais do que uma arma na mão do jesuitismo! Na sessão 13 a
só o Papa, pelos seus comissários, pode julgar os bispos e os padres. É a
impunidade para o clero! Na sessão 4 a põem-se restrições à leitura da Bíblia
pelos seculares, restrições tais que equivalem a uma verdadeira proibição. Ora,
o que é isto senão a suspeição da razão humana, condenada a pensar e a ler
pelo pensamento e pelos olhos de meia dúzia de eleitos? Nas sessões 7.ª, 9.ª,
18.ª e 24.ª estabelecem-se igualmente disposições tendentes todas a sujeitar
os governos, a impor aos povos a polícia romana, apagando implacavelmente
por toda a parte os últimos vestígios das igrejas nacionais. Finalmente, a
superioridade do Papa sobre os concílios triunfa nas sessões 23.ª e 25.ª, pela
boca do jesuíta Lainez, inspirador e alma do concílio... se é permitido, ainda
metaforicamente, falando dum jesuíta, empregar a palavra alma... A redacção
dum catecismo vem coroar esta obra de alta política. Com esse catecismo,
imposto por toda a parte e por todos os modos aos espíritos moços e simples,
tratou-se de matar a liberdade no seu gérmen, de absorver as gerações
nascentes, de as deformar e torturar, comprimindo-as nos moldes estreitos
duma doutrina seca, formal, escolástica e subtilmente ininteligível. Se se
conseguiu ou não esse resultado funesto, respondam umas poucas de nações
moribundas, enfermas da pior das enfermidades, a atrofia moral!

Sim, meus senhores! essa máquina temerosa de compressão, que foi o


Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 21

catolicismo depois do Concílio de Trento, que podia ela oferecer aos povos? A
intolerância, o embrutecimento, e depois a morte! Tomo três exemplos. Seja o
primeiro a Guerra dos Trinta Anos, a mais cruel, mais friamente encarniçada,
mais sistematicamente destruidora de quantas têm visto os tempos modernos,
e que por pouco não aniquila a Alemanha. Essa guerra, provocada pelo partido
católico, e por ele dirigida com uma perseverança infernal, mostrou bem ao
mundo que abismos de Pódio podem ocultar palavras de paz e religião. O
padre não dirigia somente, assistia à execução. Cada general trazia sempre
consigo um director jesuíta: e esses generais chamavam-se Tilly, Picolomini, os
mais endurecidos dos verdugos! Salvou então a Alemanha e a Europa a
firmeza indomável de um coração tão grande quanto puro, sereno em face
dessas hordas fanáticas. O verdadeiro herói (e único também) dessa guerra
maldita, o verdadeiro santo desse período tenebroso, é um protestante,
Gustavo Adolfo. Enquanto ao Papa, esse aplaudia a matança! O segundo
exemplo é a Itália. O terror que inspirava ao Papado a criação em Itália dum
estado forte, que lhe pusesse uma barreira à ambição crescente de dia para
dia, tornou-o o maior inimigo da unidade italiana. É o Papado quem semeia a
discórdia entre as cidades e os príncipes italianos, sempre que tentam ligar-se.
É o Papado quem convida os estrangeiros a descerem os Alpes, na cruzada
contra as forças nacionais, cada vez que parecem querer organizar-se. «O
Papado», diz Edgard Quinet, «tem sido um ferro sagrado na ferida da Itália,
que a não deixa sarar.» Hoje mesmo, se essa suspirada unidade se consumou,
não foi no meio das maldições e cóleras do clero e de Roma? O único
pensamento, que hoje absorve o Papado, é desmanchar aquela obra nacional,
chamar sobre ela os ódios do mundo, o ferro estrangeiro, podendo ser; é
assassinar a Itália ressuscitada! Estes factos são por todos sabidos. O que
talvez nem todos saibam é o papel que o catolicismo representou no
assassínio da Polónia. «A intolerância dos jesuítas e ultramontanos», diz Emílio
de Lavelaye, «foi a causa primária do, desmembramento e queda da Polónia.»
Esta nação heróica, mas pouco organizada, ou antes, pouco unificada, era uma
espécie de federação de pequenas nacionalidades, com costumes e religiões
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diferentes. Encravada entre monarquias poderosas e ambiciosas, como a


Áustria, a Rússia e a Turquia de então, a Polónia só podia viver pela liberdade
política, e sobretudo pela tolerância contra o inimigo comum, os grupos
autonómicos de que se compunha. A essa tolerância deveu ela, com efeito, a
força e importância que teve na história da Europa até ao século XVII:
católicos, gregos cismáticos, protestantes, socinianos, viveram muito tempo
como irmãos, numa sociedade verdadeiramente cristã porque era
verdadeiramente tolerante. Um dia, porém, os jesuítas, lá do centro de Roma,
olharam para a Polónia como para uma boa presa. Aquela nação era
efectivamente um escândalo para os bons padres. Tanto intrigaram que em
1570 tinham já logrado introduzir-se na Polónia: o rei Estêvão Bathory
concede-lhes, com uma culpável imprudência, a Universidade de Wilna.
Senhores do ensino, e em breve das consciências da nobreza católica, os
jesuítas são um poder: começam as perseguições religiosas. Em 1548, João
Casimiro, que antes de ser rei fora cardeal e jesuíta, quer obrigar os
camponeses ruténios, sectários do cisma grego, a converterem-se ao
catolicismo. Estes levantam-se, unem-se aos cossacos, também do rito grego,
e começa uma guerra formidável, cujo resultado foi separarem-se cossacos e
ruténios da federação polaca, dando-se à Rússia, em cujas mãos se tornaram
uma arma terrível sempre apontada ao coração da Polónia. Nunca esta nação
teve inimigos tão encarniçados como os cossacos! Sem eles, a Polónia,
enfraquecida entre vizinhos formidáveis, devia cair, e caiu efectivamente. A
partilha espoliadora de 1772 não fez mais do que confirmar um facto já antigo,
a nulidade da nação polaca.

Assim pois, meus senhores, o catolicismo dos últimos séculos, pelo seu
princípio, pela sua disciplina, pela sua política, tem sido no mundo o maior
inimigo das nações, e verdadeiramente o túmulo das nacionalidades. «O antro
da Esfinge», disse dele um poeta filósofo, «reconhece-se logo à entrada pelos
ossos dos povos devorados.»

E a nós, Espanhóis e Portugueses, como foi que o catolicismo nos anulou? O


Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 23

catolismo pesou sobre nós por todos os lados, com todo o seu peso. Com a
Inquisição, um terror invisível paira sobre a sociedade: a hipocrisia torna-se um
vício nacional e necessário: a delação é uma virtude religiosa: a expulsão dos
judeus e mouros empobrece as duas nações, paralisa o comércio e a indústria,
e dá um golpe mortal na agricultura em todo o Sul da Espanha: a perseguição
dos cristãos-novos faz desaparecer os capitais: a Inquisição passa os mares, e,
tornando-nos hostis os índios, impedindo a fusão dos conquistadores e dos
conquistados, torna impossível o estabelecimento duma colonização sólida e
duradoura: na América despovoa as Antilhas, apavora as populações
indígenas, e faz do nome de cristão um símbolo de morte; o terror religioso,
finalmente, corrompe o carácter nacional, e faz de duas nações generosas
hordas de fanáticos endurecidos, o horror da civilização. Com o jesuitismo
desaparece o sentimento cristão, para dar lugar aos sofismas mais deploráveis
a que jamais desceu a consciência religiosa: métodos de ensino, ao mesmo
tempo brutais e requintados, esterilizam as inteligências, dirigindo-se à
memória, com o fim de matarem o pensamento inventivo, e alcançam alhear o
espírito peninsular do grande movimento da ciência moderna, essencialmente
livre e criadora: a educação jesuítica faz das classes elevadas máquinas
inteligentes e passivas; do povo, fanáticos corruptos e cruéis: a funesta moral
jesuítica, explicada (e praticada) pelos seus casuístas, com as suas restrições
mentais, as suas subtilezas, os seus equívocos, as suas condescendências,
infiltra-se por toda a parte, como um veneno lento, desorganiza moralmente a
sociedade, desfaz o espírito de família, corrompe as consciências com a
oscilação contínua da noção do dever, e aniquila os caracteres, sofismando-os,
amolecendo-os: o ideal da educação jesuítica é um povo de crianças mudas,
obedientes e imbecis, realizou-o nas famosas -missões do Paraguai; o
Paraguai foi o reino dos céus da Companhia de Jesus; perfeita ordem, perfeita
devoção; uma coisa só faltava, a alma, isto é, a dignidade e a vontade, o que
distingue o homem da animalidade! Eram estes os benefícios que levávamos
às raças selvagens da América, pelas mãos civilizadoras dos padres da
Companhia! Por isso o génio livre popular decaiu, adormeceu por toda a parte:
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na arte, na literatura, na religião. Os santos da época já não têm aquele


carácter simples, ingénuo, dos verdadeiros santos populares: são frades
beatos, são jesuítas hábeis. Os sermonários e mais livros de devoção, não sei
por que lado sejam mais vergonhosos; se pela nulidade das ideias, pela
baixeza do sentimento, ou pela puerilidade ridícula do estilo. Enquanto à arte e
literatura, mostrava-se bem clara a decadência naquelas massas estúpidas de
pedra da arquitectura jesuítica, e na poesia convencional das academias, ou
nas odes ao divino e jaculatórias fradescas. O génio popular, esse morrera às
mãos do clero, como com tanta evidência o deixou demonstrado nos seus
recentes livros, tão cheios de novidades, sobre a literatura portuguesa, o Sr.
Teófilo Braga. Os costumes saídos desta escola sabemos nós o que foram. Já
citei a Arte de Furtar, os romances picarescos, as farsas populares, o teatro
espanhol, os escritos de D. Francisco Manuel e do Cavaleiro de Oliveira. Na
falta destes documentos, bastava-nos a tradição, que ainda hoje reza dos
escândalos dessa sociedade aristocrática e clerical! Essa funesta influência da
direcção católica não é menos visível no mundo político. Como é que o
absolutismo espiritual podia deixar de reagir sobre o espírito do poder civil? O
exemplo do despotismo vinha de tão alto! os reis eram tão religiosos! Eram por
excelência os reis católicos, fidelíssimos. Nada forneceu pelo exemplo, pela
autoridade, pela doutrina, pela instigação, um tamanho ponto de apoio ao
poder absoluto como o espírito católico e a influência jesuítica. Nesses tempos
santos, os verdadeiros ministros eram os confessores dos reis. A escolha do
confessor era uma questão de Estado. A paixão de dominar, e o orgulho
criminoso de um homem, apoiavam-se na palavra divina. A teocracia dava a
mão ao despotismo. Essa direcção via-se claramente na política externa. A
política, em vez de curar dos interesses verdadeiros do povo, de se inspirar de
um pensamento nacional, traía a sua missão, fazendo-se instrumento da
política católica romana, isto é, dos interesses, das ambições de um
estrangeiro. D. Sebastião, o discípulo dos jesuítas, vai morrer nos areais de
África pela fé católica, não pela nação portuguesa. Carlos V, Filipe II, põem o
mundo a ferro e fogo, porquê? Pelos interesses espanhóis? Pela grandeza de
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 25

Espanha? Não: pela grandeza e pelos interesses de Roma! Durante mais de


70 anos, a Espanha, dominada por estes dois inquisidores coroados, dá o
melhor do seu sangue, da sua riqueza, da sua actividade, para que o Papa
desse outra vez leis à Inglaterra e à Alemanha. Era essa a política nacional
desses reis famosos: eu chamo a isto simplesmente trair as nações.

Tal é uma das causas, se não a principal, da decadência dos povos


peninsulares. Das influências deletérias nenhuma foi tão universal, nenhuma
lançou tão fundas raízes. Feriu o homem no que há de mais íntimo, nos pontos
mais essenciais da vida moral, no crer, no sentir – no ser: envenenou a vida
nas suas fontes mais secretas. Essa transformação da alma peninsular fez-se
em tão íntimas profundidades que tem escapado às maiores revoluções;
passam por cima dessa região quase inacessível, superficialmente, e
deixaram-na na sua inércia secular, Há em todos nós, por mais modernos que
queiramos ser, há lá oculto, dissimulado, mas não inteiramente morto, um
beato, um fanático ou um jesuíta! Esse moribundo que se ergue dentro em nós
é o inimigo, é o passado. É preciso enterrá-lo por uma vez, e como ele o
espírito sinistro do catolicismo de Trento.

Esta causa actuou principalmente sobre a vida moral: a segunda, o


absolutismo, apesar de se reflectir no estado dos espíritos, actuou
principalmente na vida política e social. A história da transformação das
monarquias peninsulares é longa, e, para a minha pouca ciência, obscura e até
certo ponto desconhecida: não a poderia eu fazer aqui. Basta dizer que o
carácter dessas monarquias durante a Idade Média contrasta singularmente
com o que lhe encontramos no século XVI e nos seguintes. Os reis então não
eram absolutos; e não o eram porque a vida política local, forte e vivaz, não só
não lhes deixava um grande círculo de acção, mas ainda, dentro desse mesmo
círculo, lhes opunha à expansão da autoridade embaraços e uma contínua
vigilância. Os privilégios da nobreza e do clero, por um lado, e, pelo outro, as
instituições populares, os municípios, as comunas, equilibravam com mais ou
menos oscilações o peso da coroa. Para as questões sumas, para os
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 26

momentos de crise, lá estavam as Cortes, onde todas as classes sociais


tinham representantes e voto. A liberdade era então o estado normal da
Península.

No século XVI tudo isto mudou. O poder absoluto assenta-se sobre a ruína das
instituições locais. Abaixou a nobreza, é verdade, mas só em proveito seu: o
povo pouco lucrou com essa revolução. O que é certo é que perdeu a
liberdade. A vida municipal afrouxa gradualmente: as comunas espanholas,
depois dum sangrento protesto, caem exânimes, aos pés dum rei, que nem
sequer era inteiramente espanhol. As instituições locais, cerceadas por todos
os lados, sentem faltar-lhes em volta o ar, e o chão debaixo de si. Quem
poderá jamais contar essas invasões surdas, insensíveis do poder real no
terreno do povo, essas lutas subterrâneas, as abdicações sucessivas da
vontade nacional nas mãos de um homem. as resistências infelizes, a longa e
cruel história do desaparecimento dos foros populares? É uma história tão triste
quanto obscura, que ninguém fez nem fará jamais! Vê-se o desfecho do drama:
os incidentes escapam-nos. Mas ao lado dessa luta surda houve outra
manifesta, cuja história se erguerá sempre como um espectro vingador, para
acusar a realeza. Essa luta é a grande guerra communera das cidades
espanholas. Vencidas, esmagadas pela força, as cidades espanholas
encontraram um herói, de cujo peito saiu ardente um protesto, que será eterno
como a condenação de quem o provocou. Eis aqui o que D. Juan de Padilla,
chefe dos communeros, escrevia à sua cidade de Toledo, horas antes de ser
decapitado. «A ti, cidade de Toledo, que és a coroa de Espanha, e a luz do
mundo, que já no tempo dos Godos eras livre, e que prodigalizaste o teu
sangue para assegurar a tua liberdade e a das cidades tuas irmãs, Juan de
Padilha, teu filho legítimo, te faz saber que pelo sangue do seu corpo mais uma
vez vão ser renovadas as tuas antigas vitórias...» A cabeça de Padilha rolou, e
com ele, decapitada também, caiu a antiga liberdade municipal. A centralização
monárquica, pesada, uniforme, caiu sobre a Península como a pedra dum
túmulo. A respiração de milhares de homens suspendeu-se, para se concentrar
toda no peito de um homem excepcional, de quem o acaso do nascimento fazia
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 27

um deus. Se, ao menos, esse deus fosse propício, bom, providencial! Mas a
centralização do absolutismo, prostrando o povo, corrompia ao mesmo tempo o
rei. D. João III, esse rei fanático e de ruim condição, Filipe II, o demónio do
Meio-Dia, inquisidor e verdugo das nações, Filipe III, Carlos IV, João V, Afonso
VI, devassos uns, outros desordeiros, outros ignorantes e vis, são bons
exemplos da realeza absoluta, enfatuada até ao vício, até ao crime, do orgulho
do próprio poder, possessa daquela loucura cesariana com que a Natureza faz
expiar aos déspotas a desigualdade monstruosa, que os põe como que fora da
Humanidade. A tais homens, sem garantias, sem inspecção, confiaram as
nações cegamente os seus destinos! Se Filipe II não fosse absoluto, jamais
teria podido tentar o seu absurdo projecto de conquistar a Inglaterra, não teria
feito sepultar nas águas do oceano, com a Invencível Armada, milhares de
vidas e um capital prodigioso inteiramente perdido. Se D. Sebastião não fosse
absoluto, não teria ido enterrar em Alcácer Quibir a nação portuguesa, as
últimas esperanças da pátria.

Outras monarquias, a francesa por exemplo, sujeitavam o povo, mas ajudavam


por outro lado o seu progresso. Aristocráticas pelas raízes, tinham pelos frutos
muito de populares. A burguesia, a quem estava destinado o futuro, erguia-se,
começava a ter voz. As nossas monarquias, porém, tiveram um carácter
exclusivamente aristocrático: eram-no pelo princípio, e eram-no pelos
resultados. Governava-se então pela nobreza e para a nobreza. As
consequências sabemo-las nós todos. Pelos morgados, vinculou-se a terra,
criaram-se imensas propriedades. Com isto, anulou-se a classe dos pequenos
proprietários; a grande cultura sendo então impossível, e desaparecendo
gradualmente a pequena, a agricultura caiu; metade da Península transformou-
se numa charneca: a população decresceu, sem que por isso se aliviasse a
miséria. Por outro lado, o espírito aristocrático da monarquia, opondo-se
naturalmente aos progressos da classe média, impediu o desenvolvimento da
burguesia, a classe moderna por excelência, civilizadora e iniciadora, já na
indústria, já nas ciências, já no comércio. Sem ela, o que podíamos nós ser nos
grandes trabalhos com que o espírito moderno tem transformado a sociedade,
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 28

a inteligência e a natureza? O que realmente fomos; nulos, graças à monarquia


aristocrática!,Essa monarquia, acostumando o povo a servir, habituando-o à
inércia de quem espera tudo -de cima, obliterou o sentimento instintivo da
liberdade, quebrou a energia das vontades, adormeceu a iniciativa; quando
mais tarde lhe deram a liberdade, não a compreendeu; ainda hoje a não
compreende, nem sabe usar dela. As revoluções podem chamar por ele,
sacudi-lo com força: continua dormindo sempre o seu sono secular! A estas
influências deletérias, a estas dias causas principais de decadência, uma moral
e outra política, junta-se uma terceira, de carácter sobretudo económico: as
conquistas. Há dois séculos que os livros, as tradições e a memória dos
homens andam cheios dessa epopeia guerreira, que os povos peninsulares,
atravessando oceanos desconhecidos, deixaram escrita por todas as partes do
mundo. Embalaram-nos com essas histórias: atacá-Ias é quase um sacrilégio.
E todavia esse brilhante poema em acção foi uma das maiores causas da
nossa decadência. É necessário dizê-lo, em que pese aos nossos sentimentos
mais caros de patriotismo tradicional. Tanto mais que um erro económico não é
necessariamente uma vergonha nacional. No ponto de vista heróico, quem
pode negá-lo? Foi esse movimento das conquistas espanholas e portuguesas
um relâmpago brilhante, e por certos lados sublime, da alma intrépida
peninsular. A moralidade subjectiva desse movimento é indiscutível perante a
história: são do domínio da poesia, e sê-lo-ão sempre, acontecimentos que
puderam inspirar a grande alma de Camões. A desgraça é que esse espírito
guerreiro estava deslocado nos tempos modernos: as nações modernas estão
condenadas a não fazerem poesia, mas ciência. Quem domina não é já a musa
heróica da epopeia; é a economia política, Calíope dum mundo novo, se não
tão belo, pelo menos mais justo e lógico do que o antigo. Ora, é à luz da
economia política que eu condeno as conquistas e o espírito guerreiro.
Quisemos refazer os tempos heróicos da idade moderna: enganámo-nos; não
era possível; caímos. Qual é, com efeito, o espírito da idade moderna? É o
espírito de trabalho e de indústria: a riqueza e a vida das nações têm de se tirar
da actividade produtora, e não já da guerra esterilizadora. O que sai da guerra
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 29

não só acaba cedo, mas é além disso um capital morto, consumido sem
resultado. E necessário que o trabalho, sobretudo a indústria agrícola, o
fecunde, lhe dê vida. Domina todo este assunto uma lei económica, formulada
por Adão Smith, um dos pais da ciência, nas seguintes palavras: «O capital
adquirido pelo comércio e pela guerra só se torna real e produtivo quando se
fixa na cultura da terra e nas outras indústrias.» Vejamos o que tem feito a
Inglaterra com a índia, com a Austrália, e com o comércio do mundo. Explora,
combate: mas a riqueza adquirida fixa-a no seu solo, pela sua poderosa
indústria, e pela sua agricultura, talvez a mais florescente do mundo. Por isso a
prosperidade da Inglaterra há dois séculos tem sido a admiração e quase a
inveja das nações. Pelo contrário, nós, Portugueses e Espanhóis, que destinos
demos às prodigiosas riquezas extorquidas aos povos estrangeiros?
Respondam a nossa indústria perdida, o comércio arruinado, a população
diminuída, a agricultura decadente, e esses desertos da Beira, do Alentejo, da
Estremadura espanhola, das Castelas, onde não se encontra uma árvore, um
animal doméstico, uma face humana!

Um exemplo, o da agricultura portuguesa antes e depois do século XVI, porá


em evidência, com factos significativos, essa influência perniciosa do espírito
de conquista no mundo económico. Esses factos são extraídos de três obras,
cuja autoridade é incontestável: a Memória histórica de Alexandre de Gusmão
sobre a agricultura portuguesa; o livro de Camillo Pallavicini La economia
agraria del Portogallo; e a História da Agricultura em Portugal, pelo Sr. Rebelo
da Silva. Uma coisa que impressiona quem estuda os primeiros séculos da
monarquia portuguesa é o carácter essencialmente agrícola dessa sociedade.
Os cognomes dos reis, o Povoador, o Lavrador, já por si são altamente
significativos. No meio das guerras, e apesar da imperfeição das instituições, a
população crescia, e a abundância generalizava-se. A arborização do país
desenvolvia-se, a charneca recuava diante do trabalho. As armadas, que mais
tarde dominaram os mares, saíram das matas semeadas por D. Dinis. No
reinado de D. Fernando era Portugal um dos países que mais exportavam. A
Castela, a Galiza, a Flandres, a Alemanha, forneciam-se quase exclusivamente
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 30

de azeite português; a nossa prosperidade agrícola era suficiente para


abastecer tão vastos mercados. O comércio dos cereais era considerável. No
século XV vinham os navios venezianos a Lisboa e aos portos do Algarve,
trazendo as mercadorias do Oriente, e levando em troca cereais, peixe salgado
e frutas secas, que espalhavam pela Dalmácia e por toda a Itália.
Sustentávamos também um activo comércio com a Inglaterra. As classes
populares desenvolviam-se pela abundância e o trabalho, a população crescia.
No tempo de D. João II chegara a população a muito perto de três milhões de
habitantes... Basta comparar este algarismo com o da população em 1640, que
escassamente excedia um milhão, para se conhecer que uma grande
decadência se operou durante este intervalo!

Dera-se, com efeito, durante o século XVI, uma deplorável revolução nas
condições económicas da sociedade portuguesa, revolução sobretudo devida
ao novo estado de coisas criadas pelas conquistas. O proprietário, o agricultor,
deixam a charrua e fazem-se soldados, aventureiros: atravessam o oceano, à
procura de glória, de posição mais brilhante ou mais rendosa. Atraída pelas
riquezas acumuladas nos grandes centros, a população rural aflui para ali,
abandona os campos, e vem aumentar nas capitais o contingente da miséria,
da domesticidade ou do vício. A cultura diminui gradualmente. Com essa
diminuição, e com a depreciação relativa dos metais preciosos pela afluência
dos tesouros do Oriente e América, os cereais chegam a preços fabulosos. O
trigo, que em 1460 valia 10 réis por alqueire, tem subido, em 1520, a 20 réis,
30 e 35! Por isso o preço nos mercados estrangeiros, nem sequer pode cobrir o
custo originário: a concorrência doutras nações, que produziam mais barato,
esmaga-nos. Não só deixamos de exportar, mas passamos a importar: «Do
reinado de D. Manuel em diante», diz Alexandre de Gusmão, «somos
sustentados pelos estrangeiros.» Esse sustento podiam-no pagar os grandes,
que a Índia e o Brasil enriqueciam. A multidão, porém, morria de fome. A
miséria popular era grande. A esmola à portaria dos conventos e casas fidalgas
passou a ser uma instituição. Mendigavam os bandos pelas estradas. A
tradição, num símbolo terrivelmente expressivo, apresenta-nos Camões, o
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 31

cantor dessas glórias que nos empobreciam, mendigando para sustentar a


velhice triste e desalentada. É uma imagem da nação. As crónicas falam-nos
de grandes fomes. Por tudo isto, decrescia a olhos vistos a população. Que
remédio se procura a este mal? um mal incomparavelmente maior: a
escravidão! Tenta-se introduzir o trabalho servil nas culturas, com escravos
vindos da África! Felizmente não passou de tentativa. Era a transformação dum
país livre e civilizado numa coisa monstruosa, uma oligarquia de senhores de
roça! A barbaridade dos devastadores da América, transportada para o meio da
Europa! Com estes elementos o que se podia esperar da indústria? Uma
decadência total. Não se fabrica, não se cria: basta o ouro do Oriente para
pagar a indústria dos outros, enriquecendo-os, instigando-os ao trabalho
produtivo, e ficando nós cada vez mais pobres, com as mãos cheias de
tesouros! Importávamos tudo: de Itália, sedas, veludos, brocados, massas; da
Alemanha, vidro; de França, panos; de Inglaterra e Holanda, cereais, lãs,
tecidos. Havia então uma única indústria nacional... a Índia! Vai-se à Índia
buscar um nome e uma fortuna, e volta-se para gozar, dissipar esterilmente. A
vida concentra-se na capital. Os nobres deixam os campos, os solares dos
seus maiores, onde viviam em certa comunhão com o povo, e vêm para a corte
brilhar, ostentar... e mendigar nobremente. O fidalgo faz-se cortesão: o homem
do povo, não podendo já ser trabalhador, faz-se lacaio: a libré é o selo da sua
decadência. A criadagem duma casa nobre era um verdadeiro estado. O luxo
da nobreza tinha alguma coisa de oriental. Ao luxo desenfreado, ao vício, à
corrupção, mal dista um passo. A paixão do jogo estendeu-se terrivelmente:
jogava-se nas tavolagens, e jogava-se nos palácios. O ócio, acendendo as
imaginações, levava pelo galanteio às intrigas amorosas, às aventuras, ao
adultério, e arruinava a família. Lisboa era uma capital de fidalgos ociosos, de
plebeus mendigos, e de rufiões.

Ao longe, fora do país, foram outras as consequências do espírito de conquista,


mas igualmente funestas. A escravatura (além de todas as suas deploráveis
consequências morais) esterilizou pelo trabalho servil. Só o trabalho livre é
fecundo: só os resultados do trabalho livre são duradouros. Das colônias que
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os Europeus fundaram no Novo Mundo quais prosperaram? Quais ficaram


estacionárias? Prosperaram na razão directa do trabalho livre: o Norte dos
Estados Unidos mais do que o Sul: os Estados Unidos mais do que o Brasil. E
essa jovem Austrália, cuja população duplica todos os 10 anos, que já exporta
para a Europa os seus produtos, cujas instituições são já hoje modelo e inveja
para os povos civilizados, e que será antes de um século uma das maiores
nações do mundo, a que deve ela essa prosperidade fenomenal, senão ao
influxo maravilhoso do trabalho livre, numa terra que ainda não pisou o pé dum
homem que se não dissesse livre? A Austrália tem feito em menos de 100 anos
de liberdade o que o Brasil não alcançou com mais de três séculos de
escravatura! Fomos nós, foram os resultados do nosso espírito guerreiro, quem
condenou o Brasil ao estacionamento, quem condenou à nulidade toda essa
costa de África, em que outras mãos podiam ter talhado à larga uns poucos de
impérios! Esse espírito guerreiro, com os olhos fitos na luz de uma falsa glória,
desdenha, desacredita, envilece o trabalho manual – o trabalho manual, a força
das sociedades modernas, a salvação e a glória das futuras... Mas um
fantástico idealismo perturba a alma do guerreiro: não distingue entre interesse
honroso e interesse vil: só as -grandes acções de esforço heróico são belas a
seus olhos: para ele a indústria pacífica é só própria de mãos servis. A
tradição, que nos apresenta D. João de Castro, depois duma campanha em
África, retirando-se à sua quinta de Sintra, onde se dava àquela estranha e
nova agricultura de cortar as árvores de fruto, e plantar em lugar delas árvores
silvestres, essa tradição deu-nos um perfeito símbolo do espírito guerreiro no
seu desprezo pela indústria. Portugal, o Portugal das conquistas, é esse
guerreiro altivo, nobre e fantástico, que voluntariamente arruína as suas
propriedades, para maior glória do seu absurdo idealismo. E já que falei em D.
João de Castro, direi que poucos livros têm feito tanto mal ao espírito
português como aquela biografia do herói escrita por Jacinto Freire. J. Freire,
que era padre, que nunca vira a índia, e que ignorava tão profundamente a
política como a economia política, fez da vida e feitos de D. João de Castro,
não um estudo de ciência social, mas um discurso académico, literário e muito
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 33

eloquente, seguramente, mas enfático, sem crítica, e animado por um falso


ideal de glória à antiga, glória clássica, através do qual nos faz ver
continuamente as acções do seu herói. Há dois séculos que lemos todos o D.
João de Castro, de Jacinto Freire, e acostumámo-nos a tomar aquela fantasia
de retórico pelo tipo do verdadeiro herói nacional. Falseámos com isto o nosso
juízo, e a crítica. duma época importante. É preciso que se saiba que a
verdadeira glória moderna não é aquela: é exactamente o contrário daquela.
Uma só coisa há ali a aproveitar como exemplo: é a nobreza de alma daquele
homem magnânimo: mas essa nobreza de alma deve ser aplicada pelos
homens modernos a outros cometimentos, e dum modo muito diverso. Foi
aquele género de heroísmo tão apregoado por J. Freire que nos arruinou!

Como era possível, com as mãos cheias de sangue, e os corações cheios de


orgulho, iniciar na civilização aqueles povos atrasados, unir por interesses e
sentimentos os vencedores e os vencidos, cruzar as raças, e fundar assim,
depois do domínio momentâneo da violência, o domínio duradouro e justo da
superioridade moral e do progresso? As conquistas sobre as nações atrasadas,
por via de regra, não são justas nem injustas. Justificam-se ou condenam-nas
os resultados, o uso que mais tarde se faz do domínio estabelecido pela força.
As conquistas romanas são hoje justificadas pela filosofia da história, porque
criaram uma civilização superior àquela de que viviam os povos conquistados.
A conquista da índia pelos Ingleses é justa, porque é civilizadora. A conquista
da índia pelos Portugueses, da América pelos Espanhóis, foi injusta, porque
não civilizou. Ainda quando fossem sempre vitoriosas as nossas armas, a índia
ter-nos-ia escapado, porque sistematicamente alheávamos os espíritos,
aterrávamos as populações, cavávamos pelo espírito religioso e aristocrático
um abismo entre a minoria dos conquistadores e a maioria dos vencidos. Um
dos primeiros benefícios, que levámos àqueles povos, foi a Inquisição: os
Espanhóis fizeram o mesmo na América. As religiões indígenas não eram só
escarnecidas, vilipendiadas: eram atrozmente perseguidas. O efeito moral dos
trabalhos dos missionários (tantos deles santamente heróicos!) era
completamente anulado por aquela ameaça constante do terror religioso:
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ninguém se deixa converter por uma caridade que tem atrás de si uma
fogueira! A ferocidade dos Espanhóis na América é uma coisa sem nome, sem
paralelo nos anais da bestialidade humana. Dois impérios florescentes
desaparecem em menos de 60 anos! em menos de 60 anos são destruídos dez
milhões de homens! Dez milhões! Estes algarismos são trágicos: não precisam
de comentários. E, todavia, poucas raças se têm apresentado aos
conquistadores tão banais, ingénuas, dóceis, prontas a receberem com o
coração a civilização que se lhes impunha com as armas! Bartolomeu de Ias
Casas, bispo de Chiapa, um verdadeiro santo, protestou em vão contra aquelas
atrocidades: consagrou a sua vida evangélica à causa daqueles milhões de
infelizes: por duas vezes passou à Europa, para advogar solenemente a causa
deles perante Carlos V. Tudo em vão! A obra da destruição era fatal: tinha de
se consumar, e consumou-se.

Há, com efeito, nos actos condenáveis dos povos peninsulares, nos erros da
sua política, e na decadência que os colheu, alguma coisa de fatal: é a lei de
evolução histórica, que inflexível e impassivelmente tira as consequências dos
princípios uma vez introduzidos na sociedade. Dado o catolicismo absoluto, era
impossível que se lhe não seguisse, deduzindo-se dele, o absolutismo
monárquico. Dado o absolutismo, vinha necessariamente o espírito
aristocrático, com o seu cortejo de privilégios, de injustiças, com o predomínio
das tendências guerreiras sobre as industriais. Os erros políticos e económicos
saíam daqui naturalmente; e de tudo isto, pela transgressão das leis da vida
social, saía naturalmente também a decadência sob todas as formas.

E essas falsas condições sociais não produziram somente os efeitos que


apontei. Produziram um outro, que, por ser invisível e insensível, nem por isso
deixa de ser o mais fatal. É o abatimento, a prostração do espírito nacional,
pervertido e atrofiado por uns poucos de séculos da mais nociva educação. As
causas, que indiquei, cessaram em grande parte: mas os efeitos morais
persistem, e é a eles que devemos atribuir a incerteza, o desânimo, o mal-estar
da nossa sociedade contemporânea. A influência do espírito católico, no seu
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 35

pesado dogmatismo, deve ser atribuída esta indiferença universal pela filosofia,
pela ciência, pelo movimento moral e social moderno, este adormecimento
sonambulesco em face da revolução do século XIX, que é quase a nossa
feição característica e nacional entre os povos da Europa. Já não cremos,
certamente, com o ardor apaixonado e cego de nossos avós, nos dogmas
católicos: mas continuamos a fechar os olhos às verdades descobertas pelo
pensamento livre.

Se a Igreja nos incomoda com as suas exigências, não deixa por isso também
de nos incomodar a Revolução com as lutas. Fomos os Portugueses
intolerantes e fanáticos dos séculos XVI, XVII e XVIII: somos agora os
Portugueses indiferentes do século XIX. Por outro lado, se o poder absoluto da
monarquia acabou, persiste a inércia política das populações, a necessidade (e
o gosto talvez) de que as governem, persistem a centralização e o militarismo,
que anulam, que reduzem ao absurdo as liberdades constitucionais. Entre o
senhor rei de então, e os senhores influentes de hoje, não há tão grande
diferença: para o povo é sempre a mesma a servidão. Éramos mandados,
somos agora governados: os dois termos quase que se equivalem. Se a velha
monarquia desapareceu, conservou-se o velho espírito monárquico: é quanto
basta para não estarmos muito melhor do que nossos avós. Finalmente, do
espírito guerreiro da nação conquistadora, herdámos um invencível horror ao
trabalho e um íntimo desprezo pela indústria. Os netos dos conquistadores de
dois mundos podem, sem desonra, consumir no ócio o tempo e a fortuna, ou
mendigar pelas secretarias um emprego: o que não podem, sem indignidade, é
trabalhar! Uma fábrica, uma oficina, uma exploração agrícola ou mineira, são
coisas impróprias da nossa fidalguia. Por isso as melhores indústrias nacionais
estão nas mãos dos estrangeiros, que com elas se enriquecem, e se riem das
nossas pretensões. Contra o trabalho manual, sobretudo, é que é universal o
preconceito: parece-nos um símbolo servil! Por ele sobem as classes
democráticas em todo o mundo, e se engrandecem as nações; nós preferimos
ser uma aristocracia de pobres ociosos, a ser uma democracia próspera de
trabalhadores. É o fruto que colhemos duma educação secular de tradições
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 36

guerreiras e enfáticas!

Dessa educação, que a nós mesmos demos durante três séculos, provêm
todos os nossos males presentes. As raízes do passado rebentam por todos os
lados no nosso solo: rebentam sob forma de sentimentos, de hábitos, de
preconceitos. Gememos sob o peso dos erros históricos. A nossa fatalidade a
nossa história,

Que é pois necessário para readquirirmos o nosso lugar na civilização? Para


entrarmos outra vez na comunhão da Europa culta? É necessário um esforço
viril, um esforço supremo: quebrar resolutamente com o passado. Respeitemos
a memória dos nossos avós: memoremos piedosamente os actos deles: mas
não os imitemos. Não sejamos, à luz do século XIX, espectros a que dá uma
vida emprestada o espírito do século XVI. A esse espírito moral oponhamos
francamente o espírito moderno. Oponhamos ao catolicismo, não a indiferença
ou uma fria negação, mas a ardente afirmação da alma nova, a consciência
livre, a contemplação directa do divino pelo humano (isto é, a fusão do divino e
do humano), a filosofia, a ciência, e a crença no progresso, na renovação
incessante da Humanidade pelos recursos inesgotáveis do seu pensamento,
sempre inspirado. Oponhamos à monarquia centralizada, uniforme e impotente,
a federação republicana de todos os grupos autonómicos, de todas as
vontades soberanas, alargando e renovando a vida municipal, dando-lhe um
carácter radicalmente democrático, porque só ela é a base e o instrumento
natural de todas as reformas práticas, populares, niveladoras. Finalmente, à
inércia industrial oponhamos a iniciativa do trabalho livre, a indústria do povo,
pelo povo, e para o povo, não dirigida e protegida pelo Estado, mas
espontânea, não entregue à anarquia cega da concorrência, mas organizada
duma maneira solidária e equitativa, operando assim gradualmente a transição
para o novo mundo industrial do socialismo, a quem pertence o futuro. Esta é a
tendência do século: esta deve também ser a nossa. Somos uma raça decaída
por ter rejeitado o espírito moderno: regenerar-nos-emos abraçando
francamente esse espírito. O seu nome é Revolução: revolução não quer dizer
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 37

guerra, mas sim paz: não quer dizer licença, mas sim ordem, ordem verdadeira
pela verdadeira liberdade. Longe de apelar para a insurreição, pretende
preveni-la, torná-la impossível: só os seus inimigos, desesperando-a, a podem
obrigar a lançar mãos das armas. Em si, é um verbo de paz, porque é o verbo
humano por excelência.

Meus senhores: há 1800 anos apresentava o mundo romano um singular


espectáculo. Uma sociedade gasta, que se aluía, mas que, no seu aluir-se, se
debatia, lutava, perseguia, para conservar os seus privilégios, os seus
preconceitos, os seus vícios, a sua podridão: ao lado dela, no meio dela, uma
sociedade nova, embrionária, só rica de ideias, aspirações e justos
sentimentos, sofrendo, padecendo, mas crescendo por entre os padecimentos.
A ideia desse mundo novo impõe-se gradualmente ao mundo velho, converte-
o, transforma-o: chega um dia em que o elimina, e a Humanidade conta mais
uma grande civilização.

Chamou-se a isto o Cristianismo.

Pois bem, meus senhores: o Cristianismo foi a Revolução do mundo antigo: a


Revolução não é mais do que o Cristianismo do mundo moderno.

COLONIZAÇÃO DO BRASIL – UMA INTRODUÇÃO.


Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 38

Prof. Wilson Santana

Esta terra, senhor...é em


toda praia praina, chan e
mui formosa...Em tal
maneira é graciosa, que
querendo-a aproveitar
dar-se-à n‟ella tudo.

Pero Vaz de Caminha.


Carta, no 1º de Maio de
1500

Introduzo o assunto citando Michel Brunet, historiador da Universidade de


Montreal:

“Antes de ser ensinada, a história de uma coletividade vive-se. Os


acontecimentos sucedem-se diariamente. E os que participam
diretamente neles ou são simplesmente suas testemunhas
interpretam-nos e conservam a sua imagem. Esta é a primeira
versão de toda a história vivida.”1

As costas brasileiras começaram a ser freqüentada desde os últimos anos do


século XV por navegantes portugueses e espanhóis. Havia um sério problema
geográfico que precisava ser resolvido entre as grandes nações que
dominavam os mares. O problema era: “descobrir o caminho das Índias”. Os
portugueses contornando a África, procuravam a solução; os espanhóis
acreditando no principio de que a terra era redonda, deslocam-se para o
Ocidente. Encontrar a América pela frente era uma questão de tempo, perícia e
um pouco do espírito aventureiro e desafiador do marinheiro.

1
BRUNET, Michel, A História e o Seu Ensino, Coimbra: Livraria Almedina, 1976, p. 23.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 39

Os espanhóis2 com uma rota mais definida, naturalmente encontrariam as


costas brasileiras. Os portugueses3 enfrentando os dissabores da navegação,
e interessado de certa forma em observar o que os espanhóis estavam
fazendo, afastar-se-ão da sua rota e também, inevitavelmente chegarão ali.
Os franceses logo criariam histórias para confundir seus concorrentes, como a
das correntes do golfo (Gulf-Stream).4 E os judeus? Eram descobridores?5

Com o descobrimento do território brasileiro6, logo procuraram aproveitá-lo


bem. Descobriam também em quase toda a costa brasileira, com relativa

2
Cf. J. F. de Almeida Prado, São Vicente e as Capitanias do Sul do Brasil: Origens (1501-
1531), São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1961, p. 46. Para todos os efeitos o Brasil foi
descoberto oficialmente e comprovadamente por Pedro Álvares Cabral. Temos, no entanto, de
admitir numerosas presunções, estribadas em data anterior. Nessa ocasião foram vistos
pontais pernambucanos, registrados na cartografia do começo de quinhentos. Sucederam-se
pouco depois navegações de outras nacionalidade pelo litoral brasileiro, a autorizar que se digo
não ter havido um descobrimento, mas vários, segundo o ponto em que se deram. Na ordem
cronológica, rigidamente aplicada, seria o descobridor único o genovês Cristóvão Colombo. De
outro modo, temos a orla marítima sul-americana dividida em partes, em que figuram com
iguais direitos não só o florentino Américo Vespúcio, como portugueses, espanhóis e
franceses”
3
Cf. João Ribeiro, Historia do Brasil, São Paulo, Livraria Francisco Alves, 9.ª edição, 1920, p.
28. “Seria a América fatalmente descoberta pelos portugueses dentro de pouco tempo, ainda
que Colombo não existira; porque eles, por experiência dos mares africanos, afastavam-se
sempre para oeste com o fim de evitar as calmarias da costa da Guiné; o próprio Vasco da
Gama na sua celebre viagem bem perto passou das terras brasileiras e talvez só por acaso
não percebeu qualquer indicio delas. Cabral, enfim, que seria o Colombo português, primeiro
dos navegadores da Índia, avistou a terra americana, a 22 de Abril de 1500. É que eles
seguiam a corrente aceanica que corre no Atlântico do lado das nossas praias”.
4
Tratava-se provavelmente da Corrente do Golfo, “Gulf-Stream” às alturas do Cabo Hatteras,
numa latitude em que ele é relativamente estreito e apenas tem noventa e seis quilômetros
(sessenta milhas) de largura. Descrição feita por Agassiz em sua obra Viagem ao Brasil, 1865-
1866. AGASSIZ, Luiz & AGASSIZ, Elizabeth Cary., Viagem ao Brasil, São Paulo, Editora da
Universidade de São Paulo, 1975, p. 19.
5
SCHVARTZMAN, Salomão, Eram os judeus descobridores?, O Estado de S. Paulo,
Caderno 2,, p. 4, 7 setembro 1999. “O papel dos judeus na frota cabralina que foi dar nas
costas brasileiras não pode ser ignorada. Para alguns historiadores, a presença judaica, dadas
suas particularidades e tendências, criou situações que favoreceram o desenrolar da aventura
ibérica no Novo Mundo. Do mesmo modo, a expansão ultramarina criou condições para que a
venturosa e trágica história do povo de Israel, degredado e perseguido, pudesse buscar um
desenlace para seus problemas nas novas condições do mundo colonial. Desde então, o
encontro desse povo com a nova terra brasileira marcará um novo capítulo da história.”
6
HAHN, Carl Joseph., História do Culto Protestante no Brasil, São Paulo, ASTE, 1989, p. 19.
“...oficialmente descoberta no dia 22 de abril de 1500 por Pedro Álvares Cabral, navegante
português que desembarcou em Porto Seguro, na parte meridional do atual Estado da Bahia.
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densidade, uma espécie vegetal semelhante à outra já conhecida no Oriente, e


de que se extraía uma matéria corante empregada na tinturaria. Tratava-se do
pau-brasil, mais tarde batizado cientificamente com o nome de Caesalpia
echinata. Portanto um território que aparentemente não atendia os interesses
comerciais dos europeus, transforma-se em mercado de inúmeras
possibilidades para acumulo de capital.

São os portugueses que antes de quaisquer outros ocupar-se-ão do assunto.


Os espanhóis abandonarão o campo em respeito ao tratado de Tordesilhas
(1494) e à bula papal que dividira o mundo a se descobrir por uma linha
imaginária entre as coroas portuguesa e espanhola. O litoral brasileiro ficava na
parte lusitana, e os espanhóis respeitaram seus direitos. O mesmo não se deu
com os franceses7, cujo rei, Francisco I, afirmaria desconhecer a cláusula do
testamento de Adão que reservara o mundo unicamente a portugueses e

Anexou as novas terra aos domínios do seu rei Manuel, de Portugal, segundo rezava o Tratado
de Tordesilhas, de 1494. Caberiam a Portugal todas as terras ao oriente da linha de
demarcação fixada a 370 léguas ao oeste das ilhas do Cabo Verde, ficando para a Espanha as
terras do outro lado.
7
Qual a identidade daquele que teria descoberto o Brasil?. Temos, então, pretensões
francesas, espanholas e portuguesas. As pretensões francesas referem-se basicamente à
história de um certo Jean Cousin, “marinheiro perito, bravo soldado e negociante”, que,
partindo de Dieppe para uma “viagem de exploração”, tomara o cuidado de não navegar pela
costa da África para evitar ser vitimado pelas tempestades e pelos “bancos de areia” que ali
eram freqüentes, até que “foi arrastado para Oeste por uma corrente marítima e aportou a uma
terra desconhecida, junto à embocadura de rio imenso”. Este rio seria o Amazonas e, dessa
maneira, Cousin teria descoberto o Brasil – e a América, em 1488. Esta teoria é defendida pelo
historiador francês Gaffarel. Utiliza argumentos históricos e geográficos, pois Dieppe, sem
dúvida, era um importante porto francês no século XVI, e os “dieppenses eram navegadores
ousados, que tinham-se estendido muito pelo Oceano e em algumas partes precedido os
portugueses e castelhanos” Quanto aos argumentos geográficos, ele se refere apenas ao fato
de que “as tradições dieppenses falam de uma corrente a favor da qual navegava Jean Cousin
e esta corrente existe: é o “Gulf-Stream”. Um outro eixo envolve um raciocínio muito mais
intricado, pois parte de indícios que comprovariam a presença no barco de Cousin, como seu
imediato, de um marinheiro castelhano chamado Pinzon, que não seria outro senão Martim
Alonso Pinzon, “ o mesmo a quem Colombo confiou três anos mais tarde o comando de um
dos três vasos de esquadrilha em que descobriu o Novo Mundo”. Conseqüentemente, Cousin
não só “descobriu o nosso continente, como foi, graças a um seu companheiro, que Colombo
usurpou depois a glória de tamanha descobrimento. Estas hipóteses sobre o descobrimento
do Brasil por franceses não são levadas a sério principalmente pelo historiador Capistrano de
Abreu que com seu método (crítica e verdade) demole com as pretensões francesas. Araújo,
Ricardo B., Ronda Noturna: Narrativa, crítica e verdade em Capistrano de Abreu. Estudos
Históricos, São Paulo: Edições Vértice, 1988/1, p.35-54 passim.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 41

espanhóis. Assim, eles virão também e a concorrência só se resolveria pelas


armas.8
A exploração da madeira chegou a quantidades absurdas, provocando o
esgotamento das melhores matas costeiras que continham a preciosa árvore.

A Ilha Brasil.9

A costa atlântica, ao longo dos milênios, foi percorrida e ocupada por


inumeráveis povos indígenas. Disputando os melhores nichos ecológicos, eles
se alojaram, desalojavam e realojavam, incessantemente. Nos últimos séculos,
porém, índios de fala tupi, bons guerreiros, se instalaram, dominadores, na
imensidade da área, tanto à beira-mar, ao longo de toda a costa atlântica e

8
Cf. Caio Prado Júnior, História Econômica do Brasil, São Paulo: Editora Brasiliense, 14.ª
edição, 1971, p.24-26.
9
“Antes de ser legitimado como Brasil, a nova colônia recebera as denominações, de
inspiração católica, de Ilha de Vera Cruz e Terra de Santa Cruz. Brasil deriva de uma
designação mercante, ligada ao primeiro bem comercial identificado pelos descobridores, a
árvore pau-brasil, utilizada na manufatura de tinturas. Historiadores anti-semitas não deixaram
de apregoar, por anos a fio, a idéia de que essa passagem das designações católicas para a
designação laica e profana fora resultado de um suposto conluio dos judeus Gaspar da Gama
e Fernando de Noronha. Para os anti-semitas, Brasil era um nome que inspirava significados
demoníacos, pela associação com a idéia de fogo (brasa) e com a cor vermelha, bem como por
sua não-identificação com qualquer símbolo ligado à fé cristã. Seria, portanto, o resultado de
um ardil tramado pelos judeus que participavam da expedição, associados aos cartógrafos de
origem judaica que igualmente viviam e trabalhavam na península em favor da política dos”.
descobrimentos. Essa versão da mudança do nome das novas terras como resultado de uma
“conspiração” judaica foi difundida por historiadores desde o século XVI e tomou novo fôlego
no século XX, como se pode observar na obra do ideólogo anti-semita Gustavo Barroso, em
sua História Secreta do Brasil. Coube ao estudo pioneiro de Elias Lipiner ( Gaspar da Gama –
Um converso na Frota de Cabral) desfazer esse equivoco. Lipiner provou que, para o reino
português, a expedição para as Índias e, conseqüentemente, a colonização de novas terras
deveriam ter um caráter essencialmente mercantil e laico. Para o pragmatismo lusitano, como
também o demonstrou o historiador Caio Prado Jr., o processo de colonização era um negócio
da Coroa, muito antes de ser um interesse missionário. O fato de a coroa entregar o primeiro
monopólio da extração de pau-brasil a Fernando de Noronha vinha dessa intenção
internacionalista e mercantil lusitana. Lipiner mostra, assim, que foi o próprio rei de Portugal, d.
Manoel, que, imprimindo esse caráter ao projeto expansionista de seu reino e de sua
economia, tornou possível a mudança do nome das novas terras. Os judeus foram, assim,
parceiros essenciais para o projeto português, mas não seriam os responsáveis pela mudança
do nome dado às terras descobertas.” Salomão Schvartzman, Eram os judeus
descobridores?, O Estado de S. Paulo, Caderno 2, p. 4, 7 setembro 1999.
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pelo Amazonas acima, como subindo pelos rios principais, como o Paraguai, o
Guaporé, os Tapajós, até suas nascentes. 10

Não era, obviamente, uma nação, porque eles não se sentiam dominadores.
Eram, somente, uma multidão de povos tribais, falando línguas do mesmo
tronco, dialetos de uma mesma língua, cada um dos quais, ao crescer, se
bipartia, fazendo dois povos que começavam a se diferenciar e logo se
desconheciam e se hostilizavam11.

A introdução no seu mundo do europeu, mudou total e radicalmente seu


destino. Embora minúsculo, o grupo recém-chegado do velho continente era
superagressivo e capaz de atuar destrutivamente12 de múltiplas formas.
Principalmente como uma infecção mortal sobre a população preexistente,
debilitando-a até a morte.

Esse conflito se dá em todos os níveis, predominantemente no biótico, como


uma guerra bacteriológica travada pelas pestes que o branco trazia no corpo e
eram mortais para as populações indenes. No ecológico, pela disputa do
território, de suas matas e riquezas para outros usos. No econômico e social,
pela escravidão do índio, pela mercantilização das relações de produção, que

10
Cf. Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro: A formação e o sentido do Brasil, São Paulo:
Companhia das Letras, 2.ª edição, 1996, p.29-31.
11
MANSUR, Alexandre. No papel de mocinho. Veja, São Paulo: Abril, n.15, p. 121-122, 12
abril 2000. “Estima-se que 900 etnias desapareceram nos últimos cinco séculos. Hoje existem
aproximadamente 227 etnias em acelerado crescimento. A taxa anual de crescimento dos
índios é de 3,2%; número de etnias 227; tribos não contactadas de 10 a 20; área total das
terras 95,8 milhões de hectares, o equivalente a três Itálias.”
12
“Estácio de Sá, logo que chegou ao Rio de Janeiro, fortificou-se na entrada da baia para
bloquear Villegaignon, e afim de tirar a sua gente qualquer idéia de retirada, despediu todos os
navios; mas passaram-se quatro anos sem que pudesse atacá-los. Só em janeiro de 1567,
tendo chegado do sul os padres Nobrega e Anchieta com os índios, e Mem de Sá com alguma
tropa de São Salvador, ficaram os Portugueses em estado de começar o combate, que durou
dois dias, de 18 até 20, dia de São Sebastião. O teatro da luta foram principalmente as praias
de Santa Luzia, e Flamengo e as ilhas adjacentes.” Maria G. L. de Andrade, Resumo da
História do Brazil; Boston: The Atheneum Press, 1920, p. 45.
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articulou os novos mundos ao velho mundo europeu como provedores de


gêneros exóticos, cativos e ouros.13

No plano étnico-cultural, essa transfiguração se dá pela gestação de uma etnia


nova, que foi unificando, na língua e nos costumes, os índios desengajados de
seu viver gentílico, os negros trazidos da África, e os europeus aqui
querenciados. Era o brasileiro que surgia, construído com os tijolos dessas
matrizes à medida que elas iam sendo desfeitas.

Não se tratava de uma simples ilha, mas de um imenso continente.

A Matriz Tupi.

Os grupos indígenas encontrados no litoral pelo português eram principalmente


tribos de tronco Tupi que, havendo se instalado uns séculos antes, ainda
estavam desalojando antigos ocupantes oriundos de outras matrizes culturais.
Somavam, talvez, 1 milhão de índios, divididos em dezenas de grupos tribais,
cada um deles compreendendo um conglomerado de várias aldeias de
trezentas a 2 mil habitantes. Não era pouca gente, porque Portugal 14 àquela
época teria a mesma população ou pouco mais.

Os Huguenotes no Rio de Janeiro: (1555-1560) 15

13
RIBEIRO, op. cit., 29-31.
14
RIBEIRO, Domingos, História da Igreja Cristã Presbiteriana do Brasil, (separata editada
pelo autor a benefício do “O Puritano”, órgão de propaganda e defesa do ramo tradicional do
Presbiterianismo Brasileiro) Rio de Janeiro,1940.
15
Klaus van der Grijp, História do Protestantismo Brasileiro, (texto preparado como
contribuição à História Geral do Igreja na América Latina), Projeto da Comissão de Estudos da
História da Igreja na América Latina, Faculdade de Teologia da IECLB, São Leopoldo, 1976, p.
1-4.
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Podemos afirmar que as perseguições religiosas e políticas durante o


reinado de Henrique II, causavam grandes desastres aos protestantes
franceses. Alguns huguenotes, sob o comando do vice-almirante Nicolau
Durand de Villegaignon16 empreenderam uma viagem com o propósito de
estabelecer uma colônia em terras americanas. Com a autorização do
Almirante Coligny, líder do partido huguenote francês, e pelo próprio João
Calvino, organizaram duas expedições distintas. A primeira delas em 11 de
outubro de 155517, chegaram na atual baía do Rio de Janeiro. Tão logo
desembarcaram, estabeleceram-se numa ilha18 que batizaram como “Forte
Coligny”.
Podemos afirmar que esse foi:

“O primeiro episódio da história brasileira em que o protestantismo


estava envolvido é o da efêmera colonização francesa na baía da
Guanabara (1555-1560). Com o propósito de inaugurar no hemisfério
Sul uma França Antártica, o vice-almirante Nicolas Durand de
Villegaignon pretendia mobilizar os calvinistas franceses e ou

16
“Villegaignon faleceu em Beauvais, perto de Nemours, a 9 de janeiro de 1571.”
17
Cf. THEVET, André., As Singularidades da França Antártica, São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 1978, p. 18. “E assim foi que no sexto dia do mês de maio de
1555, o dito Senhor de Villegaignon havia tomado as devidas providências com respeito à
segurança e comodidade dos navios, assim como sobre as munições e demais petrechos de
guerra - o que exigiu maiores preparativos do que os necessários para equipar um exército que
marcha por terra, em razão da qualidade e da sortida qualidade das pessoas, pois ali se
misturavam gentis-homens, soldados e artífices diversos, em suma: a melhor equipagem que
foi possível arranjar. Finalmente, chegou o momento do embarque, que se deu na moderna
cidade de Havre da Graça. este nome, gostaria de registrar aqui de passagem, acredito que
provenha da palavra grega “anlops”, que significa mar estrito. Ou então, se se preferir a forma
Haure, esta poderia derivar de “ab hauriendis aquis”, (de onde as águas são hauridas).
18
Idem, ibidem, p. 94. “Depois de permanecermos ali pelo espaço de dois meses, durante os
quais procedemos ao exame de todas as ilhas e sítios da terra firme, batizou-se toda a região
circunvizinha, que fora por nós descoberta, de França Antártica. Não se encontrou um lugar
mais conveniente para estabelecer-se uma colônia fortificada do que uma ilhota minúscula, de
apenas uma légua de circuito, situada quase na boca deste rio de que estamos falando, à qual
se deu o nome de Coligny, assim como também o forte nela edificado. Trata-se de uma ilha
muito aprazível, recoberta de enorme quantidade de palmeiras, cedros, paus-brasis e arbustos
aromáticos, verdejantes durante todo o ano. Na verdade, ali não havia água doce, mas esta
não tinha de ser trazida de muito longe. Este lugar localiza-se a 23 graus e meio a sul da Linha
Equinocial, à altura do Trópico de Capricórnio.”
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 45

huguenotes, cuja situação se tornava cada vez mais melindrosa no


solo pátrio. Prometendo-lhes um regime de liberdade religiosa na
futura colônia, ele conseguiu mesmo a ajuda do nobre protetor dos
huguenotes, Gaspar de Coligny. Em fins de 1555 Villegaignon se
estabeleceu com 400 homens numa ilha da baía de Guanabara,
proclamando-se em breve rei da América.”

A expedição havia respondido a um duplo interesse; político e religioso:


“estendendo de uma só vez o reino de Jesus Cristo, Rei dos Reis e Senhor dos
Senhores e os limites de seu príncipe soberano em país tão distante”. No
entanto expandir o domínio era prioridade em detrimento à expansão do reino
de Cristo; isto permitia ao rei Henrique II e a Coligny encontrar uma saída ao
problema religioso interno e assegurar uma presença francesa no novo mundo
mantendo a oposição a bula do papa Alexandre VI (1484-1492)19, que havia
dividido as terras novas entre Espanha e Portugal, deixando de lado à França.
Receberam o apoio dos indígenas, apoio este que traria alguns benefícios
contra os portugueses . Com boas perspectivas e êxito da missão pediram
reforços20 e alguns missionários a Coligny e a Calvino. Estes chegaram em 10
de março de 1557.21

19
Trata-se de Rodrigo de Borgia, nascido em Valência pelo ano de 1430, era sobrinho de
Calisto III, que o nomeara, em 1455, cardeal-diácono e bispo de Valência, com apenas 25 anos
de idade. A partir de 1456 era vice-chanceler da Igreja. Foi eleito papa em 10 de Agosto de
1492. Os contemporâneos elogiavam a sua habilidade diplomática e a sua aparência
imponente. Por causa da vida que levava é ele considerado uma das figuras mais indignas da
história do papado. Nos anos subseqüentes a 1462, nasceram-lhe vários filhos: César e
Lucrécia são os mais conhecidos dentre eles. Teve com eles cuidados especiais, depois de ser
eleito papa. Alexandre, mesmo depois de ser ordenado presbítero, em 1468, continuou levando
a mesma vida. Seu prestígio político se evidenciou ao traçar ele, para dirimir uma controvérsia
surgida entre a Espanha e Portugal, uma linha demarcatória dos direitos de domínio de uma e
de outra potência sobre as colônias recém-descobertas, a que ambas as partes interessadas
se ativeram. No período de Alexandre, incide o surgimento do monge Girolamo Savanarola, um
dominicano, que exigia uma reforma radical da Cúria e da Igreja. Alexandre VI morreu em 18
de agosto de 1503. Se pontificado foi uma infelicidade para a Igreja. Rudolf Fischer-Wollpert.
Os Papas: de Pedro a João Paulo II, Petrópolis: Editora Vozes, 4.ª edição, p.124-125.
20
Léry, Jean de., Viagem à Terra do Brasil, São Paulo: Martins, Ed. da Universidade de São
Paulo, 1972, p. 24 “Depois de muitos convites e solicitações, alguns, mais corajosos parece, se
apresentaram para acompanhar Du Pont, Pedro Richier e Guilherme Chartier. Foram esses:
Pedro Bourdon, Mateus Verneuil, João de Bordel, Andre Lafon, Nicolau Denis, João Gardien,
Martin David, Nicolau Raviquet, Nicolau Carmeau, Jaques Rousseau e eu, João de Léry que
tanto pela vontade de Deus como por curiosidade de ver o mundo fiz parte da comitiva. E
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 46

Léry relata como foi sua chegada ao Brasil:

“Não nos detivemos em Cabo Frio como desejáramos porque nos


achávamos a uma distância de vinte e cinco a trinta léguas do lugar
de nosso destino e queríamos chegar com a maior brevidade. Por
isso na tarde desse mesmo dia, 7 de março, deixando o mar alto à
esquerda, do lado de leste, entramos no braço de mar chamado
Guanabara pelos selvagens e Rio de Janeiro que assim o
denominaram por tê-lo descoberto, como afirmam, no 1.º dia de
janeiro. (...) encontramos Villegaignon residindo desde o ano
precedente em uma pequena ilha situada neste braço de mar. Depois
de saudá-lo com tiros de canhão, a uma distância de quase quarto de
légua, e dele por sua parte fazer o mesmo fomos enfim ancorar junto
da dita ilha.” 22

Continuando seu testemunho, Léry narra para a posteridade com suas


próprias palavras àquele que foi o primeiro culto protestante em solo brasileiro:

“Mandou ele então reunir toda a sua gente conosco em uma


pequena sala existente no meio da ilha e o ministro Richier invocou
Deus. Cantamos em coro o salmo V e dito ministro, tomando por
tema estas palavras do salmo XXVII: - “Pedi ao Senhor uma coisa

assim, em número de quatorze, partimos da cidade de Genebra, aos 16 de setembro do ano de


1556.”
21
“Em setembro de 1556, quando um contingente de umas 280 pessoas partiu da França para
vir reforçar à colônia, se lhes associaram, às expressas instâncias de Villegaignon, doze
calvinistas de Genebra, trazendo credenciais do próprio Calvino. Havia entre eles dois pastores
ordenados, Pierre Richier e Guillaume Chartier. Chegando a seu destino em março de 1557,
foram recebidos com alegria, e Villegaignon surpreendeu todo mundo pelas suas
manifestações de profunda piedade. “Quando aos ministros e à sua companhia, pediu-lhes
para estabelecer a ordem e disciplina da Igreja segundo a forma de Genebra, à qual em plena
assembléia prometeu submeter-se, e assim também a sua companhia.”
22
Cf. Léry, op. cit., p. 50.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 47

que ainda reclamarei e que é a de poder habitar na casa do Senhor


todos os dias da minha vida” – fez a primeira prédica no Forte de
Coligny, na América. Durante a mesma não cessou Villegaignon de
juntar as mãos, erguer os olhos para o céu, dar altos suspiros e fazer
outros gestos que a todos nós pareciam dignos de admiração. Por
fim, terminadas as preces solenes conforme o ritual das igrejas
reformadas de França, e sendo marcado para elas um dia da
semana, dissolveu-se a reunião.”23

Em breve esse parêntesis aberto em 1555 se encerraria em 11 de maio de


1560 com a queda da colônia francesa em mãos do general português Mém de
Sá. A ambição de Villegaignon o levou ao desastre:

“Suspeitas e inseguranças lhe perturbariam logo o governo.


Villegaignon desconfiava dos índios tamoios tanto como dos seus
próprios homens; desconfiava, mais ainda, das potências européias
que podiam disputar-lhe a soberania; e esta desconfiança o faria
cometer arbitrariedades.”

Isto nos permite entender por que a “ilha dos franceses” foi menos um centro
missionário que propriamente uma modalidade exótica de refúgio”. “Forte
Coligny” devia ser uma pequena Genebra onde se poderia praticar culto
reformado com toda liberdade. As palavras de Villegaignon são significativas
quanto ao seu primeiro propósito:

“É minha intenção criar aqui um refúgio para os fiéis de além-mar, a


fim de que sem temer o rei nem o imperador nem quaisquer

23
Idem, ibidem, p. 52.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 48

potentados, possam servir a Deus com pureza conforme a sua


vontade.”24

Creio ser de algum significado destacar neste trabalho a opinião particular de


Villegaignon25 sobre João Calvino:

“o senhor João Calvino é um dos homens mais doutos que surgiram


desde os apóstolos e nunca li ninguém que no meu entender melhor
e mais puramente tenha exposto e tratado as Santas Escrituras. E
mais, aceitarei o conselho que me destes em vossas cartas,
esforçando-me com toda a vontade por não me desviar dele em coisa
alguma. Pois em verdade estou bem persuadido de que não pode
haver outro mais reto, perfeito e santo. Por isso mandei ler as vossas
cartas em reunião do nosso conselho e depois registrá-las, a fim de
que sejamos, pela leitura delas, advertidos e afastados do mau
caminho se viermos a fraquejar.”26

Infelizmente suas opiniões quanto a fé reformada sofreria sérias mudanças, a


ponto de dizer publicamente que tinha abandonado suas opiniões quanto a
Calvino e à Igreja Reformada. Léry registrou:

“Após a Ceia de Pentecostes, Villegaignon declarou abertamente ter


mudado de opinião sobre Calvino e sem esperar resposta à consulta
feita por intermédio de Chartier, declarou-o herege transviado da fé.
Daí por diante passou a demonstrá-nos má vontade restringindo as
prédicas a meia hora, a partir de fins de maio, e a elas assistindo

24
Idem, ibidem, p. 52.
25
Idem, ibidem, p. 59. “A carta de Villegaignon a Calvino foi datada de 31 de março de 1551 e
foi levada para a Europa por um dos genebrinos, Carmeau. Ela nada contém de hostil aos
genebrino. Chartier só partiu a 4 de junho e a carta de Villegaignon a Calvino de que era
portador, nunca foi encontrada.”
26
Idem, ibidem, p. 59.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 49

raramente. Em suma a dissimulação de Villegaignon se patenteou


tão clara que não foi difícil verificar com que lenha se aquecia, como
se diz vulgarmente.”27

Entre a gente da segunda expedição encontramos os pastores genebrinos.


Guilherme Chartier e Pedro Richier28 e o próprio Léry que tinha estudado
teologia. Após a chegada29, a primeira preocupação foi a de construir uma
igreja reformada celebrando a Santa Ceia30 “os ministros previamente haviam
preparado e catequizado a todos os iam tomar parte dela”. Em 3 de abril se
fizeram “as primeiras bodas a maneira da igreja reformada” durante o culto. No
entanto, a situação se deteriorou muito rapidamente; Villegaignon desejava
somente uma troca de costumes e não a negação da autoridade católica, em
particular no que tocava a eucaristia.31

27
idem, ibidem, p. 62.
28
Idem, ibidem, p 23. “ P. Richer ou Richier, ex-carmelita e doutor em teologia; converteu-se ao
calvinismo, encontrando refúgio em Genebra. Enviado ao Brasil em 1556, voltou para a Europa
em 1559, e morreu em La Rochelle em 8 de março de 1580. Publicou : 1) Livri duo apologetici
contra N. Durandum, qui se cognoninat Villegaignon (1561); 2) Réfutatation des folles réveries
et mensonges de N. Durand, dit le chevalier de Villegaignon (1562); 3) Bref sommaire des
traditions de Calvin.”
29
Idem, ibidem, p. 51. “Em seguida fomos ter com Villegaignon que nos esperava em lugar
conveniente e nos saudamos todos uns aos outros. E ele a todos abraçou muito risonho. A
seguir o senhor Du Pont, apoiado por Richier e Chartier, ministros do evangelho, declarou a
causa principal que nos movera àquela viagem e a passar o mar em meio a tantos perigos para
irmos ter com ele e aí erigirmos nossa igreja reformada, concorde com a palavra de Deus. Em
resposta disse le textualmente o seguinte: “ quanto a mim, desde muito e de todo o coração
desejei tal coisa e recebo-vos de muito bom grado mesmo porque aspiro a que nossa igreja
seja a mais bem reformada de todas. Quero que os vícios sejam reprimidos, o luxo do vestuário
condenado e que se remova de nosso meio tudo quanto possa prejudicar o serviço de Deus”.
Erguendo depois os olhos ao céu e juntando as mãos disse: “Senhor Deus, rendo-te graças por
teres-me enviado o que há tanto tempo venho ardentemente pedindo”.
30
Idem, ibidem, p. 54. “ Em obediência a essa determinação, no domingo, 21 de março, em
que pela primeira vez celebramos a Santa Ceia de Nosso Senhor Jesus Cristo, no forte de
Coligny, prepararam os ministros, com a devida antecedência, todos os que deviam comungar
.”

Conceito Calvinista de sacramento: “Calvino e Genebra rejeitaram a transubstanciação, a


31

consubstanciação e a impanação, e toda a idéia de qualquer presença corpórea de Cristo na


sua ceia. Nenhum comungante, em sentido algum, tomava em seu estômago o corpo e o
sangue e os ossos reais do Senhor Jesus. Não traria nenhum proveito à sua alma se comesse
dez mil corpos, quer terrestres quer celestiais. Os benefícios vêm inteiramente pela graça, e
não depende de qualquer dieta. Cristo falava figuradamente quando disse que o discípulo
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 50

“Mas o rei da América não tardou a mudar de atitude. Jean de Léry,


ventila a hipótese de haver chegado cartas de Charles de Guise e de
outros líderes católicos, que faziam Villegaignon temer pela sua
posição na França. Começou a criticar os pastores por causa de uma
questão secundária, a saber, o fato de eles usarem por causa de uma
questão secundária, a saber, o fato de eles usarem na Santa Ceia
pão comum e vinho não misturado com água. O conflito foi levado ao
extremo de que Chartier voltou à Europa para pedir o parecer das
autoridades calvinistas, enquanto que Richier ficou na colônia para
exercer o pastorado.”

Chegados a 10 de março de 1557, os huguenotes se foram ao final de outubro


do mesmo ano32. Uns que não puderam acompanhar a expedição de regresso

devia comer a sua carne e beber o seu sangue; quando disse: “Isto é o meu corpo” e “isto é o
meu sangue”. Até aqui Calvino concordava com Zwínglio. Mas ele pensava que a doutrina de
Zwínglio a respeito da Ceia ser um simples memorial ficou aquém da verdade com referência a
este sacramento. Era não meramente um sinal da graça como Zwínglio ensinava; mas um meio
de graça. Para se apreciar a diferença entre Calvino e Zwínglio basta ver-se a diferença entre
“sinal” e “meio”. Um machadinho, por exemplo, é mais do que um sinal de cortar, é um meio de
cortar. A declaração de Calvino da sua opinião não é sempre clara e simples. Ele diz no seu
Comentário sobre Romanos, “o próprio corpo é-nos dado também certamente”. E “a carne de
Cristo não entra em nós”. Ele está dizendo que a eficácia salvadora de Cristo está no seu corpo
partido e no sangue derramado – na sua morte-mas que é o poder e o valor de seus sacrifício
que estão presentes à fé na Ceia. Calvino tinha em mente a “presença espiritual de Cristo no
sacramento e Lutero a “presença corporal” dele Dr. R. A. Webb, Expositor de Junho e Julho,
Garanhuns–Pernanbuco, A Reforma e a Ceia do Senhor, p 345, (foi transcrito do The Union
Seminary Review)
32
Léry, op. cit., p. 217. “Só resta agora, para por fim a esta narrativa, contar a sorte dos
nossos companheiros que, como foi dito, voltaram ao Brasil depois do primeiro naufrágio de
que fomos ameaçados. Pessoas fidedignas que deixamos nesse país, donde voltaram cerca
de quatro meses depois de nós, encontraram o senhor Du Pont em Paris e lhe asseguraram
que com grande pesar haviam sido espectadores do afogamento de três dos nossos
companheiros no forte Coligny. Pedro Bourdon, João Bordel e Mateus Verneuil foram essas
vitimas condenadas por Villegaignon por causa de sua religião. Essas pessoas fidedignas
haviam trazido também não só a sua confissão mas ainda todo o processo contra eles
instaurado por Villegaignon, entregando-o ao senhor Du Pont de quem a obtive mais tarde. Ao
lembrar-me de que, enquanto resistíamos aos perigos de toda sorte esses servos fiéis de
Jesus Cristo eram mortos, após mil tormentos; ao recordar-me de que cheguei a por os pés no
escaler, para com eles regressar; rendi graças a Deus pelo meu salvamento individual, e senti-
me mais do que nunca no dever de fazer com que a profissão de fé desses três honestos
personagens fosse registrada no livro dos que em nossos dias foram martirizados na defesa do
Evangelho. Por isso entreguei-a nesse mesmo ano de 1558 ao impressor João Crespin, o qual,
juntamente com a narrativa dos perigos por que passaram os três para aportar à terra dos
selvagens depois de nos deixarem, a inseriu no livro dos mártires. .Assim foi Villegaignon quem
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tiveram que se refugiar em terra firme33, de onde foram perseguidos por


Villegaignon e intimados a abandonarem sua fé reformada.34
“Por ordem de Villegaignon, Jean du Bordel Mathieu Vermeil, Pierre Bourdon e
André La fon, redigiram em 17 pontos a primeira confissão de fé reformada do
continente que aparece assinalada nas Atas dos Mártires publicadas por Jean
Crespin em Genebra em 1561. Esta confissão serviu a Villegaignon para
condenar a Bordel, Vermeil e Bourdon à morte por afogamento. Morreram
defendendo sua fé.”

Era direito dos governadores, em nome do rei, exigir dos súbditos uma
confissão de sua Fé. O almirante ordenou, portanto, que em doze horas

primeiro derramou sangue dos filhos de Deus nesse país recém-descoberto e por isso, mui
justamente. alguém o apelidou o „Caim da América‟. ”
33
Idem, ibidem, p. 197. “ Para bem compreender o motivo de nossa partida do Brasil é preciso
ter na memória o que disse no fim do capítulo VI, isto é, que depois de estarmos oito dias na
ilha em que residia Villegaignon este, rebelando-se contra a religião reformada e arrogando-se
autoridade contra nós, procurou domar-nos pela força, o que nos levou a retirar-nos para o
Continente onde nós fomos estabelecer ao lado esquerdo de quem entra no rio da Guanabara,
também chamado de Janeiro, a meia légua do forte de Coligny, no sítio denominado Olaria. Aí
estivemos quase dois meses, abrigados em casebres construídos por operários franceses para
se repousarem quando em pescaria ou a negócios desse lado.”
34
Com uma singular inclinação às disputas teológicas, Villegaignon continuou questionando a
posição calvinista com respeito à transubstanciação, ao caráter sacrificial da eucaristia, à
invocação dos santos, às preces pelos mortos e ao purgatório. Finalmente ele impôs a Richier
uma proibição de pregar. Perante esta situação os huguenotes declararam, em termos de
autêntica teocracia calvinista, que “tendo (Villegaignon) renegado a sua fé e apostatado da
religião, não mais o reconheciam como seu senhor soberano, mas o tomaram por tirano e
inimigo da república.” Vencida uma série de adversidade, Richier e 15 dos seus correligionários
conseguiram partir para a pátria em janeiro de 1558. Uns poucos elementos desse grupo,
intimidados pelas precárias condições náuticas do seu navio, optaram por voltar à colônia,
onde Villegaignon, suspeitando uma armadilha, buscou um motivo para desfazer-se deles.
Obrigou-os a redigir, num prazo de 12 horas, uma declaração relativa aos pontos teológicos
controvertidos, e depois, fingido profunda indignação pelo teor calvinista deste escrito, que
passaria para a história como a Confessio Fluminensis, mandou executar três dos seus
assinantes (9 de fevereiro de 1558). Jean du Bourdel, Mattieu Vernuil e Pierre Bourdon
resultaram assim os primeiros mártires da fé no Novo Mundo. Um quarto assinante da
declaração se salvou mediante retratação. E com isso termina o episódio dos huguenotes na
Guanabara. A atuação do receoso comandante redundou em seu próprio detrimento, porque,
tendo atraiçoado a causa dos huguenotes, teve que prescindir da proteção de Coligny, que já
estava reunindo voluntários para popular à França Antártica. Tendo-se repatriado
provavelmente antes de 1560 – ano em que os portugueses reconquistaram a Guanabara-,
Villegaignon encontrou ainda notáveis dificuldades para reivindicar sua ortodoxia perante as
autoridades católicas.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 52

respondessem aos artigos de fé que lhes enviara . O mais velho, distinto entre
eles, porque velava pela piedade de seus irmãos e porque em letras possuía
conhecimentos da língua latina, foi eleito para redigir as respostas. Sem livros,
só possuíam a Bíblia, simples crentes que talvez não tivessem aos pés de
Calvino um curso de divindades, aflitos, cansados, em um dia, foram obrigados
a responder a difíceis questões.35

Jean de Bourdel escreveu; os outros assinaram sua Confissão de Fé.36


Recebido o documento, o tirano o fez vir à sua presença.
Jean de Bourdel, Mathieu Verneuil e André La Fon vieram: Pierre Bourdon,
aflito por moléstia, ficara no continente. Estavam prontos, disseram, a sustentar
a Confissão, Enraivecido, ordenou Villegaignon que os metessem no cárcere a
ferro. Durante a noite, todas as horas ia revistar as algemas, a porta do
cárcere, rondar as sentinelas. Os servos de Deus, entretanto, oravam,
cantavam salmos e se consolavam mutuamente. Na manhã de sexta-feira 9 de
fevereiro de 1558, desceu Villegaignon, bem armado, com um pagem, a uma
sala. Mandou apresentar du Bourdel, e mandou-lhe explicar o 5.º artigo da sua
confissão. Ao responder du Bourdel, uma bofetada do apostata fez-lhe jorrar
sangue da face, e Villegaignon zombava das suas lágrimas de dor. Conduzido
ao suplicio, ao passar pela prisão, bradava aos seus companheiros que
tivessem, bom animo, pois breve seriam livres desta triste vida. Cantando
salmos, subiu à rocha; orou, e, atado de pés e mãos, o algoz o arrojou as
ondas.

35
Cf. GILLIES, John., Los Mártires de Guanabara, Terrassa: CLIE, 1979, p. 147 “Ao
despontar as primeiras luzes do amanhecer, o documento estava terminado. Despertamos a
Pierre, para que pudesse ler todo o documento, artigo por artigo. O resultado foi um boa
declaração, e nos sentimos orgulhosos de Jean de Bourdel e de seu magnífico trabalho, levado
a cabo em tão breve espaço de tempo. Nos sentimos invadidos pela sensação de uma
presença que estava mais além de nos mesmo...”
36
Esta Confissão de Fé conforme apresentada por Jean de Crespin, está exposta no fim do
trabalho como apêndice. É interessante consultá-la.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 53

Seguiu-o Matthieu Verneuil. As suas suplicas que o poupasse, tivesse-o como


escravo, respondia o verdugo, menos valor tinha que o lixo do caminho. Tendo
orado, exclamando: - “Senhor Jesus, tem piedade de mim” – desapareceu no
mar.

Pierre Bourdon, fraco, debilitado pela moléstia foi obrigado a levantar-se, e


levado para a ilha.

Lá percebeu o que o esperava. Ao pressentir o lugar onde sofreram seus


irmãos não se entristeceu, pois tinham ali obtido a vitória. Cruzou os braços,
elevou os olhos ao céu; orou. Antes de morrer, quis saber a causa de sua
morte. Respondeu-lhe que era a sua assinatura de uma Confissão herética e
escandalosa. O rugido do mar não permitiu mais ouvir a sua voz clamar pelo
socorro e favor de Deus, e o seu corpo desapareceu no abismo das águas.
E foi assim naqueles tempos que os nossos irmãos pagaram com a vida a
audácia de confessar a sua fé.”37

A aventura missionária havia degenerado em polêmica religiosa. Era o fim do


que possivelmente poderia ter sido uma experiência puritana, similar ao que
realizariam mais tarde os anglo-saxãos na nova Inglaterra.
Jean de Bolés38, calvinista convicto conseguiu fugir de Villegaignon, mas não
de Anchieta.39 Comentou o historiador João Ribeiro:

37
CRESPIN, Jean., A Tragédia de Guanabara ou História dos Protomartyres do
Christianismo no Brasil, Rio de Janeiro, Pimenta de Mello & C., 1917. p. 8-9.
38
REIS, Álvaro., O Martyr Le Balleur: (1567), Rio de Janeiro: s/e, 1917. Bibliografia
recomendada.
39
Jean de Boileau. É fato histórico de muito interesse que houve mesmo naqueles tempos e na
província de S. Paulo, quem protestasse contra a perversão das doutrinas de Paulo. Este
protesto foi lavrado por um ministro evangélico, refugiado na Capitania de S. Vicente da iras do
“Caim da América”. Sua fidelidade ás doutrinas de S. Paulo custou-lhe a vida mais tarde,
às mãos do celebre Anchieta, que, qual Paulo à morte do protomártir Estevão, assistia, com
gosto e tomou parte ativa, servindo de carrasco. Anchieta mereceu ser louvado (nas Crônicas
dos Jesuítas, por Simon de Vasconcellos) por ter praticado um bem e até com “fina caridade”.
Diga o imparcial leitor das Crônicas, se não foi antes requintada hipocrisia. Corroborando estas
notas, extraímos de Lições da História Pátria, algumas passagens, e dos Apontamentos para a
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 54

“No momento da execução de Bolés, a imperícia do algoz, que lhe


atormentava a agonia, fez que José de Anchieta auxiliasse o condenado a
morrer.” 40

Testemunho do Frei Vicente do Salvador:41

História dos jesuítas no Brasil, outras a respeito do nosso irmão na fé, o martyr-Boileau. “Em
janeiro de 1554 treze colegiais de S. Vicente sob a direção do Padre Paiva, chegaram aos
campos de Piratininga, enviados por Nóbrega, para estabelecerem um colégio. Anchieta era
um daqueles. Em agosto desse ano, em carta dirigida ao geral da companhia, dizia ele: “
Desde janeiro até agora aqui vivemos, não menos de vinte pessoas, contando os meninos
catecúmenos, em uma pobre casinha, feita de madeira, e barro, coberta de palha, com uma
esteira de canas por porta, a qual não chega a ter quartoze passos de comprimento com dez
de largura: este estreito lugar serve de escola, enfermaria, dormitório, cozinha e refeitório; e
nem por isso cobiçamos habitação mais folgada e agasalhada...”Em 1555 Nicolau Durand de
Villegaignon em uma pequena ilha, na beira do Rio de Janeiro, cercada de rochedo, á flor da
água lançou os fundamentos de uma possessão francesa. Levantou um forte, a que deu o
nome de Coligny, fez construir cabanas, e segundo dizem alguns historiadores também
edificou um templo. Ao que consta Villegaignon conseguiu obter da coroa de França todo apoio
a seu intento de fundar estabelecimentos no Brasil. Também se havia pronunciado em seu
favor o almirante Coligny, a quem ele fez crer que suas vistas eram manter neste país uma
colônia de sectários de Calvino, e oferecer refugio aos que fossem perseguidos pela
intolerância religiosa na Europa. Uma expedição chegou ao forte Coligny em Março de 1557,
trazendo protestantes franceses e ministros calvinistas. Crêem alguns que o zelo de
Villegaignon pela religião reformada era fingido e que também nunca entrara em seus planos
coloniais o sincero propósito de fazer à França Ter parte em terras do Brasil, sendo pelo
contrário levado por ambição e interesses particulares, que soube ocultar para merecer os
socorros concedidos por Henrique II e Coligny. Seja, porém, como for, o certo é que perseguiu
os protestantes da colônia, o que deu lugar a uma conspiração contra ele, e ás crueldades,
com que depois mais odioso se tornou aos olhos de seus patrícios, que o denominaram – “o
Caim da América” Fugindo deste alguns vieram parar em S. Vicente. “Achava-se entre estes
João de Bolés, homem versado nas línguas, latina, grega e hebraica, e conhecedor das
Escrituras. Entrou a falar de imagens santas, bulas e indulgências, de modo que fazia rir. O
povo dizia que Bolés era homem doutíssimo; e que Luiz da Gram não ousava disputar com ele,
e por isso o perseguia, como de fato o fazia, até que se meteu de permeio a justiça eclesiástica
e Bolés foi prezo e remetido ao bispo da Bahia.Aparece (1567) no Rio de Janeiro, João de
Bolés, que dera tanto que fazer, em 1559, ao padre Luiz Gram, e que vinha agora remetido
preso da Bahia. Mandou-o justiçar o governador por um algoz. Pede então o padre Anchieta
que se sobrestivese na execução enquanto procurava converter o herege. Uma vez logrado
este intento, foi o pobre Bolés relaxado ao braço secular. Não era, porém, perito o algoz e fazia
sofrer o paciente. O Padre Anchieta, que se doía deste erro de ofício, sem que temesse a
suspensão canônica por acelerar a morte, passou a ensinar ao inexperiente carrasco como
devia manobrar” Tem sido qualificado este ato de bárbaro assassinato, e sem dúvida o foi. Que
homem de tantas e tão gabadas virtudes como Anchieta, servisse de instrumento, não devem
estranhar os que aceitam o principio que deve-se fazer tudo quanto a Santa Madre manda.
Parece-nos não haver erro em dizer que pelo mesmo motivo que Caim matou a Abel, José de
Anchieta matou a João de Boileau (Bolés); Àquele que tudo vê tem de responder por este
assassinato. Imprensa Evangélica e Revista Cristã, 25 de janeiro de 1881, p.2.
40
RIBEIRO, op. cit., p.131-132.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 55

“Entre os primeiros franceses que vieram ao Rio de Janeiro em


companhia de Nicolau Villegaignon, de que tratamos em capítulo
oitavo deste livro, vinha um herege calvinista chamado João Bouller,
o qual fugiu para a capitania de São Vicente, onde os portugueses o
receberam cuidando ser católico, e como tal o admitiam em suas
conversações, por ele ser também na sua eloqüente e universal na
língua espanhola, latina, grega, e saber alguns princípios da hebréia,
e versado em alguns lugares da sagrada escritura, com os quais,
entendidos a seu modo, dourava as pílulas e encobria o veneno aos
que o ouviam e viam morder algumas vezes na autoridade do sumo
Pontífice, no uso dos sacramentos, no valor das indulgências, e em a
veneração das imagens. Contudo não faltou quem o conhecesse
(que ao lume da fé nada se esconde), e o foram denunciar ao bispo,
o qual condenou como seus erros mereciam e sua obstinação, que
nunca quis retratar-se, pelo que o remeteu ao governador, o qual o
mandou que, à vista dos outros que tinha cativos na última vitória,
morresse a mãos de um algoz. Achou-se ali para o ajudar a bem
morrer o padre José de Anchieta, que já então era sacerdote, e o
tinha ordenado o mesmo bispo D. Pedro Leitão e, porto que no
princípio o achou rebelde, não permitiu a divina providência que se
perdesse aquela ovelha fora do rebanho da igreja, senão que o padre
com suas eficazes razões, e principalmente com a eficácia da graça,
o reduzisse a ela. Ficou o padre tão contente deste ganho, e por
conseguinte tão receoso de o tornar a perder que, vendo ser o algoz
pouco destro em seu oficio e que se detinha em dar a morte ao réu e
com isso o angustiava e o punha em perigo de renegar a verdade
que já tinha confessada, repreendeu o algoz e o industriou para que
fizesse com presteza seu ofício, escolhendo antes pôr-se a si mesmo
em perigo de incorrer nas penas eclesiástica, de que logo se
absolveria, que arriscar-se aquela alma às penas eternas.”

41
Frei Vicente do Salvador, História do Brasil, 1500-1627, São Paulo: Edições
Melhoramentos, 6.ª Edição, 1975, p. 167.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 56

O historiador Vicente Themudo Lessa42 quando se referiu a ele o classificou


como: “Pioneiro do protestantismo na terra de Piratininga”.

Ao longo desta história há alguns traços que nos chamam particularmente a


atenção. Em primeiro lugar vemos que a colonização da Guanabara, como
mais tarde a dos Pais Peregrinos na Nova Inglaterra, nasceu da busca de uma
liberdade religiosa que a Europa, até então, não conhecia. Em segundo lugar
observamos que o aparecimento dos huguenotes fazia parte da corrida das
grandes potências européias para o poder, e que a ânsia de dominar
prevalecia, com o oportunismo político-religioso. Em terceiro lugar devemos
constatar que todo o fervor religioso dos huguenotes não era suficiente para
fazê-los buscar qualquer contato missionário com os Índios. Eles não apenas
se desinteressaram desta missão, mas inclusive, quando Villegaignon já
pretendia expulsá-los da ilha para o litoral, protestaram dizendo que “em sã
consciência eles não podiam se retirar com os selvagens, totalmente
ignorantes da religião cristão.”43 Jean de Léry, no entanto, apresenta-nos uma
visão daqueles índios completamente nova e rica de significados.

Jean de Léry e a Hermenêutica do Outro.

Os relatos sobre a segunda expedição são dignos de confiança porque temos


de Jean de Léry44 um testemunho daquilo que ele experimentou. Foi ele

42
LESSA, op. cit. , p.11.
43
GRIJP, op. cit., p.2-4.
44
Cf. P. Gaffarel, Notícia Biográfica, In : Léry, Jean de., Viagem à Terra do Brasil, São Paulo:
Martins, Ed. da Universidade de São Paulo, 1972, p. XIX-XXV. “Jean de Léry nasceu em La
Margelle, nas vizinhanças da abadia de Saint-Seine de Burgone, no ano de 1534. Nada se
sabe de sua primeira infância. Sem dúvida pertencia a uma família de burgueses, talvez
mesmo de modestos fidalgos, pois foram estes os primeiros a seguir o movimento da Reforma,
na Bourgogne, e os pais de Jean de Léry eram adeptos das novas idéias. Sabe-se com que
rapidez se propagaram tais opiniões em nosso país. A França parecia predestinada à Reforma.
De há muito Universidade e Parlamento atacavam o despotismo pontifical e reclamavam a
criação de uma Igreja Nacional. O rei Francisco I não se pronunciava ainda, mas protegia
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 57

participante dessa missão. Sua “Viagens à Terra do Brasil” publicado em


1578, nos restitui uma experiência incomparável: a única missão protestante do
século XVI. O texto que nos deixou Léry esta cheio de encanto em torno da
natureza, a fauna e a flora do novo mundo. Mais que uma descrição do que
está descrevendo, seu relato trata continuamente de justapor a realidade da
nova fronteira, à realidade vivida na Europa do século XVI. Ele descobre nos
Tupis não uns selvagens irracionais, senão mais bem uma sociedade que tem
muito a dizer aos europeus. A preocupação de Léry não foi o ouro nem a
obsessão pela riqueza, senão a de traduzir esta realidade “selvagem” dos
Tupis, descobrindo neste outro não diferenças, mas identidade. A diferença se
constitui numa classificação da novidade, a identidade permite considerar estes
homens “estranhos” como iguais.

Escreveu Michel de Certeau:

“Após a confusão lingüística da ilha Coligny, este vasto quadro do


mundo selvagem é uma epifania de coisas, o discurso de uma
efetividade. Na verdade, o conteúdo era dado inicialmente, como
antinômico, mas tinha sido repartido e trabalhado de maneira a se
tornar, no seu setor humano, um mundo que fizesse justiça à
verdade genebrina. Desta maneira já está aí uma realidade que lastra
o enunciado de Léry. O que dele separa o Ocidente não são as
coisas, mas a sua aparência: essencialmente, uma língua
45
estrangeira.”

Rabellais e Marot e permitia que Calvino lhe dedicasse a “Instituição da Religião Cristã”. Sua
irmã Margarida de Navarra e muitos cortesões declaravam-se abertamente pela Reforma.
Calvino apelou para todos os homens de boa vontade. O apelo foi ouvido. Da França, da Itália,
da Inglaterra, da Espanha e até da Polônia acorreram inúmeros prosélitos. Genebra tornou-se
a cidadela do protestantismo e foi nessa fonte ardente, de fé e eloqüência que ardorosos
missionários vieram buscar sua inspiração, a fim de espalhar em seguida , mundo afora, a
doutrina e as idéias do mestre. Jean de Léry foi um desses missionários. Adolescente ainda,
pois tinha apenas dezoito anos, encontramo-lo em Genebra, nas pegadas de Calvino,
seguindo-lhe os cursos de teologia e as prédicas. Berna foi a última residência de Jean de
Léry. Aí morreu em 1611.”
45
CERTEAU, Michel de., A Escrita da História, Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1982, p.
222.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 58

Léry mantém a vez, escreve Bastian: “a distância e a proximidade frente ao


indígena. Se nada é exatamente o mesmo na forma, todos são comparável
enquanto à essência. Há que ensinar aos indígenas a vida eterna, porém eles
não podem instruir sobre nossa vida mortal. Através desta hermenêutica do
outro, podemos dizer que Léry descobre uma ordem pela qual dá graças a
Deus cantando o salmo 104. O contato com os índios se fez sem preocupação
pedagógica sobre religião, o que sem dúvida foi a condição para um acerto
etnológico da sociedade Tupinamba desde um ponto de vista científico, como o
tem reconhecido Lévy-Strauss. Isto faz do relato de Léry um dos primeiros
textos da literatura etnológica e expressa, evidenciando, o limite da consciência
protestante do século XVI.”46

Dois elementos nos parecem caracterizar o evento: em primeiro lugar, seu


limite como refúgio contra (a fronteira do desconhecido) as disputas teológicas
que sacudiam a Europa; em segundo lugar, a hermenêutica do outro que fez
Jean de Léry acerca dos índios Tupis47.

46
BASTIAN, Jean-Pierre, Historia Del Protestantismo en America Latina, México: Ediciones
CUPSA, 1990, p. 48
47
“Mesmo em face do novo inimigo todo poderoso, vindo de além-mar, quando se estabeleceu
o conflito aberto, os Tupis só conseguiram estruturar efêmeras confederações regionais que
logo desapareceram. A mais importante delas, conhecida como Confederação dos Tamoios, foi
ensejada pela aliança com os franceses instalados na baía de Guanabara. Reuniu, de 1563 a
1567, os Tupinambás do Rio de Janeiro e os Carijó do planalto paulista - ajudados pelos
Goitacazes e pelos Aimoré da Serra do Mar, que eram de língua jê - para fazerem a guerra
aos portugueses e aos outros grupos indígenas que os apoiavam. Nessa guerra inverossímil da
Reforma versus a contra-reforma, dos calvinistas contra os jesuítas, em que tanto os franceses
como os portugueses combatiam com exércitos indígenas de milhares de guerreiros, 4557,
segundo Léry; 12 mil nos dois lados na batalha final do Rio de Janeiro, em 1567, segundo
cálculos de Carlos ª. Dias (1981) -, jogava-se o destino da colonização. E eles nem sabiam por
que lutavam, simplesmente eram atiçados pelos europeus, explorando sua agressividade
recíproca. Os tamoios venceram diversas batalhas, destruíram a capitania do Espírito Santo e
ameaçaram seriamente a de São Paulo. Mas foram, afinal, vencidos pelas tropas indígenas
aliciadas pelos jesuítas.” Darcy Ribeiro, op. cit. , p. 33. ( Não concordo com esta interpretação
de Darcy Ribeiro, uma vez que Léry, sendo europeu, oferece-nos uma hermenêutica do outro
(o indígena) cujas bases se estribam em princípios de liberdade e igualdade natural do homem.
Estas bases foram sistematicamente difundidas pelos Reformadores. No entanto, é preciso
enfatizar que esta foi a visão de um europeu calvinista, diferentemente foi a visão de um
europeu católico jesuíta.)
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A Confissão de Fé de Guanabara.

Segundo a doutrina de São Pedro Apostolo, em sua primeira epistola, todos os


Cristãos devem estar sempre prontos para dar razão da esperança que neles
há, e isso com toda a doçura e benignidade, nós, abaixo assinados, Senhor de
Villegaignon, unanimemente (segundo a medida de graça que o Senhor nos
tem concedido) demos razão, a cada ponto, como nos haveis apontado e
ordenado, e começamos no primeiro artigo:

I. Cremos em um só Deus, imortal e invisível, criador do céu e da terra, e de


todas as coisas, tanto visíveis como invisíveis, o qual é distinto em três
pessoas: o Pai, o Filho e o Santo Espírito, que não fazem senão uma mesma
substancia em essência eterna e uma mesma vontade; o Pai fonte e começo
de todo o bem; o Filho eternamente gerado do pai, o qual, cumprida a plenitude
do tempo, se manifestou em carne ao mundo, sendo concedido do Santo
Espírito, nascido da Virgem Maria, feito sob alei para resgatar os que sob ela
estavam; o Santo Espírito, procedente do Pai e do Filho, mestre de toda a
verdade, falando pela boca dos profetas, sugerindo as coisas que foram ditas
por nosso Senhor Jesus Cristo aos Apóstolos. Este é o único consolador em
aflição, dando constância e perseverança em todo o bem.

II. Adoramos nosso Senhor Jesus Cristo, não separamos uma natureza da
outra, confessando as duas naturezas, a saber, divina e humana n‟Ele
inseparáveis.

III. Cremos, quanto ao filho de Deus e ao Santo Espírito, o que a Palavra de


Deus e a doutrina apostólica, e o símbolo, nos ensinam.
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IV. Cremos que nosso Senhor Jesus Cristo virá julgar os vivos e os mortos,
em forma visível e humana como subiu aos Céus, executando tal juízo na
forma em que nos predisse em S. Mateus, vigésimo quinto capitulo, tendo todo
o poder de julgar, a Ele dado pelo Pai, entanto que é homem.
E, quando ao que dissemos em nossas orações, que o Pai aparecerá enfim na
pessoa do Filho, entendemos por isso que o poder do Pai, dado ao Filho, será
manifestado no dito juízo, não todavia que queiramos confundir as pessoas,
sabendo que elas são realmente distintas uma da outra.

E, quanto ao que dizemos em nossas orações, que o Pai aparecerá enfim na


Pessoa do Filho, entendemos por isso que o poder do Pai, dado ao Filho, será
manifestado no dito juízo, não todavia que queiramos confundir as pessoas,
sabendo que elas são realmente distintas uma da outra.

V. Cremos que no Santíssimo Sacramento da Ceia, com as figuras corporais


do pão e do vinho, as almas fiéis são realmente e de fato alimentadas com a
própria substância de nosso Senhor Jesus como nossos corpos são
alimentados de viandas, e assim não entendemos dizer que o pão e o vinho
seja transformados ou transubstancias no corpo e sangue dele, porque o pão
continua em sua natureza e substância, semelhantemente o vinho, e não há
mudança ou alteração. Distinguimos todavia este pão e vinho do outro pão que
é dedicado ao uso comum, sendo que este nos é um sinal sacramental, sob o
qual a verdade é infalivelmente recebida.

Ora esta recepção não se faz senão por meio da fé e nela não convém
imaginar nada de carnal, nem preparar os dentes para o comer, como santo
Agostinho nos ensina, dizendo: “porque preparas tu os dentes e o ventre? Crê,
e tu o comeste.” O sinal, pois, nem nos dá a verdade, nem a coisa significada;
mas nosso Senhor Jesus Cristo, por seu poder, virtude e bondade, alimenta e
preserva nossas almas, e as faz participantes de sua carne, e de seu sangue, e
de todos os seus benefícios. Vejamos a interpretação das palavras de Jesus
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 61

Cristo: “Este pão é o meu corpo”. Tertuliano, no livro quarto contra Marcion,
explica estas palavras assim: “este é o sinal e a figura do meu corpo”. Santo
Agostinho diz: “ O Senhor não evitou dizer: Este é o meu corpo, quando dava
apenas o sinal de seu corpo.” Portanto (como é ordenado no primeiro cânon
do concilio de Nicéia), neste santo sacramento não devemos imaginar nada de
carnal, e nem nos distrair no pão e no vinho, que nos são neles propostos por
sinais, mas levantar nossos espíritos ao Céu para contemplar pela fé o Filho de
Deus, nosso Senhor Jesus, sentado à destra de Deus, seu Pai. Neste sentido
podíamos juntar o artigo da Ascensão com muitas outras sentenças de Santo
Agostinho, que omitimos, temendo ser longas.

VI. Cremos que, se fosse necessário por água no vinho os evangelistas e são
Paulo, não teriam omitido uma coisa de tão grande conseqüência. E, quanto a
que os Doutores antigos o tem observado (fundamentando-se sobre o sangue
misturado com água que saiu do lado de Jesus Cristo, desde que tal
observância não tem nenhum fundamento na Palavra de Deus, visto mesmo
que depois da instituição da Santa Ceia isto aconteceu), nós a não podemos
hoje admitir necessariamente.

VII. Cremos que não há outra consagração que a que se faz pelo ministro
quando se celebra a Ceia. Recitando o ministro ao povo, em linguagem
conhecida, a instituição desta Ceia, literalmente, segundo a forma que Nosso
Senhor Jesus Cristo nos prescreveu, admoestando o povo, da morte e paixão
de Nosso Senhor. E mesmo, como Diz Santo Agostinho, a consagração é a
palavra da fé que é pregada e recebida em fé. Pelo que, segue-se que as
palavras secretamente pronunciadas sobre os sinais não podem ser a
consagração como aparece da instituição que nosso senhor Jesus Cristo
deixou aos seus Apóstolos, dirigindo suas palavras aos seus discípulos
presentes, aos quais ordenou tomar e comer.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 62

VIII. O Santo sacramento da Ceia não é vianda para o corpo como para as
almas (porque nós não imaginamos nada de carnal, como declaramos no artigo
quinto) recebendo-o por fé a qual não é carnal.

IX. Cremos que o batismo é Sacramento de penitência, e como uma entrada na


Igreja de Deus, para sermos incorporados em Jesus Cristo. Representa-nos a
remissão de nossos pecados passados e futuros a qual é adquirida plenamente
só pela morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Demais a mortificação de nossa
carne aí nos é representada, e a lavagem representada pela água lançada
sobre a criança, é sinal e selo do sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é
a verdadeira purificação de nossas almas. A sua instituição nos é ensinada na
Palavra de Deus, a qual os santos Apóstolos observaram, usando de água em
nome do pai, do Filho e do Espírito Santo. Quanto aos exorcismos, abjurações
de satã, crisma, saliva e sal, nós o registramos como tradições do homens,
contentando-nos só com a forma e instituição deixada por Nosso Senhor Jesus
Cristo.

X. Quanto ao livre arbítrio, cremos que, se o primeiro homem, criado à imagem


de Deus teve liberdade e vontade, tanto para bem como para mal, só ele
conheceu o que era livre arbítrio, estando em sua integridade. Ora, ele nem
apenas guardou este dom de Deus, assim dele foi privado por seu pecado, e
todos os que descendem dele, de sorte que nenhum da semente de Adão tem
uma centelha do bem. Por esta causa diz São Paulo, que o homem sensual
não entende as coisas que são de Deus. E Oséias clama aos filhos de Israel:
“Tua perdição é de ti ó Israel”. Ora isto entendemos do homem que não é
regenerado pelo Santo Espírito. Quanto ao homem cristão, batizados no
sangue de Jesus Cristo, o qual caminha em novidade de vida, Nosso Senhor
Jesus Cristo restitui nele o livre arbítrio e reforma a vontade para todas as boas
obras, não, todavia, em perfeição, porque a execução de boa vontade não está
em seu poder mas vem de Deus, como amplamente este Santo Apóstolo
declara no sétimo capítulo aos Romanos, dizendo: “Tenho o querer mas em
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 63

mim não acho o perfazer”. O homem predestinado para a vida eterna, embora
peque por fragilidade humana, todavia não pode cair em impenitência. A este
propósito, São João diz que ele não peca porque a eleição permanece nele.

XI. Cremos que pertence só à Palavra de Deus perdoar os pecados, da qual


como diz Santo Ambrósio, o homem é apenas o ministro; portanto, se ele
condena ou absolve, não é ele mas a Palavra de Deus que ele anuncia. Santo
Agostinho neste lugar diz que não é pelo mérito dos homens que os pecados
são perdoados, mas pela virtude do Santo Espírito. porque o Senhor dissera a
seus Apóstolos: “recebei o Santo Espírito”; depois acrescenta: “Se perdoardes
a algum, seus pecados” etc. Cipriano diz que o servidor não pode perdoar a
ofensa contra o Senhor.

XII. Quanto à imposição das mãos essa serviu em seu tempo, e não há
necessidade de a conservar agora, porque pela imposição da mãos não se
pode dar o Santo Espírito, porquanto isto só a Deus pertence. Tocante à ordem
eclesiástica, cremos no que São Paulo dela escreveu na primeira Epístola a
Timóteo, e em outros lugares.

XIII. A separação entre o homem e a mulher legitimamente unidos por


casamento não se pode fazer senão por causa de adultério, como Nosso
Senhor ensina. Mateus, capítulo dezenove verso cinco. E não somente se pode
fazer a separação por essa causa, mas, também, bem examinada a causa
perante o magistrado, a parte não culpada não se podendo conter, pode casar-
se, como Santo Ambrósio diz sobre o capítulo sete da primeira epístola aos
Coríntios. O magistrado, todavia, deve nisto proceder com madureza de
conselho.

XIV. São Paulo, ensinado que o bispo deve ser marido de uma só mulher não
diz que lhe seja lícito tornar-se a casar, mas o Santo Apóstolo condena a
bigamia a que os homens daqueles tempos eram muito afeitos. Todavia nisso
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 64

deixamos o julgamento aos mais versados nas Santas Escrituras, não se


fundando a nossa fé sobre esse ponto.

XV. Não é licito votar a Deus senão o que ele aprova. Ora, é, assim, que os
votos monásticos só tendem à corrupção do verdadeiro serviço de Deus. É
também grande temeridade e presunção de o homem fazer votos além da
medida de sua vocação, visto que a Santa Escritura nos ensina que a
continência é um dom especial. Mateus quinze e primeira Epístola de São
Paulo aos Coríntios, sete. Portanto, segue-se que os que se impões esta
necessidade renunciando ao matrimônio toda a sua vida não podem ser
desculpados de extrema temeridade e confiança excessiva e insolente em si
mesmos. E por este meio tentam a Deus visto que o dom da consciência é em
alguns apenas temporal e o que o teve por algum tempo não terá pelo resto da
vida. Por isso, pois, os monges, padres e outros tais que se obrigam e
prometem viver em castidade tentam contra Deus por isso que não esta neles
cumprir o que prometem. São Cipriano, no capítulo onze diz assim: “Se as
virgens se dedicam de boa vontade a Cristo perseverem em castidade sem
defeito; sendo assim fortes e constantes esperem o galardão preparado para
sua virgindade; se não querem ou não podem perseverar nos votos, é melhor
que se casem que serem precipitadas no fogo da lascívia por seus prazeres e
delicias. “Quanto à passagem do Apóstolo Paulo, é verdade que as viúvas,
tomadas para servi à igreja, se submetiam a não mais casar, enquanto
estivessem sujeitas ao dito cargo, não que por isso se lhes reputasse ou lhes
atribuísse alguma santidade, mas porque não se podiam bem desempenhar de
seus deveres, sendo casadas e, querendo casar renunciassem à vocação para
que Deus as tinham chamado, contudo que cumprissem as promessas feitas
na Igreja, sem violar a promessa feita no batismo, na qual esta contido este
ponto: “Que cada um deve servir a Deus na vocação em que foi chamado”. As
viúvas, pois, não faziam voto de continência, senão no que o casamento não
convinha ao oficio para que se apresentavam e não tinham outra consideração
que cumpri-lo. Não eram tão constrangidas que lhes não fosse antes permitido
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 65

casar-se que abrasar-se e cair em alguma infâmia ou desonestidade. Mais:


Para evitar tal inconveniente, o Apóstolo São Paulo, no capítulo citado, proíbe
serão recebidas para fazerem tais votos sem que tenha a idade de sessenta
anos, que é uma idade comumente fora da incontinência. Acrescenta que os
eleitos só devem ter sido casados uma vez, a fim de que por essa forma,
tenham já uma aprovação de continência.

XVI. Cremos que Jesus Cristo é o nosso único mediador, intercessor e


advogado, pelo qual temos acesso ao Pai e que, justificados no seu sangue
seremos livres da morte e por ele já reconciliados teremos plena vitória contra
à morte, Quanto aos santos defuntos, dizemos que desejam a nossa salvação
e o cumprimento do Reino de Deus, e que o número dos eleitos se complete;
todavia, não nos devemos dirigir a eles como intercessores para obterem
alguma coisa, porque desobedeceríamos o mandamento de Deus. Quanto a
nós, ainda vivos, enquanto estamos unidos como membros de um corpo,
devemos orar uns pelos outros, como nos ensinam muitas passagens das
Santas Escrituras.

XVII. Quanto aos mortos São Paulo na Primeira Epístola aos Tessalonicenses,
quarto capítulo, nos proíbe entristecer-nos por ele, porque isto convêm aos
pagãos, que não tem esperança alguma de ressuscitar. O Apóstolo não manda
e nem ensina a orar por eles o que não teria esquecido se fosse conveniente.
Santo Agostinho, sobre o Salmo quarenta e oito diz que os espíritos dos mortos
recebem conforme o que tiverem feito durante a vida; que, se nada fizeram,
estando vivos nada recebem estando mortos.

Esta é a resposta que damos aos artigos por vós enviados segundo a medida e
porção da fé que Deus nos deu, suplicando que lhe praza fazer que em nós
não seja morta, antes produza frutos dignos de seus filhos, e, assim, fazendo-
nos crescer e perseverar nela, lhe rendamos graças e louvores para sempre
jamais.
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Assim seja. Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon, André La-
Fon.48

O Brasil Holandês: (1630-1654)49

Ao final do século XVI (1568) as Províncias Unidas do norte dos Países Baixos
se organizaram em uma republica50 libertando-se assim do poder espanhol51,

48
Cf. CRESPIN, Jean., A Tragédia de Guanabara ou: História dos protomartyres do
Christianismo no Brasil, Rio de Janeiro. Pimenta de Mello & C., 1917, p. 65-71.
49
BASTIAN, op. cit., p.54-56.
50
Após alcançar a independência da coroa espanhola, a Holanda apareceu no cenário europeu
como uma pujante potência marítima. Sua marinha começou a explorar os mares almejando o
grande comércio, competindo diretamente com os portugueses e espanhóis. Tal fato deu
origem à Companhia das Índias Orientais. A Companhia das Índias Orientais teve desde o
princípio um propósito missionário. Seguindo as antigas teorias dos reformadores, as missões
deviam estar a cargo do poder civil, e por esta razão foi a companhia e não a Igreja
responsável em organizar o trabalho missionário. Ainda que era a Igreja quem ordenava os
missionários, seu trabalho era dirigido e contratado pela Companhia das Índias. Devido à
escassez de pessoas preparadas para este tipo de trabalho, se fundou na cidade de Leiden,
no ano de 1622, um “Seminariun Indicum” que se dedicou à preparação de missionários para
as Índias; porém esta instituição não teve mais de uma dezena de anos de vida. A maioria dos
missionários contratados pela Companhia das índias não se dedicava tanto à pregação aos
não crentes como a edificação e o cuidado espiritual dos colonos holandeses. Porém, ainda
assim ouve lugares nos quais os missionários conseguiram grande número de conversos. A
zona do globo onde as missões holandesas tiveram maior permanência foi o Oriente. Em Java,
Ceilão, as Molucas e Formosa os missionários holandeses conseguiram estabelecer fortes
comunidades evangélicas. Nestes lugares se seguiu o procedimento de conversões em massa
que temos encontrado repetidamente em nossa história. Conta-se por exemplo, que um rei de
Timor se uniu à Igreja com todos os seus súditos. Porém, pagava-se aos missionários uma
quantidade por cada batismo realizado, e por essa razão alguns dos menos escrupulosos
tendiam a administrar o batismo sem preparar em modo algum a quem recebiam. É importante
ter em conta este fato para notificar-nos de que, em suas origens, as missões protestantes não
buscavam sempre a conversão de indivíduos, nem insistiam na instrução catequética antes do
batismo. Os holandeses também se estabeleceram na América do Sul. Após uma breve
incursão à Bahia, estabeleceu no ano de 1630 uma colônia em Pernambuco que durou pouco
mais de trinta anos. Em nenhum destes dois casos ouve resultados permanentes no que a
missão se refere. Enquanto a colônia holandesa de Suriname, os próprios holandeses não
parecem haver-lhes prestado grande importância ao trabalho missionário entre os índios e os
escravos negros, e foi necessário o impulso morávio para que se começassem uma missão
vigorosa entre eles. A obra de Justiniano von Weltz na região não parece haver tido grande
êxito. Justo L. Gonzalez, Historia de las Missiones, Buenos Aires: Editorial La Aurora, s/d,
p.190 -191
51
“Filipe II, preocupado com a idéia de ter nos seus domínios uma só religião, pretendeu levar
em todos eles avante aquela idéia, sem deter-se nos meios. Encontrou, porém, nos Países
Baixos resistência nos povos, e seguiram-se motins, dos quais tirou o rei justificado pretexto
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sob a condução do príncipe Guillermo de Orange Nassau (1533-1584). Ao


libertar-se do poder espanhol se passou também a adoção do calvinismo 52
como religião do estado no Sínodo de Dordrecht (1619)53. A jovem republica

para contra eles enviar tropas espanholas, às ordens do Duque de d‟Alba. A carnificina
começou; mas a reação apresentou-se temível, e dentro de pouco teve um digno chefe. Tal foi
o príncipe d‟Orange. Seguiu-se, como era natural, a guerra; e nela as províncias Unidas se
conduziram com tanta energia que chegaram a tomar, com grande vantagem, a ofensiva, tanto
no mar, como nas colônias de Espanha. Cansados primeiro na luta os opressores do que os
oprimidos, foi ajustada uma trégua de doze anos. Celebrou-se ela em 1609, reinando já Filipe
III, e de tal modo foi redigida que não compreendeu nenhuma cláusula, ressalvando de todo as
hostilidades contra as colônias portuguesas. Desta falta se aproveitaram logo os holandeses,
caindo sobre a Índia portuguesa, e apoderando-se quase de todo o comercio do Oriente. Ao
mesmo tempo avivaram suas hostilidades contra o do Brasil, de forma tal que ano houve (o de
1616) em que chegaram a apoderar-se de vinte e oito navios da sua carreira. Recomendou a
metrópole, por várias vezes, a execução das ordens dadas no reinado de D. Sebastião, afim de
que os navios para as conquistas navegassem armados, mas com isso não fez mais do que
dar ao inimigo as mais valiosas e requestadas presas.” Francisco Adolfo Varnhagen, História
das Lutas com Os Holandeses no Brasil: Desde 1624 a 1654, São Paulo, Edições Cultural,
1943, p.51
52
Francisco Gomarus (1563-1641) foi o principal teólogo que se opôs às chamadas doutrinas
liberais calvinistas defendidas por Jacobus Arminius (1560-1609), professor da Universidade de
Leide. Arminius atacava a doutrina da predestinação, dogma essencial da Igreja reformada de
Calvino. Em 1610, os partidários de Arminius (arminianos) apresentaram uma Remonstrance
de suas opiniões religiosas, a qual foi rejeitada pelos sectários da predestinação. Da
Remonstrance se originou o nome de Remonstrantes, atribuído aos correligionários de
Arminius. A disputa religiosa, como acontecia naquela época, não se limitou às questões
teológicas, mas foi a causa direta, segundo entende a maioria dos historiadores holandeses, do
golpe de estado de 1618, durante o qual foi executado Oldenbarneveldt, o principal líder
político de então, e exilados grandes vultos como Grotius e Barlaeus. A controvérsia foi
decidida pelo Sínodo de Dordrecht (1618-1619), no qual a Contra-Remonstrance triunfou e,
com ela, a predestinação, dogma de indiscutível importância nos países mais cultos da época,
como a Inglaterra, Holanda e França e de incontestável valor, segundo Max Weber, para a
formação do capitalismo. RODRIGUES, op. cit., p.29.
53
“A nação holandesa, como antítese entre a cultura germânica e as culturas românicas,
existiu antes que o Estado neerlandês se formasse. Outra idéia que nos parece valiosa
sugestão é a de que a Companhia das Índias Ocidentais foi um fruto da Contra-Remonstrãncia.
Decidida em 1619 pelo Sínodo de Dordrecht a ortodoxia calvinista com o exílio e morte dos
principais partidários da Remonstrantie (calvinistas mais moderados na questão da
predestinação), entre os quais Oldenbarneveld, Hugo de Grotius, Gaspar Barlaeus, etc.,
ficavam os ortodoxos, os que confiavam na predestinação, com todas as suas conseqüências
sociais, livres de peias, para organizarem a luta pela expansão capitalista e imperial dos Países
Baixos. O combate, não por estranha coincidência, veio a se ferir num dos centros coloniais
mais importantes do império luso-espanhol, católico e romano, ou papista como diriam. A
Companhia das índias Ocidentais, criação dos calvinistas mais ortodoxos, foi uma das
primeiras sociedades anônimas, surgidas nas origens do capitalismo. Ela servia especialmente
a dois fins desejados pelos calvinistas da Contra-Remonstrância: primeiro, atacar o principal
inimigo católico; e segundo: satisfazer aos desejos e interesses da burguesia nascente que,
com Willem Usselincx como seu principal representante, pretendia não só repudiar a jurisdição
espiritual estrangeira para atender ao apelo da Reforma, como romper com todos os traços
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 68

praticou uma política ativa de tolerância religiosa que contrastava com a


tradição espanhola e que fez do país um refúgio para todos os grupos
religiosos protestantes ou não, perseguidos em outros países da Europa. A
conformação deste espaço político independente teve lugar quando se
estruturava uma economia mercantil a nível mundial. No inicio do século XVII
os marinheiros holandeses, aliados aos ingleses, dominaram os oceanos e
ampliaram suas relações comerciais com o mundo inteiro54. No Caribe, no
inicio da trégua com a Espanha, as províncias Unidas acordaram organizar a
Companhia das Índias Ocidentais com o fim de promover seus interesses
comerciais com o Atlântico. Nas palavras de Varnhagen o principal autor e
sustentador do plano para a formação da nova Companhia (ocidental) foi
Guilherme Usselincx:

“Figurou, porém, como principal autor e sustentador desse plano de


hostilidades, iniciado já alguns anos antes, o célebre Guilherme

feudais para lançar-se, cheia de aventura e perigo, ao mundo novo e capitalista que nascia.”
RODRIGUES, op. cit., p. 29-30
54
“A expansão holandesa para a América, impulso lento e demoradamente realizado, mais por
força do espírito capitalista e calvinista que invadira a alma neerlândica do que por desejo de
aventura quixotesca, tem atraído o interesse de muito estudiosos sério, a cobiça de muitos
antiquário e a opinião de muito intelectual desocupado de assunto. Vencendo obstáculos
imensos, destruindo posições fortificada, cheia de si e de capital, a Holanda impõe-se, durante
o reinado de Frederico Henrique (1625-1647), como força preponderante na política colonial da
Europa. Navegando por mares já dominados, comerciando e traficando com povos já
conquistados, ela soube fazer respeitar a força de seu capital e o império das suas armas. Não
foi por vontade ou por força de desordens e injustiças, que nações européias quebraram, no
século XVII, antigas amizades para iniciar perpétuas contendas. Datam daí, desse século, o
fracasso econômico e político das nações pouco aburguesadas ou sem capitais e o erguimento
das que, por razões já bem estudadas, puderam remeter às armas as dúvidas e disputas sobre
colônias. Preocupada em estender seu comércio, como capitais abundantes, usando em larga
escala do crédito, disputando o mar, fabricando e exportando para as nações detentoras de
colônias, como Portugal, e a Holanda tornou-se, em pouco, senhora do comércio mundial. O
zelo católico tinha a fraqueza da época, como o zelo protestante a fraqueza da imaturidade.
Um queria excluir e expelir os heréticos numa cruzada que distraía os interesses nacionais, e
persistia no erro medieval de só tolerar uma religião. O outro insistia na imposição à força não
só de uma nova religião como de novas formas sociais e econômicas. Um expelira de suas
terra as classes libertas do feudalismo e adaptadas ao capitalismo nascente; outro, rompendo
todas as peias dos sistemas antigos, aceitava a iniciativa privada e destruíra o depotismos dos
reis sujeitos aos Estados, como na experiência holandesa, ou ao Parlamento como na
experiência Inglesa: de qualquer modo ao poder corporificado da nação.” José Honório
Rodrigues, Historiografia e Bibliografia do Domínio Holandês no Brasil, Rio de Janeiro:
Departamento de imprensa Nacional, 1949, p. 3.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 69

Usselincx. Propôs e defendeu este a idéia da formação de uma nova


companhia, semelhante à Oriental, que na Índia havia adquirido
tantos lucros e vantagens. Apesar da resistência que à formação da
nova companhia opuseram os interessados na Oriental, influentes
nas municipalidades, e menos favoráveis ao poder dominante, vingou
afinal o plano, e aos 3 de janeiro de 1621, ano em que justamente
acabava o prazo da trégua ajustada por doze anos, se outorgava a
patente para a criação da nova companhia do comércio. Era
concedido à mesma companhia por vinte e quatro anos o monopólio
do comércio da América e África, com o direito de nomear
governadores, concluir pactos com os moradores e construir
fortificações.55

Em 1623, a Companhia sentiu-se suficientemente forte para organizar uma


primeira expedição ao Brasil, selecionando a Bahia de São Salvador 56 como
ponto de desembarque. Esta Bahia estava momentaneamente sob o controle
espanhol e assim se pode justificar a guerra contra a Espanha. O ataque à
Bahia em maio de 1624 teve êxito, porém um ano mais tarde depois de
assegurar uma presença inconstante, os holandeses foram derrotados sem
dificuldades. No entanto, a Companhia seguiu suas ações corsárias como
quando se apoderou da frota espanhola das Índias na Bahia de Matanzas,
Cuba, em 1628 e tomou o carregamento de prata. Os acionistas da Companhia
frente a tanto êxito resolveram reinvestir seus lucros em novas expedições e

55
VARNHAGEN, op. cit., p.52
56
“Quando chegou ao Brasil a notícia dos intentos hostis da expedição holandesa, estava de
governador na Baía Diogo de Mendonça Furtado, que havia acerca dela recebido avisos
diretos da metrópole, com ordens mui antecipadas para fortificar especialmente as entradas
dos portos da Baía e do Recife. Para dar o devido cumprimento a tais ordens teve o
governador que arbitrar uma nova contribuição; e apesar de ter encontrado na cobrança dela
alguma oposição, seguiu providenciando acerca da defesa da Baía o melhor que soube; fez
guarnecer de artilharia os fortes já feitos; levantou outro novo em uma lage que havia no porto
em frente da cidade, e que veio a receber o nome e invocação de Nossa Senhora do Pópulo e
S. Marcela; mas que então tinha apenas à flor d‟água uma cerca de fachina e de cestões, dos
quais alguns ainda vazios.” Idem, Ibidem, p.56
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 70

decidiram considerar de novo o projeto de assentamento no Brasil57, porém


desta vez não a Bahia que se havia fortificado consideravelmente, mas o norte
de Pernambuco.

Em fevereiro de 1630 caiu em suas mãos o porto de Recife e pouco depois os


holandeses capturaram Olinda assegurando assim o domínio de Pernambuco
por uns 24 anos. Seu controle se estendeu em 1634 da Paraíba e Guiana e
para o ano de 1641 os holandeses dominaram 14 capitanias no nordeste
Brasileiro, porém a maioria do domínio muito precário diante aos constantes
ataques portugueses.

A guerra contra a Espanha e Portugal teve implicações profundamente


religiosas nestes anos prévios à paz de Wesfalia (1648) que asseguraria certo
conforto religioso europeu sob o principio de “ejus regio, cujus religio”. Portanto
o projeto de colonização holandesa no Brasil teve um comportamento religioso
na medida em que a tradição reformada calvinista se tornou a religião do Brasil
holandês, porém o marco de uma tolerância religiosa similar à da metrópoles
tanto havia o judaísmo como havia o catolicismo. A colônia holandesa do Brasil
se consolidou com a chegada em 1637 do príncipe João Maurício de Nassau-
Siegen. Alguns historiadores calculam que para 1640 o Pernambuco holandês
contava com uns 90.000 habitantes dos quais uma terça parte eram
portugueses, outra terça parte era de escravos negros, um sexta parte de
indígena e somente a ultima sexta parte (uns 15.000) se compunha de
holandeses e seus aliados europeus.

João Maurício de Nassau-Siegen.58

57
Cf. GUEDES, João Alfredo Libânio. & RIBEIRO, Joaquim., A União Ibérica, Administração
do Brasil Holandês, Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1983, p. 317. “O tipo de
administração inaugurado pelos holandeses no Brasil difere substancialmente dos tipos
tentados pelos portugueses (sistema de feitorias, sistema de capitanias hereditárias e sistema
de centralização e capitanias da coroa), todos subordinados diretamente ao imperium
governamental. A administração holandesa, ao contrário da tradição luso-espanhola, filia-se à
direção de uma companhia, no caso, companhia das índias Ocidentais.”
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 71

João Maurício de Nassau-Siegen, permaneceu no Brasil de 1637 à 1644,59


calvinista praticante, protetor das artes60, apoiou a criação de uma estrutura
religiosa calvinista modelada a partir das igrejas da metrópoles. Ao longo dos

58
“Alguns grandes inconvenientes que a metrópole holandesa havia notado pela falta de
unidade no governo da sua nova Conquista e a certeza de que tais inconvenientes se fariam
mais sensíveis agora que a mesma Conquista se havia estendido tanto e ia carecer de maior
guarnição e de um maior número de empregados, fizeram nascer na mesma metrópole a idéia
de confiar dela o mando a um chefe superior de prestigio, com a autoridade e título de
“Governador capitão general e almirante de terra e mar”, sendo auxiliado pelas luzes de três
conselheiros supremos íntimos, cujas reuniões presidiria com voto de qualidade em caso de
empate, Além deste conselho supremo, haveria outro conselho político, de nove membros, que
seriam empregados como auxiliares em vários ramos da administração. Ao pensamento desta
nova organização se associou, desde logo, a idéia de que o chefe mais a propósito seria o
conde de Nassau, João Maurício, primo do Stadthouder príncipe d‟Orange, e de que, como
conselheiros íntimos deviam ficar, os dois que já estavam, Ceuelen e Gysselingh, agregando-
se-lhes um novo, Adrian van der Dussen. No dia 2 de agosto de 1636, foi a oferta feita a
Nassau, para durar cinco anos, com a retribuição de mil e duzentos florins por mês e 2 % de
todas as presas; e sendo a mesma oferta por ele aceita, se tratou de redigir, com sua
aquiescência, um regulamento para o governo da colônia, constante de 99 artigos, que leva a
data de 23 desse mencionado mês de agosto.” Idem, ibidem, p.159-160.
59
“Os Estados Gerais aprovaram o regulamento, elaborado pelos dirigentes da Companhia das
Índias Ocidentais de 23 de agosto de 1636, para servir de instrução não só para o novo
Statthalter, como para os nossos conselheiros secretos. Estes regulamentos podem ser
considerados a Carta Magna do Brasil holandês. As atribuições de Nassau e do Conselho
secreto foram discriminadas, sem obscuridades e com precisão de termos, Competia ao
governador, capitão e almirante-general : a)presidir o Alto Conselho Secreto; b) Nomear os
comandantes das fortalezas; c) Nomear dos regimentos; d) nomear oficiais, de alferes para
cima; e) Nomear o “almirante da costa brasileira”, mediante aprovação do Conselho dos XIX; f)
Criar novos postos administrativos, mediante a aprovação do Diretório-Geral da Companhia
das Índias Ocidentais; e, g) estabelecer aumento de salários, mediante a aprovação do
Diretório-Geral da Companhia das Índias Ocidentais. Competia ao Alto Conselho Secreto: a)
cooperar com o governador, capitão e almirante-general; b) aconselhar o mesmo nas difíceis
operações bélicas em mar ou em terra; c) opinar sobre o estabelecimento das fortificações; d)
opinar sobre a distribuição dos contingentes militares na colônia; e, e) promover a fiscalização
suprema dos negócios judiciários financeiros, exercendo esse poder diretamente sobre as
autoridades locais.” Cf. Joaquim Ribeiro, Administração do Brasil Holandês, Brasília: Editora
Universidade de Brasília, 1983, p. 362-363.

59“ E não só a arquitetura foi protegida por Nassau, como também a pintura; e de seu tempo
são talvez os primeiros quadros a óleo, que do natural se fizeram acerca de assuntos do Brasil,
e talvez da América. Francisco Post, irmão do mencionado arquiteto, e ambos filhos do pintor
de vidraças João Post, de Harlem, fora o indivíduo a quem Maurício de Nassau escolhera para
trazer consigo. A ele se devem muitos desenhos de paisagens e marinhas que ornam as obras
holandesas contemporâneas: e nas estampas da obra de Barlaeus se vê algumas vezes sua
firma. Nos museus da Holanda e nos de Hamburgo, Berlim e Praga, se conservam ainda
quadros que pintou, dois dos quais passaram à Baviera, e ai se guardam; e naturalmente
outros países e esboços se vêem na preciosa coleção de uns mil quatrocentos e sessenta
desenhos originais do Brasil, que (em quatro volumes) existem na biblioteca real de Berlim, por
haver ido cedidos por Maurício ao príncipe Frederico de Brandeburgo. Idem. ibidem, p.168.
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24 anos de existência da colônia se organizaram umas 22 congregações e


igrejas constituídas, as mais importantes foram de Recife e Olinda61. Poucas se
estabeleceram em povoados indígenas como por exemplo em 1641 na região
da Paraíba que contava com três delas.

Nas cidades se recuperaram os templos católicos que foram transformados em


“reformados” segundo a pratica européia, tal como ocorreu à Igreja da Sé em
Olinda e à de São Pedro Guacabás em Recife. Ainda que as pregações se
faziam em holandês não se excluiu o uso do Inglês e do francês
particularmente em Recife para benefícios dos anglicanos e os huguenotes.
Alguns cultos, seguiram a tradição reformada, haviam sido celebrados durante
a primeira ocupação da Bahia em maio de 1624; No entanto, somente em 1630
que seguiu uma verdadeira organização religiosa com uns 50 pastores que
trabalharam em diferentes momentos da colonização holandesa. Se
estabeleceu um consistório, organismo de gestão e decisão eclesiástica
segundo o modelo das igrejas reformadas holandesas que teve, umas 19
sessões a nível de presbitério e 4 a nível de sínodo entre 1636 e 1648, todas
realizadas na cidade de Recife, centro político da economia.

Ainda que a atividade religiosa não foi exclusiva para os holandeses e se dirigiu
para os portugueses católicos, judeus, escravos negros e indígenas, a

61
“Já antes do início da colonização um dos seus idealizadores, o flamengo Willem Usselincx,
havia ressaltado a importância de plantar no Brasil a verdadeira religião, “para conduzir muitos
milhares de pessoas à luz da verdade e a eterna bem-aventurança.” A formação de paróquias
reformadas seguiu de perto as conquistas territoriais, sendo que a maior e mais prestigiosas
dessas paróquias, a do Recife, tomou em 1636 a iniciativa para uma organização regional, a
classe, que formalmente dependia dos sínodos provinciais nos Países Baixos. As atas das
assembléias classicais, em número de nove até 1644, são a nossa principal fonte de
informação sobre o protestantismo colonial. Elas mencionam um total de 33 ministros ou
predicantes, dos quais 19 estavam simultaneamente em função no período de maior expansão
territorial (1641-1643). Segundo a tradição reformada, os conselhos paroquiais no Brasil eram
integrados por anciãos - com atribuições preponderantemente administrativas – e diáconos,
encarregados estes da assistência aos necessitados. Um ministério especial era o dos
consoladores de enfermos, que além das visitas pastorais também se ocupavam com a
catequese e, em caso de emergência, com o ensino.”
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 73

evangelização não foi sistemática nem massante devido ao contexto de


tolerância religiosa.
Durante a época holandesa a situação político-religiosa tendeu à formação de
uma teocracia cristã reformada62 que incluiu um elevado grau de liberdade
religiosa, tanto de consciência como de culto para os não reformados. Não há
que duvidar que em termos gerais nas colônias inglesas, holandesas se
“impôs o sistema lento de doutrinação: sistema que estava empenhado em
convencer os índios (e negros) no caminho estritamente individual e
racionalista (não emocional) de salvação.” Se tratava de encaminhar e não de
salvar as almas “dado que este último era resultante de uma ação generosa,
misteriosa e gratuita do Senhor quem dava a luz e a fé a um, e negava a
outro”. Depois da expulsão dos holandeses se restabeleceu uma teocracia
católico-romana que não permitia a liberdade religiosa e que se sentia obrigada
a destruir a vida dos que não estivessem dispostos em aceitar seu
pensamento.

O Conde de Nassau partiu de Pernambuco para Holanda no mês de Maio de


mil e seiscentos e quarenta e três.63

62
“Este período se caracterizou por uma ampla tolerância religiosa. Esta, de uma lado, se
impunha ao governo como sendo a única maneira para ganhar a benevolência da população
portuguesa; de outro lado porém os holandeses já estavam se conscientizando, tanto no Brasil
como nos Países Baixos, de que a tolerância merece ser promovida como um bem em si. Os
católicos gozavam de liberdade para exercerem seu culto e manterem relações oficiais com a
sede episcopal da Bahia. As sinagogas e escolas talmúdicas do Recife eram as primeiras que
apareceram no Novo Mundo, e João Maurício fazia questão de proteger os judeus mesmo
contra as reclamações da Igreja Reformada.
63
“Chegou o dia em que o Conde de Nassau se partiu de Pernambuco para Holanda, que foi
no mês de Maio de mil e seiscentos e quarenta e três, e foi por terra a se embarcar na Paraíba,
e na jornada o acompanharam todos os do governo; e muitas das pessoas graves dos
portugueses por se mostrarem agradecidos a alguns favores que haviam recebido de suas
mãos; e ao sair-se do Arrecife toda a infantaria Holandesa se pôs em ala, e deu três surriadas
de mosquetaria, e todas as fortalezas da terra, e naus que partiu com as lágrimas nos olhos,
mostrando o sentimento de se apartar de Pernambuco aonde havia adquirido a mãos lavadas
tanta cópia de ouro. Gaspar Dias Ferreira, saiu de sua casa por outro caminho que foi por as
salinas acompanhado de uma dúzia de mosqueteiros, porque temeu que nesta água envolta
algum dos portugueses, ou Holandeses agravados lhe pusesse as mãos, e a boa vontade, e
tomasse dela vingança, e se foi a unir no caminho com o Conde Nassau, de cuja ilharga nunca
jamais se apartou até dar à vela na Paraíba; porém quando se despediu de sua casa, vendo
que nenhum Português o visitava, nem lhe dava as boas idas, disse mui sentido: Nunca
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 74

“De volta do Ultramar, já se acha Nassau entre nós e já os holandeses saúdam


o general que regressou. Não o queimou ainda de todo o ardente Febo, e
assim o mostra a antiga alvura e, com os vestígios da cor nativa, conserva
também os traços da sua primeira retidão. partira, como guerreiro, para o
hemisfério ocidental e para as tuas terras, cansado Sol. A ele que se arrojava à
glória, não lhe pareceu bastante a Europa e a parte do orbe que, primeiro, foi
abalada pela fama dos seus. Foi-lhe preciso ir buscar no mundo bárbaro o
adversário ibero, e aos deuses súperos aprouve que, no próprio Ocidente, se
vencesse o rei da Ásia e os Filipes, soberanos de tantos senhorios. Ali abre a
imensa terra, propícia para os troféus; ali se estendem, por vastas regiões,
reinos e campos, onde se mostra terrível a fereza de seu nus habitadores.”64

Os Princípios da Igreja Reformada Holandesa.

A chave para a compreensão da ação pastoral e missionária dos holandeses


no Brasil é o conceito calvinista de teocracia, isso é, o desejo de subordinar
todos os aspectos da vida, tanto particular como pública, aos mandamentos de
Deus expressados na Sagrada Escritura. A realização de tal desejo dependia
da interação entre o ministério eclesiástico, que era essencialmente ministério
da Palavra, e a autoridade civil, cujo dever era regulamentar a vida pública
conforme as normas da Palavra. A partir deste princípio se explica,
primeiramente, o costume da censura morum: o exame periódico do
comportamento dos predicantes, que devia ser exemplar para toda a
cristandade. Explica-se também o zelo das assembléias classicais pela
integridade da vida matrimonial, tanto dos holandeses, expostos a todas as
tentações da sociedade colonial, como dos negros e índios, acostumados já a

imaginei que tinha tantos inimigos, como agora o vejo por experiência. Deixou este homem mui
pouca saudades na terra, e levou consigo muitas pragas de pobres.” Frei Manuel Calado, O
Valoroso Lucideno, São Paulo: Edições Cultural, 2.ª edição, 1.ª parte, 1.º Tomo, livros: I,II,III,
1945, p.262
64
BARLÉU, Gaspar., História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no
Brasil. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia; São Paulo, Ed. da Universidade de São Paulo, 1974, p.
351.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 75

contínuas irregularidades. Foi melhorada a Legislação de tal modo que, por


exemplo, o negro escravo não mais podia mudar de dono sem que sua mulher
o acompanhasse na transação. Não menos significativos para a teocracia
calvinista era o empenho na observação do descanso dominical, empenho este
que a seu modo também melhorou a posição dos negros.

Atitude dos Holandeses para com os Negros e a Escravidão.

Ao chegarem a Pernambuco os holandeses já encontraram um intenso tráfego


de navios negreiros entre o Brasil e a África. Alguns historiadores levantam a
hipótese que os primeiros escravos chegaram a Pernambuco provavelmente
no terceiro decênio do século XVI.

Somente no século XVII os holandeses passaram a enfrentar o problema do


tráfico de negros escravos. A formação religiosa dos Países-Baixos acolheu
com muita dificuldade e reservas a escravidão. O grande administrador Willem
Usselincx, mostrava-se contrário ao trabalho escravo. Este quadro sofreria
profundas alterações, principalmente após ocupação holandesa em regiões
da África. O que pode ter contribuído para à aceitação de escravos pelos
holandeses foi o grande comércio de escravos realizado na África por
portugueses e espanhóis.

Esta prática apesar de reprovável, oferecia grandes lucros. Ainda que os


holandeses haviam preferido radicar nas cidades como Recife e Olinda, pois
as grandes propriedades permaneciam em mãos dos portugueses, e se havia
dedicado com mais intensidade ao comércio, ”Brasil português e o Brasil
holandês não apresentaram diferença enquanto regime de produção e de
distribuição de riqueza. A diferença estava na religião.” Os holandeses
chegaram com a ética calvinista, reforçando a dignidade do trabalho e da
santidade da vocação, buscando substituir o trabalho servil por trabalho livre.
Porém, como a população holandesa se concentrou nas cidades, se viram
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 76

obrigados por pressões dos interesses econômicos mais fortes que a moral de
Calvino” a recapturar os escravos fugitivos por falta de mão de obra nos
campos de cana de açúcar.

Em contato com as necessidades dos engenhos e da própria vida da colônia,


os holandeses foram pondo de lado os escrúpulos no que tange à escravidão.
É bem verdade que chegaram a pretender substituir o trabalho escravo pelo
trabalho livre. O parecer do Supremo Conselho dizia:

“achamos que os engenhos devem ser laborados por homens


brancos, mas que da Holanda não há aparência que tais
trabalhadores possam ser esperados, assim como de Portugal e por
isso devemos servir-nos dos negros”.

Em 1638 não se colocava mais restrição à escravidão de negros; o Conselho


Eclesiástico ao pretender educar os escravos na religião reformada, achou
dispensável “cogitar-se atualmente se é lícito a um cristão comprar e vender
negros para escravizá-los”. E no mesmo ano já se dizia: “sem escravo não é
possível fazer alguma coisa no Brasil...e por nenhum modo podem ser
dispensados: se alguém se sentir nisto agravado, será um escrúpulo inútil”. E
não se sentiram agravados, de modo nenhum, os holandeses. Pelo contrário,
atendendo às necessidades da industria açucareira, procuraram, logo que
vencidos os últimos focos de resistência pernambucana, em 1635, iniciar o
tráfico de escravos africanos.65

65
“As Dagelijksche Notulen indicam os enormes carregamentos de pretos transportados em
naus e mesmo em simples yachts. O número de negros é verdadeiramente fantástico se
considerarmos o tamanho desse navios e yachts, muitos deles de 100 toneladas. Os maiores,
de 400. Em navios desse porte era comum serem embarcados 300, 400, 500 e mesmo 600
negros, além da tripulação, geralmente de 30 a 35 pessoas. Yachts como o “de Groote Gerrit”,
o “Heemstede”, ou o “de Brack”, aventuraram-se a cruzar o Atlântico levando a bordo 227, 250
e 300 negros, respectivamente. Navios de maior porte traziam de uma só vez 341, 349, 450 e
602, como fizeram os “de Leeuwinne”, o “Matança”, “de Witte Hoop”, “de Swaen”, e “de Gaude
Leeuw”. Cf. José Antonio Gonsalves de Mello Neto, Tempo dos Flamengos: Influência da
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 77

Como aponta bem Roger Bastide, “A ética calvinista flutuava como uma
imagem desprovida de todo dinamismo criador, por cima de uma realidade que
a negava descaradamente.” Daí a interpretação demasiada tardia dos
pastores, único recurso para salvar a lógica calvinista, explicando a derrota e a
expulsão de 1654 como cólera e irritação divina:

“O Conselho inclina-se a considerar que, entre outra cousas, Deus


se mostra irritado, por não termos neste país arranjado um modo ou
posto em execução providências para fazer chegar ao conhecimento
dos negros a existência de Deus e a do Seu Filho Jesus Cristo, já
que a alma dessas pobres criaturas, cujo corpo nós empregamos a
nosso serviço, deviam ter sido arrancadas da escravidão do diabo,
considerado que é opinião dos doutores que isto é um requisito
necessário para tornar justificável aos olhos de Deus o negociar com
homens pretos. Tudo isto poderia ter sido facilmente remediado se
algumas poucas pessoas bem instruídas em religião e de vida
piedosa e honesta, tivessem sido enviadas para cá, onde
aprenderiam a língua portuguesa e dedicar-se-iam ao ensino dos
negros. Sobre este assunto dever-se-á escrever seriamente às
igrejas com as quais nos correspondemos e ao Conselho dos XIX,
solicitando-se aos conselheiros Supremos que reforcem o nosso
pedido junto aos XIX.”66

Quanto a religiosidade dos africanos o Conselho Eclesiástico insistiu junto a


Nassau e ao Conselho Supremo para que os negros fossem obrigados por
meio de um edital a freqüentar a igreja aos domingos, edital que o Conselho
não quis expedir, lembrando que um mestre-escola talvez pudesse obter

Ocupação Holandesa na Vida e na Cultura do Norte do Brasil, Rio de Janeiro: Livraria José
Olympio Editora, 1947, p. 210.
66
MELLO, José Antonio Gonsalves de., Apud, Ata da classe reunida no Recife de 7 a 11 de
maio de 1648, Tempo dos Flamengos, p.227
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 78

melhor resultado na instrução religiosa do que se esta fosse ministrada na


igreja durante as prédicas aos domingos.

Em 1642 dizia certa Generale Missive que se estudava um meio eficaz de levar
a palavra de Deus aos negros, mas que as sugestões dos pregadores
reformados eram impraticáveis; dizia ainda que a instrução só poderia ser
efetuada em português porque “ os negros velhos não entendem o holandês”.
Três anos depois, isto é, em 1645, outra Generale Missive 67 esclarecia que
“para instruir os negros não achamos ainda alguém que se revelasse capaz
disto ou que espere obter algum resultado com a instrução, uma vez que os
escravos são todos pessoas de pouca inteligência e sendo empregados em
serviços domésticos tem pouco tempo para aprender a ler e a educar-se para,
com esse princípio, iniciarem-se na religião cristã...Agora encontramos uma
pessoa que conhecendo o português e a língua deles, mostra-se inclinada a
aceitar o encargo de instruí-los, de modo que em breve esperamos
experimentá-lo.”

Atitude dos Holandeses para com os Índios e a Evangelização.

Johannes de Laet68 refere-se a vários encontros entre viajantes holandeses e


índios da costa brasileira. Deles obtiveram informações sobre o país e suas
riquezas minerais. é possível que então alguns deles tenham sido conduzidos à
Holanda, como aconteceu com alguns dos silvícolas com os quais Boudewijn
Hendricksz entrou em contato na Baía da Traição, em 1625. Não se sabe com
segurança o número de índios então embarcados, mas é de presumir que

67
Idem, ibidem, p.225
68
Diretor da Companhia das Índias Ocidentais, Johannes de Laet, bem informado de suas
realizações, iniciou uma história da corporação. Não esteve Laet nem no Brasil, nem na
América do Norte, mas os dados históricos que reúne são de real valor e revelam expressiva
objetividade, o que é, na verdade, para se louvar, pois Laet jamais visitou nosso país e a nosso
respeito demonstra segurança e fidelidade ao pintar a nossa paisagem, a nossa vida e as
nossas condições.” Joaquim Ribeiro, Administração do Brasil Holandês, Brasília: Editora da
Universidade de Brasília, 1983 p.321
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 79

alguns sejam os interrogados por Kiliaen de Renselaer em 1628 e aos quais


Hessel Gerritsz se refere pelos nomes: Gaspar Paraupaba, então de 50 anos,
André Francisco, de 32 anos, ambos do Ceará, Pieter Poty, Antonio
Guiravassauay, Antonio e Luís Gaspar, todos da Baia da Traição.
Logo no ano em que a Companhia se apoderou de Pernambuco os índios
brasileiros educados na Holanda prestaram bons serviços. Diziam os membros
do Conselho dos XIX69, em maio de 1631, que já haviam enviado três deles
para o Brasil, os quais “há algum tempo foram trazidos para cá da Baía de
Traição e aqui, com grandes despesas, foi-lhes ensinados a ler e escrever”

Os principais aliados dos holandeses foram os tapuias. A fama de sua


ferocidade era geral e eram temidos pelos próprios flamengos. Os índios tupis
foram aldeados e submetidos ao governo do Conselho Supremo. Não os
tapuias. Estes tratavam os seus aliados brancos de igual para igual. Nhanduí
de sua taba enviou aos Conselhos planos e sugestões para vencer a revolta
dos portugueses. Mas eram aliados tão ferozes que ás vezes pareciam mais
inimigos; procurava-se sempre mantê-los o mais afastado possível das zonas
habitadas; quando desciam do Rio Grande o governo movimentava-se
imediatamente: com presentes iam pedidos para que tornassem às suas terras.
Assim, por exemplo, em 1639, quando Nhanduí com 2.000 tapuias – homens,
mulheres e meninos – aproximou-se do povoado do Rio Grande, causando
grande danos aos moradores. Sem a menor cerimônia ia arrancando as roças,
novas e velhas, que encontravam. O Conselho despachou logo os filhos de

69
Cf. MOREAU, Pierre, & BARO, Roulox., História das Últimas Lutas no Brasil Entre
Holandese e Portugueses e Relação da Viagem ao País dos Tapuias, Belo Horizonte: Ed.
Itatiaia: São Paulo Ed. da Universidade de São Paulo, 1979, p. 25. “...os dezenove que
tinham um tratamento de Excelência, criaram um Alto conselho, chamado dos Políticos, cujos
membros eram, na sua maior parte, mais bem versados na ciência mercantil do que na das
letras. Seguiram para o Recife a fim de governar o povo e o país e distribuir soberanamente
justiça; após um período de seis anos eram chamados de volta e substituídos por outros (...)
Estes políticos comissionavam um deles com o título de diretos em cada praça ou capitania
conquistada, o qual conhecia de todas as apelações emanadas de Juizes inferiores e,
privativamente, em primeira instância, de tudo que dissesse respeito á companhia e às fraudes
que se praticassem por ocasião da percepção dos seus direitos, de todos os crimes, roubos,
assaltos e assassinatos.”
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 80

Nhanduí que se achavam no Recife, recomendando-lhes que fizessem voltar


os seus para o lugar donde haviam procedido; quando fossem precisos seriam
chamados.70

Houve um momento, porém, em que se permitiu a escravidão dos índios, logo


proibida. Tratava-se de índios que faziam guerra aos que se haviam aliados
aos holandeses: como castigo foram escravizados. Provinham na sua maioria
do Ceará e foram vendidos pela própria Companhia. Mas só com a conquista
do maranhão é que se permitiu a escravidão à larga. Os documentos informam
que ali não havia escravos negros, de modo que os flamengos viram-se na
contingência de usar o índio, constrangendo-o ao trabalho. Houve, é claro, a
princípio, certa relutância. Mas o Conselho dos XIX decidiu: “resolvemos e
temos por entendido que brasiliano algum que anteriormente tenha sido
escravizado pelos portugueses deverá permanecer em escravidão, mas onde
for encontrado em tal situação deverá se posto em liberdade.”71

A evangelização prosseguia lentamente, quase sem vontade. A preocupação


que os holandeses tinham com os índios e seus métodos de trabalho
diferenciam-se dos métodos jesuítas.72 Os predicantes propuseram a solução

70
DE MELLO, op. cit., 240.
71
Idem, ibidem, p.242.
72
“ Por todas as Capitanias desta província estão edificados Mosteiros dos Padres da
Companhia de Jesus e feitas em algumas partes algumas Egrejas entre os Índios que sam de
paz onde residem alguns Padres pera os doctrinar e fazer Christão: o que todos aceitam
facilmente sem contradiçam alguma porque como elles nam tenham nenhuma Lei nem cousa
entre si a que adorem, he-lhes muito facil tomar esta nossa. E assim também com a mesma
facilidade, por qualquer cousa leve a tornam a deixar, e muitos fogem para o setão, depois de
baptizados e instruidos na doutrina christã; e porque os Padres vêm a incostancia que há
nelles, e a pouca capacidade que tem para observarem os mandamentos da lei de Deos,
principalmente os mais antigos, que sam aquelles em que menos fruitifica a semente de sua
doctrina, procuraram em especial planta-la em seus filhos, os quais levam de meninos
instruidos nella. E desta maneira se tem esperança, mediante a divina graça, que pelo tempo
adiante se vá edificando a Religião Christã por toda esta provincia, e que ainda nella floreça
universalmente a nossa Santa Fé Catholica, como noutra qualquer parte da Christandande.”
Mantenho a grafia original. Pero de Magalhâes Gandavo, História da Província Santa Cruz,
São Paulo: editora Obelisco, 1964, p. 67. ( Pero de Magalhães Gandavo, natural de Braga,
descendia de flamengos, como seu nome indica: Gandavo corresponde a Gantois, morador ou
filho de Gand. Residiu algum tempo no Brasil. Foi insigne humanista e excelente latino, de cuja
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 81

mais cômoda para eles: em vez de procurarem os índios para instruí-los,


pareceu-lhes mais fácil trazê-los para a cidade e aí ensiná-los. Um certo Soler,
sempre cheio de zelo, ofereceu-se logo para a evangelização. No caso,
porém, que tal solução proposta por eles não merecesse ser aprovada,
lembravam que se pusessem mestres-escolas nas aldeias. Na mesma ocasião
decidiu-se que sem um catecismo não se poderia adiantar a instrução dos
brasileiros.

Em 1638 foi liberado o primeiro predicante. David Doorenslaer, para dedicar-se


à evangelização das aldeias na capitania de Paraíba. Dois anos mais tarde ele
admitiu os primeiros índios à celebração da Santa Ceia, o que no rito
reformado é indício de maturidade espiritual. Um breve catecismo trilingüe73 –
em tupi, holandês e português – foi composto por ordem da classe para ser
impresso na Holanda, embora as objeções formais da igreja holandesa
impediram sua divulgação.

lingua abriu escola publica entre Douro e Minho, onde foi casado. E se acrescentarmos que
Luiz de Camôes o teve por amigo, teremos esgotado a sua breve biografia. Gandavo
provavelmente entrou em nosso país quando Mem de Sá governava, sua permanência em
nossa terra pode ter coincidido com a do governador (1558-1572).

73
Quanto ao “Catecismo na língua espanhola” de cuja redação se encarregou Soler, depois
de devidamente aprovado, foi enviado para a Holanda para ser impresso: Tratava-se, diz-se aí,
de “um breve compêndio da religião cristã, com algumas orações”, sendo já então esperados
os exemplares. Como nada chegasse até outubro de 1638, a Classe mandou organizar novo
catecismo, desta vez não em espanhol – que afinal não tinha razão de ser – mas em três
línguas: holandês, português e tupi. Deveria ser um “breve, sólido e claro compêndio da religião
cristã”, tendo sido encarregados de redigi-lo Soler e Doorenslaer. A remessa para a Holanda foi
feita, tendo sido iniciada a impressão em Enkhuysen, a qual, apesar dos esforços em contrário
no Sínodo Sul-Holandês, não foi interrompida. A carta do Conselho dos XIX ao Conselho
Eclesiástico de Pernambuco indica que “o livrinho de perguntas nas três línguas para instrução
da juventude que VV.RR. nos enviaram para a impressão, está em prensa. Em novembro de
1641 o catecismo ainda não havia chegado ao Brasil; daí em diante as Atas nada mais
referem a respeito o que leva a crer tivesse sido recebido em Pernambuco devidamente
impresso. É o que também leva a crer a carta d Conselho dos XIX ao Conde e Alto Conselho
(datada de 18 de abril de 1642) que enviara em apenso a resolução que havia sido tomada
sobre o “uso do catecismo brasileiro”. Até a data presente, porém, nenhum autor a ele se
referiu nem nos consta a existência de qualquer exemplar nas bibliotecas da Europa ou da
América.” Idem, ibidem, p. 252.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 82

Apesar do tempo de relacionamento entre índios e os holandeses não ter


sido longo e a instrução religiosa ter estado sujeita a tantas modificações, em
uma época agitada por lutas e campanhas, nem por isto deixou de formar
adeptos fervorosos da religião reformada e mesmo quase teólogos calvinistas
de livro em punho.74 O padre Antonio Vieira75 referindo-se à sua missão da
Serra de Ibiapaba, para onde afluíram os índios de Pernambuco, Paraíba, Rio
Grande, em seguida à derrota dos holandeses que “por muitos deles saberem
ler e trazerem consigo alguns livros foram recebidos e venerados dos
Tabajaras como homens letrados e sábios e criam deles como de oráculos,
quanto lhes queriam meter na cabeça”. E não somente isto: também
“admiravam-se os padres de ver as cartas escritas em papel de Veneza e
fechadas com lacre da Índia; mas até destas miudezas estavam aqueles índios
providos tanto pela terra como pela comunicação dos holandeses, de quem
também tinham recebido as roupas de grã e seda, de que alguns vinham
vestidos”.

Alguns índios brasileiros foram cristãos reformados e revelaram-se crentes os


mais fervorosos. Dos que estiveram em maior contato na Holanda às custas da
própria Companhia das Índias, chegaram documentos significativos, alguns
dos quais impressos, como as “Duas exposições ou Demonstrações entregues
aos Muito Poderosos Senhores Estados Gerais por Antonio Paraupaba, que já
exerceu as funções de Regedor dos Brasilianos na Capitania do Rio Grande”
Aí o índio Antonio revela-se um calvinista às direitas, repetindo referências à
religião reformada (“a única verdadeira”), aos Santos Evangelhos etc. Restam-
nos, também, cartas de Pieter Poty. Pode-se conjeturar que não tenham sido
eles os autores das cartas, mas uma missiva do Conselho dos XIX diz que “os
(índios) que tivemos aqui (na Holanda), por falta de uso esqueceram a sua
própria língua, usando a nossa como própria.

74
HOORNAERT, Eduardo et al., História da Igreja no Brasil, Primeira Época, Petrópolis:
Edições Paulinas, 4.ª edição, 1992, p. 139-140.
75
DE MELLO, Apud VIEIRA, Padre Antonio, Obras Varias, vol. II pp. 61-62
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 83

A colônia holandesa de Pernambuco é um dos casos interessantes para


estudar comparativamente a evangelização hispânica católica e a protestante
na América Latina.

Padre Vieira Jesuíta por Excelência.


Hermisten M. P. da Costa

“O homem, filho do tempo,


reparte com o mesmo a sua
ciência, ou a sua ignorância; do
presente sabe pouco, do passado
menos, e do futuro nada.” – Padre
Vieira.76

Antônio Vieira nasceu em Lisboa, Portugal, em 6 de fevereiro de 1608,


provindo de uma família modesta, sendo o primogênito entre seis irmãos. Seus
pais, Cristóvão Vieira Ravasco e D. Maria de Azevedo, mudaram-se em 1614
para a Bahia, trazendo então o seu único filho. Seu pai, ao que parece, veio
trabalhar como escrivão na Relação da Bahia.77

Vieira estudou no Colégio Jesuíta e, com 15 anos de idade, fugiu de casa,


ingressando na Companhia de Jesus (05/05/1623), sendo acolhido
prazerosamente pelo reitor, Pe. Fernão Cardim (1540-1625), que convivera
com José de Anchieta (1534-1597). A sua ascensão dentro da ordem foi rápida
e em três anos de noviciado tornou-se responsável por escrever a Carta Ânua
(1626) – em português, e depois a traduziu para o latim ou vice-versa –, que

76
Pe. António Vieira, Historia do Futuro, p. 6.
77
Quanto ao trabalho original de seu pai, ver J. Lúcio de Azevedo, História de António Vieira,
Vol. I, p. 13-14.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 84

era o relatório anual dos trabalhos da Companhia na Província, apresentado ao


Geral da Companhia.78 No final desse ano ou início de 1627, Vieira já se
tornara professor de retórica no Colégio de Olinda. Em 10 de dezembro de
1634 foi ordenado sacerdote.

Vieira teve uma vida intensa. Ao longo dos seus 89 anos dedicou pelo menos
64 deles à vida pública, permanecendo atento e atuante nessas questões até o
final de sua existência. Esse português de nascimento viveu no Brasil 51 anos,
ainda que não os mais produtivos,79 vindo a falecer em 16 de julho de 1697, no
mesmo Colégio da Bahia onde iniciara os seus estudos.

Este artigo não se propõe a ser uma biografia do Padre Vieira, antes, apenas
analisar alguns aspectos da sua vida e obra. Mesmo sabendo de suas
atividades várias, repletas de admiração e respeito – missionário, pregador,
político, estadista, etc. –, nos propomos a fazer um ensaio crítico de algumas
facetas de sua existência, sem desmerecer ou minimizar outras, estimulados
pelo fato de que neste ano registra-se o tricentenário da sua morte.

HOLANDA: O PARAÍSO JUDEU

Buzenval, embaixador da França na Holanda, quando foi morar em Haia, a


convite da Universidade de Leiden (fundada em 1575), escreve ao seu amigo
Joseph J. Scaliger (1540-1609) em 02/01/1593, retratando a sua impressão a
respeito da Holanda: “Quanto à maneira de viver deste país, acreditai que nela
encontro pouca diferença em relação à nossa. Em alguma coisa, encontrareis
maior requinte; em outras, maior simplicidade. Mas a doçura da liberdade é ali
tão grande como em parte alguma.”80

78
Pe. António Vieira, Carta Ânua de 1626: In: Obras Escolhidas (Cartas, I), Vol. I, p. 1-49.
79
Vd. Wilson Martins, História da Inteligência Brasileira, Vol. I, p. 171.
80
Apud Paul Zumthor, A Holanda no Tempo de Rembrandt, p. 7, 371 (grifo meu). Foi
justamente nesse ano que saiu a primeira leva de judeus fugitivos de Portugal para a Holanda.
Cf. J. Lúcio de Azevedo, História dos Cristãos-Novos Portugueses, p. 388.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 85

A família de Baruch Espinosa (1632-1677) – constituída por judeus ortodoxos –


, antes do nascimento deste, tinha fugido de Portugal, juntamente com outros
judeus espanhóis, para escapar da Inquisição,81 indo residir na Holanda, onde
tiveram liberdade de exercitar a sua fé. Seu pai – Miguel Espinosa –
82
tornou-se um bem-sucedido comerciante na Holanda. “Alguns anos antes do
seu nascimento [de Espinosa], os Países Baixos proclamaram a liberdade do
pensamento e, ao assim fazerem, ficaram sendo um abrigo para todos aqueles
que procuravam refúgio da perseguição ou que descobriram que não
conseguiam imprimir seus livros noutro lugar.”83 Frans L. Schalkwijk observa

81
Fernando e Isabel, influenciados pelo dominicano Tomás de Torquemada (1420-1498) [Cf.
Alexandre Herculano, História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal,
Vol. I, p. 53], promulgaram em 31 de março de 1492 uma lei ordenando que todo judeu que
não aceitasse o batismo teria que abandonar a Espanha dentro de quatro meses. Este decreto
fez com que muitos judeus se submetessem ao batismo; entretanto, como era de se esperar,
tinha-se sérias dúvidas da sua sinceridade. Muitos outros, então, preferiram deixar a Espanha,
para iniciar a sua vida em outro lugar. Sem esquecer-nos da flexibilidade estatística da época,
calcula-se que entre 160.000 e 200.000 judeus abandonaram a Espanha nesse período (ver
António Mendes Correia et al., eds., Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. 32,
p. 145 (doravante citada como GEPB) e Reginald T. Davies et al., Spain: In: Encyclopaedia
Britannica, Vol. 21, p. 122b. Paul Johnson diz que à época, havia na Espanha cerca de
200.000 judeus e “100.000 fizeram penosa caminhada através da fronteira para Portugal, de
onde, por sua vez foram expulsos quatro anos mais tarde. Cerca de 50.000 atravessaram os
estreitos para a África do Norte ou em navio para a Turquia.” Paul Johnson, História dos
Judeus, p. 231. Entre eles, só nesse ano (1492), oitocentos mil judeus (sic) viajaram para a
África e Portugal (Alexandre Herculano, História da Origem e Estabelecimento da
Inquisição em Portugal, Vol. I, p. 53), sendo, na África, espoliados pelos mouros, repetindo o
que se dera na Espanha, quando foram despojados de todo o ouro e prata que possuíam.
Muitos, não resistindo à dupla espoliação, preferiram voltar “convertidos” para a Espanha
aceitando o batismo. A observação feita por Herculano parece-nos extremamente pertinente,
quando conclui que essas conversões, que redundavam em batismo, “faziam milhares de
hipócritas, mas bem poucos cristãos sinceros” (Herculano, História da Origem e
Estabelecimento da Inquisição em Portugal, Vol. I, p. 42). Um outro fato patético é que “em
fins de julho de 1492 a expulsão era um fato consumado” (Johnson, História dos Judeus, p.
231). Assim se encerrava a história da comunidade judaica na Espanha, porém não a história
dos judeus ditos “convertidos”. (Há um artigo esclarecedor sobre este assunto, escrito por
Maria Guadalupe Pedreiro, A Inquisição e a Expulsão dos Judeus da Espanha: In: História 7
(1988): 61-68.)
82
O avô de B. Espinosa, antes de radicar-se na Holanda, esteve em Nantes, onde outros
parentes seus permaneceram (vd. J. Lúcio de Azevedo, História dos Cristãos-Novos
Portugueses, p. 381).
83
Colin Brown, Filosofia e Fé Cristã, p. 40. Os autores têm se tornado ambíguos quanto à
proveniência da família de Espinosa: Espanha ou Portugal? Parece-nos que o problema tem
ocorrido devido à definição do que queremos dizer por “família”. Às vezes fala-se de família
referindo-se aos seus pais; outras vezes, aos seus antepassados mais remotos. Daí a aparente
confusão. Assim temos: da Espanha, afirmam uns. Vd. N. Abbagnano, História da Filosofia,
Vol. 6, § 426, p. 143; B. Mondin, Curso de Filosofia, Vol. 2, p. 84. De Portugal, asseveram
outros. Vejam-se: Émile Bréhier, História da Filosofia, Tomo II, Fasc. 1, p. 143; Leonel
Franca, Noções de História da Filosofia, p. 157; Umberto Padovani & Luís Castagnola,
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 86

que: “Decidiu-se em 1619 que em nenhum lugar da Holanda judeus deveriam


ser obrigados a usar algum sinal específico, como uma estrela amarela ou um
chapéu vermelho. Eles poderiam matar gado conforme suas próprias
cerimônias, e depois ter sua própria escola e cemitério; o governo pretendia
não notar os „exercícios judaicos‟“. Adiante o autor diz: “Durante a guerra dos
trinta anos e depois, judeus poloneses e alemães começaram também a fugir,
especialmente da contra-reforma da Igreja Católica Romana na Polônia,
procurando Amsterdam como refúgio secreto. Não é de se estranhar que na
gíria holandesa essa cidade seja denominada „Mokum‟, palavra derivada
diretamente do hebraico „Makoom‟, „o lugar por excelência‟. Finalmente, foi nos
anos 70 [1675] que os israelitas construíram uma grande sinagoga nova, que
não precisava mais de uma aparência de casa, podendo exercer livremente a
sua religião.”84

História da Filosofia, p. 296; Marianne Schaur, Spinoza ou uma Filosofia Política de Galileu:
In: François Chântelet, dir. História da Filosofia, Idéias, Doutrinas. Vol. 3, p. 150; Antonio
Paim, História das Idéias Filosóficas no Brasil, p. 201. A solução parece ser indicada por
Jorge L. G. Venturini, que diz que a família de Espinosa era proveniente de Portugal, e antes
da Espanha, sempre evitando a perseguição religiosa. Historia General de la Filosofia, p.
272; de igual modo, Guillermo Fraile, Historia de la Filosofía, Vol. III, p. 587. Esta declaração
parece definir a colocação um tanto vaga de Federico Klimke e Eusebio Colomer, de que a sua
família fugiu para Amsterdã devido às perseguições “que se lançaram contra os judeus na
Espanha e Portugal.” Historia de la Filosofía, p. 424. De fato, a família de Espinosa era
originária da cidade castelhana de Espinoza de los Monteros. Em 1492, com a intensificação
da perseguição aos judeus, seus membros fugiram para Portugal, onde nasceria o seu pai,
Miguel. Ali eles se declaram convertidos ao catolicismo, tornando-se “marranos” (termo
pejorativo, que significa “porco”, e tinha na Idade Média o sentido de “maldito”, sendo aplicado
aos judeus espanhóis que se diziam convertidos ao catolicismo, mas que conservavam
secretamente suas práticas judaicas: Alexandre Herculano, História da Origem e
Estabelecimento da Inquisição em Portugal, Vol. I, 42; Paul Johnson, História dos Judeus,
p. 225) ou “cristãos-novos”. Mais tarde seu pai emigrou com a família para a cidade francesa
de Nantes e posteriormente para Amsterdã, onde nasceria Baruch Espinosa. Vd. Marilena de
S. Chauí Berlink, In: Espinosa, Cap. 24, p. 326; separata da coleção Os Pensadores, Vol.
XVII. Quanto ao processo contra Baruch Espinosa, que culminou com a sua excomunhão da
comunidade judaica de Amsterdã em 27/07/1656, vd. Paul Johnson, História dos Judeus, p.
289ss.
84
Frans L. Schalkwijk, Igreja e Estado no Brasil Holandês: 1630-1654, p. 365-66. Vd. J. Lúcio
de Azevedo, História de António Vieira, Vol. I, p. 114-115. “Liorne, Bordéus e Amsterdão era
portos buscados de preferência pelos hebreus portugueses que se exilavam. Em nenhuma
parte, porém, encontravam refúgio que lhes sorrisse como na Holanda.” Azevedo, História dos
Cristãos-Novos Portugueses, p. 387. Vd. Elias Lipiner, Os Judaizantes nas Capitanias de
Cima, p. 100ss. Veja-se o testemunho do rabino Uziel, residente em Amsterdã, escrito em
1616, In: Simon Schama, O Desconforto da Riqueza: A Cultura Holandesa na Época de
Ouro, uma Interpretação, p. 577-578. Veja-se também Marianne Schaur, Spinoza ou uma
Filosofia Política de Galileu: In: François Chântelet, dir. História da Filosofia, Idéias,
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 87

A Holanda de certa forma se constituía num paraíso para os judeus, 85 embora,


obviamente houvesse alguns preconceitos contra eles, que as autoridades
sabiam muito bem como tratar, não permitindo que os ciúmes e invejas
interferissem decisivamente em sua política. Por isso, os judeus gozavam de
liberdade religiosa e gradativamente foram adquirindo maior liberdade para as
suas práticas econômicas. “Em 1657, os Estados Gerais determinaram que os
judeus holandeses residentes no exterior ou responsáveis por
empreendimentos comerciais em terra ou mar deviam ter os mesmos direitos à
proteção que qualquer outro cidadão da República.”86

Doutrinas. Vol. 3, p. 149-153; Zumthor, A Holanda no Tempo de Rembrandt, p. 391. No


Brasil Holandês (1630-1654), a imigração de judeus para os Estados dominados pelos
holandeses aconteceu com certa intensidade (Vd. Frans L. Schalkwijk, Igreja e Estado no
Brasil Holandês, p. 369ss): “Durante o período de sete anos de prosperidade e segurança sob
o governo de João Maurício de Nassau (1637-44), ao Brasil chegavam continuamente
imigrantes judeus. [...] Documentos revelam que, em 1638, dois navios trouxeram da Holanda
duzentos judeus sob a chefia de Manoel Mendes de Castro. [...] Indubitavelmente, a população
judia do Brasil Holandês chegou ao auge em 1645, antes da irrupção da revolta contra o
governo holandês.” Arnold Wiznitzer, Os Judeus no Brasil Colonial, p. 114. Lúcio de
Azevedo fala de 600 judeus chegando da Holanda em Pernambuco em 1642. (Azevedo,
História dos Cristãos-Novos Portugueses, p. 431). Wiznitzer, interpretando as estatísticas
oficiais de 1645, diz: “Obviamente, num total de população branca civil de 2.899, não podia ter
havido cinco mil ou mais judeus no ano de 1645. A estimativa de 1.450 judeus, cerca de
metade da população branca civil, é provavelmente mais verdadeira” (Judeus no Brasil
Colonial, p. 114).
Segundo um documento contemporâneo (Saul Levi Mortera, Providencia de Dios con
Israel), à época da rendição dos holandeses em 1654 (acordo assinado em 26/01/1654),
“havia no Brasil mais de 600 judeus, a totalidade dos quais voltou [espontaneamente, vd. p.
123] em segurança para Amsterdã.” (Vd. Wiznitzer, Judeus no Brasil Colonial, p. 115-125).
Todavia o regresso não foi tranqüilo para todos (Vd. Ibid.,125-126). O autor considera 600
judeus um grande número, se atentarmos para o fato de que “Amsterdã contava não mais de
mil e oitocentos judeus em 1655, depois que ali chegaram os refugiados brasileiros.” (Ibid.,
115).
Vamberto Morais, Pequena História do Anti-Semitismo, p. 239, calcula que “por
volta de 1624, havia em Amsterdã cerca de 800 judeus, a maioria portuguêses, organizados
em três congregações ou sinagogas.” O próprio Vieira assistiu o serviço religioso em uma das
sinagogas, ouvindo a pregação do famoso rabino Manassés-ben-Israel, surgindo entre eles um
respeito recíproco após longo e amistoso debate, do qual Vieira e os jesuitas se prodigalizaram
em contar vitórias. (Vd. Hernâni Cidade em introdução à obra de Antônio Vieira, Defesa
Perante o Tribunal do Santo Ofício, Vol. I, p. xiii-xiv; Azevedo, História de António Vieira,
Vol. I, p. 115-116; Ivan Lins, Aspectos do Padre Antônio Vieira, p. 176; Meyer Kayserling,
História dos Judeus em Portugal, p. 272-73).
85
Bem depois de usar esta expressão, encontrei-a em Lessa, que escrevera a respeito dos
judeus: “A Holanda lhes era um paraíso.” Vicente T. Lessa, Mauricio de Nassau, o Brasileiro,
p. 214.
86
Simon Schama, O Desconforto da Riqueza: A Cultura Holandesa na Época de Ouro, uma
Interpretação, p. 582. Vd. Ibid., 576ss. (Vd. maiores detalhes In: Azevedo, História dos
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 88

Por outro lado, a fuga de tantos imigrantes para os Países Baixos gerou um
desenvolvimento intenso em todos os setores de sua vida. Por isso, “a primeira
metade do século XVII geralmente é denominada de „Era Áurea‟.”87

Cristãos-Novos Portugueses, p. 387ss). Quanto a uma visão mais pessimista da relação dos
judeus e católicos com os holandeses, Vd. Mário Neme, Fórmulas Políticas no Brasil
Holandês, p. 158ss.
Este autor, extremamente parcial em sua abordagem, esquecendo-se de distinguir
épocas, analisa o século XVII dentro de uma perspectiva do século XX e apresenta uma
interpretação dos documentos consultados que nos parece tendenciosa.
O Regimento para o Brasil holandês, adotado oficialmente em 13/10/1629, meses
antes da invasão holandesa, dizia no Artigo 10: “Será respeitada a liberdade dos espanhóis,
portugueses e naturais da terra, quer sejam católicos romanos, quer judeus, não podendo ser
molestados ou sujeitos a indagações em suas consciências ou em suas casas particulares, e
ninguém se atreverá a inquietá-los, perturbá-los ou causar-lhes estorvo, sob penas arbitrárias
ou, conforme as circunstâncias, exemplar e rigoroso castigo.” (Apud Frans L. Schalkwijk,
Igreja e Estado no Brasil Holandês: 1630-1654, p. 368 e M. Neme, Fórmulas Políticas no
Brasil Holandês, p. 158. Vd. também, Arnold Wiznitzer, Judeus no Brasil Colonial, p. 53; J.
Lúcio de Azevedo, História dos Cristãos-Novos Portugueses, p. 431ss.). Vamberto de
Morais (Pequena História do Anti-Semitismo, p. 241) diz que esse artigo “parece ter sido a
primeira proclamação da liberdade de culto na América Latina, e – pode-se mesmo dizer – em
todo o Novo Mundo.” Conforme nos lembra Schalkwijk, esse artigo reflete o espírito do
documento assinado pelas 7 províncias do norte dos Países Baixos em 1579, a “União de
Utrecht”, que no artigo 13 dizia: “Cada um em particular poderá ficar livre em sua religião, e
ninguém poderá ser alcançado ou investigado por causa da religião.” (Apud Frans L.
Schalkwijk, Igreja e Estado no Brasil Holandês: 1630-1654, p. 368. Vd. também, Simon
Schama, O Desconforto da Riqueza: A Cultura Holandesa na Época de Ouro, uma
Interpretação, p. 69). Schalkwijk, afirma, amparado em documentos que nos parecem
convincentes, que os judeus tinham no Brasil Holandês mais liberdade do que na própria
Holanda (Igreja e Estado no Brasil Holandês: 1630-1654, p. 377,382). O autor declara que
eles dispunham de “liberdade de organização religiosa”: organizar suas congregações e
sinagogas; “liberdade de defensiva religiosa”: rejeitar a pregação, quer católica quer
protestante; “liberdade de ofensiva religiosa”: propagar a sua fé a fim de obter novos
conversos. (Vd. Frans L. Schalkwijk, Igreja e Estado no Brasil Holandês: 1630-1654, p.
370ss.). Contudo, nem por isso deixou de haver protestos, por parte dos holandeses e dos
cristãos velhos (católicos e protestantes) contra o “excesso” de liberdade dada aos judeus, quer
religiosa, quer econômica (Vd. Ibid., 376ss; Vamberto Morais, Pequena História do Anti-
Semitismo, p. 243-244; J. Lúcio de Azevedo, História dos Cristãos-Novos Portugueses, p.
389ss.). Num período de maior tensão (1638), os holandeses simplesmente restringiram a
liberdade dos judeus aos moldes da Holanda (Vd. Frans L. Schalkwijk, Igreja e Estado no
Brasil Holandês: 1630-1654, p. 380), o que não era pouco (Vd. J. Lúcio de Azevedo, História
dos Cristãos-Novos Portugueses, p. 387ss.).
87
Frans L. Schalkwijk, Igreja e Estado no Brasil Holandês: 1630-1654, p. 32. Entretanto, não
devemos exagerar esta participação econômica judaica; conforme o próprio Schalkwijk
observa: “A maior atividade da comunidade judaica era o comércio”, todavia, “por volta de 1630
havia entre os 1500 ricos de Amsterdam somente vinte e um israelitas, ou seja, 1,4%.” (Ibid.,
366). Dezoito judeus contribuíram financeiramente para a formação da Companhia das Índias
Ocidentais em 1621; contudo, dos 7 milhões de guilders gastos, eles colaboraram com apenas
36.000. (Cf. Vamberto Morais, Pequena História do Anti-Semitismo, p. 240). No entanto a
contribuição dos judeus envolvia a sua experiência, seus conhecimentos e suas relações
mercantis no que se refere ao comércio com outros continentes (Cf. António Sérgio e Hernâni
Cidade em notas em Pe. António Vieira, Obras Escolhidas, (Cartas, II), Vol. II, p. 279).
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 89

VIEIRA E OS CRISTÃOS-NOVOS

Em 24/10/1671 – ano excepcionalmente ruim para os cristãos-novos em


Portugal88 – o jesuíta Antônio Vieira (1608-1697), cuja linhagem, apesar dos
esforços da Inquisição, nunca foi aclarada, se era proveniente de negro, judeu
ou índio,89 escreve de Roma uma carta “sigilosa” a D. Rodrigo de Meneses –
seu amigo e protetor –, “defendendo” os “hereges” judeus, que eram menos
“contagiosos” que os “hereges” protestantes.

“O esterco (diz Santo Agostinho) fora do seu lugar suja a casa,


e posto no seu lugar fertiliza o campo; e, aplicando-se a
doutrina e semelhança ao nosso caso, com o maior dos
doutores digo, Senhor, que os Judeus se tirem de onde nos
sujam a casa, e que se ponham onde nos fertilizem o campo.
Assim o faz o Papa, e a Igreja Romana, que é a regra da Fé e
da Cristandade, tirando desta permissão muitos proveitos
espirituais, e evitando muitos inconvenientes temporais.
Lancem-se de Portugal os Judeus, os sacrilégios, as ofensas
de Deus, e fiquem em Portugal os mercadores, o comércio, a
opulência, e tenham de aqui por diante separados a doutrina,
que nunca tiveram até agora, e os que se converteram serão
verdadeiros cristãos, e os demais importa pouco que vão ao

88
Carlos A. Hanson, Economia e Sociedade no Portugal Barroco (1668-1703), p. 105ss.
89
Após minuciosa investigação, o Santo Ofício declarou que “contra o réu se deve proceder em
sua causa como contra pessoa de cuja qualidade de sangue não consta ao certo.” (Processo
n° 1664 da Inquisição de Coimbra, folhas 774s. Documento em apêndice à obra de J. Lúcio de
Azevedo, História de António Vieira, I, p. 311ss). “Foi feita uma investigação da linhagem de
Vieira, e embora não tivesse sido encontrada qualquer evidência de antepassados judeus,
havia algumas dúvidas quanto à pureza da linha de sangue de sua mãe. Além disso, a
investigação tinha revelado a existência de uma mulher mulata na árvore genealógica da
família.” (Carlos A. Hanson, Economia e Sociedade no Portugal Barroco (1668-1703), p.
103). Seu avô paterno casou-se com uma mulata ou índia. (Vd. J. Lúcio de Azevedo, História
de António Vieira, I, p. 14; Vieira: In: GEPB, Vol. 35, p. 229, C.R. Boxer, Salvador de Sá e a
Luta pelo Brasil e Angola, 1602-1686, p. 178; Ivan Lins, Aspectos do Padre Antônio Vieira,
p. 177; José Gonçalves Salvador, Cristãos-Novos, Jesuítas e Inquisição: Aspectos de sua
Atuação nas Capitanias do Sul, 1530-1680, p. 146).
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 90

Inferno de aí ou de outra parte, como de aqui vão também aos


pés de S. Pedro.
“Pergunto a V. S.ª pelo amor de Deus, pelo amor da Fé e
pelo amor do Príncipe: Qual é melhor? Judeus declarados, ou
judeus ocultos? Judeus que se casem com Cristãs-Velhas ou
judeus que não casem? Judeus que confessem e comunguem
sacrilegamente, ou judeus que não façam sacrilégios? Judeus
que afrontem a Nação, ou judeus que não afrontem? Judeus
que enriqueçam Itália, França, Inglaterra e Holanda, ou judeus
que enriqueçam a Portugal? Judeus que com os seus cabedais
ajudem os hereges a tomar as conquistas e impedir a
propagação da Fé e propagar a heresia, ou judeus que com os
mesmos cabedais ajudem as armas do príncipe mais católico a
recuperar as mesmas conquistas e dilatar a Fé por todo o
Mundo? [...]
“Mais, Senhor, é certo que a heresia é mais contagiosa que o
judaísmo: antes o judaísmo não é contagioso, e a heresia sim e
muito, como se experimenta com todas as nações da Europa,
onde tantos se fazem hereges, e nenhum judeu.90 Pois se
Portugal em Lisboa, e em todas as praças do reino, permite
hereges ingleses,91 holandeses,92 franceses, alemães, que

90
Esse argumento já fora usado por Vieira cerca de 30 anos antes. Numa Carta a D. João IV,
escrita em 1643, Vieira arrazoava: “.... A heresia das outras nações é muito mais contagiosa
que o judaísmo, porque está mais distante da fé, que a seita dos outros hereges, que todos os
confessam, e assim vemos, que França, Alemanha, Inglaterra, Holanda, e quase toda a Europa
está infeccionada de heresias; e o judaísmo não passa de homens da mesma nação: pois se a
necessidade da guerra nos obriga a admitir entre nós heresias mais contagiosas, por que não
admitiremos os que são menos arriscados?” (Pe. Antônio Vieira, Proposta feita a El-Rei D.
João IV em que se lhe representava o miserável estado do Reino e a necessidade que tinha de
admitir os judeus mercadores que andavam por diversas partes da Europa pelo Padre Antônio
Vieira: In: Escritos Históricos e Políticos, p. 299).
91
Vieira reclamava com razão do fato de que os ingleses – “hereges” e estrangeiros –
ocuparam o lugar dantes dos judeus. De fato, os ingleses já no século XVII usufruíram de
grandes privilégios em Portugal, dedicando-se a amplas atividades, especialmente ao
comércio. Estas vantagens eram decorrentes dos tratados assinados entre Portugal e
Inglaterra, que iniciaram-se em 10/07/1654, quando D. João IV buscava o reconhecimento do
seu governo (Vd. José Gonçalves Salvador, Os Cristãos-Novos Em Minas Gerais Durante o
Ciclo do Ouro (1695-1755): Relações com a Inglaterra, p. 58ss; 61ss.).
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 91

vivem com liberdade de consciência, misturados com os


católicos sem sinal e distinção, só pelas utilidades do mesmo
comércio, que não são utilidades senão destruição dele; por
que razão, pelas utilidades do mesmo comércio, se não
permitirá o mesmo aos Judeus portugueses, estando não
misturados, senão separados como em Roma, e com sinal por
onde sejam conhecidos, com obrigação (como aqui) de ouvirem
pregações e doutrinas, em que se impugne a sua seita?”93

Anos antes, pregando no primeiro aniversário de D.


Henrique (21/08/1644), defendia – ainda que implicitamente – a
pureza do uso correto do dinheiro dos judeus. Para isso, fez
uma “exegese” curiosa, argumentando com certa ironia...

“Não houve no mundo dinheiro mais sacrílego que aqueles


trinta dinheiros por que Judas vendeu a Cristo. E que se fez
deste dinheiro? Duas coisas notáveis. A primeira foi, que
daquele dinheiro se comprou um campo para sepultura dos
peregrinos [Mt 27.7]: assim o diz o Evangelista, e assim o tinha
Deus mandado pelo Profeta [Zc 11.12,13]. Houve no mundo
maior impiedade, que vender a Cristo? Nem a pode haver. Há
no mundo maior piedade, que sepultar peregrinos? Não a há
maior. Pois eis aqui o que faz Deus quando obra maravilhas;
que o dinheiro que foi instrumento da maior impiedade passe a
servir as obras da maior piedade. Serviu este dinheiro
sacrilegamente à venda de Cristo? Pois sirva piedosamente à
sepultura dos peregrinos. Esta foi a primeira coisa que se fez

92
Vd. Pe. Antônio Vieira, Proposta feita a El-Rei D. João IV em que se lhe representava o
miserável estado do Reino e a necessidade que tinha de admitir os judeus mercadores que
andavam por diversas partes da Europa pelo Padre Antônio Vieira: In: Escritos Históricos e
Políticos, p. 300).
93
Pe. António Vieira, Obras Escolhidas (Cartas, II), Vol. II, p. 42-43. Esta carta encontra-se
também In: Padre António Vieira, Cartas, p. 236-237 e José Paulo Paes, org., Grande Cartas
da História, p. 109.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 92

dos 30 dinheiros. A segunda, foi que mandou Cristo a El-rei D.


Afonso Henriques que destes 30 dinheiros, e mais das suas
cinco Chagas, se formassem as armas de Portugal: „Comporeis
o escudo das vossas armas, do preço com que eu comprei o
gênero humano, que são as minhas cinco Chagas; e do preço
com que os Judeus me compraram a mim, que são os 30
dinheiros de Judas.‟ Há coisa mais sacrílega, que os 30
dinheiros de Judas? Há coisa mais sagrada, que as cinco
Chagas de Cristo? E contudo manda Deus ao primeiro rei
português, que componha as armas de Portugal das Chagas
de Cristo, e mais do dinheiro de Judas: para que entendamos
que o dinheiro de Judas cristãmente aplicado nem descompõe
as Chagas de Cristo, nem descompõe as armas de Portugal.
Antes compostas juntamente de um e outro preço podem
tremular vitoriosas nossas bandeiras na conquista e
restauração da fé, como sempre fizeram em ambos os mundos.
E se Deus compôs assim as armas de Portugal, se Deus não
achou inconveniente nesta união; que muito é que o
imaginasse assim um homem? Ora perdoai-lhe quando menos,
que tem bom fiador o pensamento.”94

No ano anterior, na “Proposta feita a El-Rei D. João IV em que


se lhe representava o miserável estado do Reino e a necessidade que tinha de
admitir os judeus mercadores que andavam por diversas partes da Europa”,
Vieira, alertando o rei para a necessidade de novas fontes de renda e
considerando a profícua economia dos judeus que viviam tranqüilamente em
outros países da Europa, ajudando com sua renda a outros governos, diz: “Se
o dinheiro dos homens de nação está sustentando as armas dos hereges, para
que semeiem e estendam as seitas de Lutero e Calvino pelo mundo, não é

94
Pe. António Vieira, Sermão de S. Roque: In: Sermões, Vol. VIII, p. 82-83. Por coincidência
ou não, nesse mesmo ano o Rei D. João IV lhe conferiria o diploma de “pregador régio”. (Cf. J.
Lúcio de Azevedo, História de António Vieira, I, p. 78).
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 93

maior serviço de Deus e da igreja que sirva este mesmo dinheiro às armas de
rei mais católico, para propagar e dilatar pelo mundo a lei e a fé de Cris Num
trecho anterior, considerando a riqueza dos cristãos-novos que estão
espalhados pela Europa, conclui: “Se vossa majestade for servido de os
favorecer e chamar, será Lisboa o maior império de riquezas, e crescerá
brevissimamente todo o reino a grandíssima opulência, e se seguirão infinitas
comodidades....”95

Como é evidente, o interesse do Padre Vieira, ainda que sincero, patriótico e


aparentemente “missionário”, era puramente econômico96 e pragmático,
tomando sabiamente como paradigma de suas propostas de reforma em
Portugal (criação da Companhia de Comércio,97 de um banco, etc.) a Holanda,
a que ele sempre se refere.98 Já em 1641, Vieira defendia a criação da
Companhia Geral do Comércio do Brasil, na qual participariam os cristãos-
novos refugiados no estrangeiro, a exemplo do que fizera o papa em Roma –
os cristãos-novos colaborariam, obviamente, com mais do que o simples apoio
moral, mas sim, sendo “os principais acionistas”.99 E, de fato, essa Companhia

95
Ibid., 291-292.
96
Vd., por exemplo, sua carta a D. Rodrigo de Meneses, de 21/11/1671, In: António Vieira,
Obras Escolhidas, (Cartas, II), Vol. II, p. 48.
97
A Companhia Geral do Comércio do Brasil seria criada em 1649.
98
Vd. Carlos A. Hanson, Economia e Sociedade no Portugal Barroco (1668-1703), p.
136,138. Na sua “defesa” dos cristãos-novos, está também embutida a sua aversão ao Santo
Ofício em Portugal, o maior inimigo dele e dos jesuítas em geral.(Vd. Carlos A. Hanson,
Economia e Sociedade no Portugal Barroco (1668-1703), p. 101ss). Na carta citada acima,
Vieira diz que a Inquisição tem sido ineficiente para combater os judeus. António Vieira, Obras
Escolhidas (Cartas, II), Vol. II, p. 41. A inimizade, a bem da verdade, era recíproca, ainda que
em momentos de interesse comum soubessem trabalhar juntos em prol da perseguição dos
“hereges.” “No Brasil os jesuítas perfilaram entre os maiores colaboradores da Inquisição, em
que pese a existência aqui de outros clérigos.” (José G. Salvador, Cristãos-Novos, Jesuítas e
Inquisição, p. 149; Vd. também Alberto Martins de Carvalho, Santo Ofício: In: Joel Serrão, dir.
Dicionário de História de Portugal, Vol. V, p 476a. (Doravante citado como DHP).
99
Vd. José G. Salvador, Cristãos-Novos, Jesuítas e Inquisição, p. 8, 115 (n. 79), 116, 152ss;
I. Grigulevich, Historia de la Inquisición, p. 316-317; Carlos A. Hanson, Economia e
Sociedade no Portugal Barroco (1668-1703), p. 136; João Francisco Lisboa, Vida do Padre
António Vieira, p. 40ss.,52; J. Lúcio de Azevedo, História dos Cristãos-Novos Portugueses,
p. 245. É provável que os judeus tivessem se aproximado de Vieira já desde o início da década
de 1640, na Bahia, buscando o apoio dos jesuítas contra o Santo Ofício. Na realidade, neste
caso a reciprocidade de ajuda era interessante para ambos os lados. O “homem de negócio”
(leia-se, banqueiro) Duarte da Silva († 1678) era amigo de Vieira e, através dele e de outros
judeus ricos, Vieira conseguiu fundos para Portugal refazer sua fragata (300 mil cruzados). Ele
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 94

(fundada em 1649) viria a ser mais tarde de grande importância para a


economia portuguesa.100

Mas, qual a importância de Vieira para a criação da Companhia Geral do


Comércio? Hanson responde: “Depois de D. João IV, Vieira foi provavelmente
o indivíduo mais responsável pela criação da Companhia do Brasil com base
na maioria do dinheiro dos cristãos-novos.”101 Hanson, contudo, entende que
Vieira de fato “simpatizava com a luta dos comerciantes cristãos-novos e não
os olhava como se fossem meras ferramentas ou instrumentos usados para
ressuscitarem o domínio imperial de Portugal,”102 opinião que não compartilho.
Portugal de fato estava economicamente falido;103 portanto, qualquer
concepção político-econômica que gerasse recursos teria grande chance de
ser bem aceita. O problema é que a concepção de Vieira feria conceitos e
práticas “religiosas” há muito radicadas pelo “Santo Ofício”. E, quando o
assunto envolve “religião” e ódios pessoais, parece que aquele que conseguir
esconder primeiro a sua racionalidade tem melhores condições de ser mais
eficaz em seus intentos. Todavia, como bem sabemos, o ódio, além de ser um
péssimo alimento, nunca foi bom conselheiro.

era uma caixa forte com quem Portugal pôde contar em diversas circunstâncias, sendo
inclusive o primeiro acionista da Companhia Geral do Comércio do Brasil (Vd. A. Vieira, Carta
ao Conde de Ericeira, 23/5/1689, In: Obras Escolhidas (Cartas I), Vol. I, p. 62-63; J. Lúcio de
Azevedo, História dos Cristãos-Novos Portugueses, p. 244-246; Idem, História de António
Vieira, I, p. 111ss.; Ivan Lins, Aspectos do Padre Antônio Vieira, p. 167; Antonio Baião,
Episódios Dramáticos da Inquisição Portuguesa, Vol. II, p. 276-277, 280,282; Meyer
Kayserling, História dos Judeus em Portugal, p. 279; C.R. Boxer, Salvador de Sá e a Luta
pelo Brasil e Angola, 1602-1686, p. 257ss.). Quanto à sua prisão, processo e infortúnios
econômicos para Portugal por essa atitude, ver A. Vieira, Carta ao Marquês de Nisa,
20/11/1648, In: Obras Escolhidas (Cartas I), Vol. I, p. 121-122; J. Antonio Baião, Episódios
Dramáticos da Inquisição Portuguesa, II, p. 266-386)
100
Vd. Carlos A. Hanson, Economia e Sociedade no Portugal Barroco (1668-1703), p. 135.
101
Carlos A. Hanson, Economia e Sociedade no Portugal Barroco (1668-1703), p. 102.
“Libertar os cristãos-novos da perseguição e confiscação do Santo Ofício da Inquisição foi a
peça de fundo do programa de Vieira para a revitalização comercial.” (Ibid., 136; Vd. também:
J.F. Lisboa, Vida do Padre António Vieira, p. 48s.; Ivan Lins, Aspectos do Padre Antônio
Vieira, p.. 148ss. (com documentos).
102
C.A. Hanson, Economia e Sociedade no Portugal Barroco (1668-1703), p. 103.
103
Vd. J.F. Lisboa, Vida do Padre António Vieira, p. 49.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 95

Após redigir estas notas, li algo que está bem próximo daquilo que concluí.
Referindo-se a Vieira, diz um texto: “As relações que teve com as comunidades
hebraicas (sempre originadas pelas suas patrióticas idéias sobre o comércio)
foram denunciadas ao Santo Ofício.”104

Se Hannah Arendt (1906-1975) estiver correta em sua ilação de que “é regra


óbvia, se bem que freqüentemente esquecida, que o sentimento anti-judaico
adquire relevância política somente quando pode ser combinado com uma
questão política importante, ou quando os interesses grupais dos judeus
entram em conflito aberto com os de uma classe dirigente ou aspirante ao
poder”105 –, talvez possamos dizer que, com exagerada freqüência, o
sentimento de simpatia para com os judeus tem sido caracterizado por
interesses pessoais, econômicos e/ou políticos... E Vieira não foi exceção!

VIEIRA E A ESCRAVIDÃO NEGRA

Devemos recordar que a política do Padre Vieira tinha aspectos ambíguos,


como por exemplo na questão da escravidão. Ao mesmo tempo em que
combatia o preconceito racial, Vieira defendia o aumento da importação de
escravos da África106 com o fim de preservar os índios,107 bem como para a

104
Vieira: In: GEPB, Vol. 35, p. 231. Azevedo especula que “para os jesuítas, o patrocínio
destes perseguidos [cristãos-novos] representava um meio de ferirem a corporação rival
[dominicanos] em ponto sensível.” (J. Lúcio de Azevedo, História dos Cristãos-Novos
Portugueses, p. 244).
105
Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo, I: O Anti-Semitismo, Instrumento de Poder,
uma Análise Dialética, p. 52.
106
Vd., por exemplo, Pe. Antônio Vieira, Proposta feita a El-Rei D. João IV em que se lhe
representava o miserável estado do Reino e a necessidade que tinha de admitir os judeus
mercadores que andavam por diversas partes da Europa pelo Padre Antônio Vieira: In:
Escritos Históricos e Políticos, p. 288-289; Idem, Resposta que deu o Padre Antônio Vieira
ao Senado da Câmara do Pará sobre o resgate dos índios do sertão (12/02/1661): In: Escritos
Instrumentais sobre os Índios, p. 47-52, especialmente, p. 49. Este documento encontra-se
também in Vieira, Obras Escolhidas, (Cartas, I), Vol. I, p. 221-225. (Vd. o comentário a esse
respeito de J.F. Lisboa, Vida do Padre António Vieira, p. 357s.).
107
Cf. C.R. Boxer, A Igreja e a Expansão Ibérica (1440-1770), p. 51. O fato é que a escravidão
negra jamais foi oficialmente condenada. Como o contingente de soldados portugueses era
pequeno, os índios que viviam nas aldeias jesuítas foram valorosos aliados na guerra. Vieira,
então com 18 anos, já evidenciado o seu estilo que o tempo ajudaria a lapidar, referindo-se ao
ataque holandês à Bahia, assim descreve a atuação dos índios: “Não ficaram aquém nesta
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 96

reativação do comércio de escravos de Portugal com o Peru (c. 1643).108


Eduardo Hoornaert descreve a posição de Vieira como que estando dentro do
problema dialético das duas doutrinas do catolicismo do Brasil: “Uma profética,
reveladora de Deus na face do „outro‟, seja ele indígena ou africano, outra
justificativa da expansão religiosa que exprimia no nível simbólico a real
expansão econômica, política e social, e que não podia revelar a face do
verdadeiro Deus, senão escondê-la sob as palavras mais enganadoras.”109

A “dialética” existente no caso era do próprio catolicismo, visto que Vieira, ao


que parece, tinha amparo legal e religioso para o seu procedimento. D.
Sebastião, rei de Portugal (1554-1578), inspirado na legislação espanhola,
decretara (20/03/1570) “que nenhum índio seria considerado escravo, salvo
sendo aprisionado em guerra aberta feita por ordem de el-rei ou do seu
governador, excetuados os Aimorés e as tribos mais ferozes, que costumavam
assaltar as outras e os portugueses, para comê-los.”110 Esta lei foi ratificada
com acréscimos por Filipe I de Portugal em 22/08/1587 e 11/11/1595; 111
todavia, Filipe II retificou estes decretos (10/09/1611), permitindo a escravidão

empresa os índios frecheiros das nossas aldeias; antes eram a principal parte do nosso
exército, e que mais horror metia aos inimigos, porque, quando estes saíam e andavam pelos
caminhos mais armados e ordenados em suas companhias, estando o sol claro e o céu sereno,
viam subitamente sobre si uma nuvem chovendo frechas, que os trespassavam, e, como lhes
faltava o ânimo do outro Espartano [Dieneces] (quem disse pelejaria mais a seu gosto quando
as setas do Persa fossem tão espessas que, cobrindo o sol, lhe fizessem sombra), não se
atreviam a resistir, porque, enquanto eles preparavam um tiro de arcabuz ou mosquete já
tinham no corpo, despedidas do arco, duas frechas, sem outro remédio senão o que davam
aos pés, virando as costas; mas nem este lhes valia, porque, se eles corriam, as frechas
voavam e, descendo como aves de rapina, faziam boa presa....” (Pe. António Vieira, Carta
Ânua de 1626: In: Obras Escolhidas (Cartas, I), Vol. I, p. 34-35). Quanto às propostas de
Vieira para atenuar o trabalho indígena, Vd. Frédéric Mauro, (Coord.), O Império Luso
Brasileiro (1620-1750), p. 275-276).
108
Cf. Carlos A. Hanson, Economia e Sociedade no Portugal Barroco (1668-1703), p. 137.
109
Eduardo Hoornaert, et. al., História da Igreja no Brasil: Ensaio de Interpretação a partir
do Povo, p. 321-322. Vd. também, E. Hoornaert, Formação do Catolicismo Brasileiro:
1550-1800, p. 36.
110
Robert Southey, História do Brasil, Vol. II, p. 262. Vd. Também, A.H. de Oliveira Marques,
História de Portugal, Vol. II, p. 240ss.
111
Cf. R. Southey, História do Brasil, Vol. II, p. 262.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 97

dos índios decorrente de “guerras justas”.112 De igual forma dizia a lei canônica
que admitia a escravatura como resultado da “guerra justa” ou em alguns casos
especificados.113 Entretanto, nem por isso deixaram de insurgir-se contra a
escravidão vozes isoladas, certamente sem maior eco, mas que atestavam o
seu inconformismo, tais como a do arcebispo do México Alonso de Montúfar,
que escreveu ao rei de Espanha declarando não compreender o porquê da
escravidão dos negros (30/06/1560);114 a do dominicano Fernando de Oliveira,
na sua obra Arte da Guerra e do Mar (Coimbra, 1555);115 e a do dominicano
espanhol Bartolomé de Las Casas (1474-1566), que a princípio aceitava o
cativeiro do negro, tendo recomendado em 1516 a introdução de escravos
negros nas Antilhas.116 Convencido do contrário, terminou por escrever “que é
tão injusto escravizar os negros como os índios, e pelas mesmas razões.”117
No século XVII, a Inquisição proibiria a leitura das obras de Las Casas.118
Também combateram a escravidão Frei Tomás de Mercado, em Summa de
Tratos y Contratos (Sevilha, 1569; esta obra, mais amena, foi a mais difundida,
sendo reeditada em 1571,1573,1587);119 Frei Bartolomé de Albornoz, em Arte
de los Contractos (Valência, 1573); Alonzo de Sandoval, em Natureza (Sevilha,
1627); e, bem mais tarde, Manuel Ribeiro Rocha publicou Ethiope resgatado,
mantido, corrigido, instruído e libertado (Lisboa, 1758). Alonzo de Sandoval
afirma em seu trabalho que muitos traficantes de escravos não permaneciam

112
Cf. R. Southey, História do Brasil, Vol. II, p. 262-263. Pe. Antonio Vieira, Informação que
deu o Padre Antônio Vieira sobre o modo com que foram tomados e sentenciados por cativos
os índios do ano de 1655: In: Escritos Instrumentais sobre os Índios, p. 4ss.
113
Cf. António J. Saraiva, Vieira: In: DHP, VI, p. 302. Vd. Escravidão no Brasil: In: Brasil
Bandecchi, et. al., (redação), Nôvo Dicionário de História do Brasil, p. 255-256; A.H. de
Oliveira Marques, História de Portugal, Vol. II, p. 242.
114
In: A Conquista Espiritual da América Latina, Paulo Suess, Coordenador, Petrópolis, RJ.
Vozes, 1992, Documento 182, p. 878-879.
115
Vd. Rozendo Sampaio Garcia, Escravatura: In: DHP, I, p. 422.
116
Cf. José Gonçalves Salvador, Os Magnatas do Tráfico Negreiro: Séculos XVI e XVII, p.
128.
117
Bartolomé de las Casas, Historia de las Indias, III, cap. 149, Apud C.R. Boxer, Salvador
de Sá e a Luta pelo Brasil e Angola, 1602-1686, p. 249. Vd. também Justo L. González, A
Era dos Conquistadores, p. 75.
118
Cf. Justo L. González, A Era dos Conquistadores, p. 61.
119
Mercado critica o modo como os escravos são capturados por espanhóis e portugueses na
costa da Guiné, bem como o tratamento que lhes é dispensado na viagem: pelo menos
20% deles morrem. (Summa de Tratos y Contratos, Liv. II. Cap. 20. Cf. Rozendo Sampaio
Garcia, Escravatura: In: DHP, I, p. 422b).
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 98

em paz com as suas consciências, por entenderem que o tráfico de negros


tinha acentuado em muito as guerras entre as tribos da África Ocidental.120

Desse modo, Vieira ensinava, conforme se deduz do seu “27º Sermão do


Rosário”, pregado num engenho do Recôncavo baiano,121 que a escravidão
dos africanos no Brasil era o caminho para o céu, cuja estrada era composta,
pela misericórdia de Deus, por duas transmigrações: 1ª) África-Brasil; 2ª)
Brasil-Céu. Por isso, a desobediência e a fuga era um pecado mortal. Vieira
proclama:

“Não há escravo no Brasil, e mais quando vejo os mais


miseráveis, que não seja matéria para mim de uma profunda
meditação. Comparo o presente com o futuro, o tempo com a
eternidade, o que vejo com o que creio, e não posso entender,
que Deus que criou estes homens tanto à sua imagem e
semelhança, como os demais, os predestinasse para dois
infernos, um nesta vida, outro na outra. Mas quando hoje os
vejo tão devotos e festivos diante dos altares da Senhora do
Rosário, todos irmãos entre si, como filhos da mesma Senhora;
já me persuado sem dúvida, que o cativeiro da primeira
transmigração é ordenado por sua misericórdia para a
liberdade da segunda.”122
“Mas é particular providência de Deus, e sua, que vivais de
presente escravos e cativos, para que por meio do mesmo
cativeiro temporal, consigais muito facilmente a liberdade
eterna.”123

120
Cf. C.R. Boxer, O Império Colonial Português, p. 294-296; C.R. Boxer, A Igreja e a
Expansão Ibérica (1440-1770), p. 45-49; C.R. Boxer, Salvador de Sá e a Luta pelo Brasil e
Angola, 1602-1686, p. 249-252.
121
Vd. E. Hoornaert, et. al., História da Igreja no Brasil: Ensaio de Interpretação a partir do
Povo, p. 328-329.
122
Padre Antonio Vieira, Sermões, Vol. XII, p. 335. Grifos meus.
123
Ibid., 357.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 99

“Vós sois os irmãos da preparação de Deus, e os filhos do


fogo de Deus. Filhos do fogo de Deus na transmigração
presente do cativeiro, porque o fogo de Deus neste estado vos
imprimiu a marca de cativos: e posto que esta seja de
opressão, também como fogo vos alumiou juntamente, porque
vos trouxe à luz da fé, e conhecimento dos mistérios de Cristo,
que são os que professais no Rosário. Mas neste mesmo
estado da primeira transmigração, que é a do cativeiro
temporal, vos estão Deus, e sua Santíssima Mãe, dispondo e
preparando para a segunda transmigração, que é a da
liberdade eterna. [...] A vossa irmandade da Senhora do
Rosário vos promete a todos uma carta de alforria: com que
não só gozeis a liberdade eterna na segunda transmigração da
outra vida; mas também vos livreis nesta do maior cativeiro da
primeira. [...] Vós porém que viestes, ou fostes trazidos das
vossas pátrias para estes desterros; além da segunda e
universal transmigração, tendes outra, que é a de Babilônia, em
que mais ou menos moderada continuais o vosso cativeiro. [...]
Sabei pois, todos os que sois chamados escravos, que não é
escravo tudo o que sois. Todo o homem é composto de corpo e
alma; mas o que é e se chama escravo, não é todo o homem,
senão só metade dele. [...] E qual é esta metade escrava e que
tem senhor, ao qual é obrigada a servir? Não há dúvida que é a
metade mais vil, o corpo. [...] O domínio de um homem sobre
outro homem só pode ser no corpo e não na alma. [...] De
maneira, irmãos pretos, que o cativeiro que padeceis, por mais
duro e áspero que seja, ou vos pareça, não é cativeiro total, ou
de tudo o que sois, senão meio cativeiro. Sois cativos naquela
metade exterior e mais vil de vós mesmos, que é o corpo;
porém na outra metade interior e notabilíssima, que é a alma,
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 100

principalmente no que a ela pertence, não sois cativos, mas


livres.”124

Vieira chama a atenção para o fato de que a pior escravidão, da qual os


escravos podem permanecer livres, é a do demônio e do pecado, que é
eterna,125 contra a qual Deus pagou um alto preço para libertá-los, através do
sangue de Cristo, porque desse cativeiro somente Deus pode libertar-nos, com
a ajuda da “Virgem Senhora nossa”.126 Assim, ele continua: “E deste cativeiro
dificultoso, e tão temeroso e tão imenso, é que eu vos prometo a carta de
alforria pela devoção do Rosário da Mãe do mesmo Deus.”127

Portanto, os escravos do corpo não devem as suas almas a ninguém, nem aos
seus senhores; a sua obediência primeira é a Deus.128

No entanto, no tempo presente os escravos devem servir aos seus senhores


com integridade, sabendo que eles têm a herança de Deus reservada nos
céus, quando Deus mesmo os servirá.129 “Deus é o que vos há de servir no
céu, porque vós o servistes na terra.”130

Neste sermão, Vieira adverte também aos senhores quanto às suas


responsabilidades de conduzir os seus escravos à fé, bem como de não
maltrata-los, aludindo ao fato de que muitas vezes os feitores são os que “mais
cruelmente oprimem os escravos.”131

No “14º Sermão do Rosário”, pregado na Bahia “à irmandade dos pretos de um


Engenho em dia de S. João Evangelista, no ano de 1633”, Vieira –ainda

124
Ibid., 336-340. Grifos meus.
125
Ibid., 346.
126
Ibid., 347,349,350,351ss.
127
Ibid., 350.
128
Ibid., 345.
129
Ibid., 358-359,362-364.
130
Ibid., 362.
131
Ibid., 343-345;367-370.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 101

estudante –, seguindo São Tomás, Arcebispo de Valença, diz: “Saibam pois os


pretos, e não duvidem que a mesma Mãe de Deus é Mãe sua: [...] é Mãe tão
amorosa, que assim pequenos como são, os ama e tem por filhos.” 132 Desse
modo, o cativeiro no Brasil foi uma verdadeira bênção para os africanos,
porque somente assim eles puderam conhecer a Jesus e a sua mãe Maria;
portanto, o cativeiro deve ser motivo de gratidão a Deus por parte dos
escravos. No transcurso do seu sermão, comentando o Salmo 87.4, ele diz:

“Os Etíopes de que fala o Texto de Davi (sic), não são todos os
pretos universalmente, porque muitos deles são gentios nas suas
terras; mas fala somente daqueles de que eu também falo, que são
os que mercê de Deus, e de Sua Santíssima Mãe, por meio da fé e
conhecimento de Cristo, e por Virtude do Batismo são cristãos.”133
“Começando pois pelas obrigações que nascem do vosso novo e
tão alto nascimento, a primeira e maior de todas é que deveis dar
infinitas graças a Deus por vos ter dado conhecimento de si, e por
vos ter tirado de vossas terras, onde vossos pais e vós vivíeis, como
gentios; e vos ter trazido a esta, onde instruídos na fé, vivais como
cristãos, e vos salveis.”134

No mesmo sermão, comentando o Salmo 68.31, Vieira alude à profecia


referente aos etíopes, dizendo:

“Cumpriram-se principalmente depois que os portugueses


conquistaram a Etiópia ocidental, e estão se cumprindo hoje mais e
melhor que em nenhuma outra parte do mundo nesta da América,
aonde trazidos os mesmos Etíopes em tão inumerável número, todos
com os joelhos em terra, e com as mãos levantadas ao céu, crêem,
confessam, e adoram no Rosário da Senhora todos os mistérios da
Encarnação, Morte e Ressurreição do Criador e Redentor do mundo,

132
Ibid., Vol. XI, 297.
133
Ibid., 299.
134
Ibid., 302-303.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 102

como verdadeiro Filho de Deus e da Virgem Maria [...] Assim a Mãe


de Deus antevendo esta vossa fé, esta vossa piedade, e esta vossa
devoção, vos escolheu de entre tantos outros de tantas e tão
diferentes nações, e vos trouxe ao grêmio da Igreja, para que lá,
como vossos país, vos perdésseis, e cá, como filhos seus vos
salvásseis. Este é o maior e mais universal milagre de quantos faz
cada dia, e tem feito por seus devotos a Senhora do Rosário [...]
Porque o maior milagre e a mais extraordinária mercê que Deus pode
fazer aos filhos de pais rebeldes ao mesmo Deus, é que quando os
pais se condenam, e vão ao inferno, eles não pereçam, e se salvem.
“Oh se a gente preta tirada das brenhas da sua
Etiópia, e passada ao Brasil, conhecera bem quanto deve a Deus e à
sua Santíssima Mãe por este que pode parecer desterro, cativeiro, e
desgraça, e não é senão milagre, e grande milagre! Dizei-me: vossos
pais, que nasceram nas trevas da gentilidade, e nela vivem e acabam
a vida sem lume da fé, nem conhecimento de Deus, aonde vão
depois da morte? Todos, como credes e confessais, vão ao inferno, e
lá estão ardendo e arderão por toda a eternidade.”135

É digno de nota que a interpretação de que a escravidão era um bem para os


negros, considerando que “os africanos são salvos da morte pelos mercadores
de escravos”, não era estranha aos ingleses e aos brasileiros ainda no início do
século XIX, conforme atesta Henry Koster.136 Por outro lado, um argumento
mais espiritualizante, semelhante ao de Vieira é atestado entre os sacerdotes
brasileiros no século XIX.137

Vieira, que retornara ao Maranhão em 16/01/1653, prega o seu primeiro


sermão em São Luís.138 A sua prédica, dirigida aos senhores de escravos

135
Ibid., 303-304,305. Grifos meus.
136
Vd. Henry Koster, Viagens ao Nordeste do Brasil, Recife, PE., Secretaria de Educação e
Cultura, Governo do Estado de Pernambuco, Departamento de Cultura, (Coleção
Pernambucana, Vol. XVII), 2ª ed., 1978, p. 424.
137
Cf. Ibid., 424-425.
138
Vd. R. Southey, História do Brasil, II, p. 274; Francisco Adolfo de Varnhagen, História
Geral do Brasil, Vol. 3, p. 160.
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índios, foi belíssima e eficaz: “Sermão da Primeira Dominga de Quaresma”.


Vieira se coloca como um amigo leal que alerta o seu companheiro do perigo;
um “médico cristão”, que procura diagnosticar honesta e francamente a
enfermidade, ainda que isto lhe custe magoar o enfermo.139 Nesta condição,
ele apela para a libertação dos escravos índios, enfatizando que a aparente
perda desses braços e pernas que movem o Maranhão140 redundaria na
bênção de Deus,141 e na salvação da alma de seus antigos senhores.142 Aquela
escravidão, Vieira considera como sendo uma ofensa a Deus e, “todas as
vezes que um homem ofende a Deus mortalmente, vende a sua alma.” 143 Ele
afirma que no Maranhão o demônio tem comprado de modo extremamente
barato as almas dos senhores de escravos, visto que eles as têm vendido para
possuírem alguns escravos.144 Esta atitude gera a condenação eterna de suas
almas145 e, no tempo presente, as pragas da terra, tais como os holandeses, as
bexigas, a fome e a esterilidade.146 Curiosamente, em 27/06/1685 Vieira
escreve da Bahia ao Padre Antônio do Rego, assistente de Portugal em Roma,
falando das doenças comuns do lugar, sem reconhecer nelas a maldição de
Deus: “Eu na minha tenho experimentado grandes variedades, a maior parte do
ano enfermo e de uma vez perigosamente [...] As doenças nesta terra são
muitas e graves e com freqüentes mortes repentinas, uma das quais levou ao
antiquíssimo P. João Luiz [...] Também morreu, com poucos de doença, o P.
Inácio de Azevedo.”147

Retornando ao “Sermão de Quaresma”, Vieira afirma que a não libertação dos


escravos “mal havidos” é um testemunho da ignorância de Deus e da falta de

139
Padre Antonio Vieira, Sermão da Primeira Dominga de Quaresma: In: Sermões, Vol. III, p.
13.
140
Ibid., p. 18.
141
Ibid., p. 21, 24.
142
Ibid., p. 15, 23.
143
Ibid., p. 8.
144
Ibid., p. 12.
145
Ibid., p. 15.
146
Ibid., p. 15.
147
In: Serafim Leite, Novas Cartas Jesuíticas (De Nóbrega a Vieira). p. 323-324.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 104

fé nele.148 Portanto, o jejum requerido por Deus na Quaresma é “que solteis as


ataduras da injustiça, e que deixeis ir livres os que tendes cativos e
oprimidos.”149 Esta atitude é uma demonstração de submissão a Deus e de
vitória sobre o demônio.150 No transcurso do sermão, Vieira faz a sua proposta
de como deveria ocorrer a libertação dos escravos índios, bem como a
manutenção daqueles que seriam presos em “guerras justas”, analisando em
seguida as vantagens desse procedimento.151 Esse sermão “produziu todo o
efeito imediato que Vieira desejava.”152

Oito anos depois, em maio de 1661, houve uma revolta popular no Maranhão e
no Pará contra a política da Companhia de Jesus.153 Quase todos os jesuítas,
após serem insultados, humilhados e extorquidos, foram expulsos da região
(setembro (?) de 1661), sendo enviados para Portugal em duas caravelas. Uma
das naus foi capturada pelos piratas, que devolveram os seus passageiros ao
Maranhão; a caravela de Viera chegou a Lisboa.154

Provavelmente em 1662, Vieira escreve uma “Relação dos Sucessos do


Maranhão”, falando do castigo de Deus sobre aquela terra seca, mortes por
afogamento, queimadura, loucura, etc., em decorrência do “agravo que no
Maranhão se fez aos Religiosos da Companhia de Jesus, em sua injusta e
violenta expulsão daquele Estado”.155

Em Lisboa, Vieira profere o seu “Sermão da Epifania”, pregado na Capela Real


em 1662, diante da rainha D. Luisa de Gusmão (1613-1666) e de seu filho D.
Afonso VI (1643-1683). D. Luisa era então regente de Portugal durante a
menoridade de seu filho. A certa altura, Vieira diz:
148
Padre Antonio Vieira, Sermão da Primeira Dominga de Quaresma: In: Sermões, III, p. 15.
149
Ibid., 14.
150
Ibid., 23-24.
151
Vd. Ibid., 19ss.
152
Vd. R. Southey, História do Brasil, II, p. 278-279.
153
Os jesuítas praticamente formavam um estado dentro do Brasil, colocando em dificuldade a
própria autoridade do rei.
154
Vd. R. Southey, História do Brasil, II, p. 308.
155
In: Serafim Leite, Novas Cartas Jesuíticas, p. 313-314.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 105

“As nações, umas são mais brancas, outras mais pretas, porque
umas estão mais vizinhas, outras mais remotas do sol. E pode haver
maior inconsideração do entendimento, sem maior erro do juízo entre
homens, que cuidar eu que hei de ser vosso senhor, porque nasci
mais longe do sol, e que vós haveis de ser meu escravo, por que
nascestes mais perto?

“Dos Magos, que hoje vieram ao Presépio, dois eram brancos e um


preto, como diz a tradição; e seria justo que mandasse Cristo, que
Gaspar e Baltasar, porque eram brancos, tornassem livres para o
Oriente, e Belchior, porque era pretinho, ficasse em Belém por
escravo, ainda que fosse de S. José? Bem o pudera fazer Cristo,
que é Senhor dos senhores; mas quis-nos ensinar que os homens de
qualquer cor, todos são iguais por natureza, e mais iguais ainda por
fé, se crêem e adoram a Cristo, como os Magos. Notável coisa é, que
sendo os Magos reis, e de diferentes cores, nem uma nem outra
coisa dissesse o Evangelista! Se todos eram reis, por que não diz
que o terceiro era preto? Porque todos vieram adorar a Cristo, e
todos se fizeram cristãos. E entre cristão e cristão não há diferença
de nobreza, nem diferença de cor. Não há diferença de nobreza,
porque todos são filhos de Deus; nem há diferença de cor, porque
todos são brancos. Essa é a virtude da água do Batismo. Um Etíope
se se lava nas águas do Zaire fica limpo, mas não fica branco: porém
na água do Batismo sim, uma coisa e outra: Asperges me hyssopo,
et mundabor: ei-lo ali limpo; Lavabis me et super nivem dealbabor (Sl
51.7): ei-lo ali branco. Mas é tão pouca a razão, e tão pouca a fé
daqueles inimigos dos Índios, que depois de nós os fazermos
brancos pelo Batismo, eles os querem fazer escravos por negros.
“Não é minha tenção que não haja escravos; antes procurei nesta
corte, como é notório e se pôde ver da minha proposta, que se
fizesse, como se fez, uma junta dos maiores letrados sobre este
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 106

ponto, e se declarassem como se declararam por lei (que lá está


registrada) as causas do cativeiro lícito.”156

VIEIRA, O SEBASTIANISMO E O QUINTO IMPÉRIO

É curiosa também a visão de Vieira a respeito de Portugal como tendo uma


vocação missionária especial para “propagar a fé cristã em todo o mundo”,
sendo também destinado a ser o quinto império mundial, conforme
“profetizado” por Daniel. Neste particular, Vieira seguia as interpretações de um
documento “profético” largamente difundido, intitulado de Trovas de Bandarra,
que também foram sustentadas por D. João de Castro (1551-1623),
“sebastianista convicto” – neto do grande vice-rei português da Índia, D. João
de Castro (1500-1548) –, que viria a ser o primeiro comentador das Trovas, e
Manuel Bocarro, famoso médico e astrólogo.157 Estas “Trovas” foram escritas
por Gonçalo Anes Bandarra (c.1500-c.1556), um sapateiro e poeta natural de
Trancoso, que após várias leituras do Antigo Testamento, seguindo uma
hermenêutica extremamente duvidosa, redigiu158 as aludidas Trovas (antes de
1540). Bandarra e os seus escritos tornaram-se populares, tendo estes ampla
circulação em cópias manuscritas,159 sendo especialmente apreciadas pelos
cristãos-novos, ainda que não exclusivamente, tendo o aval dos jesuítas na sua
divulgação sistemática.160 As Trovas foram redigidas numa linguagem incorreta
e obscura, prestando-se a diversas interpretações. Nelas se profetizava o
sucesso político de Portugal, bem como o regresso do rei-redentor,

156
Padre Antonio Vieira, Sermões, II, p. 48-49.
157
Vd. J. Lúcio de Azevedo, História dos Cristãos-Novos Portugueses, p. 415-416.
158
Segundo D. João de Castro – o aludido comentador das Trovas –, Bandarra compôs as
trovas, mesmo não sabendo ler nem escrever. No entanto, o seu processo em 1545 desmente
esta versão. (Vd. Wilson Martins, História da Inteligência Brasileira, Vol. I, p. 186).
159
As Trovas, apesar de fazerem parte do Índex desde 1581, como resultado de sua
popularidade, seriam impressas pela primeira vez na França em 1603, por iniciativa do seu já
aludido comentador, D. João de Castro. (Bandarra: In: GEPB, Vol. 4, p. 105), ou em 1644, sob
o patrocínio de António de Sousa Macedo (Cf. J. Lúcio de Azevedo, História de António
Vieira, I, p. 104; Wilson Martins, História da Inteligência Brasileira, Vol. I, p.185). Vieira diz
que “em várias partes do Viseu aprendiam os meninos nas escolas a ler pelas Trovas de
Bandarra, de que há ainda hoje testemunhas vivas....” (Apud J. Lúcio de Azevedo, História
de António Vieira, I, p. 60).
160
Cf. Wilson Martins, História da Inteligência Brasileira, Vol. I, p. 187.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 107

denominado de “o Encoberto”, sendo paulatinamente, a partir de 1580,


identificado como D. Sebastião (1554-1578), tornando-se desde então, as
Trovas, uma espécie de “evangelho do sebastianismo”. D. Sebastião fora
denominado desde o ventre materno de “o desejado”, visto que “uma criança
do sexo masculino era a única esperança de salvar Portugal de uma eventual
sucessão castelhana.”161 Lembremo-nos que de 1580 a 1640 Portugal foi
governado pela dinastia dos Habsburgos espanhóis, sendo considerado esse
período de “sessenta anos de cativeiro de Portugal por Castela”. Os reis desse
“cativeiro” foram Filipe II (I de Portugal: 1580-1598), Filipe III (II de Portugal:
1598-1621) e Filipe IV (III de Portugal: 1621-1640).

Ao findar o domínio de Castela, Vieira, no seu primeiro sermão pregado na


Capela Real e possivelmente na Europa -- “Sermão dos Bons Anos” (1642) --,
diz: “...sessenta anos inteiros, nos quais Portugal esteve esperando sua
Redenção, debaixo dum cativeiro tão duro e tão injusto.”162 Nesse período de
domínio espanhol, o sebastianismo teve grande impulso, sendo os jesuítas os
grandes partidários dessa quimera.163 Mas, afinal, que crença era esta?

D. Sebastião, que começou a reinar em 1568, morreu juntamente com o seu


exército em Marrocos, na batalha de Alcácer Quibir (04/08/1578), quando,
contrariando a opinião de seus capitães, abandonou a costa africana,
embrenhando-se com o seu exército pela África a dentro. A batalha ocorreu por
volta das 11 horas de uma segunda-feira.164 “O seu cadáver, terrivelmente
ferido e nu, foi encontrado no campo de batalha no dia seguinte, mas a sua
identificação foi feita um tanto superficialmente, a sua rica armadura e armas
nunca foram encontradas e nenhum dos sobreviventes admitiu ter visto

161
C.R. Boxer, O Império Colonial Português, p. 405.
162
Padre Antonio Vieira, Sermões, Vol. I, 321.
163
Cf. J. Lúcio de Azevedo, História de António Vieira, I, p. 36; Wilson Martins, História da
Inteligência Brasileira, Vol. I, p. 185-186,
164
Vd. J.P. Oliveira Martins, Historia de Portugal, Tomo II, p. 66-69; Lucette Valensi, Fábulas
da Memória: A Batalha de Alcácer Quibir e o Mito do Sebastianismo, p. 11,14.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 108

matarem-no.”165 No entanto, o boato que circulou entre o povo, talvez reforçado


pela omissão ou ambigüidade dos sobreviventes, aliado ao período de grande
infortúnio de Portugal, foi o de que ele não teria morrido. Daí surgirem lendas,
entre outras, que diziam estar o rei vivendo anonimamente numa ilha
desconhecida do Atlântico ou numa caverna, aguardando o momento de voltar
a Portugal para reivindicar o seu trono, bem como conduzir o povo português a
vitórias e glórias surpreendentes. “O sebastianismo era pois uma explosão
simples da desesperança, uma manifestação do gênio natural íntimo da raça, e
uma abdicação da história. Portugal renegava, por um mito, a realidade; morria
para a história, desfeito num sonho; envolvia-se, para entrar no sepulcro, na
mortalha de uma esperança messiânica.”166

Retornando a Bandarra, sabemos que ele foi levado ao Tribunal do Santo


Ofício em 1541, o qual proibiu as suas profecias, fê-lo abjurá-las formalmente,
condenando o autor ao silêncio, bem como a não “explicar” mais a Bíblia.
Contudo, não o prendeu. “O Santo Ofício pareceu satisfeito com as razões do
profeta, que ficou quite só com o entrar na procissão do auto de fé de 23 de
outubro de 1541, e prestar, de círio [grande vela] em punho, um juramento pelo
qual se comprometia a nunca mais interpretar os sagrados textos.”167

165
C.R. Boxer, O Império Colonial Português, p. 407; Vd. também, J.P. Oliveira Martins,
Historia de Portugal, Tomo II, p. 76.
166
J.P. Oliveira Martins, Historia de Portugal, Tomo II, p. 83. A derrota e morte do rei foram tão
graves para Portugal, que a notícia, chegando a Lisboa em 12 de agosto, só foi contada
oficialmente em 22 de agosto, 10 dias depois do ocorrido, ocasionando um clima de desespero
entre a população. (Lucette Valensi, Fábulas da Memória: A Batalha de Alcácer Quibir e o
Mito do Sebastianismo, p. 17-20), É curioso também que “durante mais de vinte anos, todos
os relatos impressos da batalha foram feitos em línguas estrangeiras [...] Foram precisos nada
menos de 29 anos para que um testemunho português pudesse enfim romper o silêncio que,
em seu país, envolvia o desastre de 1578.” (Lucette Valensi, Fábulas da Memória: A Batalha
de Alcácer Quibir e o Mito do Sebastianismo, p. 20,21). Muitos dos sobreviventes da batalha
foram capturados e forçados a se “converterem” ao islamismo. Quando conseguiam fugir para
Portugal, não era estranho serem acusados perante o Tribunal do Santo Ofício. Vd. exemplos
In: António Borges Coelho, Inquisição em Évora, Vol. I, 232-233.
167
Bandarra: In: GEPB, Vol. 4, 105. (Vd. C.R. Boxer, A Igreja e a Expansão Ibérica (1440-
1770), p. 98, 140ss; C.R. Boxer, O Império Colonial Português, p. 405-416; Joaquim
Veríssimo Serrão, Bandarra e Joel Serrão, Sebastianismo: In: DHP, I, p. 289; Vol. V, p. 509ss;
J. Lúcio de Azevedo, História dos Cristãos-Novos Portugueses, p. 97; José Lello e Edgar
Lello, eds. Lello Universal, “Alcácer Quibir”, “Sebastião (D.)”, “Sebastião (os falsos D.)”,
“Bandarra”; J.P. Oliveira Martins, Historia de Portugal, Tomo II, p. 76ss.; Carl A. Hanson,
Economia e Sociedade no Portugal Barroco (1668-1703), p. 103).
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 109

Sobre “D. Sebastião, Rei de Portugal”, escreveu Fernando Pessoa (1888-1935)


em 1933:

“Louco, sim, louco, porque quis grandeza


Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

“Minha loucura, outros que me a tomem


Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?”168

Vieira interpretava a história de Portugal como sendo uma história sagrada,


uma verdadeira história da salvação, sendo os conquistadores portugueses,
sem exceção, ministros do evangelho de Deus, a quem competia trazer os
gentios à fé e à Igreja. Diz Vieira, num sermão em 1642:

“Portugueses, que assim como vencestes felizmente estes inimigos


[reis de Castela], assim haveis de vencer todos os demais; que, como
são vitórias dadas por Deus, este pouco sangue que derramastes em
fé de seu poderoso braço, é prognóstico certíssimo do muito que
haveis de derramar vencedores: não digo sangue de católicos [...]
mas sangue de hereges na Europa, sangue de Mouros na África,
sangue de Gentios na Ásia e na América, vencendo e sujeitando
todas as partes do mundo a um só império para todas em uma coroa
as meterem gloriosamente debaixo dos pés do sucessor de S. Pedro.
Assim o contam as profecias, assim o prometem as esperanças,

168
Fernando Pessoa, O Eu profundo e os outros Eus (Seleção Poética), p. 50-51.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 110

assim o confirmam estes felizes princípios, que a Divina Bondade se


sirva de prosperar até aos fins felicíssimos que desejamos....”169
“Venha a nós, Senhor, o Vosso reino: Vosso, porque Vosso é o reino
de Portugal, que assim como nos fizestes mercê de o dizer a seu
primeiro fundador el-rei D. Afonso Henriques: Volo in te, et in semine
tuo imperium mihi stabilire [Quero em ti, e em tua descendência
estabelecer o meu império]. E por isso mesmo adveniat, venha;
porque como há de ser Portugal um tão grande império, posto que
tem já vindo todo o reino, que era, ainda o reino que há de ser, não
tem vindo todo.”170

No já aludido “Sermão da Primeira Dominga de Quaresma”, pregado no ano


de 1653 em São Luís do Maranhão, Vieira, tentando convencer os senhores de
engenho a libertarem os seus escravos índios, a certa altura, diz: “Saiba o
mundo, saibam os hereges e os gentios, que não se enganou Deus, quando
fez aos Portugueses conquistadores e pregadores do seu santo nome.”171

Vieira, já na sua juventude demonstrava ter alta reverência para com D.


Sebastião, concluindo, inclusive, um sermão em 1634 com uma oração dirigida
ao próprio: “Divino Sebastião encoberto, bem-aventurado na terra, e
descoberto defensor que sempre foste deste reino no céu: ponde lá de cima os
olhos nele, e vede o que não poderá ver sem piedade, quem está vendo a
Deus: vereis pobrezas e misérias, que se não remedeiam; vereis lágrimas e
aflições, que se não consolam; vereis fomes e cobiças, que se não fartam;
vereis ódios e desuniões, que se não pacificam. Ó como serão ditosos e
remediados os pobres, se vós lhes acudirdes....”172 Por outro lado, é evidente
já nesta época que ele não identificava – como era comum há pouco mais de

169
A. Vieira, Sermão dos Bons Anos (1642): In: Sermões, Vol. I, p. 339-340. Grifos meus.
170
Ibid., 340.
171
A. Vieira, Sermão da Primeira Dominga de Quaresma: In: Sermões, Vol. III, p. 24. Para uma
visão mais completa do pensamento de Vieira a respeito da missão grandiosa de Portugal,
consulte o já citado Sermão da Epifania (1662): In: Sermões, Vol. II, p. 12-14 e,
principalmente, a sua obra, Historia do Futuro. (Vd. também; E. Hoornaert, Formação do
Catolicismo Brasileiro: 1550-1800, p. 32-36).
172
A. Vieira, Sermão de S. Sebastião (1634): In: Sermões, VI, p. 353.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 111

50 anos – o “Encoberto” com D. Sebastião. Isto se torna ainda mais claro no


seu “Sermão dos Bons Anos” (1642).173 Vieira, recorrendo a textos
escriturísticos, às profecias do São Frei Gil174 e às profecias de Bandarra,175
aplicou ao longo dos anos a figura do “Encoberto” de Bandarra a vários
soberanos, tais como D. João IV (1604-1656),176 D. Afonso VI (1656-1667), D.
Pedro II (príncipe regente: 1667-1683; rei: 1683-1706), D. João V (1706-
1750).177 “O profetismo e o messianismo lusitano de António Vieira assinalam o
momento mais alto da metamorfose da crença sebástica que se desenrolou em
torno da restauração.”178 Todavia, a idéia predominante entre os sebastianistas
era de que o “Encoberto” era D. Sebastião, que permanecia vivo...179

Hanson supõe que “talvez a quinta monarquia bíblica representasse a síntese


entre o pensamento universalista do jesuíta e o pensamento nacionalista de
Vieira.”180 Mas o fato é que o pensamento de Vieira é mais amplo do que a
concepção predominante. Vieira não “profetiza” simplesmente o sucesso da
monarquia de Portugal; antes ele vê mais longe: Portugal como o Império do
Mundo, com todo o poder, reunindo sob si todos os reinos deste mundo
durante o Milênio. Na Historia do Futuro, Vieira inicia dizendo: “As outras
Histórias contam as coisas passadas, esta promete dizer as que estão por vir;
as outras trazem à memória aqueles sucessos públicos que viu o mundo, esta
intenta manifestar ao mundo aqueles segredos ocultos e escurismos, que não

173
Vd. A. Vieira, Sermões, Vol. I, p. 323.
174
A. Vieira, Ibid., 322.
175
Ibid., 323.
176
Ibid., 338; Pe. Antônio Vieira, Proposta feita a El-Rei D. João IV em que se lhe representava
o miserável estado do Reino e a necessidade que tinha de admitir os judeus mercadores que
andavam por diversas partes da Europa pelo Padre Antônio Vieira: In: Escritos Históricos e
Políticos, p. 302.
Quanto a uma tentativa de explicar a interpretação de Vieira por “correspondência
alegórica”, Vd. António Sérgio em prefácio à obra, Pe. António Vieira, Obras Escolhidas,
(Cartas I), Vol. I, p. XXVIss.
177
Cf. Joel Serrão, Sebastianismo: In: DHP, V, p. 510b.
178
Ibid.V, p. 510b.
179
Vd. a respeito das diversas crenças concernentes a D. Sebastião, In: J. Lúcio de Azevedo,
História de António Vieira, I, p. 58ss.
180
Carlos A. Hanson, Economia e Sociedade no Portugal Barroco (1668-1703), p. 138.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 112

chegam a penetrar o entendimento.”181 No capítulo III, estabelece o plano de


sua obra, dividida em sete livros, dos quais ele só escreveu o “anteprimeiro”,
que é o que estamos citando, e mais dois, que são obras mais raras.

Partindo do princípio de que Jesus Cristo mesmo fundou o “Reino de Portugal,


aparecendo e falando ao seu primeiro rei”,182 Vieira escreve: “Quem considerar
o reino de Portugal no tempo passado, no presente e no futuro; no passado o
verá vencido, no presente ressuscitado, e no futuro glorioso.”183

VIEIRA E A INQUISIÇÃO

Vieira também escreveu Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo;


Aos verdadeiros portugueses, devotos do Encoberto, em várias trovas escritas
por Gonçalo Anes Bandarra. Este trabalho, redigido no “Rio das Amazonas”, é
datado de 29/04/1659, e foi enviado ao seu amigo também jesuíta André
Fernandes, bispo do Japão e confessor da rainha, D. Luisa de Gusmão (1613-
1666), viúva do rei D. João IV.184 Vieira anunciava neste texto a ressurreição de
D. João, morto em novembro de 1656. A Inquisição toma posse deste trabalho,
após fazer o Padre André Fernandes entregá-lo a contragosto (13/04/1660).
Talvez André Fernandes tenha cometido alguma indiscrição, como mostrar o
texto a algum amigo – que poderia tê-lo reproduzido com ou sem
consentimento185 –, ou mesmo comentar o assunto. O fato é que Vieira é
intimado a apresentar o seu trabalho em abril daquele ano ao Santo Ofício, o
que fez. A pretexto desse escrito – do seu “neo-sebastianismo” –, Vieira é
processado pela Inquisição, sendo interrogado morosamente desde 21/07/1663

181
Padre Antonio Vieira, Historia do Futuro, Cap. I, p. 5.
182
Ibid., Cap. VIII, 82.
183
Ibid., IV, § 2, 26.
184
Lembremo-nos de que tanto D. João IV como a sua esposa os ajudavam financeiramente
em sua missão no Maranhão. Vd. a carta de Vieira, escrita no Maranhão, datada de
10/09/1658, ao P. Geral, Gosvínio Nickel: In: Serafim Leite, Novas Cartas Jesuíticas, p. 268).
185
Cf. especula Hernâni Cidadeem introdução à obra de Antônio Vieira, Defesa Perante o
Tribunal do Santo Ofício, Vol. I, p. XV-XVI. Parece também que o próprio Vieira distribuiu
várias cópias desta obra. (Cf. António Sérgio e Hernâni Cidade em notas em Pe. António
Vieira, Obras Escolhidas (Cartas, II), Vol. II, p. 2).
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 113

a 01/10/1665, quando, já doente e enfraquecido, foi decretada a sua prisão. Em


23/12/1667, diante dos inquisidores e de grande auditório, foi condenado à
reclusão e ao silêncio perpétuo:186 “Os homens escreveram a sentença, o céu
a ditou, e eu a aceitei com a paciência e conformidade que se deve às suas
ordens”, escreveria Vieira dez dias depois ao Duque de Cadaval.187 Todavia,
nesse ínterim a situação política de Portugal havia mudado e os seus maiores
inimigos tinham sido depostos; Viera foi perdoado e liberto (30/06/1668).
Satisfeito por um lado, contudo, por outro, um tanto frustrado, vai então numa
missão para Roma, lá chegando em 15/08/1669 e sendo calorosamente
recebido pelos jesuítas. O pretexto de sua viagem é conseguir a canonização
de 40 mártires jesuítas (1570), todavia o que ele desejava era ser reabilitado
dos vexames e humilhações por que passara e também combater a Inquisição
portuguesa num lugar seguro, o que ele de fato fez ativamente. 188 Nesse
período, a rainha Cristina da Suécia (1626-1689), que abdicara do trono e se
radicara em Roma,189 encantada com a eloqüência de Vieira, convidou-o para
ser o seu pregador titular, função que recusou,190 ao que parece, devido ao seu
desejo incontido de retornar o mais breve possível do seu exílio a Portugal, o
que de fato conseguiu em 1675, com o breve do papa que o tornou imune ao
poderoso braço inquisitorial.191

186
Vd. Antônio Vieira, Defesa Perante o Tribunal do Santo Ofício, II, p. 1; J. Lúcio de
Azevedo, História dos Cristãos-Novos Portugueses, p. 286-288.
187
Ao Duque de Cadaval (03/01/1668): In: Pe. António Vieira, Obras Escolhidas (Cartas, I),
Vol I, p. 253-254.
188
Vd. António J. Saraiva, Vieira: In: DHP., VI, p. 300-301; J. Lúcio de Azevedo, História dos
Cristãos-Novos Portugueses, p. 288; J.F. Lisboa, Vida do Padre António Vieira, p. 226ss.
189
A rainha Cristina (1626-1689) reinou na Suécia desde 1632, abdicando do trono em
1654, em favor do seu primo Carlos Gustavo, depois de ter se convertido ao catolicismo.
Viajou por parte da Europa, principalmente na França (1656 e 1657), onde mandou matar
cruelmente, em Fontainebleau, o seu favorito Gian Rinaldo, marquês de Monaldeschi (1657),
por trair a sua confiança. Ela retornou duas vezes à Suécia (1660 e 1667), estabelecendo-se
depois definitivamente em Roma, onde se exilou. Cristina morreu em Roma (19/4/1689),
pobre e esquecida. (Vd. Robert N. Bain, Christina: In: Encyclopaedia Britannica, (1962),
Vol. 5, p. 641-642; Cristina: In: José Lello & Edgar Lello, eds. Lello Universal, Vol. 1,p. 664).
Sobre os seus contatos com Vieira, Vd. E. Carel, Vida do Padre Antonio Vieira, p. 341ss.
190
Cf. Vieira: In: GEPB, Vol. 35, p. 232; António J. Saraiva, Vieira: In: DHP, VI, p. 301; J.F.
Lisboa, Vida do Padre António Vieira, p. 230,232,239,242; C.R. Boxer, Salvador de Sá e a
Luta pelo Brasil e Angola, 1602-1686, p. 180.
191
Vd. João Francisco Lisboa, Vida do Padre António Vieira, p. 230, 232, 239, 241-242;
Wilson Martins, História da Inteligência Brasileira, Vol. I, p. 185.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 114

Voltando ao texto de Vieira (Esperanças de Portugal, Quinto Império do


Mundo), percebemos que o irônico da questão é que este trabalho foi
possivelmente um “anteprojeto” de sua obra inacabada, A Historia do Futuro
(1664?), publicada pela primeira vez em Lisboa (1718).192

Em 1681, Vieira, alegando questões de saúde, regressa à Bahia, exercendo


mais tarde a função de visitador-geral das missões do Brasil (1688) e
dedicando o resto de seus anos a cuidar da edição dos sermões, 193 cartas194 e
da obra de interpretação profética das Escrituras que iniciara em Roma, Clavis
Prophetarum;195 tudo isso, sem jamais abandonar as questões políticas, é
claro . Morreu em 18 de julho de 1697 – lúcido, apesar de cego, surdo e
acamado – na Bahia, no mesmo colégio onde iniciara os seus estudos.

O Padre Vieira foi de fato um personagem controvertido e de muitas faces –


pregador, missionário, “pretenso profeta”, político, diplomata, mestre da

192
Vd. Maria Leonor Carvalhão Buescu, Ensaios de Literatura Portuguesa, p. 76-91; Wilson
Martins, História da Inteligência Brasileira, Vol. I, p. 172. Disponho de uma cópia da edição
de 1855, que presumo ser a terceira, publicada em Lisboa pelos editores J.M.C. Seabra & T. Q.
Antunes (Cf. Bandarra: In: GEPB, Vol. 4, p. 106 e António J. Saraiva, Vieira: In: DHP, VI, p.
300).
193
Aqui não consideramos os dois volumes publicados em 1644 em Madri, que foram rejeitados
por Vieira como sendo obra que visava ganhar dinheiro ou afrontá-lo. (Vd. Wilson Martins,
História da Inteligência Brasileira, Vol. I, p. 172). A maior parte de seus sermões foi
publicada ainda em vida, iniciando em 1679 (o primeiro volume, editado em Lisboa, é dedicado
ao Príncipe D. Pedro, datado de 21/07/1677). A partir de 1681 publicou um volume por ano até
1689, quando diminuiu o ritmo, publicando um a cada dois anos, perfazendo um total de 12
volumes. Postumamente editaram-se os Vols. XIII (1699); XIV (1710); XV (1748). Todavia
somente uma parte do volume 14 e o 15 não foram preparados por Vieira. (Cf. António J.
Saraiva, Vieira: In: DHP, VI, p. 300a; António José Saraiva & Óscar Lopes, História da
Literatura Portuguesa, p. 519; Wilson Martins, História da Inteligência Brasileira, Vol. I, p.
172).
194
No Brasil, manteve intensa correspondência com seus amigos portugueses até o final da
vida. “O barco que no Verão de 1697 levou ao Reino a notícia da sua morte transportava ainda
cartas suas.” (António J. Saraiva, Vieira: In: DHP, VI, p. 3021a). As suas Cartas foram
publicadas pelo Pe. Antônio dos Reis: Vols. 1 e 2 (1735); Vol. 3 (1746).
195
Obra que, segundo Vieira, “abre nova estrada à fácil inteligência dos Profetas, e tem sido o
maior emprego dos meus estudos.” (Antonio Vieira, Prologo do Auctor: In: Sermões, Vol. I, p.
LXIV).
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 115

língua,196 etc. – que, sem dúvida, com sua oratória e sagacidade política,
canalizou suas forças para, juntamente com sua vaidade pessoal, contribuir
para o progresso de Portugal e do Brasil, destilando o seu ódio contra o Santo
Ofício, contribuindo para desacreditá-lo junto aos reis e mesmo ao papa.197 No
entanto, politicamente, a sua ótica era regida pelo continente no qual se
encontrava.198

Neste afã, ele não se deteve diante de uma exegese duvidosa das
Escrituras,199 justificou a escravidão dos negros, poupou os índios –
reservando-os, se possível para os jesuítas200 – e usou amplamente dos
recursos dos cristãos-novos sem nenhum preconceito, que alguns gostam de
chamar de “tolerância”. Neste caso, ele tentou uma política monetária
amparada – com verniz patriótico e religioso – nos recursos da burguesia
mercantil: os cristãos-novos,201 tendo sucesso em diversas ocasiões.

Quanto à sua visão do futuro vemos a sua fertilidade intelectual que reflete, por
certo, parte do pensamento europeu, dominado por uma interpretação
fantasiosa que, aliás, é evidente em muitos de seus sermões. Os seus
sermões permanecem como um estilo brilhante, nos quais as palavras são
selecionadas de forma precisa e perspicaz.202 Por isso, não é à toa que ele é

196
Pelo menos, é assim que Rui Barbosa o considera ao longo de suas citações. (Vd. Rui
Barbosa, Réplica, 2 Vols.).
197
Vd. António José Saraiva & Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa, p. 507.
198
Vd. Wilson Martins, História da Inteligência Brasileira, Vol. I, p. 174.
199
Vd. António José Saraiva & Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa, p. 511,
514ss. Em 1668, o enviado inglês a Portugal, Sir Robert Southwell, escrevera que Vieira aliava
“à sua eloqüência natural a arte de fazer com que as Escrituras digam aquilo que ele deseja.”
(C.R. Boxer, Salvador de Sá e a Luta pelo Brasil e Angola, 1602-1686, p. 179).
200
O “poupar” os índios para si, não significava deixa-los fugir impunes ou descartar a
necessidade de imprimir “o selo da escravidão” que, em seguida, era atenuado pelo batismo.
(Vd. J. F. Lisboa, Vida do Padre António Vieira, p. 348ss, 353ss).
201
Vd. António José Saraiva & Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa, p. 505-506;
Wilson Martins, História da Inteligência Brasileira, Vol. I, p. 198-199.
202
Os seus sermões, como então era comum, foram ampliados e revisados antes de serem
publicados. (Vd. Wilson Martins, História da Inteligência Brasileira, Vol. I, p. 175-177; António
J. Saraiva, Vieira: In: DHP, VI, p. 301a).
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considerado correntemente como o “maior pregador do século XVII” da Europa


barroca.203

De fato, é quase impossível lê-lo sem deixar de apreciar o seu estilo e, mesmo
discordando do seu quadro de referência, da sua exegese e da sua dialética
contraditória, repleta de silogismos com premissas exageradamente flexíveis,
não nos sentirmos desafiados a lutar pelo que acreditamos e fazer o melhor
dentro dessa perspectiva, obviamente com um quadro de referência diferente,
guiados pela Palavra de Deus em submissão ao Espírito.

203
Vd. Antonio J. Saraiva, O Discurso Engenhoso, p. 7. Quanto ao suposto estilo “barroco”
de Vieira, Vd. Wilson Martins, História da Inteligência Brasileira, Vol. I, p. 180ss.
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CATOLICISMO BRASILEIRO.

Oratorianos, Jansenismo204 e Galicanismo.205

Apesar de todos os esforços dos jesuítas monopolizadores da historiografia


brasileira, suas censuras foram insuficientes para obliterar a profícua, porém
curta, influencia dos oratorianos sobre os mecanismos que davam base e
sustentação ao catolicismo nacional.

São Felipe Nery fundara, em Roma, em 1564, um agrupamento congregando


sacerdotes seculares, elevado em 1575 a congregação sem votos. Sem rigidez
estrutural, o modelo pareceu conveniente ao Cardeal francês Pierre de Bérulle,
ambicioso rival dos também Cardeais Richelieu e Mazarino, para reunir o
disperso clero do seu país, influenciado pelo jansenismo e galicanismo.

204
Cornélio Jansen, conhecido pelo nome latino Jansenius (Jansênio) (1585-1638), era
holandês e foi bispo de Yprés de 1636 a 1638. Escreveu uma obra sobre a doutrina de Santo
Agostinho, intitulada Augustinus, publicada depois de sua morte. Nela expõe a doutrina que dá
o nome à heresia jansenista. Os jansenistas são rigoristas em doutrina e em moral. Segundo
eles, o pecado original perverteu o homem tão radicalmente que ele fica sem liberdade, e só a
graça, que é irresistível, pode salvá-lo. Cristo não morreu por todos, mas sim pelos que se
salvam, sua doutrina sobre a predestinação aproxima-se da de Calvino. Sua exigência como
preparação para comungar era tal, que aconselhavam realizá-la muito poucas vezes. Tiveram
seu centro no mosteiro de Port-Royal, que tinha por abadessa Angélica Arnauld ( + 1661).
Animador espiritual do movimento, foi Antônio Arnauld (+ 1694), irmão de Angélica. Foram
jansenistas decididos notáveis pensadores e literatos, como Pascal e Racine. Por influência de
São Vicente de Paulo, 88 bispo franceses levaram o assunto ao papa Inocêncio X, que em
1653 condenou cinco proposições jansenistas. Como Igreja separada, o jansenismo só tem
subsistido até hoje numa pequena comunidade de alguns milhares na Holanda, com bispos e
sacerdotes validamente consagrados. Mas o jansenismo continuou influindo no interior da vida
da Igreja contaminando a piedade e a perspectiva da ascética praticamente até começo do
século XX. (PEDRO, Aquilino de, Dicionário de termos religiosos e afins: Aparecida, SP:
Editora Santuário, 1993, p. 153-154)
205
“Atitude de membros da Igreja católica da França que reclamavam para ela liberdade e um
estatuto particular com uma autonomia, frente à centralização de Roma, superior a das Igrejas
das demais nações. Tal atitude se apoiava num sistema ideológico cultivado por teólogos da
Sorbone e por homens como Gerson, Bossuet e outros. Teve força notável entre o episcopado
em determinado momento, e os reis o invocaram em seu afã de subtrair-se e subtrair a
dependência do clero do poder do papa.” (PEDRO, Aquilino de, Dicionário de termos religiosos
e afins: Aparecida, SP: Editora Santuário, 1993, p. 127.)
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 118

Aqui esta mais uma das grandes contradições da história. O movimento de


Felipe Nery fundado em Roma, visava principalmente organizar o clero confuso
pela influência jansenista. Porém o que ocorreu surtiu efeito contrário.

Lançou-se, então, as bases do Oratório francês (1611 – 1613), inspirado


formalmente pelo italiano, porém, dele independente, pela própria estrutura
concebida por Felipe de Nery. Ocorre que o segundo superior geral do próprio
Oratório italiano, o francês Charles de Coudren, já adotava posições teológicas
muito do agrado de Bérulle, muito parecidas ao jansenismo, atraente pelo
menos do ponto de vista moralizante, aos olhos de Roma, preocupada com a
frouxidão do clero secular, enquadrado por Felipe Nery.

E. Caudren e Bérulle baseavam seu rigorismo ético numa mesma


espiritualidade, que culminava a submissão total do homem à infinita majestade
de Deus.206

O jansenismo sofrera violentos golpes nesse período. Aparentemente


derrotado, Port-Royal207 mudava de roupagens, reentrando na cena...Saint
Cyran, um dos principais lideres jansenistas, que ficara ao lado de Bérulle na
luta contra Richelieu. Os oratorianos absorvem o espírito beliscoso dos
jansenistas e com este passa a confundir-se. Vejamos sua entrada em
Portugal.

Em fins do século XVII, Bartolomeu de Quental, antepassado de Antero de


Quental, grande poeta português, introduzia o Oratório em Portugal. O que
vinha bem a coincidir com as pretensões do marquês de Pombal, interessado

206
Revista Brasileira de Filosofia, vol. XXIII, Fasc. 91, Julho/Agosto/setembro 1973, p.271.
207
“Abadia de religiosas cistercienses, nos arredores de Paris, famosa por ter sido desde
meados do século XVII o principal centro e foco de irradiação do jansenismo. Depois das
polêmicas que suscitou este movimento heterodoxo, no qual intervieram homens famosos,
como Pascal ( um dos solitários que freqüentavam o mosteiro ou viviam em sua cercanias),
bispos, políticos etc...as religiosas de Port-Royal foram excomungadas (1707); seu mosteiro foi
fechado no ano seguinte e destruído em 1710por ordem do governo. (PEDRO, Aquilino de,
Dicionário de termos religiosos e afins: Aparecida, SP: Editora Santuário, 1993, p.247)
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 119

na expulsão dos jesuítas. Ele encontrou, finalmente, um competidor à altura


dos inacianos.208

A introdução dos oratorianos em Portugal e sua influência em todas as ordens


continua sendo uma página obscura da historiografia brasileira, infelizmente
subserviente aos interesse dos jesuitismo. Frise-se de passagem que os
oratorianos, em Portugal, não costumavam importar padres da França ou Itália;
eram sacerdotes locais que adotavam a inspiração e os estatutos de um país e
de outro, respectivamente. Pombal logo observou que a índole e origem dos
oratorianos prestava-se, por excelência, ao seu programa de modernização de
Portugal de cima para baixo, numa intuição pré-saint-simoniana.209 “O
Iluminismo português foi essencialmente reformismo e pedagogismo”.

O seu espírito era, não revolucionário, nem anti-histórico, nem irreligioso como
o francês; mas essencialmente progressista, reformista, nacionalista e
humanista. Era o iluminismo italiano: um iluminismo essencialmente cristão e
católico. Mas ambos, os oratorianos portugueses, tanto quanto os jansenistas
franceses, viam nos jesuítas um inimigo comum.”210

Ramalho Ortigão percebera muito antes:211

“Com a influencia intelectual dos oratorianos, introdutores do espírito


critico de Port-Royal na renovação da mentalidade portugueses,
condisse realmente o advento de um dos mais brilhantes períodos da
nossa erudição”.

Começavam a dar frutos os apelos de Luís Antônio Verney212 e Francisco


Ribeiro Sanches, em prol de um iluminismo também lusitano, em choque com

208
Idem, Ibidem, p. 271.
209
Idem, Ibidem, p. 271.
210
Idem, Ibidem, p. 272.
211
Idem, Ibidem, p. 272.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 120

as resistências jesuíticas, agarradas, com unhas e dentes, naquele tempo, à


couraça de Trento213. O marquês de Pombal, prossegue Ramalho, “teve a
previsão desta crise quando por ocasião da expulsão dos jesuítas ele procurou
explicar que o aniquilamento da Companhia de Jesus não decapitaria a
educação nacional, porque os eruditos padres da Congregação do Oratório
vantajosamente substituíram como educadores os jesuítas expulsos”214

Com o advento de Pombal, o Oratório ganhou ainda maior impulso: “D. João V,
mais que seu pai, prestou a esta congregação extrema proteção. A abertura do
sepulcro do venerável Bartolomeu de Quental, cujo corpo se achou intacto,
prodigiosamente concorreu para este resultado”. Sem a ajuda dessa
congregação, o triunfo das novas idéias teria sido senão impossível, mui
demorado no século último e sem o alcance que teve”. A ponto de conseguir
reformar até os estudos da Universidade de Coimbra,215 “em 1772, quando
triunfou o sistema jansenico-galicana.. Os livros de formação da juventude,

212
Verney escreveu uma grande obra. Vivia na Itália; a sua obra é a mais importante do século
XVIII português, ao qual domina de grande altura. Dela, a bem dizer, saiu a reforma dos
estudos; dela, em grande parte, saiu a legislação do marquês de Pombal. “ culturalmente,
Portugal achava-se na Idade Média, depois de haver proclamado, no Renascimento, o princípio
do experimentalismo. Seu trabalho recebeu o título o Verdadeiro Método de Estudar (1747). Ao
lado de Verney (1713-1792) está Ribeiro Sanches (1699-1783), o grande médico, autor das
Cartas sobre a Educação da Mocidade, e D. Luiz da Cunha, o diplomata (1662-1749), autor de
um notável Testemunho Político, em que indicava ao príncipe herdeiro quais as reformas
necessárias, apontando para executante Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro marquês
de Pombal.( Breve Interpretação da História de Portugal. p. 122, Antonio Sergio, Lisboa,
Livraria Sá da Costa Editora, 2.ª edição, 1972.
213
Concílio de Trento (1545-1563) Em Trento, cidade do norte da Itália, foi celebrado o XIX
Concílio Ecumênico em três períodos: 1545-1547, sendo papa Paulo III; 1551-1552, com Júlio
III, e 1562-1563, no pontificado de Pio IV. Ocupou-se de assuntos doutrinais, sobretudo em
relação com os erros dos protestantes, diante de cuja doutrina em mudança deu segurança; e
da reforma dos costumes da Igreja.( Aquilino de Pedro, Dicionário de termos religiosos e
afins.p.318)
214
Revista Filosófica, Vamireh Chacon, p. 272.
215
“Assim, a Reforma universitária pombalina empreende em larga escala a missão de
recuperação e de prolongamento da tradição científica lusa, com o embasamento do
empirismo. Eis um empirismo, que não é levado às últimas conseqüências, tal como em Hume,
Locke mesmo é recebido nas entrelinhas. É um empirismo que tem o seu eixo na Física, e com
Newton exaltada ao máximo. E nem se separa Física de Filosofia, como se registrou na
constituição do currículo da Faculdade de Filosofia nascida da Reforma dos estudos
universitários.” (Montenegro, Revista de Filosofia, p. 336.)
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 121

eclesiástica ou laica, passaram a ser anti-romanos: “ Eram jansenistas e


protestantes na grande maioria os autores prediletos”216

“Erasmo, Malebranche, Lutero, Montaigne com o seu ceticismo


devastdaor, toda uma coorte de humanistas da Reforma, estão na
raiz de um questionamento das tradicionais estruturas religiosas e
teológicas. Era o livre-exame em vigência. E, por seu intermédio, se
desenvolveria todo o espírito liberal. É copiosa a literatura de filosofia
política realçando os pressupostos protestantes, puritanos, de
extração reformista, do Estado liberal. O jansenismo tem raízes na
Reforma, na concepção do homem, do mundo, que dela deriva.”217

Mais tarde, no final do século dezenove, o filósofo português Antero de Quental


analisou o assim chamado “catolicismo do concílio de Trento como uma das
principais causas da decadência dos povos peninsulares numa conferencia que
teve profunda repercussão e ainda não perdeu totalmente a sua atualidade nos
dias de hoje.218

Sebastião de Carvalho e Melo, marquês de Pombal (1699-1782), sonhava com


um Portugal moderno que primasse pelas letras e ciências. Ele aprendeu a
conhecer e a avaliar Portugal de seus dias, e a medir os efeitos de uma política
de isolacionismo. Por outro lado, nas suas missões diplomática Pombal
apreciava a Europa219 culta e moderna.

216
Idem, ibidem., p. 273
217
Montenegro, Revista Filosófica,p.333
218
HOORNAERT, Eduardo, Formação do Catolicismo Brasileiro: 1550-1800, Petrópolis, Vozes,
1991, p. 21. Ver Também Conferencias Democráticas - Causas da Decadência dos Povos
Peninsulares nos últimos três séculos. Discurso pronunciado na noite de 27 de maio, na sala
do Casino Lisbonense por Antero de Quental. Porto, na Typ. Commercial, 1871.
219
Ver Antonio Paim, História do Liberalismo Brasileiro, p. 15.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 122

Comenta João Alfredo de S. Montenegro: 220

“No começo da segunda metade do século XVIII via Pombal, o


ministro todo poderoso de D. José, refletindo a opinião dos espíritos
lúcidos de Portugal, a necessidade inadiável de uma mudança radical
da mentalidade dominante no país, calcada na dogmática aristotélico-
escolastica, com vistas à uma tarefa de modernização, de
aperfeiçoamento institucional, de progresso econômico.”

Em 1.º de novembro de 1755221 Lisboa conheceu uma catástrofe até então


desconhecida, o famoso terremoto, que a liquidou. Esse evento sublinhou o
início da ascensão de Pombal. A cidade ficou arrasada; e, no meio da ruína
geral, deu o marquês a fórmula do procedimento: “enterrar os mortos, cuidar
dos vivos, e fechar os portos”.222

A paixão maior de Pombal foi o ódio aos jesuítas, e procurava um meio, um


mecanismo para atacá-los de uma vez por toda. Na opinião de Pombal o
principal responsável pelo grande atraso de Portugal em relação às demais
nações européia, chamavam-se jesuítas.

A congregação dos oratorianos vem de encontro às necessidades do Marquês


e exerceram uma função das mais nobres e briosas para reerguerem o país do
seu lastimável estado de pobreza cientifica, atraso intelectual e escândalos
religiosos. Mesmo que para isso fossem obrigados a expulsar os jesuítas do
solo português.

220
MONTENEGRO, João Alfredo de S., O Contexto da Reforma Pombalina da Universidade
Portuguesa in Revista Brasileira de Filosofia, vol. XXVI, Fasc. 103, julho/agosto/setembro de
1976,p.327
221
PAIM, Antonio, História do Liberalismo Brasileiro, São Paulo: Mandarim, 1998, p. 15
222
PAIM, História do Liberalismo...p. 15.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 123

“como fazê-lo? A intuição genial de Pombal reside num ponto-chave.


Aquele segundo o qual toda a recuperação do prestígio completo do
poder secular somente se daria a partir de um combate cerrado e
radical ao poder eclesiástico. De tal modo que fossem minadas as
suas bases político-ideológicas, acabando por desmoronar-se o
chamado espirito da contra-reforma, produto do consórcio híbrido
entre o elemento religioso e o elemento político.”223

Na segunda metade do século XVIII o marquês de Pombal toma atitudes


drásticas e rompe completamente com os jesuítas.

Em setembro de 1757 desferiu o Ministro o primeiro golpe, quando foi demitido


o confessor do rei, jesuíta, e proibiu os Jesuítas de entrar na corte. Depois,
denunciou a Ordem perante o papa (Benedito XIV) que nomeou o cardeal
Saldanha, amigo de Pombal, visitador e reformador da Companhia de Jesus.
Em 19 de janeiro de 1759, eram confiscado os bens pertencentes à
Companhia; em 3 de setembro, expulsos de Portugal todos os seus padres.

“Eis que, no momento em que Pombal assume praticamente as


rédeas do poder em Portugal, este se encontra isolado de uma
Europa culta e progressista, mergulhado no obscurantismo, na
mediocridade, na decadência. Contudo naquele momento do
Renascimento, o país desempenhava um papel grandioso na epopéia
dos descobrimentos e na construção de um Império imenso a lhe
garantir riquezas incalculáveis.”224

Quando o iluminismo português se esgotou, coube aos oratorianos seguir


também o caminho do exílio, em 1834, expulsos pelos liberais que, por sua
vez, seriam sucedidos pelos socialistas, nas dialéticas contraposições da
História. 225

223
Idem, Ibidem, p.328.
224
Montenegro, Ibidem, p. 329.
225
Idem, Revista Filosófica, p.273.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 124

E, por grandes que fossem os seus equívocos, os lusitanos animados pela


Ilustração – com Verney, Sanches e os oratorianos à frente – muito
contribuíram no esforço de inserir seu país na modernidade. Os brasileiros
devem-lhe igualmente o benefício, negado ou obscurecido por uma
historiografia oficial, adepta dos jesuítas e do próprio jesuitismo contra-
reformista e anti-iluminista, embora incapaz de silenciar historiadores como
Robert Southey e Capistrano de Abreu.226

Os oratorianos chegaram a produzir grandes vultos da cultura lusitana, desde o


orador Padre Manuel Bernardes – ainda e sempre o maior rival de Vieira, o
jesuíta – até Alexandre Herculano, que aos seus mestres nunca deixou de
reservar uma palavra de gratidão e admiração. Sobre oratorianos escreveram
os irmãos Castilho (Antonio Felicitando e José): 227

“Desde os rudimentos das Humanidades até os cumes da


Eloqüência, da História, da Teologia, da Física e da matemática, não
há ramo que se lá não cultivasse memoravelmente e de que não
ficassem padrões indeléveis e numerosos nas escolas, nas
bibliotecas, nas academias!”

Daí Hernani Cidade poder concluir: “Foi a pedagogia oratoriana que entre nós
introduziu o estudo das ciências experimentais e da filosofia moderna, que as
fecundava e estimulava”. Levando-se em conta a breve existência do Oratório
em Portugal ( de 1671 a 1834), temos de reconhecer a enorme fecundidade do
seu esforço, paradoxal ao propiciar, simultaneamente, ousadias da inteligência
e temores nos sentimentos.228

226
Chacon, Revista Filosófica, p.272.
227
Chacon, Revista Filosófica, p.274.
228
Chacon, Revista Filosófica, p. 274.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 125

As idéias oratorianas chegaram ao nosso país, em Pernambuco, na pessoa do


oratoriano Padre João Duarte Sacramento, logo Bispo de Olinda em 1685, as
sementes do Iluminismo não tardaram a florescer na mesma diocese,
fortalecidas pelo apoio dado por outro Bispo de Olinda, Azeredo Coutinho,
típico ilustrado luso-brasileiro, fundador do Seminário donde saíram os
revolucionários liberais de 1817 e 1824 e, no fim da vida, um dos liquidadores
da Inquisição em Portugal, a cuja frente esteve.229

O Padroado.

No ano de 1514 o rei de Portugal D. Manuel I conseguiu reconfirmar alguns


privilégios que irão caracterizar de forma marcante o Padroado no Brasil tais
como: “o direito de provisão dos bispados, paróquias, cargos eclesiásticos em
geral, em troca do financiamento das atividades eclesiásticas”

Como conseqüência, nenhum clérigo podia partir de Portugal sem autorização


e audiência particular com o rei, ao qual jurava fidelidade. Qualquer
correspondência entre a Igreja no Brasil e Roma passava necessariamente
pelo controle da corroa portuguesa. Além disso cabia ao rei novas fundações
eclesiásticas, escolher candidatos ao episcopado e a outras dignidades
eclesiásticas.

Foi o Padroado que conseguiu instrumentalizar a Igreja Católica no Brasil,


impedindo a sua atuação independente na colônia, visto que a igreja tinha
suas despesas custeadas pela coroa (os missionários eram pagos pela
fazenda real) isso incluía ate missionários protestantes conforme descreveu
J.J. Tschudi em seu livro “Viagem às províncias do Rio de Janeiro e São
Paulo:230

229
Chacon, Revista Filosófica, p.274.
230
TSCHUDI, J.J., Viagem às Províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. Belo Horizonte: Ed.
Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1980. p. 103-109 passim.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 126

“O Imperador Dom Pedro I enviou, no ano de 1823, o brasileiro


naturalizado major Georg Anton de Schaeffer, a Francfort-
sobre-o-Meno, como plenipotenciário, levando a missão de
promover a vinda de imigrantes para o Brasil. (...) Como o
pastor Sauerbronn declarou que o contrato era legítimo e
original (...) Em seu contrato havia uma cláusula em que lhe
eram assegurado os vencimentos anuais de 2.000 florins
romanos. Mas apenas recebeu 200 mil réis, ou seja a sexta
parte do estipulado. Nos anos seguintes recebeu 300, 400 e,
finalmente, 600 mil réis, o que ainda não perfazia nem metade
do devido segundo o contrato. (...) Esta tentativa de reerguer a
colônia foi tão infeliz como a anterior, o que era fácil de prever.
Os colonos alemães imitaram os suíços, abandonando logo que
puderam a colônia. Contou-me o pastor Sauerbronn que,
passado um ano, mais de metade dos companheiros de
viagem já tinha desertado.”

A Igreja na colônia, por conseguinte, não estava diretamente submissa ao papa


e sim ao rei, o verdadeiro chefe da missão católica, o que criou, no imaginário
católico brasileiro uma visão paternalista de Deus. Os jesuítas sempre
tentaram ludibriar o sistema de dominação de dependência imposto pela coroa
com suas fazendas. Desta forma o catolicismo foi se estabelecendo, sob o
poder real, por força da própria política, como religião hegemônica não abrindo
espaço para que outros grupos acatólicos se estabelecessem na colônia. Esta
hegemonia persistiu por todo o período colonial, sendo porém ameaçada em
duas ocasiões : a primeira pela presença huguenote no Rio de Janeiro e depois
pela ocupação do nordeste pelos holandeses.231

231
RIBEIRO, Mario Bueno, As Relações entre Protestantismo e Catolicismo no Brasil. Do
século XVI aos anos 20 do século XX, São Paulo, Tese de Mestrado não publicada, Instituto
Metodista de Ensino Superior, 1996, p.24-25.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 127

Quando o Brasil entra no século XVIII praticamente já estava apagada da sua


memória o protestantismo invasor dos franceses e holandeses dos séculos XVI
e XVII respectivamente. Apagado os traços protestantes, o Brasil tratou de
fechar-se para todo e qualquer grupo que pudesse questionar ou colocar em
risco a sua religião dominante. Mendonça relata que o século XVIII foi a era da
Inquisição no Brasil e no ano de 1720 o governo português proibiu, através de
uma lei, a entrada de qualquer pessoa na colônia, a não ser a serviço da Coroa
ou da igreja. Nesse período predominava o rígido controle do regime do
padroado sobre a colônia.

“O clero e o sentimento religioso dos brasileiros encontravam-se feridos em sua


alma pela regalismo do poder civil e pelo galicanismo do governo, herança
esta das regras portuguesa, e transplantadas para o Brasil. Os atritos entre o
poder e a Igreja datavam de muitos anos atrás, mesmo de antes da Reforma.
Tal era a influência dos monarcas em atos referentes a negócios eclesiásticos,
que usualmente se considerava como verdadeira colaboração, tolerada,
embora irregular. Em França, a Universidade e o Parlamento, isto é as Cortes
de Justiça, valiam por conselheiros teológicos do Soberanos, e
incessantemente invadiam a esfera de competência do governo da Igreja. Na
Espanha Filipe II discutia com o Papa dogmas e disciplina, como se ele próprio
fora o administrador da vida espiritual. Em Portugal, acontecia o mesmo, e a
ascensão ao trono de D. José I, com seu ministro Pombal, marcou o nível
máximo dessa política dominadora a rebaixar as regras romanas232.

De fato, regiões inteiras da atividade pública existiam nas quais a legislação


eclesiástica tinha de ser posta em prática através da agência do poder civil. Um
conflito potencial, pois estava sempre pendente entre essas duas fontes de
autoridade tão diversas, a revelação e a força material. Como tendência geral,

232
CALÓGERAS, J. Pandiá, Formação Histórica do Brasil, São Paulo, Companhia Editora
Nacional, 7.ª Edição, 1972, p. 275-27.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 128

regalismo e galicanismo procuravam dilatar-se, e dominar na contenda. A


Igreja nunca alterou sua posição, mas se via constrangida a constantemente
lutar pela liberdade sua contra o poder civil invasor.

Fora o Brasil organizado segundo as mesmas normas de Portugal. Embora a


Constituição de 1824, liberalíssima para a época, admitisse e tolerasse outro
credo, o catolicismo era a religião oficial.

O ponto de partida desse regalismo era a placitação das bulas ou breves,


oriundos da Sé Apostólica. Nenhum ato praticado pelo pontífice ou pela cúria,
por ordem dele, era exeqüível no Brasil, sem que tivesse sido confirmado pelo
placet do Governo Imperial. O mal-estar, surgido de tais fatos, crescia de dia
para dia, e tendia a por a Igreja na subordinação dos governos. Seria a
catividade da Igreja.”233

Penetração da doutrina Jansenista no Brasil.

Um grande instrumento da sublimação jansenista do Brasil foi a chamada


“Teologia de Lião”, oficializada em seguida, no ensino dos seminários
portugueses e brasileiros, para escândalo dos núncios234 apostólicos. Tratava-
se do livro assinado por Mons. Antoine Malvin de Montazet, Arcebispo de Lyon
e Primaz das Gálias, intitulado Institutiones Theologicae ad usum scholarum
accomodatae quae vulgariter circumferuntur sub nomine Theologiae
Lugdunensis (1780), na realidade escrito pelo oratoriano Joseph Valla, “um dos

233
CALÓGERAS, J. Pandiá, Formação Histórica do Brasil, São Paulo, Companhia Editora
Nacional, 7.ª Edição, 1972, p. 275-27.

234
“Núncio Apostólico, é o representante do papa num país. Como diplomata, cumpre as
funções correspondentes diante do governo da nação, desempenhando ao mesmo tempo
função pastoral em especial relação com o episcopado nacional. Nos países onde o Vaticano
não tem relações com os governos, às vezes o papa nomeia um representante, que recebe o
título de pró-núncio.” (PEDRO, Aquilino de., Dicionário de termos Religiosos e afins, Aparecida,
Editora Santuário, 1993, p.218)
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 129

lugares-tenentes do Arcebispo na controvérsia jansenista”, pois “tornara a sua


sede uma praça forte do jansenismo francês”. Assim sobrevivendo à sombra da
hierarquia galicana, em conúbio com os oratorianos.”235

“Monsignore Lorenzo Caleppi, primeiro Núncio no Brasil, informara-se, logo em


1803, que a obra estava no Índex Librorum prohibitorum et expurgatorum
desde 17 de dezembro de 1792. Daí dirigir-se ao primeiro bispo do Rio de
Janeiro, D. José Caetano da Silva Coutinho, advertindo-o contra seu uso,
recebendo surpreendente resposta, na qual D. Coutinho ousava colocar em
dúvida a autoridade da Congregação do Santo Ofício em condenar, ou proibir
livros, pois ela não se encontrava acima dos bispos. E ele, D. Coutinho, nada
achava demais no referido manual, cujas doutrinas eram as mesmas das “mais
famosas universidade católicas”.236

A “Teologia de Lião” parecia-lhe um livro ótimo e sapientíssimo, na opinião de


muita gente boa, muito estimado e lido por muitos teólogos da Itália, Roma, e
de todo mundo. Concluía desafiando o Núncio a apontar-lhe suas implicações
heréticas.237
Outra obra, de marcado cunho jansenista e uso corrente nos seminários
brasileiros, foi o referido “Catecismo de Montpellier”, intitulado Instruction
générales en forme de Catechisme, de autoria do também oratoriano François-
Aimé Ponget, diretor do Seminário daquela cidade, e impresso por autorização
do Bispo da Diocese, Charles-Joachim Colbert, de notórias simpatias
jansenistas. Obra condenada desde 1771 por Roma.”238

Neste contexto o avanço das idéias liberais são inevitáveis com um eixo
marcadamente antropocêntrico, nacionalista e contestador do “status quo”.

235
Chacon, Revista Filosófica, p. 275.
236
Chacon, Revista Filosófica, p. 275.
237
Chacon, Revista Filosófica, p. 275.
238
Chacon, Revista Filosófica, p. 275.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 130

Somente ai que Portugal se percebeu atrasado em relação às demais nações


européias como a Inglaterra, a França e a Alemanha.

Por sufocantes que fossem as resistências do Beneditino Mateus da


Encarnação Pina, o Jansenismo penetrara fundo na cultura brasileira. Muito
mais que os próprios missionários protestantes, dinamizadores da propagação
da sua fé na século XIX.

Tais livros causavam tanto sucesso em meio aos brasileiros que até mesmo o
missionário protestante Daniel P. Kidder, pensava em utilizar o “Catecismo de
Montpellier”239 para ajudar sua infiltração, pois o jansenismo fomentava “uma
piedade austera, culto das Sagradas Escrituras e independência com ralação a
Roma.240

Padres do Patrocínio

O historiador Émile – G. Léonard em sua obra “O iluminismo num


Protestantismo de Constituição Recente”, timidamente esboça uma possível
ligação entre José Manoel da Conceição e os padres do patrocínio.
Vejamos:241

“Isto começou com o mais distinto, o mais ativo e, ainda hoje, o mais
justamente conhecido de seus prosélitos, um antigo padre, José
Manoel da Conceição, originário de São Paulo e ingressado nas
ordens em 1845. Uns vinte anos antes, sua piedade profunda,

239
“A distribuição de umas duas dúzias de Testamentos pelas diversas escolas da cidade,
sugeriu-nos a idéia de sua introdução como livro de leitura nas escolas de toda província. O
plano parecia ainda mais interessante devido ao fato, geralmente constatado, de haver grande
falta de livros escolares. O Catecismo de Montpellier seria mais apropriado para esse fim que
qualquer outro livro” ( Kidder, Daniel P. Reminiscências de viagens...p. 285)
240
Chacon, Revista Filosófica, p. 276.
241
LÉONARD, Émile-G., O Iluminismo Num Protestantismo de Constituição Recente, S.
Bernardo do Campo, Programa Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, 1988,
p. 22. Grifo meu.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 131

ardente e o rigor de sua vida tinham, talvez feito dele um membro


deste belo grupo do famoso Pe. Jesuino de Monte-Carmelo,
pintor, escultor e arquiteto de renome, um jannista místico paradoxal
para uma certa lenda de piedade latino-americana bem mais
significativo.”

Seria possível termos no Brasil um centro de irradiação do jansenismo nos


moldes de Port-Royal? A discussão se amplia a medida que se observa a
existência na cidade de Itu, de um grupo de sacerdotes que se reuniam em
torno do Padre Jesuino do Monte Carmelo.242

Francisco de Paula Gusmão, Nasceu na então vila de Santos a 25 de março de


1764243, pardo, veio para Itu, a fim de pintar a igreja de Nossa Senhora do
Carmo, em fins do século XVIII ou princípios do XIX. Impossibilitado de entrar
na Ordem, por motivo da sua cor, ao enviuvar tornou-se padre e eremita. Dois
dos seus filhos tornaram-se também sacerdotes e uma filha chegou a reitora do
recolhimento de Nossa Senhora das Mercês.
Alguns autores entendem que o movimento oratoriano encontrou guarida junto
ao eremitas de Itu, principalmente pela influência da “Teologia de Lião”. E por
que esta influência não atingiria paroxismos, na reação moralista típica de
Port-Royal, contra a frouxidão de um clero entregue a tantos desmandos? A
ponto do Núncio Ostini, e não um anticlerical, escrever a Roma: 244

“Aqui toda religião consiste em aparatos, músicas, repicar de sinos e


fogo de artifício: o concurso se realiza em tais ocasiões, até nas
igrejas, oferece o espetáculo da maior licenciosidade”.

242
Chacon, Revista Filosófica, p. 277.
243
MARQUES, MANUEL Eufrásio de Azevedo, Apontamentos históricos, geográficos,
biográficos, estatísticos e noticiosos da Província de São Paulo: seguidos da Cronologia dos
acontecimentos mais notáveis desde a fundação da Capitania de São Vicente até o ano de
1876: belo Horizonte, Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1980, p. 15
244
Chacon, Revista Filosófica, p. 280.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 132

Os Padres do patrocínio faziam jansenismo provavelmente sem o saber.


Empolgados pelo ascetismo, reagindo contra a lassidão do clero em geral,
decepcionados com as prebendas e recompensas materiais recebidas, mesmo
assim, por este clero, os cenobitas em torno de Jesuino do Monte Carmelo
procuravam expiar suas leves culpas e as grandes dos outros. A “Teologia de
Lião” propiciara o holocausto; impotente embora generoso, tanto no Port-
Royal francês quanto no tropical.

Diogo Antônio Feijó: O Regente.

Natural de São Paulo. onde nasceu no mês de agosto de 1784, e foi batizado a
17 do mesmo mês e ano pelo coadjutor José Joaquim da Silva, tendo sido
exposto em casa do sub-diácono Fernando Lopes de Camargo que lhe serviu
de padrinho, e de madrinha D. Maria Gertrudes de Camargo, como consta da
certidão respectiva junta à justificação de genere, a que procedeu para
ordenar-se em 1809, existente no cartório episcopal de São Paulo. Ordenou-se
de presbítero em 1809, dedicando-se logo à educação da mocidade nas vilas
de Parnaíba, Itu e Campinas, lecionando latim, retórica e filosofia racional e
moral. Caráter austero e desinteressado, soube conciliar com a estima o
respeito de seus contemporâneos. Até 1821 fato algum depara-se na sua vida
que autorize a prever-se nele o grande vulto que em breves anos teria de
representar um dos mais importantes papéis na história política do Brasil. A sua
carreira pública começou naquele ano com os sufrágios que obteve para eleitor
na paróquia de Itu, na eleição dos deputados às Cortes Constituintes de
Lisboa. Já então os princípios liberais, que havia manifestado, e a instrução
que possuía, deram-lhe um lugar na mesma Assembléia, onde tomou assento
em fevereiro de 1822, e na sessão de 24 de abril desse ano proferiu um desses
discursos enérgicos repassados de patriotismo que fariam por si só a
reputação de um homem político naquela época. Porém a atitude e intolerância
dos deputados portugueses convenceu desde logo Feijó e a outros deputados
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 133

brasileiros que nada poderiam fazer a prol de sua pátria; a irritação dos ânimos
crescia de dia em dia, e o despotismo colonizador chegou a ameaçar os
representantes do Brasil. Foi eleito deputado à Assembléia Constituinte e ainda
para as 1.ª e 2.ª legislaturas da Assembléia Geral. Na sessão de 1827
apresentou o projeto abolindo o celibato clerical e nesse mesmo ano publicou
um folheto sobre o assunto, provindo-lhe daí, segundo consta, o desagrado da
cúria romana. Nomeado ministro da Justiça em 1831; Eleito pela província do
Rio de Janeiro para seu representante no senado, Ocupou o importante cargo
de regente, durante a minoridade do Imperador D. Pedro II, de cujo cargo
tomou posse a 12 de outubro de 1835, tendo sido a 11 do mesmo mês
nomeado bispo de Mariana, honra que renunciou.

Ninguém melhor que Diogo Antônio Feijó se situou na encruzilhada jansênico-


galicana em nosso país.

O pastor metodista Daniel P. Kidder245 registrou para a posteridade sua


impressão do Regente em uma entrevista:

“Não ouve cerimônia. Parecia que sua reverência estivera deitado


numa alcova contígua e se levantara apressadamente para nos
receber. Não trazia vestes eclesiásticas. De fato, vestia uma roupa de
algodão listado que não parecia nova e sua barba parecia por demais
crescida para lhe permitir que sentisse confortável em dia tão quente.
Feijó era baixo e corpulento, apresentando sessenta anos de idades,
mas, de compleição robusta e feições saudáveis. Sua cabeça e se
aspecto traziam a marca da inteligência e davam-lhe uma expressão
de benevolência, conquanto houvesse algo em seu olhar que

245
“Motivos religiosos também serviam de justificativa para a aventura da viagem. É o caso de
Daniel Parish Kidder, um reverendo norte-americano que permaneceu no país de 1836 até
1842 e, na qualidade de missionário metodista, foi considerado o pioneiro do protestantismo no
Brasil. Sua estadia corresponde, portanto, ao conturbado período das Regências, que termina
um ano antes da partida de Kidder, quando ocorre o golpe da Maioridade. Assim como
acontecia com a maioria dos viajantes, o que mais constrangia o reverendo Kidder era a
escravidão e a falta de decoro na cerimônias religiosas.” SCHWARCS, Lilia Moritz, As Barbas
do Imperador, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 251.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 134

justificasse a observação que nos haviam feito, antes da entrevista,


de que ele tinha uma expressão felina. Sua conversa era fluente e
muito interessante. Nosso companheiro disse-lhe que lhe havíamos
proposto diversas questões relativas aos costumes do clero e ao
nível cultural e religioso do país (...) demonstrando não pequeno
aborrecimento com o atual estado das coisas, especialmente em
relação ao clero. Afirmou que “dificilmente se encontrava em toda a
província um padre que cumprisse os seus deveres como manda a
igreja, especialmente, com relação à instrução religiosa das crianças,
no dia do Senhor.”246

Octávio Tarquínico de Souza, biógrafo de Feijó, descobre em suas pesquisas,


atitudes “quase de revolta ou heresia”, no seu biografado, ao repelir
“ultramontanos e papistas, que obedecem ao Bispo de Roma como a um
Senhor...” Ao que conclui Octávio: “Não falaria assim um luterano, um
reformado, um protestante?”247 E apesar do seu testamento, com declarações
finais de obediência ao Papa, isto não lhe impedira, antes, propor a importação
dos missionários Hussitas, Irmãos Morávios, para escândalo e repulsa do
Primaz do Brasil e Arcebispo da Bahia, Dom Romualdo Antônio de
Seixas...Seu adversário em várias questões, além do rumoroso celibato
clerical. Interesse pelo Hussismo que revela permanente preocupação
nacionalista-religiosa, remontando às influências jansênico-galicanas em seu
espírito.”248

“Feijó entusiasmou o missionário metodista Kidder.” A ponto deste exclamar: -


“Feijó é um homem notável”249

246
KIDDER, Daniel P., Reminiscências de Viagens e Permanências nas províncias do Sul
do Brasil, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1980, p.
265.
247
Chacon, Revista Filosófica, p. 283.
248
Chacon, Revista Filosófica, p. 284.
249
Chacon, Revista Filosófica, p. 284.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 135

Alguns contemporâneos de Feijó conseguiam detectar nele Feijó, “o seu


Jansenismo-Galicano comprovado, que o elevava a uma grandeza de alma
que o enobrece. De onde, “os Padres do Patrocínio em geral, e não cada um
deles, receberam, por algum tempo influência heterodoxas do seu chefe, Diogo
Antônio Feijó250. Como podemos ver Itu era a cidadela de Feijó e ele com
muita astúcia e nobreza de caráter influenciou os padres do Patrocínio.

Estes movimentos fizeram girar a sociedade brasileira com impulsos, ora


violentos ora calmos. No Brasil Imperial tínhamos um governo constantemente
em choque com o clero. Quanto ao catolicismo não poderemos tratá-lo no
singular, uma vez que são vários modelos de catolicismo que estão inseridos
na sociedade brasileira.

No Brasil Imperial todos, ou quase todos, se declaravam católicos. Mas essa


unanimidade de aparência não impedia que houvesse as mais variadas
interpretações sobre em que realmente consistia esse catolicismo, na doutrina
e na vivência. No interior da elite intelectual, por exemplo, iremos encontrar
sem muito esforço três “linhas católicas” diferentes: uma, mais antiga, que
costuma ser chamada de “catolicismo tradicional”251, e duas outras, resultantes
de diferentes tentativas de reforma a primeira, que se convencionou chamar de
“catolicismo iluminista”252 e “catolicismo ultramontano”253. Paralelamente a

250
MARQUES, M.E. de Azevedo, Apontamentos históricos, geográficos, biográficos,
estatísticos e noticiosos da Província de São Paulo.( Vol. 1) : Belo Horizonte: Ed. Itatiaia;
São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1980,p. 219-220)
251
“O catolicismo tradicional foi aquele que primeiro se implantou no Brasil, trazido juntamente
com a colonização portuguesa com algumas características peculiares. Destacamos o seu
caráter leigo, social e familiar.” (FAUSTINO, Evandro, O Catolicismo em S. Paulo no
Segundo Império e o “Dilema da Modernidade – Dissertação de Mestrado, Universidade de
São Paulo, São Paulo, p. 17, 1981)
252
“O chamado “catolicismo “iluminista” foi a forma de entender e viver a religião que
predominou entre o clero e a elite letrada de Portugal e do Brasil desde o final do século XVIII
até meados do século XIX. A característica principal dessa forma de pensar o “ecletismo”, ou
seja, “a necessidade e o esforço de conciliar o pensamento filosófico da ilustração com as
crenças tradicionais do catolicismo. Seria a solução encontrada pela intelectualidade, quando
se defrontava com o imperativo de, por um lado, promover o progresso material pelo “novo
saber da natureza” e de atualizar o pensamento filosófico e científico no sentido de inseri-lo na
modernidade, e por outro lado, de corresponder a uma aspiração não menos viva, de atender a
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 136

essas manifestações intelectuais, iremos encontrar também o “catolicismo


popular”254, que não se confunde inteiramente com nenhuma delas.

Em meados do século XIX, essas quatro formas de praticar o catolicismo


viviam simultâneas: era possível encontrar clérigos e intelectuais “tradicionais”,
“iluministas” e “ultramontanos”. E ricos fazendeiros, e miseráveis escravos
praticantes do “catolicismo popular”. E todos convivendo no mesmo ambiente,
e freqüentando as mesmas igrejas, numa confusão viva e cambiante.

Roger Bastide, grande sociólogo com uma visão penetrante, porém mais
genérica descreve os modelos católicos encontrados no Brasil colônia:255

“Nós assim nos encontramos desde o começo do período colonial em


presença de dois catolicismos que eram diferentes e frenqüetemente
em oposição: o catolicismo familiar dos colonizadores e do patriarca e
o catolicismo mais romano e universalista das ordens religiosas,
especialmente a dos jesuítas.”

um sentimento religioso, alimentado desde o berço”. (FAUSTINO, Evandro, O Catolicismo em


S. Paulo no Segundo Império e o “Dilema da Modernidade – Dissertação de Mestrado,
Universidade de São Paulo, São Paulo, p. 25, 1981)
253
“O termo ultramontano foi cunhado na França, e significava aquele católico que, em
oposição ao “iluminismo”, era fiel à autoridade do Papa, que estava “além dos montes” (os
Alpes). Era o símbolo da fidelidade absoluta e irrestrita à doutrina católica tal como era
ensinada por Roma, sem nenhuma concessão às “luzes do século”. (FAUSTINO, Evandro, O
Catolicismo em S. Paulo no Segundo Império e o “Dilema da Modernidade – Dissertação
de Mestrado, Universidade de São Paulo, São Paulo, p. 33, 1981)
254
“Entendo por catolicismo popular a forma de viver a religião da imensa maioria do povo que
se afirmava católico. Essa forma peculiar de prática religiosa não se confundiu com os
catolicismos tradicional, “iluminista” ou ultramontano, embora tenha convivido com todos eles.
As características desse catolicismo popular eram: Dogma: idolatria e politeísmo práticos;
Moral: o costume do lugar e não a regra da Igreja; Liturgia: Rituais mágicos; Cerimônias e
procissões: pretexto para diversão (FAUSTINO, Evandro, O Catolicismo em S. Paulo no
Segundo Império e o “Dilema da Modernidade – Dissertação de Mestrado, Universidade
de São Paulo, São Paulo, pp. 42-52, 1981)
255
BASTIDE, Roger, Religião e Igreja no Brasil in “Brazil, Portrait of half a continent”, p.2,
apostila datilografada.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 137

Com a vinda da família Real no Brasil em 1808, ocorreria uma série de


benefícios para à sociedade que não conseguia enxergar melhoras político-
sociais a curto prazo. O Brasil não passada de uma colônia ao olhos dos
portugueses e muito rendosa por sinal. Com a família real também chaga a
possibilidade de desenvolvimento.

Em 1810, Portugal e Inglaterra inauguravam tratados de aliança e amizades,


comercio e navegação. Tratados que reciprocamente trariam grandes
benefícios para as duas nações. A amizade de Portugal com Inglaterra remonta
às guerras napoleônicas.

Inserido no tratado de comercio e navegação, existe uma clausula quanto a


liberdade religiosa dos ingleses em relação à Portugal e de portugueses em
relação a Inglaterra muito liberal. Tal dispositivo mostrava o quanto de
tolerância, Portugal teria em relação aos cultos e práticas não católicas.
Vejamos o que nos diz o Artigo XII do “Tratado de Comércio e Navegação de
19 de fevereiro de 1810”: 256

“Sua Alteza Real o Príncipe Regente de Portugal declara e se obriga


no seu próprio nome, no de Seus Herdeiros e sucessores, a que os
Vassalos de Sua Majestade Britânica residentes nos Seus Territórios
e Domínios não serão perturbados, inquietados, perseguidos ou
molestados por causa da Sua Religião, mas antes terão perfeita
liberdade de Consciência, e licença para assistirem e celebrarem o
serviço Divino em honra do Todo-Poderoso Deus, quer seja dentro de
suas Casas Particulares, quer nas suas particulares Igrejas e

256
MACEDO, Roberto, Brasil sede da Monarquia. Brasil Reino (1ª parte):2ª Edição, Brasília,
Editora Universidade de Brasília/Fundação Centro de Formação do Servidor Público, 1983,
p.199. Ver Tratado no apêndice.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 138

Capelas, que Sua Alteza Real agora, e para sempre, graciosamente


lhes concede a permissão de edificarem e manterem dentro dos seus
Domínios. Contando porém que as Sobreditas Igrejas e Capelas
serão construídas de tal modo que externamente se assemelhem a
Casas de habitação; e também que o suo dos Sinos lhe não seja
permitido para o fim de anunciarem publicamente as horas do Serviço
Divino(...) Permitir-se-á também enterrar os Vassalos de Sua
Majestade Britânica, que morrerem nos Territórios da Sua Alteza
Real o Príncipe Regente de Portugal, em convenientes lugares, que
serão designados, para este fim. Nem se perturbarão de modo
algum, nem por qualquer motivo, os funerais, ou as Sepulturas do
Mortos.

Após a independência brasileira em relação à Portugal, convocou-se a famosa


constituinte de 1823. Essa constituinte teria a memorável tarefa de transformar
aquele que foi colônia de Portugal em reino soberano. A monarquia
constitucional já não era um sonho. Com a constituinte a realidade de uma
monarquia constitucional estava bem próxima.

Foram dias de discussões memoráveis da história brasileira. Entre os assuntos


de grande importância discutidos estava a questão religiosa. O reino brasileiro
ofereceria a tão necessária tolerância religiosa em relação a outros credos não
católicos? Finalmente com a constituição de 1824257 o sonho tornou-se
realidade. Observemos os principais artigos :

“Titulo 1.º Art. 3. O seu governo é Monárquico hereditário,


Constitucional, e Representativo.

257
“Constituição Imperial de 25 de março de 1824” GARCEZ, Benedicto Novaes, O Mackenzie,
São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1969, p. 10
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 139

Art. 4. A Dinastia Imperante é a do Senhor Dom Pedro I, atual


Imperador, e defensor Perpetuo do Brasil.
Art. 5. A Religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a
Religião do Império. Todas as outras Religiões serão permitidas com
seu culto doméstico, ou particular em casas para isso destinadas,
sem forma alguma exterior de Templo.”
Título 2.º Dos Cidadãos Brasileiros.
Art. 6. São Cidadãos Brasileiros.
V. Os estrangeiros naturalizados, qualquer que seja a sua Religião. A
lei determinará as qualidades precisas, para se obter Carta de
naturalização (Constituição de 25 de março de 1824.) .258

José Manoel da Conceição: ex-Padre.

De São Paulo à Sorocaba.

O historiador Boanerges Ribeiro descreveu aquele que foi o momento de


despedida de José Manoel da Conceição de São Paulo:

“Passaram a rua de São José, ladeira abaixo e entraram no vale do


Anhangabaú. Já a cidade estava para traz, longe à direita. Os
casebres de Santa Ifigênia: à frente, O Morro do Chá, e a estrada
que, passando pela vila de Pinheiros, os levaria a Sorocaba; rio
acima, os currais do Piques, inquietos, cheios já do rumor de
cascos.”259

258
CAMPANHOLE, Adriano, CAMPANHOLE, Hilton Lobo, in , Constituições do Brasil, São
Paulo, Atlas, 8.ª Edição, 1985, p.632-633
259
RIBEIRO, Boanerges, O Padre Protestante, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana. p.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 140

A família de Conceição deixou São Paulo para ir mora com o padre Mendonça
em Sorocaba. As lembranças que ficavam era de uma cidade absorvida pelo
catolicismo festeiro e com muitas superstições. O período abordado era de
inquietação e incerteza. Rumores desciam do Rio, desfigurados pela distância.
Ameaças de Portugal; reação dos nacionais, encabeçada pelo príncipe. O
Império brasileiro fervilhava politicamente.

Situa-se a cidade de Sorocaba em uma região acidentada, cortada por matas e


campos, estende-se pela encosta de uma colina, em cujo sopé corre o rio
Sorocaba.

Na Sé vinte clérigos cantavam a missa. Nas festas mais importantes o dia todo
era tomado pela religião: missa de manhã; sermão ao meio dia. Havia oradores
famosos e a multidão se apinhava no grande templo para ouvi-los. às cinco da
tarde saía a procissão da catedral, ao repicar dos sinos de todas as igrejas, e
desfilava pelas ruas principais.

Padre Mendonça.

Chegou finalmente a São Paulo o padre Mendonça homem consciencioso,


enérgico e instruído. Nessa época, março de 1822, tornou-se padrinho de
Conceição. Em setembro assinava a ata da Aclamação na qualidade de vigário
de Xiririca. Pouco depois vagava a freguesia de Sorocaba. Candidatou-se ao
lugar, e venceu.260 Mal teve tempo de voltar a Xiririca, arrumar os livros num
cargueiro e subir a serra. A 3 de fevereiro de 1824 tomava posse como vigário
colado em Sorocaba.

Esse padre provavelmente não se envolveu em questões política de maior


importância. No entanto quando ocorreu a Revolta Liberal em 1842 localizada
em Sorocaba estiveram presente liberais de grande influência como: Rafael

260
RIBEIRO, Boanerges, José Manoel da Conceição e a Reforma Evangélica, p.7
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 141

Tobias, padre Feijó; Senador Vergueiro. Mendonça está na relação dos


signatários da Ata de rebelião; ele e mais 10 padres.261

Boanerges Ribeiro registra informações importantes sobre à casa do padre


Mendonça e que para ela mudaram-se: O Padre, sua mãe muito velhinha e
viúva e pouco depois chegaram a sobrinha com o marido e o sobrinho-neto de
2 anos.

“(...) residia na casa da rua de S. Bento: era térrea, pequena, baixa,


modesta, não distante da Matriz.”262

A vila era importante, e mais próxima da capital. O trabalho de organização foi


enorme pois tudo era só confusão e desordem.

José Manoel da Conceição desde pequeno começou a receber influência


religiosa, havendo sido criado e educado pelo padre Mendonça.263

O seu mestre das primeiras letras foi o padre Jacinto Heliodoro de Vasconcelo,
em Sorocaba. Um dos livros utilizados era o Catecismo de Montpellier do bispo
Colbert, obra que o catolicismo tridentino proibia por considerá-la jansenista.
A Carga de ensinos e práticas religiosas depositados sobre o menino José
Manoel desde as primeiras letras o tornaria muito devoto. E se mostrou assim
até os dezesseis anos de idade. Teve, porém, conflitos espirituais, e cedo
travou conhecimento com as escrituras Sagradas.”264

Estuda Latim com o padre José Gonçalves que por ele tem profunda
admiração e pelo que parece aos 18 anos teve contato com a Bíblia.

261
RIBEIRO, Boanerges, José Manoel da Conceição e a Reforma Evangélica, p.8
262
RIBEIRO, Boanerges, José Manoel da Conceição e a Reforma Evangélica, p.7
263
“O padre Francisco de Mendonça, irmão de meu avô Manuel Francisco de Mendonça, criou-
me e educou-me” . Boanerges Ribeiro faz o comentário entre aspas.
264
Vicente Themudo Lessa, Idem, p. 12.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 142

Infância, adolescência e Mocidade.

Compreender movimentos que, inconformados com sistemas rígidos,


imutáveis e opressores, resolveram dar um basta estabelecendo uma nova
ordem social ou política, ou mesmo espiritual, é uma tarefa das mais difícil
para o sociólogo e até mesmo para o historiador.

O professor Émile –G. Léonard descreveu José Manoel da conceição como


um reformador com os mesmos ideais de Lutero, Zwinglio e Feijó: 265

“O homem que abriria ao protestantismo o interior - conquistando não


apenas indivíduos isolados mas famílias extensas e sólidas –
assegurando assim, seu estabelecimento, foi um padre. Esta
particularidade – que nos reconduz à época da Reforma e às
facilidades que ela encontrou no ministério sacerdotal de um Zwinglio
e muitos outros – corresponde também àquilo que fora o sonho de
Feijó: a reforma da Igreja brasileira por um padre brasileiro.”

José Manoel da Conceição nasceu na província de São Paulo, aos 11 de


março de 1822266. O Padre Antônio Marques Henrique no dia 24 de março de
1822 o batizou. Era filho de Manuel da Costa Santos, português, era pedreiro
de ofício e de sua mulher Cândida Flora de Oliveira Mascarenhas, do Rio, era
neta de açorianos chegados ao Brasil por volta de 1750, sendo padrinho o seu
tio avô padre José Francisco de Mendonça.
265
Léonard, Émile – G., O Protestantismo Brasileiro: Rio de Janeiro e São Paulo,
Juerp/Aste, 2ª edição, 1981. p.56.
266
“José Manoel da Conceição era paulista, havendo nascido na cidade de São Paulo aos 11
de março de 1822, seis meses antes de ecoar o brado do Ipiranga. Era seu pai o português
Manoel da Costa Santos, artífice em construções de pedra. Sua mãe D. Candida Flora de O.
Mascarenhas era natural do Rio.” Cf. Vicente Themudo Lessa, Padre José Manoel da
Conceição, São Paulo, Est. Gráfico Cruzeiro do Sul, 1935, p. 11. Ver também seu próprio
testemunho na Imprensa Evangélica, março de 1881. Ver LESSA, Annaes da 1.ª Egreja
Presbyteriana de S. Paulo (1863-1903) São Paulo, 1938, p.108 e mais Rev. Boanerges
Ribeiro, José Manoel da Conceição e a Reforma Evangélica, São Paulo, Livraria O
Semeador, 1995, p. 7.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 143

Assinado o assento por Antonio Manoel de Abreu. Arquivado na Cúria


Metropolitana de São Paulo; na estante III, prateleira II, no livro IX, folhas 84.267

“Foi muito devoto até aos 16 anos. Depois que a religião começou a influir no
meu coração, comecei a sofrer de melancolia pelo retrospecto que fazia sobre
minha vida passada; na mesma religião porém tenho achado remédio para
curar essas chagas, e ao traçar estas linhas sinto que minha esperança e
consolação é plena ao meu Divino Redentor Jesus.”268

“Aos 18 anos comecei a ler a Bíblia. Apenas tinha lido os três primeiros
capítulos do Gênesis, quando notei, que a prática e doutrina da Igreja
Romana, faziam oposição direta e irreconciliável com aquilo que amava ou
tinha por verdadeiro.”269

Em pouco tempo tornou-se conhecido no clero de São Paulo, era um


estudante talentoso e de futuro. Quando diante dos examinadores sinodais e
do Bispo D. Manoel Joaquim, prestou exames de teologia, o bom conceito em
que era tido cresceu. Era o melhor estudante daqueles anos. Os professores
de São Paulo só lhe viram a inteligência nos exames: Júlio Andrade Ferreira
comenta:270

“Conceição era homem de cultura, de notável influência, mas um


tanto nervoso”

Estava com vinte anos. Antes dos exames, solicitou como era praxe, o
processo “De genese et moribus” e sua vida foi vasculhada e a dos seus

267
Imprensa Evangélica, março de 1881.
268
Imprensa Evangélica, março de 1881.
269
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana do Brasil. Vol. 1, São Paulo,
Casa Editora Presbiteriana, 2.ª edição 1992, p.44.
270
FERREIRA, Júlio Andrade, Galeria Evangélica,São Paulo, Casa Editora Presbiteriana,
1952, p. 15
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 144

antepassados; era preciso verificar se pais e avós não tinham incorrido “em
infâmia pública e pena civil de fato e de direito”. Plenamente aprovado,
compareceu durante seis dias aos exercícios espiritual na capela.

Cabe aqui para José Manoel da Conceição as mesmas palavras que Lucien
Febvre utilizou para Lutero: 271

“O habito que esse jovem inquieto e atormentado queria levar, o


habito dos eremitas(...) A vida sacerdotal não é uma anedota para
ele, foi um padre com paixão durante anos e marcou profundamente
sua vida com sinais indeleves”

Conceição por muitos anos era padre desta diocese; era muito conhecido na
província, tido em conta de um dos mais ilustrados e eloqüentes pregadores, e
geralmente benquisto do povo, posto que, há muito, suspeito de heresia. Há
cerca de dois anos, ele despediu-se da igreja católica romana, e pôs-se a
pregar o evangelho.
Tenho assistido por várias ocasiões a suas prédicas, que em nada
desmentiram a sua antiga fama. Por alguns meses passados, tem se ocupado
em viajar, pregando o evangelho em toda a parte onde acha ocasião para isto,
e povo disposto para ouvir. Em dois lugares as autoridades policiais
procuraram impedi-lo. Tem sido criticado e injuriado; defendido e louvado; e em
muitos lugares, o evangelho é hoje o principal assunto de conversação. Por
um exemplo de como se pensa e fala aqui a seu respeito, transcrevo de uma
correspondência de Sorocaba, publicado no Correio Paulistano de 13 do
corrente.

271
FEBVRE, Lucien, Martín Lutero: Un Destino, México, Fondo de Cultura Económica, 2.ª
edição, 1944, p.18)
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 145

Nestas palavras creio que os homens sensatos, só possam enxergar a ironia e


desprezo com que os ultramontanos e familiares dos jesuítas, costumam aqui
tratar o governo civil, e as atuais autoridades eclesiásticas. Ninguém se iluda
porém com a idéia que este zelo pudibundo, seja motivado pela afeição, ou
mesmo pelo respeito que se tenha aos jesuítas. Ao menos aqui não se pensa
desta maneira. Nem cuide alguém que esta folha religiosa, que nada ensina de
religião além dos anacronismos mencionados, serve de índice das opiniões e
dos sentimentos do povo paulistano. Afora os próprios meios para isso usados,
creio que nada esta contribuindo tanto para o progresso do Evangelho, como a
oposição despropositada deste jornal, e sua advocacia asquerosa e indiscreta
de idéias reprovadas pela grande maioria dos homens sensatos e sinceros.
Tenho por sinal disto, a grande aceitação que tem havido o “Cabrião”, um novo
jornal ilustrado, que se dedica especialmente a ridicularizar o Diário e seus
protegidos. “Este jornal tem seu titulo de imparcial também, visto que já
obsequiou o padre protestante com seu retrato. O ridículo é uma arma perigosa
no manejo; porém as palhas mostram o curso do vento. (Imprensa
Evangélica, Sábado 1 de dezembro de 1866, Viador, n.º. 23 )

Porém o mundo ainda há de conhecer-te melhor e honrar a memória de um


que teve a coragem de enunciar as suas convicções antes que a morte o
pusesse ao abrigo dos perseguidores da verdade. Estando morto, tu ainda
falas em nossas colunas hoje. A tua firme resolução de separar-te do poder
que “se assenta no templo de Deus, ostentando-se como se fosse Deus.”, deu
lugar a que testificasses a verdade a muitos que hoje bendizem a tua memória
e pranteiam o teu pensamento prematuro. Descansas dos teus trabalhos e as
tuas obras te seguem. Pouco a pouco vão se reunindo contigo no lugar
preparado por Jesus para os que o amam, os que ouviram da tua boca a
palavra. Deves hoje mais que nunca bendizer a Deus por ter te salvo da triste
experiência.”
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 146

José Manoel da Conceição próximo, como ele mesmo disse, do encontro com
seu Senhor, afirmou estar profundamente descontente com à Igreja Católica
Apostólica Romana:

“Próximo a comparecer perante Aquele que é a verdade imutável,


declaro que foi contra vontade e com extrema repugnância que,
durante mais de quarenta anos da minha vida sacerdotal e episcopal
segui a senda perigosa na qual a lançou o clero católico. Foi-me
necessário comprimir os mais nobres instintos da minha alma,
devorar os remorsos da consciência, violentar-me, enfim, para não
deixar transparecer, nas nossas conversações acerca das minhas
convicções intimas, o menor raio das santas luzes que Deus me tinha
dado sobre a direção que conviria adotar no procedimento da
Igreja.”272

Com palavras que expressavam os seus sentimentos mais agudos insistia que
mesmo diante de muitos erros ele permaneceu e conviveu com muitas
contradições espirituais. Sem se auto perdoar lamentou ter permanecido tanto
tempo naquela situação:

“Devi a esta força de compressão sobre mim mesmo, o meu caminho


nas honras. Não a ignorava: tinha de optar entre as dignidades que
me lisonjeavam a ambição e uma vida agitada, perseguida até. Fui
fraco: recuei ante a glória e sofrimento do apostolado novo; preferi a
vã grandeza da púrpura. Para chegar a ela, calei a verdade, atraiçoei-
a. Repreendo-me pelo fausto exterior do episcopado, pela
importância que mostrava ligar ao culto caduco, as formulas
litúrgicas, que a poesia da meia idade nos legou.”273

272
Cf. José Manoel da Conceição in Imprensa Evangélica, ano XVII, S. Paulo, Março de 1881,
n.º 3, Revista Cristã.
273
Idem, Ibidem.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 147

Reivindicava um Catolicismo menos festeiro, ritualista e confuso:

“Em vez de poesia necessita-se verdade; em vez das cenas do


drama religioso como recordação silenciosa, oração comum, ensino
evangélico na sua mais clara simplicidade. Em vez do que fala aos
sentidos necessita-se o que se escapa das almas. Chegou o tempo
em que se deve procurar, para o Pai, adoradores em espírito e em
verdade. Deixei também acreditar que aprovava o sistema fatal, na
qual o papado se obstina. Com quanto me custou horrivelmente,
sustentei a necessidade do poder temporal dos papas. Era coisa
contraria às minhas mais firmes convicções. Roma antecipa-a sua
decadência por meio de uma política estulta.274

Rompendo com catolicismo, tomou uma atitude enérgica. Resolveu reparar


os erros pondo-se a caminho275, visitando seus antigos párocos numa tentativa
de encaminha-los as sendas do evangelho bíblico:

“Mas o homem não é senão um instrumento de Deus. Se eu fugia à


vida pública, não podia fugir-me a mim mesmo; se me sentia culpado
e devedor ao público, só para com o público devia tentar a reparação
do que lhe devia. Todavia uma causa nova exercia nesse momento
sobre mim uma influência decisiva. Os estudos da história da
humanidade do professor belga Laurent acabavam de inteirar-me, a
não poder ser mais do plano romano; não estava, pois, mais em mim
o condescender por mais tempo com Roma; não aguardava senão a
primeira ocasião para dizer-lhe o último adeus. A ocasião não faltou,

274
Idem. Ibidem.
275
“Tinha percorrido a minha província de uma extremidade a outra, literalmente, paroquiando
e pregando. Minha antiga atividade parecia afrouxar, o interesse evangélico que já me havia
levado a alguns pronunciamentos solenes, parecia esfriar-se; tinha-me abandonado a uma
melancolia, que se tornará quase o meu estado habitual. É que eu começava a sentir então,
que nada tinha feito de positivo, justo e consciencioso no verdadeiro interesse da causa de
Jesus Cristo. Culpado, pois, sob este ponto de vista, resolvi retirar-me da vida pública.”
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 148

nem eu a ela. Mas, antes de ocuparmo-nos do como, é necessário


dar contas do porque tão bruscamente me despedi da Igreja
Romana.”276

Não satisfeito em abandonar o catolicismo o ex-padre procurava sempre que


tinha oportunidade apontar os gravíssimos erros do catolicismo. Vejamos
alguns apontados por ele.

Conceição esboçava uma interpretação reformada quanto a doutrina da


salvação e por isso recusava as formulas católicas.

“Todo o homem é pecador, todo o pecador quer se salvar. – Não há


salvação sem remissão, não há remissão sem justificação, não há
justificação sem penitência, não há penitencia sem imposição da
Igreja, e não há ninguém que possa satisfazer a imposição
correspondente, ao pecado, é, pois, necessária a Comutação. A vista
deste plano e legislação romana, a vida é inteiramente absorvida pelo
clero, de abstinência, sofrimentos, trabalhos, rezas e tudo quanto
pode cair a talho de imposição; mas a imposição sempre implicando
comutação por dinheiro ou equivalente.”277

Suas opiniões em relação ao papa e sua função, caracterizava uma


insatisfação a este modelo de catolicismo:

“ o papa tem direito para fazer tudo quanto faz, e então é inútil todo
estudo, educação e mesmo conversão, pois, sendo infalível o seu
poder, não depende da cooperação do pecador, e neste caso o papa
é realmente infalível, e como tal senhor absoluto do mundo!. O papa
não tem direito, e está por terra toda a sua doutrina como mentirosa e

276
Idem, Ibidem.
277
José Manoel da Conceição in Imprensa Evangélica. março 1881.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 149

criminosa de lesa-divindade e lesa-humanidade! No primeiro caso


Deus teria abdicado nas mãos do papa, não só o governo da terra,
como também o do céu, que não é senão a continuação do
cumprimento das promessas e esperanças da terra. No segundo
caso, porém, a Religião romana é o maior logro e injuria que tenha
sido feito a Deus e ao gênero humano. “278

A negação da graça salvadora de Jesus Cristo, tornando-a um bem


simbólico279 ou mercantil que se poderia comprar, se constituía para Conceição
em erro grotesco e insano.280

“O sistema de comutação implica, e explica a negação da graça de


Jesus, e fazendo depender a salvação do mérito das obras ou
equivalente, alimenta e estimula a cobiça de Roma, à quem convém
desta sorte que vá sempre a mais o peso dos pecados e dos
pecadores, importando isso o aumento do peso da comutação, mina
rica e única de suas rendas! Eis porque a Religião romana é uma
especulação mercantil. Mas onde se acha em tudo isto a única cousa
que todo homem e principalmente o cristão solicita no mundo, a paz
da alma?”281

278
Idem, Ibidem.
279
Tal procedimento pode ser melhor compreendido lendo a excelente obra de Pierre
Bourdieu, A Economia das trocas Simbólicas, São Paulo, Editora Perspectiva, 5.ª edição, 1999.
280
Ele próprio demonstra grande desgosto com a vida que levava. “Quanto a mim, estimando e
suspirando pela paz da minha alma, como por causa superior à toda razão e a todas as delicias
da terra, cansei de querer harmonizar o que por sua natureza não se pode harmonizar, isto é: a
graça de Jesus Cristo oferecida de graça, e a comutação do papa só a dinheiro, e dinheiro à
vista; parece-me ver neste paralelo o quadro vivo de Jesus tentado pelo diabo. Outra coisa de
que também cansei de procurar explicação é: como um homem pode ser infalível , e ao mesmo
tempo, viver sempre se lamentando, cheio de amargor de boca e chorando por não correrem
as cousas a medida do seu desejo! ainda aqui fiz este razoado: o romano pontífice lendo na
Bíblia o – tudo que ligares na terra será ligado no céu, e tudo que desligares na terra será
desligado no céu, - ou esqueceu-se, ou quer se esquecer, que a segunda proposição de Jesus
Cristo implica sua própria bênção e sua própria maldição, isto é, o bem que fizeres será aceito
no céu, o mal que fizeres será condenado no céu.” José Manoel da Conceição in Imprensa
Evangélica, março de 1881.
281
José Manoel da Conceição in Imprensa Evangélica, março de 1881.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 150

José Manoel da Conceição resolveu definitivamente romper com o


catolicismo:282

“Tomei a firme resolução de separar-me de um poder que se tem


arrogado atributos próprios só da Divindade.”

Nesta resolução permaneceu firme a José Manoel da Conceição até o fim.

De Roma à Genebra.

283
José Manoel da Conceição tornou se sacerdote no dia 28 de junho de 1845
e por quase duas décadas, até 1864, quando abandonou as ordens, honrou
sua função com praticas e ensinos bíblicos.284
A palavra bíblica interiorizada por José Manoel da Conceição vai causar
mudanças profundas na sua alma e caráter. A Bíblia é vista por ele como os
verdadeiros oráculos do Senhor. A medida que vai se aprofundando nas suas
leituras e práticas, mais vai tendo compreensão da realidade de seus erros e
percebe o quanto estava afastado do seu Senhor.

Para Conceição a Bíblia era a palavra de Deus. Em Brotas, pequena cidade do


interior de São Paulo, e sua última paróquia, já ensinava isto, as imagens dos
santos para ele não possuíam nenhuma santidade e que podiam ser atiradas
fora como qualquer outro objeto, a confissão de pecados não era a padres,
mas somente a Deus por intermédio de Cristo seu filho.
282
José Manoel da Conceição in Imprensa Evangélica, março de 1881.
283
Conceição foi finalmente ordenado Presbítero em 28 de junho de 1845, e mandado para
Limeira, em São Paulo, onde demonstrou ser um padre muito estranho. Recusava-se a ouvir
confissão e também vivia apenas da côngrua que o governo lhe pagava, recusando outros
pagamentos de seus paroquianos, como era de costume, por batizados, casamentos, funerais
ou qualquer outra função religiosa. Por fim, chegou a ser conhecido como um “iconoclasta”,
quando tendo sua igreja adquirido novas imagens sugeriu que as velhas fossem quebradas e
enterradas.(David Gueiros Vieira)
284
“Conceição passou a exercer suas atividades religiosas em Ipanema, e não na Matriz onde
seu tio era vigário.” Boanerges Ribeiro, J.M.C. e a Reforma Evangélica, p. 22.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 151

Pelos seus ensinos é quase certo que Conceição havia sido largamente
influenciado pela história da Reforma nos livros do Dr. Theodoro
Langaard.285José Manoel folhava e examinava livros que eram clássicos
alemães e livros evangélicos.286

Conhecido desde logo por “Padre Protestante”, Conceição, em seus vinte anos
de sacerdócio, vagou por inúmeras paróquias, mudado constantemente pelos
bispos, preocupados com sua influência não ortodoxa.

Parece que as intenções de Conceição, quando atuou na Igreja Católica, eram


reformistas. Mas a época, a falta dos meios de comunicação, as distâncias, o
despovoamento e o meio cultural pobre eram inteiramente adversos aos seus
esforços. Homem inconformado e inquieto, quando se encontrou com os
missionários presbiterianos, em 1863, iniciou uma jornada que iria ser um dos
grandes triunfos do protestantismo no Brasil.
Em setembro de 1864, por carta enviada ao Bispo D. Sebastião Pinto do Rego,
abandonava o sacerdócio e a Igreja Católica e, no dia 23 de outubro, fazia sua
pública profissão de fé e era batizado pelo missionário Rev. A. L. Blackford 287,
no Rio de Janeiro. Em 17 de dezembro de 1865288 foi ordenado 289
pastor

285
Ver FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana, p. 45.
286
RIBEIRO, Boanerges, J.M.C. e a Reforma Evangélica.
287
“Foi em 1859 que esta seita resolveu estabelecer aqui permanentemente uma missão e o
primeiro missionário foi o rev. Ashbel Green Simonton, seguido logo depois de seu cunhado A.
L. Blackford. começaram a pregar o Evangelho em português dentro em pouco tempo e,
animados pela aceitação que tiveram, vieram mais dos Estados - Unidos os Revs. G. W.
Chamberlain, Schneider, Vanorden, Hazzlet, Houston, Kile e outros.” ( RODRIGUES, J. C.,
Religiões Acatholicas no Brazil 1500 – 1900, Rio de Janeiro, 2ª. Edição, Escritório do “Jornal
do Commercio”, 1904, p. 211.)
288
FERREIRA, Julio Andrade, Galeria Evangélica, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana,
1952, p.15. Ver também Vicente Themudo Lessa, Annaes, p.109.
289
“Ajoelhou-se o ex-padre; os três pastores impuseram-lhe as mãos com oração, José Manoel
da Conceição foi ordenado Ministro do Evangelho, Blackforde, sério e solene, estendeu-lhe a
mão: - “Dou-vos a mão direita em sinal de que acabais de ser admitido a tomar parte conosco
neste ministério.” (...) Quando terminou, anoitecia; na rua acendiam-se os lampiões. 17 de
dezembro de 1865. Um dia depois de organizar-se esse concílio da Reforma já conta entre
seus membros um brasileiro.” Boanerges Ribeiro, J.M.C. e a Reforma Evangélica, p. 54-55.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 152

evangélico pelo Presbitério do Rio de Janeiro reunido em são Paulo. Foi,


historicamente, o primeiro pastor protestante a ser ordenado no Brasil.290

“Para o padre foi uma cerimônia impressionante. Escreveu ele em


seu estilo um tanto gongórico: “ Era um belo dia. Ao som do harmônio
e de vozes humanas que cantavam hinos, fui levado a uma fonte, de
água pura. Suponhamos dois daqueles de Klopstock na Messíada.
Tais eram os dois ministros de Deus que velavam no meu interesse.
Fizeram-me levar, e cobriram-me de bênção.”

O Conflito Interno.

Em 19 de setembro de 1844291 foi ordenado diácono. O bispo percebendo um


modelo diferente de padre em Conceição, não lhe permitiu entrar em concurso,
tratando de removê-lo imediatamente para outra freguesia. “Aquele Conceição
estava dando um verdadeiro padre protestante, diziam os clérigos, e
concordava o bispo”. E padre protestante ficou sendo, desde essa época a
alcunha de Conceição. “Expulso de sua paróquia, mas não de seus
sentimentos”, ficou desde então sob vigilância. Como diz um seu amigo: “não o
deixavam esquentar o lugar”. Nada de raízes; influência permanente, fundação
de jornais, redação de livros.

“Triste realidade foi para Conceição aprender à sua própria custa que a Igreja
Romana não se reformava mais por um movimento interno292. Vieram-me

290
MENDONÇA, Antônio Gouvêa, O Celeste Porvir, A Inserção do protestantismo no Brasil,
São Paulo, Edições Paulinas, 1984, pp.83-84.
291
LESSA, Vicente Themudo, Annaes, p. 108.
292
Percebe-se em suas palavras profunda sinceridade. “Após citar vários textos da Escritura
continua: Em presença de verdades tão positivas e tão terríveis para nós, visto como elas se
dirigem com toda força ao estado e condição da nossa sociedade, eu, não sabendo que fazer,
suspirava: “Deus! olha para nós com olhos de misericórdia!” Esperava porém, com uma
convicção inabalável, que Deus havia de olhar para sua igreja e havia de assisti-la com seu
Santo Espírito. Lembrava-me dos mártires e dos cristãos primitivos, e dizia então comigo: Que!
pois porque hoje ninguém nos persegue, porque nossa fé não é mais posta às provas do
martírio, estaremos por isso (p.9) dispensado de aspirar e praticar a mesma pureza de fé e de
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 153

convicções irreconciliáveis com as obrigações e praticas que me cabiam como


pároco. Não sabia como subtrair-me conscienciosamente a este emprego, que
sempre procurei exercer para o bem dos meus semelhantes. Esforçava-me
por conter minhas idéias e conciliar minhas convicções com as circunstancias
em que a providência de Deus me tinha colocado.293

“Depois que a religião começou a influir no meu coração comecei a


sofrer de melancolia pelo retrospecto que fazia da minha vida
passada; na mesma religião, porém, tinha achado remédio para curar
essas chagas e ao traçar estas linhas sinto que minha esperança e
consolação é plena no meu Divino Redentor Jesus Cristo. Aos 18
anos comecei a ler a Bíblia. Apenas tinha lido os três primeiros
capítulos do Gênesis quando notei que a pratica e a doutrina da
Igreja Romana faziam oposições direta e irreconciliável com a
Palavra de Deus. Violento em defender aquilo que amava ou tinha
por verdadeiro, quis um dia ferir quem me dava lições de desenho,
Carlos leão Bailot, francês, por tê-lo visto atravessar o corpo da Igreja
com seu bonet na cabeça. Ele sorriu-se, dizendo-me com muita
doçura: “menino, aprende em tua Bíblia a distinguir a alegoria da
religião. O fim da Bíblia é ensinar-nos a amar a Deus sobre tudo e
depois amarmo-nos uns aos outros como bons irmãos, filhos de um
só pai que está no céu. Ouves, meu menino?” Fiquei corrigido e
confundido. Esta lição inspirou-me amor aos estrangeiros e uma
necessidade ansiosa de fazer um estudo acurado da Palavra de
Deus.”294

costumes que distinguiu os crentes, confessores e mártires dos primeiros séculos? José
Manoel da Conceição, Sentença de Excomunhão e Sua Resposta, Rio de Janeiro, Tipografia
Perseverança, 1867, pp.9-10.
293
CONCEIÇÃO, José Manoel, Sentença de Excomunhão e Sua Resposta, Rio de Janeiro,
Tipografia Perseverança, 1867, p. 7.
294
Vicente Themudo Lessa, Idem, p. 13.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 154

Outro elemento provocador de mudanças radicais no pensamento e


religiosidade de Conceição foram os estrangeiros.

“Freqüentava a fabrica de ferro do Ipanema295, em Sorocaba, visitando ali a


família Godwin, cujo pai era diretor das máquinas a vapor do estabelecimento.
Seu testemunho é muito importante:

“Senti-me tocado profundamente ao ver o silêncio que no domingo


reinava por toda a parte. era uma família inglesa. Admitido na
sociedade da mesma, vi que todos se empregavam na leitura da
Bíblia e de outros livros espirituais. Visitei depois quase todas as
casas dos alemães. Em toda a parte, sempre o mesmo quadro de
culto e religião! Comecei a deduzir então os seguintes raciocínio:
”Quem sabe se os estrangeiros tem tanta religião como nós, os
brasileiros? Queria saber se a religião deles é a mesma que a nossa
religião. AH, quem sabe se eles são mais religiosos do que nós, visto
que são também mais civilizados do que nós!...296

O contato com protestantes traria sobre Conceição influências que perdurariam


pelo resto de sua vida. Em toda parte, sempre o mesmo quadro de culto e
religião. E começou a formar-se em sua mente a compreensão de que talvez
existisse uma outra verdade, além daquela que julgava a correta: hereges
tomavam a religião a sério, respeitavam as coisas sagradas, cultivavam a
comunhão com Deus. Quem sabe se os estrangeiros tem tanta religião como
nós, os brasileiros? Queria saber se à religião deles é a mesma que a nossa
religião. Assim, com suspeita de uma outra verdade ao lado da sua, ele

295
“ Em Ipanema havia uma fundição de ferro, gerenciada por Friederick von Varnhagen, pai
do historiador Francisco Varnhagen. Havia 27 famílias germânicas na cidade. Morava lá
também, o Dr. Theodor Johanis Langaard, médico dinamarquês. Este ensinou alemão ao
jovem padre e emprestou-lhe livros alemães de história e geografia.(VIEIRA, David Gueiros,
Protestantismo, maçonaria e a Questão Religiosa.)
296
Idem, Ibidem, p. 14
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 155

inconscientemente marchava para conclusão mais radical: talvez houvesse


outra verdade; e parecia lhe melhor que a sua.

A influência desses bons protestantes veio acrescentar-se nos misteriosos


caminhos da providência. A amizade com um evangélico desleixado, mas
homem de bom e excelente cultura, o Dr. João Henrique Theodoro Langaard 297
tornaria José Manoel um outro homem. Este dinamarquês era tão displicente
com o seu culto que, quando morreu quarenta anos mais tarde, um neto
encomendou missa por sua alma – e só na sacristia é que foi informado de
que isso era impossível pois o finado fora protestante.

Batizou os filhos na igreja romana, de modo que seu protestantismo já estava


todo diluído na segunda geração brasileira da família. Mas tinha muitos pontos
de contato com o jovem diácono, logo se tornaram bons amigos. Moço
também, iniciando uma nova vida; ansioso de aprender a língua da terra como
o clérigo de entrar nos segredos do alemão, abriu sua casa ao padre, e com
ela tudo o que este ignorava de História e Geografia, além da língua alemã. Os
longos intervalos que lhe deixava a clínica entre os operários eram preenchidos
na companhia do Padre.

Antônio Gouvêa Mendonça descreve bem o que foi esta amizade:

“A amizade que Conceição fez com o médico dinamarques João


Henrique Theodoro Langaard, que clinicava entre os trabalhadores
de Ipanema, parece ter completado a sua protestantização, não tanto
pelo seu exemplo de vida religiosa, mas pelo ensino que lhe ministrou
do alemão. O conhecimento do alemão e o acesso aos livros de
Langaard podem ter aberto a Conceição os conhecimentos históricos

297
“Contrai amizade com o Dr. Theodoro Langaard a quem deve meus conhecimentos de
língua alemã, de história e geografia. Destas boas relações ficou-me pelo menos a certeza de
que elas nos obrigavam também a nos tornarmos melhores do que aqueles que não tem
educação alguma, sorte aliás de quem vive no campo” Cf. Vicente T. Lessa, Idem, p. 14.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 156

e críticos que mais tarde poriam em xeque a sua fé católica.


conceição nessa época era subdiácono.” 298

Percorreu quase toda a província, paroquiando e pregando, sempre removido


pelos bispos. E assim, sem que o percebessem os bispos de São Paulo
traçavam o itinerário da Reforma em sua diocese.

Sua decisão, entretanto, também não lhe proporcionou a paz interior. Nova
crise manifestou-se nele, em virtude da advertência bíblica “não se zomba de
Deus”, crise que provinha de sua consciência de que não era bastante haver
abandonado os erros da Igreja romana, depois de havê-los divulgados por
tanto tempo.

Abaixo seu testemunho quando precisou abandonar o catolicismo:299

“Comuniquei ao excelentíssimo prelado desta diocese a minha


retirada da igreja romana. Isto fiz em 1864. Despedir-me da Igreja
Romana, abraçando e pregando as doutrinas do protestantismo, e
me declarando presbiteriano puro, isto admito sem reserva alguma.
Tal decisão tão importante e solene não devia nem foi tomado
precipitadamente. Havia anos que a leitura da Bíblia, da História da
Reforma, e outros livros religiosos e literários, tinha-me sugerido
idéias que não se harmonizavam com os dogmas que professava. “

298
MENDONÇA, Antônio Gouvêa, O Celeste Porvir. A Inserção do Protestantismo no Brasil,
São Paulo, Edições Paulinas, 1984, p. 83
299
CONCEIÇÃO, José Manoel, Sentença de Excomunhão e Sua Resposta, Rio de Janeiro,
Tipografia Perseverança, p, 7, 1867.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 157

Assim como Agostinho, Conceição entendia, que a alma tocada pela verdade e
pelo Espírito Santo só acha paz em reconciliar-se com Deus e conformar-se
com sua Santa Lei.300 A luta da alma era longa, renhida e penosa. Muitas
vezes recolhia-me comigo mesmo, comparava minha vida com o Evangelho;
não achava paz na alma.301

Se houve de minha parte erro em demorar por tanto tempo a renuncia daquilo
que não quadrava com minha consciência, tenho a consolação de sentir que
Deus, que só conhece o quanto me custou, tem me perdoado, com todos os
meus pecados também este, por amor de seu filho Jesus Cristo, cujo sangue
purifica de toda iniqüidade.302

A. L. Blackford.
Cuidando eu no que era necessário para levar ao fim o meu propósito, Deus se
compadeceu de minha miséria, e, de um modo para mim inesperado e em tudo
providencial, deu-me a conhecer do melindroso estado espiritual em que me
achava. Derramou a sua graça em meu coração; indicou-me outro destino,
mais digno de um anjo do que de um pobre pecador, e ministrou-me os meios
de segui-lo. Não pude recalcitras. Achei em Jesus Cristo crucificado,
ressuscitado, glorificado e pregado a todos no Evangelho, um Salvador
compassivo e um advogado (p.13) poderoso, e não pude senão seguir sua voz
benigna. era-me indispensável fazer o que fiz. Em setembro de 1864 separei-
me da Igreja Romana desfazendo-me, no exercício de um direito inalienável,
de tudo quanto ela tinha pretendido me dar e impor.

300
Cf. Émile G-Léonard,. 56. “O gosto pela leitura da Bíblia que estes lhe inspirara, a tradução
alemã de uma História Sagrada do Antigo e Novo Testamento publicada pela editora
protestante do Rio, Laemmert, mas sem a autorização episcopal, valeram-lhe, em pouco
tempo, a alcunha de “padre protestante” e a suspeita da autoridade diocesana.
301
CONCEIÇÃO, José Manoel, Sentença de Excomunhão e Sua Resposta, Rio de Janeiro,
Tipografia Perseverança, p, 8, 1867.
302
CONCEIÇÃO, José Manoel, Sentença de Excomunhão e Sua Resposta, Rio de Janeiro,
Tipografia Perseverança, p, 8, 1867.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 158

Júlio Andrade Ferreira informa como com insistência Blackford procurava o


padre protestante: 303

“Quando da primeira viagem de Blackford ao interior paulista, ainda


em 1863, alguém, em Rio Claro, lhe fala desse sacerdote que
aconselha o povo a ler a Bíblia. Blackford obteve a companha de um
amigo do padre e tratou de ir à chácara. Estavam em princípios de
novembro quando ele e o companheiro, ao trote seco das
cavalgaduras, saíram da vila à procura do padre Conceição.”

Ao encontrá-lo em sua chácara o Rev. Blackford iniciou uma conversa com o


padre que mudaria seu itinerario de vida. Blackford tece o seguinte comentário:
304

“Foi uma visita agradável. tem as maneiras de um perfeito cavalheiro,


observaria Blackford mais tarde, quando o nome desse padre já
estivesse alvoroçando todos os protestantes do país. Mas nesse dia
de novembro de 1863, o missionário não percebeu que acabara de
encontrar o homem que iria abrir o caminho da Reforma em São
Paulo e no sul de Minas. Simpatizou com ele, sentiu seu valor, e
nada mais. “.

Segue Blackford descrevendo Conceição da seguinte maneira:

“Com cerca de 40 anos de idade, completos, bem feito e gordo, com


um semblante que revela bondade, de inteligência viva, cultivado e
com as maneiras de um perfeito cavalheiro”

303
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana, p.46
304
RIBEIRO, Boanerges, O Padre Protestante. págs. 102,103.
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“A repousante simplicidade da vida rural já fizera bem aos nervos do solitário.


O missionário fora encontrá-lo em fase otimista, bem melhor do que o período
de crise sofrida em Brotas. Afinal, não andava mais “pregando mentiras”.
Registrara Conceição que Blackford surgiu-lhe “como um anjo de Deus”305

Eis como ele mesmo descreve a impressão recebida pela visita que lhe fez o
Rev. Alexandre L. Blackford:

“Contemplava um dia em minha janela o gado que pastava ou


retouçava-se no verde, à margem do Corumbataí. Aproximavam-se
da minha humilde habitação dois cavaleiros. Já um deles conhecia eu
de longa data; o outro, porém, pareceu-me belo com a estrela d‟alva
em uma manhã de setembro e angélico de forma. Dirigiu-me a
palavra, e se eu quisera descrever quão melodiosa era sua voz, dir-
se-ia que tomara emprestado dos mais inspirados poetas o que de
mais fantástico tem eles exprimido em seus quadros. Era um pastor
evangélico que acabava de entrar em casa de um novo Zaqueu.” 306

O pastor amigo chegou no momento próprio esperado; antes ou depois o plano


teria sido desconcertado, a Providência não o teria presidido.

O professor Émile G. Léonard descreve como Conceição se sentia às vésperas


do encontro com Blackford.

“Em momento de aguda crise vocacional, foi encontrá-lo o


missionário Blackford, atraído pela fama do “padre protestante”. Este
acabou por ceder às suas exortações batizando-se na Igreja
presbiteriana do Rio em 23 de outubro de 1864.” 307

305
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana, p. 47.
306
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana, p. 47.
307
LESSA, Annaes, p.109. Ver também Émile G. Léonard,p.57.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 160

Rápida foi a nossa entrevista. Assim convém às mensagens do Senhor; os


corações se compreenderam, as mãos se deram mútua e fraternalmente. Uma
grande aliança se tinha contratado, uma eternidade de gozo inundava minha
alma.”308

Seguiu-se uma correspondência entre eles. A 1.º de maio de 1864, numa


quinta-feira, Conceição Chegou a São Paulo. Foi visitar o ministro protestante.

Voltemos à palavra de Conceição: 309

“A semente lançada na terra amanhada, vigorosa brotava. Uma


retribuição de visita me aproximou por meu turno daquele pastor. As
mesmas impressões, o mesmo júbilo de envolta com um temor
misterioso. Esta complicação de sentimento e impressões tão várias
não escaparam à penetração de quem de um só golpe de vista sonda
os corações. Sua muito nobre senhora, Mme. Blackford, cuja alma é
o santuário do Espírito de Deus, a primeira palavra que me dirigiu foi
um convite para comungar na sua igreja. A surpresa embaraçou-me
por um momento. Na Igreja Romana deixou de existir este espírito de
proselitismo, que não pode ser senão a expressão de tudo que há de
mais nobre na terra, e esta expressão caracteriza o tipo norte-
americano. “

Essa mudança na vida de Conceição o fez refletir não só sobre questões


espirituais, mas também sobre a difícil situação político-social dos seus
conterrâneos. Essa mudança poderia ocorrer a partir de reformas sérias nas
bases da sociedade.

308
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana, p. 47.
309
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana, p. 48.
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Enquanto Antero de Quental sugere o socialismo310 como a única saída para o


profundo declínio político, moral e espiritual de Portugal, o ex-padre José
Manoel da Conceição sugere também uma profunda reforma nas estruturas da
sociedade brasileira. Porém para Conceição a solução não estava no
socialismo como Quental entendia mas no retorno ao evangelho do Senhor
Jesus Cristo. Seu comentário é precioso:311

“O bem estar da minha pátria, a moralização da sociedade, cuja


felicidade só o Evangelho pode assegurar, e a salvação eterna dos
homens, são os fins que tenho em vista. Estou nas mãos de Deus, e
a disposição de todos a quem possa servir no Evangelho de Jesus
Cristo.”

E a reforma veio. Lenta e sorrateira quase imperceptível e o próprio Conceição


eufórico entendia que ele era parte desse plano soberano de Deus para
restaurar o povo brasileiro:312

“A reforma veio, mas veio de Deus, donde só podia vir. Os


instrumentos porém, de que Deus se quis servir, foram os seus
servos eleitos, que conhecem, professam e ensinam as puras
doutrinas de Sua santa palavra. Quando a Bíblia correr pelas mãos
de todos os povos, então se hão de realizar as promessas do
salvador, que a religião dele prevalecerá em toda a terra.

310
“Finalmente, à inércia industrial, oponhamos a iniciativa do trabalho livre, a industria do
povo, pelo povo, e para o povo, não entregue à anarquia cega da concorrência, mas
organizada de uma maneira solidaria e eqüitativa, operando assim gradualmente a transição
para o novo mundo industrial do socialismo, a quem pertence o futuro. Esta é a tendência do
século: esta deve também ser a nossa. Somos uma raça decaída por ter rejeitado francamente
esse espírito (...)” Antero de Quental, Conferências Democráticas - Causas da decadência
dos povos penisulares nos três últimos séculos, Discurso pronunciado na noite de 27de
maio, na sala do Casino Lisbonenses. Porto, na tip. Comercial, 1871. p. 141
311
CONCEIÇÃO, José Manoel, Sentença de Excomunhão e sua Resposta, Rio de Janeiro,
Tipografia perseverança, 1867,p.30
312
CONCEIÇÃO, José Manoel, Sentença de Excomunhão e sua Resposta, Rio de Janeiro,
Tipografia perseverança, 1867,p.32.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 162

Manisfestar-se-a então a universalidade de sua Igreja. Gozar-se-ão a


paz, a felicidade e prosperidade, prometidas por Deus ao Mundo, e
aneladas agora pelas nações.”

A permanência em São Paulo fez muito bem para Conceição. Ele próprio
registra as longas e intermitentes palestras que tinha com Rev. Blackford, isto
o retiveram muitos dias na província paulista. Compreendeu que “não podia
continuar em Roma”. Formou o plano: “Estudaria primeiro as doutrina
reformadas no sossego da chácara; depois, publicamente professaria a fé em
Cristo e enfrentaria a controvérsia subseqüente e inevitável.”

Suas convicções religiosas foram muito bem delineadas em sua resposta às


acusações de que praticava heresias.313

Suas Conseqüências.

Estes dois anos e meio decorrido para lavrar e fulminar a sentença contra a
minha chamada apostasia, tenho me ocupado em anunciar o Evangelho de
salvação de graça por Jesus Cristo o Redentor, na Corte, nesta província, e na
de Minas Gerais, a milhares de pessoas famintas e sedentas da palavra da
vida.

“O ex-padre fora muito bem sucedido no seu trabalho de catequese entre seus
antigos paroquianos. Escrevendo sobre ele, o Reverendo Manuel Pires relatou,
em 1868, que havia encontrado em Pouso Alegre e Borda da Mata, em Minas
Gerais, muitos indivíduos que não tinham tido a oportunidade de unirem-se
formalmente à Igreja Protestante mas que tinham se convertido ao
protestantismo por intermédio de Conceição desde 1865. Essas pessoas

313
Émíile G. Léornard, p. 57-58. “Escreveu então uma profissão de fé evangélica onde narra
suas lutas espirituais, num conflito convulsivo e ardente, uma das mais belas obras da mística
protestante. Protestante pelas experiências e afirmações dogmáticas nas quais repousa,
guarda ela profundamente, entretanto, o tom da literatura espiritual e da piedade católica.”
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 163

tinham se recusado, daquela data em diante, a batizar seus filhos na Igreja


Católica. Como resultado, havia em ambas as cidades, um bom número de
crianças não batizadas, de dois e três anos de idade, o que muito
escandalizava a população católica.”314

“Seu ministério teve a duração de oito anos completos. Uma vida de


abnegação no mais extremado grau. Um ministério singular como o dos
apóstolos. De mochila ao ombro, ia de lugar em lugar, de casa em casa.”315

O Assunto das Indulgências.

“..Nesse mês de março de 1862, ele procurava apenas melhorar as condições


da vida religiosa na sua paróquia. Passava por uma profunda crise espiritual,
exatamente a de Lutero, crise cujo âmago era, como também para o
Reformador, a questão da salvação e do valor meritório das obras. Como
Lutero, condenava as indulgências que proporcionavam uma falsa paz,
acusando a Igreja pelo seu “sistema de comutação” que “implica e explica a
negação da graça de Jesus”. Não lhe sendo possível continuar no exercício do
ministério, quis abandoná-lo, tendo sido, por sua vontade, dispensado apenas
de suas funções propriamente sacerdotais, após o que foi vier como simples
particular, em uma pequena casa de campo nos arredores de Rio Claro.”316

A sentença de excomunhão317 lavrada por Dom Sebastião do Pinto Rego, a 29


de dezembro de 1866, foi publicada em 23 de Abril de 1867 no Correio

314
VIEIRA, David Gueiros, Protestantismo, Maçonaria e a Questão religiosa. Brasília:
Editora da Universidade de Brasília.
315
LESSA, Annaes, p.109.
316
Émile – G. Léonard., p.57.
317
Juízo do Contencioso Eclesiástico de S. Paulo. “19 de Fevereiro de 1867. Dom Sebastião
Pinto do Rego, Bispo da Diocese de S. Paulo por seu Delegado Vigário Geral e Provisor do
Bispo, o Cônego Joaquim Manoel Gonsalves de Andrade, cientifica ao Muito Reverendo
Vigário da Paroquia de Itapeva, para os devidos efeitos que sendo denunciado perante o Juízo
Contencioso Eclesiástico Criminal desta Diocese o então Reverendo José Manoel da
Conceição, como Schismatico exaltado, que não só abnegara princípios fundamentais da
Religião católica Apostólica Romana, foi pelo Doutor Promotor Eclesiástico acusado
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 164

Paulistano. A resposta de Conceição à sentença de excomunhão começou a


ser publicada no Diário de São Paulo em 14 de maio, e no Correio Paulistano
em 16 de maio de 1867. Subseqüentemente foi publicada em forma de
opúsculo de 32 páginas no Rio de Janeiro, naquele mesmo ano. (David
Guieros Vieira)

Depois de ordenado pastor, dedicou-se a visitar e revisitar suas antigas


paróquias a fim de corrigir seus ensinamentos passados e apresentar uma
nova mensagem religiosa. Em que pese sua profissão de fé presbiteriana, não
parece ter Conceição aderido inteiramente às formas eclesiásticas
denominacionais. Não assumiu nenhum pastorado e só se dedicava a anunciar
a mensagem nuclear da Reforma, a salvação pela fé em Jesus Cristo, e isso
de sítio em sítio, de casa em casa, de cidade em cidade, viajando
incansavelmente, quase sempre a pé e até a exaustão. Parece não se ter
preocupado em nenhum momento com conversão e proselitismo
denominacionais, em conduzir conversos para entrar oficialmente para a Igreja
Presbiteriana. Embora comparecesse sempre às reuniões conciliares e
apresentasse relatório de suas atividades missionárias, ao que tudo indica não
há indícios de disciplina e submissão aos programas missionárias. Aos
contrário da maioria dos padres que se convertem ao protestantismo,
Conceição nunca revelou espírito diretamente polêmico nem anticlerical.
Entendia, dentro do espírito da Reforma do século XVI, que a Igreja Católica
continuava com os mesmos erros que os reformadores apontaram. Era a
mesma Igreja conforme ele mesmo expõe na resposta que deu à sua
excomunhão. Nessa resposta, Conceição condena a missa, os sacrifícios e

solenemente em 15 de Dezembro de 1865 e condenado em 30 de Outubro de 1866 como


Schismatico e incurso-ipso facto na pena de excomunhão maior, de exautoração das funções
eclesiásticas e deposição verbal, sendo igualmente fulminado com inabilidade para ofícios,
benefícios e dignidades da igreja. Em cumprimento do que dispõe a Constituição do
Arcebispado da Bahia- artigo 1,103, ordena ao mesmo Muito Reverendo Vigário da Paroquia
de Itapeva”. que”. em sua respectiva Igreja de ciência da Sentença condenatória, cuja copia a
esta acompanha, afim de.....bem informado das penas cominadas e da pessoa
....proporcionando-lhes por este meio mais seguro abrigo contra.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 165

penitências e reafirma os princípios da Reforma da Salvação pela fé em Jesus


Cristo, cuja causa eficiente é a leitura da Bíblia.318

A Igreja Católica tentou desfazer o trabalho de Conceição, mandando um frade


capuchinho espanhol. chamado Firmino de Centellas (cujo nome foi
abrasileirado para Centelhas) a fim de realizar “santas missões” nos lugares
onde o ex-padre tinha estado. Em Brotas, os neo-conversos protestantes
serviram-se intimidados.

A intimidação dos protestantes, segundo se afirma, deu-se quando Frei Firmino


chamou ao confessionário cada um dos que tinham assistido às reuniões
protestantes, e também mandou que fossem feitas rezas públicas “pelo ato de
sacrilégio” supostamente feito a um crucifixo, que fora dado a Blackford e a
Conceição, por um dos convertidos, durante a visita acima citada. Uma turba
deu mostras de grande indignação e conta-se que os recém-convertidos
protestantes sentiram-se muito amedrontados.

No Rio de Janeiro, as autoridades da Igreja, em 1865, demonstraram muito


alarma por Conceição ter-se unido à Igreja Protestante e pelo proselitismo
aberto do protestantismo. Uns poucos meses antes, possivelmente como
resultado desse alarma, um grupo de estudantes do Mosteiro de São Bento, no
Rio de Janeiro, tinha começado a perturbar os cultos presbiterianos.(David
Gueiros Vieira)

Edificar uma Igreja.

“Mal terminado o presbitério, faz itinerário de volta a São Paulo, desta vez
acompanhado de Carvalhosa. Em agosto, à semelhança de Paulo, retorna às
estradas: “Tornaremos a visitar nossos irmãos por todas as cidades em que já
anunciamos a Palavra do Senhor para ver como estão.” Repassa todo o

318
MENDONÇA, Idem, p.84-85.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 166

itinerário do sul. Encontra-se com Blackford em itu, seguindo ambos a Brotas, e


ali se demora em trabalho intenso de visitação por mais de mês. Vai a Jaú, de
lá vem a Itaqueri e segue rumo a São Paulo, passando pelo mesmo itinerários
do semestre anterior. Em são Paulo encontra-se com os amigos e ali ouve ele,
lida por um “sujeito”, a sentença de sua excomunhão.”319

“Conceição não descansa. Em janeiro está de novo no Vale do Paraíba, desta


vez com uma verdadeira caravana. Dois jovens candidatos, Miguel Torres e
Antonio Pedro, estão com ele. Também Blackford. Em fevereiro vai a Minas
com Miguel Torres, pois a semente do evangelho já saltara de Brotas a Borda
da Mata. Os Gouvêa e os Cerqueira Leite não tinham podido guardar para si as
bênçãos do evangelho. Aliás, no ano anterior, enquanto Conceição e Blackford
viajavam de Itu a Brotas, Miguel Torres e Antonio Pedro cortaram o Sul de
Minas.”320

Em maio de 67, Conceição vai com Miguel Torres a Santo Amaro e a


Itapecirica, sendo neste último lugar hospedado pelo vigário. Em junho toca ir
ao Rio de novo para o presbitério, reunido desta vez no Campo de Sant‟ana.
Relata a este que ali mesmo no Rio visitara Copacabana, são Cristovão,
Casadura, Noxarandaba, Macacos e Serra.

“As viagens ao concílio, na Corte, ida e volta, eram reoteiros evangelísticos.


Nos interegnos presbiteriais visitara o sul, o oeste, e Minas. Ora, as igrejas que
vão nascer corresponderam a esses roteiros; Sorocaba (1869)321, ao sul;
Brotas (1865)322, já florescente; a oeste, que já tende a desdobrar-se em
outras; Borda da Mata (1869)323, em Minas; Lorena (1868)324, no vale. São
estas as quatro primeiras igrejas do interior”

319
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana, p. 72.
320
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana, p.73.
321
FERREIRA, Júlio Andrade, Galeria Evangélica, p. 15.
322
FERREIRA, Júlio Andrade, Galeria Evangélica. p.15
323
FERREIRA, Júlio Andrade, Galeria Evangélica, p. 15.
324
FERREIRA, Júlio Andrade, Galeria Evangélica, p. 15.
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Relacionados com essas igrejas estão os estudantes que se tornarão quatro


colunas do ministério nacional: Carvalhosa, Trajano, Miguel Torres e Antonio
Pedro.

“Primeiro, Conceição; depois Conceição e seus companheiros. Em seguida,


mesmo sem Conceição, missionários e nacionais cortaram as estradas.”325

“Não teve igreja a seu cargo, nem campo de evangelização. Percorreu os


estados de São Paulo e do Rio. Penetrou no sul de Minas e no sul de São
Paulo e foi a um trecho do Paraná. Sofreu perseguições de vários generos. Foi
insultado, espancado, apedrejado. Ensinava, pregava e curava, porquanto
entendia um pouco de medicina. Por motivo de saúde esteve oito meses nos
Estados Unidos, em 1867, viajando e pregando. Artigos e sermões seus foram
publicados na Imprensa Evangélica. Compôs vários hinos, alguns dos quais
figuram em nossos hinários. Conhecia o alemão e pregava nessa linha entre os
alemães que haviam sido pastoreados pelo Rev. Schneider.”326

Foi dito antes que Conceição não parece ter orientado sua ação missionária no
sentido de engrossas as fileiras dos protestantismo com novos conversos.
Realmente, sua forma de agir e de pregar dá a idéia de que ele estava mais
preocupado com uma reforma nos hábitos religiosos do povo a partir do
conhecimento da Bíblia. Não se vê nele a prática usual de simpatizantes até
conseguir formar uma congregação permanente. Ao contrário, contentava-se
em apresentar sua proposta reformista e ia embora. por isso, parece ter razão
Boanerges Ribeiro em dizer que Conceição não desejava o estabelecimento de
uma “igreja protestante transplantada de outra raça, outra cultura, diversa
tradição e temperamento, mas um movimento profundo de Reforma nos

325
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana, p. 73.
326
LESSA, Annaes, p. 109.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 168

sentimentos e experiência religiosa do povo aliada ao esclarecimento bíblico,


que tornasse possível a criação de um cristianismo brasileiro.”327

“JMC demonstrava um princípio que se opunha ao método dos missionários


estrangeiros, preocupados em destruir, como supersticiosos e idólatras, os
hábitos religiosos encontrados entre o povo brasileiro – enquanto o primeiro
dentre eles, Kidder, fora capaz de perceber que esses hábitos denunciavam, e
mesmo sustentavam, a existência de uma fé ignorante, mas profunda e
sincera. Manifestava-se no Brasil, uma vez mais – depois de Feijó328 e Kidder –
a visão de uma Reforma realmente brasileira, harmonizada com o
temperamento e os hábitos do país, visão que, aliada ao seu apego à
evangelização itinerante, iria fazer dele “um desconhecido” para seus
companheiros e amigos missionários, “que desejavam ajudá-lo, mas não
sabiam como”. ( Émile G. Léonard, p. 65)

Não tinha havido um rompimento entre ele e seus companheiros, mas sua
missão não era o ministério organizado e a propaganda confessional, à qual se
dedicavam então os missionários; nem mesmo se dedicava mais à
evangelização itinerante, como auditório relativamente grandes e
representantes de todas as classes. O antigo cura, de boa família, possuídor
de grande cultura, dedicava-se agora a um ministério de caridade e instrução
religiosa entra os mais humildes. O insigne teólogo, que estava a par da
literatura espiritual de toda a Europa comprazia-se com os mais modestos
conselhos de higiene como meios de obter a paz da alma. Comovente declínio
de um homem que experimentara até o paroxismo, todas as lutas do espírito.
Essa mesma humildade levava-o a viver essa “vida pobre” que se aproximava
de São Francisco de Assis, e da qual o protestantismo brasileiro guardou
admirativa memória, mesclada de alguma surpresa.

327
Idem, Ibidem, p, 85.
328
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 169

“Chegando a um sítio, diz o major Fausto de Souza, se resolvia a ter aí alguma


permanência, ele procurava alguma choça ou telheiro que lhe servisse de
abrigo, às vezes mesmo edificado por suas mãos e coberto de ramos; se,
porém, sua demora era passageira, ele pedia hospedagem em qualquer casa,
preferindo as de modesta aparência; e, antes de sair dela, procurava dar um
sinal de seu reconhecimento, servindo de enfermeiro a algum doente,
consolando tristezas ou mesmo prestando vários serviços humildes, como
varrer, lavar, etc., etc.
“...Sua frugalidade era tal que com qualquer coisa se satisfazia durante o dia
inteiro: uns ovos, leite, um pouco de farinha de milho ou de mandioca, ervas,
café e açúcar, constituíam quase sempre o seu alimento. Desses gêneros, os
que lhe davam agradecia com humildade; mas se assim não acontecia, à
proporção que deles necessitava, porque, conformando-se com a ordem dada
por Jesus Cristo aos apóstolos, ele não possuía alforje para o caminho, nem
duas túnicas, nem calçado, nem bordão, e mesmo o dinheiro que levava para o
seu parco sustento limitava-se a alguns tostões.” ( Émile G. Léornad, Apud,
Boanerges Ribeiro, p. 66)

A valentia frente aos Opositores.

Com o passar do tempo a alienação do Padre Conceição da Igreja Católica foi-


se aprofundando. Finalmente, em 1863, fazendo face a uma grande campanha
da oposição liderada por colegas e paroquianos ortodoxos, pediu ao bispo
permissão para deixar a batina. O novo Bispo de São Paulo, Dom Sebastião
Pinto do Rego, talvez na esperança de ainda reconciliar o padre com a igreja,
indeferiu o pedido de Conceição.

Em 4 de outubro de 1864, após ter-se encontrado com Blackford, Conceição


finalmente escreveu a Dom Sebastião claramente abjurando a fé católica. O
bispo não respondeu à carta. No entanto, tornou-se notório o fato de que padre
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 170

havia entrado para a Igreja Presbiteriana ( 2 de outubro de 1864) e que estava


pregando o protestantismo lado a lado com os missionários presbiteriano. No
dia 16 de dezembro de 1865, Conceição foi ordenado Ministro da Igreja
Presbiteriana.

A carta de abjuração do Padre Conceição foi publicada pela Imprensa


Evangélica, jornal recém-criado por Simonton e Blackford no Rio de Janeiro. A
imprensa secular, de acordo com Simonton, ignorou completamente o evento.
Entretanto, A Cruz do Brasil, um dos jornais ultramontanos329 do Rio de
Janeiro, tomou conhecimento do assunto e exigiu do Governo que tomasse
providências contra o proselitismo protestante.

O Governo não desprezou inteiramente a questão. O Ministro do Império, José


Liberato Barroso, tocou no assunto da tolerância religiosa no seu relatório ao
Parlamento, datado de 6 de maio de 1865. Relatou que alguns bispos tinham
escrito queixando-se da “propaganda contra os dogmas da religião do Estado”.
O Ministro, então, afirmou vagamente que o Governo faria cumprir a lei
referente ao respeito devido à religião do Estado e reprimiria quaisquer
insultos, conservando-se, entretanto, dentro dos limites da liberdade e da
tolerância constitucionais.

A posição de Barroso no Parlamento tinha sido a princípio muito conservadora


em matéria de religião. Entretanto, em 1864 começaram a mudar de atitude em
relação à Igreja. Essa mudança foi tão radical que o jornal ultramontano. O
Cruzeiro do Brasil comentou que não podia crer que uma pessoa que tinha
lutado tão valorosamente a favor dos “direitos episcopais” e que tinha sido um

329
“Doutrina e atitude de um catolicismo tradicionalista que surgiu com particular força na
França na primeira metade do século XIX. Destacaram fortemente o poder e as prerrogativas
do papa em relação com as Igrejas locais, dirigindo seus ataques particularmente contra as
tendências autonômicas galicanas. Entre seus líderes sobressaíram Joseph de Maistr, Laíram
Joseph de Maistr, Lamennais, Louis Veuillot.” (PEDRO, Aquilino de, Dicionário de termos
religiosos e afins: Aparecida, SP: Editora Santuário, 1993,p. 320)
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 171

dos mais fortes e veementes defensores da instrução e da moralidade do clero,


pudesse tão rapidamente tomar uma posição tão diametralmente oposta.

Como Ministro do Império, Barroso tornou-se um ardente defensor da liberdade


de culto. Em 1869, como membro do Clube Radical (liberal), fez uma
conferência sobre o assunto. Em 1873 tomou posição semelhante durante a
Questão dos Bispos, como descreveremos abaixo.

Foi em 1867, conforme ver-se-á mais adiante, que os liberais fizeram um


ataque geral intenso no Parlamento em prol da liberdade de culto, casamento
civil e da promulgação de diversas outras medidas que atrairiam a imigração
protestante em massa. O sentimento religioso estava muito exacerbado. Um
deputado (cujo nome não foi registrado), na Câmara Provincial de São Paulo,
exigiu que Conceição fosse condenado à morte por ter abjurado a fé, tornando-
se protestante. Seus apelos, naturalmente, não foram levados em conta pelas
autoridades.

O recurso à violência do povo contra os protestantes foi obviamente causado


pela frustração, por parte dos ultramontanos, pela recusa inflexível das
autoridades civis de porem termos aos cultos protestantes em português. Esse
sentimento, como já foi indicado acima, fora claramente expresso no jornal
ultramontano O Cruzeiro do Brasil, na sua defesa da turba que tinha atacado o
local do culto dos Congregacionais em Niterói, em novembro de 1864. O
conceito de que os protestantes não tinham o direito legal de pregar sua
religião em português estava sempre presente nos argumentos dos
ultramontanos.

Em 1866, um padre, numa pequena cidade de São Paulo, ficou tão enraivecido
com a pregação de Conceição que entrou na sala tentando dissolver a reunião,
“duas vezes agarrando-o pelo braço e balançando-o violentamente para fazê-lo
calar-se”.
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Noutro caso, em 1867, um padre foi ao chefe de polícia local exigindo que
prendesse Conceição para impedi-lo de pregar. Aquele recusou-se a fazê-lo e
em resposta insultou o clérigo dizendo-lhe que em vez disso devia prender a
ele e a outros da sua igualha, “que faziam negócio da religião e viviam
abertamente vidas escandalosas”.

No entanto, nem todas as autoridades civis agiam como esse chefe de polícia.
Em 1866, em Pindamonhangaba, São Paulo, o juiz municipal, a pedido do
padre local, impediu a pregação de Conceição e expulsou-o da cidade. Na
cidade de Bragança Paulista houve uma ocorrência semelhante. à vista desse
novo tipo de oposição, Blackford pediu o auxílio de Tavares Bastos 330. O
deputado liberal apresentou queixa ao Presidente de São Paulo sobre esse
procedimento contra os protestantes. Como resultado, o Presidente expediu
uma ordem ao chefe de polícia de Bragança Paulista para que não interferisse
com o culto acatólico.

Conceição foi alvo de ataques da imprensa de São Paulo por quase dois anos.
Esses ataques começaram nos princípios de 1867 e duraram até o fim de
1868.(David Gueiro Vieira)

As Principais Viagens.

São Paulo.
“Simonton, o primeiro dos dois que desembarcou no Rio, começou sua
propaganda num ritmo pausado. Tendo servido por algum tempo de capelão
aos residentes anglo-saxônicos da capital, pronunciou sua primeira prédica em
português em maio de 1861, mais de um ano depois de sua chegada. A igreja
presbiteriana, constituída formalmente em 1862, contou de início com poucos

330
Citar Tavares Bastos, Cartas Solitário.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 173

elementos nacionais, e se desenvolveu à sombra da obra muito mais


prestigiosa de Kalley. Simonton chegou a cogitar a deslocação da sede da
missão para São Paulo, mas finalmente foi decidido que apenas Blackford se
radicaria nesta cidade, enquanto que a obra na capital continuaria
normalmente. então aconteceu uma inesperada expansão missionária no
interior de São Paulo mercê da atuação do ex–padre José Manoel da
conceição. Este, suspeito perante a autoridade diocesana, há muito tempo, por
causa de suas leituras bíblicas e suas idéias inéditas, que lhe proporcionaram a
alcunha de o padre protestante, havia servido numa dezena de paróquias
rurais, sendo transferido freqüentemente, como medida de proteção dos
paroquianos.”331

Brotas.
“Quando vigário em Brotas, amigo de famílias mineiras vindas a essa boca de
sertão, recomenda a leitura da Bíblia. Conceição sente a voz lacinante da
consciência: não quer ser cismático, mas não crê nos dogmas, e menos na
hierarquia romana.. Há decadência em sua saúde e luta em sua alma, pelo que
comunica ao bispo, D. Sebastião Pinto do Rêgo, sua intenção de deixar a
paróquia. D. Sebastião contemporiza: faz dele vigário da vara, isto é, delegado
do bispo, sem funções sacerdotais. Conceição concorda e, comprando chácara
em São João do Rio Claro à margem do Carumbataí, muda-se para lá,
disposto, a se dedicar à lavoura.”332

“JMC foi transferido para Brotas em 1860. Esta má vontade por parte da
hierarquia mostrava ao Pe. Conceição a impossiblidade de realizar esta
reforma da Igreja no Plano local, ao qual se consagrava, procurando, em cada
uma de suas paróquias, reavivar a vida espiritual, centralizando-a na leitura da

331
Klaus van der Grijp, História do Protestantismo Brasileiro, Texto preparado como
contribuição à História Geral da Igreja na América Latina, Faculdade de Teologia de São
Leopoldo, p.10-11.
332
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana do Brasil, p. 46.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 174

Bíblia. Conheceu profundas crises vocacionais que ajuntanram os seu


cognome “padre protestante” o de “padre louco”. Parece que Brotas, por algum
tempo, restituiu-lhe a paz. Essa povoação recentemente fundada ( datando de
cerca de 1840 era povoada por pequenos fazendeiros, grande parte vinda do
sul de Minas, os Gouvêa, os Cerqueira Leite, os Garcia, Os Lima. Pessoas
ativas, decididas e progressistas, aprovaram sem dificuldade a construção de
uma nova igreja e a substituição da velha imagem da padroeira do santuário
Nossa Senhora das Dores. Conceição pregou-lhe a leitura da Bíblia, e conta-se
que um velho, havendo descido com enorme esforço a serra, para se informar
sobre o que havia, respondeu: “Então vou aprender a ler para estudá-la”, e o
fez. Às noivas que procuravam confessar-se antes de seu casamento,
Conceição respondia: “Eu e você precisamos nos confessar a Deus e não aos
homens”.( p. 57 Émile – G. Léonard)

“Brotas fora a última paróquia onde o Pe. Conceição exercera o ministério


católica. Possuía ali laços familiares desde que sua irmã mais moça, Tudica, se
casara com um Cerqueira Leite. Muitos de seus paroquianos haviam conhecido
suas lutas espirituais e alguns as haviam mesmo partilhado. Além disso, os
missionários seus amigos haviam iniciado ali um trabalho de propaganda com
grande resultado, e esse foi o ponto decisivo: dirigiu-se a Brotas em meados de
outubro a fim de tomar parte na campanha de pregação de casa em casa.”
(Émile – G. Léornad p.58)

Onze adultos membros professos e dezessete crianças batizadas, não pessoas


isoladas, e sim uma grande família: os três irmãos Gouvêa com suas esposas
e filhos (sete de Severino José, cinco de Antônio Francisco e cinco de Joaquim
José). A seguir vieram os parentes de Conceição que, nas semanas seguintes,
aderiram à Igreja; sua cunhada, um sobrinho, sua irmã mais moça Tudica. Esta
atraiu seu marido, sua sogra D. Cândida Cerqueira Leite, a mais respeitada e
influente fundadora do povoado, e todos os filhos desta.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 175

Gradualmente a comunidade de Brotas desenvolveu-se de maneira


extraordinária. Em 1867 possuía 61 membros professos, em 1871, 116 (e 123
crianças); em 1874, 140 membros. “Gente da vila e gente dos sítios: Buenos,
Prados, Magalhães, Borges, Oliveiras, Morais, Cardosos e Cardosas, Barros,
Coutinhos e Garcias. Gente de várias procedências e diversas famílias,
espalhadas num raio de dez a quinze léguas por aqueles sertões. Negros e ex-
escravos: em 21 de outubro desse mesmo ano de 1866, professavam e eram
batizados João Claro Arruda e sua mulher Maria Antônia de Arruda; a mulher
era índia; e João Claro ex-escravo e ex-sacristão de José Manoel da
Conceição”. ( p. 59 Émile G. Léonard, citando Boanerges Ribeiro p. 128-129 –
O padre protestante).

A Igreja de Brotas foi, durante muito tempo uma das duas maiores igrejas
protestantes do Brasil, ao lado da do Rio. É verdade que a chegada bem tardia
de um pastor residente (vindo apenas em 1868) permitiu ao clero católico a
restrição de sua atividade assoladora. O movimento protestante, que durante
um momento parece prestes a ganhar toda população, deu origem apenas a
uma comunidade minoritária: desde 1866 um Cerqueira Leite debatia-se
sozinho, na Câmara Municipal, contra o projeto de interdição das reuniões
protestantes. Limitada no seu lugar entretanto, a influência dos protestantes de
Brotas propagou-se pelas regiões onde se havia originado e naquelas para
onde se transferiram esses protestantes. Vimos que os três irmãos Gouvêa era
de Borda da Mata; possuíam ( Émile G. Léonard p. 59) um irmão ainda nesse
lugar, Antônio Joaquim, que se converteu a convite dos outros, junto com seu
genro Belisário Corrêa Leite; esta foi a origem da Igreja presbiteriana de Borda
da Mata – distantes de Brotas mais de 200 Kms, em linha reta, mas
incostestavelmente sua filha – fundada em 23 de maio de 1869 com o batismo
de 15 adultos (dos quais seis Gouvêa, dois Leite e três de seus escravos) e
vinte crianças. Tendo-se transferido de Brotas para Dois Córregos, um dos
irmãos Gouvêa estabeleceu ali, em 25 de março de 1875, uma igreja
constituída de 19 membros adultos e 15 crianças. (Émile G – Léornardo p. 60).
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 176

Em Brotas última paróquia do ex – padre, sua pregação suscitou um


movimento religioso popular, e em vários outros lugares se formaram núcleos
evangélicos. Animados por tais sucessos, os missionários procederam em
1865, à formação de um presbitério (unidade eclesiástica que pertenceria à
jurisdição do sínodo americano de Baltimore. Na reunião constituinte do
presbitério, conceição foi ordenado como primeiro pastor presbiteriano
nacional. (p. 11 Klaus van der gripj)}

Sorocaba.

“Acha-se nesta cidade o Sr. padre José Manoel da Conceição, outrora da igreja
romana, e hoje protestante, pregando com toda ardor e entusiasmo próprios de
um passado, (na linguagem dos correspondentes do exercito aliado no
Paraguai) as belezas e sublimidades de sua nova vocação. Na época em que
vivemos de plena liberdade em matéria religiosa não seria de admirar que, em
qualquer povoação, houvesse diversas seitas e mesmo varias religiões, visto
que a nossa constituição política assim o permite, com tanto que não tenha
casa com forma exterior de templo; mas o que não podemos deixar passar
em silencio é que o reverendo em suas prédicas imputa à religião católica
romana qualidades que ela não tem, como por exemplo, que ela ensina
desprezar os pobres, que não é a religião de Jesus Cristo, e outros
despropósitos semelhantes, de maneira que aqueles que ouvem, pela maior
parte completamente ignorantes e incapazes de fazer-lhe a mínima
observação, dizendo ele ser a sua religião a de Jesus Cristo, a qual ensina a
amar a Deus e ao próximo, socorrer os indigentes, não matar, respeitar a
propriedade alheia etc., etc., não podem deixar de prestar alguma atenção em
vista de verdades e princípios tão santos e puros, que por certo são comuns,
tanto à religião católica Romana, como á protestante; mas o reverendo quer
fazer crer que tudo isto é coisa nova e propriedade exclusiva do
protestantismo, e os incautos ficam perplexos. Qual é porém a causa disto? é a
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 177

nenhuma educação religiosa que se dá ao povo. Todos que tem conhecimento


do Evangelho, saberão avaliar o que há de menos exato nesta apreciação
moderada das predicas do Sr. Conceição, e do resultado delas. Parecem ter
fundamento os receios do vigário de G..., o qual quando alguns amigos lhe
disseram: “ ora esta pregação do Sr. Conceição nada importa, respondeu,
dando um profundo suspiro: os Srs. estão enganados, acho este povo
Brasileiro muito propenso para o protestantismo.(” Imprensa Evangélica, vol. II,
sábado 6 de outubro de 1866, n.º 19, Correspondência de São Paulo, Assinado
Viador.”)

“ No mesmo dia em que Blackford escrevia ao Chefe de polícia, Conceição


achava-se em Ibiúna, pregando o Evangelho e fora o sub-delegado dessa
localidade que, impressionado pela sua mensagem, lhe dera abrigo, antes de
haver recebido comunicações oficiais. Nessa viagem dirigiu-se em seguida a
Sorocaba, onde havia passado parte de sua juventude, e foi tal o interesse
despertado nesse lugar, que enviou a Blackford uma lista com os nomes de 90
pessoas que deveriam ser visitadas. O missionária atendeu ao chamado tendo
verificado então o belo trabalho realizado por seu amigo. Este, entretanto,
havia regressado a Brotas, de onde tornou a voltar, pregando em Limeira,
Campinas, Belém, Bragança e Atibaia. Chegando a São Paulo no dia 3 de
junho, iniciou nova viagem no dia seguinte. ( Émile G. Léonard p. 61)

Vale do Paraíba.

Blackford. Janeiro de 1867. “21, segunda-feira. Saí com o Sr. Conceição para o
Norte. Na noite de 22 pregou ele em casa de uma família que nos hospedou,
na Capital dos Remédios, perto de Jacareí. A 23 encontramos Miguel Torres e
Antonio Pedro em Jacareí. O sr. Conceição pregou à noite em casa do Sr.
Simão a 50 pessoas ou mais. A 25 pregou ele à noite a cerca de 50 pessoas
no Hotel do Sr. Ferreira.” Antonio Pedro: “Gostaram muito da pregação, e o
mesmo aconteceu em Caçapava. E Blackford: “A 25 atingimos Taubaté; o Sr.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 178

Conceição pregou à noite a cerca de 20 ou 30 na casa e muitas na rua. Na


noite de sábado, 26, preguei a 20 ou 30 na casa e uma multidão fora. Domingo,
segunda, terça, quarta, quinta e sábado à noite foi continuada a pregação em
Taubaté. As vezes havia 200, 300 pessoas na rua ouvindo atentamente. Duas
vezes tivemos de mudar de local das pregações. por causa da oposição e
intrigas, e foi difícil arranjar local adequado. Encontramos várias pessoas muito
interessadas na verdade, como João Leite Barbosa, Antonio Avelino de Oliveira
Chagas, Francisco Gomes da Luz, Domingo Sapateiro, e a maioria dos que
encontramos estava absolutamente contra os padres. Quarta e quinta à noite,
30 e 31 de janeiro, peguei em Pindamonhangaba a 40 ou 50 pessoas.” Antonio
Pedro: “Aqui não há mais a desejar, pois que todas as noites fica em frente da
casa onde se prega, isto é, a rua muito cheia de gente, além dos que estão
ocupando todos os assentos da sala. Ontem o Sr. Blackford e o Sr. Miguel
Torres foram a Pindamonhangaba para pregar lá, e eu com o Sr. Conceição
ficamos para pregar aqui, e eu tenho feito o que posso, não só vendendo
Bíblias, mas espalhando folhetos e falando; há muita gente que tem gostado, o
que dá ânimo para prosseguirmos na causa do Evangelho. Aqui moram 12
padres, e já experimentei a força de 4, encontrando-me com 2 numa casa,
onde me recolheram para dentro e me trataram com muito agrado.
Apresentaram para dentro e me trataram com muito agrado. Apresentaram a
Bíblia e começamos logo a discursão por ele...Os dois padres disseram que
gostaram muito de mim, e que sentiam ser eu protestante, e eu lhes disse que
também simpatizava com eles e sentia que eles não fossem protestantes.” 333
“Recolheram-se a São Paulo. Os rapazes devem preparar-se para ir ao
Seminário ao abrir-se no Rio. Conceição prepara cuidadosamente a resposta à
excomunhão publicada no “Correio Paulistano”, a 23 de abril de 1867. Seu
trabalho “Sentença de Excomunhão e Sua Resposta” começa a sair em maio, a
14 no “Diário” e a 16 no “Correio”334

333
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana, pp. 74-75.
334
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana, p. 75.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 179

“Visitou, desse vez, o vale do Paraíba, que percorrera outrora como cura de
Taubaté. Viram-no pregar e distribuir Evangelhos em São José dos Campos,
Caçapava, na sua antiga paróquia de Taubaté, em Pindamonhangaba e
Aparecida – onde se diz que discutiu em os padres – além de outras pequenas
cidades pitorescas e ricas dessa região fronteira, Guaratinguetá, Queluz,
Rezende, Barra Mansa, Piraí. Aí consentiu em embarcar para ir até o Rio, onde
participou da consagração pastoral do missionário Chamberlain, mas a 13 de
julho retomou em sentido inverso sua viagem pelo vale do Paraíba, chegando
em São Paulo em princípios de outubro.

Após um mês de trabalho na capital inicia, no fim de outubro a evangelização


rumo ao norte: Cotia, Ibiúna, Piedade, são Roque, Piracicaba, Porto Feliz, Itu,
até sua querida igreja de Brotas, onde permanece algumas semanas
percorrendo toda a região, para voltar, em seguida, por Itaquari, Rio Claro,
Limeira, Piracicaba, Capivari, Campinas, Belém (Itatiba) Bragança, Atibaia,
Santo Antônio da Cachoeira (Piracaia), Nazaré, Santa Isabel e São Paulo,
onde vamos encontrá-lo a 16 de dezembro”335.

Partindo para os Estados Unidos em busca de Saúde, em agosto de 1867,


visitou, naquele país, irmãos de Simonton. Chamberlain foi-lhe companheiro
em algumas viagens.

“Creio que pelo meado de outubro de 1867 comecei a pregar nas igrejas de
Jacksonville e de Springfield, das quais se despedia para o Brasil o Rev. Sr. R.
Lenington. Residi, pregando nas ditas igrejas cerca de oito meses, exerci ali a
medicina, o que valeu-me a simpatia das igrejas e do povo das cidades.
Trabalhei também em todo o gênero de trabalho, fazendo quanto me era
possível por honrar o meu ministério.”336

335
Émile G. – Léonard. p. 61.
336
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana, p. 121.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 180

“O que Conceição não registrou no relatório, mas que se encontra em um dos


seus biógrafos, é o seguinte: “Mal chegou a Nova York, esqueceu a sua saúde
para tratar dos negócios da religião, quer ocupando-se da revisão de uma
tradução do Novo Testamento, segundo o grego e siríaco, de que o incumbiu a
Sociedade Bíblica Americana, quer traduzindo vários folhetos e artigos para a
Sociedade Americana de Tratados, quer ainda na pregação”337

“De volta ao Brasil, após pequeno estágio no Rio, seguiu com


Blackford e Schneider para Santos e, então, São Paulo, à reunião do
Presbitério de 1868. Já ali não estava Simonton. A Igreja de São
Paulo estava desfalecida, e o Presbitério se debatia com o problema
Pires.”338

Conceição está saudoso das estradas. Mal termina a reunião do concílio, no


dia 11 de agosto, desaparece da casa dos missionários. Uma carta sua, de
setembro seguinte, dirigida a irmãos na fé, do bairro dos Cabaçaezinhos, perto
de Itapetininga, mostra seu desvelo pastoral. Envia-lhes livros, dá-lhes os
endereços de Pires e Pitt para subseqüentes informações. E as saudações à
maneira de Paulo, em Romanos 16.

Em outubro, juntamente com Chamberlain que também acabara de regressar


dos Estados Unidos, visita Angra dos Reis e Parati, voltando por Cunho,
chegando a Lorena onde houve a perseguição.. Volta a são Paulo e depois de
alguns dias com Pires e Mackee toma rumo de Bragança e Socorro. Em seu
relatório, dá cerca de sessenta nomes de pessoas que, pelo seu roteiro em
fora, mostravam-se interessadas pela vida espiritual, e isto para os “reverendos
senhores ministros do Evangelho que queiram visitar esses lugares” Eis
algumas referências curiosas: Dona Bibina Araras. Cerca de duas léguas
aquém de Atibaia, em uma casa de taipa vermelha, na estrada, existe uma
família grande, cujo pai é homem temente a Deus, desejando conhecer o

337
LESSA, Padre José Manoel da Conceição, 1935, São Paulo, p. 58.
338
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana, p. 121.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 181

Evangelho. Brigagão, mestre de meninos. Manoel Xavier Simões. Rev. João


Baptista Teixeira (visitou-me). Francisco Soares de Pugas, 1 légua além de
Itaquiri (cerca de 30 pessoas querem ouvir o evangelho e já ouviram em casa
do Sr. Pugas).339

Boanerges Ribeiro caracteriza o presbitério de 1869, o último a que


compareceu Conceição, como o marco final da sua missão. Abrira as rotas. Os
pastores não estavam podendo atender à vastidão das oportunidades.

Cito o referido biógrafo: “Da modificação no espírito do trabalho, que já não é


de extenso e febril desbravamento, mas de consolidação em torno de
determinados centros ao longo das estradas, a melhor prova está no quase
desinteresse que agora recebe o relatório de Conceição: “Em seguida
apresentou e leu o Sr. Conceição o relatório de seus trabalhos durante o ano
passado findo, e, sendo esse relatório muito extenso, pediu-se ao mesmo Sr.
fazer uma resumo do mesmo, próprio para ser arquivado”. Antes, crivavam-no
de perguntas, obrigando-o a estender um relatório considerado breve.”340

A Igreja evangélica do Brasil estava precisando de trabalhadores de outro tipo.


A igreja mudara de situação no Brasil; Conceição voltara o mesmo dos Estados
Unidos. Sua personalidade estava cunhada. era sui generis. “A partir de agosto
de 1869, José Manoel da Conceição volta a ser um solitário. Nunca mais teve
companheiros na estrada; nunca mais compareceu ao presbitério, nem lhe
prestou relatório.”341

Carta de Antonio Pedro, em abril de 69: “ O sr. Conceição segundo consta,


acha-se a três léguas de Bragança, e não foi, como aqui se disse, para a
cidade de Castro. Eu sinto muito os sofrimentos do Sr. Conceição; porém, nada
há, penso, que possa fazer melhor, senão uma boa mulher. É o único remédio,

339
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana, p. 122.
340
RIBEIRO, Boanerges, O Padre Protestante, p. 190 segs.
341
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana, p. 123.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 182

segundo o pensar de todos. Mas é quase impossível de efetuar-se: nenhuma


mulher o quer. Entretanto, de dia a dia aumenta-se a sua tristeza e
passamento.”342

Carta do próprio Conceição à irmã, em setembro de 1869:

“Não vos agradeci logo a vossa carta por andar doente e viajando. Vi
Juca em Capinas; vi Lau em Mogi...”
“A única coisa que para mim vos rogo a vós, e a todos os filhos de
Deus que me quiserem bem, é que orem sempre por mim a Deus. Eu
ando doente com umas feridas grandes e dolorosas, que me
obrigam, agora, a estar em casa sem poder viajar.” 343

Nessa mesma época, 19 de setembro, Monte Carmelo, notável pregador


católico, profere, na matriz de Niterói, um sermão que dedica a Conceição,
dizendo-se amigo afetuosíssimo. “Depois que vos deixei em vosso ermo, e
apenas chegado a esta Corte, fui convidado para pregar do Santíssimo
Sacramento. Sem admitir o fatalismo do turco, reconheço a parte que tem a
providência Divina em todos os acontecimentos da vida humana, e, pois, não
podia perder o ensejo que ela deparava-me de dar mais desenvolvimento a um
dos pontos sobre que versavam nossas tão amigáveis palestras, e das quais
lembrar-me-ei sempre com vivas saudades.”344

Antônio Pedro, de novo, em outubro de 1872:

“A notícia triste é a que dá a República, que o Sr. Conceição chegara


à cidade de Campanha, e que lá não achara hospedagem em
estalagem alguma, sendo depois espancado e lançado fora da cidade
por um grupo de homens.”

342
FERREIRA, Júlio Andrade, Apud Correspondência de um Cerqueira Leite, inédita,
(Arquivo Presbiteriano), conforme data.
343
RIBEIRO, Boanerges, O Padre Protestante, p. 197,198.
344
RIBEIRO, Boanerges, O Padre Protestante, p. 199.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 183

“Doeu-me o coração ao ler que meu mestre, que o Padre José


Manoel da Conceição fora espancado nas ruas de Campanha, sem
ter sequer junto de si um amigo, um companheiro!”

“Se fosse possível partir de Brotas alguém levando consigo animal, seria isso
uma obra de caridade que Deus agradeceria. Se o Sr. Conceição não quiser ir
a Brotas, ao menos teremos notícias dele”

“O coronel Fausto de Souza, seu biógrafo, informa que muitas vezes


Conceição não tinha plano fixo de viagem, deixando-se guiar por qualquer
circunstância. De uma vez saiu do Rio acompanhando um rancho de tropeiros,
e depois um grupo de viajantes até se encontrar em território paulista.” “Em
agosto e setembro foi visto em Queluz, e depois em Caldas, Campanha e
outros pontos de Minas; de outubro a dezembro, andava em Areias e
Mambucaba; em janeiro de 1873, último ano de sua vida, estava Queluz; em
São Pedro, em São Paulo, em março; na Corte, outra vez, em abril; em maio
andava por Piraí e Campo Belo; em julho era visto em Caraguatatuba. “ 345

Antonio Trajano:

“Uma ocasião, saiu ele (Conceição) de Lorena e foi a pé até São


Paulo Pregando o Evangelho; de São Paulo ele seguiu até faxina,
sempre anunciando o Evangelho nas casas que davam entrada,
fazendo em toda esta longa viagem um trajeto de perto de 80 léguas,
que ele andou sempre a pé. De Faxina voltou para Sorocaba, já com
sua roupa e seu calçado em um estado imprestavel, pelo que lhe foi
necessário esperar que anoitecesse para entrar na cidade; pois ali
ele era muito conhecido por ser o lugar de seu (nascimento?). Uma
Família crente lhe forneceu a roupa e o calçado de que tanto

345
LESSA, O Padre José Manoel da Conceição, p. 63, 64.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 184

precisava, porque em toda esta viagem ele não levou um vintém no


bolso.” 346

“Conceição foi bizarro instrumento da Providência, porém penetrante


instrumento.”347

Considerações sobre si mesmo.

Sem Igreja.

“Muitas vezes os missionários pediram a Conceição que se fizesse, passando


da evangelização à organização. Seu temperamento, entretanto, não o
permitia; tivera, sem dúvida, nos Estados Unidos, experiências sobre
organizações que facilmente se reduzem à administração, e bem cedo à
burocracia. continuou no seu ministério de apostolo itinerante. Os missionários,
que enviando os jovens evangelistas brasileiros a estudar no Rio, haviam-no
privado de seus companheiros habituais, tinham outras coisas a fazer que
seguir esse nativo, tão independente quanto psicologicamente
incompreensível. E assim, daí por diante, Conceição fazia sua viagens de
pregação só, como havia feito no começo, quando o acreditavam louco ( não
se estava, aliás, voltando a essa idéia?”348

Nessa divergência, entretanto, havia algo mais profundo que diferenças de


temperamento ou técnica missionária. Conceição, cuja experiência religiosa
muito se assemelhava à de Lutero, tinha, com relação a questões eclesiásticas,
uma posição vizinha à do Reformador. Saído de uma igreja cujo principal
defeito fora talvez deixar-se dominar pela organização, sentia bem pouco a
necessidade, almejada, como Lutero, difundir a mensagem de salvação, sem
se preocupar muito em destruir instituições para elevar outras. Seu último

346
Almanaque de O Puritano, 1902, pág. 15.
347
FERREIRA, Júlio Andrade, p. 127.
348
Émile G. Léornad, p. 64.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 185

biógrafo transcreve, a esse respeito uma página notável que é necessário


reproduzir na íntegra:

“Se queremos imprudentemente comunicar a homens sem preparatório algum,


verdades que lhes são absolutamente incompreensível, empregadas desta
sorte e prejudicialmente, não promoveremos assim a ilustração. Ilustrar é
conduzir o homem pensador à meditação, para fazê-lo valoroso, e capaz de
poder por si mesmo descobrir a verdade, que lhe comunicamos.

Tanto seria loucura, se os pais quisessem insinuar a seus filhos malcriados e


fracos as verdades que sabem; quão fátuo, querer imbuir adultos sem prévia a
conveniente disposição de coisas e princípios, que lhes é impossível
compreender”. Respeitem-se, portanto, os costumes e seus antigos do povo,
que, em falta de mais profundos esclarecimentos são aptos para guiá-los e
contê-los no bem”. “Ó meu Deus! eu respeitarei a religião do ignorante – a fé
daqueles que não tem tantas ocasiões de conhecer-vos, de venerar-vos de um
modo mais digno. Jamais servirei à vaidade e presunção, de tal sorte que abale
a fé piedosa dos outros com palavras e ações inconsiderada.” (Émile G.
Léonard, apud. Boanerges Ribeiros, p. 65)

Solitário.

“Desde o início da carreira, Conceição foi um padre solitário”349


“Teve início com uma de suas costumeiras crises de melancolia. Blackford,
junto a quem Conceição procurava apoio, não o compreendia. “Ensinaram-lhe
na teologia que quando alguém se converte está salvo para todo sempre, sem
possibilidade de se perder, e ele, agora, não é capaz de compreender a luta, a
dúvida, a angústia desnorteante do amigo. Aquele paroxismo final da velha
modéstia da alma, contraída na sacristia, mais lhe parece “aberração moral ou
mental” que uma crise da grande alma de santo que existe em Conceição, e

349
Júlio Andrade Ferreira, História da Igreja Presbiteriana, p. 45.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 186

que luta para se afirmar”. Blackford teve, pois, grande trabalho em persuadir
seu amigo e subordinado, de que lhe era necessário cuidar de si. Conceição
pareceu concordar, mas, nota Blackford em seu diário particular, “desapareceu,
sem deixar indicação alguma sobre seu destino, havendo escrito apenas um
bilhete avisando-nos de que o esperássemos em casa. No dia 3 de março
comuniquei esses fatos ao Dr. Furtado, chefe de polícia em exercício, que
prometeu escrever a todos os delegados da província pedindo notícias de
Conceição”350

“Segundo Hegel, os seres humanos, como os animais, têm necessidades


naturais e desejos de objetos externos, como comida, bebida, abrigo e, acima
de tudo, a preservação do próprio corpo. Entretanto, o homem difere
fundamentalmente dos animais, porque, além disso, deseja o desejo dos outros
homens, ou seja, quer ser “reconhecido”. Especialmente, quer ser reconhecido
como ser humano, isto é, como um ser com certo valor ou dignidade. Esse
valor, em primeira instância, está relacionado à sua disposição para arriscar a
vida na luta por puro prestígio. Pois só o homem é capaz de superar seus
instintos animais mais básicos – o mais importante, o instinto da auto-
conservação – em proveito de princípios de objetivos mais altos e abstratos.
Segundo Hegel, o desejo de reconhecimento inicialmente faz com que o outro
“reconheça” sua condição humana arriscando a vida numa batalha mortal..
Quando o medo natural da morte leva um dos combatentes à submissão,
nasce o relacionamento senhor-escravo. O que está em jogo, nessa batalha
crescente do começo da história, não é alimento, abrigo ou segurança, mas
puro prestígio. exatamente porque o objetivo da luta não é determinado pela
biologia, Hegel o interpreta como o primeiro lampejo da liberdade humana.”351

350
Émile G. Léonard, p. 60-61.

351
FUKUYAMA, Francis, O Fim da História e O Último Homem, Rio de Janeiro: Rocco, 1992,
p.17.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 187

...o crescente afastamento entre Conceição e seus colegas norte -


americanos. O ex – padre, movido por singulares impulsos, entre carismáticos
e neuróticos, passou meses inteiros viajando pelo interior de São Paulo e Rio
de Janeiro, geralmente a pé, abnegado até ao extremo, abrindo um campo
missionário após outro. Mas resultou incapaz de observar qualquer
planejamento de trabalho; suas comunicações chegavam esporadicamente até
aos missionários, e estes em muito casos não tinham maneira de canalizar o
movimento que Conceição havia desencadeado. Em 1873, quando o ex –
padre morreu – franciscanamente, como vivera, ficava a impressão de que se
haviam perdido grandes oportunidades.”352

Agonizando.

“No segundo semestre de 1873, após a reunião do seu Presbitério, em agosto,


empreendeu Conceição as suas últimas jornadas.”

Ainda em julho estivera em Caraguatatuba.

“O seu antigo mal se agravava. Os amigos se afligiam e se


esforçavam por subtraí-lo àquela existência de privações a que se
submetera voluntariamente, fazendo-se tudo por amor de todos,
contanto que ganhasse almas para Cristo. O Rev. Blackford lhe havia
preparado, no morro de Santa Teresa, uma aprazível vivenda para
ele ali gozar de tranqüilidade, acobertado de privações.”353

O velho e cansado peregrino do Senhor empreendeu então a última etapa de


sua peregrinação na terra. O Rev. Blackford aguarda-o no aprazível morro de
Santa Tereza, mas o Senhor Jesus indicava-lhe as alturas gloriosas de Sião.
Os braços eternos iam amparar o exausto, embora indefeso, caminhante.. O

352
Klaus van der Gripj, p. 11.

353
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana, p. 152.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 188

arauto do Evangelho iria contemplar radiante a face do Senhor a quem tanto


amara na terra.”

“Mas o mundo conspirava contra Conceição. Estava escrito que o viajor teria
de tombar, exânime, à margem da estrada de sua peregrinação, daquela
estrada geral que mencionara tantas vezes nos seus admiráveis relatórios
missionários, e que tanto percorrera naqueles anos.”354
Demandando a estação via férrea, foi o viajante surpreendido pela noite e
buscou agasalho em uma morada à beira da estrada. Mas um policial,
desconfiado, vendo-o descalço e revestido de pobres trajes, deu-lhe voz de
prisão e recolheu ao posto, desumanamente. Somente três dias mais tarde foi
solto, por intervenção de um amigo do Rio, a quem obtivera permissão de
escrever.

“Na prisão esgotou os recursos exíguos e viu-se sem o necessário para


adquirir o bilhete de passagem na estrada de ferro. Resolveu, por isso, seguir a
pé para a Corte. E assim foi suportando a calma e o peso do dia, fatigado e
doente, faminto, mas resignado. A 24 de dezembro, pelas quatro da tarde,
caminhava pela estrada da Pavuna, sob os raios de um sol ardente. Sentindo-
se mal, procurou a varanda de uma casa, mas tombou desalentado..

“As autoridades logo recolheram à enfermaria militar do Campinho o


desfalecido miliciano de Jesus. Ali foi tratado com todo o desvelo. O diretor,
major Fausto de Souza, depois seu biógrafo, acolheu humanamente o
desconhecido.”

Cuidaram dele o médico e o farmacêutico militares. Mudaram-lhe as roupas e


deram-lhe um caldo.

354
FERREIRA, Júlio Andrade, História da Igreja Presbiteriana, p. 152.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 189

Apenas respondia por monossílabos e com movimentos e cabeça, tal a sua


fadiga. Um pouco reanimado com os cuidados prodigalizados, manifestou ao
médico e ao enfermeiro o seu reconhecimento, dizendo-lhes que desejava
agora “Ficar só com Deus”, e voltou-se com dificuldade para a parede,
parecendo dormir sossegadamente.

Era aquela a festiva noite de Natal.


O Major Fausto de Souza e o subdelegado Honório Gurgel resolveram dar um
enterro decente ao corpo que ia ser sepultado no assim anonimamente
desaparecer quem tanto se ilustrara no caminho das boas obras.

Uma atmosfera de simpatia rodeou o estranho personagem, Todos se sentiram


atraídos. O diretor, o subdelegado, o capelão e vários moradores do Campinho
procederam como irmãos daquele de quem era antes desconhecido.”355

Os homens de coração nobre não permanecem para sempre. Conceição


morreu em 1873. Depois de viajar para o Estados Unidos, procurando repouso
para seu corpo debilitado voltou para o interior de São Paulo para pregar aos
seus parentes, velhos amigos e antigos paroquianos.

“Um grande místico, foi muitas vezes mal interpretado por seus colegas
brasileiros e americanos que não podiam controlar suas idas e vindas. Morreu
na véspera do Natal de 1873, numa pequena cidade no interior de São Paulo,
depois de longa viagem, pregando ao povo do interior como um velho profeta
hebreu. Estava descalço, faminto e parecia ter estado doente por muito tempo”.
(David Vieira Gueiros)

Quando tinha oportunidade de encontrar-se com os seus companheiros


missionários, mostrando sempre amabilidade, achava-se cada vez mais
decrépito e fraco. No fim de 1873, Blackford convenceu-o a repousar ao seu

355
FERREIRA, Júlio Andrade , História da Igreja Presbiteriana do Brasil, p. 153.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 190

lado, nos arredores do Rio. Conceição tomou o trem, o que era raro, mas em
uma baldeação, seu pobre vestuário e seus pés descalços atraíram a atenção
da polícia que o prendeu. E quando as informações recebidas lhe abriram as
portas da prisão, não possuía dinheiro para comprar uma nova passagem.

Continuou à pé seu caminho, sob o sol e a canícula, caindo prostrado, na noite


de 25 de dezembro, sob a sacada de um venda, em Irajá356, não longe de Piraí.
O chefe de uma enfermaria militar vizinha, major Fausto de Souza, deu-lhe um
leito. Tendo agradecido aos que o haviam socorrido, “os seus lábios moveram-
se em oração...”357 pediu que o deixassem “só com seu Deus” e morreu, tendo
adormecido, ao que parece, por volta do fim da missa da noite de Natal.

“O protestantismo brasileiro teve, em Conceição – que abriu seus caminhos e


nimbou seus primórdios de um auréola mística – um santo. O bondoso homem
que lhe dera um leito para morrer, e ao qual Conceição não pudera
proporcionar ensinamento nenhum, Major Fausto de Souza,358 impressionou-se
de tal modo nesse contato de alguns instantes que estudou a vida desse
estranho ente errante, publicando sua primeira biografia. Convertido ao
protestantismo, tendo-se tornado uma sumidade médica e política –
(principalmente como presidente da província de Santa Catarina) foi seu
grande defensor. Percebe-se, entretanto, que esse santo, não obstante sua
dogmática e sua ruptura com a Igreja, era ainda, pelas nuances de sua
devoção, um católico, um desses católicos reformados como almejaram Feijó e
Kidder.359 Conceição360 e Simonton repousam juntos em São Paulo.”361

356
Seu passamento teve lugar em Campinho, província do Rio de Janeiro, onde na
madrugada do dia de Natal de 1873 encomendou a sua alma ao seu Criador e Redentor,”
(Imprensa Evangélica, março 1881. )
357
Cf. Imprensa Evangélica, Ano XVII, São Paulo, Março de 1881, n.º 3, José Manoel da
Conceição e seu próprio testemunho.)
358
“O major Fausto de Souza que o recolheu como anônimo sem saber de quem se tratava,
converteu-se depois disso. Escreveu-lhe a biografia, traduziu o Cristo ´e tudo e preparou os
fascículos: Os Infalíveis de Roma, divulgados em suplemento na Imprensa Evangélica.”
LESSA, Annaes, p. 110
359
Cf. Émile G. Léonard, p.67.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 191

Apêndice .

“Sua Alteza Real o Príncipe Regente de Portugal declara e se obriga no seu


próprio nome, no de Seus Herdeiros e sucessores, a que os Vassalos de Sua
Majestade Britânica residentes nos Seus Territórios e Domínios não serão
perturbados, inquietados, perseguidos ou molestados por causa da Sua
Religião, mas antes terão perfeita liberdade de Consciência, e licença para
assistirem e celebrarem o serviço Divino em honra do Todo-Poderoso Deus,
quer seja dentro de suas Casas Particulares, quer nas suas particulares Igrejas
e Capelas, que Sua Alteza Real agora, e para sempre, graciosamente lhes
concede a permissão de edificarem e manterem dentro dos seus Domínios.
Contando porém que as Sobreditas Igrejas e Capelas serão construídas de tal
modo que externamente se assemelhem a Casas de habitação; e também que
o suo dos Sinos lhe não seja permitido para o fim de anunciarem publicamente
as horas do Serviço Divino. Demais estipulou-se que nem os Vassalos da
Grande Bretanha, nem outros quaisquer Estrangeiros de Comunhão diferente
da Religião Dominante nos Domínios de Portugal serão perseguidos, ou
inquietados por matérias de Consciência tanto nas Suas Pessoas como nas
Suas propriedades, enquanto eles se conduzirem com Ordem, Decência, e
Moralidade, e de uma maneira conforme aos usos do País, e ao Seu
Estabelecimento Religioso e Político. Porém, se provar que eles pregam ao
declaram publicamente contra a Religião Católica, ou que eles procuram fazer

360
“Observa-se, todavia, que o grande apologista de Conceição, na ocasião de sua morte, foi
um colega de sacerdócio, Frei Dr. Joaquim do Monte Carmelo. Este, que era Cônego da Sé de
São Paulo, escreveu anonimamente uma série de artigos n‟A Reforma, um jornal liberal do Rio
de Janeiro. Nesses artigos expôs a idéia de que Conceição tinha sido um verdadeiro cristão,
sinceramente dedicado ao sacerdócio, que tinha sido perseguido pelos ultramontanos por
causa de sua sinceridade e dedicação ao sacerdócio. Esses artigos foram enfeixados num livro
e publicados também anonimamente.” (VIEIRA, David Gueiros, O Protestantismo, A Maçonaria
e A Questão Religiosa no Brasil. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1980, p.143-146.)

361
Presbiterianismo no Brasil 1859 – 1959, Um projeto da Comissão Presbiteriana Unida
do Centenário, São Paulo, CEP, 1959, p.7.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 192

prosélitos, ou Conversões, as Pessoas que assim delinqüirem poderão,


manifestando-se seu Delito, ser mandadas sair do País em que a Ofensa tiver
sido cometida. E aqueles que no Público se portarem sem respeito, ou com
impropriedade para com os Ritos e Cerimônias da Religião Católica
Dominante, serão chamados perante a Polícia Civil, e poderão ser castigados
com Multas, ou com prisão em suas próprias casas. E se a Ofensa for tão
grave, e tão enorme que perturbe a tranqüilidade pública, e ponha em perigo a
segurança das Instituições da Igreja e do Estado, estabelecidas pelas Leis, as
Pessoas que tal Ofensa fizerem, havendo a devida prova do fato, estabelecidas
pelas Leis, as Pessoas que tal Ofensa fizerem, havendo a devida prova do
fato, poderão ser mandadas sair dos Domínios de Portugal. Permitir-se-á
também enterrar os Vassalos de Sua Majestade Britânica, que morrerem nos
Territórios da Sua Alteza Real o Príncipe Regente de Portugal, em
convenientes lugares, que serão designados, para este fim. Nem se
perturbarão de modo algum, nem por qualquer motivo, os funerais, ou as
Sepulturas do Mortos. Do mesmo modo os Vassalos de Portugal gozarão nos
Domínios de Sua Majestade Britânica de uma perfeita e ilimitada Liberdade de
Consciência em todas as matérias de Religião, conforme ao sistema de
Tolerância que se acha neles estabelecido. Eles poderão livremente praticar
os Exercícios de sua Religião pública ao particularmente nas Suas próprias
Casas de habitação ou nas Capelas e Lugares de Culto designados para este
objeto, sem que se lhes ponha o menor obstáculo, ou embaraço, ou dificuldade
alguma, tanto agora, como para futuro.”362

Julgo ser de utilidade, e mesmo necessário apresentar uma exposição mais


formal, porém sucinta dos pontos fundamentais em que os dogmas atualmente
ensinados na Igreja Romana, discrepam do Evangelho e da fé que atualmente
professo. Por amor de brevidade não me ocupo mais por extenso da

362
MACEDO, Roberto, Brasil sede da Monarquia. Brasil Reino (1ª parte):2ª Edição, Brasília,
Editora Universidade de Brasília/Fundação Centro de Formação do Servidor Público, 1983,
p.199.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 193

invocação e veneração dos santos, de suas imagens e relíquias, da doutrina do


purgatório, da supremacia do bispo de Roma e de seus sucessores, do celibato
do clero, e de mil e uma superstições, de que não há notícia nos primeiros
séculos da igreja. Estas cousas nascem de uma alteração profunda e radical
na essência da fé cristã; são superstições e abusos provenientes de ter a Igreja
Romana apostatado da verdadeira doutrina acerca do plano da nossa
redenção, ensinada pelos apóstolos. A acusação é grave, eu bem sei, porém
existem provas sobejas de que não a faço com leviandade. Que me julgue o
esclarecido público depois de ter ponderado a seguinte exposição dos fatos em
que a fé primitiva assenta e a maneira por que a Igreja Romana desfigura e
contradiz esses fatos. (p.14) Segundo o constante ensino do Evangelho, o
Filho de Deus, o Verbo que no princípio estava com Deus e era Deus,
encarnou no ventre da Virgem Maria e nasceu em Belém de Judá. Este fato
estava vaticinado pelos profetas que Deus de tempos em tempos suscitava em
Israel, e o culto do tabernáculo de Moisés e do templo de Salomão era
destinado a prefigurar e simbolizar a salvação que devia ser exclusivamente a
obra de Jesus Cristo, o Filho de Deus enquanto pessoa divina, e de Maria
quanto à sua humanidade.

Sua cristalologia apontava para alguns pontos fundamentais. são eles: 1) Pela
morte da cruz Jesus Cristo pagou a divida dos que se salvam, e por
conseguinte estes não têm de fazer expiação por si mesmos, nem o sacrifício
de Cristo se repete. 2) A condição de alguém ter o proveito desse pagamento é
fé de sua parte. a salvação é um dom concedido de graça aos que crêem no
Filho de Deus. 3) O dom do Espírito Santo acompanha a remissão dos
pecados; ele é o autor da nova vida (p.15) interior em que consiste a essência
do cristianismo. Ele é o santificador; e os sacramentos, a oração, a leitura e
meditação das palavras de Deus são meios cuja utilidade depende da sua
cooperação.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 194

Os dogmas da Igreja Romana transtornam e alteram radicalmente cada um


destes pontos fundamentais.

1.º Ela contesta e nega a suficiência da expiação feita sobre a cruz. (p.16)

2.º O segundo ponto alterado radicalmente, versa sobre as condições


indispensáveis afim de que os homens tenham o proveito do pagamento feito
por Cristo. (p.19)
3.º O terceiro ponto fundamental, que no ensino da Igreja Romana está
radicalmente alterado é a doutrina do Espírito santo. (p.23)

A fé salvadora em Jesus é o princípio fundamental de toda a verdadeira


obediência à lei de Deus. A gratidão pela redenção gratuitamente conferida
pelo Espírito santo no coração de todo o crente no Salvador, são os motivos
mais poderosos possíveis para levar o homem a servir e agradar a Deus.
Quem se sente perdoado e salvo em seu divino redentor, não necessita do
freio dos terrores da lei, das ameaças do inferno e do receio de a cada passo
perder a sua alma, para impedi-lo de entregar-se aos vícios. O coração novo, o
espírito renascido do Espírito Santo, não pode senão querer guardar a lei de
Deus e andar em seus preceitos. (p.27)

ASPECTOS GERAIS DO CATOLICISMO PORTUGUÊS


Por Roger Bastide.

Para entender o catolicismo363 brasileiro, especialmente na sua forma colonial,


é preciso conhecer o catolicismo português. Este nunca assumiu o aspecto
trágico do catolicismo espanhol, brutal ou místico e sempre inclinado à morte e
ao êxtase. Era um catolicismo mais humano e mais suave, quer seja o dos
camponeses seduzidos pelas festas dos povoados em honra dos santos que

363
BASTIDE, Roger, Religião e Igreja no Brasil In “Brazil, Portrait of Half a Continent”
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 195

eram protetores do amor ou das colheitas, quer o dos habitantes das cidades
saudando com milhares de foguetes as procissões barrocas que saíam de suas
igrejas, relembrando o mar, decorados com algas marinhas e conchas. Esse
era um catolicismo que havia caído sob a influência moura, abrandada pela
sensualidade norte-africana e voluptuosidade muçulmana. Sendo a descoberta
do Brasil simultânea à Contra-Reforma e as lutas dos jesuítas contra os
heréticos, luta que não tinha impedido, entretanto, que o vestuário da Igreja,
até então inconsútil, se cindisse.

A descoberta do Novo Mundo foi um ato providencial, segundo os padres pela


compensação trazida pela perda de uma parte da Europa, convertida ao
protestantismo. O Brasil torna-se então um campo privilegiado para os
missionários, principalmente jesuítas. O primeiro ato dos portugueses, diante
dos indígenas atônitos foi mandar celebrar a Missa e implantar a cruz como
símbolo de sua dominação. O primeiro nome do novo país não foi o de uma
madeira, dada mais tarde pelos piratas, mas o da grande cruz colocada na
areia Vera Cruz. O primeiro grupo de jesuítas missionários desembarcou com
Tomé de Souza, primeiro governador-geral, em 1549 chefiado pelo padre
Manuel de Nóbrega e mais tarde veio o Padre Anchieta em 1553.

Os jesuítas aprenderam a língua dos nativos e construíram seus primeiros


colégios ou conventos de barro. Penetraram nas florestas e seguiram os rios
para levar a catequese aos indígenas para isso, inventaram novos mistérios,
uma mistura de cantos católicos e danças indígenas. Perceberam logo que
para quebrar a influência dos pajés, que controlavam a vida dos adultos,
precisavam dirigir-se, sobretudo às crianças. Fecharam-nas em escolas,
modelaram-nas de acordo com suas normas e então as enviavam de volta para
os pais. Fizeram delas suas piedosas aliadas, propagandistas da fé entre o
velho povo e os chefes. Mas os colonizadores, mal preparados para lutar
contra a natureza tropical, não eram suficientemente numerosos para cultivar o
solo e necessitavam de trabalho nativo para plantar a cana de açúcar, limpar o
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 196

solo, e estabelecer seus engenhos e mesmo para defender suas habitações


contra as incursões das tribos inimigas ou ataques dos corsários. Desejavam
escravizar índios para esse fim e as bandeiras paulistas começaram a penetrar
em todo o interior do país para capturar os nativos e fazê-los trabalhar em seus
campos ou vendê-los para os grandes proprietários do norte.

A escravidão dos negros mitigou, mas não parou a demanda do trabalho


indígena. Assim os jesuítas, contra-atacando para melhor defender os nativos
contra a cupidez dos brancos e afim de melhor catequizar aqueles, que
tornaram imediatamente os líderes políticos, os administradores e os padres
das vilas onde eles reuniam os homens das mais diversas tribos. Os
colonizadores pagaram na mesma moeda, expulsando duas vezes os jesuítas
(1661 e 1684) enquanto esperavam a expulsão definitiva pelo Marquês de
Pombal em 1759. Esta posição e antagonismo de interesses não nos devem
fazer esquecer que os colonizadores eram também profundamente católicos.
Mesmo aqueles bandeirantes que não hesitavam em atacar as missões
jesuíticas do Guaíra e capturar seus índios, não partiam para suas expedições
aventurosas sem celebrar a missa e levar seus capelães consigo. Quando mais
tarde descobriram os primeiros rios que continham ouro, consagraram o
primeiro ouro encontrado à coroa da Virgem Maria. Nas fazendas do norte,
sempre encontramos as capelas rústicas, construídas pelos chefes das
grandes famílias patriarcais que sempre indicavam um capelão para lá dizer
missa aos Domingos, catequizar os negros e ensinar às crianças da casa o
português, o latim, as orações e o catecismo. Toda a vida do engenho, da festa
da colheita à da moagem, estava sob o signo do catolicismo. Em cada geração,
um filho, geralmente o mais jovem, tomava ordem para servir como advogado
da família ante a justiça divina. Nós, assim nos encontramos desde o começo
do período colonial em presença de dois catolicismos que eram diferentes e
freqüentemente em oposições: o catolicismo familiar dos colonizadores
patriarcas e o catolicismo mais romano e universalista das ordens religiosas,
especialmente a dos jesuítas.
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Gilberto Freyre descreveu bem o catolicismo familiar dos plantadores de cana


do nordeste, centrado em torno da pequena capela doméstica, sob a qual os
ancestrais eram enterrados, e sobre cujas paredes eram dependurados os
retratos dos mortos. Ao lado das imagens dos santos, recebendo a mesma
homenagem de buquês e lâmpadas votivas. O patriarquismo brasileiro é
distinto dos tempos clássicos no sentido em que teve uma base econômica e
não mística. Pode-se ver, entretanto, que ele também tendia, como nos casos
dos gregos e romanos, a ter uma sub-base religiosa e que era orientado –
como se isto fosse uma lei sociológica da estrutura patriarcal – para o culto dos
antepassados. Os santos católicos que eram adorados receberam este culto
somente na medida em que estava integrado na vida domestica e tinham o
caráter de protetores da família. Assim eram S. José que balançava a rede
onde o bebê dormia, Santa Ana que protegias a criança embalada no seio de
sua ama, o menino Jesus que se misturava aos jogos das crianças nos campos
de açúcar ou na sua natação no tanque onde o gado ia beber. O capelão era
mais um servo do senhor de engenho do que um representante de Roma.
Batizava, casava e enterrava os membros da família, os criados e os escravos,
ensinavam o catecismo as crianças, pedia as bênçãos de Deus para as
colheitas. Este catolicismo familiar não possuía nem flexibilidade de dogma
nem puritanismo de conduta. Era tudo indulgência abrandada pelo calor dos
trópicos e pela sensualidade das mulheres negras. Deixou-se contaminar pelas
superstições dos índios e religiões africanas, crenças em espíritos da floresta,
mães d‟água e poções de amor. Não impedia a crueldade dos senhores contra
escravos, nem a poliginia dos brancos, nem o sadismo das mães de família,
ciumentas das amantes negras de seu marido. Numa palavra, era um
catolicismo que era mais um clima de sentimentos do que uma educação para
a vida espiritual.

Esse catolicismo privado penetrou mesmo nas cidades do litoral e na igreja.


Nós já dissemos que cada família obrigatoriamente destinava um de seus filhos
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para a igreja, mas esses padres que tomavam ordens menos por vocação
sacerdotal do que em obediência ao costume e respeito pela tradição
carregava com eles os amores da casa grande. Raros entre eles eram aqueles
que não tomavam concubinas e que não tinham filhos delas que eles criavam
abertamente. Um costume também requeria que as jovens que não se
casassem deveriam fechar-se em conventos, mas esses conventos não eram
claustros místicos. Lá faziam compotas e doces, recebiam visitas,
mexericavam e representavam comédias. Todos os viajantes estrangeiros que
vieram ao Brasil ficavam chocados com a atmosfera festiva dos conventos
femininos, onde as ocupantes jogavam bola com as imagens dos santos. Não
falemos dos capelães obrigados a viver entre mulheres negras seminuas nos
arredores que eram enervantes e ricos demais em tentações de todas as
espécies.

Contra este catolicismo, pode-se contrapor o catolicismo das ordens religiosas,


acima de todas as dos jesuítas, pois na verdade parece que os beneditinos,
carmelitas e franciscanos permitiam-se ser dominados senão pelos mores, pelo
menos pelas condições econômicas no Brasil e transformavam seus conventos
em “casas grandes”, com plantações, engenho e uma grande força de trabalho
escravo. Os jesuítas reagiram. Atacaram o catolicismo familiar nos seus pontos
fracos: a mulher e a criança – a mulher através do confessionário e a criança
através do colégio e do externato, que erradicavam a influência
desmoralizadora do patriarca nela e moldou-a somente de acordo com os votos
da igreja. Assim os bispos e os padres defendiam a cultura européia e a
moralidade romana contra a turbulência dos senhores de engenho, poliginia
dos brancos e as superstições rurais. Sem dúvida falharam em parte, mas
nenhuma dúvida resta que misturando em suas bases, os filhos dos patriarcas
com os meninos índios, estabeleceram um mínimo de unidade moral e
espiritual entre os colonizadores portugueses e os povos primitivos. Também
bem sucedidos em criar aos poucos toda uma elite de bacharéis e doutores
que estavam mais próximos dos interesses da metrópole do que dos da colônia
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e que foram fatores de urbanização e universalização de preferência a


ruralização e particularismos locais. Mas foi necessário esperar até muito mais
tarde, durante a Independência e o Império para ver o bacharel substituir o
patriarca. A Igreja finalmente procurou romper a instituição dos capelães
particulares e cartas pastorais vieram uma após outra, pedindo sua interdição,
sem grande efeito, por causa da grande extensão do país e da impossibilidade
de ter padres bem treinados em todos os lugares: isso tornou necessário a
existência dos capelães como postos avançados nos latifúndios espalhados.

Falamos de dois catolicismos. Talvez com a chegada dos pretos, seja


necessário acrescentar um terceiro. O africano foi batizado ou na sua partida
ou no desembarque. Aprendeu o Credo e a Ave-Maria, a genuflexão diante do
altar e o sinal da cruz, mas a escravidão colocou uma barreira entre brancos e
pretos. No engenho, a Missa não era celebrada à mesma hora para os
senhores e para os africanos, se houvesse só uma missa, os pretos
permaneciam no pórtico fora e tomavam parte no mistério divino somente
através da porta aberta. A estrutura social assim modificou o igualitarismo
cristão. Os pretos providenciaram para eles santos negros, Santa Ifigênia, S.
Benedito, patronos de sua raça, protetores de suas desgraças. Nas cidades
criaram irmandades privadas, como as do Rosário do Povo Negro, com suas
regras e privilégios, seus reis e rainhas, e incorporaram muitas de suas danças
modificadas e controladas pela Igreja. Como nos EUA havia dois
protestantismos, assim o catolicismo aqui também, sob o efeito da escravatura,
tendeu a um dualismo que seguia a linha de cor. Algumas vezes, havia mesmo
um pluralismo, porque as irmandades dos negros crioulos recusavam-se a se
misturar com aqueles de negros importados e as irmandades de mulatos
recusavam-se a se misturar com as outras.

Poderia parecer que tal separação no seio do catolicismo teria impedido a


religião de exercer no Brasil seu papel de ligação e solidariedade social. Nada
disso. ao contrário, o que impediu foi as regiões diversas do Brasil, os núcleos
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de população separada por imensas distâncias e expostas a diferentes


condições demográficas e étnicas – S. Vicente, Rio de Janeiro, Bahia, S. Luís –
de divergir mais e mais foi em grande parte sua participação numa única fé.
Outrossim, era uma ação dos jesuítas, que uniam religiosamente os filhos
espalhados de Portugal através da sua educação em colégios de acordo com
as mesmas normas e com os mesmos métodos pedagógicos. Igualmente, no
seio de uma única religião, a Igreja outra vez serviu para unificar. Nos dias de
festa, os senhores de engenho vinham de suas propriedades rurais muito
separadas para permitir vizinhança, para encontrar-se nas sacristias das
igrejas urbanas, que no Brasil não são pequenas salas para o clero somente,
mas imensas salas com mobílias de jacarandá precioso, para discutir lá seus
interesses, problemas locais, e para tornarem-se cientes das coisas que tinham
em comum. Nas ruas, movimentando-se com o povo, procissões, enquanto se
separavam em sexos, idades, raças e classes e arranjavam-se em hierarquias,
unificou-os fazendo-os participar da mesma felicidade mística. Primeiro vinham
as irmandades dos negros, então aquelas dos mulatos e finalmente aquelas
dos brancos, as associações dos artesãos (Corporações de comerciantes) com
seus santos e danças, os soldados e no fim os homens bons, isto é, a
aristocracia. A procissão era verdadeiramente um quadro exemplar da divisão
da sociedade colonial em seus grupos constituintes, com religião como a única
força unificadora cimento e argamassa. Quando, no século dezessete, a
urbanização desenvolveu-se na costa atlântica ou no estado de Minas com o
crescimento do comércio e a descoberta das minas, estão os proprietários
definitivamente foram do campo para as cidades. Levavam as pequenas
distâncias com capelas e adaptavam-nas naturalmente às dimensões de seus
sobrados – o que é dizer, transformaram-nas em oratórios domésticos, com
santos familiares e velas piedosas. Aqui novamente, a Igreja era a grande força
centralizadora. A rua unia as casa e as famílias. Não a rua como uma simples
passagem mas caminho religioso, com suas estações de via sacra onde, na
Sexta-feira Santa, a massa ondulante de fiéis parava para tremer e orar e onde
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o artífice e o governador podiam ser vistos ajoelhados lado a lado nas pedras
brancas e pretas.

Werneck Sodré tinha insistido nesta ligação entre a Igreja e a sociedade


especialmente começando com o momento quando os jesuítas criaram seus
seminários ou suas faculdades de teologia e o clero não veio mais da
metrópole mas era recrutado no local. Religião, então, refletiu o país fielmente.
Ela construiu hospitais (S.ta Casa), organizou Ordens Terceiras e dirigiu a
educação das crianças. Estrangeiros, diz ele, não entenderam bem esta
religião humana e festiva, esses padres que eram casados e chefes de família,
e que, às vezes, no sertão protegiam bandidos e eram de clãs. Mas o que o
padre perdia em elevação religiosa, ganhava em outros campos, políticos,
econômicos ou intelectual. Como ele era uma das poucas pessoas educadas
na colônia, ele lia os livros dos filósofos franceses, de Montesquieu ou Voltaire.
Ele era liberal ou revolucionário e, como ligado às grandes famílias da terra,
trabalhava para a independência política e econômica do país. Entrou em
conspirações e sociedades secretas. Tornou-se um maçom ou um republicano.
É sabido que a Revolução de 1817, em Pernambuco era uma revolução de
padres, na qual 60 tomaram parte. Sob o Império, penetraram na Câmara de
Deputados e eram ministros ou membros da oposição. Em Minas Gerais, no
século XVIII, havia bispos que se tornaram comerciantes, proprietários de
minas, ricos proprietários de escravos, mesmo contrabandistas de ouro e
pedras preciosas. Consideravam os padres simplesmente como funcionários
da irmandade, às ordens de sociedades, e não se consideravam sob seu
controle místico ou moral. Em resumo, o catolicismo, de qualquer lado que
fosse visto, aparece mais social do que religioso, mais dirigido para as coisas
da terra, a terra brasileira, do que para o sobrenatural.

Nos fins do século XVII, contudo, o mulato, que não tinha direito de entrar nas
ordens, pode finalmente penetrar nelas. A Igreja tornou-se o canal de ascensão
social e isto foi aumentando no séc. XVIII e sob o Império. Inicialmente,
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recebeu os filhos de padres e mulheres negras para os quais os pais queriam


prover uma situação e, mais tarde, povo de condições humildes de todas as
espécies, sem consideração de raça ou origem familiar. Os pretos, em troca,
nunca cessaram de se queixar e protestar contra o lugar que lhes era dado nas
procissões, à cabeça do cortejo tão longe quanto possível dos homens bons;
contra o exclusivismo das irmandades de brancos que fechavam em grupos
separados; contra a existência de um catolicismo de cor. Em 1788, na Bahia,
pediram a formação de uma igreja nacional separada de Roma. Isto é uma
indicação de que a população do Brasil estava crescendo, necessitando de um
crescimento paralelo do número de padres, e que as grandes famílias ao
mesmo tempo encontravam fora da Igreja outras saídas para seus gostos
intelectuais e suas ambições. O império abriu a eles novas carreiras de
trabalho no governo, profissões liberais. Assim, era isto devido a esses dois
fatores, o divórcio entre a Igreja e o patriarcalismo e a ascensão do pequeno
povo e mulatos livres (que ascenderam não somente por meio da Igreja mas
também através do exército e dos postos mais baixos da administração
imperial), a Igreja se tornou gradualmente democrática. Mas esses humildes
chamados a servir a Deus numa túnica preta ou com ornamentos litúrgicos
eram mais maleáveis, mais aptos a ouvir as ordens de Roma do que aqueles
chefes políticos e, no seu entusiasmo como neófitos, mais cuidadosos com a
moralidade, sem a rigidez do dogma e a fidelidade ao Papa do que os
primeiros padres tinham sido. Temos aqui o elemento de transição que separa
o catolicismo primitivo, mais social do que místico, do novo catolicismo, mais
romano e mais puro. De um lado, certamente a Igreja conservou-se a passo
com sociedade brasileira, seguiu-a em muitas modificações e acompanhou sua
circulação da elite e a mobilidade vertical de novas classes, como no passado.
Mas de outro lado, exatamente na proporção em que a estrutura da
comunidade primitiva se modificou, novos elementos nela entraram para
preparar o caminho para a vitória do catolicismo universalista sobre o
catolicismo familiar da colônia. A Igreja em lugar de ser uma reflexão, veio a se
tornar um elemento de controle social.
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Mas esta ruptura entre Igreja e a sociedade brasileira requeria tempo.


Aconteceu somente durante o Império, e no curso de uma grave crise.

“A Independência” continuou, nas relações entre Igreja e Estado, as tradições


unionistas de Portugal de seu país. (Padroado), os imperadores brasileiros
eram também os protetores da Igreja (1824). O catolicismo era a única religião
oficial. Outras formas de culto eram meramente toleradas e, no início, somente
podiam ser celebradas em casas particulares. O governo nomeava candidatos
para os primeiros postos eclesiásticos e o clero nacional estava oficialmente
sancionado. Aparentemente, esta religião não mudou com a transição de
colônia para a independência. Os altos dignitários da Igreja eram mais
devotados ao mundo do que a Deus, mais ocupados com política do que com
misticismo. Os maiores nome da igreja eram aqueles padres que eram
ardentes seguidores da maçonaria – Como Januário da Cunha Barbosa, Padre
Feijó, o Bispo do Rio, Conde de Irajó e os dois celebrados franciscanos
pregadores, Frei Santa Teresa de Jesus Sampaio e Frei Mont‟Alverne. Os
viajantes que visitaram o Brasil neste período e que deixaram-nos os diários de
suas viagens – Kidder, Debret, St. Hilaire e Ewbank, todos concordam em
acentuar a falta de profundidade na vida religiosa e a falta de moralidade entre
a maior parte dos membros do clero. As igrejas permaneciam vazias e ficavam
cheias somente nos dias de festa. As mulheres mexericavam lá, as jovens
encontravam seus amores e tomavam sorvetes e os homens não apareciam de
todo.

Mas esta religião que era um remanescente dos costumes coloniais foi
destruída. Contratos eram assinados com engenheiros estrangeiros,
professores, etc. Este movimento pode somente atingir a religião num dado
momento, para fazê-la perder seu caráter lusitano ou tropical e modelá-la pelo
da Europa. Mas a instituição do Padroado forçou esta reforma a vir de dentro
para fora (e não de fora), por decretos governamentais não por injunções de
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Roma. Padre Feijó, sem dúvida filho legítimo de um padre, e que tinha
representado um papel preponderante no início da independência, pertencia a
um pequeno grupo de padres de tendências Jansenistas que não viam outra
solução do que o casamento para a imoralidade do clero. Para fazer isso, seria
necessário romper com Roma e, como as coisas inglesas estavam na moda
então, propôs uma espécie de Anglicanismo brasileiro, a formação de uma
Igreja Nacional. Teve que se retirar em face da oposição papal. Mas esta
primeira tentativa é sintomática de uma mudança de espírito. Um pouco mais
tarde, Pedro I reivindicou para si, a fim de por fim aos abusos e purificar a
religião, a supervisão do culto, a inspeção da doutrina e o exercício da
disciplina. Chega ao ponto de proibir a entrada de noviços nos conventos. Mas
se a Igreja aspirava à Reforma, desejava fazer isto por si e não com intenção
política. Agora sentia-se forte e esta força iria testar atacando os padres que
eram maçons políticos, patriotas e filósofos e que eram mais do mundo do que
de Deus. O padre Almeida Martins, que tinha sido indicado para saudar o
Visconde de Rio Branco, Presidente do Conselho e grão-mestre da Maçonaria,
numa loja maçônica, recebeu ordem do Bispo do Rio de Janeiro de abandonar
a maçonaria. Este foi o marco inicial de uma longa e penosa luta entre Igreja e
Estado. Os Bispos da Bahia e Pará excluíram todos os maçons das
irmandades religiosas em suas dioceses. Em resultado disso, tornaram-se
objeto de violenta campanha dos jornais liberais. Os dois bispos, que não
quiseram voltar atrás de suas decisões, foram presos, julgados e condenados a
quatro anos de trabalhos forçados.

Não interessa aqui os detalhes de tal querela, exceto o fato de que Roma saiu
vitoriosa. O clero estava defendendo sua possessão mais preciosa, sua
autoridade em assuntos espirituais, contra a intrusão de políticos locais. A
Igreja estava determinada a ter só ela o direito de controlar a fé e a moralidade
de seus padres assim como a dos membros das várias irmandades
subordinadas a ela. Mas esta vitória não foi possível por causa da ruptura entre
patriarcado e Igreja que tenha começado e porque o recrutamento de clero
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tinha mudado. Cada vez mais o pequeno povo era trazido para ela, mais
maleável e mais dócil sob as ordens de seus superiores. O crescimento da
população e a necessidade de um maior número de padres também obrigaram
a Igreja a fazer um apelo para as ordens estrangeiras, os dominicanos de
Toulouse, os salesianos , os dominicanos do Uruguai, etc. Estes homens que
vinham de fora não eram ligados naturalmente ao Brasil por profundos
sentimentos. Sua verdadeira família era a de Roma. Roma podia assim contar
com estas bases novas e tentar fazer a transição do catolicismo colonial para o
catolicismo universalista, com completa rigidez moral e doutrinal. Mesmo que a
República seja obra de positivistas, inimigos do catolicismo, e sua vida tenha
sido considerada pelo povo humilde do sertão como o triunfo do anticristo e a
vitória do demônio, é compreensível, nessas condições, que a Igreja pudesse
encontrar somente benefícios na nova lei republicana separando a Igreja do
Estado. Num celebrado sermão, Padre Júlio Maria aclamou no novo Regime
Brasileiro “a liberdade restituída a Igreja depois de uma escravidão tão longa e
triste.”

Mas tornando-se mais romana, não cessou a Igreja do ser nacional? Sentindo
este perigo, no mesmo sermão do qual já citamos numa passagem, o Padre
Julio Maria pediu, em vão por “Democracia, francamente, sempre hipocrisia
política ou covardia religiosa” para tomar parte “no banquete social do
Evangelho”. Ele lutou com o clero para não se fechar atrás das paredes de
seus templos, somente para rezar enquanto “observa de muito longe o povo a
quem primitivamente tinha sido tão ligado”. A ruptura ocorreu de fato. Como
disse Fernando de Azevedo “a primitiva comunidade de idéias e sentimentos
que tinha sido formada entre o clero e a nação uma comunidade tão manifesta
em todas as atividades da vida colonial e na constante participação dos padres
nas revoltas e sublevações do final do império – sucedeu agora uma
indiferença recíproca, uma dissociação entre igreja e mundo, entre religião e as
forças vivas da sociedades”. Mas esta indiferença da sociedade e a lassidão da
Igreja teve um efeito desastroso no recrutamento e se tornou necessário,
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mesmo, mais do que no passado, apelar para padres estrangeiros. Os


franciscanos alemães tomaram o lugar dos brasileiros no velho convento da
Bahia e publicaram seu jornal em alemão. Foram religiosas francesas ou
belgas que tomaram conta da educação e instrução das jovens da alta
sociedade em suas escolas, onde o francês era tão falado como o português.

As ordens monásticas, em outros lugares perseguidas ou expulsas, imigraram


da França, Bélgica ou Itália para preencher os vazios criados pelo
desaparecimento do velho costume de cada família dar um de seus filhos para
a Igreja. Incluíam lazaristas franceses, beneditinos alemães, italianos ou belgas
e franciscanos. Mesmo hoje, o clero é recrutado mais entre os filhos de
imigrantes descendentes de italianos e espanhóis do que entre velhas famílias
sem dúvida eram brasileiros diante da lei, porque eram nascidos do país, mas
é necessário não confundir integrantes jurídicos numa nação como a simulação
cultural. As duas coisas não estão necessariamente em conexão. O clero
católico tornou-se notável por seu catolicismo ortodoxo, sua elevada
moralidade, mas o que ganhou aqui não perdeu de outra maneira, tornando-se
mais um corpo de estrangeiros no seio de uma população que permanecia
nostalgicamente voltada para um catolicismo mais lusitano mais festivo? Nas
zonas rurais, não entrou este clero em luta contra o folclore católico, a união do
profano e do sagrado, as danças dos negros diante das portas das igrejas, as
congadas e o marcatu? não transformou ele as antigas procissões que tinham
ritos de comunhão social, em demonstrações de fé religiosa puramente?
Tornando-se romanizada a Igreja se distanciou.

Ficou assim uma tarefa final para ser realizada: isto é, conservar tudo o que
tinha ganho em profundidade religiosa e autoridade moral mas reintegrada na
comunidade nacional. Isto foi obra de um grupo de homens piedosos,
conduzidos primeiramente por Jackson de Figueiredo e mais tarde por Alceu
Amoroso Lima. A Igreja tentou reconquistar o mundo mas sem abdicar
qualquer parte de seu caráter romano e sem fazer qualquer compromisso com
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o catolicismo popular do povo. Criou escolas confessionais e organizou sua


própria empresa. Interessou-se novamente em política e não hesitou em
recomendar certos nomes ou partidos aos eleitores, enviando mesmo alguns
de seus membros para se sentar na câmara de Deputados. É claro,
naturalmente, que ele usou os meios mais modernos de propagandas, como o
rádio e o cinema a fim de causar impressão nas mentes ou corações. A fim de
trazer os leigos para a direção do clero, fundou-se a Ação Católica para grupos
de leigos, homens, a liga de senhoras, para as mulheres a JUC para os
estudantes e JUC para os operários que desejam modelar suas existências sob
as diretivas do catolicismo, para levar vidas exemplares e guardar seus
sacramentos.

“Nosso Catolicismo é um catolicismo de belas palavras e atos externos, disse


um brasileiro: não está na consciência”. O papel da Ação Católica era educar a
consciência e combinar religião com vida. Finalmente, a Igreja não quis
permanecer confinada na obscuridade do santuário ou da suavidade da
sacristia. Atacou a solução de problemas sociais, muitos dos quais existem:
jogo, instabilidade familiar entre ricos, na habitação, nutrição e higiene entre as
classes baixas. Criou semanas de Ação Social em conjunto com Congressos
eucarísticos a fim de mostrar que nada humano era estranho a ela. Sem
dúvida, fazendo isto a Igreja Brasileira estava seguindo diretivas gerais das
encíclicas papais. Alguém pode mesmo descobrir neste movimento, como em
outras partes do mundo, uma direita e uma esquerda. A despeito de tudo isto,
colocando o problema da Ação em relação ao Brasil em termos brasileiros, ela
procurou recuperar a aliança ao Brasil perdida com a sociedade nacional.

Uma vez mais a Igreja procurou fazer esta nacionalização sem perder seu
caráter romano e universal. Mas é evidente que o nacionalismo assim
despertado pode voltar-se contra ela. Podemos achar uma prova disso na
constituição da Igreja Católica Apostólica Brasileira, fundada pelo ex-bispo de
Moura que levou avante o antigo sonho do padre Feijó, a Independência de
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Roma e a autorização dos casamentos dos padres. “O Brasil não pode e não
deve”, escreveu ele, “continuar na triste condição de uma colônia do Vaticano”.
Condenado por Roma este pequeno grupo tem sido capaz de subsistir
somente sob apoio dos comunistas e simpatizantes de um lado e de outro,
procurando ganhar as boas graças dos protestantes, inicialmente, e mais tarde
dos espíritas, mesmo dos umbandistas.

Pode se dizer, em suma, que a Igreja tem duas funções, a primeira é a função
sociológica de criar solidariedade, de unir os homens horizontalmente e a outra
é uma função mística de educação religiosa das almas, da ligação vertical das
almas com Deus. Parece que estes dois problemas existem antiteticamente no
Brasil. No começo Igreja atingiu a primeira admiravelmente e se pode dizer que
o catolicismo foi o cimento da unidade nacional. Mas ela realizou isto, a
despeito dos muitos santos com os quais cantavam, somente perdendo sua
pureza. E quando se reformou perdeu sua influência e parou de refletir a
sociedade circunvizinha. Esta é a origem da dialética que procuramos
descrever e que hoje arrastou a Igreja a nacionalizar-se novamente, sem
contudo perder nada de sua pureza adquirida.

O último censo oficial (1940) dá o número de 39.177.880 católicos, distribuídos


em 3.036 paróquias, com 2.964 padres seculares e 3.419 regulares. Embora
seja difícil, com base nestes poucos dados, calcular exatamente o raio de ação
de cada padre, penso que não errarei muito em computar um padre para cada
10.000 fiéis. Se nas vilas estes fiéis estão agrupados ao redor das Igrejas, no
campo, ao contrário, freqüentemente estão extremamente dispersos e portanto
só podem receber conforto da religião esporadicamente. Compreende-se,
assim nestas circunstâncias que a reforma da Igreja afeta mais as cidades do
que as zonas rurais e que se a Igreja é uma única coisa, o sentimento católico
apresenta variação de acordo com as regiões e sua distância dos centros de
romanização deixando de lado as zonas missionárias de evangelização dos
índios, procuremos distinguir as principais áreas.
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A que ocupa o lugar privilegiado na literatura brasileira é o sertão do nordeste.


Se o messianismo existe por toda parte do Brasil, tem lá seu centro e seu
domínio. De tempo em tempo lá aparece profetas alucinados ou iletrados
curandeiros que reúnem massas fanáticas em torno deles. Euclydes da Cunha
desenhou um quadro agora um pouco ultrapassado mas verdadeiro em seu
esboço geral, deste catolicismo especial. Tem sido todas explicações variadas,
geográfica, raciais ou sociológicas. Tem-se feito conexões com o clima
semidesértico e as secas que ciclicamente assolam a região e forçam os
habitantes a abandonar seus lares. Têm sido feitos paralelos entre este
misticismo ardente e destruidor e aquela terra de espinhosos cactos num solo
sedento por chuva. É sabido que o misticismo existiu entre os índios Tupis, “a
nostalgia pela terra sem mal” para a qual os pajés conduziam os índios. É
possível ligar o messianismo moderno a este tipo primitivo por toda uma série
de transições, tais como a “pagelance” do Pernambuco, conhecido por nós
através de denúncias diante do tribunal da inquisição, na qual crenças
ameríndias eram misturadas com ritos católicos deformados e transpostos.
Aqui a idéia expressa era que a terra retornaria aos seus primeiros possuidores
e que os brancos seriam transformados em animais ou trabalhariam para os
nativos. Um outro caso é a hecatombe de Pedra Bonita, onde os descendentes
mestiços voluntariamente sacrificaram-se num altar de pedra, o pai matando
seus filhos, o marido, sua mulher, o chefe e seus subordinados. Tudo isto teve
lugar para desencantar o lago sagrado onde a futura Cidade, a terra da
felicidade, precisa nascer sob o comando de Dom Sebastião, o rei português
que misteriosamente desapareceu durante suas lutas contra os mouros, mas
que não estava morto e que um dia retornaria. As representações coletivas
podem variar com a cristianização, mas a mesma nostalgia por um mundo
melhor passou, nesta região, dos índios primitivos para os caboclos, os
mestiços, que conservaram muito da civilização indígena. Os profetas de hoje,
que em outras partes do Brasil reuniram somente poucos fiéis em movimentos
efêmeros, aqui encontram um clima favorável para suas pregações
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messiânicas, e facilmente levantam as multidões que seguem-nos em suas


andanças, saqueando entre as orações, a fim de viver fora das vilas e fazendas
através das quais passam. Antônio Conselheiro foi o mais celebrado entre eles
e para derrotá-lo foram necessárias muitas expedições militares, mesmo a
criação de um exército e um cerco sangrento findando no massacre dos
seguidores. Esta era uma religião com base na penitência para apagar os
pecados do mundo; uma religião apocalíptica de vingança dos fracos contra os
fortes, deserdado contra o rico, dos habitantes do sertão contra aqueles do
litoral; uma religião, em suma, de iletrados constrangidos dentro de uma fé
mística, seguindo cegamente o doente mentalmente, ascéticos como cristãos,
operadores de milagres. Mais próximo de nosso tempo, “o pequeno padre
Cícero”, embora condenado pela Igreja, mas reconhecido pelo povo com o seu
protetor, e santo, fez de Juazeiro, onde vivia em meditação, um lugar de
peregrinação. De todos os cantos do sertão, vieram multidões, que tinham
viajado centenas de quilômetros, para receber sua benção e onde, diziam eles,
paralíticos andavam, feridas eram cicatrizadas e corações dilacerados
recebiam paz. A política contra a seca sobretudo, através da abertura da
comunicação entre o litoral e o interior, e o desenvolvimento da educação
tende hoje em dia a modificar a mentalidade daquela zona, eliminando o que
os sociólogos consideram dois grandes fatores do messianismo: a existência
de um povo pária (Max Weber) e a oposição de duas culturas de diferentes
níveis (Sociologia Norte Americana).

Ocasionalmente, uma Segunda zona, aquela dos gaúchos no sul, pode ser
contrastada com esta primeira zona, a dos vaqueiros do nordeste. Nesta
região, fronteira entre a América portuguesa e a espanhola é uma área
disputada, onde o homem se tornou soldado defendendo seu patrimônio
cultural, o herói não é o profeta ou santo, mas o chefe militar, o caudilho. O
habitante do pampa prefere um combate ou rodeios a cavalo através de um
rebanho de gado a exercícios piedosos. Além disso, todos os que consideram
o problema religioso nesta parte do Brasil, de St. Hilaire a Jorge Sales de
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 211

Goulart, concordam em notar, senão indiferença, propriamente falando, ao


menos a superficialidade do sentimento religioso. Aqui estamos no extremo
oposto do messianismo ou fanatismo do nordeste. A fraca intensidade do
movimento religioso que tem sido notada e que podia talvez ser comparada
com os movimentos do sertão não é brasileira na sua origem. É trabalho dos
imigrantes anabatistas alemães, os “Muckers”. Mas no sul como no norte, o
esforço católico para produzir homogeneidade começou e está diminuindo as
variações regionais em matéria de fé nesta parte é explicado pela imigração
italiana, a rápida assimilação destes latinos, casamentos inter-étnicos e o
grande número de filhos de italianos que entraram nas ordens religiosas.

Há ainda um outro contraste do qual precisamos falar: o contrataste entre o


catolicismo rural e o urbano. O catolicismo rural permaneceu próximo ao velho
catolicismo colonial ou imperial, não somente pelo fato de que os grupos rurais
são essencialmente mais tradicionais, mas porque a falta de padres impediu
uma educação mais profunda na fé, é mais familiar e mais social e também
mais maculado com superstições. É uma religião que permaneceu no “do ut
dos”, a promessa feita para um santo apaziguador se ele conceder
determinada graça, uma dádiva, um bom casamento, uma abundante colheita.
A promessa consiste, se o santo responder ao suplicante, em fazer uma
peregrinação, em pedir esmolas para providenciar uma festa para o santo, ou
depositar um ex-voto em determinada capela. Daí existir uma abundância de
igrejas as quais são ligadas salas de milagres, com pernas, mãos ou cabeça de
cera ou esculpidas cruamente em madeira por algum artesão rural, mas se a
despeito de tudo a graça não for concedida, então o fiel volta-se contra o santo.
Ele é removido do oratório familiar afim de ser levado para outra casa, ou é
colocado de cabeça para baixo numa parede e lhe é dito que permanecerá
nesta posição inconfortável até que conceda a graça.

Mais este catolicismo, utilitarista como é, é sincero. É como uma parte


integrante da personalidade. Vasconcelos Torres, que fez uma pesquisa sobre
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religião rural, encontrou, difundido em vários estados, trabalhadores rurais que


são “ateístas, graças a Deus” como dizem, seja porque nunca tiveram
instruções religiosa, seja porque estão zangados com a Igreja. Mas estes
ateístas não deixam de ter atrás de suas casas uma pequena cruz de madeira
ou uma medalha benta para afastar os demônios. O catolicismo rural brasileiro
é voltado mais para o culto dos santos e da virgem do que de Deus, e esses
santos variam de acordo com as religiões, tanto quanto de acordo com as
famílias. Bom Jesus da Lapa é especialmente venerado na região do S.
Francisco, assim como Bom Jesus de Pirapora o é no Estado de São Paulo. As
famílias rurais de Minas geralmente mantém o culto da Santa Cruz e plantam
uma diante da porta de suas moradias. Outros objetos de culto são geralmente
no Brasil tais como as almas das pessoas que foram assassinadas ou que
foram encontradas mortas na estrada. Uma cruz é colocada no ponto em que o
corpo foi encontrado; as vezes uma rústica capela é construída e uma vela
queima lá constantemente quase em toda parte peças de estátuas de santos
são encontradas, porque uma imagem quebrada nunca pode ser jogada fora.
Os pedaços fragmentados são carregados para esse sagrados recantos do
campo. O bairro rural, vila ou cidade atrai toda a população vizinha nos dias de
festas religiosas. Essas festividades são organizadas pelas pessoas notáveis
da localidade, que podem ser escolhidas por sorteios cada ano ou que pode
estar cumprindo um voto. São os festeiros que suportam os gastos das
cerimônias e reúnem uma grande quantidade de comida, de modo que todos
os que se dirigem para a vila tanto os doentes quanto os presos possam
comer. O catolicismo assim conservou – sua função de solidariedade social e a
profissão, que é o ponto alto da celebração, reúne os elementos de diferentes
raças ou classes numa única alegria. Estas festividades são caras e podem
consequentemente, também tornar-se um instrumento de prestígio social e
dominação através da competição entre festeiros para ver quem dá a festa
mais agradável ou aquela da qual o povo falará mais tempo nas noites
seguintes. Lá ainda existem algumas espécies de irmandades de tocadores de
viola e cantadores populares, que por alguns meses vão de pé de casa em
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casa ou por barco ao longo dos rios pedindo esmolas ou comida para
preparação da festa. Os mais celebrados são os foliões do divino, com sua
bandeira vermelha decorada com a pomba divina e suas tradicionais cantigas
que são a alegria do folclorista.

A região não pode viver sem os ritos onde as almas se unem. Já foi dito que as
distâncias impediram os padres de oficiar no interior. Assim, para sobreviver,
este catolicismo rural é obrigado a criar suas próprias instituições e inventar
seus próprios chefes. Em toda a parte se encontra os rezadores, as vezes um
negro velho, as vezes um caboclo ou um branco mais ou menos iletrado que
reúne alguns homens da terra em redor de uma capela privada e lá recita as
ladainhas e celebra as novenas. Assim, na ausência do padre a fé que
necessita de alimento espiritual organiza seus próprios meios de conservação.
Mas o leigo que celebra os ritos muitas vezes tem somente conhecimento
elementar do dogma, quando tem algum, e pode-se entender então porque a
superstição pode grassar tanto no tronco católico. O rezador não é sempre e
necessariamente um benzedor, o que cura as enfermidades dos animais tanto
quanto dos homens fazendo um sinal da cruz e murmurando algumas palavras
latinas – mas freqüentemente é. Em qualquer caso, estes dois tipos sociais são
um par indissolúvel nos distritos rurais.

O catolicismo urbano é mais puro. Apoia-se numa população que é talvez mais
reprimida mas em qualquer caso mais instruída em seus deveres. Liga o povo
juntamente em suas irmandades, seus patronatos, suas associações
confessionais. O clero lá é mais unido ao fiel e assim o controle da igreja sobre
seus membros é mais forte nas cidade do que nas zonas rurais. Segue o
indivíduo desde a infância o catecismo até as idades mais avançadas com a
Ação Católica, afim de educar e apoiá-lo. O clero urbano é ligado ao resto do
catolicismo universal pela hierarquia católica da qual ele é um elo. Assim é o
bastão do romanismo no Brasil. Uma estratégia completa tem sido feita para
desenvolver a inclinação pela comunhão organizadas em dias pascais, de
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oficiais, funcionários banqueiros professores e, para acabar com a imoralidade,


organizando retiros durante o carnaval, a grande festa pagã brasileira.

O catolicismo urbano está, contudo em grande contraste com o catolicismo


rural, porque é necessário levar em conta a heterogeneidade da população
urbana a diversidade das classes sociais. Há, contudo, mesmo nas cidades, e
especialmente nas camadas mais baixas, um catolicismo popular,
caracterizado por revelações miraculosas e curas, e a despeito das ordens de
um clero sempre prudente, pelo extraordinário e pelo sobrenatural. Isto conduz
ao florescimento de mais ou menos cultos heterodoxos, tais como o de
Antoninho em S. Paulo.

Outras religiões no Brasil não têm a importância do catolicismo, mas


precisamos, contudo, dizer algumas coisas delas, porque elas colocam
problemas para sociólogos que são da mesma natureza daqueles que
examinamos em relação ao catolicismo.

A religião, no período colonial, foi misturado com patriotismo português, se não


brasileiro. Os jesuítas pressionaram o governador-geral a expulsar o franceses
calvinistas sob Villegainon do Rio de Janeiro, e a luta contra os holandeses no
norte do Brasil teve tanto o aspecto de uma cruzada contra os calvinistas como
o de um conflito entre interesses econômicos. Certamente o português não é
xenófobo e o país sempre aberto àqueles de outras terras que vinham para
trabalhar aqui, mas o estrangeiro somente era admitido com a condição de
professar a religião romana e apostólica. “Cujos regio, ejus religio”. “O perigo”,
disse Gilberto Freyre, falando no Brasil colonial, “era não o estranho ou doente,
mas o herege”. A função da Inquisição, em Pernambuco tanto quanto na Bahia,
era ver se judeus disfarçados como cristãos novos estavam entrando no país.
Padres entravam abordo das caravelas que paravam nos portos brasileiros
afim de deixar somente os cristãos verdadeiros entrarem na nova terra. Eles
assim constituíram a primeira polícia sanitária, mas uma polícia que agia em
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relação as almas e não aos corpos, que se incomodava com máculas de


heresia e não com fraqueza física. O Protestantismo não foi capaz de se
implantar no Brasil até bem mais tarde e somente quando o Império em 1824
proclamou liberdade de culto. Mas, num tempo relativamente curto, fez
progressos que foram surpreendentes quando se considera o caráter
tradicionalmente católico do país. Precisamos procurar a causa disto.

O primeiro protestantismo foi missionário. Os missionários anglicanos


chegaram em 1819, os metodistas em 1836, os luteranos em 1845, os
congregacionalistas em 1855, os presbiterianos em 1862, os batistas em 1881
e os episcopais em 1890. Novas seitas estão sempre sendo encontradas se
estabelecendo ou procurando se estabelecer no Brasil e novas missões vieram
de tempos em tempos dos Estados Unidos: Quakers, Adventistas do Sétimo
Dia, Pentecostais e mesmo Mórmons. O protestantismo assim aparece como
um fruto exótico – quer estivessem ligados uns aos núcleos de imigrantes
(somente os ingleses sendo anglicanos e o luteranismo sendo a religião dos
alemães), ou quando os protestantes se dirigiam às massas brasileiras, faziam
isso através de pastores estrangeiros tais como Spaulding ou Kidder para o
metodismo, Robert Kalley para a Igreja Evangélica do Rio de Janeiro, Bagby
para os batistas, etc. O sucesso destas várias missões de acordo com os
católicos, não impediu o protestantismo de ser, mesmo, assim, um produto
importado. “olhe para o Eucalipto”, dizem eles, “ele prospera maravilhosamente
em nosso solo, mas sempre esteja alerta, para seu caráter de árvore
estrangeira. Acontece o mesmo com o protestantismo”.

Mas, como o eucalipto, o protestantismo floresceu. Começando no século XIX,


encontrando de dificuldades no início, e mesmo tendo seus mártires, em 1900
tinha de 40.000 a 45.000 membros. Dez anos mais tarde já atingia 50.000.
Hoje já somam mais de 1.000.000. Assim estavam respondendo a uma
necessidade. Na verdade teve seu caminho preparado pelo catolicismo mais
do que foi uma reação contra ele. O catolicismo deu às almas a necessidade
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de fé, uma fervorosa vida religiosa, a moralidade, mas como já vimos, na falta
de padres a Igreja não podia mais satisfazer essa necessidade de alimentar e
educar o sentimento cristão. Somente o protestantismo compreendeu que para
cumprir esta tarefa tinha que romper seus laços estrangeiros, especialmente
aqueles com anglo-saxões, seja para se voltar para um protestantismo
português ou, de preferência, constituir-se em Igrejas nacionais. Esta
nacionalização do protestantismo trabalhou, as vezes, espontaneamente
através da criações de escolas teológicas e um ministro nativo e, em outras
ocasiões, entre crises, através da separação da igreja nacional da igreja mãe,
considerando ainda missionária demais em inspiração, certamente, essas
crises podem assumir um aspecto teológico do que patriótico ou tomar
discussões de dogma como ponto de partida, mas a verdadeira razão
subjacente é a necessidade de nacionalizar o protestantismo. Assim, os
presbiterianos se dividiram em dois grupos, e uma Igreja Luterana Brasileira
surgiu entre os descendentes dos alemães, ao lado da velha Igreja Luterana
Alemã. Parece que hoje estamos entrando numa terceira fase da evolução do
protestantismo brasileiro, a procura de unidade, na qual se esforçam para não
se perder em competições estéreis entre as várias seitas em detrimento da
propaganda da fé. Este movimento pela unificação que não é peculiar ao Brasil
e que é encontrado em todos os países onde existe o protestantismo, começou
em 1929 e surgiu com a criação da Confederação Evangélica do Brasil.

Seu poder de difusão cresceu. E hoje nos círculos protestantes considera-se


que a Igreja Protestante brasileira no curso dos últimos anos é aquela que tem
mais progredido em todo o mundo. Uma igreja estabeleceu 14 troncos em 20
anos; uma paróquia isolada adquire 150 membros em um ano. Alguém pode
imaginar que esse progresso é aparente, sobretudo em zonas urbanas, onde a
população é mais heterogênea, mais cosmopolita e menos tradicional e onde a
alfabetização é mais desenvolvida, permitindo a leitura da Bíblia que é a base
da cultura religiosa protestante um estudo que fiz no estado de São Paulo,
município por município, mostrou que a propagação do protestantismo está
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ocorrendo ao longo das grandes ferrovias que saem da capital. Seria, por isso,
um erro considerar o protestantismo uma religião puramente urbana. O viajante
em seus circuitos no país freqüentemente encontra em lugares de difícil
acesso, casas de oração, casas de padres, que reúnem camponeses das
vizinhanças em torno de pregadores, alguns semi-letrados, mas cujos sermões
sobre moralidade e apelos à conversão tocam os corações. Os franciscanos
alemães da Bahia explicam o sucesso do protestantismo nas zonas rurais pelo
fato de que lá os fiéis desejam o culto e lá o catolicismo só foi capaz de
proporcionar-lhes esporadicamente. Mas é necessário não formar ilusões sobre
este rápido progresso.

O protestantismo, sobretudo nas zonas rurais, permanece, de acordo com o


viajante Roger Breuil, “um cadastro evangélico que cresce sem parar, mas só é
composto de peças” , e no qual o espírito de conquista ganha sobre o de
profundidade espiritual. É isso que freqüentemente faz com os filhos de
católicos convertidos ao protestantismo abandonem a nova religião sob a
influência da vizinhança, e é constantemente necessário recomeçar a
conquista, mais por troca de posições do que pela manutenção adquiridas.

Se a porcentagem de protestantes for calculada, estado por estado, em relação


à população toda e se os resultados assim obtidos forem colocados num mapa
do Brasil, veremos que está religião tem seu centro noas estados sulinos, Rio
Grande do Sul e St Catarina (mais de 100 por 1000 habitantes), mas estes dois
estados têm a maior proporção de imigrantes alemães e seus descendentes.
Se os luteranos, que formam uma espécie do quisto religioso, foram eliminado,
a somente a 47.603 protestantes em lugar de 339.250. Os verdadeiros centro
do protestantismo brasileiro são os estados centrais, do Espírito Santo ao
Paraná, com Rio e São Paulo (de 24 a 75 por 1.000 hab.). Mas é mais
interessante, para poder entender o caráter nacional do novo protestantismo,
notar sua penetração no sertão e na Bacia Amazônica (Acre, Amazonas, Pará,
Mato Grosso, Goiás e Minas – de 10 a 16 por 1.000 hab.). Ao contrário, se o
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pequeno estado de Pernambuco (13 por 1.000 hab.) for deixado de lado, a uma
região do Brasil onde o protestantismo entrou muito pouco e pobremente. Esta
é a zona do norte e o norte da região leste do Maranhão a Bahia – isto é, a
tradicional antiga zona do Brasil colonial. Precisamos notar que esta é também
a zona na qual espiritismo, do qual falaremos mais adiante, tem o menor
número de membros (protestantes de 2 a 7 por 1.000; espiritismo, menos de 2
por 1.000). O nordeste precisa ser assim considerado como o bastão do
catolicismo lusitano no Brasil.

O protestantismo brasileiro apresenta certas características, algumas das quais


ligam-no ao protestantismo universal e outros que o diversificam deste.
Naturalmente dá grande importância a educação e a instrução seja inicialmente
com um assunto cristão – com suas 4.000 Escolas Dominicais e seus 1.500
monitores – ou também mais tarde com um interesse mais geral. As uniões
cristãs para jovens, por exemplo, não transformadas em escolas ou ginásios.
Recusa-se igualmente a divorciar-se do mundo e, num país onde os problemas
de saúde e pobreza são grandes, cria hospitais, sociedades beneficentes,
creches, etc. Contudo é mais transferido da cristandade social do que do
protestantismo europeu e norte-americano. Está também mais ocupado com a
moralização do meio e com a defesa da ortodoxia do que com a questão social.
Está dividido num certo número de seitas mas cada uma destas seitas de
preferência recruta seus membros em uma determinada classe da população,
de tal maneira que as igrejas dão a impressão de homogeneidade moral e
mental. Os episcopais, os evangélicos e os metodistas recrutam seus membros
na classe média, a burguesia conservadora e puritana as antigas famílias
brasileiras tradicionais e entre o intelectuais. Os batistas e anabatistas dirigem-
se mais aos operários, artesãos e empregados no comércio. Os pentecostais
tem seu maior sucesso entre as massas populares e populações marginais,
onde os descendentes de imigrantes se mistura com brasileiros de cor,
enquanto o exército da salvação vai, aqui como em outras partes, para os mais
baixo.
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A única tentativa que conheço para criar uma igreja independente no seio da
igreja chamada triunfante falhou miseravelmente, a única coisa que pode ser
notada no país onde não existe uma linha de cor é que os pretos vão de
preferência para certas seitas: batistas no nordeste, pentecostais no sul, mais
isto acontece pelo fato de serem pretos do que porque pertencem a classes
inferiores do ponto de vista econômico e porque a linha de separação no
protestantismo seguem as linha de classe. Para finalizar este estudo, a grande
impressão que o protestantismo fez no meio brasileiro não protestante deve ser
aqui mencionada. Por certas pesquisas feitas por meus alunos, parece que sua
alta moralidade é reconhecida (os protestantes não bebem álcool,
freqüentemente não fumam, tem uma vida familiar respeitada e são
conscenciosas e honestos trabalhadores), mas eles são considerados
trabalhadores, um pouco loucos e exagerados na sua fé e culto.

Podemos ser mais breves em relação ao positivismo, porque se este teve um


grande papel na política brasileira, sua influência na religião tem sido quase
nula, é sabido que Miguel Lemos e Teixeira Mendes, enquanto estudantes na
Europa converteram-se a religião da humanidade e transplantaram-se ao
Brasil. Tinham mais membros aqui do que em seu país de origem por causa da
importância dada a família, que continuava a tradição do patriarcado e o culto
da virgem Maria e a sublimação do altruísmo que agradava a um povo
essencialmente “cordial”. Esta religião mais racional, do que sentimental e mais
moral do que mística, só foi capaz de reunir em seus templos do Rio de Janeiro
e de Porto Alegre uma pequena elite de homens e mulheres (13 em 1880, 54
em 1855, 159 em 1890, 194 em 1896). O número de 1.099 dado nas últimas
estatísticas dadas ao Brasil talvez não corresponda a realidade, porque muitos
podem se chamar positivistas mas através de uma convicção filosófica ou
puramente política do que através de uma ligação real ao culto da humanidade.
Desde que a sensibilidade feminina é mais religiosa do que a dos homens,
pensamos que o número 300 correspondente as aderentes do sexo feminino é
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mais exato do que o dos homens para darmos uma idéia da disseminação
religiosa do positivismo.

O espiritismo, ao contrário precisa deter-nos mais tempo. Os médicos dão uma


explicação para isso em doenças mentais, mas o número de aderentes,
463.400 é alto demais para o espiritismo surgir somente da patologia. Isto é um
fenômeno sociológico de primeira ordem. Os primeiros espiritualistas
apareceram no Ceará e depois na Bahia em 1865, e depois o número de suas
igrejas aumentou-se. Agrupou-se numa federação que procurou unificar liturgia
e dogma e estes centros, em contato estreito com a miséria humana que ia
eles em busca de refúgio, aumentou o numero de hospitais, salas de consultas,
sociedades beneficentes e escolas, seja para treinar médiuns ou para ABC. O
espiritismo, especialmente no começo não atacava o catolicismo e maior parte
de seus membros consideravam-se bons católicos, mas aos poucos uma linha
de demarcação foi estabelecida e lá permanece do catolicismo somente um
certo sincretismo no culto.

O espiritismo é um fenômeno essencialmente urbano. Vasconcelos Torres na


pesquisa que fez em numerosos estados brasileiros por meio de uma amostra
e a qual já nos referimos encontrou 4,4% dele nas zonas rurais. Mas, mesmo
na cidade, o espiritismo está estratificado e esta estratificação corresponde
aquela das classes sociais. No tempo é um espiritismo chamado científico, que
está preocupado com fenômeno metafísico cultivado por doutores, advogados,
intelectuais e pessoas de boa sociedade, mas que não finda em religião,
embora sempre tenha nessa direção. Na base está o espiritismo de Alan
Kardec, que constitui a religião do povo pertencente a classe média baixa e
classe baixa, com pequenos funcionários, empregados, operários
comparecendo indiscriminadamente as reuniões. Os centros espíritas as vezes
tem um altar católico e sempre inscrições e desenhos simbólicos nas paredes.
A liturgia inclui a fluidificação da água que é para ser distribuída no fim da
reunião para os doentes e suplicantes, a leitura do evangelho de Kardec,
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oração e confissão dos pecados e finalmente a tomada de posse – em redor da


mesa dos corpos dos médiuns pelos espíritos do morto que são interrogados
pelo presidente através de seu “aparatus”. Este último fenômeno é o centro do
culto. Os espíritos respondem questões para o público, dão remédios,
consolação ou conselho. Na base, esse segundo espiritismo está já
suficientemente separado, por exemplo, do espiritismo europeu. Sentiu a
influência do meio social brasileiro e a religião das classes populares com suas
misturas de sangues e cultura. Não tenta entrar em contato com os espíritos de
indivíduos distintos, tais como os membros da própria família de alguém. Os
espíritos do morto tendem a se tornar semelhantes aos dos ameríndios ou aos
deuses africanos ou poderes sobrenaturais e o espiritualismo tende para a
comunhão do humano ou do divino por intermédio do transe místico. Um outro
elemento importante de prescrições médicas que é uma influência do médico e
isto é explicado pela sobrevivência da mágica médica e a idéia de que as
doenças sempre tem uma causa sobrenatural, sendo oriundas da presença de
maus espíritos mas estes elementos da chamada mentalidade primitiva avo
tomar ainda um lugar maior no terceiro espiritismo chamado “baixo espírito”,
onde subsistem traços da religião Ameríndia-africana chamada Macumba. Na
proporção em que classe de pretos mestiços e misturas com brancos faz
ascender através da educação e da elevação e salários, racionaliza a
macumba unindo-a ao espiritismo que é a religião dos brancos, para criar o
espiritismo de umbanda. De um lado, o último é protesto contra o espiritismo de
Alan Kardec, que assevera que os espíritos dos negros são inferiores, muito
ancorado no materialismo, para trazer outra coisa senão o mal para seu
“aparatus”. De outro lado, isto é uma valorização do homem de cor que
transforma o morto de sua cor em espíritos ou deuses. O culto está se
modificando para dar mais importância a dança, ao canto, transes
espetaculares, mesmo o uso de sepultura, de senhor no chão e sacrifícios de
animais. O espiritismo assim tende para e termina em animismo.
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Assim, as várias religiões no Brasil refletem bem a estrutura da sociedade com


a sua diversificação de classes e arcas. Assim foi sua evolução histórica, com
urbanização, então a ascensão do pequeno povo, a circulação das elites, a
progressiva homogeneização da mentalidade coletiva. O catolicismo domina
mas é ao mesmo tempo um religião e uma cultura, e para defini-lo em seus
caracteres particulares é necessário ter em vista esses dois aspectos ao
mesmo tempo.
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A Cultura do Império.

Formação Cultural Brasileira.

A cultura brasileira no século XIX caminhou por três fases autônomas: a


ilustração herdada do período anterior, em que economistas e filósofos
ensinavam apressadamente idéias inglesas de progresso e idéias francesas de
liberdade; a efervescência romântica, multicores com todas as tonalidades da
revolução, desde o germanismo, das universidades, até a ênfase humanista de
Vítor Hugo; e a época realista da resposta crítica às dúvidas da elite
descontente, ansiosa das mudanças profetizadas (sociais, econômicas,
espirituais), afinal cosmopolita, cética e estética.

É evidente que a formação cultural do Brasil não se limita simplesmente a


estes três fatores supra citados. No entanto é desta forma que nossos
principais formadores de opinião como também nossos historiadores
enxergaram.

O progresso, a liberdade, o romantismo e a realidade são mais do que simples


conceitos abstratos. São na verdade os objetivos maiores, mais sagrados a
serem perseguidos por um povo. Uma nação com consciência de sua
civilidade, nacionalidade e autonomia, naturalmente precisará percorrer o
caminho que leva a estes quatro princípios. A nação que não se satisfaz com
seu estado de atraso, inferioridade, submissão e subdesenvolvimento, antes vê
na conjugação destes ideais a alavanca que o arremessa para o futuro,
poderá ter, sem maiores dúvidas, esperança de futuro melhor.

Insistia-se o Iluminismo no fim do século XVIII com a opressão melancólica do


reinado de D. Maria I, escondera-se nos arcanos da cultura clássica e
rebentou, mas numa festiva explosão de inteligência que se liberta, quando o
príncipe regente veio fundar nos trópicos o império.
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Até a revolução de 1820, antecipada furiosamente em Pernambuco, em 1817,


a economia racional de Silva Lisboa, a filosofia moral explicada em aulas
públicas por Silvestre Pinheiro Ferreira e no Seminário de São José por Frei
Francisco de Mont'Alverne, os sermões ou poesia, de sabor arcádico, tanto
respeitavam o trono, como recomendavam à submissão á ordem. Um
revolucionário de Pernambuco, José Luís de Mendonça, dizia contentar-se com
a liberdade na monarquia. República, pátria, anarquia, confundiam-se nas
diatribes da reação. Em 1817, antes de chegarem os princípios, chegavam,
comprometidas, as palavras; aterrorizavam. Coube à insurreição de 1820
conciliar conceitos e preconceitos em fórmulas correntes, instalando na
linguagem diária dos gloriosos vocábulos: Liberdade, Constituição, Opinião
Pública, Soberania, descendente do livre Índio, filho da América.

No inicio do século XIX é possível se deparar com um Brasil ainda em


formação. Se não temos todos os elementos necessários de uma nação
evoluída e em frenético progresso, com grandes pensadores e extraordinários
políticos, já se observa, no entanto, o desabrochar das idéias que têm o poder
de transformar.

Educação.

Nos primórdios da colonização brasileira, a educação estava por conta da


Companhia de Jesus364. Os Jesuítas, que aportaram no Brasil, juntamente
com Tomé de Souza em 1549,365 logo se viram na obrigação de estabelecer

364
“Ao desembarcarem ma América, pela primeira vez, os jesuítas ainda, não tinham fixado os
seus objetivos educacionais. O plano inicial do padre Manuel da Nóbrega foi adaptar ao século
XVI os programas e as estruturas da Idade Média: desde as escolas “de ler e escrever”, até os
estudos filosóficos e teológicos, sem esquecer a aprendizagem artesanal das corporações.
Apud, citado por: G. Beaulieu; P.E. Charbonneau; L. Arrobas Martins, Educação brasileira e
colégios de Padres, São Paulo, Editora Herder, 1.ª Edição, 1966, pág. 33.
365
Ibidem, pág. 32.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 225

escolas.366 Na Bahia, neste mesmo ano, surgiram aulas elementares


ministradas pelo Padre Vicente Rodrigues. Neste mesmo período, em São
Vicente, iniciaram-se aulas com o recém chegado Padre Leonardo Nunes.

O colégio de São Paulo, em Piratininga, surge em 1554, sob a direção do


Padre José de Anchieta. As aulas constam basicamente em ler, escrever,
contar e cantar, isto para os índios como para os filhos dos colonizadores.

A primeira gramática da língua Tupí, devemos a Anchieta.

O colégio da Bahia é fundado em 1556, e em 1567 o do Rio de Janeiro, em


seguida o de Pernambuco, em Olinda.

Em 1759, com a expulsão dos jesuítas367 pelo Marques de Pombal, no Brasil


foram introduzidos novos métodos, desenvolvidos ou por leigos ou por ordens
religiosas que até então não tinha vocação para o ensino, como os beneditinos,
os franciscanos, os carmelitas, etc... Pombal, influenciado pelo Iluminismo,
quis introduzir aqui o que havia introduzido no Colégio dos Nobres, em Portugal
(1761).

“Quando o Marques de Pombal proibiu a presença da Companhia de


Jesus, em terras da Coroa portuguesa, os Jesuítas possuíam 17
colégios e seminários maiores, 25 residências e 36 missões no
Brasil, afora os seminários menores e as escolas “ de ler e escrever”,
existentes, de um modo geral, onde quer que houvesse uma Casa da

366
Em seu precioso livro, Brasil, terra de contrastes, Roger Bastide comenta que “Tomé de
Sousa vinha acompanhado por soldados, feitores, artistas, e também seis jesuítas; a conquista
da terra pelos soldados, a conquista das almas pelos jesuítas.” Cf. Roger Bastide, Brasil, Terra
de Contrastes, São Paulo, Difel, 10.ª edição, 1980, pág. 22.
367
“Nos 210 primeiros anos do Brasil, a educação esteve quase inteiramente a seu cargo”. G.
Beaulieu, op. Cit., pág. 32.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 226

Sociedade. Toda esta semente de uma futura organização


educacional ruiu por terra.”368

A reforma de Pombal criou um órgão administrativo supremo, o Diretor de


estudo e aulas de gramática latina, de grego, de retórica, além de classes
elementares (alvarás de 28 de junho de 1759 e de 6 de novembro de 1772).
Pombal também instituiu o chamado subsídio literário, imposto sobre diversos
gêneros, cujo produto deveria se empregado no sustento do ensino (ordenação
de 10 de novembro de 1772), treze anos após ter suprimido o ensino
jesuítico.369

Algumas iniciativas se registram a seguir: aulas de filosofia no Rio (1774), aulas


de retórica, grego, hebraico, filosofia, história eclesiástica, teologia dogmática,
moral e exegética em 1776; o gabinete de história natural, chamado Casa dos
Pássaros, fundado em 1784 pelo vice-rei D. Luiz de Vasconcelos e que foi o
ponto inicial do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Em 1799 era criada a
inspeção oficial aos estabelecimentos de ensino.

No Império, os debates travados na Assembléia Constituinte, a propósito da


educação nacional, demonstraram que muitos dos políticos de então já
encaravam o problema educacional de maneira aprofundada, vendo nele a
chave da formação da nacionalidade e da personalidade.

A Constituição de 11 de dezembro de 1823 declarava o ensino gratuito e o


garantia a todos os cidadãos, enquanto o decreto de 20 de outubro do mesmo
ano já havia abolido os privilégios do Estado, permitindo que todo particular
abrisse escola.

368
G. Beaulieu; P.E. Charbonneau; L. Arrobas Martins, op. Cit., pág. 36.
369
“Ao retornar, mais de 80 anos depois de banida, encontrou ainda bem vivos os alicerces da
construção que edificara, que outros haviam adotado e cujas linhas mestras perdurariam por
muito tempo, atravessando todo o Império e penetrando em boa parte da era republicana”
Ibidem, pág. 33.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 227

É do mesmo período a introdução do sistema de ensino mútuo, do qual muito


se esperou, mas que, por ineficiente, foi abandonado.

Lê-se na Idade de Ouro, de 27 de março de 1822, este anúncio carregado de


intenções políticas:

“quem quiser ouvir lições de língua latina, Retórica e poética,


Filosofia Racional e Moral, História natural e Geometria, procure ao
P.M. Fr. Joaquim do Amor Divino Rabelo e Caneca, assistente no
Hospício do Pilar.”370

Em 1826 aparece o projeto de Cunha Barbosa e outros, organizando todos os


graus de ensino. De acordo com ele, o ensino seria dividido em 4 graus: o 1.º,
elementar (com o nome de pedagógicas, com 3 classes); 2.º grau ou liceus,
com 3 anos de curso; o 3.º, de 3.º grau, ou ginásios (estudos de humanidades);
as escolas de 4.º grau, ou Academias, seriam as escolas superiores existentes
completadas com a fundação de uma para ciências sociais e jurídicas.

Em 15 de outubro de 1827, a parte referente ao ensino elementar foi convertida


em lei.

Em 1820 era criada a escola normal de Niterói, a primeira no gênero do Brasil.

Em 1834, o Ato Adicional à Constituição do Império vibrou novo golpe na


principiante organização educacional brasileira. Ao entregar às Províncias tanto
o ensino primário quanto o secundário, reservando tão só o ensino superior ao
governo central, fragmentou a estrutura da educação nacional e fez cessar as
tentativas de criação de um sistema escolar, superior e primário, iniciado com
Dom João e continuado após a Independência.

370
Idade de Ouro, nº 46.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 228

O ensino primário caiu no mais completo abandono, provocando, em 1870, o


conhecido desabafo de Tavares Bastos. “Sob o ponto de vista da própria
instrução elementar (e não falemos do estudo das ciências), nosso povo não
entrou ainda na órbita do mundo civilizado.”

Em 1837, com a criação do Colégio Pedro II,371 tem o Brasil a sua primeira
instituição sistemática de ensino secundário, dez anos após estar completo o
numero das suas escolas superiores.

A desconcentração (entusiasmadas as Assembléias das províncias com aquela


possibilidade) explica a proliferação dos colégios, a que o de D. Pedro II, em
1837, serviu de modelo, com o seu caráter ambíguo, de ginásio e faculdade de
letras.

Atendia o Pedro II à dupla função, de bacharelar em letras, o que substituía o


velho plano do curso de Artes dos Jesuítas, e habilitar à matrícula nas
Faculdades do país, formando a um tempo humanistas e candidatos às
profissões liberais. Tem aquele sentido (do bacharelado como coroamento
dessas humanidades), o que na Bahia se inaugurou em 1842, com a
diplomação do primeiro bacharel após defesa de tese, sobre a “eloqüência
entre gregos e os romanos”.372 O imperador, patrono do estabelecimento que
lhe levava o nome, considerou-o sucedâneo da Faculdade de Filosofia, que
faltava ao ensino superior do país. Dizia contentar-se, se não fora o imperador,
com uma cadeira nesse Colégio... O primeiro reitor foi o antigo preceptor de D.
Pedro I, o bispo de Anemúria: e lá se reuniram, para compor respeitável
congregação, mestres da altura de Joaquim Caetano, Justiniano José da

371
“O Colégio Pedro II se tornou o instituto-padrão do curso fundamental brasileiro. Padrão em
todos os sentidos: pela inegável qualidade do seu ensino e porque foi feito paradigma de todos
os outros.” G. Beaulieu; P.E. Charbonneau; L. Arrobas Martins, op. Cit., pág. 39.
372
João Estanislau da Silva Lisboa, dissertação...para ser sustentada perante a Congregação
do Liceu da Bahia, tip. De Epifânio J. Pedrosa, Bahia, 1842. Apud. Citado por Pedro Calmon.
pág. 1833.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 229

Rocha, Joaquim Manuel de Macedo, Gonçalves de Magalhães... Nas


províncias, atraíram os Liceus a flor da inteligência de 1850: forte em Latim e
Retórica, com a Gramática, a Geografia, as Ciências Naturais, algum Grego e
outras generalidades, nutrição dos espíritos que a partir daí a transformaram.

São de 1835 e 36 as Escolas Normais, destinadas a educar os que deviam e


podiam educar.

Os Liceus de Artes e Ofícios (o primeiro do Rio de Janeiro, de 1856)


empenharam-se em aperfeiçoar as especialidades manuais.

A iniciativa particular373 tomaria logo a palavra ao estado, para criar colégios


teoricamente perfeitos, a exemplo de Guilherme Koepke em Petrópolis (1848),
em cuja linha progressiva perfilamos o São João e o Baiano (1858), ambos na
Bahia, de Almeida Sebrão e Abílio César Borges. Este o mais afamado
pedagogo dos decênios seguintes: o diretor do Ateneu tão amargamente
recordado pelo romancista, que lhe descreve os processos educativos à luz
impiedosa dos novos tempos. Exatamente lhe coube aliada tradição à
renovação, arejando a escola com os processos preconizados pelos modernos
didatas. Mas se detinha na beleza verbal dos “outeiros” em que luziam os

373
A partir dessa iniciativa particular, é preciso destacar o papel dos colégios protestantes
fixados no Brasil. “1870 seria o ano do aparecimento da primeira escola protestante, do Brasil:
a Escola Americana, de São Paulo, incorporada ao Mackenzie College e fundada por Mary
Annesley Chamberlain, esposa de um pastor presbiteriano, inicialmente só com o curso
elementar, a partir de 1887, também com o secundário. Em 1881, viria o Colégio Piracicabano,
em 1885, o Colégio Americano, de Porto Alegre, e, em 1889, o Colégio Grambery, de Juiz de
fora, os dois últimos de iniciativa metodista. Estas escolas protestantes se revestem de
especial relevo, na evolução do ensino brasileiro, porque foram introdutoras da coeducação
dos sexos, da pedagogia e dos métodos americanos. Das inovações trazidas por elas é que
surgiram, em grande parte, quer a reforma do ensino primário e secundário do Município da
Corte e do superior de todo o Império, levado a cabo por Leôncio de Carvalho, em 1879 – a
mais revolucionária da era imperial, do estado de São Paulo, compreendida por Cesário Mota e
Caetano de Campos, com o auxílio das professoras Guilhermina Loureiro de Andrade e Márcia
Browne, entre 1892 e 1895, ponto de partida de todo o progresso que esses dois cursos
alcançaram em São Paulo, estimulando reformas de inspiração semelhante em outros Estados.
Posteriormente, nos primórdios da República, foi o primitivo Colégio Americano de Mary
Annesley Chamberlain a “escola modelo para a reforma do ensino público em São Paulo.” G.
Beaulieu; P.E. Charbonneau; L. Arrobas Martins. op. Cit., pág. 43-44.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 230

talentos infantis: e os enclausurava, apesar de tudo, num sistema anacrônico,


de “irradiação do reclame...” (Raul Pompéia), industria que cega. Que o estado
– lamentava Rui Barbosa em 1882 – “consagra a esse serviço (instrução)
apenas 1,99 % do orçamento geral, enquanto as despesas militares nos
devoram 20, 86 % da despesa geral.”374

A Literatura.

Não havia comércio regular de livros. Bibliotecas, só as dos mosteiros; ou, em


poder de certos clérigos ( como se apurou na Inconfidência), os doutores se
satisfaziam com velhos cartapácios da especialidade. Reparou Agassis (1866)
na falta de livros, ou melhor, no desinteresse por eles, em casa dos letrados
que conheceu.375 Podia ter estendido a observação ao desânimo dos editores e
à indigência das artes gráficas, num tempo em que o leitor brasileiro era
razoavelmente abastecido pelos livreiros de Portugal e de Paris. Abrira-se o
período da ilustração com a magnanimidade do príncipe – em 1808 – ao
mandar expor nas dependência da Ordem Terceira do Carmo as suas
coleções da Ajuda, que passaram a constituir a Biblioteca Pública da Corte.
Mais do que o gesto liberal, foi exemplo – e convite. Respondeu-lhe na Bahia o
Conde dos Arcos (pela generosidade da três pessoas cultas), mas de acordo
com o sistema de Franklin, em Filadélfia: mediante subscrição e doações
particulares. A segunda biblioteca seria quase tão rica quanto a primeira, se um
incêndio não a consumisse, cem anos depois. Exatamente em torno de livrarias
sugestivas – já que não circulavam livros – se criaram essas rumorosas
associações literárias do império, cuja cronologia marca o desenvolvimento de
um academismo espontâneo, paralelamente á evolução das instruções

374
Rui, relatório de 1882, Reforma do Ensino Primário, Obras, vol. X, 1883. Leia-se Primitivo
Moacir, a Instrução e o Império, 3 vol., 1938, e A instrução e as províncias, 3 vol., 1940.
Apud. Citado por Pedro Calmon.
375
Luis Agassiz e Elisabeth Cary Agassiz, Viagem ao Brasil, trad. de E. Süssekind de
Mendonça, p. 569, São Paulo, 1939.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 231

eruditas. Grêmios, Palestras, Gabinetes de leitura, Arcádias, Sociedades


Clássicas, Institutos...

Como o associacionismo está unido ao livro, e tais academias, dos mais


variados nomes, se cotizam para conhecê-lo, é outro capítulo da história
intelectual o destas casas temporárias ou vivazes, algumas das quais
galhardamente subsistem.

O progresso cultural.

Houve um significativo progresso na extensão do ensino primário, no país. No


último ano da monarquia, em 1889, para uma população de 14 milhões, e uma
população em idade escolar de cerca de 2 milhões, tínhamos apenas 250 mil
alunos nas escolas primárias. Já em 1924, para uma população de 30 milhões
havia cerca de 1.500.000 alunos; em 1930 para uma população de 35 milhões
já havia 2 milhões de alunos matriculados. Se em 1889, os alunos matriculados
correspondiam a cerca de 12% da população em idade escolar, em 1930, já
havia subido a cerca de 30%.376

A verba dos Estados destinadas ao ensino primário era, segundo A. Carneiro


Leão, em média de 11%. A média de crianças em idade escolar sem escola era
de 48% segundo o mesmo autor, percentagem a nosso ver abaixo da
realidade, uma vez que a média de analfabetos adultos era já em 1924 de
cerca de 50 a 60% nas cidades e 80 a 90% nas zonas rurais. Em 1907 havia
12.448 escolas primárias entre oficiais e particulares. Em 1929 havia
aumentado para 16.897.

Na verdade esses números exprimem muito pouco a realidade. O que


realmente importa é saber que em 1930 o nosso país figurava nas estatísticas,

376
Leoncio Basbaum, História Sincera da República de 1889 a 1930, Rio de Janeiro,
Livraria São José, 1ª Edição, 1958, Cap. IX, p. 219.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 232

em matéria de alfabetização, entre os mais atrasados do mundo, ao lado da


Índia, do Egito, do Paraguai e do Equador, com 76 % de analfabetos.

O ensino secundário, numérica e proporcionalmente como acontecia no


Império, estava melhor servido porque era, como ainda hoje, privilégio de
colégios particulares, isto é, negócio comercial de iniciativa particular. Não
havia falta. Na maioria das capitais, todavia, já se encontravam colégios oficiais
para o ensino secundário gratuito, como o Colégio Pedro II, no Distrito Federal,
preparando candidatos para as escolas superiores.

O currículo do ensino secundário obedecia, mais ou menos, quanto às


ciências, à seriação comteana: matemática, geografia, astronomia, física,
química, história natural, biologia, sociologia e moral (filosofia). A moral era
administrada em pequenas doses, de mistura com o sentimento patriótico, na
escola primária e na secundária na cadeira de História do Brasil, que obedecia
à linha do ufanismo: o Brasil era o maior. A sociologia não constituía ainda um
ensino à parte e a biologia era parte integrante da História Natural.

Para ingressar nas Escolas Superiores, era necessário haver completado o


curso ginasial de 5 anos, nos colégios oficiais, dos quais existia apenas 1 em
cada Estado, ou apresentar doze preparatórios referentes a exames prestados
avulsamente nos estabelecimentos oficiais das seguintes cadeiras: aritmética,
álgebra, geometria, geografia, física e química, história natural, história do
Brasil, história universal, português, latim, francês, inglês.

O número limitado de matérias de exame independente, 4 por ano, permitia


que o aluno aprofundasse a matéria, o que não se verifica hoje em que o
estudante tem a sua frente cada ano nada menos de 10 ou 12 matérias.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 233

Nota-se no ensino secundário um sensível progresso no sentido de que se


abandonam a retórica e a filosofia que eram apenas palavras que escondiam o
ensino religioso católico.377

A resposta vem imediatamente. Os opositores378 ao projeto de ensino religioso


deixam transparecer sua contrariedade, chamando a atenção das autoridades
sobre os perigos que este representa para a liberdade de consciência. Tal
ensino é julgado impróprio à formação da juventude brasileira, para a qual
devem ser ministrados, isto sim, a dignidade, a honra e o amor à Pátria. Em
sentido mais amplo, permitir tal intromissão na educação escolar fere o
princípio de neutralidade do Estado face à religião, conquistado com a
Constituição de 1891 e que, segundo seus defensores, deve ser preservado
através da manutenção do caráter leigo do ensino público.379

377
Em 1930, Francisco Campos, então ministro da Educação e Saúde Pública, “vislumbra a
possibilidade de que se estabeleçam laços mais estritos de cooperação entre o governo e a
Igreja Católica”. Francisco Campos procura evidenciar com muita ênfase, que o projeto de lei
sobre o ensino religioso é extensivo a todas as crenças, porém o seu exercício facultativo.
Embora evidencie esses aspectos, manifesta claramente suas intenções de ver consagrado um
pacto com a Igreja Católica. Esta, por sua vez, em documento divulgado no congresso do
Cristo Redentor, realizado em 1931, reitera a importância que o governo deve dar à
comunidade católica no tocante ao ensino religioso, à pratica de um sindicalismo cristão, aos
direitos de cidadanias dos religiosos e à preservação da família. É favorável a oficialização do
ensino religioso visando obter, em contrapartida, a difusão dos ideais de restauração nacional
através da comunidade católica, por ele definida como “ um movimento de opinião de caráter
absolutamente nacional”.
378
Cf. Carta do Comitê Central Pró- Liberdade de Consciência a Getúlio Vargas, datada de
29/4/1931. Este comitê que centraliza a vontade e as idéias de livres-pensadores, acatólicos,
positivista, protestante, maçons de todo o Estado, arregimentados em todas as cidades do
Interior por meio de Comitês Regionais, em que tomaram parte representes de todas as
crenças e ideologias, médicos, bacharéis, farmacêuticos, lavradores, industriais e operários,
deixaria de cumprir o seu dever se esquecesse levar ao digno chefe do Governo, de quem
esperamos ainda mais ampla Liberdade, a sua reprovação à inclusão da religião nos negócios
e repartições do Estado, que deve gozar a mais franca autonomia. Tanto mais se nos afigura,
Ex.mo Sr,. descabida a pretensão da religião nas Escolas, quando sabemos que esse Ensino é
exclusivamente Romano, adstrito a uma seita cujos princípios se acham, como V. Exa. Sabe,
em pleno desacordo com a ciência, com a filosofia, com a moral e com a verdade. Cf. A
Revolução de 30: Textos e Documentos, Brasília, Editora Universidade de Brasília. pág. 332.
379
Idem. pág. 330.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 234

O ensino superior estava melhor servido do ponto de vista numérico, havia


Faculdades de Direito em várias capitais, bem como Escolas de Engenharia e
de Medicina, que não tinham como hoje, limites de matrícula.380

Também se tornaram numerosas as Escolas de Farmácia e Odontologia. No


Rio de janeiro funcionavam ainda o Instituto Nacional de Música e a Escola
Nacional de Belas Artes, fundadas por D. João VI.

A partir de 1891 são permitidas Faculdades Livres381, fundando-se no Rio,


poucos anos depois, a Faculdade Hahnemaniana, sustentada pelo Instituto do
mesmo nome, para o ensino da Homeopatia.

Devem citar-se ainda as Escolas Militares do Rio, Porto Alegre e Fortaleza e as


Escolas de Aprendizes Marinheiros em Recife, Salvador e Rio.

O fato mais digno de significação do ponto de vista cultural nesse período é o


que se chamou de bacharelismo, no pior sentido, significando a mania
generalizada entre os respectivos pais, de formar o filho, dar-lhe de qualquer
modo um título de doutor. Um pai que não formasse pelo menos um filho,

380
Na Faculdade de Medicina do Rio de janeiro, nos anos de 1927 a 1930 formaram-se em
média 480 médicos por ano, o que evidentemente prejudicava o ensino pois não havia nem
hospitais nem mesmo doentes disponíveis para tantos estudantes.

381
Em 1920 funda-se a primeira Universidade, a do Brasil, no Distrito Federal, sem que isso
significasse a presença de um espírito universitário que ainda hoje, falta. A partir de 1910
começam a criar-se escolas profissionais de ensino prático imediato e que não visava apenas
fornecer diplomas e títulos de doutor: as Escolas de Agricultura e de Veterinária, a Escola de
Aprendizes e Artífices e as Escolas de Comércio que Formavam guarda livros, em vários
Estados. Em 1930 havia em todo o país cerca de 350 estabelecimentos de ensino secundário e
200 de ensino superior.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 235

sentia-se envergonhado, significava que já estava no último degrau inferior da


respeitabilidade econômica e financeira.

Essa mania, era característica das classes médias e representava no fundo a


luta contra a proletarização crescente, pois ser doutor382 era, senão um meio
de enriquecer, certamente uma forma de ascender socialmente. Ao doutor
abriam-se todas as portas, e, principalmente, os melhores cargos no
funcionalismo.

Seus conselhos não foram, infelizmente, ouvidos. Os bacharéis continuaram a


proliferar sem nenhum proveito para as ciências jurídicas, e a atravancar os
corredores das repartições públicas, onerando o minguado Tesouro Nacional.

Éramos um país de doutores e analfabetos. E esse “bacharelismo”, espécie de


cultura eterna, imutável, acabada, estandardizou as inteligências, emperrou o
espírito critico e o desenvolvimento cultural por algumas gerações. Ainda hoje
sofremos as conseqüências.

Ciência e filosofia.

Ao pequeno mas real progresso conseguido no setor da alfabetização e do


ensino secundário e superior não correspondeu um progresso cultural relativo
que significasse um interesse maior pela ciência e pela filosofia.

382
Em 1916 havia nada menos de 16 Faculdades de direito, com uma produção anual de 408
bacharéis. Tobias Monteiro em seu interessante livro Funcionários de Doutores lamenta que
num país essencialmente agrícola não houvesse escolas de agricultura e somente fábrica de
doutores, particularmente bacharéis. Os bacharéis ocupavam todos os postos públicos mais
importantes, mesmo os técnicos e especializados de cuja matéria não tinham nenhum
conhecimento. Tobias Monteiro aconselha a mocidade a procurar o comércio, a industria, a
agricultura, em vez de “formar-se”.
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Durante estes anos o ensino cientifico não saía dos quadros escolares e
acadêmicos oficiais, e os alunos se limitavam a estudar as matérias do
currículo ou melhor, os pontos de exames, nem uma linha a mais ou a menos.
Era o bacharelismo em ação.

À exceção do Instituto de Manguinhos, não vamos encontrar no país nenhum


curso de extensão universitária, nenhum centro de pesquisa. Isso aliás não
seria de admirar dada a extrema pobreza do país e a falta de verbas para esse
fim.

Podíamos encontrar, fora da Universidade, eminentes médicos e sobretudo


engenheiros. O interesse pelo aprofundamento dos seus conhecimentos levaria
muitos, às suas próprias custas, quando podiam, a procurar cursos de
aperfeiçoamento na Europa e nos Estados Unidos. Faltava todavia aquilo que
caracteriza o progresso cultural de uma nação : a pesquisa pura, na biologia,
na física e na química, os poucos que desejavam e podiam aperfeiçoar-se
tinham mesmo de recorrer ao estrangeiro. De qualquer modo o interesse pelo
desenvolvimento cientifico no ramo das aplicações práticas e imediatas –
engenharia e medicina, foi muito superior ao interesse pela filosofia ou pela
pesquisa pura.

Não é um fato fácil de explicar. O fato é que a Igreja,383 com a República,


adquiriu novas forças e maior influência, em todas as camadas sociais, até
mesmo entre os padres, que abandonavam o concubinato.

383
A moral católica vigente à época no Brasil viria a ser alvo de questionamento por parte dos
que defendiam a moral comteana. A moral comteana é a favor da probidade no trato da coisa
pública, da monogamia, da seriedade de vida” Maria da Graça Cavalcanti Lisbôa – A Idéia de
Universidade no Brasil - Porto Alegre, Edições EST, 1993, pág. 67.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 237

As chamadas doutrinas evolucionistas, o darwinismo e o lamarkismo eram


proibidos nas escolas secundárias, onde imperavam os velhos compêndios
jesuítas da famosa série F.T.D. Nas escolas superiores, delas não tomavam
conhecimento.

Na Europa o neo–positivismo, que se manifestava na Inglaterra com o título de


spencerismo e na Alemanha como materialismo haeckeliano, apesar do fundo
reacionário da doutrina, não impediu a ciência de fazer sempre novas
conquistas. Esse avanço científico provocava o nascimento de novas doutrinas
filosóficas de vários matizes. O socialismo científico submetia essas correntes
filosóficas a severa análise crítica. Assistíamos a um debate salutar, a uma
mobilização incessante da inteligência e da cultura.

Em todo esse período podemos dizer que só um ramo cientifico logrou certo
desenvolvimento: o da pesquisa histórica. Durante este período escreveram
com independência Capistrano, João Ribeiro, Nina Rodrigues, Rocha Pombo,
Tobias Monteiro e muitos outros mais.

Saindo desse terreno mergulhávamos na escuridão do nada. Ou quando muito,


nos estéreis debates literários.
Sem dúvida a falta de um espírito universitário 384 teve um papel nessa
estagnação das inteligências, em relação às lutas de idéias que se verificavam

384
“O surgimento da Universidade deu-se na Idade Média. Com o passar dos tempos a
instituição ganhou prestígio e se expandiu. Em Portugal criou-se a Universidade de Coimbra
após as escolas catedralícias, onde o ensino era ministrado por mestres provenientes de outros
países ou por portugueses que se dirigiam para o exterior com o objetivo de adquirir
conhecimentos, retornando a Portugal para lecionar. A dificuldade enfrentada por Portugal para
estruturar-se como nação, resultante de guerras incessantes e continuadas, veio retardar a
criação da Universidade, o que se deu em 1.290. Problemas políticos e financeiros acarretaram
a mudança da sede da Universidade por seis vezes no decorrer de sua história. Em 1548
inaugurou-se o Colégio das Artes, obra que celebrizou o ensino em Portugal. Seu modelo era
calcado no dos Colégios das grandes universidades da Europa, que primavam pela excelência
do ensino. Foram criados no Colégio das Artes, no final do século XVI, os Cursos
Conimbricences, ponto alto do saber sistemático e especulativo, correspondendo ao apogeu da
elaboração da metafísica portuguesa. Introduziu-se em 1591 a Ratio Studiorum como sistema
de estudo dos jesuítas. Baseava-se em são Tomás, valorizando o espírito sobre a matéria. Não
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 238

na Europa. Mas essa falta de espírito universitário teria também uma causa. As
correntes filosóficas não surgem por acaso. Elas representam um determinado
nível do desenvolvimento material e correspondem aos interesses das classes
sociais e a um certo estágio das relações de produção. Durante o Império, para
não irmos muito longe, havia praticamente uma única classe cujos interesses
estavam perfeitamente consubstanciados na doutrina católica. Devidamente
adaptada ao meio peculiar brasileiro, com as diferenças que os interesses de
classe necessariamente impunham, a doutrina católica era a filosofia.

Com a lenta formação e crescimento das classes médias, isto é, com a


evolução dos meios de produção, e, consequentemente o nascimento de novas
formas de relações sociais, novas doutrinas se iam tornando necessárias,
como reação a um ambiente e a uma doutrina que servia exclusivamente ao
senhor de escravos. Todas aquelas doutrinas que se opunham às concepções
filosóficas da igreja, ainda que superficialmente, eram pelo menos um caminho
de libertação. Daí o interesse com que as classes médias, principalmente,
como era natural, as camadas letradas, encaravam a maçonaria, o positivismo

pretendia ser uma filosofia de educação, mas sim propiciar uma metodologia educacional.
Surgiu no século XVIII o Iluminismo, desenvolvendo-se na França graças ao campo fértil
encontrado. Suas características básicas eram a liberdade e o progresso do homem. Em
Portugal teve seu ápice na segunda metade do século XVIII, com D. José I e seu Ministro
Marquês de Pombal, embora já tivesse dado os primeiros passos no reinado anterior, com D.
João V. Em Portugal foi esse movimento liderado por Bluteau, Sanches, Sarmento, Verney e
outros. Esses homens, com grande agitação cultural que promoveram, foram chamados de
“estrangeiros” por trazerem para o país as novas doutrinas filosóficas e científicas em
circulação no resto da Europa. A principal conseqüência das novas idéias foi a Reforma da
Universidade em 1772.No Brasil a idéia de Universidade sofreu a influência de todos os
antecedentes já mencionados. No século XIX, quando a corte veio para o Brasil, foram
fundadas as primeiras escolas superiores, as quais receberam as influências filosóficas da
época, ou seja, as do ecletismo e do positivismo. No ecletismo predominavam as idéias de
Maine de Biram e de Victos Cousin; no positivismo, as de Comte, que acreditava ser possível
organizar a humanidade de forma científica, de modo a conduzi-la a plena realização no campo
científico e social. A discussão universitária na França, assumindo caráter dramático e
reduzindo o papel da Universidade em prol das Grandes Escolas, veio ao encontro da tradição
resultante da Reforma de 1772. As escolas isoladas desfrutaram nessa época da nítida
preferência da elite portuguesa. A escola de Medicina na Bahia foi a primeira escola superior a
ser criada em 1808. Seguiu-se no mesmo ano a fundação da Real Academia de Marinha e a
da Escola de Medicina no Rio de Janeiro. Em 1810 instalava-se a Real Academia Militar.” (
Maria da Graça Cavalcanti Lisboa – A Idéia de Universidade no Brasil, Porto Alegre, Edições
Est, 1993, págs. 15-16.)
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 239

e as formas vulgares do materialismo. Esse período durou aproximadamente


até o fim do século passado.

O atraso técnico, o lento desenvolvimento industrial não estimulavam a ciência.


A ciência morta não exigia aquelas novas doutrinas que se derramavam sobre
a intelectualidade européia, o neo–kantismo, o neo–tomismo, o pragmatismo
de William James e de Bergson, doutrinas cujo único objetivo era, em última
análise, justamente liquidar com o valor da ciência. E, por isso mesmo, eram
inúteis e incompreensíveis no Brasil.

Por volta de 1925 o neo – tomismo estava quase transformado em filosofia das
classes dominantes. Mas pela mesma época o marxismo ou materialismo
dialético, começava a encontrar no país seus primeiros adeptos, graças ao
crescimento do proletariado.385

O expurgamento das lembranças indesejáveis do período Imperial da História


Brasileira, pode ser ilustrado da seguinte forma:
1) O Decreto n.º 9 de 21/11/1889, alterou “ a denominação de vários
estabelecimentos oficiais, suprimindo-se o título de imperial do Instituto dos
Meninos Cegos, do Observatório, da Academia de Medicina, do Liceu de Artes
e Ofícios e, até mesmo, da “catedral do bispado do Rio de Janeiro.”386

2) Quintino Bocaiúva, então Ministro do Exterior e interinamente Ministro da


Agricultura, inspirado em Teixeira Mendes, aboliu em 16/11/1889, da
correspondência oficial, “as fórmulas teológicas (Deus guarde a V. Excia.) e os
tratamentos imperiais que marcavam os vários graus de vassalagem. Em seu
lugar foram introduzidos os tratamentos republicanos (vós) e as fórmulas
republicanas, que manifestam os votos puramente humanos (saúde e

385 385
Leoncio Basbaum, História Sincera da República de 1889 a 1930, Rio de Janeiro,
Livraria São José, 1ª Edição, 1958, Cap. IX, pág. 226.
386
A. Niskier, op. Cit., pág. 373.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 240

fraternidade) segundo as tradições da República Francesa de 1792 e da


revolução pernambucana de 1817.”387

3) Ainda em 1889, antes que o ano terminasse, o Governo Provisório mandou


substituir o cabeçalho dos modelos de diplomas e cartas a serem concedidos
pelas escolas, passando a ter a seguinte inscrição: Em Nome da República
Dos Estados Unidos do Brasil; sendo seguida pela designação da instituição
que o emitia.388

Esta pequena amostragem das modificações ocorridas, revelam também,


alguns sintomas da ascensão do positivismo no pensamento brasileiro, o qual
teria ampla difusão no período da República .389

O positivismo desempenhará na história do Brasil um papel muito importante,


principalmente quando o recorte ocorre em torno da transição do Império para
a República. Concentrando-se nossa atenção no positivismo Comteano,
procurando assim, um visão abrangente da floresta, e não de uma única
árvore, é possível não enxergar nem uma coisa, nem outra.
O propósito desse trabalho não é oferecer uma visão abrangente nem da
história brasileira e sua estruturação, muito menos da história do
desenvolvimento do positivismo desde o seu nascedouro. É preciso dizer que o
nosso interesse é com a árvore e não com a floresta. Quero dizer com isto,
que o assunto a ser trabalhado nos próximos capítulos diz respeito ao
Positivismo no Brasil, Benjamin e sua relação com esta filosofia; e o
Positivismo e sua relação com a sociedade brasileira do século XIX.

387
Teixeira Mendes, Apud I. Lins, op. Cit., pág. 351
388
Cf. A . Niskier, op. Cit., pág. 180.
389
Cf. Antonio Paim, História das Idéias Filosóficas no Brasil, São Paulo, Convívio, 3º ed.
(revista e aumentada), 1984, pág. 437, 447 e I. Lins, op. Cit., págs. 335ss.
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Esse Brasil do século XIX, que transita pelos corredores do progresso,


liberdade, romantismo e realidade, se vê diante de profundas transformações
sociais, econômicas, filosóficas e políticas. É preciso deixar de ser o último
carro da locomotiva para ser o carro chefe, e para conseguir, transformações
profundas e sérias, deveriam ocorrer com urgência.

Nesse contexto é possível destacar não simplesmente alguns homens, mas


principalmente, seus grandes ideais: de liberdade, independência e progresso.

Benjamin Constant não é uma voz que clama isolada, outros fazem coro com
ele, e procuram novos rumos para a nação Brasileira.

No próximo capítulo, poderemos estudar, mais detalhadamente, qual foi a


atuação e participação de Benjamin Constant dentro deste cenário, onde
grandes interesses estão em jogo. Compreendendo sua participação dentro
da política, o caminho se tornará mais simples para entendê-lo como
positivista.

Comte e a Religião da Humanidade.


A explicação desta moralidade achamo-la numa original peculiaridade mental,
muito comum entre os pensadores franceses, mas na qual Comte tem-se
distinguido sobre todos eles. Não poderia ter se omitido na questão da
chamada “unidade”. Por causa da unidade, a religião resultou desejável a seus
olhos. Não no simples sentido de unanimidade, mas num sentido mais amplo.
Uma religião tem de ser alguma coisa mediante a qual se “sistematize” a vida
humana.

Pierre Arnaud (1931-),390 por sua vez, caracteriza assim essa finalidade
unificadora da vida humana segundo Comte, pondo a religião em relação com
o cristianismo: “ O importante para ele (Comte) não é que tal ou tal palavra

390
Apud. Arnaud, Pierre. Introdução à obra de Augusto Comte. pág. 37.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 242

tenha sido realmente pronunciada aqui ou lá, mas que ela tenha servido, num
momento da história, como suporte à consciência humana. O cristianismo,
Cristo incluído, poderia muito bem ter sido inventado totalmente por São Paulo
(...) Isso não mudaria em nada o imenso fato de civilização que representa, que
deve ter correspondido , por isso mesmo, a uma realidade profunda. Nessa
linha de pensamento, Arnaud considera que a Religião da Humanidade de
Comte representa a tentativa última e mais perfeita em prol da verdadeira
unidade humana, já não procurando-a num Deus separado, inacessível, mas
“... fazendo passar pela Humanidade, sempre presente e ativa por trás de cada
sujeito pensante ... toda referência a uma existência qualquer, toda afirmação
de um existente captável pelo conhecimento. É isto o que Comte entende
quando faz prevalecer universalmente „ o ponto de vista humano „ que, por sua
vez, graças à sociologia, “deixa o éter da idealidade pura para se atirar na
existência social (...)”.

O próprio Comte definiu assim, no Catecismo Positivista, a unidade que


pretendia conseguir a sua Religião: “(...) o estado de completa unidade que
distingue nossa existência ao mesmo tempo pessoal e social, quando todas as
suas partes, tanto físicas quanto morais convergem, habitualmente num
destino comum ... Uma harmonia tal, individual e coletiva, ao ser incapaz de
realização completa, numa existência tão complicada como as nossas, esta
definição da religião caracteriza o tipo imutável em direção ao qual cada vez
mais tende o agregado dos esforços humanos. A nossa felicidade e o nosso
mérito consistem especialmente em aproximar-nos tanto quanto possível desta
unidade, da qual constitui a melhor medida, o seu incremento gradual de
progresso real, social ou pessoal.”391

Em outros termos, fora do projeto totalizante da religião comteana, perde


sentido a vida humana. A felicidade é questão de inserção incondicional do
indivíduo no todo social, “num destino comum”. Stuart Mill frisa que Comte

391
Comte, Augusto. Catecismo Positivista. Publicações Europa - América. Portugal.
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“sempre volta a este tema e argumenta que esta unidade ou harmonia entre
todos os elementos da nossa vida, não resulta consistente sob o predomínio
das tendências pessoais, devido a que essas nos arrastam em diferentes
direções; somente pode resultar da subordinação de todas elas aos
sentimentos sociais, que podem ser levados a atuar numa direção uniforme
graças a um sistema comum de convicções, mas que diferem de inclinações
pessoais (...): a vida social constitui uma restrição perpétua sobre as
propensões egoístas .“

Stuart Mill frisa, aliás, que no projeto comteano achamos as condições


necessárias para constituir uma autêntica religião, em que pese o fato de não
explicitar a existência de Deus. Trata-se, como em Rosseau ou em Saint-
Simon, de uma religião leiga ou civil, cujas características seriam estas:

a) Deve existir um credo ou convicção que reclame autoridade sobre


o conjunto da vida humana; b) devem-se dar uma crença, ou série de
crenças, adotadas deliberadamente, que respeita o destino humano e
o dever, ao qual o crente reconhece interiormente que se devem
subordinar todas as ações; c) tem que haver um sentimento
conectado com esse credo, ou capaz de ser invocado por ele,
suficientemente poderoso para dar-lhe de fato, a autoridade sobre a
conduta humana sobre a qual estende, em teoria, as suas
reivindicações; d) por último, é necessário que este sentimento se
cristalize, tanto quanto possível, ao redor de um objeto concreto;
preferivelmente um realmente existente apesar de, em todos os
casos mais importantes, somente presente de forma ideal .

Esse objeto concreto, no caso da Religião da Humanidade é, segundo Mill, a


espécie humana, “concebida como um todo contínuo, incluindo o passado, o
presente e o futuro. Esta grande existência coletiva, como é chamada, tem,
segundo argumenta (Comte) com força, a vantagem em relação a nós, de que
necessita realmente dos nossos serviços”, que consistem em fazer o mais
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 244

possível “para amar e servir a esse outro Grande Ser, cuja inferior Providência
tem-nos dado todos os benefícios que devemos aos trabalhos e às virtudes de
gerações anteriores.”

Da mesma forma que em Saint-Simon, a religião comteana apela para o


sentimento, como a mola que consegue movimentar o homem no processo da
unidade social, bem como controlar os ímpetos desordeiros da razão. A mulher
(depositária do poder espiritual doméstico) e os proletários (aqueles que não
possuindo acumulação de dinheiro, vivem do salário do trabalho diário) estão
mais próximos do sentimento do que os outros componentes da sociedade, e
junto com o clero da Igreja Positivista integram o poder espiritual.

A segunda parte do culto estava formada pelo ritual que abrangia um horário
para a oração diária, nove sacramentos “que consistem na consagração
solene, pelos Sacerdotes da Humanidade, com as exortações apropriadas, de
todas as grandes transições na vida” e uma série de fórmulas que constituíam
breves invocações recordatórias dos principais dogmas392. Como sustentáculo
do culto estava o Catecismo Positivista, redigido por Comte em 1852 e que,
junto com o Sistema de Política Positiva (1851) sintetizava a parte dogmática
da Religião da Humanidade.

392
A versão atual desse rito consiste em: PRÉDICAS DOMINICAIS: 11 de César de 210 – 03
de maio de 1998. Quinto mês do Calendário positivista dedicado à civilização militar. Neste dia
é reverenciada a memória de PTOLOMEU LAGO. (367 – 283 a. C.), general que gozou da
maior confiança de Alexandre, o Grande. Na divisão do Império de Alexandre recebeu o Egito
que governou por 38 anos. Fundou o Museu de Alexandria, espécie de universidade destinada
à difusão da ciência. CERIMÔNIA DAS BANDEIRAS. Antes do início das prédicas dominicais
a cerimônia de hasteamento das bandeiras do Brasil e da França, ao som do Hino à Bandeira e
da Marselheza, respectivamente. Os mastros das bandeiras ficam à frente do Templo da
HUMANIDADE e atrai a atenção do público passante. INVOCAÇÃO INICIAL – Oficiante
(diante o altar da Humanidade, fazendo o sinal positivista). Segue-se a Execução de uma
Música Clássica. PRÉDICA. Segue-se a Execução de uma Música Clássica. Encerramento.
Oficiante (de pé, voltado para o público). INVOCAÇÂO FINAL. Assim Seja. Máxima Positivista
da Semana: “A base de toda a moralidade é a Família”. São estes os elementos do culto
atualmente. (Site Internet)
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 245

Comte preocupou-se, também, por organizar a sua Igreja, bem como a


hierarquia correspondente, cuja autoridade suprema seria o Sacerdote Máximo
da Religião da Humanidade. Como na religião de Saint-Simon, a escolha da
hierarquia, depositária legítima do poder espiritual, devia-se alicerçar num
critério religioso, que para Comte seria a completa entrega ao “Grand-Etre” ou
à existência social, o que ele entende como critério moral. Em última instância,
quem julgava da ortodoxia ou heterodoxia dos diferentes posicionamentos, e
quem deveria escolher os seus colaboradores no sacerdócio da humanidade,
era o Sacerdote Máximo: Comte, ou seu sucessor, Pierre Laffitte (1825-1903).
Verdadeira encarnação da lei no líder carismático, na lei viva, como tinha
acontecido na igreja saint-simoniana. Foi assim que Comte excomungou da
sua igreja em 1852, como heresiarca e ímpio, o seu discípulo Emile Littré
(1801-1881) pelo fato de ter duvidado da “Religião da Humanidade,”393
seguindo nisso os conselhos da ex-esposa de Comte. Nessa oportunidade, o
Máximo Sacerdote pontificara: “(...) No fundo, será a luta necessária entre os
que querem dignamente se tornar conservadores e os que pretendem
permanecer revolucionários para sempre, numa palavra, entre os religiosos e
os irreligiosos, estes armados de quanto repugna a toda religião, sobretudo
positiva, por temer uma moral séria, submetendo toda conduta ao exame de
um sacerdote inflexível (...). Mas, mesmo que o exército anárquico seja
numeroso e barulhento, deve inquietar-nos pouco, pois reuniu-se para fazer o
mal e, desde logo, está profundamente dividido...”. Assim, o autoritarismo
aponta na Religião da Humanidade. Um positivista liberal como Stuart Mill ficou
muito impressionado com o autoritarismo da igreja comteana. Eis a forma em
que o filósofo inglês tipifica, com certa ironia, essa situação: “... Ao ser
devedores por completo à Humanidade da educação a que devemos nossas
aptidões mentais, estamos vinculados, em troca, a consagrá-las inteiramente

393
“É preciso observar que apesar de Benjamin Constant fazer parte da fundação da primeira
associação positivista do Brasil, fundada em 1/4/1876, ele rompeu em 1881 com esta
associação, por considerar despropositada a instituição de Miguel Lemos da contribuição
obrigatória dos membros da Sociedade Positivista, com vistas ao sustento dos sacerdotes.” (Cf.
A . Paim, História das Idéias Filosóficas no Brasil, São Paulo, Convívio, 3ª ed. (revista e
aumentada), 1984, pág., 439, 441.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 246

ao seu serviço. Convencido de que isto deve ser assim, só falta a Comte dar
um passo para concluir que o Grande Pontífice da Humanidade tem de se
dedicar para que assim seja; porém, ao fundamentar esse propósito, organiza
um complicado sistema visando a supressão total de todo pensamento
independente. Dentro do mesmo corpo, o Grande Sacerdote tem em suas
mãos a possibilidade para garantir que não haverá ali opiniões, nem exercício
mental que ele não aprove; porque só ele decide os deveres e o lugar de
residência de todos os seus membros, podendo inclusive expulsá-los do corpo.
Antes de eleger este governo, sentimos uma curiosidade natural por conhecer
de que forma será exercido. A Humanidade teve até agora unicamente um
Pontífice cujas qualificações mentais para o cargo não serão, provavelmente,
superadas amiúde: Comte mesmo (...).”

O clero da igreja comteana estava integrado pelas classes teóricas ou


filosóficas, sob o absoluto controle do Sacerdote Máximo, que, como frisamos,
é o incumbido de reconhecer a sua identidade e de legitimar o seu poder
espiritual. Comte considerava que o Estado devia manter, mediante verba
votada periodicamente, o clero positivista, a fim de que pudesse se dedicar
totalmente à sua pregação apostólica, sem preocupações materiais. O clero
está incumbido, portanto, de funções evangelizadoras, que se traduzem na
instrução teorética e científica da juventude, no exercício da arte médica
(abrangendo o homem total, inserido no organismo social), na integração das
outras classes que pertencem ao poder espiritual ( as mulheres e os
proletários) e, finalmente, na direção espiritual das classes ativas ou práticas
que constituem o Poder Temporal, chefiado pelos capitães da indústria, e que
devem organizar cientificamente a sociedade.

Podemos sintetizar todas essas atribuições do clero positivista, frisando que ele
deve ser o promotor fundamental da unidade orgânica da sociedade, sob o
comando exclusivo do Máximo Pontífice da Religião da Humanidade. Em
momentos de crise social, em que algumas classes ou o poder temporal se
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 247

desviem dos objetivos unificadores traçados, Comte prevê um processo


moralizador de emergência: o clero positivista, aliado aos restantes
componentes do poder espiritual (mulheres e proletários), fortemente unidos
pelos laços do sentimento, reconduzirá à unidade os desviados, mediante o
apoio maciço daqueles, que constituem a “opinião pública”. Assim, Comte
esperava reconduzir a sociedade a uma unidade entre os poderes espiritual e
temporal, à semelhança da Idade Média, que é por ele admirada.

A religião comteana é, podemos concluir, uma nova manifestação do


messianismo político. Apesar de Comte reconhecer uma aparente separação
entre os poderes espirituais e temporal, ao assinalar suas funções, contudo,
polariza toda a organização e a atividade sociais ao redor do segundo,
configurando, assim, um modelo totalitário em que o homem é inexoravelmente
programado desde cima. O vértice da pirâmide será, logicamente, o Sumo
Sacerdote da Humanidade, identificado com o próprio Comte.

A ordem triunfa sobre o progresso. Guiado pela obsessiva idéia de conseguir a


unidade orgânica da sociedade, Comte pretendeu regular a vida humana nos
estreitos marcos da sua religião.

Influência do Positivismo na América do Sul.

Será necessária outra digressão para compreendermos o campo de idéias


que existiam no Brasil quando as primeiras influências do positivismo foram
observadas. É, portanto, em um conjunto de idéias já existentes no país que
serão inseridos os conceitos positivistas. Neste campo qual a influência do
Positivismo? Quem será o inoculador destas novas idéias que se espalharão
pelo Brasil394?

394
“João Ribeiro Junior, em seu livro O que é Positivismo, afirma que a primeira manifestação
do positivismo no Brasil verificou-se em 1844, quando o dr. Justiniano da Silva Gomes
apresentou á Faculdade de Medicina da Bahia uma tese: “Plano e Método de um Curso de
Filosofia.” Contudo, a primeira manifestação social do positivismo data de 1865, com a
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O Sistema Comteano não ofereceu grandes soluções políticas, deitou porém


os alicerces para as ditaduras científicas e as idéias autocráticas que vieram a
florescer deste lado do Atlântico. Discípulos de Comte seriam, no Chile, os
irmãos Juan Enrique e Jorge Lagarrigue (1854-1894); os mexicanos Justo
Sierra (1848-1912), que orientou o ensino no sentido do positivismo, e José
Yvo Limantour que, como ministro da fazenda, impôs uma administração
ditatorial da economia; no Brasil, o autocratismo comteano materializou-se na
Constituição gaúcha de 1891, redigida por Júlio de Castilhos (1860-1903), que
ensejou ampla experiência ditatorial no estado sulino até 1930.

É conveniente salientar que Comte mostrou simpatia pelos regimes que se


aproximavam dos modelos ditatoriais de governo. Assim, ele aprovou a
usurpação de Luis Napoleão (1808-1873) porque deitou por terra um governo
representativo, fruto da metafísica liberal. Do ponto de vista da proximidade do
comtismo dos sistemas totalitários, como frisa Jean Touchard, “(...) o saint-
simonismo parece ter exercido uma profunda influência sobre o seu sistema, tal
e como está exposto no Cours de Philosophie Positive e no Systeme de
Politique Positive: idêntica confiança numa ciência global, idêntico desejo de
superar as querelas políticas e de instituir uma religião da humanidade, idêntica
evolução em direção do misticismo e, também, do poder (...)”. O comtismo
revelou-se como uma forma mais evoluída e sistematizada de messianismo
político.

publicação da obra de Francisco Antonio Brandão Júnior sobre a escravidão no Brasil,


precedida de um artigo sobre a agricultura e colonização no Maranhão. O Positivismo penetra
no Brasil já cindido em dois grupos: o de Pierre Laffitte, com sua ortodoxia dogmática da
religião da humanidade, seguindo à risca os ensinamentos do mestre de Montpellier, em sua
evangelização dos espíritos, na tentativa de mostrar o papel unificador da religião positiva, e o
de Paul-Émile Littré, que se afastara da evolução mística para impor a emancipação do
espírito, considerando o ateísmo a única religião que convinha a um autêntico positivista. Esse
grupo dissidente desprezava o movimento da religião da humanidade para seguir Augusto
Comte apenas em sua metodologia científica de observação, experimentação e comparação, e
em sua filosofia política.” Cf. João Ribeiro Júnior, O que é Positivismo, São Paulo, Editora
Brasiliense, 9.ª edição, 1991, pág. 66.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 249

A sociedade positivista do Rio de Janeiro.

O comtismo não vingou inicialmente no Brasil como religião. Ingressou no


contexto cultural luso-brasileiro no seio da tradição cientificista pombalina, o
que produziu dois efeitos importantes: não se desenvolveu em Portugal como
crença religiosa, tendo vingado lá mais como doutrina pedagógica; em
segundo lugar, penetrou no Brasil e se consolidou de início como doutrina
científica, no seio da instituição que havia herdado, entre nós, o culto à ciência
de inspiração pombalina: a Academia Militar. A cultura portuguesa herdada
pelos brasileiros aponta para um homem inteiramente prático, empírico e com
os pés no chão. O brasileiro nesse período revela-se mais real e não
contrariamente sustenta um ideal inatingível. E obteria a filosofia positivista a
aplicação mais orgânica e duradoura à sociedade brasileira, no contexto da
experiência de despotismo que mais se aproximou do ideário pombalino: o
castilhismo sul-rio-grandense.

A versão religiosa do comtismo apareceu no Brasil ao final da década de 70 e


no início da seguinte, como a fundação da Sociedade Positivista do Rio de
Janeiro (1/4/1879) e da Igreja Positivista Brasileira (1881), efetivada por Miguel
Lemos (1854-1917) e Teixeira Mendes (1855-1927).

Em que pese o fato de o positivismo ter-se afincado primordialmente como


doutrina científica na Academia Militar, a literatura comteana, porém, foi assaz
divulgada no Brasil desde meados do século passado, como documentou
fartamente Ivan Lins na sua História do Positivismo no Brasil. Antônio Paim
caracteriza assim a difusão do positivismo e a complexidade alcançada por
essa filosofia nas últimas décadas do século XIX: “Nos anos setenta, a
mocidade acadêmica e diversos membros do corpo docente das Escolas de
medicina e direito engajaram-se firmemente na difusão do darwinismo, do
positivismo e dos pensadores anticlericais então em voga. Sílvio Romero
chamaria esse evento de “surto de idéias novas”. No período imediatamente
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 250

anterior, as simpatias pelas doutrinas de Augusto Comte só chegavam a


adquirir significação na Academia Militar. Seus quadros, entretanto, ainda não
haviam granjeado uma posição de relevo no seio da intelectualidade e nas
discussões políticas. De sorte que, quando as idéias de Comte passaram a
constituir patrimônio de uma comunidade mais ampla, estavam diluídas num
corpo doutrinário de maior abrangência e complexidade. Assim, a circunstância
nada tinha a ver com a ortodoxia que iria tomar corpo na década subseqüente,
graças sobretudo à ação de Miguel Lemos.”395

Entendemos que Benjamin Constant, com todas estas novas


idéias, rapidamente começou o seu trabalho de divulgação. Estes conceitos
positivistas, agora, possuem um veículo privilegiado de propagação. Ele é
professor: Professor da grande juventude militar396. Usará sua grande
influência dentro, mas, principalmente fora das salas de aulas para inserir no
pensamento dos jovens brasileiros as idéias de Comte.

Os Apóstolos: Teixeira Mendes e Miguel Lemos.


Miguel Lemos nasceu em Niterói (RJ). Sobre a sua intransigente
personalidade, que repercutirá em toda a atividade doutrinária, frisa Ivan Lins:

“descendente, pelo lado materno, de espanhóis, possuía Miguel


Lemos, intransigência em sua natureza árdega e orgulhosa.(...) A
subordinação total que exigia dos aderentes à sua direção espiritual
arrastou-o freqüentemente a atitudes intolerantes, a condenações
sem apelo e a conflitos que profundamente perturbaram a missão
apostólica a que se devotara.”397

395
Cf. Antonio Paim, O Apostolado Positivista e a República, pág. 1.
396
Apesar de serem pacifistas, os militares positivistas têm cumprido rigorosamente com seus
deveres profissionais, estimulados pela cultura do amor à Pátria e pelo empenho de proceder
de maneira exemplar em todos os seus atos. Nunca fugiram ao combate. Pelo contrário,
sempre lutaram com entusiasmo pelas causas que abraçaram. (site na Internet)
397
Cf. Lins, Ivan. História do positivismo no Brasil, págs. 414/415.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 251

Raimundo Teixeira Mendes revelou-se, como o seu cunhado Miguel Lemos,


ardente doutrinador. Filho de um engenheiro, era natural de Caxias
(Maranhão). Ficou órfão de pai muito cedo. A mãe o educou no catolicismo.
Veio depois ao Rio de Janeiro, onde estudou no colégio dos jesuítas, tendo
demonstrado especial interesse pela matemática e pela filosofia. Com a
mesma convicção com que tinha acreditado nos dogmas católicos, assumiu a
defesa do comtismo. Nos seus sermões dominicais, depois de fundada a Igreja
Positivista, demorava-se até três horas defendendo os dogmas da Religião da
Humanidade. “ Católico fervoroso em sua adolescência – frisa Ivan Lins –
transferiu Teixeira Mendes (inconscientemente talvez) à imagem de Clotilde as
preces e louvores que outrora dirigira à figura de Maria...”398

Como Comte, que havia sido expulso da Escola Politécnica de Paris em 1816
por ter dirigido um movimento de protesto, os discípulos brasileiros não
concluíram regularmente os seus estudos universitários, tendo viajado ambos
para Paris, a fim de terminá-los. Porém, antes de viajar eles já pertenciam à
primeira associação positivista, que tinha sido criada em 1876, como resultado
de uma aliança entre littreistas e comteanos, sugerida por Oliveira Guimarães,
professor de matemática do Colégio Pedro II. Dessa academia inicial formavam
parte, também, Benjamin Constant, professor da Academia Militar, Álvaro de
Oliveira, genro de Benjamin Constant e catedrático da Escola Politécnica, etc.
A associação não tinha caráter militante, limitando-se o seu propósito a criar
uma biblioteca com os livros recomendados por Comte e a abrir, mais tarde,
alguns cursos de caráter científico.

Como aconteceu a conversão religiosa dos amigos Miguel Lemos e Teixeira


Mendes? O primeiro a sofrer essa transformação foi Miguel Lemos. Ainda no
ano inicial de permanência em Paris, ele conhece Émile Littré, por quem tinha

398
Cf. Lins, Ivan. op. cit., pág. 416
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 252

até então grande admiração, e fica completamente desiludido, pois o


“famigerado chefe da escola positivista”, “não passava de um erudito seco, sem
nenhuma ação social, insulado no seu gabinete (...); era apenas um paciente
investigador de vocábulos, sem entusiasmo, sem fé, absorvido pelas minúcias
de uma erudição estéril”.

Ao mesmo tempo em que se desiludia de Littré, Miguel Lemos descobria o


aspecto místico do comtismo, na leitura do Sistema de Política Positiva. Assim
reconhecia ele a superioridade da segunda parte da obra de Comte, sobre a
primeira: “Longe de revelar uma catástrofe mental, deixava ver (...) a síntese
mais maravilhosa que um cérebro humano pode condensar”. E, depois de
confessar que Littré enganava aos seus discípulos, afirmava: “ Quando
convenci-me plenamente que as objeções de E. Littré não passavam de
miseráveis sofismas, quando esse gigante que eu mesmo criara ficou reduzido
às suas proporções exatas, procurei estreitar as minhas relações com o grupo
dos discípulos ortodoxos, entre os quais achei um acolhimento
verdadeiramente fraternal, apesar de minhas heresias passadas”.

A sua conversão religiosa é assim expressada por Miguel Lemos: “faltava-me a


conciliação do sentimento e da inteligência, quebrada pela insurreição do
espírito moderno, e fui achá-la justamente na religião que os fariseus da ciência
me haviam ensinado a considerar uma exaltação de louco. Como o grande São
Paulo, eu, o humilde estudante, ouvi no caminho de Damasco aquela voz de
todos os redentores: Filho meu, porque me persegues tu?

Miguel Lemos induziu a conversão ao seu amigo Teixeira Mendes, que


regressou ao Brasil em fins de 1878 e conseguiu, no ano seguinte, corrigir o
rumo da antiga associação positivista, voltando-a para a ortodoxia comteana.
Assim justificava Teixeira Mendes essa iniciativa de Miguel Lemos: tratava-se
de uma entidade que vivia “uma existência passiva, inteiramente desconhecida
de todos, destituída até de vida interior”.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 253

A primitiva Sociedade Positivista do Brasil passou a chamar-se Sociedade


Positivista do Rio de Janeiro, a 5 de setembro de 1879, tendo-se filiado à
direção suprema do Grande sacerdote da Humanidade, Pierre Laffitte. A
sociedade tinha como diretor o Dr. Joaquim Ribeiro de Mendonça. Eis uma
carta deste último a Pierre Laffitte, na qual são destacados o caráter ortodoxo
das principais reformas introduzidas, a minuciosidade dos positivistas
brasileiros para pôr em prática as mais pequenas regulamentações e a tomada
do poder espiritual da Sociedade, no melhor estilo comteano, por Miguel Lemos
e Teixeira Mendes:

“Meu caro Diretor Pierre Laffitte; São José dos Campos, 6


Shakespeare 92 ( 14 setembro de 1880): Domingo, 25 Gutemberg
92, temos comemorado no Rio o aniversário da morte de Augusto
Comte. Eis de que forma celebramos a festa: ao meio-dia na sala do
Clube Mozart, o senhor Teixeira Mendes, a pedido meu e perante
uma considerável audiência, cem pessoas aproximadamente,
pronunciou o discurso comemorativo. Nesse discurso, o Sr. Teixeira
Mendes, depois de ter relevado a memória do Mestre injustiçado por
homens malditos, expôs o culto positivista e tratou especialmente da
oração e dos sacramentos da destinação e do casamento. Ás duas
horas da tarde, fomos ao cemitério S. João Batista fazer uma visita
ao túmulo do Dr. Oliveira Guimarães. (...). Ás cinco horas da tarde
reunimo-nos num banquete fraternal, no decorrer do qual, tratamos
dos meios de propaganda. Resolvemos: fazer pequenas
modificações nos estatutos; fazer cursos e conferências positivistas.
O Sr. Teixeira Mendes fará um curso de Aritmética, de acordo com o
vosso plano, e um curso de explicação do Catecismo Positivista(...)
No começo do primeiro Domingo de dezembro, todos os positivistas
presentes no Rio de Janeiro se reunirão para fazer leituras das
publicações positivistas. No nosso banquete fraternal foi levantada
uma questão muito importante, que resolvemos submeter à vossa
apreciação. É a questão da direção. Aqui sou obrigado a entrar em
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 254

detalhes pessoais. Eu era médico em Jacareí quando o Sr. Oscar


Araújo, que hoje está em Paris, pediu-me para fazer uma reunião dos
positivistas brasileiros, a fim de organizar uma sociedade; a reunião
foi feita e vós sabeis que a sociedade existe. Eu aceitei a direção da
sociedade positivista do Rio enquanto era embrionária, estando
disposto a transmitir essa direção ao mais competente quando ele
estivesse mais desenvolvida. “

“No nosso banquete, expressei o desejo de fazer esta mudança. Todos os


nossos confrades mostraram-se opostos. Somente o Sr. Teixeira Mendes
expressou o desejo de fazer a divisão dos dois poderes. Segundo ele, eu devo
continuar com a direção temporal, pois era já o diretor e principalmente porque
sou hoje chefe industrial (dirijo um estabelecimento agrícola em São José dos
Campos, província de São Paulo) e segundo ele devo nomear um diretor
espiritual; ele indicou-me o nome do nosso confrade, o senhor Miguel Lemos.
Vós sois, senhor, o Diretor do Positivismo em todo o planeta e os positivistas
brasileiros reconhecem a vossa autoridade e se submetem voluntariamente às
vossas decisões; conseqüentemente, peço-vos para resolver a questão
seguinte: pode um mesmo indivíduo continuar, sem inconveniente para a
Religião da Humanidade, sendo ao mesmo tempo diretor espiritual e temporal
da sociedade positivista do Rio? Ou é necessário que as duas funções sejam
exercidas por órgãos diferentes? Eis aqui os nomes dos membros da
sociedade positivista do Rio de Janeiro que contribuíram como subsídio
sacerdotal na ano passado e que o Senhor Miguel Lemos me pediu,
obedecendo às vossas ordens (...) Recebei, senhor, as simpatias do vosso
discípulos. Saúde e fraternidade, Dr. Joaquim Ribeiro de Mendonça, São José
dos Campos – Província de São Paulo – Brasil”.399

Assim, a Sociedade Positivista do Rio de Janeiro buscava definir um rumo


ortodoxo, no amplo contexto das novas correntes de pensamento que, pela

399
Apud Lins, Ivan, História do positivismo no Brasil, Op. cit. pág. 654/656.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 255

evolução própria, se diferenciavam progressivamente. Antônio Paim explica


assim esse aprimoramento de orientação: “(...) o surto de idéias novas
marchava no sentido de uma nítida diferenciação. De um lado, alguns grupos
aderiam ao positivismo de Emile Littré, que recusava a parcela religiosa da
obra de Comte, com o que se abria o caminho à penetração do positivismo
inglês, primeiro através de Stuart Mill e, subseqüentemente, de Herbert
Spencer (1820-1903). Ao mesmo tempo, Tobias Barreto (1839-1889)
aprofundava o seu rompimento com toda espécie de positivismo, o que iria
ensejar a criação da Escola do Recife. Outros ainda iriam preocupar-se em
especial com a aplicação das idéias positivistas à reforma política. Nesse
ambiente de sucessiva diferenciação, estavam condenados ao fracasso os
propósitos de reunir numa única entidade grupos divergentes, como era o caso
da associação dos positivistas do Rio de Janeiro. A entidade, se queria
sobreviver, teria que se dedicar a outros objetivos, tarefa de que se
desincumbiria Miguel Lemos”.400

Desta forma, renunciando à sua primordial orientação mais científica do que


religiosa, que permitia aliás um certo pluralismo, a Sociedade Positivista do Rio
de Janeiro optou, a partir de 1879, pela caracterização como grupo religioso
que, rapidamente, seria controlado pelos dois elementos mais engajados na
Religião da Humanidade: Miguel Lemos e Teixeira Mendes. Essa perda de
pluralismo produziu, logicamente, uma conseqüência: a saída de dissidentes
como Luiz Pereira Barreto (1840-1923), partidários de uma valorização da
parcela cientifista da obra de Comte denominada de “Positivismo Ilustrado”
que, ao relativizar o dogmatismo comteano com o influxo mais liberal de Stuart
Mill e dos outros positivistas ingleses, ensejou uma atitude aberta. O mais
importante representante contemporâneo dessa tendência foi Ivan Lins (1904-
1975).

A Igreja Positivista: Influência no Brasil.

400
Cf. Paim, Op. cit., pág. III/IV
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O “noviciado” positivista de Miguel Lemos e Teixeira Mendes começou logo


após a conversão deles em Paris, no ano de 1877. O segundo tinha fundado
ali, na casa em que faleceu Clotilde de Vaux, o primeiro templo da Religião da
Humanidade. Miguel Lemos, por sua vez, a 25 de novembro de 1880, “na casa
sagrada de Augusto Comte”, segundo ele mesmo frisava, recebeu o grau de
aspirante ao sacerdócio da Humanidade. Regressou ao Rio de Janeiro em
fevereiro de 1881 e a 11 de maio, assumiu a direção espiritual da Sociedade
Positivista do Rio de Janeiro. Foi criado por ele, então, o Centro Positivista
Brasileiro, também denominado Igreja Positivista Brasileira, “com os seguintes
propósitos: 1) desenvolver o culto; 2) organizar o ensino da doutrina; 3) intervir
oportunamente nos negócios públicos”.

Os Estatutos do Apostolado, escritos por Miguel Lemos de acordo com o que


ele achava decorrer dos ensinamentos comteanos, levaram a um
endurecimento da posição da Igreja Positivista, em relação à anterior
Sociedade Positivista do Rio de Janeiro, e mesmo em relação à própria
Sociedade Positivista criada por Comte em 1848, impedindo até o exercício da
docência aos membros do Apostolado. Tratava-se, segundo frisa Ivan Lins, de
exigir de todos o comportamento dos sacerdotes da humanidade que Comte,
entretanto, havia reservado a uns poucos.

Eis o teor dos mencionados Estatutos: “todos os membros e aderentes do


Apostolado positivista tomam o compromisso solene de conduzir-se de acordo
com sua opiniões e de consagrar toda a sua atividade e todo o seu
devotamento à incorporação do proletariado na sociedade moderna, resumo de
toda a ação positivista. De um modo mais explicito, comprometem-se: 1) a não
ocupar cargos públicos; 2) a não exercer funções acadêmicas, quer no ensino
de nossas faculdades e escolas superiores, Instituto Nacional e
estabelecimentos congêneres, quer como membros de associações científicas
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 257

ou literárias; 3) a não colaborar no jornalismo, diário ou não, nem auferir lucros


pecuniários de seus escritos.”401

Referindo-se ao caráter praticamente monacal que Miguel Lemos e Teixeira


Mendes imprimiram à nova igreja, frisa Ivan Lins: “Apresentando a ascética
austeridade e a inflexível rigidez das ordens monásticas, os Estatutos da Igreja
e Apostolado Positivista do Brasil isolavam do mundo os seus sequazes e
transformavam o seu grêmio ao qual só faltavam as margens do Nilo para que
nele fosse revivido, em sua plenitude, o ambiente dos primeiros séculos
cristãos”. Oliveira Viana, (1883-1951) por sua vez, escreveu a respeito que nos
dogmas do Apostolado, “nos seus preceitos, nas suas regras, duras como
tomentos de linho bravo, havia qualquer coisa que recordava os ásperos
cilícios monacais e os seus discípulos pareciam antes severos Batistas,
vestidos de pele, de cajado profético, macerados pelas rudes abstinências do
deserto.”402

Esse espírito monástico do Apostolado Positivista terminou isolando-o da


realidade do próprio país, fato que explica as dissensões cada vez mais fortes.
Euclides da Cunha (1866-1909) tipificou assim esse isolacionismo da Igreja
Positivista: o Apostolado “ arregimentou-se em torno de um filósofo, e afastou-
se. Ninguém mais o viu – e mal se sabe que ele ainda existe reduzido a dois
homens admiráveis, que falam às vezes, mas que se não ouvem, de tão longe
lhes vem a voz, tão longe eles ficaram no território ideal de um utopia no
dualismo da positividade e do sonho.”403

401
Cf. Apud Lemos, Miguel e Mendes R. Teixeira, Nossa iniciação no positivismo, Rio de
Janeiro, 1889, pág. 2, citados por Ivan Lins, Op. cit., pág. 416.
402
Oliveira Vianna, O Ocaso do Império, São Paulo, Melhoramento, s. d., 1ª ed., pág. 123,
citado por Lins , Ivan, op. cit., p. 418/419.
403
Cunha, Euclides da, “Discurso de recepção na Academia Brasileira”, Discursos
Acadêmicos, Rio de Janeiro, Civilizações Brasileira, 1934, vol. I p. 272, citado por Lins, Ivan,
op. cit., pág. 418.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 258

O rigorismo ascético e dogmático de Miguel Lemos e Teixeira Mendes causou


rapidamente sérios atritos com alguns dos seus membros. Dois confrontos
sobressaem: com Benjamin Constant404 e com Quintino Bocaiúva (1836-1912),
o que produziria o afastamento do Apostolado da liderança republicana.

Os Republicanos e o Apostolado.

Benjamin Constant não concordou com a instituição obrigatória de uma


contribuição a ser paga pelos membros da Sociedade Positivista para o
sustento dos sacerdotes da Humanidade. Na carta que Miguel Lemos lhe
remeteu, respondendo a sua renúncia, o chefe do Apostolado salienta que a
“Sociedade Positivista não é uma sociedade literária ou uma academia
científica, em que devam predominar as sugestões do orgulho e da vaidade.
Nós somos uma Igreja, e os chefes se têm direito de esperar veneração por
parte dos fiéis, devem por sua vez falar, aos que se afastam da verdadeira
norma, com severidade, porém sem excluir a caridade que deve presidir todos
os seus atos”.

O incidente com Quintino Bocaiúva revelaria até que ponto Miguel Lemos
deixou-se arrastar pela desconfiança que desde antes do seu regresso ao
Brasil professava contra os chamados por ele “republicanos metafísicos”.
Considerou o chefe da ortodoxia comteana que Quintino Bocaiúva
representava “ o conúbio monstruoso e degradante da forma industrial com o
jornalismo”, porquanto constituía uma categoria não legitimada pela

404
“Um mês depois disto (Janeiro 1882) o Dr. Benjamin Constant, respondendo a aludida
circular do Sr. Lemos, depois de desculpar-se pela demora nesta resposta, disse que os seus
muito afazeres seriam motivo suficiente para lhe determinarem a sua retirada do Centro
Positivista, sobretudo considerando que existiam algumas divergências, por ele mesmo já
francamente apontadas, sobre o “modo que o digno confrade de preferência emprega na
propaganda do positivismo entre nós” Na opinião do Dr. Benjamin Constant essa doutrina “não
se pretende impor nem pela força nem por protestos cheios de indignação e de censuras
contra as crenças e atos daqueles que a não conhecem, mas unicamente pela discussão
calma, respeitosa e bem dirigida que leve aos seus espíritos a convicção profunda da sua
incomparável e mesmo inexcedível superioridade real sobre todas as que tem em vão
pretendido o mesmo alto destino intelectual, moral e social.” Cf. J. C. Rodrigues, Religiões
Acatholicas no Brazil, Rio de Janeiro, Jornal do Commercio, 2.ª edição, 1904, pág.235-6.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 259

sistematização social de Comte. Os jornalistas pretendiam, ao mesmo tempo,


pertencer ao poder espiritual e à classe dos industriais, incumbidos do poder
temporal. Embora Comte não desprezasse o valor do que ele chamava “A
soberania da opinião pública,” não podia aceitar, no seu afã regularmentador,
que houvesse manifestações não orgânicas ( quer dizer, não controladas pelo
Poder Sacerdotal). E a imprensa livre, logicamente, representava esse risco.
Assim, os discípulos brasileiros encarregaram-se de aplicar as conseqüências
que se derivavam do dogmatismo comteano.

Desta forma, o afastamento do apoio que o Apostolado Positivista tinha dado à


candidatura de Quintino Bocaiúva para a presidência do Partido Republicano
em novembro de 1881, foi mais uma desculpa formal para consagrar uma
rejeição dogmática. Na sua “declaração de voto,” Miguel Lemos aduz como
razão justificadora um fato secundário: Quintino Bocaiúva não ter-se
pronunciado quanto à imigração chinesa, embora tivesse concordado com o
Apostolado Positivista em pontos essenciais como a reforma da legislação civil
(visando a eliminação de dependência da Igreja do registro dos nascimentos,
do casamento ou do enterro dos mortos) e a abolição da escravatura. Pouco
importava até que Bocaiúva estivesse empolgado por uma visão autoritária e
caudilhista da República, muito do agrado do autoritarismo comteano. Tratava-
se, simplesmente, de uma depuração religiosa.

Nem o próprio Papa da Religião da Humanidade, Pierre Laffitte, escapou do


zelo verdadeiramente inquisitorial de Miguel Lemos e Teixeira Mendes. Em que
pese o fato de Laffitte ter oficiado a ordenação sacerdotal deles, o chefe da
Igreja Positivista Brasileira não duvidou em excomungá-lo, pelo fato de ter o
mestre aceito uma cátedra que lhe fora oferecida pelo governo francês em
1883. Ivan Lins refere assim a condenação sofrida por Pierre Laffitte: “(...) o
instinto inquisitorial de Miguel Lemos, na falta de poder celebrar um auto de fé
conduzindo à fogueira o próprio chefe da ortodoxia positivista em França –
Pierre Laffitte, levou-o a queimar o livro deste - Calcul Arithmétique, sob o
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 260

pretexto de não ser o mesmo bastante fiel aos ensinos do Mestre ! Depois de
haver dito, na primeira edição de sua primeira Circular Anual, ser essa
publicação de grande utilidade para os que desejam iniciar-se no dogma,
ocorrido em 1883, os exemplares de que dispunha”. Convém frisar, no entanto,
que o dogmatismo inquisitorial não foi criado, no seio do positivismo brasileiro,
simplesmente pela fé incondicional de Miguel Lemos e Teixeira Mendes. Trata-
se, melhor, de uma característica essencial do pensamento de Augusto Comte.

Augusto Comte esforçou-se por demonstrar que o dogmatismo é o estado


normal da inteligência humana, em direção ao qual caminha por natural
inclinação, constantemente e por todos os caminhos, incluso quando mais
parece afastar-se dele". Mesmo na época revolucionária que parecia pôr fim ao
império do dogma considerado como natural até então, teve de dar forma
dogmática às suas idéias puramente críticas, ainda que fosse unicamente com
o propósito de destruir(...).

A Igreja Positivista Brasileira revelou-se, portanto, forma acabada da Religião


da Humanidade, com o seu clero, o seu dogma, os seus fiéis e também os
seus hereges. Resta-nos analisar o conteúdo doutrinário no campo político.

No ofício dirigido ao presidente do diretório do Partido Republicano do Rio de


Janeiro e Niterói, em 1881, Miguel Lemos fixou a sua posição e a do
Apostolado Positivista, em relação ao Partido Republicano. O citado oficio era
do seguinte teor: “Cidadão – tendo-se decidido que só poderiam tomar parte
nas reuniões gerais do Partido Republicano da Corte aquelas pessoas que se
acham arroladas nos diversos clubes republicanos desta cidade, venho pedir-
vos, em nome do grupo positivista que tenho a honra de dirigir, que se
considere o Centro Positivista do Rio de Janeiro como constituindo um desses
clubes, e que, portanto, possam os seus membros comparecer e deliberar nas
reuniões do Partido. Republicanos como vós, embora com métodos e
doutrinas diferentes, os positivistas esperam ser atendidos neste justo pedido”.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 261

Miguel Lemos confirmou essa posição nas “Explicações dirigidas à redação da


Gazeta da Tarde”, frisando que não se tratava de adesão do Centro Positivista
ao diretório do Partido Republicano: (...) Não aderimos – frisou a chefe do
Apostolado – nem podíamos aderir a diretório algum porquanto temos uma
organização própria, idéias próprias e métodos próprios; temos o nosso
sistema político, a nossa disciplina, e até a nossa hierarquia, tudo isto fundado
em doutrinas inteiramente diferentes das adotadas pela maioria do partido
republicano. Não podia, portanto, haver adesão alguma de nossa parte, no
sentido em que parece foi empregada esta palavra(...)

Tratava-se, como explicava Miguel Lemos mais adiante, de aproveitar o ensejo


das aspirações republicanas em que muitos coincidiam, para “oferecer à
esclarecida e patriótica apreciação dos nossos correligionários as únicas
soluções políticas capazes de operarem a transformação que todos desejamos,
segundo as exigências da renovação científica revolucionária da escola
democrática”. Em outras palavras, tratava-se de utilizar a propaganda
republicana (chamada por Comte de “debates espontâneos) para pregar a
única verdade do comtismo, descartando qualquer discussão que levasse em
consideração concepções diferentes. No ponto de partida, a Igreja Positivista
situava-se numa posição de superioridade, pregando a única vê.
Não fora outra, aliás, a finalidade que Augusto Comte imprimiu à Sociedade
Positivista criada por ele em 1848, que se transformaria, um ano depois, na
Igreja propriamente dita. “Venho de fundar – escrevia Comte no seu opúsculo
intitulado O Fundador da Sociedade Positivista - sob a divisa característica
Ordem e Progresso, uma sociedade política destinada a desempenhar, em
relação com a segunda parte, essencialmente orgânica, da grande revolução,
uma tarefa equivalente à que exerceu tão utilmente a Sociedade dos Jacobinos
na primeira parte, essencialmente crítica (...)”
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 262

Essa tarefa da Sociedade Positivista deveria ter como última finalidade,


segundo Comte, “(...) facilitar o advento do novo poder espiritual que o
positivismo representa como o único capaz de terminar a revolução, mediante
a instauração direta do regime final em direção ao qual tende hoje a elite da
humanidade (...)”

Nesse contexto, Comte considerava o advento da República na França, depois


da revolução de 1848, como um fato a ser apoiado pelos membros da
Sociedade Positivista. O filósofo achava que a desordem mental causada pela
revolução e a queda da monarquia, era o caldo de cultivo ideal para a pregação
da regeneração espiritual, dando ao termo República um conteúdo orgânico,
que ele já tinha desenhado no seu primeiro manifesto político e religioso: o “
Discurso sobre o Conjunto Positivista “ (1848). A Igreja Positivista Brasileira, fiel
aos ensinamentos de Comte mais do que à análise real dos fatos, decidiu
imitar as mesmas atitudes assumidas pelo mestre. Supunha-se que bastava a
pretensa claridade das pregações dos sacerdotes da Igreja, para que os
republicanos se convertessem ao Positivismo.

A correspondência de Miguel Lemos com Pierre Laffitte manifesta claramente


essa inspiração ortodoxa da posição do apóstolo positivista perante o Partido
Republicano. Uma coisa que salta à vista, nessa correspondência , é a
dependência total da igreja com relação ao aspecto ritual, bem como o poder
centralizador de Miguel Lemos, que se considerava o único apto para dirigir os
destinos da religião comteana no Brasil.

Em meio a numerosas e fatigantes consultas sobre minúcias rituais,


transparecem nessa correspondência duas idéias básicas, em relação ao
papel desempenhado pelo Apostolado face ao partido Republicano: a) em
primeiro lugar, Miguel Lemos deixa clara a interpretação autoritária que o
empolgava em relação com a República, ao mesmo tempo que salientava a
necessidade de se seguir uma marcha gradual e sistemática na transformação
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 263

das instituições políticas: “Vamos ensaiar – escreve Miguel Lemos – uma nova
lei eleitoral, votada recentemente pelas Câmaras, que estabelece a eleição
direta ou de um único grau. O Sr. Mendes me propôs fazer uma conferência,
com a finalidade de dar conselho aos eleitores e de fazer assim intervir o
positivismo, enquanto for possível, na direção da nossa política. Trata-se,
especialmente, de fazer ver a nulidade dos meios democráticos e a
necessidade de seguir uma marcha gradualmente sistemática que possa nos
conduzir sem muitas sacudidas à situação republicana, indicando as reformas
que são possíveis já e que constituem um encaminhamento em direção desse
objetivo (...)” Numa outra carta, Miguel Lemos escreverá: “(...) deixei claro, de
início, que éramos republicanos sem sermos, de forma alguma, democratas,
que tínhamos as nossa doutrinas, os nossos métodos próprios e que em
conseqüência não teríamos outro papel a desempenhar no seio do partido
republicano, que como conselheiros e moderadores. Indiquei em seguida que
era necessário fixar o programa atual do partido republicano, a fim de preparar
a transformação republicana definitiva mediante uma série de medidas
apropriadas para que nós dirigíssemos ( o processo) até esse objetivo, numa
sã evolução. Tenho-me esforçado, então, para demonstrar que o nosso
programa atual, deixando de lado a pretensão pueril de querer proclamar a
República imediatamente, devia se restringir à conquista das instituições civis
que nos faltam: registro de nascimento, matrimônio civil, secularização dos
cemitérios. Essas reformas seriam o complemento necessário da nossa
liberdade espiritual e, ao mesmo tempo, uma aproximação à separação
definitiva do temporal e do espiritual”.

Em segundo lugar, Miguel Lemos está convencido de que a transformação


política que será feita no Brasil pelas classes liberais e instruídas, em último
termo será comandada pela Igreja Positivista, que se incumbirá de nortear os
sábios, os homens de Estado e os que ocuparem posições de relevo: “Aqui, -
escreve a Pierre Laffitte -, são as classes liberais e instruídas que farão a
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 264

transformação. Não temos proletariado propriamente dito; a nossa industria é


exclusivamente agrícola e o trabalhador rural é o negro escravo. Isso muda em
muito a situação dos positivistas brasileiros e a torna muito diferente da que
prevalece em Paris e em Londres. Lá a vossa ação é ainda latente (...) Aqui,
pelo contrário, estamos em plena evidência, pertencendo nós mesmos às
classes liberais, sobre as que agimos diretamente; toda a atenção está voltada
em nossa direção; todos os nossos atos e palavras tornam-se imediatamente
acontecimentos do dia. O mundo científico e oficial, longe de ser como lá,
cidadelas da reação, são aqui, ao contrário, elementos os mais modificáveis e
nós obtemos todos os dias adesões e simpatias. Tudo isso dá ao Positivismo
uma situação de atividade extraordinária, por estar prestes a satisfazer as
necessidades do público. Amanhã teremos sábios, homens de Estado,
indivíduos em posições de relevo, que aceitarão uma grande parte das nossas
concepções, se não estiverem totalmente convertidos ao positivismo. Será
preciso, pois, desempenharmo-nos à altura das circunstâncias”.

Esses cálculos mirabolantes feitos pelo chefe de uma igreja que em 1881
contava apenas com 53 membros efetivos, dão a medida da colossal auto-
suficiência do chefe da Igreja Positivista Brasileira. Talvez isso, além do
irrealismo que empolgava Miguel Lemos e Teixeira Mendes, explique o
insucesso político do Apostolado. Na oitava Circular anual, publicada em
outubro de 1889, Miguel Lemos fazia uma avaliação da contribuição do
Apostolado à Campanha Abolicionista, que culminou com a “Lei Áurea”
sancionada pela Princesa Isabel a 13 de maio de 1888, em exercício, pela
terceira vez, da Regência do Império.

A Escravidão e o Apostolado.

A posição de Miguel Lemos quanto à Campanha Abolicionista foi bastante


simplista e afastada da realidade histórica. O chefe da Igreja Positivista
caracterizava assim, de forma global, as relações entre escravatura e a
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 265

Monarquia: “A instituição monárquica não podia ser favorável à abolição,


porque este ato tirava-lhe seu último apoio junto às classes conservadoras do
nosso país, onde aquela instituição não tem nem tradições nem raízes.

A conduta do Imperador nesta questão traduz bem, como acabo de notá-lo, a


situação contraditória em que se via colocada nossa monarquia, impelida, por
um lado, pelo clamor da opinião nacional e estrangeira a marchar no sentido da
abolição sem demasiada demora, e, por outro lado, hesitante e atarantada
nesta marcha porque ela sentia que a ruptura do pacto tacitamente feito com
as classes interessadas na manutenção do elemento servil acarretaria consigo
sua própria ruína”. Ignorava o chefe positivista o longo processo histórico que
desde a década de 1860 tinha percorrido a Coroa, no sentido de materializar a
abolição. Desde o ano de 1866, efetivamente, já havia o Imperador D. Pedro II
decretado a libertação de todos os escravos da Nação designados para o
serviço do Exército, então em guerra contra o Paraguai. Também, antes da “Lei
do Ventre-Livre “, o Presidente do Conselho e Ministro da Fazenda, Visconde
de Itaboraí, estabelecia, a 1º de setembro de 1870, a forma pela qual deveria
ser requerida a liberdade por parte dos escravos da Casa Imperial que
pedissem ao Imperador. Aquela lei foi assinada, por sua vez, pela Princesa
Imperial Regente. O mordomo interino da Casa Imperial, Antônio Henriques de
Miranda Rego, determinou, a 10 de outubro de 1871, que fossem remunerados
com recursos da mesma Fazenda os libertos que nela se empregassem. O
mesmo processo de libertação estendeu-se aos escravos da Coudelaria de
Cachoeira do Campo, perto de Ouro Preto, que era propriedade da Coroa.

A Abolição da escravatura não veio à revelia dos interesses da Monarquia,


como pretendia Miguel Lemos405. Foi mais um processo de lenta maturação, no

405
“Os positivistas depois de tenaz luta contra a escravidão negra, que resultou em sua
emancipação, voltaram suas vistas, em cumprimento da tarefa máxima estabelecida para
redenção humana por A . Comte: a incorporação do proletariado à sociedade moderna, onde
ainda se encontra marginalizado, sem o desfrute integral das benesses de nossa civilização.
Bateram-se, em princípio, por aspectos básicos do problema: horas de trabalho, assistência à
família e proteção social do trabalhador.” Op. Cit., pág. 103.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 266

qual desde o início engajou-se o próprio Imperador, exercendo as suas funções


moderadoras, mas sem pretender pactuar com os escravocratas. Oliveira Lima
sintetizou assim esse papel da coroa: “No Brasil nunca houve, quem o
alardeassem, partidários da perpetuidade da escravidão, e a maneira
progressiva e admirável por que foi resolvida a sua questão magna explica-se
em boa parte pela sabedoria dos seus governos parlamentares e pelo ritmo
dos seus partidos, e mais que tudo pela influência verdadeiramente
moderadora que sobre a marcha dos acontecimentos e sobre a direção da
opinião se fez sentir por parte do trono, chave das instituições. Deu-se no
Império sul-americano o caso, freqüente na Inglaterra, dos conservadores
aplicarem, uma vez amadurecidas, as medidas preconizadas pelos liberais. A
Lei Rio Branco, de 28 de setembro de 1871, a Lei do Ventre-Livre, não foi mais
do que o projeto redigido em 1868 pelo Senador Nabuco e destinado a ser
submetido à discussão quando terminada a Guerra do Paraguai. Inspirava-o a
Coroa, a qual já em 1866 sugerira os anteprojetos de Pimenta Bueno (São
Vicente), enterrados pelo Conselho de Estado”.

Benjamin Constant e a Religião da Humanidade.

Benjamin Constant se considerava um discípulo de Comte. No entanto, é


importante observar que sua admiração pela Religião da Humanidade era mais
ideal ou teórica que militante, e seu interesse maior estava nas obras da
primeira fase, “científica”, do filósofo. O visconde de Taunay registrou um
conselho que recebeu de Benjamin a respeito das doutrinas de Comte: “Não
siga apertadamente o sistema todo; em não poucos pontos dele me aparto,
nem pratico a Religião da Humanidade, mas estude os livros do mestre;
discipline as suas idéias”. Para Teixeira Mendes, Benjamin “não pregou a
Religião da Humanidade, pregou Augusto Comte”.

O afastamento de Benjamin Constant da Igreja Positivista seria duradouro.


Suas relações com Miguel Lemos e Teixeira Mendes cessaram completamente
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 267

em 1885. Neste ano, alguém contou a Teixeira Mendes que, durante concurso
no Colégio Pedro II, um examinador da banca discordava de uma resposta do
candidato, e, à réplica do examinado de que esta era a opinião de Comte,
respondeu: “Pois fique com a sua opinião que eu fico com a minha, mas
asseguro-lhe que está em erro, conforme o demonstrou o Sr. Dr. Benjamin
Constant, meu professor de matemática”. Além de ser esta afirmação
considerada um sacrilégio pelos diretores positivistas, o agravante era o fato de
que ela tinha sido feita em presença de numeroso auditório, estando presente o
próprio Benjamin Constant. Teixeira Mendes foi à casa de Benjamin na noite do
mesmo dia, para cobrar explicações. Este apresentou suas objeções ao ponto
da matemática de Comte em questão, reconhecendo no entanto que a palavra
“erro”, usada pelo examinadores, não fora exata.

Para Teixeira Mendes, era muito grave lançar suspeitas sobre Comte. Já no
dia seguinte, ele imprimiu uma carta aberta a Benjamin Constant, distribuindo-a
gratuitamente entre os alunos das escolas Militar e Politécnica. Benjamin dirá,
em sua reposta, que a leitura dessa carta lhe causou “desagradabilíssima
impressão”, e que foi “talvez um dos últimos a recebê-la”.

Algumas anotações manuscritas feitas por Benjamin Constant no exemplar que


recebeu demonstram seu afastamento do sectarismo da Igreja. Ele sublinha,
por exemplo, uma passagem em que Teixeira Mendes diz acreditar na “mais
severa submissão” ao mestre, e põe, na margem: “!!” Outra dupla exclamação
refere-se ao trecho: “ A profanação das obras de Augusto Comte, com a
indagação de erros e lacunas que porventura nelas existam, constitui um crime
de lesa humanidade”. Em sua resposta, Benjamin diz que “crime de lesa
humanidade seria ocultar sistematicamente os erros da doutrina.”

Benjamin Constant se encontraria novamente com os diretores do Apostolado


dias após o golpe da República, quando foram levar seu apoio ao governo
instaurado pela insurreição militar da qual estiveram completamente alheios.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 268

Também só após essa data é que, segundo o próprio Teixeira Mendes, eles
estabeleceriam contato com “os mais ardentes discípulos de Benjamin
Constant”

A propaganda republicana e a Igreja Positivista.

Ao Senador Joaquim Nabuco, escreve Teixeira Mendes, uma carta que é um


verdadeiro documento do Apostolado Positivista. Com o título de “A Propósito
da agitação republicana” e datada no Rio de Janeiro a 1º de outubro de 1888,
a carta do vice-diretor do Apostolado Positivista no Brasil, visava responder a
uma consulta feita pelo aludido Senador em relação com a forma em que a
Igreja Positivista encarava a propaganda republicana. Um outro documento do
mesmo vice-diretor do Apostolado, publicado com o título de “A mistificação
democrática e a regeneração social”, completa as idéias expostas na carta
mencionada.

Nos dois opúsculos encontramos seis temas básicos: 1) O Positivismo


ortodoxo como única e verdadeira religião, 2) a primazia da teoria sobre a
prática e do dogma sobre a história, 3) a inferioridade dos outros credos
religiosos e políticos, 4) o angelismo positivista, 5) o autoritarismo republicano e
6) o apto à conversão dos gentios.

Como se pode observar da simples enumeração desses itens, trata-se de


escritos fundamentalmente apologéticos, espécies de “cartas apostólicas” que
visam a um fim claro: a pregação da verdadeira religião comteana e a
conversão dos ímpios. Observemos os dois primeiros pontos:

1) O Positivismo ortodoxo como a única e verdadeira religião.


Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 269

Teixeira Mendes, como Miguel Lemos, tinham a profunda convicção de que a


Religião da Humanidade por eles anunciada e representada era a única fonte
de salvação para a sociedade ameaçada pelas crises ensejadas a partir da
adoção do parlamentarismo monárquico, bem como da aparição da metafísica
liberal.

2)A primazia do dogma sobre a História

Em que pese o fato de os positivistas ortodoxos reivindicarem a unidade da


prática e da teoria na forma apregoada por Comte, o certo é que essa unidade
não se deu. Do ponto de vista prático vimos um exemplo na questão da
escravidão. Mesmo do ponto de vista teórico, tal unidade tornava-se
impossível, dado o caráter paradigmático atribuído pelo próprio Comte à
reforma espiritual, que consistia, basicamente, na aceitação passiva do dogma
por ele elaborado. O dogmatismo acabaria impossibilitando qualquer esforço
teórico sério no seio da perspectiva comteana.

A respeito desse ponto de partida dogmático, frisava Comte em 1822: “A


formação de qualquer plano de organização social compõe-se,
necessariamente, de duas séries de trabalhos, inteiramente distintas, tanto por
seu objetivo, quanto pelo gênero de capacidade que exigem. Uma, teórica ou
espiritual, tem por fim o desenvolvimento da idéia-mãe do plano, isto é, do novo
princípio segundo o qual as relações sociais devem ser coordenadas, e a
formação do sistema de idéias gerais destinadas a servir de guia à sociedade.
A outra série, prática ou temporal, determina o modo de distribuição do poder e
o conjunto de instituições administrativas mais conformes com o espírito de
sistema, tal como foi determinado pelos trabalhos teóricos. Sendo a segunda
série baseada na primeira da qual é a apenas a conseqüência e a realização,
é por esta que, necessariamente, deve começar o trabalho geral. Ela é a sua
alma, a parte mais importante e mais difícil, embora somente preliminar.”
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 270

Os nossos positivistas ortodoxos ficaram cada vez mais isolados do processo


histórico ao se fecharem na análise repetitiva da obra do mestre, como passo
prévio para a aplicação da doutrina comtiana à sociedade. A complexidade
desta última foi sendo traduzida em fórmulas esquemáticas que pretendiam
moldar o processo histórico aos dogmas imutáveis. Poderíamos tipificar esse
processo como uma “escolastização” do comtismo, semelhante à acontecida,
no seio da teologia católica, com a ratio studiorum jesuítica.

Assim, Teixeira Mendes não duvida em fazer uma análise global e homogênea
de todo o Ocidente, incluindo aí o Brasil, sem nenhuma preocupação pela
nossa peculiaridade histórica. A propósito, escreve: “Renunciando a uma
aliança heterogênea, nossa norma de proceder tem consistido invariavelmente
em demonstrar que o problema político do Brasil é análogo ao de todo o
Ocidente, e não comporta outra solução que não seja a que convém aos
demais povos que compõem este sistema. Com semelhante intuito fazendo
anualmente o exame da situação moderna, indicando a filiação histórica das
diversas opiniões que hoje disputam as consciências (...).”

Outras apreciações igualmente históricas sobre a Monarquia brasileira são as


seguintes: ela é teocrática porque “(...) a monarquia é entre nós o que é por
toda parte: um governo caracterizado pela supremacia de uma família, distinta
da Nação, com a qual não se confunde, e representante da Divindade. É assim
que a família imperial tem todos os distintivos da casta teocrática.” Além disso,
a monarquia nunca poderia aspirar a ser estável, pois Comte achava que só o
conseguiria sendo apoiada e verdadeira, e os sacerdotes da Igreja Positivista
declararam retrógrados os outros credos políticos e religiosos. Teixeira
Mendes afirma que “(...) uma adesão a qualquer das fés exaustas conduziria
fatalmente a tentativas de retrogradação, seguidas de violentas comoções.” O
Catolicismo, por exemplo, tornou-se uma religião ultrapassada, que se
converteu em força escravagista no Brasil, não lhe restando uma única
possibilidade de sobrevivência.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 271

A falta de força do catolicismo radica no fato de possuir uma doutrina em que


ninguém crê e um poder espiritual que não é respeitado: (...) Só a adoção de
uma hipocrisia sistemática – frisa Teixeira Mendes – permite que se falseie a
verdade para atribuir a uma doutrina em que se não crê, e a um poder
espiritual a que se não obedece, uma influência que se sabe estar
completamente extinta ...”.

Pelo regime teológico-militar ou pela dominação de uma classe sobre outra;


ora, frisa Teixeira Mendes, o primeiro no Brasil ficou exausto, em parte, “pela
mestiçagem que caracteriza nossa população e pelas lutas travadas, antes e
depois da independência, entre o povo e a casta dinástica;” e a segunda
tornou-se impossível a partir da abolição da escravatura.

A República segundo os Positivistas.

Antônio Paim salienta que “a Igreja Positivista voltou as costas,


deliberadamente, ao movimento republicano. A proclamação da República
apanhou-os de surpresa, conforme viria a proclamar o Apostolado, surpresa
tanto maior diante da emergência de Benjamin Constant como sua principal
figura (...)”406

Por isso, a declaração de Miguel Lemos na sua Nona Circular Anual, em que
salientava a influência do Apostolado nesse acontecimento, não estava isenta
de oportunismo. Afirmava o diretor da Igreja Positivista então :

“ O fato culminante da evolução positivista durante o ano passado


nos é oferecido pela proclamação da República no Brasil. A influência
de nossa doutrina fez-se aí sentir de um modo tão notável que, sob
este aspecto, tal acontecimento não é puramente de ordem nacional,
mas se reveste de uma importância considerável, mesmo em relação

406
Cf. Paim, Antonio, Op. cit., introd., pág. VII
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 272

à marcha geral do positivismo no Ocidente”. Tratava-se de uma


profecia sobre fatos consumados.

A tônica da Nona Circular Anual era, porém, bem mais moderada e objetiva do
que os documentos anteriores. É evidente o interesse do diretor do Apostolado
por agir sobre o processo, como afirma Antônio Paim: “(...) Proclamada a
República, o Apostolado cuidaria de influir sobre o movimento, tendo alcançado
algum sucesso nesse propósito, sobretudo devido à presença de Demétrio
Ribeiro no governo, como Ministro da Agricultura(...).”407

Os principais aspectos contidos na Nona Circular são os seguintes: 1)


Valorização do papel do Exército na Proclamação da República; 2) O modelo
ditatorial republicano proposto pelo Apostolado Positivista; 3) críticas do
Apostolado ao Governo Provisório e 4) Influência do Apostolado nos atos do
Governo Provisório.

O modelo positivista.

É interessante observar a grande semelhança existente entre a proposta que o


Apostolado fazia na Nona Circular Anual, para uma organização ditatorial da
República, e a Constituição do Estado do Rio Grande do Sul, de autoria de
Júlio de Castilhos.

Eis o teor da proposta do Apostolado: “1) Conservação da ditadura republicana


surgida a 15 de Novembro; 2) o regime parlamentar abolido, o governo
mandaria elaborar, sob sua direção, uma constituição que seria submetida ao
livre exame do público; 3) este projeto constitucional seria em seguida
apresentado à aprovação plebiscitária dos cidadãos, ou das municipalidades
de toda a república; 4) a nova constituição deveria combinar o princípio da
ditadura republicana com a mais completa liberdade espiritual. Tal combinação
ficaria assegurada do modo seguinte: a) a perpetuidade da função ditatorial,
acumulando o poder executivo, compreendendo nesta o poder judiciário, com

407
Paim, Antonio, op. Cit., pág. VII
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 273

o poder legislativo, e transmissão do poder a um sucessor livremente eleito


pelo ditador, sob a sanção da opinião pública convenientemente consultada; b)
separação da igreja do estado, supressão do ensino oficial, salvo a instrução
primária, plena liberdade de reunião e discussão, sob a única condição da
assinatura dos escritores, e liberdade completa profissional mediante a
abolição de todos os privilégios científicos, técnicos e industriais; c) uma única
assembléia, eleita por escrutínio às claras e exclusivamente destinada a votar o
imposto e a fiscalizar as despesas; d) a situação material adquirida pelos
funcionários, quer civis, quer militares, cujos cargos oficiais ficassem
suprimidos, seria salvaguardada.”408

Essa proposta ditatorial, cujos pontos altos eram a supressão do


parlamentarismo e a concentração de funções no executivo, reproduzia o
modelo proposto por Comte no seu Sistema de Política Positivista. O próprio
Miguel Lemos encarregou-se de salientar a semelhança entre a Constituição
Castilhista e o modelo proposto pelo Apostolado.

Insatisfação com o Governo Provisório.

Três críticas formulou o Apostolado ao Governo provisório na Nona Circular


Anual: a restrição à liberdade de imprensa, a oposição do Governo ao corte do
subsídio à Igreja Católica do Maranhão, decretado pelo Governador desse
Estado e ao decreto de 14 de dezembro de 1889, que dispunha a naturalização
tácita dos estrangeiros que se achavam no Brasil no dia da queda do Segundo
Reinado.

Com relação à primeira crítica, a posição do Apostolado era de reivindicar a


permanência do Governo Provisório dentro da mais pura ortodoxia comtiana,

408
Nona Circular Anual, Apud Paim, Op. cit., pp. 60-6l
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 274

exigindo a liberdade de expressão que, segundo os ensinamentos do mestre,


corresponderia nortear e disciplinar não ao Estado, mas à Igreja Positivista.
Ora, o Governo Provisório tinha tomado medidas cautelares, visando controlar
informações veiculadas pela imprensa, que estivessem dirigidas a perturbar a
ordem e incitar à rebelião.

Quanto à segunda crítica, o Apostolado opôs-se à invalidação, pelo Governo


provisório, do decreto do Governador do Maranhão que extinguia o subsídio à
Igreja Católica nesse Estado, em conseqüência do regime de separação entre
os dois poderes. O Apostolado frisava a respeito que “ A União federal não
deve ter nenhuma Igreja como instituição federal. Mas não pode ser abuso de
poder material, sem comprometer a união fraterna e, portanto livre dos estados,
deixar de respeitar a autonomia de cada estado para subvencionar ou não
qualquer Igreja.”409 Em relação com o decreto que dispunha a naturalização
dos estrangeiros que se encontravam no Brasil quando da queda do Império, o
Apostolado rejeitava essa iniciativa do Governo provisório, por considerá-la
atentatória contra a unidade orgânica da sociedade brasileira.

Um modelo ditatorial.

De acordo com os ensinamentos comteanos, a Igreja Positivista reivindicava a


defesa de um modelo ditatorial de República, que no plano do poder temporal
organizasse materialmente a sociedade e impusesse as condições que
permitissem a livre pregação do Apostolado, da qual se derivaria a
transformação social mental e moral da nação, isto é, ficasse francamente
republicana. Mas forma republicana não quer dizer parlamentarismo, governo
representativo, regime eletivo etc.; Governo republicano significa um governo
sem a mínima aliança com a teologia e a guerra, pela consagração da política
à sistematização da vida industrial, baseando-se em motivos humanos,
esclarecidos pela ciência (...) Augusto Comte demonstrou: 1) que a forma a

409
Mendes, R. Teixeira, Nona Circular Anual, Apud, Paim, op. Cit., pág. 72.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 275

adotar deve ser ditatorial e não parlamentar; isto é, o governo de um chefe


popular que renuncie a tornar-se dinástico, em vez do governo de uma ou mais
assembléias; 2) que a ditadura deve limitar-se a manter a ordem material,
garantindo a plena liberdade espiritual e moral”. E concluía assim o chefe
positivista: “Assim como, para nós, o problema proletário não ficou resolvido
pela abolição, assim também a República não ficará estabelecida pela
substituição do parlamentarismo burguês puro ao parlamentarismo burguês
monárquico.”

Não vingaria, certamente, essa versão do autoritarismo republicano positivista.


Conhecedor de toda essa literatura, como também da que produziam os
positivistas portugueses, Júlio de Castilhos elaborou o seu modelo ditatorial por
uma via diferente da adotada pela ortodoxia positivista. Esse intento vingou,
porquanto inserido no contexto patrimonial-modernizador do Estado brasileiro,
ao passo que os planos da Igreja Positivista ficaram à margem da história.

Inferioridade dos outros credos religiosos.

Dessa preeminência da Religião da Humanidade sobre os outros credos


político-religiosos deriva-se uma atitude de angelismo, que leva os positivistas
a se manterem afastados das alianças com quaisquer outros grupos, o qual
produziria uma mistificação inaceitável da pureza dos dogmas. Isso levou a
direção do Apostolado a se afastar progressivamente dos diferentes grupos
republicanos, produzindo uma espécie de auto-ostracismo.

Como em todo discurso apologético de tipo religioso, não podia Teixeira


Mendes deixar de apelar, nos seus opúsculos, para a conversão dos que ainda
não tivessem aceito a Religião da Humanidade. Eis a forma em que o vice-
diretor da Igreja Primitiva termina a carta dirigida ao Senador Joaquim Nabuco:
“tais são as razões que julgamos de nosso dever oferecer a V. Exa. Possam
elas incutir no ânimo de V. Exa. o desprendimento pela metafísica
constitucional (e) patentear-lhe a senda política que o mais acrisolado amor
pela Humanidade inspirou ao mais genial e ao mais devotado dos Mestres. A
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 276

abnegação abolicionista, de que V. Exa. deu provas, arrostando com cívica


independência animada versão do seu partido, e a elevação moral, pouco
comum hoje entre os políticos, com que V. Exa. costuma encarar as questões
pública, nos fazem alimentar esta grata esperança”. Esse apelo à conversão é
estendido por Teixeira Mendes a todos os “verdadeiros patriotas.”

MEMÓRIAS DE UMA AUSÊNCIA:


História da Igreja, disciplina ausente nos manuais de história do Brasil.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 277

INTRODUÇÃO

Atualmente ocorre um despertamento e interesse por textos


relacionados à História Eclesiástica. A leitura em História da Igreja tem
aumentado nessas duas últimas décadas. Temas em patristica, história do
dogma, história da reforma, do pensamento cristão, catolicismo e
protestantismo brasileiro tem atraído, para sua esfera, muitos estudantes,
leitores leigos e pesquisadores. Entende-se que os seminários e escolas
teológicas têm contribuído grandemente para que os alunos se envolvam cada
vez mais com tais assuntos. Se por um lado observa-se um bom número de
interessados pela história, por outro, os frutos desse interesse são inexistentes.
Evidente que este, momentâneo interesse, não expressa a realidade brasileira,
porque historicamente se houve anseio pela história, foi por uma história
triunfante, política e dos vencedores. O que está sendo colocado é que pouco
material ligado a temas relacionados à igreja410 tem sido discutido, produzido e
em seguida publicado. Existe no Brasil, uma real crise, na historiografia
religiosa. Uma rápida consulta em bibliotecas servirá para testemunhar o
afirmado acima. Conseqüentemente a produção nesta área do conhecimento
segue passos lentos. Fica muito difícil, hoje, tratar de historiografia411 da igreja
brasileira. Não se conhece no Brasil documentos que lidam com o assunto
com seriedade e rigor acadêmico. Arnaldo Momigliano levanta uma questão
muito pertinente: “...se a história eclesiástica tem o direito de existir nas
atuais condições da pesquisa histórica.”412 É evidente que a sobrevivência

410
O modelo de estudo historiográfico seguido neste artigo tem por finalidade saber como um
determinado tema tem sido tratado ao longo do tempo, por vários autores e várias obras, ou da
perspectiva das tendências ou escolas históricas.. Cf. Rogério Forastieri da Silva, História da
Historiografia, Bauru, SP: EDUSC, 2001, p. 23.
411
Entende-se que um dos fins da historiografia independente da área é “oferecer-se para dirigir os
olhares ao já visto, encarecendo-lhes: “olhem novamente”. Marcos Cezar de Freitas, Org. In
Historiografia Brasileira em Perspectiva. , 5ª edição, São Paulo: Contexto, 2003, p. 7.
412
MOMIGLIANO, Arnaldo, As Raízes Clássicas da Historiografia Moderna, Bauru, SP: EDUSC, 2004, p.
216.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 278

da historiografia eclesiástica dependerá em muito da atuação dos


pesquisadores e estudiosos do assunto e religiosos. Hoje pouquíssimas
publicações da história religiosa do Brasil têm aparecido no mercado e é bem
provável que nem mesmo os consumidores da literatura histórica tenham
conhecimento destas poucas publicações.
A historiografia eclesiástica brasileira é inexistente e isto em pleno
século XXI. Quais são as causas dessa lacuna? Pôr que a religião é olhada
com tanta desconfiança? Os fenômenos religiosos não significam nada para os
estudiosos? E a contribuição da cultura protestante na formação do caráter
nacional?
Para a surpresa de muitos, nos últimos dias, a superfície está sendo
arranhada e alguns estudos no campo das religiosidades tem servido para
demonstrar a importância do assunto e ao mesmo tempo a sua inexplicável
ausência na nesta historiografia. Ronaldo Vainfas, professor de história
moderna, classifica esta ausência em artigo recente como “uma lacuna de
nossa historiografia”.413
A historiografia da Igreja, nos países europeus, até o Iluminismo,
desenvolveu-se como disciplina importante, porém desprovida de metodologias
mais criticas e acadêmicas. O Iluminismo pôr sua vez contribuiu com uma
abordagem científica e analítica ao estudo histórico. Nos Estados Unidos, têm
aumentado a preocupação, não só em registrar os fenômenos religiosos, mas
em recuperar a história das religiões.
Aqui o que prevalece, ainda, é uma ausência inexplicável, porém
revestida pela indiferença e preconceitos. País que expressa sentimentos
religiosos tão diversificado e multifacetado no rural e no urbano, de norte a sul,
convive e abriga esta indiferença com relativa naturalidade. Não é mais
possível conviver e aceitar comportamentos que insistem em desprezar os
estudos das religiosidades. Este artigo procura investigar e levantar questões

413
Folha de S. Paulo, Caderno Mais!, 28/nov/2004.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 279

relacionadas à ausência dos elementos religiosos nos debates promovidos


pela sociedade brasileira.
Em Memórias de uma Ausência a tentativa é não deixar esta ausência
cair no esquecimento e, ao mesmo tempo, enfatizar que um dos papeis
fundamentais do resgate historiográfico é: “desvendar conjunturas parciais
de grupos sociais em formação sem impor-lhes de antemão conceitos e
categorias abstratas. Estas terão de dar precedência à interpretação
através das condições de vida de grupos sociais que mal começamos
a discernir através de parâmetros ideológicos e distantes daqueles que
os relegaram a um lugar subordinado, subalterno ou de antemão
configurado.”414
O texto tem a preocupação de salientar esta lacuna no Brasil, e ao
mesmo tempo narrar brevemente aquilo que se constituiu como estrutura para
a historiografia da Igreja. Para isto, o artigo foi dividido em seis pequenas
partes com os seguintes tópicos: I. Origens da historiografia Eclesiástica; II.
Reforma; III. Pós-Reforma; IV. Historiografia Brasileira; V. Historiografia da
Igreja Brasileira e VI. Breve historiografia do protestantismo nacional.

I. ORIGENS DA HISTORIOGRAFIA ECLESIÁSTICA.

A História deve ser entendida e defendida como uma disciplina


profissional415 sintonizada com a modernidade. Georg G. Iggers afirma que “a
crítica pós-moderna não destruiu o compromisso do historiador em seu
esforço para capturar o real, bem como sua crença numa lógica da
investigação”.416 Para muitos a história está compromissada com a
produção de um conhecimento objetivo sobre o passado por intermédio de um

414
Cf. Maria Odila Leite da Silva Dias, Historiografia Brasileira em Perspectiva, p. 59.
415
“A história envolve “toda descoberta importante sobre o passado que muda o que pensamos sobre o
presente e que esperamos sobre o futuro. Daí a grande importância da história profissional. Cf. Rogério
Forastieri, História da Historiografia, p.158.
416
Ibid., p. 122.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 280

processo de pesquisa metodologicamente controlado. Isto significa que a


verdade sobre o passado seria reconstruída por intermédio da correspondência
do conhecimento em relação a uma realidade objetiva que era o passado “tal
como realmente ocorreu”. Esta construção teórica sobre o escrever história
segundo Georg G. Iggers “estiveram presentes na narrativa histórica
desde Heródoto, passando por Ranke até o limiar do século XX”.417
Desta maneira, a história possui uma relação especial com a verdade. Suas
construções narrativas visam à reconstrução do passado que realmente teria
ocorrido. Esta referência à realidade preexistente ao texto histórico e situado
fora dele possui a função de produzir um relato inteligível, é o que constitui a
história e que a difere da fábula ou da falsificação. Está evidente que Rogério
Forastieri acentua a análise feita por Georg G. Iggers sobre conceitos
historiográficos e o papel do historiador. Se Iggers pensou e aceitou a história
da forma descrita acima não sabemos, porém sua analise de Heródoto a
Ranke foi que a história possuiu a função de produzir um relato inteligível e
com uma relação especial com a verdade.418
Arnaldo Momigliano, historiador italiano, indica Eusébio de Cesaréia419
como o “inventor da história eclesiástica.”420 Eusébio define o propósito de
sua obra no parágrafo inicial:

“Meu propósito foi o de registrar por escrito a


sucessão de apóstolos sagrados que vai do
período de nosso Salvador até nossa época; o
número e a natureza dos atos registrados na

417
Cf. Rogério Forastieri, p. 122.
418
“A história, reconheciam os filósofos, devia ser “veraz” ou não poderia pretender “instruir e esclarecer”
o leitor no processo de o “entreter e deleitar”. O que estava em debate, então, era o critério pelo qual se
devia reconhecer a verdade. Em suma, qual era a forma que a verdade tinha de assumir?” Cf. Hayden
White, Meta-História, A Imaginação Histórica do Século XIX, 2ª edição, São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 1995, p. 72.
419
“A obra de Eusébio (265 – 341 d.C.), bispo de Cesaréia e pai da história cristã, inscreve-se na lógica
providencialista.” Cf. Philippe Tétart, Pequena História dos historiadores, Bauru: São Paulo: Edusc, 2000,
p.34.
420
MOMIGLIANO, Arnaldo., As Raízes Clássicas da Historiografia Moderna: Bauru, SP: EDUSC, p. 195,
2004.
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história da igreja; o numero daqueles que


foram destacados em seu governo...; o número
daqueles que em cada geração foram
embaixadores de Deus pela fala e pela escrita;
os nomes, o número e a idade daqueles que,
levados pelo desejo de inovação ao ponto
extremo do erro, se anunciaram como
introdutores do conhecimento, falsamente
assim chamado. A isto tudo acrescentarei o
destino que atingiu toda a nação dos judeus...
e além disto o número e a natureza e os
tempos das guerras empreendidas pelos
pagãos contra a palavra divina...e além disto
os martírios.”421

O Cristianismo que, em essência, é uma religião histórica, segundo Marc


Bloch, considera os Atos dos Apóstolos livro histórico por excelência. Porém,
não têm uma continuação, e isto é um aspecto importante para a historiografia
cristã.422 Duzentos anos mais tarde, surge com Eusébio uma forma de se
construir a história do cristianismo, sobre outras bases: ele não estava
preocupado em princípio com a difusão do cristianismo pela propaganda e pelo
milagre, mas com sua sobrevivência diante da perseguição e da heresia, de
onde sairia vitorioso.

O novo vigor, a nova metodologia e o uso dos documentos, ferramentas


utilizadas por Eusébio,423 não foram suficientes para descaracterizar a velha
imagem de uma história pobre da igreja. Alguns pensadores acreditam que a
história da igreja antiga não passou de uma “disciplina menor, auxiliar e que
só serviu para edificar e alimentar, após a teologia e a liturgia, uma

421
Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica: os primeiros quatros séculos da Igreja Cristã. Rio de
Janeiro: Casa Publicadora Assembléia de Deus, 1999, p..15
422
MOMIGLIANO, p. 197.
423
“Eusébio organiza a cronologia em torno do saber bíblico, da Criação ao Juízo Final. Esta perspectiva
afirma o desejo de fazer da história eclesial um conhecimento, comum e revelado, apto a concorrer com a
cultura greco-latina e a perenizar o esforço dos primeiros evangelizadores. Em Eusébio, a história da
humanidade, sendo revelada, não permite mais lacunas, nem dúvidas: daí sua inclinação universalista e
enciclopedística.” Cf. Philippe Tétart, Pequena História dos Historiadores, Bauru, São Paulo: Edusc,
2000, p.35
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 282

dialética voltada para a veneração do divino, a celebração da igreja,


a conversão e a evangelização.”424

Outros grandes estudos no campo historiográfico ensinam que o ponto de


partida da escrita eclesiástica no Ocidente, indiscutivelmente, está na tradução
de História Eclesiástica de Eusébio, para o latim por Rufino.
Obra despretensiosa e com uma simplicidade enganosa, de sua estrutura e na
questão da sua documentação, “a História Eclesiástica de Eusébio foi um dos
protótipos mais confiáveis jamais criados pelo pensamento antigo: com efeito,
foi o último grande modelo elaborado pelos historiadores antigos para o
benefício das gerações posteriores.”425

O mundo político no qual a igreja estava inserida, já não demarcava com


facilidade a esfera do sagrado e a do secular. Uma igreja no poder dificilmente
conseguiria se separar do Estado em que exercitava este poder. Como lidar
com as relações muito terrenas mantidas por esta instituição divina com outras
instituições em termos de poder, violência e mesmo de reivindicações
territoriais? Este era um grande desafio para os discípulos de Eusébio.

“Em particular os historiadores que seguiam a corrente eusebiana


reconheciam a existência da história política.”426 Este é um ponto de
grande importância prática porque significa que a ascensão da história
eclesiástica não implicava em uma interrupção da escrita da história política
mais comum. É verdade que nos séculos IV e V a história política era deixada
principalmente nas mãos de historiadores não cristãos.

424
Ibid., p. 33.
425
MONIGLIANO, p.198
426
Ibid., p .200.
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Sobre os remanescentes da historiografia eusebiana comenta Arnoldo


Momigliano:
“É provável que João de Éfeso, que
escreveu na Síria em
aproximadamente 585 d. C., e
Evagrio Escolástico que terminou a
sua história depois de 594, são os
últimos historiadores eclesiásticos
que podem reivindicar uma
descendência direta de Eusébio. A
História Eclesiástica aqui
acompanhava o declínio geral da
historiografia. O Historiador
bizantino Nicéforo Calisto, que
tentou reviver a história eclesiástica
em 1320 – claramente sob o
impacto das novas ligações com o
Ocidente queixava-se de que
Evagrio não tivera um sucessor.
Assim, aceitava-se esta lacuna no
Oriente.” 427

O tipo de história de Eusébio permaneceu bem conhecido dos leitores do


Ocidente, e houve pelo menos uma tentativa de revivê-la. “A tradução de
Eusébio feita por Rufino foi lida durante toda a Idade Média. Ela era,
sem dúvida, conhecida de Gregório de Tour, Beda, Isidoro, e mesmo em
Santo Agostinho encontramos algumas referências eloqüentes ao seu
nome.”428 A noção de história em Santo Agostinho assume, portanto uma
forte conotação teológica. Em sua obra “A cidade de Deus” é patente a
dualidade do reino celeste com uma pátria terrestre. Suas afirmações a
respeito da história humana, encarnação, de Deus, provas de sua existência e
sua onipotência transformaram esta obra no “tratado fundamental da
teologia cristã da história” conforme H. –I. Marrou.

427
MOMIGLIANO, p. 203-204
428
MOMIGLIANO, p. 205
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 284

O desencanto de Agostinho diante do desmoronamento do glorioso Império


Romano se concretizou quando sua sede episcopal, também, caiu nas mãos
dos valentes guerreiros considerados pelos romanos de “bárbaros”. Após a
morte de Santo Agostinho em 430 d.C, a cristandade sentiu a perda de um
Império e de um teólogo por excelência. Um dos grandes responsáveis pela
preservação da cultura cristã ocidental, após Agostinho, foi Severino Boécio. O
papel desempenhado por Boécio é um capítulo à parte. Foi ele quem
conseguiu preservar e transmitir o pensamento e a cultura cristã para as
gerações posteriores influenciadas pelas tribos do norte.

Pouco se comenta dos clérigos e monges copistas anônimos. Na maioria das


vezes eram peritos na arte de copiar e compilar o passado cujo centro era
sempre Deus. Os mosteiros nesse período tornaram-se verdadeiros centros e
ateliês de história. A história eclesiástica, portanto, garante sua sobrevivência
pelas atividades desenvolvidas nestes ambientes.429

Carlos Magno no século IX foi o grande propagador da cultura cristã, seus


programas educacionais até os dias de hoje servem de modelo e inspiração
para a implantação de escolas.

Desta forma, cada vez mais, a história da Igreja ia ganhando contornos


circunstanciais. A política e a sociedade dos séculos XI a XIV eram
determinantes em uma cultura que ainda não tinha marginalizado os
conteúdos históricos.

A Idade Média era muito propícia para o surgimento de textos, que


particularmente, priorizavam as individualidades. A igreja era caracterizada por
aspectos que a diferenciava das demais sociedades. Sua tendência, neste
período, era lidar com as generalizações, e assim sendo colocava em perigo
suas peculiaridades.
429
Cf. Philippe Tétart, Pequena História dos historiadores, Bauru, São Paulo: EDUSC, 2000, p.39.
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II – A REFORMA.

A excelente obra de James E. Bradley e Richard A. Muller, Uma Introdução à


pesquisa, Obras de Referências e Métodos, (tradução particular) Michigam:
William B. Eerdmam, 1995,430 oferece uma precisa análise histórica do
desenvolvimento da historiografia eclesiástica do século XVI ao século XX.
Obra esclarecedora e erudita. O domínio dos autores fica evidente no
transcorrer de todo o livro. Os tópicos: Reforma e Pós-Reforma deste artigo
seguiram estrutura de parte do capítulo deste livro.

O novo modelo de história eclesiástica proposta por Eusébio foi recuperado


com todo vigor durante a Reforma,431 do mesmo modo que a forma política de
história típica de Tucídides fora retomada pela vida política italiana na época do
humanismo. O modelo de Eusébio agia mais diretamente do que o modelo de
Tucídides. Eusébio era o modelo de historiador universal da Igreja; sua
preocupação com as Sés apostólicas era ainda útil e suas coleções de
documentos e citações era um ponto de partida para as pesquisas eruditas
posteriores.

A grande preocupação dos humanistas em voltar aos clássicos tornou o século


dezesseis mais rigoroso quanto à documentação do que os séculos anteriores.
Evidente que muitos das dificuldades levantadas por Eusébio não pertenciam
ao século da reforma, porém seu envolvimento o colocava no meio das lutas
historiográficas. Outra questão importante que na historiografia da reforma

430
James E. Bradley e Richard A. Muller, Uma Introdução à pesquisa, Obras de Referências e Métodos,
(tradução particular) Michigam: William B. Eerdmam, 1995
431
Em 1519, A tradução de Rufino, foi lida por Lutero. Muitos contemporâneos de Lutero conheciam
Eusébio de cor, e o mesmo pode ser dito de todos os historiadores eclesiásticos que trabalharam depois
deles, seja no campo protestante seja no campo católico.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 286

ocorre foi à tentativa de se resgatar a verdadeira igreja nos molde da igreja


primitiva, tudo que fugisse dessa imagem seria considerado falso.

Seguindo outra metodologia, Eusébio procurava apresentar uma igreja


vencedora, principalmente porque havia superado todas as diversidades das
perseguições. Eusébio evidenciava em seus escritos o triunfalismo da igreja
cristã, o mundo em breve conheceria a nova ordem de Cristo, nas últimas
décadas do século dezesseis os lideres religiosos mostravam preocupações
com a igreja, porém, a maior preocupação era com as instituições e dogmas.

Toda produção acadêmica e religiosa passava por mudança inesperada neste


período.432 Vale recordar o alto preço e a difícil tarefa que era manusear
documentos que serviam de registros para preservar o pensamento da
antiguidade. O trabalho dos copistas não encontra equivalentes nos dias
atuais. Se um aluno, no inicio do século XV, resolvesse consultar determinados
documentos, cabia lhe a tarefa de examinar quilos e mais quilos de
pergaminhos centenários. O deslocamento destes documentos para fora das
academias era quase impossível. Se provassem o interesse em copiar
determinadas partes de documentos, deveriam levá-los a um especialista
copista que gastava dias passando de pergaminho para pergaminho as
informações. Este tipo de serviço, além de muito caro, demandava habilidades
encontradas apenas no praticante desse ofício.

A invenção da imprensa provocou uma grande revolução neste ambiente. No


entanto a maior de todas as revoluções no campo das letras, foi à utilização
original do papel. O papel provocou uma revolução nas mesmas proporções
provocadas pela imprensa. O papel era leve, de fácil manuseio, limpo e com
preço reduzido a um décimo do pergaminho seu rival. A opção pelo papel e

“O impulso do século XVI funda uma ruptura com “as trevas góticas”. Traz os conceitos fundamentais
432

de relatividade, de subjetividade. Entre dúvida e razão, os historiadores trabalham com um estado de


espírito novo, metódico, raramente perturbado pelos arcaísmos ou profetismo. Outra virada da
modernidade: a legitimação do enfoque documental. “ Cf. Philippe Tétart, Pequena História dos
Historiadores. p. 61-62.
Protestantismo e Cultura Brasileira - Prof. Wilson Santana - 25/02/2013 - 287

seu uso na imprensa criou a maior de todas as revoluções no campo da


produção literária. Os livros, agora, em tamanhos reduzidos, leves e de
manuseio fácil ganha a simpatia dos editores, leitores, comerciantes e
impressores. Os primeiros documentos impressos foram de caráter religioso. A
Bíblia de Gutenberg é símbolo, até hoje, da independência dos impressores e
da imprensa.

A história da igreja, os catecismos, as primeiras regras de fé, as teses


luteranas, as Institutas de João Calvino433 e tantos outros documentos
importantes da Reforma receberam todos os benefícios desta nova maneira de
se construir um livro. A história da primeira edição e impressão das institutas
de João Calvino é um capítulo à parte e que merece análise mais cuidadosa.434

Não há duvidas que a contribuição de Eusébio e seus seguidores foram


fundamentais para colocar em nível acadêmico a historiografia da igreja.
Caberá aos intelectuais religiosos dos séculos seguintes colocar a História da
Igreja Cristã no mesmo nível de qualquer história da sociedade humana.

III – PÓS-REFORMA.

433
“João Calvino (1509-1564), natural da Picardia , em 1534, renuncia aos benefícios eclesiásticos que
usufruía desde a idade de doze anos e, em 1536 e 1541, publica, sucessivamente em latim e em francês,
Institution de la religion chrétienne. Em 1536, chamado por Guilherme Farel em Genebra, ele modela uma
comunidade humana tendo como base a religião evangélica. Genebra torna-se centro de formação dos
pastores que serão enviados para todas as comunidades francesas e que permitirão a unidade da Igreja
Evangélica Reformada. Fiel aos métodos de Erasmo, Calvino organiza a Academia na qual o grego, o
hebraico, os autores profanos da Antiguidade, os textos bíblicos e dos padres são julgados indispensáveis
à formação do estilo e da eloqüência. Academias protestantes parecidas serão criadas em Châtillon,
Saumur, Orthez, Montauban e Orange e precedem a instalação dos colégios jesuítas. Organizador
religioso, mas também grande escritor, Calvino foi, de um certo modo, fundador da prosa francesa com a
Institution e seus tratados.” Cf. Philippe Willemart, A Idade Média e a Renascença na Literatura Francesa,
São Paulo: Annablume, 2000, p. 42-43.
434
Cf. Emmnuel Le Roy Ladurie escreveu obra clássica contando estes fatos, o leitor poderá confirma
lendo O mendigo e o professor. A História da família Platter e ao mesmo tempo a história do primeiro
impressor de João Calvino.
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Até a primeira metade do século XVIII435 o es