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AMOR DIFÍCIL

SHADOW OF DOUBT

Caitlin Cross

Mentira, orgulho, intolerância: nada poderia destruir esse amor.

De repente a tênue chama de esperança que animava o coração torturado


de Julie ameaçou se desvanecer, ante o olhar inquiridor de Andrew Wolfe.
Em sua ânsia de se libertar da tirania da poderosa família de seu marido
morto, ela fora obrigada a mentir, a enganar, tornando-se indigna aos olhos do
único homem que realmente amava. O que mais poderia fazer? Já abrira mão
de tudo que conquistara. Teria agora de renunciar a esse novo amor,
ameaçado pela desconfiança?

Digitalização: Vicky
Revisão: Cristina Cunha
Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Leitura — a maneira mais econômica de cultura, lazer e diversão.

SHADOW OF DOUBT
Caitlin Cross

© 1987 Originalmente publicado pela Silhouette Books,


Divisão da Harlequin Enterprises Limited

AMOR DIFÍCIL
© 1988 para a língua portuguesa
EDITORA NOVA CULTURAL

Todos os direitos reservados, inclusive o direito de


reprodução total ou parcial, sob qualquer forma.

Esta edição é publicada através de contrato com a


Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá.

Silhouette, Silhouette Desire e colofão são marcas


registradas da Harlequin Enterprises B. V.

Tradução: Vera Maria Marques Martins

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.


Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 - 3.° andar
CEP 01452 - São Paulo - SP - Brasil
Caixa Postal 2372

Esta obra foi composta na Artestilo Compositora Gráfica Ltda.


e impressa na Artes Gráficas Guarú S.A.

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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

CAPÍTULO I

Encostado em um dos pilares de mármore do suntuoso salão segurando um


drinque, Andrew Wolfe sentia-se o próprio David Niven no papel de cínico elegante.
Tudo a sua volta parecia irreal. O baile de gala tinha o brilho de um filme ou a
perfeição fantasiosa de um conto de fadas, nada tendo a ver com o mundo que ele
conhecia. Mas lá estava, desempenhando sua parte no espetáculo, disfarçado em
finas roupas de noite, de modo que ninguém pudesse dizer que ele não pertencia ao
elenco. Que ironia! O advogado dos desvalidos numa festa da alta sociedade!
Por falta de algo melhor para fazer, ele observava, através das grandes portas
abertas, as pessoas que chegavam em luxuosas limusines, geralmente brancas,
pretas ou cinzentas, dirigidas por motoristas uniformizados. Alguns carros tinham
brasões dourados aplicados nas portas, indicando que os donos pertenciam a famílias
que um dia haviam recebido algum título de nobreza. Cinicamente, Andrew imaginava
quantos daqueles brasões seriam legítimos.
Os homens chegavam sozinhos ou em pequenos grupos, mas as mulheres
sempre entravam acompanhadas, segurando no braço de alguém ou compactamente
rodeadas pelos membros da família. Era engraçado, mas no decorrer dos anos que
passara longe do México, ele se esquecera de como a presença masculina era sutil
mas constante ao lado das mulheres, de como o poder da tradição era imperioso, e de
como tudo aquilo era aborrecido e pretensioso. E pensar que já se sentira à vontade
no meio daquela hipocrisia toda... Na realidade, ele nunca estivera muito envolvido,
permanecendo quase sempre do lado de fora, e talvez isso o tivesse salvado de
tornar-se um boneco enfatuado, como os homens de atitudes formais que vira chegar.
Quando já ia abandonar o posto de observação, cansado de ver sempre a mesma
coisa, notou um grupo que parecia, à primeira vista, igual a tantos outros que haviam
entrado. Um homem idoso, de ombros curvados e cabelos ralos, dava o braço a uma
mulher pouco mais nova que ele, muito emproada e de andar rígido, como se
estivesse caminhando para a própria coroação. Logo atrás vinha outro casal bem mais
jovem e, depois, uma mulher, parecendo apertada nas roupas caras, acompanhada de
um homem de aparência desdenhosa e levemente efeminada.
As seis pessoas, que Andrew comparou a um bando de gansos, pararam duras
como estátuas, enquanto as criadas lhes tiravam os agasalhos dos ombros. A cena já
se havia repetido muitas e muitas vezes naquela noite, mas, então, algo diferente
começou a acontecer. Uma das mulheres recém-chegadas mostrou-se preocupada e,
de repente, como se não pudesse mais se conter, olhou para trás e as outras pessoas
do grupo lhe acompanharam o gesto, com expressão de desgosto, desaprovação e
embaraço nos rostos. Andrew notou que o casal mais velho, apesar da pose, também
ficara na expectativa, embora tentando manter um ar desinteressado. Aquilo o
alertou. Endireitando o corpo estudou a ação que se desenrolava, com curiosidade.
Uma sutil mudança ocorria na área ao redor da porta. Embora todos
continuassem a conversar e beber, a atenção geral voltava-se para a entrada. Então,
uma mulher, envolta até os pés numa nuvem branca formada por um magnífico
casaco de pele de raposa prateada entrou, quase correndo. Parou, porém, ao
encontrar os olhares fixos nela. Andrew a observou, maravilhado, enquanto ela tirava
mechas de cabelo, cor-de-cobre antigo, que teimavam em lhe cair no rosto liso e
suave que mais parecia de porcelana.
Todo o movimento e todas as conversas ficaram em suspenso, e ela, sentindo-se
centro das atenções, mostrou-se um pouco encabulada, mas, recuperando-se,
aproximou-se do grupo.
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— Estavam esperando por mim?


A mulher que parecia espremida no vestido deu uns grunhidos mortificados de
repreensão, enquanto o casal de idade endureceu, ainda mais, o olhar e a postura.
Vários murmúrios brotavam ao redor de Andrew, que estava começando a achar a
noite divertida. Um teimoso sorriso permaneceu em seus lábios, enquanto analisava a
situação, comparando a radiosa desconhecida com os artistas que manipulam
marionetes. Ela lhe pareceu tremendamente consciente de cada movimento, como se
tudo houvesse sido cuidadosamente calculado para provocar impacto na bem-
comportada reunião.
A bela mulher deixou que a multidão se recobrasse um pouco da surpresa e,
num gesto repentino, fez o casaco lhe escorregar dos ombros e cair no chão, para
horror da empregada, que correu a recolhê-lo. Ignorando os olhares espantados e
críticos, ela se afastou do luxuoso agasalho, como se aquilo não a interessasse nem
um pouco. Andrew ia começar a rir, mas o som lhe morreu na garganta, quando ele
foi tocado pela força estonteante da presença dela. Não era apenas bela. Era
majestosa, fria e espantosamente desejável.
O vestido simples, preto, tinha decote em V e mangas longas e justas.
Acentuava a cintura delgada e depois caía até o chão, numa linha fluida que se movia
sensualmente, acompanhando os movimentos do corpo, de maneira tentadora. O
coração de Andrew começou a bater tão forte, que ele olhou ao redor, como se
alguém pudesse ter percebido sua reação, mas todos os olhares estavam fixos na
desconhecida. Para seu espanto, percebeu que eram olhares hostis, tocados de
luxúria ou inveja, e cheios de profunda censura. A mulher misteriosa aproximou-se do
grupo que a esperava de má vontade, não deixando dúvidas de que o fazia por inicia-
tiva própria, sem ser convidada.
Finalmente, o bando de gansos, como Andrew os apelidara, seguiu em frente,
reunindo a dignidade abalada e marchando para o salão de baile. Havia um brilho de
ódio e maldade nos olhos do velho, e a impressão geral era de que uma guerra fria se
desenvolvia entre aquelas pessoas. Ele apressou-se em acompanhá-los, sem tirar os
olhos daquela mulher fascinante, e viu quando ela foi instantaneamente rodeada por
vários homens jovens e solícitos, que a afastaram do grupo, puseram-lhe um drinque
nas mãos e começaram a disputar-lhe a atenção.
Sentiu um inesperado e absurdo ciúme que o surpreendeu. Era um homem que
não se deixava encantar facilmente. Orgulhava-se de ter os pés bem firmes no chão e
uma mentalidade realista. Mas ficara enlevado quando vira aquela mulher. Havia
alguma coisa nela, difícil de definir. Mesmo antes de lhe ouvir a voz ou descobrir
qualquer coisa a seu respeito, sentia uma atração quase mística, como se ela fosse a
Terra e ele, um simples corpo obedecendo à lei da gravidade.
Sentindo-se estúpido, forçou-se a desviar o olhar. A sala era um turbilhão de luz,
cor e música. Centenas de homens dançavam num rodopio de smokings e vestidos
com etiquetas de Paris, mas ele não conseguia ignorar a presença dela. Quem era
aquela mulher? Encostado na coluna, Andrew sentiu a pergunta agigantar-se em seu
cérebro, até que não conseguiu concentrar-se em mais nada, sem poder parar de
observar a figura vestida de negro com diamantes faiscando nas orelhas delicadas e
no pescoço perfeito.
O tempo parou enquanto ele a contemplava, deliciando-se com o modo sensual
com que ela movia o corpo na dança, deixando-se absorver pelo sorriso enigmático
que ela espalhava ao redor de si, encantando seus adoradores e provocando olhares
de desagrado em muitos outros espectadores. Repentinamente, a mulher rompeu o
círculo de admiradores e começou a atravessar o salão sozinha.
Ele saiu do lugar seguindo-a, procurando não perdê-la de vista, mas a voz do tio,
atrás de si, o fez parar.
— Andrew!
— Tio Ignácio! — respondeu ele, inclinando-se em sinal de respeito.
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— Está gostando do baile?


— Estou achando muito interessante. Depois de tantos anos em Nova York, já
havia me esquecido de como... — ele interrompeu-se, quase deixando escapar
palavras de ironia — como são grandiosas as festas daqui.
— Em Nova York também há festas elegantes e luxuosas, Andrew. Se não as
frequenta é porque não quer.
— Escolhi viver da maneira que mais me satisfaz, tio. — Embora detestando
intromissões em sua vida e seu modo de pensar, era melhor manter a calma,
escondendo a irritação atrás de palavras polidas.
Ignácio balançou a cabeça que começava a ficar calva, procurando um charuto
no bolso interno do smoking.
— Você e Miguel podem ser apenas primos, mas são irmãos gêmeos na maneira
de pensar. Ele tem progredido em minha firma, mas vive sonhando com você e seu
trabalho com os pobres. — Ignácio fez uma pausa, franzindo a testa ao pensar no
problema que Miguel representava. — O que há com vocês, jovens de hoje, sempre
achando que o modo antigo de fazer as coisas não é bom o bastante?
Com um suspiro de satisfação, acendeu o charuto. O sobrinho olhou-o.
— Mas parece que o trato que o senhor fez com Miguel pode ser satisfatório para
os dois, tio.
— Depois de ter vivido tantos anos sob o meu teto, você devia saber que não
sou homem de tratos.
— Mas Miguel disse...
— Sim, tive de concordar com toda aquela besteira de assistência para os
favelados, para ver se ele põe a cabeça no lugar. Um dia quando criar juízo, vai
assumir a direção da firma, ao meu lado, como tem de ser, afinal. — Ignácio sacudiu
a cabeça no gesto universal de incredulidade paternal. — Miguel tem uma posição de
destaque como promotor do condado. É um homem de influência e autoridade, tendo
como obrigação ficar lá. O lugar dele não é em favelas, mexendo com processos a
respeito de roubos de galinhas ou aluguel de barracos.
Apesar de todas as promessas que fizera a si mesmo de não brigar com o tio
naquela viagem, era impossível ficar calado.
— Favela é lugar de quem, tio?
— De quem não tem outra escolha. De homens e mulheres que foram
destinados, desde o nascimento, a ocupar um lugar humilde na sociedade. Você e
Miguel estão interferindo no destino daquelas pessoas, com o auxílio legal que lhes
dão. Estão mexendo na ordem natural das coisas. — Ignácio fez uma pausa, indeciso
se deveria continuar mordendo o charuto. — Você ainda tem alguma desculpa, mas o
comportamento do meu filho é imperdoável.
— Como de costume, tio, não concordo com o senhor.
— Ah, Andrew! — disse Ignácio com uma piscadela. — Você agora modera as
palavras. Acredito que mandá-lo para a universidade ajudou muito a esfriar aquele
seu temperamento quente e explosivo. Não quer abandonar de vez suas manias in-
fantis? Lembre-se de que eu poderia facilitar muito sua entrada numa firma de
advocacia de primeira classe.
— Mesmo que eu quisesse esquecer sua influência o senhor não permitiria, não
é?
Ignácio deu uma risadinha.
— É, você mudou mesmo. Agora ficou irônico. Pena que não tive tempo para
gozar sua companhia nessas duas últimas semanas. Miguel me disse que você
terminou o que veio fazer aqui e que logo vai nos deixar.
— Sim. Amanhã. Acho que Miguel está no caminho certo. Ajudei-o em tudo o que
pude, agora o resto é com ele. Tem muito trabalho pela frente, mas parece
determinado a ter sucesso.

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— Bem, vamos ver quanto tempo ele vai aguentar trabalhando na sujeira. Se
isso é ter sucesso...
Andrew teve de rir.
— Se não me engano, tio, foi isso mesmo que disse a meu respeito, alguns anos
atrás.
Ignácio fixou o sobrinho com seus olhos de um castanho carregado.
— Mas agora é diferente. Meu filho nasceu em berço de ouro, enquanto você...
você teve tempo de se endurecer sofrendo quando criança.
— Talvez tenha razão, mas eu não menosprezaria Miguel. Ele pode surpreendê-
lo.
— Agora chega de conversa séria, Andrew. Isso é um baile, um divertimento.
Não obriguei você a vestir um smoking de Miguel e reunir-se a nós para que se
aborrecesse. Quero que aprecie a festa e se distraia. — Ignácio ergueu o charuto e
aspirou a fumaça. — Charuto finíssimo. Cubano. Eu não devia estar fumando aqui,
mas estava a caminho do salão de fumar quando o vi. Miguel e vários outros
advogados estarão lá. Quer ir também?
— Não, tio, obrigado. Deixei de fumar e, além disso, achei um divertimento
muito bom por aqui. Estou observando uma mulher mais interessante que qualquer
conversa sobre leis.
Ignácio ergueu as sobrancelhas arregalando os olhos.
— É mesmo? Sua tia vai adorar quando souber disso. Seu maior desejo é ver o
filho da irmã casado e sossegado na vida.
Andrew riu.
— Eu não estava pretendendo fazer nenhum pedido de casamento. Mas estou
adorando olhar para aquela mulher.
— Posso saber quem é essa criatura?
Andrew olhou em volta da sala, erguendo-se ligeiramente nos pés, para
aumentar o campo de visão que sua altura de um metro e noventa lhe permitia
dominar.
— Receio que ela tenha me escapado, no momento, mas é impossível não notá-
la. É alta e esbelta, de pele clara, acentuada pelo vestido preto.
— Uma mulher de luto num baile?
— Não acredito que ela esteja de luto. Pareceu-me muito... hã... festiva.
— Mas uma mulher jovem, de vestido preto, é bem esquisito.
— E tem mais. Veio desacompanhada.
As sobrancelhas de Ignácio ergueram-se em perplexidade.
— Quem se comportaria dessa forma? Onde estaria o marido ou o pai dessa
mulher?
— Não sei, tio. Fiquei intrigado ao vê-la chegar sozinha porque acredito que as
regras sociais referentes às mulheres não mudaram tanto assim aqui no México.
— Você disse alta e de pele clara? — Andrew fez um gesto afirmativo. — Pode
ser alguma europeia em visita a parentes, e que não conhece nossos costumes.
— Não foi a impressão que tive. Aliás, acho que ela está se divertindo em causar
escândalo, quebrando todas as regras.
— Espere. Acho que sei quem é. Ela juntou-se a algum grupo?
— Sim. Com aquele, tio. Olhe para a terceira mesa à esquerda. Está vendo um
homem e uma mulher de idade e dois casais mais jovens?
Ignácio pigarreou.
— Aqueles são o señor Victoriano Velasco, sua esposa, as duas filhas e os
genros. Aquela família é uma das mais antigas e nobres do México.
Andrew queria saber sobre a mulher e insistiu mesmo sentindo-se tolo.
— Bem... quem é a mulher que se juntou a eles?
— É a nora, viúva do filho mais jovem, e tornou-se a vergonha da família. Um
trágico exemplo do que acontece quando os jovens não ouvem os conselhos dos pais.
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Estando ansioso para ouvir mais, porém precisando refrear a curiosidade que o
tio poderia achar excessiva, provocou uma explicação.
— Que situação esquisita. Por que eles não a devolvem à família?
— Ela não tem família. — Temendo que alguém ouvisse a conversa, Ignácio
olhou em volta e baixou a voz para um tom confidencial. — O filho dos Velasco, Paulo,
trouxe-a dos Estados Unidos. Ela era apenas uma órfã, que se casou com ele por
causa do nome e do dinheiro, é claro.
Andrew chegou a abrir a boca para responder, mas desistiu. O que adiantava
tentar convencer o tio de que, nos Estados Unidos, pouca gente se importava com
tradição, nome e sangue nobre? Ele sabia que procurar mudar a mentalidade de
Ignácio era a mesma coisa que lutar contra moinhos de vento, como Don Quixote.
Continuou a ouvir os conceitos ultrapassados.
— A honra dos Velasco não sofreria nada se eles mandassem uma nora tão
inadequada embora. Poderiam fazê-la voltar para seu país, dando-lhe, é claro, uma
boa mesada. O caráter duvidoso dessa moça tem ficado bem evidente nos últimos
meses. Ninguém os censuraria. — Ignácio balançou a cabeça, pensativo, antes de
continuar a falar. — Mas as coisas nunca são como a gente quer. Há uma criança
envolvida nessa história toda. O bebê é o último homem da linhagem, e eles toleram
a mulher por causa do neto. Não é uma mãe maravilhosa, mas é a mãe, e o menino
precisa dela.
Andrew olhou novamente o salão vibrante de beleza e ostentação, à procura da
bela viúva, mas em vez dela viu o primo, que se aproximava.
— O que estão fazendo aí? Cansamos de esperar por vocês dois no salão de
fumar.
— Andrew não vai juntar-se a nós, hijo. Ele está muito ocupado, olhando para a
nora dos Velasco.
— Hã... Julie Velasco, hein? — Miguel deu uma risadinha maliciosa.
— Só estou olhando, primo — respondeu Andrew, sorrindo.
— E ela é um bom pedaço para se olhar — comentou Miguel, baixando a voz em
tom conspiratório. — Ouvi dizer que é muito “compreensiva”. Se quiser, posso
apresentá-lo a ela. Seus modos americanos a agradariam, com certeza.
— Não, obrigado. Ela é demais para a minha cabeça. Estou apenas me
divertindo, assistindo aos pequenos dramas que se desenvolvem ao redor dela, e aos
quais permanece alheia.
— Ela é um símbolo, Andrew.
Lá vinha o primo com suas considerações intelectuais.
— Sim, tem razão. Ela é uma paródia, um símbolo de uma sociedade decadente,
dissoluta e hipócrita.
O rosto de Miguel brilhou de entusiasmo, mas Ignácio não o deixou responder.
— Vocês falam por enigmas. Por que têm sempre de complicar tudo? Nunca
posso ter certeza sobre o que estão pensando, se falam sério ou estão brincando.
— O que Andrew está pensando, papai, é que, mesmo numa reunião pomposa e
frívola como esta, Julie Velasco ergue-se como um símbolo da decadência social e que
sua presença...
— Está bem, está bem — Andrew interrompeu o primo. — Acho melhor calarmos
a boca, antes que pensem em nos linchar.
Ignácio lançou um olhar grato ao sobrinho antes de fazer um sermão a Miguel.
— Você sempre seguiu o exemplo do seu primo, filho. Siga esse também. Ele
está lhe mostrando que se deve conter o idealismo e medir as palavras.
Miguel olhou desapontado para o primo e Andrew viu-lhe o ar contrariado de
jovem mimado e imaturo. Miguel ainda tinha muito a aprender, mas pelo menos
possuía mentalidade aberta, pronta a seguir novos caminhos.
— Divirta-se! — sugeriu Andrew ao primo. — Afinal, este é seu acontecimento
social favorito e só acontece uma vez por ano.
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Ignácio tomou o braço do filho.


— Chega de conversa e vamos para o salão de fumar. Os havanas nos esperam.
Andrew observou os dois homens sumirem no meio da multidão, sorrindo,
divertido com o entusiasmo do primo. Miguel queria muito lutar pela justiça social,
mas gostava demais dos prazeres que a riqueza e a posição social lhe
proporcionavam. Ele nem percebia que seu amor pelos charutos caros e pelos velozes
carros esportivos não condizia com a imagem de lutador que fazia de si mesmo.
O pensamento de Andrew voltou à mulher que o atraíra tanto. Onde estaria ela,
a vergonha da família Velasco? Julie. O que estaria fazendo? Metendo-se em alguma
confusão? O tio lhe havia dito que ela era americana e que não possuía uma família. O
casamento milionário devia ter-lhe parecido um conto de fadas e a repentina riqueza
subira-lhe à cabeça deixando-a mimada e inconsequente.
Andrew começou a andar na direção que a vira tomar, procurando-a, mas sem
sucesso. Teria ido ao toalete? Por fim, decidido a fugir do bulício da festa, ele entrou
no grande vestíbulo e sentou-se num dos bancos forrados de veludo púrpura, de
encostos com entalhes dourados, que estavam colocados ao longo das paredes.
Mulheres passavam comentando os trajes das outras. Homens conversavam, sentados
nos longos bancos ou em pé, formando grupos. Se Julie tivesse ido ao toalete, teria
de passar por ali ao voltar, porém quinze minutos se passaram e não houve sinal
dela. Ele observou que alguns jovens casais se dirigiam à biblioteca, sempre
acompanhados de alguma pessoa mais velha. Aparentemente aquele lugar era
aprovado pelos namorados. A porta do salão de fumar abria-se e fechava-se
constantemente e homens das mais variadas idades entravam e saíam. Viu os
empregados, mulheres vestidas de negro com aventais brancos, engomados, e
homens de ternos pretos e camisas brancas, num eterno vaivém, carregando
bandejas, suprindo o enorme buffet constantemente.
Subitamente, tudo aquilo pareceu pesar-lhe nos ombros, nada mais era divertido
ou interessante. Todo aquele brilho e luxo, todas as regras e cerimônias nada tinham
a ver com ele, que estava cansado de fingir. Naquela manhã tinha visitado as favelas
e visto pessoas morando sobre canais de água parada, em barracos precários,
crianças subnutridas brincando perto de monturos de lixo. E aquelas crianças eram
doentes, famintas e tinham olhos desesperados. Mas aquelas massas indigentes não
existiam para as pessoas daquela festa. Aqueles filhos da velha sociedade tradicional
achavam que a humanidade se limitava aos que possuíam títulos e dinheiro. Estavam
ocupados demais, pensando em propriedades, tradição e roupas de alta costura, para
se preocuparem com a pobreza.
Num dos extremos do vestíbulo havia portas que atraíam Andrew. Levantou-se e
andou para lá, desejando sossego e ar puro. Saiu, cautelosamente, incerto sobre onde
iria parar. Para seu alívio viu-se num terraço deserto, enorme, com escadas que
levavam a um jardim bem planejado e perfeitamente limpo. A noite estava bastante
fria e ele duvidava de que seria perturbado ali ao ar livre. Os sons do baile chegavam
abafados até ele, enquanto andava para um canto do terraço e sentava-se num
banco. Olhou para a escuridão de um céu sem lua e sem estrelas e sentiu-se
dominado pela noite, a quilômetros de distância da festa e de seus participantes.
Ouviu-se o ruído da porta abrindo e fechando novamente. Ergueu a cabeça e
olhou atentamente, querendo ver quem chegava para lhe fazer companhia. Quase não
a viu. O vestido negro misturava-se com as sombras e ela andava rapidamente com
decisão, como se estivesse com medo. Os diamantes brilhavam à luz tênue. Era Julie
Velasco. Caminhava de um lado para outro e ele percebeu que, de onde estava, ela
não podia vê-lo. Se dissesse algo poderia assustá-la, e o que diria?
Ela provavelmente queria apenas um pouco de ar fresco e solidão, e não a
presença de um estranho. Além disso, não poderia ficar ali fora muito tempo. Acabaria
congelando, naquele vestido fino. A porta foi aberta e fechada novamente. Por um
instante Andrew pensou que ela tivesse entrado, mas então viu o homem. Por que
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não adivinhara que ela estava esperando alguém? Aquele era o cenário perfeito para
um encontro clandestino. Ele procurou uma saída, mas não havia jeito de escapar dali
sem ser visto. Sentiu-se culpado e desconfortável, mas feliz mente os dois falavam
baixinho, de modo que não precisava ouvir o que diziam. Não queria ser indiscreto.
Julie e o outro homem começaram a andar e ao passarem pela porta a luz caiu
sobre eles e Andrew pode vê-la, com os braços cruzados sobre o peito, numa atitude
mais defensiva do que romântica.
— Isso não basta!
A voz do homem chegou imperiosa aos ouvidos de Andrew. Prestou atenção à
figura masculina e, para seu espanto, percebeu que o acompanhante de Julie não era
um convidado, mas um dos criados. A viúva, causadora de boatos e escândalos,
envolvia-se também com criados? Ela disse algumas palavras em voz baixa e o
homem riu sarcasticamente.
— ... quiser mais... custar mais... perigoso.
— Não tenho dinheiro comigo — ela gritou, correndo para a porta.
O homem foi atrás dela e a alcançou, fazendo com que Andrew rilhasse os
dentes e apertasse as mãos, controlando-se para não interferir. O criado agarrou-a
num abraço rude e colou os lábios aos dela. Não podendo mais conter-se, Andrew
dirigiu-se para eles vendo Julie afastar o homem com violência. Ainda estava
escondido pelas plantas, não podendo ser visto pelos protagonistas da cena.
— Tome! — ela disse, arrancando um bracelete faiscante e entregando-o ao
homem. — Agora me dê!
O criado colocou a mão no bolso interno do paletó, tirou um envelope branco e
jogou-o no chão, aos pés dela. Julie, ansiosa, curvou-se para apanhá-lo. O homem
cuspiu desdenhosamente.
— Pegue, sua imunda. Acha que não sou bom o bastante para você, não é? Mas
sei bem que tipo de mulher é. Os homens falam muito, eu sei de tudo.
Julie ergueu-se, segurando o envelope, enquanto o homem entrava novamente,
batendo a porta. Levantou a saia, revelando pernas longas e bem-torneadas. Andrew
ficou de boca aberta, imaginando o que mais lhe faltaria ver. Ela lutava com as
roupas, procurando um modo de esconder o envelope. Chegava a ser cômico, e ele
precisou controlar-se para não rir. Finalmente, ela pareceu satisfeita ao conseguir
colocar seu segredo dentro da meia-calça. Baixou o vestido e alisou-o com as mãos,
olhando-se para ver se nada de anormal se notava.
Quando voltou para dentro, para alívio de Andrew, ele resolveu esperar mais um
pouco antes de entrar também. Caminhou até a amurada do terraço que dava para o
jardim, pensando no que vira, chamando a bela Julie de tola por entrar em situações
como aquela. Depois de ficar um pouco por ali, olhando para as sombras que
envolviam o jardim logo abaixo, voltou para o vestíbulo bem decorado. Ela não estava
lá e ele desejou poder partir, sem vê-la novamente, envergonhado pela espionagem
involuntária, preocupado e triste pelo episódio infeliz a que havia assistido.
Julie Velasco simbolizava realmente tudo o que ele detestava, tudo o que havia
sempre combatido. Ela era uma daquelas mulheres ricas, egoístas e insensíveis.
Pertencia à classe das pessoas belas e sem objetivo. E o fato de ela pertencer àquele
meio sem ter nascido nele, de conhecer as dificuldades dos pobres e ser tão fútil, o
deixava enraivecido.
— Andrew! — Ele virou-se para ver quem o chamava. Ignácio e Miguel estavam
parados na porta do salão com dois outros homens, olhando para ele, intrigados. — O
que deu em você? Parece um sonâmbulo! Passou por nós sem nos ver.
— Desculpem. Acho que estava muito distraído.
— Bem, então... — Ignácio começou — é melhor voltarmos para junto de sua tia
e procurar duas jovens para que você e Miguel possam dançar.
Andrew balançou a cabeça, num gesto negativo.
— Esta noite não, tio. Estou muito cansado e preciso levantar cedo. Estava
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justamente procurando vocês para me despedir.


Polidamente ouviu os protestos do tio e do primo e dirigiu-se para o salão de
baile, a fim de dizer boa-noite à tia. Repentinamente, a porta do toalete das senhoras
se abriu e Julie Velasco saiu depressa, passando tão perto dele que seu perfume o
atingiu, deliciando-o. Teve tempo de ver-lhe os olhos que pensara serem negros, mas
que na realidade eram de um azul muito escuro ou talvez cinzentos. Ela mal o notou,
parecendo mesmo ter olhado para ele sem nada ver. Porém, aquele olhar casual, que
durara uma fração de segundo, o deixara incompreensivelmente perturbado.
— Julie! — dois homens a chamaram. — Estamos procurando por você.
Ela parou e permitiu que eles a alcançassem, deixando Andrew pasmado com a
mudança que se operava nela. Quase que por um passe de mágica, o andar tomou-se
sensual, o riso surgiu alto e cristalino. Mas aquilo tinha mais a aparência de auto-
defesa do que tentativa de sedução. A voz, quando ela falou, soou baixa e gutural.
— Quero dançar.
Os homens que a acompanhavam quase tropeçaram um no outro, no desespero
de acercarem-se dela. O ar tornou-se sufocante e opressivo. Não era possível ficar ali
nem mais um minuto. Andrew resolveu sair sem nem mesmo despedir-se da tia,
parando apenas para pegar o sobretudo na recepção. Porém, mesmo no ar fresco da
noite, depois de ter escapado do ambiente desagradável, a imagem de Julie o
perseguia.
Tomou um táxi e, no aconchego do banco traseiro, sozinho com seus
pensamentos, via a cena que o abalara tanto: uma elegante mulher abaixando-se
para apanhar um envelope do chão, humilhada.

CAPÍTULO II

Julie teve de respirar fundo antes de decidir-se a enfrentar a família reunida para
o café da manhã. Parou em frente ao espelho de corpo inteiro e estudou a própria
imagem. Viu o reflexo de uma mulher feroz, capaz de qualquer coisa, egoísta e
vingativa, escondida sob a aparência de calma imperturbável. Ergueu a mão e tapou o
rosto que via refletido. Odiava aquela mulher que usava seu corpo; no entanto, não
era ela. Saiu da frente do espelho, pensando nas pessoas que a esperavam. Precisava
desempenhar seu papel como uma atriz consumada, esconder a Julie real e mostrar
um rosto de sarcasmo sorridente que escondesse a mágoa. Deixou o quarto e
atravessou o corredor, olhando rapidamente para o quarto do bebê. Não havia
emoção naquele olhar, apenas queria saber se a babá já havia levado Tony para
baixo. Parou por um momento no topo da larga escadaria em espiral. Lá embaixo,
uma das criadas limpava o grande espelho que dominava o vestíbulo.
O nome da criada era Rosa. Sofria da coluna e tinha um marido doente, mas
Julie não podia permitir-se pensar nas misérias alheias. Não podia fraquejar, estragar
a imagem de si mesma que havia construído. Ignorou-a ao passar. Até a casa
parecia-lhe hostil e ela a odiava, assim como odiava a pretensiosa decoração cheia de
luxo e frieza. Era ali que a família, por sucessivas gerações, vivera, ao passar
semanas ou meses na cidade. Nunca ninguém se atrevera a mudar nada.
Tradição. Mesmice. História. Ela estava enjoada de tudo aquilo.
Entrou na sala de refeições inundada pelo sol, com a bolsa, mais pesada que o
normal, descuidadamente pendurada no ombro e a sugestão de um sorriso brincando
nos cantos dos lábios. Aquela seria sua última refeição à mesa dos Velasco. Uma
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alegria enorme a invadiu, ao pensar que logo não precisaria mais ver aqueles rostos
rígidos e gelados ao seu redor. A sogra, Letizia, a olhou friamente.

— Finalmente! Coma depressa, por favor. Logo em seguida sairemos para ir ao


costureiro.
Julie acomodou-se na cadeira que sempre ocupava, ao lado de Christina, a única
que a agradava naquela casa.
— Oh, estou atrasada!
Ninguém respondeu, mas todos a olharam com censura. Era a costumeira
reunião familiar. Todo mundo parecendo cansado, testas franzidas e rostos fechados.
Numa das pontas da mesa posta com toda formalidade sentava-se o señor
Victoriano Velasco, em sua cadeira grande e imponente de chefe do clã. Parecia
menor do que realmente era, perdido na imensidão daquele trono. Pouco falava às
refeições, aparentando estar distante dali, entregue às suas reflexões. Quando, muito
raramente, conversava, os assuntos eram sempre os mesmos. A coleção de selos e os
cães de caça eram sua única paixão e seu eterno tema. No lado oposto, na outra
ponta da mesa, sentava-se a señora Letizia, que dirigia os movimentos da criadagem
com o olhar, sem jamais erguer a voz. Era uma mulher autoritária que controlava até
o ar que a família respirava. Nada lhe escapava. As primeiras refeições de Julie ao
redor daquela mesa haviam sido pontilhadas de observações do tipo “não fale com os
criados quando está sendo servida”, “mostrar apetite é uma falta de classe
imperdoável”, “rir alto é vulgar”. Letizia dizia compreender a falta de boas maneiras
da nora, pois viera do nada. Depois, quando alguma falta era cometida, ela a
admoestava por ainda não ter aprendido. Naquele momento, em um dos lados da
mesa, sentavam-se Tereza e Mariano, e do outro, Christina, sem o marido.
Julie estava silenciosa enquanto a copeira a servia. Tereza observou-a com um
olhar de cobra pronta a dar o bote.
— Conseguiu levantar-se, afinal. Eu poderia jurar que, depois de toda bebida que
ingeriu ontem à noite, você ficaria na cama o dia todo.
Os ataques de Tereza não mais a feriam. Estava acostumada àquele rancor
mesclado de inveja, que aumentara tremendamente depois do nascimento de Tony. O
que antes aparentara ser indiferença total, transformara-se num ódio absorvente e
constante. Tereza daria tudo para merecer as atenções da mãe, e para que ela
apreciasse seu apagado marido e as cinco filhinhas. Porém, Letizia continuava
intocável. Era a maior protetora do nome Velasco, mais guardiã da linhagem e da
tradição do que esposa ou mãe. As filhas não tinham valor, por não poderem levar o
nome da família adiante. Tereza casara-se com Mariano Díaz, descendente de antiga
linha aristocrática, mas de situação financeira duvidosa. Tiveram cinco meninas e, no
quinto parto, uma complicação exigira uma histerectomia, o que pusera fim às
aspirações de terem um filho, pois um neto era o maior desejo de Letizia.
Quando o filho de Paulo e Julie nascera, a avó tivera uma reação dramática,
quase bíblica. Erguera o menino nas mãos como que o apresentando aos céus e
declarara, com imenso orgulho, que o nome Velasco permaneceria. A partir daquele
momento, Julie tornara-se alvo do ódio da cunhada; mas mesmo aquilo caíra na
rotina, naquele ambiente frio e destrutivo.
— Pois é... — Tereza tornou a provocar — depois de todo aquele álcool...
A copeira abaixou-se para apanhar a bolsa que Julie colocara no chão, ao lado da
cadeira e foi surpreendida pela reação feroz que provocou. Julie bateu-lhe nas mãos,
fazendo-a largar as alças.
— Não! Não toque nessa bolsa. — A família inteira calou-se, chocada. Como
pudera perder o controle daquele modo? Não podia deixá-los desconfiar que a bolsa
continha valores que lhe permitiriam iniciar uma nova vida. Precisava explicar, de
alguma forma, sua atitude brusca. — Não se preocupe com a bolsa — ela disse à
empregada. — Vamos sair logo, deixe-a onde está. Peça a Rosa para tirar meu casaco
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de marta do armário, por favor. — Tocou as têmporas com os dedos, dando a


entender que estava com dor de cabeça, e que aquilo a estava pondo nervosa. —
Acho que não estou muito bem hoje, realmente.
Tereza e Mariano olharam-na com desdém. O señor demonstrou impaciência e a
sogra torceu a boca com desagrado, mas Christina olhou-a preocupada.
A criada retirou o prato que Julie deixara quase intato, na pressa de acabar logo
com aquilo, antes que a família desconfiasse do que pretendia fazer. Ainda bem que
Juan, com seus olhos de rato, que lhe seguiam todos os movimentos, não estava ali.
Ele a punha nervosa, como se pudesse ler seus pensamentos. Por que não estava
presente ao café da manhã? Já por várias vezes ausentara-se durante a noite também
e Christina tentara desculpar o marido, explicando que ele estivera tratando de
assuntos do governo e que não pudera respeitar os horários, mas nunca conseguira
enganar a ninguém. Todos sabiam que o cargo de Juan Arista era completamente
inexpressivo e que fora conseguido apenas graças à influência do sogro. Seu trabalho
limitava-se à redação de avisos a serem postos em parques e outros locais públicos e
advertências sobre o que fazer em caso de terremoto. Ele gostava de brincar de
político, mas seu emprego real era na própria família, onde cuidava da contabilidade.
A princípio, Julie achara muito interessante a diferença entre os dois genros dos
Velasco. Enquanto Mariano contentava-se em viver encostado em seu inútil título nas
posses do sogro, Juan era ambicioso, desejando posição e autoridade. Porém, até
aquilo deixara de ser divertido, porque Mariano era um esnobe antipático, e Juan,
despeitado e cruel, sendo até perigoso em sua frieza e falta de princípios. Christina
havia avisado Julie, uma vez, que o marido desejava imensamente que ela fosse
embora, que saísse da família, até mesmo pressionando Letizia com histórias
maledicentes. A cunhada lhe sugerira que fosse visitar a irmã, nos Estados Unidos,
deixando o bebê, para ver se a implicância de Juan diminuía, mas ela sabia que aquilo
não aconteceria, que eles todos ficariam ainda mais desejosos de mantê-la a distância
e tomar posse da tutela de Tony. Pobre, querida Christina. Sempre leal e preocupada.
Uma porção de abortos e uma vida conjugal infeliz a haviam deixado cansada e
envelhecida antes do tempo, mas era a única que possuía sentimentos profundos e
uma natureza carinhosa. Se pudesse levá-la... Não! Nada de fraquezas. O plano, para
funcionar, exigia frieza, determinação e eficiência. A cunhada havia caído numa
armadilha ao casar-se, mas não abandonaria o cativeiro, mesmo que tivesse
oportunidade. Era como um pássaro que não podia viver em liberdade. A gaiola
dourada onde vivia era tudo que conhecia. Continuaria ali, uma filha cumpridora dos
deveres, apesar de a própria mãe vê-la como um objeto inútil. Não pudera atrair
pretendentes, casando-se com Juan por arranjo entre as famílias. Não conseguia
desempenhar a mais elementar das funções femininas, ter filhos, abortando
constantemente, nem sabia como manter o marido perto de si.
Não havia esperança para Christina. Divórcio era algo impensável, escandaloso,
tinha mesmo de viver amarrada a um homem que não amava e que a fazia sentir-se
culpada por não ter tido os filhos que desejava. Olhando para a cunhada, Julie viu-a
sorrir. Era sempre assim, quando Juan estava ausente. O sorriso aparecia com mais
frequência e ela aparentava estar relaxada e calma, longe do olhar astuto e do rosto
antipático do marido. Seria possível que ela nunca tivesse sentido a tentação de dar-
lhe um tiro, estrangulá-lo ou sabotar-lhe o carro? Não. Jamais esses pensamentos
passariam pela cabeça da resignada Christina.
As portas de vaivém que ligavam a sala de refeições à cozinha foram mantidas
abertas, enquanto a copeira levava os pratos usados, e podiam-se ver as cinco
filhinhas de Tereza sentadas à volta da mesa das crianças, mas a cadeira alta de Tony
estava vazia, e nem a babá era vista. Onde estaria o bebê? O coração de Julie saltou,
mas ela procurou manter-se calma, convidando as outras mulheres a saírem, como se
não tivesse sido ela a atrasar a partida.
— Estão todas prontas?
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— Sim — Letizia respondeu secamente.


Ela não podia perguntar por Tony diretamente, sem despertar estranheza.
— Caberemos todos na limusine? Nós, as babás e as crianças?
— Vamos usar o carro de Mariano também — esclareceu Letizia.
— Ainda bem. Não daria para tolerar o choro de Tony o caminho todo.
— Pode ficar tranquila. O bebê não vai. — A sogra olhou-a com censura. — Está
espirrando muito e tem um pouquinho de febre.
O bebê não iria! Ela olhou para o tampo da mesa, pensando desesperadamente
numa saída. Todos os planos, todas as esperanças não podiam ir simplesmente por
água abaixo.
— Mas se íamos ao estilista para ver roupas para as meninas e Tony também...
— Já lhe disse mais de mil vezes para chamá-lo de Antônio — Letizia a corrigiu,
com raiva. — Apelidos são vulgares. Veremos roupas para as meninas e Antônio irá
outro dia. — Letizia estreitou os olhos, examinando a nora com sarcasmo. — Por que
esse interesse repentino no guarda-roupa da criança?
— Não é isso. Além do quê, jamais ouvi falar em costureiros para bebês. Roupas
finas, quando daqui a pouco ele estará rolando no chão e se sujando todo?
Enquanto falava, Julie tentava recobrar a presença de espírito e manter a calma,
tinha que ser naquele dia. Os planos estavam todos feitos. Levaria semanas ou até
meses, antes que tudo pudesse ser planejado novamente. Não podia estragar tudo o
que conseguira, tudo o que tivera de passar ao tratar com aquele homem nojento.
Lutou contra o pânico que a impedia de pensar direito. A família voltaria para a
fazenda, nos confins do mundo, dentro de quinze dias. Os criados empacotariam os
objetos de uso pessoal e roupas, e a casa da cidade ficaria fechada por mais uma
temporada, com a mobília coberta e os lustres envolvidos em sacos de pano fino.
Letizia havia resolvido sair da cidade mais cedo naquele ano, mas ninguém ousara
reclamar. Em breve embarcariam em helicópteros e seriam levados para centenas de
quilômetros de distância, para um lugar de estradas poeirentas, onde não havia
telefone, televisão, táxis, e muito menos aeroportos. Para uma terra onde a hacienda
se espalhava cada vez mais, para uma enorme casa incrustada como um castelo no
meio de um reino, onde pessoas e animais eram mantidos em cativeiro, sob o pulso
de ferro dos Velasco. Ficar mais alguns meses na fazenda seria de enlouquecer, ou
até de fraquejar, a ponto de aceitar o domínio dos sogros, o que a tornaria igual a
Tereza ou Christina. Não. Tinha de ser como havia sido planejado. Naquele dia.
Lentamente, como num pesadelo, Julie ergueu-se da mesa com os outros,
seguindo Letizia. Deixou que a criada lhe vestisse o casaco, de marta. Agasalhos de
pele chegavam a ser ridículos num clima ameno como aquele da Cidade do México,
mas era elegante. Naquele dia, ela devia agradecer por ser obrigada a usar o casaco
sufocante. Havia propositadamente escolhido o de marta por ser o mais caro que
possuía. Até aquilo fora planejado.

O salão exclusivo, no estabelecimento do costureiro famoso, estava pronto para


receber as mulheres da família Velasco. Um porteiro uniformizado levou-as para
dentro e algumas moças lhes tiraram os casacos, fazendo-as sentar em cadeiras
forradas de brocado e servindo vinho em finíssimos copos de cristal. Cada uma das
mulheres recebeu uma caneta de ouro e um bloco encadernado em couro para anotar
as roupas que escolhessem. As crianças foram levadas para outro lugar, onde
algumas pessoas se encarregariam de diverti-las. O costureiro entrou e apresentou-
se, dando início ao desfile. Examinando o ambiente, Julie sentiu o coração pesar no
peito, como uma pedra. Imaginara que o salão fosse maior e que estivesse cheio, de
modo que pudesse sair facilmente enquanto as cunhadas e a sogra, distraídas,
examinassem os modelos. Mas nada estava dando certo. Sentiu-se amedrontada e
quase desesperada ao medir a tarefa que se propusera realizar sozinha. Sozinha.
Solidão. Aquela fora a tônica de sua vida, que a perseguira na infância, que a
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fizera casar-se com Paulo e depois entregar-se à tirania dos Velasco. Tinha que
aprender a lutar, a sentir-se autossuficiente, a não deixar que o mundo fizesse o que
bem entendesse com ela.
— Julie! — Christina chamou-a, tirando-a dos pensamentos desanimadores.
— Sim?
— Não está gostando do desfile? Está se sentindo mal?
As palavras da cunhada deram-lhe uma ideia.
— Eu, bem... estou me sentindo um pouco esquisita.
— Oh, querida! Espero que não seja nada de grave.
Tinha de sair dali. Não era mais criança. Era mulher e mãe, era forte, e nada a
impediria de fugir e levar Tony consigo. Christina olhou-a novamente, preocupada.
— Você está muito pálida. Está com náuseas?
Era mesmo para rir. Até Christina participava do medo da família de que ela
ficasse grávida. Como eles achavam que aquilo poderia ser possível era um mistério,
já que ia a todos os lugares acompanhada, e era constantemente vigiada. Na fazenda,
não lhe era permitido nem mesmo cavalgar ou andar um pouco sozinha. O estúpido
conceito de que as mulheres deviam ter sempre um acompanhante era levado ao
extremo no que se referia a ela, a nora sem juízo. Para ser uma prisioneira só faltava
que lhe colocassem algemas nos pulsos.
— Não, Christina. Acho que Tereza estava certa sobre o álcool. Devo mesmo ter
bebido demais ontem à noite. — Era uma mentira deslavada. Tomara apenas dois
drinques aguados, mas precisava de uma desculpa para o súbito mal-estar. — Sinto
muito estragar tudo e sei que a señora Letizia vai ficar furiosa comigo, mas estou me
sentindo cada vez pior.
— Madre de Dios!
Em seu nervosismo, Christina apelara para a língua nativa, mais dramática e
forte, em sua opinião, do que o inglês. Letizia fulminou-as com o olhar, do outro lado
da sala.
— Vocês duas estão prestando atenção?
— Oh, sim, mãe. Estamos apenas conferindo as escolhas.
Julie concordou, com um gesto, reforçando a explicação da cunhada. Mais
modelos adultos e infantis desfilaram pela passarela. Mais vinho e café foram
servidos. O plano tomava forma e, quando o desfile terminou, ela sabia exatamente o
que fazer e como. O suspeito sotaque francês do costureiro acentuou-se quando ele
se dirigiu a Letizia.
— O almoço será servido em quinze minutos, madame.
A sala, de repente, fervilhou de atividade. As mulheres levantaram-se e
começaram a conferir as anotações. Empregados entravam e saíam, servindo
refrescos, aperitivos e pequenos salgadinhos. O costureiro, os ajudantes e a
secretária, juntaram-se ao movimento, numa atenção quase servil para com as ricas
clientes. Uma das empregadas explicava a cada uma delas, discretamente, onde
ficava o toalete. Letizia e Tereza logo encaminharam-se para o corredor indicado e
Christina fez menção de segui-las, mas Julie a segurou pelo braço.
— Quantos modelos você escolheu?
— Doze. E você?
— Dez.
— Espero que se sinta melhor depois do almoço. Vamos ter de esperar muito até
que os modelos sejam escolhidos definitivamente e experimentados.
— Acho que vou melhorar, sim.
Ficaram conversando até que Letizia e Tereza voltaram do toalete. Só então Julie
decidiu-se a ir até lá.
— Vamos ao banheiro, Christina?
Até ali, tudo ia bem, mas o nervosismo ameaçava fazer os joelhos dobrarem,
enquanto acompanhava a cunhada pelo longo corredor cheio de portas. Sim, o plano
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era viável. Entraram no toalete luxuoso e Julie prosseguiu com a encenação, levando
uma das mãos à cabeça e a outra ao estômago, enquanto se encostava a uma das
paredes espelhadas.
— Você está bem? — Christina perguntou, assustada.
— Não muito.
A cunhada apresentou-lhe uma toalha molhada que ela esfregou na testa e na
nuca. Começou a tremer, mas não era fingimento. Seu estado de excitação e
nervosismo a ajudaram na representação. Christina pareceu alarmada.
— Vou levá-la para casa. Podem nos mandar os vestidos depois, para que os
experimentemos.
Não. Não era isso que ela queria. Precisava ficar sozinha, e em casa haveria um
batalhão de criados ao redor dela.
— Obrigada, Christina, mas não é necessário. Sua mãe ficaria uma fúria.
— O que vai fazer, então?
— Vou tratar de passar o resto da tarde da melhor forma possível. Ninguém
perceberá nada.
— Mas, como...
— Acho que conseguirei, se você me ajudar.
— Claro que ajudarei, mas de que modo?
Sem poder olhar Christina de frente, envergonhada por estar usando sua
bondade e confiança, ela colocou a toalha molhada sobre o balcão de granito e
aproximou-se de uma das pias, começando a lavar as mãos.
— Fique sempre perto de mim. Assim... se eu precisar de ajuda...
— Só isso? Claro que ficarei.
Ia dar certo. Tinha de dar. As duas cunhadas voltaram para o salão e logo todos
se dirigiam para a sala de jantar, tomando seus lugares à mesa enfeitada e arrumada
à moda francesa. A bajulação ao redor de Letizia estava quase provocando náuseas
verdadeiras. Gastaria a vida toda se quisesse vingar-se totalmente daquela mulher
prepotente e orgulhosa que lhe martirizava a vida. Vingança. Que palavra
confortadora! Como compreendia o horror que Paulo sentira pela família e os motivos
que o haviam levado a romper completamente com aquele ninho de víboras!
Como pudera ser tão ingênua? Vira a sogra pela primeira vez ao lado do leito de
morte de Paulo e, mesmo percebendo a frieza daquela mulher que não se humanizava
nem na presença do filho agonizante, continuara a achar que as atitudes do marido
para com a família haviam sido muito drásticas. Chegara a suplicar a Paulo que
falasse com a mãe, não tolerando tanta indiferença. E quando a sogra, depois dos
funerais, sugerira que ela se entregasse aos cuidados da família até que o bebê
nascesse, tolamente aceitara, como uma pessoa que se estivesse afogando aceitaria a
mão salvadora. No momento, achara que não havia outra solução. Seria injusto
sobrecarregar a irmã, Beth, que morava em Illinois e tinha seu próprio bebê para
cuidar e mil problemas a resolver. Se ela soubesse...
Finalmente a sogra ergueu-se da mesa, dando sinal para que as filhas e a nora
fizessem a mesma coisa. A escolha final dos modelos e os ajustes iam começar. Julie
olhou para Christina, que se aproximou timidamente de Letizia.
— Mãe, nós duas gostaríamos de ficar juntas numa única sala de provas, para
que pudéssemos trocar sugestões.
— Juntas? — Letizia ergueu as sobrancelhas. — Vocês duas e mais as
costureiras? Não acha que será muita gente em uma sala tão pequena?
— Uma costureira apenas será suficiente para nós duas.
Letizia franziu o cenho e estudou o rosto da filha por alguns instantes.
— Não entendo vocês. Fiz questão de reservar salas e costureiras separadas para
todas nós e agora... mas se querem assim, é problema de vocês.
A sala de provas era acarpetada e cheia de espelhos, mas muito pequena. Uma
jovem baixinha com uma fita métrica ao redor do pescoço e uma almofada de
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alfinetes presa à cintura recebeu-as sorridente. Porém, quando Christina lhe disse que
teria de atender as duas, o rosto fechou-se mostrando desagrado.
— Vá você primeiro — Julie disse à cunhada. — Vou me sentar um pouco.
Deixou-se cair numa poltrona, exagerando uma expressão de mal-estar, como se
fosse desmaiar. Disfarçadamente, ela olhou para o relógio. O tempo estava ficando
muito curto. Tinha de agir depressa. Começou a abanar-se com as mãos, como se lhe
faltasse o ar, alarmando a costureira.
— Señora! Está se sentindo mal?
— Sim, estou indisposta.
— Experimentar tantos vestidos vai ser muito cansativo. Vou avisar a señora
Letizia.
— Não, não é necessário — Christina disse, rapidamente. — Não queremos que
minha mãe se aborreça.
— Provavelmente ela vai querer voltar para casa imediatamente — Julie reforçou
— e adiar as encomendas. Isso lhe arruinaria o dia.
A mente da costureira podia ser lida facilmente, como a de uma criança,
conforme as expressões do rosto se sucediam. Primeiro ficara preocupada em dar
atenção a uma cliente doente; depois, a ideia de que tantas encomendas poderiam
ser adiadas, assustou-a, deixando-a nervosa.
— O que posso fazer então, señora?
— Se eu pudesse me deitar um pouco num lugar sossegado, por uma hora mais
ou menos, ficaria muito melhor.
Christina apanhou a bolsa de couro de crocodilo, tirando algumas notas e
colocando-as nas mãos da moça.
— Sei que pode arrumar um lugar para minha cunhada descansar, sem que
ninguém saiba.
A costureira olhou para o dinheiro e engoliu em seco. Hesitou um longo tempo,
para desespero de Julie, mas depois abriu um largo sorriso.
— Sim, há um lugar onde ela poderá ficar tranquila. Esperem um pouco, por
favor, enquanto vou ver se a sala está vazia.
— Lembre-se, ninguém deve saber — avisou Julie. — E, por favor, traga meu
casaco. Estou com frio.
A moça saiu, fazendo um gesto de quem havia entendido.
— Ah, Dios! Se minha mãe souber disso tudo... — Christina abanou a cabeça.
Era fácil imaginar o que aconteceria quando Letizia descobrisse. E havia muito
mais a descobrir do que a ingênua cunhada poderia sonhar. Sentia remorsos só em
pensar que a raiva da sogra desabaria sobre a pobre Christina.
— Você está com febre?
— Acho que não, mas estou com frio. Desculpe-me por todo este incômodo.
— Não é incômodo nenhum. Estou contente por poder ajudá-la e por você confiar
em mim.
Aquela meiga criatura iria perdoá-la e compreendê-la quando descobrisse que
fora enganada? A costureira entrou, com o casaco de marta dobrado sobre o braço.
— Pode vir, señora. O lugar está vazio. Poderá descansar sem preocupação.
— Trate de dormir um pouco — Christina aconselhou. — Dentro de uma hora e
meia, mais ou menos, as provas estarão terminadas e irei chamá-la.
Um aperto na garganta avisou-a de que choraria se não saísse logo dali. Tocou o
braço da cunhada num ligeiro gesto de despedida. Talvez nunca mais a visse. Saiu
rapidamente com a costureira. Desceram o corredor todo, depois outro, chegando
finalmente a um quarto tranquilo. Simulando estar piorando, Julie deitou-se
¡mediatamente no sofá. Entretanto, assim que a moça saiu, levantou-se e foi até a
porta, procurando ouvir algum ruído. Nada. Olhou cuidadosamente para fora, para um
lado e outro do corredor. Ninguém. Estava funcionando! Voltou para dentro e
examinou o cômodo. A mobília era barata e malcuidada. A um canto havia uma pilha
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de caixas de papelão e a escrivaninha estava empoeirada. Evidentemente, aquele


lugar não estava sendo usado, a não ser como uma espécie de depósito. Não poderia
desejar nada melhor!

CAPÍTULO III

Andrew jogou o resto dos pertences na mala surrada e trancou-a. Estava cheia
demais e mal-arrumada, como sempre, mas ele se recusava a mandar algum dos
empregados encarregar-se da tarefa. Foi para frente do espelho, endireitou a gravata
e, com os dedos, penteou os cabelos cor-de-areia, deixando-os encaracolados, ao
natural. Detestava quando precisava escová-los para trás de modo artificial, que não
lhe ia bem. Estava com olheiras escuras ao redor dos olhos verdes, resultado de uma
noite quase insone, mas esperava poder dormir no avião, a caminho de Nova York.
Colocou a mala e uma pequena bolsa de couro perto da porta e correu o olhar
pelo quarto. Embora sua tia Helen houvesse conservado tudo igual, até mesmo
deixado suas lembranças de rapaz, pôsteres, flâmulas e fotos nas paredes, era difícil
lembrar-se de que aquele havia sido seu quarto enquanto cursava o colegial. Parecia
estranho, não lhe trazendo nenhum sentimento, como se fosse um aposento de hotel.
Desceu as escadas pulando os degraus de dois em dois, ainda vestindo o paletó
do terno, e sorriu para o velho Raul, que polia o corrimão de madeira entalhada, com
extremo cuidado. Os outros já estavam sentados para o almoço, ao redor da longa e
brilhante mesa de nogueira, quando entrou na sala de jantar, e cumprimentaram-no
com largos sorrisos. Nada mudara muito na casa dos Obregon.
As refeições ainda eram momentos importantes na vida da família, calorosos e
cheios de brincadeiras carinhosas. Tinha de admitir que, muitas vezes, comendo
sozinho em seu apartamento em Nova York, sentia falta do companheirismo, do
conforto que havia ali. A tia olhou-o.
— Você parece cansado, querido.
Ele adorava aquele sotaque sutil da Dakota do Norte que dava um encanto
especial à voz meiga de tia Helen.
— Talvez ele não tenha vindo direto para casa, quando saiu do baile. Vai ver que
encontrou alguma señorita... — Miguel não podia deixar passar a oportunidade de
fazer uma brincadeira, piscando para o primo, que se sentara perto dele.
— Miguel!
— Ora, mamãe. Pensei que você quisesse ver Andrew casado. Como vai poder se
casar se não correr atrás de algumas garotas?
— Qualquer moça que concorde em se encontrar com um homem tarde da noite
não é recomendável como esposa, filho.
Era engraçado. Tia Helen já vivera tantos anos desempenhando seu papel de
matrona mexicana, absorvendo todas as ideias e hábitos do seu país de adoção, que
se esquecera do modo americano, liberal e aberto, com que fora educada. O conceito
de “mulher direita” era arraigado no pensamento dos mexicanos e qualquer deslize
tornava-se imperdoável.
— Você ficaria surpresa, mãe, se soubesse como algumas moças modernas se
comportam. E moças de boa família!
— Muita coisa é tolerada hoje em dia — Helen declarou. — Não há mais
disciplina. Vejam aquela nora dos Velasco, por exemplo. Todo mundo está
comentando seu péssimo comportamento de ontem, no baile. Sendo ou não sendo
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mãe do herdeiro do nome, acho que deveria ser posta na linha.


Miguel deu um sorriso malandro e ergueu as sobrancelhas num gesto de
entusiasmo.
— Bem que eu gostaria de colocá-la na linha! E você, Andrew?
Andrew riu, mas na verdade sem achar graça.
— Por que não se candidata ao cargo, Miguel?
Helen serviu um grande bife no prato do marido.

— Por que eles não indenizam aquela mulher e a mandam embora? Não é boa
mãe e nunca será. Onde Paulo Velasco estava com a cabeça ao casar-se com uma
vadia daquelas?
Miguel tornou a encher seu copo e o do primo com suco de laranja.
— Isso não funciona, mãe. Ela é herdeira de Paulo e é rica, agora.
— Ainda não é rica coisa nenhuma! — aparteou Ignácio. — Todos sabem que
Paulo não tinha nada e que o testamento de Victoriano Velasco beneficia a criança.
Até que a nora consiga pôr as mãos naquele dinheiro já será uma mendiga.
Helen cortou um pão pequeno, ainda quente, e passou manteiga devagar.
— É uma irresponsável. Para o bem do menino devia deixá-lo com os avós para
ser educado devidamente e voltar para os Estados Unidos.
Ignácio sorriu para a esposa.
— Isso é óbvio, querida. Porém, o velho é um cavalheiro e está esperando que
ela se decida. Não quer mandar embora, grosseiramente, a mãe do único neto. — O
tio parou de falar por uns instantes, enquanto mastigava um pedaço do bife, depois
começou a gesticular com o garfo para dar ênfase à previsão que fazia. — Vou lhes
dizer uma coisa: vai acontecer algo, e logo. Ela não vai querer voltar para a
monotonia da fazenda depois de todo o movimento da cidade, que pareceu apreciar
tanto. A perspectiva da vida quieta do campo fará com que se decida.
— E se ela não resolver partir, quanto tempo mais Victoriano e Letizia Velasco
vão suportar seu comportamento vergonhoso? — Helen perguntou.
Ignácio deu um longo suspiro.
— Isso não sei dizer. Tenho pena da família. Aquela mulher tem sido uma
verdadeira prova para a paciência de todos.
A copeira entrou com café cheiroso, recém-coado, interrompendo a conversa.
Helen enxugou delicadamente os lábios com o fino guardanapo adamascado.
— Então, Andrew, você e Miguel têm mesmo de sair já?
— Sim, tia, vão ter de me desculpar a pressa.
Os dois primos ergueram-se, empurrando as cadeiras para perto da mesa.
Andrew subiu, para pegar a bagagem, pensando que, embora amasse os tios, estava
ansioso para partir, antes que entrasse numa discussão com Ignácio, magoando a tia.
Não pertencia mais àquele meio e odiava o círculo rigidamente estruturado,
intolerante e inflexível, formado pelo dinheiro e pelo poder. Era cansativo, também,
suportar as tentativas que os tios faziam, no sentido de mudar-lhe as ideias,
desaprovando tudo que fazia. Era claro que eles se perguntavam onde haviam errado
na educação do sobrinho órfão, permitindo que ele tomasse um rumo tão diferente na
vida. Era justamente isso que ele já desistira de explicar, que ser diferente não queria
dizer ser errado. Toda vez que vinha visitá-los, desejava que se houvessem tornado
mais complacentes em suas ideias, aceitando-o sem condições, do modo que era, mas
pareciam ficar cada vez mais radicais à medida que avançavam em idade.
A tia estava de pé, no pátio da frente, chorando e enxugando os olhos num
lencinho de cambraia e rendas, com o braço do marido ao redor dos ombros. Como
ainda aturava aquelas despedidas dramáticas que lhe davam uma desagradável
sensação de culpa? Miguel colocou a bagagem no novo carro esporte, veloz e
possante, e Helen percebeu que as malas do sobrinho estavam muito velhas e feias.
— Vamos lhe dar um jogo de malas de couro no Natal. Não fica bem um
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advogado bem-sucedido andar por aí com malas deformadas.


Não fica bem! Não é decente! Aqueles comentários o enjoavam.
— Não se preocupe, tia. Não é a mala que faz o homem.
Miguel começou a rir enquanto arrumava a bagagem do primo. Andrew abraçou
fortemente a tia.
— Vou sentir saudade.
— Fique aqui, então — o tio ofereceu. — A firma poderá ser chamada Obregon,
Obregon e Wolfe.
Sentiu um nó subir-lhe à garganta enquanto Ignácio o abraçava, dando-lhe um
aperto de urso.
— Obrigado, tio, por ter pensado nisso. — Caminhou até o carro baixo e
comprido e abriu a porta olhando para trás. — É bom saber que me querem aqui. Mas
devem saber que meu sangue sueco me fez teimoso. Quero fazer as coisas à minha
maneira. — Sorriu, dando um tapinha no braço do tio que se aproximara do carro. —
Por que não se mudam para Nova York?
A tia gemeu e o tio deu uma risada alta, como se ele houvesse dito o mais
incrível dos absurdos.

No aeroporto, Andrew sentiu-se triste novamente, ao despedir-se do primo.


Pobre Miguel, tentava manter-se no terreno do meio, sem decidir-se, não acreditando
completamente no mundo dos pais, nem conseguindo cortar os laços e fazer uma vida
sua, totalmente diferente. Além do que estava tentando fazer, dar assistência legal
aos pobres, gratuitamente ou com honorários irrisórios, não se atrevera a mudar os
planos que os pais haviam feito para ele, apenas realizando sonhos por meio das
experiências do primo maluco. Miguel gostava dele e detestava vê-lo partir. Por sorte,
tinha um compromisso e não podia acompanhá-lo até o terminal, o que tornaria a
despedida ainda mais longa e difícil. Entregando a bagagem no balcão, Andrew
divertiu-se vendo o contraste que suas malas velhas faziam com as dos outros
passageiros, novas, caras, e com iniciais gravadas em ouro.
Sem saber o que fazer do tempo que faltava para a hora do embarque, começou
a andar pelo salão do aeroporto, aproximando-se de uma banca de jornais. Esperava
encontrar o Times, de Nova York, mas não teve sorte. Olhou algumas revistas e,
finalmente, optou por comprar o jornal local. Continuou a andar, tomou um drinque
leve no grande bar sofisticado e procurou uma cadeira no salão de espera. Sentou-se
e relaxou, apoiando a cabeça no encosto estofado da cadeira e fechou os olhos.
Imagens começaram a encher-lhe o cérebro, como num filme maluco. Limusines
luxuosas, o olhar desaprovador da tia, o rosto entusiasmado de Miguel, o ar
desesperado de Julie Velasco tentando esconder um envelope embaixo das roupas.
Ainda bem que ia embora daquele mundo feito de aparências, cheio de hipocrisias.
Endireitou-se e abriu o jornal, franzindo a testa conforme os inúmeros problemas da
Cidade do México saltavam das páginas e o envolviam. Virou rapidamente as folhas,
procurando não se deixar abater pelas fotos que retratavam a miséria e os crimes da
grande cidade. De repente, o nome Velasco chamou-lhe a atenção. Uma grande foto
dominava o artigo. Mostrava um homem sentado a uma escrivaninha onde se viam
pilhas e pilhas de cartas. Era um dos sujeitos que vira no baile, um dos cunhados de
Julie. O artigo explicava que Juan Arista, genro de Victoriano Velasco, fora
responsável pela coordenação da assistência dada pelos Estados Unidos ao México
durante os terremotos nos anos anteriores. O rosto do homem da foto era
desagradável. Sorria, mas o sorriso não lhe chegava aos olhos, dando uma aparência
de máscara à fisionomia. A história contada pelo jornal era tão insignificante que se
tornava fácil ver, por trás das palavras ocas, o trabalho cuidadoso da máquina
publicitária promovendo uma figura inexpressiva. Andrew transformou o jornal numa
bola e atirou-o à cesta de papéis mais próxima. Já bastava. Não ia gastar energias
preocupando-se com os problemas de uma cidade que já ficara no passado.
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Nova York também era problemática, mas lá, pelo menos, seu trabalho e suas
preocupações ainda podiam fazer alguma diferença. Recostou-se novamente na
cadeira confortável e fechou os olhos procurando cochilar.

Julie ficou parada no meio do escritório deserto, tentando ficar calma e pensar
com clareza. Olhou para o relógio. Tinha uma hora e meia, no mínimo, até que
dessem por sua falta e mais meia hora antes que entrassem em pânico, procurando-
a. Mais um pouco de tempo se escoaria até que se decidissem a chamar a polícia.
Porém precisava apressar-se para não perder o avião. Sua única chance era partir
naquele voo, não dando tempo para que a encontrassem no aeroporto.
Na pequena sala havia uma única janela. Seria muito mais seguro sair por ali do
que se esgueirar pelos corredores do edifício, como havia planejado. Correu para ela e
abriu-a, sentindo o ar fresco bater-lhe no rosto, enquanto olhava para fora estudando
o local, um estreito corredor sujo e cheio de caixas vazias. Não havia ninguém por
perto. Puxou uma cadeira para perto da janela, ergueu a saia, tirando de dentro da
meia-calça o envelope que recebera na noite anterior no baile. A lembrança da
humilhação que sofrera nas mãos do homem que lhe entregara aquele envelope
quase a fez chorar, mas reagiu, pensando que ali dentro estava seu passaporte para a
liberdade, as passagens aéreas. Colocou o envelope na bolsa, passou a alça pelo
pescoço e, erguendo a saia e o casaco de marta, subiu na cadeira e sentou-se no
parapeito da janela. Virou as pernas para fora e olhou para baixo. O chão parecia
distante, sentiu-se zonza, mas aquele não era o momento para indecisões ou medo.
Empurrou os sapatos de salto alto com os pés, fazendo-os cair no corredor. Não
podia se arriscar a torcer um tornozelo ou quebrar um salto. E se alguém a visse e
chamasse a polícia? E se... Precisava dominar o pânico. Depois que saltasse para o
chão não haveria mais volta e estaria livre. Mas... e se a apanhassem? Todos
saberiam que havia tentado fugir. Letizia ficaria furiosa e poderia tomar qualquer
medida para puni-la, até mesmo interná-la numa casa de repouso, como se sofresse
das faculdades mentais. O conteúdo da bolsa, então, daria à família o direito de
colocá-la na prisão. Levava todas as suas joias, mas o pior de tudo seria quando
descobrissem os frascos de comida de bebê. Descobririam que ela tentara raptar
Tony. Sentiu-se tentada a voltar atrás. Bastava picar as passagens e jogá-las no
sanitário. Diria que estivera à janela com os sapatos na mão e os deixara cair no
corredor. Seria uma atitude de completa rendição aos Velasco e a todas as suas
vontades, que lhe daria em troca a certeza de uma vida para sempre luxuosa e
confortável. A oferta de Letizia girava em sua mente, com toda sua indignidade.
A velha senhora lhe oferecera uma enorme quantia em dinheiro para que ela
assinasse os papéis renunciando à tutela do bebê e desaparecesse. Fora pressionada,
recebendo a ameaça de que devia aceitar a oferta “generosa”, antes que um processo
judicial lhe tirasse Tony sem que ela recebesse um único centavo. A sogra ia ver como
sua proposta fora recebida. Fugiria com o filho, deixando todos para trás, remoendo-
se de raiva e frustração. Decidida, virou o corpo, segurando-se no parapeito e deixan-
do-se cair. Soltou as mãos e foi para o chão, caindo sobre um cotovelo e magoando
os quadris no calçamento. A sola dos pés queimava por terem batido no chão áspero
com força e uma das mãos tinha a palma esfolada. Sentada, alcançou os sapatos e
olhou para o relógio. O vidro havia se partido, mas o mecanismo não fora danificado.
Ergueu-se com dificuldade e calçou os sapatos, apoiando-se na parede. Tirou a
alça da bolsa do pescoço e colocou-a no ombro, começando a caminhar para alcançar
a rua. Quando o medo de ser vista e apanhada a atingiu, correu o mais que pôde, só
diminuindo quando um táxi parou a seu sinal. Jogou-se no banco traseiro, respirando
com dificuldade. O motorista olhou-a, ficando espantado com sua aparência assustada
quando ela lhe deu o endereço dos Velasco.
— A señora está bem?
— Sim, obrigada. Apenas recebi uma notícia desagradável. — Precisava inventar
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uma história que fosse convincente o bastante para aplacar a curiosidade do homem.
— Soube que meu marido sofreu um acidente e tenho que tomar um avião até onde
ele está. Na pressa não quis esperar até que meu motorista particular viesse me
buscar. Caí e acho que me feri um pouco.
— Oh, señora, sinto muito. Eu...
— Tenho de ir até em casa para apanhar meu bebê e depois chegar o mais
rapidamente possível ao aeroporto. Não há um minuto a perder. — Ela cobriu os olhos
com uma das mãos, aflita. — Meu marido precisa de mim!
— Estou ao seu dispor, señora.
— Sou-lhe grata.
O motorista sorriu para ela, pelo espelho retrovisor, e deu a partida no carro,
saindo em disparada pela cidade. Ao chegarem à casa, Julie pediu que parasse no
portão de trás.
— Por favor, pare aqui. É muito mais rápido entrar pelos fundos. Lembre-se de
que o recompensarei muito se me levar ao aeroporto a tempo de pegar o avião.
O motorista balançou a cabeça concordando. Ela destrancou o portão de serviço
e entrou no pátio. Passou entre os arbustos no meio de um canteiro, evitando andar
pelo caminho de cascalho para não fazer barulho e entrou por uma porta lateral,
pouco usada. Pisando com cuidado, ela percorreu o corredor da parte de serviço da
casa, aguçando os ouvidos. Alguém conversava na cozinha. Era a babá de Tony! O
bebê estaria com ela? Encostou-se na porta para ouvir as palavras.
— Não posso sair de casa agora — a mulher dizia. — O bebê pode acordar. —
Houve uma pausa. — Já precisei mentir, dizendo que a criança estava febril, para
poder ficar aqui e ver você.
Uma voz áspera de homem interrompeu as explicações da babá.
— Quanto tempo o rico herdeiro costuma dormir?
— Algumas horas.
— Quando a cozinheira voltará?
— Dentro de uma hora, mais ou menos.
— E os outros, estão ocupados na faxina?
— Sim.
— Então ninguém notará se você sair. Além disso não irá muito longe. Só iremos
até o pavilhão do jardim. — Silêncio. — Vou para lá esperar você. — A voz do homem
estava mais suave. — Tenho sentido muito a sua falta, Delphina.
A porta dos fundos bateu. O homem tinha saído. A babá subiria para dar uma
olhada no bebê antes de sair? E se ao ir para o pavilhão decidisse usar a porta lateral
e topasse com ela ali, parada? Os olhos percorreram as paredes do corredor
procurando um esconderijo. O armário dos artigos de limpeza! Correu para lá e
fechou-se, deixando uma fresta para poder ouvir e ver. Nada. Os minutos passavam,
devagar demais, numa demora exasperada. Finalmente, um ruído. Ela espiou pela
fresta. Como previra, a babá saía pela porta lateral, a mais próxima do pavilhão,
fechando-a sem barulho. Julie tirou os sapatos e deixou-os no armário, começando a
andar silenciosamente pelo corredor, passando pela cozinha e entrando na sala de
estar dos criados. De lá, subiu as escadas estreitas, somente usadas pelos
empregados, ouvindo risadas e o zumbido do aspirador de pó. Alcançou o corredor
principal do andar superior e então pôde correr, pois seus passos eram abafados pelo
grosso carpete. Entrou no quarto do filho sentindo uma onda de emoção. Lá estava
ele dormindo em seu berço enfeitado, rodeado de brinquedos caros, com a cabecinha
repousando em um travesseiro cheio de rendas e fitas. Dormia, como sempre, de
bruços, aconchegado sob o acolchoado azul-claro, com os sedosos cabelinhos escuros,
revoltos e ligeiramente úmidos de transpiração. O seu bebê.
Com extrema delicadeza, mas usando movimentos rápidos e precisos, Julie
ergueu o filho, envolvendo-o no acolchoado. Tony abriu a pequena boca rosada, num
meio-sorriso, como se estivesse sonhando, mas não acordou. Havia mais alguma
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

coisa que devesse levar? Olhou em volta do quarto. A sacola de fraldas estava
pendurada no trocador. Agarrou-a quando ia saindo para o corredor deserto.
Fechou a porta suavemente, apertando seu pequeno e precioso fardo de
encontro aos seios. Voltou pelo mesmo caminho, descendo a escada dos empregados
e saindo pela porta do lado, parando apenas para pegar os sapatos no armário. O
pavilhão ficava bem no trajeto do portão e ela não havia pensado nisso. E se Delphine
e seu visitante a vissem? Novamente optou ir pelo meio do canteiro e começou a
correr. O bebê mexeu-se. Não podia acordar naquele momento, bem quando estava
passando pelo pavilhão. Facilmente o ouviriam se chorasse. E o portão estava tão
perto! Correu mais rapidamente, fazendo as folhas secas estalarem sob seus pés.
Deixando o pavilhão para trás, ela endireitou as costas, sentindo os músculos doerem
e os braços entorpecidos pelo peso do bebê, a posição incômoda de carregá-lo e à
sacola de fraldas, sem falar na bolsa pesada que carregava em um dos ombros.
Aparentando naturalidade, atravessou o portão com passos firmes e finalmente
estava no banco traseiro do táxi, quase chorando com o alívio da tensão. O motorista
sorriu para o bebê adormecido e ia falar, mas Julie lembrou-o de que estava com
pressa e ele rapidamente pôs o carro em movimento. Ela tirou uma nota de cinquenta
dólares e entregou-lhe enquanto corriam velozmente em direção ao aeroporto.
— Para você. Mas faça o possível para que eu não perca aquele avião.
— Si, señora. Não vai perder.

Andrew estava zonzo de sono quando entrou no avião e procurou seu lugar. Que
droga! Sua poltrona ficava no lado do corredor e ele seria o tempo todo incomodado
por pessoas indo ao banheiro e comissárias de bordo com seus carrinhos de comida
ou bebida. Por que não se lembrara de pedir um lugar perto da janela onde ninguém
esbarraria nele? Provavelmente, a funcionária do aeroporto que lhe marcara a
poltrona pensara estar lhe prestando um favor, reservando um lugar no corredor,
onde poderia esticar as pernas longas demais para o estreito espaço entre os
assentos.
— Com licença — ele dirigiu-se a uma das comissárias. A moça uniformizada
ergueu as sobrancelhas cuidadosamente desenhadas a lápis, com expressão
interrogativa. — Já que o avião não está lotado, eu poderia viajar numa das poltronas
perto da janela?
A comissária olhou-o com censura, como se ele tivesse quebrado alguma norma.
— Verei o que posso fazer, senhor, mas não posso mudá-lo de lugar até que
todos os passageiros tenham embarcado e que as portas estejam fechadas.
— Obrigado.
Sentou-se, com o sobretudo sobre as pernas, irritado pela perspectiva de ter de
ficar acordado, pronto para mudar de lugar, sabia-se lá por quanto tempo. Os
passageiros continuavam a embarcar, batendo no braço dele, enquanto procuravam
desajeitadamente alcançar seus lugares. O pior de tudo eram os turistas que
passavam carregando aqueles potes de barro, ou piñatas, bolsas de palha e outras
bugigangas, que levavam para casa como lembrança do México. Aos poucos a
atividade diminuiu e cessou, finalmente. Já estava na hora de decolarem, deduziu,
pois havia quebrado o relógio, não sabia como. Destruía relógios tão
sistematicamente que desistira de comprar marcas caras. Por que faziam relógios tão
frágeis? As comissárias começaram a fazer demonstração de como usar as máscaras
de oxigênio em caso de necessidade e pediram que os cintos de segurança fossem
apertados. Àquela altura, todos os passageiros estariam a bordo, por que não lhe
permitiam mudar de lugar? Como em resposta aos seus pensamentos, a aeromoça de
sobrancelhas pintadas apareceu e disse que havia conseguido outra poltrona.
Foi então que uma atividade estranha começou a agitar os membros da
tripulação que estavam perto da porta. A aeromoça fez-lhe um sinal para esperar um
pouco.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

— Parece que estão admitindo passageiros retardatários, senhor.


Ele recostou-se na poltrona, suspirando, enquanto a moça dirigia-se para a
porta. Quando voltou, veio com a boa notícia de que o passageiro atrasado não
possuía a poltrona da janela, a única disponível que ela arrumara para ele. Apanhou o
sobretudo e levantou-se, lançando um rápido olhar para frente da aeronave. Duas
comissárias ajudavam o passageiro que chegara por último a acomodar-se, colocando
o que parecia ser uma sacola de carregar fraldas no compartimento de bagagem
acima dos assentos. A passageira, uma mulher esbelta e muito bem vestida, segurava
um pacote que presumia-se fosse um bebê. Ele não podia ver-lhe o rosto, pois ela
estava de costas, mas quando virou-se para ocupar o lugar que lhe era destinado, ele
ficou parado, atônito, sem poder acreditar no que via. No rápido instante em que lhe
vira o rosto, pensou ver Julie Velasco. Nada mais podia ser visto, a não ser um mar de
cabeças e costas de poltronas. A curiosidade quase o fez andar até onde a mulher se
sentara e examiná-la de perto. A aeromoça pigarreou, impaciente.
— Senhor, mudou de idéia? Não quer mais trocar de lugar?
— Já vou.
Com relutância, acompanhou a comissária, sentou-se na poltrona perto da janela
que ela lhe indicara e apertou o cinto. Poderia dormir, afinal. O sobretudo o
atrapalhava; levantou-se e guardou-o no bagageiro, esticando o pescoço, tentando
divisar a cabeça da mulher que chegara atrasada. Não viu nada e acomodou-se
novamente. Fechou os olhos, tentando relaxar, mas ficou pensando na mulher. Seria
mesmo parecida com Julie Velasco ou seu inconsciente lhe estaria pregando peças?
Não podia ser a própria Julie, claro. O cansaço começava a lhe provocar visões.
Como estava cansado! Dormira mal aquela noite, estivera com a cabeça cheia
dos problemas de Miguel, cansado das ideias do tio e da tia, cansado da Cidade do
México, enfim daquela pobreza imensa ao lado de uma aristocracia decadente e
pretensiosa. Diziam que Nova York era uma cidade criminosa, mas os crimes que ali
aconteciam eram entre pessoas e não de uma classe gananciosa, cheia de corrupção e
discriminação, contra a massa indefesa dos menos favorecidos. E se aquela mulher
fosse Julie Velasco? A questão ficou flutuando em sua mente, até que os olhos
pesaram e ele caiu num sono profundo.

O bebê ainda não despertara. Continuava apertado contra a mãe, respirando


suavemente. Julie, porém, ainda não se refizera da corrida através do aeroporto e da
aflição que passara tendo de suplicar que lhe abrissem a porta do avião e a deixassem
entrar. Não estava livre ainda, ficaria livre e mais tranquila quando se encontrassem
no ar, afastando-se do México e entrando no Texas. Os motores roncaram e o avião
balançou com a força das turbinas poderosas. Vagarosamente, a aeronave começou a
deslizar pela pista, fazendo uma volta larga e parando. Logo a seguir, os motores
recomeçaram a acelerar, o avião tremeu e lançou-se para frente, ganhando
velocidade, correndo pela pista de concreto até que se ergueu, subindo quase vertical-
mente, para depois estabilizar-se num voo sereno. Os tripulantes soltaram os cintos e
correram para seus postos. O bebê mexeu-se e fez uma careta. Abriu os olhos e
soltou um chorinho nervoso. Uma aeromoça aproximou-se com gentileza.
— São os ouvidos dele sofrendo com a pressão. Há alguma coisa que ele possa
chupar?
— Chupar?
— Sim. O movimento de sucção ajuda a abrir os ouvidos.
— Oh, obrigada.
Não se lembrara de procurar uma chupeta. O que daria a Tony? Olhou para o
bebê, que parara de chorar. O problema estava resolvido. Ele chupava o polegar com
vontade, mas seus olhinhos estavam assustados.
A aeromoça olhou-o com um grande sorriso.
— É um mocinho valente. Quer que eu aqueça uma mamadeira ou algo assim?
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— Ele toma líquidos na xícara. Poderia trazer um suco?


— Claro. Farei qualquer coisa por essa fofura.
A mulher desceu pelo corredor do avião, dirigindo-se à cozinha. Julie sentia-se
mole, como se todos os ossos se houvessem transformado em geleia. Os olhos
pesavam e a cabeça estava anuviada. Era a reação do corpo depois de suportar tanta
tensão nervosa e tanto medo. Mas o filho estava ali, em seus braços, apertado contra
o peito, onde era o lugar dele. Baixou a cabeça para roçar a face na cabecinha macia,
sentindo o doce cheiro de bebê e ouvindo o ruído que fazia chupando o dedinho.

Tony virou o rostinho, tentando olhar para a mãe. Ela abafou um soluço e ergueu
o acolchoado para esconder o próprio rosto de olhares curiosos. Deixou que as
lágrimas rolassem livremente, num pranto silencioso. Haviam conseguido fugir.
Ninguém os reconhecera, nem desconfiara de nada. Quando a família começasse a
retalhar a Cidade do México a sua procura, já estariam perdidos no anonimato da
gigantesca Nova York. Os lábios tremiam encostados aos cabelos escuros e finos da
criança.
— Conseguimos, Tony. Estamos livres, meu filho.

CAPÍTULO IV

Andrew dormiu durante toda a viagem até Houston e só acordou quando o avião
já havia aterrissado e a maioria dos passageiros desembarcado. A mulher que lhe
despertara a atenção já descera e ele nunca saberia quem era ou onde estava.
Poderia estar num táxi a caminho de um hotel da categoria de um Neiman-Marcus ou
ter apanhado um voo de conexão para Omaha, Estado de Nebraska. Obcecado,
entretanto, pelo desejo de vê-la, desembarcou e procurou-a pelo aeroporto. Não viu
nem sombra dela. Era melhor esquecer tudo e encaminhar-se para o portão, onde
apanharia outro avião até Nova York, banindo de sua mente Julie Velasco e a mulher
que se parecia com ela.

Julie sentou-se numa cadeira, no aeroporto de Houston, mantendo o bebê


apertado nos braços. Por que a fuga, de repente, tinha mais sabor de derrota do que
de vitória? Talvez fosse o cansaço e a solidão que a deixassem tão desanimada. Toda
sua vida parecia resumir-se a uma sequencia de fugas. Quando ficaria madura e forte
o bastante para enfrentar as dificuldades e lutar, em vez de fugir? Paulo estaria certo
quando dizia que ela era uma garota que vivia sonhando com um príncipe encantado
que a salvasse da difícil vida real?
Era admissível sonhar aos quinze anos de idade. Mas aos vinte e cinco? Já era
tempo de achar soluções para os problemas sem fugir deles. Parte de sua infância
fora solitária e, como órfã, sua atitude de procurar um protetor benevolente tinha de
ser considerada normal pois, antes da morte dos pais, ela e a irmã haviam sido
crianças amadas e felizes. Jamais poderia esquecer o choque que fora deixar para trás
o quarto de cortinas cor-de-rosa cheio de bonecas e as brincadeiras descuidadas na
rua, com as crianças da vizinhança. Haviam perdido, brutalmente, o afeto e o
incentivo dos pais, o calor e a segurança de uma família.
Julie e Beth, as irmãs Lehman, haviam sido consideradas órfãs difíceis no
orfanato, já tendo passado da idade de interessar prováveis pais adotivos, e não
tendo parentes próximos ou amigos que desejassem ficar com elas. Começaram a
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passar de um orfanato para outro e ela fugira de dois deles, sendo, porém, logo
capturada. As mudanças sucessivas não permitiram que as duas meninas criassem
raízes ou cultivassem afetos duradouros. Beth tornara-se retraída, escondida numa
concha de tristeza, e Julie transformara-se numa moça tímida e insegura. Começara a
ir mal nos estudos, convencida de que seria inútil aprender qualquer coisa.
Sobrevivera apenas seu interesse pelo teatro. Quando alguma peça era encenada, ela
lutava para conseguir um papel, por menor que fosse. Fingir ser alguém que não era,
além de menos perigoso, tornara-se tão interessante quanto fugir.
Ao completar quinze anos, enviaram-na para um lar de adoção, mas a
experiência fora tão terrível que, após muitos planos e feroz economia, conseguira
tomar um ônibus para longe e nunca mais voltara. Seu único arrependimento fora
deixar Beth para trás, mas a irmã, dois anos mais velha, já estava trabalhando, tinha
um namorado e pretendia terminar o colegial. Nunca teria concordado em
acompanhá-la, mesmo que a houvesse convidado, o que não fizera, temendo dividir
seu segredo com alguém e ser apanhada novamente. Deixara Beth como deixara
Christina, sem despedidas.
Fora parar em San Diego, Califórnia, quase sem dinheiro. Conseguira um
emprego como lavadora de pratos num restaurante e passara seu décimo sexto
aniversário num quartinho pobre, com cinco garotas mexicanas, todas menores e
fugitivas. Aprendera espanhol com facilidade, nos meses que vivera com as
companheiras de quarto. O medo, naquela época, fora seu pior inimigo. Medo dos
policiais, medo das assistentes sociais e, pior que tudo, medo dos homens que
tentavam atraí-la para a prostituição ou viciá-la em drogas. Não ganhava o bastante
para manter-se bem alimentada, não se divertia e vivia sonhando com um cavaleiro
de brilhante armadura que a levasse para o seu castelo. E um dia o cavaleiro
aparecera. Não com uma brilhante armadura, mas usando roupas brancas de jovem
médico. Ela estivera doente durante vários dias e, quando não conseguira erguer-se
do colchão onde dormia, as garotas mexicanas haviam ficado muito preocupadas e
procuraram ajuda. Iria lembrar-se para sempre do momento em que, quase sem
poder abrir os olhos de tanta febre, vira o rosto bonito e gentil de um homem
inclinado sobre ela. Pensara ser outro sonho, ou fruto do delírio, mas não, era real.
Ele viera e a salvara da morte. O jovem médico idealista, Paulo Velasco, levara-a
dali, curando-a, guiando-a e, finalmente, casando-se com ela. Tudo aquilo parecia tão
distante; no entanto, lá estava novamente, sozinha e fugindo com o filho dele nos
braços. Tony parou de brincar com o babado do acolchoado e olhou para ela, que
arrepiou-lhe o cabelo e depois alisou com a palma da mão. Era um bebê realmente
lindo. Perfeito. Valia muito mais que o dinheiro que Letizia lhe oferecera, mais que
tudo no mundo. O sistema de som do aeroporto espalhou uma voz feminina que se
dirigia aos passageiros que esperavam seus aviões.
— Atenção, por favor. O voo noventa e dois para o aeroporto de La Guardia,
Nova York, sem escala, teve sua partida adiada. Aguardem informações sobre o novo
horário de decolagem. Desculpem o transtorno. Obrigada.
Uma onda de medo inundou o coração de Julie. O atraso da partida teria alguma
coisa a ver com ela? A polícia de Houston fora avisada e estava a sua procura? Não
podia ser. Sacudiu a cabeça, decidida a acalmar-se, raciocinando com lógica. Se a
família tivesse idéia de que ela pegara um avião, já haveria tomado providências para
impedi-la de fugir antes que saísse do México. Mas todos haviam sido pegos de
surpresa, e ainda deviam estar perdidos em deduções, tentando descobrir seu
paradeiro. Além disso, ela fora esperta. Estava usando um nome falso e não avisara a
companhia aérea de que estaria viajando com Tony, de modo que na lista de
passageiros não seria possível encontrar seu nome, nem a indicação de que havia
uma mulher viajando com um bebê a bordo do avião que a trouxera para Houston.
Entretanto, não conseguia ficar calma. Só poderia relaxar quando estivesse
voando para Nova York. Estivera lá apenas uma vez, numa visita curta, mas o nome
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da cidade era mágico para ela. Não que a conhecesse bem ou tivesse algum motivo
especial para gostar da metrópole, mas lembrava-se de seu tamanho gigantesco e
sua capacidade para engolir as pessoas, escondendo-as, abrigando-as em seus
labirintos de concreto. O bebê começou a ficar inquieto e ela procurou na bolsa até
achar o patinho de borracha, que felizmente lembrara-se de trazer. Precisava
acalmar-se. Estavam seguros no aeroporto. Ninguém sabia quem eram, nem para
onde iam.

Andrew chegara ao portão, quando ouviu o anúncio de que o seu voo sairia
atrasado. Teria de achar um jeito de matar o tempo. Olhou em volta, procurando uma
cadeira vazia. De repente, seus olhos se estreitaram. Lá estava ela! A mulher com o
bebê era a própria Julie Velasco, poderia jurar. Ninguém poderia ser tão parecida com
outra pessoa. Ele aproximou-se. A bem da verdade, havia uma diferença. A mulher ali
sentada parecia extenuada e o encanto e o ar frívolo que ostentara no baile haviam
desaparecido, mas era ela, sem dúvida. O mesmo cabelo cor-de-cobre antigo,
lustroso, a mesma pele clara e cremosa, e os olhos... aqueles olhos de um azul-
acinzentado eram inconfundíveis. Na área de espera viam-se longas fileiras de
cadeiras colocadas encosto contra encosto. As que ficavam logo atrás dela estavam
desocupadas. Ele andou para lá, passando a mão nos cabelos, imediatamente
chamando-se de tolo por estar preocupado com a aparência.
O bebê estava em pé no colo da mãe, inclinado sobre o ombro. Segurava um
patinho de borracha que chupava, juntamente com os dedinhos gordos. Sorriu para
Andrew, tirando o brinquedo da boca. Pouco entendia de bebês, mas pelo que sabia
aquele jeito furioso de morder objetos significava dentição. Poderia puxar conversa
com a mãe, abordando o assunto, mas chamando-se novamente de tolo sentou-se
atrás dela. Imediatamente o bebê agarrou-lhe os cabelos da nuca.
— Espere aí, garotão. Não puxe tão forte.
A mulher virou-se.
— Oh, desculpe. Eu não percebi...
A mãozinha molhada da criança estava firmemente agarrada a uma mecha de
cabelos e não adiantava a mãe puxá-lo tentando fazê-lo soltar. Andrew ficou parado
até que, depois de muitos puxões, o bebê largou-lhe os cabelos, querendo chorar.
— Pronto — ela anunciou. — Está livre.
Andrew massageou o lugar dolorido e mudou para a cadeira ao lado, onde, além
de ficar fora do alcance das mãozinhas buliçosas, ainda poderia ver o rosto da mulher
com mais facilidade e conversar com ela.
— Que puxão, hein, garoto? — O menino riu, enquanto a mãe lhe abria os
dedinhos e tirava alguns fios de cabelos molhados de saliva. — Mais um pouco e ele
me arrancava o cabelo todo — ele disse, rindo.
Os cantos dos lábios dela se curvaram ligeiramente, mas não chegou a ser um
sorriso. Ele notou que os lindos olhos estavam vermelhos, como se ela houvesse
chorado. O patinho caiu na cadeira ao lado e Andrew, após uma ligeira hesitação,
apanhou o brinquedo molhado e apresentou-o ao bebê, que parecia mais interessado
nele, fixando-o com os grandes olhos escuros.
— Acho que ele gostou de mim.
— Chega, nenê! Vire para cá e deixe esse senhor em paz.
— Não, por favor, não está me incomodando. Adoro crianças.
Ela sorriu, deixando-o admirado. Não era o tipo de sorriso que esperava ver no
rosto dela. Os olhos sorriam também, tocados de uma luz terna, deixando-a linda e
meiga, muito diferente da magnífica mulher que vira no baile, rindo
escandalosamente ou sorrindo com sarcasmo. Ele apertou o patinho, fazendo-o
assobiar.
— Qual é seu nome, rapazinho?
— O nome dele é Antônio.
26
Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Não podia mais haver dúvida de que era mesmo Julie Velasco. Ouvira a tia
mencionar o nome do herdeiro da orgulhosa família. Um curioso desapontamento o
assaltou. Preferia que ela fosse outra mulher, muito diferente da criatura sofisticada e
quase debochada que vira na festa. Continuou a brincar com a criança, enquanto mil
perguntas lhe atravessavam a mente. Se ela era a mãe desajeitada e indiferente que
todos criticavam, por que estaria viajando sozinha com o filho, enfrentando todas as
dificuldades sem a ajuda de uma babá? Aquilo não encaixava bem. A família Velasco
teria permitido aquela viagem? Mesmo sem o bebê, ela teria de viajar acompanhada,
de acordo com os conceitos arcaicos das velhas famílias mexicanas.
Continuou a fazer alguns comentários inofensivos, esperando que ela se
dispusesse a conversar, mas havia apenas polidez nas respostas que conseguia.
— Antônio. Um nome espanhol? — Silêncio. — Estou vindo da Cidade do México
— ele explicou.
— Cidade do México?
O medo enorme que invadiu os olhos dela o deixou chocado e havia terror na voz
sumida com que ela fez a pergunta. Ele procurou nos bolsos até encontrar um cartão
onde se via escrito, em grandes letras, “Associação de Assistência ao Povo” e, logo
abaixo, em letras menores, “Andrew Wolfe — Diretor”. Seguiam-se um endereço e
número de telefone de Nova York. Entregou o cartão, que ela pegou com mão trêmula
e estudou cuidadosamente, enquanto ele explicava o que o levara à capital mexicana.
— Estive lá ajudando na formação de uma associação desse tipo. O povo
mexicano tem grandes esperanças de que ela venha a ser tão boa quanto a nossa em
Nova York. — Teve a intuição de que não devia mencionar seu parentesco com a
família Obregon nem que a vira no baile e, muito menos, que ouvira comentários
pouco lisonjeiros a seu respeito. Viu-a acalmar-se e entregar-lhe o cartão de volta. —
Fique com ele. Se está indo para Nova York, quem sabe o que pode acontecer? Talvez
precise de alguma forma de ajuda.
O bebê esticou a mão para pegar o cartão e ela curvou o corpo para guardá-lo
na sacola de fraldas no chão. Endireitou-se e fitou-o com suspeita.
— Que espécie de ajuda?
— Assistência legal, auxílio na procura de emprego ou de um lugar para morar.
Tentamos fazer o melhor possível, e grátis.
Ela pareceu relaxar e concordou com um gesto de cabeça, mas com o olhar
perdido, como que contemplando algo longínquo.
— Sim. É disso que o povo da Cidade do México precisa. Assistência legal
gratuita. Muitos abusos seriam evitados. Disse que estão formando uma associação
dessas, lá?
— Sim, e parece que tudo está muito bem encaminhado.
Observou-a em silêncio, lembrando de tudo o que lhe haviam dito sobre aquela
mulher bonita, fina e bem-vestida, cuja aparência contrastava com o ar amedrontado
e desconfiado. Falavam dela como uma desgraça. Era considerada uma mãe
inadequada, uma vadia sem eira nem beira que conseguira um casamento rico. O filho
era herdeiro de uma fortuna, mas levaria muito tempo até que ela pudesse usar o
dinheiro. Aquela criança era o orgulho dos Velasco, o continuador do nome.
O que o tio dissera mesmo, a respeito de que algo iria acontecer, e logo? Sim,
que Victoriano Velasco era um cavalheiro e não mandaria Julie embora, mas que
estava esperando que ela fizesse o primeiro movimento no sentido de modificar a
situação. Era bem provável que ela, finalmente, tivesse tomado a decisão e fugido
com o filho e ele estava se envolvendo numa confusão, deliberadamente.

Julie estava nervosa, a ponto de sentir vontade de gritar. Por que demoravam
tanto a chamar para o embarque? O homem sentado atrás dela era simpático e
charmoso e fora muito gentil, brincando com Tony, mas ela se sentia tão tensa e
ansiosa que mal podia manter uma conversa civilizada. Estava sendo antipática.
27
Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Queria olhar para trás e explicar que sua atitude nada tinha a ver com ele, mas que
estava cansada e perturbada para conversar. Mas nem isso conseguia fazer,
desejando desesperadamente que o sistema de som avisasse que o avião ia partir.
O bebê começou a balbuciar, irritado, sem se interessar nem um pouco pelo
patinho que o homem apertava, fazendo assobiar. Estava com um punho fechado na
boca e resmungava enquanto o chupava com desespero. Era hora de dar-lhe algum
alimento e nem podia contar com a ajuda de uma comissária, o que aconteceria se já
tivessem embarcado. Tentou acalmá-lo cantarolando, mas aquilo pareceu irritá-lo
ainda mais. O menino tirou a mão da boca e deu um grito de raiva, ficando muito
vermelho. Se havia algo que Tony não tolerava era a fome. Ela estendeu uma das
mãos para a sacola no chão e começou a apalpar o conteúdo, ao mesmo tempo em
que segurava o filho que esperneava. Ele gritava tanto que ela ficou com medo que
perdesse o fôlego. Agarrou o primeiro pote de alimento infantil que encontrou e
tentou tirar a tampa, com Tony se remexendo e chorando, impaciente, mas estava
difícil. O homem tirou-lhe o pote da mão.
— Espere, deixe-me ajudá-la. — Ele tirou a tampa, com pouco esforço, e cheirou
a papinha sorrindo. — Oba, maçã amassada com mel. Você vai adorar, garotão.
O bebê ouviu-lhe a voz e parou de chorar, olhando-o, curioso. De repente, a mãe
pareceu desanimada.
— Oh, não! Não trouxe colher! Estava pretendendo alimentá-lo no avião. E
agora?
— Um momento — disse o homem levantando-se. — Cuide do meu sobretudo,
por favor.
Ele afastou-se, e ela tentou acalmar Tony, que recomeçara a gritar, curvando o
corpo para trás. Como pudera esquecer de trazer uma colher? Não sabia nem cuidar
do próprio filho, era uma inútil, uma estúpida. Também, nunca lhe haviam permitido
tomar conta dele. Desde o nascimento, fora sempre a avó quem tomara todas as
decisões e havia enfermeiras e babás para cuidarem do bebê. Não lhe fora possível
nem mesmo amamentá-lo, pois houvera uma ama para isso, até que ele se recusara
a mamar, começando a tomar líquidos em xícaras e sopinhas e mingaus com colher.
Como podiam esperar que ela fosse uma mãe experiente? Teria feito a coisa certa?
Talvez Tony pudesse ser mais feliz se fosse criado no meio do conforto e luxo
proporcionados pela riqueza dos avós. Não conseguiria viver com a culpa, se seu
plano resultasse em algum prejuízo para o filho. Exausto de tanto chorar, o bebê
soltou o corpinho contra o peito dela soluçando. Uma mulher de meia-idade que o
estivera observando de uma das cadeiras próximas, acercou-se de Julie com a testa
franzida. Receosa de encarar a mulher, ela baixou os olhos, esperando uma
repreensão.
— No meu tempo, as mães eram mais severas com os filhos. Hoje em dia, quem
manda são os fedelhos. Tenho pena de vocês, jovens mães.
Era mesmo de rir. Esperara uma reprimenda e a mulher havia sido até simpática,
vendo o bebê como um tirano e a mãe como pobre vítima. A desconhecida afastou-se,
deixando-a com um leve sorriso no rosto, olhando em volta, procurando ver se
alguém a observava com censura, mas ninguém lhe prestava atenção. Talvez todos os
bebês fizessem escândalos de vez em quando, afinal de contas, sabia tão pouco sobre
crianças! Imaginava como faria para tratar convenientemente do filho. Não poderia
nem mesmo procurar Beth para pedir-lhe ajuda. Era óbvio que os Velasco mandariam
vigiar a casa da irmã. Não poderia arriscar-se a ser apanhada. Não queria nem
imaginar o que faria sozinha numa cidade estranha, se Tony ficasse doente ou se algo
acontecesse a ela. Começou a fantasiar horrores, vendo-se inconsciente num
apartamento, enquanto a criança chorava de fome. Enfiou a mão na sacola
procurando o cartão que o homem lhe dera. Andrew Wolfe. Ela nem queria pensar em
outro homem em sua vida, mas precisava de alguém com quem pudesse contar, e
aquele advogado simpático poderia ser um bom amigo.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Animou-se quando o viu voltando, quase correndo, sorrindo para ela, sem se
importar com os olhares admirados e sobrancelhas erguidas que provocava à sua
passagem. Sorriu também, observando as pernas longas abrirem caminho até ela, o
paletó esportivo aberto e esvoaçante, o revolto cabelo cor-de-areia e a colher de
plástico erguida, em triunfo, como se fosse um troféu.
O anúncio para a partida soou, finalmente, e os passageiros, aborrecidos com a
demora, correram para o portão, colocando-se em fila. Andrew continuou sentado,
vendo o pequeno Tony engolir a papinha de maçã com enorme apetite.
— Não há pressa — ele assegurou. — Esses aviões são enormes e levam um
tempão para ficarem lotados.
Todavia, Julie estava agitada e ansiosa para juntar-se às pessoas na fila. A
paciência com o bebê era grande, mas as mãos lhe tremiam e os olhos estavam
inquietos. Andrew a estudou, notando, pela primeira vez, que tinha a roupa suja e as
meias desfiadas. Aquilo reforçou a idéia de que ela estava fugindo e ele soube, com
estranha certeza, que estava arrumando problemas.
O potinho de alimento ficou vazio, mas Tony não parecia estar satisfeito. Julie
pegou outro, com ligeira impaciência.
— Purê de ervilhas.
— Não devia ter vindo antes que a papa de maçã? Acho que serviu primeiro a
sobremesa.
— Sim, acho que sim, mas Tony não é exigente.
A fila de passageiros desaparecia no portão, para desespero de Julie e completa
indiferença do bebê, que continuava a comer com satisfação. A mãe tentava amiudar
as colheradas, mas ele recusava-se a ser apressado.
— Garotinho teimoso.
— Não — disse Andrew. — Tem personalidade e sabe o que quer.
— Tem paciência com crianças, não?
Ele apenas sorriu, em resposta. Passou a mão pelo cabelo rebelde, tentando em
vão tirar a mecha cor-de-areia que teimava em lhe cair na testa. Ela olhou-o
sorridente, mas de repente corou. O que estava fazendo? No meio de uma fuga, dava-
se ao luxo de relaxar, sentada calmamente, sorrindo para um estranho. Jogou o pote
vazio no cesto de lixo, limpou o rosto do bebê com um guardanapo de papel e agarrou
a sacola.
— Posso ajudar a carregar alguma coisa?
Só então ela notou que os olhos dele eram de um verde cristalino, brilhantes e
orlados de cílios escuros.
— Não, obrigada. Já lhe dei bastante trabalho.
— Trabalho nenhum. E, veja, só carrego o sobretudo.
Resolveu aceitar, por que não o faria, se até pretendia telefonar-lhe quando
chegassem a Nova York? Já o estava considerando um amigo, mas o pensamento não
impediu que ela se sentisse um pouco envergonhada ao entregar-lhe a sacola de
fraldas. Colocou-se no fim da fila, com o homem atrás, passando pelo portão e pelo
corretor estreito. O bebê, bem alimentado, estava com toda a energia, pulando no
colo e rindo para Andrew que lhe fazia caretas.

No avião, Julie examinou as passagens, procurando o número da poltrona que


ocuparia. Era um lugar na janela, numa fileira de três poltronas, duas das quais já
estavam ocupadas por gordas senhoras. Pediu licença e, com dificuldade, conseguiu
acomodar-se. Uma das mulheres, sentada na poltrona do meio, olhou-os intrigada.
— Vocês dois estão juntos?
Antes que tivessem tempo de responder, ela saiu do lugar reclamando contra as
companhias aéreas que não tinham o bom censo de colocar os casais sentados juntos.
— Mas nós não... — Julie tentou explicar.
— Não — a mulher insistiu. — Vamos trocar de lugar.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Empurrou a passageira da ponta fazendo-a levantar-se, causando confusão


geral. Uma loira e sorridente comissária aproximou-se para ver o que estava
acontecendo.
— Qual o problema, pessoal?
Julie chegou a abrir a boca para falar, mas a prestativa mulher antecipou-se nas
explicações.
— Este casal deve ficar junto, de modo que o pai possa ajudar a cuidar do nenê.
— Bem, então, é muita gentileza sua querer trocar de lugar com este senhor.
Não adiantava querer desfazer o equívoco e criar uma confusão maior; assim,
Andrew deu de ombros e sentou-se na poltrona do meio, enquanto a mulher
acompanhava a aeromoça até a poltrona que anteriormente fora destinada a ele. A
proximidade tornou-os tímidos. Julie concentrou-se nas atividades que precediam a
decolagem, olhando pela janela. Quando finalmente o avião subiu, Tony já dormia
placidamente sugando o polegar. Ela beijou-lhe a cabecinha e ajeitou o acolchoado ao
seu redor. Notou, então, que Andrew a olhava com um sorriso maroto.
— Acho que fomos destinados a formar um par.
As palavras a deixaram mais encabulada ainda. O sentimento primitivo que
tornava todas as pessoas um pouco supersticiosas, fazendo-as temerem uma sexta-
feira treze ou o encontro com um gato preto, surgiu dentro dela ao considerar que ele
dissera “destinados”. Destino era algo em que acreditava e quase podia ver a mão
poderosa tecendo teias invisíveis entre os dois. Quando ele tocara no assunto, ela até
se arrepiara.
— Seu relógio — ele comentou, apontando a joia cara que ela usava no pulso
esquerdo. — Está quebrado, assim como o meu. — Compararam os dois relógios e
viram que os vidros estavam quebrados de modo igual. — A única diferença é que o
seu está funcionando — ele observou.
Julie riu, pela primeira vez. Foi um riso de alívio, como depois de uma grande
tensão. Que destino brincalhão, causando tais coincidências.
— Já sei o nome do bebê e já lhe dei o meu cartão, agora, que tal dizer-me como
se chama?
Ela mostrou-se ocupada, arrumando o nenê no colo.
— Tem razão. Estou sendo mal-educada. Chamo-me Julie. Julie Régis.
Não sabia por que escolhera Regis, ao resolver mentir. Aquele era o sobrenome
de um professor de arte dramática no internato, por quem tivera muita afeição.
— Vai visitar alguém em Nova York? — Ele insistia em puxar conversa.
Embora a pergunta fosse bastante inofensiva, Julie sentiu o pulso acelerar-se.
Sabia que não responder, ou fazê-lo de modo evasivo, levantaria suspeitas. Evitou
encará-lo.
— Não. Vou morar lá. Eu, hã... sou divorciada e estou à procura de uma
mudança de cenário, sabe como é?
Ele não sabia, mas assentiu, estudando-a com o olhar pensativo.
— Já tem algum lugar para onde ir? Quero dizer... pode ser bem difícil conseguir
um apartamento em Nova York. — Ela negou, com um gesto de cabeça, mas
continuou calada. — Quando fui para lá — ele prosseguiu — foi duro arrumar um lugar
para viver. É verdade que procurei apenas numa área definida, perto do meu
escritório. É bom também ter cuidado com os corretores de imóveis. Nem todos são
confiáveis e muita gente é enganada por eles.
— Estou trazendo vários nomes de locais bons, hotéis onde poderei ficar até
conseguir um lugar definitivo.
Talvez tivesse falado mais do que devia, mas precisava aplacar a curiosidade
dele, de modo que parasse de fazer tantas perguntas. Ajeitou novamente o bebê,
inclinou o encosto da poltrona como se fosse dormir, tentando com isso desencorajá-
lo de continuar a falar. Precisava ter muito cuidado para não cair em contradição,
conversando com um homem de inteligência aguda e grande percepção. Simulou um
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

pequeno bocejo e fechou os olhos. Em breve estaria em Nova York.


O pensamento excitou-a. Nada poderia impedi-la de começar uma vida nova,
livre de tudo e de todos, pronta a seguir suas próprias regras.

Andrew remexeu-se no estreito espaço. As pernas compridas estavam


entorpecidas por ficarem meio encolhidas. Os ombros largos não podiam se espalhar à
vontade e precisava tomar cuidado para não molestar as companheiras de viagem
com os cotovelos. Mas não era o desconforto físico que o perturbava. Nos anos em
que exercera a profissão de advogado, aprendera a simplificar as situações,
colocando-as em dois terrenos: o certo e o errado. Porém, naquele caso, o método
não funcionava. Julie Velasco estava fugindo. Aquilo era claro como água. Mas era
adulta e um ser humano livre, com direito de ir e vir a sua vontade. Quanto à criança,
era filho dela. Todavia, sentia-se como se estivesse testemunhando um fato errado.
Se ela fosse apenas uma viúva, fugindo da família repressora do marido, seria
fácil esquecer tudo e deixar que se arrumasse conforme pudesse. Mas havia o
menino. Ele tinha direito a uma vida tranquila e segura. Havia os avós, que sofreriam
com o desaparecimento do neto. Era uma questão de moral que transcendia às
fórmulas legais. Mas a lei não se baseava em emoções ou direito moral. Legalmente,
Julie não havia cometido crime algum. Ele suspeitava de que ela pretendesse “vender”
a criança aos avós, futuramente; mas era uma suposição baseada em maledicentes
comentários, não em fatos comprovados. Só podia acusá-la de uma coisa: não querer
viver com os sogros. Mas isso era ridículo.
Dizer àquela mulher que conhecia toda a verdade serviria apenas para fazê-la
desaparecer, assustada. Telefonar ao tio, pedindo conselho, seria admitir impotência.
De qualquer forma, Ignácio, com suas ideias de lealdade para com os de sua classe,
insistiria para que os Velasco fossem avisados e só a ideia de tal procedimento o
repugnava. Podia bem imaginar do que a tradicional família seria capaz, para defender
o que entendia por honra. Se conseguissem pôr as mãos na nora, sabia-se lá o que
fariam para revidar o insulto. Qual seria a resposta para aquele problema?
Parecia não haver nenhuma. O que podia fazer era dar assistência àquela bela
mulher sozinha e ao filho. Sua consciência não o deixaria em paz, se ela entrasse em
situações perigosas, ou se o bebê corresse qualquer risco. Aquela criança estava
sendo alvo de um sujo jogo de interesses. De um lado, a mãe, mimada e sem juízo,
considerando a criança como um bilhete premiado de loteria, e do outro, os avós,
vendo em Tony apenas a continuação do nome tradicional. Em sua opinião, nenhum
deles era digno de obter a custódia do bebê. Mas não podia deixar-se levar pelas
aparências, sem conhecer os fatos. Só havia um caminho a seguir, se realmente
quisesse proteger a criança. Era vigiar a mãe, procurando impedir que algo ruim
acontecesse e, se percebesse que Tony estava sendo negligenciado, chamaria uma
assistente social.
Julie suspirou no sono e ele virou a cabeça para olhá-la. Estava visivelmente
exausta, parecendo muito frágil, apertando o filho contra o peito, no conhecido gesto
que transformava as mães em madonas. Estendeu a mão e ajeitou o acolchoado ao
redor do rostinho rosado do nenê. O movimento a despertou do cochilo e o ar
assustado deu lugar a um sorriso confiante, quando ela viu que era ele quem mexia
em Tony.
— Vocês vão estar exaustos quando aterrisarmos — Andrew disse baixinho. Ela
concordou, fechando os olhos outra vez, mas ele não se deu por vencido. — Eu
poderia sugerir um bom hotel onde ficariam bem instalados.
Ela abriu os olhos e encarou-o por um longo momento, como querendo
adivinhar-lhe as intenções.
— Acho que vou aceitar sua sugestão. Preciso de um lugar decente, mas que não
seja muito caro.
Ele respirou fundo, aliviado. Conseguira a confiança dela. O resto seria fácil.
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— Acho que já tenho ideia de onde poderei levá-los.


Recostou-se, tranquilo, percorrendo em pensamento os lugares que conhecia e
onde mãe e filho poderiam ficar. Um deles lhe pareceu mais conveniente, por ser
perto do escritório. Ele conseguira que ela confiasse nele. Levaria seu plano de
vigilância adiante. Então, por que estava se sentindo tão mal?

CAPÍTULO V

Ao pensar que o pior já havia passado, Julie enganara-se redondamente.


Acordou, naquela primeira manhã em Nova York, e ¡mediatamente sentiu-se
deprimida pelo ambiente do quarto de hotel, de mobília impessoal e paredes frias. O
coração apertou-se de angústia. A família do marido poderia encontrá-la se quisesse.
Os Velasco tinham poder e dinheiro e não desistiriam facilmente da busca. E quando a
encontrassem... Tinha certeza de que algo sairia errado. Havia aprendido, em sua
vida instável, que era bom desconfiar quando tudo corria muito bem. Realizara o
plano de fuga com relativa facilidade mas, em algum momento, devia ter cometido
qualquer erro, pois sempre fora incapaz de realizações perfeitas. Portanto, era melhor
não comemorar o triunfo, ainda.
Conforme os dias passavam, seu medo aumentava. Os sogros deviam estar lhe
dando tempo para que pensasse haver realmente escapado. Quando ela relaxasse,
pensando estar em segurança, eles cairiam sobre ela como gatos cruéis sobre um rato
descuidado. Seu sono era torturado por pesadelos horríveis, em que via Tony sendo
arrancado de seus braços ou caindo de alturas enormes. Deixava a luz do abajur
acesa a noite toda e passava horas intermináveis agarrada às cobertas, olhando para
a porta e para a janela, procurando qualquer sinal de movimento. Tinha verdadeiro
pavor de sair do quarto, chegando ao extremo de pedir que lhe levassem as refeições,
mas mesmo assim, quando precisava abrir a porta para o garçom, seu coração
disparava à ideia de que poderia haver alguém no corredor, pronto a atacar.
Assistia à televisão e brincava com o bebê, sempre atenta ao menor ruído
estranho. Mantinha as cortinas fechadas, temendo que, de algum prédio vizinho,
pudessem vê-la, e não abria a vidraça, embora o quarto permanecesse sempre
superaquecido. Quando ia tomar banho, levava a criança consigo, temerosa de deixá-
lo sozinho, mesmo podendo vê-lo através da porta aberta do banheiro. Vivia num
clima de medo e tensão.
No primeiro dia, Andrew telefonara e ela dissera que estava bem, descansando
bastante e tentando adaptar-se. Dali para frente, ele continuara a ligar todos os dias e
ela sempre dizia que passara horas telefonando para imobiliárias, procurando um
apartamento para alugar, mas era mentira. Não se atrevia a tomar qualquer iniciativa
no sentido de sair da segurança do hotel. Por fim, ele começara a pedir para visitá-la
e ela procurara fazê-lo desistir da ideia, até que não fora mais possível resistir à
insistência. Naquele dia, ele iria vê-la no hotel, pela primeira vez.
Rapidamente, arrumou o quarto, vestiu a saia e a blusa do único conjunto que
possuía, o mesmo com que viajara, e colocou um macacão em Tony. Mostrou-se
formal, ao abrir a porta. Andrew entrou e olhou-a, e ao bebê, por um longo tempo,
estudando-os. Reclamou que o quarto estava abafado demais e convidou-a para
almoçar.
— Não tenho fome — ela resistiu.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

— Tudo bem. Pode tomar café, enquanto eu e meu amiguinho comemos.


Tony estava no colo da mãe, mas começou a esticar os bracinhos para Andrew,
que o pegou. Julie continuava relutante, não querendo sair do quarto.
— Acho que não...
— Nada de desculpas. — Ele fez cócegas na barriguinha do nenê, que rompeu
em gostosas risadas. — Nós vamos descer, mamãe. Se quiser, pode ficar aqui
sozinha, neste lugar abafado.
Não havia outra coisa a fazer a não ser ir com eles, embora de má vontade. A
descida de elevador foi um pesadelo. Todos os rostos estranhos pareciam esconder
uma ameaça, um perigo. No restaurante do hotel, ela deixou a garçonete admirada
pelo modo como exigiu uma mesa longe de qualquer janela. Desculpou-se, dizendo
que estava com forte dor de cabeça e desejava ficar longe da luz intensa do sol, mas
achou que ninguém acreditou muito em seus motivos. O almoço decorreu em clima
tenso e desagradável, sendo bom apenas para Tony, que se divertiu mexendo nos
cordões de bolinhas coloridas que enfeitavam a cadeira alta que lhe haviam dado,
olhando tudo, vivo e curioso. O intrometido que a tirara à força do quarto fez
comentários sobre sua aparência cansada e perda de peso e elogiou a saúde do
menino que estava corado e bem-disposto.
Depois da refeição, subiram novamente, e ela permitiu que ele entrasse, pois
tinha medo de enfrentar o quarto vazio sozinha, como se algum malfeitor ali se
houvesse introduzido em sua ausência. Andrew brincou com a criança, enquanto Julie
olhava, silenciosa. Quando ele lhe perguntou o que já vira de Nova York, ela alegou
não ter se sentido bem e que não havia saído. Ao oferecimento dele de lhes comprar
algo de que precisassem, ela respondeu que o bebê precisava de fraldas descartáveis.
Na manhã seguinte, Andrew apareceu com um imenso pacote de fraldas e um
grande sortimento de comida infantil. Daquele dia em diante, começou a aparecer
todos os dias, trazendo uma coisa ou outra: xampu, sabonetes perfumados, frutas,
doces, biscoitos. O quarto encheu-se de livros, revistas e brinquedos.
Julie agradecia e insistia em pagar, mas nunca conseguiu fazer com que ele
aceitasse dinheiro pelos brinquedos, porque, segundo ele, presentear Tony era um
prazer. Como a achasse pálida e insistisse para que saísse um pouco e tomasse sol,
ela começou a mentir, dizendo que passeava com o filho, de manhã bem cedo, e que
andava bastante, no parque. Aparentemente, ele acreditava, mas ela se desesperava,
pensando quando poderia deixar de dizer mentiras, pois sabia que nada no mundo a
faria sair do hotel e aventurar-se a andar pela cidade.
Não conseguiu nem mesmo ir até à esquina, onde havia uma lavanderia
automática, tendo de mandar lavar o conjunto de saia e casaquinho no próprio hotel e
cuidando das peças íntimas e das roupas de Tony, no banheiro, pendurando-as na
porta do boxe para que secassem. Quando a televisão ficou com defeito, ela nada
comunicou à gerência, com medo de permitir que gente estranha entrasse no quarto
para consertar ou substituir o aparelho. Começou, então, a devorar os jornais que
Andrew lhe trazia, lendo todos os artigos, por mais insignificantes que fossem.
Um dia, uma pequena notícia deixou-a eufórica, fazendo-a sentir-se livre. Estava
na página dedicada aos países da América Latina e falava de distúrbios ocorridos no
México, onde uma poderosa indústria fora bombardeada e semidestruída. Um arrepio
percorreu-lhe o corpo quando leu o parágrafo que explicava que o complexo industrial
pertencia à tradicional família Velasco, sendo sua principal fonte de renda. O trecho,
porém, que lhe foi mais significativo, vinha a seguir, e dizia que Juan Arista, porta-voz
da companhia prejudicada, recusara-se a estudar a possibilidade de reabrirem a
indústria e que Mariano Díaz, recentemente eleito para a presidência da Internacional
Díaz, havia proposto a compra da área e dos direitos de produção, mas que sua
proposta não fora aceita. Julie leu a notícia até sabê-la de cor. Depois, deixou cair o
jornal e ficou pensativa, analisando o que os acontecimentos narrados poderiam
significar para ela. De alguma forma, Juan Arista conseguira o lugar de porta-voz da
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

família, o que não deixava de ser estranho, pois Victoriano sempre havia falado em
seu próprio nome e no dos membros todos da casa.
E Mariano! Que novidade suculenta! Sempre houvera uma rixa camuflada entre
as famílias Díaz e Velasco, desde que Tereza e Mariano haviam se casado. A união
fora realizada com a pretensão de formar uma aliança entre duas antigas linhagens,
mas na verdade transformara-se numa barreira entre elas, quando os Velasco haviam
descoberto que as empresas Díaz não eram financeiramente estáveis. O casamento
continuara, mas não houvera nenhuma ligação de negócios unindo os nomes.
As duas famílias haviam competido no sentido de ganhar a lealdade do novo
casal e, práticos, Mariano e Tereza optaram pelo lado mais rico, indo viver com os
Velasco. Os Díaz nunca deixaram de tentar convencer o filho a voltar para eles e,
aparentemente, haviam conseguido. Pela notícia do jornal, podia-se supor que
Mariano baldeara-se para o campo inimigo e, com toda a certeza, levara a esposa e as
filhas consigo. Além de os Velasco haverem sofrido um golpe tremendo em suas
finanças, ainda estavam tendo o desgosto de ver a família se partindo. Tudo aquilo
representava um problema muito mais premente do que a fuga de uma nora rebelde,
mesmo que ela houvesse levado o herdeiro tão desejado.
A janela do quarto do hotel foi aberta pela primeira vez, num ato quase simbólico
de liberdade. A rua, lá embaixo, regurgitava de gente que andava apressada ou que
caminhava vagarosamente, aproveitando o calor do sol e a suavidade da brisa. Nova
York. A cidade a havia engolido e escondido nas entranhas, tornando-a anônima.
Anônima e livre de tudo, inclusive de sua própria imaginação que a havia feito ver
perigos, torturando-a. Rapidamente vestiu-se e ao bebê, descendo para a rua.
Deixou-se envolver pelo barulho e pelo movimento, pelo cheiro das castanhas
assando nos carrinhos dos vendedores, pelo ar frio em suas faces, pela alegria de
sentir-se viva e livre. Passou o resto do dia andando. Vendeu as joias, mas decidiu
conservar o casaco de marta, pelo menos até a primavera. Alugou um cofre no banco,
para guardar seus documentos e dinheiro, e comprou jeans, um par de tênis de couro
macio e alguns blusões de malha. Comprou também macacões acolchoados para o
nenê e um carrinho para poder levá-lo com mais facilidade quando saíssem.
Pensou em Andrew e no que ele estaria imaginando se houvesse telefonado sem
obter resposta. Resistiu ao impulso de ligar para ele de algum telefone público. Queria
andar sozinha, testar a resistência física e autoconfiança. Pelo fim da tarde, rendeu-se
ao desejo de vê-lo. Entrou num táxi e deu o endereço do escritório ao motorista,
torcendo para que ele ainda não houvesse ido para casa. Ele ia ter uma surpresa ao
descobrir que não estava lidando com uma paranoica que vivia presa num quarto com
medo até da própria sombra. Falou com seus assistentes e entrou no escritório sem
ser anunciada.
— Surpresa!
Arrependeu-se no mesmo instante do gesto espontâneo, ao vê-lo ocupado em
sua imensa escrivaninha, onde se empilhavam fichas de arquivos e processos, belo e
sério, impressionante mesmo, naquele ambiente. A surpresa estampou-se no rosto de
linhas firmes e másculas. Andrew ergueu rapidamente a mão e retirou os óculos de
aro de metal que estava usando para ler, revelando o verde incrível dos olhos bonitos.
Começou a falar, misturando palavras de alegria e interrogação, deliciosamente
confuso. Julie sentiu-se tímida, perdendo toda a confiança adquirida.
— Estou, hã... saí um pouco e...
— Você está com ótima aparência. — Ele se levantou, dando a volta na mesa. —
Quer se sentar? Um pouco de café? — Julie fez que não, com um gesto de cabeça. —
Chá?
— Não, obrigada. Tony está com sono, preciso ir. Só queria...
— Bem, se tem mesmo que ir...
— Sim. Não vou ficar, mas... — A garganta estava seca e ela precisou limpá-la
antes de continuar a falar. — Poderia falar com você amanhã?
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

— Claro que sim. — Andrew correu os dedos pelos cabelos que lhe caíam na
testa, observando-a empurrar o carrinho do bebê para a porta. Não queria deixá-la
partir. — Eu... bem... queria lhe perguntar se tem alguma coisa especial para fazer
amanhã.
— Não.
— Gostaria de levá-la para conhecer um pouco a cidade. Museus, pontos
turísticos, mas não tenho tanto tempo disponível. Vou dar-lhe um roteiro. O que
acha?
— Adoraria. Gosto muito de museus.
— Verdade? — O rosto dele iluminou-se. — Eu também! Não pode imaginar
quantos museus interessantes existem em Nova York.
Julie hesitou um pouco, embaraçada, antes de fazer um convite que lhe pareceu
atrevido.
— Não poderia ir também?
Uma sombra passou pelos olhos de Andrew, deixando-o repentinamente sério.
— Não tenho mesmo tempo, mas passe por aqui amanhã que lhe darei um mapa
e algumas sugestões.
Nada mais havia a fazer ali. Julie saiu, empurrando o carrinho, acenando em
despedida, sem poder confiar na própria voz, tão desapontada ficara. Fora uma tola.
Andrew Wolfe era um homem que se propusera ajudar aos outros e ficara ao lado
dela enquanto a vira necessitada de auxílio. Não a queria como amiga. Sentimento de
rejeição, tristeza e raiva de si mesma misturavam-se em seu coração. Fora
presumida, mas não incorreria novamente no mesmo erro.

Andrew, sentado em seu escritório, com os pés calçados de tênis sobre a


escrivaninha e as mãos entrelaçadas na nuca, olhava distraidamente para as
partículas de pó que giravam nos raios de sol filtrados pela persiana. Não conseguira
concentrar-se em nada naquela manhã. Julie estava para chegar. O mapa assinalado
e o roteiro turístico que ele separara estavam num canto da mesa, esperando que ela
viesse para apanhá-los. Estaria realmente desejoso de vê-la? Pelo menos, o modo
como a vira entrar no escritório no dia anterior, com um sorriso exuberante e o olhar
cheio de vida, não lhe saía da cabeça. Como estaria quando chegasse? Ainda cheia de
entusiasmo ou com aquela antiga expressão atormentada que trazia no rosto desde
quando haviam se encontrado no dia da fuga?
Havia sido fácil lidar com aquela mulher assustada e solitária, necessitada de
proteção e ajuda. O papel que desempenhara junto a ela fora o de um irmão mais
velho. Não houvera risco de perdê-la de vista e fora simples mantê-la sob vigilância e
controlar o modo como Tony era tratado. Mas como iria se comportar a mulher que
ele vira começar a desdobrar as asas em busca de liberdade?
Uma das secretárias interrompeu-lhe o curso dos pensamentos, aparecendo na
porta.
— A sra. Régis está aqui.
— Mande-a entrar, por favor.
Andrew tirou os pés de sobre a escrivaninha, endireitou o colarinho da camisa e
pegou uma ficha de arquivo, fingindo estudá-la. Julie entrou, leve e sorridente. Trazia
os cabelos acobreados presos atrás, num rabo-de-cavalo, e os olhos cinza-azulados
brilhavam como os do bebê. Vestia jeans, tênis e o luxuoso casaco de marta,
parecendo muito jovem e alegre, empurrando o carrinho de Tony.
Andrew sentiu o coração descompassado e por alguns instantes ficou um pouco
sem jeito, sem saber o que falar, mas ela quebrou o silêncio com sua voz agradável.
— Espero que não tenha tido muito trabalho para marcar o mapa.
— Oh, não. Até gostei bastante da tarefa. Acho que sou um guia turístico
frustrado. — Julie sorriu e ele notou que era um sorriso polido, mas distante, que
poderia ser endereçado a qualquer pessoa. Ele apanhou o mapa, mas não lhe
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

entregou, temendo que ela fosse logo embora. — Em que está mais interessada?
— Em tudo! — Ela riu. — Não vejo a hora de percorrer todos os lugares.
Andrew sorriu do entusiasmo e relutantemente deu-lhe o mapa e o roteiro.
— Se pudesse acompanhá-la, iríamos primeiro ao Museu de Arte Moderna. É o
meu favorito. Costumava levar um sanduíche e, depois de ficar horas admirando os
quadros, ia comê-lo no pátio das esculturas.
— Deve ser bom mesmo. Será o primeiro que visitarei.
— Faz tempo que não vou até lá.
— Que pena! Se gosta tanto, deveria achar tempo para visitá-lo.
Julie sorriu, mas sua atitude era de impaciência, parecendo um pássaro prestes a
levantar voo. Precisava retê-la um pouco mais.
— É um lugar enorme, quase assustador quando se entra pela primeira vez.
Demora-se um pouco para aprender a andar lá dentro. Quero dizer, é possível até
perder-se.
— Não se preocupe, dará tudo certo.
Por que não se resolvia a acompanhá-la? Seria delicioso visitar o museu com ela,
e perfeitamente inocente. Além disso, fazia tempo que não tinha algum tempo livre
para fazer o que gostava. Exceto pela viagem ao México, ficara preso ao trabalho por
muitos meses e, se nada disso fosse motivo plausível o bastante, havia uma razão
poderosa. Queria mantê-la, e ao bebê, sob controle, portanto tinha de sair com eles
de vez em quando.
— Acho que vou também. Isto é, se não se importar. Falar sobre o museu
despertou-me o desejo de vê-lo.
— Não tem de ficar aqui trabalhando?
— Sou o patrão. — Ele sorriu. — Acho que posso fazer o que me dá vontade,
pelo menos ocasionalmente.
— Bem, então o que estamos esperando?

Aquele foi o primeiro de uma série de passeios por Nova York. Visitaram o Museu
Metropolitano, o Whitney e o de História Natural e, pela primeira vez, desde que
abrira o escritório, Andrew estava tendo mais tempo de lazer que de trabalho. Mas,
claro, não era puro lazer. Aquelas andanças tinham um objetivo sério: cuidar de Tony.
Estava unindo o útil ao agradável, apenas isso. A Cidade do México, os Velasco e a
mulher fútil que vira no baile estavam muito distantes. A Julie que ele vira rindo,
rodeada de homens, era muito diferente da que estava aprendendo a conhecer e
estimar. Qual das duas seria a real? Precisava descobrir o que se passara com ela que
a obrigara a fugir com o bebê. Se soubesse tudo, talvez fosse mais fácil descobrir qual
das duas faces daquela linda mulher era a verdadeira.
Um dia, após muito pensar, decidiu telefonar para os tios, no México. Os
Obregon ficaram surpresos, já que ele não costumava chamá-los, a não ser na data
do aniversário de algum deles. A conversa que manteve com os tios foi sendo guiada,
no sentido de obter respostas para as perguntas que o atormentavam, sem no
entanto despertar as suspeitas de Ignácio. Muito casualmente tocou, no nome dos
Velasco e o que ouviu deixou-o arrepiado.
O desaparecimento de Julie, levando o herdeiro da orgulhosa família, ainda era o
pivô de comentários e interrogações curiosas na Cidade do México. De acordo com a
fofoca corrente, ela se casara com Paulo Velasco apenas interessada no dinheiro dele
e dilapidara a primeira parte da sua herança tão rapidamente, que tivera que vender a
clínica para poder manter-se. Depois da morte do marido, ela entrara na família
fazendo mil exigências, querendo peles caras e joias valiosas, certamente já
planejando roubá-las e fugir. Andrew, à medida que ouvia, sentia-se gelar.
Faziam acusações monstruosas à mulher que levara o único neto de um casal de
velhos, que haviam ficado desesperados, sem saber se o menino estava morto ou
vivo, abandonado ou em segurança. Victoriano e Letizia estavam vivendo um
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

tormento, apenas esperando que a mãe desnaturada se comunicasse com eles,


dizendo quanto queria pelo resgate, e rezando para que nenhum mal houvesse
acontecido ao menino. Foi difícil para Andrew segurar-se, não se trair, pulando em
defesa de Julie. Ela podia ter feito muita coisa errada, mas não oferecia perigo ao
próprio filho. Quis dizer alguma coisa, alertar o tio para o fato de que eles estavam
vendo apenas um lado da questão, que os Velasco talvez não fossem tão inocentes
como queriam parecer, mas não se atreveu, pois sabia que Ignácio jamais acataria
sua opinião.
Quando desligou, estava cheio de frustração e desgosto, não tanto por não ter
podido tomar o partido de Julie, como pela conversa com o tio ter-lhe lembrado fatos
que preferia esquecer. Apesar de estar fascinado pelo sorriso caloroso e pelos olhos
cinzentos daquela mulher, sabia que ela cometera vários erros e que tudo o que
contara sobre sua vida era uma deslavada mentira. Ela carregara Tony às escondidas,
quando tinha o direito de lutar por ele. Fugira com joias de grande valor pagas pelos
Velasco, e usara de esperteza e mentiras para fugir. Fora mentirosa, fingida e ladra.
Por mais horríveis que fossem essas palavras, eram as que definiriam suas atitudes,
legalmente. Por mais liberal que fosse em sua interpretação do certo e do errado,
Andrew tinha de reconhecer que ela não agira nada bem.
Era de duvidar que ela quisesse “vender” o bebê herdeiro aos avós, mas quem
podia saber ao certo o que se passara na cabeça de Julie? Talvez seu carinho por Tony
fosse apenas outro aspecto do seu papel, se ela estivesse mesmo desempenhando
um, naquele drama. Uma coisa que queria entender, e não conseguia, era como havia
entrado na história, perdendo o sossego e o sono, não podendo nem concentrar-se no
trabalho, que tanto significava para ele. O que não sabia sobre ela o torturava e o que
sabia o deixava inquieto. Estava com raiva de si mesmo, por haver entrado naquele
emaranhado de emoções que o confundia. Finalmente, decidiu ficar distante dela por
uma semana, pensando poder voltar à clareza de raciocínio, longe do encanto que o
embotava. Assim, quando uma manhã ela apareceu no escritório, pronta para mais
um passeio, ele explicou que já havia negligenciado demais o trabalho e, portanto,
teria de deixá-la andar sozinha por Nova York. Percebeu que a voz e o olhar que ela
lhe lançou mostravam mágoa, sentiu-se um monstro, mas manteve a decisão.
Durante os dias que se seguiram comportou-se como um urso na jaula, e seus
colaboradores reclamaram de seus modos rabugentos e respostas bruscas. Aos
poucos, porém, os efeitos da conversa telefônica com o tio foram passando e ele
esqueceu a Julie que conhecera na Cidade do México, voltando a ver apenas a mulher
bonita e alegre com quem visitara os pontos interessantes de Nova York. Sentiu falta
das andanças e pensou que seria delicioso visitar Chinatown com ela e participar do
primeiro passeio de Tony no barco de Staten Island. Não havia lógica em privar-se de
tal prazer, pois eram apenas amigos andando por uma cidade, comentando obras de
arte, admirando cenas pitorescas. Não podia haver nada mais inocente. Afinal, ele
sempre tivera o cuidado de manter um relacionamento quase impessoal com ela,
acompanhando-a apenas durante o dia, evitando o clima de tentação da noite.
Pretendia ficar longe de situações que pudessem levá-los a contatos mais
íntimos, nunca a visitando no apartamento para o qual estava se mudando, nem a
convidando ao seu. Porém muitas vezes seus olhares se encontravam e mantinham-
se presos, deixando transparecer sentimentos diferentes de uma simples amizade. E
por que ele se arrepiava quando, mesmo acidentalmente, suas mãos se tocavam?
Teria continuado a se enganar, considerando seu relacionamento com Julie
simples camaradagem, se não fosse pelo que aconteceu no dia em que foram assistir
à iluminação da árvore de Natal do Rockefeller Center. Aquela cerimônia era uma de
suas favoritas e ele ficou imaginando como Tony apreciaria o movimento e as luzes.
Existia toda uma tradição ao redor do ato da iluminação da árvore, fazendo com que
cada nova-iorquino se sentisse responsável pela propagação do espírito natalino,
convidando estrangeiros e recém-chegados à cidade para compartilhar da festividade.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Seria absurdo não convidar Julie e o bebê.

Julie atendeu o telefone rapidamente. Só podia ser Andrew, porque ninguém


mais lhe telefonava.
— Você e Tony têm planos para hoje à noite?
— Não. — Cheia de esperança, ela sentiu o coração acelerar-se.
— Haverá uma cerimônia no Rockefeller. Assisto-a todos os anos e acho que
vocês não deveriam perdê-la.
Sem tentar parecer desinteressada ou cautelosa, mas cheia de entusiasmo, foi
completamente espontânea.
— A que horas?
— Ao escurecer. Mas, olhe, é ao ar livre e está frio.
— Não faz mal. Gostamos do ar livre, não é Tony? — Ela riu, olhando o rosto
corado do filho que a fitava, curioso.
— Não vai me perguntar o que é?
— Não.
— Ótimo! — Andrew riu. — Encontre-se comigo no Rockefeller Center, perto da
pista de patinação, às cinco.
Julie desligou, sorrindo para Tony. Sentia-se leve e alegre demais, como se
houvesse tomado muito vinho. Passou a tarde ansiosa pelo momento de sair, de ver
Andrew novamente. Ele a incluíra nos planos, e ao nenê também. Sentira falta dos
dois, afinal de contas. Como uma tola, uma adolescente cheia de ilusões, pensando no
namorado, estava muito feliz, mas tentou ser razoável. Para que a euforia?
Aquele não seria um encontro, propriamente, mas apenas mais um passeio de
amigos. Ele era uma pessoa querida, de quem aprendera a gostar muito. A razão de
sua excitação era saber que, se ele telefonara querendo vê-la, certamente gostava
dela também. Anteriormente, nunca tivera certeza do afeto dele. Seus encontros
haviam sido alegres, mas por trás da polidez com que se tratavam às vezes ela
adivinhava uma frieza por parte dele que a magoava. Muitas vezes, até, pensara
perceber animosidade no modo com que ele a olhava, como se lhe desaprovasse as
atitudes. Tentara ignorar aquilo, dizendo a si mesma que sua necessidade de afeto a
fazia esperar muito das outras pessoas, tornando-a sensível demais. Procurara
esquecer os olhares inquisitivos e suspeitosos que surpreendera, assim como buscara
abafar a sensação esquisita que a proximidade dele lhe causava.
Tomara-se evidente que ele procurara erguer uma barreira entre os dois. Mas
por que motivo? Talvez, por uma questão de ética, ele tratasse com reserva a todas
as pessoas a quem ajudava. Teria alguma prevenção contra as mulheres? Por mais
que pensasse não conseguira uma resposta lógica.
Achava-o muito fechado, quase incapaz de dividir seu mundo interior com os
outros. O relacionamento deles baseava-se apenas em momentos de entretenimento
e lazer, nada tendo a ver com afinidade de objetivos e interesses. Na verdade, pouco
se conheciam. Como ela desejara, várias vezes, abrir-se e despejar toda a verdade!
Teria sido um alívio poder confiar nele a ponto de contar-lhe o que fora obrigada a
fazer, mas não podia se arriscar. Apesar de tudo, continuava a ser um estranho.

Naquela tarde, caminhando lentamente pela alameda que levava ao rinque de


patinação do Rockefeller Center, ela deixava-se absorver pelo encanto dos sons e
cores que a rodeavam. O ar frio era revigorante e o céu ostentava um azul de água-
marinha puro e cristalino. Um grupo de jovens universitários cantava músicas de
Natal e ela notou como os rostos eram bonitos, corados pelo frio, e como os olhos
brilhavam, cheios de exuberante alegria. O ambiente todo dava-lhe uma sensação de
felicidade por estar viva, por ter um filho, por estar ali. Superara muitas dificuldades,
mas estava contente por poder andar livremente, independente e capaz. Começava,
timidamente, a descobrir quem na verdade era Julie Lehman Velasco.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Ajoelhou-se ao lado do carrinho.


— Você vai adorar o Natal, Tony.
O bebê ignorou-a, totalmente concentrado em observar os cantores. Ela riu
suavemente. Seu filho era lindo. Andrew chegaria a qualquer momento, a vida
começava a ser muito, muito boa.

CAPÍTULO VI

Andrew passou pela enorme árvore e pelo rinque lotado de patinadores,


entrando na alameda. Havia marcado o encontro para as cinco horas. Olhou no relógio
que comprara havia pouco tempo, barato como todos os outros que já possuíra,
vendo que chegaria bem na hora. Melodias de Natal chegaram até ele, orientando-o,
levando-o para um ajuntamento de pessoas que percebia mais além. Lá estava ela,
no círculo de ouvintes, com os olhos brilhando e um sorriso aberto no rosto bonito,
observando os cantores. Atraiu-o como um ímã, fazendo-o apressar o passo e acenar
para chamar-lhe a atenção. Quando finalmente o viu, o sorriso ficou mais largo e ela
saiu de onde estava, indo ao seu encontro empurrando o carrinho. Cumprimentaram-
se e Tony começou a bater os pezinhos e gritar de alegria. Meio sem jeito, Andrew
não sabia o que dizer, achando mais seguro ficar no terreno prático.
— Está com fome?
— Agora que perguntou, descobri que estou, sim. — Julie riu, divertida com a
descoberta.
Começaram a caminhar lado a lado, percorrendo a distância de mais ou menos
dois quarteirões até a pizzaria. Andrew precisava regular as passadas longas para não
deixá-la para trás e mostrava-se gentil, alertando-a do perigo do gelo escorregadio
que cobria alguns trechos do calçamento e ajudando-a a subir e descer o carrinho nos
meios-fios.
Já estavam sentados, saboreando uma pizza à calabresa, quando Julie começou
a rir.
— Devo confessar que enganei você. Li no jornal sobre a cerimônia de hoje e já
sei qual será a surpresa.
Andrew riu gostosamente e os olhos verdes cintilaram, alegres. Ela adorava vê-lo
rir. Era como se ficasse mais vulnerável, mais aberto e mais próximo dela.
Depois da refeição, voltaram rapidamente para o local da cerimônia, desejando
obter um bom lugar de observação. A multidão começou a aumentar, então ela pegou
Tony no colo e dobrou o carrinho. O aperto foi ficando maior e tornou-se incômodo.
Andrew, então, estendeu os braços e pegou o bebê com suas mãos fortes, mas
delicadas. Julie concluiu que era bom ver o filho em segurança, nos braços daquele
homem alto, de cabelos cor-de-areia, que lhe sorria.
A noite desceu e assistiram à iluminação da árvore, que ficou maravilhosa, tão
majestosa e serena, elevando-se como um símbolo de paz e harmonia. Andrew olhou
para a beleza da árvore brilhante contra o escuro do céu e depois para Julie, com uma
expressão tão grande de carinho que um calor delicioso percorreu-a toda.
Começaram a andar, acompanhando o povo que saía.
— Quer jantar conosco amanhã? — Julie convidou. — Vamos inaugurar o
apartamento.
Nas palavras simples que ela pronunciara, ele percebeu o murmúrio do destino,
aproximando-os.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

— Sim.

Andrew colocou os óculos sobre uma pilha de fichas, na escrivaninha, apertou o


nó da gravata e levantou-se, pegando o paletó das costas da cadeira. Olhou para as
duas assistentes que se ocupavam de estudar pilhas de papel.
— Chega, por hoje.
As moças olharam-no, surpresas, mas felizes por poderem sair mais cedo.
— Vai a algum lugar? — Kathy perguntou, com um sorriso malicioso.
Elna também sorriu, enquanto guardava os óculos que ele deixara sobre as
fichas.
— De que estão rindo, como duas bobas?
— Kathy está com ciúme. Tinha esperanças de que você a convidasse para sair.
— É verdade — disse Kathy. — Mas espero que não vá contar ao meu noivo.
Andrew riu da brincadeira. Mantinha um bom relacionamento com seus
ajudantes, todos jovens estudantes de direito, que escolhia pessoalmente entre os
muitos que desejavam trabalhar em seu escritório.
— Estão procedendo como duas malucas. Acho que precisam de umas férias.
— Eu não! — exclamou Elna. — Fico perdida fora destas paredes. Além disso,
gosto de novelas.
— Novelas? Mas...
— Sim, novelas. Toda essa fofoca a respeito da vida amorosa do chefe parece
coisa de televisão.
Kathy pareceu horrorizada.
— Elna!
Assumindo expressão fingidamente ofendida, Andrew entrou no jogo.
— Bem, acho que isso não é da conta de vocês.
— Ora vamos, patrão! Não se ofenda. Estamos contentes por vê-lo divertir-se,
namorar e tudo o mais.
— Namorar? Estou namorando, então?
— Sim. — Kathy deu sua contribuição. — Sair com uma mulher atraente como
Julie, mesmo com um bebê no meio, é namorar.
— Quem diria... — Andrew resmungou, saindo da sala.
Desceu correndo as escadas do metrô e, distraído, pegou o trem errado. Ele
namorando? Kathy e Elna eram mesmo loucas. Irritado com o engano que cometera,
desceu do trem na Rua Quarenta e Dois, resolvendo fazer o resto do caminho a pé.
Enterrou as mãos nos bolsos e começou a andar pela calçada cheia de pessoas que
saíam de escritórios, carregando pastas, e de outras levando pacotes coloridos, que
evidentemente continham presentes de Natal. Os edifícios estavam festivamente
decorados e, a cada esquina, encontrava-se um Papai Noel fazendo soar uma sineta.
Envolvido pela cena, ele começou a andar mais devagar. Por que a brincadeira
das moças acabara por irritá-lo? Não precisava pensar muito para achar a resposta.
Elas haviam tocado num ponto nevrálgico: Julie. Todos os seus propósitos haviam
sido virados de cabeça para baixo. Nunca tencionara gostar dela nem tornar-se um...
O quê? Amigo? Namorado? Estava mesmo confuso, sem saber o que ela
significava para ele ou o que acontecera com todas as boas intenções que tivera,
querendo cuidar do bebê para que nada de errado lhe acontecesse. Os passeios que
haviam feito juntos significavam apenas atos de cortesia para com uma pessoa
estranha na cidade, e convidara-a para a iluminação da árvore impelido pelo espírito
de solidariedade que surgia em todos por ocasião do Natal.
Tudo aquilo, porém, era mentira. Ele vinha mentindo para si mesmo, desde o
começo, assim como ela mentira, dizendo ser uma divorciada de sobrenome Régis.
Dois mentirosos. Que beleza! A única diferença é que sua atitude havia sido
inconsciente, pois ele descobrira que viera se enganando, apenas na noite anterior.
Uma doce emoção o invadira quando, no escuro, sentira o calor do corpo dela ao
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lado do seu, quando vira o rosto suave brilhar de alegria quando as luzes da árvore se
acenderam, ouvindo-a falar meigamente com Tony. A descoberta de que a presença
dela o abalava expôs toda a verdade, não adiantando mais tentar iludir-se. Queria
estar com ela. Sempre quisera.
Ele fez uma curva, dando a volta a um casal de namorados que andava devagar,
um com o braço na cintura do outro. Seria bom andar daquele modo com Julie, tocá-
la, beijá-la. Havia momentos em que ela o olhava de lado, com expressão brejeira nos
olhos cinzentos, sorrindo. Ele então sentia-se queimar no desejo de estender a mão e
acariciar-lhe o rosto. Como aquilo pudera acontecer? Como podia alimentar tais
sentimentos por uma mulher de quem suspeitava, de quem não conhecia a verdadeira
personalidade? Era provável que estivesse se enredando nos encantos de alguém que
não existia na realidade, mas queria estar com ela. Era um fato irrefutável que
anulava todo o resto, nada mais importando, nem mesmo o medo de estar sendo
manipulado. Podia muito bem ser que ela estivesse sendo tão meiga e simpática
apenas para envolvê-lo e mantê-lo à disposição, achando-o útil.
Usar os homens parecia ter sido a principal especialidade dela; portanto, que
garantia tinha de que não estivesse fazendo a mesma coisa com ele? Ele próprio
tornara aquilo possível, pondo-se à disposição dela, no avião, deixando-a perceber as
vantagens de tê-lo como amigo. Amigo? Mais provavelmente, protetor, garoto de
recados, acompanhante, conselheiro legal, guia e até babá. De que se queixava? Ele
praticamente pedira para ser tudo aquilo. Se ela o estivesse simplesmente utilizando,
era bem feito.
Também podia ser que não. Talvez a mulher vibrante e maravilhosa que ele
admirava fosse a verdadeira Julie, tomando a volúvel cabeça de vento que ele
conhecera na Cidade do México uma simples ilusão. As histórias que corriam a
respeito dela podiam ser falsas, a impressão que os tios tinham dela podia ser errônea
e até mesmo o que ele vira e ouvira podia ser apenas aparente. Em sua profissão era
muito importante aprender a não guiar-se pelas aparências e sempre havia seguido
essa regra, religiosamente. Mas desde o começo seu julgamento de Julie fora
prejudicado pela estranha emoção que sentira ao vê-la. Rápida como um relâmpago,
a palavra destino brilhou em sua mente.
Virou uma esquina, tomando a direção das grandes lojas Macy’s, onde haviam
combinado encontrar-se, usando como ponto de referência a vitrina que dava para a
Praça Herald. Uma banda tocava alegremente a canção Rudolph, a Rena de Nariz
Vermelho, enquanto um mímico vestido de duende dava um show dentro da vitrina.
Andrew a viu de longe, segurando Tony nos braços. Suas faces estavam
deliciosamente coradas pelo frio e ela ria como uma criança. Todos os pensamentos
negativos que tivera voaram para longe, todos os receios e dúvidas dissolveram-se no
ar. Estava perto dela, e isso o enchia da doce sensação que eclipsava tudo. Não podia
deixar de vê-la, nem que tivesse de se arrepender depois. Pensaria nisso, quando
chegasse a hora.

Julie tomou seu lugar no trem e dobrou o carrinho. Andrew sempre insistia em
carregar Tony quando tomavam o ônibus ou o metrô, e ela achava ótimo, pois o bebê
adorava. Naquele momento, observou os dois, rindo da conversa que estavam tendo.
A criança o fitava muito séria, como se realmente pudesse compreender as palavras.
As pessoas entravam no trem e procuravam lugar para sentar ou ficavam em pé,
procurando manter-se firmes, segurando-se nos varões de segurança. Muitas delas
carregavam pacotes e sacolas e, apesar do cansaço evidente, traziam os rostos
serenos e alegres. Era como se achassem que o Natal valesse qualquer sacrifício. O
coração de Julie como que expandiu-se, cheio de generosidade e compreensão para
com todos os seres humanos. Estava contente e em paz consigo mesma, feliz ao lado
de Andrew. Sentiu-se adulta. Finalmente, depois de muitos desacertos e atitudes
infantis, considerava-se adulta pela primeira vez na vida.
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E era uma sensação maravilhosa. Um pensamento repentino quase a entristeceu.


Se Paulo ainda estivesse vivo, não amaria a Julie adulta. Gostara tanto dela porque
era dependente e fraca, uma indefesa mocinha à espera do príncipe salvador.
Sempre o vira como uma pessoa confiante e segura, mas agora percebia que ele
precisava de alguém desnorteado para tomar conta, de modo que sua autoestima
fosse alimentada. Como poderia definir o que sentira por Paulo? Amor nascido da
gratidão? Talvez. Por certo nunca o amara como a um igual, de maneira adulta, pois
quando tentara ele se afastara, pondo o frágil relacionamento por terra.
Olhou para Andrew. O que desejaria de uma mulher? Teria ficado apaixonado
alguma vez? Conheceria a desilusão? Nada sabia sobre ele, afinal, mas sentia que
podia confiar nele, pelo menos até certo ponto. A mente masculina ainda lhe parecia
um enigma, e sua convivência com Paulo apenas tomara mais difícil sua compreensão
dos homens. Ela havia adorado o marido, admirando-o por sua capacidade intelectual
e pela personalidade que julgara equilibrada. Entretanto, fora tudo um engano. Ele
era inseguro e fraco. Protegendo-a, sentira-se forte e destemido, eis o motivo pelo
qual a escolhera, a pobre órfã solitária.
Suspirou e fechou os olhos por um momento. Se conseguisse compreender tudo
o que lhe acontecera, seria capaz de dar novo rumo à vida. Se encarasse a verdade
sobre Paulo e seu casamento infeliz, poderia finalmente arrancar a insegurança que o
marido semeara nela e que crescera à semelhança de erva daninha, sufocando o que
havia de bom em sua personalidade. Poderia esquecer a raiva que sentira dele e a
frustração que a consumira.
Paulo fora seu professor e guia. Ensinara-lhe o certo e o errado, mas, depois,
inesperadamente, jogara fora os próprios ensinamentos e entrara numa espiral de
degradação que o levara para o fundo. Drogas, jogo e mulheres agiram como um
furacão, arrasando tudo. A própria clínica, que antes fora seu orgulho, tivera de ser
posta à venda para financiar os excessos, e ele desprezara completamente os votos
do casamento. O que restara para confiar? Nada. O marido a ensinara a não ter
autoconfiança, e tudo fora bem enquanto ela pudera apoiar-se nele. Quando ele ruíra,
ela perdera seu único ponto de apoio e sentira-se completamente desnorteada. O que
a tomara capaz de continuar vivendo fora o pequeno ser que se formava em seu
corpo.
Tempos depois, quando conseguira escapar dos Velasco e vir para Nova York
buscando uma nova vida, fora pelo pequeno Tony que o fizera. Adquirira forças,
levando o plano adiante, pelo amor que sentia pelo filho e, por amá-lo tanto, tinha a
obrigação de ser forte e confiante. Como poderia ensiná-lo a viver se continuasse com
medo do mundo? Tinha de esquecer a fantasia sobre um cavaleiro que a salvasse dos
perigos e aprender a lutar em vez de fugir. Seria independente, forte e
autossuficiente. Descobriria que tipo de pessoa era na realidade e aprenderia a gostar
de si mesma e a fazer com que a apreciassem e a respeitassem.
Andrew falava com o bebê, entre risadas.
— Então, garotão, está gostando do passeio?
Tony resmungou qualquer coisa em seu idioma particular e Julie riu para os dois.
Nisso o trem parou em outra estação e mais uma pequena multidão entrou. Um grupo
de homens e mulheres idosos, evidentemente estrangeiros, pois vestiam-se à moda
tradicional de algum país da Europa, ficaram em pé ao lado do banco ocupado pelos
três. Quando o trem partiu, o solavanco fez com que uma das mulheres caísse sobre
um homem gordo e de aparência mal-humorada.
— Imigrantes desgraçados! — o homenzarrão gritou. — Não têm modos. Acho
melhor se comportarem direito ou vou jogá-los para fora do trem.
O pequeno grupo olhou para o chão, humilhado, e os passageiros sentiram-se
envergonhados pela atitude do homem, mas ele parecia estar gostando de mostrar
sua má educação.
— Tratem de aprender boas maneiras, estão me ouvindo?
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Julie começou a sentir uma onda de raiva a invadi-la.


— O senhor está sendo grosseiro — disse, com voz perigosamente suave.
— O que foi que você disse? — O homem encarou-a, atônito.
— Disse que está sendo grosseiro.
O coração lhe saltava doidamente no peito, mas não era por medo do grosseirão
e sim pela velha timidez que a deixava em pânico toda vez que precisava falar em
público. E o pior era que todo mundo no vagão estava olhando para ela.
— Sabe com quem está falando, mocinha?
— Estou falando com o senhor. E se não me ouviu direito, vou repetir: está
sendo muito grosseiro, humilhando essa gente e perturbando os outros passageiros.
— Mas eles me empurraram!
— Não empurraram. Uma das senhoras caiu sobre o senhor quando o trem
partiu, e isso não é desculpa para agir desse modo.
O rosto do homem assumiu uma expressão feia e perversa.
— Acho melhor calar a boca, sua mulherzinha à toa.
— Espere um momento. — Andrew ergueu-se.
— O que disse? — O tom do homem era ameaçador. O bebê foi entregue à mãe
e começou a chorar, assustado. — O que foi, grã-fino? O gato comeu sua língua? Eu
lhe fiz uma pergunta!
Por que não chegavam logo à outra estação?
— Você é quem precisa aprender boas maneiras. — A voz de Andrew denotava
raiva contida. — É um mal-educado.
— Vou lhe mostrar o que são boas maneiras!
Ouvindo o tom ameaçador do homem, Julie ergueu-se, agarrando a bolsa com a
mão livre. Se ele tentasse qualquer coisa, ela o golpearia. De repente, outras pessoas
começaram a ficar de pé, rodeando Andrew e olhando fixamente para o criador de
encrencas, numa ameaça muda. A coragem do valentão acabou, deixando-o murcho.
Olhou ao redor e deixou-se cair num assento, resmungando frases sobre os direitos
de um cidadão americano. O trem parou. Andrew pegou novamente o bebê e desceu,
enquanto Julie o seguia, levando o carrinho. Na plataforma, ela olhou para ele, entre
sorridente e séria.
— Meus joelhos estão tremendo.
— Pois lá dentro não deu para perceber.
— Bem, eu estava furiosa demais para ter medo.
Ele sorriu e colocou Tony no carrinho.
— Sabe de uma coisa? Você está ficando uma perfeita nova-iorquina.
Julie riu.
— Devo aceitar isso como elogio?
— Pode crer que sim. Não sabe o que pensei quando a vi interpelar o
grandalhão.
— E o que foi que pensou? Que uma mulher estúpida estava se metendo em
encrencas e que você precisaria salvá-la?
Ele a olhou, um pouco admirado do raciocínio.
— Não. Pensei que, se o trem parasse e as portas se abrissem, eu não teria
tempo suficiente para sair correndo com o bebê e o carrinho.
Julie riu até sentir lágrimas nos olhos. Quando começaram a andar, ele
empurrava o carrinho, então ela enfiou a mão em seu braço, num gesto que lhe
pareceu perfeitamente natural.
— Agora nós vamos ver se a mamãe é tão boa cozinheira quanto encrenqueira,
não é, Tony? — O bebê virou a cabecinha para olhá-lo, como se houvesse entendido a
pergunta. — O que vai fazer para o jantar, Julie?
— É surpresa.

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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

CAPÍTULO VII

Julie desligou o forno e desamarrou a toalha de enxugar pratos que havia


amarrado na cintura à guisa de avental. Estava nervosa, desejando
desesperadamente que tudo saísse bem. Embora não tivesse prática de cozinha,
caprichara bastante, pois queria servir um jantar realmente gostoso na primeira
oportunidade que tinha de ser gentil com Andrew.
Pensara nunca conseguir que ele os visitasse no novo apartamento, porque
muitas vezes duvidara de sua amizade. Não que algum dia ele tivesse sido descortês.
Muito pelo contrário, fora sempre extremamente atencioso, preocupando-se com eles
e ajudando-a nos primeiros dias em Nova York. Mas, em certos momentos, parecera
distante e frio, como se não desejasse transformar o relacionamento deles em
amizade. Tirou as saladas da geladeira e abriu o vinho, divagando enquanto
trabalhava. Ele havia dito que não pretendia visitá-la no apartamento, como se
temesse a intimidade, mas o que interessava era que estava ali, no outro cômodo,
brincando com Tony.
Ela voltou-se na direção da sala de estar.
— Está tudo bem aí, com vocês dois?
— Tudo ótimo. Tony é valente, está tentando erguer-se.
Tudo estava ótimo mesmo, saindo do jeito que ela planejara. O peixe estava
macio e cheiroso, no ponto certo. Preparara duas saladas exóticas, com uma
variedade enorme de verduras e legumes e tivera sucesso com o arroz com açafrão.
Para sobremesa, comprara tortinhas de creme no Balducci’s, o famoso confeiteiro
italiano.
Estranhou o silêncio na sala de estar. Foi até a porta e olhou. Tony estava
adormecido no tapete, na frente da lareira, e Andrew deitara-se ao lado dele. Uma
poderosa corrente de emoções dominou-a enquanto percorria o ambiente com o
olhar. Aquele era o seu lar. Tivera sorte em encontrar um lugar tão bom para viver, e
de aluguel razoável, o que era importante. O apartamento ocupava o terceiro andar
de uma antiga mansão e estava mobiliado com bom gosto. O que a encantara
sobremaneira fora o acabamento das peças, remanescentes de uma época de luxo e
beleza quando se usava apenas material de primeira qualidade. As esquadrias das
janelas e as portas eram feitas de carvalho, o piso da sala de estar era de mármore e
as vidraças ostentavam desenhos lavrados a mão. O encanto das coisas antigas a
havia envolvido na primeira vez em que ali entrara. A única peça moderna era a
pequena cozinha, decorada em marrom e bege e muito bem equipada.
Ela já amava aquele lugar, seu primeiro lar verdadeiro em muitos anos, cheio de
paz e alegria. Olhou novamente para o filho adormecido, vendo que Andrew lhe dava
tapinhas ritmados e carinhosos nas costas, enquanto olhava para o fogo com ar
pensativo.
— Será que poderia levá-lo para o quarto e deitá-lo? — ela pediu. — O jantar
está pronto.
Ele a olhou como se voltasse de um sonho.
— Mas está dormindo tão bem!
Julie sorriu.
— Não se preocupe. Depois que pega no sono, hem um terremoto pode acordá-
lo.
Terremotos. México. Letizia. Não! Recusava-se a voltar ao passado. Aquela noite
pertencia ao presente, a ela, Tony e ao homem fantástico que se tornara seu amigo
querido.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Desajeitadamente, Andrew tomou o corpinho quente do bebê nos braços,


evitando movimentos bruscos para não despertá-lo. Ela voltou para a cozinha
sentindo um aperto no coração e ardor nos olhos. Emocionara-se ao ver o carinho
com que Andrew tomara a criança nas mãos, a suavidade com que o embalara.
Respirou fundo e tomou um copo de água, recompondo-se. Levou, então, o peixe e o
arroz para a mesinha de centro, grande o bastante para que duas pessoas pudessem
se acomodar. Antes de voltar para a cozinha para pegar os outros pratos, acendeu a
vela, deliciando-se com a reação de Andrew, que voltava do quarto.
— Oh, mas isso é maravilhoso... Nunca esperei tanto luxo.
— Luxo? Espero que não se importe de se sentar no chão. Não há mesa de jantar
e eu...
— Não, não. Está ótimo. — Ele acomodou-se, ajeitando as longas pernas o
melhor que pôde. — Acho que todos os outros moradores comeram aqui. Quero dizer,
é a maior mesa de centro que já vi e não há outro lugar no apartamento.
Rindo, ela dirigiu-se à cozinha, voltando em seguida com as saladas.
— É, não há mesmo jeito de colocar uma mesa por aqui.
Andrew ajudou-a a abrir espaço para os novos pratos.
— Na cozinha não há lugar.
Julie sentou-se no chão, no outro lado da mesa, de frente para ele.
— Nem no quarto.
Começaram a rir ao mesmo tempo, como se tudo aquilo fosse muito engraçado.
— Por que estou tão nervoso?
— Não sei, mas eu também estou, Por que será?
— Talvez porque este maravilhoso jantar esteja esfriando. — Ele ergueu o copo
de vinho. — Um brinde ao seu novo lar. Espero que você e Tony sejam felizes aqui.
Julie ergueu o copo e encostou-o no dele. O vinho tinha reflexos de ouro
derretido à luz do fogo. Num gesto gracioso ela levou o copo aos lábios, olhando para
ele. Ficou parada, o coração batendo como louco, incapaz de mais um movimento. Os
ângulos do rosto másculo estavam cinzelados pelas sombras lançadas pelas chamas e
os olhos verdes tinham um brilho excepcional, enquanto mergulhavam profundamente
nos dela, como se quisessem desnudar-lhe a alma.
Quem era aquela mulher? A pergunta martelava o cérebro de Andrew. Queria
atingir os mais secretos lugares daquela alma, ler-lhe os mais íntimos pensamentos,
arrancar a verdade. Durante um momento que pareceu infinito, ele perdeu-se naquele
olhar cinza-azulado, belo e misterioso. Sem palavras, implorou pela verdade, mas em
vão. Apenas viu uma expressão comovente de medo, esperança e vulnerabilidade.
Desviou os olhos, por fim, receoso da intensidade de suas emoções, lutando para
reencontrar o autocontrole.
— Pela aparência, o peixe é uma receita mexicana. Acertei?
Ela começou a servir, evitando olhá-lo.
— Sim.
Puseram-se a comer em silêncio, conscientes da tensão que se criara entre os
dois.
— Está delicioso — elogiou, ele, apontando para o peixe.
Julie concordou com um gesto de cabeça.
— Uma vez preparei esse prato para minha irmã, e ela também gostou. Acho
que é um dos pratos mexicanos mais saborosos. Aliás, em vários anos, aprendi a
preparar bem poucos.
Andrew baixou os olhos para esconder a surpresa. Era a primeira vez que ela
admitia ter vivido no México ou mencionava uma irmã. Podia perceber a verdade
querendo aparecer da parede de evasivas e mentiras que ela erguera. Sentiu uma
necessidade quase incontrolável de pressioná-la para obter as respostas que
desejava.
— Então você tem uma irmã? Tem outros parentes também?
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

— Não. Apenas Beth. Ela mora em Illinois. Você tem irmãos?


— Não, mas tenho um primo que considero um irmão.
Precisava ser cuidadoso e não revelar seu parentesco com os Obregon.
— Não tem pais?
— Não — ele respondeu. — Morreram num acidente quando eu tinha catorze
anos. Tínhamos uma fazenda em Dakota do Norte, um verdadeiro latifúndio. Meu pai
comprara um avião para locomover-se mais facilmente. Lembro-me de tê-lo ajudado
a fazer uma pista de pouso e um hangar no meio de um pasto. Pois bem, num dia de
tempestade, ele e mamãe caíram, tentando voltar para casa. E foi a primeira vez que
eu não havia ido com eles.

Andrew parou de falar, espantado com o próprio monólogo. Não gostava de


recordar aquela época de sofrimento. Olhou para Julie. Ela o fitava chocada, com
lágrimas nos olhos.
— Sinto muito — ela murmurou, procurando controlar-se. — Também perdi
meus pais, mas foi num acidente de carro. — Houve uma pausa na conversa, como se
ambos estivessem perdidos nas lembranças dolorosas do passado. — Para onde você
foi depois? — ela perguntou finalmente.
— Para casa de parentes. E você?
— Para o orfanato.
Fez-se silêncio novamente, enquanto comiam, mais para fazer alguma coisa do
que por apetite. Havia mais uma questão para ser abordada e, embora odiando-se por
isso, Andrew precisava provocar uma resposta. Quem sabe daquela vez ela lhe diria a
verdade.
— Você me disse que era divorciada...
De olhos baixos, ela concordou.
— Seu ex-marido, o pai de Tony, não lhe dá nenhuma espécie de ajuda?
— Não. Conto apenas comigo mesma.
Os olhos cinzentos ficaram frios e distantes. Aquela era outra Julie. Não era a
meiga mãe de Tony, nem a frívola beldade do baile, nem a criatura maldosa e
calculista descrita pelos Velasco. Era uma mulher pálida e gelada, parecendo
inatingível, refugiada numa força interior que poderia ser o ódio.
— Por que está me fazendo essas perguntas?
Por um momento, ele sentiu-se tentado a contar-lhe tudo, dizer que sabia quem
ela era, livrar-se dos pensamentos que o torturavam, fazê-la parar de mentir. O
medo, porém, o impediu. Só de pensar que ela poderia odiá-lo por desmascará-la,
sentia o gelo do medo correr-lhe pelas veias. Bebeu um pouco de vinho, para ganhar
tempo.
— Porque estou interessado em você, assim como está em mim.
Para uma pessoa que estava acostumada a ir sempre direto ao fundo da
questão, sem subterfúgios, disfarçar a verdade era um castigo. Embora realmente se
interessasse por ela, não era esse o motivo das perguntas. Queria fazê-la confiar-lhe
os segredos. Julie o estudou em silêncio, desconfiada, depois ergueu-se, carregando
os pratos para a cozinha. Ele a seguiu, também com as mãos cheias de copos e
talheres.
— Quer café? — ela perguntou.
Andrew fez um gesto afirmativo, observando-a arrumar as xícaras e às tortinhas
de creme numa bandeja. Voltaram à sala e comeram a sobremesa em silêncio. Os
gestos dele eram mecânicos e o doce e o café pareciam sem gosto, como se houvesse
perdido o paladar, assim como perdera toda a capacidade de sentir prazer com a
proximidade dela. Por fim, Julie inclinou-se para trás, encostando-se em uma poltrona
e fitando o fogo, silenciosamente. O cabelo acobreado tinha reflexos dourados na
claridade das chamas que começavam a se extinguir e a pele cremosa tinha uma
coloração de fruta madura.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Dolorosamente, Andrew sentiu um desejo poderoso de tocá-la, que se chocava


com os sentimentos de mágoa e desilusão que ela lhe despertava. Tinha de
reconhecer que a desejava, pelo menos naquele momento, mais que tudo no mundo e
que todo seu raciocínio perdia a clareza e a medida da realidade. Julie olhou-o,
novamente cálida e confiante, e aquele olhar trouxe-o de volta ao mundo real. O que
estivera pensando? Seduzi-la, amá-la? Não era aquilo que queria. Ela até poderia
ceder aos seus desejos, não por desejá-lo também, mas como mais um modo de
mantê-lo preso e sob controle. Talvez fosse hora de partir.
— Acho que não estou sendo boa companhia — ele disse, preludiando a
despedida.

Vagarosamente, com movimentos espontâneos, mas fortemente sensuais, ela


inclinou-se para ele e pegou-lhe as mãos.
— Você é a única companhia que eu desejo.
Se pelo menos aquelas palavras fossem verdadeiras, não faria a menor diferença
que todo o resto fosse uma montanha de mentiras. Mas como saber?
O toque foi breve. Julie puxou as mãos e olhou novamente para o fogo, sentindo
os dedos queimarem pelo contato com a pele dele. O coração perdera o compasso e a
mente corria desenfreada, tentando rotular os sentimentos e emoções que a
sacudiam. O que queria dele? Que fosse seu amigo, ou amante? Seria possível ter os
dois reunidos em uma única pessoa? Tinha pouca experiência no amor.
Casara-se sem nem sequer ter tido tempo de namorar e saborear as delícias do
jogo de promessas e antecipações do desejo. E, depois de casada, as desilusões
começaram logo a destruir o companheirismo e o interesse. Aquele homem ali, tão
próximo dela, era sensível e gentil, bonito e sensual. Gostaria de anular-se na
profundidade daqueles olhos verdes e de fazer a vontade dos dedos, que ansiavam
por acariciar os traços firmes e bem desenhados do rosto bronzeado. Não havia como
negar: ela o desejava. Temia, porém, que a satisfação do desejo matasse a amizade.
E o que faria longe dele?
Com Paulo, sexo nunca fora muito importante; o próprio marido a induzira a
pensar que apenas homens tinham necessidade de satisfação sexual. Era indecente,
para uma mulher, tomar a iniciativa ou gostar demais de praticar o ato íntimo. Fora, e
continuava a ser, muito ignorante no que dizia respeito aos prazeres sensuais. Mais
tarde, quando começara a questionar seu posicionamento perante a vida, em geral,
percebera que Paulo a havia mutilado em vez de ajudá-la a crescer. E a figura
adorada do marido dedicado e médico idealista perdera-se ao longo do caminho.
Embora chegasse a compreender que o marido fora uma pessoa perturbada que
transformara o casamento numa ligação doentia, o mal já estava feito. Quando, perto
da morte dele, os dois se aproximaram, já era tarde demais para qualquer mudança,
mas aqueles dias finais, por estranha ironia, foram os que permaneceram na
lembrança como momentos de companheirismo e amor. Tony fora concebido naquele
período e, embora o fato os enchesse de felicidade, não havia mais tempo para que as
feridas fossem curadas, os desapontamentos esquecidos e o abismo entre eles
preenchido.
Já estava cansada dos fantasmas do passado. Tinha que exorcizar as más
lembranças, para que o presente e o futuro não fossem arruinados. Paulo, as culpas,
os complexos estavam mortos, mas a felicidade... estava ao alcance de suas mãos.
Todos os sonhos, desejos e necessidades haviam se juntado para presidir aquele
momento em que ela queria, com todo o coração, mente e corpo, o homem que
estava ao seu lado. Se não conseguisse alcançá-lo, não desejaria alcançar mais nada.
Desviou os olhos dos movimentos hipnóticos das chamas, mas não olhou para
Andrew, procurando algo para dizer.
— Nunca nos sentamos no sofá, Tony e eu. Acabamos sempre espalhados no
chão.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Andrew observou o sofá e as duas poltronas antigas, superestofadas que


ladeavam a mesa.
— É bom mesmo. Ele poderia cair.
Julie ainda não se acostumara com o modo que ele se preocupava com o bem-
estar do bebê. Ficava sempre comovida com o carinho que ele revelava.
— O tapete é seu lugar favorito, apesar de ser felpudo demais e esconder os
brinquedos menores. Ele fica furioso quando perde alguma coisa. Tem um gênio...
Andrew riu, balançando a cabeça com expressão de orgulho e complacência no
rosto. Parecia um pai feliz com as revelações de um filho pequenino. O silêncio encheu
a sala novamente, esperando-os. Julie criou coragem e olhou dentro dos olhos dele,
tentando lê-los, descobrir os sentimentos a seu respeito.
Ele mexeu-se, inquieto, e ela temeu que ele se levantasse para ir embora.
Precisava evitar aquilo, sugerindo alguma coisa.
— Vamos sentar mais perto do fogo, quer?
Sem esperar pela resposta, ela ergueu-se a aproximou-se da lareira, sentando-
se de costas para ele, oferecendo o rosto ao calor. Ansiosa, tentava ouvir qualquer
ruído que lhe indicasse que ele se erguia, mas os segundos escorriam em silêncio.
Apenas o crepitar das chamas quebrava a monotonia. Seu coração, porém, estava em
tumulto, agitando o sangue na expectativa. O que ele faria? Iria embora ou ficaria
com ela? De repente, lá estava de pé, a seu lado, alto e dominador. Estranhamente,
ela sentiu-se nua e exposta, fraca e vulnerável. Vagarosamente, ele deixou-se cair de
joelhos ao lado dela, envolvendo-a num olhar que a penetrava fundo. Foi como se a
sala começasse a girar doidamente ao redor dela fazendo-a perder a noção de espaço.
O contato da mão máscula queimava-lhe a pele, quando ele a pousou de leve no
rosto enrubescido. Sem deixar de olhá-la, num gesto que ela nunca poderia esquecer,
aproximou a boca, até quase tocar-lhe os lábios.
— Não sei se é direito o que estamos fazendo.
O tom de desejo quase angustiado da voz de Andrew a abalou. Num movimento
guiado pela ternura, pousou a ponta dos dedos nos lábios tão próximos dos dela.
— Não fale — murmurou. — Não pense.
Julie fechou os olhos, esperando o beijo, mas ele não veio. Olhou-o, então,
vendo-o afastar a cabeça. O gesto feriu-a, deixando-a assustada. Ajoelhou-se
também e, abandonando-se à necessidade que sentia do contato dele, abraçou-o pela
cintura, apertando o rosto nos contornos rijos do peito largo.
— Por favor, não pense, não se afaste de mim.
As mãos fortes fecharam-se em seus ombros, fazendo-a soltar o abraço,
deixando-a desapontada e frustrada. Os braços penderam, sem energia, ao longo do
corpo. Andrew a rejeitara, afastara-a de si. Por quê? Amargamente, percebeu as
razões, com uma clareza que machucava. Havia segredos entre eles, verdadeiros
abismos criados por palavras não ditas, por falta de sinceridade, por mentiras. Porém,
como construir pontes sobre os espaços que os separavam? Como voltar atrás, tentar
estabelecer confiança? Teria de admitir que mentira e duvidara da compreensão dele.
E aquilo, ela sabia, seria mesmo o fim.
A dor da descoberta percorreu-a como um ácido, devorando-a, consumindo-lhe
todas as esperanças, deixando-a vazia como uma concha abandonada. A voz dele
tirou-a do torvelinho de pensamentos.
— Seria uma loucura, Julie. — Queria dizer alguma coisa. Mas o quê? Ficou de
olhos baixos, esperando que ele continuasse. — Nunca me apaixonei... até agora.
As palavras atingiram-na com toda a força do seu significado. Andrew estendeu a
mão e tirou a mecha de cabelos cor de cobre que caía na testa acetinada, mais uma
vez mandando correntes de energia pelo corpo dela. Os olhos cinzentos ergueram-se
para ele, cheios de sombra e tristeza. Loucura ou não, não havia como voltar atrás.
Envolvido pela emoção, ele tomou o rosto macio entre as mãos, inclinou a cabeça e
roçou os lábios expectantes com os seus.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

O mundo dissolveu-se, caindo ao redor deles, deixando-os numa ilha feita de


puras sensações. O abraço que os uniu foi violento e ansioso, e o beijo tímido
transformou-se em fogo consumidor. Só ele existia. Ele e o momento compartilhado.
Realidade era o perfume dos cabelos loiros, o gosto da pele, o contato do peito duro
contra os mamilos que se enrijeciam, excitados, sob a seda da blusa. Verdade era o
beijo louco, o doce calor palpitante dos corpos se unindo. O mundo era eles.

Julie acordou, ainda enlaçada nos braços de Andrew, uma corrente de


contentamento fluindo nas veias. Ficou imóvel, estudando-o à luz fraca do fogo
transformado em brasas. Era tão bonito, tão perfeito. A testa alta e lisa, os ângulos
das faces, a linha quadrada e firme do queixo, a boca sensual, tudo ela percorreu com
os olhos, não achando defeito. Controlou-se para não abraçar os ombros largos,
desejando, novamente, sentir a força dos braços viris.
Sabia que, se ficasse mais tempo ali, a olhá-lo, não resistiria ao desejo de
abraçá-lo, e queria respeitar-lhe o sono. Cuidadosamente, soltou-se do abraço, olhou-
o mais uma vez e saiu da sala, nas pontas dos pés. Ficou em pé, nua, na frente do
espelho do quarto. O cabelo revolto e a pele rosada eram os únicos vestígios do que
se passara. Como os lábios podiam parecer tão normais, quando os sentia ardentes e
inchados pelos beijos selvagens? Passou as mãos pelos seios, vagarosamente. Como
podiam mostrar tão pouca evidência dos carinhos alucinantes? Seria bom se o corpo
conservasse uma marca, por menor que fosse, daqueles momentos de amor.
Espantada, pensou na palavra que usara. Amor. Todo o carinho e toda aquela
paixão que a deixaram como louca só podiam ser muito mais que sexo, mais que
necessidade física, mais que pura e simples atração. Só o amor deixava alegria depois
do desejo satisfeito.
Olhou-se mais criticamente, tentando descobrir se o que ele vira era belo. Os
seios eram redondos e firmes e a maternidade, embora a tivesse deixado mais
cheinha, suavizara todas as curvas, tornando-lhe o corpo exuberante de feminilidade.
Nada, porém, lhe parecia bonito demais para ele. Queria ser-lhe extremamente
desejável, para que ele nunca sequer olhasse para outra mulher. Dominada pela
insegurança, sentiu ciúme só em pensar que aquele homem magnífico poderia
compará-la a outras mulheres e achá-la menos bonita.
Não só o exterior, porém, era importante. Como ele a veria como pessoa? Uma
tola, medrosa em relação à vida, ou a mulher cada vez mais autoconfiante em que
estava se transformando? Uma pessoa honesta e confiável, ou a criatura fingida que
encontrara na mentira uma saída para os problemas e receios? Quando a olhara com
os olhos cheios de amor, o que vira, realmente? Difícil dizer, pois nem ela própria
ainda descobrira o que as mudanças haviam operado em sua personalidade.
A escritora Lillian Hellman dissera ver a si mesma como uma mulher inacabada.
Talvez pudesse aplicar-se o conceito, uma vez que ainda se sentia em fase de
mutação, de crescimento. O seguro e amadurecido Andrew, porém, a aceitaria
daquela maneira incompleta? Só o tempo poderia dizer, mas como agiria, o que lhe
diria? Talvez a melhor opção fosse dizer a verdade, abrir o coração e a alma. Poderia
dizer que o amava, mas que sua imagem do amor era algo confuso e de contornos
indefinidos. Que estava evoluindo e que nem ela mesma podia adivinhar como seria
quando estivesse completa, se é que algum dia atingiria a plena maturidade de
sentimentos e emoções. Para ser completamente sincera, teria que dizer-lhe que não
era exatamente quem ele pensava, pois havia lhe contado uma porção de mentiras.
Uma lágrima formou-se e rolou pela face aveludada. Ele poderia ficar
decepcionado e voltar-lhe as costas, abandonando-a. Seria razoável culpá-lo, se o
fizesse? Não. Era uma mentirosa que vivera fugindo da realidade e tentando driblar a
vida com falsidades. Nem todas as lágrimas que derramasse poderiam apagar a dura
realidade. Ela encarou a própria imagem no espelho.
— Julie, você não tem muita chance.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Andrew esticou os membros preguiçosamente e depois sentou-se, desorientado.


Levou alguns segundos para perceber onde estava. O fogo havia se apagado havia
muito e ele sentia frio. Procurou as roupas e começou a vesti-las, ainda um pouco
zonzo, pensando que estaria um trapo, pela manhã. Ou já havia amanhecido? Ergueu-
se do chão e afundou-se no sofá, com a camisa desabotoada, olhando na direção do
quarto. Um fio de luz saía por baixo da porta, mas não havia ruído nenhum. Deixou a
cabeça pender de encontro ao encosto do sofá. Não podia mais haver fingimentos
nem desculpas depois do que se passara. Os sentimentos que tentara manter
aprisionados haviam se libertado e chegavam a assustá-lo pela intensidade com que o
dominavam.
A corrente de pensamentos levou-o à lembrança de Laurel e dos catorze meses
que haviam vivido juntos. Com ela, nunca perdera o controle das emoções. Nunca o
relacionamento deles havia saído do campo prático para entrar nos domínios do sonho
e da paixão incontrolável. Ele sempre achara que romantismo era uma bobagem fora
de moda e que o modo irreal de ver o amor, por parte das pessoas, era resultado do
hábito de ler muita novela água com açúcar ou de ver televisão demais.
Como estivera errado!
Nos momentos de amor com Julie, seu corpo chegara a doer, tal a intensidade do
desejo. Pela primeira vez, experimentara a paixão em toda a sua assustadora e
desenfreada magnificência. Olhou novamente para a porta do quarto e imaginou-a
caminhando descalça, esplêndida em sua nudez. A imagem criada por sua fantasia
encheu-o de emoção e, ao mesmo tempo, tristeza. Entregara-se àquela mulher,
totalmente. Rendera-se ao fascínio irresistível, mesmo sabendo que poderia estar
sendo usado e enganado. Tinha mil dúvidas a respeito dela, desconfiando que
pudesse ser inescrupulosa e fingida em sua luta pela sobrevivência. Se por trás
daquele rosto sereno e meigo existisse ainda a personalidade da mulher que ele
conhecera na Cidade do México, fútil, vaidosa e egoísta, ele estaria perdido, pois seria
destruído sem piedade quando não mais tivesse serventia.
Não podia haver dúvida de que ela o desejara. Os olhos cinza-azulados haviam
se tornado quase negros no calor do desejo. Por melhor atriz que fosse, não
conseguiria desempenhar com tanta perfeição o papel de mulher entregue à paixão. A
verdade era que ele podia duvidar de tudo, menos dos próprios sentimentos. Nunca
havia querido tanto uma mulher! Descobrira que não queria apenas o corpo sensual e
o rosto bonito, mas o coração, os sentimentos, o amor de Julie. Com ela,
compartilharia uma vida inteira.
A porta do quarto abriu-se e ela saiu, enrolada num longo robe macio, os cabelos
soltos nos ombros, uma suave visão de beleza. Andrew sentiu o sangue aquecer-se,
numa prova de que o sentimento não conhecia lógica. Quis sorrir e ver no rosto dela o
sorriso que amava mas, assim que lhe notou a expressão triste, sobressaltou-se. Algo
estava errado. Os lindos olhos cinzentos estavam sombrios e sérios, e uma lágrima
solitária traçara um caminho brilhante em um dos lados do rosto. Olhou-a silencioso,
enquanto ela reacendia o fogo. Esperou que ela falasse, temeroso de que as palavras
que proferisse tivessem o poder de destruir a alegria que havia nascido nele no
momento em que a tivera nos braços.
— Nunca deveríamos ter chegado a tal ponto.
— Mas chegamos, Julie.
Ela parecia uma criança suplicante.
— Não podemos fingir que nada aconteceu, não é?
— Não.
Julie ergueu-se, vendo o fogo novamente vivo, e cruzou os braços na altura do
peito, numa atitude defensiva.
— Não sou o que você pensa.
Andrew esperou, em silêncio, que ela continuasse. Estremeceu ao perceber o
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

sorriso ligeiramente cínico.


— Aliás, nem eu mesma sei quem sou.
— Isso é idiotice — ele comentou, odiando-se instantaneamente pelo que
dissera.
Viu-a andar para a poltrona a sua frente e sentar-se na beirada, como um
pássaro pronto a levantar voo ao menor sinal de perigo.
— Devo-lhe muitas explicações, mas... — Ela suspirou e olhou para o fogo. —
Tive um marido que me considerava uma criança. Vivi tanto tempo do modo que ele
desejava, que passei a desconhecer minha verdadeira identidade. — Julie torceu o
tecido do robe entre os dedos, nervosa. — Quando o bebê nasceu, pensei poder ser
responsável por alguém, mas os parentes de meu marido não permitiram. Sei que
tudo isso que lhe digo não faz sentido, mas estou tentando explicar que aquilo que as
pessoas veem de mim nada tem a ver com a Julie real.
Ela o olhou tão cheia de confusão e mágoa, que Andrew desejou tomá-la nos
braços e dizer-lhe que a mulher que amava era real. Ao mesmo tempo, sentiu raiva
por vê-la incapaz de contar toda a verdade, de confiar plenamente nele. Compreendia
sua hesitação em revelar o que ele já sabia, mas doía-lhe ver como ela recuava,
tendo chegado tão perto da verdade. Julie ergueu-se e voltou para perto da lareira.
Pelo seu jeito de andar, ele descobriu que ela tomara uma decisão. Continuou calado,
consciente de que nada do que dissesse poderia fazer qualquer diferença. Viu-a atiçar
o fogo com uma longa vara de latão, e virar-se para ele.
— Foi uma noite maravilhosa, não foi?
— Foi, sim — ele respondeu.
— Então não há motivo para arrependimentos. — Ela dirigiu-lhe um sorriso
tímido. — De certa forma, foi um final feliz.
Andrew saltou do sofá, sentindo dor e raiva explodirem dentro de si.
— Final? Significou tão pouco para você?
Julie encolheu-se como se tivesse sido atingida por um golpe, mas ele queria
machucá-la tanto quanto ela o havia ferido.
— Você me usou o tempo todo!
— Usei você?
— Sim. Não sabia como lidar com sua nova vida numa cidade estranha,
precisando de alguém que lhe desse a mão. Você é mimada demais para encarar os
problemas sozinha, então resolveu arrumar um protetor.
— Eu não precisava de você, nem de ninguém! Posso muito bem viver sozinha!
Andrew riu, com amargura.
— Você não é mesmo real. É uma boneca vazia, mas acredito que nem sequer
sabe disso.
Julie ficou imóvel e silenciosa, enquanto lágrimas desciam-lhe dos olhos. Ele riu,
zombeteiro.
— Agora entendo tudo. Esta noite foi uma espécie de despedida, não foi? Não
precisa mais sentir-se culpada por ter me usado, pois já me pagou com um bom
jantar e momentos de amor. Que estúpido fui!
— Sinto muito — ela soluçou. — Sinto muito mesmo. Eu...
A voz quebrou-se e os ombros se curvaram. Ela deixou cair o atiçador como se
não tivesse forças para segurá-lo. Andrew não queria ouvir mais nada.
— Poupe-me as desculpas! — ele exclamou, pegando o sobretudo das costas da
poltrona. — Não acredito numa palavra sua; assim, não desperdice energia.
Saindo para a rua fria, ele andou sem destino até o alvorecer.

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CAPÍTULO VIII

Os dias de janeiro sucediam-se, cinzentos. Depois do brilho das luzes e das


decorações natalinas, a cidade, vestida de inverno, estava mais triste. O gelo tomava
conta das ruas, tornando impossível passear. Julie sentia-se enclausurada e, para
distrair-se, costumava sentar no banco acolchoado que havia sob uma das janelas,
observando os raros transeuntes e as ocasionais nevadas. Não saberia dizer quantos
dias haviam se passado desde a última vez que saíra para um passeio com Tony.
Deixava o apartamento apenas para ir à mercearia ou ao supermercado, levando
o bebê no colo, porque empurrar o carrinho no chão escorregadio era impraticável.
Passava o tempo brincando com o filho em frente à lareira e, nas longas horas em que
ele dormia, tentava ler, mas não conseguia concentrar-se nas palavras. Quando
percebia, estava olhando para a paisagem branca, perdida em devaneios, remoendo
os acontecimentos que a haviam separado de Andrew. Imaginava se algum dia se
recuperaria ou se continuaria a ficar cada vez mais desanimada e infeliz, cheia de uma
angústia que ameaçava dominá-la. Por vezes julgava estar perdendo a sanidade
mental e perguntava-se se aquilo era amor ou desequilíbrio.
Naquela tarde, sentada no banco à janela, ela pousou o rosto na vidraça fria e
abraçou os joelhos. De olhos fechados, deixou o pensamento voar em busca da
lembrança do homem que não conseguia esquecer. Em sua mente, via outra vez o
rosto atraente e de expressão sincera, ouvia o riso franco e as palavras carinhosas
que usava ao brincar com Tony. Não conseguia livrar-se das recordações. Estavam
dentro dela, provocando uma dor quase física, fazendo o estômago contrair-se e o
coração palpitar com força.
Andrew apoderara-se de sua vida com tanta firmeza, que nem dormindo ela
conseguia esquecê-lo, vendo-o em sonhos que o apresentavam como o amante
apaixonado, o amigo querido e, para sua tortura, o homem magoado que a
abandonara. Sentia falta dele, queria-o, precisava de sua presença de tal forma que a
ausência a mutilava, deixando-a incapaz de encontrar objetivo na vida ou ter
esperança no futuro. Até mesmo o bebê sofria com a falta dele, pois várias vezes
engatinhava até a porta e sentava-se, muito sério, olhando-a, como esperando que de
um momento para outro se abrisse, deixando passar aquele homem que se tornara
tão importante. Por quê? Por que tudo havia acontecido daquele modo? Talvez fosse
melhor nunca tê-lo conhecido do que estar sofrendo, desiludida e solitária.
Várias vezes chegara a pegar o telefone, começando a discar o número dele,
mas então as últimas palavras que ouvira a impediam. Ele a considerava uma criatura
vazia, sem sentimentos, que só abria a boca para dizer mentiras. Ela havia destruído
a oportunidade que tivera de ser feliz e só o que tinha a fazer era aprender a conviver
com essa realidade. Ironicamente, perdê-lo a ajudara, num certo sentido. Na apatia
em que ficara, concentrara-se em seu próprio mundo interior, encarando de frente a
verdade sobre si mesma, descobrindo facetas obscuras de sua personalidade. Havia
sido terrível, mas sobrevivera. Saíra daquela autoanálise mais forte e consciente dos
próprios defeitos e virtudes, compreendendo, pela primeira vez, que podia ser uma
pessoa completa, capaz de errar e não fugir da consequência do erro, competente o
bastante para aceitar a vida do modo que ela se apresentasse.
Nos longos momentos de reflexão, descobrira a verdadeira Julie, percebendo que
a descoberta tornara-se possível porque ela procurara as respostas dentro de si
mesma. Era espantoso como tudo estava claro, como podia ver até quais os caminhos
que deveria seguir, no futuro. Resolvera fazer um curso que a habilitasse a encontrar
trabalho e colocar o bebê numa boa creche. Era excitante pensar sobre que tipo de
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

ocupação a interessaria, quando acostumara-se a ser considerada uma inútil.


Não sabia ainda como haveria de lidar com os Velasco, mas conscientizara-se de
que não seria possível viver escondida pelo resto da vida. Mais cedo ou mais tarde
teria de enfrentar Letizia e resolver o problema da tutela do bebê, por quem, agora
sabia, lutaria como uma leoa. Havia considerado, cuidadosamente, cada ângulo da
questão. Abriria mão de qualquer direito à herança, não lhe interessando nem saber a
quanto montaria sua parte, mas concordaria em que os avós mantivessem contato
com o neto, desde que respeitassem sua posição de mãe. Não seria justo privar Tony
de uma família, e ela, certamente, ficaria muito feliz em permitir que os parentes,
principalmente Christina, cultivassem um relacionamento sadio com o menino.
Acima de todas as questões, pairava uma, a mais torturante de todas. Poderia
ter uma nova chance com Andrew? Se havia ficado corajosa a ponto de admitir a idéia
de um confronto com os Velasco, por que não se decidia a enfrentar o homem que
amava, contar-lhe tudo, nada escondendo?

Preferia resolver o assunto com a família do marido primeiro, assim poderia ir


até Andrew livre de qualquer preocupação que não fosse a de se redimir a seus olhos.
Havia conseguido o nome de um advogado que diziam ser muito bom na defesa de
causas como a dela. Iria telefonar a ele e conseguir uma entrevista para que a
aconselhasse e conseguisse um encontro com Letizia em campo neutro. Estava pronta
para a batalha.
O prematuro crepúsculo das tardes de inverno caiu sobre a rua, enchendo-a de
sombras. As lâmpadas começaram a se acender, formando um delicado jogo de luz e
sombra na calçada branca de gelo. O interior da sala ficou escuro, mas ela não se
importou. Queria evitar ruídos desnecessários para que Tony não acordasse. Estivera
irritado o dia todo, com tosse e um pouco de febre. O xarope que o pediatra receitara
devia ser ligeiramente sedativo, pois ele estava dormindo profundamente e ela
desejava ficar mais um pouco a sós com seus pensamentos.
Uma mulher virou a esquina, lá embaixo, puxando, ou sendo puxada, por um
enorme cão pastor que parecia apressado e contente por estar na rua. Julie sorriu da
cena. Os nova-iorquinos e seus cães, ora imensamente grandes, ora incrivelmente
pequenos, mas sempre mimados, a divertiam muito. Achava engraçada a
preocupação dos donos amorosos com coleiras e roupas caninas e a paciência com
que levavam seus bichos de estimação para longos passeios, mesmo num dia frio
como aquele. O cão e sua dona, na calçada, haviam entrado numa teima. Ele queria
atravessar a rua, por algum motivo só compreendido por seu próprio cérebro, e ela
mostrava a intenção de continuar andando na calçada onde estavam. Por fim, depois
de muitos puxões de parte a parte, a mulher rendeu-se, permitindo que o cachorro
fizesse o que bem entendesse. Julie seguiu-os com o olhar, só então prestando
atenção ao que se passava do outro lado da rua.
Havia um casal de namorados encolhido num portão, pouco se importando com o
frio. Mais à frente, o carrinho do vendedor de castanhas assadas soltava fumaça, de
um modo muito acolhedor, e, encostado a um poste, havia um homem de sobretudo
escuro e chapéu puxado sobre o rosto. O que alguém, em seu juízo perfeito, estaria
fazendo ali, com o ombro encostado num poste que devia estar gelado, exposto ao
vento frio que fazia os montículos de neve rodopiarem? Subitamente, uma suspeita
cruzou a mente de Julie. O homem poderia estar vigiando a casa. Entrou em pânico,
correndo para a porta da rua, verificando se estava trancada, depois ao quarto, onde
o bebê ainda dormia, tranquilo, depois ao telefone, voltando, então, para a janela.
Gradualmente, o pânico foi diminuindo, mas o medo intenso permaneceu. Puxou
as cortinas e, tremendo, voltou ao telefone, tirando-o do gancho para certificar-se de
que estava funcionando. O ruído familiar era confortador, mas de que valia se ela não
sabia a quem chamar? A polícia? Pouco adiantaria. Mandariam um carro com dois
policiais que, depois de examinarem o apartamento, diriam que tudo estava bem e
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

iriam embora. Beth? A irmã e o cunhado moravam em Illinois, de que modo poderiam
ajudá-la? Percebeu, com desespero, que numa cidade imensa como Nova York não
havia uma única pessoa que se importasse com ela e Tony. Não havia ninguém a
quem recorrer, exceto... Não! Ele pensaria que ela estava usando de uma desculpa
para procurá-lo.
Dominando-se, começou a andar em frente à lareira, pensando numa saída,
tentando convencer-se de que o homem, no outro lado da rua, não estava lá por sua
causa. Como os Velasco a encontrariam? Havia escrito a Beth e a Christina cartas
curtas de explicação; para a cunhada, também de agradecimento e desculpas. Porém
tivera o cuidado de não colocar remetente em nenhuma das duas. O que não lhe dava
paz era o pensamento de que relaxara, não mantendo os sentidos em alerta, não
sentindo o perigo. Lentamente, ocorreu-lhe a lembrança de ter cruzado, várias vezes,
com um homem que poderia ser aquele encostado ao poste. Vira-o na mercearia, na
farmácia e no parque, quando o tempo ainda estava bastante bom para passeios. De
todas as vezes ele olhara muito para ela e para o bebê, mas nunca lhe despertara
qualquer suspeita. Havia pensado que ele fosse novo na vizinhança e que talvez
quisesse travar conhecimento com os vizinhos. Lembrou-se de que, no parque, ele
fora atingido por uma bola jogada por algumas crianças e que, irritado, falara com
elas em espanhol. Nem aquele fato a alertara, mesmo porque ouvir espanhol nas
redondezas não era nada estranho, com tantos imigrantes vivendo ali.
Juntando todos os pedaços do quebra-cabeça, chegou à conclusão de que o
homem a estivera vigiando e seguindo o tempo todo, mas que ela, perdida em
pensamentos sobre Andrew e sentindo-se segura naquele formigueiro que era Nova
York, nada percebera. Que estúpida fora! Segura, pois sim! O apartamento, que até
então lhe parecera um pedaço do paraíso, havia se transformado numa armadilha da
qual ela não sabia como escapar. Precisava de ajuda. Aproximou-se novamente do
telefone e tirou-o do gancho.

Andrew entrou no minúsculo apartamento e, num gesto cansado, atirou o


sobretudo e a valise sobre o divã. Viera da Califórnia num voo que durara a noite
toda, e estava exausto. Abriu a geladeira, procurando alguma coisa para comer, mas
só havia uma embalagem longa-vida de suco de laranja. Virou o conteúdo num copo
e, quando ia jogar a caixa vazia na lixeira, tropeçou numa pilha de importantes
processos colocada também displicentemente no chão, perto da mesa dobrável que
usava para as refeições.
Ele próprio não saberia dizer como os documentos haviam ido parar ali. Seu
apartamento em forma de L era uma confusão total de roupas, papéis e livros fora do
lugar. Não importava o quanto tentasse livrar-se de objetos inúteis, jornais velhos e
embalagens vazias, pois pareciam brotar do chão. Outro tormento eram os processos
em andamento e os contratos a serem estudados. Tinha a impressão de que qualquer
dia se afogaria num mar de papéis. Naquela verdadeira bagunça, que era o típico
apartamento de um solteirão, jamais haveria lugar para uma mulher, quanto mais
para um bebê. Mas aquilo era algo com que não precisava se preocupar.
Naquela noite em que, estupidamente, apegado às suas ideias preconcebidas,
negara a Julie qualquer direito de defender-se, destruíra todas as possibilidades de,
um dia, tê-la como companheira. Se lhe perguntassem o que lhe dera na cabeça,
fazendo-o ofendê-la e sair da vida dela num rompante de raiva, não conseguiria
explicar. O mais provável era que o demônio da dúvida o houvesse incitado a agir
daquele modo idiota. Suspirando, desanimado, pegou o copo de suco e sentou-se no
divã. Tirou o caderno de anotações do bolso do sobretudo e entregou-se à tarefa difícil
de decifrar a própria letra, lendo uma série de observações que anotara.
Eram sobre Paulo Velasco. Os médicos do hospital de San Diego haviam sido
unânimes ao darem suas impressões sobre o marido de Julie. Lembravam dele como
de um jovem médico calado, sem amigos, mas muito dedicado. Quando ele descobrira
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Julie e a tratara, os colegas admiraram-lhe o gesto, que rotularam de um ato de


caridade, ficando extremamente surpresos quando ele resolvera casar-se com ela,
uma jovenzinha problemática que raramente falava. Os colegas do hospital sempre
haviam achado que, por algum distúrbio psicológico, Paulo Velasco fora incapaz de
relacionar-se com mulheres maduras, preferindo moças dependentes e de
personalidade flexível que ele pudesse moldar aos seus desejos.
Terminando de ler as anotações, Andrew pousou o caderno e ficou a olhar para a
parede em frente, imerso em reflexões. De todas as informações que obtivera,
conseguira formar um esboço do que havia sido a vida de Julie, descobrindo que ela
jamais tivera chance de ser uma pessoa diferente. Ficara órfã aos doze anos, sendo
encaminhada para um internato após outro, numa odisseia que culminara com uma
fuga aos quinze e um casamento prematuro aos dezesseis.
Retomou o caderno e começou a folheá-lo, distraidamente. Fizera o papel de um
detetive indiscreto, pesquisando a vida de uma mulher, mas justificava-se, dizendo a
si mesmo que apenas o fizera para obter as respostas que lhe devolveriam a paz de
espírito. Percebia que havia sido severo demais em seu julgamento. À vida de uma
menina órfã que tivera de viver em orfanatos, porque ninguém a quisera, faltara
tudo: desde a segurança material até amor e compreensão, fatores indispensáveis
para o surgimento de um ser humano equilibrado. Ele próprio, se não tivesse podido
contar com o carinho dos tios quando perdera os pais, poderia ter se tornado uma
pessoa insegura e confusa. A despeito de tudo o que descobrira, ainda sentia que
faltava um elo na corrente dos fatos.
Não conseguira compreender o que houvera entre Victoriano, Letizia e o filho,
que justificasse seu afastamento. Em suas pesquisas, ouvira a história estranha da
morte de um irmão mais velho de Paulo, quando este estava na adolescência. O
jovem falecera, vitimado por um misterioso acidente em casa. Teria o fato alguma
coisa a ver com o rompimento das relações de Paulo com os pais e seu estilo doentio
de vida? Continuando a pensar no que sua investigação revelara, Andrew analisou a
família Velasco. Incrivelmente ricos e com uma árvore genealógica cujas raízes
mergulhavam nos nomes dos primeiros espanhóis de sangue azul que se
estabeleceram no México, não eram melhores nem piores que outras famílias
mexicanas de sua classe.
Juan Arista, um dos genros, dava a impressão de ser portador de um caráter
obscuro que valia a pena estudar mais a fundo, principalmente agora, quando o señor
recuara para uma posição de semiaposentadoria, desgostoso com o que ocorrera à
sua principal indústria e com a atitude de sua filha Tereza, que acompanhara o marido
de volta à família Díaz. Com as mudanças ocorridas, o genro adquirira maior
autoridade na direção dos interesses familiares.
Mas o que mais poderia ajudá-lo em sua busca da verdade era o conhecimento
da vida que Julie levara com Paulo na Cidade do México, onde o jovem médico abrira
uma clínica nas redondezas de uma favela. Até aí, todas as informações coincidiam,
mas a partir daquele ponto as opiniões divergiam e o assunto tomava-se confuso.
Algumas pessoas viam em Paulo uma espécie de bom samaritano, outras o
consideravam um playboy do pior tipo. Tanto o chamavam de filho desnaturado que
abandonara os pais, como de jovem normal, agindo com rebeldia contra as
imposições de uma família opressora. Quanto a Julie, ninguém parecia tê-la conhecido
muito bem; mesmo assim as opiniões a seu respeito variavam bastante. Antipática,
tímida, retraída, oprimida, imatura, foram alguns dos adjetivos que ele ouvira em
referência a ela. Uns diziam que era adorada pelo marido, outros, que Paulo a tratava
mal. Aquela miscelânea de informações dificultava uma visão clara da situação.
Depois da morte de Paulo, os Velasco haviam sido muito elogiados por terem
acolhido a nora viúva e grávida e quase todos os viam como pessoas excelentes,
incapazes de qualquer maldade. O único testemunho que ele ouvira contra os sogros
de Julie fora de uma enfermeira que cuidara dela depois do nascimento de Tony. Ela
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

dissera que a mãe quisera amamentar o bebê, mas que Letizia mandara o médico da
família dar-lhe uma injeção para secar o leite, pois considerava a amamentação um
ato impróprio de uma mulher da classe deles.
A história da maternidade de Julie tinha uma enorme quantidade de versões. Era
mãe irresponsável que odiava o próprio filho; era uma pobre vítima, cujos parentes
sem coração queriam deixar louca, e daí por diante. Andrew fechou o caderno,
encostou a cabeça na parede e cerrou os olhos, com um suspiro desanimado. De todo
aquele emaranhado de coisas ouvidas, apenas um fato surgia claro: ele acreditava em
Julie, quaisquer que houvessem sido seus motivos para fugir com o menino, para
mentir e enganar. Ficou com mais raiva de si mesmo por tê-la julgado com
precipitação, sem dar-lhe oportunidade de defender-se.
Julie havia passado por muitos momentos ruins na vida, mais, talvez, do que ele
pudesse imaginar, e saíra de tudo ainda capaz de ser linda e maravilhosa, cheia de
calor humano e amor. Ninguém no mundo poderia, jamais, convencê-lo de que ela
não amava o filho, de que não lhe houvesse sido dedicada desde o momento de seu
nascimento. Vender Tony aos avós? Como ele pudera, mesmo por um segundo,
permitir que esta ideia monstruosa entrasse em sua mente?
Pouco lhe importava que ele não entendesse a verdade, desde que aprendera a
senti-la. Fora aquilo que o fizera apaixonar-se por ela: sentira a verdadeira Julie, vira-
lhe a alma através dos olhos meigos, tantas vezes entristecidos. A despeito de
qualquer mentira que ela pudesse estar alimentando, a verdade essencial de sua
beleza interior sempre estivera naquele olhar que ele amava. De nada lhe valeria a
descoberta, porque a perdera. Faria tudo para tê-la de volta, e talvez conseguisse.
Então, levaria a vida toda, se fosse preciso, para redimir-se das dúvidas que tivera, da
dor que lhe causara com suspeitas. Se, porém, ela nunca mais o quisesse ver, não
poderia livrar-se da dor de tê-la perdido, podendo apenas diminuir o arrependimento,
fazendo algo para ajudá-la em sua luta contra os Velasco.
Esfregou o rosto violentamente com as mãos, sentindo-se quase desesperado.
Amara, pela primeira vez, e não soubera conservar o objeto do seu amor.
Estava profundamente imerso em seus tristes pensamentos, quando o telefone
tocou.

Tony estava tentando andar, mas Julie não conseguia regozijar-se com o fato, tal
o pavor que sentia. A noite toda não conseguira falar com Andrew e quando, de
manhãzinha, ele atendera, ela havia perdido o controle. Fora um alívio tão grande
ouvir a voz que não ouvia há mais de um mês e pela qual tanto ansiara, que seu
pedido de ajuda havia soado como um grito incoerente. Depois do choque inicial, ele
conseguira fazer com que ela lhe explicasse o que se passava e pedira que não se
preocupasse, pois logo estaria ali. Olhou cautelosamente pela abertura da cortina.
A rua estava movimentada, cheia de pessoas a caminho do trabalho, e não havia
nem sombra do homem que a assustara, mas seu instinto a fazia senti-lo, embora
não o visse. Estava mais calma, mas preocupada por estar envolvendo Andrew em
algo de que ele nem sequer suspeitava. Teria de contar-lhe toda a verdade, assim que
entrasse por aquela porta. Tal perspectiva a apavorava mais que a presença do
homem lá fora. Temia ver o desprezo naqueles adoráveis olhos verdes quando ele
descobrisse o quanto fora mentirosa e inconsequente.
O interfone soou. Era ele. Ela apertou o botão para abrir a porta de baixo e
correu para a entrada do apartamento, esperando que ele subisse os três lances de
escada. Ficou parada, ouvindo, sem abrir a porta. Atrás dela, Tony balbuciava e ria,
contornando a mesa de centro, firmemente agarrado à borda. O medo e apreensão
ainda a dominavam, mas um sentimento de paz começou a invadi-la. Havia chegado o
momento da verdade, e sentia-se forte para encará-lo. Depois, estaria livre.
Ouviu um ruído estranho no corredor, do lado de fora da porta.
— É você, Andrew?
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O barulho aumentou, dando a impressão de que uma luta se desenrolava.


Quando ouviu um ruído surdo, parecendo um golpe, o pensamento de que Andrew
poderia estar precisando dela fez com que esquecesse o medo e abrisse a porta. Meio
curvado, e com a cabeça cheia de sangue, ele a olhava. Então ela percebeu o brilho
maligno de um revólver, apontado para o seu próprio rosto.

CAPÍTULO IX

O homem que segurava a arma era baixo e atarracado.


— Seja boazinha, dona, que ninguém vai sair machucado. — Havia um outro
homem, apontando um revólver para Andrew. Julie olhou-o e gelou. Era o mesmo
que vira várias vezes e que na noite anterior estivera espreitando o apartamento, do
outro lado da rua. Ela reconheceria aquele sobretudo escuro e o chapéu de abas
caídas, em qualquer lugar. — Entendeu? — o homem tomou a falar, com voz
grosseira.
Julie assentiu, com um leve gesto de cabeça. Estava meio entorpecida pelo pavor
de sentir uma arma tão próxima e, embora visse todos os detalhes da cena, aquilo
tudo lhe parecia irreal, como se estivesse sonhando. O homem do sobretudo agarrou
a pasta que Andrew segurava e atirou-a ao chão, mandando-o, depois, tirar o paletó e
submetendo-o a cuidadosa revista. O sangue lhe corria de um corte na testa, onde
fora golpeado, provavelmente com a coronha de uma das armas. Julie viu quando ele
foi empurrado para dentro da sala, cambaleante, zonzo pela pancada que recebera na
cabeça. Os homens entraram atrás dele, empurrando-a e batendo a porta. O mais
baixo tirou um par de algemas do bolso e prendeu uma das mãos de Andrew à pedra
de mármore com ornatos de bronze, chumbada à parede, e que servia de suporte ao
telefone. A seguir, tirou uma faixa e amordaçou-o.
Julie continuava observando tudo, alheada, como se aquilo não estivesse
acontecendo com ela, mas fizesse parte de um filme. O que usava o sobretudo tirou
alguns papéis de aparência oficial do bolso interno. Sentou-se no sofá e colocou os
documentos sobre a mesa de centro, alisando-os com a mão, enquanto Tony,
segurando-se na borda, olhava-o com curiosidade. O baixinho, então, empurrou Julie
em direção à mesa, ordenando-lhe que sentasse no chão. Os dois homens se
encararam.
— Você não me disse para trazer caneta, Berto — disse o atarracado, parecendo
temeroso da reação do comparsa.
O outro pulou do sofá, resmungando um palavrão, e aproximando-se do telefone
arrancou a caneta que se prendia à parede por uma correntinha. Voltou para o sofá e
enfiou a caneta na mão de Julie.
— Assine aqui, vamos! — O homem mandou, indicando uma linha pontilhada na
parte de baixo de um dos papéis.
Enquanto assinava, Julie pôde ler algumas palavras. Eram termos legais, e em
espanhol, e o nome de Juan Arista aparecia várias vezes. Antes que o documento lhe
fosse arrancado, ela percebeu que assinara a entrega do filho ao cunhado, em
adoção. O baixinho, que parecia fazer todo o trabalho grosseiro, rapidamente
algemou-a a um dos pesados pés da mesa, e depois enfiou-lhe um lenço na boca,
passando outro por cima dos lábios e ao redor do rosto, amarrando as pontas atrás.
Estava bem amordaçada e só então começou a ter plena consciência do que se
passava, ameaçando entrar em pânico.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Tony, vendo-a no chão, e pensando que ela queria brincar, soltou as mãos e
deixou-se cair no grosso tapete, engatinhando em sua direção.
— Mamã... mamã...
Agarrou-se a ela e ficou em pé, mexendo, intrigado, na mordaça. Vendo que a
mãe não se movia, ele encostou a cabecinha no peito dela e começou a chupar o
polegar, ruidosamente. Lágrimas subiram aos olhos de Julie e derramaram-se pelas
faces, molhando a mordaça e caindo sobre os cabelos escuros de Tony. O homem que
parecia comandar a ação foi ao telefone e discou um número, começando a falar num
inglês de sotaque carregado, perguntando se um determinado avião estava pronto e
se a enfermeira contratada já os estava esperando. Avisou que ele e a criança
chegariam no horário previsto. Os dois homens guardaram as armas sob os casacos e
pareceram relaxar. O que obedecia ordens inclinou-se, querendo fazer um agrado ao
bebê, que o ignorou, apertando-se mais ao peito da mãe.
— Ande logo! Junte as coisas do menino! — o outro ordenou. — Cobertores,
fraldas e potes de comida. Vou lá embaixo procurar um táxi.
— Ah, Berto, não sei nada sobre bebês.
— Vire-se!
Com um olhar ameaçador para o colega, Berto saiu. O baixinho começou a
revirar gavetas e armários, resmungando. Julie sentiu-se desesperada, sem poder
falar. Queria dizer onde os objetos preferidos de Tony estavam, pedir que levassem o
xarope, que o agasalhassem bem e que lhe servissem leite na xícara. Desolada,
correu os olhos pela sala, deparando com Andrew e parecendo estranhamente
surpresa por vê-lo ali, como se houvesse esquecido o que se passara momentos
antes. Ele, aparentemente, havia se recuperado do golpe, parecendo alerta,
observando tudo. A atenção dela desviou-se para o homem, que entrava na sala com
uma braçada de pacotes de fraldas e cobertores. Colocou tudo no sofá e inclinou-se
para Tony.
— Está tudo pronto, garoto. Venha com o Vinnie.
O bebê, naturalmente, não obedeceu. Vinnie ajoelhou-se e segurou-o, tentando
soltar as mãozinhas que agarravam a blusa da mãe. Tony reagiu, amedrontado,
pondo-se a chorar, mas o homem, num gesto brusco, puxou o corpinho para longe do
corpo de Julie, separando-os. Uma dor aguda percorreu-a, dando-lhe a sensação de
que ia enlouquecer.
— Vamos, garoto! — Vinnie consolou. — Você vai viver com o vovô e a vovó. Vai
ter cavalinhos de verdade, um Rolls-Royce e roupas de seda. — O pranto da criança
transformou-se em gritos assustados que cresceram em intensidade a ponto de deixar
Vinnie atordoado e perplexo. — O que é isso? Não sou tão mau assim.
Tentou deitar o bebê e acalentá-lo, mas apenas conseguiu mais gritos e
contorções de corpo. Com medo de deixá-lo cair, Vinnie agarrou-o com mais força. De
repente, ficou pálido e olhou para Tony com expressão horrorizada. O terno escuro
começou a ficar encharcado e o cheiro de xixi chegou até Julie, que fechou os olhos,
com medo de ver qual seria a reação de Vinnie. Ele porém limitou-se a colocar o
menino no chão, xingando. Em seguida, procurou nos bolsos, até encontrar a chave
das algemas que manietavam Julie. Soltou-a, ainda furioso.
— Não sou babá. Cuide dele, você que é a mãe.
Vendo-se livre, ela arrancou a mordaça.
— Calma, filhinho. Mamãe está aqui e vai trocar você. — Aproximou-se do filho,
pegou-o e, com ele em um dos braços, tirou uma fralda da pilha sobre o sofá. Olhou
para o baixinho, que tentava enxugar a roupa com o lenço. — Preciso pegar um pano
molhado, no banheiro, e talco, também.
— Vá, mas nada de truques, ouviu bem?
Momentos depois voltava, começando a higienizar o bebê, que começara a sugar
os dedos, fitando-a com os grandes olhos molhados.
— Ele está com sono.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

— Sei, mas terá tempo de sobra para dormir, no avião.


As mãos dela ficaram geladas quando as palavras de Vinnie a lembraram de que
logo levariam seu filho.
— Por que está fazendo isso?
— Dinheiro, dona. — Ele deu uma risadinha debochada.
— Como conseguiram nos encontrar?
— Bem... Sou muito mais esperto que aquele jumento mexicano do Berto.
Apesar de que foi muito fácil, com o seu namorado dando todas as dicas.
— Como?
Ele fez um gesto com a mão, indicando Andrew.
— O seu apaixonado deixou uma pista bem visível, da Cidade do México até
Nova York. Certo, doutor?
Julie franziu a testa, sem compreender direito o que o homem estava dizendo.
— Acabe logo com isso, dona, não temos o dia inteiro.
Ela recomeçou a tarefa de trocar o bebê, enquanto Vinnie ia à janela e olhava
através do vidro.
— Por que aquele idiota estará demorando tanto?
— Não é fácil conseguir um táxi a esta hora.
Nervoso, o homem pôs-se a mexer no ferrolho da janela, tentando abrir a
vidraça para olhar para fora. Julie não hesitou. Sem pensar, movida pelo instinto,
apanhou o pesado jarro de cerâmica de sobre a mesa e, andando cautelosamente,
aproximou-se do bandido que lhe queria roubar o filho, desceu-lhe o objeto com toda
a força que conseguiu reunir, na cabeça. Apavorada, ela o viu girar sobre si mesmo e
olhá-la com incredulidade. Depois, como um saco vazio, ele desabou no chão, ficando
ali, inconsciente, rodeado de cacos.
Andrew forçou as algemas, vigorosamente, sem conseguir livrar-se. Procurou
fazer sons com a garganta, mas a mordaça abafava-lhe a voz. Julie havia nocauteado
o sujeito e agora ficava plantada, olhando para o chão, de olhos arregalados.
Desesperado, tentando chamar-lhe a atenção, ele começou a chutar a parede e a
fazer o máximo de barulho que podia, até que, finalmente, ela olhou para ele,
parecendo uma sonâmbula. Andou vagarosamente, aproximando-se, enquanto ele
meneava a cabeça, indicando as mãos presas. Por fim, ela pareceu entender a
mensagem. Com movimentos lerdos, como num filme em câmera lenta, ela
desamarrou a mordaça.
— Julie! Preste atenção em mim! O outro vai chegar, e esse aí pode voltar a si a
qualquer instante. Temos de agir depressa para salvar Tony.
O nome do filho abriu caminho em seu cérebro embotado. Olhou para o sofá e
viu-o dormindo, como ela o deixara, ainda sem a fralda. O homem desmaiado gemeu,
fazendo-a pular de susto e desfazendo a confusão que tinha na mente. Correu para
ele e, ajoelhando-se no chão, mexeu-lhe nas roupas até achar o revólver, que
segurou desajeitadamente. Andrew seguia-lhe os movimentos, com ansiedade.
— Ótimo! Agora pegue as chaves que ele largou na mesa e solte-me.
Dentro de instantes, estava livre. O baixinho abriu os olhos e sentou-se, tonto,
mas antes que pudesse levantar-se Andrew agarrou-o e algemou-o ao suporte do
telefone, não se esquecendo de amordaçá-lo, deixando-o na mesma posição incômoda
em que havia ficado.
— Vamos sair daqui, Julie, antes que o outro volte.
Ela entregou-lhe a arma.
— Não. Não quero saber de armas.
Deixou o revólver cair no tapete e correu para o bebê, enrolando-o num cobertor
e tomando-o nos braços. Andrew olhou pela janela e viu que Berto estava na calçada,
ainda tentando conseguir um táxi.
— Vamos embora — ele disse, agarrando a pasta, a sacola de fraldas e o casaco
de marta de sobre o sofá.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

No caminho para a porta, ela parou.


— Minha bolsa!
Voltou correndo e entrou no quarto, voltando logo depois, com a bolsa em um
dos ombros. Tony continuava dormindo, com o rostinho encostado à macia segurança
dos seios da mãe. Desceram as escadas em silêncio e rapidamente. Chegando ao hall
de entrada, Andrew fez um gesto com a mão, para que Julie esperasse um pouco.
Antes de abrir a porta, olhou através do vidro e viu que Berto voltava.
— Ele vai entrar — falou, baixinho.
Olharam-se, desesperados, sem saber o que fazer, até que uma idéia cruzou a
mente de Julie.
— Por aqui — ela disse, correndo para o vão da escada e abrindo uma porta de
metal.
Ele a seguiu, e entraram num cubículo escuro e malcheiroso.
— É a lixeira — ela explicou, num sussurro.
Andrew abriu uma fresta estreita na porta e apurou o ouvido. As portas de vidro,
que davam para o exterior, foram abertas e fechadas novamente. Ouviram-se passos
leves na escada, que foram sumindo à medida que Berto subia. Correram, então, para
fora do prédio e para a calçada. O ar gelado golpeou-os, ríspido, fazendo os pulmões
doerem, quando era respirado, e a pele arrepiar-se, mas não havia tempo para
pararem e Julie vestir o casaco, de modo que ele colocou-o sobre os ombros dela e
envolveu-a com o braço. Era difícil correr abraçados e com ela carregando o bebê,
mas o pavor de serem alcançados deu-lhes força e, virando esquinas e atravessando
ruas, conseguiram distanciar-se três quarteirões do apartamento. Finalmente tiveram
de parar para respirar e tentar conseguir um táxi, mas não havia nenhum à vista.
— Droga! — Andrew exclamou. Parada ao lado dele, ofegante, Julie tremia,
agarrada ao filho. Rapidamente, Andrew ajudou-a a vestir e abotoar o casaco,
olhando para um lado e outro, inquieto. Não havia tempo a perder. — Vamos
continuar — ele disse, segurando-a pelo braço.
Quarteirão após quarteirão, eles correram, olhando todos o táxis que passavam,
sem ver nem um sequer desocupado. Finalmente, ele parou nos degraus de granito
que levavam da Rua Catorze à Praça Union. Estavam fugindo de dois sequestradores,
por culpa dele. Fora o responsável por Julie ter sido localizada, fora bastante estúpido
para permitir que aquilo acontecesse! Pusera-se a fazer perguntas a torto e a direito,
na Cidade do México, sem pensar que alguém, estranhando o interesse pela família
Velasco, pudesse denunciá-lo aos sogros de Julie. O resto fora fácil para os homens
que haviam contratado para apanhar o bebê. Quisera ajudar e quase pusera tudo a
perder. Mais do que nunca, era responsável pela segurança dos dois, e não haveria
perdão se falhasse.
Ansiosamente, ele examinou a praça. Os bancos gelados estavam, naturalmente,
vazios, mas numa das alamedas um homem vestido numa capa vermelha estava
dando migalhas de pão aos pombos. Teve esperança de que fosse um policial, mas
não. Era apenas um velho pacífico que se preocupava com os animais.
— Não sei o que daria para encontrar um policial — ele falou, como se pensasse
alto.
A cidade esfusiava de movimento ao redor deles. Carros passavam nas ruas que
davam a volta na praça, e pedestres apressados nem os viam, imersos nos próprios
pensamentos. Todos pareciam tão indiferentes à sua aflição quanto a estátua de
bronze de George Washington, que se erguia no meio da praça.
— Eles estão ali! — Julie gritou, apavorada.
Andrew seguiu a direção do olhar assustado e os viu. Um vinha do lado leste e o
outro do sul da praça. Pareceram ver os fugitivos ao mesmo tempo, pois gritaram
avisos e puseram-se a correr para o lado deles. Andrew agarrou o braço de Julie e
arrastou-a, ao redor da estátua, ao longo do muro de pedras, por sobre o gramado
seco e coberto de neve, descendo os degraus da Rua Quinze e entrando na estação do
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

metrô. A fila para a compra de passagens estava curta, mas o tempo que levaram ali
foi torturante. Ao passarem pelas roletas, olharam para trás e viram Berto e Vinnie
descendo as escadas, encaminhando-se para as bilheterias. Correram, passando pela
loja de artigos fotográficos, pela lanchonete e banca de jornais, atingindo, finalmente,
o longo corredor pavimentado de cimento que levava às escadas rolantes e às
plataformas. Mais uma vez, Andrew olhou para trás, para ver os dois bandidos
gesticulando, impacientes, na fila de bilhetes que, providencialmente, crescera
bastante. Talvez mais tarde, muito mais tarde, pudessem rir daquela cena, mas
naquele momento o pavor os empurrava para frente.
Ao chegarem às escadas, optaram pela que levava ao trem que se afastava do
centro da cidade. Desceram, achando que as escadas rolavam muito devagar e,
quando por fim chegaram à plataforma, descobriram que havia muito pouca gente.
Não teriam uma multidão com quem misturar-se, como haviam esperado. Pararam
perto dos trilhos, olhando ansiosos para as escadas, temendo ver os perseguidores
surgirem. O ruído do trem que chegava transformou-se num barulho ensurdecedor, e
a luz forte rasgou a escuridão do túnel. Foi então que Berto e Vinnie apareceram no
alto da escada, irritados por não poderem descer os degraus correndo, a menos que
passassem por cima das pessoas que, à frente deles, ficavam pacientemente em seus
degraus, que rolavam devagar. O trem diminuiu a marcha e parou, num chiado
agudo. Andrew empurrou Julie para dentro do carro diante deles e entrou em seguida,
mas ficando parado na porta, à espera dos dois. Se a porta fechasse logo, tudo
estaria bem. Do contrário, ele os enfrentaria, impedindo que entrassem, pondo pelo
menos Julie e Tony a salvo. Olhou novamente para a escada.
Estavam quase alcançando a plataforma. O trem deu uma espécie de suspiro.
Deixavam a escada, prontos para correr e alcançar a porta onde Andrew permanecia.
Aproximavam-se, havendo apenas alguns metros de distância entre eles e o trem.
Estavam tão próximos, que era possível ver o ódio que traziam nos olhos. No exato
momento em que iam pular para dentro do vagão, as portas se fecharam e o trem
partiu. Berto esmurrou os vidros da janela por onde Julie olhava, correndo ao lado do
trem, até que este atingiu uma velocidade impossível de acompanhar, entrando no
túnel. Andrew jogou-se no assento ao lado de Julie, controlando a respiração e as
batidas cardíacas. Não podiam ainda considerar-se a salvo. Olhou para o rosto dela,
ao lado do seu, notando que estava mortalmente pálido, contrastando com os olhos
sombrios. Sentindo a insistência do olhar dele, ela o encarou. No fundo dos olhos
cinzentos, havia mais que medo e momentâneo alívio: uma acusação terrível, com a
qual não se sentia capaz de lidar, ainda.
— Eles vão pegar o trem seguinte — ele disse. — Ainda poderão nos alcançar.
— Eu sei. — Ela suspirou e fechou os olhos, exausta. — De repente, Nova York
ficou pequena demais, não é?
Andrew olhou para ela, admirando-a, enquanto ajeitava o cobertor ao redor do
filho. Ela era uma pessoa forte e extremamente corajosa.
— O que você acha de descermos na estação central e apanharmos outro trem
para Times Square? — ele perguntou. — Depois poderíamos ir até um dos terminais
rodoviários...
— E pegar um ônibus para fora da cidade — ela completou.
— Sim. Acho que seria mais seguro que tentar os aeroportos. Talvez eles tenham
mais gente vigiando.
— Concordo. Mas não me considera tão imbecil a ponto de incluí-lo nos meus
planos, não é?
Embora ele já esperasse que ela o agredisse com palavras, estando magoada
como estava e desconfiada de sua lealdade, o tom de voz gelado que usou atingiu-o
como um soco.
— Pensa realmente que a traí?
— E não traiu?
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

— Não. Pelo menos, não intencionalmente. Estive apenas fazendo perguntas a


seu respeito. Alguém deve ter alertado os Velasco.
— Você estava fazendo uma investigação no meu passado.
— Sim.
— Desde quando sabe quem eu sou, realmente?
Andrew teve dificuldade em engolir a saliva, como se tivesse um bolo na
garganta.
— Desde o começo.
— Desde o aeroporto, em Houston? — Ele observou, com tristeza, que a voz de
Julie estava cheia de incredulidade e revolta.
— Sim.
— Então estava a serviço deles, seguindo-me, quando saí do México?
— Não! Nunca estive a serviço dos seus parentes. Eu apenas sabia quem você
era.
— Não precisa explicar. Não me interessa.
— Não diga isso, Julie. Jamais faria qualquer coisa que a prejudicasse. Você e
Tony são importantes para mim.
— Não acredito em você! Além disso, tenho coisas mais importantes com que me
preocupar.
— Quero ajudá-la — disse, com voz emocionada. — Não traí sua confiança.
Nunca o faria. — Julie não respondeu, mas olhou-o com tanto sarcasmo que o chocou.
— Acredite em mim, Julie. Ou, se não pode acreditar, deixe-me ajudá-la. Raciocine
que, se eu estiver do lado deles, poderei dizer-lhes que vai deixar a cidade, de ônibus.
Se me conservar perto, poderá ter certeza de que não me comunicarei com ninguém.
Julie não respondeu. Andrew tentou brincar para quebrar a tensão, abrindo o
sobretudo para que ficasse claro que não carregava nenhum apetrecho de
espionagem, mas não conseguiu fazê-la sorrir.
— Por favor, Julie, deixe-me ajudá-la.
— Por quê?
— Porque preciso fazê-lo.
Ela olhou para o rosto adormecido do filho, pondo fim à conversa.

Julie acordou em sobressalto. O coração batia descompassado e a respiração era


curta. Tivera um pesadelo. Ainda sentia o horror da sensação de estar presa ao chão,
sem poder escapar de um perigo. Por alguns segundos, ficou confusa, desorientada,
mas logo o abafado ruído de rodas no asfalto e o balanço do ônibus trouxeram-na de
volta à realidade. Estavam indo para Atlantic City. Tony dormia tranquilo, no banco ao
lado do seu, e ela podia ver o topo da cabeça loira de Andrew ultrapassando o
encosto, da poltrona a sua frente. Por enquanto estavam a salvo.
Tudo estava bem ou, pelo menos, quase tudo. Seria bom dormir de novo, perder
a consciência, esquecer a dor surda que a devorava. Fechou os olhos, mas sabia que
o sono não viria para tirá-la daquele tormento.
O tempo todo, Andrew soubera quem ela era e fingira acreditar em suas
mentiras, zombando de sua ingenuidade. Nunca havia sido sincero nas coisas que
dissera e fizera. Ela não se podia perdoar por ter sido tão estúpida e cega, ignorando
os sinais de perigo, confiando num estranho. Não havia percebido nada, nem mesmo
quando notara que ele possuía um grande conhecimento do México e dos problemas
do país. Acreditara piamente na história que lhe contara, sobre ter assuntos a tratar
na Cidade do México, não percebendo o quanto fora evasivo ao explicar que tipos de
negócios o haviam levado até lá. Se houvesse juntado os fatos, por menos
importantes que tivessem parecido, teria percebido o engano em que estava caindo.
Outro sinal de alarme que ignorara fora o modo fácil com que ele aceitara as
explicações sobre sua pretensa vida de divorciada, sem nunca tentar aprofundar-se no
assunto. Pela lógica, devia ter mostrado mais curiosidade e apenas não o fizera por já
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

saber toda a verdade a seu respeito. Só que ela não fora suficientemente esperta para
perceber. Não era de admirar, então, que ele houvesse feito questão de manter
contato mas, ao mesmo tempo, conservar distância. Na realidade, não cultivara a
amizade entre eles nem fizera amor com ela por uma questão de sentimento ou
emoção. Todos os momentos que haviam passado juntos faziam parte de um
trabalho, de uma tarefa, portanto fora tudo fingido: os risos, as brincadeiras, os
olhares, os gestos de ternura e preocupação.
Mentira. Seu relacionamento fora uma grande mentira, assim como sua vida
inteira tivera o sabor de falsidade. Como órfã, aprendera muito cedo a detectar o
fingimento nos atos das pessoas. Ouvira muitas palavras vazias, de afeto apenas
simulado, vira a rejeição disfarçada, em muitos olhares. Já casada, tivera que mentir
e fingir ser o que nunca fora, para agradar Paulo, para que ele não a rejeitasse e lhe
negasse amor. Só que nem aquilo funcionara e ela fora desprezada e humilhada.
A dor do passado mesclava-se ao sofrimento do presente, fazendo o coração
pesar-lhe no peito. O amor que pensara ter encontrado, o companheiro e amigo que
julgara leal, a vida que estivera planejando, cheia de confiança e alegria, haviam sido
uma grande mentira desde o começo. Podia parar de torturar-se tentando encontrar
um modo de reconquistar Andrew. Não precisava mais pensar em lutar pelo seu amor.
Nunca o tivera nem fora amada. Tudo havia sido uma dolorosa mentira.
Gostaria de entender os motivos que o haviam feito agir daquela forma.
Dinheiro? Chantagem? Um favor para os Velasco? Quaisquer que houvessem sido as
razões, porém, um fato permanecia: ele mentira, espionara e fora falso o tempo todo.
Ela o odiava. Não precisava dele para construir uma vida boa e feliz para si mesma e
para Tony. Quando o ônibus entrou em Atlantic City, ela jurou lutar sozinha em busca
de um futuro de segurança e paz. E ninguém poderia impedi-la.

CAPITULO X

— Você deve estar brincando! — ironizou Julie.


Estava parada no meio da sala do apartamento do Hotel Internacional Resorts,
onde ficariam hospedados. Tudo era branco, desde o pequeno vestíbulo de mármore
até os sofás em L, encostados às paredes forradas de tecido sedoso, sob duas
imensas janelas que se abriam para uma vista deslumbrante do oceano Atlântico.
— Não é num lugar como este que vamos passar despercebidos — concluiu ela,
com sarcasmo.
Andrew fitou-a, fatigado.
— Tivemos muita sorte em achar um lugar para ficar. Não se esqueça de que é
sexta-feira e a cidade está cheia de turistas.
— Por que escolheu Atlantic City? Para que os capangas de Victoriano Velasco
saibam onde me encontrar? Já estava tudo combinado?
Andrew não reagiu à provocação, limitando-se a jogar a chave sobre a mesinha
de mármore. Com um suspiro cansado aproximou-se do telefone, que ficava sobre
outra mesinha, na extremidade de um dos sofás.
— Vou pedir algo para comer. Também quer?
— Quando quiser, eu mesma pedirei — Julie respondeu, com maus modos.
Carregou o bebê através da porta que supunha ser do quarto e parou, olhando
espantada para aquele luxo incrível. A grande cama suntuosa ficava num plano mais
elevado, bem no centro do quarto, sobre um carpete branco onde os pés se
afundavam. Havia espelhos em todas as paredes e pequenas cadeiras forradas de
cetim branco perto da janela. O grande armário embutido, laqueado, ocupava uma
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

das paredes, disfarçando a porta que levava ao banheiro, onde uma imensa e
convidativa banheira com hidromassagem dominava o ambiente.
— Quem vai pagar todo este luxo? — ela perguntou, olhando por sobre o ombro,
para a sala.
— Não sei — Andrew respondeu. — Nós dois trouxemos dinheiro e eu tenho
cartões de crédito. Mas isso não me preocupa. O que interessa é que aqui estamos
seguros.
— Quem fica com o quarto?
— Você e o bebê, é claro.
Andrew apareceu na porta e Julie esperou que fizesse algum comentário sobre o
luxo cinematográfico, mas ele limitou-se a olhá-la, parecendo nem perceber a beleza
do ambiente. Sentindo-se sem jeito com o olhar dele, frio e insistente, procurou
alguma coisa para dizer, mas parecia não haver nada sobre o que pudessem
conversar.
— Já trouxeram o berço? — ela perguntou.
— Sabe que não.
— Já pediu alguma coisa para comer?
— Já.
— Bem, então acho que vou pedir um lanche também.
— Não pode continuar segurando o bebê. Quer que a ajude a deitá-lo em algum
lugar?
— Onde? Não posso colocá-lo nem na cama nem no sofá. Ele pode cair.
Acabou de falar e voltou para a sala, ouvindo Andrew abrindo e fechando
armários e gavetas. Dentro em pouco, ele apareceu, carregando alguns cobertores
dobrados.
— O carpete é macio. Vou fazer uma cama no chão, com esses cobertores.
Podemos deixá-lo ali, até que o berço chegue.
Julie calou-se, sem concordar nem protestar, enquanto ele, cuidadosamente,
arrumava uma cama aconchegante num dos cantos. Quando terminou, ela deitou a
criança adormecida, sem nenhum comentário. Não queria dar o braço a torcer,
declarando-se cansada de segurar o bebê, mas não conseguiu reprimir um suspiro de
alívio ao livrar-se do peso. Massageando o braço dormente, dirigiu-se ao telefone e
pediu uma refeição, causando uma confusão na copa, pois pareciam não compreender
que estava fazendo um pedido adicional e não mudando o anterior. Vermelha de
embaraço por sentir o olhar de Andrew, que parecia divertir-se com o que sua
teimosia havia causado, bateu o telefone e foi para o banheiro, pisando duro.
Aquele apartamento estava pequeno demais para os dois. Precisava de uma
distância maior entre eles, de modo que não tivesse de olhá-lo, lembrando-se das
mentiras e traições e sofrendo. O banheiro era tão luxuoso como o resto da suíte, com
piso de granito negro e espelhos de corpo inteiro nas paredes revestidas de mármore
branco. Além da banheira de hidromassagem, havia um chuveiro num boxe com
portas de vidro e um toucador, também de granito, com o mais diverso sortimento de
sabonetes finos, sais de banho e águas-de-colônia. O sanitário guardava sua
privacidade, atrás de uma pesada porta de madeira entalhada.
Indecisa, Julie olhou para a banheira. Seria bastante relaxante mergulhar em
água tépida e borbulhante deixando que o cansaço e o pó, acumulados na viagem, se
dissolvessem, deixando-a renovada. Mas talvez fosse melhor comer primeiro, embora
soubesse que a dor surda que sentia na boca do estômago fosse fruto mais da tensão
que da falta de alimento. Ao voltar para a sala, o berço havia chegado.
— Queriam levá-lo para o quarto, mas pensei que estivesse descansando —
Andrew explicou.
Julie balançou a cabeça, concordando, incapaz de agradecer- lhe a gentileza, e
olhou para o filho, que dormia tranquilamente no chão.
— Vamos deixá-lo onde está, por enquanto.
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Bateram na porta. Era o serviço de quarto, trazendo os dois pedidos. Julie ficou
parada, observando Andrew, que orientou o garçom, pedindo-lhe que pusesse as
bandejas sobre a pequena mesa de jantar que havia em um dos cantos.
Quando ficaram novamente a sós, Julie sentou-se e começou a comer,
percebendo que Andrew ocupava a cadeira à sua frente, mas não ergueu os olhos,
concentrando-se na comida, da qual não conseguia sentir o sabor. Não queria vê-lo.
Precisava ignorar a proximidade daquelas mãos fortes e expressivas, aqueles olhos
verdes que, a despeito de qualquer raciocínio, provocavam um tumulto em seu
coração. O silêncio cresceu entre eles, apenas quebrado pelo som dos talheres de
prata batendo nos pratos de porcelana e pelo tilintar do gelo nos copos. Era uma
situação tensa, mas suportável, até que alguma coisa começou a mudar.
Ela percebeu que os movimentos dele tornavam-se mais agitados e ouviu o
profundo suspiro que ele soltou, antes de limpar a garganta, como se fosse falar. O
sangue começou a fluir mais rapidamente e o corpo todo ficou tenso, como o de um
animal selvagem que pressentisse uma presença indesejável. Não queria ouvir-lhe a
voz, nem as palavras que diria. Naquele momento o telefone tocou e ambos pularam,
trocando um olhar cheio de medo.
Andrew cruzou o espaço que os separava da mesinha e atendeu.
— Alô? — Pôde vê-lo relaxando à medida que ouvia, e o ar aliviado que lhe
suavizou as feições. — Sim — ele disse — recebemos o berço. Está tudo em ordem.
Julie deixou a mesa rapidamente, aproveitando a oportunidade para escapar,
sentindo que ele a olhava, enquanto fechava-se no quarto. Por enquanto estava livre
de ouvir o que ele estivera prestes a dizer. Prendeu os cabelos brilhantes no alto da
cabeça e abriu um envelope de espuma de banho, escolhido entre os vários tipos
dispostos sobre o toucador. Despiu-se e abriu as torneiras da banheira, fazendo
alguns movimentos de ginástica relaxante, enquanto esperava que enchesse.
Entrou então na água deliciosa, deitando-se e apoiando a cabeça na borda,
soltando o corpo. A agitação da água envolveu-a, formando uma espuma abundante e
perfumada que a cobriu. Deixou-se ficar naquele embalo, espantando os pensamentos
dolorosos, fixando-se em ideias de autoafirmação, até que principiou a sentir-se em
paz. Embora o mundo houvesse ameaçado desabar sobre sua cabeça, sufocando-a,
ela não entrara em pânico. Não havia entrado num estado de desespero nem se
sentido desamparada. Conseguira encarar a verdade de que só podia contar consigo
mesma e aceitara a ideia. Não era mais uma boba indefesa. Repentinamente, a porta
se abrindo tirou-a das reflexões. Andrew a olhava, hostil e desafiador.
— Tony acordou? — ela perguntou, cruzando os braços sobre os seios que a
espuma que se desfazia ameaçava descobrir.
— Não.
— Então, o que está fazendo aqui?
— Está se escondendo de mim, não é?
— Não. Estou apenas tomando um banho.
— Este banho já dura há uma hora! — ele exclamou.
— Mas que inferno! Será que vai querer controlar até o tempo que levo no
banho?
— Acho melhor sair daí, se não quiser que a tire.
Julie ficou muda de raiva e espanto pelo atrevimento dele, mas resolveu atendê-
lo. O único problema era alcançar a toalha, que estava pendurada numa argola, longe
de suas mãos. Adivinhando-lhe os pensamentos, ele apanhou a toalha e abriu-a no ar,
perto da banheira. Trincando os dentes de irritação, ela saiu, imediatamente
tomando-lhe a toalha das mãos e enrolando-a no corpo como se fosse um sarong.
— Muito bem, meu banho acabou. Quer sair daqui para que eu possa me vestir?
— Oh, não! — ele respondeu, balançando a cabeça, enfaticamente. — Se eu sair,
você vai se trancar. Vou ficar até que me ouça. Pouco me importa que esteja vestida,
enrolada numa toalha ou nua.
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Numa virada brusca, Julie saiu do banheiro e sentou-se nos pés da cama. Não
iria se vestir na frente dele, de jeito nenhum. Apertou o tecido macio ao redor do
corpo.
— Fale, então, mas ande depressa.
Andrew olhou-a, achando-a linda, sentada na beirada da cama com os ombros
nus brilhando, salpicados de gotas de água e a massa de cabelos cor de cobre
escapando dos grampos e caindo em desordem na nuca e ao redor do rosto de feições
impecáveis. Os olhos, sempre maravilhosos, haviam perdido a ternura, porém.
Naquele momento, mostravam a cor cinza de um mar tempestuoso. Sua decisão de
falar quase fraquejou. Passou os dedos entre os cabelos revoltos, percorrendo o
quarto com o olhar e procurando a melhor forma de começar.
— Sei o que você pensa — ele começou por fim, hesitantemente. — Mas as
coisas não são como parecem. Não estou tentando me eximir de toda a culpa, mas
quero que ouça a verdade. — Olhou-a nos olhos. Estavam frios e sérios, deixando
claro que não haveria perdão para ele. Todavia, precisava fazê-la entender o que se
passara e dizer-lhe tudo. — Quase tudo o que lhe disse é verdade. Apenas omiti
algumas partes. Fiquei órfão e meus tios acabaram de me criar. O que não sabe, é
que o sobrenome deles é Obregon, e que moram na Cidade do México. — Pôde
perceber que um lampejo de reconhecimento brilhou nos olhos dela, ao ouvir o nome.
— Estive lá, ajudando meu primo a formar um escritório de advocacia voltado para a
assistência de pessoas carentes, como o meu, em Nova York. Estive naquele baile, na
última noite que passei lá, de tanto meu tio insistir. Vi você chegar com os Velasco e a
segui, porque não podia tirar-lhe os olhos de cima.
Ele balançou a cabeça, suspirando, procurando palavras.
— Não sei explicar o que senti, mas você exerceu uma atração irresistível sobre
mim. Fiquei fascinado, intrigado, curioso. Até presenciei a cena em que aquele sujeito
grosseiro lhe entregou o envelope.
Julie encolheu-se, revoltada, sem quase poder acreditar no que ouvia.
— Estava me espionando, como um maníaco.
— Não. Foi por puro acidente. Estava no terraço, tomando um pouco de ar e
fugindo do barulho, quando você saiu. Não quis assustá-la ou aborrecê-la, pensando
que logo voltaria para dentro.
Ele parou de falar, como se revivesse aqueles momentos.
— Mas você não entrou e aquele homem apareceu e bem... eu não sabia o que
fazer e fiquei por ali.
O desgosto no rosto dela era tão grande, suspeita e desconfiança enchendo-lhe
os olhos, que ele teve medo de nunca poder desfazê-las. Fez um gesto de resignação
com as mãos. As palavras não a atingiam. O melhor a fazer era acabar logo com
aquilo.
— Depois, andei perguntando a seu respeito e, quando a vi no aeroporto, sabia
quem era e adivinhei o que estava fazendo. — Ele percebeu que seu tom de voz se
tornava monótono, como se estivesse lendo uma história em voz alta. — Resolvi
abordá-la, pensando poder ajudá-la, de modo que o bebê não saísse prejudicado.
Depois, já em Nova York, fiquei sempre por perto, para ter certeza de que Tony e
você também permanecessem bem.
— Em outras palavras, esteve me regulando, não é? Todo o nosso
relacionamento não passou de um pretexto para que pudesse me vigiar — ela falou,
como se estivesse cuspindo as palavras.
— No começo foi realmente assim, mas depois as coisas mudaram e percebi que
gostava de você.
Julie começou a rir de modo zombeteiro.
— Oh! Isso foi antes ou depois de fazermos amor?
— Bem antes.
Andrew sentiu-se intimidado sob a influência da raiva dela, mas louco para tomá-
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la nos braços. Ela teria ideia do poder que exercia sobre suas emoções?
— Depois sua aliança com os Obregon foi mais forte que o idiota envolvimento
emocional comigo, fazendo-o me trair. — O sarcasmo na voz dela era como uma
chicotada. — Ou será que você e seus tios deviam algum favor aos Velasco e me
entregaram como pagamento da dívida?
— Pare com isso! — ele gritou. — Não a traí. Não sei como foi descoberta, mas
enquanto você bancava a sereia, naquela banheira, fiz alguma coisa para desvendar o
mistério. Telefonei ao meu primo Miguel, contei-lhe a história toda e pedi-lhe ajuda.
Tem muito conhecimento na Cidade do México, sei que vai descobrir o fio da meada.
O que acho é que fiz perguntas a alguma pessoa errada, que correu a contar aos seus
sogros sobre minha investigação.
Julie riu novamente, cheia de zombaria.
— Que bela investigação! Atirou-me na boca do lobo! O que você fez foi pura
espionagem. Não me diga que não pretendia usar alguma sujeira que encontrasse.
— Pretendia mesmo.
Ela olhou-o, assustada, e ele sentiu um tipo de satisfação perversa por ver que
ainda podia atingi-la de alguma maneira.
— Estava tentando ajudá-la — ele insistiu. — Talvez tenha mesmo feito papel de
espião, cavando fundo na vida de vocês todos, esperando encontrar alguma coisa que
pudesse usar, mas contra os Velasco.
— Por quê? Qual o motivo da repentina vontade de me ajudar? Culpa por ter
mentido, por ter me usado e seduzido?
— Seduzir você? Usar você? É de morrer de rir. Eu é que fui usado.
Andrew sacudiu a cabeça, num gesto de descrença.
— Sei que teve razões para fazer o que fez — continuou, desviando o olhar do
rosto dela. — Mas passou por cima de muita gente, enganou e mentiu sem remorsos.
E isso, minha cara, não a torna muito boazinha.
— Nunca devia ter confiado em você — ela disse, com voz trêmula.
— Mas de que se arrepende? Você não confiou em mim. Talvez tudo fosse
diferente, se confiasse.
Julie pareceu perder a pose, deixando as mãos inertes no colo e pendendo a
cabeça. Ele pôde ver fios de lágrimas escorrendo-lhe pelas faces. Vê-la tão infeliz,
comoveu-o, transformando a raiva em arrependimento pelas palavras duras.
— Julie... — ele chamou suavemente — Oh, Julie...
Sem raciocinar, Andrew estendeu a mão para ela. Os dedos tocaram a pele
sedosa de um dos ombros e o choque daquele contato o abalou, fazendo-o desejar
sentir-lhe o corpo todo contra o seu. Mas não podia cometer o mesmo erro
novamente. Nunca deveria tê-la possuído, em primeiro lugar. Tinha que combater e
vencer o desejo que crescia nele. Intimidade sem confiança era algo venenoso e
destrutivo. Precisava, porém, abraçá-la, confortá-la e encontrar um pouco de paz num
gesto de solidariedade e calor. Pegou-a pelas mãos e gentilmente ergueu-a.
— Nunca tive a intenção de magoá-la. Por favor, acredite em mim.
Julie levantou a cabeça, deixando que Andrew lhe visse os olhos molhados,
cheios de mágoa, tão vulneráveis em sua beleza.
— Como jamais poderemos acreditar um no outro? — ela perguntou, com voz
quase inaudível.
O beijo, então, foi inevitável e cheio de ternura.
— Pode crer nisso? — ele murmurou. — Na verdade desse beijo?
— Não sei se posso acreditar, Andrew, mas ainda posso sentir. E o seu beijo foi
verdadeiro.
Ela enlaçou-lhe o pescoço com os braços, e a toalha soltou-se, caindo ao chão.
Um gemido abafado escapou dos lábios dele quando sentiu o corpo nu apertar-se ao
seu. Fechou os olhos, procurando prender a mágica daquele momento. Julie deixou a
cabeça pender para trás, entregando-se aos lábios que traçaram um caminho ardente,
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descendo-lhe pela garganta e encontrando as reentrâncias e curvas dos ombros


roliços e dos seios rijos. Andrew ergueu-a com facilidade e colocou-a na cama, onde
ela ficou, flutuando num plano de existência onde só o amor e o desejo importavam,
onde existia apenas o homem que se despia e se deitava ao seu lado, apertando-a
contra a rigidez de sua masculinidade. Julie correu os dedos pelo peito musculoso,
apalpou os ombros largos e entregou sua fragilidade aos braços poderosos, mantendo
o olhar preso ao dele, magnetizada pela intensidade das emoções que via nos olhos
verdes. Andrew a beijou, a princípio com delicadeza, roçando os lábios cheios e
rosados, para depois aprofundar-se neles em paixão vertiginosa. Depois, afastando-se
da boca que o enlouquecia, envolveu os seios provocantes com as mãos e os beijou,
até que Julie sentiu-se desfalecer de prazer, puxando-o sobre si, guiando-o no
caminho que os levaria ao êxtase, entre palavras incoerentes e beijos loucos.
Andrew continuou abraçado a Julie, sentindo-lhe os seios macios no ritmo suave
da respiração. Era bom que pudesse dormir, pois quem sabia o que os dias seguintes
poderiam trazer, exigindo toda sua energia. Ele também precisava dormir, mas o
extremo cansaço e o acúmulo de preocupações o estavam deixando insone. Seria
maravilhoso se aquele interlúdio pudesse fazer alguma diferença no relacionamento
deles, cheio de agressões e acusações mútuas, mas ele duvidava. Ainda havia um
grande abismo entre eles, cavado por mentiras e desconfianças, e um breve contato
físico não superaria a distância. Apenas o amor, isento de qualquer sentimento de
mágoa, o conseguiria.
Ele a amava. Disso não podia haver dúvidas. Mas não podia dizer, com plena
honestidade, que seria fácil esquecer tudo e recomeçar, enterrando o passado para
sempre. Era difícil aceitar decepções provocadas por pessoas amadas, transformadas
em verdadeiros ídolos que, ao mostrarem os pés de barro, causavam uma frustração
dolorosa. Sabia que precisava modificar-se, aceitar a imperfeição natural de cada ser
humano, sem desapontamento exagerado. Outro defeito seu, e de que tinha completa
consciência, era o de partir para o ataque toda vez que se sentia ameaçado ou ferido.
Isso tornaria difícil um confronto civilizado com Julie. Qualquer tentativa de
esclarecer a situação acabaria em batalha. Gostaria de saber até que ponto duas
pessoas poderiam ferir-se e manter vivo o amor. Julie e ele haveriam ultrapassado o
limite, tornando impossíveis o esquecimento e o perdão? Alcançar o verdadeiro amor
era uma tarefa espinhosa, que exigia flexibilidade e devoção, além de um enorme
desejo de preservar o sentimento, guardando-o com cuidado. Desde que não podia
saber o que se passava, exatamente, na cabeça da mulher que amava, usar de lógica
para resolver os problemas seria inútil. Tinha medo de agir, tentando endireitar as
coisas e tornar tudo pior. Teria de esperar para ver o que aconteceria.
Delicadamente, Andrew afastou-se e saiu da cama. Foi nas pontas dos pés, no
escuro, dar uma olhada no bebê. Com ternura, ajeitou as cobertas. Tony virou-se, no
sono, chupando os dedinhos ruidosamente. O coitadinho ficara tão cansado que
dormira direto, pulando duas refeições, mas era bem provável que logo despertasse,
exigindo alimento. O que dar à criança era algo concreto com que se preocupar, um
objetivo em que concentrar os pensamentos. Voltou para o quarto e vestiu-se em
silêncio. Ao sair, parou no meio do caminho, decidindo se deveria ou não deixar um
bilhete, acabando por achar que não havia necessidade. Andando pelo corredor que
levava aos elevadores, ele pensava que seria prudente comprar algumas embalagens
de suco, biscoitos e vários pacotes de fraldas descartáveis. Fez e refez uma lista
mental, preparando-se para as compras. Talvez, quando voltasse, fosse capaz de
dormir.

Julie acordou assustada, na cama vazia.


— Andrew! — ela chamou, baixinho. Não recebendo resposta, levantou-se. A
porta do banheiro estava aberta e não havia luz lá dentro. Apanhou a toalha caída no
chão e enrolou-a no corpo antes de dirigir-se à sala. — Andrew!
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Não veio resposta, da sala às escuras. Tony remexia-se na cama improvisada, o


que era sinal de que acordaria logo. Sem o menor ruído, voltou para o quarto,
apanhou as roupas e entrou no banheiro. Estava meio tonta de sono. Um banho de
chuveiro a despertaria completamente, preparando-a para cuidar do bebê, que devia
estar ensopado e faminto. Vestiu as roupas amassadas e ligeiramente sujas, fazendo
uma careta. Enquanto escovava o cabelo embaraçado, olhou-se no espelho, notando
as olheiras escuras e o ar cansado. Não conseguia imaginar por que motivo Andrew
saíra. Estando cansado como estivera, era de esperar que não desejasse deixar o
quarto. De repente, ela parou com a escova no ar, encarando sua própria imagem no
espelho, vendo uma horrível suspeita encher-lhe os olhos.
Não queria nem pensar na possibilidade que diabolicamente lhe surgiu na mente,
mas a ideia terrível teimava em permanecer. Andrew podia tê-la feito cair numa
armadilha, embora lhe doesse imaginar que pudesse ter sido capaz de tal baixeza.
Porém, depois de tudo, não devia confiar nem na própria sombra. Com um arrepio de
medo, deixou cair a escova no granito do toucador e correu para a porta, atingida por
uma súbita necessidade de ver o filho.

CAPÍTULO XI

Na escuridão, um braço atingiu-a no peito, deixando-a sem fôlego. Quando


conseguiu recuperar-se o bastante para lutar ou gritar, uma pesada mão caiu-lhe
sobre o nariz e a boca. Cravou as unhas no braço e na mão que a seguravam, mas
nada conseguiu. Sem poder respirar, arregalava os olhos no escuro, tentando ver
quem a atacava, presa de um terror indizível.
— Se eu tirar a mão, promete ficar quieta e fazer o que lhe mandar?
Desesperadamente, ela balançou a cabeça, concordando. A falta de oxigênio já
lhe dava vertigens, e ela parecia ver milhões de estrelas coloridas explodindo no
cérebro. A mão soltou-se e ela ficou alguns segundos arquejante, tentando encher os
pulmões de ar. A lâmpada do teto foi acesa e alguém jogou-a na cama.
— Fique aí sentada, e de boca fechada — Vinnie disse.
Trazia a cabeça enrolada em bandagens, e um dos olhos estava roxo. Pelo olhar
venenoso que ele lhe lançou, Julie pôde perceber que a raiva, por ter sido golpeado,
era enorme. Berto entrou no quarto, vindo da sala. Ele também parecia furioso.
— Onde está o señor advogado?
A mente dela pôs-se a funcionar numa velocidade vertiginosa, pesando as
possibilidades, tentando descobrir se seria melhor dizer a verdade ou inventar uma
história. Qual das duas alternativas lhe daria mais chance de escapar, ou, pelo menos,
ganhar tempo? Deixá-los acreditar que ele voltaria de um momento para outro
melhoraria ou pioraria as coisas? Tentou imaginar o que fariam se lhes dissesse que
Andrew não voltaria.
— Diga-me! — rosnou Berto, brincando de modo ameaçador com o revólver.
— Não sei — ela finalmente admitiu.
— Como, não sabe? — Vinnie gritou.
O companheiro olhou-o.
— Quer acordar a cidade inteira, seu estúpido? Fale baixo!
Vinnie encolheu-se, dando um sorriso de quem pedia desculpas. Os dois a
encararam, enquanto ela começava a chorar.
— Ele me abandonou! — disse, entre soluços. — Tivemos uma briga, ele ficou
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muito zangado e voltou para Nova York, dizendo que não se incomodava com o que
pudesse me acontecer.
Houve um momento de silêncio, enquanto os homens digeriam a informação.
— E agora? Podemos esquecê-lo, Berto?
Julie arriscou uma espiada e percebeu que o manda-chuva parecia indeciso.
— Cale a boca, baixinho. Não posso pensar, com você miando em volta.
Os soluços diminuíram e ela continuou com sua farsa.
— Não sei por que não o deixei algemado, no meu apartamento. Se soubesse
que iria me abandonar covardemente, juro que o teria feito. Aposto como telefonou a
vocês, dizendo onde estávamos.
— Não. Este negócio foi de primeira classe. Ele telefonou para um parente, no
México, e havia alguém na escuta, como nos filmes de detetive — Vinnie apressou-se
em explicar.
— Se você ficasse com a maldita boca fechada, acho que seu cérebro funcionaria
melhor — Berto explodiu.
— O que vamos fazer? Algemar a dona e esperar, para ver se o outro aparece,
ou o quê?
— Antes de tudo, vamos mandar o niño para o avião e para a enfermeira. Depois
faremos nosso trabalhinho extra.
— O que faço, então? Algemo ou não?

— Estou pensando. Não confio em deixá-la aqui com você até eu voltar. Você é
burro demais. — Berto franziu a testa e coçou o queixo. — Mas também não posso
ficar com ela e mandá-lo ao aeroporto, porque entregar a criança é uma tarefa
delicada demais para deixar por sua conta.
Berto começou a passear de um lado para outro, até que olhou para Julie e
Vinnie com ar vitorioso.
— Já sei! Você aí, dona, arrume as coisas do garoto é vista-o para sair no frio.
Vamos todos dar uma volta para conhecer a linda cidade.
Ela juntou as poucas fraldas que haviam sobrado e as roupinhas de Tony,
colocando-as numa sacola. Começou então a vesti-lo num macacão acolchoado com
pés e capuz, dando graças por ele não haver acordado e esperando que não
escolhesse aquele momento para fazê-lo.
— Eu carrego o niño — Berto anunciou.
Julie engoliu os protestos e tirou o filho de sua cama de cobertores. Mostrou a
Berto como carregá-lo, aconchegado ao peito, para que não acordasse. Por fim,
colocou um cobertor sobre o bebê, deixando-o quase totalmente escondido, e vestiu o
pesado casaco de marta.
— Segure-a bem — Berto ordenou a Vinnie. — E mantenha a arma nas costelas
dela. Com esse grosso casaco de peles, não vai dar para notar.
Quando chegaram ao térreo e saíram do elevador, Julie olhou em volta. Havia
grupos de pessoas aqui e ali, rindo e conversando, ou andando pelo corredor longo e
pesadamente carpetado que levava ao cassino. Não tinha a menor ideia da hora, mas
num ambiente como aquele, que tinha o maior movimento à noite, ninguém acharia
estranho ver uma mulher, dois homens e um bebê saindo. Aliás, não seriam nem
notados.
Vinnie agarrou-a pelo braço e colocou o revólver entre eles. Ela respirou fundo e
começou a andar. Olhou para Berto, que levava Tony de encontro ao peito. Sob o
grosso cobertor, a criança não sentiria frio, mesmo quando saíssem para a rua. Havia
parado de imaginar onde Andrew poderia estar. Aquilo não mais importava. Ela ia
perder o filho. Iam levar seu bebê embora, e ela não via meio de impedir. Quando ele
estivesse do outro lado da fronteira e sob os cuidados dos Velasco, pouca chance
haveria de recuperá-lo. Só havia um consolo. A enfermeira que o levaria teria sido
escolhida por sua competência e aqueles dois monstros sabiam muito bem quanto o
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menino valia. Velariam por sua segurança, nem que fosse apenas por saber que sem
ele não haveria dinheiro. Nada de mau aconteceria ao seu filho, só que ele não seria
mais dela, não mais se agarraria às suas pernas, tentando andar, nunca mais a
chamaria de mamã. Um torpor a invadiu, deixando-a vazia de qualquer sensação que
não fosse a dor de estar vendo Tony sendo levado para longe.
O ar frio, vindo do mar, chicoteou-lhe o rosto quando saíram para a calçada. As
noites de janeiro eram frias demais para passeios românticos, e assim a rua estava
completamente deserta. Caminharam em silêncio, acompanhados pelo murmúrio das
ondas que se quebravam na praia, a poucos metros deles, açoitados pelo vento
gelado que vinha do mar.
— Aqui está bom — disse Berto, parando de repente.
À frente deles erguia-se um edifício que avançava para a areia, interrompendo a
visão da praia. O homem que carregava Tony inclinou-se para o outro e disse-lhe
qualquer coisa no ouvido, que ela não pôde ouvir.
— Espere aí! — Vinnie protestou. — Não vou fazer isso sozinho. Estamos juntos
neste negócio.
Novamente o outro cochichou algumas palavras.
— Sim, eu sei — respondeu Vinnie. — Sei que vai render mais e fiquei
entusiasmado com a idéia, mas como podia...
A hesitação do baixinho irritou o comparsa, que se conteve, continuando a falar
baixo, para que Julie não o ouvisse. Ela esperava, angustiada, desejando que eles
acabassem logo com a discussão, de modo que Tony pudesse ser levado rapidamente
para as mãos experientes da enfermeira. Não confiava na paciência e habilidade de
Berto, que não saberia lidar com uma criança faminta e chorona. Para o bem de Tony,
era bom que dormisse até ser entregue a quem cuidaria dele direito.
— Está bem, está bem — Vinnie concordou, por fim.
Ela sentiu-se empurrada, enquanto o baixinho lhe ordenava, rispidamente, que
descesse os degraus até a areia.
— E cuidado com o que vai fazer, dona. Estou bem atrás de você e esta arma
não é de brinquedo.
Então era isso. Berto queria que ficassem esperando na praia, enquanto levava o
bebê. Teve de admitir que a ideia fora muito boa. Jamais alguém a ouviria, por mais
que gritasse, pois qualquer som seria abafado pelo barulho da arrebentação. Deu uma
última olhada para o fardo nos braços de Berto e desceu para a praia, com a dolorosa
sensação de que o coração se transformara numa pedra.
— Dê a volta — Vinnie mandou, indicando o edifício.
Ele queria que ela rodeasse o prédio, de modo que não fossem vistos da calçada.
O vento os fustigava sem piedade, e ela pensou que, quanto mais perto da água
chegassem, mais frio ficaria. A caminhada tornou-se difícil, com os pés afundando na
areia fofa e o vento tirando-lhes a respiração, mas ela não sentia o desconforto,
pensando no filhinho que se fora.
— Pode parar — o bandido instruiu.
Julie obedeceu e ouviu que ele lhe gritava alguma coisa, mas não podia ouvir as
palavras.
— Não posso ouvi-lo — gritou.
— Tire o casaco.
Estavam a poucos passos da água e o vento tomara-se gelado.
— Para quê?
Vinnie acercou-se, colocando o revólver bem perto do rosto dela.
— Estou mandando. Tire o casaco!
Com o coração aos pulos, ela percebeu que uma terrível suspeita a invadia. Não.
Letizia não poderia ter chegado a tal extremo. O homem a olhava com expressão de
cobra. Mesmo no escuro ela podia ver o brilho maligno nos olhos que a fitavam,
perversamente.
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— Novas ordens, dona. Mais dinheiro. — Ela não respondeu, fechando mais o
casaco, como se aquilo a pudesse proteger. — Não vai me obedecer? — ele berrou. —
Tire o agasalho! — Não havia outro jeito. Deixou o casaco cair na areia. — Agora ande
para dentro da água.
Em desespero, tentando ganhar tempo, ela continuou parada, olhando-o.
— Berto não foi muito esperto — argumentou. — O corpo será encontrado com
facilidade.
— Ele foi sabido, sim — Vinnie protestou. — Sabe o que vão pensar? Que com o
sequestro da criança e o abandono do namorado, você não pôde mais suportar a vida
e... — Ele rematou a frase com uma risada grosseira, balançando aquele horrível
revólver bem perto do rosto dela, que desviou o olhar, encarando a escuridão da água
gelada que se estendia diante deles.
Vinnie espalmou a mão gorda e empurrou-a. A água entrou nos sapatos,
deixando-a arrepiada.
— Vá em frente ou eu atiro. Não vai fazer diferença. O que interessa é que
alguém está tão louco para livrar-se de você, que vai forrar meus bolsos de dinheiro.

Andrew estava desnorteado, sem saber o que fazer. Havia voltado da rua, cheio
de pacotes e, ao entrar no hotel, vira Julie saindo do elevador com os dois bandidos.
Ela parecera extremamente pálida e abalada, olhando com ansiedade para Tony, todo
embrulhado, nos braços de Berto. Vencera o choque e escondera-se atrás de alguns
vasos imensos que enfeitavam a entrada. Deixara cair os pacotes e, cautelosamente,
começara a seguir a estranha comitiva. Como aqueles palhaços haviam conseguido
descobri-los, era um mistério. Acompanhara-os para fora do hotel e pela calçada
escura que margeava a praia, mantendo boa distância para evitar ser visto.
A mente, num verdadeiro turbilhão, procurara formular um plano. Seria
impossível procurar ajuda sem perdê-los de vista, portanto optara por fazer o que
pudesse, sozinho. Tentara adivinhar as intenções dos dois malfeitores, sem atinar com
uma resposta. Teria sido muito mais simples deixar Julie amarrada e amordaçada no
apartamento do hotel, mas haviam decidido levá-la com eles. Por quê? Talvez
houvessem achado que ela conseguiria mais uma vez frustrar-lhes o plano, se ficasse
sozinha, escolhendo mantê-la sob observação até o último minuto.
Em um certo momento, Berto e Vinnie haviam parado de andar, dando a
impressão de estarem confabulando. A discussão terminara e ele vira Julie e o
baixinho descerem os degraus que levavam à areia. O que estaria acontecendo, afinal
de contas? A cena ficara mais incompreensível quando Berto atravessara a rua,
levando Tony para outra direção, talvez a caminho do aeroporto. Sentindo-se numa
encruzilhada, parara para pensar no que seria mais conveniente: seguir Julie ou ir
atrás de Berto. Pensara que uma mãe, em seu lugar, tentaria tirar o bebê do
sequestrador e aquilo o decidira, fazendo-o acompanhar o homem que levava Tony.
A certa altura, Berto entrara num cassino, talvez com a intenção de chamar um
táxi, usando um dos telefones públicos. O primeiro impulso de Andrew fora entrar
atrás e, quando estivera para empurrar a porta de vidro, um pensamento ditado pela
intuição o fizera parar. Voltara-se, olhando para o lugar onde vira Julie descendo para
a areia da praia, com Vinnie. Voltara atrás, tomado de um negro pressentimento,
imaginando o que estaria acontecendo. Alcançando a calçada da praia, tentou
distinguir vultos ou movimento na faixa de areia, mas a escuridão era completa. O
edifício! Sim, Vinnie poderia ter conduzido Julie lá para trás, onde estariam
escondidos. Descera os degraus correndo e rodeara o prédio.
Nenhum ruído, além do sopro do vento e do marulho das ondas. Andando mais
um pouco, alcançara o último ângulo do edifício e então os vira. Duas sombras
escuras e um vulto estendido no chão. O coração disparara e ele correra para a cena.
Felizmente, o volume que vira no chão era apenas o casaco. Julie estava na água,
com as ondas batendo-lhe na altura da cintura. Ela lutava por manter o equilíbrio,
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atingida pelo vento forte e pela água gelada. Olhava para a imensidão do mar à sua
frente, totalmente inconsciente de sua presença. Rapidamente, aproximou-se.
Contava com o fator surpresa, pois Vinnie obviamente não esperava nenhuma
interferência, além do quê, as trevas o protegiam e o barulho do vento e do mar
abafavam o som dos passos. Implorando mentalmente para que Julie aguentasse
mais alguns minutos, lançou-se às pernas de Vinnie jogando-o na areia.
A arma voou para longe, tornando a luta menos perigosa para Andrew, que
contava apenas com as próprias mãos. Durante vários minutos, rolaram no chão,
golpeando-se, cada um procurando pontos vulneráveis no corpo do adversário, até
que o bandido conseguiu encontrar o pescoço de Andrew, começando a apertá-lo. Na
luta, haviam se aproximado do revólver caído; então, sabendo que não havia outra
alternativa, Andrew esticou o braço, tentando alcançá-lo, já com dificuldade para
respirar, sob o aperto de ferro do outro. As unhas se enterravam na areia, no esforço
desesperado para alcançar a arma. Não ia conseguir, já tonto pela falta de ar, com a
garganta em fogo. Impulsionado pelo instinto de conservação e pela visão que tivera
da mulher amada lutando contra as ondas implacáveis, contorceu o corpo num último
esforço e, quando pensou que tudo estava perdido, sentindo a vista anuviar-se,
percebeu que os dedos alcançavam o revólver. Agarrou-o e golpeou o rosto de Vinnie
com a coronha, com toda a força que lhe restava. O aperto em seu pescoço cessou e
o bandido caiu para o lado, gemendo e com as mãos no rosto.
Andrew ergueu-se com dificuldade, procurando respirar fundo, ao mesmo tempo
em que segurava a arma com firmeza, apontando-a para o homem no chão.
— Levante-se — disse com voz rouca, sentindo a garganta doer.
Vinnie obedeceu, com os olhos grudados na arma.
— Vá buscá-la — Andrew continuou.
Sem perceber o que se passava atrás dela, na praia, Julie havia sucumbido à
força das ondas, sendo rolada de um lado para outro. Não reagiu quando Vinnie
agarrou-a, forçando-a a ficar em pé, começando a arrastá-la para fora. Alcançando o
lugar mais raso, onde as ondas refluíam, o homem deixou-se cair, com os dentes
batendo de frio. Andrew correu para eles, percebendo que Julie estava quieta demais,
talvez desmaiada, ou, nem era bom pensar, morta. Teve o desejo de lançar-se sobre
ela para aquecê-la, verificar se respirava, mas precisava manter a calma se quisesse
conservar Vinnie sob a mira do revólver, evitando que ele readquirisse o domínio da
situação.
— Carregue-a até a calçada.
— Não vou aguentar.
— Azar seu, porque se não conseguir levá-la, vou ter de matá-lo — Andrew
ameaçou. Aquelas palavras bastaram para que o patife reencontrasse forças. Ergueu
Julie nos braços, jogando-a sobre um dos ombros e segurando-a pelas pernas.
Arrastou-se, então, até alcançarem o edifício que rodearam, subindo, a seguir, os
degraus que levavam à calçada, sempre com Andrew apontando-lhe a arma. — Deite-
a naquele banco.
Andrew deixou o casaco de pele, que apanhara no caminho de volta, cair,
mandando que Vinnie o apanhasse e cobrisse Julie. Estava demasiadamente nervoso,
vigilante para que o homem não o apanhasse desprevenido, tirando-lhe a arma,
ansioso pelo estado físico de Julie, e pensando se teria coragem de puxar o gatilho se
fosse necessário, sendo, como era, contra a violência.
— Dê-me as algemas — ele ordenou, assim que viu a forma imóvel sobre o
banco agasalhada.
Naquele instante, ela começou a tossir, meio sufocada. Sabia que se fizesse um
movimento para ajudá-la, o verme aproveitaria a oportunidade para atacá-lo.
— As algemas! — gritou, fazendo um gesto ameaçador com o revólver. —
Trêmulo, Vinnie tirou-as do bolso. — Coloque uma em seu pulso.
Relutantemente, o criminoso prendeu a argola de metal no pulso esquerdo.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Andrew pensou um pouco sobre como deveria proceder a seguir. A poucos passos
dali, começava uma grade de proteção que corria ao longo da calçada, separando-a
da faixa de areia, o que lhe deu uma idéia.
— Jogue as chaves no chão. — Vinnie obedeceu, resmungando, percebendo que
suas chances de escapar diminuíam a cada minuto. — Agora, prenda o outro lado das
algemas naquela grade de proteção.
Com um olhar onde se lia a frustração da derrota, Vinnie prendeu-se à grade.
Andrew jamais poderia descrever o alívio que o inundou. Estavam livres do patife.
Jogou a arma no chão e correu para Julie, tomando-a nos braços, sentindo-a
mortalmente fria e quase inconsciente. A respiração parecia regular, embora ela
tossisse um pouco, talvez por causa da água salgada que devia ter lhe irritado a
garganta, embora, felizmente, não houvesse invadido os pulmões. Erguendo-a nos
braços, mantendo-a coberta com o casaco, ele correu para o calor e a segurança do
cassino mais próximo. Quando empurrava a porta de vidro para entrar no vestíbulo
brilhantemente iluminado, ela recobrou a consciência completamente.
— Ponha-me no chão — ela pediu.
Olhando em volta, ele descobriu um sofá, para onde se dirigiu. Ao vê-la ficar
sentada, com o corpo ereto, ele relaxou um pouco. Ela estava bem, apesar de pálida,
desgrenhada e de olhos vermelhos e lacrimejantes.
— Pode ficar sozinha um instante? Tenho de chamar a polícia.
— Não! — Ela continuou a falar, mas a voz estava fraca demais. Ele teve de
curvar-se sobre ela para entender as palavras. — Não chame a polícia.
— Por que não, Julie?
— Eles fariam mil perguntas, talvez nos segurassem até de manhã, e não há
tempo a perder. Temos que chegar ao aeroporto antes que levem Tony.
— Vou arrumar um pouco de café quente, então, e uma toalha.
— Não! — Ela ergueu-se do sofá. — Não podemos esperar mais.
Abraçando-a para ajudá-la a caminhar, Andrew imaginou se adiantaria irem até
o aeroporto. Talvez o avião já tivesse partido e, de qualquer forma, Berto não se
deixaria vencer facilmente. Deixaram o cassino, atraindo olhares curiosos e fizeram
sinais para vários táxis, até que um deles parou. O motorista olhou para Julie,
espantado.
— Não está um pouco frio para nadar, moça?
Ignoraram-no, e Andrew mandou-o ir a toda pressa para o aeroporto, pedindo-
lhe que ligasse o aquecimento do carro, no máximo.
Julie nunca sentira tanto frio na vida. Não conseguia parar de tremer
violentamente, tendo a impressão que havia gelo dentro dela. Não pensou, nem por
um instante, que poderia ficar seriamente doente, preocupada apenas em alcançar o
raptor do filho. Queria Tony de volta desesperadamente, achando que não valeria a
pena viver, se o perdesse.
— Não vou me aquecer, com estas roupas molhadas. Preciso tirá-las. Quer me
ajudar? — Ele fez um gesto afirmativo, mas olhou-a com ar intrigado. — Segure o
casaco na minha frente, como uma cortina — ela explicou.
Dentro de poucos instantes ela estava livre das roupas ensopadas. Com muito
jeito, para não expor o corpo ao motorista, que olhava curioso pelo espelho retrovisor,
ela vestiu o casaco sobre a pele nua e abotoou-o até o pescoço. Sentiu-se bem me-
lhor, percebendo que aos poucos se aquecia.
Chegaram ao aeroporto, enfim, para terem uma grande decepção. Tony se fora.
Ela ficou longo tempo olhando para o céu escuro, com lágrimas escorrendo pelo rosto,
esperando que o filho fizesse uma viagem segura e que a enfermeira o tratasse com
carinho. Consolou-se, dizendo a si mesma que Christina estaria à espera do sobrinho,
pronta para apertá-lo nos braços e dar-lhe amor. Puxando-a para si, Andrew
enxugou-lhe as lágrimas com as palmas das mãos, ternamente.
— Calma, querida. Vamos pensar nos problemas imediatos. Para sua segurança,
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

e minha também, acho melhor alugarmos um carro. Quanto menos aparecermos em


público, melhor será.
— Não vamos comunicar o rapto às autoridades?
— Não acredito que conseguiríamos ajuda de uma autoridade disposta a
enfrentar uma família influente e perigosa de outro país. Não vai adiantar procurar
ajuda legal, compreende o que quero dizer?
Julie concordou, para evitar maiores explicações que não estava conseguindo
entender. Repentinamente, sentia-se febril e tonta, como se fosse desmaiar. Ele a
olhou atentamente.
— Você está precisando de uma cama. Vou alugar um carro, então poderá
dormir no caminho.
— No caminho para onde?
— Nova York. Não há lugar melhor para passarmos despercebidos. Lá teremos
sossego para estudar o que fazer.
O que ele dizia fazia sentido. Precisavam, a todo custo, manter-se em segurança,
para que pudessem lutar por Tony.
— Por favor, não faça mais chamadas telefônicas. — Sem saber onde ela queria
chegar, Andrew olhou-a, espantado. — O telefonema que deu ao seu primo nos
entregou.
— Miguel não seria capaz...
— Acho que não, mas o telefonema foi interceptado.
— Como soube disso?
— Vinnie fala demais. Perguntei-lhe se fora você quem telefonara avisando onde
estávamos e ele contou a história toda, gabando-se de terem feito um trabalho de
primeira classe.
— Então você achou que eu seria capaz de traí-la dessa forma?
— Sim — ela respondeu com tristeza. — Embora não quisesse acreditar em tal
coisa, não pude evitar de pensar.
Andrew ficou de cabeça baixa, por um momento.
— Não adianta, não é? — ele perguntou em tom desanimado. — Nunca
conseguiremos confiar um no outro.
Percebendo o sofrimento que lhe causara, ela não achou palavras para amenizá-
lo. Havia sido sincera, confessando que duvidara dele, mesmo não querendo. Não
podia negar a verdade só porque o feria.
— Vamos procurar um lugar para descansar — ela disse, finalmente. — Não
poderemos ajudar Tony se cairmos de cansaço. — Andrew nada comentou, parecendo
fatigado e infeliz. — Há quanto tempo não dorme? — Julie perguntou, com gentileza.
Ele deu de ombros, como se aquilo não tivesse importância. Mudou de assunto,
comentando como haviam tido sorte, afinal. Ele chegara ao hotel bem a tempo de vê-
la saindo com os dois bandidos, e nem queria pensar no que teria acontecido se, em
vez de segui-la e a Vinnie até a praia, tivesse ido atrás de Berto.
— Quero ver os Velasco pagarem bem caro por tudo isso — ele completou.
Na mente dela havia uma pergunta que não podia ficar sem resposta, mesmo
que para consegui-la tivesse que magoá-lo outra vez.
— Onde foi quando saiu do hotel?
Ele a olhou, brevemente.
— Achei que o bebê ia acordar com fome, e como não conseguia mesmo dormir,
saí e fui fazer compras. Alguém deve ter achado dois pacotes cheios de biscoitos,
papinhas e fraldas descartáveis no vestíbulo do hotel.
— Desculpe.
— Não faz mal. Estou começando a me acostumar com suas suspeitas, Julie. Em
silêncio, abandonaram o aeroporto, tomando um táxi para irem até uma agência de
aluguel de carros.
No caminho, Andrew mostrava-se preocupado, quase angustiado.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

— Você acha que Tony está assustado? — ele perguntou, por fim.
Mais uma vez, a preocupação e o carinho que ele demonstrava pela criança a
sensibilizaram.
— Tenho certeza de que está bem. Os Velasco nunca contratariam uma
enfermeira que não fosse perfeita. Sei que vai mantê-lo alegre e confortável. — Julie
lhe sorriu, querendo que partilhasse de sua confiança. — Não ouviu o que disseram no
aeroporto? — ela continuou. — Que haviam partido num jato particular? Neste exato
momento, Tony está desfrutando o conforto proporcionado pelo dinheiro, sem
nenhuma preocupação.
— Espero que sim — ele disse baixinho.
— Ele será bem tratado pela família. A atmosfera lá não é das melhores, mas
Tony é o herdeiro desejado, uma espécie de príncipe para Letizia.
— Você não os odeia?
— Não. Mesmo porque, posso apostar que tudo isso foi ideia apenas de Letizia.
Ela parece louca.
— E os outros não a impedem de fazer loucuras?
— Até agora, ninguém teve coragem de enfrentá-la.
— Acha então que ela quer o garoto a todo custo, apenas por ser o continuador
da linhagem?
— Tenho certeza. Se Tony fosse uma menina, ela não moveria uma palha para
encontrá-lo.
— Que absurdo! Como pode alguém chegar a extremos por causa dessa questão
de sangue, nome, linhagem?
— Essas são as únicas coisas que realmente importam à minha sogra.
Quando finalmente conseguiram alugar um grande sedã, Julie estava com muita
febre para preocupar-se com o fato de que Andrew teria de dirigir o tempo todo,
mesmo estando exausto. Ao chegarem à autopista, rumo ao norte, ela já dormia no
banco de trás, indo acordar apenas quando já se divisava o perfil de Nova York no
horizonte.

CAPÍTULO XII

— Acordou? — Andrew voltou-se para Julie, desviando por um instante a atenção


da estrada.
— Onde estamos? — Ela ergueu-se sobre um cotovelo no banco de trás do
automóvel alugado.
— Chegando.
Ela pulou para o banco da frente e encostou o rosto no vidro para observar o
movimento sempre crescente em direção à cidade, acabando por cochilar. Quando
abriu os olhos novamente, estavam chegando a um lugar que não identificou.
— Parece as redondezas de um aeroporto.
— Sim — ele confirmou. — La Guardia. Vamos deixar o carro no estacionamento,
para despistá-los, se por acaso descobrirem nosso rumo. Depois, como se
estivéssemos desembarcando, tomaremos um táxi para um hotel.
— Está ficando cheio de truques.
— É, depois que a conheci, minha vida tomou-se mais movimentada que um
filme de espionagem. — Andrew estacionou e, quando caminhavam para um dos ter-
minais, teve uma ideia. — Há um bom hotel aqui mesmo, perto do aeroporto. Acho
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

que não precisamos ir longe, não é?


— É claro que não. Quero que vá para a cama o mais rápido possível. Deve estar
morto de sono, não?
— Quase.

No hotel, Andrew tomou um longo banho relaxante e foi direto para a cama. Só
então Julie entrou na banheira cheia de reconfortante água quente, sentindo-se ainda
um pouco febril e com muitas dores no corpo. Porém, o que mais lhe doía era a
ausência do pequenino Tony. Para afugentar a lembrança das horas terríveis que
haviam ficado para trás, ocupou-se, massageando os braços e pernas doloridas com a
escova de banho, e lavando o cabelo. Nada tinha para vestir, a não ser o casaco de
marta, assim colocou-o ao sair do banheiro. Penteou-se com cuidado, prendendo os
cabelos molhados. Andrew dormia profundamente quando ela saiu do quarto. Ele fora
claro ao avisar que não a queria andando sozinha, mas como podia ficar sem roupas?
Se precisassem ir para a cidade do México, ela não teria nada para usar, além de
um par de sapatos arruinados pela água e um luxuoso casaco de pele. Não haveria
problema em sair para fazer algumas compras. Fora bastante esperta e previdente
quando resolvera guardar todo o dinheiro que possuía num bolso interno do casaco.
Assim, ao ser levada para fora do apartamento daquele hotel em Atlantic City, não o
perdera. Entrou num táxi, pedindo ao motorista que a levasse ao shopping mais
próximo. Demorou-se, escolhendo roupas e sapatos, artigos de toalete, algumas
peças íntimas. Comprou jeans e camisas para Andrew, baseada apenas na
observação, pois não tinha a mínima idéia do número que ele usava.
O movimento fez com que ela se sentisse mais animada. Ficar parada lhe dava
uma sensação de inutilidade que a desesperava, como se estivesse perdendo tempo e
deixando que o filho se distanciasse cada vez mais. Novamente, chamou um táxi e
voltou ao hotel. No tempo que passara longe de Andrew, fazendo as compras, uma
idéia começara a germinar. Uma idéia que crescera, indicando-lhe o caminho a seguir.
Sabia o que precisava fazer, embora não estivesse segura de que poderia fazê-lo sem
ajuda. Talvez Andrew não a quisesse seguir no plano que traçara, mas não poderia
culpá-lo. Cair fora daquela confusão era a coisa mais inteligente a fazer, e ele tinha
uma mente privilegiada.

Andrew debatia-se, procurando sair do pesadelo. Julie estava sendo ferida, Tony
chorava e Vinnie ria às gargalhadas. Nada podia fazer. Estava amarrado e
amordaçado. Acordou, por fim, olhando o quarto na penumbra, quase entrando em
pânico ao descobrir que Julie não estava ali. Correu para o banheiro, encontrando-o
vazio. Uma corrente gelada de medo o percorreu. Saíra sozinha, mesmo tendo
prometido que não o faria. Puxou as cortinas e olhou para fora, esperando vê-la, mas
apenas carros e muita gente desconhecida enchiam a rua. Pegou o telefone e discou
para a linha aérea que servia a Cidade do México. Uma mulher de voz agradável
informou que não houvera voos para lá nas últimas seis horas, mas que haveria um
avião dentro de quatro. Ficou mais tranquilo. Ela não poderia ter ido para o México
sem ele. Voltou para a cama, encostando os travesseiros na cabeceira e apoiando-se
neles. Precisava encontrá-la. Não era porque o relacionamento entre eles parecia não
funcionar que ele deixaria de cuidar dela ou de preocupar-se com Tony. Ele a amava e
ao menino também. O pensamento de que talvez nunca mais o visse o torturava e era
doloroso imaginar que talvez o bebê estivesse sentindo falta da mãe.

Julie surpreendeu-se por vê-lo sentado na cama, quando voltou da rua.


— Já está acordado? Pensei que fosse dormir mais.
Ela jogou os pacotes sobre as cobertas e ele riu, de puro alívio, por ver que tudo
estava bem.
— Foi isso que andou fazendo? Compras?
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Ela mostrou-lhe uma escova de dentes e um par de meias.


— Não me diga que não fica feliz em ganhar isto.
— Acho que nós dois temos o impulso de comprar quando não podemos dormir
— ele disse, rindo, entre sarcástico e gentil.
— E acho que nós dois temos o impulso de acreditar o pior do outro quando não
entendemos alguma coisa.
Julie podia, só pela expressão do rosto dele, dizer que Andrew suspeitara de que
fora abandonado enquanto dormia. Era triste mas, aparentemente, um nunca poderia
ter certeza do outro, sem medo nem desconfiança. Dando a impressão de querer fugir
ao assunto, ele mostrou-se repentinamente interessado nos objetos que ela
comprara.
— Não acredito! Você acertou meu número!
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Por que o espanto? Conheço seu corpo muito bem, não se esqueça.
Antes de acabar de falar, ela percebeu que dissera a coisa errada. Fora íntima
demais, num momento em que estavam à beira de outra troca de acusações. Um
silêncio difícil de preencher caiu entre eles. Ela foi até o telefone e falou com a
companhia mexicana, pretendendo reservar duas passagens. Ele a interrompeu,
explicando que já reservara uma, portanto bastava pedir outra. Ao desligar, olhou-o
de modo estranho, compreendendo o motivo pelo qual ele já havia feito uma reserva.
Estava confirmado que Andrew pensara que ela seria capaz de ir para o México sem
avisá-lo.
Até quando haveria entre eles aquela rede de suspeitas?
Vestiu-se com algumas das roupas novas. A calça comprida azul-clara, de corte
esportivo, ficou perfeita, mas teve que dobrar as mangas da blusa de algodão
estampado.
— Sente-se aqui — pediu Andrew, batendo com a mão na borda da cama.
Julie obedeceu, vendo-o pegar uma folha de papel e uma caneta da gaveta da
mesinha de cabeceira. A aparência dele estava bem melhor depois de algumas horas
de sono, mas ainda havia círculos escuros ao redor dos olhos e uma quase palpável
expressão de tristeza no rosto. Mais uma vez, ela encantou-se com a expressividade
daquela fisionomia que não era apenas bela na superfície, mas deixava adivinhar
profundidade de sentimentos e bondade. Quase estendeu a mão para afagar-lhe o
rosto, mas conteve o impulso, pensando na distância que havia entre eles, e que nem
os momentos apaixonados, em Atlantic City, tinham conseguido cobrir. Estava
aprendendo que amor e confiança não se fortaleciam apenas pelo desejo e paixão.
Não podia perder-se na beleza dos olhos verdes nem entregar-se à necessidade
de sentir o calor que vinha dele. Tinha de respeitar a ponte temporária, construída de
solidariedade, que fora lançada entre os dois.
— Muito bem, chefe — ela brincou. — Quais são as ordens?
— Temos de fazer um levantamento da situação.
Andrew sentia a garganta apertada, e tinha dificuldade em manter os olhos
afastados daquele rosto bonito, tão próximo. O cabelo acobreado, mais brilhante que
nunca, caía suavemente nos ombros, emoldurando as faces de pele perfeita e olhos
cinzentos com matizes de azul profundo. Era uma pena que não pudessem entregar-
se à confiança recíproca. Amava aquela mulher, e o amor era um sentimento real e
cheio de significado, uma das raras alegrias da vida, porém extremamente delicado.
Deslealdade, falta de fé e desconfiança podiam matar o amor, fazendo surgir a
indiferença, ou pior, o ódio. Afinal, não estavam destinados um ao outro, como
pensara. E o que aquilo importava no momento? Por que se perdia em reflexões que
fugiam à real finalidade de estarem ali? Tinham de estudar um modo de conseguirem
Tony de volta, isso sim era realmente importante.
— Vamos analisar a situação — ele começou, com tom profissional. — Sabemos
que não há possibilidade de lidarmos com o problema de forma inteiramente legal.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Isso não nos levaria a nada. Vamos precisar usar uma dose de loucura.
Julie concordou, balançando a cabeça.
— Vou buscar meu filho, vou roubá-lo novamente dos Velasco, mas tenho de agir
depressa, antes que eles fiquem de sobreaviso e desenvolvam esquemas complicados
de segurança.
— Se houvesse alguém a quem pudéssemos pedir ajuda, na Cidade do México...
— Existe alguém. Minha cunhada Christina.
As sobrancelhas de Andrew ergueram-se de modo admirado.
— Não é a esposa do tal de Arista?
— Sim, mas o casamento deles é de pura aparência. Sei que ela não o está
apoiando em tudo isso.
— Não sei, não. E se nos traísse?
— Não o fará. Se concordar em nos ajudar dará tudo de si, mas, mesmo que não
concorde, não nos entregará.
— Bem, digamos que seja assim, que ela nos ajude e que consigamos recuperar
o menino. Até quando, porém, isso vai continuar? Eles a perseguirão. Você não pode
passar o resto da vida se escondendo e Tony não pode crescer entre medo e
insegurança.
— Já pensei nisso.
— O que precisamos fazer é acabar com essa pretensão maluca deles de ficar
com a criança, de uma vez por todas.
— Sim, mas o que podemos fazer? Com que lutaremos contra eles? — Julie
suspirou, desanimada.
— Com fatos.
— Fatos? — Ela o olhou, sem perceber o sentido exato da afirmação.
— Sim. Descobri, em minha investigação, que há algo obscuro e malcheiroso
naquela família. E aposto o que quiser que Arista tem algo a ver com a história.
Julie balançou a cabeça, discordando.
— Juan Arista é burro demais para estar atrás de qualquer coisa. Letizia é o
cérebro, naquele balaio de gatos.
— Não é necessário ser inteligente para ser canalha. Muitas pessoas agem
criminosamente por puro instinto.
— O que vamos fazer? — ela perguntou. — Faltam apenas três horas para o
avião partir.
— Deixe-me pensar um pouco.
— Você não conhece aquela gente. Temos de arquitetar um plano muito bom
para vencê-los.
Andrew não respondeu, já imerso em pensamentos. Perdera o caderno de
anotações durante o período tumultuado de fuga, dos últimos dias, mas havia
memorizado muita coisa. O que lhe fazia falta, todavia, era o relatório sobre Arista
que pedira, por intermédio do Departamento Estadual de Direito. Haviam lhe
prometido que enviariam as informações ao seu escritório na sexta-feira, mas ele
passara aquele dia em correrias de metrô e na viagem para Atlantic City. Já era
domingo e, com toda a certeza, o relatório estaria a sua espera sobre a escrivaninha
do escritório. Não havia a menor dúvida, porém, de que seu local de trabalho estava
sendo vigiado. Como poria as mãos naquelas informações?
Julie ficou calada, permitindo que ele pensasse sobre o assunto. Sabia que tinha
razão ao dizer que o futuro seria difícil se não se livrasse da família do falecido
marido, mas pensaria nisso depois. No momento, a única preocupação que lhe enchia
a mente era trazer Tony de volta. Aquele era mesmo um homem maravilhoso. Ela
nem precisara convidá-lo a participar do plano audacioso que traçara enquanto fazia
as compras, pois ele se antecipara, incluindo-se no projeto de lutar contra os Velasco.
De repente, Andrew sorriu, animado.
— Você sabe limpar chão? — Ela o olhou, atônita. — Eu explico. No meu
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escritório há um relatório, pelo menos deve haver, sobre Juan Arista. Minha intuição
me diz que pode ser muito importante para nós. — Ainda sem entender muito bem o
que ele estava planejando, Julie concordou, em silêncio. — O escritório deve estar
sendo mantido sob vigilância, mas acho que uma faxineira não levantaria suspeitas,
não é?
Ela sorriu e pulou da cama, compreendendo afinal o que ele esperava que ela
fizesse. Dentro de poucos minutos, saíam do hotel. Enquanto rodavam pela cidade,
Julie perguntava-se por que não estava assustada. Aqueles homens contratados pelos
Velasco tinham ordens de acabar com ela, mas o pensamento não a amedrontava.
Havia superado qualquer sentimento de fraqueza e adquirido uma coragem imbatível
que a incitava à luta pela recuperação do seu bebê. Haviam alugado outro carro e
passado por uma loja de artigos variados, no bairro judeu, que abria o comércio aos
domingos, e comprado um balde, um esfregão, um avental e lenço de cabeça. Lá
estava ela, vestida de faxineira, esperando que o disfarce fosse bom o bastante para
que não a reconhecessem.
Andrew estacionou o carro a vários quarteirões de distância do escritório.
— Tchau, então — ela disse, descendo do carro. — Deseje-me boa sorte.
— Espere um pouco. — Já na calçada, ela abaixou-se um pouco para poder vê-
lo, na direção. Os olhos verdes estavam cheios de apreensão. — Julie, acho que não é
uma boa idéia, afinal.
Não obteve resposta, pois ela já caminhava rapidamente, afastando-se dele.

Em seu caminho para o escritório, Julie ia esfregando a mão livre pelas paredes e
muros sujos. Quando conseguiu que ficasse negra de fuligem, passou-a pelas faces e
pela testa. Da mesma maneira, sujou o avental e o lenço que trazia amarrado na
cabeça, disfarçando a aparência de coisa nova das peças. Sentia-se confiante quando
pôs a chave na fechadura da porta externa e entrou no edifício. Os corredores
estavam vazios, produzindo ecos estranhos. Tomou o elevador e finalmente estava
procurando a chave do escritório, parada no corredor escuro e solitário. Subitamente,
a pesada porta de madeira abriu-se, sobressaltando-a, e ela viu-se frente a frente
com um negro imenso que lhe sorria. Dominou as batidas descompassadas do
coração, tentando sorrir também.
— Quem é essa coisinha bonita? — o homem perguntou.
— Faxineira — ela disse, dando um tom grosseiro à voz. — Quer sair da frente?
O homem fez uma careta, aparentando achá-la uma chata mas saiu do caminho,
deixando-a entrar.
— Algum conhecido? — Uma voz perguntou, vindo dos fundos do escritório.
— Não, Vinnie — o preto respondeu. — É só uma faxineira.
Ao ouvir o nome do homem que estivera prestes a matá-la, Julie sentiu as
pernas amolecerem.
— Mande-a andar logo com isso — veio a voz odiosa.
— Bem, ouviu o que ele disse — o homem que a encontrara na porta falou, de
cara feia.
Julie foi direto para a sala de Andrew, andando com naturalidade. Vinnie estava
assistindo televisão na salinha de descanso. Teria de passar perto dele. Baixou a
cabeça e apressou o passo, continuando a seguir pelo corredor que levava à sala. Não
houve reação por parte do bandido. Ele não a vira. O grandalhão a seguiu, postando-
se na porta, olhando-a como se suspeitasse de suas reais intenções. Ela começou a
esfregar o chão, depois de pegar água no banheiro privativo de Andrew, como se
houvesse feito aquilo a vida toda. Finalmente, o homem cansou-se de observá-la
naquele trabalho monótono, e afastou-se. Rapidamente, ela apanhou o envelope
amarelo de sobre a escrivaninha e meteu-o na cintura, entre o cós da calça e a pele,
arrumando o avental por cima. Pegou o balde e voltou para a sala da frente.
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— Não me diga que já acabou — disse o preto.


— Vou pegar um pano de chão, lá embaixo.
Ouviu então os passos de Vinnie se aproximando. Não houve tempo para evitar
que ele lhe visse o rosto. Deixou cair o balde e correu como louca para o corredor. Por
alguns segundos, a surpresa inibiu as reações de Vinnie, mas logo ela pôde ouvir os
dois homens saindo da sala em disparada. Naturalmente, estando o prédio vazio, o
elevador continuava naquele andar. Ela entrou e apertou o botão do térreo, sentindo-
se desesperar com a lentidão com que as portas se fecharam, dando-lhe tempo de ver
o rosto congestionado de Vinnie que vinha voando pelo corredor, com o outro nos
calcanhares. Chegando ao térreo, lançou-se através do vestíbulo, sem duvidar de que
os dois logo estariam atrás dela. Fora prudente ao chegar, deixando a porta principal
destrancada. Chegando à calçada pôs-se a correr desabaladamente, atravessando as
ruas sem olhar, virando esquinas, pouco se importando com o espanto que causava
nos raros transeuntes, até que chegou ao carro. Ao vê-la, Andrew abriu a porta e ela
jogou-se no assento, quase sem fôlego.
— Vamos embora! — gritou, arquejante.
Quando o carro já se distanciara bastante, rumo ao hotel, ela começou a rir,
nervosamente, contando os detalhes da aventura. Bem mais tarde, ao embarcarem
no avião, ela ainda ria cada vez que se lembrava que derrotara o estúpido Vinnie.

Andrew demorou-se a olhá-la, enquanto ela dormia, com o encosto da poltrona


inclinado e a cabeça apoiada na janela. Era difícil acreditar no que ela lhe contara
sobre Vinnie e o preto e crer que fosse tão corajosa.
Abriu o envelope e, mais uma vez, retirou o conteúdo. As informações sobre
Juan Arista enchiam páginas e mais páginas e não formavam um dossiê de que
alguém pudesse orgulhar-se. Contavam como o mexicano estivera envolvido com
sujeitos da pior espécie nos Estados Unidos e eram uma rica fonte de esclarecimento
sobre a atividade dele nos dois países e, até mesmo, nos assuntos concernentes à
família Velasco. O que estava escrito ali seria o suficiente para mandar o homem para
a forca.
Andrew e Julie já haviam estudado a estratégia que usariam. Chamariam
Christina pelo seu telefone particular logo que chegassem à Cidade do México e
descobririam onde Tony estava. Então, se ela concordasse em ajudá-los, juntos
formulariam um plano para pegar o bebê. Se não concordasse, agiriam sozinhos. Logo
que houvessem recuperado a criança, pediriam que os Obregon os hospedassem.
Depois que soubessem da história toda, os tios não se recusariam a ajudá-los.
Isso feito, prosseguiriam com o plano de ataque. Venceriam aquele bando de
loucos com a evidência dos fatos. O dossiê de Juan Arista seria o peso com que
desequilibrariam a balança a seu favor, fazendo com que deixassem Julie em paz e
nunca mais a ameaçassem. Tornou a guardar os documentos no envelope e relaxou
na poltrona, com um suspiro satisfeito. Tudo ia dar certo.

CAPÍTULO XIII

— Christina?
— Sí?
— Aqui é Julie. Estou na Cidade do México. — Fez uma pausa para controlar a
respiração, acelerada pelo nervosismo. — Tony está aí?
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— Sim, Julie. Mas o que está acontecendo? Não entendo. Disseram-me que você
o havia mandado para cá.
— Esqueça o que disseram, Christina. É pura mentira. Eles me seguiram e
sequestraram o bebê. — Julie não pôde abafar um soluço. O autocontrole havia se
rompido ao ouvir a voz da cunhada dizendo que de fato seu filhinho estava lá. — Até
tentaram me matar — ela continuou.
Christina gemeu. Era quase possível vê-la, apertando o aparelho nas mãos, com
os olhos escuros cheios de horror.
— Oh, Julie, que coisa terrível!
— Eu vim buscar meu filho. Você acha que me será possível entrar na casa às
escondidas?
— Colocaram homens em toda parte, vigiando. Vai ser muito perigoso tentar,
Julie. Não faça isso.
— Tenho de tentar. Por favor, Christina, diga-me pelo menos onde colocaram os
guardas. Entenderei se não me puder ajudar, acredite. Mas diga-me como dividiram
os homens.
Houve um momento de silêncio.
— Não a deixarei sozinha — disse Christina, com voz determinada. — Deixe-me
pensar.
Na pausa que se seguiu, Julie olhou para Andrew, que esperava, ansioso, pelo
resultado do telefonema. Ergueu o polegar num gesto de positivo e ele sorriu,
aliviado.
— Os homens — Christina começou, de modo hesitante — estão espalhados por
todo o terreno ao redor da casa, mas não puseram nenhum dentro. Assim, o maior
problema será entrar sem ser vista.
— Conseguirei.
— Oh, Julie, tome cuidado.
— Não estarei sozinha — ela explicou, olhando para Andrew. — Há um homem
comigo, e de quem você gostará muito. É sobrinho de Ignácio Obregon e mora em
Nova York.
— Isso é bom. Dois talvez consigam executar o plano.
— Está me dizendo que imaginou alguma coisa?
— Sim. — Instintivamente, Christina havia baixado o tom de voz. — Preste
atenção — ela continuou. — Ainda continuamos a receber mercadorias em casa, como
sempre. Vocês têm de arranjar um pequeno caminhão, como é mesmo o nome? Ah,
sim, um furgão. Consigam um furgão e roupas adequadas. O melhor seria você vestir-
se de homem. Farão isso?
— Claro que sim. Será simples, comparado com o que já fizemos.
— O quê?
— Nada, não. Só estava pensando que nada mais parece impossível.
— Bem, então, vou avisar os empregados de que estou esperando uma
encomenda para Juan. Não precisam temê-lo. Ele tem ficado fechado naquele
escritório o dia inteiro.
— Quando chegarmos ao portão, Andrew explicará que temos uma encomenda
para Juan Arista. Ninguém desconfiará. O espanhol dele é perfeito.
— Ótimo. Digam que é coisa de valor e que há necessidade de que alguém
assine o recibo. Aí poderão entrar e eu os estarei esperando.
— Logo nos veremos — Julie prometeu. — E... muito obrigada, Christina.

Com dólares, tudo se conseguia na Cidade do México. Alugaram um pequeno


furgão e compraram dois sobretudos de brim azul, do tipo geralmente usado por
entregadores. Arranjaram algumas caixas vazias, que encheram de trapos, e selaram
com fita crepe. Para conseguir aparência masculina, Julie prendeu os cabelos no alto
da cabeça e colocou óculos escuros, de homem. Olhou-se criticamente no espelho
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

exterior do furgão e achou-se com cara de rapazinho. Com um pouco de sorte,


enganaria.
Menos de duas horas depois do telefonema, estavam rodando para a mansão dos
Velasco. Ao chegarem ao portão dos fundos, ela tocou a campainha e logo foram
atendidos por um guarda.
— Encomenda para o señor Juan Arista — disse Andrew, em espanhol, tirando
um papel do bolso, que teria de passar por uma fatura.
O guarda olhou-os de cima a baixo e finalmente fez sinal para que entrassem.
Subiram novamente no veículo e atravessaram o portão. Todo o terreno ao redor da
casa estava cheio de homens armados. Julie sentiu-se gelar ao ver o número
assustador de guardas, pensando na dificuldade que teriam para sair. Havia outro
homem na porta dos fundos da casa.
Desceram do furgão e Andrew acenou com a “fatura”.
— Entrega para o señor Juan Arista — repetiu.
— Pode deixar que eu levo — disse o homem.
— Oh, não. É coisa de muito valor. Meu patrão me despediria se algo
acontecesse, e preciso da assinatura do sr. Arista ou então, da esposa.
O guarda pareceu aborrecer-se, olhando bem para o rosto de Andrew.
— Pablo! — chamou. Outro guarda aproximou-se. — Vá ver se a senhora pode
atender. É uma encomenda.
— Qual senhora?
— A sra. Arista.
Julie deu um suspiro de alívio e voltou para a cabina do furgão, fingindo ler uma
revista em quadrinhos que encontrara no porta-luvas. Christina apareceu dentro de
poucos minutos e portou-se como uma atriz consumada.
Assinou o papel que Andrew lhe apresentara e sorriu para ele.
— Meu marido já estava impaciente à espera desta encomenda — falou, em
espanhol. — É frágil e insubstituível. Acho que seria melhor o senhor mesmo levá-la
ao escritório dele. Assim, se algum acidente acontecer, a companhia de entregas será
responsável.
O guarda, bajulador, concordou, balançando várias vezes a cabeça.
— Muito bem, então — Andrew respondeu. — Meu ajudante irá comigo.
Fez um gesto para Julie, que desceu e foi para a porta traseira do veículo, ao
encontro de Andrew, que já a esperava. Juntos, ergueram uma das caixas,
cuidadosamente, fingindo que estava pesada. Os olhos de Christina demonstravam
pavor ao encontrarem os de Julie, mas sua voz era calma.
— Por favor, cuidado. Venham, vou mostrar-lhes o caminho.
Entraram no corredor que levava às escadas de serviço, passando pela porta da
cozinha, onde os empregados conversavam e riam, gozando um momento de folga,
sem prestar-lhes nenhuma atenção. As pernas de Julie fraquejaram quando
alcançaram a base da escada, fazendo-a tropeçar. Estava tão perto de Tony! Tão
perto! Silenciosamente, seguiram Christina até sua suíte, onde largaram a caixa no
chão. Julie olhou para a cunhada, que tinha os olhos cheios de lágrimas. Abraçou-a.
— Oh, querida, não chore. Tudo vai dar certo.
Afastou-a, delicadamente, olhando a mulher, que envelhecera muito desde a
última vez em que se haviam visto. Os cabelos negros estavam estriados de branco e
havia linhas de sofrimento na testa e nos cantos da boca. Tomou a abraçá-la. Por um
momento, Christina permaneceu rígida, depois, hesitantemente, ergueu os braços,
passando-os ao redor da cunhada.
— Senti tanto a sua falta! — Julie disse, suavemente.
A outra abraçou-a com mais força, chorando alto. Era a primeira vez que Julie
via a cunhada expor os sentimentos, sempre presa às convenções ditadas pela
educação que Letizia dera aos filhos, modificando-lhes o caráter. Ao pensar na frieza
da sogra, nova força a envolveu. Tiraria seu bebê daquele ambiente. Não seria
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

destruído, como o pai fora.


— Onde está o bebê? — ela perguntou, separando-se de Christina.
A mulher enxugou os olhos e as faces com um lenço orlado de rendas,
endireitando o corpo, procurando recobrar a dignidade.
— No quarto dele. Venham.
— Como ele está?
— Eu não sei.
— Não sabe?
— Não. Minha mãe o está mantendo no quarto. Não quis que eu o visse,
alegando não ser recomendável que ele fique excitado, depois da longa viagem.
Julie trocou um olhar com Andrew. Ele tivera uma amostra do caráter prepotente
de Letizia. Já o conhecia bem o bastante para reconhecer-lhe no olhar uma raiva
imensa da mulher autoritária que levara Tony. Christina examinou o corredor e fez
sinal para que a seguissem. Rapidamente, cobriram a distância que os separava do
quarto do bebê.
— E se houver alguém com ele? — Julie perguntou.
— Não. Vi a babá na cozinha — a cunhada respondeu, num sussurro, pondo um
indicador sobre os lábios, pedindo silêncio.
Entraram devagar. As cortinas estavam cerradas, deixando o quarto em
penumbra. A princípio, Julie nada pôde ver, o que a deixou inquieta mas, assim que
os olhos se acostumaram com a escuridão, divisou o berço e um pequeno vulto
coberto com uma manta. Uma forte onda de emoção a sacudiu. Deu um passo para
aproximar-se, mas a cunhada a impediu, segurando-a por um braço.
— Temos que ter cuidado para não acordá-lo.
— Vou pegá-lo, Christina, para irmos embora.
— Espere. Como vão levá-lo?
— Teremos de descer com ele e atravessar a casa — explicou Andrew, num
murmúrio. — Depois... — Calou-se. Na verdade, ainda não haviam planejado aquela
parte, e tudo parecia quase impossível, depois de terem visto a legião de guardas ao
redor da mansão. — Posso criar alguma confusão lá na frente, de modo a atrair todos
os guardas — ele continuou, sem muita certeza. — Enquanto isso, Julie sai com o
furgão.
— Não vai dar certo. Nunca o deixarão sair, depois de um tumulto — Julie
comentou.
— Vamos fazer o seguinte. Eu dou um jeito de chamar a atenção dos homens —
Christina ofereceu. — Assim, vocês dois poderão sair juntos.
— A señora Letizia nunca a perdoará.
As feições da mulher endureceram-se.
— Que diferença faz, Julie? Minha vida não poderá ficar pior do que já é.
De repente, a porta abriu-se com violência e a luz do teto foi acesa. Julie atirou-
se para o lado do berço e arrancou a manta para pegar o filho. Mas não era Tony. Era
um boneco de plástico, de arregalados olhos pintados. Ela nem conseguiu gritar.
Jogou o boneco no berço e, em choque, olhou para a porta. Letizia estava parada,
olhando-os com horrível expressão de maldade, como um gato torturando ratos
encurralados.
— Ele não está aqui! — Fez uma pausa e deu um sorriso gelado para a nora. —
Há câmaras de televisão escondidas neste quarto, ligando-se a um monitor bem ao
lado da minha cama, mas mesmo assim achei mais seguro deixá-lo em outro lugar. —
A tirânica mulher virou-se ligeiramente para fechar a porta, depois olhou fixamente
para Christina. — Minha própria filha me traindo, não é?
— Não, mãe. — A voz era espantosamente suave. — Não a estou traindo. Muito
pelo contrário, eu a estou defendendo de si mesma. Não posso permitir que cometa
um erro tão grande.
— Erro! — Os olhos de Letizia ardiam como brasas. — Não pode ser errado tirar
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

meu neto dessa vagabunda imoral, dessa bruxa das sarjetas!


— Está enganada, mãe! Estão todos enganados. Julie nunca...
— Cale-se! O que você pensa não tem valor. Falhou como mulher, falhou como
uma Velasco, não vale nada.
— Ouça... — disse Andrew com voz dura. — Tenho algo a dizer.
Letizia voltou-se para ele, como se apenas naquele momento registrasse sua
presença.
— E quem é você? Algum criminoso contratado para raptar meu neto?
— Sou advogado e sobrinho de Ignácio Obregon.
Os olhos da mulher mostraram alguma surpresa, depois estreitaram-se ainda
mais.
— E daí? O que tem a ver com isso?
— Tenho investigado a situação e descobri fatos verdadeiramente interessantes.
Vamos começar por Juan Arista, seu querido genro. — Ele sorriu. Era sua vez de ser o
gato malvado. — Juan tem feito umas coisinhas erradas. Tantas, que o governo do
meu país o notou. Naturalmente, a família não sabe, mas ele foi pego desviando
dinheiro do fundo de auxílio para ocasiões de terremoto, há alguns anos. — O rosto da
velha senhora estava impassível. — É claro que ele não teve a audácia de pedir ajuda
ao sogro — Andrew continuou. — Sabia muito bem o que o senor Velasco faria se
descobrisse que ele estava trazendo desonra para a família. Desesperou-se e desviou
dinheiro dos negócios do sogro para cobrir o rombo. — Ele sorriu, mas o sorriso não
modificou a expressão dura que trazia no rosto. — Achou tão fácil desviar capital da
família, que continuou com seu sujo esquema, adulterando fatos e números para que
ninguém o pegasse. Quando o señor Velasco anunciou que promoveria o genro para
um posto de maior responsabilidade, dando a outra pessoa o trabalho de
contabilidade, Juan Arista entrou em pânico. Precisava de uma fortuna para encher os
buracos que fizera, antes que outro contador descobrisse os desfalques.
— O que isso tem a ver com o caso do meu neto? Por que devo ficar ouvindo
esse amontoado de besteiras?
— Mãe! — Christina gritou, com incredulidade. — Está ouvindo que Juan é um
ladrão! Isso não tem importância?
— Juan terá que dar contas, mas suas atividades não interessam, no momento.
— Espere — disse Andrew com voz forçadamente macia. — Ainda tem mais. Não
quer ouvir o resto? Está com medo? — Letizia envenenou-o com um olhar, mas
manteve a boca fechada, numa linha estreita. — Vou contar mais novidades. Tenho
certeza, senhora, de que ficará tão surpresa quanto eu fiquei, quando descobri. — Ele
fez uma pausa dramática, erguendo as sobrancelhas e encarando a mulher. — Juan
Arista entrou para o crime organizado, nos Estados Unidos, para conseguir dinheiro.
Os homens com quem se envolveu têm interesse no México e nada melhor que um
nome conceituado como o dos Velasco para encobrir seus negócios escusos.
— Juan nunca sujaria o nome da família! Nunca! — gritou Letizia.
— Não? Pois ele o fez. Sabe como convenceu os chefes da organização a
aceitarem-no? Disse que emprestaria o nome e a influência da família a eles, como
cobertura.
— Chega de mentiras. — Letizia deu um passo à frente, como se fosse
esbofeteá-lo. — Não quero ouvir mais nada. Não permitirei que o nome de Juan seja
difamado.
— Por que o defende, mãe? — Christina gritou.
A velha senhora voltou-se, rápida, para a filha.
— Porque apenas Juan me compreendeu e permaneceu ao meu lado. Porque
reconhece, tanto quanto eu, o dever sagrado de proteger o nome e a família dos
intrusos sem classe que nos ameaçam. — Parou por um instante, percorrendo Julie
com um olhar de asco. — Foi Juan — continuou — quem me alertou sobre essa... essa
mulher. Quem descobriu quem ela era. E agora, foi ele quem salvou meu neto da
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

influência dela. Eu só queria... — O porte majestoso de Letizia pareceu encolher um


pouco, enquanto um véu de tristeza lhe passava pelo rosto. — Só queria ter podido
salvar meu filho Paulo das garras dela também. Roubou-o de mim e transformou sua
vida num inferno. — Tornou a olhar para Andrew, recuperando a pose de rainha. —
Suas histórias não me interessam, doutor. Sei tudo o que preciso saber e sou
agradecida a Juan por ter me ajudado a tirar meu neto Antônio das mãos dela,
evitando assim que destrua outro Velasco com seu veneno. — O rosto orgulhoso
assumiu uma expressão de desdém. — E se seu corpo de homem não estivesse tão
cheio de luxúria por causa dela, veria a verdade também.
Andrew sacudiu a cabeça, quase com tristeza.
— Recusa-se a encarar os fatos, não é? Porém, está certa num ponto. A família
está mesmo ameaçada. Mas não por Julie. Sabe o que Juan fez, exatamente, para ser
aceito no mundo do crime? — Letizia deu um passo atrás, como possuída de um medo
físico. — Garantiu-lhes que conseguiria a custódia da criança. Que teria controle total
sobre o herdeiro do império dos Velasco, o que acabaria por lhe dar poder ilimitado.
Tony foi seu bilhete de entrada para o clube dos criminosos. — Ele passou as mãos no
rosto, como se estivesse cansado de remexer em toda aquela sujeira. — Juan, então,
tratou de desacreditar Julie perante a família. Achou que seria fácil, pois era apenas
uma jovem viúva num país estrangeiro, e órfã, ainda por cima. Depois que
conseguisse que fosse mandada embora e que lhe tirassem o filho, seu plano teria
sucesso. O que ele não esperava era que ela partisse para a luta e se recusasse a
“vender” o bebê.
Julie sentiu o estômago contrair-se. Onde estaria Tony?

— Mas... — ele prosseguiu — Juan não se deu por achado. Não poderia desistir,
mesmo se quisesse. Aqueles sujeitos com quem se envolveu não costumam perdoar
erros. Então ele programou um rapto e, para que Julie e eu não atrapalhássemos
mais, mandou que nos matassem.
— Madre de Dios! — murmurou Christina, muito pálida.
— Mentira! — Letizia gritou. — Juan queria a criança porque sua mulher, essa
inútil, não foi capaz nem de lhe dar um filho.
Julie não pôde mais controlar a raiva que lhe crescia no peito.
— Você é uma mulher doente, Letizia! Está acusando sua própria filha, culpando-
a dos crimes de Juan. Bem, já ouvi demais suas acusações insanas. Tenho algo a
dizer também, señora Velasco. — A sogra olhou-a espantada, mas nada disse. — Você
arruinou esta família — Julie começou. — Puniu suas filhas por não lhe darem netos.
Tereza tomou-se infeliz por ter tido apenas meninas e criou um desnecessário
sentimento de culpa por decepcioná-la. Porém, acho que descobriu o que você é na
realidade, pois ela e o marido tiveram o bom senso de ir embora.
— Eles voltarão — Letizia declarou, cheia de sarcasmo.
— Acho que não. A família Díaz pode não ser um sucesso monetário, mas os
velhos amam seus filhos e netos da mesma forma, sejam homens ou mulheres.
Tereza e Mariano nunca mais vão querer voltar. E olhe para sua filha. — O olhar de
Letizia para Christina foi cheio de indiferença. — Você nunca gostou de Christina —
Julie acusou. — Entre seus filhos, foi a única que a amou e defendeu, apesar de tudo,
sem receber uma migalha de carinho ou aprovação. Você a empurrou para um
casamento infeliz e, porque não pôde ter filhos, deixou-a de lado.
Christina deu um soluço abafado. Julie a olhou penalizada, mas tinha de dizer
tudo o que a viera sufocando por tanto tempo.
— Nem sei como ainda está aqui, mas agora que viu o que você foi capaz de
fazer comigo e meu filho, e o tipo de marido que tem, estou certa de que não ficará
nesta casa por muito tempo.
— Pare com isso! — Letizia gritou, com os olhos muito abertos e a boca
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

contorcida. — Minhas filhas não são da sua conta.


— Muito bem. Então, vamos falar do meu marido.
Julie respirou fundo para manter a fúria que sentia, sob controle. Queria
raciocinar claro para poder lançar tudo o que pensava, no rosto orgulhoso da sogra.
— Paulo casou-se comigo por motivos errados. Porque eu era jovem e o adorava
como a um herói, porque era maleável e submissa. Precisava de mim porque eu era o
contrário de você, porque o amava em vez de julgá-lo, porque me doava sem
cobranças. Ele precisava substituir a imagem da mãe dominadora e fria pela de uma
mulher humilde e amorosa.
— Não sabia que era psicóloga.
— Sua ironia não vai me impedir de falar, Letizia. Pois bem, Paulo errou quando
começou a proceder como você. Gostou de mim enquanto fui como ele queria, mas
como não pudesse evitar que eu amadurecesse e começasse a agir como uma pessoa
adulta, deixou de me amar. Você fez a mesma coisa com seus filhos.
Andrew olhava para ela, abismado. Mas Julie esquecera-se de sua presença,
arrastada pela necessidade de extravasar toda a raiva.
— Você estabeleceu o que cada filho seu teria de fazer na vida, e quando não
seguiram os seus planos você os desprezou. Paulo passou a vida tentando vingar-se
disso, fazendo sempre o oposto do que você aprovaria. Escolheu escolas, carreira e
amigos que você detestou. Escolheu-me para esposa, sabendo que a deixaria louca de
ira. Não quis filhos, durante anos, para não lhe dar um neto. Fez tudo isso porque a
odiava, Letizia. E, no seu desejo de vingança, esqueceu-se de viver a própria vida.
— Você está louca! Meu filho nunca me odiou. Estava confuso com a
responsabilidade de ser o continuador do nosso nome, com o dever de levar em frente
as tradições, de preservar e proteger a linhagem, uma das mais antigas do México. O
peso de tudo isso caiu-lhe nos ombros quando o irmão morreu e ele, jovem demais,
entrou em pânico. Paulo não me odiava, apenas via em mim o símbolo das obrigações
e deveres que não queria assumir. Agiu como um aluno rebelde, que fica amuado
quando o professor lhe chama a atenção.
— Amuado? — Julie deu uma risada escarninha. — Ele ficou quinze anos sem lhe
falar! Saiu de casa e esqueceu que tinha mãe. Só falou com você quando já estava
morrendo, e porque lhe pedi.
Antes que Letizia pudesse responder, a porta se abriu e Juan Arista entrou,
esbaforido. A camisa de seda estava encharcada de suor e os olhos exibiam medo e
ódio. Na mão gorda e flácida, ele carregava um revólver brilhante que a Julie pareceu
enorme.
— Ah, sabia que viriam! — Ele deu uma risada rouca e enxugou o suor do rosto
com a manga da camisa. — Nós os pegamos, Letizia! Exatamente como lhe disse que
faríamos.
Julie prendia a respiração, enquanto Andrew parecia congelado. Christina fez um
gesto com a mão, indicando-os.
— Como sabia que eles viriam?
— Ouvi o telefonema, querida esposa.
— Mas como?
— Já ouviu falar em telefone censurado, minha cara?
— Você teve coragem de fazer isso, Juan? De me espionar?
O marido ignorou-a, apontando a arma para Andrew e Julie, alternadamente.
— Nós os pegamos, Letizia. Agora, nada nos impedirá de acabar com eles.
— Não! — Christina gritou, fazendo o marido voltar-se para ela.
— Cale a boca! Você me traiu e à sua mãe. Desgraçou-nos a todos. Se não fosse
uma Velasco, teria o mesmo destino que eles. Quando isto acabar...
Os olhos de Juan brilharam cruelmente, enquanto ele dava um passo em direção
à esposa, desviando ligeiramente a arma que apontava para Andrew e Julie. O que
aconteceu a seguir foi rápido como um relâmpago. Andrew jogou-se para frente e
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

Juan quis atirar, mas atrasou-se por uma fração de segundo. Os corpos dos dois
homens colidiram e a arma caiu. Na luta desesperada que se travou, havia a violência
selvagem de dois animais e, por algum tempo, não se saberia dizer quem sairia
vencedor. De repente, desequilibrado, Andrew caiu. Valendo-se do peso, Juan
prensou-o no chão, agarrando-o pelo pescoço e colocando toda a fúria nas mãos,
tentando sufocá-lo. Julie atirou-se sobre eles, golpeando Juan com as mãos fechadas,
chorando, sem nada conseguir.
— Largue-o, Juan — a ordem soou enérgica, sobrepondo-se ao barulho da luta.
Julie olhou para cima e viu Christina segurando o revólver com as duas mãos.
Com firmeza, apontava a arma para o peito do marido. Juan Arista olhou assombrado
para a esposa e, quando percebeu o brilho mortal que havia nos olhos dela, soltou o
adversário e levantou-se.
— Então você me espionou, invadiu minha privacidade. Encorajou minha mãe em
sua loucura e mandou que sequestrassem o bebê. Deu ordens para que matassem
Julie e seu amigo. De que outros crimes você é culpado? — Covardemente, Juan não
tirava os olhos da arma, ficando muito pálido e transpirando cada vez mais. — Poderia
matá-lo agora mesmo e nada me aconteceria. Sabe disso não é? Os advogados da
família inventariam qualquer coisa e nem me deixariam chegar perto da cadeia. A
ideia é tentadora. Ficaria livre de você. Uma rica e respeitada viúva.
Juan Arista gemeu, assustado.
— Fiz isso por você, Christina. Sabia quanto você queria um bebê, uma criança
para criar. Nada mais justo que fosse você a educar o herdeiro dos Velasco.
— Chega de mentiras! Você nunca se importou com meus sentimentos ou
necessidades.

Os olhos de Juan percorriam os rostos ao seu redor, passando rapidamente de


um para o outro, fixando Julie e Andrew com ódio, lançando mudos pedidos de ajuda
à sogra, que se mantinha ereta e de rosto imóvel. A arma nas mãos de Christina
estremeceu ligeiramente. Um terror irracional passou pelos olhos de Juan.
— Foi ela! — ele gritou, apontando para Letizia. — Ela me obrigou. Não tenho
culpa.
— Além de tudo é covarde — escarneceu a esposa.
— Juro! — Ele estava balbuciante e trêmulo. — Juro que não queria fazer mal a
ninguém. Foi ela...
— Pare, Juan! — Letizia ordenou, furiosa. — Dei-lhe uma posição de
responsabilidade na família e olhe o que você fez. Além de tudo ainda me agride com
mentiras e acusações?
— Não pode negar que gostaria de ver Julie morta.
— Confesso que ela não seria a esposa que eu escolheria para o meu filho, mas
estava disposta a aceitá-la e tolerá-la por ser a mãe do meu neto. Então você
começou a me envenenar com histórias e insinuações. Agora percebo que fui usada
como instrumento da sua ambição, em muitas coisas, e isso me enche de vergonha e
desgosto. Nunca deveria tê-lo tirado daquela sua família sem importância para lhe dar
um lugar na minha. Você me enoja.
Um brilho de loucura passou pelos olhos dele.
— E você a mim, Rainha dos Velasco. Posso estar acabado, mas você também
está. Andei investigando sobre certas coisas que me intrigavam e acabei falando com
muita gente, inclusive com uma mulher que foi uma criada sua e agora tem um sítio e
uma renda mensal bem polpuda. — O rosto de Letizia tornou-se espantosamente
branco e ela oscilou ligeiramente, precisando segurar-se ao espaldar de uma cadeira.
— Consegui fazê-la falar — Juan continuou, com um sorriso perverso. — E agora sei
por que Paulo a odiava. Todos os motivos que se possam imaginar nem chegam perto
da terrível e verdadeira razão, conhecida apenas por você, Paulo e a empregada.
— Não! — O grito de Letizia era angustiado.
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— A mulher lembra-se do bilhete que encontrou perto do corpo de seu filho mais
velho, até hoje, palavra por palavra. Esse bilhete, ela entregou a Paulo, que foi
chamá-la, em pânico. Porém, quando você chegou ao quarto, viu não a morte do
filho, mas a vergonha e o escândalo. Obrigou Paulo a queimar o bilhete que o irmão
escrevera antes de se suicidar e a guardar segredo do que se passara.
Letizia chorava. Era um pranto desesperado.
— Precisei esconder a verdade — ela soluçou. — Não podia deixar que a
vergonha caísse sobre nossa casa.
A velha deixou-se cair na cadeira, enquanto os soluços transformavam-se em
gemidos doloridos. A não ser pelo pranto daquela mulher orgulhosa, o quarto estava
em silêncio. Juan pareceu perder toda a energia, encostando-se numa parede, com ar
derrotado. Christina aproximou-se de Andrew e colocou-lhe a arma nas mãos.
— Cuide de Juan, por favor, enquanto vou chamar meu pai e a polícia.
— A polícia não! — o marido choramingou. — Se não se importa comigo, pense
na família e no escândalo.
— Não vejo vergonha em chamar a polícia para um bandido como você —
Christina respondeu, cheia de determinação.
Andrew apontou-lhe o revólver e Juan, quase morto de medo, escorregou até o
chão, ficando ali sentado, com as costas apoiadas na parede. Christina inclinou-se
para a mãe e segurou-lhe os ombros. Sacudiu a mulher, gentilmente mas com
firmeza, como tirando uma criança de um ataque de histeria.
— Mãe. Mãe! Onde está o bebê?
— Em meu quarto. — A voz era fina e sofrida, e o rosto de Letizia aparentava ter
envelhecido anos, naqueles poucos minutos. — O bebê está em meu quarto — ela
repetiu. — Lá é seguro. Ele precisa crescer para ocupar o lugar do pai.
Christina deixou a mãe murmurando sempre as mesmas frases e acercou-se de
Julie, tocando-a no braço.
— Vá buscar seu filho. Os outros problemas são nossos. Está livre dos Velasco,
Julie.

CAPITULO XIV

Julie acabou de colocar as roupas na mala que Christina lhe dera e olhou em
volta para ver se não esquecera nada. Não levara muito tempo para arrumar tudo,
pois havia pouca coisa a levar. Fora à Cidade do México em busca de Tony levando
pouco mais que a roupa com que viajara. O que havia deixado para trás, em seu
antigo quarto, quando fugira com o bebê, desaparecera. Letizia dera um jeito de
apagar todos os traços de sua passagem pela família, mas guardara todos os
pertences da criança, de um modo doentio, apenas explicado por sua demência. Tony,
porém, crescera naqueles poucos meses, perdendo todas as roupas que possuíra. Era
até bom não ter que conservar coisa alguma daquele tempo em que vivera ali,
humilhada, numa escravidão disfarçada. O terninho de lã, com etiqueta francesa, que
usava, era de Christina. A cunhada insistira para que ficasse com ele, alegando que a
cor, cinza-azulado, combinava com seus olhos e realçava o tom de cobre avermelhado
dos cabelos. Desceu as majestosas escadas carregando a mala e uma sacola cheia de
fraldas e outros artigos de higiene do bebê. Era incrível como a atmosfera da casa se
transformara, depois que Letizia e Juan Arista haviam saído dali.
Havia música, descontração, e até os empregados trabalhavam cantarolando. A
própria luz do sol, entrando pelas janelas, parecia mais brilhante e alegre.
— Onde está todo mundo? — Julie chamou, chegando ao vestíbulo.
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— Aqui, na sala de jantar — Christina respondeu.


Encaminhou-se para a porta que dava para a elegante sala e parou no vão, rindo
da cena que se desenrolava. Tony engatinhava velozmente embaixo da mesa enorme,
enquanto a tia ameaçava pegá-lo, correndo de um lado para outro. O bebê parecia
estar se divertindo muito, pois ria alto e dava gritos de puro prazer. Julie bateu
palmas para chamar a atenção dos dois.
— Posso saber do que estão brincando?
Christina deu uma fingida expressão de espanto ao rosto.
— Então não sabe?
— Deveria?
— Acho que é evidente que Tony é um coelhinho e eu uma raposa que adora
carne de coelho.
— Desculpem minha estupidez. Como não reconheci um coelho e uma raposa?
Christina parou de correr em volta da mesa e recolocou para dentro a blusa que
escapara da saia.
— Fiz chá do jeito que você gosta. Quer tomar uma xícara comigo? Vamos para a
cozinha.
Tony sentara-se, olhando em volta, esperando que o rosto da tia aparecesse
entre as pernas da mesa e, quando percebeu que a brincadeira não ia continuar,
começou a balbuciar, como se a estivesse chamando.
— E o coelhinho aqui embaixo?
As duas olharam para baixo da mesa. Assim que Tony as viu, rompeu em risadas
e começou novamente a engatinhar em círculos.
— Vou fechar a porta que dá para o vestíbulo. Quando ele se aborrecer de ficar
sozinho, irá nos procurar na cozinha — Christina resolveu.
Julie não estava disposta a tomar chá com a cunhada, mas seria impossível
arrumar uma desculpa. Sabia que Christina estava procurando uma oportunidade para
desabafar, mas temia que ela também resolvesse abordar assuntos que preferia
deixar enterrados. Não precisava de um ombro para chorar ou de um ouvinte
compreensivo. Necessitava mesmo era de um hipnotizador, que fosse capaz de
apagar da sua mente toda a dor e as más recordações.
Não teve porém, outra alternativa, a não ser acompanhar Christina até a imensa
cozinha, muito ensolarada, com piso de cerâmica escrupulosamente limpo. À volta
toda havia balcões e armários de madeira escura, presos às paredes. Em um vão
entre dois armários erguia-se uma geladeira americana de aço inoxidável, enorme
como a de um restaurante e conjugada ao freezer. O fogão, também de aço, brilhava
de limpeza. O cômodo parecia ainda maior sem os empregados. Sentou-se à mesa
coberta de azulejos decorados de marrom e amarelo, enquanto Christina arrumava os
utensílios para o chá numa grande bandeja.
— Acho que nunca entrei nesta cozinha quando os criados não estavam. Parece
diferente — comentou.
A cunhada riu.
— Entrou, sim.
— Não me lembro.
— Pois jamais vou esquecer aquela vez em que, no meio da noite, minha mãe a
pegou aqui fazendo um sanduíche de banana com mel.
Foi a vez de Julie rir.
— Agora me lembro. Tive, de repente, um desejo invencível de comer algo
extravagante. Coisas de grávida.
— É. Você estava enorme, quase no fim da gravidez.
— Não sei como sua mãe percebeu. Embora estivesse tendo dificuldade em achar
uma banana nesta imensidão de cozinha, procurei não fazer ruído.
— Acho que ela possui... deixe ver se me lembro do termo. Ah, sim! Percepção
extrassensorial.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

— Ela não gostou nada de me ver aqui. Penso que me poupou de um sermão
apenas por causa do bebê que esperava com tanta ansiedade.
— Na sua mentalidade antiquada ela acredita piamente que as grávidas sentem
estranhos desejos e nunca a impediria de satisfazer os seus. Ela só...
— Eu sei — Julie interrompeu. — Tem regras estritas e, segundo elas, uma
pessoa de classe não faz o trabalho dos criados. Só que eu nunca tive coragem de
chamar uma empregada à meia-noite para me preparar um lanche. — Deu de
ombros. — O incidente serviu para me tirar o vício de comer fora de hora.
— Foi naquela noite — Christina olhou-a com ternura — que eu soube que ia
gostar de você.
Observou o cuidado com que a cunhada trazia a bandeja para a mesa e dispunha
as finas xícaras de porcelana inglesa e colherinhas de prata sobre toalhinhas de linho.
Não ofereceu ajuda, sabendo que ela estava saboreando o prazer de ser dona-de-
casa.
— Onde estão os empregados? — perguntou.
— Dei-lhes a tarde de folga. É gostoso ter a casa só para nós, não é?
— Sim. Fica tranquila. O ambiente era bem diferente, primeiro. Cheio de tensão.
Agora a casa é uma delícia.
— É mesmo — concordou Christina, vertendo o chá nas xícaras. Durante alguns
momentos, tomaram o líquido quente e cheiroso, em silêncio. — Não precisa se
preocupar com o horário do avião — Christina disse. — O motorista vai voltar a tempo
de levá-la ao aeroporto.
— Obrigada.
— Não pode imaginar como estou entusiasmada com a idéia de visitar você e
Tony em Nova York.
— Vai ser ótimo recebê-la. Não demore muito a se resolver.
— Assim que tudo aqui estiver em ordem, irei.
Christina limpou a garganta, virando a xícara no pires, nervosamente. Iam
começar as confidências que preferia não ouvir.
— Minha mãe não foi sempre assim terrível. Sinto muito por tudo o que ela a fez
sofrer, mas, na maioria das coisas que fez, foi induzida por Juan. E acredito que não
soubesse nada das ordens que meu... meu marido havia dado para matá-la. — Julie
calou-se, resignada. Agora que perdera a inibição, a cunhada continuaria a falar. —
Veio de uma família rica, mas com fortuna recém-adquirida e pouca educação. Nunca
foram aceitos pela sociedade, pois suspeitava-se de que haviam ganho dinheiro de
modo ilícito. Quando casou-se com papai e recebeu o nome Velasco, ficou tão
orgulhosa que tornou-se ponto de honra defendê-lo de qualquer coisa que o
maculasse. Meu pai, porém, nunca deu muita importância para essas questões de
nome, sangue ou linhagem. Estava mais preocupado em fazer os negócios
florescerem e ganhar dinheiro. O que fez com que ela se tomasse tão intransigente e
autoritária foram os desapontamentos que a vida lhe trouxe.
— Desculpe, mas esses desapontamentos foram criação dela mesma.
— Sim, eu sei, mas...
— Eu compreendo. Ela é sua mãe e você tenta desculpá-la, mas sei que o
desprezo de Letizia e o modo dela considerar os filhos como fracassos feriram demais
vocês todos.
— E quanto, meu Deus!
— A prepotência de sua mãe levou Paulo para longe da família, afastou Tereza e
matou seu irmão mais velho. Não deixe que a destrua, agora.
— Não. Não há mais perigo. Saí forte e renovada de tudo o que aconteceu.
Julie suspirou. Como haveria ela saído daquele drama? Forte, sem dúvida. Mas
renovada? Não poderia haver renovação enquanto a mente continuasse a remoer
lembranças e o coração a doer, solitário. Não poderia haver renovação sem Andrew.
Tony foi engatinhando, com a costumeira rapidez, para a cozinha, parando ao
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

vê-las, sorrindo deliciado. Gritou, como incitando as mulheres a segui-lo e voltou para
a sala de jantar.
— É incansável — comentou a tia, rindo. — Nunca para?
— Só quando dorme.
Acabaram de tomar o chá, em silêncio. Christina ergueu-se e começou a recolher
as xícaras.
— Vai telefonar a ele?
Embora a pergunta fosse esperada, Julie sobressaltou-se. Quis fazer de conta
que não compreendia o que a cunhada queria dizer, mas seria pura perda de tempo.
— De que adiantaria?
— Nunca se sabe.
— Houve muitos desentendimentos, muitas mentiras, muita desconfiança entre
nós.
— Mas ainda há amor. Posso ver em seus olhos.
— Às vezes o amor não basta.
— O amor é a única coisa sólida que existe. Ele une as pessoas com laços mais
fortes que os do sangue. É por isso que vou ajudar minha mãe a começar tudo outra
vez, dentro de uma nova visão.
— Isso é diferente — Julie argumentou. — Ela é sua mãe. Nada poderá desfazer
essa ligação.
— Não concordo. Não é o sangue que une, mas o amor. Ele nos torna tolerantes
e flexíveis e nos ensina a perdoar.
Julie pegou a bandeja das mãos de Christina e levou-a para a pia, vendo que
Tony, da porta, espiava a tia. Voltou para a mesa, observando a brincadeira do filho.
Ele veio, sorrateiro, e agarrou a perna de Christina, que fingiu levar um susto.
Gritando, excitado, ele escondeu-se embaixo da cadeira onde Julie estivera sentada. A
tia puxou-lhe o pezinho e, quando ele ia fugir engatinhando ela o pegou.
— Venha, querido. A titia vai lhe mostrar uma coisa, enquanto a mamãe pensa.

Ignácio puxou uma cadeira para perto do sobrinho, que se sentara a uma das
janelas da biblioteca.
— Então, já vai embora novamente.
— Sim, tio.
— Foi uma pena não termos mais tempo para travar conhecimento com Julie.
Parece ser uma mulher extraordinária.
— E é — Andrew concordou.
— Tiramos muitas lições dos últimos acontecimentos. Sua tia e eu estamos
envergonhados da nossa cegueira e das nossas ideias preconcebidas.
Andrew estudou o tio cuidadosamente. Ignácio não era do tipo de dar facilmente
a mão à palmatória.
— Julie Velasco pode ser uma mulher maravilhosa, Andrew, mas também é uma
mulher de sorte. Encontrou um homem brilhante, honesto e corajoso. — Andrew ficou
emocionado, sentindo um nó na garganta. Ignacio levantou-se e ele o acompanhou no
gesto. — Sua tia Helen e eu estamos muito orgulhosos de você, Andrew Wolfe.
Verdadeiramente orgulhosos.
Ignácio o abraçou e ele retribuiu o abraço, apertando o tio com força. Havia
esperado vinte anos para ouvir aquelas palavras. O tio saiu da biblioteca e Andrew
deixou-se ficar, acomodando-se novamente na cadeira giratória, fazendo-a girar num
semicírculo, distraidamente. Já ficara muito tempo por ali, aos cuidados da tia,
descansando e recuperando-se do esgotamento físico e mental conseguidos naquela
aventura que até parecia coisa de romance. Não era ficando na ociosidade que iria
conseguir esquecer. O melhor remédio para as feridas que haviam ficado era o
trabalho.
Via sua vida como baseada em princípios rígidos e inflexíveis, de um modo que
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

nunca lhe permitira relacionar-se com outras pessoas, pois não conhecia as regras da
tolerância e do perdão. Percebia, porém, que se modificara, perdendo noções
antiquadas, derretendo o gelo, ao conviver com Julie naqueles dias de loucura. Depois
de tudo terminado, tivera muito tempo para pensar e chegara à conclusão de que fora
duro demais, não reconhecendo que ela mentira por uma questão de sobrevivência e
não por possuir um caráter deturpado. Mentira e fingira para proteger-se e ao filho,
mas isso não significava que não fosse digna de confiança e de amor.
Fora um estúpido e a perdera. Como devia ter sofrido com suas acusações
injustas e falta de compreensão! Era bom mesmo que nem o quisesse ver. Esqueceria
tudo o que houvera entre eles e seria feliz. Não havia outra coisa a fazer. Como
poderia amar e querer viver com alguém que a havia julgado e condenado?
O telefone tocou, ao longe. Alguém atendeu. Preparava-se para afundar outra
vez nos pensamentos melancólicos, quando a governanta apareceu na porta da
biblioteca.
— Señor Andrew, teléfono.
As palavras o deixaram espantado. O cérebro lhe dizia que não podia ser, mas as
palmas das mãos ficaram úmidas e o coração acelerou-se. Seguiu a criada até o
vestíbulo e atendeu.
— Alô, é Andrew.
— Oi, é Julie.
A voz dela estava leve e graciosa, nem um pouco tensa, como se aquela fosse
uma conversa comum, como se falassem um com o outro todos os dias.
— Vou partir hoje para Nova York — ela explicou — e achei que devia lhe
telefonar para dizer...
— Onde você está?
O eco de suas palavras, ressoando no vestíbulo vazio, fez com que percebesse
que falara alto demais, como se estivesse ansioso.
— Na mansão. Christina me convenceu a ficar um pouco com ela. Como ficamos
apenas nós duas, não foi desagradável.
— O que aconteceu com Letizia?
Agora a voz soara formal demais. Não conseguia falar com naturalidade,
tentando, como estava, segurar as emoções que o dominavam.
— Bem, depois que você e seu tio saíram e a polícia levou Juan, a atmosfera aqui
ficou pesada. Pensei que Victoriano fosse ter um colapso, já que não andava bem de
saúde, mas, ao contrário, o velho pareceu ganhar uma nova energia. Nunca o vi tão
autoritário e decidido.
— Ele sabia de alguma coisa?
— Não sabia de nada. Christina teve de lhe contar tudo.
— E depois?
— Ele fez um verdadeiro discurso, ao me pedir desculpas, e disse que entenderia
se eu quisesse me afastar da família completamente.
— E Letizia?
— O señor Victoriano levou-a para a fazenda, onde receberá tratamento
psiquiátrico.
— E você vai se afastar deles?
— Não. Sei que vou demorar para conseguir confiar neles, mas vou tentar. Quero
que Tony tenha avós, tias, uma família, enfim.
— Como se sente em relação a sua sogra?
— Não a odeio. Tenho piedade, apenas. Ela realmente fez um inferno na família,
mas me sinto melhor perdoando que odiando.
— E o que Christina pretende fazer?
— Agora é que vem o melhor. Ela vai construir e manter uma clínica médica para
os favelados. Terá com que se preocupar e está feliz por poder ser útil.
— Tudo bem para todos.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

— O quê?
— Disse que está tudo bem para todos.
— Exceto para nós — ela falou suavemente, com uma ponta de tristeza na voz.
As palavras o surpreenderam. O que significariam?
— O que quer dizer com isso, Julie?
— Que nada está bem para nós.
— Mas você e Tony estão juntos. Quanto a mim, o relacionamento com meus
tios ficou mais sincero e caloroso. Acho que todos nós lucramos, de algum modo.
— Tem razão — ela concordou. — Tudo saiu da melhor forma possível.
— Podemos dizer que houve um final feliz.
— Será que todo mundo está feliz? — ela perguntou, timidamente.
Por que estaria ela dizendo aquelas palavras estranhas? Por que a voz suave,
que o encantava, parecia triste? Não. Não ficaria imaginando coisas, nem se deixaria
arrastar pelo impulso de dizer que a amava. Não tinha esse direito, depois de tê-la
ofendido com suspeitas e sarcasmos. Mas ela também suspeitara dele e desconfiara
de suas intenções. O melhor era desligar, antes que começasse a fraquejar.
— Sim, acho que sim — ele respondeu, finalmente.
— Você alguma vez desejou voltar atrás, desfazer o que estava feito e recomeçar
tudo?
Ele ficou uns instantes em silêncio, com medo de dizer que era o que queria
naquele momento. Apagar os erros, começar tudo outra vez. Porém, não se
modificava o passado, por mais que se quisesse.
— Sim, mas descobri que é impossível.
— Impossível... Sim, acho que tem razão.

Julie não se resolvia a desligar e estava cada vez mais difícil manter a atitude
impassível. A voz doce trazia recordações de momentos de intimidade, quase o fazia
ver a boca sensual aproximando-se da sua, oferecendo-se. Ela falou por mais algum
tempo sobre como era bom estar voltando para casa, como Tony estava esperto e
alegre e sobre uma porção de outras coisas. Por fim agradeceu-lhe por tudo o que
havia feito para ajudá-la e desligou.
Andrew voltou para a biblioteca e, se a sua paz já fora precária antes daquele
telefonema inesperado, depois dele desapareceu de vez. As mais loucas ideias
começaram a rodopiar em sua mente.

Julie desligou e sentou-se, desanimada, à mesa da sala de jantar. Christina havia


desaparecido com Tony. Quem sabe o que inventara para distraí-lo, enquanto ela
falava com Andrew. Só que de nada adiantara. Ele fora frio e distante, parecendo
impaciente para livrar-se dela. Não havia mais esperança para eles. Teria de aprender
a viver sem ele, embora o coração lhe doesse ao simples pensamento de que nunca
mais sentiria aquelas mãos másculas e carinhosas em seu corpo, que nunca mais
veria aqueles fantásticos olhos verdes cheios de amor e desejo. Era tão bonito vê-lo
com Tony nos braços, o bebê gostava tanto dele, que era quase insuportável pensar
que aquelas cenas de ternura nunca mais se repetiriam.
Olhou para o relógio de parede, antigo e belo, sólido e implacável. Estava na
hora de ir embora, de colocar uma distância enorme entre ela e Andrew. Nem
perguntara quando ele pretendia voltar para Nova York. Também, que diferença faria?
Não podia haver distância maior que a criada pela indiferença. Vagarosamente, deixou
a cadeira para procurar a cunhada, mas Christina já estava chegando com Tony nos
braços. O menino segurava um camundongo de pelúcia.
— Presente de despedida. O ratinho fala. Basta puxar-lhe a cauda. — De
repente, Christina pareceu notar a expressão triste do rosto de Julie. — Falou com
ele?
— Sim.
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

— E então?
— Foi como lhe disse que seria, Christina. Não adiantou nada.
— Oh, Julie, como vocês dois são teimosos e orgulhosos!
— Não é isso. O problema é que ele não me ama.
— Não acredito. Nunca percebeu como ele a olha?
Julie ficou em silêncio. Tony começou a espernear, querendo descer, então a tia
puxou o rabinho do camundongo, que se pôs a falar com uma vozinha fina e
mecânica. O bebê riu, feliz.
Naquele momento, a campainha soou. Era o motorista, avisando que estava na
hora de irem para o aeroporto. O homem pegou a pequena bagagem e saiu. Christina,
ainda com o sobrinho no colo, foi até o carro, ao lado de Julie, que parecia prestes a
chorar.
— Desculpe se não vou ao aeroporto com vocês, mas detestaria vê-los entrar
num avião e sumir. Prefiro ficar aqui.
— Entendo, Christina. Também acho despedidas em estações ou aeroportos
muito tristes.
O motorista estava perfilado, ao lado da porta aberta. As duas cunhadas se
abraçaram.
— Até logo, então, Julie. Em breve nos veremos.
— Tchau, Christina.
O bebê passou dos braços da tia para os da mãe, sempre agarrado ao ratinho
falante.
Quando o carro passou pelos portões de ferro de impressionante solidez e
beleza, ela olhou para trás. Christina lhe acenava e a mansão já não tinha aparência
sinistra aos seus olhos.
Sentada na cadeira do saguão de espera do aeroporto de Houston, Julie deixou
que Tony escorregasse para o lugar ao lado. Todo seu corpo doía, mas não era uma
dor física, era uma saudade sufocante que a assaltava naquele lugar de tantas
recordações. Fora ali que vira Andrew pela primeira vez.
Imaginava o tormento que seria viver na mesma cidade que ele, sem poder vê-
lo. Quanto tempo levaria até que ela começasse a pegar o telefone para discar seu
número, arrependendo-se depois e desligando? Quanto tempo se passaria até que ela
não resistisse ao desejo de ficar nas imediações do escritório, esperando vê-lo nem
que fosse de relance?
Havia telefonado para a casa dos Obregon, cheia de esperança de que pudessem
esquecer os acontecimentos dolorosos do passado e optar por um novo começo. Mas
ele não parecera interessado, erguendo, ao contrário, uma parede de indiferença
entre os dois. Toda aquela conversa de Christina sobre o amor a incentivara a tentar
uma aproximação, mas chegara à conclusão de que, se alguém amava e se propunha
a esquecer, era apenas ela. Não tinha o direito de querer forçar um novo
relacionamento. Precisava respeitá-lo e ao seu desejo de afastar-se, mas a
consciência disso não diminuía seu sofrimento nem preenchia o vácuo que se formara
em sua vida. Podia apenas sonhar que entrava em seu escritório e via aqueles olhos
verdes e a expressão de implicância carinhosa que tantas vezes lhe percebera no
rosto. O que não daria para observá-lo a enfiar os dedos no cabelo louro e rebelde,
num gesto descuidado!
Tony estava inquieto. Pusera-se de pé, segurando no encosto da cadeira, mas
começara a balbuciar daquele modo irritado que acabaria em choro ou em teima para
ir para o chão. Precisava evitar que ele desse escândalo ou descobrisse o cinzeiro que
havia entre sua cadeira e a próxima. Também não o queria engatinhando no piso,
sujando-se todo. Com um suspiro enfiou a mão na sacola, procurando um brinquedo.
Fraldas, potes de alimento, biscoitos, lenços de papel, um pequeno pente. A mão
encontrou o livro de pano, cheio de figuras representando animais que fora de uma
das filhas de Tereza, mas ele já se havia enjoado daquilo e dos sons que a mãe fazia,
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Super Sabrina 74 – Caitlin Cross – Amor difícil

imitando a voz de cada bichinho.


Onde estaria aquele camundongo que falava, presente de tia Christina? Viera
com ele na mão, no voo da Cidade do México para Houston, puxando-lhe o rabinho,
fazendo-o falar sempre as mesmas frases, para distrair o bebê. Onde o teria posto?
Não era possível que o tivesse perdido. Procurou na bolsa a tiracolo onde levava
dinheiro, o passaporte e as passagens. Os dedos sentiram a maciez da pelúcia.
Agarrou o brinquedo e tirou-o da bolsa, ouvindo Tony iniciar aquele chorinho que, ela
sabia muito bem, acabaria num verdadeiro berreiro. Fechou o zíper da bolsa e
apressou-se em mostrar o bichinho ao bebê que começou a rir, deliciado.
— Você gosta do ratinho, não é? — perguntou ao filho.
Percebeu então que Tony não estava prestando a mínima atenção a ela ou ao
brinquedo. Ria para alguém que estava sentado bem atrás dela. Só faltava a pessoa
querer conversar, perguntando coisas sobre o bebê. Não tinha vontade de falar.
Estava tão amargurada que nem conseguia ser gentil, portanto era melhor que a
deixassem em paz. Tentou puxar Tony, querendo que ele se sentasse, mas o menino
reagiu, agarrando-se mais à borda do encosto. Que ficasse ali então, rindo para quem
quer que estivesse atrás. Fingiria não estar percebendo o que se passava.
De repente, a criança começou a esticar-se, ficando nas pontas dos pezinhos.
Olhou para o filho e viu-o estendendo a mão rechonchuda, como se fosse agarrar
alguma coisa. Que não fosse puxar o cabelo de alguém! Virou-se de lado, na cadeira,
para ver o que estava acontecendo, e deparou com o homem mais bonito que já vira,
de cabelos cor de areia, levemente encaracolados e olhos verdes brilhantes, que
tirava uma mecha rebelde da testa, com a mão forte e expressiva. O homem deu a
outra mão a Tony, que a agarrou, dando gritinhos de alegria.
— Tem uma mãozinha forte, o garoto.
A voz era máscula e suave. Julie fez um gesto de cabeça, concordando. Tinha
medo de falar e quebrar a magia daquele momento.
— Acho que ele gosta de mim. — Ela tornou a concordar. — Quer me dar o
ratinho? — o homem pediu. Entregou-lhe o brinquedo. — Vamos brincar, garotão? —
ele convidou, puxando a cauda do bichinho que se pôs a fazer perguntas, com sua
vozinha de robô.
Tony riu e estendeu a mão. O bichinho lhe foi entregue. O homem ergueu-se e
ela viu que era muito alto e tinha pernas longas e robustas. Com passadas elásticas,
andou até a extremidade da fileira de cadeiras, voltando pelo lado onde ela estava.
Lágrimas começaram a rolar dos olhos cinzentos, mas ela não fez caso, só se
importando em olhar para Andrew, que se sentara ao lado, pegando o bebê no colo.
Estava tão perto! Bastava um gesto para tocá-lo, para acariciar as faces
amorenadas e os lábios bem desenhados. Ele a olhava com tanta esperança, tanta
ternura, que ela sentiu-se estremecer.
— Vou precisar de um amigo em Nova York — disse, com voz embargada.
— É para lá que eu vou.
— Então, talvez...
— Não preciso de uma amiga, Julie.
— Não?
— Preciso de alguém para amar e em quem confiar.
— Eu o amo.
— Eu a amo e confio em você. Quer se casar comigo?
— É a única coisa que desejo no mundo.
Não havia mais como reprimir as lágrimas ou o impulso de abraçá-lo. Atirou-lhe
os braços ao pescoço, colando o rosto molhado ao dele. Tony protestou ao ver-se
apertado, e Andrew, sem afastar-se, puxou o rabinho do camundongo que se pôs a
falar. Ele então a beijou. Perderam-se no encanto daquele beijo, sem perceber o
quadro que estavam formando. Um homem e uma mulher abraçados, imprensando
um bebê que ria, ao som de um brinquedo que repetia algumas perguntas, sem
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cessar.
— Como vai você? Como se chama? Como vai você?...

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