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ANTROPOLOGIA

TEOLÓGICA
SUMÁRIO
Palavra do professor-autor.............................................................................

Ambientação....................................................................................................

Trocando ideias com os autores...................................................................

Problematizando.............................................................................................

1 ORIGEM E DESENVOLVIMENTO DA ANTROPOLOGIA...........................

1.1 O que é Antropologia Teológica?.............................................................

1.2 Breve transcurso histórico da disciplina...................................................

2 O SENTIDO METAFÍSICO DO HOMEM.....................................................

2.1 Interpretação egocêntrica......................................................................

2.2 Interpretação filantrópica..........................................................................

2.3 Interpretação teocêntrica.........................................................................

3 TEMAS EM ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA..............................................

3.1 O Homem como “imagem de Deus”......................................................

3.2 O pecado original...................................................................................

3.3 A natureza do homem ..........................................................................

3.4 O destino do homem..............................................................................

3.5 A vida eterna: imortalidade da alma ou ressurreição?...........................

Aprendendo a pensar...................................................................................

Explicando melhor com a pesquisa............................................................

Leitura obrigatória........................................................................................

Pesquisando na internet.............................................................................
Saiba mais..................................................................................................

Vendo com os olhos de vê..........................................................................


Revisando....................................................................................................
Autoavaliação.............................................................................................
Bibliografia...................................................................................................
Palavra do Professor
Que é o homem? Esta não é uma pergunta meramente curiosa, mas
intrigante. Não é uma pergunta a ser descartada como irrelevante, mas de
fundamental importância por inquirir a significação do que somos
essencialmente. Ela penetra no âmago de todos os seres humanos requerendo
a verdade acerca de si mesmo e do outro. Esta questão fez parte das primeiras
intuições filosóficas que se desenvolveu entre os gregos. Mas é também
anterior à própria filosofia e encontrou expressão nas mais diversas formas de
religião por meio do mito. A verdade é que o homem é o único ser no mundo
que por possuir autoconsciência advinda da sua racionalidade, não consegue
viver sem questionar a si mesmo e o próprio mundo a razão final da sua
existência. O homem não consegue viver feliz sem conhecer essa verdade. O
maior de todos os sofrimentos é aquele que penetra no íntimo da alma
humana; é aquele produzido pela falta de significado último. Sem esta
perspectiva clara, tudo mais se torna pueril, efêmero, descartável e a vida
perde a sua vivacidade.

O mundo moderno experimenta elevado denvolvimento científico


tecnológico que se traduz em uma vida mais confortável - para alguns -, dando
ao homem maior poder econômico, maior capacidade de aquisição de bens,
mercadorias e o consumismo está em voga. Acreditou-se, alguns ainda
acreditam, que todas essas benesses advindas do desenvolvimento científico,
daria ao homem uma vida feliz, comumente chamado de bem-estar. Uma vida
onde não faltaria alimentação para a população mundial, onde todas as
enfermidades encontrariam a cura, onde o homem experimentaria um alto nível
desenvolvimento racional, chegaria ao esclarecimento, as nações se
consolidariam em ligas de nações que constituiriam uma legislação universal,
válida para todos e a paz perpétua se tornaria uma realidade. É inegável o
contributo da ciência, graças a ela milhares de doenças, que antes conduziria
milhares ao túmulo, hoje são superadas graças às maravilhas da medicina
moderna. Mas ainda estamos muito longe daquilo que os racionalistas
pensaram ser um sonho iminente. A fome persiste em muitos lugares. A AIDS
continua dizimando milhares na África. Estima-se que 60% a população foi
afetada. As guerras não cessaram e o homem ainda é um ser em angustia.
Qual o destino da raça humana? Existe algum destino para a espécie humana?
Que devem esperar as gerações futuras dos nossos filhos e netos, e as
gerações depois deles?

O prolongar da vida, a saúde física e mental, boas condições


financeiras, embora devam ser alvos a serem conquistados ainda não
sintetizam tudo aquilo que o homem necessita para viver feliz. A angustia
existencial, o tédio, o sofrimento emocional, advirão sempre e levarão muitos a
um estado existencial deplorável e a infelicidade. Conhecer o sentido da vida
humana fornecerá uma blindagem emocional e espiritual capaz de proteger o
eu da fragmentação e autodestruição diante de sofrimento. Constituirá um
fundamento sólido e inabalável mesmo diante das maiores tragédias.

Nesse contexto a disciplina Antropologia Teológica, que na sua


constituição interdisciplinar, contribuirá na formação acadêmica e humana, ao
problematizar temáticas que conduzirão o estudante a uma reflexão que
permitirão conhecer uma perspectiva, uma tentativa de resposta à questão
fundamental sob a luz da Revelação e da tradição teológica judaico-cristã. Ela
expõe o problema da existência humana, sua origem, o valor da vida humana,
o sofrimento, o significado da vida e da morte, o que fazer e o que esperar.

Desejo sinceramente que através destes estudos você consiga atribuir


maior valor a sua própria existência e a dos outros.
Ambientação

O que é Antropologia Teológica?

Trata-se de uma disciplina que estuda o ser humano a partir da


Revelação de Deus encarnado na humanidade através de Jesus Cristo.

O estudo da Antropologia Teológica fundamenta-se nas Escrituras


Sagradas e na teologia cristã, e propõe a pensar o ser
humano a partir destas fontes, permitindo formar uma
cosmovisão e integrando o conhecimento da filosofia e da
teologia cristã.

Trocando ideias com os autores


Para aprofundamento do assunto, sugerimos a leitura desta obra que aborda
os conceitos necessários à compreensão do conteúdo
referente à disciplina de Antropologia Teológica.

O autor apresenta vários temas como: o mundo e sua


criação, o homem como imagem de Deus, na Bíblia e na
tradição, a constituição do homem como ser pessoal e
social, o homem pecador e o pecado original, o homem na
graça de Deus, a graça como transformação interior do
homem, a plenitude da obra de Deus e a plenitude do homem.

LADARIA, de Luiz F. Introdução a Antropologia teológica. 3ª ed. São Paulo:


Loyola, 2007.
Prezados estudantes, sugerimos a leitura da obra O Homem
Integrado: abordagens de Antropologia Teológica, a qual aborda uma visão

associada do homem e da vida cristã, mostrando a transformação religiosa no


mundo atual. Apresenta características como individualismo, imediatismo, sem
se preocupar com os próprios atos, e as perspectivas de decompor conceitos
da cultura moderna (ou pós-moderna) causam, ao mesmo tempo, a fartura de
tendências religiosas e a falta de diálogo, crítica e religiosidade.

RUBIO, Alfonso Garcia. O Homem Integrado: abordagens de Antropologia


Teológica. Petrópolis: Vozes, 5ª ed., 2011.

Sugerimos que leia a obra Imagem Humana à Semelhança de Deus.


Esta faz uma ponderação que parte da fé para pensar sobre a
condição humana levantando questionamentos de quem é o homem
e qual o seu destino no plano de Deus. Aborda a antropologia
teológica dos Padres da Igreja, indicando um esclarecimento sobre a
criação do ser humano nas Escrituras Sagradas, e, em seguida,
analisa como o filósofo e teólogo Mestre Eckhart concebe a alma e seu
percurso em direção à Unidade.

SOUZA, José Neivaldo de. Imagem Humana à Semelhança de Deus. São


Paulo: Paulinas, 2010

Após a leitura das obras, faça uma síntese das ideias e identifique
algumas semelhanças e diferenças entre estas. Se esses conceitos são
diferentes, em que consistem tais diferenças? E se são semelhantes, em que
consistem tais semelhanças?
Problematizando

Uma das grandes questões implicada no estudo da Antropologia


Teológica é a questão se existe um significado para a vida humana como
indivíduo e como espécie. Se tal sentido de fato existe, como conhecê-lo? A
antropologia teológica diferencia da antropologia trabalhada em cursos de
Sociologia ou filosofia. A Antropologia como ciência é o estudo do homem
envolvendo suas dimensões sociais, biológicas culturais, incluindo sua origem,
comportamento, desenvolvimento cultural, social e físico. A antropologia
teológica atua numa esfera dupla onde procura articular o conhecimento
racional e conhecimento teológico, priorizando o último, que implica a fé na
Revelação divina. Para a antropologia teológica a existência de Deus é um fato
inquestionável. O mundo e a vida humana é uma criação divina, fruto de um
plano arquitetado pelo criador. A vida, portanto é obra de um Criador amoroso
que tudo criou com perfeição.

Mas o mundo que vivemos não é perfeito. A dor e o sofrimento


encontram-se espalhados por toda parte. A vida humana é violada, ainda na
sua infância muitas vezes. Se o mundo foi criado perfeito, como explicar a
imperfeição atual? Todos os dias seres humanos morrem, muitos por acidentes
dos mais variados, outros são assassinados, outros levados por moléstias.
Então, o homem lúcido, olha para o mundo e pergunta: qual o sentido de tudo
isso? Há um sentido maior para a vida humana ou estamos simplesmente
sujeitos as leis da natureza que controlam a vida biológica no planeta, com o
nascer e o morrer? Se Deus existe então existe um sentido para a vida
humana. Mas se Deus não existir, não há sentido algum para nada. O que a
Revelação tem a dizer sobre estas questões complexas?
Origem e Desenvolvimento da
Antropologia

1
COMPETÊNCIAS
Conhecimento
Conhecer a origem e o significado da disciplina.

Habilidade
Saber conceituar cada etapa do desenvolvimento histórico da disciplina.

Atitude
Ser um cidadão ético na relação social.
1 ORIGEM E DESENVOLVIMENTO DA
ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA

1.1 O que é antropologia teológica?

Todas as ciências são “ciências humanas”, no sentido de serem


produzidas pelo intelecto humano, sejam as ciências da natureza ou as
ciências humanas, todas são criações do homem. Diferenciam-se pelo objeto
de estudo. Mas em todo caso, todas tem como sujeito o próprio homem. O
conhecimento científico é caracterizado pelo método que procura conhecer a
realidade com rigor e elevado grau de certeza. O conhecimento filosófico é de
caráter especulativo e questionador, procura dar conta das questões de caráter
universal, estimula o crescimento do conhecimento, embora não possa por os
pés no porto seguro da verdade absoluta, pois isso resultaria na sua morte. Ou
seja, o grau de certeza do conhecimento filosófico é relativamente menor do
que o produzido pela ciência, pois quanto mais se trata de questões em nível
universal e de absolutos, menos eficaz se torna o método científico. Já o
conhecimento teológico, baseia-se numa irrestrita confiança na Revelação de
Deus, crer que ela é infalível, ou seja, não pode errar em seus temas
abordados e que é uma expressão da verdade maior que é Deus.

Sujeitos e objetos das ciências:

 Ciências naturais
Sujeito=homem; objeto=natureza
 Ciências humanas
Sujeito=homem; objeto=homem
 Teologia
Sujeito=homem; objeto=Deus/Revelação

A antropologia como estudo reflexivo do homem, existe desde a época


dos sofistas, Sócrates, Platão e Aristóteles, quando descobriu-se que a
questão fundamental e decisiva é a de “conhece-te a ti mesmo”. A partir de
então, a pesquisa filosófica terá em mira o estudo do homem, das capacidades,
dos deveres, do sentido e do fim da vida humana. No entanto a filosofia jamais
conseguiu adquirir um conhecimento satisfatório do homem. Que até hoje
permanece ainda um profundo mistério para todos.

 De onde vim?
 Quem sou?
 Para onde vou?
 Qual meu destino?
 Qual o significado da vida humana?
 Qual o valor do homem?
 Por que sofremos?
 Por que existe o mal?

Uma definição filosófica antiga para o homem é que ele é um animal


racional e político. Certamente trata-se de uma boa definição, mas não é
completa. O certo é que da resposta dessa pergunta depende o sentido da
vida humana e da morte. Decifrar o problema da existência humana é conhecer
a condição humana e sua situação atual.

A teologia e o homem

A Teologia, como um conhecimento que procura articular o conhecimento


da fé com o conhecimento filosófico (razão) pretende conhecer e explicar o
significante do mundo e do homem; é a mais antiga de todas as filosofias.
Sempre se ocupou com o homem, pois a Revelação é sua fonte principal com
a qual alimentasse da verdade.

Na Grécia, teologia era o estudo dos deuses, inicialmente era


essencialmente mitológico. O mito serviu para explicar e dar significado a vida
do homem naquele período. Os poetas gregos, os narradores do mito, foram
chamados de teólogos, porque proferiam um discurso acerca dos deuses. Mas
ainda não era uma ciência ou uma disciplina acadêmica.

A teologia como disciplina acadêmica veio a se consolidar com o


pensamento cristão, especialmente com Agostinho, bispo de Hipona. Tal
pensamento foi elaborado a partir das reflexões dos chamados “pais da igreja”
que conjugaram a filosofia grega (razão), principalmente Platão e Plotino com o
pensamento cristão (fé). A teologia procura fazer uma conciliação entre a fé
cristã e o pensamento filosófico racional. No período patrístico quem mais êxito
obteve foi o filosofo e teólogo Agostinho de Hipona, que fez uma espécie de
conciliação entre a fé cristã e o neoplatonismo. Sem dúvida por encontrar
elementos que pareciam intercambiáveis em tais estruturas de pensamento.

Posteriormente, no período Escolástico, São Tomás de Aquino dialogou


com Aristóteles. Alguns dizem que ele cristianizou Aristóteles. No período
moderno surgem várias teologias de cunho antropológico. Embora a Teologia
seja o estudo de Deus, ela sempre se ocupou como o homem, pois sempre
procurou compreender melhor a história da salvação, que por sua vez são os
gestos efetuados por Deus para salvação do homem. A novidade advinda do
surgimento da teologia, é que agora os conteúdos da revelação são expressos
e significados com o auxílio da razão filosófica, que lhe empresta os
instrumentos e a linguagem que estrutura-se em torno do conceito, para
comunicar a verdade divina.
´ A teologia acredita que a vida tem um sentido transcendental. Porque o
mundo é inteligível e racional. Assim, deve haver também uma razão última
para a vida humana. A teologia crer que esta “razão última”, esse significado
maior encontra-se num princípio exterior ao homem, que pode ser encontrado
de forma intuitiva pela razão e mais profundamente pela fé na Revelação.

Teísmo e ateísmo

O teísmo é uma perspectiva filosófica teológica que crer no Ser superior,


causa do mundo sensível e invisível. Explicação maior da existência do cosmo.
Este ser comumente é chamado de Deus. Na cosmologia cristã o universo não
é eterno, mas foi criado por uma mente superpoderosa, uma inteligência
superior e transcendente chamado de Deus. É curioso notar que na filosofia
grega antiga o cosmo considerado infinito e eterno, não era uma criação dos
deuses. Hoje, olhando para as melhores teorias cosmológicas acreditasse que
o universo teve origem e ainda está em expansão. Exemplo é a teoria que
ficou conhecida como Big-bang. Georges Lemaître propôs a teoria Big Bang
sobre a origem do Universo, embora ele tenha chamado como "hipótese do
átomo primordial”.

Assim, na perspectiva cientifica o universo teve origem, exatamente o


que o livro do Gênesis afirma com o diferencial que no Gênese a causa da
origem do universo é Deus, enquanto que na ciência não se sabe qual foi a
causa do universo. Parte da comunidade científica não acredita na existência
de um Ser criador. O Ateísmo nega a existência de Deus. Para estes o mundo
racional não precisa de sentido.

Mas conhecer o sentido do mundo é uma exigência da própria razão. O


mundo é inteligível, inteligível deva ser a sua causa. Pois um mundo racional
não poderia ter uma causa irracional. Se a causa do mundo é racional então o
mundo possui um sentido racional. Se esse sentido encontra-se no próprio
homem, esse já teria encontrado no uso pleno da sua racionalidade sem lançar
mão da fé. Como ainda não fez, é bastante plausível lançar mão da fé e aceitar
a revelação que Deus faz de si mesmo. A razão nos ajuda a saber o que é o
homem, a fé, o que ele significa.

A antropologia teológica trabalha temas como: o Homem como imagem


de Deus (a divinização do homem), o pecado original, a natureza humana, a
libertação cristã, as virtudes (fé, esperança, caridade, alegria), e o destino
eterno do homem). Todos os assuntos estão situados no vasto contexto do
debate teológico atual.

1.2 Breve transcurso histórico da disciplina


A Antropologia, palavra de origem grega “anthropos”, homem, ser
humano; e “Logos”, estudo, tratado. Surgiu com o filósofo grego Heródoto, no
século V a.C. Por ser o primeiro, pelo que se sabe, a tratar sistematicamente
do tema, é considerado o pai da Antropologia. Ao longo da história, porém, esta
ciência passou por grandes mudanças, gerando várias correntes. Destacamos
três delas:

a) A Antropologia Filosófica pagã, mas aberta ao transcendente. Os


filósofos antigos buscavam a autonomia da razão, mas não desprezavam ou
negavam a possibilidade da existência de divindades e até as levavam em
conta, chegando até mesmo à divinização do cosmos.

b) A Antropologia Teológica (de índole judaico-cristã). É a que estuda


o homem tendo como referência fundamental Deus. Passou-se da
centralização no cosmo divinizado (fase pagã) para Deus, quando o
cristianismo suplantou a visão grega da realidade e colocou tudo o que existe
na relação com o Deus revelado (fase cristã).

A Antropologia teológica trabalha a questão quem é o homem, sua


origem, sua natureza, suas virtudes e torpezas, sua autotranscedência e seus
limites; suas aspirações e linguagem, comportamentos, mas à luz da revelação
divina. Visa-se chegar a algo fundamental: o ser humano é capaz de Deus, de
acolhê-lo, conviver com ele, em comunhão e parceria com ele.

Há um pressuposto para esta vertente da Antropologia: Deus não é uma


fantasia ou um agregado mental na vida humana. Ele integra a própria
estrutura humana e lhe confere a vocação transcendente, que impulsiona o ser
humano a ir além de si, a aspirar ao infinito, a reconhecer suas limitações
(fraqueza, enfermidade, erros, morte, pecado), que o desafiam a respeito do
sentido da vida, do sofrimento, da morte e da pós-morte.

Deus dá ao ser humano a capacidade de reconhecer o valor de tudo o


que existe e de transcender à realidade do aqui-agora, por um valor maior e
mais plenificador. É exatamente esta busca do transcendente que ele
humaniza de modo maravilhoso a si mesmo como ser humano, isto é, quanto
mais ele se insere em Deus e no Projeto dele, mais encontra a felicidade. E é
esta extraordinária capacidade que o faz, também, humanizar tudo no cosmos,
estudá-lo, manipulá-lo e canalizar todas as suas riquezas em vista da
felicidade, um desejo insaciável que faz parte de seu ser como gente.

O principio arquitetônico e hermenêutico

Aos poucos apareceram dois princípios estruturais na antropologia


teológica: o arquitetônico e o hermenêutico. O arquitetônico como eixo do
ordenamento de todos os eventos da história da salvação em função de um
Plano que Deus tem para a história do cosmos, da terra e da humanidade: é o
Plano Salvífico. O hermenêutico como portador da verdade primária sob cuja
luz a teologia procura compreender e interpretar e interligar os aspectos da
história da salvação. Todos os grandes pensadores do cristianismo
colaboraram com o desenvolvimento da antropologia teológica, vista no seu
todo.

c) A Antropologia Filosófica Secularista. Realiza a mudança da


centralização em Deus para a centralização no homem, mas sem Deus. Este
passo ocorreu na época moderna em consequência da secularização e do
ateísmo, este último desenvolvido no seio da filosofia europeia e,
especialmente, pelo comunismo. Mas este vertente tem seus inícios já no
Renascimento (século XVI), Deus desaparece de cena e cede lugar ao homem.
O espírito humano abre-se a um novo modo de ver e agir. Dá-se um violento
contraste com o modo precedente de entender todas as coisas e
acontecimentos, que tinha Deus como centro de tudo e de todo interesse
humano, e passa a assumir o homem como centro de tudo. Acontece, portanto,
a passagem do teocentrismo para o antropocentrismo. Os mais importantes
filósofos dessa virada histórica do modo de pensar o sentido e a razão de ser
do ser humanos são Descartes, Hume, Spinosa, Hobbes, Kant. Mas é
Immanuel Kant, sem dúvida, quem atinge o ápice do pensamento
independente da referência a Deus, à religião; ao afirmar que o homem não é
mais simplesmente o ponto de partida, mas também o ponto de chegada da
reflexão filosófica e de toda a história. É ele que abre as possibilidades para
que dali em diante muitos filósofos deem continuidade, aprofundem e motivem
levar à prática o secularismo ateu.

2. A antropologia teológica hoje

2.1 Sempre em busca.

Não há dúvida – e o dia-a-dia o comprova – a humanidade continua sua


busca do sentido da vida e da história, do sentido da existência do cosmos e de
tudo o que nele existe, especialmente do próprio ser humano na complexidade
da história do cosmos. Multiplicam-se sem cessar artigos, livros, filmes,
canções, obras de arte, que alimentam o debate levando-se em conta a
existência de Deus nesta trama misteriosa do mundo e da vida humana ou
negando-a, ridicularizando-a e considerando toda e qualquer religião como
uma invenção prejudicial ao ser humano.

Porem a teologia cristã continua a afirmar que o ser humano só encontra


sua verdadeira explicação e compreensão no mistério do Verbo encarnado, isto
é, no Filho de Deus que assumiu a condição humana na história com o nome
de Jesus de Nazaré. Segundo a Revelação o ser humano, criado à imagem e
semelhança do próprio Deus, criado em liberdade, rompeu com o seu Criador
(pecado original), Deus, porém, não somente não o abandonou, mas deixou
plasmado na natureza própria do ser humano a necessidade de Deus e o
impulso natural para buscá-lo.

Ele concedeu à liberdade humana a graça do chamado incessante para


restabelecer a união homem-Deus, Deus-homem. Depois de manifestar-se de
muitos modos ao longo da história, quando chegou à plenitude do tempo, na
linguagem bíblica, Deus deu-lhe a maior prova de amor, o seu próprio Filho
divino em forma humana (cf. Hebreus 1, 1; 1João 4, 9-10), que viveu entre os
homens com plenitude humana, como o ser humano perfeito, por ser ao
mesmo tempo “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem”.

É pelo Cristo que o ser humano é “justificado” (recupera a justiça perdida


pelo pecado). E é a partir dele, nele, com ele e por ele, que o ser humano vive
da graça do Pai, do Filho e do Espírito Santo. É em direção a Cristo, o
referencial humano-divino que, na liberdade, o ser humano procura alcançar
progressivamente e com o impulso da graça que ele nos alcançou, “o estado
adulto, a estatura de Cristo em sua plenitude” (Efésios. 4,13). É este o cerne da
Antropologia teológica cristã.

É a partir do olhar antropológico-teológico que detectamos o que a


Revelação diz sobre o ser humano no contexto da obra da criação: uma
criatura feita no tempo e que não teve existência espiritual antes da corpórea
para usufruir da felicidade neste mundo e da glória de Deus na vida eterna
feliz. Os textos bíblicos não pretendem apresentar dados científicos, mas
mostrar o propósito de Deus, no relacionamento dele com os homens e, mais
ainda, a sua experiência no mundo como ser humano em Jesus Cristo e,
consequentemente, a identidade profunda e única do especificamente humano
assim enriquecido com a comunhão com Deus e que abre o ser humano
definitivamente e de modo privilegiado para a comunhão consigo mesmo, com
os outros, com a natureza.

Este mesmo olhar de comunhão, assim plena, considera o homem como


“imagem e semelhança de Deus” e tem a Jesus como a imagem verdadeira do
Pai, e nós, como seu reflexo. E o ser humano como “imagem de Deus” (imago
Dei), carrega em si mesmo as marcas do Criador, do Filho Redentor e do
Espírito Santificador, principalmente em sua a capacidade de conhecer e amar
o Pai, por meio de Filho, no amor do Espírito Santo e como co-criador e
cooperado em seu Plano de Amor sobre o mundo e a humanidade.

2.2 A estrutura básica do ser humano segundo a fé.

Um dos diferenciais da antropologia teológica judaico-cristã, em relação


às outras antropologias, é seu modo de entender e explicar o ser humano
como um organismo psicofísico resultado da estreitíssima união entre corpo e
espírito.

São Paulo, formado para ser rabino, em sua carta aos Tessalonicenses
fala do ser humano como corpo-alma-espírito: “Que o espírito, a alma e corpo
de vocês sejam conservados de modo irrepreensível para a vinda de Nosso
Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5, 23). É evidente que para ele a Antropologia não
existia como discurso reflexivo. Só posteriormente e muito lentamente, com a
influência da cultura grega, é que se chegou ao seu início e no ocidente ao seu
desenvolvimento.

Expliquemos um pouco, mas com os termos em hebraico, grego, latim e


português, esta visão integrada do homem, segundo a visão hebraica e que
Paulo utiliza na carta aos Tessalonicenses:

a) Corpo (bâsar, sarx, caro = corpo de carne) é a nossa realidade física,


biológica); b) O termo espírito “ruach”(hebraico) tem seu correspondente no
grego a “pneuma”, e em latim “spiritus”, significa sopro divino energia vital
presente no homem e nos animais. É a dimensão vital similar a de todos os
demais seres vivos.

O termo Alma (nephesh, psychè, anima = é o homem na sua


integralidade (Cf. Genesis 2.7). Também pode se referir a dimensão psíquica,
afetiva, intelectiva, colitiva, relacional. Pode se referir a auto-consciência, do
afeto-relacionamento, da liberdade, da vontade, do senso ético, da busca do
bem, do belo, da verdade e da felicidade. Mas nunca, nas Escrituras o termo se
refere a uma entidade imaterial que sobreviva fora do corpo após a morte.
O termo espírito também pode se referir, em alguns textos, à dimensão
transcendente espiritual, é a dimensão exclusiva do ser humano, fruto da
criação direta de Deus (sopro-ruach, ser vivente em Deus e para Deus), que
assegura a possibilidade de comunicação e comunhão com Deus. Alguns,
como o Pe. J.M. Bover S.J., em seu livro Teologia de San Pablo, interpreta a
distinção corpo, alma e o espírito, feita por Paulo, como uma distinção que o
Apóstolo faz de dois aspectos da mesma alma: enquanto princípio de
animação do corpo e enquanto elemento puramente espiritual que sobrepassa,
sob forma de inteligência e vontade.

Esta reflexão é importante porque houve na história do cristianismo,


confusão entre os intérpretes e estudiosos, alguns afirmando que Paulo tinha
uma visão tricotômica do ser humano, isto é, um composto de três partes
separáveis, enquanto outros defendiam a concepção dualista de corpo e alma,
duas partes separáveis. Na concepção hebraica as três realidades se
apresentam como dimensões integradas, formando uma unidade, um todo.
Mas, sob a influência da filosofia grega, sofrida durante o período patrístico,
principalmente com o teólogo-filosofo Santo Agostinho, concluiu que a alma e
o espírito são imortais, ao passo que o corpo é corruptível. Mas esta não era a
crença da igreja cristã primitiva (período apostólico), que depositava toda a sua
esperança na doutrina da ressurreição. A ressurreição de Jesus é a garantia de
que um dia todos os que morreram serão ressuscitados, uns para a vida
eterna outros para o juízo.

Pois, se os mortos não ressuscitam, nem mesmo Cristo ressuscitou. 1


Coríntios 15:16.
E, se Cristo não ressuscitou, é inútil a nossa pregação, como também é
inútil a fé que vocês têm. 1 Coríntios 15:14.

Na reflexão tradicional e oficial da teologia cristã, o predomínio da


cultura Greco latina na teologia fez acontecer uma divisão entre “corpo e alma”,
e uma fusão entre espírito e alma. Embora, na Revelação sejam coisas
distintas. Com isso, quando, se fala em “alma”, entende-se por (ruach, pneuma,
spiritus-espírito), uma compreensão errônea, pois ruach (espírito) não é o
mesmo que alma (nephesh) “ser vivente” cf. Gen.2.7. Um espírito no sentido
original é apenas fôlego de vida (ruach) não é uma entidade consciente que
possa viver fora do corpo como um ser autônomo.

Segundo os documentos do Magistério da Igreja afirmam que a alma é


“espiritual e dotado de imortalidade”. Ora, se a alma é espiritual, não pode ser
corrompida, pois sendo espírito, dotado de “existência própria”, autônoma e
independente da matéria, não se extingue com a corrupção do corpo. Ora,
percebe-se que os ensinamentos do Magistério da Igreja destoa no puro e
original ensinamento bíblico que em parte alguma afirma a imortalidade da
alma ou que a mesma possa existir “fora do corpo” como um ser consciente
autônomo. Pelo contrário, o único ser que possui imortalidade é Deus: “O único
que é imortal e habita em luz inacessível, a quem ninguém viu nem pode ver. A
ele sejam honra e poder para sempre. Amém.” (1 Timóteo 6:16). Como visto
anteriormente, o ensinamento que a alma é imortal não tem origem na tradição
judaico-cristã , nem nas Escrituras, mas foi absorvida da filosofia grega, que
aprendeu de uma antiga religião, o órfismo, e incorporou e adaptou ao
cristianismo no período patrístico, desenvolvido por teólogos como Agostinho,
Tomás de Aquino, entre outros.
O sentido metafísico do
homem

2
Conhecimento
Conhecer as interpretações mais aceita e conhecidas acerca do sentido
metafísico do homem elaborado pela filosofia e teologia.

Habilidade
Ser capaz argumentar em nível conceitual identificando a interpretação
teocêntrica; e justificar sua coerência interna como a explicação mais coerente
para a autotranscedência humana.

Atitude
Assumir atitude critica acerca do conhecimento adquirido e provocar reflexões
e autoconhecimento no estudante.
2 O SENTIDO METAFÍSICO DO HOMEM

O que é a vida? Tem ela algum significado? De onde provem tantas


profanações à própria vida? Tantas agressões a vida, tantas injustiças,
violências, vícios, maldades. O homem perdeu o sentido da sua própria
existência? O cristão que tem fé, sabe o sentido da sua própria existência. Mas
e quem não tem fé, será possível somente pela razão obter conhecimento
seguro sobre o sentido do homem? Para responder esta pergunta,
examinaremos a experiência singular e universal da autotranscedência.

Transcender é Passar além dos limites, ser superior a, exceder,


sobrepujar, ultrapassar, chegar a um alto grau de superioridade.
Autotranscedência é o movimento pelo qual o homem se supera
sistematicamente a si mesmo, a tudo que é, tudo que adquiriu, tudo que crer,
pensa e realiza.

Ao examinar a atividade cognitiva, vemos que sua busca do saber é


insaciável e inexaurível. Quer sempre conhecer mais sobre o homem e sobre
o mundo. Nossa vontade nunca se satisfaz. Possui uma poderosa tendência
para a autotranscedência, que nunca se aplaca. Também no campo das
paixões. “Existe nas grandes paixões uma intenção transcendente que não
pode proceder senão da atração infinita da felicidade.”

O próprio corpo humano, é um corpo que transcende a própria natureza


da corporeidade e torna-se epifania do espírito. A autotranscedência é uma das
características mais nítidas no ser humano. É um movimento, e todo
movimento tem uma direção, tende para uma meta.

Para onde se dirige, qual o seu alvo, ao projetar-se continuamente para


além da situação presente?

O sentido do homem

Praticamente todos os filósofos e teólogos do passado e de hoje


cuidaram desse problema e chegaram a três conclusões básicas.

 Interpretação egocêntrica

 Interpretação filantrópica

 Interpretação teocêntrica

Qual interpretação possui maior credibilidade?


2.1 Interpretação egocêntrica

A autotranscedência tem como objetivo primário o aperfeiçoamento do


sujeito que se autotranscende. Já apresentada pela filosofia grega e
renascentista, foi retomada pela filosofia moderna e contemporânea, sobretudo
pela corrente existencialista, a partir de F. Nietzsche.

Na obra Assim falou Zaratrusta, e em todos os seus escritos, o autor


sustenta que a vida em geral e a vida humana em particular é um esforço
constante de superação a si mesmo.

“E a própria vida, anuncia Zaratustra, confiou-me este segredo: Veja,


disse, eu sou a continua, necessária superação de mim mesmo.”

“A vida quer subir, e subindo quer superar a si mesma.”

A meta é sempre o homem, mais exatamente o super-homem. O homem


deve ser superado. Para realizar-se plenamente o homem deve romper todos
os grilhões da metafísica, da moral e da religião. Deve eliminar qualquer ideia
de Deus. Deus está morto.

Nietzsche, Sartre e Heidegger concordam que na vida presente, o


homem encontra-se numa situação precária, alienada, decaída. Existe no
homem uma tenção para libertar-se da ignorância, do erro, do medo, das
paixões. Mas este esforço de autotranscedência não quer ser uma imersão em
algum outro ser diferente de si.

Crítica

Essa interpretação afirma a realidade da autotranscedência em nível


pessoal, o que é positivo. Mas ainda permanece insolúvel o problema do como
levar a cabo o processo de autotranscedência. Os autores citados, confiam tal
iniciativa a forças humanas. Mas a experiência humana ensina, que nosso
esforços são sistematicamente frustrados, não alcançam nunca o saber, nem o
ter, nem o poder. A autotranscedência se torna um esforço vão e insensato?

2.2 Interpretação Filantrópica

A interpretação filantrópica, seu objetivo é o aperfeiçoamento da


comunidade humana, isto é, a humanidade. A partir de Marx e Comte,
numerosos autores viram na autotranscedência um movimento de superação
dos limites do individualismo e do egoísmo e uma tentativa de criar uma nova
humanidade, liberta das misérias individuais e das desigualdades sociais, em
condições de alcançar a felicidade perfeita.
Marcuse escreve: “O ser do homem é sempre mais do que seu ser
atual, supera qualquer situação e encontra-se, portanto, em discrepância
inarredável com esta: discrepância que exige um constante esforço de
superação, ainda que o homem não chegue nunca a repousar na posse de si
mesmo e do mudo.”

Para Marcuse, a transcendência do homem, tem caráter puramente histórico e


temporal (não metafísico e sobrenatural): é um projetar-se da sociedade para
um futuro melhor que o presente.

Crítica

Há uma dimensão positiva, reconhecer na superação de si mesmo uma


dimensão social. Mas reconhecer o componente social não significa
absolutamente que não comporte também um elemento pessoal. Não se pode
simplesmente ignorar tudo quanto se afirma sobre a concepção egocêntrica,
como fazem todos os marxistas. Portanto, a solução que Marx e seus
discípulos oferecem não pode ser aceita.

Atribuir ao movimento de autotranscendência metas fascinantes e


espetaculares que só poderão ser atingidas pela humanidade num futuro
remoto, como fazem Marx, Comte, Bloch, Marcuse e tantos outros, significa
deixar completamente desalentadas e desenganadas as esperanças reais do
homem de hoje, que além do nível social e coletivo, espera também, o
individual e pessoalmente, que elas venham a se realizar para cada um deles.

O significado da existência não pode estar simplesmente no próximo


(sociedade). Todos os fenômenos desse mundo estão destinados a decair com
o tempo, não podendo conferir um sentido permanente às coisas. Para
encontrar um significado é necessário pressupor uma instancia permanente.

2.3 Interpretação Teocêntrica

Seu objetivo último é Deus: quem autotranscende separa-se de si


mesmo para alcançar a Deus. O homem sai constantemente de si mesmo e
ultrapassa os limites da própria realidade, porque é impelido por uma vontade
superior, Deus. Este, graça à sua generosidade, bondade, perfeição,
onipresença, polariza em si todas as criaturas, especialmente o homem.

Entre os mais insignes representantes desta linha de interpretação


figuram os nomes de Platão, Aristóteles, Plotino, Santo Agostinho, São Tomas
de Aquino, Descartes,Spinosa, Kant, dos filósofos do passado. Scheler, Karl
Rahner, Teilhard de Chardin, De Finance, Barbotin, Pannemberg, Lonergan,
entre os estudiosos de hoje.
Para K.Rahner, o homem é um ser essencialmente aberto. Esta infinita
abertura consiste essencialmente na autotranscedência que impele o homem
sempre para frente. Mas não se trata de uma abertura para o vazio, nem
tampouco para um futuro que jamais se tornará realidade, mas uma abertura
que desfecha no Absoluto (Deus).

Este Absoluto, vai ao seu encontro como único capaz de abrangê-la e


consolidá-la. O Supra-essencial, aquilo que a transcende é o que lhe confere
estabilidade, significado, futuro e movimento último. A essência da criatura
espiritual não é por isso diminuída, mas justamente atinge seu valor final, sua
consistência última, e progride.

A característica fundamental do homem é a autotranscedência, que ele


qualifica como abertura ilimitada para o mundo. A interrogação sobre Deus
encontra-se, pois dentro do horizonte do homem. A subjetividade
transcendental do homem fica mutilado ou suprimida se não se estende para
o inteligível, o incondicionado, o bem do valor.

Para Mondim (1979) a interrogação sobre Deus encontra-se, pois dentro


do horizonte do homem. Existe no seu horizonte uma região para o divino, um
santuário para uma santidade última. O ateu pode declará-lo vazio. O
agnóstico pode dizer que esta busca não chegará a lugar nenhum. Mas toas
estas negações pressupõem a centelha em nossa argila, nossa orientação
inata para o divino.

A interpretação teológica da autotranscedência é interessante e


fascinante. Parece capaz de oferecer uma resposta conclusiva à busca de
sentido, implica na tendência de o homem autotranscender-se continuamente,
enquanto a reconduz àquele que é o fundamento de todos os sentidos e
valores, Deus. Mas muitos filósofos creem que Deus é um ser indemonstrável,
que é uma invenção da mente humana. E aí?

K.Rahner afirma que a interpretação do movimento de


autotranscedência não pressupõe nenhuma demonstração da existência de
Deus, mas, ao contrário, mostra que é precisamente este movimento que
fornece um documento claro em favor da realidade de Deus.

Sendo a autotranscedência um movimento exige um sentido, uma meta.


Como vimos anteriormente, nem o indivíduo, nem a humanidade podem
fornecer o sentido exigido. Resta-nos, portanto, reconhecer o sentido ultimo da
autotranscedência, e assim, do homem, situado fora do próprio homem e se
encontra em Deus, é o próprio Deus.

Não sai o homem dos limites do próprio ser para mergulhar no nada, mas sai
de si mesmo para abismar-se em Deus, que é o único ser capaz de levar o
homem à perfeita e perene realização de si mesmo.
Por isso muitos filósofos erram ao contrapor a transcendência horizontal a
transcendência vertical. Existem fundados motivos para sustentar que a
transcendência horizontal só adquire sentido e realidade através da
transcendência vertical.

Segundo Mondim (1979) a revelação bíblica, ensina-nos que Deus, não


obstante nossas quedas, nossas culpas e friezas e hostilidades, quis
igualmente dar satisfação a nossas aspirações de nos tornarmos como ele,
inserindo-nos em sua própria vida divina, tanto na vida presente como na vida
futura.

Para o cristão, o sentido verdadeiro e conclusivo do homem é o próprio


Deus; esta certeza, porem, não esta em contraste e sim em perfeita sintonia
com as perspectivas da razão humana; encontra confirmação no estudo do
sentido profundo que encerra em si mesmo a própria experiência onipresente
da autotranscedência.

Assim, o sentido maior para a vida humana não pode ser conseguido
pela filosofia humana, por especulações do raciocínio, mas somente por meio
da Revelação divina. Somente por meio da Revelação é possível conhecer o
plano divino por trás de todas as coisas, do universo, do mundo e do homem,
há um proposito maior.

Deus, um ser livre, quis criar o mundo e o homem. Quis que o homem
fosse criado a sua imagem e semelhança, conferindo um status superior, acima
de todas as outras coisas criadas. O criou livre, semelhante a Si mesmo,
conferindo a liberdade. Sem a Revelação, sem Deus, é impossível saber qual o
sentido da existência humana. Se alguém arriscar dizer que não ha sentido
para a existência humana, tal raciocínio é nulo, pois a mente racional exige um
sentido para todas as coisas.
Temas da Antropologia
Teológica

3
Conhecimento
Aprofundar o conhecimento sobre os temas fundamentais da antropologia
teológica.

Habilidade
Identificar e compreender as principais questões controversas discutidas nos
diversos temas fundamentais da antropologia teológica, articulando com a
experiência prática.
Atitude
Articular o conhecimento teórico teológico com práticas mais conscientes e
valorativas do homem, em seus diversos contextos sócio cultural e religioso.

3 TEMAS ESPECIAIS EM ANTROPOLOGIA


TEOLÓGICA
A doutrina da “imago dei”, ou seja, da semelhança do homem com Deus,
é o tema fundamental da antropologia cristã e lhe abrange todos os aspectos,
de modo que se poderia, a partir da mesma, desenvolver uma doutrina
completa do homem. Esse assunto foi tratado por quase todos os teólogos e
muitos escolásticos até Tomás de Aquino.

Abordar-se-á o tema à luz da Antiguidade e da Idade média, no período


em que os pensadores cristãos, ao interpretar a mensagem cristã à luz da
filosofia platônica, desenvolveram uma hermenêutica antropológica.

3.1 A doutrina do imago dei no Antigo Testamento

A doutrina do homem considerado como imagem de Deus é o núcleo


central da antropologia do Velho Testamento. É encontrada nos primeiros
capítulos do Gênesis. O texto fundamental é Genesis 1. 26-27. “E Deus disse:
façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança... Deus criou o
homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus”.

As melhores interpretações dadas pelos teólogos acerca desse versículo


são:

a) A posição privilegiada que cabe ao homem, como ponto alto e


conclusivo da criação;
b) A função de representar o criador no mundo.
O homem foi criado imagem e semelhança de Deus, isso é algo dito
acerca unicamente do homem. Ou seja, todos os demais seres, embora
criaturas de Deus, não foram feitos imagem do Criador. Somente o homem
possui essa particularidade. Ser imagem e semelhança de Deus o coloca
acima das outras coisas e no topo da criação, numa posição superior aos
animais, uma posição privilegiada. Os teólogos discutiram em que consistia
essa imagem e essa semelhança. Basicamente o que se conclui é que o
homem possui características que são próprias da divindade, como:
inteligência racional, personalidade, liberdade e governo. Estes aspectos
foram compartilhados pelo criador apena com o homem. Os animais possuem
vida, possuem movimento, alguma forma de inteligência, mas agem por
instintos e não por razão. Eles não sabem de si, mas apenas o homem sabe
de si, ou seja, possui autoconsciência e por meio da razão exerce domínio
sobre o mundo, ou seja sobre a natureza, manipulando-a e adaptando-a as
suas necessidades. Deve fazê-lo com respeito e responsabilidade, pois não é o
proprietário definitivo da natureza, mas apenas um administrador. Como bom
governante deve ter sabedoria para usufruir e ao mesmo tempo preservar a
natureza a fim de que os recursos naturais não venham a ser exauridos,
prejudicando as gerações futuras. Todo administrador sabe que prestará
contas da sua administração.

Segundo a Revelação Deus criou o homem distinto dos animais, criou à


sua semelhança. Talvez pareça antiquado crer nisso no mundo moderno. Mas
só e assim, porque a mídia televisiva e escrita bombardeia manipularam a
opinião popular com as falsas ideias da teoria da evolução; agindo com
parcialidade não apresentando outras posições, como o criacionismo e a teoria
do “designer inteligente” que, além de apresentarem forte argumentos a favor
de uma Inteligência superior criadora, apontam as fraquezas e contradições da
teoria evolucionista. É passado para o público em geral que a teoria da
evolução é uma verdade incontestável. Nada mais longe da verdade. Uma
pesquisa feita nos Estados Unidos da América revelou que 40% dos cientistas
americanos acreditam que o mundo veio à existência instantaneamente, como
descrito na Bíblia, e não por meio de uma evolução de bilhões de anos.
O conceito da “imago dei” é importantíssimo, pois enobrece a existência
humana e corrobora para uma maior valorização do homem. A vida como um
todo, e especialmente a vida humana deve ser respeitada, valorizada. Se todos
são imagem de Deus, todos merece serem respeitados e tratados com
dignidade.

Outro aspecto que podemos abstrair de tal conceito, é que o homem foi
criado originalmente à imagem do criador. Assim, na origem, essa imagem foi
refletida com perfeição, visto que fora criado perfeito. Após a queda (pecado
original), a natureza humana foi corrompida, tornando-se pecaminosa e má.
Podemos deduzir que o pecado corrompeu aquelas faculdades que refletiam a
imagem do criado, embora não tenha eliminado de um todo. Por essa razão, o
homem que fora criado perfeito, hoje, pode atingir elevado índice de
dessemelhança e corruptibilidade. Quanto mais se aliena do criador, mais
corrompido e dessemelhante se torna. É o caso daqueles capazes que praticar
os crimes hediondos, sem paralelo nem mesmo no reino animal.

3.2 O pecado original

É inegável a presença nesse planeta da dor, sofrimento, maldades e da


morte. A própria vida tão revestida de brilho e beleza, fenece dando lugar a
doença, enfermidades e sombras.

Vemos pessoas capazes de atos gentis, amáveis, altruístas, por outro,


vemos pessoas cruéis capazes de cometer crimes inacreditáveis ao ser
humano.

Como explicar que toda a humanidade estar envolvida em dor e


sofrimento? Como explicar este contraste? Por que na natureza humana se
abriga sentimentos e princípios tão antagônicos? Como explicar um mundo tão
belo, um planeta tão rico em vida, existir paralelamente desgraças, infortúnios,
fome, miséria? Os teólogos ao estudarem a Revelação encontram uma
resposta dada pela mesma, em mais de uma perspectiva. A explicação dada
pela Revelação é que o mundo está todo envolto em “pecado”. O pecado
representou uma queda, de uma posição espiritual, física e moral elevado para
uma condição decaída e inferior. Este tema é estudado na teologia como
pecado original. E é abordado e interpretado nas seguintes perceptivas:

Interpretação jurídica

Deus criou o homem à sua imagem. Deus é um ser pessoal e moral. Ser
um ser moral significa ser capaz de fazer diferença entre o bem e o mal,
capacidade de escolher e de decidir, de conhecer e seguir certos princípios,
normas e leis, bem como de desobedecer a tais princípios. Deus é um ser
moralmente perfeito e bom, pois suas escolhas sempre são boas e corretas.
Ele criou o homem com a mesma qualidade, deu-lhes ordens, mandamentos,
leis, porém o homem as desobedeceu, vindo a tornar-se culpado diante da lei,
que requer punição ao desobediente, recebendo a justa condenação.

A teologia hebraica-cristã ensina que Deus criou o homem perfeito. No


principio o homem não possuía nenhuma propensão para o mal. Foi o mau uso
do livre-arbítrio que o fez violar ou desobedecer as leis divinas. O primeiro ato
de desobediência é chamado de pecado original. Ao pecar o homem se tornou
culpado diante de Deus, merecedor de uma justa condenação.

A doutrina do pecado original só é possível, dentro de uma concepção


“de liberdade humana”. Deus criou o homem como ser livre, havia escolha. O
homem não estava controlado (obrigado) por nenhuma lei exterior. A única
motivação para obedecer devia ser o amor ao seu Criador. O homem
originalmente vivia uma vida de santidade, ou seja, estava apartado do mal. O
pecado acarretou consequências terríveis. São Paulo claramente explica:

“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e


pelo pecado a morte, assim a morte passou a todos os homens, porque todos
pecaram.” Rom.5.12.

Pecado nessa perspectiva, é visto como “transgressão da lei”. Os


Padres, sobretudo Tertuliano e Agostinho reafirmam tal doutrina. Todos os
homens estão co-envoltos num pacto especial que Deus estipulara com Adão,
na sua autoridade de chefe moral do gênero humano: o pacto fazia depender a
conservação e a perda dos dons sobrenaturais diretamente do comportamento
de Adão.
Portanto se Adão não tivesse pecado, teria transmitido a seus
descendentes, além da existência física, também uma elevada condição moral
e espiritual. Ao ser dotado de razão e liberdade, o homem também se tornou
responsável por suas ações, essa responsabilidade envolvia não somente o
cuidar de si propriamente, mas dos seus descentes, que herdariam as suas
características. O homem foi criado como uma “unidade corporativa”. O que
afetou o primeiro homem afetou a todos, pois todos estavam, de alguma forma,
unidos ao primeiro, pela natureza comum herdada.

Assim todos os seres humanos ao nascerem, nascem culpados em


virtude da consequência universal do pecado de Adão. Já nascem
condenados, antes mesmo de praticarem qualquer pecado voluntário. Por isso
todos morrem. A morte é a condenação que sobrevém ao pecador pelo
julgamento divino contra o pecado. Esta interpretação do pecado original é
chamada de teoria jurídica.

Interpretação histórico-ontológica

Nessa interpretação do pecado original, admite-se uma unidade


fundamental de todos os homens em Adão. Uma “certa presença física”,
ontológica de toda natureza humana em Adão, uma certa união real de todos
os homens na sua primeira origem.

“A universalidade da ação de Cristo pressupõe a universalidade do


pecado, a redenção é universal; houve portanto, uma queda universal.”
(MERSCH, E. A teologia do corpo místico. Louvain, (1954, p.193).

A humanidade foi criada em uma singular unidade. Com seu pecado


Adão não perdeu apenas a sua união com Deus, mas também prejudicou
gravemente a unidade da natureza humana. Depois do pecado de Adão, Deus
ainda mantém sua oferta de salvação por meio da graça salvadora manifestada
no Seu Filho Jesus Cristo. Recusar esta oferta constitui a essência do pecado
original.

Teoria existencial do pecado original

Para o teólogo R.Bultmann: “Qualquer interpretação da Palavra de Deus


implica uma pré-compreensão da realidade da parte do homem.” Deus como
criador, solicita o homem a depositar nele sua confiança, a entregar-lhe a
própria vida. Solicita a não fazer depender a própria existência e a própria
felicidade da pose das coisas deste mundo, mas no cumprimento da vontade
divina.

Mas o homem, não suportando viver na insegurança diante de Deus;


procura a segurança da própria existência e se empenha em obtê-la, quer
vivendo simplesmente no mundo disponível, na preocupação ou no prazer dos
sentidos, quer procurando intencionalmente sua glória diante de Deus com a
observância formal da lei.

A essência do pecado original esta justamente nisso: em procurar obter,


do mundo mais que de Deus, a segurança da própria existência. Pecado
significa querer viver de si mesmo, com as próprias forças, e não numa radical
doação a Deus, àquilo que Deus exige.

“O verdadeiro pecado consiste na atitude fundamental do homem, na


vontade de obter a própria justiça e de gloriar-se diante de Deus.” - Bultmann.

Qual o elemento sedutor do mundo? Diversamente de Deus, ser


disponível. Mas porque o homem incorre na tentação? Porque tem medo da
insegurança da sua existência quando procura sua vida em Deus.

Deus de fato não esta nunca “disponível” ao homem, e sim diante dele.
Deus é somente uma possibilidade enquanto o homem se mantém aberto ao
encontro indisponível com Deus. “De tal insegurança, que se apresenta no seu
aspecto de terror e ameaça, o homem escapa refugiando-se no mundo das
coisas disponíveis.”

Mas o homem que se abandona no mundo se torna escravo do mundo.

O pecado é uma “fraqueza da sua natureza”. O homem nasce num


mundo corrompido, cheio de falsas aspirações, ao atingir a maturidade da
razão, assume a culpa concreta. Torna-se corresponsável.

O teólogo K.BARTH considera o pecado uma “desintegração da própria


natureza humana”. Remos aqui um retorno a ortodoxia protestante. Somente
por obra da revelação o homem adquire consciência de sua condição de
pecador. “Como seria verdadeiramente possível perceber o pecado e
reconhecer-nos pecadores se Deus mesmo não tivesse dito ao homem que ele
pecou?”

A natureza do pecado segundo K. Barth

Nessa incapacidade de o homem tomar conhecimento da própria culpa,


Barth vê o aspecto mais grave do pecado. Sendo o pecado revelado apenas
pela revelação, sendo Jesus a maior revelação de Deus, somente Jesus Cristo
revelaria ao homem em que consiste a natureza do pecado.

Jesus Cristo manifestou absoluta confiança, obediência, submissão ao


Pai. Assim o pecado do homem consiste em orgulho, desobediência e na
incredulidade. Jesus se fez servo. Nós queremos a emancipação, poder e
domínio. Jesus se submeteu ao julgamento divino. Nós queremos ser juízes.
Jesus, inocente, se fez culpado por causa dos pecados da humanidade; Nos,
na condição de julgado queremos assumir a condição de juízes.

Jesus submeteu as leis de Deus (elas definem o bem e mal), nós


mesmos queremos estabelecer o critério de bem e mal. Queremos julgar a nós
mesmos, enquanto só Deus é juiz. E só sua vontade é norma do bem e do mal.
A luz da Palavra de Deus o pecado arruinou a essência do homem, fazendo-o
permanecer sob a ameaça do nada. O pecado e um evento pessoal. A
responsabilidade só pode ser atribuída a quem comete. Não podemos dizer
que herdamos o pecado de Adão. Não é transmitido hereditariamente, mas
provem do sujeito.

O pecado de Adão tem sobre os pecados dos outros apenas uma


prioridade cronológica, mas nenhuma prioridade ontológica. Aceita o dado da
universalidade do pecado. Mas acredita que a revelação apenas diz que todos
os homens são pecadores, mas não afirma que isso tenha acontecido por
culpa de Adão. Todos são pecadores porque se comportam como Adão.

Participação na vida divina

Um conceito bem familiar à teologia cristã é aquele chamado “graça de


Deus.” A revelação mostra que Deus sempre quis estabelecer um
relacionamento de intimidade especial com o homem. Chamando-o a um
gênero de vida superior. Este relacionamento singular incide profundamente
no sentido da existência humana e no próprio ser do homem, que assume um
caráter divino. Embora o homem tenha recusado esta amizade com Deus, a
bondade e a misericórdia de Deus são tão grandes, que Deus quer tornar a
oferecer aos homens a sua amizade. E o fez enviando-nos seu próprio Filho.
Aos que reconhecerem em Jesus Cristo o Filho de Deus e o amarem
incondicionalmente, ele o faz participar de sua vida divina. Desta forma a
participação na vida eterna decorre prioritariamente de um dom maravilhoso
concedido gratuitamente ao homem, que para usufruí-la precisa responder
positivamente a esta graça.

Nesse aspecto, os esforços humanos por mais bem intencionados que


sejam não possui em si mérito algum. Os méritos são do próprio Filho de Deus
que se entregou em sacrifício pela humanidade, conquistando o direito legal de
salvar a tantos quantos aceitem sua mediação. O papel das boas obras, nesse
contexto, é mais efeito do que causa de salvação, ou seja, aqueles que foram
alcançados pela graça divina produzirão boas obras. Já ensinava apóstolo
Paulo aos efésios: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não
vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie;
Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as
quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Efésios 2:8-10).

3.3 A natureza do homem segundo o texto bíblico

A antropologia do Novo Testamento que se inspira no Antigo


Testamento ensina que o homem é mortal. O homem foi criado, segundo o
Gênesis 2.7, da combinação do pó da terra e do fôlego de vida. Dessa união
harmônica o criador fez a alma vivente, ou seja, o ser vivente, o homem. Se a
natureza humana existe de forma integrada, ao desfazer suas partes com a
morte, desaparece o que chamamos “natureza humana”.

Segundo essa perspectiva bíblica antropológica, o homem não existe


como um ser dicotômico (dividido) em corpo e alma. A visão bíblica vê o
homem como um ser integrado em suas partes. A revelação informa que o
homem foi criado potencialmente para viver eternamente. Mas sua imortalidade
era condicional a uma vida em harmonia com os preceitos de Deus. Estes
preceitos morais estão espalhados por toda a Bíblia. Parte deles foram
sintetizados em dez mandamentos (cf.Êxodo 20), e estes ainda foram
resumidos em dois grandes mandamentos: o amor a Deus e o amor ao
próximo.

Como visto no tópico anterior, o homem veio a transgredir e a


consequência da queda foi a morte. A morte é uma espécie de desestruturação
daquelas partes que antes fora perfeitamente ordenadas pelo criador e postas
em plena harmonia e funcionamento. Essa desestruturação implica na
separação da matéria e da energia vital soprada pelo criador, resultando na
morte do homem. Com a separação das partes o todo perde a sua forma e
deixa de existir. A matéria ou o cadáver não é mais homem. O que
chamávamos de homem não mais existe.

Outra perspectiva sobre o tema, não compartilhada pelo autor deste


material, ensina que o homem é um ser dicotômico, ou seja, esta constituído de
corpo e de uma alma imortal, sendo a alma responsável pelo aspecto racional
do homem. Sendo esta não material, mas espiritual, não está sujeita a morte,
pois é tida como indestrutível. Esta perspectiva é muito popular e a que mais se
divulgou no meio religioso, como o catolicismo, protestantismo e espiritismo,
entre muitas outras religiões mundiais.

3.4 O destino do homem

O destino do homem é um tema que interessa a antropologia teológica.


Afinal, está intimamente relacionado com o sentido da vida humana. Sobre este
assunto a Revelação oferece um ensinamento claro e preciso.

A Bíblia não ensina a crença em uma vida na morte, nem em espíritos


desencarnados, ou que almas boas vão para o céu, e as más vão para o
inferno após a morte. Essas doutrinas foram desenvolvidas posteriormente pelo
cristianismo, já no período patrístico, e desenvolvidas posteriormente por toda
Idade Média, em função de infiltrações da filosofia, como o neoplatonismo,
cujas crenças acerca da imortalidade da alma derivaram do órfismo e
pitagorismo, mas não faziam parte das crenças do cristianismo primitivo
(entenda primitivo como primeiro). Os profetas e apóstolos nada ensinaram
sobre este assunto. Num estágio mais avançado da Revelação, profetas como
Isaias e Daniel falaram acerca da ressurreição física dos mortos (Daniel 12: 2 e
3). Durante muito tempo a esperança do povo de Deus (Israel) consistiu em
viver na sua própria terra, Canaã, colhendo e usufruindo seus frutos, tendo
uma vida próspera e longa, na prática da justiça (Isaias 65:17,25). Não se ver
nenhum ensinamento sobre almas num paraíso celestial.

Posteriormente, com o aparecimento de Jesus de Nazaré e seus


apóstolos, foi elaborado o texto do Novo Testamento que reflete os
ensinamentos do Antigo Testamento. Estes ensinaram, em harmonia com os
profetas, que haveria um juízo final, onde os mortos ressuscitariam para serem
julgados e receberiam sua recompensa segundo suas obras no último dia. Não
ensinaram que almas separadas do corpo, seriam recompensadas na morte.
Criam que os corpos ressuscitariam no último dia, ou seja, no dia do juízo final.
Marta, irmã de Lázaro sabia que seu irmão retornaria no último dia: “Disse-lhe
Marta: Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia.” João 11:24.

Assim, os primeiros cristãos não acreditavam que receberiam o céu ou o


inferno por ocasião da morte. Nem tão pouco, criam num estado intermediário
onde almas aguardariam pacientemente ou em tormentos o dia do juízo final.

A vitória sobre a morte

Ao pensar acerca do destino do homem, necessariamente pensa-se na


morte. A ameaça da morte é uma constante na vida de todos os seres
humanos que vivem nesse planeta. Ninguém escapa da ameaça do “não-ser”.
Um dia todos morrerão. Fica então a pergunta carregada de expectativa:
haverá alguma coisa depois da morte? Como saber com certeza? Se há algo, o
que devemos esperar? Uma vida melhor ou pior que a atual?

Estamos num campo onde as ciências não podem nos ajudar, este é o
terreno da religião. A própria filosofia nos decepciona, pois também não
conseguem responder estas questões com segurança, ainda porque, a
metafísica está fora de moda na filosofia moderna. Mas onde a ciência e a
filosofia falham miseravelmente, a palavra de Deus nos socorre e nos anuncia
uma verdade altamente consoladora. A morte é uma cessação da vida, mas
não tem a última palavra, mas Deus tem.

O cristianismo é uma religião cujas esperanças se prolongam para além


da morte. Uma das suas crenças centrais é que Jesus Cristo superou a morte
quando ressuscitou ao terceiro dia. Os ensinos de Jesus tinham como pano de
fundo a premissa que a vida eterna é uma possibilidade real, transcendendo os
confins do tempo e do espaço. Os apóstolos e os demais seguidores de Jesus
sabiam que ele era o caminho para a vida eterna. Jesus certa feita disse que
Ele era “o caminho, a verdade e a vida”. Durante seu ministério testemunhas
viram Jesus trazer à vida alguns mortos, estes relatos históricos estão
registrados nos evangelhos. Os seguidores de Jesus tinham esperança de
superarem a morte e receberem a vida eterna por meio dEle. Os cristãos
sabiam qual era o destino final do homem, a vida eterna, bem–aventurada,
desfrutada no santo gozo da contemplação infinita do belo e perfeito Deus, em
comunhão com todos os justos.

Mas isso não retira o aspecto tremendo e terrível da morte. Como


qualquer outro, o cristão ainda chora a perca dos seus entes queridos. O
próprio Jesus chorou quando seu amigo Lázaro morreu. Jesus “começou a
apavorar-se e a angustiar-se” (Marcos 14:34) quando começou a se aproximar
da morte. “A minha alma está triste até a morte”. Mas Jesus não teme a morte
como um covarde. Não tem medo dos homens maus, nem das dores que
suportaria. Mas tem medo da morte em si, pois é o grande poder do mal. A
morte nada tem de divino, é algo horrível. Jesus ora ao Pai com toda angustia
de um humano diante da morte, a grande inimiga.

Jesus morreu, mas não foi derrotado definitivamente pela morte. Ele
triunfaria sobre tudo e sobre todos, inclusive sobre a morte. Já antes, havia
anunciado que após três dias iria ressuscitar dos mortos. De fato ocorreu, após
sua crucificação, ao terceiro dia ele ressuscitou dos mortos e foi visto por mais
de quinhentas pessoas durante um período de 40 dias.
A ressurreição de Jesus não ocorreu como um acontecimento isolado,
único e singular. Sua ressurreição foi a principal entre muitas que ainda haveria
de ocorrer. Foi uma antecipação do destino de toda humanidade. O próprio
Jesus disse:

“Em verdade, em verdade, vos digo: vem a hora – e é agora – em que


os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem, viverão.
Assim como o Pai tem avida em si mesmo e lhe deu o poder de julgar,
porque é filho do homem. Não vos admireis com isto: vem a hora em
que todos os que repousam nos sepulcros ouvirão a sua voz e sairão: os
que tiverem feito o bem, para uma ressurreição de vida; os que tiverem
praticado o mal, para uma ressurreição de condenação” (João 5:25-29).

Sobre o intervalo de tempo passado entre o dia da morte e o dia da


ressurreição, é necessário dizer que esse “tempo” não existe para os mortos.
Tempo e espaço existe para os vivos que deles tem consciência. Na morte
cessa toda consciência, portanto não existe “tempo”. Ao tomarem parte da
ressurreição os mortos, estes não terão consciência que estiveram mortos
durante anos ou séculos. “Sua memória jaz no esquecimento e para sempre
não tem eles parte em coisa alguma que se faz debaixo do sol [na terra].”
Eclesiastes 9.3-5,10. Ou seja, os mortos não tem consciência e não há,
portanto, possibilidade alguma de manterem contato conosco. Não há uma
porta de comunicação entre os vivos e os mortos. Todas as crenças que dizem
ser possível não tem base na Palavra de Deus.

O significado da morte

O significado que a teologia tradicional atribui à morte é ser um tributo


que o homem deve pagar em consequência do pecado original. “Visto que a
morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos
mortos. Pois como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida” (
I Coríntias 15:21-22).

A queda espiritual do primeiro homem Adão, o representante da raça


humana, resultou na sua morte e consequentemente na morte de todos os
seus descendentes. Jesus Cristo, o segundo representante da raça humana,
pagou os débitos da humanidade com sua própria morte, e garantiu a
ressurreição de toda humanidade. Por meio dele o cristão tem a esperança de
uma vida nova, de uma vida eterna. A morte é vista como uma coisa negativa,
um inimigo que deve se vencido.

Esta interpretação dada pelo cristianismo primitivo contrapõe-se àquelas


dadas por religiões espiritualistas que ensinam a existência de espíritos de
mortos desencarnados. Estas religiões veem a morte como algo natural,
tratando-se apenas de uma passagem desta dimensão para outra melhor. Essa
crença tem seu aspecto perigoso. Pois se a morte é uma simples mudança de
plano, pessoas que realmente acreditam nisso, em situação de profunda
tristeza e desespero, podem achar conveniente dar cabo de sua própria vida a
fim de experimentarem coisas melhores em outra vida.

Esta perspectiva parece poder retirar o valor intrínseco da própria vida.


Valorizando o que ainda não existe, e desvalorizando a vida presente, que foi
dada como dom de Deus. Existem registrado vários casos em que seitas
místicas cometeram suicídios coletivos baseado em tais crenças. Homens
bomba se entregam ao suicídio por acreditarem em uma vida melhor na pós-
morte. No entanto, nem todos que acreditam em tais crenças chegarão a
atitudes tão radicais, porque o instinto de sobrevivência e o apego à vida quase
sempre fala mais alto. Além do que, bons leitores das Escrituras sabem que o
suicídio é um ato contrário à vontade de Deus, e por isso evitarão atitudes
estremas ou fanáticas.

3.5 A vida eterna: imortalidade da alma ou ressurreição?

Como se deve conceber a vida eterna? Será uma realidade


absolutamente nova, conferida ao homem no momento da sua morte, ou trata-
se de uma realidade que implica numa continuação com a precedente, que ele
possuía durante a vida terrena? Esta vida bem–aventurada será desfrutada por
uma alma incorpórea ou por um ser corpóreo?

Afirma Mondim, que “A posição da teologia católica e do magistério


jamais variou nesse ponto. Tem ensinado constantemente que a vida eterna é
entendida, antes de tudo, como imortalidade da alma e, secundariamente,
como reassunção do corpo no momento da ressurreição final”.

Também a teologia protestante pronunciou-se quase sempre a favor da


imortalidade da alma. Mas durante os últimos decênios, vem-se tornando
sempre mais considerável, entre os autores evangélicos, o número dos que
não mais aceitam esta doutrina. Sustentam que a teoria da imortalidade da
alma é uma teoria filosófica, abstraída pela igreja antiga do pensamento grego
para dar expressão ao ensinamento bíblico sobre o destino último do homem.
O fato é que a bíblia em parte alguma afirma a imortalidade da alma, mas
promete ao homem a ressurreição de todo seu ser.

O mais autorizado e influente defensor desta posição é Oscar Cullmann.


Em um famoso ensaio intitulado “Imortalidade da alma ou ressurreição dos
mortos”. Paideia, Bréscia, 1970. Onde sustenta as seguintes teses:

1. A Concepção bíblica da morte é fundamentada sobre uma história da


salvação (a de cristo) e não pode, portanto, deixar de diferir totalmente da
concepção grega. O filósofo grego Sócrates (que acreditava na
imortalidade da alma) esperou a morte como libertação do corpo e das
mazelas inerentes a este. Cristo, por outro lado, sente horror a este
acontecimento e procura subtrair-se a ele. Rogou ao Pai que passasse o
cálice. Ou seja, não desejava a morte. Por que esta diferença?
Certamente por que ambos tinham compreensões diferentes do que era
a morte ou da vida pós-morte.
2. Para os primeiros cristãos a alma não é imortal em si, mas assim se torna
graças unicamente a ressurreição de Jesus Cristo, “o primogênito entre
os mortos” e “graças à fé em Cristo”.
3. A antropologia do Novo Testamento não é a mesma do pensamento
grego; mas, antes, liga-se a judaica. As divergências principais referem-
se à própria concepção da bondade da natureza humana e às relações
entre corpo e alma. Enquanto para o pensamento grego a natureza é
intrinsicamente boa, para o Novo Testamento “corpo e alma são bons
enquanto criados por Deus; ambos são maus na medida em que o poder
da morte, a carne, o pecado toma posse deles. Mas ambos podem e
devem ser libertados pela força de vida do Espírito Santo. A libertação
aqui não é libertação da alma do corpo; ambos são libertados do poder
da morte que é a carne.

Até aqui percebemos que a resposta para a questão se há ou não vida


após a morte, é uma questão que não possui uma única resposta, nem mesmo
entre os teólogos cristãos. O homem consciente da morte se pergunta? Ela
constitui ou não o fim de todo ser humano? A primeira vista a resposta parece
ser sim, pois todos as pessoas que conhecemos possuem uma estrutura físico-
psicológica que destruída e a vida cessará por ocasião da morte.

Para quem defende que após a morte, ainda sobreviverá uma


essência, ou a alma, a morte do corpo não representa a morte do ser
inteiramente, mas apenas do seu aspecto físico ou corpóreo. Mas como vimos,
esta é uma resposta cuja base está na filosofia grega, embora presente em
muitas religiões do mundo.

Para os cristãos primitivos, aqueles que viveram no século I, herdeiros


da pregação de Cristo e dos apóstolos, a resposta para a questão se há ou não
vida após a morte, era um contundente “sim”. Haveria uma vida pós morte,
mas no sentido que os mortos ressuscitariam no último dia da história humana.
Não criam que houvesse vida na morte, ou seja, enquanto mortos, não
poderiam viver de alguma forma. Morte é interpretada como antítese da vida.
Seria um contrassenso afirmar que um morto vive. Se vive não está morto. O
correto era afirmar como Jesus afirmou: Quem crer em mim, ainda que esteja
morto viverá”. Jesus não disse que seu amigo Lázaro, enquanto morto, estava
vivendo em alguma lugar. Durante os quatro dias que assim permaneceu, não
fez nenhum passeio astral viajando pelo espaço cósmico, pelo paraíso, inferno
ou purgatório. Jesus afirmou categoricamente que Lazaro estava de fato morto.
Mas ele iria ressuscitá-lo, ou seja, iria trazê-lo de volta a vida.

Nessa perspectiva, é incorreto afirmar que haja qualquer alma no céu


ou no inferno. Não faria sentido algum condenar uma pessoa a um pesado
castigo sem antes haver um justo julgamento. Para os que defendem a
existência da alma imortal, aqueles que nessa vida agiram mal e morreram
sem salvação, estão nesse momento, ardendo nas profundezas do inferno,
sendo afligidas continuamente sem alívio algum, e tudo isso sem terem ainda
passado pelo julgamento final. Essa imagem é grotesca e conspira contra o
caráter santo e justo de Deus. É difícil compreender e aceitar como um Deus
justo e amoroso poderá lançar em torturas infindáveis aqueles que haviam
criado como filhos amados.

Somente uma má interpretação das Escrituras poderia levar alguém a


ensinar tais doutrinas. Mas é exatamente isto que acontece com muitos, que
tomam figuras de linguagens como algo literal, e assim ao interpretar o “fogo
eterno” ou o “fogo que não se apaga”, dão uma interpretação errônea,
considerando que este fogo seja eterno em sua “duração”, quando sabemos
que é eterno nos seus “efeitos” E isso é algo completamente diferente.

O destino eterno do homem, na teologia cristã, depende da sua


decisão e da sua resposta ao plano da salvação. Uma resposta negativa
implicará em perca da vida eterna. Uma resposta positiva resultará na
aquisição da vida eterna. Para os que acreditam na alma imortal, os que
perdem a salvação, sua sorte é terrível, pois não podendo morrer ou ser
destruída, a alma terá que sofrer para todo o sempre. Isso é terrivelmente cruel
e injusto.

Por outro lado, se entendermos que não existe alma imortal, e que é o
homem “inteiro” que ressuscitará para ser julgado, e caso seja condenado,
sofrerá o dado da morte eterna, e sendo mortal, será então destruído, e para
sempre não viverá. Nessa perspectiva, o sofrimento dos injustos e maus terão
um fim. O fogo eterno não é eterno em duração, ou seja, não ficará acesso
indefinidamente, mas apenas até cumprir sua finalidade. As consequências do
fogo é que são eternas, pois nunca mais os que forem consumidos tornarão a
viver novamente.

Embora a morte seja o fim da vida, dos projetos, das atividades, das
interações e relações, do amor e afeto, e por isso seja algo tão indesejado, nos
causa angustia pensar que teremos de enfrentá-la algum dia. Por outro lado, a
fé cristã nos proporciona uma esperança de uma superação, de uma vitória
sobre a morte. Essa fé nos diz que a morte é um fim, mas um fim “provisório” e
que a palavra final e definitiva será dada por Deus. A fé cristã foi fundada sobre
a promessa de superação da morte como algo definitivo, e a perspectiva de
uma vida eterna.

E como afirma Mondim “para o cristão, a morte deve constituir o último


ato de fé no Deus que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos”.
COMCLUSÃO
Podemos perceber ao longo dos nossos estudos que a questão mais
complexa a ser respondida, é a que diz respeito à questão “o que é o homem”.
Sobre este tema se debruçaram filósofos e teólogos, além de outros
acadêmicos. É notória a complexidade do tema visto que várias ciências o
estudam e ainda não esgotaram tudo aquilo que poderiam afirmar acerca do
mesmo.

Em virtude da complexidade que é o homem, onde está presente


aspectos como o racional, emocional, político, econômico e cultural, parece
que todos estes aspectos separados e juntos ainda não conseguem dar conta
do que seja o homem. Um ser incompleto, inacabado, sempre em construção,
sempre um “vir a ser”. Um ser caracterizado fundamentalmente pela liberdade,
que pensa por si mesmo, pelo menos é o que se espera de um homem
esclarecido, no dizer do filósofo Emmanuel Kant, embora alguns homens
permitam que outros pensem por eles, mesmo assim pensam, de qualquer
forma. O homem também é um ser religioso, com uma vocação às questões
transcendentais. O homem quer sempre ser mais do que é no presente.
Embora seja mortal, aspira a imortalidade. Não encontrando resposta para
suas inquietações no mundo sensível, busca-o no mundo espiritual. Ele quer
encontrar o sentido último para sua vida, para o mundo.

Apesar de confusas, alienantes, contraditórias, preconceituosas e até


supersticiosas que algumas religiões podem se configurar, às boas religiões
parecem oferecer ao homem algo mais do que é oferecido pelas ciências. É
claro que alguém dirá que a promessa da religião de uma vida eterna é mera
ilusão. Mas o homem parece necessitar de ilusões ou seria esperança? Não de
qualquer ilusão/esperança; algumas são extremamente nocivas, mas uma
ilusão, que quer se tornar sonho, esperança de um futuro melhor parece justa.
Se a natureza ou Deus, o grande Criador foi tão benevolente em nos conferir a
vida e uma vida superior, em virtude da nossa racionalidade, também nos
conferiu a capacidade de sonhar, de ter fé e esperança. Se a natureza não faz
nada em vão, como dizia Aristóteles, não daria ao homem uma potência ou um
atributo para o qual nenhuma utilidade teria. A natureza teria criado coisas
inúteis, isso é inconcebível para a razão.

Esperar dias melhores, crer que o futuro nos trará uma forma de vida
mais autêntica e feliz que a atual, fundamentada em promessas de ordem
espiritual, não significa desprezar a vida atual ou deixar de viver o presente,
como afirmam alguns, mas significa querer ser mais do que somos, e não vejo
como isso possa ser algo ruim ou prejudicial à espécie humana.

A teologia cristã oferece uma perspectiva, um sonho, uma esperança de


vida eterna, mas não para por aí. Ela também ensina a valorizar a vida
humana, ensina a viver em liberdade não transgredindo ou violando as leis que
protegem a vida e o bem-estar físico-espiritual. Ou seja, ensina o homem a ser
ético nas suas relações interpessoais, ensina lições profundas de humanidade
para com o outro, elabora uma ética baseada no amor ao próximo, um amor
altruísta que se praticado ao modo de Jesus de Nazaré, transformaria o
mundo.

Ainda que se descartasse o aspecto sobrenatural, transcendente


presente na religião restaria muita coisa útil, como a matização de princípios
morais tão caros a humanidade. Mais ai, já não seria religião, mas apenas uma
filosofia. Pois o que caracteriza definitivamente a religião é tratar das questões
transcendentais.
Pesquisando na Internet
Para aprofundamento dos conteúdos desta disciplina, o aluno
deverá realizar uma pesquisa na internet, em site de revistas
eletrônicas, artigos, monografias, teses, sobre o tema :
“Desenvolvimento humano na pós-modernidade”.

Saiba mais
Acesse o link e tenha acesso a entrevista

Vendo com os olhos de ver

Noé (Russell Crowe) vive com a esposa Naameh (Jennifer Connelly) e os


filhos Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll)
em uma terra desolada, onde os homens perseguem e matam uns aos outros.
Um dia, Noé recebe uma mensagem do Criador de que deve encontrar
Matusalém (Anthony Hopkins). Durante o percurso ele acaba salvando a vida
da jovem Ila (Emma Watson), que tem um ferimento grave na barriga. Ao
encontrar Matusalém, Noé descobre que ele tem a tarefa de construir uma
imensa arca, que abrigará os animais durante um dilúvio que acabará com a
vida na Terra, de forma a que a visão do Criador possa ser, enfim, resgatada.

Assista ao filme Noé e faça uma análise crítica do filme destacando


aspectos relevantes que tenham relação com algum tema discutido na
disciplina.

Revisando
A Antropologia Teológica trata do estudo o homem e sua relação com
Deus. Teve sua mudança em duas transições: a do cosmo para Deus, quando
o teocentrismo cristão suplantou a visão grega da realidade, e a outra foi no
antropocentrismo, de Deus para o homem, o que ocorreu na época moderna
em consequência da secularização e do ateísmo. Repentinamente Deus
desaparece de cena e cede lugar ao homem, dando surgimento ao
Antropocentrismo.

Durante o estudo da primeira unidade, vimos como tal disciplina se


desenvolveu ao longo da história. A teologia como disciplina acadêmica veio a
se consolidar com o pensamento cristão, especialmente com Agostinho. Tal
pensamento foi elaborado a partir das reflexões dos chamados “pais da igreja”
que conjugaram a filosofia grega (razão) com o pensamento cristão (fé). Vimos
como a teologia procura fazer uma conciliação entre a fé cristã e o pensamento
filosófico racional. No período patrístico quem mais êxito obteve foi o filosofo e
teólogo Agostinho de Hipona, que fez uma espécie de conciliação entre a fé
cristã e o neoplatonismo.

Na segunda unidade estudamos o sentido metafísico do homem,


destacando a autotranscedência como o caminho a ser percorrido a fim de
entendermos o sentido último da existência humana. Vimos como A
interpretação teocêntrica destaca-se em relação às demais elaboradas pela
filosofia, caso da interpretação egocêntrica e filantrópica. A interpretação
teocêntrica se impõe como a melhor explicação para o movimento interior da
autotranscedência no homem. Como todo movimento há sempre uma direção,
e tem como alvo o ser absoluto transcendente que é Deus. Assim o homem
encontra a sua plena realização ao se unir a fonte maior, ao Supremo Bem e a
realidade absoluta e universal que significa a existência de todas as coisas.

Na terceira unidade trabalhamos vários temas da antropologia


teológica. Vimos como o Imago Dei fornece um significado maior para o
homem criado imagem e semelhança de Deus, impregnando um valor
inestimável a cada ser humano. Vimos que o pecado, uma rebelião interna
contra as leis divinas, representa uma alienação e um afastamento de Deus, e
foi a causa de todos os males que existem no planeta. O pecado é também um
estado de natureza com a qual todos os seres humanos nascem, uma
propensão natural para o mal. Ele acarretou diversas consequências para o
gênero humano, a pior delas foi a morte. Por meio do pecado o homem se
tornou mortal, sujeito a corrupção, sofrimento e morte. A morte é a
consequência final e a paga para o pecado. “O salário do pecado é a morte.
Mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus.” Ao mesmo
tempo em que há uma condenação para o homem, há também uma promessa
de salvação e de vida eterna. A promessa é que aos que tem fé, será possível
vencer até mesmo a morte. É uma fé incondicional no poder do Filho de Deus,
que resgatou a humanidade por meio dos seus sofrimentos. Há uma
escatologia (um desfecho final) prevista na Revelação. A raça humana não
vagara indefinidamente nesse espaço-tempo nas condições atuais. Portanto o
destino final do homem está implicado no destino de toda a raça humana, e
este destino eterno será realizado no final de todas as coisas, quando também
haverá a renovação de tudo por ocasião da segunda vinda de Cristo, segundo
suas palavras no evangelho de João 14. 1-3.

Por fim, a antropologia Teológica mantem seu olhar firme na


Revelação, sempre disposta a responder as questões mais cruciais referentes
a questão do significado último da existência humana. Responde as perguntas
existenciais mais profundas: de onde viemos, quem somos e para onde vamos.

Bibliografia
BRAKEMEIER, Gottfried. O ser humano em busca de identidade:
Contribuições para uma Antropologia Teológica. Editora: Sinodal, 2002.

LADARIA, Luis F. Introdução à Antropologia Teológica. 5.ed. São Paulo:


Loyola, 2011.

RUBIO, Alfonso Garcia. O Homem Integrado: abordagens de Antropologia


Teológica. 5.ed. Petrópolis: Vozes, 2011.

SOUZA, José Neivaldo de. Imagem Humana à Semelhança de Deus. São


Paulo: Paulinas, 2010.

MONDIN, Batttista. Antropologia Teológica: História, problemas, perspectivas.


São Paulo:Paulinas, 1979.

JE SAIS; JE CROIS. Que é o homem: ensaio de antropologia cristã. São Paulo:


Editora Flamboyant, 1960.

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