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3.1.

INTRODUÇÃO
A maior parte dos autores estão de acordo em considerar a actividade motora excessiva,
o nivel baixo de atenção e a impulsividade/falta de control como as características que definem
a criança hiperactiva. Existem outros comportamentos associados com a sindrome como por
exemplo, dificuldades de aprendizagem, agressividade, problemas de tipo emocional,
problemas de interacção em casa e na escola ..., mas que não podem considerar-se como
específicos da hiperactividade.

3.2. ACTIVIDADE MOTORA EXCESSIVA


Uma característica principal das crianças hiperactivas é a excessiva e persistente agitação
motora em situações que requerem inibição motora.
Como foi referenciado no desenvolvimento histórico na década de 60 e 70, os
comportamentos hiperactivos foram de algum modo desenfatizados em detrimento das
dificuldades principais de desatenção e impulsividade. Os trabalhos de investigação
demonstraram que as crianças hiperactivas não são uniformemente hiperactivas em todas as
situações, e não são necessariamente mais activas do que outras crianças em muitas situações.
Além disso, têm tendência a apresentar níveis maiores de actividade motora e de agitação em
situações que impõem a manutenção da atenção e o controle do impulso como por exemplo na
sala de aula, à mesa durante as refeições, na igreja e sempre que a atenção e a posição sedentária
são exigidas.
A criança pode ser hiperactiva de uma forma deliberada como por exemplo quando deixa
o seu lugar na sala de aula para se deslocar constantemente de um lado para outro. Ou de uma
forma discreta quando é capaz de permanecer sentado a ver desenhos animados na televisão,
mas revela a sua hiperactividade, agitando-se constantemente.
Contudo, em situações relativamente não estruturadas, como por exemplo actividade
livres no recreio as crianças hiperactivas não exibem sempre significativamente maior
actividade motora do que os seus colegas.
Também as crianças hiperactivas podem apresentar níveis de actividade que são
semelhantes aos de outras crianças em situações novas ou não familiares, mas o seu nível de
actividade pode progressivamente aumentar à medida que a situação se toma mais familiar.
Os pais muitas vezes descrevem os problemas da criança com expressões como: "Anda
sempre de um lado para outro" "Comporta-se como se conduzido por um motor" "Não
permanece sentado" "Fala excessivamente" "Muitas vezes cantarola por entre dentes e faz
ruídos estranhos" "Contorce-se".
Observações directas do comportamento da criança na sala e em tarefas independentes
mostram que a criança permanece frequentemente fora do seu lugar, desloca-se na sala sem
autorização, agita os braços e as pernas enquanto trabalha, brinca com objectos não
relacionados com a tarefa, não espera pela sua vez para falar com os outros e faz ruídos vocais
inabituais.
Klein e Young (1979) defendem que é a combinação de uma actividade elevada com
perturbação elevada do comportamento que distingue a "hiperactividade" de uma actividade
normal elevada.
Finalmente a hiperactividade refere-se a uma forma de conduta que combina os
problemas de atenção e de impulsividade.
As crianças hiperactivas têm dificuldade em regular a actividade em conformidade com
as normas sociais.
Muitos estudos mostraram que a criança hiperactiva é mais activa, desassossegada e
agitada do que a criança normal (Barkley & Cunningham, 1979; Porrino et ai., 1983).
A hiperactividade da criança pode ser "situacional" quando o comportamento hiperactivo
da criança se revela em apenas uma das seguintes situações: casa, escola ou gabinete médico.
A hiperactividade é pervasiva (= generalizada) quando o comportamento hiperactivo da
criança se revela em todas as situações.
No plano educativo é importante distinguir entre o comportamento hiperactivo da criança
que é problemático e aquele que não o é.
Tumer (1970) referiu, por exemplo, como um certo tipo de hiperactividade que se traduz
em olhar frequentemente à volta durante a tarefa pode ser uma forma de procurar informação
significativa.
A principal preocupação deve incidir na qualidade e na especificidade da actividade da
criança. Como e quando a criança é hiperactiva é mais importante do que a hiperactividade em
si mesma.

3.3. DÉFICES DE ATENÇÃO


Relativamente à desatenção, as crianças hiperactivas apresentam desatenção significativa
relativamente às crianças normais da mesma idade e sexo.
A atenção é um conceito que se utiliza para representar uma relação entre um estimulo do
ambiente e a resposta da criança a esse estimulo.
Há desatenção na criança quando há diminuição na relação entre o estimulo e o
comportamento da criança. A investigação sugere que as crianças com ADHD revelam maiores
dificuldades em manter a atenção nas tarefas escolares(Douglas, 1983).Muitas das queixas
referenciadas indicam: trabalho incompleto, distractibilidade, mudança rápida de uma
actividade para outra, comportamento fora da tarefa.
Estas dificuldades são às vezes aparentes em situações de brincadeira como mostram os
exemplos em que a criança brinca durante pouco tempo com o mesmo brinquedo e as
frequentes trocas de brinquedo. Estas dificuldades são, no entanto, dramaticamente
observáveis em situações que impõem à criança manter a atenção em tarefas monótonas,
aborrecidas e repetitivas como trabalho escolar independente e trabalho de casa
Não só a frequência, mas a gravidade dos problemas, oscila segundo o contexto ou as
situações, as actividades e as pessoas que prestam cuidados à criança (Tarver-Behring,
Barkley, & Karisson, 1985; Zentall. 1984).
A fraca manutenção da atenção pode tornar-se mais evidente no contexto de tarefas
monótonas, actividades repetitivas ou que exigem grande esforço, ou em tarefas com pouca
motivação intrínseca (Barkley, 1989; Luk, 1985). A gravidade dos problemas pode diminuir
ou desaparecer sob condição de um reforço contínuo e imediato por oposição a um reforço
parcial e atrasado no tempo (Douglas & Parry, 1983) em tarefas auto-ritmadas, em actividades
intrinsecamente interessantes por exemplo jogos de video ou em contextos não familiares
(Barkley, 1977, 1989; Luk, 1985).
A manutenção da atenção das crianças hiperactivas é altamente interactiva e influenciada
pelo contexto do meio ambiente (Barkley, 1981, 1989; Zentall, 1984).A investigação sobre a
distractibilidade nas crianças hiperactivas tem sido algo contraditória acerca deste assunto, mas
em geral pensa que estas crianças não são mais distraídas do que as crianças normais através
dos estímulos externos. As descobertas sobre os estímulos irrelevantes fornecidos durante a
tarefa são apesar de tudo mais conflituosas; alguns estudos concluem que tais estímulos
enfraquecem a realização de crianças com hiperactividade, enquanto outros não encontram
qualquer efeito ou melhoria sobre a atenção.
Em vez disso, o problema parece consistir na diminuição da persistência ou do esforço
na resposta a tarefas que sejam intrinsecamente pouco apelatívas ou que possuam
consequências minimas relativamente à sua realização.
A imagem clínica pode ser diferente em situações em que estejam disponíveis actividades
-•emauvas que prometam um reforço positivo imediato, em contraste com reforços mais fracos ou
consequências associadas à tarefa. Nessas situações, a criança hiperactiva pode parecer distraída e
de facto é possível mudar de uma actividade para outra de forma a comprometer-se com actividades
competitivas altamente gratificantes.
Os pais e professores muitas vezes descrevem os problemas de atenção em termos de
”Está na Lua", "Não se concentra", "Parece não ouvir", "Facilmente distraído".
Estudos utilizando a observação directa do comportamento da criança verificam que o
comportamento de não prestar atenção ao trabalho escolar é registado substancialmente mais
vezes para as crianças hiperactivas e adolescentes do que para as crianças normais ou com
dificuldades de aprendizagem.

3.4. IMPULSIVIDADE
Finalmente e relacionada com a dificuldade em manter a atenção está a deficiência em
inibir o comportamento em resposta às solicitações do meio, ou seja, a impulsividade.
A impulsividade pode ter dois significados distintos.

O primeiro refere-se ao comportamento inconü-olado das crianças imprudentes que não


pensam nas consequências das suas acções e solicitam gratificações imediatas (impulsividade
comportamental).
O segundo refere-se a responder de forma rápida e incorrecta nas tarefas que implicam
resolução de problemas (impulsividade cognitiva).
A criança hiperactiva frequentemente reage impulsivamente antes de considerar as
alternativas ou ponderar as consequências do seu comportamento. Isto é evidente na forma
como a criança sente mais dificuldades do que a criança da mesma idade em esperar a sua vez
nos jogos ou nas interacções de grupo. Por exemplo a criança pode frequentemente perturbar o
grupo não respondendo na sua vez, ou chamar por alguém na sala de aula. Da mesma forma a
criança pode ter tendência a deslocar-se excessivamente de uma actividade para outra como
consequência do fracasso em inibir as respostas aos estímulos. Isso pode contribuir para as
dificuldades em organizar o trabalho escolar e o trabalho de casa.
A criança pode também ter um maior número de acidentes ou lesões e a necessidade de
uma maior supervisão do que outras crianças da mesma idade.
Situações ou jogos que envolvam participação, cooperação e autodomínio com os
colegas são particularmente problemáticas para as criança hiperactivas.
Eles dizem muitas vezes coisas indiscretamente sem olhar ao sentimento dos outros ou às
consequências sociais para eles-próprios.
Responder às questões prematuramente e interromper a conversa dos outros são lugar
comum.
Os pais e professores referem que a criança não espera pela sua vez, responde
prematuramente, trabalha de uma forma apressada e descuidada e interrompe as actividades dos
outros.
A impulsividade também varia de acordo com os planos de reforço e em contextos
ambientais diferentes (Douglas & Parry, 1983).

3.5. HIPERACTIVIDADE E DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM


Uma das características mais comuns exibida pelas crianças hiperactivas é o baixo
rendimento escolar desproporcionado em relação às capacidades intelectuais.
Um elemento comum em muitas definições de dificuldades de aprendizagem é a
identificação de uma discrepância nítida entre a idade cronológica e/ou mental da criança e a
realização escolar esperada. Ou seja a criança deve apresentar pelo menos 2 anos de atraso
escolar para ser considerada nesta categoria.
Este subrendimento escolar supõe-se está relacionado com os principais sintomas de
desatenção, impulsividade e agi:ação motora da criança hiperactiva no contexto da sala de aula.
Cantwell & Satterfie; (1978) descobriram uma prevalência elevada de problemas na
performance escolar em rapazes com hiperactividade quando comparados com rapazes da
mesma idade com QI semelhante que não apresentavam problemas de atenção. Mais de um
terço dos rapazes com hiperactividade estavam l ano abaixo dos niveis esperados em duas das
matérias escolares testadas por exemplo, leitura ou matemática.
Lambert e Sandoval (1980) verificaram o subrendimento definido como uma
discrepância entre a realização actual e o QI em rapazes com e sem hiperactividade. Estes
autores descobriram que 53% dos rapazes com hiperactividade versus apenas 11% do grupo
controle apresentavam subrendimento não só na leitura como na matemática.
Num estudo de acompanhamento. Charles e Schain (1981) constataram que os alunos da
pré-escola com hiperactividade funcionaram abaixo dos níveis esperados para a leitura e
matemática quando iniciaram os estudos na escola primária.
Vários estudos epidemiológicos também sublinham a associação entre dificuldades de
aprendizagem e hiperactividade. Por exemplo, Holborow e Berry (1986) utilizaram
questionários para professores para determinar a presença de hiperactividade e problemas de
aprendizagem numa amostra epidemiológica ampla de crianças da escola primária. Estes
autores descobriram que 27% das crianças com hiperactividade também apresentavam
dificuldades de aprendizagem.
Anderson et ai (1987) verificaram que 80% das crianças com 11 anos com
hiperactividade pelo critério do DSM-m tinham dificuldades de aprendizagem apresentando
pelo menos 2 anos de atraso na leitura, matemática ou linguagem escrita.
Uma possível conexão entre dificuldades de aprendizagem e hiperactividade é a de que
os défices nas competências escolares podem conduzir à desatenção, impulsividade e
problemas de comportamento. Esta hipótese foi articulada por McGee e Share (1988). Estes
autores defendem que as dificuldades de aprendizagem podem levar a um fracasso crónico que,
com o tempo, provocam na criança o desenvolvimento de um auto-conceito escolar fraco, isto
e. baixa auto-estima. Como consequência de uma falta de confiança nas suas próprias
capacidades escolares, estas crianças são menos motivadas a prestar atenção às aulas e a seguir
as regras na sala de aula. Os sintomas de comportamento aparentes levam depois a um baixo
rendimento escolar, completando assim o circulo vicioso.
McGee e Share (1988) defendem que as dificuldades de aprendizagem da criança com
hiperactividade aparente deveriam ser o principal objectivo do tratamento mais do que os
sintomas de comportamento da hiperactividade per se.

McGee e Share (1988) referenciam quatro aspectos em defesa desta hipótese:


Primeiro, a realização escolar baixa é uma característica significativa das crianças
hiperactivas.
Segundo, as crianças hiperactivas. exibem performances deficientes nos testes
cognitivos que estão correlacionados com dificuldades de leitura.
Terceiro, os défices de atenção das crianças hiperactivas podem reflectir uma motivação
fraca mais do que um défice intrínseco nas capacidades de concentração.
Quarto, não existem provas que os tratamentos principais da hiperactividade por exemplo
medicação com estimulantes conduzam a melhorias na performance escolar acompanhada com
redução da sintomatologia hiperactiva.
Por outro lado, é possível, que os comportamentos principais da hiperactividade
desatenção, impulsividade e hiperactividade reduzam e perturbem a capacidade da criança em
adquirir as competências escolares e/ou o seu conhecimento de um modo consistente (Silver,
1990). Esta hipótese foi proposta por Keogh (1971). Esta autora defendeu que os
comportamentos relacionados com hiperactividade podem interferir com a aprendizagem de
duas maneiras.
Primeiro, o nível de actividade elevado da criança podia desviar a atenção do ensino e
desse modo minimizar a aquisição da informação escolar. Alternativamente, porque as crianças
hiperactivas são impulsivas, elas podem tomar decisões demasiado rápidas nas tarefas
escolares, diminuindo assim a sua performance nas tarefas independentes.
Os partidários desta hipótese defendem que a medicação com estimulantes por exemplo
meulíenidato não só melhora a sintomatologia da hiperactividade como também aumenta a
performance escolar (DuPaul & Barkley, 1990; Rapport & Kelly, 1991). Neste caso os
sintomas da hiperactividade seriam a principal causa das dificuldades escolares da criança.
Finalmente, é referenciada uma terceira hipótese que aponta para um problema
neurológico não especifico na origem da hiperactividade e das dificuldades de aprendizagem.
pelo menos numa minoria de crianças (Keogh, 1971).
Hinshaw (1992a), defende a interacção de variáveis organismicas, por exemplo,
temperamento, dificuldades na linguagem, e ambientais, meios familiares discordantes, como
factores de causalidade não só da hiperactividade como também das dificuldades de
aprendizagem.
A evidencia empírica mostra que a associação entre ADHD e dificuldades de
aprendizagem não é perfeita e que não são uma e a mesma perturbação como foi reivindicado
por alguns investigadores (McGee & Share, 1988). De facto, muitas crianças com ADHD não
apresentam dificuldades de aprendizagem e muitas crianças com dificuldades de aprendizagem
não reúnem os critérios de diagnóstico da ADHD.
Aproximadamente 40% dos alunos com dificuldades de aprendizagem também revelam
sintomas significativos da ADHD. Existe assim uma grande sobreposição entre as duas
perturbações representada no seguinte esquema.