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PSICOLOGIA JURÍDICA

Módulo Individual | Psicologia

Psicologia Jurídica | Profª Ana Vanessa Neves

SUMÁRIO

1. PSICOLOGIA JURÍDICA: ASPECTOS HISTÓRICOS, ÉTICOS E INTERDISCIPLINARES ....... 4


2. A EXECUÇÃO PENAL E AS FUNÇÕES ATRIBUÍDAS AOS PSICÓLOGOS ........................... 13
3. A PSICOLOGIA JUNTO AO DIREITO DE FAMÍLIA ................................................................ 27
4. NOVAS DEMANDAS AO PODER JUDICIÁRIO ..................................................................... 38
4.1. DANO PSIQUÍCO ....................................................................................................................................... 38
4.2. INTERDIÇÃO ................................................................................................................................................ 39
4.3. DEPOIMENTO ESPECIAL ......................................................................................................................... 40
4.4. GUARDA COMPARTILHADA ................................................................................................................. 44
4.5. ALIENAÇÃO PARENTAL .......................................................................................................................... 49
4.6. JUSTIÇA RESTAURATIVA ........................................................................................................................ 53
SUMÁRIO

4.7. MEDIAÇÃO FAMILIAR .............................................................................................................................. 54


5. A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NAS VARAS DE INFÂNCIA E JUVENTUDE ....................... 58
6. PERÍCIA PSICOLÓGICA JUDICIAL .......................................................................................... 61
6.1. QUEM SOLICITA OS SERVIÇOS DO PSICÓLOGO PARA O PROCESSO DE
GUARDA 70
6.2. ENCAMINHAMENTO ................................................................................................................................ 73
6.3. A LEITURA DOS AUTOS DO PROCESSO .......................................................................................... 74
6.4. A QUEM SE AVALIA .................................................................................................................................. 75
6.4.1. A QUEM SE AVALIA: A UMA DAS PARTES ............................................................................. 77
6.4.2. A QUEM SE AVALIA: A AMBAS DAS PARTES ........................................................................ 78
6.4.3. A QUEM SE AVALIA: A (S) CRIANÇA (S) ................................................................................. 80
6.4.4. A QUEM SE AVALIA: A FAMÍLIA ................................................................................................. 81
6.5. ESPECIFICIDADES DO ENQUADRE JURÍDICO QUE AFETAM O RELACIONAMENTO
PARTE-CRIANÇA-FAMÍLIA COM O PSICÓLOGO FORENSE ........................................................................... 82
7. TÉCNICAS E INSTRUMENTOS DE INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA NO CONTEXTO
JURÍDICO .......................................................................................................................................... 84
7.1. A ENTREVISTA ............................................................................................................................................ 84
7.2. USO DE TESTES PSICOLÓGICOS ......................................................................................................... 90
7.3. A REDAÇÃO DO LAUDO E DOS QUESITOS .................................................................................... 94
7.3.1. NORMAS PARA A REDAÇÃO DE LAUDOS E PARECERES ................................................ 95

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7.4. A PARTICIPAÇÃO NA AUDIÊNCIA .................................................................................................... 102


7.5. MEDIAÇÃO DE CONFLITOS ................................................................................................................. 104
7.6. OUTRAS PROPOSTAS DE INTERVENÇÃO...................................................................................... 108
8. ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NOS PROGRAMAS DE MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS..... 113
8.1. ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NOS PROGRAMAS DE MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS EM
MEIO ABERTO .......................................................................................................................................................... 114
8.1.1. ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NA MEDIDA DE LIBERDADE ASSISTIDA ....................... 116
8.1.2. ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NA MEDIDA DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS À
COMUNIDADE .................................................................................................................................................... 120
8.2. ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NO ÂMBITO DAS MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS EM
UNIDADES DE INTERNAÇÃO ............................................................................................................................. 126
8.2.1. PROPOSTA DE ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NA UNIDADE DE INTERNAÇÃO
PROVISÓRIA ........................................................................................................................................................ 131
8.2.2. PROPOSTA DE ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NA UNIDADE DE INTERNAÇÃO ....... 133
9. PSICOPATOLOGIA, PSIQUIATRIA E PSICANÁLISE ........................................................... 135
9.1. PATOLOGIA NEURÓTICA ..................................................................................................................... 137
9.2. TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE ............................................................................................ 143
9.3. PATOLOGIA PERVERSA ......................................................................................................................... 157
9.4. TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA ........................................................................................ 171
9.5. DEFICIÊNCIA MENTAL ........................................................................................................................... 180
9.6. TRANSTORNO FACTÍCIO E SIMULAÇÃO ....................................................................................... 188
10. APLICAÇÕES MÉDICO-LEGAIS ........................................................................................ 198
10.1. PERICULOSIDADE .................................................................................................................................... 205
10.2. INIMPUTABILIDADE ................................................................................................................................ 208
10.3. INTERDIÇÃO, CURATELA E TUTELA ................................................................................................. 209
BIBLIOGRAFIA................................................................................................................................ 211

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1. PSICOLOGIA JURÍDICA: ASPECTOS HISTÓRICOS, ÉTICOS E


INTERDISCIPLINARES

Nesse tópico utilizo como eixo central para nortear nosso estudo o
artigo “Um breve histórico da psicologia jurídica no Brasil e seus
campos de atuação”, escrito por Vivian Lago, Paloma Amato, Patrícia
Teixeira, Sônia Rovinski e Denise Bandeira. Caso queira ler o texto
integral, confira na nossa bibliografia. Além desse artigo, utilizo outros
PSICOLOGIA JURÍDICA

autores de destaque na área e tópicos das cartilhas e resoluções do


CFP. Vamos lá?

A Psicologia Jurídica é uma área específica da Psicologia que surgiu da


interrrelação com o Direito, tanto no âmbito teórico quanto no
prático, sendo desde a origem um campo interdisciplinar (Roehrig et
al, 2007).

Segundo Gesser (2013), a Psicologia deve considerar a subjetividade


uma premissa fundamental à garantia dos direitos humanos,
destacando a necessidade de que a subjetividade seja entendida como
uma construção histórico-social, ou seja, construída nas relações que o
sujeito estabelece com o contexto do qual faz parte.

A ONU define os direitos humanos como:

“garantias jurídicas universais que protegem


indivíduos e grupos contraações ou omissões
dos governos que atentem contra a dignidade
humana”.

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Os princípios propostos pela Declaração Universal dos Direitos do


Homem devem ser vistos como um ideal comum a atingir por todos
os povos e todas as nações, a fim de que alcancem todos os
indivíduos e todos os órgãos da sociedade.

Conforme proposto por Silva (2003), a afirmação dos direitos humanos como
um patamar ético que deve mediar o relacionamento entre todos os membros
da sociedade esbarra, no caso brasileiro, no desafio da superação do abismo
das desigualdades que separam os grupos sociais.

A construção de uma cultura baseada na promoção dos direitos humanos


pressupõe que se leve em consideração, igualmente, os aspectos da
subjetividade social que se encontram abrangidos nesses processos (SILVA,
2003).

Tanto nos aspectos que envolvem a promoção dos direitos humanos, quanto
nos que envolvem as suas violações, não se pode descuidar da dimensão
subjetiva que lhes oferece base de sustentação e de existência no mundo
(SILVA, 2003).

Gesser (2013) propõe que o desafio à Psicologia no século XXI é o de superar


tanto os modelos que reduzem a subjetividade a algo interno, inerente ao
sujeito, quanto àqueles que estabelecem concepções mecânicas entre fatos
psicológicos e fatos exteriores.

Assim, vemos que há um enfoque cada vez maior na construção de referências


com vistas a uma atuação profissional do psicólogo comprometida com a
garantia dos direitos humanos (GESSER, 2013).

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Por constituir a expressão de valores universais, tais como os constantes na


Declaração Universal dos Direitos Humanos – socioculturais, que refletem a
realidade do país – e de valores que estruturam uma profissão, um código de
ética não pode ser visto como um conjunto fixo de normas e imutável no
tempo.

As sociedades mudam, as profissões transformam-se e isso exige, também, uma


reflexão contínua sobre o próprio código de ética que nos orienta.

A ética é o ramo da filosofia que se dedica ao estudo dos valores e da moral,


tendo por finalidade esclarecer reflexivamente o campo da moral de tal modo a
orientar racionalmente para o apontamento da conduta moralmente pertinente.
Assim, a ética é um tipo de saber normativo, isto é, um saber que pretende
orientar as ações dos seres humanos (OLIVEIRA; CAPANEMA, 2009).

O fundamento ético é tão importante quanto a estrutura de um prédio. Se esse


fundamento não está bem entendido, corre-se o risco de não enfrentar de
maneira adequada os desafios éticos que a profissão pode trazer (JUNQUEIRA,
2011).

Códigos de Ética expressam sempre uma concepção de homem e de sociedade


que determina a direção das relações entre os indivíduos. Traduzem-se em
princípios e normas que devem se pautar pelo respeito ao sujeito humano e
seus direitos fundamentais (CFP, 2005).

Os princípios fundamentais são os eixos que norteiam todos os artigos do


Código de Ética Profissional do Psicólogo. Leia com bastante atenção o inciso
apresentado a seguir, pois demonstra o compromisso social da profissão com a
ética e os Direitos Humanos:

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I. O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na


promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e
da integridade do ser humano, apoiado nos valores que
embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Conforme orientação do Conselho Federal de Psicologia, quando houver


imperativo ético de denúncia das violações de direitos humanos e situações de
tortura, o psicólogo deve procurar seu conselho profissional e o conselho de
defesa da pessoa humana (dentre outras entidades) para a formulação da
denúncia, com respaldo nas legislações nacionais e internacionais, quando se
esgotarem os recursos das instâncias internas (DEPEN; CFP, 2007).

O psicólogo deve desenvolver uma prática psicológica comprometida com os


princípios dos direitos humanos e com a ética profissional, com vistas à criação
de dispositivos que favoreçam novos processos de subjetivação,
potencializando a vida das pessoas presas.

Esse é o grande desafio da Psicologia na área jurídica, pois os profissionais


também estão sujeitos às armadilhas e capturas produzidas pelas contradições
da própria prisão (DEPEN; CFP, 2007).

Conforme a Resolução CFP nº 013/2007, o psicólogo especialista em


psicologia jurídica atua no âmbito da Justiça (grifos nossos):

 Colaborando no planejamento e execução de políticas de cidadania,


direitos humanos e prevenção da violência;

 Centrando sua atuação na orientação do dado psicológico repassado


não só para os juristas como também aos indivíduos que carecem de tal
intervenção, para possibilitar a avaliação das características de

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personalidade e fornecer subsídios ao processo judicial, além de contribuir


para a formulação, revisão e interpretação das leis;

 Avaliando as condições intelectuais e emocionais de crianças,


adolescentes e adultos em conexão com processos jurídicos, seja por
deficiência mental e insanidade, testamentos contestados, aceitação em
lares adotivos, posse e guarda de crianças;

 Aplicando métodos e técnicas psicológicas e/ou de psicometria, para


determinar a responsabilidade legal por atos criminosos;

 Atuando:

 Como perito judicial nas varas cíveis, criminais, Justiça do Trabalho,


da família, da criança e do adolescente, elaborando laudos,
pareceres e perícias, para serem anexados aos processos;

 A fim de realizar atendimento e orientação a crianças, adolescentes,


detentos e seus familiares;

 Em pesquisas e programas socioeducativos e de prevenção à


violência;

 Construindo ou adaptando instrumentos de investigação psicológica, para


atender às necessidades de crianças e adolescentes em situação de risco,
abandonados ou infratores;

 Orientando a administração e os colegiados do sistema penitenciário sob


o ponto de vista psicológico;

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 Usando métodos e técnicas adequados, para estabelecer tarefas


educativas e profissionais que os internos possam exercer nos
estabelecimentos penais;

 Participando de audiência, prestando informações, para esclarecer


aspectos técnicos em psicologia a leigos ou leitores do trabalho pericial
psicológico;

 Elaborando petições sempre que solicitar alguma providência ou haja


necessidade de comunicar-se com o juiz durante a execução de perícias,
para serem juntadas aos processos;

 Assessorando a administração penal na formulação de políticas penais e


no treinamento de pessoal para aplicá-las;

 Realizando:

 Pesquisa visando à construção e ampliação do conhecimento


psicológico aplicado ao campo do direito;

 Orientação psicológica a casais antes da entrada nupcial da


petição, assim como das audiências de conciliação;

 Atendimento a crianças envolvidas em situações que chegam às


instituições de direito, visando à preservação de sua saúde mental;

 Atendimento psicológico a indivíduos que buscam a Vara de


Família, fazendo diagnósticos e usando terapêuticas próprias, para
organizar e resolver questões levantadas;

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 Avaliação das características das personalidades, através de


triagem psicológica;

 Avaliação de periculosidade e outros exames psicológicos no sistema


penitenciário, para os casos de pedidos de benefícios, tais como
transferência para estabelecimento semiaberto, livramento
condicional e/ou outros semelhantes;

 Auxiliando juizados na avaliação e assistência psicológica de menores


e seus familiares, bem como assessorá-los no encaminhamento às
terapias psicológicas, quando necessário;

 Prestando atendimento e orientação a detentos e seus familiares


visando à preservação da saúde;

 Acompanhando detentos em liberdade condicional, na internação em


hospital penitenciário, bem como atuar no apoio psicológico à sua
família;

 Desenvolvendo estudos e pesquisas na área criminal, constituindo ou


adaptando os instrumentos de investigação psicológica.

Roehrig et al (2007) chamam a atenção para o fato de que a Psicologia Jurídica


inicialmente tinha como proposta realizar a classificação e o decorrente
controle dos indivíduos, tendo como principal função formular laudos
periciais fundamentados na realização de diagnóstico e no emprego de testes
psicológicos, que auxiliavam a instituição judiciária na tomada de decisão.

No entanto, com o desenvolvimento da prática, os profissionais reformularam o


modelo de atuação psicológica buscando uma nova forma de intervenção,

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tendo como principal preocupação o resgate da cidadania e a promoção de


bem-estar (Roehrig et al, 2007).

No Brasil, os primeiros psicólogos a atuarem junto à justiça encontraram nas


varas de família, criminais e da infância e juventude, demandas amparadas no
modelo pericial. Mas, estes profissionais logo perceberam a necessidade de
implementação de outras formas de atuação que considerassem a cidadania,
os direitos humanos e a saúde dos indivíduos envolvidos com a justiça
(Roehrig et al, 2007).

A Psicologia Jurídica como um campo de atuação do psicólogo tem-se feito


presente nas diversas instituições do direito, tais como (Roehrig et al, 2007):

 Sistema penitenciário
 Varas de Família
 Varas da Infância e da Juventude
 Juizados Especiais (Cível e Criminal)
 Varas de Penas Alternativas
 Varas Cíveis em geral
 Forças Armadas
 Secretarias Estaduais de Segurança
 Ministério Público
 Escolas de Magistratura

Além desses locais do Poder Judiciário, já se tem notícias de diversos trabalhos


que estão sendo desenvolvidos por psicólogos que atuam em parceria com os
operadores do direito, no que diz respeito à necessidade de intervenções
específicas do saber psicológico na justiça (Roehrig et al, 2007).

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Ao analisar os campos de atuação do psicólogo jurídico, percebe-se um


predomínio da atuação desses profissionais enquanto avaliadores. A elaboração
de psicodiagnósticos, presente desde o surgimento da Psicologia Jurídica,
permanece como um forte campo de exercício profissional (Lago et. al, 2009).

Contudo, a demanda por acompanhamentos, orientações familiares,


participações em políticas de cidadania, combate à violência, participação em
audiências, entre outros, tem crescido enormemente. Esse fato amplia a
inserção do psicólogo no âmbito jurídico, ao mesmo tempo em que exige uma
constante atualização dos profissionais envolvidos na área (Lago et. al, 2009).

O psicólogo não pode deixar de realizar psicodiagnósticos, âmbito de sua


prática privativa. Entretanto, deve estar disposto a enfrentar as novas
possibilidades de trabalho que vêm surgindo, ampliando seus horizontes para
novos desafios que se apresentam (Lago et. al, 2009).

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2. A EXECUÇÃO PENAL E AS FUNÇÕES ATRIBUÍDAS AOS


EXECUÇÃO PENAL E AS FUNÇÕES ATRIBUÍDAS AOS PSICÓLOGOS

PSICÓLOGOS

O psicólogo pode ser solicitado a atuar como perito para


averiguação das condições de discernimento ou sanidade mental das
partes em litígio ou em julgamento, destacando-se o papel dos
psicólogos junto ao Sistema Penitenciário e aos Institutos
Psiquiátricos Forenses (Lago et. al, 2009).

A nossa referência de estudo para este tópico será a cartilha


“Diretrizes para atuação e formação dos psicólogos do sistema
prisional brasileiro”, elaborada em conjunto pelo Conselho Federal
de Psicologia (CFP) e o Departamento Penitenciário Nacional
(DEPEN).

Conforme a referida cartilha, as atribuições e competências dos


psicólogos que atuam no sistema prisional são definidas,
principalmente, pela concepção teórica assumida e pelos propósitos
dela derivados. Nesse sentido, dentre as ciências que orientam a
prática psicológica destaca-se a Criminologia, que tem por objeto de
estudo o fenômeno da criminalidade.

I. Criminologia

A Criminologia possui diferentes paradigmas científicos de


compreensão do fenômeno criminal, cujas características estão
ilustradas na tabela a seguir (CFP e DEPEN, 2007):

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Tipo aspectos Conceito Conceito moderno Conceito crítico


tradicional

Princípios e Da Medicina e De várias ciências, De várias ciências,


métodos Psicologia. interdisciplinar interdisciplinar.

Objeto de Pessoa do preso. Pessoa do preso O encarcerado


estudo e sua família. como pessoa.

Aspectos Dinâmica da Conhecimento sobre Conhecimento


estudados conduta aspirações e
sobre sua história
criminosa do motivações da
de marginalização
sujeito, sua conduta criminosa e social (deterioração
personalidade, seu significado
social e psíquica) e
seu estado dentro do contexto fatores sociais e
perigoso. familiar, ambiental eindividuais que
histórico. promoveram e
facilitaram a
criminalização.
Objetivo Estratégias de Estratégias de Estratégia de
intervenção com intervenção conjunta fortalecimento
vistas à (técnicos, agentes de social e psíquico do
superação ou segurança e família). encarcerado,
contenção de promoção da
uma possível cidadania e
tendência estratégia de
criminal e evitar reintegração social.
uma recidiva.
Idéias centrais Diagnóstico, Avaliação a partir das Vulnerabilidade do
prognóstico e respostas do preso às encarcerado perante
tratamento. estratégias de o sistema punitivo,
intervenção proposta, clínica da
considerando vulnerabilidade.
observações de todos
os envolvidos.

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Perspectiva Conduta As motivações da Sociedade revê seus


criminosa é criminalidade estão conceitos de crime e
anormal. situadas nos conflitos de “homem
interpessoais e nos criminoso” e seus
processos sociais. padrões éticos e
humanos de
relacionamento.
Encarcerado tem
oportunidade de se
re-descobrir como
cidadão.
Concepção Pré-determinista Crime é expressão de Intercâmbio
do conflitos, não é a sociedade – cárcere,
comportamento infração à norma que encarcerado como
do apenado deve ser resolvida, sujeito de sua
(prognóstico de mas os conflitos que história em
periculosidade), ela expressa. construção.
reducionista do
crime (infração a
norma penal,
Desprovida de
conflito e
contexto).

Observe com atenção que o conceito tradicional de Criminologia clínica


identifica o nexo-causal da criminalidade no sujeito e entende o crime como
infração à norma penal desprovida de conflito, estabelecendo, por isso,
prognóstico de periculosidade (CFP e DEPEN, 2007).

Note que o conceito moderno de Criminologia clínica avalia as motivações da


criminalidade a partir dos conflitos interpessoais e processos sociais,
procurando conhecer as aspirações e motivações da conduta criminosa e seu
significado dentro do contexto familiar, ambiental e histórico (CFP e DEPEN,
2007).

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Por fim, veja que o conceito crítico de Criminologia clínica entende a


criminalidade como um fenômeno de gênese social e que, para “tratá-la”, a
sociedade precisa rever seus conceitos de crime, de “homem criminoso” e seus
padrões éticos e humanos de relacionamento, envolvendo-se no processo
judicial e penal (CFP e DEPEN, 2007).

Conforme a própria cartilha referida sinaliza, no tocante à concepção de


Criminologia, é possível identificar que a atuação psicológica atualmente em
vigor está direcionada para o paradigma do conceito crítico. Isso significa
delimitar novas práticas e ressignificar habituais tarefas (CFP e DEPEN, 2007).

A Psicologia deve atuar de modo transdisciplinar, destacando a sua


importância no processo de construção da cidadania, que deve ser objetivo
permanente dos profissionais (CFP e DEPEN, 2007).

Existe uma cartilha elaborada pelo Departamento Penitenciário Nacional


(DEPEN) em conjunto com o Conselho Federal de Psicologia (CFP) que tem
como objetivo nortear as ações desenvolvidas por psicólogos no contexto do
sistema prisional.

O psicólogo, para desenvolver suas atribuições/atividades, deverá ser capaz de


(CFP e DEPEN, 2007):

1. Atuar em âmbito institucional e interdisciplinar;

2. Identificar, analisar e interpretar histórica e epistemologicamente as


variáveis que constroem a lógica do encarceramento;

3. Visualizar e posicionar a atuação psicológica para além de um mecanismo


jurídico;

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4. Identificar, analisar e interpretar as bases das teorias psicológicas e suas


relações com a prisão;

5. Construir processos de trabalho alternativos à lógica do encarceramento;

6. Facilitar relações de articulação interpessoal e interinstitucional;

7. Identificar e distinguir sua função e “lugar” enquanto psicólogo frente à


pessoa encarcerada, aos seus familiares, aos demais profissionais, à
administração do estabelecimento, ao Judiciário e à sociedade em geral,
considerando esse conhecimento para delimitar suas atividades;

8. Identificar, distinguir, interpretar e propor objetivos de trabalho;

9. Criar estratégias e ferramentas que facilitem a expressão do sujeito como


protagonista de sua história;

10. Compreender os sujeitos na sua totalidade histórica, social, cultural,


humana e emocional, e atuar a partir desse entendimento;

11. Identificar, analisar e interpretar os referenciais teóricos das diversas


ciências que possibilitam a compreensão dos sistemas prisional e
judiciário;

12. Identificar, analisar e interpretar as variáveis que compõem o fenômeno da


violência social e da criminalidade;

13. Criticar e desenvolver conhecimento contínuo sobre sua atuação;

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14. Estabelecer relações e elaborar propostas referentes às temáticas de


políticas públicas, inclusive de saúde mental, e de direitos humanos no
sistema prisional;

15. Identificar, analisar e interpretar o sofrimento psicossocial no contexto das


desigualdades sociais e da exclusão;

16. Elaborar e propor modelos de atuação que combatiam a exclusão social e


mecanismos coercitivos e punitivos.

I. Do exame criminológico

1. É atribuição do psicólogo, enquanto categoria, apontar aos envolvidos


no campo da execução penal que a realização do exame criminológico,
enquanto dispositivo disciplinar que viola, entre outros, o direito à
intimidade e à personalidade, não deve ser mantido como sua atribuição,
devendo ser prioritária a construção de propostas para desenvolver
formas de aboli-lo (CFP e DEPEN, 2007);

2. Enquanto não for abolido, o psicólogo, na construção dos seus laudos e


pareceres, deve contribuir para a desconstrução de tal exame,
questionando conceitos como a periculosidade e a irresponsabilidade
penal, realizando-os numa abordagem transdisciplinar, como um
momento de encontro com o indivíduo, resgatando o saber teórico e
contribuindo para revelar os aspectos envolvidos na prisionalização (CFP e
DEPEN, 2007);

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3. Enquanto existir a comissão técnica de classificação, o psicólogo deve ter


entendimento do papel institucional que ocupa, dando evidência ao
Código de Ética Profissional e instrumentos nacionais e internacionais
de direitos humanos nas opiniões que emitir sobre todas as pautas a
serem debatidas e estimulando os temas sobre saúde, educação e
programas de reintegração social (CFP e DEPEN, 2007).

II. Do posicionamento ético

1. Quando houver imperativo ético de denúncia das violações de direitos


humanos e situações de tortura, o psicólogo deve procurar seu
conselho profissional e o conselho de defesa da pessoa humana
(dentre outras entidades) para a formulação da denúncia, com respaldo
nas legislações nacionais e internacionais, quando se esgotarem os
recursos das instâncias internas (CFP e DEPEN, 2007).

2. Para sua organização, enquanto categoria, e proteção de suas atividades


profissionais, o psicólogo deve buscar seu conselho profissional e
solicitar diálogo entre os vários conselhos profissionais que atuam na
prisão, primando pelo fortalecimento do posicionamento ético (CFP e
DEPEN, 2007).

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ACERTE O ALVO: O CFP publicou a Resolução CFP nº10 ⁄ 2010 proibindo


que o psicólogo atue como inquiridor. No entanto, essa resolução
encontra-se SUSPENSA em todo o país por decisão judicial. Assim, o CFP
orienta que

“a despeito dos profissionais estarem judicialmente


autorizados a realizar a inquirição, mantém as orientações
às psicólogas e psicólogos brasileiros que atuam no âmbito
da justiça, destacando a necessária atenção ao Código de
Ética Profissional do Psicólogo e à defesa intransigente da
autonomia do profissional, entendendo que o diálogo
entre os saberes não se sustenta numa lógica vertical e
hierárquica”.

Os psicólogos que atuam no sistema prisional devem seguir a normatização


estabelecida pelo CFP através da Resolução nº 012/2011.

NOTA: A resolução CFP nº 012 ⁄ 2011 encontra-se temporariamente


SUSPENSA exclusivamente nos estados de Goiás e Rio de Janeiro devido a
decisão judicial. No caso do concurso TJSC esse conteúdo poderá ser
cobrado na prova.

A resolução CFP nº 012/2011 regulamenta a atuação da (o) psicóloga (o) no


âmbito do sistema prisional.

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Em todas as práticas no âmbito do sistema prisional, a (o) psicóloga (o) deverá


respeitar e promover (Art. 1º):

 Os direitos humanos dos sujeitos em privação de liberdade, atuando em


âmbito institucional e interdisciplinar (Art. 1º a);

 Os processos de construção da cidadania, em contraposição à cultura de


primazia da segurança, de vingança social e de disciplinarização do
indivíduo (Art. 1º b);

 A desconstrução do conceito de que o crime está relacionado unicamente


à patologia ou à história individual, enfatizando os dispositivos sociais
que promovem o processo de criminalização (Art. 1º c);

 A construção de estratégias que visem ao fortalecimento dos laços


sociais e uma participação maior dos sujeitos por meio de projetos
interdisciplinares que tenham por objetivo o resgate da cidadania e a
inserção na sociedade extramuros (Art. 1º d).

Em relação à atuação com a população em privação de liberdade ou em


medida de segurança, a (o) psicóloga (o) deverá (Art. 2º):

ATENÇÃO: O art. 2º traz DEVERES do psicólogo que atua no âmbito do


sistema prisional diretamente no atendimento da população em privação
de liberdade ou em medida de segurança (Hospitais de Custódia).

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 Compreender os sujeitos na sua totalidade histórica, social, cultural,


humana e emocional (Art. 2º a);

 Promover práticas que potencializem a vida em liberdade, de modo a


construir e fortalecer dispositivos que estimulem a autonomia e a
expressão da individualidade dos envolvidos no atendimento (Art. 2º b);

 Construir dispositivos de superação das lógicas maniqueístas que


atuam na instituição e na sociedade, principalmente com relação a
projetos de saúde e reintegração social (Art. 2º c);

 Atuar na promoção de saúde mental, a partir dos pressupostos


antimanicomiais, tendo como referência fundamental a Lei da Reforma
Psiquiátrica, Lei n° 10.216/2001, visando a favorecer a criação ou o
fortalecimento dos laços sociais e comunitários e a atenção integral (Art.
2º d);

 Desenvolver e participar da construção de redes nos serviços públicos


de saúde/saúde mental para as pessoas em cumprimento de pena
(privativa de liberdade e restritiva de direitos), bem como de medidas de
segurança (Art. 2º e);

 Ter autonomia teórica, técnica e metodológica, de acordo com os


princípios ético-políticos que norteiam a profissão (Art. 2º f).

É vedado à (ao) psicóloga (o) participar de procedimentos que envolvam as


práticas de caráter punitivo e disciplinar, notadamente os de apuração de faltas
disciplinares (Art. 2º § único).

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ATENÇÃO: O § único do art. 2º traz explicitamente uma VEDAÇÃO!!! O


psicólogo NÃO pode participar da apuração de faltas disciplinares.

Em relação à atuação como gestor, a (o) psicóloga (o) deverá (Art. 3º):

ATENÇÃO: O art. 3º traz DEVERES do psicólogo que atua no âmbito do


sistema prisional como GESTOR.

 Considerar as políticas públicas, principalmente no tocante à saúde


integral, à assistência social e aos direitos humanos no âmbito do sistema
prisional, nas propostas e projetos a ser implementados no contexto
prisional (Art. 3º a);

 Contribuir na elaboração e proposição de modelos de atuação que


combatam a culpabilização do indivíduo, a exclusão social e mecanismos
coercitivos e punitivos (Art. 3º b);

 Promover ações que facilitem as relações de articulação interpessoal,


intersetorial e interinstitucional (Art. 3º c);

 Considerar que as atribuições administrativas do cargo ocupado na gestão


não se sobrepõem às determinações contidas no Código de Ética
Profissional e nas resoluções do Conselho Federal de Psicologia (Art. 3º
d).

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Em relação à elaboração de documentos escritos para subsidiar a decisão


judicial na execução das penas e das medidas de segurança (Art. 4º):

ACERTE O ALVO: O art. 4º é o tópico mais concursável desta resolução!!!


LEIA, ENTENDA, ESQUEMATIZE, MEMORIZE !!!

 A produção de documentos escritos com a finalidade exposta no caput


deste artigo não poderá ser realizada pela(o) psicóloga(o) que atua como
profissional de referência para o acompanhamento da pessoa em
cumprimento da pena ou medida de segurança, em quaisquer
modalidades como atenção psicossocial, atenção à saúde integral,
projetos de reintegração social, entre outros (Art. 4º a).

ACERTE O ALVO: A alínea a) do art. 4º traz claramente uma VEDAÇÃO!!!


O psicólogo que realiza o atendimentoacompanhamento da pessoa em
cumprimento da pena ou medida de segurança NÃO PODE elaborar
documentos para subsidiar a decisão judicial na execução de penas e
medidas de segurança. ATENÇÃO !!!

 A partir da decisão judicial fundamentada que determina a elaboração


do exame criminológico ou outros documentos escritos com a finalidade
de instruir processo de execução penal, excetuadas as situações previstas
na alínea 'a', caberá à (ao) psicóloga (o) somente realizar a perícia
psicológica, a partir dos quesitos elaborados pelo demandante e dentro
dos parâmetros técnico-científicos e éticos da profissão (Art. 4º b).

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Na perícia psicológica realizada no contexto da execução penal ficam vedadas


a elaboração de prognóstico criminológico de reincidência, a aferição de
periculosidade e o estabelecimento de nexo causal a partir do binômio delito-
delinquente (Art. 4º § 1º).

ACERTE O ALVO: o § 1º da alínea b do Art. 4º VEDA expressamente a


realização de exame de periculosidade pelo psicólogo. TÓPICO
ALTAMENTE CONCURSÁVEL!!!

Cabe à (ao) psicóloga (o) que atuará como perita (o) respeitar o direito ao
contraditório da pessoa em cumprimento de pena ou medida de segurança
(Art. 4º § 2º).

Na atuação com outros segmentos ou áreas, a (o) psicóloga (o) deverá (Art. 5º):

 Visar à reconstrução de laços comunitários, sociais e familiares no


atendimento a egressos e familiares daqueles que ainda estão em
privação de liberdade (Art. 5º a);

 Atentar para os limites que se impõem à realização de atendimentos a


colegas de trabalho, sendo seu dever apontar a incompatibilidade de
papéis ao ser convocado a assumir tal responsabilidade (Art. 5º b).

Toda e qualquer atividade psicológica no âmbito do sistema prisional deverá


seguir os itens determinados nessa resolução (Art. 6º).

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A não observância da presente norma constitui falta ético-disciplinar, passível


de capitulação nos dispositivos referentes ao exercício profissional do Código
de Ética Profissional do Psicólogo, sem prejuízo de outros que possam ser
arguidos (Art. 6º § único).

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3. A PSICOLOGIA JUNTO AO DIREITO DE FAMÍLIA

Segundo Carlos Roberto Gonçalves (2013 aoud Dannemann, 2013), a família é


A PSICOLOGIA JUNTO AO DIREITO DE FAMÍLIA

uma realidade sociológica e constitui a base do Estado, o núcleo fundamental


em que repousa toda a organização social. Em qualquer aspecto em que é
considerada, aparece a família como uma instituição necessária, sagrada, que
vai merecer a mais ampla proteção do Estado.

O Direito de Família, por sua vez, regula a relação existente entre os membros
que compõem a família e as consequências dessa relação para as pessoas e os
patrimônios dos envolvidos (Dannemann, 2013)

A Constituição Federal (CF88) dedica o seu Capítulo VII ao estudo da família, da


criança, do adolescente, do jovem e do idoso e, em especial, no artigo 226,
estabelece as linhas gerais da proteção à família.

Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial


proteção do Estado.

§ 1º - O casamento é civil e gratuita a celebração.

§ 2º - O casamento religioso tem efeito civil, nos termos


da lei.

§ 3º - Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a


união estável entre o homem e a mulher como entidade
familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em
casamento.

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§ 4º - Entende-se, também, como entidade familiar a


comunidade formada por qualquer dos pais e seus
descendentes.

§ 5º - Os direitos e deveres referentes à sociedade


conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela
mulher.

§ 6º O casamento civil pode ser dissolvido pelo divórcio.


(Redação dada Pela Emenda Constitucional nº 66, de
2010).

§ 7º - Fundado nos princípios da dignidade da pessoa


humana e da paternidade responsável, o planejamento
familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado
propiciar recursos educacionais e científicos para o
exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva
por parte de instituições oficiais ou privadas.

§ 8º - O Estado assegurará a assistência à família na


pessoa de cada um dos que a integram, criando
mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas
relações.

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OBSERVAÇÃO: a CF/88 traz as linhas gerais da proteção da família. Ela


inovou o ordenamento jurídico brasileiro, reconhecendo expressamente
como família não apenas aquela decorrente do casamento, como
também aquela decorrente da união estável e dos núcleos monoparentais
(Dannemann, 2013).

A família é um fenômeno cultural, e não jurídico. Ou seja, hoje se tem a


consciência de que o conceito de família é construído a partir da cultura, e
não do Direito. Assim, o conceito de família é construído a partir de
valores sociais, e não de valores necessariamente jurídicos, pois, muito
mais do que uma concepção jurídica, família é uma possibilidade de
convivência e o Direito, portanto, há de regulamentar a família a partir das
diferentes possibilidades de convivência (Dannemann, 2013).

A doutrina, diante do texto legal, afirma que a CF, portanto, inaugurou


um sistema aberto, inclusivo e não discriminatório e, por conta disso,
outros arranjos familiares, não apenas aqueles expressamente
consagrados pela CF merecem a mesma proteção dedicada à família
(Dannemann, 2013).

O Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a união homoafetiva com


forma de família, bem como estabeleceu que a união homoafetiva deve
merecer o mesmo regramento legal da união estável por ser uma forma
de família. Atenção: O STF autoriza a união estável homoafetiva, mas não
o casamento civil (Dannemann, 2013).

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A instituição família vem se modificando e se reestruturando de acordo com


cada contexto histórico e apresentando até formas variadas numa mesma
época e lugar, de acordo com o grupo social (Paiva, 2008).

Sabemos que não há uma definição única de família, não há um "modelo ideal",
pois cada família tem sua especificidade e estabelece um código próprio
(constituído de normas e regras). Cada indivíduo se apropria deste código e o
usa. Cada um tem sua identidade, mas há uma organização interna à família.

Como cada sociedade tem sua história e sua cultura, são diversas as formas de
ser família, de criar os filhos, como também são diversos os costumes relativos
ao matrimônio e aos papéis do homem e da mulher (Paiva, 2008).

Kaslow (2001) cita nove tipos de composição familiar que podem ser
consideradas “família”:

1. Família nuclear, incluindo duas gerações (pais – filhos), com filhos


biológicos;
2. Famílias extensas, incluindo três ou quatro gerações (pais – filhos – avós);
3. Famílias adotivas temporárias;
4. Famílias adotivas, que podem ser bi raciais ou multiculturais;
5. Casais heterossexuais;
6. Famílias monoparentais, chefiadas por pai ou mãe;
7. Casais homossexuais com ou sem crianças;
8. Famílias reconstituídas depois do divórcio;
9. Várias pessoas vivendo juntas, sem laços legais, mas com forte
compromisso mútuo.

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A organização de um Serviço de Psicologia no âmbito jurídico reflete a


demanda institucional e as medidas judiciais previstas para a situação-
problema, dividindo os atendimentos por áreas (Maciel, 2002):

 Colocação de crianças em famílias substitutas e/ou de apoio, que


pressupões as medidas judiciais correspondentes:
 Guarda;
 Tutela;
 Adoção;
 Delegação e destituição do pátrio poder;
 Utilização de recursos como:
 Abrigos temporários;
 Cadastros de pessoas interessadas em adoção;
 Cadastro de famílias de apoio;
 Cadastro de crianças e adolescentes disponíveis para adoção;
 Cursos de esclarecimento para pais substitutos;

 Orientação, apoio e acompanhamento temporários à criança, ao


adolescente e à família, em situações de desajustes familiares e desvios de
conduta, como:

 Fuga do lar;
 Uso de tóxicos;
 Pedidos de internação;
 Consentimento para casamento;
 Suprimento de idade (emancipação da maioridade).
 Atendimento de denúncias sobre negligência, maus tratos, abuso sexual,
violência psicológica, intra e extrafamiliar.

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 Atendimento a jovens com prática de delitos, com estudo de caso, visando


à discussão e avaliação de medidas sócio-educativas e de proteção, tais
como:

 Advertência;
 Liberdade assistida;
 Prestação de serviços à comunidade;
 Semi-internação;
 Internação;

 Fiscalização das entidades de atendimento governamentais e não-


governamentais;

 Apuração de irregularidades em entidades de atendimento;

 Proteção judicial dos interesses individuais, difusos e coletivos (ações


cíveis).

Segundo Maciel (2002), a principal tarefa dos psicólogos no âmbito do poder


judiciário tem sido assessorar o magistrado na distribuição da justiça. Porém,
para realizar tal função, necessitam cumprir várias atribuições, tais como:

 Realizar estudos de casos, buscando alternativas mais viáveis, no


cumprimento do Estatuto da Criança e Adolescente, em defesa dos
direitos fundamentais dos mesmos;

 Discutir as medidas de proteção e/ou socioeducativas mais coerentes a


situação de crianças e adolescentes;

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 Participar de audiência e apresentar, por escrito ou oralmente, o parecer


técnico sobre o caso, resguardando os princípios éticos da profissão;

 Proceder à orientação, acompanhamentos e encaminhamentos


necessários à família e à criança ou adolescente;

 Estimular e efetivar relações da instituição judiciária com as entidades e


conselhos do município (de direitos e tutelar), numa ação interinstitucional
que promova o intercâmbio em rede e uma política de atendimento
eficaz;

 Verificar o cumprimento de Estatuto da Criança e do Adolescente,


conhecendo e analisando os programas de atendimento do município, e
denunciando sua violação;

 Promover a política de atendimento à criança e ao adolescente no


município enquanto os conselhos tutelares municipais não estão
instalados, e/ou auxiliá-lo em sua realização;

 Participar e promover eventos relacionados à área (cursos etc);

 Proceder a estudos e promover debates visando à análise de fatores que


predispões, reforçam ou contribuem para a manutenção do fenômeno da
menoridade, bem como as problemáticas das famílias, buscando realizar
um trabalho efetivo com as pessoas em harmonia interdisciplinar,
contribuindo para o avanço das políticas públicas, da profissão e da
ciência.

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Observe que as atividades desenvolvidas pelo psicólogo no âmbito judicial


podem ser agrupadas em ações de perícia / avaliação; acompanhamento /
atendimento e assessoramento / auxílio.

Lago et. al. (2009) também destacam que na Psicologia Jurídica ocorre uma
predominância das atividades de elaboração de laudos, pareceres e relatórios, o
que leva à suposição de que compete à Psicologia uma atividade de cunho
avaliativo e de subsídio aos magistrados.

ACERTE O ALVO: Ao concluir o processo da avaliação, o psicólogo pode


recomendar soluções para os conflitos apresentados, mas jamais
determinar os procedimentos jurídicos que deverão ser tomados, pois a
decisão judicial compete ao JUIZ e não ao psicólogo!

ATENÇÃO: O psicólogo não decide, apenas conclui a partir dos dados


levantados mediante a avaliação e pode, assim, sugerir e/ou indicar
possibilidades de solução da questão apresentada pelo litígio judicial
(Lago et. al, 2009).

No entanto, nem sempre o trabalho do psicólogo jurídico está ligado à questão


da avaliação e consequente elaboração de documentos. Os ramos do Direito
que frequentemente demandam a participação do psicólogo são (Lago et. al,
2009):

 Direito Civil
 Direito da Família
 Direito da Criança e do Adolescente
 Direito Penal

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 Direito do Trabalho

Observação: o Direito de Família e o Direito da Criança e do Adolescente fazem


parte do Direito Civil, no entanto, na prática as ações são ajuizadas em varas
diferentes (Lago et. al., 2009).

Na área de família destaca-se a participação dos psicólogos nos processos de


(Lago et. al, 2009):

 Separação e divórcio;
 Disputa de guarda;
 Regulamentação de visitas.

I. Separação e divórcio

Os processos de separação e divórcio englobam:

 Partilha de bens;
 Guarda de filhos;
 Estabelecimento de pensão alimentícia;
 Direito à visitação.

São raros os casos em que os cônjuges conseguem atingir o consenso para a


separação. As situações que requerem a participação do psicólogo geralmente
são litigiosas, ou seja, aqueles em que as partes não conseguem chegar a um
acordo em relação às questões envolvidas no divórcio. Isso implica resolver o
conflito que está ou que ficou nas entrelinhas, nos meandros dos

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relacionamentos, ou seja, romper com o vínculo afetivo-emocional (Lago et. al,


2009).

Nos casos em que o juiz não considera viável a mediação ou quando os


litigantes se dispõem a tentar um acordo, o psicólogo pode atuar como
mediador ou pode ser solicitada uma avaliação de uma das partes ou do casal
(Lago et. al, 2009).

Seja como avaliador ou mediador, o psicólogo busca identificar os motivos que


levaram o casal ao litígio e os conflitos que impedem um acordo. Nos casos em
que julga necessário, o psicólogo pode, inclusive, sugerir encaminhamento para
tratamento psicológico ou psiquiátrico da(s) parte(s) (Lago et. al, 2009).

II. Regulamentação de visitas

Conforme vimos a pouco, o direito à visitação é uma das questões a serem


definidas a partir do processo de separação ou divórcio. No entanto, mesmo
após a decisão judicial podem surgir questões de ordem prática ou até mesmo
novos conflitos que tornem necessário recorrer mais uma vez ao Judiciário,
solicitando uma revisão nos dias e horários ou forma de visitas (Lago et. al,
2009).

Nessas situações o psicólogo jurídico realiza avaliações com a família, com


vistas ao esclarecer os conflitos e informar ao juiz sobre a dinâmica familiar,
além de sugerir as medidas que podem ser adotadas (Lago et. al, 2009).

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Além disso, o psicólogo pode atuar também como mediador, sinalizando a


influência de conflitos intrapessoais na dinâmica interpessoal dos ex-cônjuges,
com o objetivo de estabelecer um acordo pautado na cooperação, de maneira
que a autonomia da vontade das partes seja preservada (Lago et. al, 2009).

III. Disputa de guarda

Nos processos de separação ou divórcio o juiz precisa determinar qual dos ex-
cônjuges deverá deter a guarda dos filhos. Nos casos mais graves, em que
ocorrem disputas judiciais pela guarda, o juiz pode requerer a realização de
uma perícia psicológica para que seja avaliado qual dos genitores apresenta
melhores condições de exercer esse direito (Lago et. al, 2009).

É necessário que os psicólogos que atuam nessa área tenham conhecimentos


sobre avaliação psicológica, psicopatologia, psicologia do desenvolvimento e
psicodinâmica do casal, além de estudar temas atuais como a guarda
compartilhada, falsas acusações de abuso sexual e síndrome de alienação
parental, devendo saber sobre seu funcionamento e sobre a melhor forma de
investigá-los, pois essas situações podem estar envolvidas nesses processos
(Lago et. al, 2009).

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NOVAS DEMANDAS AO PODER JUDICIÁRIO

4. NOVAS DEMANDAS AO PODER JUDICIÁRIO

A Psicologia Jurídica vem fortalecendo-se cada vez mais como campo de


estudo e prática, ampliando as possibilidades de intervenção.

Atendendo ao solicitado no edital, a seguir estudaremos sobre a atuação


do psicólogo frente a algumas das novas demandas sinalizadas pelas
necessidades do poder judiciário.

4.1. DANO PSIQUÍCO

O psicólogo atua nos processos em que são requeridas indenizações em


virtude de danos psíquicos e também nos casos de interdição judicial
(Lago et. al, 2009).

O dano psíquico pode ser definido como a sequela emocional ou


psicológica decorrente de um fato particular traumatizante. Pode-se dizer
que o dano está presente quando são gerados efeitos traumáticos na
organização psíquica e/ou no repertório comportamental da vítima (Lago
et. al, 2009).

Cabe ao psicólogo, de posse de seu referencial teórico e instrumental


técnico, avaliar a real presença desse dano. Entretanto, o psicólogo deve
estar atento a possíveis manipulações dos sintomas, já que está em suas
mãos a recomendação, ou não, de um ressarcimento financeiro (Rovinski,
2007; Lago et. al, 2009).

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4.2. INTERDIÇÃO

A interdição é o ato pelo qual o juiz retira, ao alienado, ao surdo-mudo, ao


pródigo e ao toxicômano, a administração e a livre disposição de seus bens.
Assim, a interdição refere-se ao reconhecimento jurídico da incapacidade de
exercício por si mesmo dos atos da vida civil.

Dentre as possibilidades de interdição previstas pelo código civil, estão os casos


em que, por enfermidade ou deficiência mental, os sujeitos de direito não
tenham o necessário discernimento para a prática dos atos da vida civil (Lago
et. al, 2009).

Compete ao psicólogo nomeado perito pelo juiz realizar avaliação que


comprove ou não tal enfermidade mental. À justiça interessa saber se a doença
mental de que o paciente é portador o torna incapaz de reger sua pessoa e
seus bens (Lago et. al, 2009).

As questões levantadas em um processo de interdição incluem a validade,


nulidade ou anulabilidade de (Lago et. al, 2009):

 Negócios jurídicos;
 Testamentos;
 Casamentos;
 Contração de deveres;
 Aquisição de direitos;
 Aptidão para o trabalho;
 Capacidade de testemunhar;
 Possibilidade de ele próprio assumir tutela ou curatela de incapaz;
 Exercer o poder familiar.

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Os psicólogos podem ser solicitados também a avaliar a veracidade dos


depoimentos de testemunhas e suspeitos, de forma a colaborar com os
operadores da justiça (Lago et. al, 2009).

O chamado fenômeno das falsas memórias tem assumido um papel muito


importante na área da Psicologia do Testemunho. As falsas memórias podem
resultar da repetição de informações consistentes e inconsistentes no
depoimento de testemunhas sobre o mesmo evento (Lago et. al, 2009).

Hoje, sabe-se que o ser humano é capaz de armazenar e recordar informações


que não ocorreram. Lago et al (2009) chamam a atenção para a necessidade de
desenvolver pesquisas na área que possam contribuir para a elucidação dos
mecanismos responsáveis pelas falsas memórias e, assim, auxiliar o
aprimoramento de técnicas para avaliação de testemunhos (Lago et. al, 2009).

4.3. DEPOIMENTO ESPECIAL

Uma área recente e relacionada à Psicologia do Testemunho que vem


ganhando espaço é o Depoimento sem Dano ou Especial, que objetiva
proteger psicologicamente crianças e adolescentes vítimas de abusos sexuais e
outras infrações penais que deixam graves sequelas no âmbito da estrutura da
personalidade (Lago et. al, 2009).

Esse projeto foi criado no Segundo Juizado da Infância e Juventude de Porto


Alegre, em razão das dificuldades enfrentadas pela justiça na tomada de
depoimentos de crianças e adolescentes (Cezar, 2007) (Lago et. al, 2009).

A fim de atingir tais objetivos, é importante que o técnico entrevistador -


assistente social ou psicólogo - possua habilidade em ouvir, demonstre

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paciência, empatia, disposição para o acolhimento e capacidade de deixar o


depoente à vontade durante a audiência (Lago et. al, 2009).

O técnico deve, ainda, conhecer acerca da dinâmica do abuso e,


preferencialmente, possuir experiência em situações de perícia, o que facilita a
compreensão e interação de todos os envolvidos no ato judicial (Cezar, 2007)
(Lago et. al, 2009).

Desta forma, a inserção de uma equipe psicossocial no âmbito da justiça


respeita e preserva o estado emocional da vítima, permitindo, assim, um
processo menos oneroso e mais justo para o caso (Lago et. al, 2009).

Segundo a comissão de Psicologia e Justiça do CRP-RJ, o chamado Depoimento


sem Dano (DSD) consiste na oitiva de crianças e adolescentes em situação de
violência.

O depoimento é tomado por um técnico (psicólogo ou assistente social) em


uma sala especial, conectada por equipamento de vídeo e áudio à sala de
audiência, em tempo real.

O técnico possui um ponto eletrônico, através do qual o juiz direciona as


perguntas a serem feitas à criança. Além disso, o depoimento fica gravado,
constando como prova no processo.

Segundo Arantes (2007), o objetivo do Depoimento sem Dano é evitar que a


criança seja revitimizada ao contar a sua história a vários profissionais e em
diferentes momentos. Por essa razão, todas as perguntas são feitas em
audiência única, evitando-se:

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 O sofrimento que a repetição traz para a criança;

 Que a criança modifique o seu depoimento de acordo com diferentes


modos de inquirição.

A indicação do psicólogo para execução desse procedimento está respaldada


na suposição de sua capacidade de atender aos requisitos para uma adequada
inquirição, tornando o depoimento da criança “sem dano”, pois o psicólogo é
uma figura acolhedora, que não ameaça, que possui habilidades para se
relacionar e ao mesmo tempo para não se deixar enganar, de modo que o
depoimento da criança seja confiável, não sendo mera fantasia ou resposta
dada apenas para agradar ao adulto (Arantes, 2007).

No entanto, Arantes (2007) chama a atenção para alguns pontos de grande


relevância para as práticas dos psicólogos.

Segundo a autora, por mais louváveis que sejam as intenções daqueles que
defendem esta modalidade de depoimento, existe certa dose de ingenuidade
na expressão “sem dano” (Arantes, 2007).

Devemos atentar para o fato de que uma audiência jurídica não é exatamente o
mesmo que uma entrevista, consulta ou atendimento psicológico, onde a
escuta do psicólogo é orientada pelas demandas e desejos da criança e não
pelas necessidades do processo, sendo resguardado o sigilo profissional
(Arantes, 2007).

Além disso, eventuais perguntas feitas pelo psicólogo à criança não podem ser
qualificadas como inquirições, não pretendendo esclarecer a “verdade real” ou a
“verdade verdadeira dos fatos” - pois, na Psicologia entende-se que as

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fantasias, erros, lapsos, esquecimentos, sonhos, pausas, silêncios e contradições


não são entendidos como sendo opostos à verdade (Arantes, 2007).

Devido a reflexões como essas, o depoimento especial é um dos tópicos que


despertam intensa polêmica e discussão, sendo repudiado pelo Conselho
Federal de Psicologia que publicou resolução vedando a atuação do psicólogo
como inquiridor.

A argumentação apresentada é a de que as crianças e adolescentes ao depor


têm suas imagens e vozes gravadas para fundamentar o processo, fato que as
deixa expostas e vulneráveis, pois os autos podem ser revistos tantas vezes
quantas forem necessárias e por diversas pessoas além do juiz.

Além disso, o psicólogo nesse caso não está desenvolvendo nenhuma prática
com fundamento na Psicologia, pois a todo o momento segue as orientações
dos magistrados e utiliza instrumentos e jargões do campo da justiça, sem
contribuir efetivamente para uma escuta psicológica ou para o cuidado da
vítima.

O CFP publicou a Resolução CFP nº10 ⁄ 2010 proibindo que o psicólogo atue
como inquiridor. No entanto, essa resolução encontra-se SUSPENSA por
decisão judicial. Assim, o CFP orienta que

“à despeito dos profissionais estarem judicialmente


autorizados a realizar a inquirição, mantém as orientações
às psicólogas e psicólogos brasileiros que atuam no
âmbito da justiça, destacando a necessária atenção ao
Código de Ética Profissional do Psicólogo e à defesa
intransigente da autonomia do profissional, entendendo

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que o diálogo entre os saberes não se sustenta numa


lógica vertical e hierárquica”.

4.4. GUARDA COMPARTILHADA

Práticas - avaliação psicológica, perícia, assessoramento, orientação, mediação,


aconselhamento, encaminhamento, elaboração de laudos, pareceres e relatórios
(predominante).

Os psicólogos atuam em processos principalmente de:

 Guarda;

 Regulamentação de Visitas;

 Alimentos;

 Interdição;

 Busca e apreensão;

 Alienação Parental.

Atuação do Psicólogo nas Ações de Guarda

 Possibilidade de análise da dinâmica familiar e das interações entre seus


membros.

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 Estudo para verificação, dentre os genitores ou demais responsáveis


envolvidos, qual deles reúne mais condições gerais, vocacionais, funcionais
e emocionais para o atendimento das necessidades da criança ou
adolescente em questão.

 O objetivo central é trazer aos autos (processo judicial) elementos que


auxiliem o magistrado na decisão, através de um laudo/relatório ou
parecer psicológico.

 Importante diferenciar da avaliação psicológica com finalidades clínicas.

BASE LEGAL (Código de Processo Civil):

Art. 145. Quando a prova do fato depender de


conhecimento técnico ou científico, o juiz será
assistido por perito

Art. 436. O juiz não está adstrito ao laudo pericial,


podendo formar a sua convicção com outros
elementos ou fatos provados nos autos.

Art. 437. O juiz poderá determinar, de ofício ou a


requerimento da parte, a realização de nova perícia,
quando a matéria não Ihe parecer suficientemente
esclarecida.

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Modalidades de Guarda

 Unilateral, monoparental, exclusiva ou única: atribuída a um só dos


genitores ou a alguém que o substitua;

 Compartilhada ou conjunta: responsabilização conjunta e o exercício de


direitos e deveres do pai e da mãe que não vivam sob o mesmo teto,
concernentes ao poder familiar dos filhos comuns.

 Guarda alternada: divisão entre pai e mãe em relação às responsabilidades


com os filhos e consequentes mudanças periódicas destes para a casa de
cada um dos pais.

 Aninhamento ou nidação: a criança mora ora na companhia do pai, ora na


companhia da mãe, semelhante à guarda alternada. No entanto, quem
muda de residência não é ela e sim os seus genitores.

A seguir trarei algumas tópicos de legislação especial e resoluções do CFP em


sua íntegra, destacando trechos ou palavras importantes para que compreenda
o foco principal dessa legislação e o objetivo do legislador ao elaborar essa
norma.

 Lei nº 11.698, de 13 de 2008 – Altera os arts. 1.583 e 1.584 da Lei


no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 – Código Civil, para instituir e
disciplinar a guarda compartilhada

A guarda será unilateral ou compartilhada (Art. 1.583 § 1o).

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 Guarda unilateral - a atribuída a um só dos genitores ou a alguém que


o substitua

 Guarda compartilhada - a responsabilização conjunta e o exercício de


direitos e deveres do pai e da mãe que não vivam sob o mesmo teto,
concernentes ao poder familiar dos filhos comuns.

A guarda unilateral será atribuída ao genitor que revele melhores condições


para exercê-la e, objetivamente, mais aptidão para propiciar aos filhos os
seguintes fatores (Art. 1.583 § 2o):

I. Afeto nas relações com o genitor e com o grupo familiar;

II. Saúde e segurança;

III. Educação.

A guarda unilateral obriga o pai ou a mãe que não a detenha a supervisionar


os interesses dos filhos (Art. 1.583 § 3o).

A guarda, unilateral ou compartilhada, poderá ser (Art. 1.584):

I. Requerida, por consenso, pelo pai e pela mãe, ou por qualquer deles,
em ação autônoma de separação, de divórcio, de dissolução de união
estável ou em medida cautelar;

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II. Decretada pelo juiz, em atenção a necessidades específicas do filho, ou


em razão da distribuição de tempo necessário ao convívio deste com o
pai e com a mãe.

Na audiência de conciliação, o juiz informará ao pai e à mãe o significado da


guarda compartilhada, a sua importância, a similitude de deveres e direitos
atribuídos aos genitores e as sanções pelo descumprimento de suas cláusulas
(Art. 1.584 § 1o).

Quando não houver acordo entre a mãe e o pai quanto à guarda do filho, será
aplicada, sempre que possível, a guarda compartilhada (Art. 1.584 § 2o).

Para estabelecer as atribuições do pai e da mãe e os períodos de convivência


sob guarda compartilhada, o juiz, de ofício ou a requerimento do Ministério
Público, poderá basear-se em orientação técnico-profissional ou de equipe
interdisciplinar (Art. 1.584 § 3o).

A alteração não autorizada ou o descumprimento imotivado de cláusula de


guarda, unilateral ou compartilhada, poderá implicar a redução de prerrogativas
atribuídas ao seu detentor, inclusive quanto ao número de horas de convivência
com o filho (Art. 1.584 § 4o).

Se o juiz verificar que o filho não deve permanecer sob a guarda do pai ou da
mãe, deferirá a guarda à pessoa que revele compatibilidade com a
natureza da medida, considerados, de preferência, o grau de parentesco e as
relações de afinidade e afetividade (Art. 1.584 § 5o).

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4.5. ALIENAÇÃO PARENTAL

 Lei nº 12.318, de 26 de agosto de 2010 - Dispõe sobre a alienação


parental e altera o art. 236 da Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990.

Considera-se ato de alienação parental (Art. 2º):

A interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente


promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham
a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que
repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à
manutenção de vínculos com este.

São formas exemplificativas de alienação parental, além dos atos assim


declarados pelo juiz ou constatados por perícia, praticados diretamente ou com
auxílio de terceiros (Art. 2º § único):

I. Realizar campanha de desqualificação da conduta do genitor no exercício


da paternidade ou maternidade;

II. Dificultar o exercício da autoridade parental;

III. Dificultar contato de criança ou adolescente com genitor;

IV. Dificultar o exercício do direito regulamentado de convivência familiar;

V. Omitir deliberadamente a genitor informações pessoais relevantes sobre a


criança ou adolescente, inclusive escolares, médicas e alterações de
endereço;

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VI. Apresentar falsa denúncia contra genitor, contra familiares deste ou contra
avós, para obstar ou dificultar a convivência deles com a criança ou
adolescente;

VII. Mudar o domicílio para local distante, sem justificativa, visando a dificultar
a convivência da criança ou adolescente com o outro genitor, com
familiares deste ou com avós.

A prática de ato de alienação parental fere direito fundamental da criança ou do


adolescente de convivência familiar saudável, prejudica a realização de afeto
nas relações com genitor e com o grupo familiar, constitui abuso moral contra a
criança ou o adolescente e descumprimento dos deveres inerentes à autoridade
parental ou decorrentes de tutela ou guarda (Art. 3º).

Declarado indício de ato de alienação parental, a requerimento ou de ofício, em


qualquer momento processual, em ação autônoma ou incidentalmente, o
processo terá tramitação prioritária, e o juiz determinará, com urgência, ouvido
o Ministério Público, as medidas provisórias necessárias para preservação da
integridade psicológica da criança ou do adolescente, inclusive para assegurar
sua convivência com genitor ou viabilizar a efetiva reaproximação entre ambos,
se for o caso (Art. 4º).

Assegurar-se-á à criança ou adolescente e ao genitor garantia mínima de


visitação assistida, ressalvados os casos em que há iminente risco de prejuízo à
integridade física ou psicológica da criança ou do adolescente, atestado por
profissional eventualmente designado pelo juiz para acompanhamento das
visitas (Art. 4º § único).

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Havendo indício da prática de ato de alienação parental, em ação autônoma


ou incidental, o juiz, se necessário, determinará perícia psicológica ou
biopsicossocial (Art. 5º).

O laudo pericial terá base em ampla avaliação psicológica ou biopsicossocial,


conforme o caso, compreendendo, inclusive (Art. 5º § 1º):

 entrevista pessoal com as partes

 exame de documentos dos autos

 histórico do relacionamento do casal e da separação

 cronologia de incidentes, avaliação da personalidade dos envolvidos

 exame da forma como a criança ou adolescente se manifesta acerca de


eventual acusação contra genitor.

A perícia será realizada por profissional ou equipe multidisciplinar


habilitados, exigido, em qualquer caso, aptidão comprovada por histórico
profissional ou acadêmico para diagnosticar atos de alienação parental (Art. 5º
§ 2º).

O perito ou equipe multidisciplinar designada para verificar a ocorrência de


alienação parental terá prazo de 90 (noventa) dias para apresentação do
laudo, prorrogável exclusivamente por autorização judicial baseada em
justificativa circunstanciada (Art. 5º § 3º).

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Caracterizados atos típicos de alienação parental ou qualquer conduta que


dificulte a convivência de criança ou adolescente com genitor, em ação
autônoma ou incidental, o juiz poderá, cumulativamente ou não, sem prejuízo
da decorrente responsabilidade civil ou criminal e da ampla utilização de
instrumentos processuais aptos a inibir ou atenuar seus efeitos, segundo a
gravidade do caso (Art. 6º):

I. Declarar a ocorrência de alienação parental e advertir o alienador;

II. Ampliar o regime de convivência familiar em favor do genitor alienado;

III. Estipular multa ao alienador;

IV. Determinar acompanhamento psicológico e/ou biopsicossocial;

V. Determinar a alteração da guarda para guarda compartilhada ou sua


inversão;

VI. Determinar a fixação cautelar do domicílio da criança ou adolescente;

VII. Declarar a suspensão da autoridade parental.

Caracterizado mudança abusiva de endereço, inviabilização ou obstrução à


convivência familiar, o juiz também poderá inverter a obrigação de levar para
ou retirar a criança ou adolescente da residência do genitor, por ocasião das
alternâncias dos períodos de convivência familiar (Art. 6º § único).

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A atribuição ou alteração da guarda dar-se-á por preferência ao genitor que


viabiliza a efetiva convivência da criança ou adolescente com o outro genitor
nas hipóteses em que seja inviável a guarda compartilhada (Art. 7º).

A alteração de domicílio da criança ou adolescente é irrelevante para a


determinação da competência relacionada às ações fundadas em direito de
convivência familiar, salvo se decorrente de consenso entre os genitores ou de
decisão judicial (Art. 8º).

4.6. JUSTIÇA RESTAURATIVA

O objetivo da justiça restaurativa é recuperar a vítima, restabelecendo o seu


estado anterior à agressão, bem como transformar e curar o agressor, de
modo que este mude seu comportamento, trazendo por consequência
elementos como a reconciliação, a reparação e a restauração do senso de
segurança, tanto para quem sofreu a lesão como para a sociedade.

Características:

 Objetiva a reintegração social da vítima e do infrator


 É um processo estritamente voluntário
 Ocorre de maneira relativamente informal
 A intervenção é conduzida por mediadores
 Podem ser utilizadas técnicas de mediação, conciliação e transação para
se alcançar o resultado restaurativo.

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4.7. MEDIAÇÃO FAMILIAR

Shine (2010) relata que uma das críticas levantadas contra o modelo pericial é
que este não auxilia na resolução dos conflitos. Esta mesma constatação tem
levado algumas instituições judiciárias a implantar serviços voltados para a
mediação familiar e é sobre esta atuação profissional tão específica que
estudaremos neste item.

Então, vamos à compreensão deste campo de atuação.

Segundo Müller, Cruz e Bartilotti (2009), a mediação de conflitos familiares é o


método de resolver disputas que leva em consideração a autonomia de
vontades dos envolvidos, respeitando as diferenças. A mediação de conflitos,
em seu sentido específico, pressupõe uma atuação facilitadora por parte do
mediador.

A profissão de mediador é nova e pode ser exercida por profissionais advindos


de diferentes formações (Direito, Administração, Serviço Social, Pedagogia,
Psicologia) exigindo do profissional a integração de distintas áreas, em especial
da Psicologia e do Direito (Mello, 2005 apud Müller, Cruz e Bartilotti, 2009).

Kovach e Love (2004 apud Müller, Cruz e Bartilotti, 2009) propõem que o papel
do mediador é facilitar a comunicação, promover o entendimento, levar as
partes a se focarem em seus interesses e procurar soluções criativas que deixem
as partes livres para chegar a um acordo próprio.

Assim, devemos considerar que o mediador tem como função principal facilitar
a comunicação e buscar o respeito mútuo, devendo manter uma postura
imparcial, neutra e ética, atuando em conjunto com os envolvidos.

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Ao iniciar sua intervenção, o mediador deve verificar se as pessoas sabem o que


é mediação, se estão efetivamente interessadas e se a aceitam como forma de
resolver suas diferenças (Perrone, 2001 apud Müller, Cruz e Bartilotti, 2009).

O mediador deve gerar e apoiar um contexto em que as próprias partes tomem


decisões; sem julgamento de seus pontos de vista. Ele deve considerar as
competências e os motivos das partes; sendo responsivo à expressão das
emoções, concentrado no aqui e agora da interação do conflito. Além disso, é
necessário que o facilitador busque entender o passado em busca de seu valor
para o presente; devendo entender a intervenção como um ponto dentro de
uma estrutura de tempo mais ampla.

Competências profissionais do mediador de conflitos (Müller, Cruz e


Bartilotti, 2009):

1. Enquadrar o processo de mediação;

2. Estabelecer rapport;

3. Demonstrar empatia;

4. Escutar ativamente;

5. Demonstrar atitude colaborativa;

6. Equidistar-se das partes;

7. Promover o reconhecimento recíproco;

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8. Aperfeiçoar conhecimento sobre vínculos familiares;

9. Demonstrar conhecer aspectos jurídicos em mediação familiar;

As competências apresentadas podem ser agrupadas da seguinte maneira:

Quanto à postura

O mediador de conflitos deve ter a disposição para manter a independência


profissional; ter capacidade de estabelecer rapport e manter contato empático;
atuar colaborativamente para auxiliar os envolvidos a enxergarem soluções
equitativas; e colocar-se à mesma distância das partes, tratando-os
igualitariamente (equidistar-se).

Quanto às habilidades interventivas comunicacionais

É essencial para o trabalho de mediação que o profissional tenha a habilidade


de escutar ativamente, ouvindo o relato sem interromper ou aceitar
interrupções, demonstrando calma, interesse e respeito pelo que está sendo
dito, atitude que vem aliada à capacidade de demonstrar empatia. O mediador
deve intervir apropriadamente, certificando-se de que está sendo
compreendido, buscando clarificar ou solicitar esclarecimentos.

Durante a mediação, profissional busca conseguir diálogos constantes entre as


percepções e entendimentos dos envolvidos, de maneira a auxiliá-los a que se
escutem reciprocamente, desobstruindo o canal de comunicação a fim de
possibilitar que cada um consiga compreender a perspectiva do outro, sem
reagir defensivamente.

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Quanto aos conhecimentos necessários

É fundamental para o trabalho de mediação que o profissional saiba enquadrar


esse processo, utilizando uma linguagem simples e clara, prestando
informações gerais sobre o processo de mediação, explicitando sua intenção de
auxiliar as partes na solução dos conflitos.

No contexto específico da mediação familiar, os conhecimentos sobre vínculos


familiares (família, separação conjugal, parentalidade) são essenciais, devendo o
mediador explicar didaticamente o processo de rompimento conjugal e a
importância da manutenção dos vínculos pais-filhos e de uma relação pacífica
para a saúde emocional de todos.

O profissional deve ainda demonstrar conhecer aspectos jurídicos em mediação


familiar, tais como acerca da pensão alimentícia, guarda, visitação e poder
familiar, bens do casal e sobrenome da mulher.

Assim, compreende-se que o mediador familiar deve ser o administrador do


processo de mediação, devendo conhecer as emaranhadas relações
interpessoais, possuir habilidade em gerenciamento de conflitos e negociação,
ter noções de Direito de Família, além de ser percebido pelos mediandos como
um profissional imparcial e que atua como um facilitador que pode auxiliar na
criação e no desenvolvimento de alternativas para a solução de seus problemas
a partir do entendimento das regras pessoais e familiares (Müller, Cruz e
Bartilotti, 2009; Moore, 1998 apud Müller, Cruz e Bartilotti, 2009).

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5. A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NAS VARAS DE INFÂNCIA E


A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NAS VARAS DE INFÂNCIA E JUVENTUDE

JUVENTUDE

Segundo Suannes (2011), a atuação da Justiça da Infância e Juventude


integra um sistema de ações que visam à promoção e à defesa dos
direitos da criança e do adolescente, agindo em situações nas quais a
família, a sociedade ou o Estado ameaçam ou violam esses direitos.

A intervenção da Justiça se dá quando são recebidas as demandas


encaminhadas por representações do Ministério Público, pelo Conselho
Tutelar, por entidades de atendimento à criança e ao adolescente e por
pedidos das pessoas, formulados diretamente nas Varas da Infância e
Juventude.

As Varas de Infância e Juventude tratam, entre outras medidas, de:

I. Apuração de atos infracionais atribuídos a um adolescente, com a


aplicação de medidas socioeducativas e de proteção;

II. Pedidos de adoção e seus incidentes, tais como seleção e


cadastramento de candidatos;

III. Pedidos de guarda (a terceiros) e tutela;

IV. Abrigamento como medida de proteção excepcional e temporária;

V. Ações referentes a suspensão, destituição e ao exercício do Poder


Familiar.

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A maior parte das ações de que trata a Vara de Infância e Juventude


envolve questões de natureza psicossocial. O Estatuto da Criança e do
Adolescente (1990) estabelece:

Art. 150. Cabe ao Poder Judiciário, na elaboração de sua


proposta orçamentária, prever recursos para a
manutenção de equipe interprofissional, destinada a
assessorar a Justiça da Infância e da Juventude.

Art. 151. Compete à equipe interprofissional, dentre outras


atribuições que lhe forem reservadas pela legislação local,
fornecer subsídios por escrito, mediante laudos, ou
verbalmente, na audiência, e bem assim desenvolver
trabalhos de aconselhamento, orientação,
encaminhamento, prevenção e outros, tudo sob a
imediata subordinação à autoridade judiciária, assegurada
a livre manifestação do ponto de vista técnico.

Segundo Suannes (2011), a função do psicólogo que faz parte da equipe


interprofissional que integra o quadro do Tribunal de Justiça nas Varas de
Infância e Juventude é:

(1) Fornecer subsídios para o juízo;

(2) Desenvolver trabalhos com as famílias cujos filhos são objeto de um


processo em Vara de Infância e Juventude

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Nas Varas de Família e Sucessões, o psicólogo cuida de um amplo espectro de


ações que englobam relações jurídicas dentro da família.

Tradicionalmente, no contexto judicial o psicólogo tem papel essencialmente


pericial, por isto, nos aprofundaremos no entendimento desta prática
profissional com características tão peculiares.

Além do trabalho pericial, muitas equipes de psicólogos atuantes em Tribunais


de Justiça têm desenvolvido outras ações, além da pericial, destacando-se as
atividades em grupo com vistas à orientação, encaminhamento, prevenção;
trabalhos de aconselhamento, mediação de conflitos familiares.

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6. PERÍCIA PSICOLÓGICA JUDICIAL

Por que o trabalho pericial tem tanto destaque?

As decisões judiciais nas ações em que há conflito de interesses devem se


basear em provas, que podem ser de três tipos: documental, testemunhal e
pericial.
PERÍCIA PSICOLÓGICA JUDICIAL

A função do laudo pericial é fornecer elementos para que a decisão judicial leve
em consideração o interesse da criança. A perícia, independente de sua
natureza, constitui um meio de prova a partir do qual o juiz toma sua decisão.

O Código de Processo Civil prevê a nomeação de perito quando a prova do


fato depender de conhecimento técnico ou científico.

A(s) perícia(s) oferece(m) subsídios para a decisão, na medida em que esclarece


(m) questões técnico-científicas envolvidas no fato; contudo, ao decidir, o juiz
não precisa ficar adstrito ao laudo, podendo recorrer a outros elementos que
constam dos autos.

Nas ações que abrangem crianças ou adolescentes (como guarda de filho ou


regulamentação de visitas), via de regra o juiz solicita perícia social, psicológica
ou ambas, havendo ainda situações nas quais julgue necessária a realização de
perícia psiquiátrica.

Segundo Castro (2005 apud Suannes, 2011), o modelo pericial tem estabelecido
o fundamento da prática do psicólogo no Judiciário, nos diversos âmbitos do
Direito, como um profissional que, por deter conhecimentos especializados
sobre a dinâmica subjetiva das pessoas e dos relacionamentos humanos, pode

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subsidiar decisões judiciais com o conhecimento técnico-científico advindo de


avaliações psicológicas.

A perícia judicial diferencia-se dos demais campos do conhecimento nos quais


atua o especialista, pois seu trabalho se constitui no levantamento de dados e
elaboração de um laudo técnico que será incluído nos autos do processo, a fim
de subsidiar decisões legais.

O resultado do trabalho pericial precisa ser apresentado por meio de um laudo


técnico sucinto, mas com seus achados descritos com precisão e analisados de
forma a fundamentar cada conclusão.

A atuação do especialista pode ser solicitada em duas situações:

(1) O agente legal, em geral o juiz, solicita a avaliação de um perito oficial


para a elaboração de um laudo técnico que deverá esclarecer dúvidas
quanto a um determinado aspecto da competência do perito e será
incluído pelo juiz nos autos do processo;

(2) O litigante ou seu advogado contrata um assistente técnico oficial e redige


um parecer crítico que será encaminhado juntado ao processo para
apreciação do juiz.

O objetivo da avaliação será, sempre, através da compreensão psicológica do


caso, responder a uma questão legal formulada pelo juiz ou por outro agente
jurídico, situação que exige do profissional a capacidade de relacionar seus
achados clínicos com os construtos legais que a ele estão relacionados.

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Segundo Rovinski (2007), o foco da avaliação deve restringir-se à


verificação da presença e da intensidade dos sintomas emocionais com a
determinação do nexo de causalidade.

Shine (2010) afirma que, quando serviços psicológicos são requisitados, os


psicólogos devem averiguar a natureza específica dos serviços solicitados,
determinando a quem eles se dirigem (beneficiários), avaliando sua
competência em prover tais serviços e estabelecendo os honorários para
realização do trabalho.

O psicólogo jurídico busca o esclarecimento de questões propostas pela


situação de litígio judicial e deve adotar uma atitude de maior afastamento, ser
mais objetivo e procurar manter a neutralidade.

A preocupação mais imediata do psicólogo jurídico é quanto à validade das


informações que recebe. A precisão das informações incorre em questão
fundamental para a qualidade do relatório final.

OCampo (1990, apud Shine, 2010) destaca a necessidade de definir o enquadre


do processo de avaliação, pois permite manter constantes certas variáveis
intervenientes:

 Esclarecimento dos papéis respectivos - natureza e limite da função que cada


parte integrante do contrato desempenha.

 Lugares onde se realizarão as entrevistas.

 Horário e duração do processo - em termos aproximados, tendo o cuidado


de não estabelecer uma duração nem muito curta nem muito longa.

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 Honorários - caso se trate de uma consulta particular ou de uma instituição


paga.

A identificação de quem é o cliente tem importantes ramificações na


determinação de quais serviços são oferecidos, quem deve ter acesso às
informações, quais informações devem ser sigilosas, qual é o produto que se
espera do psicólogo, a quem o psicólogo se reportará e quem irá pagar seus
honorários pelos serviços prestados (Perrin e Sales, 1994 apud Shine, 2010).

Nos contextos jurídicos, alguém pode solicitar os serviços em função do


encaminhamento de um advogado ou do tribunal sem que a natureza do
envolvimento desta terceira parte fique aparente. Por exemplo, uma pessoa
pode solicitar uma avaliação psicológica por sugestão de seu advogado.

O esclarecimento dos papéis do psicólogo-perito e do(s) periciando(s) define o


objetivo da intervenção e delimita quem é ou o que é o objeto desta
intervenção. O enquadre deve levar em conta os seguintes elementos:

 Atitude clínica que consiste em certo grau de dissociação instrumental


para permitir uma identificação com os acontecimentos e certa distância
deles.

 Esclarecimento da função do psicólogo, estabelecendo o tempo do


trabalho, os honorários, condições do trabalho (não aceitar prazos fixos,
exigência de soluções urgentes).

 Esclarecimento dos limites e do caráter de sua tarefa, querendo dizer


com isto que não realizará nenhuma tarefa com grupos da instituição que
não a aceitem. Educar as pessoas de que o tempo que isto custa não é

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perdido, mas investido em esclarecimento e informações (recolhimento de


elementos de observação).

 Esclarecimento sobre a informação dos resultados, bem como a quem


são dirigidos (ao solicitante, em geral, o juiz)

 O que diz respeito a um grupo será tratado apenas com ele (não submeter
relatórios a outros setores da instituição).

 Quanto aos contatos extraprofissionais, limitar ou excluí-los.

 Quanto à relação entre os grupos, manter abstinência em relação a eles


(não tomar partido).

 Quanto ao lugar ou à natureza da atividade profissional do psicólogo, não


assumindo tarefas alheias (dirigir, educar, decidir, executar as decisões) ou
formando superestruturas que desgastem ou se sobreponham com as
autoridades.

 Quanto à dependência em relação ao seu trabalho: não fomentá-la, mas


facilitar sua solução.

 Quanto à postura frente ao grupo (controle da onipotência, insistência na


função de um estudo científico dos problemas, para transmitir-se o
conhecido, num dado momento).

 Quanto ao sucesso do trabalho e à saúde da instituição. Ou seja, não tomar


como índice de avaliação o objetivo da instituição. Não considerar sadio

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uma instituição sem conflitos, mas aquela que possui meios de explicitá-los
e a possibilidade de resolvê-los.

 Quanto ao manejo da informação, cuidando do timing e da gradação. A


ênfase não é em informar, mas de fazer compreender os fatores em jogo
(insight).

 Quanto à resistência: contar sempre com ela. A sua investigação é parte


fundamental da tarefa.

Rovinski (2000) propõem seis aspectos em que a avaliação forense difere do


trabalho do psicólogo na área clínica. São eles:

a) Escopo: Define o objetivo da intervenção, ou seja, remete à pergunta de


para quê são solicitados os serviços do psicólogo.

No enquadre clínico os aspectos primários são o diagnóstico, o funcionamento


da personalidade e o tratamento para a mudança de comportamento.

Na avaliação em enquadre jurídico ou forense, a ênfase dirige-se a eventos


definidos de forma mais estreita ou a interações de natureza não clínica,
sempre relacionados a um foco determinado pelo sistema legal.

Estas discriminações vão nos ajudar a perceber como a tarefa do psicólogo,


que está ligada ao objetivo da instituição judiciária (determinar a guarda), é
diferente do colega em uma situação de atendimento no enquadre clínico.

Por exemplo, no contexto pericial não interessa ter um diagnóstico de


personalidade dos candidatos à guarda e do(s) menor (es) se isto não puder

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ser, de certa forma, ligado à questão legal (necessidade de definição de um


guardião em função das necessidades da criança ou das crianças).

b) Perspectiva do cliente: No enquadre clínico privilegia-se a visão do cliente


sobre o problema que motivou o atendimento. A avaliação forense não se
restringe ao examinando, uma vez que deve responder sobre fatos que
extrapolam sua subjetividade.

A prática de buscar dados adicionais com membros familiares mais


próximos e profissionais de referência da família (médico, professor,
psicoterapeuta, etc.) vai variar dependendo da compreensão do profissional
sobre o seu trabalho.

Os psicólogos que trabalham nas Varas de Família, bem como aqueles que,
mesmo lotados em outros órgãos, recebem demanda do Judiciário para
avaliações ou atendimentos, devem escutar ambas as partes do processo, não
sendo admissível que dispensem a escuta de uma das partes por dispor de
gravações, cartas ou outros recursos que lhes foram encaminhados (CFP,
2010a).

c) Voluntariedade e autonomia: A busca pelo psicodiagnóstico geralmente é


espontânea. A avaliação forense é feita sob demanda do juiz ou do advogado.
Há maior probabilidade de resistência que não é de natureza inconsciente
(Psicanálise). As razões podem ser por temor quanto ao resultado e/ ou
ressentimento pela intromissão em sua vida. O psicólogo será encarado como
um aliado ou um inimigo da "causa".

d) Riscos à validade: Por se tratar de procedimento coercitivo, dentro de um


sistema de ataque e defesa, os clientes são incentivados a distorcer a verdade.

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Esta característica é extensiva também aos terceiros chamados para informar


sobre o cliente (parentes, amigos, profissionais etc.).

e) Dinâmica do relacionamento: No enquadre jurídico, o profissional é visto


de forma mais distanciada, pois ele não é um aliado em busca de um
benefício (tratamento psicoterapêutico). O psicólogo pode até ser percebido
como aliado ou inimigo se ele assumir a defesa da "causa" de um dos lados.

f) Tempo de avaliação: No enquadre clínico o diagnóstico pode ser refeito em


qualquer momento do tratamento. No enquadre jurídico, há pressão da
instituição (prazo processual, limites de recursos etc.) que pode reduzir o tempo
de contato com o cliente. Uma vez fechado o laudo, a possibilidade de
reformulação é mínima.

Mesmo que o laudo seja reformulado, isto não implica automaticamente em


mudança de uma sentença, pois o laudo é apenas uma das provas pelas
quais o juiz irá se guiar para formar seu convencimento (sentença).

Castro (2000 apud Shine, 2010) faz distinções pontuais entre o psicodiagnóstico
clínico e a perícia psicológica. De forma resumida, essas distinções são as
seguintes:

a) Em relação aos objetivos:

O objetivo do psicodiagnóstico infantil é responder a questões que angustiam


os pais. A procura é espontânea. Seguir as sugestões do psicodiagnóstico é
facultativo. Neste caso não há interesse em mentir (simulação ou dissimulação).

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O objetivo do laudo pericial é subsidiar a decisão judicial, provocando


alterações no esquema de vida. No primeiro caso. Neste caso, a mentira é
motivada pela intenção de ganhar a causa.

b) A importância dos dados reais:

No psicodiagnóstico clínico, "o que importa não é a realidade objetiva".

No judiciário, importa não só como houve a introjeção de figuras parentais, mas


se coloca também a questão de como eles são na realidade.

c) Em relação ao alcance social:

O laudo, subsidiando uma sentença judicial, influencia mudanças sociais.


Pode criar jurisprudência e modificar as leis de um país.

d) Técnicas empregadas:

O perito tem liberdade de escolha em relação à linha teórica e às técnicas


projetivas a partir da qual terá uma visão de funcionamento mental e
psicopatologia. Em função da existência de outros peritos e da possibilidade de
polêmica, os testes psicológicos são recomendados como material concreto
ao qual perito e assistentes técnicos podem se reportar.

O Conselho Federal de Psicologia (2010a) recomenda que o uso de testes


psicológicos ou qualquer outra intervenção ocorra quando o profissional
considerar necessário e não com o objetivo único de dar legitimidade ao laudo
ou parecer.

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6.1. Quem solicita os serviços do psicólogo para o processo de


guarda

A análise do enquadre de trabalho permite definir como clientes possíveis do


psicólogo: o advogado, a parte, as partes, o curador de família e o juiz (Shine,
2010).

O ADVOGADO - atuando a pedido do advogado, o psicólogo deverá deixar


claro, no seu relacionamento com a parte, que o que souber a partir da
avaliação poderá ser usado pelo advogado.

Portanto, na perspectiva colocada acima, é possível definir o advogado como o


cliente que demanda os serviços do psicólogo, mesmo que seja a parte-cliente
deste advogado, aquela que será atendida pelo profissional.

O advogado é quem, em última instância, detém o poder de decidir como


utilizar as conclusões psicológicas que o profissional obtiver. Vemos assim que
o papel que o psicólogo desempenhará na arena legal pode ser de um
"consultor especializado" (perito na matéria) de quem o advogado se servirá
para melhor defender a causa de seu cliente.

A PARTE - segundo o Código do Processo Civil, no momento que o juiz aceita


a prova da perícia psicológica, ele deve facultar às partes a indicação de
assistentes técnicos.

O assistente técnico é o perito de confiança da parte. O assistente técnico


psicólogo tem a sua entrada por intermédio do advogado. No entanto, em
muitos casos é a própria parte que procura o psicólogo para efetivar um
contrato de trabalho.

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Shine (2010) alerta para o fato de que, quando a solicitação é feita ao psicólogo
em consultório, habituado ao enquadre clínico, este irá considerar seu cliente a
pessoa que ele avaliou. Ao considerá-lo responsável (paciente/cliente) pelo que
fizer com o relatório que lhe entregar, estará ignorando o destinatário ultimo
deste trabalho (juiz), bem como o contexto (jurídico) em que seu relatório
psicológico será apreciado.

A confusão é reforçada pelo fato de que a demanda jurídica do trabalho do


psicólogo se aproxima da atividade clássica do psicólogo em enquadre clínico
que é o do psicodiagnóstico.

O JUIZ - na maioria dos trabalhos de avaliação psicológica em Vara de Família


(dentre os quais o processo de guarda é um deles) é realizada pelo psicólogo
nomeado perito pelo juiz. Por esta razão é que se refere a este profissional
como o perito oficial ou o perito de confiança do juiz, ou ainda, perito do juízo.
O perito é considerado um auxiliar do juiz e recebe deste tal nomeação.

O juiz tem a autonomia de nomear o perito que ele quiser. Isto equivale a dizer,
no caso brasileiro, que mesmo nos estados onde existem psicólogos
contratados no tribunal, exercendo rotineiramente o serviço de perícia para
Varas de Família, o juiz da causa pode nomear um profissional de fora da
instituição judiciária.

A posição de perito outorga ao profissional a autoridade de convocar


oficialmente a presença de todos que ele ou ela entender necessário avaliar
para a efetivação do trabalho.

Além disso, esta prerrogativa de investigação coloca o profissional sob o manto


da autoridade judiciária para realizar diligências tais como visitas a escola,

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hospitais, etc., bem como entrevistar profissionais que atendam à família em


questão (médicos, professores, psicoterapeutas, psicopedagogos etc.).

Obviamente a decisão de fazer tais diligências está diretamente relacionada a


como o profissional psicólogo perito entenda que sejam necessárias ou não
para o desempenho de sua função.

O CURADOR DE FAMÍLIA - o Curador de Família, pertence ao Ministério


Público, fazendo parte do Poder Executivo, em função eminentemente
fiscalizadora, sendo "órgão de lei e fiscal de sua execução".

Além de fiscalizar o bom andamento processual do rito pertinente, também


influi no direcionamento daquilo que será apreciado, sugerindo provas periciais
específicas, dentre as quais a avaliação psicológica.

Shine (2010) afirma que a sugestão de avaliação psicológica partindo do


membro do Ministério Público é prática comum. Da mesma forma que, ao
indicar a perícia psicológica, o curador também pode oferecer quesitos que são
perguntas que se formulam aos peritos e pelas quais se delimita o campo da
perícia.

Os quesitos são perguntas escritas, relativas aos fatos, objeto da perícia.


Normalmente, quando é o curador quem o faz, o juiz irá nomear o seu perito e
abrir a possibilidade de indicação de assistentes técnicos.

O juiz pode nomear um perito de sua confiança (Alves, 2002; Ortiz, 1986 apud
Shine, 2010) ou encaminhar para instituições jurídicas ou de saúde (centros de
referência em saúde mental) independente do fato de existirem psicólogos
judiciários disponíveis nos quadros dos tribunais.

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Cabe registrar também que, além do advogado (e suas partes) e do juiz, outro
operador do Direito na figura do curador de família pode chamar seu perito
para acompanhar o perito judicial: o assistente técnico da Promotoria.

6.2. Encaminhamento

O caso geralmente se inicia com o encaminhamento feito por alguém (cliente


ou não) para o psicólogo.

Assumindo que se está em contato com um cliente em potencial, alguns


autores, com maior familiaridade no exercício da atividade pericial vindo da
prática privada, alertam que é neste momento que se definem os parâmetros
da avaliação e qual é a questão legal em jogo. Melton (apud Shine, 2010)
sugere que é da responsabilidade do profissional abordar:

- os limites do conhecimento na área;

- as limitações em avaliar o que se pede e de fazer previsões;

- os resultados possíveis;

- a posição do profissional quanto a uma posição conclusiva na questão legal.

Shine (2010) propõe que o esclarecimento das questões acima delineadas


diminuiria em muito o mal-entendimento entre o que se pede que o psicólogo
faça e o que ele faz.

Em sua prática no Fórum João Mendes em São Paulo, Shine (2010) tem
recorrido ao procedimento de fazer o primeiro contato com as partes por meio

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dos advogados. Quando tal contato é realizado quer dizer que o caso já foi
designado para um psicólogo.

Receber bem os advogados, neste contexto, é propiciar uma qualidade melhor


de interação com a própria pessoa que é o seu cliente. Ele ou ela, sentindo que
o seu advogado está a par da situação, normalmente, sente-se reassegurado (a),
o que dá ao perito melhores condições de trabalho dentro de um nível de
ansiedade ótimo (nem muita nem pouca).

6.3. A leitura dos autos do processo

A leitura dos autos é um passo importante para o entendimento da questão


legal em jogo, bem como para apreciar toda a dinâmica processual. Segundo
Castro, a leitura dos autos do processo pelo perito, antes do atendimento dos
envolvidos em uma disputa de guarda, de modo geral, deve ser realizada para
se ter ciência das razões alegadas para a disputa e para identificarem-se alguns
aspectos da dinâmica familiar.

O referido autor busca prestar atenção às manifestações dos operadores do


Direito, procurando discriminar da parte dos advogados qual é a queixa que
subsidia a ação e o que se demanda (no presente estudo, a mudança de
guarda); da parte do curador e do juiz quais são as manifestações em relação a
tais queixas.

Ribeiro (1999 apud Shine, 2010) discrimina como primeiro passo


"recebimento, leitura e resumo dos autos". Concluindo em relação à leitura
dos autos, destaca-se uma finalidade pragmática que não varia muito dentre os
trabalhos: buscam-se subsídios para traçar uma estratégia de avaliação.

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Castro (2000 apud Shine, 2010), por exemplo, refere-se ao estudo do processo
judicial com o objetivo de compreender as razões alegadas, processualmente,
para pleitearem mudanças em relação à guarda ou a visita dos filhos.

Shine (2010), em sua prática, costuma registrar nos próprios laudos que redige,
como parte do método utilizado, o item que nomeia como "leitura crítica dos
autos do processo".

Esta leitura possibilita a ele avaliar o tempo que transcorreu desde o início da
demanda (requerimento inicial) até o momento, além de saber dos dados
factuais dos envolvidos (dados de identificação em geral, nome completo,
idade, estado civil etc.).

Se houve audiência anterior é importante notar se testemunhas foram


chamadas e identificá-las para, caso haja necessidade, chamá-las para
entrevista. Shine (2010) solicita xerocópia de todos os laudos anexados, bem
como dos quesitos endereçados a ele.

Os quesitos normalmente são elaborados pelos advogados, mais raramente


pelos assistentes técnicos, e servem como diretrizes para a investigação.

Tais quesitos devem ser respondidos ao fim das entrevistas, observações e


testagens como conclusão de todo o processo.

6.4. A quem se avalia

Em relação à legislação brasileira, o Código do Processo Civil manda se


aplicarem "os motivos de impedimento e suspeição" dos juízes "ao perito".

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O perito deverá considerar-se impedido quando há o envolvimento de cônjuge,


parente, consanguíneo ou afim, de alguma das partes ou atuando como
advogado de alguma das partes, em linha reta, na colateral, até o terceiro grau.

Será considerado suspeito de parcialidade se for (Artigo 135 do CPC):

 "amigo íntimo ou inimigo capital" de uma das partes;

 "credora ou devedora" do perito ou seu cônjuge ou parentes;

 Herdeiro, donatário ou empregador de alguma das partes;

 Ter tido "relacionamento anterior" através de recebimento de "dádivas",


ter dado "aconselhamento" sobre a causa ou "meios para custeio" do
litígio;

 "interessado no julgamento da causa" em favor de uma das partes.

A Lei Federal 8.455 de 24/08/92 modifica o Artigo n.° 421 do Código de


Processo Civil, retirando os motivos de impedimento e suspeição do assistente
técnico (Pinto & Shine, 1993 apud Shine, 2010), por ser pessoa geralmente da
estreita confiança de um dos litigantes.

Conforme normatizado pela Resolução CFP n° 008/2010:

Art. 10 - Com intuito de preservar o direito à intimidade e


equidade de condições, é vedado ao psicólogo que esteja
atuando como psicoterapeuta das partes envolvidas em
um litígio:

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- Atuar como perito ou assistente técnico de pessoas atendidas por ele e/ou de
terceiros envolvidos na mesma situação litigiosa;

- Produzir documentos advindos do processo psicoterápico com a finalidade de


fornecer informações à instância judicial acerca das pessoas atendidas, sem o
consentimento formal destas últimas, à exceção de Declarações, conforme a
Resolução CFP n° 07/2003.

O Código de Ética Profissional do Psicólogo estabelece em seu art. 2° a


seguinte vedação:

k) Ser perito, avaliador ou parecerista em situações nas


quais seus vínculos pessoais ou profissionais, atuais ou
anteriores, possam afetar a qualidade do trabalho a ser
realizado ou a fidelidade aos resultados da avaliação.

6.4.1. A quem se avalia: a uma das partes

A pessoa representada nos autos que pleiteia a guarda, ou se opõe a tal


pretensão de outrem, leva a designação de "parte". Designar-se-á Requerente
se for o autor da demanda, consequentemente do processo judicial, ou então,
Requerido (a) ao se opor à dita demanda.

Glassman (1998 apud Shine, 2010) sugere evitar avaliações unilaterais (somente
de uma das partes), exceção feita em casos que se suspeita que haja crianças
em situação de risco.

Além disso, o supracitado autor alerta para o fato de que os profissionais que
dão recomendações embasadas em apenas um dos lados correm o risco de

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prejudicar sua reputação e não serem considerados para futuras nomeações


pelo tribunal.

O cenário mais comum é do próprio interessado, geralmente mãe ou pai,


solicitar tal avaliação para um psicólogo em clínica particular a pedido do
advogado.

Pela falta de informação, o profissional da área clínica não tem noção de que
está adentrando, num contexto complexo, a área jurídica, por meio de seu
trabalho.

O cenário mais comum é do próprio interessado, geralmente mãe ou pai,


solicitar tal avaliação para um psicólogo em clínica particular a pedido do
advogado.

Pela falta de informação, o profissional da área clínica não tem noção de que
está adentrando, num contexto complexo, a área jurídica, por meio de seu
trabalho.

6.4.2. A quem se avalia: a ambas das partes

Berry (1989 apud Shine, 2010) sugere que o profissional de saúde mental
envolvido em disputa de guarda deve se esforçar para avaliar todas as partes
envolvidas.

Em geral, apenas o perito, nomeado pelo juiz, tem a possibilidade de avaliar


todos os membros da família em situação de imparcialidade. No cenário
brasileiro só é encontrada referência a esta modalidade quando o juiz chama o
profissional de confiança, outorgando- lhe tal incumbência.

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A preferência pelo trabalho imparcial é uma postura defendida mesmo por


aqueles que podem atuar como assistentes técnicos. Segundo Shine (2010)
mais do que defendida, esta é uma posição ativamente proposta e procurada
por diversos autores.

Byrne (1991) indica que para tal arranjo é necessário que ambos os advogados
concordem e convençam seus respectivos clientes que ter um profissional em
posição imparcial é desejável. O referido autor sugere o estabelecimento de um
contrato escrito com as partes, discriminando os papéis e obrigações de cada
parte e do profissional.

Nesta posição, o profissional está autorizado a exigir total cooperação de todas


as partes e tem acesso a todos, fazendo o possível para que cada parte tenha
tido toda a oportunidade de se expressar, sentindo-se tratada com equidade.

O autor sugere ainda que este profissional, por ser de confiança de ambas as
partes, tem chances de efetivamente ter suas recomendações seguidas por
todos.

Quando tal iniciativa, apesar de todos os esforços, falhar, o profissional deveria


enfatizar o caráter parcial e incompleto de seu estudo e, por conseguinte, a
dificuldade de se fazer qualquer recomendação conclusiva em relação à guarda.

Qualquer que seja a decisão de guarda, o profissional deve ter em mente a


continuidade do relacionamento da criança com ambos os pais, levando isto
em consideração em qualquer recomendação ou sugestão que fizer.

Miranda Jr. (2000 apud Shine, 2010) entende que o conflito é originário da
própria separação conjugal. Neste contexto, a abordagem da avaliação

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psicológica pode privilegiar o casal parental quando se pensa que é algo da


relação dos adultos que origina o litígio processual.

Corrêa e Machado (2000 apud Shine, 2010), a partir das propostas de Bleger
(1984 apud Shine, 2010) e Winnicott (1987 apud Shine, 2010) entendem a ação
judicial como um "pedido de socorro", "um gesto" com características pré-
simbólicas que aponta para a impossibilidade de solução do conflito. As autoras
situam a problemática na questão do narcisismo com defesas contra ansiedades
depressivas associadas à dependência e à culpa.

À medida que ambos os adultos litigantes são contemplados pela avaliação do


psicólogo, vai havendo uma mudança do discurso que sustenta suas práticas.
Ao serem confrontados com os interesses, necessidades e demandas dos
adultos, os profissionais parecem se deslocar dos interesses parciais dos adultos
e priorizar as necessidades das crianças.

6.4.3. A quem se avalia: a (s) criança (s)

No discurso dos pais, a criança, invariavelmente, é colocada como a principal


beneficiária de seus esforços ("Estou fazendo isto pelos meus filhos"). O mesmo
ocorre com o próprio discurso da instituição judiciária que tem por lema
resguardar o "melhor interesse da criança".

Shine (2010) defende que, se entendemos o cliente como o demandante dos


serviços psicológicos, neste caso, o cliente é o juiz do caso que determina a
avaliação psicológica e concede a entrada da atuação do psicólogo pela porta
da perícia. A criança, nessa perspectiva, poderia ser encarada como o objeto de
atenção privilegiado, mas não ela própria a cliente do psicólogo no sentido
daquele que demanda seus serviços.

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Alves (2002 apud Shine, 2010) deixa claro em seu método de trabalho que o
juiz é o seu cliente, sendo este foco de atenção inicial. Nas palavras da autora:

"Determinada a perícia psicológica judicial e nomeado o


psicólogo que a realizará, dá-se início às entrevistas
periciais. De acordo com a prática desta autora, antes das
entrevistas com as pessoas da família, o perito busca saber
quais são as motivações do juiz na solicitação da perícia;
quais as suas impressões colhidas nas audiências com as
partes e, principalmente, o quê do discurso familiar lhe
impressiona ou causa estranheza, dificultando-lhe o
entendimento do conflito. Esses dados referem-se às
condições particulares da transferência que a família
estabelece com o juiz (referimo-nos aqui ao conceito
psicanalítico de transferência), tendo que recorrer à
perícia"

6.4.4. A quem se avalia: a família

Existem profissionais que não fazem uma distinção da criança, ou se o fazem no


sentido de beneficiários primários de sua ação, elegem a família como o grupo
a ser periciado.

Dentro do enfoque sistêmico, Silva, Vasconcelos e Magalhães (2001 apud Shine


2010) entendem que o objeto do trabalho passa a ser a família que é mais um,
entre outros sistemas. O indivíduo passa a ser considerado sempre em relação
ao todo que é a família. O primeiro, como parte do todo, influencia a família e
esta, por sua vez, o indivíduo.

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O problema pode ser familiar, ou originário da relação conjugal; no entanto, a


intervenção sobre a relação (entrevista conjunta) é pouco escolhida para avaliar
ou intervir nesta problemática.

O tempo de interação com os membros da família segue uma tendência


dominante de um maior contato com os adultos do que com as crianças.

6.5. Especificidades do enquadre jurídico que afetam o relacionamento


parte-criança-família com o psicólogo forense

A avaliação psicológica é solicitada pelo pedido de terceiros (advogados ou


juiz), configurando um relacionamento profissional com características distintas
do rapport no atendimento psicoterapêutico.

Existe um componente de "desconfiança" presente na relação, que é estimulada


pelo próprio contexto jurídico (Alves, 2002; Castro, 2000; Clulow; Vincent, 1987;
Melton et al. apud Rovinski, 2000).

Em função da dinâmica de ataque e defesa do contexto jurídico em que as


pessoas são avaliadas, elas são incentivadas a distorcer a verdade.

Na situação de perícia psicológica, torna-se necessário o estabelecimento de


um contrato, no qual os níveis de confidencialidade sejam esclarecidos e que
seja assinado um consentimento informado, estando o periciando ciente de que
as informações prestadas poderão ser incluídas no relatório que subsidiará o
laudo.

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Ciente das condições legais de uma perícia, o periciado estará livre para decidir
sobre quais informações prestará ao psicólogo e o profissional poderá manter a
imparcialidade diante dos dados obtidos, sem receio em incorrer em falta ética
(Rovinski, 2007).

Quando a pessoa atendida for criança, adolescente ou interdito, o


consentimento formal deve ser dado, pelo menos, por um dos responsáveis
legais (Resolução CFP n° 008/2010).

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TÉCNICAS E INSTRUMENTOS DE INTERVENÇÃO DO PSICÓLOGO NO CONTEXTO JURÍDICO

7. TÉCNICAS E INSTRUMENTOS DE INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA NO


CONTEXTO JURÍDICO

7.1. A entrevista

A entrevista psicológica é a técnica por excelência à qual se associa o


trabalho do psicólogo. A entrevista pericial opõe perito e periciando.

As combinatórias podem variar (dois peritos e um periciando, um perito e


dois periciandos, etc.), mas a natureza da tarefa pericial condiciona e
limita, mas também favorece o surgimento da questão psicológica que
tem uma interface com a questão legal. Procura-se abordar esta matéria
interligada entre psíquico (privado) com o legal (público) no fogo cruzado
entre adultos e crianças.

O local da realização vai depender da natureza do vínculo do profissional.


Se o profissional é o perito independente, a avaliação será realizada em
seu local de trabalho (clínica privada, com direito à "aquário"), se
funcionário de instituições, nos recintos reservados nestes locais (com as
limitações próprias de instalações públicas).

No ENFOQUE EM EQUIPE - Trabalha-se com uma família em litígio


avaliando, no mínimo, três pessoas (requerente, requerido e objeto da
disputa). Abordar a família em um momento conflitivo, no qual se disputa
o próprio filho, pode ser uma tarefa desgastante. Pensando nisto existem
modalidades de entrevista que contemplam a possibilidade de mais de
um entrevistador por família.

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Jackson et al. (1980 apud Shine, 2010) e Volgy e Everett (1983 apud Shine,
2010) que sugerem avaliações em equipe, nas quais os pais e as crianças
tivessem diferentes avaliadores.

Em uma equipe multidisciplinar (psiquiatra, psicólogo clínico, assistente social


psiquiátrica, pediatra e outros profissionais participam do processo) o
profissional que estiver atendendo a criança não se sente sobrecarregado com
as necessidades dos pais.

ENFOQUE INDIVIDUAL - a entrevista psicológica ocorre em situação bipessoal,


isto é, perito e periciando. É o procedimento técnico mais utilizado em
avaliação psicológica de guarda.

Shine (2010) afirma que em sua prática tem se utilizado da entrevista conjunta
com pais com certa regularidade, estabelecendo este momento somente após
um contato individual com cada um e de ter se avistado com a(s) criança(s) em
disputa.

O autor propõe apresentar como objetivo conversar sobre tópicos de interesse


comum - normalmente, uma questão prática (como a escolha de uma escola,
período de férias, preocupação com estado de saúde da criança) que aparece
nas entrevistas e serve de tema.

Shine (2010) não coloca a entrevista conjunta como uma opção dos pais, mas
uma exigência para o objetivo da própria perícia (avaliar a relação do casal
parental tendo em vista um interesse comum em relação à criança).

O mesmo autor destaca ainda que não se propõe a "resolver" a pendência, mas
a acompanhar e assinalar as dificuldades em se chegar a um resultado

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satisfatório ligando com a questão mais ampla da guarda. Isto tem lhe dado
elementos de como o casal funciona enquanto tal e como me insere "no meio
do problema" deles.

Em uma família de pai, mãe e um filho, Shine (2010) costuma propor a avaliação
em cinco encontros: dois são individuais com cada um, o terceiro em conjunto
(pai-mãe, pai-filho, mãe-filho) e o último com todos.

Quando há mais de uma criança, o autor inicia com um encontro em conjunto


com todos os irmãos e faz um contato individual, posteriormente.

Só então ocorre a aplicação de testes, caso considere necessário. Dependendo


dos casos, Shine (2010) consegue chegar até a entrevista familiar, em outros, o
trabalho termina antes (questão do prazo processual, grandes resistências, etc.).

Conforme recomendado pelo Conselho Federal de Psicologia (2010a), não é


aconselhável que se fixe, a priori, número máximo de atendimentos para cada
caso, mesmo que a equipe esteja sobrecarregada. Estes devem ocorrer de
acordo com a necessidade e com a dinâmica de cada situação.

A OBSERVAÇÃO LÚDICA COM CRIANÇA - Felipe (1997 apud Shine, 2010)


propõe a realização de entrevistas semidirigidas em enfoque psicanalítico com
as crianças, procurando esclarecer os objetivos do trabalho, colocado em linhas
gerais como o de entender melhor o que se passava com sua família para
tentar ajudá-la. Ao deixar a criança livre para se expressar, procura-se ao longo
da entrevista abordar:

 Os seus sentimentos diante daquela situação;

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 O seu relacionamento com ambos os pais;

 O relacionamento da criança com outras figuras significativas da família, ou


mesmo do ambiente;

 Aspectos relacionados à sua rotina de vida;

 Interesses, preocupações;

 Outros aspectos específicos referentes ao caso, ou trazidos pela criança.

Alves (2002 apud Shine, 2010), recomenda de quatro a cinco entrevistas, em


média, com cada componente da família, incluindo aí a criança. Como seu
referencial é a psicanálise, ela designa o contato com a criança também como
de observação de atividades lúdicas.

Muitos profissionais sugerem realizar observações conjuntas da interação da


criança com os pais. Turkat (1993 apud Shine, 2010) sugere gravar em vídeo as
interações dos pais com crianças para serem analisadas a posteriori com a ajuda
de outros colegas. Ele oferece tarefas para serem realizadas durante tais
observações, tais como jogar um jogo, resolver um problema ou ensinar à
criança algo novo.

São observações estruturadas que se opõem às observações lúdicas mais livres


dos demais autores aos quais nos referimos. Os profissionais que partem da
concepção de avaliar competências parentais mais adequadas aos filhos utilizam-
se desta técnica.

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CONTATOS COLATERAIS - entende-se como contatos estendidos para além do


círculo familiar, sendo utilizados como forma de ampliar o conhecimento da
situação que se avalia.

Estabelece-se uma distinção entre o contato com a família e o contato com


amigos e parentes, como para designar que os examinandos são uns e os
outros servem como subsidiários.

Os parentes que são chamados são considerados parte integrante da família,


tais como avós e tios das crianças. Eles são entrevistados nas mesmas condições
que os demais membros da família.

Felipe (1997) cita tal prática em seu trabalho, incluindo, além dos parentes e
"outras pessoas encarregadas do cuidado às crianças" (empregadas domésticas
e babás podem ser incluídas), os companheiros atuais dos pais e professores.

É preciso estar atento, pois quando pessoas do círculo social ou familiar mais
amplo (em oposição à família nuclear) fornecem dados sobre os examinandos,
eles estão sob o mesmo tipo de pressão a atuarem de acordo com a lógica
judicial.

Neste sentido, como bem lembra Melton et al. (apud Rovinski, 2000), as pessoas
podem distorcer aquilo que viram e sabem. E mesmo que isto não ocorra, deve-
se tomar cuidado para o peso que se dá a dados que são de "segunda mão".

DILIGÊNCIAS - A execução de certos serviços judiciais fora dos respectivos


tribunais ou cartórios tem esta designação. Ela é utilizada aqui para se referir
aos momentos em que o profissional se desloca de seu local usual em que
realiza a avaliação psicológica.

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As diligências mais comuns são realizadas à escola da criança em questão e ao


domicílio das partes, mas podem ser feitas aos consultórios de psiquiatras,
psicoterapeutas, psicopedagogos, enfim, profissionais ou instituições que têm
contato com a criança e seus responsáveis. O objetivo de tais diligências é
ampliar o conhecimento que se tem de uma devida situação.

A atitude mais recomendável do profissional assistente técnico seria entrar em


contato com o perito e definir as estratégias que pensa usar para eliminar
possíveis sobreposições.

A informação que o perito levantar pode ser colocada à disposição dos


assistentes técnicos para discussão de sua correta interpretação. Se a
informação vier de um dos assistentes técnicos, o viés da imparcialidade já está
dado desde o início.

A necessidade de ampliar o escopo da avaliação a partir de contatos colaterais


é referido por muitos autores. Parte da avaliação se dá diretamente "no campo",
discriminando- se a escola e o domicílio residencial com locais proeminentes,
constituindo-se em fase complementar ao tripé clássico da avaliação
psicológica (entrevista, observação e testes).

Em função a objetividade judicial, aumenta-se o campo investigativo


(diligências e contatos colaterais), como também se procura "checar" as
informações colhidas. Alguns autores propõem técnicas como a coavaliação e a
avaliação em equipe como forma de resposta a estas demandas.

Segundo Shine (2010), o número de contatos dos profissionais com os


membros da família varia muito (de uma a 30 horas). Considerando o número
de cinco entrevistas por pessoa, em uma família de três, isto representará 15
horas (considerando uma hora de entrevista) sem levar em conta o tempo gasto

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com outros contatos, diligências, correção e análise de testes, redação do laudo


e participação na audiência.

Os contatos parecem ser pensados numa frequência semanal. Assim, em termos


de duração, há dados que falam de um a dois meses (Felipe, 1997 apud Shine,
2010), como de até seis meses (Clulow & Vincent, 1987 apud Shine, 2010).

Mesmo que inicialmente haja dificuldade para localizar a pessoa ou conseguir


que esta compareça para atendimento, deve-se buscar meios para que se
possam entrevistar as partes, exceção feita – como explicado acima – quando se
exerce função de assistente técnico ou nos casos de avaliação por carta
precatória (CFP, 2010a).

7.2. Uso de testes psicológicos

Castro (2000 apud Shine, 2010) justifica a importância dos testes psicológicos
no contexto jurídico em comparação com o clínico nestes termos:

 É um material concreto ao qual vários psicólogos envolvidos (peritos e


assistentes técnicos) podem reportar-se dentro de uma polêmica;

 Certamente a entrevista psicológica é de grande valia - inclusive no tribunal


- mas como os periciados, como dissemos antes, podem mentir e ocultar
deliberadamente, nos testes eles ficam mais desorientados acerca do certo
e do errado do que dizer- principalmente no Rorschach - e deixam aflorar
um material que desejariam não comunicar.

Cuidados técnicos na utilização de testes psicológicos em avaliação de guarda:

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1. Os profissionais de saúde mental e os operadores do direito devem


entender que os testes psicológicos devem ser usados em conjunto com
outras técnicas de avaliação e coleta de dados, tais como entrevistas e
observações. Ressalta-se a importância da atuação do profissional
psicólogo no sentido de educar a população forense em geral sobre os
limites e a abrangência do instrumento técnico.

2. As indicações dos testes devem ser consideradas como hipóteses


diagnósticas sujeitas à validação por meio de procedimentos alternativos
(Brodzinsky, 1993; Stahl, 1999 apud Shine, 2010).

3. Os psicólogos devem observar atentamente os limites quanto à


extrapolação de conclusões dos testes em relação às questões específicas
do enquadre jurídico. Conforme Dyer (apud Shine, 2010), as avaliações
psicológicas para guarda são realizadas para assistir ao tribunal na
determinação das potencialidades e das dificuldades de cada pai. Cair na
tentação de tomar decisões ou fazer recomendações simplesmente com
base neles é, no mínimo, inapropriado, se não eticamente condenável.

Brodzinsky (1993) agrupa os testes psicológicos utilizados em avaliação


psicológica de guarda em quatro grupos:

 Medidas de inteligência

 Medidas do funcionamento acadêmico que dão dados sobre áreas


relacionadas com a escola (leitura, soletração, matemática, etc.)

 Medidas de personalidade: que podem ser objetivas ou projetivas

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 Medidas de atitudes e comportamento: são os questionários que enfocam o


comportamento da criança, a natureza do relacionamento adulto-criança e
as características do estilo de paternagem/maternagem

Shine (2010) propõe a realização de uma reunião prévia com os assistentes


técnicos a fim de tentar chegar a um consenso: caso haja necessidade de testes
em crianças, a aplicação ficaria por conta do perito, este devendo
comprometer-se a fornecer o protocolo com os dados brutos para as
interpretações e análises que os assistentes técnicos acharem pertinentes.

O argumento do autor é de que a aplicação feita por si tem a vantagem de


eliminar a possibilidade de enviesar os dados em função da predisposição
negativa ou positiva da criança com o profissional associado a um lado ou
outro (pai/mãe).

Neste sentido, o perito atua numa posição de imparcialidade que é diferente


dos colegas contratados pelos genitores. Tal imparcialidade é dada,
exatamente, pelo lugar que ocupa dentro do enquadre jurídico, como detentor
da outorga do juiz para a realização da avaliação.

Shine (2010) sinaliza que a maioria dos psicólogos não tem a formação
adequada para conduzir avaliações forenses, incluindo avaliação psicológica
para determinação da guarda e visita. Como resultado, eles falham em
distinguir o papel de um psicólogo jurídico com o de um psicólogo clínico.

Portanto, os psicólogos tendem a adotar os procedimentos que lhes são mais


familiares - aqueles que fizeram parte de sua formação na graduação e que
fazem parte de sua prática clínica diária (Samper, 1995 apud Shine, 2010).

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Segundo Shine (2010), em muitos casos, este padrão resulta em uma testagem
indiscriminada e sem sentido. Isto leva frequentemente a que o profissional
opine em matéria legal baseado em dados de testes irrelevantes (Melton et al.
apud Shine, 2010).

Portanto, a má utilização do teste é resultado de uma má compreensão do


próprio papel do psicólogo na arena jurídica, o que faz com que sua estratégia
de investigação não se a de que à demanda do solicitante.

Grisso (apud Rovinski, 1998) desenvolveu um modelo conceitual que permite


desenhar o escopo da avaliação psicológica contemplando as questões legais
em jogo, decompondo a competência legal em seis características comuns:

 Aspecto funcional - ter uma habilidade, comportamento ou capacidade. Ela


se relaciona com o diagnóstico psiquiátrico e psicológico, pois estes
abordam condições psíquicas que são constructos hipotéticos que, presume-
se, influenciam este funcionamento.

Portanto, a objetividade na avaliação deve centrar-se sobre uma habilidade


funcional específica ao invés de uma medida geral de traço de personalidade;

 Característica contextual - refere-se ao ambiente geral, às situações


externas, frente às quais a pessoa deve responder. Diferentes contextos e
papéis pressupõem habilidades funcionais diferentes.

 Inferências causais - para explicar uma habilidade funcional ou déficit


relacionado à competência, requer que se apure a causa e a consequência
desse déficit. Pergunta-se sobre o controle que a pessoa tem sobre tal
déficit, no sentido de mudança quanto a esta habilidade funcional.

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 Interação pessoa/contexto - aferir se a habilidade pessoal fará frente a


demandas especificas das situações que se colocaram ou colocarão. A
questão é da congruência o incongruência entre o nível de habilidade
funcional e o grau de desempenho exigido por uma situação específica do
contexto. Este ponto implica na tarefa do examinador coletar informações
sobre o ambiente ou contexto social específico no qual se espera que o
examinando atuará.

 Julgamento - é a função de avaliar o quanto de incongruência nestes


aspectos levará ao status de incompetência. Essa avaliação requer um exame
moral e legal, pois recorrer-se-ia a precedentes legais e de uma interpretação
das normas desenvolvidas pela sociedade. E competência do juiz.

 Dispositivo - uma vez determinado um status legal de incompetência, gera


no Estado a autoridade de agir sobre o indivíduo. Na maioria dos casos
corresponderá à privação de direitos. É competência do judiciário e do
executivo.

7.3. A redação do laudo e dos quesitos

O laudo é a peça mais importante da perícia do ponto de vista processual. É o


documento produzido ao término da avaliação que consubstanciará as
conclusões a que o perito chegou.

Por se tratar de uma prova, ele traz em si a obrigatoriedade, conferida pelo


lugar que ocupa no contexto jurídico, de ser inteligível, autoexplicativo e
convincente.

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Uma menção especial deve ser feita em relação aos quesitos, que são
perguntas escritas e articuladas relativas aos fatos a serem periciados.

Eles podem aparecer em dois momentos:

 Logo no início, quando o juiz nomeia o perito (Art. n.° 421), as partes têm
cinco dias a partir da intimação do despacho para indicar o assistente técnico
e apresentar quesitos;

 Após a entrega do laudo, como perguntas que objetivam esclarecer dúvidas.

É justamente nos quesitos que se encontra a questão legal em jogo.

7.3.1. Normas para a redação de laudos e pareceres

Os documentos produzidos por psicólogos que atuam na Justiça devem manter


o rigor técnico e ético. Em seu relatório, o psicólogo perito apresentará
indicativos pertinentes à sua investigação os quais possam diretamente
subsidiar o juiz na solicitação realizada, reconhecendo os limites legais de sua
atuação profissional, sem adentrar nas decisões que são exclusivas das
atribuições dos magistrados (Resolução CFP n° 008/2010).

Art. 7° - Em seu relatório, o psicólogo perito apresentará


indicativos pertinentes à sua investigação que possam
diretamente subsidiar o Juiz na solicitação realizada,
reconhecendo os limites legais de sua atuação
profissional, sem adentrar nas decisões, que são exclusivas
às atribuições dos magistrados (Resolução CFP n°
008/2010).

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No caso do laudo pericial, devem ser incluídos apenas os dados relevantes para
a matéria legal, e a entrega dos resultados deverá ser feita a quem solicitou a
avaliação, cabendo ao juiz informar ao periciando sobre os resultados durante a
audiência (Rovinski, 2007).

Castro (2003) ressalta que, nos casos de disputa de guarda, o laudo psicológico
elaborado pelo perito deve abordar explicitamente questões tais como quem
deve permanecer com a guarda dos filhos, evidências de abuso, e outras, para
que o juiz possa apreciar as consequências psicológicas das várias medidas
possíveis.

Art. 8° - O assistente técnico, profissional capacitado para


questionar tecnicamente a análise e as conclusões
realizadas pelo psicólogo perito, restringirá sua análise ao
estudo psicológico resultante da perícia, elaborando
quesitos que venham a esclarecer pontos não
contemplados ou contraditórios, identificados a partir de
criteriosa análise (Resolução CFP n° 008/2010).

No caso do laudo pericial, devem ser incluídos apenas os dados relevantes


para a matéria legal, e a entrega dos resultados deverá ser feita a quem
solicitou a avaliação, cabendo ao juiz informar ao periciando sobre os
resultados durante a audiência (Rovinski, 2007).

O parecer crítico do assistente técnico deve manter seu foco sempre sobre a
técnica utilizada na realização do laudo. Caso sejam constatadas faltas éticas, a
queixa formal deve ser dirigida ao foro dos Conselhos Regionais de Psicologia
(Rovinski, 2007).

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Atenção! Ao Perito cabe a elaboração de um laudo/relatório, enquanto ao


Assistente Técnico cabe a produção de um parecer!!!

Conceito e finalidade do relatório ou laudo psicológico (PERITO!!!)

O relatório ou laudo psicológico é uma apresentação descritiva acerca de


situações e/ou condições psicológicas e suas determinações históricas, sociais,
políticas e culturais, pesquisadas no processo de avaliação psicológica.

Como todo DOCUMENTO, deve ser subsidiado em dados colhidos e analisados


à luz de um instrumental técnico (entrevistas, dinâmicas, testes psicológicos,
observação, exame psíquico, intervenção verbal), consubstanciado em
referencial técnico-filosófico e científico adotado pelo psicólogo.

A finalidade do relatório psicológico será a de apresentar os procedimentos e


conclusões gerados pelo processo da avaliação psicológica, relatando sobre o
encaminhamento, as intervenções, o diagnóstico, o prognóstico e evolução do
caso, orientação e sugestão de projeto terapêutico, bem como, caso necessário,
solicitação de acompanhamento psicológico, limitando-se a fornecer somente
as informações necessárias relacionadas à demanda, solicitação ou petição.

Estrutura do laudo ou relatório

O RELATÓRIO ou LAUDO psicológico é uma peça de natureza e valor


científicos, devendo conter narrativa detalhada e didática, com clareza, precisão
e harmonia, tornando-se acessível e compreensível ao destinatário. Os termos
técnicos devem, portanto, estar acompanhados das explicações e/ou
conceituação retiradas dos fundamentos teórico-filosóficos que os sustentam.

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O relatório psicológico deve conter, no mínimo, 5 (cinco) itens:

1. Identificação - É a parte superior do primeiro tópico do documento com


a finalidade de identificar:

 O autor/relator - quem elabora;

 O interessado - quem solicita;

 O assunto/finalidade - qual a razão/finalidade

No identificador AUTOR/RELATOR, deverá ser colocado o(s) nome(s) do(s)


psicólogo(s) que realizará(ão) a avaliação, com a(s) respectiva(s) inscrição(ões)
no Conselho Regional.

No identificador INTERESSADO, o psicólogo indicará o nome do autor do


pedido (se a solicitação foi do juiz, advogado ou a própria parte).

No identificador ASSUNTO, o psicólogo indicará a razão, o motivo do pedido.

2. Descrição da demanda - Esta parte é destinada à narração das


informações referentes à problemática apresentada e dos motivos, razões
e expectativas que produziram o pedido do documento. Nesta parte,
deve-se apresentar a análise que se faz da demanda de forma a justificar
o procedimento adotado.

3. Procedimento - A descrição do procedimento apresentará os recursos e


instrumentos técnicos utilizados para coletar as informações (número de
encontros, pessoas ouvidas etc) à luz do referencial teórico-filosófico que

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os embasa. O procedimento adotado deve ser pertinente para avaliar a


complexidade do que está sendo demandado.

4. Análise - É a parte do documento na qual o psicólogo faz uma exposição


descritiva de forma metódica, objetiva e fiel dos dados colhidos e das
situações vividas relacionados à demanda em sua complexidade.

Como apresentado nos princípios técnicos, "O processo de avaliação


psicológica deve considerar que os objetos deste procedimento (as questões
de ordem psicológica) têm determinações históricas, sociais, econômicas e
políticas, sendo as mesmas elementos constitutivos no processo de
subjetivação. O DOCUMENTO, portanto, deve considerar a natureza dinâmica,
não definitiva e não cristalizada do seu objeto de estudo".

Nessa exposição, deve-se respeitar a fundamentação teórica que sustenta o


instrumental técnico utilizado, bem como princípios éticos e as questões
relativas ao sigilo das informações. Somente deve ser relatado o que for
necessário para o esclarecimento do encaminhamento, como disposto no
Código de Ética Profissional do Psicólogo.

O psicólogo, ainda nesta parte, não deve fazer afirmações sem sustentação em
fatos e/ou teorias, devendo ter linguagem precisa, especialmente quando se
referir aos dados de natureza subjetiva, expressando-se de maneira clara e
exata.

5. Conclusão - Na conclusão do documento, o psicólogo vai expor o


resultado e/ou considerações a respeito de sua investigação a partir das
referências que subsidiaram o trabalho. As considerações geradas pelo
processo de avaliação psicológica devem transmitir ao solicitante a análise

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da demanda em sua complexidade e do processo de avaliação psicológica


como um todo.

Vale ressaltar a importância de sugestões e projetos de trabalho que


contemplem a complexidade das variáveis envolvidas durante todo o processo.

Após a narração conclusiva, o documento é encerrado, com indicação do local,


data de emissão, assinatura do psicólogo e o seu número de inscrição no CRP.

Conceito e finalidade do parecer (ASSISTENTE TÉCNICO!!!)

PARECER é um documento fundamentado e resumido sobre uma questão focal


do campo psicológico cujo resultado pode ser indicativo ou conclusivo.

O parecer tem como finalidade apresentar resposta esclarecedora, no campo do


conhecimento psicológico, através de uma avaliação especializada, de uma
"questão- problema", visando a dirimir dúvidas que estão interferindo na
decisão, sendo, portanto, uma resposta a uma consulta, que exige de quem
responde competência no assunto.

Estrutura

O psicólogo parecerista deve fazer a análise do problema apresentado,


destacando os aspectos relevantes e opinar a respeito, considerando os
quesitos apontados e com fundamento em referencial teórico-científico.

Havendo quesitos, o psicólogo deve respondê-los de forma sintética e


convincente, não deixando nenhum quesito sem resposta. Quando não houver
dados para a resposta ou quando o psicólogo não puder ser categórico, deve-

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se utilizar a expressão "sem elementos de convicção". Se o quesito estiver mal


formulado, pode-se afirmar "prejudicado", "sem elementos" ou "aguarda
evolução".

O parecer é composto de 4 (quatro) itens:

1. Identificação - Consiste em identificar o nome do parecerista e sua


titulação, o nome do autor da solicitação e sua titulação.

2. Exposição de Motivos - Destina-se à transcrição do objetivo da consulta


e dos quesitos ou à apresentação das dúvidas levantadas pelo solicitante.
Deve-se apresentar a questão em tese, não sendo necessária, portanto, a
descrição detalhada dos procedimentos, como os dados colhidos ou o
nome dos envolvidos.

3. Análise - A discussão do PARECER PSICOLÓGICO se constitui na análise


minuciosa da questão explanada e argumentada com base nos
fundamentos necessários existentes, seja na ética, na técnica ou no corpo
conceitual da ciência psicológica. Nesta parte, deve respeitar as normas de
referências de trabalhos científicos para suas citações e informações.

4. Conclusão - Na parte final, o psicólogo apresentará seu posicionamento,


respondendo à questão levantada. Em seguida, informa o local e data em
que foi elaborado e assina o documento.

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7.4. A participação na audiência

No Brasil, segundo Shine (2010) a participação do psicólogo na audiência é rara.


Em geral, ela pode ocorrer num momento inicial do processo, quando o juiz, ao
realizar a audiência de conciliação, percebe alguma questão a respeito da qual
gostaria de um parecer do psicólogo no ato.

Nesta situação, o juiz pede ao psicólogo que estiver disponível (para isto deve
haver sempre um profissional em plantão) que compareça à audiência,
momento no qual lhe é colocada a situação.

Segundo Shine (2010), muitas vezes a única manifestação possível é sugerir a


realização de uma perícia, oportunidade em que se faz o agendamento das
pessoas, criando um tempo de estudo e avaliação da situação, antes de uma
manifestação.

Frente a poucos dados é sempre melhor se manifestar cautelosamente. A


tensão gerada pela pergunta "no ar" em uma situação na qual a decisão "está
em suspenso", à espera da palavra técnica, pode ser muito forte.

É importante não dissolver a tensão, simplificando uma pergunta que pode


envolver aspectos complexos e desconhecidos por meio de uma resposta banal.
Shine (2010) considera que os psicólogos devem mobilizar a motivação das
pessoas para que queiram ir à perícia psicológica nos "convencer de suas
verdades".

Enquanto a resposta do psicólogo também está "no ar", existe a esperança e o


desejo das partes em atrair o psicólogo para o seu lado. No contexto jurídico, o

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psicólogo tem de contar com esta predisposição como também


instrumentalizá-la a favor de seu trabalho.

O juiz pode estabelecer uma estratégia de condução da audiência e, por


alguma razão, querer que o psicólogo esteja presente. A participação na
audiência pode ser feita ainda ao final, após a entrega do laudo, quando há a
solicitação de uma das partes ou do próprio juiz para que o psicólogo esteja
disponível.

Conforme previsto no Art. 435 do Código do Processo Civil, quando houver


dúvidas ou questionamentos, a parte que desejar esclarecimentos do perito e
do assistente técnico poderá requerer ao juiz que mande intimá-lo a
comparecer à audiência, formulando desde logo as perguntas, sob forma de
quesitos.

"O perito e o assistente técnico só estarão obrigados


a prestar os esclarecimentos a que se refere este
artigo, quando intimados 5 (cinco) dias antes da
audiência".

Nesta ocasião podem ocorrer perguntas orais elucidativas em função das


respostas dadas aos quesitos escritos de esclarecimento.

Ao discutir a participação do perito e sua avaliação no contexto forense, Shine


(2010) discrimina cinco possibilidades de papéis distintos por parte do
psicólogo:

 Testemunha - quando convocado a atuar nesta condição, o psicólogo deve


se restringir a falar sobre o que viu e não sobre inferências teóricas.

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 Perito parcial - trabalha para uma das partes e, portanto, está condicionado
àquilo que pode saber por sua experiência. Deverá prestar esclarecimentos
exclusivamente a partir desta perspectiva

 Perito "pistoleiro" - é aquele que como assistente técnico busca com seu
trabalho realçar apenas a verdade que interessa a quem lhe contratou.

 Perito adversarial - é o perito que toma a posição de uma das partes, que
assume para si a causa e perde sua "imparcialidade".

 Perito imparcial - apresenta as opiniões e previsões de forma imparcial e


neutra.

7.5. Mediação de conflitos

Shine (2010) relata que uma das críticas levantadas contra o modelo pericial é
que este não auxilia na resolução dos conflitos. Esta mesma constatação tem
levado algumas instituições judiciárias a implantar serviços voltados para a
mediação familiar e é sobre esta atuação profissional tão específica que
estudaremos neste item.

Então, vamos à compreensão deste campo de atuação.

Segundo Müller, Cruz e Bartilotti (2009), a mediação de conflitos familiares é o


método de resolver disputas que leva em consideração a autonomia de
vontades dos envolvidos, respeitando as diferenças. A mediação de conflitos,
em seu sentido específico, pressupõe uma atuação facilitadora por parte do
mediador.

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A profissão de mediador é nova e pode ser exercida por profissionais advindos


de diferentes formações (Direito, Administração, Serviço Social, Pedagogia,
Psicologia) exigindo do profissional a integração de distintas áreas, em especial
da Psicologia e do Direito (Mello, 2005 apud Müller, Cruz e Bartilotti, 2009).

Kovach e Love (2004 apud Müller, Cruz e Bartilotti, 2009) propõem que o papel
do mediador é facilitar a comunicação, promover o entendimento, levar as
partes a se focarem em seus interesses e procurar soluções criativas que deixem
as partes livres para chegar a um acordo próprio.

Assim, devemos considerar que o mediador tem como função principal facilitar
a comunicação e buscar o respeito mútuo, devendo manter uma postura
imparcial, neutra e ética, atuando em conjunto com os envolvidos.

Ao iniciar sua intervenção, o mediador deve verificar se as pessoas sabem o que


é mediação, se estão efetivamente interessadas e se a aceitam como forma de
resolver suas diferenças (Perrone, 2001 apud Müller, Cruz e Bartilotti, 2009).

O mediador deve gerar e apoiar um contexto em que as próprias partes tomem


decisões; sem julgamento de seus pontos de vista. Ele deve considerar as
competências e os motivos das partes; sendo responsivo à expressão das
emoções, concentrado no aqui e agora da interação do conflito. Além disso, é
necessário que o facilitador busque entender o passado em busca de seu valor
para o presente; devendo entender a intervenção como um ponto dentro de
uma estrutura de tempo mais ampla.

Competências profissionais do mediador de conflitos (Müller, Cruz e


Bartilotti, 2009):

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1. Enquadrar o processo de mediação;

2. Estabelecer rapport;

3. Demonstrar empatia;

4. Escutar ativamente;

5. Demonstrar atitude colaborativa;

6. Equidistar-se das partes;

7. Promover o reconhecimento recíproco;

8. Aperfeiçoar conhecimento sobre vínculos familiares;

9. Demonstrar conhecer aspectos jurídicos em mediação familiar;

As competências apresentadas podem ser agrupadas da seguinte maneira:

Quanto à postura

O mediador de conflitos deve ter a disposição para manter a independência


profissional; ter capacidade de estabelecer rapport e manter contato empático;
atuar colaborativamente para auxiliar os envolvidos a enxergarem soluções
equitativas; e colocar-se à mesma distância das partes, tratando-os
igualitariamente (equidistar-se).

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Quanto às habilidades interventivas comunicacionais

É essencial para o trabalho de mediação que o profissional tenha a habilidade


de escutar ativamente, ouvindo o relato sem interromper ou aceitar
interrupções, demonstrando calma, interesse e respeito pelo que está sendo
dito, atitude que vem aliada à capacidade de demonstrar empatia. O mediador
deve intervir apropriadamente, certificando-se de que está sendo
compreendido, buscando clarificar ou solicitar esclarecimentos.

Durante a mediação, profissional busca conseguir diálogos constantes entre as


percepções e entendimentos dos envolvidos, de maneira a auxiliá-los a que se
escutem reciprocamente, desobstruindo o canal de comunicação a fim de
possibilitar que cada um consiga compreender a perspectiva do outro, sem
reagir defensivamente.

Quanto aos conhecimentos necessários

É fundamental para o trabalho de mediação que o profissional saiba enquadrar


o processo de mediação, utilizando uma linguagem simples e clara, prestando
informações gerais sobre o processo de mediação, explicitando sua intenção de
auxiliar as partes na solução dos conflitos.

No contexto específico da mediação familiar, os conhecimentos sobre vínculos


familiares (família, separação conjugal, parentalidade) são essenciais, devendo o
mediador explicar didaticamente o processo de rompimento conjugal e a
importância da manutenção dos vínculos pais-filhos e de uma relação pacífica
para a saúde emocional de todos.

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O profissional deve ainda demonstrar conhecer aspectos jurídicos em mediação


familiar, tais como acerca da pensão alimentícia, guarda, visitação e poder
familiar, bens do casal e sobrenome da mulher.

Assim, compreende-se que o mediador familiar deve ser o administrador do


processo de mediação, devendo conhecer as emaranhadas relações
interpessoais, possuir habilidade em gerenciamento de conflitos e negociação,
ter noções de Direito de Família, além de ser percebido pelos mediandos como
um profissional imparcial e que atua como um facilitador que pode auxiliar na
criação e no desenvolvimento de alternativas para a solução de seus problemas
a partir do entendimento das regras pessoais e familiares (Müller, Cruz e
Bartilotti, 2009; Moore, 1998 apud Müller, Cruz e Bartilotti, 2009).

7.6. Outras propostas de intervenção

Uma das mais contundentes críticas à atividade pericial é que ela não resolve o
problema do conflito familiar. Shine (2010) entende que existe uma confusão
entre o que é o problema para a autoridade judiciária e o que é o problema do
ponto de vista da família.

Para a autoridade judiciária trata-se de resolver o conflito judicial dando a


sentença que melhor refletir o entendimento da situação frente às normas e
dogmas jurídicos.

Pode-se dizer que o seu problema termina quando o laudo dá ao juiz uma base
sólida para apoiar sua argumentação jurídica e sustentar a decisão que proferir
segundo seu entendimento. Findo o processo, termina o problema que
originou a demanda (do ponto de vista do cliente-juiz).

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Do ponto de vista psicológico, a decretação de uma sentença está longe de ser


o término do conflito. A sentença pode ser uma diretriz que, se implementada,
ao se efetivar, espera-se que resolva o conflito de base.

A perícia em sua acepção original não tem o objetivo de resolver nada, a não
ser investigar e se levantar conhecimentos a respeito de algo.

Neste sentido, diversos autores se referem a alguma forma de sensibilização


(Ramos & Shine, 1994) e de atuação interventiva.

Em sua proposta metodológica, Ribeiro e equipe (1999) propõem, fugindo dos


parâmetros do enfoque pericial clássico, contatar os advogados, entendendo-os
como elementos importantes do contexto.

Segundo esta proposta, são realizados atendimentos, onde são reunidos os


advogados atuantes em três ou quatro processos a serem iniciados.

Nessa ocasião, são esclarecidos os objetivos e a metodologia, ressaltando a


importância da cooperação desses profissionais e, principalmente, enfatizando
os prejuízos emocionais para as crianças envolvidas, advindos do litígio de seus
pais.

Apesar de Ribeiro (1999) relatar excelentes resultados com esta metodologia,

Shine (2010) sinaliza que, por se tratar de uma proposta que foge do trabalho
pericial clássico, alguns advogados com perfil mais competitivo podem, até
mesmo, pedir a impugnação do profissional baseando-se no fato de que este
estaria fugindo da determinação pericial stricto senso, saindo da sua
competência.

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Outra proposta interessante que foge do trabalho pericial é a criação do Centro


de Apoio Psicossocial (CAP) e do Serviço de Conciliação implantado em Recife
(PE) que atuam junto à Vara de família do TJPE.

Nesta experiência específica, a equipe atuante está diretamente vinculada à


Presidência do Tribunal, assessorando os juízes, mas sem possuir nenhum
vínculo de subordinação a este, condição que situa o CAP próximo ao núcleo de
decisões, tendo asseguradas as autonomias técnica e administrativa (Fernandes,
2001 apud Shine, 2010).

Este trabalho visa oferecer orientação psicológica aos litigantes, além de


esclarecimentos sobre os benefícios de um acordo e os custos de uma
demanda judicial que poderá levar bastante tempo. Na disputa as partes
revivem as situações de conflito gerando mais desgaste emocional (Assunção,
2001 apud Shine, 2010).

Este trabalho visa oferecer orientação psicológica aos litigantes, além de


esclarecimentos sobre os benefícios de um acordo e os custos de uma
demanda judicial que poderá levar bastante tempo. Na disputa as partes
revivem as situações de conflito gerando mais desgaste emocional (Assunção,
2001 apud Shine, 2010).

Percebe-se que o trabalho do psicólogo judiciário se orientará no sentido de


buscar uma conciliação das partes. Se isto for obtido, o acordo é reduzido a
termo e, após parecer do Ministério Público, homologado pelo juiz
coordenador.

Caso a conciliação fracasse, o processo é devolvido à Secretaria da Vara de


Família e o pleito segue seu curso. Portanto, a atuação neste nível é anterior ao
estabelecimento do litígio processual. O papel do psicólogo não é o de perito,

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mas atua conforme outro objetivo explícito da instituição, aquilo que se


denomina conciliação.

A proliferação de trabalhos de assistentes técnicos comprometidos com "a


verdade" de seu cliente, confundindo verdade factual e verdade narrativa, pode
levar a um descrédito tanto do profissional quanto da utilização da prova
pericial psicológica (Glassman, 1998; Grisso, 1987; Stahl, 1999 apud Shine,
2010).

Por outro lado, o trabalho dos peritos psicólogos que não conseguem abordar
as questões legais, ficando na reprodução do modelo do psicodiagnóstico
clínico e se autorizando a fazer recomendações sem uma maior fundamentação
coloca em risco o reconhecimento social de sua função e importância
institucional (Berry, 1989; Brito, 1993; Grisso, 1987; Silva, 2000 apud Shine,
2010).

Dentre as possibilidades visualizadas, parece que a condição mais favorável


para o trabalho é a que garante o contato com ambas as partes, seja por
iniciativa do profissional do âmbito privado (assistente técnico ou perito
independente de confiança), seja pela inserção institucional (psicólogo
judiciário ou jurídico).

Suannes (2011) alude diversas vezes em seu texto ao "psicodiagnóstico


interventivo" no âmbito do Judiciário, no qual a perícia (entendida aqui como
uma forma de avaliação psicológica) deixa de ser vista como um trabalho de
coleta de dados, para ser uma intervenção em que o sujeito participa do
processo de forma mais ativa.

Essa assertiva pressupõe que a pessoa não seja representada como "parte" ou
"periciando", isto é, um indivíduo passivo diante do processo judicial e do

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procedimento psicológico, mas, ao mesmo tempo, essa proposição ainda se


mantém sob a rubrica de "avaliação psicológica".

Miranda Junior (apud Suannes, 2011) ressalta que o psicodiagnóstico


interventivo produz uma mudança em termos da inserção do profissional na
avaliação. Embora se utilize de instrumentos que fornecem elementos
objetivados, os quais induzem a conclusões diagnosticas, a avaliação
psicológica deixa o âmbito da suposta neutralidade (próprio do modelo
tradicional de psicodiagnóstico) para se aproximar dos procedimentos da
clínica psicológica, na qual o profissional é visto como elemento incluído na
subjetividade de quem está sendo avaliado.

Segundio Suannes (2011), refletir sobre o modelo pericial e articulá-lo à ideia


de um trabalho interventivo significa considerar também que o encontro com
as pessoas que fazem parte de um processo de Vara de Família não é mera
condição de aplicação de instrumentos de avaliação demandada por um
terceiro. Supõe considerar que essas pessoas procuram o Judiciário para
resolver conflitos de família porque não encontraram outra forma de lidar com
o sofrimento que advém deles.

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ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NOS PROGRAMAS DE MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS

8. ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NOS PROGRAMAS DE MEDIDAS


SOCIOEDUCATIVAS

A prática do ato infracional é multideterminado, sendo necessário aplicar


os diferentes saberes para sua compreensão. Portanto, exige-se a
articulação de diferentes práticas profissionais para a elaboração e
execução do projeto técnico do programa de medidas socioeducativas e
para a articulação com programas e serviços de diferentes
especificidades que compõem a rede do sistema de garantia de direitos,
pela qual o adolescente irá transitar e, também, para o atendimento
direto do adolescente em suas múltiplas necessidades e peculiaridades
(CFP, 2012).

É necessário que o profissional esteja atento ao conjunto de questões


que envolvem a responsabilização do adolescente e o exercício de seus
direitos, pois além da relação com o adolescente que cumpre a medida,
o trabalho pode exigir a aproximação daqueles que compõem o seu
círculo social, seja na família, outras pessoas de referência, na escola, nos
grupos juvenis ou em outros espaços de convivência na comunidade
(CFP, 2012).

As Medidas Socioeducativas destinadas a adolescente autor de ato


infracional foram instituídas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA), sendo regulamentadas pelo Sistema Nacional de Atendimento
Socioeducativo (SINASE).

O ECA e as orientações do SINASE destacam que as medidas


socioeducativas comportam a responsabilização do adolescente em
relação ao ato infracional praticado, e a ação educacional, ligada à

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garantia de direitos e ao desenvolvimento de ações que visem o


exercício da cidadania (CFP, 2012).

8.1. Atuação do psicólogo nos programas de medidas


socioeducativas em meio aberto

O cumprimento das medidas de liberdade assistida (LA) e prestação de serviços


à comunidade (PSC) não está associado à vontade espontânea de participação
do adolescente. É uma determinação judicial, cujo descumprimento acarreta
sanções legais (CFP, 2012).

A obrigatoriedade de cumprir uma medida inclui assegurar o caráter


socioeducativo, oferecendo espaços de novas experiências com os lugares que
o adolescente pode vir a ocupar em oficinas, cursos, grupos, atendimentos (CFP,
2012).

As atividades propostas precisam considerar o momento de vida do


adolescente (estudo de caso) e a realização dos compromissos estabelecidos a
partir da elaboração do Plano Individual de Atendimento – PIA (CFP, 2012).

O acompanhamento deve assegurar a garantia de direitos, podendo demandar


diferentes campos das políticas públicas, como o sistema educacional, de
saúde, de assistência social, de justiça e de segurança pública (CFP, 2012).

As equipes executoras dos programas de meio aberto devem ser compostas


por profissionais de diferentes especialidades.

O profissional deve atuar com competência e pautado pela ética da


responsabilidade frente aos adolescentes buscando (CFP, 2012):

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 Conhecer a legislação pertinente e atuar dentro de seus parâmetros;


 Compreender o adolescente autor de ato infracional como adolescente
(uma etapa peculiar da vida, em nossa sociedade);
 Compreender que o adolescente está cumprindo uma medida judicial que
se refere à responsabilização pela prática do ato infracional;
 Pautar sua atuação profissional pelo projeto técnico do programa, pelo
saber específico de cada profissão, superando o senso comum;
 Compreender que há questões que ultrapassam a abrangência de
resolução com o adolescente, pois envolvem outras esferas de
intervenções, inclusive, políticas.

A elaboração e execução do Plano Individual de Atendimento (PIA) é uma tarefa


norteadora do atendimento institucional ao adolescente no cumprimento da
medida.

O estabelecimento de objetivos reais (vinculados às necessidades do


adolescente) e viáveis (no prazo de cumprimento da medida determinado pelo
Poder Judiciário) implica o conhecimento do adolescente e de sua realidade
objetiva de vida. Essa é uma tarefa que o psicólogo, pela sua especialidade, é
chamado a realizar (CFP, 2012).

Para estabelecer o plano individual de cada adolescente, considerando a sua


singularidade, o estudo de caso mostra-se uma etapa importante e garantidora
de ações particularizadas que dizem respeito às peculiaridades de cada
adolescente, e a(o) psicóloga(o) pode coordenar e/ou participar dessa atividade
com contribuições relevantes dada a especificidade de sua formação (CFP,
2012).

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Outro aspecto importante é o acompanhamento da execução do PIA naquilo


que aporta de dificuldades e obstáculos próprios da ausência ou precariedade
dos programas e das políticas locais (as relações institucionais, as precariedades
da rede de serviços, por exemplo) e, também, daquilo que é singular: o modo
de ser de cada adolescente, suas histórias de dificuldades e vitórias, desejos e
dificuldades de ruptura com estilos de vida, inserção e adaptação em novos
grupos e instituições (CFP, 2012).

Os grupos de apoio e reflexão em que ambos os aspectos podem ser


processados e elaborados mostram-se como possibilidades de contribuição da
(o) psicóloga(o).

Faz parte ainda do trabalho nesse programa, o registro e a elaboração de


relatórios – inclusive aquele no qual deve constar o PIA – observados os prazos
que regulam o cumprimento da medida (CFP, 2012).

As medidas de meio aberto, quando executadas com competência, podem


contribuir para impedir o ingresso do adolescente no sistema de privação de
liberdade; ou seja, há um suposto que o atendimento dos adolescentes por
essas medidas é um fator que pode impedir a reincidência e mostrar para o
adolescente outras trajetórias existenciais, outras possibilidades de construir um
modo de estar no mundo, no presente e no futuro (CFP, 2012).

8.1.1. Atuação do psicólogo na medida de liberdade assistida

A liberdade assistida visa possibilitar o acompanhamento, a orientação e o


apoio ao adolescente que cumpre esta medida, sendo desenvolvida em
programa ligado a órgãos municipais ou organizações não governamentais
conveniadas com o poder público local, com designação de técnicos e
orientadores responsáveis (Conselho Federal de Psicologia, 2012).

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Para pensar a especificidade da atuação da(o) psicóloga(o) nessa medida, é


necessário considerar que, com frequência, ela é atribuída em continuidade à
medida de internação e para dar conta da ausência de programas de
acompanhamento pós-internação (Conselho Federal de Psicologia, 2012).

Portanto, no programa, há essa heterogeneidade: adolescentes em primeira


medida e adolescentes que saíram de uma experiência significativa que é a
internação em unidades de privação de liberdade (Conselho Federal de
Psicologia, 2012).

O trabalho com essa heterogeneidade em situações coletivas e de grupo coloca


desafios para o manejo técnico e para a convivência pautada em alternativas e
novos modos de participação social (Conselho Federal de Psicologia, 2012).

Por exemplo, o adolescente que está em cumprimento de primeira medida


pode não ter se desligado da escola, embora seus vínculos com ela possam ser
frágeis, e o adolescente que sai da internação e é encaminhado para a LA, como
progressão de medida, rompeu os laços com a escola.

Nesse exemplo, portanto, o estudo de caso dá a referência das peculiaridades


da biografia do adolescente e o PIA deve estabelecer as diferenças de
encaminhamento necessários e factíveis (Conselho Federal de Psicologia, 2012).

A lógica é da individualização da medida, que se expressa no plano individual


de atendimento (PIA) (Conselho Federal de Psicologia, 2012).

Há uma afirmação que percorre a área do atendimento em medidas


socioeducativas que vale a pena retomar: “a execução de uma medida de meio

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aberto, quando realizada com qualidade, evita a internação”. Alguns aspectos


fundamentam essa afirmação (Conselho Federal de Psicologia, 2012):

 O fato de o adolescente permanecer em seu grupo familiar e/ou de


responsáveis, quando possível e pertinente;

 O fato de poder dar continuidade ao seu processo de escolarização ou


retornar com maior rapidez a ele;

 O fato da atribuição da medida de meio aberto revelar a prática de um ato


infracional de menor gravidade e/ou envolvimento ainda tênue com a
prática de ato infracional.

A medida socioeducativa de LA implica a inclusão do adolescente nas


instituições da comunidade e só assim ela se realiza em sua finalidade. As
dificuldades dessa inclusão – por escolhas do adolescente e/ou restrição dos
equipamentos e serviços da comunidade local – devem ser comunicadas aos
parceiros, Poder Judiciário (relatórios técnicos) a fim de assegurar a superação
das dificuldades e a construção de uma mentalidade de aceitação do
adolescente quanto ao exercício e garantia de seus direitos (Conselho Federal
de Psicologia, 2012).

A liberdade assistida constitui-se em uma medida que exige o


acompanhamento do adolescente em sua vida social (escola, trabalho, família e
outras inserções na rede de serviços) (Conselho Federal de Psicologia, 2012).

A intervenção educativa manifesta-se, portanto, no acompanhamento,


garantindo aspectos que conforme cada situação estarão relacionados com:
proteção, inserção comunitária, cotidiano de lazer, manutenção de vínculos
familiares, da frequência à escola, aderência aos tratamentos de saúde, inserção

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no mercado de trabalho e/ou cursos profissionalizantes e participação na vida


cultural da cidade (Conselho Federal de Psicologia, 2012).

Convocar o adolescente à fala e à partilha das suas construções pelos seus


locais de convivência e respostas frente à lei é uma função da(o) psicóloga(o)
no LA. O campo da palavra e do consentimento, incluindo as pessoas
envolvidas nas relações pessoais e também anônimas, é uma forma de
submeter-se às implicações estabelecidas nos laços sociais (Conselho Federal
de Psicologia, 2012).

Um dos pressupostos que norteiam a implantação da medida socioeducativa de


LA é a necessidade de realizar programas que forneçam aos adolescentes
autores de ato infracional condições para que estabeleçam um novo projeto de
vida e a ruptura com a prática de atos infracionais (Conselho Federal de
Psicologia, 2012).

O que se busca garantir é que as políticas de atendimento ao adolescente autor


de ato infracional não se atenham apenas a componentes “exclusivamente”
pedagógicos, mas criem condições de uma inserção produtiva na coletividade
(Conselho Federal de Psicologia, 2012).

Por isso, a implantação e execução de um programa de liberdade assistida


devem fortalecer os laços familiares e comunitários dos adolescentes e
esforçar-se em integrar ações nas áreas de educação, saúde, lazer e trabalho
(Conselho Federal de Psicologia, 2012).

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8.1.2. Atuação do psicólogo na medida de prestação de serviços


à comunidade

A questão central dessa medida socioeducativa é a experiência de trabalho


(prestação de serviço) como estratégia reparadora da prática do ato infracional
(Conselho Federal de Psicologia, 2012).

Portanto, torna-se absolutamente relevante a natureza do trabalho que o


adolescente irá realizar para atender a concepção que a participação produtiva
na comunidade/sociedade é uma alternativa para o seu presente e o seu futuro
(Conselho Federal de Psicologia, 2012).

Quanto à natureza e ao local da prestação de serviço, é importante atentar para


práticas conservadoras e inadequadas de colocação do adolescente em
atividades e locais que podem acarretar humilhação e constrangimento
(Conselho Federal de Psicologia, 2012).

Exemplo: varrer o pátio da escola na qual ele e/ou seus amigos estudam, e
outras ocupações que, ao invés de alcançar efeitos positivos e propiciar a
descoberta de novas habilidades, acabam por reiterar para ele que na prática
do ato infracional ele tem reconhecimento e valorização pela coragem, ousadia.

Ou seja, de novo, é necessário lembrar que a medida socioeducativa não tem


caráter punitivo, mas deve colocar em relevo os propósitos educativos da
intervenção junto ao adolescente (Conselho Federal de Psicologia, 2012).

Uma importante especificidade da medida de Prestação de Serviço à


Comunidade é convocar o adolescente a conviver em um espaço (normatizado)
organizado pelo trabalho (Conselho Federal de Psicologia, 2012).

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A finalidade de uma prestação de serviço é explorar as possibilidades


educacionais que um ambiente de trabalho pode oferecer. Assim, é preciso
estar atento para que a prestação de serviços favoreça a criação, a elaboração e
o aprendizado (Conselho Federal de Psicologia, 2012).

Importa a escolha de serviços em um ambiente de acolhimento que contenham


um mínimo de possibilidades a ser exploradas pelo adolescente, aproveitando o
que possa potencializar o valor educativo da medida (Conselho Federal de
Psicologia, 2012).

A inclusão do adolescente em prestação de serviço coloca para a equipe


profissional, e também para a(o) psicóloga(o), os desafios da preparação, do
acompanhamento e da avaliação permanente dessa inclusão no sentido da
medida obter sua finalidade: demonstrar para o adolescente alternativas de
inserção em sua coletividade (Conselho Federal de Psicologia, 2012).

Um aspecto coloca-se como facilitador para a experiência ser bem-sucedida: a


preparação e o acompanhamento dos orientadores no local em que o
adolescente irá cumprir sua medida (fazer a prestação de serviços) e, aí está a
possibilidade, também, de uma contribuição significativa do psicólogo
(Conselho Federal de Psicologia, 2012).

Essa medida, considerando o tempo a ela atribuído (meses), exige estratégias e


procedimentos definidos para a recepção do adolescente, além das demais
etapas (preparação acompanhamento e avaliação), e, portanto, agilidade nos
encaminhamentos (Conselho Federal de Psicologia, 2012).

Em suma, as referências do trabalho do profissional de Psicologia, no contexto


de políticas públicas, evidenciam um compromisso ético-político que afirme

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uma prática vinculada aos seguintes aspectos orientadores (Conselho Federal


de Psicologia, 2012):

 A atenção ao adolescente no âmbito da Psicologia e em diálogo com as


demais disciplinas, em especial, no âmbito jurídico, pedagógico e da
assistência social;
 A educação permanente para acompanhar, a partir dos marcos legais, a
elaboração dessas políticas, bem como acessar a produção de
conhecimento da área que dê consistência para a compreensão da
produção de subjetividade nas relações constituídas no âmbito da prática
do ato infracional dos adolescentes e definição de dispositivos
metodológicos de intervenção, sempre no estrito cumprimento das
normas e marcos legais estabelecidos;
 A participação nos mecanismos de controle social que envolvem desde a
sustentação dos espaços de organização profissional, como das instâncias
que asseguram a garantia de direitos, contribuindo para afirmação do que
propõem o Estatuto da Criança e do Adolescente e o SINASE.

O Ministério Público, a Defensoria Pública, a rede de Conselhos de Direitos,


assim como o conjunto das associações civis, são parceiros necessários na
efetivação dos direitos de adolescentes autores de ato infracional.

O trabalho da(o) psicóloga(o) no desenvolvimento das medidas socioeducativas


em meio aberto requer pensar na finalidade e na implicação, para cada um dos
adolescentes, do cumprimento desta determinação jurídica (Conselho Federal
de Psicologia, 2012).

Tal atribuição indica a necessidade de questionamento permanente sobre a


contribuição possível da Psicologia neste contexto, e de uma reflexão que
permita situar os efeitos e as respostas dos adolescentes ao processo

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desencadeado pela responsabilização frente à prática de um ato infracional


(Conselho Federal de Psicologia, 2012).

Possibilitar ao adolescente se fazer perguntas e problematizar as implicações


em responder à justiça é um trabalho que produz (desdobramentos) questões
para serem acompanhadas.

O psicólogo deverá, então, trabalhar em conjunto com aquele que ocupar o


lugar de orientador para construir a função socioeducativa deste espaço,
providenciando que estes locais sejam recursos operacionais importantes na
construção da medida, e não insalubres, humilhantes e/ou punitivos (Conselho
Federal de Psicologia, 2012).

Para fazer com que um adolescente consinta em se implicar por esta via,
contudo, é importante considerar como fazer com que ele saia da posição de
“vítima” e possa se empenhar na construção do espaço coletivo (Conselho
Federal de Psicologia, 2012).

Acolher, acompanhar, conhecer a história dos adolescentes e não só de seu ato


infracional, com a escuta que possibilita intervenções singulares que acolhem
vivências e respostas de cada adolescente capacita a(o) psicóloga(o) a intervir
de forma a contemplar a pactuação do Plano Individual de Atendimento (PIA) e
suas articulações com ofertas concretas oriundas das políticas públicas, menos
calcada num saber normatizado, homogeneizador ou moralizante que serviria
para “todos” (Conselho Federal de Psicologia, 2012).

Uma das diretrizes básicas dos programas em meio aberto refere-se ao direito
do adolescente à convivência familiar e comunitária. A priorização da família na
agenda da política social envolve, necessariamente, programas de geração de

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renda/emprego, redes de serviços comunitários de apoio psicossocial, cultural,


etc (Conselho Federal de Psicologia, 2012).

Tais ações são indispensáveis à alteração da qualidade de vida e da situação de


exclusão a que estão submetidas um vasto contingente de famílias brasileiras,
cujos filhos se encontram em conflito com a lei. Contudo, vale reforçar que
priorizar o envolvimento da família não significa transferir a ela a
responsabilidade do adolescente com o cumprimento da medida (Conselho
Federal de Psicologia, 2012).

Alguns pressupostos, destacados a seguir, poderão subsidiar as condutas e


servir de aporte às ações e ao manejo técnico das(os) psicólogas (os) no
trabalho com os adolescentes nas medidas em meio aberto (Conselho Federal
de Psicologia, 2012):

 O atendimento aos adolescentes autores de ato infracional é


responsabilidade do Estado e da sociedade, e deverá envolver todas as
políticas públicas;
 O adolescente autor de ato infracional é um adolescente, com
características peculiares e próprias a todos que atravessam esse período
de desenvolvimento humano em nossa sociedade. Isso implica considerar
o ato infracional no contexto de sua história e circunstâncias de vida;
 A (o) psicóloga (o) no trabalho com a MSE é um profissional que considera
a subjetividade e produz suas intervenções a partir de compromisso com a
garantia dos direitos do adolescente, preconizados no ECA e nas
normativas internacionais;
 A prática profissional da(o) psicóloga(o) deverá acontecer em um contexto
interdisciplinar, no qual as relações com os demais profissionais
envolvidos no trabalho são de parceria, socialização e construção de
conhecimento;

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 Não pode haver neutralidade diante de qualquer tipo de violência. É


necessário assumir uma oposição clara perante esses acontecimentos –
respaldada no Código de Ética da profissão;
 A relação com o Poder Judiciário e os demais profissionais do sistema de
Justiça deve ser pautada pela fundamentação técnica qualificada e pelo
respeito à especificidade do trabalho do profissional, e não pela relação
de subserviência ou temor;
 Os relatórios, pareceres técnicos e informativos devem ser elaborados em
conformidade com as Resoluções CFP n.º 07/2003 e CFP n.º 05/201013,
evitar rótulos e estigmas, e considerar as condições existentes para o
cumprimento da MSE, com informações elucidativas;

O objetivo do relatório é subsidiar as decisões jurídicas e não ocupar o lugar de


julgamento dos adolescentes.

 A(o) psicóloga(o) deve levar em conta que sua contribuição está


formalizada em laudos e relatórios, constitui parte integrante de um
trabalho de equipe que não se inicia nem se conclui com sua ação
específica; ao contrário, se estende para além dela;

Neste sentido, é fundamental assegurar acesso aos dados e aos elementos que
sua intervenção produz de modo a que as ações futuras possam incorporar
esses resultados em benefício do próprio adolescente.

 A atuação da(o) psicóloga(o) não deve se restringir à elaboração de


pareceres e relatórios sobre os adolescentes, devendo contribuir com seu
fazer para a garantia do aspecto educacional da medida.

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8.2. Atuação do psicólogo no âmbito das medidas socioeducativas em


unidades de internação

Conforme vimos, na busca pelo estabelecimento de política nacional para o


trabalho na área das medidas socioeducativas há um novo documento de
referência: o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) (CFP,
2010b).

Uma das inovações previstas a partir deste documento é o Plano Individual de


Atendimento (PIA), que valoriza o respeito à individualidade e à singularidade
do adolescente autor de ato infracional, instrumentaliza a oferta de serviços nas
diversas áreas e garante o registro histórico institucional do processo de
atendimento de cada um deles (CFP, 2010b).

O PIA deve contemplar informações sobre os seguintes aspectos (CFP, 2010b):

 Avaliação inicial nas áreas jurídica, psicológica, social, pedagógica e de


saúde;

 Acesso a programas de escolarização, esporte, saúde, cultura, lazer,


profissionalização e de assistência religiosa;

 Garantia de condições adequadas de habitação, alimentação e vestuário;

 Acesso à documentação;

 Acompanhamento técnico com equipe multiprofissional, incluindo


atendimento à família;

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 Assistência jurídica ao adolescente e sua família e articulação com outras


entidades e programas de atendimento socioeducativo visando a
assegurar a continuidade do trabalho e a troca de informações.

O compromisso ético-político do profissional psicólogo, cada vez mais


implicado com as temáticas sociais, em especial com as medidas
socioeducativas, supõe visão ampliada de sua função e atuação (CFP, 2010b).

Isso implica analisar o contexto social, a demanda por sua presença e a


contribuição na política de atendimento ao adolescente autor de ato infracional
que está em privação de liberdade (CFP, 2010b).

A medida socioeducativa de privação de liberdade deverá ser adotada como


último recurso na intervenção que visa a responsabilizar o adolescente pela
prática de atos infracionais. Nesse sentido, as medidas de meio aberto –
liberdade assistida e prestação de serviços à comunidade – devem ser
priorizadas (CFP, 2010b).

O psicólogo que integra a equipe multiprofissional da unidade de internação,


ou atua de forma esporádica na condução de oficinas e outras atividades ou,
ainda, realiza pesquisas nas unidades de internação deve pautar sua conduta
promovendo condições para combater tais violações (CFP, 2010b).

Alguns pressupostos, destacados a seguir, poderão subsidiar as condutas e


servir de aporte às ações e ao manejo técnico dos psicólogos no trabalho com
os adolescentes (CFP, 2010b):

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 O atendimento aos adolescentes autores de ato infracional é


responsabilidade do Estado e da sociedade e deverá envolver todas as
políticas públicas;

A qualidade do atendimento e o que ocorre no interior das unidades de


privação de liberdade – internação provisória e internação – é de
responsabilidade também dos profissionais que lá trabalham, incluindo o
psicólogo.

 O adolescente autor de ato infracional é um ADOLESCENTE, com


características peculiares e próprias a todos que atravessam esse período de
desenvolvimento humano em nossa sociedade. Isso implica considerar o ato
infracional no contexto de sua história e circunstâncias de vida.

 O psicólogo, nas unidades de privação de liberdade, é um profissional que


considera a subjetividade e produz suas intervenções a partir de
compromisso ético-político com a garantia dos direitos do adolescente,
preconizados no ECA e nas normativas internacionais.

 A prática profissional do psicólogo com os adolescentes internos se dá em


um contexto interdisciplinar da equipe técnica.

 Não pode haver neutralidade diante de qualquer tipo de violência.

 É necessário assumir uma oposição clara perante esses acontecimentos –


respaldada no Código de Ética da profissão –, pois a negligência profissional
é uma das faces da violência, assim como a humilhação, o tratamento cruel e
degradante, a omissão de ajuda e socorro, os maus-tratos e a tortura.

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 A relação do psicólogo com os demais membros da equipe de trabalho e


outros profissionais envolvidos no atendimento e/ou trabalho institucional é
de parceria, socialização e construção de conhecimento, respeitado o caráter
ético e o sigilo conforme o Código de Ética Profissional do Psicólogo, não
devendo haver relação de subalternidade na equipe multiprofissional.

 A relação com o Poder Judiciário e os demais profissionais do sistema de


Justiça deve ser pautada pela fundamentação técnica qualificada e pelo
respeito à especificidade do trabalho do profissional, e não pela relação de
subserviência ou temor.

 Os relatórios, pareceres técnicos e informativos devem ser elaborados em


conformidade com a Resolução CFP nº 07/2003, evitar rótulos e estigmas e
considerar as condições existentes para o cumprimento da MSE, com
informações elucidativas;

O objetivo do relatório é subsidiar as decisões jurídicas, e não ocupar o lugar de


julgamento dos adolescentes.

 A atuação do psicólogo deve ser orientada pelas várias formas de


intervenção próprias da Psicologia no cotidiano da instituição, e não se
restringir à elaboração de pareceres e relatórios sobre os adolescentes,
devendo contribuir com seu fazer para a garantia do atributo socioeducativo
da medida no planejamento institucional e na organização e implementação
das rotinas.

 É necessário, a partir de perspectiva desnaturalizante e crítica, analisar as


práticas instituídas e reconhecer, entre outros aspectos: os indicadores de
sofrimento do adolescente, os motivos das manifestações de violência entre

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os adolescentes e a resposta dos adolescentes às arbitrariedades presentes


nas relações sociais da instituição.

 Em situações críticas, quando o adolescente da unidade corre risco de morte


ou está em condições de produção de grave adoecimento físico ou psíquico,
é dever intervir e buscar auxílio nas instâncias superiores de gestão da
instituição e/ou no Poder Judiciário ou em outras organizações da sociedade
civil;

Nos casos de dúvidas, no que tange a aspectos éticos de sua atuação ou de


ocorrências que envolvam o adolescente e não encontrem respaldo nas
instâncias de proteção intra ou extrainstitucional, o psicólogo deverá recorrer
ao Conselho Regional de Psicologia a que pertence e, se necessário, ao
Conselho Federal de Psicologia.

A atuação do psicólogo nessa área deverá considerar a especificidade de cada


uma das situações de privação de liberdade do adolescente: em unidade de
internação, no cumprimento da medida socioeducativa ou em unidade de
internação provisória, no aguardo da determinação da medida socioeducativa
pelo sistema de Justiça (CFP, 2010b).

As diretrizes propostas para a atuação do psicólogo pautam-se nos seguintes


aspectos (CFP, 2010b):

 Considerar as peculiaridades jurídicas e, portanto, a condição do


adolescente em internação provisória – no aguardo da sentença judicial,
por um período que não deve exceder quarenta e cinco dias ou três anos,
quando se tratar de cumprimento da medida de privação de liberdade;

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 Respeitar e conhecer a existência de normativas nacionais – ECA, Sinase –,


internacionais e do Código de Ética do psicólogo, reguladores de sua
atuação;

 Ter conhecimento específico, teórico e técnico, para o trabalho nessa área.


 Ter a disponibilidade para o trabalho em equipe multiprofissional e,
portanto, dominar as habilidades pertinentes à interlocução com outras
especialidades do conhecimento e das áreas profissionais;

 Considerar que a atuação do psicólogo, independentemente de sua filiação


teórica e do uso de técnicas específicas, se situa no contexto da intervenção
institucional – portanto, não se restringe à elaboração de relatórios e
pareceres técnicos e busca, por meio de sua atuação na dinâmica
institucional, garantir o direito à dignidade, considerando as peculiaridades
da adolescência e da privação de liberdade.

8.2.1. Proposta de atuação do psicólogo na unidade de


internação provisória

Nessa unidade, há dois objetivos, que se constituem focos para a atuação do


psicólogo e demais profissionais (CFP, 2010b):

1. A contribuição para a organização do cotidiano institucional com suas


rotinas;

2. Elaboração do parecer psicológico, que comporá, com os estudos dos


demais profissionais, o relatório técnico a ser encaminhado ao Poder
Judiciário.

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A organização do cotidiano institucional implica ações de planejamento que


abrangem a organização do trabalho do próprio setor de Psicologia e o projeto
técnico da unidade; para isso, é fundamental que a integração com os demais
setores – técnicos e não técnicos – se defina a partir do atendimento
interdisciplinar do adolescente que viabiliza a realização do estudo de caso a
ser encaminhado ao Poder Judiciário (CFP, 2010b).

Para o desempenho dessa atribuição, a prática do psicólogo deve pautar-se


pela escuta rigorosa (do ponto de vista técnico), o que viabiliza, também, a
construção da história de vida do adolescente, a compreensão do envolvimento
com a prática de ato infracional, as consequências dessa prática em sua
biografia, bem como a capacidade observável ou o potencial do adolescente de
produzir novas respostas aos desafios de sua realidade pessoal e social (CFP,
2010b).

A elaboração do parecer psicológico implica o uso de técnicas psicológicas


(observação participante, entrevistas, testes, dinâmicas grupais, escuta
individual) que permitam ter acesso a aspectos relacionados à sua subjetividade
e à coleta de dados objetivos e rigorosos sobre o adolescente (CFP, 2010b).

Esses dados serão interpretados a partir de um referencial teórico que


contextualize o ato infracional na dinâmica do desenvolvimento pessoal do
adolescente, seus impasses, o conjunto de suas vivências e de seus grupos de
pertencimento – sua história de vida e seu contexto social (CFP, 2010b).

O parecer psicológico compõe parecer técnico com os demais profissionais da


unidade e, portanto, é recomendável a discussão dos casos com vistas ao
parecer final ou ao relatório técnico (CFP, 2010b).

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A consistência e a fundamentação técnica do parecer sistematizado no relatório


permitem ao psicólogo diálogo de parceria com os demais profissionais da
equipe de trabalho e com os profissionais do sistema de Justiça, inclusive o juiz
(CFP, 2010b).

8.2.2. Proposta de atuação do psicólogo na unidade de


internação

As contribuições do psicólogo, nesse âmbito, se situam desde o planejamento


do projeto técnico da unidade e/ou do diagnóstico institucional com vistas à
elaboração, avaliação e redefinição desse projeto; a definição do perfil do grupo
de adolescentes para composição das unidades (em algumas unidades da
Federação existe mais de uma unidade); o incentivo à participação democrática
de todos os setores, a retaguarda e o apoio para os demais profissionais,
particularmente aqueles do atendimento direto no sentido de garantir práticas
coerentes do conjunto de trabalhadores (CFP, 2010b).

A construção do Plano Individual de Atendimento (PIA) é uma atribuição que o


psicólogo poderá realizar individualmente ou em conjunto com outro(s)
técnico(s) da unidade (CFP, 2010b).

A elaboração do PIA junto com o adolescente implica conhecê-lo (sua história


de vida, suas habilidades, seus interesses, suas dificuldades e a prática do ato
infracional situada no contexto de sua biografia) e, sempre que possível,
conhecer sua família ou seus responsáveis, no sentido de garantir a viabilidade
do plano e os incentivos necessários ao adolescente, durante e após o
cumprimento da medida de internação (CFP, 2010b).

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O auxílio ofertado ao grupo de pertencimento do adolescente na construção de


uma rede de apoio a ele é fundamental na construção e viabilidade do PIA (CFP,
2010b).

Outro aspecto do trabalho do psicólogo na unidade de internação é a parceria,


articulação com outros programas e serviços. Para isso, o psicólogo precisa
compreender que um dos fundamentos na execução da medida socioeducativa
é a incompletude institucional (CFP, 2010b).

A garantia para que isso ocorra é a unidade de internação e suas propostas


estarem situadas em uma rede de serviços e programas governamentais e não
governamentais (CFP, 2010b).

A inserção em uma rede de serviços e programas será o grande facilitador para


o momento de saída da internação. Diante do encerramento da medida, o
adolescente precisará contar com uma rede de proteção, também no sentido de
evitar o retorno para as práticas que o levaram à internação; e, deste modo,
contribuir para evitar uma prática cada vez mais recorrente, de atribuir a
medida socioeducativa de liberdade assistida como procedimento de
“acompanhamento” do adolescente no período pós-internação (CFP, 2010b).

Finalmente, outra atribuição do psicólogo, que faz parte do desempenho de


suas funções, refere-se à documentação do trabalho realizado e dos dados
referentes a cada adolescente. Essa documentação se mostra de grande valia
para os momentos de avaliação e replanejamento do trabalho e para a
elaboração dos relatórios parciais e finais dos casos. Documentar é um dever
ético de registrar a passagem de um adolescente pela internação, não banalizar
o processo e incentivar a sistematização da experiência (CFP, 2010b).

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PSICOPATOLOGIA, PSIQUIATRIA E PSICANÁLISE

9. PSICOPATOLOGIA, PSIQUIATRIA E PSICANÁLISE

O campo da justiça, por questões práticas, demonstra acentuado interesse


no entendimento sobre as relações entre as alterações psicopatológicas e
os comportamentos desviantes. Para entendermos melhor essas
discussões, teremos como referências a psiquiatria e a psicanálise.

Estudaremos neste tópico os processos de desenvolvimento patológico e


suas implicações estruturais e dinâmicas nos distúrbios de conduta e de
personalidade, utilizando para tanto trechos das descrições
disponibilizadas pela Classificação Internacional de Doenças (CID) e pelo
Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), bem como
discussões e modelos explicativos propostos por autores que
fundamentam sua prática no referencial psicanalítico.

A Psicopatologia Psicanalítica se caracteriza pela compreensão da


dinâmica psíquica que fundamenta cada uma das três possíveis estruturas
da personalidade e dos conflitos psíquicos decorrentes desta estruturação.

Freud considera que a personalidade já está bem formada no final do


quinto ano de vida e que o desenvolvimento ulterior é essencialmente a
elaboração dessa estrutura básica.

O modelo psicanalítico propõe que inicialmente a criança não imagina


que existam diferenças anatômicas e acredita que homens e mulheres têm
anatomias semelhantes.

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Ao serem defrontadas com as diferenças anatômicas entre os sexos, as


crianças criam as chamadas "teorias sexuais infantis", imaginando que as
meninas não têm pênis porque este órgão lhe foi arrancado (complexo de
castração). As meninas veem-se incompletas (por causa da ausência e
consequente inveja do pênis).

Neste período surge o complexo de Édipo, no qual o menino passa a


apresentar uma atração pela mãe e a se rivalizar com o pai, e na menina ocorre
o inverso.

A estrutura da personalidade se constitui a partir da solução dada pelo sujeito


ao conflito advindo da vivência do Complexo de Édipo e da saída que encontra
para lidar com a ansiedade intensa vivenciada frente à constatação da
castração. Segundo a psicanálise, os mecanismos utilizados por cada uma das
estruturas clínicas são:

 Neurose – mecanismo: repressão da castração. No processo de solução


do conflito edipiano, o sujeito rejeitou o conhecimento da existência da
castração e, para lidar com a angústia, recalcou este conteúdo. No caso da
repressão, o inconsciente sabe da realidade e a consciência, não. A
representação reprimida encontra-se no inconsciente e vem à consciência
por meio dos sintomas, enquanto substitutos simbólicos.

 Psicose – mecanismo: negação da castração. O psicótico se estrutura


afirmando que a castração não existiu e para tanto cria outra realidade,
que transparece por meio dos delírios e alucinações.

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 Perversão – mecanismo: renegação da castração. O perverso substitui a


crença da falta do falo na mãe pela convicção de que esta o possui ou
mesmo de que ele é o próprio falo que falta à mãe. Neste mecanismo, a
presença de uma crença implica a renegação da outra. A formação de
compromisso se expressa na ritualização da castração através do objeto
fetiche.

A seguir estudaremos o processo de desenvolvimento patológico e suas


implicações estruturais e dinâmicas nas Neuroses.

9.1. PATOLOGIA NEURÓTICA

A patologia neurótica se caracteriza pelo recalque do desejo durante o


Complexo de Édipo. A somatização de conversão histérica, por exemplo, se
fundamenta na presença de um desejo sexual que não foi satisfeito pelas vias
normais.

O neurótico não tenta abrandar a castração: a castração existe, mas ele tenta
fazer com que quem seja castrado seja o outro e não ele. É o outro que fica no
lugar da falta.

O neurótico está marcado pela castração, investindo grandes quantidades de


energia corporal e psíquica para manter inconsciente este conhecimento. O
mecanismo da repressão está presente nesta defesa.

O sintoma neurótico aparece, então, como sendo uma representação


substitutiva, resultado da formação de compromisso entre o ego e o id. Por
exemplo, a somatização de conversão histérica se fundamenta na presença de
um desejo sexual que não foi satisfeito pelas vias normais.

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No texto “Neurose e Psicose” (1925/2006), Freud aponta uma diferença básica


entre neurose e psicose:

“a neurose é o resultado de um conflito entre o ego


e o id, ao passo que a psicose é o desfecho análogo
de um distúrbio semelhante nas relações entre o ego
e o mundo externo”. (Freud, 1925/2006, p. 189)

Ao longo do texto, Freud afirma que a neurose se caracteriza pela recusa do


ego em aceitar a poderosa pulsão do id, rejeitando a posição de mediador da
satisfação pulsional. Ele opera a serviço do superego e da realidade (princípios
morais), a partir do mecanismo do recalcamento.

O material recalcado insiste em se fazer conhecido, logo, ele escolhe vias


substitutas. O sintoma neurótico aparece, então, como sendo uma
representação substitutiva.

Em “A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose”, Freud afirma que tanto na


neurose quanto na psicose existe uma perturbação da relação do sujeito com a
realidade:

“Na neurose, um fragmento da realidade é evitado


por uma espécie de fuga, ao passo que na psicose
ele é remodelado... a neurose não repudia a
realidade, apenas a ignora: a psicose a repudia e
tenta substituí-la”. (Freud, 1924, p. 231)

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Sob essa categoria, a CID-10 apresenta uma conjunto de Transtornos


Neuróticos e de ansiedade, quadros somatoformes e relacionados com o
estresse.

Transtornos fóbico-ansiosos (F40) – Diz respeito ao grupo de transtornos nos


quais uma ansiedade é desencadeada exclusiva ou essencialmente por
situações nitidamente determinadas que não apresentam atualmente nenhum
perigo real.

Estas situações são evitadas ou suportadas com temor. As preocupações do


sujeito podem estar centradas sobre sintomas individuais tais como palpitações
ou uma impressão de desmaio, e frequentemente se associam com medo de
morrer, perda do autocontrole ou de ficar louco. A simples evocação de uma
situação fóbica desencadeia em geral ansiedade antecipatória.

Transtorno de pânico (F41) – A ansiedade paroxística episódica tem como


característica essencial ataques recorrentes de uma ansiedade grave (ataques
de pânico), que não ocorrem exclusivamente numa situação ou em
circunstâncias determinadas, mas de fato são imprevisíveis.

Como em outros transtornos ansiosos, os sintomas essenciais comportam a


ocorrência brutal de palpitação e dores torácicas, sensações de asfixia, tonturas
e sentimentos de irrealidade (despersonalização ou desrealização). Existe, além
disso, frequentemente um medo secundário de morrer, de perder o
autocontrole ou de ficar louco.

Observação: Não se deve fazer um diagnóstico principal de transtorno de


pânico quando o sujeito apresenta um transtorno depressivo no momento da
ocorrência de um ataque de pânico, uma vez que os ataques de pânico são
provavelmente secundários à depressão neste caso.

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Transtorno obsessivo-compulsivo (F42) – Transtorno caracterizado


essencialmente por ideias obsessivas ou por comportamentos compulsivos
recorrentes.

As ideias obsessivas são pensamentos, representações ou impulsos, que se


intrometem na consciência do sujeito de modo repetitivo e estereotipado. Em
regra geral, elas perturbam muito o sujeito, o qual tenta frequentemente resistir
a elas, mas sem sucesso.

O sujeito reconhece, entretanto, que se trata de seus próprios pensamentos,


mas estranhos à sua vontade e em geral desprazeirosos.

Os comportamentos e os rituais compulsivos são atividades estereotipadas


repetitivas. O sujeito não tira prazer direto algum da realização destes atos os
quais, por outro lado, não levam à realização de tarefas úteis por si mesmas.

O comportamento compulsivo tem por finalidade prevenir algum evento


objetivamente improvável, frequentemente implicando dano ao sujeito ou
causado por ele, que ele teme que possa ocorrer. O sujeito reconhece
habitualmente o absurdo e a inutilidade de seu comportamento e faz esforços
repetidos para resistir-lhes.

O transtorno se acompanha quase sempre de ansiedade. Esta ansiedade se


agrava quando o sujeito tenta resistir à sua atividade compulsiva.

Reações ao “stress” grave e transtornos de adaptação (F43) – Esta categoria


difere das outras na medida em que sua definição não repousa exclusivamente
sobre a sintomatologia e a evolução, mas igualmente sobre a existência de um
ou outro dos dois fatores causais seguintes:

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 Um acontecimento particularmente estressante desencadeia uma reação de


“stress” aguda;
 Uma alteração particularmente marcante na vida do sujeito, que comporta
consequências desagradáveis e duradouras e levam a um transtorno de
adaptação.

O acontecimento estressante ou as circunstâncias penosas persistentes


constituem o fator causal primário e essencial, na ausência do qual o transtorno
não teria ocorrido.

Os transtornos sob F43 podem ser considerados como respostas inadaptadas a


um “stress” grave ou persistente, na medida em que eles prejudicam o uso de
mecanismos adaptativos eficazes e dificultam o funcionamento social.

Observação: Embora fatores psicossociais de “stress” possam precipitar a


ocorrência de um grande número de transtornos neuróticos ou influenciar seu
quadro clínico, estes não são nem necessários nem suficientes para explicar a
ocorrência e a natureza do transtorno observado. Em contraste, para os
transtornos reunidos sob F43, admite-se que sua ocorrência é sempre a
consequência direta de um “stress” agudo importante ou de um traumatismo
persistente.

Transtornos dissociativos (F44) – Os transtornos dissociativos ou de conversão


se caracterizam por uma perda parcial ou completa das funções normais de
integração das lembranças, da consciência, da identidade e das sensações
imediatas, e do controle dos movimentos corporais.

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Os diferentes tipos de transtornos dissociativos tendem a desaparecer após


algumas semanas ou meses, em particular quando sua ocorrência se associou a
um acontecimento traumático.

A evolução pode igualmente se fazer para transtornos mais crônicos, em


particular paralisias e anestesias, quando a ocorrência do transtorno está ligada
a problemas ou dificuldades interpessoais insolúveis. No passado, estes
transtornos eram classificados entre diversos tipos de “histeria de conversão”.

Admite-se que sejam psicogênicos, dado que ocorrem em relação temporal


estreita com eventos traumáticos, problemas insolúveis e insuportáveis, ou
relações interpessoais difíceis.

O exame médico e os exames complementares não permitem colocar em


evidência um transtorno físico (em particular neurológico) conhecido. Por outro
lado, dispõe-se de argumentos para pensar que a perda de uma função é, neste
transtorno, a expressão de um conflito ou de uma necessidade psíquica.

Os sintomas podem ocorrer em relação temporal estreita com um “stress”


psicológico e ocorrer frequentemente de modo brusco. Há sempre a
possibilidade de ocorrência numa data posterior a um transtorno físico ou
psiquiátrico grave.

Transtorno de somatização (F45) – Transtorno caracterizado essencialmente


pela presença de sintomas físicos, múltiplos, recorrentes e variáveis no tempo,
persistindo ao menos por dois anos.

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A maioria dos pacientes teve uma longa e complicada história de contato tanto
com a assistência médica primária quanto especializada durante as quais muitas
investigações negativas ou cirurgias exploratórias sem resultado podem ter sido
realizadas.

Os sintomas podem estar referidos a qualquer parte ou sistema do corpo. O


curso da doença é crônico e flutuante, e frequentemente se associa a uma
alteração do comportamento social, interpessoal e familiar.

Sob esta classificação estão incluídos os transtornos que implicam


manifestações dolorosas ou outras sensações físicas complexas que fazem
intervir o sistema nervoso autônomo.

9.2. TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE

A partir do referencial psicanalítico, Fenichel, citado por Telles (1999), organizou


os transtornos de personalidade em três categorias:

 Os decorrentes de uma conduta patológica frente ao id (frigidez e


pseudoemotividade, defesas contra angústia, racionalização, idealização,
traços anais, orais, fálicos, uretrais, castração, caráter fálico e genital);

 Os decorrentes de uma conduta patológica frente ao superego (defesas


contra culpas, masoquismo moral, dom juanismo, falta aparente de
sentimento de culpa, criminalidade e má identificação, atuação, neurose
de destino);

 Os decorrentes de uma conduta patológica frente a objetos externos


(fixações em etapas prévias do amor, inibições sociais, ciúmes,
ambivalência, pseudo sexualidade).

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Na perspectiva da psiquiatria, compreende-se o transtorno de personalidade


como um padrão persistente de vivência íntima ou comportamento,
profundamente enraizado e duradouro, que se manifesta sob a forma de
reações inflexíveis a situações pessoais e sociais de natureza muito variada.

Eles representam desvios acentuados das percepções, dos pensamentos, das


sensações e particularmente das relações com os outros em relação às
expectativas da cultura do indivíduo.

Segundo a CID-10, diversos transtornos de personalidade surgem


precocemente durante o desenvolvimento individual sob a influência conjunta
de fatores constitucionais e sociais, enquanto outros são adquiridos mais
tardiamente no ciclo vital.

Esses padrões de conduta têm seu início na adolescência ou começo da idade


adulta, são estáveis ao longo do tempo, englobando diversas esferas do
comportamento e do funcionamento psicológico, e frequentemente provocam
sofrimento subjetivo e/ou prejuízo no desempenho social.

Critérios gerais de diagnóstico nos Transtornos de Personalidade (DSM-IV):

O diagnóstico de um transtorno de personalidade deve satisfazer os critérios


abaixo, juntamente com os critérios específicos do transtorno em consideração.

A. Comportamento e experiências que se desviam consideravelmente do que


a cultura vigente espera. Esse padrão é manifestado em duas (ou mais)
áreas seguintes:

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 Cognição (percepção de si mesmo, dos outros ou de eventos);

 Afeto (o alcance, a intensidade, a maleabilidade e a conveniência das


respostas emocionais);

 Funcionamento interpessoal;

 Controle do impulso.

B. O comportamento é inflexível e invasivo, com alcance em ampla gama de


situações pessoais e sociais.

C. O comportamento leva clinicamente a um significante desconforto e


prejuízo nas áreas de funcionamento social e ocupacional, ou outra área
importante de funcionamento.

D. O padrão é estável, de longa duração e deve iniciar, pelo menos, na


adolescência ou início da idade adulta.

E. O comportamento não pode ser identificado como uma manifestação ou


consequência de outra doença mental.

F. O comportamento não pode ser identificado como manifestação ou


consequência de causas fisiológicas como abuso de substâncias ou uma
condição médica geral tal como dano cerebral.

As categorias diagnósticas utilizadas pela psiquiatria para identificar os


Transtornos de Personalidade são:

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Transtorno da Personalidade Paranoide – padrão de desconfiança e


suspeitas, de modo que os motivos dos outros são interpretados como
malévolos.

Caracterização: Indivíduos desconfiados, que se sentem enganados pelos


outros, com dúvidas a respeito da lealdade dos outros, interpretando ações ou
observações dos outros como ameaçadoras. São rancorosos e percebem
ataques a seu caráter ou reputação, muitas vezes ciumentos e com
desconfianças infundadas sobre a fidelidade dos seus parceiros e amigos.

Transtorno da Personalidade Esquizoide– padrão de distanciamento dos


relacionamentos sociais, com uma faixa restrita de expressão emocional.

Caracterização: Indivíduos distanciados das relações sociais, que não desejam


ou não gostam de relacionamentos íntimos, realizando atividades solitárias, de
preferência. Pouco ou nenhum interesse em relações sexuais com outra pessoa,
e pouco ou nenhum prazer em suas atividades. Não têm amigos íntimos ou
confidentes, não se importam com elogios ou críticas, sendo frios
emocionalmente e distantes.

Transtorno da Personalidade Esquizotípica – padrão de desconforto agudo


em relacionamentos íntimos, distorções cognitivas ou da percepção de
comportamento excêntrico.

Caracterização: Indivíduos excêntricos e estranhos, que têm crenças bizarras,


com experiências de ilusões e pensamento e discurso extravagante. Falta de
amigos e muita ansiedade no convívio social.

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Segundo a CID-10, são necessários pelo menos 4 destes sintomas, manifestados


por um período de pelo menos dois anos, contínua ou repetidamente:

 Afeto inapropriado ou restrito, o indivíduo parece frio e indiferente;


 Comportamento ou aparência estranhos, excêntricos ou peculiares;
 Relacionamento pobre com outros e uma tendência ao retraimento social;
 Crenças estranhas ou pensamento mágico influenciando o
comportamento e inconsistente com normas subculturais;
 Suspeita ou ideias paranoides;
 Ruminações sem resistência interna, muitas vezes com conteúdo
dismorfofóbico, sexual ou agressivo;
 Experiências perceptivas incomuns, incluindo ilusões somato sensórias
(corporais) ou outras, despersonalização ou fuga de realidade;
 Pensamento vago, circunstancial, metafórico, super elaborado ou muitas
vezes estereotipado, manifesto por fala estranha ou de outros modos, sem
incoerência grosseira;
 Episódios ocasionais transitórios quase psicóticos com ilusões intensas,
alucinações auditivas ou outras e ideias semelhantes a delírios, geralmente
ocorrendo sem provocação externa.

ATENÇÃO: O diagnóstico de Transtorno de Personalidade Esquizotípico NÃO


deve ser aplicado a paciente que preencha os critérios para algum transtorno
na categoria F20, de esquizofrenia.

Exclui: Síndrome de Asperger e Transtorno de personalidade esquizóide. Não


ocorre exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia, Transtorno do Humor
Com Aspectos Psicóticos, outro Transtorno Psicótico ou um Transtorno Invasivo
do Desenvolvimento.

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Transtorno da Personalidade Borderline – padrão de instabilidade nos


relacionamentos interpessoais, autoimagem e afetos, bem como de acentuada
impulsividade.

Caracterização: Indivíduos instáveis em suas emoções e muito impulsivos, com


esforços incríveis para evitar abandono (até tentativas de suicídio). Têm
rompantes de raiva inadequada. As pessoas a sua volta são consideradas
ótimas, mas frente a recusas tornam-se péssimas rapidamente, sendo
desconsideradas as qualidades anteriormente valorizadas. Costumam
apresentar uma hiper-reatividade afetiva, em que as situações boas são ótimas
ou excelentes, e as ruins ou desfavoráveis são péssimas ou catastróficas.

Critérios Diagnósticos:

Um padrão invasivo de instabilidade dos relacionamentos interpessoais,


autoimagem e afetos e acentuada impulsividade, que começa no início da
idade adulta e está presente em uma variedade de contextos, como indicado
por cinco (ou mais) dos seguintes critérios:

(1) esforços frenéticos para evitar um abandono real ou imaginado.

Nota: Não incluir comportamento suicida ou automutilante, coberto no Critério


5.

(2) um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos,


caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização.

(3) perturbação da identidade: instabilidade acentuada e resistente da


autoimagem ou do sentimento de self.

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(4) impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente prejudiciais à


própria pessoa (por ex., gastos financeiros, sexo, abuso de substâncias, direção
imprudente, comer compulsivamente).

Nota: Não incluir comportamento suicida ou automutilante, coberto no Critério


5.

(5) recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de


comportamento automutilante.

(6) instabilidade afetiva devido a uma acentuada reatividade do humor (por ex.,
episódios de intensa disforia, irritabilidade ou ansiedade geralmente durando
algumas horas e apenas raramente mais de alguns dias).

(7) sentimentos crônicos de vazio.

(8) raiva inadequada e intensa ou dificuldade em controlar a raiva (por ex.,


demonstrações frequentes de irritação, raiva constante, lutas corporais
recorrentes).

(9) ideação paranóide transitória e relacionada ao estresse ou severos sintomas


dissociativos.

Transtorno da Personalidade Histriônica – padrão de excessiva emotividade


e busca de atenção.

Caracterização: Indivíduos facilmente emocionáveis, sempre em busca de


atenção, sentindo-se mal quando não são o centro das atenções. São sedutores,
com mudanças rápidas das emoções. Tentam impressionar aos outros, fazendo

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uso de dramatizações, e tendem a interpretar os relacionamentos como mais


íntimos do que realmente são.

F60.4 Personalidade histriônica

 Afetividade superficial e lábil;


 Dramatização;
 Teatralidade;
 Expressão exagerada das emoções;
 Sugestibilidade;
 Egocentrismo;
 Autocomplacência;
 Falta de consideração para com o outro;
 Desejo permanente de ser apreciado e de constituir-se no objeto de atenção;
 Tendência a se sentir facilmente ferido.

Transtorno da Personalidade Narcisista – padrão de grandiosidade,


necessidade por admiração e falta de empatia.

Caracterização: Indivíduos que se julgam grandiosos, com necessidade de


admiração e que desprezam os outros, acreditando serem especiais e
explorando os outros em suas relações sociais, tornando-se arrogantes. Gostam
de falar de si mesmos, ressaltando sempre suas qualidades e por vezes
contando vantagens de situações. Não se importam com o sofrimento que
causam nas outras pessoas e muitas vezes precisam rebaixar e humilhar os
outros para que se sintam melhor.

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Transtorno da Personalidade Esquiva – padrão de inibição social,


sentimentos de inadequação e hipersensibilidade a avaliações negativas.

Caracterização: Indivíduos tímidos (exageradamente), muito sensíveis a críticas,


evitando atividades sociais ou relacionamentos com outros, reservados e
preocupados com críticas e rejeição. Geralmente não se envolvem em novas
atividades, vendo a si mesmos como inadequados ou sem atrativos e
capacidades.

Transtorno da personalidade caracterizado por:

 Sentimento de tensão e de apreensão, insegurança e inferioridade;

 Existe um desejo permanente de ser amado e aceito;

 Hipersensibilidade à crítica e a rejeição;

 Reticência a se relacionar pessoalmente;

 Tendência a evitar certas atividades que saem da rotina com um exagero dos
perigos ou dos riscos potenciais em situações banais.

Transtorno da Personalidade Dependente – padrão de comportamento


submisso e aderente, relacionado a uma necessidade excessiva de proteção e
cuidados.

Caracterização: Indivíduos que têm necessidade de serem cuidados, submissos,


sempre com medo de separações. Têm dificuldades para tomar decisões,
necessitam que os outros assumam a responsabilidade de seus atos, não

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discordam, não iniciam projetos. Sentem-se muito mal quando sozinhos,


evitando isso a todo custo.

Transtorno da Personalidade Obsessivo-Compulsiva – padrão de


preocupação com organização, perfeccionismo e controle.

Caracterização: Indivíduos preocupados com organização, perfeccionismo e


controle, sempre atento a detalhes, listas, regras, ordem e horários. Dedicação
excessiva ao trabalho, dão pouca importância ao lazer. Teimosos, não jogam
nada fora ("pão-duro") e não conseguem deixar tarefas para outras pessoas.

Transtorno da Personalidade Antissocial – padrão de desconsideração e


violação dos direitos dos outros.

Caracterização: Indivíduos que desrespeitam e violam os direitos dos outros,


não se conformando com normas. Mentirosos, enganadores e impulsivos,
sempre procurando obter vantagens sobre os outros. São irritados,
irresponsáveis e com total ausência de remorsos, mesmo que digam que têm,
mais uma vez tentando levar vantagens. Podem estabelecer relacionamentos
afetivos superficiais, mas não são capazes de manter vínculos mais profundos e
duradouros.

Critérios diagnósticos pelo DSM-IV (301.7):

A. Um padrão invasivo de desrespeito e violação aos direitos dos outros, que


ocorre desde a adolescência, como indicado por pelo menos TRÊS dos
seguintes critérios:

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 Fracasso em conformar-se às normas sociais com relação a


comportamentos éticos e legais, indicado pela execução repetida de atos
que constituem motivo de reprovação social ou detenção (crimes);
 Impulsividade predominante ou incapacidade em seguir planos traçados
para o futuro;

 Irritabilidade e agressividade, indicadas por histórico constante de lutas


corporais ou agressões verbais violentas;
 Desrespeito irresponsável pela segurança própria ou alheia;

 Irresponsabilidade consistente, indicada por um repetido fracasso em


manter um comportamento laboral consistente ou honrar obrigações
financeiras;

 Ausência de remorso, indicada por indiferença ou racionalização por ter


manipulado, ferido, maltratado ou roubado outra pessoa;
 Tendência para enganar, indicada por mentir compulsivamente, distorcer
fatos ou ludibriar os outros para obter credibilidade, vantagens pessoais
ou prazer;
 Em alguns casos, incapacidade de conviver com animais domésticos ou ter
apreço pelos sentimentos dos mesmos em geral;
 Dissociabilidade familiar, marcada pelo desrespeito ou desapreço.

B. O indivíduo tem no mínimo 18 anos de idade

C. Existem evidências de Transtorno da Conduta com início antes dos 15


anos de idade.

D. A ocorrência do comportamento antissocial não se dá exclusivamente


durante o curso de Esquizofrenia ou Episódio Maníaco.

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Conforme os critérios do DSM-IV, apesar dos comportamentos que


caracterizam a tendência antissocial terem inicio antes dos 15 anos,
convencionou-se que o diagnóstico de Transtorno de Personalidade
Antissocial deve ser considerado apenas após os 18 anos.

Quando estudamos os transtornos de personalidade a partir do referencial da


psiquiatria, verificamos que os quadros descritos são apresentados em uma
nosologia que independe do modelo estrutural proposto pela psicanálise, mas
ainda assim podemos estabelecer correlatos com as três grandes categorias
clínicas, que são a (1) neurose – histeria e neurose obsessiva; (2) psicose –
paranoia, esquizofrenia, melancolia e hipocondria; (3) perversão.

Na patologia psicótica há uma rejeição da realidade e do Complexo de Édipo.


Os delírios, alucinações e depressões são uma tentativa frustrada de dar sentido
e lógica a uma visão de mundo particular, ocupando o lugar da fissura na
relação do eu com o mundo. O sujeito cria uma nova realidade que é
constituída de acordo com os impulsos desejosos do id.

O ponto central da observação de Freud está na constatação de que, em ambas


as estruturas, o mais importante não é a questão relativa à perda da realidade,
mas sim os substitutos encontrados frente à castração. Na neurose, o substituto
encontrado ocorre via mundo da fantasia; já na psicose, os substitutos são
delírio e alucinação.

A teoria freudiana, baseada no modelo da neurose e concebendo o psiquismo


ao modo de um aparelho psíquico animado por pulsões, outorga ao complexo
de Édipo e à sexualidade os eixos básicos da vida psíquica e, como
consequência, dá ao pai um lugar central na estruturação da personalidade, nas
formas e contornos do adoecer psíquico, além de estar na base da moral e da
própria vida cultural.

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Segundo Campanário (2006), foi o trabalho de Lacan que permitiu o


estabelecimento rigoroso e sistemático do conceito de estrutura em psicanálise,
distinguindo neurose, psicose e perversão como estruturas clínicas. Na neurose
estaria em jogo o recalque; na psicose, a forclusão e na perversão, a recusa da
lei interditora do pai.

Lacan considera a recusa/rejeição da realidade o mecanismo específico da


estrutura psicótica, nomeado por ele como a foraclusão do nome-do-pai.

A partir da análise de Freud sobre as formações inconscientes (lapsos, sonhos e


jogos de palavras), Lacan formulou sua hipótese central de que o inconsciente é
estruturado como linguagem.

A capacidade humana de atribuir significação ocorre a partir do momento em


que o sujeito adentra a função simbólica e esta inserção ocorre por intermédio
da vivência do Complexo de Édipo.

Durante a estruturação da personalidade, a criança inicialmente não está


inserida no simbólico e seu contato com o mundo ocorre por intermédio da
mãe, que identifica o filho como objeto de seu desejo e o sujeita às suas
escolhas.

Existe uma vivência simbiótica, em que a criança tem a experiência de ser


cuidada por completo e atendida em suas necessidades por aquela que lhe
possibilita uma experiência de completude e onipotência. Este significante
inicial atribuído pela mãe vai marcar a identidade do sujeito e seu
desenvolvimento mental.

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No primeiro tempo lógico o Outro é a mãe, pois o agente materno toma o


bebê em uma posição de desejante e, ao cuidar dele, faz de si mesma o
instrumento da vivência de satisfação do bebê. Este significante inicial atribuído
pela mãe vai marcar a identidade do sujeito e seu desenvolvimento mental.

O segundo tempo lógico ocorre com a entrada de um terceiro que introduz a


lei da interdição, mostrando à criança a existência do Outro e marcando
simbolicamente o fim da ilusória relação de completude e onipotência com a
mãe.

Nesse momento aparece a instância paterna como metáfora do pai – o nome-


do-pai. Esta instância é marcada pelo discurso da mãe, demonstrando para a
criança que o desejo da mãe se encontra em outro lugar e que ela também é
submetida a uma lei.

A instância paterna não precisa estar associada a um pai concreto, mas a um


discurso ou situação que seja capaz de demonstrar simbolicamente à criança
que existem outros objetos a serem desejados. O nome-do-pai representa tudo
o que marca para a criança a ausência da mãe. Por exemplo, quando a mãe
precisa deixar a criança para ir trabalhar.

Deste modo, enquanto no primeiro tempo lógico o Outro é a mãe, a


instauração do Nome-do-Pai é o que vem barrar o Outro onipotente e
absoluto, inaugurando a entrada da criança na ordem simbólica.

Por fim, podemos falar da entrada em um terceiro tempo lógico, em que ocorre
a dissolução do complexo de Édipo, pois nessa etapa do desenvolvimento a
criança não considera mais o pai como seu rival, e sim, como aquele que possui
o objeto de desejo de sua mãe, o falo. Essa é a fase das identificações, que
acontecem de maneira diferente de acordo com a escolha de objeto da criança.

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Quando Lacan afirma que a foraclusão é o mecanismo da psicose, o que


devemos compreender é que a rejeição do nome-do-pai implica que o sujeito
não foi submetido à castração simbólica do processo edipiano.

Ou seja, o sujeito psicótico é aquele que durante a vivência do Complexo de


Édipo não sofreu a castração simbólica e, portanto, não desenvolveu a
capacidade de simbolizar. A não inscrição do significante no Outro resulta nos
distúrbios da linguagem e nas alucinações, que marcam a psicose.

9.3. PATOLOGIA PERVERSA

Na patologia perversa o que ocorre é a recusa da Castração Edipiana. O


perverso não aceita ser submetido às leis paternas e, em consequência, às leis e
normas sociais. Ele não rejeita a realidade e nem recalca os seus desejos. Ele
escolhe se manter excluído do Complexo de Édipo e da alteridade e passa a
satisfazer sua libido sexual consigo mesmo (narcisismo).

Em "Três ensaios sobre a sexualidade" (1905), Freud afirma que "a neurose é o
negativo da perversão". Esta frase se refere ao fato de que os sintomas
mórbidos do neurótico representam uma conversão das pulsões sexuais que
deveriam ser chamadas de perversas, se pudessem encontrar uma expressão
em atos imaginários ou reais.

As perversões atualizam, na realidade, modos de satisfação sexual recusados


na neurose, mas ativamente presentes nelas, sob os disfarces dos sintomas
(Kaufmann, 1996).

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Para se defender da castração, o perverso usa um mecanismo mais poderoso


que a repressão (usada com frequência pelo neurótico) que é a recusa. Ele
tentará provar o tempo todo que a castração não existe, ou que é ele quem a
faz.

A recusa é um mecanismo em que uma percepção é substituída por uma


crença. Ela vem junto com uma cisão do ego em que parte deste usa a
repressão e parte usa a recusa.

A elaboração do objeto fetiche é uma formação de compromisso entre duas


correntes psíquicas conflitantes: uma sinaliza a ausência do pênis na mãe, a
outra lhe atribui imaginariamente o pênis que supostamente falta na formação
do objeto fetiche.

Enquanto a psicose e a neurose surgem como resultados do conflito


intrapsíquico, a perversão se apresenta como uma renegação da castração. Ao
recusar a castração, o perverso mantém a crença na onipotência da mãe, na
onipotência do desejo, mantém-se acreditando em um atributo fálico
onipresente e onipotente. A castração coloca em jogo a percepção de que há
um mundo de gozo e desejo entre os pais do qual a criança está excluída.

Nas atuações do perverso, há uma encenação da castração. O fetiche é o


equivalente ao pênis da mãe; ocorre o uso de uma equação simbólica e não de
um símbolo como o histérico é mais capaz de fazer, denunciando uma menor
capacidade de simbolização do perverso perante o histérico.

Conforme a CID-10, o transtorno de conduta corresponde a padrões


persistentes de conduta antissocial, agressiva ou desafiadora, por no mínimo
seis meses. O DSM-IV identifica como característica essencial do Transtorno da
Conduta a existência de um padrão repetitivo e persistente de comportamento

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no qual são violados os direitos básicos dos outros ou normas ou regras sociais
importantes e apropriadas à idade.

Padrão comportamental do Indivíduo com Transtorno de Conduta

1. Conduta agressiva que causa ameaça ou danos a outras pessoas e/ou


animais;

2. Conduta não-agressiva, mas que causa perdas ou danos a propriedades;

3. Defraudação e/ou furto;

4. Violações habituais de regras.

Atenção!!! O diagnóstico deve ser feito apenas quando a conduta apresentada


for persistente (por, pelo menos, 6 meses) e estiver presente em uma variedade
de contextos, tais como em casa, na escola ou comunidade. Além disso, a
perturbação do comportamento deve causar prejuízo clinicamente significativo
no funcionamento social, acadêmico ou ocupacional.

Os sinais são mais observados no sexo masculino e compreendem os seguintes


comportamentos:

 Roubo sem confrontação com a vítima em mais de uma ocasião (incluindo


falsificação).
 Fuga de casa durante a noite, pelo menos duas vezes enquanto vivendo
na casa dos pais (ou em um lar adotivo) ou uma vez sem retornar.
 Mentira frequente (por motivo que não para evitar abuso físico ou sexual).
 Envolvimento deliberadamente em provocações de incêndio.

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 Gazetas frequentemente na escola (para pessoa mais velha, ausência ao


trabalho).
 Violação de casa, edifício ou carro de outra pessoa.
 Destruição deliberadamente de propriedade alheia (que não por
provocação de incêndio).
 Crueldade física com animais.
 Forçar alguma atividade sexual com ele ou ela.
 Uso de arma em mais de uma briga.
 Frequentemente inicia lutas físicas.
 Roubo com confrontação da vítima (por exemplo: assalto, roubo de
carteira, extorsão, roubo à mão armada).
 Crueldade física com pessoas.

Diversos campos do saber têm tentado formular modelos explicativos para o


surgimento dos distúrbios de conduta.

Por muito tempo a sociologia propôs que jovens socialmente e


economicamente desprivilegiados tendiam à criminalidade como forma de
obterem sucesso.

No entanto, essa teoria foi incapaz de sustentar-se, pois se pode observar


frequentemente que a tendência antissocial surge também entre pessoas com
grande oferta de recursos financeiros e sociais.

Ainda hoje é difícil entender como em lares onde a provisão ambiental parece
ser suficientemente boa a tendência antissocial pode se instalar na criança.

Essa reflexão possibilitou a Winnicott perceber que a falha ambiental que leva à
tendência antissocial não precisa ser necessariamente grosseira, que pode ter
origem nas sutilezas das relações primárias.

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Por esta razão, o modelo psicológico mais utilizado para a compreensão dos
aspectos estruturais e dinâmicos da tendência antissocial tem sido o proposto
por Donald Winnicott.

Conforme Winnicott, fazia-se necessário um olhar mais minucioso, verificando


os detalhes da relação interpessoal do bebê ou da criança com sua mãe ou pai,
a fim de identificar a ocorrência de uma quebra ou uma transformação.

Ao descrever sistematicamente os fenômenos precoces do desenvolvimento


emocional, Winnicott propôs a teoria do desenvolvimento emocional
primitivo, composta por três processos simultâneos:

1) Integração – a capacidade do bebê em sentir-se uno, ou seja, em


vivenciar a integração dos núcleos do ego como uma unidade.

2) Personalização – descreve o processo de adquirir a sensação de que o


corpo aloja o verdadeiro self.

3) Realização – estabelecimento da relação do bebê com a realidade


externa.

Segundo Winnicott, o início das relações objetais não pode ocorrer se o meio
não proporcionar a apresentação de um objeto, conduzido de um modo que
seja o bebê quem crie o objeto. O padrão é o seguinte:

 O bebê desenvolve a expectativa vaga que se origina em uma necessidade


não formulada;

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 A mãe, buscando adaptar-se às precisões do bebê, apresenta um objeto


ou um manejo corporal que satis0faz estas necessidades;

 A continuidade destas satisfações permite ao bebê a fantasia de ser ele


mesmo criador do objeto;

 O bebê começa a se sentir confiante em ser capaz de criar objetos e criar o


mundo real;

 A mãe proporciona ao bebê um breve período em que a onipotência é um


fato da experiência.

Winnicott identifica o início dos problemas psicológicos no vínculo entre


recém-nascido e mãe.

A base da saúde mental é estabelecida no inicio da vida por meio do


provimento de cuidados dispensados ao bebê por uma "mãe/ambiente
suficientemente boa".

O termo "mãe suficientemente boa" expressa o exercício da função materna; ou


seja, qualquer pessoa (homem ou mulher) que exerça a maternagem, prestando
ao bebê todo o cuidado físico e afetivo de que necessita – estará exercendo
esta função.

Não se trata de um modelo de perfeição, mas sim dos cuidados prestados pelo
padrão comum de dedicação materna.

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O bebê depende da disponibilidade de um adulto sinceramente preocupado


com os seus cuidados, alguém que possa contribuir para uma adaptação ativa e
sensível às necessidades da criança.

ATENÇÃO!!! O modo como o cuidado é prestado determina a forma como o


individuo se relaciona com outras pessoas ao longo da vida, bem como as
psicopatologias que poderá desenvolver.

A mãe deve funcionar como "ego-auxiliar" da criança. Quando a


sustentação exercida pela mãe for bem sucedida, a criança a vivencia como uma
"continuidade existencial"; no entanto, quando falha, o bebê terá uma
experiência subjetiva de ameaça, que cria obstáculos para o desenvolvimento
normal.

A falta de holding adequado provoca uma alteração no desenvolvimento,


criando uma "casca" (o falso self) em extensão da qual o individuo cresce,
enquanto o "núcleo" (o verdadeiro self) permanece oculto e sem poder se
desenvolver. O falso self surge pela incapacidade materna de interpretar as
necessidades da criança.

O desenvolvimento do falso self à custa do verdadeiro self, se relaciona a


diversas psicopatologias desde sensações subjetivas de vazio, futilidade,
irrealidade até tendências antissociais, psicopatia e psicoses.

Caso o ambiente falhe, ou seja, não ofereça ao indivíduo a oportunidade para a


realização das tarefas de integração ou intervenha de modo intrusivo nesse
processo, ocorrem paradas do processo de amadurecimento.

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Ao invés de crescer, o indivíduo reage defensivamente e essas reações podem


se cristalizar em vários tipos de distúrbios psíquicos como a psicose
(principalmente as paranoias) e a tendência antissocial.

Quando as falhas acontecem na fase da relação de dependência absoluta,


anteriormente à criação do mundo exterior, elas têm o caráter de privação
(privation).Esse tipo de falha é particularmente grave, pois gera angústias
profundas do tipo de "agonias impensáveis" e, por causa disso, suscita reações
defensivas na forma de psicose, que não permite a constituição de uma
identidade pessoal nem o estabelecimento de relações verdadeiras com o
mundo externo.

Características da Fase da Dependência Absoluta

- Total dependência do meio - Primeiros 6 meses

- O bebê desconhece seu estado de dependência

- O bebê necessita da presença da

- "Mãe suficientemente boa" – Estado psicológico associado ao exercício da


função materna.

Características da Fase da Dependência Relativa

- Compreende de 6 meses a 2 anos.

- Trata-se de uma fase onde a mãe intervém de uma maneira frequente na


vida da criança.

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- Nesta fase a criança começa reconhecer objetos e passos. Porém percebe


a mãe de uma maneira unificada, pensa que esta relacionando com duas
mães.

- Mãe suficientemente boa X Mãe insuficientemente boa.

Quando as falhas se dão após a constituição de um eu e do início de


relacionamento com a realidade externa – fase de dependência relativa, elas
têm o sentido de "deprivação" (deprivation), ou seja, da perda do ambiente
favorável com o qual se contava, acompanhada da percepção de que a
responsabilidade pela perda é do próprio ambiente.

ATENÇÃO! Fique muito atento para não confundir PRIVAÇÃO e DEPRIVAÇÃO!!!

Deprivações também geram angústias profundas e desesperança, mas não


resultam em psicoses e sim em várias outras reações defensivas, entre elas a
tendência antissocial, em que o indivíduo busca, inconscientemente, ser
ressarcido da perda sofrida.

Foi assim que Winnicott verificou que tal quebra na confiabilidade do ambiente
não estava necessariamente relacionada ao fato da mãe ou a família se
tornarem de repente "maus" ou incapazes de cuidar da criança, mas que
mesmo mudanças mais sutis poderiam resultar numa vivência traumática
pela criança.

Uma mudança de humor da mãe pela chegada de um novo filho, ou o fato da


mãe ter que se ausentar por um período de tempo demasiado longo para que a
criança pudesse manter a confiabilidade inabalada, ou a separação dos pais, são
exemplos de "quebras" na continuidade que podem passar desapercebidas a

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"olho nu", mas que têm potencial para desencadear uma tendência antissocial,
em decorrência da extrema sensibilidade da criança com relação aos cuidados
ambientais nesta fase do amadurecimento pessoal.

A grande especificidade com relação à falha ambiental deflagradora da


tendência antissocial é que ela ocorre de maneira abrupta do ponto de vista
da criança, numa fase do amadurecimento no qual ela (a criança) já é capaz de
identificar a falha como proveniente do ambiente, ou seja, já existe um EU
integrado e separado do ambiente e que reconhece que foi lesado por ele.

Esta perda do ambiente suficientemente bom foi denominada por Winnicott


pelo termo deprivação (deprivation, em inglês), e está sempre presente na raiz
da tendência antissocial.

Devemos, então, compreender que na base da tendência antissocial está uma


experiência de cuidados maternos iniciais boa que, no entanto, foi perdida em
algum momento de seu desenvolvimento.

O reconhecimento da perda de uma condição satisfatória de proteção,


segurança e correspondência entre o "Eu" e o mundo (outros) é a
característica essencial da tendência antissocial.

Isso significa que é necessário o bebê ter atingido um estado de maturidade do


ego tal, que lhe permita perceber que a causa de seu sofrimento não é
interna e, sim, externa, e está localizada no fracasso ambiental. Essa
percepção o impulsiona a buscar uma cura, por meio da provisão ambiental.

Na deprivação, ocorre a perda de algo bom que havia sido positivo na


experiência da criança e que lhe foi retirado, no período de dependência

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relativa. Nessa fase, já há uma percepção da mãe, da "mãe objeto", uma noção
de estar sendo cuidada, certa discriminação entre o "eu e o não-eu".

Essa retirada é uma falha ambiental que se estende por um período de tempo
maior do que aquele durante o qual a criança consegue manter viva a
recordação da experiência, ou seja, a memória inconsciente com a manutenção
da imago materna.

A deprivação ocorre geralmente entre os dez meses e os três, quatro anos


de idade. Antes disso, a percepção do ambiente como externo ainda não é
suficiente, e depois, é possível que a criança sobreviva (psicologicamente) ao
desastre. (Quando Winnicott aponta limites de idade ele sempre acrescenta que
está falando de 'maioria estatística' e não de limites reais).

Winnicott distingue duas formas de deprivação:

Deprivação da figura materna (o objeto primário) – ligada à perda da


adaptação às necessidades egoicas, é representada a posteriori pelo roubo
(tecnicamente, 'furto' seria o termo mais preciso), indicando que há uma busca
inconsciente do objeto;

Deprivação da figura paterna (do limite) – em um tempo posterior, ligada às


necessidades instintivas, ao ser perdido o ambiente (julgado, ilusoriamente,
indestrutível), é representada pela destrutividade, desencadeada para obrigar o
ambiente externo a reagir.

Nos dois casos, a criança comporta-se como se estivesse se 'vingando' do fato


de que algo que ela considerava vital lhe foi 'roubado'. O comportamento

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antissocial se caracteriza por atuações (comportamento compulsivo), que


escondem dentro de si um pedido de socorro.

Winnicott afirma que atrás de todo ato antissocial há uma esperança de


conseguir retornar ao estado anterior ao da perda, e de não sofrer mais a
ameaça da ansiedade impensável.

O conceito de tendência antissocial, para Donald W. Winnicott, não foi


formulado para designar um diagnóstico clínico, mas, sim, um continuum de
comportamentos e atitudes que, em maior ou menor grau, todos os indivíduos
podem apresentar, em determinadas situações de vida. Reflete uma
demonstração de esperança em recuperar uma experiência de maternagem que
foi positiva e que foi perdida (deprivation), no período de dependência relativa.

Como a criança antissocial ainda não havia conseguido internalizar um controle


(aqui se pode dizer que a tendência onipotente da criança ainda não havia feito
inteiramente as pazes com o princípio de realidade), ela exige do ambiente que
a cerca que exerça esse controle. A falha ocorreu quando o ego já estava
relativamente desenvolvido.

A tendência antissocial pode iniciar-se com sintomas que, via de regra, são
considerados normais ou inerentes ao desenvolvimento infantil, pelos pais e
cuidadores, como a enurese noturna, a hiperatividade, os transtornos
alimentares, podendo evoluir para mentiras, furtos e, em alguns casos – quando
não há uma intervenção no momento adequado -, pode derivar para condutas
antissociais graves.

O trabalho de Winnicott com crianças antissociais possibilitou-lhe confirmar a


importância do ambiente na constituição do indivíduo e mudar o enfoque
intrapsíquico que a psicanálise tradicional dava para a questão da delinquência

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e da criminalidade em geral para o enfoque interpessoal da psicanálise


winnicottiana, consolidando uma teoria totalmente original.

Para Winnicott, uma das características da saúde é a possibilidade de brincar,


que no antissocial se perde, dando lugar ao ato compulsivo. O brincar, diz
Winnicott, necessita, para ocorrer, que exista um mínimo de segurança em
termos ambientais. O que surge, quando ocorre a deprivação, é uma atividade
compulsiva, não criativa, destituída do devaneio e da fantasia.

Quando uma criança sofre deprivação e o ambiente reconhece


imediatamente e passa a ressarcir, com cuidados especiais, a dívida para
com ela, a chance dela ser "curada" é muito grande.

Contrariamente a isso, se o ambiente não reconhece a perda infligida, isso pode


levar a criança a desenvolver uma delinquência que, com os ganhos
secundários, afasta-a cada vez mais do trauma original, tornando cada vez mais
difícil a sua cura.

Para Winnicott, geralmente, os pais são bem-sucedidos em curar seus filhos de


deprivações, antes que eles tenham começado a obter ganhos secundários e
isso fornece a chave para a esperança que o clínico pode ter quanto a conseguir
a cura da tendência antissocial.

O tratamento do antissocial se dá em termos de manejo, de perceber a


esperança que nele resta e estar lá para que o indivíduo possa resgatar a crença
perdida no ambiente.

Winnicott propõe que esse tratamento pode ser feito às vezes pela própria
família, mas tanto nesse caso como na psicoterapia o manejo terá de ser

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adaptado, e a tolerância e a compreensão serão fundamentais (ou seja, a volta a


um estágio de dependência anterior, em que as exigências feitas à criança são
bem menores).

Winnicott assinala a importância de o ambiente intervir antes que os atos


antissociais tenham alcançado a capacidade de produzir um ganho secundário,
tornando-se então aceitáveis para o self, pois aí passaríamos a nos ver diante da
delinquência, onde o trabalho de resgatar a ausência do sentimento de culpa
será muito mais árduo, requerendo um ambiente altamente especializado,
como as unidades da Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao
Adolescente (Casa) ou, quando esta também falha, a 'prisão' (capazes de
fornecer os limites que o ego não internalizou).

Winnicott (1988) estabelece diferenças entre tendência antissocial e


delinquência, apesar de ambas terem a deprivação em sua gênese. Na
tendência antissocial, o aspecto mais relevante é que o ato antissocial visa a um
ganho primário: resgatar o que foi retirado. É uma viagem "em busca do objeto
perdido".

A delinquência por sua vez, implica uma defesa antissocial mais organizada e
sobrecarregada de ganhos secundários.

O ganho primário, isto é, a busca da maternagem, deixa de ser relevante, perde-


se o vínculo com o objeto e, consequentemente, a culpa passa a ser imputada
ao ambiente. O ambiente lhe deve e o que importa são os benefícios do delito.

No ato antissocial do delinquente, o benefício secundário passa a ser


fundamental, e não objetiva mais resgatar a mãe perdida, e, sim, o ganho do
controle, do poder, do dinheiro, da respeitabilidade, tornando a abordagem e a
intervenção cada vez mais difíceis.

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Apesar da delinquência partir da mesma base da tendência antissocial, ela


difere desta nas condutas que gera, nas relações. Não é apenas reaver o objeto
perdido, é também o domínio, o poder sobre uma experiência anterior
reeditada, por meio do ato repetitivo.

Não há elaboração e, sim, a repetição compulsiva. Não há aprendizagem ou


modificação da conduta com a experiência. Na delinquência também há
esperança, mas as maneiras de agir são perversas, psicopáticas.

9.4. TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA

Estudaremos a seguir o processo de desenvolvimento patológico e suas


implicações estruturais e dinâmicas nos Transtorno do Espectro do Autismo
(TEA). O DSM-V agrupou nessa categoria os Transtornos Globais do
Desenvolvimento, dentre estes o Autismo e a Síndrome de Asperger.

Antiga Classificação do (DSM - IV) Classificação Atual (DSM - V)

 Autismo (clássico)  Transtorno do espectro autista


 Asperger (TEA):
 Transtorno Invasivo do
Desenvolvimento - Autismo Grave
- Autismo Moderado
- Autismo Leve

Segundo o DSM-V (2013), as características essenciais do Transtorno do


Espectro do Autismo (TEA) são:

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1. Déficits clinicamente significativos e persistentes na comunicação social e nas


interações sociais, manifestadas de todas as maneiras seguintes:

a. Déficits expressivos na comunicação não verbal e verbal usadas para


interação social;
b. Falta de reciprocidade social;
c. Incapacidade para desenvolver e manter relacionamentos de amizade
apropriados para o estágio de desenvolvimento.

2. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses e atividades,


manifestados por pelo menos duas das maneiras abaixo:

a. Comportamentos motores ou verbais estereotipados, ou comportamentos


sensoriais incomuns;
b. Excessiva adesão/aderência a rotinas e padrões ritualizados de
comportamento;
c. Interesses restritos, fixos e intensos.

3. Os sintomas devem estar presentes no início da infância, mas podem não se


manifestar completamente até que as demandas sociais excedam o limite de
suas capacidades.

A. Novo nome para a categoria, Transtorno do Espectro do Autismo, que


inclui transtorno autístico (autismo), transtorno de Asperger, transtorno
desintegrativo da infância, e transtorno global ou invasivo do
desenvolvimento sem outra especificação.

B. Três domínios se tornam dois:

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1) Deficiências sociais e de comunicação;


2) Interesses restritos, fixos e intensos e comportamentos repetitivos.

Exigir que ambos os critérios sejam completamente preenchidos, melhora a


especificidade diagnóstico do autismo sem prejudicar sua sensibilidade.

C. O Transtorno do Espectro do Autismo é um transtorno do desenvolvimento


neurológico, e deve estar presente desde o nascimento ou começo da infância,
mas pode não ser detectado antes, por conta das demandas sociais mínimas na
mais tenra infância, e do intenso apoio dos pais ou cuidadores nos primeiros
anos de vida.

No Brasil, o manual diagnóstico mais utilizado é a CID-10, que ainda não


publicou nova edição atualizada e mantém a classificação anterior utilizando a
nomenclatura Transtornos Globais do Desenvolvimento, Autismo e Síndrome de
Asperger.

Transtornos globais do desenvolvimento (F84 - CID10) - Este grupo de


transtornos caracteriza-se por alterações qualitativas das interações sociais
recíprocas e modalidades de comunicação e por um repertório de interesses e
atividades restrito, estereotipado e repetitivo.

Estas anomalias qualitativas constituem uma característica global do


funcionamento do sujeito, em todas as ocasiões.

Autismo (F84.0 - CID10) - Transtorno global do desenvolvimento caracterizado


por:

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 um desenvolvimento anormal ou alterado, manifestado antes da idade de


três anos,
 apresentar uma perturbação característica do funcionamento em cada um
dos três domínios seguintes:
 interações sociais,
 comunicação,
 comportamento focalizado e repetitivo.

Além disso, o transtorno se acompanha comumente de numerosas outras


manifestações inespecíficas, por exemplo: fobias, perturbações de sono ou da
alimentação, crises de birra ou agressividade (auto-agressividade).

Síndrome de Asperger (F84.5) – Transtorno de validade nosológica incerta,


caracterizado por:

Alteração qualitativa das interações sociais recíprocas, semelhante à observada


no autismo, com um repertório de interesses e atividades restrito, estereotipado
e repetitivo.

Os sujeitos que apresentam este transtorno são em geral muito desajeitados. As


anomalias persistem freqüentemente na adolescência e idade adulta.

O transtorno se acompanha por vezes de episódios psicóticos no início da


idade adulta.

Diferencia-se do autismo essencialmente pelo fato de que não se acompanha


de um retardo ou de uma deficiência de linguagem ou do desenvolvimento
cognitivo.

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Considerando as estruturas clínicas inicialmente propostas pela teoria da libido


freudiana, podemos diferenciar dois polos dentro da estrutura psicótica: a
esquizofrenia e a paranóia. Contudo, nenhum desses polos contempla
claramente o autismo.

Existe no interior do campo psicanalítico uma discussão acirrada sobre o lugar


do autismo junto às estruturas clínicas. O autismo seria uma faceta da psicose
ou uma outra estrutura?

Sabemos que na psicose o mecanismo presente é o da foraclusão do nome-do-


pai, ou seja, a negação da castração. Mas quanto ao autismo?

Proeminentes psicanalistas que vêm desenvolvendo sua prática junto à clínica


do autismo propõem diversas possibilidades psicodinâmicas para explicar a
constituição psíquica nos quadros autistas.

Autores como Melanie Klein e Jacques Lacan consideram o autismo como uma
patologia resultante da estrutura psicótica; enquanto outros psicanalistas como
Alfredo Jerusalinsky, Marie-Christine Laznik e Robert Lefort referem-se ao
autismo como uma construção fora dos padrões das estruturas clínicas
estabelecidas pela psicanálise (Campanário, 2006).

Jerusalinsky afirma não ser possível identificar a psicose e o autismo em uma


mesma estrutura, pois, na psicose, está presente o mecanismo da forclusão, ao
passo que no autismo trata-se da exclusão do campo significante (Campanário,
2006).

Conforme vimos, no mecanismo da foraclusão ocorre a rejeição do nome-do-


pai, implicando na não submissão do sujeito à castração simbólica do processo

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edipiano. A não inscrição do significante no Outro resulta nos distúrbios da


linguagem e nas alucinações, que marcam a psicose.

No caso da exclusão o sujeito não chegou a ser inscrito no significante. O


autista seria o sujeito que, por motivos variados, estaria impossibilitado de ser
introduzido no campo da linguagem.

A falta de alucinações no autismo permite diferenciar psicodinamicamente este


quadro da esquizofrenia e fundamenta o argumento de que estes os dois não
podem fazer parte de uma mesma estrutura psíquica.

Enquanto o autista não compreende o mundo que o rodeia e, para se defender,


tende a se isolar dele, o psicótico cria uma compreensão delirante do mundo e
espera que todos no mundo se comportem de acordo com seu imaginário.

Para entendermos essa discussão, precisamos retomar alguns conceitos


fundamentais da Psicanálise. Conforme estudamos, a teoria freudiana concebe
que o aparelho psíquico é animado por pulsões e outorga ao complexo de
Édipo e à sexualidade os eixos básicos da vida psíquica.

A pulsão pode ser compreendida como uma energia potencial e constante, que
advêm do próprio organismo e alimenta a psique, realizando a ligação entre o
somático e o psíquico.

Freud descreveu o trajeto pulsional em três tempos (Sieiro, 2013):

 Primeiro tempo - o bebê vai em busca de um objeto oral para apoderar-


se dele, sendo este considerado um movimento ativo e que pode ser
observado no encontro com o seio, com a mamadeira, entre outros.

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 Segundo tempo - o bebê vai em busca de si mesmo e seu próprio corpo


passa a ser o objeto. Esse movimento também ativo é nomeado como
auto-erotismo e pode ser percebido quando o bebê chupa sua mão, seu
dedo, a chupeta, etc.;
 Terceiro tempo - o bebê se faz objeto de um novo sujeito, ou seja, passa
a sujeitar-se a outro. Esse movimento pode facilmente ser nomeado como
passivo, mas se sujeitar, oferecer-se ao outro, também é um movimento
ativo. Como exemplo dessas ações da criança em busca de fazer-se objeto
temos: o ato da criança colocar o dedo na boca da mãe, o olhar da criança
em busca do olhar da mãe, o balbuciar na presença do cuidador.

Segundo Sieiro (2013), a psicanalista Marie-Christine Laznik considera que o


autismo resulta de uma falha de estruturação do aparelho psíquico por conta
do fracasso do circuito pulsional, sobretudo no terceiro tempo, podendo levar à
constituição de patologias diversas com déficits gravíssimos que fazem lembrar
a oligofrenia.

Quanto à discussão sobre o lugar do autismo entre as estruturas clínicas


propostas pela psicanálise, Laznik afirma que o fracasso do circuito pulsional
completo é um aspecto que favorece o diagnóstico diferencial entre psicose e
autismo.

Conforme vimos, a estruturação da personalidade ocorre a partir da solução


dada pelo sujeito ao conflito decorrente da vivência do Complexo de Édipo.

No caso da criança que virá a ser psicótica, a sua sujeição ao desejo do outro
(mãe) ocorre normalmente, podendo se verificar isto através dos sinais que
comprovam uma inserção no terceiro tempo do circuito pulsional. Assim, o
desenvolvimento psicossexual ocorre normalmente, possibilitando a vivência do
Complexo de Castração.

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Por outro lado, no caso de risco de evolução autística, o que ocorre é o fracasso
do terceiro tempo do circuito pulsional, ou seja, a criança não vivencia a
experiência de ser sujeito do desejo do outro e não chega nem mesmo a
vivenciar o Complexo de Édipo.

Por esta razão, alguns autores afirmam que o autismo é uma quarta estrutura
psíquica, elaborada sem a vivência do Complexo do Édipo; enquanto outros
autores afirmam que sem a entrada na linguagem não existe a formação de
uma estrutura, sendo o quadro autista uma patologia instalada antes da
estruturação psíquica.

O autismo representa a não instauração da relação simbólica fundamental e


sem o simbólico não existe a subjetividade. No autista, tudo é real e o espaço
virtual não existe.

Nesta perspectiva, a manifestação da síndrome autística está relacionada à não


instauração das estruturas psíquicas, trazendo como consequência déficits no
desenvolvimento do bebê (Sieiro, 2013).

Vasconcelos (2009), afirma que, tendo em vista que o terceiro tempo do circuito
pulsional está ausente nas crianças autistas, é fundamental identificar a
presença deste terceiro tempo pulsional no bebê para que se possa fazer um
diagnóstico precoce, antes que se instale a síndrome autística.

Laznik identificou dois sinais clínicos que podem ser percebidos ainda no
primeiro ano de vida da criança e permitem um diagnóstico precoce
(Vasconcelos, 2009):

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1. O não olhar entre a mãe e seu bebê, sobretudo se a mãe não percebe
este fato. Este sinal permite pensar na hipótese de autismo, logo nos
primeiros meses de vida.
2. O segundo e mais importante sinal consistiria na não-instauração do
circuito pulsional completo, quando o terceiro tempo do circuito
pulsional não é alcançado.

Estes sinais podem ser identificados precocemente se os pediatras estiverem


atentos às interações entre bebê-mãe/cuidador durante as consultas no
primeiro ano de vida da criança.

A falha na instauração do circuito pulsional sinaliza importante impasse na


relação mãe-bebê. Este impedimento tanto pode ocorrer devido a limitações
orgânicas da própria criança, dificultando que o bebê seja responsivo aos
cuidados da mãe; quanto pode ocorrer quando a mãe não consegue responder
às investidas da criança, devido a um quadro de comprometimento emocional,
tal qual a melancolia.

Conforme vimos, o não-olhar entre a mãe/cuidador e o bebê constitui um dos


principais sintomas que permitem formular uma hipótese de autismo; por isto,
a observação do pediatra e seu questionamento e orientações sobre as
interações maternas com a criança podem constituir-se como ferramenta para
intervenção precoce, além de possibilitar o encaminhamento para
acompanhamento psicológico sempre que necessário.

Neste sentido, o trabalho de prevenção em saúde mental seria facilitado pelos


médicos que, ao detectar os sinais precoces de problemas graves com os bebês,
poderiam encaminhá-los para as consultas psicológicas especializadas.

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Laznik ensina que o bebê com risco de autismo é capaz de olhar para a mãe ou
para seu cuidador, quando se utiliza a linguagem “manhês”, que é uma forma
particular com a qual a mãe fala ao seu bebê, com seus picos prosódicos
acentuados e prolongamento das vogais (Vasconcelos, 2009).

A introdução do terceiro tempo pode instituir outra dinâmica entre o bebê e a


mãe, possibilitando o estabelecimento do laço ente eles. Isto significa intervir
na relação do Outro com a criança (Vasconcelos, 2009).

O terceiro tempo do circuito pulsional pode ser restabelecido por meio da


intervenção de um profissional que saiba trabalhar esta relação pais-bebê, e
principalmente se for antes dos três anos de idade, que é o período sensível no
qual a criança se insere com mais naturalidade no campo dos significantes do
Outro.

9.5. DEFICIÊNCIA MENTAL

Optei por incluir nesse tópico a caracterização dos quadros de Deficiência


Mental, pois este conteúdo é de extrema importância nos casos de avaliação
para definição de incapacidade e necessidade de interdição, bem como para a
indicação de curatela ou tutela.

A interdição está prevista no código civil nas situações em que se constata que
ocorre a incapacidade do indivíduo, por enfermidade ou deficiência mental,
para exercer por si mesmo os atos da vida civil.

Nos casos de interdição, compete ao psicólogo nomeado perito pelo juiz


realizar avaliação que comprove ou não tal enfermidade mental. À justiça

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interessa saber se a doença mental de que o paciente é portador o torna


incapaz de reger sua pessoa e seus bens (Monteiro, 1999; Lago, 2009).

Nesse contexto, é importante compreender a definição do termo “deficiência


mental”. Utilizaremos o Decreto nº 3.956/2001 – que promulga a Convenção
Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra
as Pessoas Portadoras de Deficiência – e cartilhas do Ministério da Educação
(MEC), bem como a CID-10.

O Decreto nº 3.956/2001 define "deficiência" como uma restrição física, mental


ou sensorial, de natureza permanente ou transitória, que limita a capacidade de
exercer uma ou mais atividades essenciais da vida diária, causada ou agravada
pelo ambiente econômico e social.

Partindo de um quadro conceitual genérico, a classificação tradicional


caracteriza as seguintes deficiências: mental, física, visual, auditiva e múltipla.

Existe a dificuldade de se estabelecer um diagnóstico diferencial entre o que


seja “doença mental” (que engloba diagnósticos de psicose e psicose precoce) e
“deficiência mental”, principalmente no caso de crianças pequenas em idade
escolar (Gomes et al, 2007).

Segundo Gomes et al (2007), a dificuldade de diagnosticar a deficiência mental


tem levado a uma série de revisões do seu conceito. A medida do coeficiente de
inteligência (QI), por exemplo, foi utilizada durante muitos anos como
parâmetro de definição dos casos.

A CID 10, elaborada pela Organização Mundial de Saúde, utiliza a nomenclatura


Retardo Mental, ao invés de Deficiência Mental.

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A deficiência ou retardo mental é um dos transtornos neuropsiquiátricos mais


comuns em crianças e adolescentes. As crianças acometidas muitas vezes
comparecem à consulta pediátrica com queixa de atraso na fala/linguagem,
alteração do comportamento, ou baixo rendimento escolar (Vasconcelos, 2004).

O diagnóstico de retardo mental é definido com base em três critérios


(Vasconcelos, 2004):

 Início do quadro clínico antes de 18 anos de idade;


 Função intelectual significativamente abaixo da média, demonstrada por
um quociente de inteligência (QI) igual ou menor que 70;

 Deficiência nas habilidades adaptativas em pelo menos duas das


seguintes áreas:

 Comunicação, autocuidados, habilidades sociais/interpessoais, auto-


orientação, rendimento escolar, trabalho, lazer, saúde e segurança.

Ao especificar o Retardo Mental (F70-79), a CID-10 propõe uma definição ainda


baseada no coeficiente de inteligência (QI), classificando-o entre leve,
moderado e profundo, conforme o comprometimento (Gomes et al, 2007).

F70-F79 Retardo mental (CID-10)

Parada do desenvolvimento ou desenvolvimento incompleto do funcionamento


intelectual, caracterizados essencialmente por um comprometimento, durante o
período de desenvolvimento, das faculdades que determinam o nível global de
inteligência, isto é, das funções cognitivas, de linguagem, da motricidade e do
comportamento social. O retardo mental pode acompanhar outro transtorno
mental ou físico, ou ocorrer de modo independentemente.

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Usar código adicional, se necessário, para identificar as afecções associadas, por


exemplo, autismo, outros transtornos do desenvolvimento, epilepsia,
transtornos de conduta ou uma incapacidade física grave.

As seguintes subdivisões de quarto caractere devem ser usadas com as


categorias F70-F79 para identificar a extensão do comprometimento
comportamental:

.0 Menção de ausência de ou de comprometimento mínimo do comportamento

.1 Comprometimento significativo do comportamento, requerendo vigilância ou


tratamento

.8 Outros comprometimentos do comportamento

.9 Sem menção de comprometimento do comportamento

F70.- Retardo mental leve

Amplitude aproximada do QI entre 50 e 69 (em adultos, idade mental de 9 a


menos de 12 anos). Provavelmente devem ocorrer dificuldades de aprendizado
na escola. Muitos adultos serão capazes de trabalhar e de manter
relacionamento social satisfatório e de contribuir para a sociedade.

Inclui:

 Atraso mental leve


 Debilidade mental
 Fraqueza mental

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 Oligofrenia leve
 Subnormalidade mental leve

F71.- Retardo mental moderado

Amplitude aproximada do QI entre 35 e 49 (em adultos, idade mental de 6 a


menos de 9 anos). Provavelmente devem ocorrer atrasos acentuados do
desenvolvimento na infância, mas a maioria dos pacientes aprendem a
desempenhar algum grau de independência quanto aos cuidados pessoais e
adquirir habilidades adequadas de comunicação e acadêmicas. Os adultos
necessitarão de assistência em grau variado para viver e trabalhar na
comunidade.

Inclui:

 Atraso mental médio


 Oligofrenia moderada
 Subnormalidade mental moderada

F72.- Retardo mental grave

Amplitude aproximada de QI entre 20 e 40 (em adultos, idade mental de 3 a


menos de 6 anos). Provavelmente deve ocorrer a necessidade de assistência
contínua.

Inclui:

 Atraso mental grave


 Oligofrenia grave

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 Subnormalidade mental grave

F73.- Retardo mental profundo

QI abaixo de 20 (em adultos, idade mental abaixo de 3 anos). Devem ocorrer


limitações graves quanto aos cuidados pessoais, continência, comunicação e
mobilidade.

Inclui:

 Atraso mental profundo


 Oligofrenia profunda
 Subnormalidade mental profunda

F78.- Outro retardo mental

F79.- Retardo mental não especificado

Inclui:

 Deficiência mental SOE


 Oligofrenia SOE
 Subnormalidade mental SOE

A deficiência mental não se esgota na sua condição orgânica e/ou intelectual e


nem pode ser definida por um único saber. Ela é uma interrogação e objeto de
investigação de inúmeras áreas do conhecimento (Gomes et al, 2007).

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Após ter sido superada a noção de que a deficiência mental é uma doença, têm
sido realizados estudos no sentido de conhecer melhor os fatores de risco que
podem vir a determinar essa condição (Amaral & D'Antino, 1998).

Existe uma complexidade de causas, sendo que elementos múltiplos e


interativos estão envolvidos na origem da condição de deficiência mental
(Amaral & D'Antino, 1998).

Embora a deficiência mental possa ser identificada precocemente (em especial


nos quadros sindrômicos e nos casos mais graves), com frequência, a escola é o
local em que surge pela primeira vez a hipótese de que uma criança tenha essa
condição, em razão da demanda advinda de aprendizagens escolares
específicas (Amaral & D'Antino, 1998).

O diagnóstico de deficiência mental, a ser realizado por um médico ou


psicólogo e por um pedagogo, deve levar em consideração o momento da vida,
bem como a diversidade cultural (Amaral & D'Antino, 1998).

O teste psicométrico deve ser considerado apenas como um indicador, a ser


confirmado por pesquisa mais aprofundada, em cada caso (Amaral & D'Antino,
1998).

Caso a hipótese da deficiência mental seja confirmada, a pessoa precisa receber


atendimento e apoio favoráveis a seu desenvolvimento, a sua aprendizagem e a
sua independência na vida cotidiana (Amaral & D'Antino, 1998).

O grau de comprometimento intelectual das pessoas com deficiência mental


(aspectos internos) abrange uma escala variada.

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Em uma das extremidades estão as pessoas que desenvolvem habilidades


sociais e de comunicação eficientes e funcionais, têm um prejuízo mínimo nas
áreas sensório-motoras, e podem apresentar comportamentos similares aos das
crianças de sua idade que não são portadoras de deficiência (Amaral &
D'Antino, 1998).

O índice de pessoas com comprometimento cognitivo pouco acentuado é


predominante, com aproximadamente 85 por cento. Os indivíduos com maior
comprometimento correspondem à menos parcela dessa população (Amaral &
D'Antino, 1998).

Causas da Deficiência Mental

Após ter sido superada a noção de que a deficiência mental é uma doença, têm
sido realizados estudos no sentido de conhecer melhor os fatores de risco que
podem vir a determinar essa condição (Amaral & D'Antino, 1998).

A identificação do fator etiológico da Deficiência Mental (DM) permite que se


possa instituir a sua prevenção e controle. Existe uma complexidade de causas
para a deficiência mental, sendo que elementos múltiplos e interativos estão
envolvidos na origem dessa condição (Amaral & D'Antino, 1998).

Os fatores etiológicos da Deficiência Mental podem ser de origem genética,


ambiental, multifatorial e de causa desconhecida. Não existe uma correlação
linear entre cada um desses fatores e a condição resultante, pois muitas pessoas
foram expostas a fatores de risco e não apresentam deficiência mental (Amaral
& D'Antino, 1998).

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Muitas vezes torna-se difícil o reconhecimento das causas, tornando-as fatores


suspeitos ou hipóteses etiológicas, porém não comprovadas. Mesmo nessas
condições, é importante determinar, ao menos, quais os fatores primários e
secundários que ocasionaram a deficiência mental, pois conhecer e identificar
esses fatores é importantíssimo para que possam ser elaborados programas de
prevenção (Amaral & D'Antino, 1998).

9.6. TRANSTORNO FACTÍCIO E SIMULAÇÃO

No meio jurídico muitas vezes nos deparamos com situações em que indivíduos
saudáveis simulam estados de adoecimento mental para obter benefícios
financeiros ou emocionais. Por esta razão, o profissional que atua como perito
precisa conhecer esses quadros e identificar os sinais característicos.

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Critérios Diagnósticos para Transtorno Factício

(A) Produção ou simulação intencional de sinais ou sintomas físicos ou


psicológicos.

(B) A motivação para o comportamento consiste em assumir papel de enfermo.

(C) Ausência de incentivos externos para o comportamento (tais como vantagens


econômicas, esquiva de responsabilidades legais ou melhora no bem-estar,
como na Simulação).

Codificar com base no tipo:

300.16 – Com Predomínio de Sinais e Sintomas Psicológicos: se no quadro clínico


predominam sinais e sintomas psicológicos.

300.19 – Com Predomínio de Sinais e Sintomas Físicos: se no quadro clínico


predominam sinais e sintomas físicos.

300.19 – Com combinação de Sinais e sintomas Psicológicos e Físicos: se no quadro


clínico sinais e sintomas tanto psicológicos quanto físicos estão presentes, sem
predomínio de nenhum deles.

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Critérios diagnósticos para transtorno factício por procuração

A. Produção intencional ou simulação de sinais ou sintomas físicos ou psicológicos


em outra pessoa que está sob os cuidados do indivíduo.

B. A motivação para o comportamento do perpetrador é assumir o papel de doente


através de outra pessoa.

C. Incentivos externos para o comportamento (tais como ganho financeiro) estão


ausentes.

D. O comportamento não é melhor explicado por outro transtorno mental.

Produção deliberada ou simulação de sintomas ou de incapacidades físicas


ou psicológicas [TRANSTORNO FACTÍCIO] – CID10: F68.1

Simulação repetida e coerente de sintomas, às vezes com automutilações com


o intuito de provocar sinais ou sintomas.

A motivação é obscura e possivelmente de origem interna e visa adotar um


papel ou um status de doente, e frequentemente se associa a grandes
transtornos da personalidade e das relações.

Transtorno Factício | Síndrome de Munchausen – DSM-IV: 300.16 | 300.19

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A característica essencial do Transtorno Factício é a produção intencional de


sinais ou sintomas somáticos ou psicológicos (Critério A).

A apresentação pode incluir:

 A fabricação de queixas subjetivas – exemplo: queixas de dor


abdominal aguda na ausência de qualquer dor desta espécie;
 Condições autoinfligidas – exemplo: produção de abscessos por
injeção subcutânea de saliva;
 Exagero ou exacerbação de condições médicas gerais preexistentes
– exemplo: simulação de uma convulsão de grande mal por um indivíduo
com história prévia de transtorno convulsivo;
 Qualquer combinação ou variação destes elementos.

A motivação para o comportamento consiste em assumir o papel de enfermo


(Critério B).

Incentivos externos para o comportamento (por ex., ganho econômico, esquiva


de responsabilidades legais ou melhora no bem-estar físico, como na
Simulação) estão ausentes (Critério C).

Os indivíduos com Transtorno Factício em geral apresentam sua história de


forma dramática, mas são extremamente vagos e inconsistentes, quando
questionados em maiores detalhes.

Eles podem envolver-se em mentiras patológicas, de um modo intrigante para


o ouvinte, acerca de qualquer aspecto de sua história ou sintomas (isto é,
pseudologia fantástica).

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Eles frequentemente possuem um extenso conhecimento da terminologia


médica e das rotinas hospitalares.

Queixas de dor e solicitação de analgésicos são muito comuns. Após uma


extensa investigação de suas queixas principais inicialmente apresentados ter-
se mostrado negativa, eles em geral passam a se queixar de outros problemas
somáticos ou psicológicos e produzem mais sintomas factícios.

Os indivíduos com este transtorno podem submeter-se com avidez a múltiplos


procedimentos e operações invasivas. Hospitalizados, habitualmente recebem
poucas visitas.

Por fim, pode ser alcançado um ponto em que a natureza factícia de seus
sintomas é revelada. Por exemplo:

 O paciente é reconhecido por alguém que o encontrou em uma baixa


anterior;
 Outros hospitais confirmam hospitalizações prévias por sintomatologia
factícia.

Quando confrontados com evidências de que seus sintomas são factícios, os


indivíduos com este transtorno geralmente negam as alegações ou abandonam
rapidamente o hospital, contrariando disposições médicas.

Frequentemente, eles são admitidos, logo depois, em outro hospital. Suas


repetidas hospitalizações muitas vezes os levam a numerosas cidades, estados e
países.

Subtipos

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O Transtorno Factício é codificado de acordo com o subtipo que melhor


caracteriza os sintomas predominantes:

300.16 Com Sinais e Sintomas Predominantemente Psicológicos – Este


subtipo descreve uma apresentação clínica na qual predominam sinais e
sintomas psicológicos.

Caracteriza-se pela produção intencional ou simulação de sintomas


psicológicos (frequentemente psicóticos) sugestivos de um transtorno mental.

O objetivo do indivíduo aparentemente consiste em assumir o papel de


"paciente", não sendo compreensível de outra forma, à luz das circunstâncias
ambientais (contrastando com o caso da Simulação).

Este subtipo pode ser sugerido por uma sintomatologia ampla, que
frequentemente não corresponde a um padrão típico de qualquer síndrome,
curso e resposta incomuns ao tratamento e piora dos sintomas quando o
indivíduo sabe que está sendo observado.

Os indivíduos com este subtipo de Transtorno Factício podem citar depressão e


ideação suicida após a morte de um cônjuge (quando a morte não é
confirmada por outros informantes), perda de memória (recente e remota),
alucinações (auditivas e visuais) e sintomas dissociativos.

Estes indivíduos podem ser extremamente sugestionáveis e endossar muitos


dos sintomas trazidos à tona durante uma revisão de sistemas.

Inversamente, podem ser extremamente negativistas, relutando em cooperar


quando questionados.

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A apresentação geralmente reflete o conceito que o indivíduo tem de


transtorno mental, podendo não se enquadrar em qualquer categoria
diagnóstica conhecida.

300.19 Com Sinais e Sintomas Predominantemente Físicos – Este subtipo


descreve uma apresentação clínica na qual predominam sinais e sintomas de
uma aparente condição médica geral.

Toda a vida do indivíduo pode consistir de tentativas de ser baixado ou


permanecer baixado em hospitais (conhecido como "síndrome de
Munchausen").

Quadros clínicos comuns incluem dor abdominal severa no quadrante inferior


direito associada com náusea e vômitos, tonturas e perda da consciência,
hemoptise maciça, erupções e abscessos generalizados, febre de origem
indeterminada, sangramento secundário à ingestão de anticoagulantes e
síndromes "tipo lúpus".

Todos os sistemas orgânicos são alvos potenciais, limitando-se os sintomas


apresentados apenas pelos conhecimentos médicos do indivíduo, sua
sofisticação e imaginação.

300.19 Com Sinais e Sintomas Psicológicos e Físicos Combinados – Este


subtipo descreve uma apresentação clínica na qual sinais e sintomas tanto
psicológicos quanto físicos estão presentes, sem predomínio de nenhum deles.

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Transtorno Factício por procuração

A característica essencial é a produção deliberada ou simulação de sinais ou


sintomas físicos ou psicológicos em outra pessoa que esteja sob os cuidados do
indivíduo. Tipicamente, a vítima é uma criança pequena e o perpetrador é sua
mãe.

A motivação para o comportamento do perpetrador é, presumivelmente, uma


necessidade psicológica de assumir o papel de doente por meio de outra
pessoa. Incentivos externos para o comportamento, tais como ganhos
financeiros, estão ausentes. O comportamento não é melhor explicado por
outro transtorno mental.

O perpetrador induz ou simula a doença ou processo patológico na vítima e


depois a apresenta para cuidados médicos, negando qualquer conhecimento
acerca da real etiologia do problema.

A maioria das condições induzidas e simuladas envolve os sistemas


gastrintestinal, geniturinário e nervoso central; a simulação de transtornos
mentais na vítima é relatada com uma frequência bastante inferior.

O tipo e a gravidade dos sinais e sintomas são limitados apenas pelos


conhecimentos médicos e oportunidades do perpetrador. Os casos
caracterizam-se por um curso clínico atípico na vítima e resultados laboratoriais
inconsistentes que não condizem com o aparente estado de saúde da vítima.

A vítima geralmente é uma criança pré-escolar, embora recém-nascidos,


adolescentes e adultos possam ser usados. Com crianças mais velhas, deve

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haver uma consideração quanto à possibilidade de colaboração com o


perpetrador na produção dos sinais e sintomas.

O perpetrador recebe um diagnóstico de transtorno factício por procuração.


Para a vítima, Abuso Físico da Criança (995.5) ou Abuso Físico do Adulto
(995.81) podem ser anotados, se apropriado.

No caso de colaboração voluntária, um diagnóstico adicional de Transtorno


Factício pode aplicar-se ao colaborador.

O Transtorno Factício por Procuração deve ser diferenciado de uma condição


médica geral ou transtorno mental no indivíduo que está sendo trazido para
tratamento.

O transtorno factício por procuração também deve ser distinguido do abuso


físico ou sexual que não está relacionado ao objetivo de assumir indiretamente
o papel de doente.

A Simulação difere do transtorno factício no sentido de que a motivação para a


Simulação é um incentivo externo, enquanto no Transtorno Factício os
incentivos externos estão ausentes.

Os indivíduos com Simulação podem buscar a hospitalização para um


indivíduo sob seus cuidados mediante a produção de sintomas, em uma
tentativa de obterem compensação financeira.

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CONTROLE GANHO / MOTIVO

DISSOCIAÇÃO INSCONSCIENTE INSCONSCIENTE

FACTÍCIO VOLUNTÁRIO INSCONSCIENTE

SIMULAÇÃO VOLUNTÁRIO VOLUNTÁRIO

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10. APLICAÇÕES MÉDICO-LEGAIS

No âmbito da justiça, o exame psiquiátrico tem valor de prova pericial e


deve realizado por médico perito. A seguir apresentarei termos, conceitos
e procedimentos característicos da perícia psiquiátrica, pois diversos
termos cunhados por tais profissionais permeiam as práticas no âmbito
APLICAÇÕES MÉDICO-LEGAIS

judicial.

Devo destacar, no entanto, que a ciência psicológica utiliza-se de outras


nomenclaturas e que muitas vezes a banca insere nas alternativas alguns
termos próprios da psicopatologia psiquiátrica, amplamente difundidos no
meio social, com vistas a confundir o candidato a fim de averiguar se este
realmente possui conhecimentos sobre a perspectiva aplicada pela
Psicologia jurídica.

As técnicas e conceitos próprios do campo da Psicologia foram


apresentados em módulos anteriores e serão complementados nos
próximos.

Considerando que psicólogos e psiquiatras são os técnicos responsáveis


pela compreensão do campo da saúde ⁄ doença mental, por hora, nesse
tópico, vamos nos dedicar ao entendimento superficial do campo pericial
psiquiátrico.

O exame psiquiátrico tem por finalidade esclarecer (Alcântara, 2011):

 À justiça criminal se determinado indivíduo é penalmente


imputável ou relativa ou plenamente inimputável; se é perigoso
ou cessou a sua periculosidade.

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 À justiça civil se determinado indivíduo é capaz ou relativa ou


absolutamente incapaz.

 À administração pública ou privada se determinado servidor é doente


mental, para fins de licença para tratamento de saúde ou de
aposentadoria.

 Tanto à justiça quanto á administração se o testemunho ou a confissão


de determinada pessoa merece inteira fé ou não.

As aplicações médico-legais do exame psiquiátrico são (Alcântara, 2011):

A – Deficiência Mental / Retardo mental

 Tantos os deficientes mentais moderados quanto os graves ou severos


são absolutamente incapazes do ponto de vista civil (Código Civil art. 3º),
bem como também irresponsáveis do ponto de vista penal (Código
Penal art. 26 caput).

 Os deficientes mentais leves são capazes de exercer, com limitações


próprias, os atos da vida civil. Nesse caso, não há impedimento para o
casamento, mas é motivo para pedido de anulação se o cônjuge vier a
saber dessa situação posteriormente.

Observação: Código Civil – Art. 3º. São absoltamente incapazes de exercer


pessoalmente os atos da vida civil:

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I. Os menores de dezesseis anos;


II. Os que, por enfermidade ou deficiência mental, não tiverem o
necessário discernimento para a prática desses atos;
III. Os que, mesmo por motivo transitório, não puderem exprimir sua
vontade.

Código Penal – Art. 26. É isento de pena o agente que, por doença mental ou
desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da
omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de
determinar-se de acordo com esse entendimento.

B – Personalidades psicopáticas

 As personalidades psicopáticas são capazes dos atos da vida civil,


podendo ser interditas quando praticam reiterados atos excessivos.

 Penalmente, quase sempre são enquadrados no § único do art. 26 do


Código Penal, mas são também submetidas a medidas de segurança,
pois sua periculosidade é alta.

Observação: Código Penal – Art. 26 § único. A pena pode ser reduzida de um a


dois terços se o agente, em virtude de perturbações de saúde mental ou por
desenvolvimento mental incompleto ou retardado não era inteiramente capaz
de entender o caráter lícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse
entendimento.

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C – Neuroses

 Os neuróticos são doentes e merecem assistência médica, mas, do ponto


de vista civil, são capazes de todos os atos.
 Do ponto de vista penal, em regra, não são perigosos e respondem
plenamente pelos crimes que cometem.

Apesar da clareza com que o ordenamento jurídico lida com os atos


praticados por indivíduos neuróticos, no campo da psiquiatria não existe um
consenso, visto que alguns autores, como Manfredini, consideram que as
psiconeuroses muitas vezes são altamente perturbadoras da vida conjugal.
Outros autores, como Hélio Gomes, destacam que as neuroses traumáticas
geralmente implicam em incapacidade parcial e permanente.

D – Psicoses

 Psicoses alcoólicas
 Do ponto de vista médico-legal, os portadores de psicoses alcoólicas
são, na vigência da doença, incapazes e inimputáveis, sendo submetidos
a medida de segurança.
 Psicose Epiléptica
 Os sintomas de grande interesse médico-legal nas epilepsias são:

(1) os estados de automatismo – impulsos (ações explosivas, instantâneas);


as crises de furor ou furor epilético (ódio, agressividade, violência); as fugas
(dromomania) e o sonambulismo;

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(2) estados crepusculares – episódios confusionais e de obnubilação da


consciência.

 Sintomas psíquicos considerados permanentes: bradipsiquia com


perseveração; prolixidade verbal; alternância da viscosidade com a
explosividade; prestimosidade exagerada.

 Esquizofrenias

Do ponto de vista médico-legal, os esquizofrênicos:

 Apresentam reações delitivas quase passivas; agressões imotivadas;


impulsividade ou delitos a sangue-frio, premeditado ou calculado;
abandono do lar; inadaptação social; atentados contra os costumes e
suicídio.

 Na vigência da doença são incapazes civilmente, inimputáveis


penalmente e apresentam periculosidade pré-delitual alta.

 Paranóia

Do ponto de vista médico-legal, os paranóicos:

 São ciumentos e praticam crimes contra a esposa e o seu rival


imaginário.

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 Em decorrência dos seus delírios desacatam, agridem e matam.

 São messiânicos, reformadores e irresponsáveis.

 Civil e penalmente se equiparam aos esquizofrênicos.

 Psicose maníaco-depressiva

As aplicações médico-legais são:

 A psicose é cíclica, havendo momentos de lucidez na passagem da fase


maníaca para a depressiva, e vice-versa.

 As reações delitivas são: maníacas e melancólicas.

 Tal qual na esquizofrenia, a PMD modifica a responsabilidade penal e a


capacidade civil.

 Paralisia Geral Progressiva

 A capacidade civil e a responsabilidade penal do doente dependem do


período evolutivo e da forma clínica da doença.

 Em regra, a interdição já se faz necessária no 2º período evolutivo,


quando surge a prodigalidade, podendo coincidir com a
inimputabilidade relativa.

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 No 3º período, em regra o doente não é capaz nem responsável e é


perigoso.

 Toxicofrenias

 A sintomatologia varia de acordo com a substância causadora da


dependência.

 A aplicação médico-legal segue a regra geral que, em última análise, diz


que não há dependência, mas dependentes.

E – Dissimulação e simulação em psicopatologia judicial

Um indivíduo verdadeiramente doente mental, mas com juízo e raciocínio


íntegros dissimula doença ou doenças.

Na dissimulação, o doente procura esconder a sua doença, ocultando as seus


sintomas e inibindo, dentro do possível, os seus sinais.

Bonnet define simulação como uma fraude clínica que consiste em imitar,
agravar ou criar intencionalmente sintomas patológicos com uma finalidade
especulativa.

A simulação de doença mental apresenta os seguintes elementos


característicos:

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 Dolo específico;
 Finalidade utilitária;
 Imitação de sintomas e sinais patológicos.

Um indivíduo normal simula uma doença mental visando:

 Fugir de obrigações oficiais (convocação militar, intimação judicial);


 Praticar chantagem ou vingança;
 Explorar a caridade pública;
 Reclamar indenizações de seguros;
 Alegar irresponsabilidade penal;
 Conseguir licenças ou aposentadorias com vantagens.

Segundo Alcântara (2011), o diagnóstico da simulação é feito pelos métodos


astuciosos, psicanalíticos, gráficos, farmacológicos, hipnóticos e pelos exames
complementares.

10.1. PERICULOSIDADE

Periculosidade é a menor ou maior carga delitual que um indivíduo possui, isto


é, a sua probabilidade de cometer ou voltar a cometer crimes (Alcântara, 2011).

Segundo Foucault, a noção de periculosidade expressa o perigo virtual de


qualquer indivíduo adotar comportamentos transgressores.

Atenção: A resolução CFP nº 012 ⁄ 2011 veda expressamente a realização de


exame de periculosidade pelo psicólogo:

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“Art. 4º § 1º. Na perícia psicológica realizada no


contexto da execução penal ficam vedadas a
elaboração de prognóstico criminológico de
reincidência, a aferição de periculosidade e o
estabelecimento de nexo causal a partir do binômio
delito-delinqüente.”

No entanto, a resolução CFP nº 012 ⁄ 2011 encontra-se temporariamente


SUSPENSA exclusivamente nos estados de Goiás e Rio de Janeiro devido a
decisão judicial.

Nesse ponto temos um impasse: apesar de tratar de norma regulamentar


editada pelo CFP, portanto, vinculando a todos os psicólogos, por decisão
judicial essa resolução perdeu eficácia nos referidos estados.

Conforme nota emitida pelo CFP, em razão da ausência de consenso sobre a


possibilidade de realização do prognóstico de reincidência na literatura
científica da Psicologia, para além das dificuldades operacionais que
profissionais que acreditam nesta possibilidade vêm apontando, o CFP
entendeu ser prudente vedar qualquer tipo de análise preditiva no que se refere
à reincidência criminal (CFP, 2011).

Em termos de concurso significa que tópicos sobre periculosidade podem ser


exigidos em questões, mas muito provavelmente não farão referência direta à
atuação do psicólogo. Por esta razão, optei por apresentar os conceitos nas
perspectivas da medicina-legal e da filosofia.

O exame de cessação da periculosidade é um exame psiquiátrico-forense que


se destina a indivíduos que estão sujeitos a medida de segurança e tem como

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interesse e finalidade saber se ainda continua sua condição perigosa (Alcântara,


2011).

O grau de periculosidade é avaliado por alguns autores do campo da


psiquiatria com base nas características do crime, e por outros, a maioria, com
fundamento nas condições psicossociais e legais do delinquente (Alcântara,
2011).

Segundo Loudet, o diagnóstico da periculosidade é feito pelos índices


(Alcântara, 2011):

a) Médico-psicológicos;
b) Sociais;
c) Legais de periculosidade.

O diagnóstico da cessação da periculosidade em indivíduos alienados ou não-


alienados que delinquiram é feito através de perícia psiquiátrica. Que deve
estabelecer de maneira categórica a completa cessação de perigo (Alcântara,
2011).

A cessação ou não da periculosidade se verificará ao fim do prazo mínimo de


duração da medida de segurança pelo exame das condições da pessoa a que
tiver sido imposta (Alcântara, 2011).

Observação: O termo alienação mental é defasado tanto na Psicologia como na


Psiquiatria, mas ainda em uso em psiquiatria forense, por exigência dos juristas,
para significar: fora de si, incapaz de distinguir o bem do mal e perigoso para si
e para outrem.

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10.2. INIMPUTABILIDADE

Inimputabilidade biopsicológica é aquela condição que não permite a um


indivíduo, em determinado momento, arcar com as consequências de sua má
conduta (Alcantara, 2011).

São causas da inimputabilidade:

a) Doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado;


b) Menoridade;
c) Embriaguez completa, decorrente de caso fortuito ou força maior,
perdendo totalmente seu livre-arbítrio;
d) Dependência de substância entorpecente.

Atenção: A pessoa que é dependente crônico do álcool pode ser considerada


inimputável quando, em razão do alcoolismo, perder a capacidade de entender
ou de querer. No entanto, nos casos de embriaguez preordenada, ou seja,
aquela em que a pessoa bebe para se encorajar a cometer crime não a isenta de
pena, mesmo que não tenha plena consciência do que faz no momento do fato.

A inimputabilidade penal, conforme disposto no art. 26 do Código Penal, tem


como base dois elementos, quais sejam (Machado, 2015):

 Incapacidade de entender o caráter ilícito do fato


 Incapacidade de determinar-se de acordo com esse entendimento.

Para que ocorra a inimputabilidade, se faz necessária a presença dos seguintes


requisitos (Alcantara, 2011):

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 Causal – doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou


retardado;
 Cronológico – ao tempo da ação ou da omissão;
 Consequencial – incapacidade de entender o caráter criminoso do fato
ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.

10.3. INTERDIÇÃO, CURATELA E TUTELA

Interdição é o ato pelo qual o juiz retira, ao alienado, ao surdo-mudo, ao


pródigo e ao toxicômano, a administração e a livre disposição de seus bens
(Alcantara, 2011).

Curatela é o encargo atribuído pelo juiz a uma pessoa adulta e civilmente


capaz que possa proteger, zelar, guardar, orientar, responsabilizar-se,
administrar os bens e cuidar dos interesses de uma pessoa adulta declarada
judicialmente incapaz (interdição).

Quem pode ser curatelado

 Pródigo: pessoa que gasta todos os bens, esbanjando e colocando em


risco seu patrimônio;

 Pessoa maior de 18 anos de idade que possua uma condição que a


impeça de reger e discernir os atos da vida civil, bem como exprimir sua
vontade, seja temporária ou permanentemente, devido a:

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 Má formação congênita

 Doença neurológica

 Doença mental

 Dependência química

Tutela é o encargo atribuído pela Justiça a um adulto capaz, para que proteja,
zele, guarde, oriente, responsabilize-se e administre os bens de crianças e
adolescentes cujos pais são falecidos ou estejam ausentes até que completem
18 anos de idade.

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