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SAÚDE MENTAL NO PUERPÉRIO

A criança nasceu perfeita, com boa saúde, o pai está feliz, os avós também. Nada
aconteceu de errado, elas voltam com o bebezinho para casa, onde tudo foi preparado
para recebê-lo, mas são invadidas por uma espécie de melancolia que não sabem
explicar. Se esse sentimento for passageiro e desaparecer em alguns dias, não há
motivo para preocupação. Seu organismo passou por verdadeiras revoluções
hormonais nos últimos tempos que podem ter mexido com o sistema nervoso central.

O pós-parto é um período de deficiência hormonal. Durante a gestação, o organismo


da mulher esteve submetido a altas doses de hormônios e tanto o estrógeno quanto a
progesterona agem no sistema nervoso central, mexendo com os neurotransmissores
que estabelecem a ligação entre os neurônios. De repente, em algumas horas depois
do parto, o nível desses hormônios cai vertiginosamente, o que pode ser um fator
importante no desencadeamento dos transtornos pós-parto. Todos os sintomas
associados ao humor e às emoções são multideterminados, ou seja, não têm uma
causa única. Alguns fatos, por exemplo gravidez não desejada ou não planejada,
causam aumento do estresse ao longo da gestação e podem contribuir para o
aparecimento do problema.

Uma mulher, uma semana depois de ter dado à luz, com os sinais clássicos de tristeza
puerperal, que pode ter sido desencadeada até por privação do sono – às vezes, o
bebê acorda muito à noite – e por mudanças hormonais, recomendo que espere um
pouquinho, pois essa sensação desagradável poderá desaparecer em alguns dias sem
deixar vestígios. Ao contrário, se os sintomas foram se instalando gradativamente ao
longo de várias semanas e ficando piores a cada dia, ela pode estar desenvolvendo um
quadro de depressão pós-parto.

Infelizmente, a maior parte dessas mulheres não fica sabendo que está deprimida e
atribui os sintomas ao estresse, ou não tem suas queixas valorizadas pelo
companheiro, nem pelo pediatra que atende a criança, nem pelo obstetra que
acompanha o pós-natal.

O primeiro é que a tristeza não está relacionada só com o nascimento da criança. Não
está restrita ao fato de não se considerar boa mãe nem suficientemente capaz para
cuidar do bebê. A tristeza permeia outros contextos de sua vida. A mulher deprimida
perde o interesse pelo programa de televisão que gostava de ver, pelas leituras que
lhe davam prazer, pela profissão. Às vezes, a licença-maternidade está chegando ao
fim e ela pouco se importa com a perda do emprego se não reassumir o cargo.

Outros sintomas são a sonolência, a falta de energia durante o dia inteiro, o


desinteresse pelo marido, o desejo sexual que não retorna e as alterações do apetite
para mais e para menos. Algumas ficam famintas e comem muito. Outras nem podem
chegar perto dos alimentos.

A ansiedade faz parte também do quadro de depressão pós-parto. A mulher tem


ataques de pânico sem ser portadora desse transtorno ou pode desenvolver
comportamentos obsessivos em relação à criança como agasalhá-la demais ou
verificar a cada instante se ela está respirando.

Ela é considerada uma doença episódica recorrente e a tendência é manifestar-se


novamente se repetida a situação em que surgiu pela primeira vez. O risco de
depressão pós-parto é maior se a mulher desenvolveu um episódio depressivo
anteriormente, mesmo que tenha sido tratada, ou se teve depressão durante a
gravidez.

Como, muitas vezes, ela interrompe o tratamento temendo que a medicação possa
prejudicar a criança, o risco de a doença agravar-se depois do parto aumenta muito.

A psicoterapia também ajuda a tratar da depressão?

Como a depressão em geral tem múltiplos fatores determinantes, isto é, não é


provocada só por condições biológicas, mas tem fatores sociais e familiares envolvidos,
a psicoterapia individual ajuda a mulher a lidar melhor com o problema e a descobrir
que tem um potencial que precisa ser estimulado.

Há medicamentos para tratar a depressão seguros para o feto?

Há medicamentos seguros. Tanto os mais antigos, os tricíclicos, quanto os mais


modernos, como os inibidores de recaptura da serotonina, são seguros quer em
termos de malformações quer como agentes neurocomportamentais, ou seja, não
provocam malformações na criança nem alterações em seu comportamento.
Acompanhados até a idade pré-escolar, os filhos de mulheres que engravidaram
tomando esse tipo de medicação não mostraram nenhum transtorno comportamental.

Uma das sugestões é desprezar o leite colhido algumas horas depois de tomada a
medicação, aquele em que os componentes da droga estão mais concentrados, e
oferecer o colhido mais tarde. Isso diminui a exposição da criança ao antidepressivo e
permite utilizá-lo durante o aleitamento.

E outra coisa, amamentar é apenas um cuidado, a depressão pós-parto é incapacitante


e tira da mulher a possibilidade de realizar todos os outros demais cuidados, por isso é
tão importante para mãe e o bebê, o tratamento dessa patologia.

Muita gente confunde depressão pós-parto com os casos de psicose em que a mãe
agride e eventualmente mata o filho. Existe alguma relação entre essas duas
doenças?

Depressão pós-parto e psicose puerperal são quadros muito diferentes. Felizmente, os


casos de psicose são raros. A prevalência é de um caso para cada cem mil nascimentos.
O início da psicose puerperal é precoce. Durante a primeira semana depois do parto, a
mulher perde o contato com a realidade e começa a acreditar em coisas que não
existem, a ouvir vozes, a ter a sensação de incorporações com entidades, delírios e
crenças irracionais. Às vezes, imagina possuir superpoderes e pode lesar a criança não
intencionalmente, mas porque acha que pode voar e atira-se pela janela com o bebê
no colo. Essa doença muito grave é bem diferente da depressão que começa várias
semanas depois do parto e evolui gradativamente.

Em relação ao filho, o que a mãe pode fazer quando está com depressão pós-parto?

Isso não significa que a depressão materna não possa prejudicar a criança. Mulher
deprimida cuida menos de si própria e, por tabela, cuida menos do bebê, estimula-o
emocionalmente menos e tem menos interesse em amamentá-lo ou em brincar com
ele. Por isso, essas crianças acabam tendo um desenvolvimento neuropsicomotor mais
lento, começam a falar e a andar mais tarde, o que não quer dizer que esse retardo no
crescimento não possa ser compensado depois.

O QUE É PUERPÉRIO?

É o nome dado ao período de pós-parto que tem duração de pós-parto imediato, do


primeiro ao décimo dia; pós-parto tardio, do décimo ao 45º dia; e pós-parto remoto,
além do 45º dia., nos quais a mulher vivencia uma série de adaptações físicas e
emocionais. É também nesse período que ela se depara e se confronta entre as
expectativas construídas durante a gestação e a realidade trazida com a chegada do
bebê.

É uma fase de muitas transformações, o corpo muda demais, o útero que estava 150
vezes maior que seu tamanho natural, começa a diminuir, cada dia que passa diminui
cerca de 1cm, as cólicas são comuns nos primeiros momentos, sobretudo ao
amamentar, é muito comum acontecerem sangramentos e incontinência urinária.

A dilatação e inchaço na região vaginal também é comum nessa fase, as mamas mais
do que dobram de tamanho com a chegada do leite e ficam bem doloridas.

As lesões no assoalho pélvico e na vagina decorrentes do parto demoram de três a


seis semanas para cicatrizarem, motivo pelo qual é proposto para as mulheres
aguardarem os 40 dias após o parto para retornarem à vida sexual com penetração.

Frequentemente subsiste também a ideia de irreversibilidade relativa da imagem


corporal anterior à gravidez. Uma queixa muito comum dos homens, é a necessidade
do retorno da atividade sexual, podendo gerar nele sentimentos de menos valia. Por
outro lado, a mulher não está livre de ter emoções semelhantes às do homem,
podendo expressar ciúmes e rivalidade em relação ao neném, por temer que o
homem se encante com o filho e ela receba menos atenção.

Mas não é só o corpo que muda, a cabeça, a o trabalho, a vida sexual, vida social. E
principalmente o que a esmagadora quantidade de mulheres sente nesse período é a
sensação de se sentir muito só.

Culturalmente, as representações sociais da maternidade estão fortemente calcadas


no mito de mãe perfeita. Esta concepção assume proporções insustentáveis,
segundo as quais acredita-se que a maternidade é inata à mulher. Acreditamos que
esta insistência em que um certo estilo de maternidade é "natural", entra em choque
com a vivência da maternagem, o que leva ao sentimento de "mãe desnaturada" e
há muito sofrimento. Todas estas considerações nos levaram a acreditar que a
maternidade como vem sendo concebida até nossos dias, tem influência direta no
aparecimento da depressão no pós-parto. Nossa hipótese é de que essas pressões
culturais sob as quais as mulheres invariavelmente exercem a maternidade,
associadas ao sentimento de incapacidade em adequar-se a uma visão romanceada
desse estado, acabam por deixá-las ansiosas e culpadas, suscitando dessa maneira
conflitos que predisporiam a depressão pós-parto.

Um grande número de mulheres faltam a consulta após o nascimento (24%) o


nascimento do bebê, que é uma consulta básica tida como obrigatória para revisão e
verificação pelo obstetra, ou seja, as mulheres deixam de se cuidar, de atender o
mínino, quiçá cuidar da saúde mental.

No entanto, existe um período específico no qual parece que as coisas se tornam


ainda mais complicadas, entre 16h e 20h, é a famosa hora da bruxa (arsenic hour, em
inglês).

Como identificar a hora da bruxa?

Existe um período específico no qual parece que as coisas se tornam ainda mais
complicadas, entre 16h e 20h, é a famosa hora da bruxa

Apesar do nome um pouco diferente, a hora da bruxa se trata, entre outros fatores
relacionados ao organismo de cada indivíduo, do acúmulo de irritação no final do dia,
quando o bebê chora sem parar – e sem motivo aparente – para extravasar e aliviar
o estresse e o cansaço do dia todo. Neste momento, é normal que os adultos se
sintam inseguros e sem saber o que fazer. Será cólica? Fome? Pode ser que algum dia
ou outro, o bebê realmente esteja com algum desconforto ou dor, mas é importante
também saber diferenciar os motivos do choro do seu pequeno. O choro da hora da
bruxa, por exemplo, é um choro inconsolável, cansado e contínuo, que não cessa tão
facilmente.

Estranhamente, a hora da bruxa acontece justamente quando a mãe está mais


exausta. Por mãe e bebê estarem tão intimamente ligados, o cansaço da mãe pode
ser absorvido pelo bebê, tornando este momento ainda mais crítico, pois é muito
mais difícil para a mãe lidar com a crise de choro do seu pequeno quando ela mesma
está tão cansada e sem energia. No entanto, é importante compreender que os
bebês se comunicam chorando e que, quando precisam comunicar seu mal humor,
cansaço, tédio ou irritação, eles choram. A solução para isso, na maioria das vezes, é
o acolhimento, a calma, o aconchego e a segurança