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A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação, segundo

Reichenbach

agosto 15, 2017

A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação é normalmente


apresentada como marcando a diferença entre, por um lado, os processos de pensamento,
teste e experimentação que de fato ocorreram em um laboratório ou em um ambiente de
pesquisa e que levaram ou contribuíram para alguma descoberta científica e, de outro, os
processos de justificação e validação dessa descoberta. Haveria, portanto, uma clara
diferença entre descrever como cientistas chegaram a fazer certas alegações científicas, o
que seria uma tarefa para as ciências empíricas, como a sociologia, a psicologia e a
antropologia da ciência, e justificar essas alegações, o que seria uma tarefa para a
epistemologia, uma disciplina normativa e não-empírica. Essa distinção é corriqueira em
debates acerca do escopo da filosofia da ciência e teria sido explicitada inicialmente por
Reichenbach. Contudo, quando examinamos a maneira como ele circunscreveu as tarefas
da epistemologia, notamos que alguns elementos importantes não estão explicitados nessa
apresentação da distinção.

Segundo Reichenbach, a epistemologia tem três tarefas: uma tarefa descritiva e


duas tarefas críticas, a avaliativa e a consultiva. Aqui já notamos uma diferença
importante em relação à distinção apresentada acima: a epistemologia não é uma
disciplina puramente normativa, ela envolve descrição. Em que consiste essa tarefa? Para
Reichenbach, de fato é fundamental distinguir a tarefa descritiva da epistemologia da
tarefa descritiva da sociologia e da psicologia. A sociologia do conhecimento tem
interesse em descrever a relação entre alegações de conhecimento e fatos que são externos
ao conteúdo dessas alegações de conhecimento. Assim, pode ser do interesse da
sociologia do conhecimento relacionar certas alegações de conhecimento com a classe
social dos cientistas que fizeram essas alegações, com certas necessidades econômicas e
sociais do período histórico em que tais alegações foram feitas etc. Por exemplo, a
afirmação de Kuhn de que a aceitação da teoria copernicana foi favorecida pela
necessidade de se fazer uma reforma no calendário (KUHN, 1998, p. 15) é tipicamente
uma descrição sociológica, pois relaciona uma fato externo à teoria copernicana com a
alegação dessa teoria. Tal descrição nos apresenta uma causa, mas não uma razão para
essa alegação. A tarefa descritiva da epistemologia visa antes as relações internas entre
os conteúdos das alegações de conhecimento, relações entre conteúdos que ocorrem aos
cientistas de uma determinada disciplina. Contudo, a tarefa descritiva da epistemologia
precisa ainda ser distinguida da tarefa descritiva da psicologia. A epistemologia não está
interessada em descrever o processo real de pensamento de um cientista. O processo real
de pensamento é frequentemente vago, confuso, realiza saltos e toma atalhos que, a
primeira vista, são difíceis de justificar ou mesmo de compreender. A sequência de
pensamentos que ocorre a um cientista no laboratório ou em um ambiente de pesquisa
não é o que a epistemologia deve capturar na sua tarefa descritiva, essa é uma tarefa para
a psicologia do conhecimento. Em linguagem mais corriqueira, a descrição da sequência
de pensamentos que antecede uma alegação de conhecimento pode nos fornece os
motivos do cientista para essa alegação, mas não necessariamente as razões que a
sustentam. O que a epistemologia pretende, portanto, fazer, na sua tarefa descritiva, é
apresentar um substituto para o processo real de pensamento que esclareça ou explicite
as razões que o próprio cientista estaria em condições de fornecer para a sua alegação
final de conhecimento. As relações internas entre conteúdos que o epistemólogo pretende
descrever são de um tipo especial, tratam-se de relações de justificação ou de
confirmação. Esse substituto foi chamado de reconstrução racional por Reichenbach:

A Epistemologia não considera os processos de pensamento na sua


ocorrência real, essa tarefa é deixada inteiramente para a psicologia. O
que a epistemologia pretende é construir processos de pensamento de
uma maneira em que eles deveriam ocorrer se eles fossem ordenados
em um sistema consistente, ou construir conjuntos justificáveis de
operações que podem ser interpostas entre o ponto de partida e o
resultado dos processos de pensamento, substituindo as ligações
intermediárias reais. A epistemologia assim considera um substituto
lógico ao invés de processos reais. Para esse substituto lógico o termo
reconstrução racional foi introduzido (REICHENBACH, 1961, p. 5).

Alguns pontos precisam ser enfatizados para deixar claro por que essa tarefa é
descritiva e não avaliativa. Em primeiro lugar, a reconstrução racional não é arbitrária,
ela é guiada pelo princípio da correspondência, isto é, ela deve preservar tanto quanto
possível o pensamento real, embora seja, do ponto de vista explicativo e da compreensão,
uma versão melhorada do pensamento real. A reconstrução racional “expressa o que
queremos dizer, propriamente falando” (1961, p. 6). Para Reichenbach, as exposições que
os cientistas fazem de uma hipótese e das evidências que a sustentam em artigos e
relatórios são bastante próximas do que ele pensa ser a reconstrução racional, e ilustram
claramente a diferença entre ela e o processo real de pensamento. A reconstrução racional
é, assim, uma versão melhorada, mais articulada e esclarecida, dessa exposição. Um
segundo ponto relevante acerca da reconstrução racional é que essa tarefa não envolve
ainda qualquer avaliação acerca da correção ou verdade do que o cientista toma como
sendo casos claros ou indiscutíveis de evidência elementar. O mesmo pode ser dito acerca
da validade das operações de justificação que são interpostas entre o ponto de partida e a
hipótese ou alegação final de conhecimento. Há ganho de esclarecimento e articulação ao
reconstruir esse processo com base nas operações de justificação menos disputáveis e
suspeitas entre os cientistas, mas isso ainda não significa que tais operações foram ou
estejam sendo submetidas à crítica epistemológica. A reconstrução racional não é crítica,
é descritiva, o ganho cognitivo que ela nos fornece é de compreensão e esclarecimento.
Por fim, a diferença entre a reconstrução racional de uma cognição ou de uma alegação
de conhecimento e o processo de pensamento real que resultou nessa alegação é, para
Reichenbach, o que constitui a distinção entre contexto de descoberta e contexto de
justificação:

Por exemplo, a maneira pela qual um matemático publica uma nova


demonstração, ou um físico, o seu raciocínio lógico para a
fundamentação de uma nova teoria, quase corresponderia ao nosso
conceito de reconstrução racional; e a bem conhecida diferença entre a
maneira do pensador de descobrir o seu teoria e a sua maneira de
apresentá-la diante do público pode ilustrar a diferença em questão. Eu
irei introduzir os termos contexto de descoberta e contexto de
justificação para marcar essa distinção (REICHENBACH, 1961, p. 6-
7).

Trata-se, portanto, de uma distinção que opera no âmbito da tarefa descritiva. Ela
distingue a tarefa descritiva da psicologia da tarefa descritiva da epistemologia. Essa
tarefa é necessária para a próxima etapa crítica do empreendimento epistemológico, em
que o item reconstruído racionalmente é “julgado em relação a sua validade e
confiabilidade” (1961, p. 7). Assim, a distinção feita no início desta seção não
corresponde à distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação feita por
Reichebach, mas se aproxima da distinção que ele faz entre as tarefas descritiva e crítica
da epistemologia.

Sobre as demais tarefas da epistemologia, falarei em outra oportunidade.


REICHENBACH, Hans. (1961). Experience and Prediction. Illinois: The University of
Chicago Press.

KUHN, Tomas. (1998). A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Editora
Perspectiva.