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FACULDADE AVILA DE CIÊNCIAS HUMANAS


CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO
NEUROPEDAGOGIA E PSICANÁLISE

O ASSÉDIO MORAL E SUAS IMPLICAÇÕES PSÍQUICAS NA VIDA


PROFISSIONAL DO DOCENTE

MARA RÚBIA MATIAS DE SOUSA

GOIÂNIA
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2010
FACULDADE AVILA DE CIÊNCIAS HUMANAS
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO
NEUROPEDAGOGIA E PSICANÁLISE

O ASSÉDIO MORAL E SUAS IMPLICAÇÕES PSÍQUICAS NA VIDA


PROFISSIONAL DO DOCENTE

Monografia apresentada à coordenação de


Pós-graduação da Faculdade Ávila de Ciências
Humanas / Instituto Saber, como requisito
parcial para a conclusão do Curso de
Neuropedagogia e Psicanálise para a obtenção
do título de Especialista.

Orientadora: Profª Ms Gláucia Yoshida

Mara Rúbia Matias de Sousa


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GOIÂNIA
2010
Mara Rúbia Matias de Sousa

O ASSÉDIO MORAL E SUAS IMPLICAÇÕES PSÍQUICAS NA VIDA


PROFISSIONAL DO DOCENTE

Monografia apresentada à coordenação de Pós-graduação da


Faculdade Ávila de Ciências Humanas / Instituto Saber, como requisito parcial
para a conclusão do Curso de Neuropedagogia e Psicanálise para a obtenção
do título de Especialista.

AVALIADO POR:

Professora Ms. Gláucia Yoshida __________________________________

Goiânia, ______ de ________ de 2010.


DEDICATÓRIA

Em ambientes hostis, deparamo-nos com o


constante desafio de ser pessoa. Há pessoas que
nos roubam... Num primeiro momento, essas
parecem aproximar de nós para dificultar o curso
natural da caminhada, gerando obstáculos. No
entanto, nada como a experiência para nos fazer
refletir acerca desses anjos, enviados por Deus, em
forma humana para percebermos que eles são os
maiores responsáveis por indicarem o caminho da
dor que rechaça a alma, proporcionando a
recompensa do crescimento interior. Mas em cada
situação difícil que irrompe, Ele nos envia também
outros anjos, igualmente na forma humana, fazendo
que tais situações simplesmente fluam de uma
maneira menos dolorosa. Essas são as pessoas que
nos devolvem.

Às pessoas que nos roubam e às pessoas que nos


devolvem, dedico este trabalho, desejando que
ninguém venha dele precisar.
AGRADECIMENTOS

A Deus, sustentáculo de infinito amor, que me


concede força e vontade para continuar no caminho
do dom de educar.

À Sarah Christie, minha filha. Que apesar de se


encontrar na flor da sua adolescência, possui o
equilíbrio e a sabedoria de um ancião.

Aos meus pais, Sebastião e Fátima. Por me


direcionarem numa formação fundamentada na
ética, na verdade e no amor.

Ao Rosalvo Leomeu. Insigne profissional e


inestimável amigo. Anjo revestido na personificação
humana que, na obscuridade de um túnel,
desprovida de esperanças, fez alvorecer a vida e me
devolveu a mim mesma.

Aos demais familiares que me ouviram.

Aos amigos Hamlid, Leninha e Seninha. Anjos que,


diariamente, resgatavam em mim o equilíbrio e a
coragem necessários para vencer cada dia que
irrompia.

Enfim, a todos os meus amigos, meus pares,


companheiros e, especialmente, aos ex-
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companheiros de jornada que só encontraram a paz


fora da hostilidade do ambiente laboral.
As pessoas procuram-me dizendo EU QUERO PAZ.
Digo-lhes que removam o EU que são seus egos.
Removam o QUERO que são seus desejos.
O que lhes restará é a PAZ.
- SATHYA SAI BABA -
RESUMO

Uma grande inquietude profissional foi fator preponderante que serviu de base para
esse estudo. Este trabalho é resultado de experiências da pesquisadora, tomado a
partir de cuidadoso olhar sobre outras vítimas de assédio moral no ambiente laboral,
o que gera credibilidade acerca do que será exposto em seus capítulos. É um tema
de difícil abordagem, por estar inserido num âmbito de violência velada, percebido,
grande parte das vezes, somente pelo assediado. Entretanto, em um ambiente
hostil, essa vítima percebe uma gradativa fragilização de sua base psíquica,
privação do horizonte de sentido, perda da identidade, tortura do ambiente inóspito,
sequestro de si mesma, sendo esse uma modalidade cruel de violência. Nesta
pesquisa, estabeleceram-se os objetivos de caracterizar o assédio moral e identificar
as implicações psíquicas do terrorismo psicológico entre docentes e ex-docentes de
duas instituições de ensino, uma particular e outra pública, em Goiânia. Para tanto,
optou-se por uma abordagem quantitativa e descritiva que apresenta como
instrumento de pesquisa um questionário dividido em duas partes. Esse questionário
é constituído de trinta e três perguntas com o objetivo de levantar e investigar quais
são os principais fatores norteadores dos distúrbios neuropsíquicos nos docentes. O
resultado do levantamento de dados apontou descrições de casos que são
consonantes com a literatura pesquisada, evidenciando a hostilidade presente no
ambiente de trabalho. Ao final, constatou-se que essas relações interpessoais
conflituosas, no ambiente laboral, podem contribuir para o surgimento de doenças
que afetam a saúde dos professores com consequências físicas e psicossociais.

Palavras-chave: assédio moral, violência, estresse, riscos ocupacionais.


ABSTRACT

A great professional concern was the main factor that formed the basis for this study.
This work is the result of experiments conducted by the researcher, taking into
consideration a careful eye over victims of moral harassment at the workplace, which
shall give credibility over what is exposed in the following chapters. It is a hard
subject to address for it is most of the time part of a context of hidden violence only
perceived by the victim. However, in a hostile environment, the subject senses a
gradual breaking up of his own psychological structure, is deprived from his notion of
meaning, loses his identity, feels tortured in an aggressive environment, is kidnapped
from himself, being this one cruel form of violence. The objectives of this research
are to characterise the moral harassment and to identify the implications of
psychological terrorism among teachers and former teachers of two educational
institutions, a private and a public one, in Goiânia. For that it was chosen a
descriptive and quantitative approach that utilises a two part questionnaire as the
research tool. The objective of this questionnaire, divided into thirty three questions,
is to assess the main factors leading to teachers neurological and psychological
disturbs. The data obtained from this research points to case studies consonant with
the consulted literature and brings up evidences of the existing hostility at the
workplace. Finally we concluded that these conflicting interpersonal relationships at
the workplace may contribute to diseases that will affect teacher’s health with
physical and psychological consequences.

Key words: moral harassment, violence, stress, workplace health and safety.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 09

CAPÍTULO I ASSÉDIO MORAL: HISTÓRICO E EVOLUÇÃO .......................... 13


1.1 Trabalho Docente ........................................................................................... 13
1.2 Regime Escravocrata e a Intolerância entre Humanos .................................. 15
1.3 Gestão Perversa e Assédio ............................................................................ 18
1.4 Homogeneização das Pessoas ...................................................................... 20
1.5 Assédio Moral ................................................................................................. 21
1.5.1 O que é assedio moral e o que não é ................................................. 22
1.5.2 Os vários nomes dados ao assédio .................................................... 23
1.5.3 Mas o que é assédio moral? ............................................................... 24

CAPÍTULO II O ASSÉDIO MORAL E SUAS CONSEQUÊNCIAS À SAÚDE ..... 27


2.1 Causas Geradoras da Conduta do Assediante e suas Consequências ........ 27
2.2 Entendendo o Aspecto Psicológico do Assédio Moral ................................... 29
2.2.1 O bem-estar na escola e os desafios da cultura ................................. 32
2.2.2 A instituição escolar e a saúde mental dos professores ..................... 34
2.2.3 Riscos psicossociais ............................................................................ 35

CAPÍTULO III DANOS PROVOCADOS PELO TERRORISMO PSICOLÓGICO 37


3.1 Stress: os limites entre o suportar e o explodir emocionalmente .................. 37
3.1.1 Relatos de professores a título ilustrativo ........................................... 41
3.2 Síndrome de Burnout ..................................................................................... 45
3.2.1 Passos para o desenvolvimento do burnout ....................................... 47
3.2.2 Identificando o burnout ........................................................................ 48
3.2.3 Síndrome da exaustão no trabalho- burnout ....................................... 49
3.3 Doenças dos Nervos ...................................................................................... 51
3.4 Síndrome de Estocolmo ................................................................................. 53
3.5 Síndrome do Estresse Pós-Traumático ......................................................... 53
3.6 Síndrome do Pânico ...................................................................................... 55
3.7 Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) ............................................. 57
3.8 Depressão - Histórico e sua Causalidade ..................................................... 59

METODOLOGIA ................................................................................................... 62
RESULTADOS ..................................................................................................... 63
CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................. 79
REFERÊNCIAS .................................................................................................... 82
ANEXOS .............................................................................................................. 86
INTRODUÇÃO

Se nos reportarmos à Aristófanes e Menandro e à Ésquilo, Sófocles e


Eurípedes, estaremos nos referindo, respectivamente, aos principais autores das
comédias e das tragédias da Grécia antiga. Enquanto as comédias eram histórias
engraçadas chamadas sátiras, as tragédias eram histórias dramáticas e mostravam
homens que, por não aceitarem a vontade Divina, acabavam passando por
situações indesejáveis. Aproximadamente meio milênio a.C. separa as peças
trágicas, que narravam histórias de mitos gregos, encenadas nos chamados teatros
de arena da nossa atualidade.
E, longe das apresentações baseadas em ficção, “se o assédio moral no
trabalho fosse uma peça de teatro, essa seria classificada como uma tragédia”
(PARREIRA, 2007, p. 17). A peça é composta de três atos, sendo eles,
respectivamente, as perseguições, na maioria das vezes veladas; a demissão e, por
último, um rol de situações que só quem viveu esse tipo de assassinato psíquico
conseguiria compor o final.
Tim Field (2006), especialista inglês no tema assédio moral no trabalho,
escreveu sua própria história em três atos, aprendeu a lidar com o assédio moral
quando foi forçado a redigir sua própria carta de demissão: “Supere toda a falsa
percepção sobre assédio moral, como a de que se trata apenas de uma forma dura
de chefiar, ou de reorganização empresarial”. E ainda: “Aprenda o máximo que
puder sobre assédio moral no trabalho”.
Por ser educadora, a pesquisadora reportou-se à realidade escolar do Ensino
Fundamental, considerando que as experiências por ela obtidas nesse contexto
poderiam acrescentar a esse trabalho de pesquisa descrição real dos fatos
vivenciados. Ao percorrer uma trajetória profissional de um educador, é possível
detectar e comprovar situações em que esse se torna um sujeito passivo no
processo de assédio moral, no exercício da sua profissão. Desse modo, faz-se
necessário considerar a sugestão de Tim Field no sentido de identificar situações as
quais o indivíduo possa sofrer um assédio moral. Opressões, fobias, humilhações,
situações estressantes, desgastantes, provocadas por superiores com seus
subordinados, entre os pares, entre professores e o alunado, gerando sofrimento
aos envolvidos, são vivências comumente encontradas nas instituições escolares.
13

Não é difícil perceber que o desafio é uma constante num ambiente hostil e o
risco de resultados nocivos é sempre iminente. A indignação diante de todo esse
contexto despertou, na pesquisadora, o interesse pelo tema assédio moral no
ambiente profissional que gerou o título desta pesquisa: O assédio moral e suas
implicações psíquicas na vida profissional do docente. Visto que é fato essa
violência assombrar os corredores escolares, pode-se afirmar que suas
consequências são implacáveis. Os agravos à saúde das vítimas são inúmeros,
como síndrome de burnout, síndrome de Estocolmo, síndrome do stress pós-
traumático, síndrome do pânico, além da depressão, estresse, ansiedade etc.
Desse modo, torna-se complexo compreender o comportamento dessas
vítimas sem definir e conhecer essas implicações psíquicas. Para tanto, essa
pesquisa apresenta uma abordagem parcial dessas mazelas com o intuito de dar
suporte teórico ao educador para que ele mesmo previna contra essas ações
degenerativas. Ainda assim, pode-se afirmar que, em caso de a vítima já estar
passando por alguma, ou algumas dessas situações aqui discutidas, o simples fato
de ela reconhecer que é uma vítima e identificar as causas e consequências de sua
situação tanto física quanto psíquica, já apresenta um grande passo em direção à
resolução da situação conflituosa senão ao caminho da cura.
Através de pesquisas, pode-se observar que essa prática de perseguição,
apesar de antiga, começa a ser reconhecida. Convém ressaltar que a violência
moral é tão antiga quanto o trabalho. Para CODO (2007, p. 101):

A tradição judaico-cristã do Gênesis, confere ao trabalho o significado de


castigo e punição, imposto ao homem quando de sua expulsão do paraíso
(paraíso, também definido pela ausência de trabalho). Embora a época
patrística e escolástica tenha rompido parcialmente a unidade de valor
negativa, atribuindo ao trabalho também o significado de purificação e
salvação, o imaginário da sociedade ocidental conserva a concepção
judaico-cristã sobre a qual se consolidou.

Além de figuras como Joana D´arc, que formou um exército e defendeu a


França, foi perseguida e queimada viva. Cristo foi perseguido até ser crucificado. O
Holocausto, devido à intolerância racista de Adolf Hitler, gerando perseguição em
massa do povo judeu. Finalizando, entre inúmeros exemplos de perseguições em
tempos remotos, enfatiza-se aqui a figura de João Batista, seguidor de Cristo, que
foi decapitado. Sua presença incomodava e amedrontava o rei Herodes Antipas, da
Galiléia, e sua cunhada e amante Herodíades. Por incomodar os costumes do reino,
14

João Batista foi condenado à prisão. Ainda assim, suas palavras ameaçavam o rei e
sua corte. No aniversário do rei Herodes, este pediu a Salomé, filha de Herodíades
que dançasse para ele e em troca, poderia pedir o que quisesse. Salomé, ao
consultar sua mãe, pediu a cabeça de João Batista entregue numa bandeja, para
ofertá-la a sua própria mãe.
A sinopse desta ópera extraída do Evangelho nos revela que pessoas e
outros povos sofreram perseguições por motivos raciais, religiosos, por possuírem
terras e riquezas e até mesmo por motivos triviais. No ambiente inóspito de uma
instituição escolar, pode-se remontar as mais variadas situações de tortura,
perversidade, perseguições etc., vivida há séculos ante as condições desumanas a
que muitos profissionais da educação se sujeitam tornando-se escravos de um
sistema educacional destituído de valores humanos e eficácia. Professores a mercê
de uma cultura individualista onde o mando e desmando vindo de uma hierarquia, de
gestores e pais despreparados desvirtuam o que seria ideal para uma educação de
excelência.
Assim, pode-se perceber que os elos da filosofia escravocrata não foram
rompidos depois de cento e vinte e dois anos que nos separam da abolição da
escravatura no Brasil. Esse intervalo de tempo apenas transfigurou os terroristas de
outrora nos experts de hoje, que rompem os limites da humanidade e do que é
moralmente aceito.
Há de se considerar também que o advento da industrialização do século XIX
e a cultura do consumo de massa dos ingleses e norte-americanos, motivaram a
população do resto do mundo a se influenciar por valores hedonistas. Tem-se aí uma
sociedade narcisista, individualista e competitiva diante da consagrada dialética
trabalho e capital. Vê-se ampliada a possibilidade de uma crise existencial do
narcisista, ser que é incapaz de reconhecer sua culpa, porém numa busca constante
de absorver uma vítima para enaltecer sua auto-estima. Diante dessa postura,
ocorre o surgimento de uma sociedade industrial e capitalista, exigindo a criação de
novas relações de trabalho e sociais. As transformações advindas das novas
relações de emprego têm gerado a precariedade das condições de trabalho,
interferindo na dinâmica social como um todo de forma que as doenças
psicossomáticas podem emergir.
Perante o exposto, conclui-se que tais atitudes de perversidade não
desapareceram com a evolução da história da humanidade. O que mudou é que a
15

crueldade, o egoísmo, a mesquinhez, a intolerância e a frieza redundaram no que


chamamos de doença e o causador que só se revela para o seu alvo denominou-se
sociopata. Segundo o dicionário virtual Babylon, o transtorno de Personalidade Anti-
social é um transtorno descrito no DSM-IV-TR, caracterizado pelo comportamento
impulsivo do indivíduo afetado, desprezo por normas sociais e indiferença aos
direitos e sentimentos dos outros. Indivíduos com este diagnóstico são usualmente
chamados de sociopatas.
Portanto, no presente trabalho, optou-se por levantar e investigar quais as
principais implicações psíquicas do stress na vida profissional do docente em
escolas da rede particular e da rede pública de ensino fundamental. Mediante os
resultados das pesquisas apresentadas, notadamente, percebe-se a incidência do
assédio moral, suas variantes e os impactos desse terrorismo psicológico nos
docentes. A estrutura do presente trabalho dividiu-se em Introdução, Revisão da
Literatura, Objetivos Gerais e Específicos, Metodologia, Resultados (gráficos e
tabelas), Discussão dos Dados Coletados e Considerações Finais.
As implicações psíquicas do assédio moral na vida profissional do docente
são reais. Constitui um tema complexo, abrangente e instiga ser valioso objeto de
estudo e pesquisa para muitos estudiosos.
CAPÍTULO I - ASSÉDIO MORAL: HISTÓRICO E EVOLUÇÃO

1.1 Trabalho Docente

A escola foi concebida, a partir do século XV, como produtora de


modernidade. Segundo Krentz (1986) citado por Carlotto (2002), a partir de então, a
concepção de infância passou a ser o centro de preocupação e atenção devido ao
fato de o homem constituir um ser moldável e transformável. Conjuntamente,
emergiu um conjunto de procedimentos e técnicas para controlar, corrigir e
disciplinar os indivíduos, tornando-os mais dóceis e úteis. Assim, no século XVI, as
escolas, sob a tutela da Igreja, instrumentalizaram as camadas populares para a
leitura das sagradas escrituras, sendo o próprio clero o responsável por esta
atividade docente. A demanda extrapolou a condição do clero, surgindo a
necessidade de convocar colaboradores leigos, de forma a instituir uma profissão de
fé com juramento de fidelidade aos princípios da Igreja, o que deu origem ao termo
professor: pessoa que professa a fé e fidelidade dos princípios da instituição e se
doa sacerdotalmente aos alunos. Para Moura (1997), tem sido incorporado a essa
concepção, uma visão da prática do magistério de que o professor detém privilégios,
de maneira qualificada e autônoma, que o situa no campo do trabalho intelectual em
oposição ao trabalho manual.
Devido às propostas do taylorismo, que exigia uma nova organização da
experiência escolar, através da adoção de uma disciplina material, em detrimento da
doutrinação ideológica, de forma que gerasse nos jovens hábitos e comportamentos
mais adequados às necessidades das indústrias, instituiu-se o paradigma da
eficiência. Porém, a precariedade da organização escolar e dos processos
educativos, segundo Enguita (1989), correspondia à rudimentaridade da
organização dos processos produtivos do século XIX.
Dentre várias questões impostas pela nova organização do trabalho, algumas
foram especificamente formuladas aos professores: 1) desenvolver métodos
eficazes a serem seguidos pelos professores; 2) determinar, em função disso,
qualificações necessárias para o exercício da atividade; 3) capacitá-los em
consonância com as qualificações, ou colocar requisitos de acesso; 4) fornecer
formação permanente que mantivesse o professor à altura de suas tarefas durante
sua permanência na instituição; 5) dar-lhe instruções detalhadas sobre como realizar
17

seu trabalho; e 6) controlar permanentemente o fluxo do “produto parcialmente


desenvolvido”, isto é, o aluno (ENGUITA, 1989).
Desde então, essas questões vêm sendo discutidas no contexto educacional,
embora seja possível afirmar que, apesar de advindas da sociedade moderna, há
setores específicos da educação que ainda hoje não saíram do âmbito rudimentar. A
sociedade moderna apresenta uma crise da educação, cujos efeitos têm sido
devastadores no cotidiano escolar e na vida dos docentes, refletida como queixas e
sintomas diversos, revelando o profundo mal-estar que acomete os professores na
atualidade.
Em algum lugar da história percebe-se uma modificação no papel do
professor. A rápida transformação do contexto histórico tem aumentado as
responsabilidades e exigências projetadas sobre os mesmos.
Para Merazzi (1983), tais mudanças estão ligadas a três fatores
fundamentais: a evolução e a transformação da tríade família, ambiente cotidiano e
grupos sociais organizados, os chamados agentes tradicionais de socialização, que,
cada vez mais vêm renunciando às responsabilidades repassando-as às escolas; a
transmissão do conhecimento, papel atribuído tradicionalmente às escolas, tornou-
se modificado pelo aparecimento de novos agentes de socialização (tecnologias,
meios de comunicação e consumo cultural de massas etc.), que se converteram em
fontes paralelas de informação e cultura; por último, o conflito que se instaura nas
instituições quando se pretende definir qual é a função do professor, que valores,
dentre os vigentes na sociedade o professor deve transmitir e qual deve questionar.
O professor, nesse processo, depara-se com a necessidade de desempenhar
vários papéis, muitas vezes contraditórios, que lhe exigem manter o equilíbrio em
várias situações. Exige-se que seja companheiro e amigo do aluno, que lhe
proporcione apoio para o seu desenvolvimento pessoal, mas ao final do curso adote
um papel de julgamento, contrário ao anterior. Deve estimular a autonomia do aluno,
mas ao mesmo tempo pede que se acomode às regras do grupo e da instituição.
Algumas vezes é proposto que o professor atenda aos seus alunos individualmente
e em outras ele tem que lidar com as políticas educacionais para as quais as
necessidades sociais o direcionam, tornando professor e alunos submissos, a
serviço das necessidades políticas e econômicas do momento (MERAZZI, 1983).
Mediante o exposto, essas situações conflituosas no exercício do magistério,
acarretam um sofrimento contínuo daquele que se envolve da “película de
18

professor”, trazendo-lhe sequelas emocionais onde impera o mal-estar. Vendo-se


sufocados pelas exigências que a realidade educacional lhe impõe, esses passam a
manifestar sentimentos de inconformismo e desamparo que extinguem as
perspectivas positivas para se buscar soluções que propiciem um processo
educacional eficiente.

1.2 Regime Escravocrata e a Intolerância entre Humanos

Há uma tendência em considerar o assédio moral como comportamento


normal no quotidiano das organizações em geral, especificamente nas instituições
de ensino. Em contrapartida, tem-se uma particularidade sócio-cultural, facilitadora
do assédio moral que justifica esse tipo de comportamento, consequência do modo
de produção escravocrata no Brasil, segundo Aguiar (2003) citado por Tarcitano e
Guimarães (2004, p. 18):

Pedagogos e filósofos como Paulo Freire (1987) e Leonardo Boff (1999),


historiadores como Caio Prado (1972), Raymundo Faoro (1979), Sérgio
Buarque de Holanda (1984) e Darcy Ribeiro (1995), economistas como
Celso Furtado (1964) e Francisco de Oliveira (1990), sociólogos como
Florestán Fernandes (1978) e Otávio Ianni (1987), antropólogos como
Roberto DaMatta (1980; 1982; 1991) e Lívia Barbosa (1992),
administradores como Guerreiro Ramos (1996) e, mais recentemente,
Prestes Motta (1997), entre outros, todos coincidem em afirmar que a base
da cultura brasileira é o engenho, reconhecendo a relevância das relações
sociais estabelecidas na Casa Grande e a Senzala como foram relatadas
por Gilberto Freyre (1973) e indo mais além: a ambigüidade das relações
propiciou o “jeitinho brasileiro”, que faz com que o conflito seja omitido e a
situação dos privilegiados perpetuada. A convivência normal com as
relações hierárquicas caracterizadas por uma grande concentração de
poder faz com que seu abuso seja socialmente aceito. Desta forma, a elite
representante da “casa grande” continua a controlar e dominar a população
(FAORO, 1979), perpetuando nas organizações locais relações
paternalistas com envolvimentos ambiguamente cordiais-afetivos e
autoritários-violentos (PRESTES MOTTA, 1997) que poderíamos equiparar
com as fases da sedução perversa e manifestação da violência,
respectivamente, do assédio moral segundo Hirigoyen (200l).

Corroborando o autor, percebe-se que não foram rompidos os elos da filosofia


escravocrata depois de mais de cento e vinte anos que nos separam da abolição da
escravatura no Brasil. Maus-tratos e humilhações são praticados desde o início das
relações de trabalho, apesar de a expressão assédio moral ser recente nesse
universo. Os dois lados da referida relação servil faz com que o descontentamento
seja omitido frente à passividade da vítima e a situação dos dominadores se
19

consolide cada vez mais, gerando uma rotina de atritos, humilhações e


perseguições.
Pode-se observar que o ambiente laboral dos professores é contaminado,
quase que na sua totalidade, por uma mortal competitividade, envenenando e
despersonalizando os relacionamentos. É a banalização da injustiça social,
comparada à banalização do mal no nazismo. Para Dejours (2001), a sociedade
atual vive mergulhada numa crise ética, resultado da competitividade desenfreada e
das relações sociais precárias.
Dá-se, dessa forma, uma inquieta busca por qualificações, que ao mesmo
tempo em que gratifica, desestimula, pois acaba onerando o orçamento dos
professores, corrida inútil e desanimadora, num ambiente hostilizado. Porém,
selecionados pelo diferencial profissional e também por serem criativos e proativos,
os educadores tornam-se medíocres ao serem transformadas em robôs sem poder
de autonomia. Isso acontece devido ao fato de, muitas vezes, serem obrigados a se
resguardarem, vestirem-se de uma armadura, não opinando em situações as quais
gostariam, pontuar e sugerir a respeito de certos procedimentos de seus gestores,
alunos e pais, no sentido de promover melhorias que interfeririam no processo
educacional.
Mas, infelizmente, professores conscientes são mal vistos por terem
posicionamento, bom senso, opinião própria etc., uma vez que tal conduta pode
gerar desconforto em seus superiores que se negam a reconhecer que se é
construtivo formar parcerias entre gestores e educadores. Tal incômodo provém da
insegurança, por parte da gestão que se sente ameaçada pela competência de
quem faz a crítica. Para esquivar-se de tal situação, torna-se cômodo a criação de
barreiras mostrando que críticas indesejáveis são passíveis de advertências e
demissões, instrumentos esses utilizados como fontes de terrorismo psicológico
contra os professores.
Paralelamente a tudo isso, inicia-se a peregrinação pelo corredor da morte.
Fato é que, aquele que se manifesta ou discorda de seu superior, em alguns casos,
é repreendido tanto individualmente quanto na coletividade. Eis que nasce o famoso
“assédio moral”, arma poderosa nas mãos dos dirigentes que são protagonistas de
situações semelhantes ao holocausto, ou ao trabalho escravo.
20

Para que se compreenda melhor o exposto anteriormente, basta que se


repare a condição dos professores, tanto da rede pública quanto particular.
Discussões de questões pedagógicas deixam de acontecer com eficácia em
detrimento às insatisfações e lamentos dos professores. Cotidianamente, é comum
perceber conversas paralelas de inconformismos com o local de trabalho
decorrentes das inadequadas posturas de seus gestores, alunos, colegas,
funcionários, pais etc. Muitas vezes, impera-se pelos corredores das escolas, ou
salas dos professores, o som de diálogos relacionados a uma cadeia de decepções
mas que não são expostas a quem de direito possa ouvir, já que impera “a lei do
silêncio” determinada pelo medo de se perder o emprego.
Há que se ressaltar que, no caso das escolas públicas, esses profissionais,
quando concursados não perdem o emprego, porém podem ser transferidos de suas
instituições educacionais para locais de difícil acesso, ou simplesmente, colocados à
disposição de um órgão superior. Em alguns casos, esses professores também se
silenciam pelo medo da redução da carga horária.
Mediante tal perspectiva, a psiquiatra e psicoterapeuta Marie-France
Hirigoyen (2003), constatou em suas experiências que o mundo do trabalho torna-se
cada vez mais penoso, exigindo mais das pessoas, comprometendo assim, suas
condições psicológicas. Talvez fisicamente, o trabalho, hoje, seja mais leve, mas
psicologicamente é cada vez mais áspero e pesado. Por tratar-se de situações
muitas vezes subjetivas, diagnosticar o assédio moral é ainda algo intimidador e
complexo. Há, efetivamente, procedimentos que são destruidores, que podem ser
identificados, mas isto não é suficiente para dizer que se trata de assédio moral,
inclusive no que diz respeito a encontrar uma definição usada na lei.
Ainda nesse contexto, prevalecem os procedimentos perversos e ofensivos à
dignidade do professor, destruindo a sua auto-estima e trazendo consequências à
sua saúde. Muitas vezes, a pessoa é isolada pelos próprios colegas, perdendo a
confiança em si própria e não conseguindo mais se defender. Então, para os
interessados, fica mais fácil destruí-la. Mediante isso, pode-se afirmar que o assédio
é uma doença da solidão.
Para Hirigoyen (2003), a única solução para essa situação é a solidariedade
e a ação coletiva de amigos, colegas, familiares com o singular objetivo de ajudar o
assediado. A autora considera ainda, que o trabalho a ser feito nas organizações é
uma reeducação de valores que implica uma mudança cultural, incentivando a
21

prática do diálogo e a implantação de um código de ética e de conduta de todos os


empregados e chefias, baseado no respeito mútuo.

1.3 Gestão Perversa e Assédio

No assédio moral existe uma manipulação dos afetos e sentimentos e a sua


origem está na rivalidade, no ciúme, na concorrência, no trabalho cada vez menos
coletivo e no individualismo. Ele só existe porque as pessoas estão sós. Se há um
grupo que se defende, que reage, evitar-se-ia a destruição das pessoas. É comum
ouvir que os professores compõem uma classe desunida, criando assim, ambiente
propício para a prática do assédio moral, já que o posicionamento volúvel de alguns
professores, é moldado de acordo com a situação: “ora sou de esquerda, ora
pertenço à direita, depende do que é mais vantajoso”.
Falta de comunicação e falta de clareza nas informações são características
de uma gestão perversa. Confundir, causar mal-estar, rejeição, mostrar sentimento
de intolerância pela vítima, humilhar. O assédio começou e segue a todo vapor.
Nesse momento o assediador conta com a sua habilidade, quer se mostrar
produtivo, mesmo sendo o oposto. Procura conquistar a confiança dos superiores,
enquanto estes estão sempre muito ocupados. É inadmissível como que empresas e
grandes instituições sobrevivem estando tão ocupadas ao ponto de negligenciar o
foco causador dos males nos seus empregados. Mal estar, reclamações, cansaço,
disfarces, conversa de corredor, lamentos na sala dos professores, doenças,
atestados, licenças. As empresas devem estar atentas a isso! Mas os superiores
estão ocupados demais. Assim, o assediador aproveita a situação tentando sempre
confundir a vítima.

É necessário, portanto, distinguir a comunicação verdadeira e simétrica,


mesmo que gerada na esfera de um conflito, daquela comunicação
perversa, subliminar, sub-reptícia, composta de subterfúgios, porque esta é
uma das armas usadas pelo agressor para atingir sua vítima: "junção de
subentendidos e de não-ditos, destinada a criar um mal-entendido, para em
seguida explorá-lo em proveito próprio" (HIRIGOYEN, 2001, p. 117).

Parreira (2007) compara o assédio moral com o ciclo de toda violência: uma
fase em que a tensão é construída (sondagem do ambiente e estudo da vítima); a
fase em que a tensão vai crescendo (o assediado percebe que algo está errado,
22

mas ainda não sabe definir o que é e, por isso, não se previne); a fase em que a
tensão eclode e começa a perseguição, sempre sutil (atitudes hostis e crueldade são
engolidas pela vítima) e a fase de lua-de-mel (o assediador torna-se subitamente
bonzinho, minimiza seus atos para não estragar a própria brincadeira e tenta
confundir a vítima até por meio de seduções, sem apresentar qualquer
arrependimento). É justamente nessa última fase, em geral, que vítima pode sofrer a
síndrome de Estocolmo, que veremos mais adiante. E novamente, o ciclo recomeça.
Nesse recomeço, a vítima, esgotada, fica em estado de alerta, desarmando-
se durante a fase de calmaria e, enquanto isso, o assediador provoca situações
constrangedoras e de rivalidade dentro da sua própria equipe. Na verdade, a vítima
sente-se confusa, tenta descobrir o que há de errado e começa a achar que algo
errado está mesmo acontecendo, pensando que o erro é seu. Durante esse
processo, o assediador busca a confiança da vítima e, ao mesmo tempo, tenta
conquistar outros funcionários, estratégia sagaz, para desviar o foco do seu objeto
de brincadeira.
Assim, o jogo moral consolida-se e, consequentemente, a vítima começa a
apresentar sinais de stress, irritações, emotividade, distração, comportamentos
típicos de ansiedade. Nesse ponto, quem fica em evidência não é o assediador, mas
a vítima.
Diante disso, o assediador amplia o seu campo de atuação para atingir o seu
objetivo. Avaliações de desempenho precárias são algumas das ferramentas
utilizadas pelo sujeito do assédio, dando margem à destruição da vítima,
notificações por escrito (advertências) além dos argumentos verbais da chefia que
em muitos casos não é, ou não pode ser, questionada devido ao fato de a mesma
exercer um cargo de confiança.
Desse modo, a credibilidade da vítima está ameaçada e a mesma fica à
mercê de uma avaliação incoerente com sua real conduta. Consolida-se assim, a
gestão perversa levando o assediado a um mecanismo de autodestruição. Logo,
perverso é manipular as pessoas roubando-lhes o direito de conduzirem suas vidas
pacificamente, chegando a impedi-las moralmente de exercerem suas práticas
profissionais, ou desencadeando, nas mesmas, pensamentos de autodestruição.
Nesse contexto, pode-se afirmar que o objetivo do assediador foi concretizado.
23

1.4 Homogeneização das Pessoas

Hirigoyen (2001) constatou que as pessoas mais atingidas pelo assédio moral
eram as mais produtivas, motivadas e interessadas pelo trabalho, consideradas
como eficientes demais. Por serem marcantes nos grupos de trabalho, ou devido a
sua personalidade, alguns tipos de empregados são propensos a se tornarem vítima
de assédio moral. Segundo Hirigoyen (2002, p. 220), “certas pessoas correm o risco
de fazer sombra a um superior ou a um colega. A tentação de rebaixá-los ou afastá-
los pode então ser grande”.
Ainda nesse aspecto, Parreira (2007, p. 38) afirma que “um empresário de
ampla visão que queira montar uma empresa diferente e inovadora pode contratar
ex-vítimas de assédio moral para compor suas equipes. O resultado poderá
surpreender”.
Essa autora relaciona algumas características que compõem o perfil do
trabalhador-alvo do assédio moral como sendo pessoas que apresentam um bom
relacionamento interpessoal, bom humor, prazer em viver, criatividade, ética,
proatividade, competência no exercício de suas funções, honestidade em seus
apontamentos, exposição de seus posicionamentos sem o medo de correr riscos
desde que valha à pena, sendo considerado o politicamente incorreto.
Assim, o assediador não toma como alvo alguém que “não está nem aí para
nada” ou que não demonstre ter nada a perder.

Uma vez tendo sido vítimas de assédio, elas adquirem como que uma
resistência emocional. Adquirem resiliência. Palavra bonita, que chega pelo
sofrimento. Essa resistência emocional é acompanhada de um estado de
alerta que fica latente, no sótão das memórias, e que dispara um clima de
rejeição, manipulação e intenções maliciosas ao seu redor. Para quem já
viveu o problema, de uma próxima vez, não deverá haver tanto o elemento
surpresa (PARREIRA, 2007, p. 39).

Hirigoyen (2008), discutindo o assédio moral, em palestra realizada no


Sindicato dos Químicos do Estado São Paulo, questiona:

Então o que acontece? É um pouco como se no mundo do trabalho fosse


necessário que todo mundo seja igual, que todo mundo produza de um jeito
definido, que ninguém possa ser diferente dos outros, que todos tenham o
mesmo perfil, que todos sejam de certa forma, como clones, como pessoas
com a mesma formatação, com a mesma personalidade. Trabalhadores
homogêneos. Uma empresa composta de pessoas clonadas.

1.5 Assédio Moral


24

O assédio moral é uma forma de violência de recente identificação. Rastrear


casos na história da Humanidade talvez não seja tão difícil. Estudos comparativos
dos comportamentos dos animais favoreceram a constatação dos etólogos ao
observarem que agrupadas em manadas, certas espécies de animais hostilizavam
seus indivíduos mais débeis com a intenção de expulsá-los do grupo.
A identificação do fenômeno no âmbito das relações humanas foi feita pelo
pioneiro no assunto, o sueco, psicólogo do trabalho Heinz Leymann (1996), que
caracterizou como finalidade última de tal violência destruir as redes sociais da
vítima, acabando com sua reputação e provocando o afastamento das suas funções
laborais e desligamento da empresa.
Enquanto que para Leymann, o assédio moral gira sobre dados objetivos,
com atuação sistemática, recorrente e prolongada entre sujeitos com poder
assimétrico, a vitimóloga francesa Marie-France Hirigoyen, vincula o fenômeno do
assédio moral à perversidade humana, onde um indivíduo pode fazer o outro em
pedaços. É a forma dissimulada, subjetiva que ocasiona o verdadeiro assassinato
psicológico.
Uma incidência exagerada nos dados objetivos poderia descartar o assédio
quando a situação não persiste por, pelo menos, seis meses, ainda quando existam
outras evidências de que esteja ocorrendo uma situação perversa. Ao mesmo
tempo, obrigar a uma demonstração plena dos dados subjetivos poderia dificultar
significativamente a prova da situação da violência. Daí a necessidade de avaliar,
em cada caso concreto, os dados objetivos e subjetivos de forma complementar em
uma análise conjunta.
Muitas pessoas já foram vítimas de assédio moral, mas por desconhecerem a
sua real definição e forma de atuação direta ou velada, sofrem danos irreparáveis
sem buscar a solução para tal. Para identificar o assédio, é preciso, primeiramente,
tomar por base as principais definições que têm sido repetidas nos artigos, nos
projetos de lei e estudos acerca do tema. “Aprenda o máximo que puder sobre
assédio moral no trabalho”, segundo orienta Tim Field. E ainda: “Supere toda a falsa
percepção sobre assédio moral, como a de que se trata apenas de uma forma dura
de chefiar, ou de reorganização empresarial”.
Parreira (2007) relaciona três formas de conhecer o assédio moral. Primeiro,
ter vivido um tempo (que soa interminável), uma série de perseguições, humilhações
25

e rechaço. Ter conhecido a porta da rua do seu trabalho sem um aperto de mão e
sem saber por quê. Ter vencido maratonas à cata de provas, testemunhas, papéis –
e ter tropeçado em armadilhas seculares, ocultas pelo caminho, que exortam a não
prosseguir. Ter vivido um tempo em que nada parecerá fazer sentido. Reviver
lembranças, toda vez que é levado a narrar de novo a sua história. Os que
passaram por este caminho são os iniciados e convertidos pela dor. Ela ensina.
O segundo caminho seria ouvir, sem pressa, cada ínfimo detalhe das
passagens que a vítima de assédio moral tenha a lhe contar. Ouvir outras vítimas.
Entrar em comunhão com esses seres e recolher a sua história de perdas para
dentro das suas próprias memórias. Tornar-se como elas, por um momento,
Ninguém.
O terceiro caminho é o caminho do meio. É levar anos conhecendo e
buscando tudo o que já tenha sido descoberto sobre assédio moral. Ler e reler cada
obra escrita sobre o assunto. Trocar experiências e descobertas. Aprender a
descrever a indignação e o espanto com palavras. Quem passou por este caminho
terá chegado bem perto, mas terá sido salvo, isto é, retomar a conexão consigo
mesmo, independente de vitórias ou derrotas.
Quem já vivenciou situações de assédio moral aprende a perder o espanto
diante da perversidade. Passa a perceber que quebrar genes ou átomos e tocar o
solo da Lua deslumbram, ao passo que o ser humano não sabe conter seus
impulsos destrutivos ante o seu semelhante.
Para Parreira (2007), resmungar é uma prática do assediado. Mas resmungar
é pouco. Subir no ponto mais alto da fábrica, na janela do escritório ou da sala de
aula do último andar e dar nome às perversidades, num grito em busca da
dignidade, do respeito e da paz. Os resquícios por vezes rememorados da Senzala
poderão um dia acabar, para assim, o trabalho, em qualquer profissão, ser algo
digno e prazeroso de se fazer.

1.5.1 O que é assédio moral e o que não é


Para Parreira (2007, p. 49), o assédio moral pode ser relacionado, mas não
pode ser definido como:

 “uma doença” (ele é causador de doenças);


 “uma doença profissional” (idem);
 “um abuso de poder” (ele pode ser movido por abuso de poder);
26

 “uma patologia” (pode até ser a manifestação de uma patologia social e


individual, mas isso não o define);
 “um comportamento irracional” (embora esta definição conste da cartilha
da OMS – pois o assediador sabe o que está fazendo);
 “um dano moral” (ele causa danos morais).

Porém, a autora afirma que o assédio moral deve ser entendido e visto como
um crime, praticado por meio de ações perversas, intencionais, e por motivo banal.
Ainda que o assédio moral não fosse tipificado como crime, quando o assediador
utiliza de táticas como a calúnia, a injúria e a difamação, estas são, por si sós,
enquadradas como crime.
É salutar que os operadores do Direito tratem o assédio moral como um
crime, tipo penal, apto a ensejar indenização por danos morais e também detenção
ou reclusão do assediador. Talvez por omissão do assediado, deixando de buscar a
Justiça, as empresas não investem em prevenção, por acreditarem que apenas um
ou outro funcionário decida buscá-la. Assim, do ponto de vista do Direito, os
assediados contam com pouca proteção. Via de regra, as ações de assédio moral
focam apenas no caráter indenizatório. Mas na verdade, caracteriza-se crime.
Há ainda um projeto de Lei Federal substitutivo do PL n° 4742/2001 (que foi
apensado), sendo este PL n° 4.960 de 2001 que acrescenta o art. 136-A ao Decreto-
Lei n° 2.848/1940, o Código Penal Brasileiro, instituindo o crime de assédio moral no
trabalho, com redação:

Art. 136-A. Depreciar, de qualquer forma e reiteradamente a imagem ou o


desempenho de servidor público ou empregado, em razão de subordinação
hierárquica funcional ou laboral, sem justa causa, ou tratá-lo com rigor
excessivo, colocando em risco ou afetando sua saúde física ou psíquica.
Pena - detenção de um a dois anos.

1.5.2 - Os vários nomes dados ao assédio


Os primeiros estudos sobre a hostilidade no ambiente do trabalho, sob a ótica
organizacional, são atribuídos a Heinz Leymann, responsável pelo termo “mobbing”
na década de 80 de século passado. Aponta Parreira (2007, p.35) as expressões
mais utilizadas para a prática invisível: assédio moral, bossing ou bullyng (um
indivíduo age), mobbing (vários indivíduos agem), coação moral, emotional abuse,
employee abuse, genocídio, psicoterror ou terror psicológico, victimization, violência
psicológica ou moral, work abuse, acoso moral (Espanha), harassment (EUA),
assassinato psíquico, ijime (Japão), harcèlement moral (França), intimidation,
mistreatment, murahashibu (Japão).
27

1.5.3 Mas o que é assédio moral?


Hirigoyen (2001, p. 65) define o assédio moral como:

toda e qualquer conduta abusiva, manifestando-se, sobretudo por


comportamentos, palavras, atos, gestos, escritos que possam trazer dano à
personalidade, à dignidade ou à integridade física ou psíquica de uma
pessoa, pôr em perigo seu emprego ou degradar o ambiente do trabalho.

Assediar moralmente, segundo Barreto (2002, p. 2), é uma:

exposição prolongada e repetitiva a condições de trabalho que,


deliberadamente, vão sendo degradadas. Surge e se propaga em relações
hierárquicas, desumanas e sem ética, marcada pelo abuso de poder e
manipulações perversas.
O perverso do abuso do poder se estabelece sutilmente, através de
estratagemas, por vezes até sob uma máscara de ternura ou bem-querer. O
parceiro não tem consciência de estar havendo violência, pode até, não
raro, ter a impressão de que é ele quem conduz o jogo. Nunca há conflito
aberto. Se essa violência tem condições de se exercer de forma
subterrânea, é porque se dá a partir de uma verdadeira distorção da relação
entre o perverso e seu parceiro (BARRETO, 2000, p. 218).

E ainda:
No caso dos funcionários atingidos por ações perversas, acontece algo
semelhante: é preciso toda uma equipe multidisciplinar e engajada para
resgatar a vítima de assédio moral. A começar pelo peso das normas de
conduta de uma empresa e de sua equipe de “inteligência”, isso quando ela
é atuante, no sentido de pôr fim ao assédio (PARREIRA, 2007, p. 44).

Resultado de um conjunto de fatores, como por exemplo, a atual organização


do trabalho, marcada pela competitividade perversa, agressiva, invejosa e pela
opressão através do medo e da ameaça, o assédio moral nas relações de trabalho é
um dos problemas mais sérios enfrentados pela sociedade atual. Para identificar o
assédio é preciso reconhecimento da sua existência. Em seguida, vê-lo de forma
ampla, em sua totalidade, reunindo os episódios acerca de um mesmo caso, sem
ficar preso a um episódio isolado. Cabe à empresa querer identificar o assédio
moral. Em um ambiente organizado que irrompe uma situação de assédio, fica fácil
de ser resolvida. Ao contrário, percebe-se o caos total no ambiente laboral, pois já
que o problema persiste, é porque a cúpula diretiva permanece omissa.
Nessa perspectiva, o clima de terror psicológico na rotina de trabalho gera, na
vítima assediada moralmente, um sofrimento capaz de atingir diretamente sua saúde
física e psicológica, ambiente propício à predisposição ao desenvolvimento de
doenças crônicas.
28

De acordo com o enfoque abordado, jurídico, médico ou psicológico, existem


várias definições para o assédio moral. Juridicamente, o assédio pode ser
considerado como um abuso emocional no local de trabalho, intencional, que tem
por objetivo ocasionar o desemprego forçado, por meio de boatos, intimidações,
perseguições, agressão dissimulada, descrédito, abuso de poder, manipulação e
isolamento. Além de o assédio moral ser uma conduta contrária à moral, é também
antissocial, “o que contraria o ordenamento jurídico, pois viola o dever jurídico de
tratamento com respeito à dignidade e personalidade de outrem”.
Segundo Leymann (2005, p. 32):

Assédio moral é a deliberada degradação das condições de trabalho, por


meio do estabelecimento de comunicações anti-éticas (abusivas), que se
caracterizam pela repetição por longo tempo de duração de um
comportamento hostil que um superior ou colega(s) desenvolve(m) contra
um indivíduo que apresenta, com reação, um quadro de miséria física,
psicológica e social duradoura.

Nesse sentido, a psicóloga francesa Hirigoyen (2002, p. 17) conceitua:

O assédio moral no trabalho é definido como qualquer conduta abusiva


(gesto, palavra, comportamento, atitude...) que atente, por sua repetição ou
sistematização, contra a dignidade ou integridade psíquica ou física de uma
pessoa, ameaçando seu emprego ou degradando o clima de trabalho.

De acordo com Parreira (2007), o sequestro, o estupro, a pedofilia, o


Holocausto são situações visivelmente graves que podem ser comparadas ao
assédio moral. Numa situação de sequestro toda uma equipe se movimenta
espontaneamente para resgatar a vítima. Enquanto que no assédio, a vítima se
debate praticamente sozinha. No estupro, a vítima é invadida em seus mais íntimos
pensamentos, crenças e convicções. Além disso, a vítima de assédio moral, ela
própria tem que provar que está dizendo a verdade. Quanto à pedofilia, vê-se o
desnível entre o poder do predador e a fragilidade da vítima, onde o medo de
confessar impera. Por fim, o assédio moral é comparado ao Holocausto por ser uma
vergonha da Humanidade que abriu as portas da estigmatização, da exclusão, do
extermínio. Além da gravidade, o assédio conta com mais um obstáculo, pois é um
tipo de ação perniciosa invisivelmente grave. Para tanto, é mais difícil de ser
provado.
A agressão dissimulada do assédio moral não permite revide. A vítima é
desestabilizada, fazendo minar a baixa auto-estima o que provoca seu isolamento
29

como forma de auto-proteção. Essa nova atitude adotada, inconscientemente pela


vítima, vem agregar mais prazer para o assediador, já que este provoca
manifestações que vão contra a vítima, pois esta passa a ser vista pelos próprios
colegas como anti-social e sem espírito de cooperação. Esse ponto bate em
desfavor da vítima, que por sugestão do assediador, sai em busca da solução para
um problema que ainda não conseguiu absorver, adquirindo literaturas de auto-ajuda
e práticas para um bom relacionamento!
CAPÍTULO II - O ASSÉDIO MORAL E SUAS CONSEQUÊNCIAS À SAÚDE

2.1 Causas Geradoras da Conduta do Assediante e suas Consequências

A intensidade e a duração do terrorismo psicológico é que vão determinar os


sintomas apresentados pelas suas vítimas. Dentre as causas que geram a conduta
assediante, pode-se mencionar várias: deficiências na organização do trabalho;
precariedade de comunicação e informação interna; corrida pela competitividade e
lucratividade; ausência de uma política de relações humanas; rivalidade dentro do
setor; gerenciamento sob pressão para forçar a adaptação e a produtividade; inveja;
ciúmes e até mesmo a perversidade inerente a muitas pessoas.
No que dizem respeito à saúde, as consequências do assédio moral são
várias, principalmente se a violência prolongar por muito tempo. São depressões,
distúrbios cardíacos, endócrinos e digestivos, distúrbios psicossomáticos, sendo que
alguns são irreversíveis, culminando com o suicídio.
Além dos danos gerados à saúde do empregado, o assédio moral provoca
efeitos maléficos à sua personalidade. Logo, esses efeitos são projetados na
sociedade, por conduzir o assediado ao desemprego, uma vez que, muitas vezes, é
forçado a pedir demissão do emprego por não conseguir mais conviver naquele
ambiente. Em contrapartida, a vítima do assédio moral pode tornar-se um encargo
para o Estado, devido os benefícios previdenciários requeridos pela mesma, como
as licenças por tratamento de saúde que, podem estender-se por mais de seis
meses, dependendo do caso.
Nesse aspecto, a consequência econômica é bastante preocupante, não se
limitando à vida do empregado, mas tendo reflexos na produtividade e atingindo,
também, a sociedade como um todo, uma vez que mais pessoas estarão gozando
de benefícios previdenciários temporários, ou permanentes em virtude de sua
incapacidade laboral. Esses fatos têm, sobrecarregando a Previdência Social, sem
contar as perdas da própria instituição, pública ou privada, posto que o professor
tem queda na produtividade, dificuldade de interação com o grupo, falta de
motivação, além de absenteísmo, o que resulta em déficit para o empregador.
Em seu artigo intitulado Assédio moral - Diagnosticando as consequências,
Falkembach (2008), sugere, para melhor compreensão das conseqüências do
31

assédio moral, a subdivisão desse termo em: as conseqüências da fase


enredamento, as consequências específicas e as consequências a longo prazo.
Segundo a autora, as consequências iniciam com a sedução e terminam com
comportamentos de psicopatia. Porém, somente poderão ser interpretados quando a
vítima do terror psicológico tiver saído parcialmente do enredamento inicial e estiver
compreendendo a manipulação; entretanto, para chegar-se a essa fase, leva-se
tempo. Isso ocorre porque o assediado não se dá conta de que é realmente uma
vítima de mobbing, visto que a conduta dos assediadores, de repente, mudou.
Hirigoyen (2003) apud Falkembach (2007) menciona as consequências
iniciais da fase de enredamento: Renúncia: Ocorre como primeiro sentimento, uma
atitude de cessão mútua, a fim de evitar o conflito. O agressor desestabiliza a vítima,
utilizando o subterfúgio de toques indiretos, sem provocar abertamente o conflito,
enquanto a vítima se submete a situações desumanas, temendo conflitos maiores
rompendo de vez o vínculo ainda existente. A vítima percebe a impossibilidade de
negociação com o outro, preferindo, dessa forma, o acordo a arriscar-se na
separação. Nesta primeira fase, a renúncia permite manter o relacionamento, em
detrimento da própria vítima; Confusão: Ao se instalar o enredamento e o controle a
vítima tornar-se-á cada vez mais confusa, irrompendo o estresse; Dúvida: A vítima
desacredita do que está ocorrendo com ela, permanecendo perplexa, negando a
realidade do que ela não tem estrutura de ver; Estresse: À custa de uma
imensurável tensão interna, a submissão é aceita. Parece até ser algo involuntário.
O despendimento de energia da vítima possibilita não ficar descontente com o outro,
mantendo sempre o ar de que tudo está ocorrendo dentro dos padrões da
normalidade ética e humana; Medo: Nessa fase a vítima está sempre de prontidão,
apavorada, permanentemente em alerta, de uma maior rudeza nos gestos, de um
tom insensível, tudo podendo mascarar uma agressividade não expressa;
Isolamento: Essa é a fase em que a vítima duvida de suas próprias percepções, não
estando certas do que estão enxergando. Nessa fase, a vítima ainda não se
reconheceu como tal, mas mergulha-se numa situação de dúvida permeada de
conflitos, pois essa situação extremamente desgastante transforma sua rotina
laboral num tormento constante.
Das conseqüências percebidas pela vítima depois de superada a fase de
enredamento, originam-se outras, tais como: Choque: O choque se produz quando
as vítimas tomam consciência da violência, compreendendo que foram instrumentos
32

de ludíbrio e manipulação; Descompensação: Nessa fase, se torna limitada a


capacidade de resistência da vítima, evidenciando o enfraquecimento psíquico e
físico; Separação: Tendo em vista que o objetivo de se praticar o assédio moral é a
ruptura do vínculo empregatício, em grande parte das vezes a vítima é forçada pedir
sua própria demissão; Evolução: É a fase em que a vítima percebe que nada mais
tem a perder. Assim, não tem alternativa a não ser se livrar do terrorismo psicológico
provocado pelo agressor, travando outras batalhas: contra as adversidades físicas e
psicológicas ainda abertas e contra a hierarquia institucional que fechou os olhos
para o problema. Nessa fase, a vítima tem plena consciência de que a situações
degradantes e repetitivas são as causas de suas alterações emocionais. Agora
alguma providência deve ser tomada, seja denunciando os agressores às chefias
superiores ou desfazendo seu vínculo empregatício (HIRIGOYEN, 2002 apud
FALKEMBACH, 2007).
As conseqüências do assédio moral podem dar origem às neuroses e às
psicoses traumáticas além de levar ao estado de estresse pós-traumático, o qual
será visto adiante. Ainda é possível a ocorrência de outras, as quais atuam
diretamente no psicoemocional, causando transtornos, muitas vezes, irreversíveis.
Assim, pode-se citar: transtorno da ansiedade, estresse, depressão, distúrbios
psicossomáticos, desilusão; vergonha e humilhação, perda de sentido e
modificações psíquicas (HIRIGOYEN, 2002 apud FALKEMBACH, 2007).
Importante ressaltar que as conseqüências de quem sofreu assédio moral não
se limitam somente à saúde psicofísica. Gera repercussões sociais e econômicas,
pois acarreta a perda de confiança em si mesmo, tornando-se uma pessoa
desconfiada, desmotivada, gerando um sentimento de desqualificação, percebendo
a remota empregabilidade.

2.2 Entendendo o Aspecto Psicológico do Assédio Moral

A sua risada nervosa contamina o ambiente


Deram asas à cobra e a cobra voou,
e continua voando, espalhando seu veneno,
Agora chegou o teu momento,
Bicho peçonhento, tu vais me pagar...
É proibido ficar com pena
de ver a cobra voltar a se arrastar
33

Lugar de cobra é no chão


O céu é dos passarinhos
Que cantam lindas canções
Que alegram os corações
- Chico Buarque -

A percepção de que o trabalho pode ter consequências sobre a saúde mental


dos indivíduos é muito antiga. Pode ser encontrada no clássico “Tempos Modernos”
de Charles Chaplin – sensível à violência produzida pelas transformações
contemporâneas do taylorismo e do fordismo sobre os trabalhadores -, até nos não
menos clássicos estudos acadêmicos dos “pais” da Sociologia do Trabalho, Georges
Friedman e Pierre Naville (1962), onde relatam as conseqüências do trabalho em
linha de montagem (CODO; JACQUES, 2007).
Segundo Barreto (2000, p. 218) a humilhação “[...] é um sentimento de ser
ofendido, menosprezado, rebaixado, inferiorizado, submetido, vexado e ultrajado
pelo outro. É sentir-se ninguém, sem valor, inútil”.
Desse modo, o espaço da esfera educacional tem a marcante presença do
individualismo nas relações entre os pares, exercendo assim, uma função
desgastante e desarticuladora: "cada um sofre no seu canto sem compartilhar suas
dificuldades com um grupo solidário", explica Hirigoyen (2002, p. 26). Além do mais,
a exclusão por parte dos colegas é silenciosa, sutil e clara e a solidariedade cede
espaço ao abandono. Assim, a dor sentida não é compartilhada e nem
compreendida. Uma vez implantado o assédio moral com a dominação psicológica
do agressor e a submissão forçada da vítima, a dor e o sentimento de perseguição
não conta com a participação do coletivo restringindo-se apenas a esfera do
individual.
A vítima recai a uma condição degradante de mal-estar, sentimento de
menos-valia, auto-estima abalada e percebe a constante desqualificação a que é
submetida, atraindo o deslocamento de culpa, internalizando-a, fazendo-se achar
que realmente merece o que lhe aconteceu e que tem uma efetiva participação na
sua doença. Essa etapa coincide com as terríveis tentativas de solucionar o
problema. Cita Barreto (2000, p. 148) “a vida perde o sentido transformando a
vivência em sofrimento, num contexto de doenças, desemprego, procuras, medo,
desespero, tristeza, depressão e tentativas de suicídio”.
34

Ao começar sentir os sinais das doenças, a vítima se depara com outro


sintoma: a ocultação do problema. O temor da perda do emprego o faz sofrer
sozinho. Porém, adoecido, sem alternativa, apresenta constantes atestados, afasta-
se do trabalho para tratamentos, podendo chegar à demissão propriamente dita,
como consequência da sua inadequação aos padrões de produção da organização.
Vale destacar as situações muito comuns em que a vítima sofre sozinha e
ainda continua desempenhando suas funções laborais, sem apresentar atestados
médicos nem afastamentos para tratamentos das doenças, esforçando-se para
manter a aparência saudável, a produtividade e a eficácia que lhe são inerentes. O
fato é que o organismo entra em profunda debilidade e é inútil tentar reunir forças,
pois a exaustão física, mental, emocional e psicológica fica cada vez mais abalada.
Há relatos de professores que manifestavam mal-estar ao ter que sair de casa
para irem ao trabalho. Ou lá estando, apresentavam tonturas, fraqueza, dores no
estômago, náuseas, vômitos, desmaios e até convulsões. Mesmo afastando-se
desse ambiente, a vítima não se liberta totalmente do seu mal-estar. Não convive
mais diariamente com a prática da violência, mas carrega consigo toda a angústia
vivenciada no torturante período:

As agressões ou as humilhações permanecem inscritas na memória e são


revividas por imagens, pensamentos, emoções intensas e repetitivas, seja
durante o dia, com impressões bruscas, de iminência de uma situação
idêntica, ou durante o sono, provocando insônias e pesadelos (HIRIGOYEN,
2001, p. 183).

Ainda nesse sentido, Shakespeare disse em sua Comédia Much Ado About
Nothing: “Todo mundo é capaz de dominar uma dor, com exceção de quem a sente”.
Assim, só sabe quão amargo é caminho percorrido por uma vítima de assédio
moral, a própria vítima. Não foi à toa que Le Guillant (1984) em seus estudos sobre
a psicodinâmica do Trabalho, durante os anos 50 realizou as primeiras observações
sistemáticas que lhe permitiram estabelecer relações entre trabalho e
Psicopatologia.
É um longínquo caminho de dor, medo, traumas, fobias, doenças, desajustes
de toda a ordem. É um morrer a cada dia ou até mesmo, uma busca pelo auto-
extermínio. Para Barreto (2000, p. 242):

[...] quando o homem prefere a morte à perda da dignidade, se percebe


muito bem como a saúde, trabalho, emoções, ética e significado social se
configuram num mesmo ato, revelando a patogenicidade da humilhação.
35

2.2.1 O bem-estar na escola e os desafios da cultura


O ser humano carrega seus instintos a partir da sua herança biológica e
filogênica, e toda a possibilidade do desenvolvimento das funções psíquicas ocorre
na interação social e no aprendizado. É no contato com outras pessoas que o
professor se apropria dos valores culturais, que são direcionados para a satisfação e
bem-estar. Mas é no contato com os seus pares e superiores, que as frustrações
ocorrem, pois se depara aí com uma realidade que é restritora de muitos dos nossos
anseios. É a prática da convivência social que possibilita o ajustamento dos desejos
interiores de acordo com as possibilidades que o real estabelece. É aprender a lidar,
de maneira equilibrada, com os desejos dos outros indivíduos, com as perdas,
frustrações, egoísmo, de maneira pragmática.
Diante de tantos dilemas existenciais vividos por professores na sua rotina
laboral, a busca por saídas e estabelecimento de condições de prazer e bem-estar
nesse ambiente conflituoso é imprescindível. Na verdade, é uma questão de
sobrevivência. Para Silva (2006), o processo de resolução de conflitos é doloroso e
envolve questões cognitivas, morais e afetivas. Apatia, conformismo e omissão são
reações comuns para muitos. Certamente, vê-se a necessidade de elaboração de
estratégias de sobrevivência feita por indivíduos mais elevados que buscam formas
alternativas de paz e felicidade.
Alguns buscam soluções no uso de substâncias que propiciam sensação de
bem-estar momentânea como os calmantes, antidepressivos e as drogas lícitas e
ilícitas. Há ainda os que recorrem a buscas de satisfação nas atividades de
meditação, yoga, práticas orientais, métodos estes que possibilitam uma melhora no
equilíbrio mental, proporcionando sobremaneira mais tranqüilidade ao indivíduo, não
evitando, porém, que os conflitos com as instituições cessem ou diminuam. Já que o
contato com o ambiente que originaram seus conflitos faz o mal-estar reaparecer a
cada dia.
Para muitos, uma das formas teria caráter sobrenatural alcançada em outros
planos, com esperança de bem-estar e harmonização via linha teológica.
Contrapondo a esse ideal filosófico, (SILVA, 2006, p. 49-50) destaca que:

os estudos da ciência psicológica compreendem o dinamismo da mente


humana por uma perspectiva dicotômica de saúde e de doença, da
interação das condições ambientais e da psicogênese que formam a
personalidade idiossincrática de cada indivíduo.
36

E ainda: “devemos circunstanciar historicamente as instituições escolares e a


produção de subjetividade inserida nesse contexto”, pois pensar idealmente nesse
ambiente na sua tarefa específica de educar, relacionando esse ambiente à
felicidade, seria simplista demais. Dessa forma, Silva (2006) apud Freud (1974, p.
37) afirma que:

A atividade profissional constitui fonte de satisfação especial, se for


livremente escolhida, isto é, se, por meio de sublimação, tornar possível o
uso de inclinações existentes de impulsos instintivos persistentes ou
constitucionalmente reforçados. No entanto, como caminho para a
felicidade, o trabalho não é altamente prezado pelos homens. Não se
esforçam em relação a ele como o fazem em relação a outras possibilidades
de satisfação. A grande maioria das pessoas só trabalha sob a pressão da
necessidade, e essa natural aversão humana ao trabalho suscita problemas
sociais extremamente difíceis.

As necessidades e os níveis de aspirações dos docentes estão relacionados


com o enfrentamento do desprazer nas ações institucionais. Quando os processos
burocráticos se sobrepõem ao pedagógico, o envolvimento dos professores será
voltado para atender à instituição e não ao seu intento interior. Logo, o desprazer
pelo trabalho torna-se protagonista de suas relações profissionais colocando a
felicidade em segundo plano.
Atualmente, trocar felicidade por segurança tem sido uma realidade vivida em
muitas instituições de trabalho. Vale dizer que essa atitude, não dispensa reflexão
sobre o quanto representa o papel do trabalho na vida de um profissional, professor
ou não. Apesar de cada indivíduo procurar depositar suas esperanças de satisfação
e crescimento em todos os lugares, o trabalho, a remuneração e também o status
social têm seu lugar de destaque na vida de qualquer um, culturalmente falando.
Assim, uma perda salarial, a perda do emprego, tem o mesmo peso que se
acometer de uma doença crônica.

Um dos fatores mais preponderantes para analisar a felicidade está na


possibilidade que as pessoas têm de administrar seus conflitos. A felicidade
não está na ausência de conflitos, mas sim na boa administração deles. A
felicidade é crescimento psicológico [...] O processo de descentralização do
ego, a capacidade de transformação do egoísmo em altruísmo, coloca o
amor no centro de tudo (SILVA, 2006, p. 53-54).

Sabemos que papéis devem ser cumpridos diariamente no ambiente


institucional. Porém, analisando as culturas individuais, é possível prospectar grande
resistência, por considerável parte da equipe, no que se refere ao cumprimento
coletivo das metas estabelecidas por seus gestores. Outro fato a ser ressaltado é
37

que nem todos cumprem os papéis devidos, atrapalhando o curso comum dos ditos
perfeccionistas. Instituições formatadas dentro de padrões altamente hierárquicos e
regimentais podam os impulsos subjetivos de seus empregados por terem que
desenvolver o cumprimento de tarefas dentro de uma atitude excessivamente
formal, censurando os comportamentos, fazendo com que percam a autonomia e a
auto-crítica. Desenvolver um trabalho nesses moldes gera inibição da criatividade e
baixa auto-estima.
Assim, os comportamentos são baseados no medo da punição em detrimento
ao respeito à regra, como afirma Silva (2006, p. 56):

O ego dos indivíduos vê-se pressionado pelas ordens do superego da


institucional, provocando a repressão para o inconsciente dos desejos de
liberdade. O espaço de liberdade individual é substituído pelo espaço que o
coletivo instaura para alcançar os objetivos institucionais.
Sintomatologicamente, reações de regressões e mecanismos de defesa são
acionados. O stress toma conta do ambiente, as competições e rivalidades
exarcebam. Como uma criança imatura e reprimida, o grupo entra em crises
neuróticas.

Segundo esse mesmo autor, um grande desafio que requer bastantes


produções científicas seria a compreensão do fenômeno da patologia nas
instituições. E a escola é uma instituição que mantém uma missão fundamental para
a cultura. Melhoramos a cultura e a melhora do homem vem por acréscimo, já que o
indivíduo é fruto da cultura. O maior desafio da cultura é produzir satisfação,
felicidade. Para formar seres humanos mais éticos, autônomos, maduros e felizes,
precisamos construir e preservar instituições éticas, maduras e felizes. A ética deve
estar no espaço institucional escolar, pois sem ela não seremos felizes.

2.2.2 A instituição escolar e a saúde mental dos professores


Este tópico dedica-se a expor as manifestações psicopatológicas do trabalho
docente e explicar a cultura organizacional da instituição gerada nas relações
interpessoais e as relações entre as formas que essa organização se estrutura, já
que estas se relacionam diretamente com as manifestações psicopatológicas. Um
ambiente laboral hostilizado constitui-se de peculiaridades geradoras de estresse e
de alterações de comportamento daqueles que o executam, expondo, de maneira
permanente, os professores a uma degeneração progressiva da sua saúde mental.
Codo e Jacques (2007, p. 104) afirmam que:
38

Modos de ser e de trabalhar que se constituem em atributos da identidade


de trabalhador e que são explorados pela organização do trabalho como
formas de aumentar a produtividade mesmo que representem agravos à
saúde do trabalhador.

Analisando a posição dos autores e baseando-se nos estudos acerca do perfil


do assediado, nota-se que a vítima demonstra atos de bravura, causando o
chamado “fator humano”, encobrindo os fatores associados ao trabalho.
Silva (2006) cita em seu trabalho de abordagem diagnóstica da saúde mental
dos professores a contribuição de Hans Selye que investigou as manifestações do
stress do ponto de vista endocrinológico, possibilitando o desenvolvimento da
psicossomatização. Seyle estudou a fisiologia das células, dos sistemas de defesa
do corpo, das reações hormonais, representando uma abordagenm diagnóstica, de
que compõe esse capítulo.
Selye, conhecido como o Einstein da Medicina, teve uma vida de estudos,
escreveu trinta livros e mais de cento e cinquenta artigos para demonstrar o papel
das respostas emocionais que causam o maior desgaste experimentado pelos seres
humanos, conceituando sua teoria sobre o stress.
Há aproximadamente 40 anos, surge outro conceito de cunho médico,
elaborado especificamente para as manifestações do stress no trabalho. Essas
manifestações relacionam-se diretamente ao tipo de trabalho específico de
profissionais que mantém constantes relações com outras pessoas. Particularmente,
temos nos educadores, os profissionais mais afetados por essa realidade adversa,
que se manifesta pela sensação de impotência diante da realidade habitual, laboral
e pessoal, enraizando o nível de desestímulo e renúncia profissional.

2.2.3 Riscos psicossociais


Diferente do que se pensava há algum tempo, onde a qualificação de um
acidente de trabalho parecia estar reservada à perda da saúde física do trabalhador,
sabe-se agora, que o estado de saúde de uma pessoa depende tanto da saúde
física como da psíquica. Até porque, nenhuma lei obrigava considerar a perda da
saúde psíquica como uma enfermidade comum, já que os operadores jurídicos
vinculavam os acidentes de trabalho unicamente aos casos de perda de saúde
física.
39

Porém, estatísticas demonstram a importância dos riscos psicossociais como


geradores de enfermidades profissionais, sobretudo no ambiente laboral em que o
docente está inserido. O que antes era considerado genericamente como stress, se
estende hoje a uma gama vasta de patologias: estresse, síndrome de burnout,
síndrome do pânico, síndrome de Estocolmo, síndrome do stress pós-traumático,
doença dos nervos, depressão, ansiedade e fobias diversas. Os avanços mais
significativos na busca por identificar novas patologias estão relacionadas à violência
psíquica no trabalho, sendo exemplo prototípico o assédio moral.
CAPÍTULO III - DANOS PROVOCADOS PELO TERRORISMO PSICOLÓGICO

Em seu inicio, o stress é um mecanismo fisiológico de adaptação do


organismo a uma agressão, seja ela qual for. Nos animais, é uma questão
de sobrevivência. Diante de um agressor, eles tem que optar entre a fuga ou
a luta. Para um assalariado, essa escolha não existe. Seu organismo, como
o do animal, reage em três fases sucessivas: alerta, resistência e depois
esgotamento (HIRIGOYEN, 2001 p. 94).

3.1 Stress: os limites entre o suportar e o explodir emocionalmente

Estimulado por fatores externos desfavoráveis, o indivíduo sofre uma


descarga de adrenalina sendo que os órgãos mais prejudicados são o aparelho
circulatório e respiratório. Eis que inicia o processo de stress. Mas para que o
mesmo seja compreendido, faz-se necessário compreender seu conceito:

O que vem sendo denominado stress é um fato, existe, tem concretude,


dinâmicas e expressões diversas. Mas o conceito de stress não tem
densidade explicativa, não é heurístico. Primeiro, por sua própria natureza.
Segundo, pela poluição de uso a que foi submetido. Em seu sentido
fisiológico fundamental, stress denomina o processo de desadaptação-
readaptação que caracteriza o desenvolvimento dos animais, indicando
ação-reação de todo ser vivo às variações de estímulos do meio ambiente.
É conceito empírico, pois designa fato observável e mensurável. É conceito
genérico, pois designa ocorrência que atravessa a história da vida desde o
coacervado. Pelo empirismo e generalidade tem baixo poder heurístico, não
podendo explicar suas determinações e suas conseqüências (CODO;
JACQUES, 2007, p.158-159).

Deve-se considerar que o que representa fator de estresse para uma pessoa,
pode não ter o mesmo significado para outra. Este estudo, especificamente,
apresenta os fatores estressores ocupacionais, ou seja, problemas e tensões
provenientes do exercício da atividade profissional. A exposição contínua do
professor a riscos psicossociais afeta tanto a sua saúde física como a psicológica.
Nesse aspecto, Barstow (1980) apud CAMELO (2006), denomina o fator
gerador do stress de fator estressor, ou fonte de estresse. Esse autor diz que o
estressor pode ser algo negativo ou positivo, como por exemplo, uma situação que
causa um sentimento de alegria em demasia para o agente passivo do stress.
Portanto, segundo esse mesmo autor, o stress gera tensão, ansiedade, medo ou
ameaça, podendo provir de uma origem interna ou externa.
O Dicionário Aurélio define estresse como “um conjunto de reações no
organismo a agressões de ordem física, psíquica, infecciosa, e outras, capazes de
41

perturbar-lhe a homeostase”. Stress, ou estresse é, na verdade, uma noção tomada


da física, que significa tensão.
Para o médico canadense Hans Selye, o criador da moderna conceituação de
estresse, definiu o termo num sentido biológico, como um elemento inerente a toda
doença, que produz certas modificações na estrutura e na composição química do
corpo, as quais podem ser observadas e mensuradas. O estresse fisiológico é uma
adaptação normal; quando a resposta é patológica, em indivíduo mal-adaptado,
registra-se uma disfunção, que leva a distúrbios transitórios ou a doenças graves,
mas, no mínimo agrava as já existentes e pode desencadear aquelas para as quais
a pessoa é geneticamente predisposta. O que se torna um caso médico. Segundo a
colocação dada ao estresse por este autor, num congresso realizado em Munique,
em 1988, "o estresse é o resultado de o homem criar uma civilização, que, ele, o
próprio homem não mais consegue suportar". De acordo com Selye apud Filgueiras
e Hippert (1999):

Dessa forma, o stress não é diretamente observável, caracterizando-se


como o estado que se manifesta através da Síndrome Geral de Adaptação
(SGA). Esta, por sua vez, compreende principalmente a dilatação do córtex
da supra-renal, a atrofia dos órgãos linfáticos e úlceras gastrointestinais. A
SGA é então uma resposta não específica a uma lesão, que envolve o
sistema nervoso autônomo, podendo desenvolver-se em três fases.

Codo e Jacques (2007) exemplificam as três fases, salientando o parecer de


Selye, que o estresse está nas três fases, embora as manifestações sejam
diferentes ao longo do tempo. Seus efeitos podem manifestar tanto na área somática
quanto na cognitiva, aparecendo em sequência e gradação de seriedade à medida
que o individuo vai passando de uma fase à outra.
A primeira delas é a fase de alarme ou alerta, caracterizada por
manifestações agudas, com a liberação de adrenalina e corticóides. Nessa fase, o
organismo apresenta uma reação de luta, ou fuga em relação ao agressor, ou
reação de emergência em que todas as energias são mobilizadas diante de um
perigo externo. O organismo funciona de forma a manter a homeostase – manter o
meio interno num constante equilíbrio. A principal ação do estresse é justamente a
quebra do equilíbrio interno que ocorre devido à ação exacerbada do sistema
nervoso simpático e da desaceleração do sistema nervoso parassimpático em
momentos de tensão. Observam-se alguns sintomas, como: taquicardia, tensão
42

crônica, dor de cabeça, sensação de esgotamento, hipocloremia, pressão no peito,


extremidades frias etc.
A segunda fase da síndrome é a de resistência, em que o organismo usa suas
forças para manter sua resposta. Muitos sintomas físicos desaparecem, e há
manifestações de sintomas da esfera psicossocial, ocorrendo a sensação de
desgaste. Podemos citar: ansiedade, medo, isolamento social, roer unhas, oscilação
do apetite, impotência sexual e outros. A persistência dessa fase desencadeia uma
situação chamada de DISTRESS ou MAU STRESS, pois as estratégias de
adaptação adotadas são agressivas para o próprio organismo.
Quando o estressor é contínuo, temos a terceira fase, a fase de exaustão,
quando o organismo não consegue mais reagir e pode chegar à morte. Assim, o
organismo encontra-se extenuado pelo excesso de atividades e pelo alto consumo
de energia e ocorre a falência do órgão mobilizado na Síndrome de Adaptação
Local, iniciada na fase de resistência, que se manifesta através de doenças
orgânicas. Os sintomas dependem do comprometimento do órgão afetado e da
evolução da doença, podendo ocorrer a morte súbita.
O estresse pode ser considerado como a doença do terceiro milênio. Em
maior instância, pode ser considerado o assassino silencioso. “Para a vítima de
assédio moral, o stress é avaliado como algo extremamente desgastante, que
supera seus recursos de enfrentamento, tornando-se uma ameaça ao seu bem-
estar” (LAZARUS; FOLKMAN, 1984 apud CAMELO, 2006). Quando o professor se
depara com as situações ameaçadoras, que se tornam constantes passa por
sensações de medo, tristeza e solidão, ou seja, vivencia sentimentos carregados de
alterações comportamentais e orgânicas. Essas emoções desencadeiam alterações
fisiológicas, através da estimulação nervosa, interferindo diretamente na sua saúde.
Em algumas etapas da resposta orgânica ao estresse, pode haver influencia do
nosso aparelho psíquico como mediador da reação de estresse que será
desencadeada.

A preocupação com as questões do estresse relacionado ao trabalho e suas


implicações para a saúde do trabalhador data da revolução Industrial, época
do modelo ecológico de atribuição de causalidade das doenças, cujo foco
era a exposição do organismo a agentes físicos, químicos ou biológicos,
partindo da perspectiva multicausal atual dos fenômenos relacionados ao
binômio saúde-doença, França e Rodrigues (1997) apostam no referencial
teórico do conceito de estresse como um importante meio de se
compreender como os processos psicológicos e sociais influenciam na
manutenção da saúde ou na determinação das doenças. Estes autores
43

definem o estresse relacionado ao trabalho como “aquelas situações em


que a pessoa percebe seu ambiente de trabalho como ameaçador às suas
necessidades de realização pessoal e profissional e/ou sua saúde física ou
mental prejudicando a interação desta com o trabalho e com o ambiente de
trabalho, na medida em que este ambiente contém demandas excessivas a
ela, ou que ela não contém recursos adequados para enfrentar tais
situações” (FRANÇA & RODRIGUES, 1997 apud CODO; JACQUES, 2007,
p. 122).

O interminável período em que transcorre o terrorismo psicológico deixa o


professor assediado em estado de prontidão. Carregam dentro de si um nível de
ansiedade muito intensa o que faz com que tenha dificuldades de desfrutar de seu
tempo livre, seja no convívio com os familiares, seja no lazer ou na vida social. Na
verdade, quem é vitima de assédio não vê perspectiva de vida por onde quer que vá.
Não tem estímulo para desempenhar qualquer atividade e, quando decide sair um
pouco do contexto do trabalho, vê-se verbalizando tão e unicamente assuntos
acerca do seu trabalho com amigos e familiares.
É a lamentação e o sofrimento contínuos. É a ânsia e o desejo de alívio,
descarregar o peso, verdadeiro entrave para a passagem de ar livremente pelo seu
corpo que as imagens dos assediadores conseguiram obstruir. Incorre-se sobre a
invasão do espaço fora do trabalho por hábitos do trabalho. É a manutenção do
ritmo de trabalho durante fins de semana e férias, manifestando sensação de
irritação, angustia e mal-estar generalizado. “É o sofrimento psíquico, caracterizado
pela dificuldade do sujeito em operar planos e definir sentidos para a vida, aliada a
sentimentos de impotência e vazio, o eu sendo experimentado como coisa alheia”
(CODO e JACQUES, 2007).
Este tipo de comportamento e padrão de funcionamento mental propenso ao
estresse é muito valorizado e estimulado pela sociedade tecnológica industrializada,
pois produz verdadeiras “máquinas laborais”, com nível de rendimento profissional
elevado. Porém, estudos indicam que há uma relação desvantajosa entre ambientes
de trabalho altamente estressantes e esse padrão de comportamento. Isso ocorre
porque, nesse caso, os indivíduos são expostos a um risco maior de doenças
coronarianas, devido a importantes mudanças fisiológicas nos sistema cardíaco e
vascular. Tais mudanças ocorrem em função do aumento da produção de
substâncias como adrenalina e noradrenalina, da alteração da concentração de
gordura no sangue e do tempo de coagulação sanguínea (CODO E JACQUES,
2007).
44

Lipp (2002, p. 115) completa:

As glândulas supra-renais liberam dois hormônios em momentos de stress:


o cortisol e a adrenalina. Se o nível deles ficar alterado por muito tempo,
podem surgir: cansaço, dificuldade de concentração, ansiedade, perda de
memória, desinteresse sexual e tontura. Um sintoma que surge com
frequência é o da anedonia, que significa a falta de prazer e de entusiasmo.

Mediante o exposto, é possível dizer que o impacto do estresse na rotina


docente pode ser percebido através dos altos níveis de absenteísmo (atestados) e
rotatividade. Essa tensão aguda provoca mudança no comportamento físico e
estado emocional além de uma resposta de adaptação psicofisiológica que, em
grande parte dos casos, torna-se negativa ao organismo. O stress ocorre quando a
capacidade de adaptação do indivíduo é suplantada por eventos e sobrecargas
emocionais, muitas vezes no aspecto qualitativo. Na verdade esse processo é
quantitativamente insignificante e, na maioria das vezes, decorre de excessos e
tensões emocionais no âmbito profissional, sendo que as respostas e sintomatologia
dependem da personalidade de cada indivíduo, comenta Lima (1994).
Sérios problemas de estresse relacionados ao trabalho têm a ver com a
cultura organizacional e gerenciamento, por isso uma gestão que reflete ineficiência,
despreparo, falta de ética e profissionalismo pode tornar-se a agente
desencadeadora do stress. Nesse aspecto, esse contexto propicia a queda da
perspectiva dos funcionários, o desgaste progressivo, comprometendo a
performance do professor desmotivando-o, projetando assim, o surgimento de
doenças ocupacionais.

A profissão, que utiliza muito a atividade mental, com responsabilidade em


lidar com as pessoas e envolvida com os conflitos humanos, apresenta alta
associação com doenças do sistema cardiovascular. Além de diversas
outras manifestações e patologias, associada à sobrecarga de estresse
ocupacional, como prisão de ventre, diarréia, úlcera, gastrite, dores
musculares e na coluna, doenças de pele, coceiras, queda de cabelo,
cefaléia tensional, diminuição da libido, vertigens, asma, bronquite,
cânceres, entre outras (ALVES, 1992 apud CAMELO, 2006.)

3.1.1 Relatos de professores a título ilustrativo

Transcrevem-se, a seguir, depoimentos de professores, extraídos do


instrumento de pesquisa utilizado neste trabalho, ao sugerir que discorressem
acerca do tema “estresse” no trabalho. As descrições apontam consonância com a
literatura pesquisada, redundando em doenças que afetam a saúde dos professores,
45

acarretando males psíquicos, físicos e emocionais. A linguagem e os vocábulos


empregados nas descrições são mantidos, buscando expressar fielmente a
experiência relatada.

Relato 1
“Com 29 anos de experiência como educadora, há 2 anos me vi diante de
uma situação que mudou a minha vida profissional e pessoal. Apesar de
decepção que sofri em uma das escolas que trabalhava, continuo
exercendo minha profissão porque amo o que faço, porém, nunca mais fui a
mesma, tanto emocional como fisicamente.”

Relato 2
“Hoje, o professor perdeu seu valor e respeito. As instituições particulares
de ensino veem esse profissional como um robô, porque lhes é conveniente.
Para a instituição de ensino, não importa seu ponto de vista a não ser que
esse seja-lhe favorável. Outro fator que pesa muito e tem colaborado para
manter os educadores na condição de máquinas (ver o filme Tempos
Modernos – Chaplin) é o fato de que todos ou, quase todos têm medo de
serem demitidos, ao final de cada semestre, ou cada ano.
Quem é professor sabe do que falo: mês de dezembro – tempo de avaliação
e possível demissão: coordenação chama o infeliz para avaliá-lo. E aí? Será
que serei ou não demitido? Mas por quê? E eu? Não tenho forças para
avaliar minha chefia, a não ser pelo questionário hipócrita que a nós é
imposto. Digo isso, porque muitos colegas malham os coordenadores pelos
corredores, durante o ano, mas os elogiam em suas respectivas avaliações
ao final de cada ano, com medo de se indisporem com a chefia. Quer
saber? O DNA da ditadura sobrevive nas entranhas educacionais,
camuflado pelos discursos pedagógicos estressantes e incoerentes com a
realidade de sala de aula e semanas pedagógicas que dão cartõezinhos de
boas-vindas e beijinhos de Judas. Depois, somos malhados não somente no
sábado de Aleluia, mas em todos se possível. Apesar desse relato, é
necessário frisar que nem todas as instituições agem como tal; reconheço
que há lugares os quais tive o prazer de trabalhar que tratam seus
professores mediante as concepções que norteiam os recursos humanos.
Diante desse paradoxo, posso afirmar que ser professor não deixa de ser
um sacerdócio”.

Relato 3
“Acredito que o estresse no trabalho não é ocasionado apenas pelos fatores
agentes de riscos ocupacionais, físico e psicossociais. Muitas vezes
percebemos que os profissionais da educação escolheram essa profissão
por falta de opção, não pelo amor á profissão ou intuito de realização
pessoal.
Quando eu cursava Pedagogia na Universidade Federal, dos 60 alunos,
apenas 3 estavam na área por escolha pessoal, a maioria estava no curso
porque não tinham condições de pagar o curso de Psicologia na
Universidade Católica. Nota-se que as frustrações e pessoas arrependidas
de suas escolhas pessoais podem se tornar os principais agentes de
perturbações na vida profissional de outras pessoas.
A questão do status em nossa sociedade é muito cobrada. Profissões que
não garantem um bom status social são fatores que levam à discriminação,
desvalorização, desrespeito aos profissionais e, consequentemente,
estresse no trabalho.”
Relato 4
“Normalmente cedemos ou nos esforçamos para atenderas exigências por
vontade de corresponder e mostrar competência. Entretanto, muitas vezes,
46

despendemos mais energia do que deveríamos, levando a conseqüências


de estresse ou problemas de saúde.”

Relato 5
“Todo trabalhador deveria receber em seu ambiente de trabalho apoio
psicológico (especialista) para exercer suas funções.”

Atualmente, um dos grandes receios que assolam o professor assediado é o


fator empregabilidade. O profissional qualificado, eficaz, dedicado, estudioso, que
com seu empenho alcançou uma vaga, seja através de um concurso público, seja
por acirrado processo seletivo numa escola privada, não absorve a ideia de ter que
abrir mão do seu direito do vínculo empregatício em detrimento de uma perseguição
velada, terrorismo psicológico instigando seu desgaste psíquico até o seu pedido de
demissão. Assim, concorda Codo e Jacques (2007, p. 123):

A busca de um maior entendimento sobre as relações entre estresse e


trabalho é consonante não apenas com preocupações sociais, mas também
com interesses econômicos e mercadológicos mais amplos, pois um
trabalhador saudável e bem integrado ao seu trabalho terá mais chances de
desempenhar eficientemente o seu papel junto ao sistema produtivo. Queda
no nível do absenteísmo, no numero de licenças medicas ou aposentadorias
por doenças e acidentes profissionais, e principalmente manutenção ou
aumento da produtividade, são alguns dos objetivos organizacionais que
podem ser alcançados com a diminuição do nível de estresse dos
trabalhadores.

Para França & Rodrigues (1997) apud Codo e Jaques (2007), a situação de
desemprego pode ser considerada um forte agente estressor, porque além do fator
financeiro, reflete sobre a identidade social do professor, construída basicamente em
sua inserção no mundo do trabalho. É um contexto que denota grande fragilidade
emocional, devido à perda da auto-estima e auto-conceito que estão relacionados
aos papéis e funções profissionais, de forma que essa situação acaba surtindo
efeitos sobre sua identidade pessoal. Isso vem provar que o trabalho é um
importante fator para o saudável desenvolvimento emocional, moral e cognitivo do
professor. A falta dele, na situação de desemprego, pode significar a perda do seu
lugar no sistema produtivo, a necessidade de reestruturação da sua identidade
pessoal e de reorganização espaço-temporal da sua vida.
Por fim, está apresentado a seguir, um quadro de referência de aspectos ou
conjuntos de variáveis com que os produtores de conhecimento deveriam se ocupar
para que fosse mais bem conhecida a relação estresse-professor. Investir na
pesquisa das variáveis relacionadas poderia auxiliar na redução dos efeitos
47

negativos do estresse, assegurando melhor qualidade de vida no contexto


educacional (LIPP, 2002).

Aspectos que podem ser fontes estressoras para o docente.

Figura 1: Aspectos que podem ser fontes estressoras para o docente.


Fonte: LIPP (2008, p. 129)

Lipp (2008) utiliza a figura 1 para referenciar os aspectos com que os


produtores de conhecimento deveriam se ocupar para que fosse mais bem
conhecida a relação estresse-professor. Para a autora, pesquisar todas as variáveis
asseguraria melhor qualidade de vida no meio educacional. O sistema, o estilo de
liderança, a personalidade do gestor, pode gerar climas de trabalho adversos,
provocando estresse com conseqüências negativas. Um coordenador imposto ou
autoritário pode criar um clima organizacional inadequado, opressor, gerando
estresse no professor e nos alunos. Consequentemente, cai a qualidade do ensino,
e o clima de sala de aula fica ruim.

3.2 Síndrome de Burnout


48

“Burnout, uma conseqüência de stress crônico que se caracteriza por uma


exaustão física, emocional e mental”, conceitua (LIPP, 2002, p. 64).
O termo burnout surgiu pela primeira vez na década de 40 por militares e
engenheiros mecânicos para designar uma pane geral em turbina de jatos e outros
motores. Posteriormente, no final da década de 60, a gíria foi utilizada por
profissionais da área de Saúde para designar o estado extremamente debilitado e
comprometido dos usuários de drogas. Sem energias, exaustão, sem fogo,
semanticamente o significado de Burnout.

A Síndrome de Burnout afeta, principalmente, profissionais da área de


serviços quando em contato direto com seus usuários e em atividades de
cuidado. Como clientela de risco, são apontados os profissionais de saúde e
educação, policiais e agentes penitenciários, entre outros (CODO;
JACQUES, 2007, p. 201).

Burnout ocorre em trabalhadores motivados, que reagem ao stress laboral


trabalhando ainda mais. Ao comparar-se o que o trabalhador investe no trabalho e
aquilo que ele recebe, ou seja, os resultados obtidos, é possível observar uma
discrepância acentuada.
Assim definida por Codo (1999) como a “Síndrome da desistência do
Educador, o termo Burnout é uma composição de burn que significa queima e out
que significa fora ou exterior, aludindo ao desequilíbrio físico e emocional, o que
significa um revide ao estresse ocupacional crônico, não devendo ser confundido
com o stress, que é uma das causas.

O burnout (“consumir-se em chamas”) é um tipo especial de stress


ocupacional que se caracteriza por profundo sentimento de frustração e
exaustão em relação ao trabalho desempenhado, sentimento que aos
poucos pode estender-se a todas as áreas da vida de uma pessoa. Esse
fenômeno do burnout foi pesquisado e estudado em relação aos
professores e a situações de ensino mais do que em relação a outras áreas
profissionais, o que talvez indique que o trabalho do professor é visto como
oferecendo condições propícias ao desenvolvimento do burnout. Começa
com uma sensação de inquietação que aumenta à medida que a alegria de
lecionar gradativamente vai desaparecendo. [...] É uma erosão gradual, e
frequentemente imperceptível no início, de energia e disposição, como
consequência de um stress crônico e prolongado, ou melhor, de uma
incapacidade crônica para controlar o stress. [...] o burnout não ocorre de
repente;é um processo cumulativo, começando com pequenos sinais de
alerta, que, quando são percebidos, podem levar o professor a uma
sensação de quase terror diante da ideia de ter que ir à escola (LIPP, 2002,
p. 64-65).
De acordo com Hirigoyen, a vítima que sofre dano de assédio moral passa
pelas fases de alerta, de resistência e esgotamento. Nesse último estágio, a vítima
49

apresenta nítido desinteresse pelo trabalho, extrema fadiga e entra em estado de


exaustão. O professor, outrora criativo, dinâmico, motivado, proativo, manifesta
nitidamente o seu desgaste e decadência física-psico-emocional. A simpatia pelos
alunos é fragilizada, a frustração se os alunos apresentam baixo desempenho o
desestabiliza por completo e torna-se infalível a perda de interesse no preparo das
aulas, elaboração de projetos, até porque qualquer ideia nova não é levada a sério
pela chefia e a interação com os colegas não acontece como antes, o que contribui
para o ostracismo.
Segundo Guglielmi & Tatrow (1998) apud Carlotto (2002), burnout em
professores incide negativamente na obtenção de objetivos pedagógicos, criando
um processo de desumanização e apatia, o que resulta em problemas de saúde e
absenteísmo, além da intenção de abandonar a profissão.
Nesse sentido, Iwanicki & Schwab (1981) e Farber (1991) apud Carlotto
(2002), observam que a severidade de burnout entre os profissionais de ensino já é,
atualmente, superior à dos profissionais de saúde, o que coloca o Magistério como
uma das profissões de alto risco.
Também em outro aspecto, a tensão entre a necessidade de estabelecimento
de um vínculo afetivo e a impossibilidade de concretizá-lo é uma característica
estrutural dos trabalhos que envolvem cuidado. O sentimento de exaustão
emocional vem do desgaste provocado por essa tensão. O esgotamento pode ser
observado quando o profissional, mesmo querendo, percebe que já não pode dar
mais de si afetivamente. Essa situação causa sofrimento e denota exaustão
emocional. O desgaste diário ao qual é submetido no relacionamento é grande –
relação assediado e assediador.
O burnout é uma tentativa de afastar a pessoa da coação, de despertar um
olhar mais introspectivo a fim de repensar a própria vida. Os profissionais que
chegam ao burnout são pessoas eficazes, disciplinadas, muito responsáveis,
perseverantes e estáveis. São pessoas de alto nível profissional, que cobram muito
de si mesmas, convergindo para um perfil perfeccionista, o que as impedem de
enxergar caminhos alternativos em termos profissionais, entrando em stress
ocupacional, despersonalização (“não quero mais”), esgotamento emocional (“não
posso mais”), baixa implicação subjetiva ao trabalho (“não importo mais”), baixa
realização pessoal no trabalho, auto-avaliação negativa, sentimento constante de
infelicidade, agrupamento de sentimentos de frustração, exaustão emocional, entre
50

outros, o que pode acarretar doenças físicas, psicossomáticas, depressão e


psicopatias.

3.2.1 Passos para o desenvolvimento do burnout

Figura 2: Passos para o desenvolvimento do burnout.


Fonte: LIPP (2008, p. 65).

Para Lipp (2002), várias fases sucedem o burnout como: 1) Idealismo: a


energia e o entusiasmo do professor são ilimitados; a escola constitui o fator mais
importante na vida do professor. 2) Realismo: as expectativas iniciais foram
irrealistas e estas são percebidas pelo professor; o reconhecimento é escasso, o
trabalho aumenta e o professor se torna cada dia mais cansado e frustrado,
começando a questionar a sua competência e habilidades para ofício, perdendo
autoconfiança. 3) Estagnação e frustração, ou quase burnout: o entusiasmo e
energia iniciais se transformam em fadiga crônica e irritabilidade em relação a
colegas e alunos. Mudam os hábitos e podem ocorrer comportamentos de fuga,
como atrasos e faltas. O professor torna-se cada vez mais frustrado, culpando os
alunos, colegas e hierarquia pelas suas dificuldades. 4) Apatia e burnout total: o
professor tem a sensação de desespero, fracasso e perda de auto-estima e
autoconfiança, torna-se depressivo, sentindo-se só e vazio. A vida perde o sentido e
um pessimismo paralisante sobre o futuro se instala. Incorre o desejo de abandonar
o trabalho, sentindo-se exausto física e emocionalmente. 5) O fenômeno fênix:
51

apesar de remota essa fase, é possível para o professor ressuscitar como uma fênix
das cinzas de um burnout.
Alguns professores não chegam à quinta fase, pois deixam a profissão por
não conseguir lidar com os fatores estressantes. Os que permanecem, vivem a
contar os dias que faltam para os fins de semana, para as férias, para a
aposentadoria. Os que continuam na profissão se habilitam a enfrentar o burnout,
com expectativa mais realista a fim de obter mais equilíbrio em sua vida (LIPP,
2002).

3.2.2 Identificando o burnout


De maneira geral, o professor sente-se emocional e fisicamente exausto, a
irritabilidade, ansiedade, raiva e tristeza são freqüentes na sua lida diária. Isso leva a
uma frustração emocional, desestabilizando a convivência familiar e social,
ocasionando sintomas psicossomáticos, como insônia, úlceras, dores de cabeça e
hipertensão, em alguns casos, o abuso no uso de álcool e medicamentos.
Os sinais gerais indicativos de burnout estão listados no quadro abaixo. Se
faltar mais de nove, o professor pode ser um candidato em potencial a caminhar em
direção ao burnout.

SINAIS GERAIS INDICATIVOS DO BURNOUT

Ultimamente, no meu trabalho, tenho percebido ou sentido falta de:


___ 1) alegria ____ 10) humor
___ 2) entusiasmo ____ 11) concentração
___ 3) satisfação ____ 12) motivação
___ 4) interesse ____ 13) energia
___ 5) autoconfiança ____ 14) encantamento
___ 6) ideias ____ 15) ideias criativas
___ 7) iniciativa ____ 16) capacidade para resolver problemas
___ 8) tolerância ____ 17) confiança nos outros
___ 9) organização ____ 18) prazer
Figura 3: Sinais gerais indicativos do burnout.
Fonte: LIPP (2008, p. 67).
Além de verificar os sintomas do quadro acima, o professor pode verificar se o
burnout está presente em sua vida, respondendo o teste a seguir, formulado pela
professora Alexandrina Meleiro, segundo Lipp (2008, p. 68).
52

3.2.3 Síndrome da exaustão no trabalho- burnout


Leia com atenção e assinale a primeira resposta que vier a cabeça, pois ela
corresponderá ao seu verdadeiro estado emocional.

STRESS NO TRABALHO sim não


1- Você tem evitado contato com as pessoas?
2- Há dificuldade de desligar-se do trabalho quando está fora dele?
3- É difícil repartir as responsabilidades, pois você está cercado de incompetentes?
4- Sente-se ansioso e inquieto na maior parte do tempo?
5- A falha na memória está prejudicando seu desempenho nas atividades diárias?
6- Você não consegue deixar seu celular (ou BIP) desligado?
7- Sua agenda está excessivamente sobrecarregada diariamente?
8- Sente dores de cabeça quase todos os dias?
9- Perde o controle no transito com freqüência e sem motivo?
10- A exigência e a perfeição são suas constantes companheiras?
11- O barulho durante o trabalho deixa-o irritado?
12- Tem dificuldade para dormir?
13- Há mais de dois anos que você não tem férias de verdade?
14- Sua pressão arterial tem se alterado?
15- Tem sensação de cansaço ao despertar?
16- Vive irritado com tudo e com todos?
17- É difícil priorizar por qual trabalho começar?
18- Fica angustiado em pensar que vai para o trabalho?
19- Sente-se desconfortável ou com remorso quando não está fazendo nada?
20- Atropela os horários sentindo-se sempre afobado?
21- Tem estado inseguro na hora de tomar decisões?
22- As dores nas costas aumentaram muito?
23- Aproveita o horário do almoço para resolver problemas de trabalho?
24- Tem vontade de explodir com seu chefe (ou com seu subalterno)?
25- Você sonha frequentemente, com coisas relativas ao trabalho?
Figura 4: Síndrome da exaustão no trabalho – burnout
Fonte: LIPP (2008, p. 68).

Some os pontos considerando um ponto para a resposta que você assinalou SIM e zero para a NÃO.
Se você obteve:
De 0 a 8 pontos (sim): você está conseguindo enfrentar de modo saudável seu trabalho; a sua probabilidade de
sucesso profissional é grande; a determinação em suas atitudes diárias é benéfica; esteja alerta quando sentir que
algo mudou.
De 9 a 17 pontos (sim): sua vida está ficando complicada;o trabalho não lhe traz gratificação;reveja o que pode
ser mudado, pois ainda é tempo. Você tem que planejar melhor suas atividades e lembrar que merece descansar,
ter lazer e descontrair-se.
De 18 a 25 pontos (sim) : É necessário mudar muito o comportamento diante do trabalho e da vida. Você tem
dificuldades de enfrentar situações e colocar limites para as pessoas e para você mesmo. Pare e reflita enquanto é
tempo. Sua saúde poderá ter sérios abalos, tanto no campo físico quanto emocional. É aconselhável que você
procure ajuda de um profissional para diminuir seu stress no trabalho.
Para Lipp (2007), há diversos questionários que ajudam a detectar e a
determinar o grau de burnout de um profissional. O instrumento mais utilizado para
53

medir o burnout de professores em diversas partes do mundo é o “Inventário de


Burnout de Maslach” (Maslach Burnout Inventory), já validado para uso no Brasil.
Esse inventário divide-se em três partes: exaustão emocional,
despersonalização e realização pessoal. Cada item é avaliado duas vezes: quanto à
frequência e quanto à intensidade. Pessoas com alto escore em “exaustão
emocional” e “despersonalização” e baixo escore em “realização pessoal” estarão
com burnout mais acentuado. Nesse teste, o burnout é medido por um continuo, e
não como simplesmente ausência ou presença de burnout.
Lipp (2007) destaca ainda que burnout é uma síndrome multifatorial resultante
da conjugação de fatores internos (vulnerabilidades biológicas e psicológicas) e
externos (ambiente de trabalho). Diante da existência de assédio moral, esses
fatores podem ser interpretados negativamente, como uma ameaça a auto-estima
do professor e, se esse não dispõe de técnicas eficientes, poderão levá-lo a
desenvolver a síndrome com seus sintomas típicos de exaustão física, emocional e
mental. Os instrumentos de pesquisa utilizados neste trabalho demonstram casos
em que professores se afastaram do ambiente de trabalho por algum tempo, a fim
de diminuir a exaustão e estresse. Também, casos em que o afastamento temporário
não bastou para retomar a vontade de prosseguir naquele ambiente e naquela
profissão.
Segundo Lipp (2008), essa complexa relação pode ser representada
esquematicamente da seguinte maneira:

Passos para o desenvolvimento do burnout


54

Figura 5: Passos para o desenvolvimento do burnout.


Fonte: LIPP (2008, p. 72)

Diante do exposto, pode-se concluir que a Síndrome de Burnout, conhecida


como a Síndrome do Esgotamento Profissional (CID 10:Z73.0), atrelada à forma
perversa de violência, ao assédio moral, representa uma das consequências mais
marcantes do estresse profissional. Logo, essa síndrome está intimamente ligada às
formas autoritárias e rígidas de gestão escolar que não garantem o suporte mínimo
necessário para que docentes possam trabalhar em condições dignas, garantindo
saúde e bem-estar.

3.3 Doença dos Nervos

A vivência subjetiva das condições de trabalho que causam agravos à saúde


expressa-se em queixas e sintomas psíquicos, de forma geral, agrupados e
rotulados de doenças dos nervos (CODO e JACQUES, 2007).

O DSM-IV (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais –


IV edição) reconhece a expressão “doença dos nervos” ou simplesmente
“nervos” como um termo comum para a expressão de sofrimento entre
latinos, correspondendo a um estado de vulnerabilidade geral frente a
circunstâncias e experiências ansiogênicas. Segundo o referido manual, o
termo “nervos” inclui uma ampla faixa de sintomas como cefaléias,
irritabilidade, perturbações estomacais, dificuldades com o sono,
inquietação, incapacidade para se concentrar, tremores,, sensações de
formigamento pelo corpo, tonturas, entre outros. Registra como uma
55

síndrome ampla entre as síndromes ligadas à cultura, com apresentações


semelhantes aos transtornos de ansiedade, depressão, histeria ou psicose e
cujo diagnóstico diferencial dependerá da constelação de sintomas
experimentados, acontecimentos sociais associados com o inicio e com a
evolução dos sintomas e com o nível de incapacitação experimentado. A
inclusão dessa síndrome no DSM-IV representa o reconhecimento das
particularidades socioculturais no adoecimento psíquico rompendo o
etnocentrismo implícito na classificação das doenças mentais. No entanto,
pode vir a se constituir em mais uma justificativa para a desvalorização dos
povos latinos por suas “excentricidades” e, portanto, deve-se ter cautela no
seu emprego quando do diagnóstico de adoecimento psíquico (CODO;
JACQUES, 2007, p. 100).

Nosso contexto sociocultural possui uma representatividade da classe


trabalhadora peculiar ao próprio conceito da palavra trabalho, favorecendo a
associação entre “doença dos nervos” com situações conflitivas. Com relação ao
conceito, a origem da palavra, do latim tripalium, refere-se a um instrumento agrícola
de cultura de cereais, também utilizado como instrumento de tortura. A origem
etimológica reforça o contraditório do trabalho: de um lado, a expressão do poder
humano de transformar a natureza através de uma ação significada e de outro,
expressão de seus limites enquanto humano visto a necessidade de labutar para
sobreviver. Também a tradição judaico-cristã, confere ao trabalho o significado de
castigo e punição, imposto ao homem quando de sua expulsão do paraíso (CODO;
JACQUES, 2007).
Muitas vezes, o distúrbio psíquico é mantido como questão de sobrevivência
para se evitar confronto com o cotidiano de trabalho. Mas sabe-se que um professor,
após um período recorrente de assédio moral, se expressa cognitivamente
fragilizado além do que, as tensões nas relações com suas chefias promovem a
exclusão silenciosa. Consequentemente, o seu poder de concentração e raciocínio
cai drasticamente. Também é possível observar que a irritabilidade e crises nervosas
ocorrem com mais frequência no dia a dia do assediado. Enquanto isso, o
assediador aguarda o momento para agir, tomando o abalo emocional como algo
que vai contra o professor.
A partir desse momento, o ataque do assediador é letal: esse aproveita da
vulnerabilidade psíquica do assediado rotulando-o, sem a mínima ética, de
“estressado”. Importante é dizer que, se o agente passivo do assédio já está
moralmente fragilizado, não se torna difícil o mesmo acreditar que ele é protagonista
de seu próprio mal-estar. Portanto, esse rótulo cai-lhe sobre a alma como um ácido
que dissolve sua auto-estima e o pouco de controle emocional que ainda lhe resta.
56

Outro fato a ser acrescido ainda é a possibilidade de o assediado passar a ser visto
como uma pessoa estressada e chata pelos próprios colegas de trabalho. Diante
disso, observa-se que o contexto laboral torna-se ainda mais nocivo a esse
trabalhador.
Além de todas essas consequências negativas, há de se ressaltar a perda,
pelo menos parcial da memória sendo que ela é uma das funções mais afetadas
durante o processo de assédio moral. Torna-se recorrente os esquecimentos e
distrações e, como o assediador desestabiliza a vítima, ela é tomada por confusão,
pois a percepção, a atenção, a concentração ficam prejudicadas.

3.4 Síndrome de Estocolmo

A Síndrome de Estocolmo consiste num instinto de sobrevivência, o que faz


com que a vítima tente satisfazer o assediador, para tê-lo a seu lado. O processo
dessa síndrome é considerado como uma técnica inconsciente de distraimento e
significa uma tentativa de negar o ato violento para não se render a ele.
Nesse caso, a mente do assediado fabrica uma estratégia ilusória para
proteger sua psique contra situações indesejáveis. A partir daí, surge uma
identificação afetiva e emocional com o assediador com o propósito de proporcionar
afastamento emocional da vítima de uma realidade perigosa e violenta a qual ela
está sendo submetida.
Resume Parreira (2007), que a vitima está acometida da Síndrome de
Estocolmo quando, em vez de ficar com raiva do seu agressor, ela faz algum tipo de
aliança com ele, chegando até a defendê-lo na presença de outras pessoas. Essa
atitude pode significar uma pausa para que ele possa respirar

3.5 Síndrome do Estresse Pós-Traumático

Heróis e heroínas da literatura mundial, ataques terroristas, violência urbana,


perdas, agressões interpessoais... casos que preenchem os critérios de Transtorno
do Estresse Pós-Traumático ao longo da história, produzindo sequelas psicológicas
nos sobreviventes de tal violência.
57

Parreira (2007, p. 103-104) afirma que “esta é a síndrome mais longa e mais
intensa que acomete uma vítima de assédio moral”. E ainda:

A Síndrome de Stress Pós-Traumático é prima da síndrome de stress por


coação e também da síndrome de fadiga crônica. São as três agrupações
sindrômicas que sintetizam o transtorno da memória, a irritabilidade, as
crises nervosas, o breakdown (crise, colapso), o dano nas relações
interpessoais e na vida social que o ambiente laboral sempre produziu nos
trabalhadores e que foram interpretadas pela psiquiatria [...].

Esse trauma pode permanecer por uma vida toda, pois se trata de uma
experiência psicológica dominante que evoca terror, pavor, desespero, apreensão,
pânico, aflição, dentre outras manifestações, devido ao forte fator causal que é a
violência interpessoal.
Diante de um estímulo, a vítima de assédio moral torna-se ansiosa, podendo
apresentar reações extremadas, pois vivencia constantes situações de horror e, por
isso, sempre espera que algum fato desagradável ocorra e descubra sua fragilidade
para lidar com as situações. A agressão interpessoal é uma ameaça à vida e à
integridade física. Quanto mais hostil for o seu meio, maior esforço adaptativo é
exigido do indivíduo e maiores probabilidades de transtornos emocionais.
Experiências vividas por professores explicam que cada pessoa reage de
uma forma frente a uma situação de violência psicológica. Uma pode apresentar
traumas por toda a vida enquanto outra pode retomar a rotina após algum tempo e
ainda, há casos em que a pessoa é tomada por uma profunda depressão. Logo,
aqueles que se mantém distante da situação, apresentando-se anestesiadas
emocionalmente, voltam a viver intensamente as experiências de fracasso e
incapacidade que o agressor lhes embotou.
Parreira (2007) chama a atenção para um cuidadoso acompanhamento
médico e psicológico para a vítima de assédio. A autora diz que essa vítima deve
aceitar os flashes de memória, os lapsos, o sono prejudicado e outras dores como
uma reação normal, evitando punir-se ainda mais pela situação. É aceitar que tudo
passa, personificando Forrest Gump, ou seja, vendo o mundo por uma perspectiva
diferente.

3.6 Síndrome do Pânico


58

O diagnóstico de transtorno de pânico foi codificado em 1980, na terceira


edição do Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais(DSM-III) e,
desde então, acumulou-se uma abundância de dados de pesquisas sobre esse
transtorno.
Segundo o Dicionário Aurélio, pânico significa um medo repentino. Perante
essa definição, é possível afirmar que a crise de pânico caracteriza-se pela
ocorrência espontânea e inesperada de ataques de pânico. Segundo Silva (2006)
são ataques relativamente breves (mais ou menos uma hora), com intensa
ansiedade ou medo, associado a sintomas somáticos como: palpitações, vômitos,
diarréias, falta de ar, taquicardia, alteração da pressão arterial, boca seca, tremores,
tonturas, mal-estar geral, sensação de morte, sentimentos de impotência de
controlar tudo, medo de ser tomado como alguém fraco, medo de ficar sozinho,
necessidade de ter alguém por perto para receber socorro, medo de dirigir, medo de
morrer praticando esporte, medo de chorar ou emocionar-se perdendo o controle
das emoções, medo de frequentar lugares cheios de pessoas dentre outros fatores
similares.
Identificado os sintomas, é importante dizer que, essa síndrome não pode ser
caracterizada e um único episódio de crise de ansiedade, mas de crises repetidas
que levam à síndrome do pânico. Esse transtorno geralmente acontece no começo
da vida adulta, resultante de uma somatória de fatores estressores que habitam as
entranhas psíquicas daqueles que, porventura, são pescados por essa perversa
síndrome.
Ainda sobre esse transtorno, afirma (SILVA, 2006, p. 62):

As pessoas que sofrem de transtorno do pânico não costumam relacionar


algum fato ou motivo óbvio que justifique a ocorrência dos primeiros ataques
de pânico. No entanto, o que constatamos na prática clínica é que, na
grande maioria dos casos, existe, sim, uma ligação com os eventos da vida
dessas pessoas, e que esses foram responsáveis pelo desencadeamento
das primeiras crises.

A referida autora diz, ainda que, geralmente, esses eventos determinadores


das crises não ocorreram a menos de dias ou semanas e sim, entre seis e dezoito
meses antes. Portanto, há que se reportar ao capítulo sobre assédio moral em que
nele encontra-se descritas as diversas situações constrangedoras e porque não,
conflituosas, além do espaço de tempo as quais suas vítimas permanecem acuadas
dentro de um contexto sórdido, desumano, letal e antiético.
59

Para Silva (2006, p. 63), médicos e/ou psicólogos funcionam como


observadores desse processo danoso da criação humana e afirmam:

[...] sob um estresse intenso e prolongado e, por conta disso, o organismo


preparou toda uma reação, visando munir aquelas pessoas de força e
coragem para enfrentarem as ameaças representadas pelos
acontecimentos traumáticos.

Durante o período do assédio, a vítima suporta esses eventos traumáticos até


certa fase, sendo que esse período é variável conforme a pessoa. Posteriormente,
ocorre uma ruptura de seu fragilizado equilíbrio desencadeando uma “reação de
medo”, seguida dos sintomas anteriormente expostos neste capítulo. Eis que
surgem os ataques de pânico trazendo com eles, uma herança momentos
deprimentes, gerando, às vezes, pensamentos de auto-eliminação, expondo a vítima
às situações deprimentes como vomitar em público, tremer da cabeça aos pés,
como se estivesse acabado de sair de um anestesia, desfiguração facial (boca
rocha, feição amarelada, olheiras profundas), choro incessante, inconformismo com
a situação, além de tantos sintomas já mencionados aqui.
Na verdade, por ser o Pânico uma síndrome descoberta recentemente pelos
pesquisadores, grande parte da sociedade a desconhece ou pelo menos, se já ouviu
falar, ou presenciou uma crise de alguém ou não tem muita informação acerca dos
fatos desencadeadores desse processo. Por isso, é comum julgamentos sobre o
paciente de pânico caracterizando-o como uma pessoa demente, se é que se pode
usar esse termo.
Apesar do exposto, há como reverter esse quadro, como afirma Silva (2006,
p. 25):
Felizmente, é possível reverter esses quadros tão dolorosos ou, no mínimo,
atenuá-los de forma expressiva, com orientações e tratamentos adequados.
Isso significa muito mais do que enfrentar o inimigo que aparentemente
pareça invencível.

Almejar a cura, primeiramente assumir que se possui essa síndrome, buscar


ajuda de psiquiatras e psicólogos; utilizar uma medicação adequada; descobrir os
agentes desencadeadores desse mal e afastar dos mesmos; mudar o foco de suas
ações profissionais; buscar apoio na palavra Divina; também nos familiares, amigos
e os colegas mais próximos; ter coragem e determinação para lutar e vencer essas
mazelas; ser persistente; buscar momentos de lazer; fazer uma atividade física;
praticar atividades que propiciam o relaxamento,como yoga, adentrar-se ao contexto
60

artístico como assistir a eventos musicais ou teatrais (ainda que em DVD- caso não
consiga adentrar-se em lugares públicos) dentre outras; se possível envolver-se com
um trabalho manual, ou cantar, tocar um instrumento musical, pintar quadros, ou
seja, iniciar uma atividade que permita transcender sua realidade e viver momentos
de pura imaginação, criação, prazer dentre outros similares. Desviar o foco, ao
máximo.
Afirma a própria pesquisadora, que possivelmente sofreu traços do pânico,
que apesar de ter a consciência de que o pânico é um vulcão que habita as
entranhas psíquicas, pode ser temporariamente desativado, ou ao menos, ter suas
explosões amenizadas. O que respalda tal afirmação é o fato de ter sido
contemporânea de colegas que sofreram a síndrome, ouvindo relatos e experiências
dos mesmos no ambiente laboral.
O mais importante de tudo isso, é saber que a literatura científica, apesar de
ainda desconhecida pela maioria das pessoas, já apresenta ações profiláticas e
orientações capazes de abrandar essas sequências de ações maléficas à existência
humana. Nesse aspecto, há que se ressaltar o desenvolvimento da neurociência que
tem contribuído positivamente para propiciar uma melhor compreensão desse
quadro psíquico.
Perante esses fatos, importa dizer que o portador do pânico necessita ter
força de vontade e ser corajoso para enfrentar essa fúria interna. Caso contrário, sua
mente corre o risco de ser corroída pelas larvas dessas explosões, podendo
extinguir o seu “eu”, assim como uma cidade é dizimada aos pés de um vulcão.
Essa fera precisa e deve ser encarada com astúcia para que seja controlada,
evitando assim, reincidências tão desastrosas.

3.7 Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)

Frio no estômago, aperto no peito, coração acelerado, tremores, palpitações,


falta de ar, sentimento desagradável, dificuldade para relaxar e concentrar, lapsos,
irritabilidade, desempenho social, familiar e pessoal afetados, sono insatisfatório etc.
A variedade de sintomas é grande, e muitas vezes, pessoais. Se essas reações
persistem por mais de seis meses continuamente, e desde que sejam descartadas
as possibilidades de pânico e fobia social, por exemplo, deve-se buscar atenção
61

diferenciada, pois não se trata de ansiedade normal, já que para as vítimas de


assédio moral a capacidade adaptativa no ambiente de trabalho requer equilíbrio e
conhecimento do assunto.
Para Silva (2006), os sintomas variam também entre queixas excessivas de
problemas físicos sendo que os pacientes podem apresentar sintomas de tensão
motora como tremor, inquietude, dores de cabeça dentre outros. Podem-se associar
a esses sintomas problemas gastrointestinais, pulmonares, cardiovasculares,
hipervigilância (estado de atenção contínua) deixando o paciente com os nervos “à
flor da pele”, em estado de constante irritabilidade e cansaço.
O transtorno de Ansiedade Generalizada, definido no (DSM-IV), como uma
preocupação excessiva, acompanhada de alguns sintomas somáticos, como os
citados acima, compromete significativamente a vida de seu portador, interferindo
em sua prática laboral e/ou causando-lhe sofrimento. Esse transtorno pode atingir
pessoas de todas as faixas etárias como crianças, adolescentes e adultos.
Segundo Silva (2006, p.146) esse transtorno atinge mais as mulheres do que
os homens:

O transtorno de ansiedade generalizada acomete mais as mulheres do que


os homens e a idade de início, muitas vezes, é difícil de calcular, já que a
maioria dos pacientes relata uma história típica de preocupação excessiva e
nervosismo desde a infância ou adolescência.

Para Silva (2006), os sintomas variam entre queixas excessivas de problemas


físicos sendo que os pacientes podem apresentar sintomas de tensão motora como
tremor, inquietude, dores de cabeça dentre outros. Podem-se associar a esses
sintomas problemas gastrointestinais, pulmonares, cardiovasculares, hipervigilância
(estado de atenção contínua) deixando o paciente com os nervos “à flor da pele”, em
estado de constante irritabilidade e cansaço.
O indivíduo ansioso muitas vezes não procura tratamento psiquiátrico, talvez
por não ser capaz de reconhecer esse fato como um transtorno, ou porque associa
seus sintomas a doenças físicas, buscando tratamento com especialistas em série,
sem se preocupar em trabalhar a causa do problema. O fato de simplesmente
remediar quando se encontra em estado crítico da doença, pode desencadear o
aparecimento de várias outras doenças, prejudicando o organismo como um todo.
Em casos agudos do transtorno, as medicações como tranquilizantes
benzodiazepínicos e antidepressivos são eficazes. Associar, porém, a ação
62

medicamentosa a terapias proporcionam resultados mais eficazes. Aliviar a alma


compreendendo a causa do problema é um grande passo na busca do equilíbrio.
Os parâmetros permanentes de vigília, segundo Silva (2006), podem levar à
perda da realidade, acarretando perdas de oportunidades generosas que o presente
oferece. Nesse sentido, o futuro passa a dominar o quadro psíquico de
preocupações com o que pode e não pode acontecer, interferindo no processo de
escolhas mais sensatas quanto ao nosso cotidiano. Ainda essa autora compara esse
sentimento atordoante como um “cão feroz”, que se enforca na própria coleira.
Em relação àquele que é assediado moralmente em seu trabalho, tal
sentimento provém da preocupação com a perda do emprego, já que, como foi
demonstrado nos capítulos anteriores desta pesquisa, sua permanência no contexto
profissional está ameaçado. Nesse caso, torna-se comum a ocorrência de situações
semelhantes à descrita anteriormente, como a perda da realidade que, comumente
afeta a produtividade do trabalhador. Isso se dá devido ao fato de deixar-se ocupar a
mente com situações anteriormente vividas às quais podem acrescer a realidade
com preocupações futuras excessivas. Logo, se o foco está no futuro, não há como
perceber a realidade com olhar de dor, sofrimento e traumas e, por isso, esse
desequilíbrio comportamental pode causar sérios danos para vida daquele que por
vezes é chamado de “ansioso”.
Assim como no pânico é preciso reconhecer o seu próprio estado psíquico, o
portador de TAG necessita conscientizar-se acerca desses males com o objetivo de
buscar ajuda profissional para controlar a reincidência dessa ansiedade.

3.8 Depressão - Histórico e sua Causalidade

Devido ao fato de estar associada ao comportamento psicológico do ser


humano, Franco (2003) aponta que a depressão, identificada como melancolia, é
conhecida na Humanidade desde tempos remotos. De apontamentos bíblicos à
Grécia antiga, em referências feitas ao Livro de Jó à Hipócrates, no século IV a.C. a
melancolia pode ser identificada, considerada como uma punição infligida pelos
deuses aos seres humanos em consequência dos seus atos incorretos.
Já no século II d.C., Galeno, um dos mais notáveis médicos do período
romano que desenvolveu experiências com ligações nervosas, estudou esse
63

transtorno como resultado do desequilíbrio dos quatro humores: sangue, bílis


amarela, bílis negra e fleuma, que seriam responsáveis pelo bem-estar e pela saúde
ou não dos indivíduos. “As lendas a seu respeito fizeram-se muito variadas e as
discordâncias, complexas, vinculando-a, não raro, à bílis negra, responsável pelo ato
impensado de Adão ao comer a maça no paraíso” (FRANCO, 2003, p.108). Somente
a partir do século XVII a tese de Galeno começou a ser superada e substituída por
definições de natureza química e mecânica do cérebro.
Foi na época do renascimento que esse transtorno passou a ser considerado
como uma forma de insanidade mental, surgindo assim, diferentes propostas
terapêuticas de resultado duvidoso. Somente a partir do século XVI, foi que a
melancolia passou a ser mais bem definida, tornando-se mais popular na literatura
passando a expressar os estados depressivos.
Acreditando ser uma exteriorização da genialidade individual, inúmeros
poetas, escritores, artistas, religiosos, cientistas famosos sofreram a incidência da
depressão, muitos sendo acometidos por suicídio hediondos. Vale destacar que
antes de ser classificado como uma condição de perturbação mental ou estado
emocional deprimido, esse mal foi associado, durante grande período do século XIX,
à hipocondria, responsável pela ansiedade mórbida referente ao estado de saúde e
às funções físicas.
Classificada hoje como perturbação do humor, a depressão pode se prolongar
por tempo indeterminado. O psiquiatra alemão, Emil Kraepelin apresentou análises
significativas sobre a depressão no século passado, classificando-a como unipolar
(menos grave) e bipolar (associações maníacas). Para Freud, uma perda, por
exemplo, gera distúrbios comportamentais prolongando-se por tempo indeterminado.

[...] outros pesquisadores estabeleceram que a depressão poderia ser


endógena, quando originada em disfunções orgânicas,portanto de natureza
biológica, e reativa, como consequência de fatores psicossociais,
socioeconômicos, sociomorais, em razão dos seus nefastos efeitos
emocionais. Outros observadores, no entanto, detiveram-se em analisar a
depressão sob dois outros aspectos: o de natureza neurótica e o de
natureza psicótica. O primeiro é mais simples, com melhores possibilidades
terapêuticas, enquanto que o segundo,por se caracterizar pelas alucinações
e ilusões perturbadoras, exige procedimentos mais cuidadosos e
prolongados (FRANCO, 2003, p. 110).

A vítima de assédio moral passa por situações emocionalmente fortes,


ocasionando desestrutura na sua personalidade. Franco (2003) destaca que é
sempre um distúrbio angustiante pelos danos que proporciona: dores físicas,
64

taquicardias, problemas gástricos, inapetência, cefaléia, sentimento de inutilidade,


vazio existencial, desespero, isolamento, ausência total de esperança, pensamentos
negativos, ansiedade, tendência ao suicídio, inquietação, choro, boca ressecada,
constipação, perda de peso e apetite, insônia, perda do desejo sexual, dentre outros
sintomas.

[...] Do ponto de vista psicanalítico, conforme eminentes estudiosos quais


Freud, Abraham e outros, a depressão oculta uma agressão contra a
pessoa ou o objeto oculto. Numa análise biológica, podemos considerar
como fatores responsáveis pelo desencadear do distúrbio depressivo, as
alterações do quimismo cerebral, no que diz respeito aos
neurotransmissores como a serotonina e a noradrenalina. Em uma análise
mais cuidadosa, além doa agentes que produzem estresse, incluímos entre
os geradores da depressão, os hormônios esteróides, estrogênios e
androgênios, relacionados com o sexo, que desempenham papel
fundamental no humor e no comportamento mental (FRANCO, 2003, p. 112-
113).
Por fim, Franco (2003, p. 120), reforça o quanto as perdas são fatores
desencadeadores de processos depressivos:

Na raiz psicológica do transtorno depressivo, encontra-se uma insatisfação


do ser em relação a si mesmo, que não foi solucionada. Predomina no Self
um conflito resultante da frustração de desejos não realizados, nos quais
impulsos agressivos se rebelam ferindo as estruturas do ego que imerge em
surda revolta, silenciando os anseios e ignorando a realidade. (...) ao lado
desse fator, que deflui os eventos da vida, o luto ou a perda, como bem
analisou Sigmund Freud, faz-se responsável por uma alta cifra de
ocorrências depressivas, em episódios esparsos ou contínuos, assim como
em surtos que atiram os incautos no fosso do abandono de si mesmo. (...)
Ainda se manifesta como efeito de outras perdas, como a do trabalho
profissional, que atira o indivíduo ao abismo da incerteza para atender a
família, para atender-se, para viver com segurança no meio social (...).
METODOLOGIA

Este trabalho constitui um estudo de caso, através de uma abordagem


quantitativa e descritiva, que apresenta como instrumento de pesquisa, um
questionário composto de 33 perguntas subjetivas. A coleta dos dados
sociodemográficos e ocupacionais permitiu caracterizar os sujeitos, levantar e
investigar as condições de trabalho e quais são os principais fatores norteadores dos
distúrbios neuropsíquicos nos docentes de uma escola da rede particular e outra da
rede pública de ensino, ambas localizadas no município de Goiânia-GO. O resultado
do levantamento de dados apontou descrições de casos que são consonantes com
a literatura pesquisada, evidenciando a hostilidade presente nas instituições de
ensino nos dois segmentos.
O questionário foi aplicado a 30 professores habilitados no ensino
fundamental. Dos 30 questionários aplicados, somente 23 foram entregues
totalmente respondidos; 3 foram respondidos parcialmente. A aplicação do
questionário foi realizada diretamente com o professor, no seu horário de trabalho.
Porém, esse poderia levá-lo para casa, devolvendo-o no mesmo envelope
devidamente lacrado. A coleta de dados durou 45 dias, contados a partir do dia 09
de março de 2010.
RESULTADOS

TABELA 1 - Distribuição dos sujeitos quanto ao sexo


Sexo
variáveis f %
masculino 2 8%
feminino 24 92%
Fonte: Escola de ens.fund. e médio da rede particular e escola da
rede pública do município de Goiânia

TABELA 2 - Distribuição dos sujeitos quanto ao estado civil


Estado civil
variáveis f %
Solteiro 7 27%
Casado 16 61%
Divorciado 2 8%
Outros 1 4%
Fonte: Escola de ens.fund. e médio da rede particular e escola da
rede pública do município de Goiânia

Em relação às características sociodemográficas dos sujeitos, a maioria é do


sexo feminino (92%) e é casada, conforme as tabelas 1 e 2.

GRÁFICO 1 - Distribuição dos sujeitos por faixa etária


67

A idade dos participantes variou entre 8% (jovem – até 30 anos); 76% (adultos
– 31 a 50 anos) e 8% (velho – acima de 51 anos). Há uma maior parcela de
professores na fase adulta, com idades entre 30 e 50 anos.

GRÁFICO 2 - Graduação dos professores

A área de formação da amostra de professores está distribuída da seguinte


forma: 3,8% são graduados em Biologia e Geografia; 7,6% em Educação Física;
11,5% em Matemática e Música; 15,4% têm formação em Letras e Pedagogia e 31%
dos sujeitos não responderam a essa pergunta.

GRÁFICO 3 - Formação dos professores


68

Quanto às características profissionais do trabalho, da amostra de 26


professores, 19% deles possuem apenas Licenciatura Plena; 77% são Especialistas
e 4% possuem título de Mestre.

GRÁFICO 4 - Tempo de docência

O gráfico 4 nos aponta que 11,5% dos professores lecionam há menos de 5


anos; 15,4% de 6 a 10 anos; a maioria, correspondente a 42,3% estão na sala de
aula há quase 15 anos; de 26 a 30 anos de magistério ocupam 15,4% dos
professores.Observa-se que, neste estudo de caso, não houve nenhuma ocorrência
da atuação de professores que ministram aulas na faixa de 21 a 25 anos e, 3,8%
deles ministram aulas há 16-20 anos e há mais de 30 anos. Não respondeu ao
questionário 7,8% da amostra.

GRÁFICO 5 - Outro vínculo empregatício


69

A maioria
dos professores, alegando excesso de carga horária (vide também próximo gráfico),
comprova o fator estresse, conforme resultado da pesquisa, quando 69% deles
confirmam que possuem outro vínculo empregatício, dobrando a jornada de
trabalho. Os que se dedicam somente a uma instituição de ensino correspondem a
31%.

GRÁFICO 6 - Carga horária

Para
avaliar
se os
professores estavam expostos a fatores estressantes, devido ao número de horas
diárias trabalhadas, verifica-se que maioria deles tem carga horária dobrada. O
gráfico 6 relaciona a carga horária total diária desempenhada pelos professores em
sala de aula. 11% dos professores ministram aulas com carga horária diária total de
5h/aula. 27% trabalham de 11 a 15h/aula por dia, o que significa que labora em três
turnos enquanto que 54% trabalha de 6 a 10h/aula diárias, contando com mais de
70

um vínculo empregatíciopara sobreviver. Dois professores, que correpondem a 8%


do total, não responderam esse item.

GRÁFICO 7 - Atividades atribuídas ao professor e sua preferência

O gráfico 7 mostra os aspectos relacionados a maior realização profissional


do docente. Os professores puderam mencionar atividades simultaneas,
considerando o grau de importância, já que havia margem para múltiplas respostas.
Assim, 69% dos professores atribuem o fator “ministrar aulas” fator de maior
realização profissional; Apenas 12% deles escolheram o item “pesquisas na sua
área específica”; 15% gostam de desempenhar “trabalhos administrativos” e 4% não
responderam esse item.

GRÁFICO 8 - Realização de atividade física


71

14% dos
depoentes praticam atividade física regularmente; 19%, semanalmente, enquanto
que a maioria correspondente a 47% pratica atividade física eventualmente. Dos 26
professores, 20% deles não realizam nenhuma prática física.

GRÁFICO 9 - Realização de atividades domésticas

O gráfico 9 aponta que 100% dos professores depoentes afirma


desempenhar, além das atividades de trabalho em sala de aula e em casa,
atividades domésticas, tais como arrumar a casa, cozinhar, fazer compras em
supermercado, lavar e passar roupas e levar filhos à escola.

GRÁFICO 10 - Motivos pela opção da profissão professor


72

Nesta pergunta, os professores puderam escolher mais de um item,


considerando o grau de importância, já que havia margem para múltiplas respostas.
35% dos professores apontam que a empregabilidade, o compromisso com a
formação humana e a realização pessoal representam os fatores principais que
determinaram a opção pela profissão professor. Os 65%, representando a maioria
das escolhas, afirmam que a opção pela vida acadêmica se deve à vocação. Apenas
8% atribuem a sua escolha à influência da família e ao salário.

GRÁFICO 11 - Existência de riscos ocupacionais no ambiente de


trabalho

O gráfico mostra que 100% dos participantes da pesquisa acreditam que a


existência de riscos psicossociais no ambiente de trabalho educacional é um fato.
73

Alguns professores confirmam a afirmativa relacionando tais riscos nos discursos a


seguir:

“– Carga horária elevada e as exigências cotidianas nos colocam em um


estado de estresse constante”.
“- Assédio moral, pressão psicológica, tratamento desigual (coordenadores
que bajulam e protegem os professores que são seus amigos pessoais).
Falta de apoio da coordenação na defesa do ponto de vista do professor
perante os pais dos alunos. Desrespeito. Professores são meras
ferramentas, bonecos prontos para obedecer. Os revoltosos são mandados
embora. Ditadura da coordenação – medo”.
“- Depressão, síndrome do pânico, transtornos diversos, baixo auto-estima,
desequilíbrio emocional intenso, doenças psicológicas que atingem o corpo
físico”.
“– Problemas psicológicos diversos, emocionais e físicos. Principalmente
alguém que trabalha em duas escolas, como eu”.
“- Exigências e burocracias que não são relevantes para o trabalho
pedagógico ou administrativo, além do excesso de horas diárias trabalhadas
e baixos salários”.

GRÁFICO 12 - Agentes de riscos ocupacionais no ambiente de trabalho

Dentre os agentes geradores de riscos ocupacionais no ambiente de trabalho,


os “físico-psicológicos e anti-ergonômicos” lideram os apontamentos dos
professores com 42%; em segundo lugar vem os fatores “psicológicos”, com 31%;
em seguida, os riscos “físicos e psicológicos” com 19% e, por fim os riscos “anti-
ergonômicos e psicológicos” escolhidos por 8% dos professores.
74

GRÁFICO 13 - Pressões no trabalho

Evidencia-se que 85% dos interrogados informam que sofre pressões no


trabalho, enquanto que 11% mencionaram não sofrê-la. Não responderam a esse
item 4% dos professores. Assim, atribui-se 41% da pressão sofrida à instituição
como um todo; 39% à chefia; 12% atribuem a pressão sofrida aos colegas, chefia
alunos e instituição e, 4% sentem-se pressionado pelos alunos.

GRÁFICO 14 - Como pensa e sente o professor a respeito do trabalho e a


possível relação com a sua saúde.
75

O gráfico aponta que 92% dos participantes afirmaram que o trabalho de


professor afeta a saúde; 4% afirmaram o contrário e 4% não responderam a esta
pergunta.

A tabela a seguir nos mostra a distribuição dos sujeitos segundo as alterações


de saúde e suas descrições provocadas pelas pressões sofridas no trabalho.

TABELA 3 - Alterações à saúde advindas das pressões sofridas no trabalho

Manifestações à saúde devido pressões sofridas no trabalho


Variáveis %
Cansaço Físico e mental, estresse 92%
Ansiedade, angústia 85%
Desânimo 81%
Irritabilidade 77%
Depressão 69%

Alterações no sono, desmotivação, tristeza, abatimento, insatisfação, dor nas costas 66%

Problemas nas cordas vocais, alteração nos hábitos alimentares, mau humor,
62%
desgaste físico e psicossocial, falta de concentração, dificuldade para relaxar, fadiga

Choro, dor no corpo, nervosismo, alterações gastrointestinais, pouca tolerância com


58%
os outros
Alterações da memória, insônia 54%
Indisposição, dor no estômago 46%
Aumento de peso, autoestima diminuida, gastrite, inquietação 42%
Cefaléia e/ou dispnéia, insegurança, desconfiança 39%
Sedentarismo 35%
Dores localizadas 31%
Resfriados frequentes, taquicardia, sensação de ameaça 27%
Fobias, diarréia 23%
Alterações de pressão e glicose 23%
76

Hipertensão, falta de criatividade 15%


Isolamento, ostracismo 12%

FONTE: Escola de Ensino Fundamental e Médio da Rede Particular e Escola Pública do Município
de Goiânia, mar/2010

Ao serem questionados sobre os agravos à saúde devido às pressões no


ambiente laboral, os professores puderam escolher respostas múltiplas. Desse
modo, as principais alterações à saúde foram: Cansaço Físico e mental e estresse
(92%); ansiedade e angústia (85%); desânimo (81%); irritabilidade (77%); depressão
(69%); Alterações no sono, desmotivação, tristeza, abatimento, insatisfação e dor
nas costas (66%); Problemas nas cordas vocais, alteração nos hábitos alimentares,
mau humor, desgaste físico e psicossocial, falta de concentração, dificuldade para
relaxar e fadiga (62%); Choro, dor no corpo, nervosismo, alterações gastrointestinais
e pouca tolerância com os outros (58%); Alterações da memória e insônia (54%);
Indisposição e dor no estômago (46%); Aumento de peso, autoestima diminuída,
gastrite e inquietação (42%); Cefaléia e/ou dispnéia, insegurança e desconfiança
(39%); sedentarismo (35%); dores localizadas (31%); Resfriados frequentes,
taquicardia e sensação de ameaça (27%); Fobias e diarréia (23%); Alterações de
pressão e glicose (23%); Hipertensão e falta de criatividade (15%); Isolamento e
ostracismo (12%). Os professores apresentaram, além dos sintomas mencionados,
outros agravos à saúde, sofridas por eles como a “síndrome do pânico, transtorno de
ansiedade, agorafobia, transtorno bipolar (variações bruscas de humor), perda da
vontade de viver, necessidade de se dopar com remédios para agüentar o dia-a-dia
no trabalho”.

GRÁFICO 15 - Já foi vítima de assédio moral


77

FONTE: Escola de Ensino Fundamental e Médio da Rede Particular e Escola Pública do


Município de Goiânia, mar/2010

Em relação ao gráfico 15, 31% dos interrogados afirmaram já terem sido


vítimas de assédio moral e 57% deles pontuou não terem sido vitimados por esse
tipo de assédio. A opção “talvez” foi apontada por 8% dos respondentes e, 4%
destes, não responderam. 65% dos professores mencionaram ter tido conhecimento
da ocorrência desse tipo de assédio, enquanto 31% negaram ter conhecimento da
ocorrência de assédio moral em relação a algum colega e 4% não responderam à
questão. Dessa forma, justifica-se 47% dos docentes considerarem comum este tipo
de
problema no ambiente escolar, enquanto 42% acham que não é um ato comum. 4%
não manifestaram opinião a respeito.
TABELA 4 - Percepções sobre as questões relacionadas com o trabalho do
professor
variáveis
hierarquia pares alunos trabalho
tranquila pouco não pouco não pouco não pouco não
tranquilas tranquilas tranquilas
s tranquilas opinaram tranquilas opinaram tranquilas opinaram tranquilas opinaram

35% 50% 4% 81% 15% 4% 61% 35% 4% 58% 38% 4%


Fonte: Escola de Ensino Fundamental e Médio da Rede particular e escola Pública do Município de
Goiânia

Quando questionados sobre a percepção dos professores em como estes se


relacionam com a hierarquia, com os pares, com os alunos e o trabalho como um
todo, tem-se que 35% das relações hierárquicas são tranquilas; 50% são pouco
tranquilas. A relação com os pares é tranqüila para 81% dos professores; 15% são
pouco tranquilas. Em relação aos alunos, 61% dos professores consideram que a
interação se dá de maneira tranqüila com esses; 35% apresentam uma relação
pouco tranquila. Considerando as relações com o trabalho como um todo, 58%
afirmam que são muito tranquilas e 38% pouco tranquilas e 4% não manifestaram
opinião em nenhuma das perguntas.
Através da pergunta: “As relações do trabalho já se tornaram desgastantes ao
ponto de atrapalhar o seu rendimento como profissional da educação?”, 73% dos
professores afirmam que não, enquanto que 23% concordam que esse tipo de
relação diária atrapalha o seu rendimento no trabalho.
78

GRÁFICO 16 - Atestados médicos e desligamento da instituição

Em relação à incidência de atestados na escola, observa-se 58% de


afastamentos por este motivo; 38% nunca apresentaram atestado médico e 4% não
responderam. A estatística mostra ainda que 22% dos professores apresentaram
atestado uma única vez; 12% por duas vezes; 19% por três vezes e 8%
necessitaram de mais de 3 afastamentos com atestado médico.
A realidade mostra que 92% dos professores permanecem empregados
equilibrando-se no ambiente desgastante e estressante e 8% acaba de desligando
da empresa, seja demitidos ou pedindo seu próprio desligamento.
Abaixo, segue uma carta com o pedido de demissão de uma professora,
anexada ao instrumento de pesquisa utilizado neste trabalho (questionário) - por ela
comprovando, com o seu relato, que a hostilidade e as pressões advindas do
ambiente de trabalho acarretam danos irreparáveis, pois ferem a alma. O que serve
de exemplo real, respaldando e embasando, teoricamente, a presente pesquisa. Os
dados são fictícios ou ocultos para preservar a identidade da professora.

“Goiânia, xx de xxxxxxx de 2010

AO DEPARTAMENTO DE RECURSOS HUMANOS xxxxxxxx


Dra. xxxxxxxxxxxxx
NESTA

Prezada Senhora:

Eu, Ana da Silva, portadora da CI xxxxx.xxxx- SSP/GO, professora de


xxxxxxx do xxxxxxxxxx, desde xxxxx de 2005, venho, por este meio,
apresentar meu pedido de demissão dessa instituição perante V. Sª.
79

Os motivos os quais me levaram a tomar essa decisão estão relacionados


aos relatórios médicos, anexados a este documento. Como já é de vosso
conhecimento, estou de licença médica desde o mês de setembro de 2009,
conforme relatórios do INSS. Na verdade, tive três crises de pânico no
período entre maio e agosto, na escola acima referida. Desde então,
desenvolvi total aversão afetiva por essa instituição, não sendo capaz de
aproximar-me nem mesmo de suas imediações.
Peço desculpas por expor meus motivos de forma incisiva, mas,
infelizmente, esse é o sentimento que domina meu coração. Conforme
atestados anexados aqui, encontro-me incapacitada, inclusive de cumprir o
aviso prévio e, por isso, solicito a dispensa dessa obrigação.
Perante o exposto, aproveito a oportunidade para agradecer a todos que
colaboraram com o meu bem estar durante o exercício de minha função
nessa instituição e, acrescento meus agradecimentos especiais à Direção
da escola xxxxxxx, Srª Fulana de Tal, por sua sinceridade, competência,
humanidade e dedicação. Sempre que necessitei, fui ouvida com muita
dignidade e atenção por ela e, por isso, corta-me o coração saber que, a
partir de agora, não poderei usufruir mais de seu convívio profissional.
Agradeço aos meus colegas, professores, uma equipe competente e
especial. Peço ainda que, ao fazerem suas avaliações à respeito dessa
instituição e funcionários, sejam ouvidos, ou melhor, sejam lidas e
consideradas suas pontuações pelo departamento de RH. Desculpe-me
pela sugestão, mas apesar de tudo, ainda preocupo-me com o bem estar
dos meus colegas que, hoje, ocupam um grande espaço em meu coração.
Quanto às pressões psicológicas vividas nessa escola, afirmo não ter a
intenção de discuti-las aqui ou qualquer que seja a situação. Entendo que,
para que eu possa retomar minha vida, faz-se apenas necessário ter paz.
Quanto aos sentimentos negativos expostos, anteriormente ao vosso
departamento, peço-vos perdão, apesar de que, não os construí do nada.
Confiante no deferimento dessa solicitação, agradeço a atenção recebida.”

GRÁFICO 17 - Tipos de problemas que acarretam afastamento

Segundo o resultado apresentado, percebe-se que os afastamentos se dão


por motivos diversos. Esta pergunta permitia múltiplas respostas. Assim, desgastes
psicológicos, período de gestação e a incidência de professores que vão trabalhar
mesmo debilitados compõem 23% das respostas; 38% se dão por desgastes físicos;
80

35% por licença maternidade; 8% afirmam serem saudáveis; 11% enfatizaram outros
fatores e 15% dos respondentes omitiram essa resposta.

GRÁFICO 18 - Tipos de tratamento

Para os professores que percebem a importância da prevenção ou combate


do adoecimento proveniente da profissão, questionou-se acerca dos tratamentos por
eles utilizados. O uso de medicamentos associado ao repouso foi apontado por
42%; 31% buscaram tratamentos terapêuticos; 8% necesitaram apenas de repouso
ou de medicamento e 11% não responderam esse questionamento.
Questionados ainda sobre o uso de antidepressivos, constatou-se que 43%
afirmam usar esse tipo de droga e 57% ainda são resistentes ao uso ou realmente
não necessitaram de utilizá-lo.

TABELA 5 - Situações de hostilidade e conflitos no ambiente de trabalho


Situações de hostilidade e conflitos no ambiente de trabalho
Variáveis %
Agressão física e perversidade 8%
Divisão para melhor dominar 19%
Exclusão 23%
Interferências no trabalho, recusa de comunicação direta, plágio de idéias e
27%
desqualificação do trabalho
Mensagens agressivas 31%
Desqualificação, intimidação e pânico 35%
Gritos, manejo do sarcasmo e desprezo, confusões, insegurança para
38%
desempenhar rotinas
Deboche 42%
Ameaças 46%
Imposição do próprio poder, mentiras 50%
Posturas agressivas, implicâncias 54%
81

Agressão verbal 58%


Irritabilidade direcionada a alguém, ironias, inveja 62%
Comportamento hostil 69%
Rumores, fofocas 89%
Fonte: Escola de Ensino Fundamental e Médio da Rede Particular e Escola Pública do Município de
Goiânia, mar/2010

O levantamento realizado acerca da ocorrência de situações conflituosas e


hostis no ambiente de trabalho permitiu observar que 89% dosprofessores foram
vítimas de rumores e fofocas; 69% vivenciaram comportamentos de hostilidade; 62%
foram vítimas de ironias, inveja e irritabilidade; 58% foram vítimas de agressão
verbal; 54% de implicância e posturas agressivas; 50% perceberam mentiras e
imposição do poder; 46% sofreram ameaças;42% passaram por situações de
deboche; 38% foram tratados com intimidação, gritos, sarcasmo, e desprezo; 35%
tiveram seu trabalho desqualificado, sofreram algum tipo de intimidação ou foram
diagnosticados portadores da síndrome do pânico; 31% receberam algum tipo de
mensagem agressiva; 27% sofreram interferência no trabalho, além da recusa da
comunicação direta e plágio de idéias; 23% foram vítimas de exclusão; 19%
perceberam divisões de grupos para exercer melhor domínio sobre eles e 8%
sofreram algum tipo de agressão física e atitudes de perversidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Entende-se que o assédio moral, mais que um problema de mundialização, é


um mal de caráter social e histórico, que ultrapassa os limites do senso comum que
rege o quotidiano escolar, deteriorando as relações de trabalho. Os elementos que
configuram o assédio moral infundem uma perspectiva individualizante,
considerando a intencionalidade e a direcionalidade do sujeito, fato que acentua a
discussão entre os envolvidos, restringindo a abordagem coletiva.
Através da literatura pesquisada, pôde-se concluir que a prática do assédio
moral tem em comum a reincidência de práticas humilhantes, que discriminam,
constrangem e desqualificam a vítima, tornando-se contínuas e prolongadas. Abafar
o problema só o fará ressurgir de forma perversa. E uma vez não solucionado
coletivamente, ele se transforma em sofrimento individual. A falta de comunicação e
por não se expor claramente os conflitos a fim de romper com a prática cruel, faz
com que a vítima chegue à exaustão física e psicológica, esgotando todo o
manancial de tolerância, paciência e humildade para as práticas abusivas do
assediador. Diante de uma situação insustentável é preciso reagir, considerando,
inclusive a hipótese de optar pela demissão para preservar a saúde.
A coleta de dados inferiu valores médios entre 60% a 90% dos professores
que sofrem de insônia, angústia, fadiga, irritabilidade, ansiedade, desânimo,
alterações nos hábitos alimentares e gastrointestinais, falta de concentração,
cansaço físico e mental acompanhado de estresse, dentre outros problemas.
Com relação às situações de conflitos e hostilidade no ambiente de trabalho,
no mínimo 50% dos professores informaram vivenciar mentiras, imposição do poder,
ameaças, implicâncias, posturas agressivas, ironias, invejas, rumores, fofocas,
dentre outros conflitos. Pôde-se constatar ainda que 85% dos professores admitem
sofrer pressões no trabalho que redundam no aparecimento de riscos ocupacionais,
ambiente propício ao aparecimento do assédio moral.
Diante disso, encontrando-se física e emocionalmente degradada, a vítima
não se volta contra o agressor, mas sim, contra as pessoas que se encontram mais
próximas, quebrando as redes de amizade e a boa convivência com os familiares,
extravasando neles todo o seu mal-estar, na tentativa de assim, garantir a
manutenção do seu vínculo empregatício, sob uma condição de resignação.
83

A pesquisa de campo apontou que professores em início de carreira não se


queixam de assédio moral, ou por desconhecerem as ações que envolvem tal
violência ou sendo, simplesmente, tolerantes ao processo desumano e destruidor.
A prevenção do assédio moral consiste em promover a vivência da
coletividade, do respeito ao direito difuso, de um olhar interdisciplinar e dos valores
humanos que estimulam o exercício da cidadania como principal bússola para se
conseguir o bem-estar individual e coletivo no ambiente do trabalho, em detrimento à
globalização da resistência proveniente da imposição de medo aos valores
individualistas e à concorrência perversa. Talvez uma atitude de mudança parta do
professor assediado, que iniciará um processo que incidirá em transformações na
gestão educacional, com propostas construtivas a fim de volatizar culturas míopes
por vezes arraigadas há décadas em determinadas instituições.
Há quem considerasse avassaladoras as conseqüências do assédio moral no
contexto escolar. Alguns humanos, por tão elevados que são não tem olhos para
perceber a perversidade que um semelhante é capaz de causar a outrem. Aos que
desacreditam dos efeitos do assédio moral, resta somente deixar aqui nada mais
que a realidade subjetiva, para uns ou resquícios de alma ferida, para outros.
Realidade desumana? Talvez. É preferível vê-la como necessária. Mas são reais as
perseguições veladas a professores, aflorando, assim, o sentimento de indignação e
perplexidade que determinaram a necessidade de buscar uma compreensão teórica
capaz de explicitar as causas dos males apontados nessa pesquisa. A pesquisa de
campo aqui realizada, confirma que a hostilidade no ambiente de trabalho expõe o
professor a uma situação degradante em que envolve a perda da identidade,
acrescida de um sentimento da ausência de si mesmo e, em alguns casos, desejos
de autoeliminação, questionamentos sobre a razão de existir, além das licenças por
tratamento de saúde. Privados da liberdade de simplesmente ser, esses intelectos
corpos tiveram suas almas mutiladas obstruindo a trilha da felicidade e que,
consequentemente, os inseriu em um patamar de vítimas.
Assim como o sol que teima em nascer diariamente, a vida é uma obstinação
excessiva. E uma das teimosias é prospectar novos projetos para o futuro. Para
tanto, uma pessoa que passou um árduo e infindável processo de assédio moral,
tem a necessidade de projetar sonhos que autenticamente lhe agregam experiências
positivas, estando atenta ao que é realmente necessário, para se fazer escolhas
direcionadas, senão dizer, acertadas. Aduzindo aqui o psiquiatra William Glasser
84

(2002), em sua obra “A Teoria da Escolha”, que afirma que fazemos escolhas em
todo o tempo, uma vez que somos geneticamente programados para tal. As pessoas
devem assumir o controle de suas próprias vidas, independente dos traumas pelos
quais já tenham passado, tornando-se mais críticas, participantes e conscientes.
A necessidade da sobrevivência, de amor, de pertencer, da liberdade, da
diversão e de poder, esse, segundo Glasser, fica em último lugar, são satisfações
naturais que representam apenas a condição de respeito à própria sobrevivência o
que não implicaria em egoísmo e nem um caminho para torná-lo. Gratificante tornou-
se esse trabalho a partir do momento que as experiências da própria pesquisadora
instigaram a busca com afinco pelo conhecimento e que o resultado tornar-se-ia útil
às pessoas validando o que já foi sacramentado.
Por isso, a importância de entender a perversidade para se ter condição de
amenizar suas consequências aos sobreviventes de um assédio moral no ambiente
de trabalho. Após as tempestades, estrutura-se uma fortaleza no âmago da vítima
para prospectar o futuro, lidar com o presente e compreender as memórias de
outrora.
Quanto ao assediador, ele nutre seu deserto interior valendo-se dos outros,
mirando a próxima vítima para manter-se fortalecido. Logo, o mesmo alcançará
satisfações efêmeras, mas não atingirá uma essência humanizadora. Desse modo,
diante de uma situação conflitante, advinda de alguma ação violenta, irrompem-se
novos olhares, condição esta, sine qua non para novas escolhas. E assim, projeta-
se o horizonte!
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ANEXOS
90

(Instrumento de pesquisa)

Prezados professores,
Este é um instrumento de pesquisa elaborado pela aluna Mara Rúbia Matias
de Sousa, do curso de pós-graduação em Neuropedagogia e Psicanálise – Instituto
saber – Brasília-DF, tendo como orientadora, a professora Ms Rosalina Rodrigues de
Oliveira. Tem como objetivo levantar e investigar quais as principais implicações
psíquicas do assédio moral na vida profissional do docente que labora em Instituição
de Ensino Fundamental e Médio da Rede Particular e Pública no município de
Goiânia. Suas respostas individuais serão mantidas em sigilo absoluto. Seus fins
são estritamente acadêmicos/científicos.
91

QUESTIONÁRIO PARA A COLETA DE DADOS SOCIODEMOGRAFICOS E


OCUPACIONAIS
PARTE 1

1- Idade: __________ 2- Sexo:  feminino  masculino


3- Estado civil:  solteiro  casado  divorciado  outros
4- Formação: _____________________________________ 5-Tempo de docência: _______________
6- Você possui:
 Licenciatura  Especialização  Mestrado  Doutorado  _______________

7- Quantas horas/dia você realiza atividade nesta instituição? _________________________________


8- Possui outro vínculo empregatício, além desta Instituição de ensino?  sim  não
9- Se sua resposta foi “sim” na questão anterior, responda: Quantas horas/dia você realiza atividade no outro
emprego?________________________________________________________________________

10- O que determinou sua opção pela vida acadêmica?(pode assinalar mais de uma resposta)
 salário  realização pessoal  influência da família  vocação
 compromisso com a formação humana  facilidade de absorção no mercado de trabalho

11- Em quais atividades se sente MAIS realizada (o)? (Numere de acordo com grau de importância)
( ) realizando trabalhos administrativos ( ) ministrando aulas ( ) pesquisando (na sua área)
( ) outros _______________________________________________________________________

12- Você realiza atividade física?


 sim, diariamente  sim, semanalmente  esporadicamente  não

13- Você realiza atividade doméstica?


 sim (especificar)  não realizo nenhuma atividade doméstica
( ) arrumar a casa ( ) cozinhar ( ) lavar e/ou passar ( ) levar filhos à escola
( ) compras em mercados e outros ( ) outros ______________________________________

QUESTIONÁRIO PARA A COLETA DE DADOS SOCIODEMOGRAFICOS E


OCUPACIONAIS
92

PARTE 2

1- O trabalho pode agredir a saúde e a vida dos trabalhadores, porque gera condições de risco
(inexistentes fora do trabalho) e exige posturas/movimentos/gestos/ ritmos introduzidos em algumas
das condições em que é realizado (Mendes, 2003). Entre os diversos riscos ocupacionais existentes, há
os riscos psicossociais que se relacionam a vários fatores, tais como a atividade realizada, a intensidade
da carga mental, a identificação e o reconhecimento das informações percebidas pelo trabalhador, as
exigências do tempo, a complexidade da tarefa, o elevado grau de responsabilidade, entre outros
(Nefa, 1988). Diante do exposto, você acredita que há riscos psicossociais no seu ambiente de
trabalho?
 sim  não

Se sim, relacione-os______________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________

2- Dentro do seu ambiente de trabalho, você acredita que está submetido a fatores agentes de riscos
ocupacionais?
 físicos  sim  não
 situações anti-ergonômicas  sim  não
 Psicológicos/psicossociais  sim  não
 Outros (especificar) __________________________________________________________

3- Já ocorreram situações de hostilidade e conflitos no trabalho?


 sim (Quais? Assinale-as)  não
 Agressão física
 Agressão verbal
 Ameaças
 Comportamento hostil
 Desqualificação
 Divisão para melhor dominar
 Gritos
 Imposição do próprio poder
 Interferências no trabalho
 Intimidação
 Irritabilidade direcionada a alguém
 Manejo do sarcasmo e desprezo
 Mentira
 Ironias
 Inveja
 Rumores, fofocas
 Implicâncias
 Exclusão
 Deboche
 Mensagens agressivas
 Confusões/insegurança para desempenhar as rotinas
 Ostracismo
 Posturas agressivas
 Recusa de comunicação direta
 Pânico
 Perversidade
 Plágio de idéias
 Desqualificação do trabalho
93

4- Você sofre/sofreu pressões no seu trabalho?  sim  não

5- Se sim, por quem é mais pressionado? (Pode assinalar mais de uma opção)
 Pelo próprio colega de trabalho
 Pela chefia
 Pelos alunos
 Pela instituição de uma maneira geral
 Por outros na Instituição

6- Você acredita que a pressão sofrida no trabalho pode afetar a sua saúde?  sim  não

7- Que tipo de manifestações à saúde que você sente que podem estar relacionadas às pressões sofridas
no seu trabalho?

 alterações da memória
 alterações de pressão e da glicose
 alterações dos hábitos alimentares
 alterações gastro-intestinais
 alterações no sono
 angústia
 ansiedade
 aumento de peso
 auto-estima diminuída
 cansaço físico e mental
 cefaléia e/ou dispnéia
 choro
 depressão
 desânimo
 desconfiança
 desgaste físico
 desgaste psicossocial
 desmotivação
 diarréia
 dificuldade para relaxar
 dor de estômago
 dor muscular
 dor nas costas
 dor no corpo
 dores localizadas
 estresse
 fadiga
 falta de concentração
 falta de criatividade
 fobias
 gastrite
 hipertensão,
 indisposição
 inquietação
 insatisfação
 insegurança
 insônia
 irritabilidade
 isolamento
 mau humor
 nervosismo
 pouca tolerância com os outros
94

 problemas nas cordas vocais


 resfriados freqüentes
 sedentarismo
 sensação de ameaça
 taquicardia
 tristeza/abatimento
 outros sintomas______________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________

8- O assédio moral pode ser entendido como “Uso intencional de poder contra pessoa que pode resultar
em malefício para o desenvolvimento físico, mental e moral caracterizado pelo comportamento
ofensivo, que desqualifica e objetiva rebaixar o indivíduo” (Hirigoyen, 2002). Considerando esta
definição, você acredita que já tenha sido vítima deste problema, no seu ambiente de trabalho? 
sim  não  talvez

9- Você tem conhecimento de alguma ocorrência deste tipo de situação no seu ambiente de trabalho?
 sim  não

10- Em sua opinião, este tipo de problema é comum no ambiente de trabalho escolar?
 sim  não

11- O que você pensa ou como você se sente a respeito do trabalho de professor e sua possível relação
com a saúde?
 o trabalho do professor afeta a saúde
 o trabalho do professor não afeta a saúde

12- Responda as questões abaixo indicando sua percepção sobre as questões relacionadas com o trabalho
de professor.
a) Como se dão as relações hierárquicas.  muito tranquilas  pouco tranquilas
b) As relações entre seus pares (sua relação com os outros professores)
 muito tranquilas  pouco tranquilas
c) As relações com alunos.  muito tranquilas  pouco tranquilas
d) As relações com o trabalho propriamente dito.
 muito tranquilas  pouco tranquilas

13- As relações do trabalho já se tornaram desgastantes ao ponto de atrapalhar o seu rendimento como
profissional da educação?  sim  não

14- O desgaste provocou o afastamento da empresa (atestado)?  sim  não

15- Número de ocorrências de afastamento (atestado) 1 2 3  mais de 3

16- O desgaste provocou o desligamento (demissão) da empresa?  sim  não

17- Que tipos de problema levaram ao afastamento? (Pode assinalar mais de uma opção)

 Problemas Físicos
 Problemas Psicológicos
 Gestação
95

 Licença Maternidade
 Sou saudável
 Tenho problemas de saúde, mas vou ao trabalho mesmo assim.
 Outros _____________________________________________________________________

18- Quais os tipos de tratamento utilizados? (Pode assinalar mais de uma opção)
 Medicamento
 Repouso
 Terapia
 Outros _____________________________________________________________________

19- Você usa ou usou algum tipo de antidepressivo, calmantes etc?


 sim  não  outros _____________

20- Indique abaixo informações que julgar relevante para o tema “estresse” no trabalho.
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________

Obrigada pela sua disponibilidade e valiosa colaboração.