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ISSN 2358-1018

um benefício para o cliente TECSA MAG AZ I NE


Número 18

EMERGÊNCIAS NA CLÍNICA VETERINÁRIA


CONDUTAS QUE SALVAM VIDAS!

www.vetsciencemagazine.com.br
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EDITORIAL

MAQUINOGRAMA NÃO É HEMOGRAMA. CUIDADO!


A busca por diagnósticos rápidos na medicina veterinária está em ampla expansão. Assim, os exames
laboratoriais já figuram no dia a dia das Clínicas e Hospitais como algo imprescindível para o bom
exercício da profissão.Porém, a necessidade de exames mais ágeis não pode comprometer a qualidade
e a precisão das análises. Existe uma diferença enorme entre um HEMOGRAMA – realizado
por um Médico Veterinário Patologista Clínico ou Hematologista Veterinário e um exame gerado
por uma máquina sem qualquer análise qualitativa – seja análise pré-analítica- seja na execução do
hemograma (LEITURA DAS LÂMINAS), seja na fase pós-analítica – interpretação dos achados.

Existe muita diferença entre os resultados destes maquinogramas e de Hemogramas realizados por
especialista. Obviamente, quem comercializa estas máquinas sempre irá dizer que é a mesma coisa,
mas aqui entra o discernimento e o olhar científico de pesquisadores. Bom, caros colegas, se fosse
a mesma coisa não existiria a Profissão de Patologista Clínico ou de Hematologista – profissionais
que estudam para analisar cada hemograma de forma única. Hemogramas felinos, por exemplo,
jamais podem ser liberados apenas por leitura de máquinas – as particularidades encontradas na
leitura das lâminas em felinos são inúmeras e fundamentais para o laudo final. Um Hemograma com
problemas na coleta não será devidamente analisado pela máquina e o laudo poderá ter interferências
nas análises, o que pode trazer sérias consequências para o diagnóstico clínico veterinário. Visando
esta segurança, os laboratórios veterinários investem cada vez mais em novas tecnologias, como
aparelhos com softwares calibrados para análises das diferentes espécies e tendo, ainda, a presença de
um médico veterinário hematologista como responsável técnico para a leitura de cada lâmina. Este é
o profissional qualificado que conhece as particularidades das diversas espécies e assegura a qualidade
do exame.

Pesquisadores veterinários conseguiram definir os parâmetros fisiológicos laboratoriais, não somente


nas espécies domésticas, mas também em animais silvestres, onde cada uma delas possui características
próprias e diferenças que só um laboratório com médicos veterinários capacitados pode perceber e,
assim, gerar o laudo correto para a espécie pesquisada. O Hematologista Veterinário é o garantidor
da Qualidade do Produto final – o laudo - que será referência para a tomada de decisões pelo Clínico.

A contagem diferencial de leucócitos difere entre espécies e é fornecida pela análise conjunta dos
equipamentos automatizados e pela leitura do esfregaço corado pelos Hematologistas veterinários,
que avaliam as diferentes formas leucocitárias e as expressam de forma relativa e absoluta. Os
neutrófilos carregam consigo informações valiosas como alterações tóxicas/corpúsculos de Dohlle.
Os Linfócitos também carregam informações que a máquina não fornece, como a reatividade
por estímulo antigênico, atipias devido à processos neoplásicos ou hemoparasitas Ex. Erliquiose).
A avaliação microscópica é essencial para detectar a presença de bastonetes (desvio à esquerda) e
informações importantes que a Lâmina pode conter, como por exemplo, presença de hemoparasitas
(Anaplasma sp, Babesia sp e Erlichia canis) e corpúsculos de Lenz. Tais achados são encontrados
apenas com a análise das lâminas, o que reforça a necessidade de um médico veterinário devidamente
capacitado para reconhecê-los e descrevê-los em seu laudo.

Mediante todas essas informações e das particularidades entre espécies, conclui-se claramente que
a leitura das lâminas e a análise e acompanhamento de um Médico Veterinário Hematologista ou
Patologista Clinico é fundamental e imprescindível. Exames de máquinas, sem nenhuma análise por
parte de médicos veterinários, são aceitáveis nas emergências – mas na rotina sempre devemos prezar
pela excelência na qualidade de resultado deste importante exame. #maquinanaofazhemograma!

Luiz Eduardo Ristow Dr. Otávio Valério de Carvalho


Diretor Presidente MV- Phd em Virologia Molecular
Diretor Técnico
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ÍNDICE

06. EMERGÊNCIAS
06. FLUIDOTERAPIA EM PEQUENOS ANIMAIS
11. ANESTESIA NO PACIENTE CRÍTICO
16.PRINCÍPIOS GERAIS DA CIRURGIA DE URGÊNCIA
23.EPIDEMIOLOGIA DOS ACIDENTES OFÍDICOS EM ANIMAIS DE COMPANHIA
25.SEPSE E A SÍNDROME DA ANGÚSTIA RESPIRATÓRIA AGUDA (SARA)
28. HIPOCALCEMIA GRAVE COM SINAIS NEUROMUSCULARES PROVENIENTE DE HIPOPARATIREOIDISMO EM UM CÃO
30. RECEPÇÃO DE PACIENTES EM URGÊNCIA
35. DISTÚRBIOS ELETROLÍTICOS E DO EQUILÍBRIO ÁCIDO-BASE EM DOIS CASOS PRESUNTIVOS DE LEPTOSPIROSE CANINA COM ÓBITO PRECOCE
37. INFEÇÕES NOSOCOMIAIS

36. MEDICINA DE FELINOS


40. ANEMIAS EM FELINOS

Colaboraram neste número:


Dr. Anderson C. Camargo; Dr. Cláudio Roberto S. Mattoso; Dra. Daniele Silvano Gonçalves; Dr. Guilherme Stancioli; Dra. Isabela de Oliveira Avelar; Dra. Janete
Madalena da Silva; Dr. João Paulo Fernandez Ferreira; Dr. João Paulo Franco; Dr. Luiz Eduardo Ristow; Dra. Luiza França Melo; Dra. Marcela Ribeiro Gasparini;
Dr. Otávio Valério de Carvalho; Dr. Thiago Luis Santos Gonçalves, todos membros da Equipe de Médicos Veterinários do TECSA Laboratórios. Além do Médico
Patologista Clínico Dr. Afonso Alvarez Perez Jr.
Contribuíram também para este número os renomados Colegas: Dra. Alice Volpi; Dra. Ana Maria R. Ferreira; Dr. Breno Curty Barbosa; Dra. Cíntia Cristina
Martins Valadares de Souza; Dra. Gracy C.G. Marcello; Dra. Karoline Figueiredo Camargo; Dra. Maria Cristina N. Castro; Dr. Marthin R. Lempek; Dra. Marília
Martins Melo; Dr. Nayro X. Alencar; Dr. Nuno Paixão; Dr. Rubens Antonio Carneiro; Dra. Taiane Rodrigues; Dra. Veruschka Kellermann Brauer e Dr. José Vieira-
reira; Dr. Warley Gomes dos Santos.

Obs.: os artigos assinados são de inteira responsabilidade dos autores e não representam necessariamente, a visão e opinião do TECSA Laboratórios.

EXPEDIENTE

Editores/Publishers: CIRCULAÇÃO DIRIGIDA


Dr. Luiz Eduardo Ristow . CRMV-SP 5560S . CRMV-MG 3708 . A revista VetScience® Magazine é uma publicação do Grupo TECSA
ristow@tecsa.com.br dirigida somente aos médicos veterinários, como parte do Projeto
Dr. Afonso Alvarez Perez Jr. . afonsoperez@tecsa.com.br JORNADA DO CONHECIMENTO, criado pelo mesmo. Este projeto visa a
Equipe de Médicos Veterinários TECSA . tecsa@tecsa.com.br universalização do conhecimento em Medicina Laboratorial Veterinária.
Diagramação: Sê Comunicação . se@secomunicacao.com.br A periodicidade é Bimestral, com artigos originais de pesquisa clínica
e experimental, artigos de revisão sistemática de literatura, metanálise,
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ISSN: 2358-1018
EMERGÊNCIAS

FLUIDOTERAPIA EM PEQUENOS ANIMAIS


Dra. Taiane Rodrigues, Médica Veterinaria, Serviço de Urgência, Cuidados Intensivos e Anestesia do Hospital VetCentral, Portugal.
Dr. Nuno Paixao, Médico Veterinario, Diretor do Serviço de Urgência, Cuidados Intensivos e Anestesia do Hospital VetCentral,
Portugal - Contacto: nunopaixao@hospvetcentral.pt

1. Introdução. base de água, com moléculas pequenas, às acidemia dilucional, que poderá
Perdas volêmicas são distúrbios quais, a membrana capilar é permeável, ser evitada se forem empregadas
comuns na prática veterinária e estão fazendo-os capazes de entrar em todos soluções que contenham lactato,
associadas a inúmeros fatores. Sua os compartimentos corpóreos (KIRBY acetato ou gluconato. Isto porque,
identificação é fácil e o seu tratamento, & RUDLOFF, 2008). A translocação estes, são precursores metabólicos
embora possa parecer simples, requer desses fluidos do capilar ao espaço do bicarbonato via biotransformação
boa dose de critério e conhecimento. O intersticial ocorre devido às forças de nos músculos, fígado e maioria dos
sucesso desta terapia depende da escolha Starling. A solução de Ringer Lactato, tecidos (MONTIANI-FERREIRA
correta do fluido de acordo com o tipo por exemplo, quando administrada & PACHALY, 2000). As principais
de necessidade do paciente. E para por via endovenosa, retém apenas 20% soluções de reposição e os comentários
isto, é necessário tanto o entendimento no espaço intravascular, tendo os 80% relevantes estão no Quadro 2. Soluções
da fisiologia dos líquidos corporais, restantes localizados no interstício após, de manutenção são administradas a
quanto da farmacologia das soluções cerca de 1 hora. O fato do cristaloide pacientes ainda enfermos, porém, após
empregadas. participar de todo o plano de terapia a recuperação do déficit hídrico. Foram
hídrica que ocorre, ajudando o líquido formuladas com o intuito de repor as
2. Soluções empregadas na intersticial a desempenhar seu papel perdas diárias normais de eletrólitos
fluidoterapia. no metabolismo e na sobrevivência da e líquidos hipotônicos, e também
Os cristaloides e colóides são as duas célula, o torna de grande importância satisfazem as necessidades de potássio
principais classes de líquidos utilizadas (KIRBY & RUDLOFF, 2008). Estas em pacientes que necessitem do mesmo.
na fluidoterapia. Para uma visão geral da soluções, ainda podem ser divididas em: Caso sejam utilizados fluidos de
classificação destas soluções de acordo Soluções de manutenção e soluções de reposição na terapia de manutenção, o
com critérios variáveis, o quadro abaixo reposição. As soluções de reposição excesso de eletrólitos é eliminado graças
(Quadro1) mostra, de forma simples, são isotônicas, alcalinizantes ou à função renal. Porém, se utilizados de
como podem ser divididas. acidificantes, e mesmo apresentando forma prolongada, isso pode resultar
Quadro 1. Classificação das soluções utilizadas composição de eletrólitos semelhante em hipocalemia. Para evitarmos tal
em fluidoterapia
ao plasma, possuem o sódio como base desequilíbrio, as soluções de reposição
de constituição. Foram desenvolvidos deverão ser adicionadas com cloreto
1.De acordo com o para corrigir falhas específicas na de potássio (Figura 1), de forma que
tamanho molecular 1.1 Cristalóide concentração plasmática, assim como, a concentração final deste eletrólito
e permeabilidade 1.2 Colóide
na quantidade corporal total de seja 20-30 mEq/L. Em comparação
capilar
eletrólitos e álcalis (Sódio, potássio, ao plasma, as soluções possuem uma
2. De acordo com cloreto, bicarbonato, cálcio e fósforo). quantidade mais elevada de potássio
2.1 Hipotônico
a osmolaridade Por isso, podem ser utilizadas de forma e muito mais baixa de sódio e de
2.2 Isotônico
ou tonicidade
rápida e em quantidades consideráveis, cloreto. Soluções de manutenção não
3. De acordo mas cuidadosas, sem interferir nas são elaboradas para infusões rápidas
3.1 Manutenção
com a função concentrações hidroeletrolíticas normais (MORAIS et al., 2003).
3.2 Reposição
pretendida do plasma (MORAIS & TRAPP, Para formular líquidos de manutenção
1998; MONTIANI-FERREIRA próprios, estima-se que a necessidade
Normalmente, os cristaloides, como & PACHALY, 2000). No entanto, a seja de 40-60 mEq / L de sódio e 20-
as soluções de NaCl 0,9%, NaCl administração de grandes volumes pode 30 mEq / L de potássio. A solução
0,45%, Ringer Lactato e Glicose 5%, causar uma redução na pressão oncótica fisiológica de Nacl 0.9% tem 0 mEq
são as soluções mais empregadas na plasmática, diluindo sua concentração / L, enquanto o Ringer Lactato tem
fluidoterapia por serem constituídos à de bicarbonato e resultando em uma 4mEq / L de potássio. Sendo assim,

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EMERGÊNCIAS

todos os pacientes que são submetidos de desenvolver hipoglicemia, como aqueles com insulinomas ou choque séptico
à fluidoterapia e que não apresentem (MORAIS, 2002).
hipercalemia, devem ter a fluido Quadro 2. Principais soluções de reposição e manutenção empregadas na fluidoterapia.
suplementada com KCl diluído. Para Solução - Composição similar ao L.E.C;
EMERGÊNCIAS NA CLÍNICA VETERINÁRIA
isto, temos que 15 ml de KCl a 10% isotônica - pH 6.5;
CONDUTAS QUEfornecem
SALVAM VIDAS! 20mEq de potássio. Logo, de Ringer - Características alcalinizantes, uma vez que o lactato sofre
para obtenção de uma solução com 15 Lactato biotransformação hepática em bicarbonato, sendo, portanto, indicada
mEq / www.vetsciencemagazine.com.br
L de potássio são necessários para as acidoses metabólicas;
cerca de 10 mL de KCl a 10% por litro - É a mais versátil das soluções Empregadas;
de Ringer Lactato (MORAIS et al, - Por conter cálcio está contra indicada para pacientes hipercalcêmicos;
2000). - Não deve ser administrada junto com hemoderivados, no mesmo
cateter, pois causa precipitação do cálcio com o anticoagulante;
S o l u ç ã o - Características similares ao Ringer Lactato;
isotônica - Não contém lactato;
de Ringer - Contém mais cloreto e mais cálcio que outras soluções, tornando-a
levemente acidificante (ph 5,5);
- É a solução mais indicada para alcaloses metabólicas;
Solução - Não é uma solução balanceada, pois contém apenas sódio, cloro e
isotônica água;
de Nacl a - É acidificante, sendo indicada para pacientes com
0,9% alcalose,hipoadrenocorticismo, insuficiência renal , oligúrica-anúrica
e hipercalcemia;
S o l u ç ã o - Tem composição semelhante à solução de Nacl a 0,9%;
de Glicose - Apresenta, porém, maior osmolalidade e ph 4,0;
5%

Por outro lado, os colóides, conhecidos A utilização de colóides está indicada,


por seu alto peso molecular, exercem quando se necessita melhorar o
efeito expansor, por possuírem macro quadro de hipotensão e contribuir
moléculas incapazes de atravessar o para manter a pressão oncótica
Figura1. Solução de Cloreto de potássio endotélio capilar, permanecendo, assim, (MAZZAFERRO, 2011) como, por
empregada para suplementação de algumas no espaço intravascular. (FANTONI, exemplo, no tratamento da hipovolemia,
soluções cristalóides.
2008; CORTOPASSI & PATRICIO, já que resulta, rapidamente, em uma
A solução glicosada a 5% deve
2009). Podem ser classificados em estabilidade hemodinâmica, assim
ser aplicada sempre de forma lenta,
naturais ou sintéticos (Quadro 3), de como, em oxigenação tecidual adequada.
seja para repor déficits calculados, na
acordo com sua origem. Diferente A expansão dessas soluções além de ser
administração de fármacos de infusão
da albumina no plasma, que contém mais duradoura, necessita de volumes
a uma velocidade constante ou em
moléculas de tamanho e peso iguais, menores se comparada às soluções
combinação com líquidos de reposição.
os coloides sintéticos apresentam salinas isotônicas. Por exemplo, a perda
No último caso, cria-se uma solução de
moléculas de peso e tamanho de 1 ml de sangue pode ser reposta com
ajuste para manutenção, o que resulta em
diversificados (PETTIFER, 2007; 1 ml de coloide, porém, se utilizarmos
um líquido de reposição parcialmente
FANTONI & CARDOZO, 2012). Os soluções cristaloides, essa proporção é
concentrado com glicose a 5%. Para isto,
tipos mais comuns de soluções coloidais passa de 1:1 à 1:3 até 1:4 (PETTIFER,
podemos adicionar 5 ampolas de glicse
e suas principais características, estão 2007; FANTONI, 2008). Seu volume
50% em 500mL de Ringer Lactato
identificados no Quadro 4. de expansão é definido pela distribuição,
(Kirby e Rudloff, 2004). Tal solução,
Quadro 3. Classificação dos colóides peso molecular, pressão oncótica,
não deve ser utilizada como “fonte de
taxa de degradação, carga elétrica e
calorias” para pacientes, pois, além de 1.Colóides - Sangue fresco limiar de eliminação (FANTONI &
propiciar apenas 15% das necessidades Naturais - Albumina CARDOZO, 2012). A administração
calóricas de manutenção, a glicose é
sem cuidados pode resultar em efeitos
metabolizada e serve, somente, como
2.Colóides - Amidos colaterais como coagulopatias, falência
fonte de água. Pode ser administrada
Sintéticos - Gelatina renal, reações anafiláticas e disfunção
a pacientes que apresentam alto-risco
hepática. Por outro lado, a probabilidade
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EMERGÊNCIAS

de edema pulmonar ou edema periférico é menor com as soluções coloidais, assim 3. Etapas da fluidoterapia
como, o efeito deletério sobre a coagulação em decorrência da hemodiluição Depois de realizar a avaliação clínica
(FANTONI & CARDOZO, 2012). Também estão associados a menor neutrofilia do paciente, pode-se classificar o tipo
e ação inflamatória e diminuiem a lesão endotelial coibindo o extravasamento de e porcentagem de desidratação e/
plasma para o interstício (FANTONI & CARDOZO, 2012). ou hipovolemia que este apresenta.
Sabendo disto, parte-se para a escolha
Quadro 4. Tipos e características das soluções coloidais. do fluido a ser utilizado e como deve ser
utilizado, levando em consideração que
Amidos - Menor risco de reações anafiláticas entre os colóides sintéticos;
o programa de fluidoterapia compreende
- Relacionados à menor neutrofilia e reação inflamatória;
quatro etapas: Reanimação, reidratação,
- Diminuem a lesão endotelial coibindo o extravasamento de plasma
manutenção e reposição de perdas. A
para o interstício;
reanimação, normalmente, é crucial
- Grandes riscos de reações anafiláticas; nos casos de urgência, onde se devem
- Produzidas a partir do colágeno bovino; repor perdas ocorridas, de forma rápida,
Gelatina - Podem ocorrer coagulopatias dilucionais após administração de através de bolus, como por exemplo,
grandes volumes; nos casos de choque, que necessitam de
- Respostas inflamatórias exacerbadas; reposição de grande volume de fluido
- Baixo custo; em um pequeno espaço de tempo. O
Plasma - Capaz de aumentar o volume intravascular em até 5x o volume administrado deve ser o volume
volume infundido devido à quantidade de albumina; necessário para expandir o espaço
- Podem ser administrados por meio de transfusões; intravascular, restabelecer a volemia e,
- Por se tratar de um coloide natural apresenta menor consequentemente, perfusão e valores
risco de interferir na coagulação sanguínea; de pressões sanguíneas. A segunda fase,
-Menor risco de reações anafiláticas; a reidratação, é a etapa de reposição,
- Alto custo; onde se calcula os déficits de fluidos e o
Sangue - Indicado quando além de restabelecer a volemia, é necessário repor percentual de desidratação do paciente,
Fresco eritrócitos; sendo realizada a administração da
- Alta capacidade de restabelecer o volume vascular; quantidade de fluido necessária para
- Devem ser realizados testes de compatibilidade antes do reidratá-lo. Esta reposição é feita,
procedimento; baseada na fórmula: VR (ml)= DH%
- Baixo risco de reações anafiláticas; x P x 10, onde “DH%” é o percentual
de desidratação e “P” o peso. O tempo
que essa reposição vai ocorrer, depende
do tempo em que ocorreu a perda.
Lembrando que em animais jovens a
reposição pode ser feita em um intervalo
mais curto, já em animais idosos, esta
reposição não pode ser realizada tão
rapidamente. Na manutenção, deve
ser administrada a quantidade de fluido
diária necessária. Geralmente, os valores
calculados são de 40 ml/kg/dia para
cães grandes e 60 ml/kg/dia para cães
pequenos e gatos. A reposição de perdas
corresponde às perdas posteriores, como
por exemplo, nos casos de gastroenterites,
onde se repõe a quantidade de fluido,
através de bolus, para cada perda
como vômito ou diarreia. Isto é um
tanto quanto subjetivo, se levarmos em
consideração que existem pacientes
Figura 1. Solução colóide (Hidroxietilamido), Soluções cristaloides de Ringer Lactato e Nacl 0,9%,
respectivamente. que não apresentam perdas posteriores
como vômito, diarreia, hipertermia ou

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EMERGÊNCIAS

poliúria. Nesses casos, o volume total


de fluidos administrados a tal paciente, 5. Tipos de Cateter
será o de reidratação acrescido ao de
manutenção. Se, por acaso, o paciente - Rígido;
EMERGÊNCIAS NA CLÍNICA VETERINÁRIA
tem perdas posteriores baixas, como, Teflon
- Reatividade moderada;
CONDUTAS QUEpor
SALVAMexemplo,
VIDAS! hipertermia, esse volume
- Quimicamente inerte;
pode ser aumentado em 10%, porque
- Suave;
para cada grau de temperatura elevada
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- Flexível;
que ele apresenta mais perda de fluidos Silicone
- Reatividade muito baixa;
vai ocorrer. Se as perdas são moderadas,
- Reutilizável;
com alguns vômitos e diarreias, o
- Alto custo;
volume aumenta em 15 %. E para perdas
- Suave;
posteriores elevadas, aumentamos
Poliuretanos - Flexível;
para 20%. De acordo com um estudo
- Reatividade moderada;
realizado sobre a quantidade média de
líquido que um paciente perde para cada - Extremamente reativo;
Polivinilclorado
episódio de vômito ou diarreia, os valores - Não deve ser utilizado;
obtidos foram de 2,5ml/kg e 5ml/kg, - Extremamente reativo;
Polipropileno
respectivamente. Valores estes, que - Não deve ser utilizado;
devem ser repostos em bolus, na mesma - Extremamente reativo;
Polietileno
quantidade, utilizando cristaloides. É de - Não deve ser utilizado;
suma importância lembrar que as taxas
nunca são constantes, necessitando,
de reavaliação e readaptação, sempre
que seja necessário. Normalmente, os
pacientes que estão a receber fluidos,
devem ser avaliados a cada 6-8h para
um plano terapêutico mais eficaz.

4. Vias de administração
• V. Cefálica
Cateter
• V. Safena Medial
Periférico
/ Lateral

Cateter
• V. Jugular
Central
• V. Femoral

Cateter • Úmero
Intra-Ósseo • Fossa da Tíbia
Figura 3. Cateteres venosos e seus respectivos calibres e tamanhos.

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EMERGÊNCIAS

6. Conclusão MORAIS, H.S.A.; TRAPP, S.M. Fluidoterapia:


A terapia fluídica não é a panacéia ¿Qué? ¿Cuándo?¿Cómo? Revista de Medicina EXAMES REALIZADOS PELO TECSA LABORATÓRIOS
universal e não substitui o diagnóstico Veterinaria, v.79, n.6, p.435-438, 1998.
correto e tratamento das causas primárias MONTIANI-FERREIRA, F..; PACHALY, COD EXAMES DIAS
do desequilíbrio hidroeletrolítico. Além J.R. Manual de fluidoterapia em pequenos
animais. São Paulo: Editora Guará, 2000. 79 p.
disso, devemos levar em consideração 570 0
CHECK-UP GLOBAL DE FUNÇÕES
que é a solução que se adapta ao MORAIS, H.A.; DEARO, A.C.O.; PEREIRA,
paciente e não o contrário. O que muitas P.M.; REICHMANN, P. Fluidoterapia e
Transfusão Sangüínea. In: ANDRADE, S.F.
vezes acontece, é que o profissional Manual de Terapêutica Veterinária. São Paulo: 856 CHECK-UP CARDIORRENAL 2
submete o paciente a um protocolo de Roca, 2003, cap. 19, p.477-501.
administração de soluções, que nem FANTONI, D.T. Colóides e produtos sanguíneos.
sempre são adequadas, resultando In: Congreso Latinoamericano de 233 CHECK-UP EMERGÊNCIA 0
em sérios distúrbios iatrogênicos. O Emergência y Cuidados Intensivos, 12, 2008, Rio
de Janeiro. Proceedings… Rio de
emprego correto da fluidoterapia e do Janeiro: LAVECCS, 2008.
seu manejo depende do conhecimento 331 PERFIL ELETROLÍTICO 1
da fisiologia dos líquidos corporais, FANTONI, D.T.; CARDOZO L.B. Choque
hipovolêmico In: RABELO, R.C.
da escolha do fluido e das causas Emergência de pequenos animais: condutas
relacionadas. Garantidamente, se isto clínicas e cirúrgicas no paciente grave. 788 CHECK UP GLOBAL DE FUNÇÕES COM 0
ocorrer, a taxa de sucesso no tratamento 14 Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. p.282-291. HEMOGRAMA
aumenta consideravelmente. PETIFFER, G. In: SLATTER, D. Manual de
cirurgia de pequenos animais: Terapia 235 1
hídrica, eletrolítica e ácido-básica. Barueri: CHECK-UP PÓS-OPERATÓRIO
Referências: Manole, 2007. v.3, p.17-43.

MAZZAFERRO, E.M. Fluid therapy: it’s more


than just lrs these days. In: Latin 591 COAGULOGRAMA 0
RUDLOFF, E.; KIRBY R. Fluid Resuscitation
and the Trauma Patient. Veterinary Clinical American Veterinary Conference, 10, 2011,
Small Animal, v.38, p.645–652, 2008. Lima. Proceedings… Lima: LAVC, 2011.

10
EMERGÊNCIAS

ANESTESIA NO PACIENTE CRÍTICO


Dra. Juliana Meireles, Médica Veterinária, Serviço de Urgência, Cuidados Intensivos e Anestesia do Hospital VetCentral, Portugal.
EMERGÊNCIAS Dr. Nuno NA Paixao, Médico VETERINÁRIA
CLÍNICA Veterinário, Director do Serviço de Urgência, Cuidados Intensivos e Anestesia do Hospital VetCentral, Portugal
CONDUTAS QUE SALVAM VIDAS! Contacto: nunopaixao@hospvetcentral.pt
www.vetsciencemagazine.com.br

Introdução Avaliação do Paciente qual se deve ter cuidado na escolha do


O paciente gravemente enfermo ou Sistema respiratório protocolo a ser utilizado.
ferido representa um verdadeiro desafio Deve-se avaliar frequência, padrão e Sistema renal
no gerenciamento de anestesia e controle esforço respiratório. Deve ser realizada Para todos os pacientes, não só os em
da dor, uma vez que, em razão do quadro também auscultação pulmonar, que estado crítico, a anestesia pode afetar a
instável, respondem de forma anormal a fornecerá informações sobre a função função renal, através da diminuição da
esses procedimentos. As reservas físicas respiratória do paciente. Qualquer filtração glomerular ou diminuição do
e os mecanismos compensatórios estão, anormalidade na auscultação (como fluxo sanguíneo renal. Concretamente,
muitas vezes, reduzidos, resultando sibilos, sons abafados e crepitação) deve uma má função renal com azotemia pode
em pacientes mais frágeis, propensos a ser investigada, sempre que possível, afetar a resposta aos agentes anestésicos,
complicações e possivelmente incapazes antes do procedimento anestésico, pois ocasionando maior sensibilidade do
de responder aos estresses adicionais pode gerar complicações com risco SNC. A insuficiência renal também
da anestesia. Hipotensão, hipovolemia, de vida. A capacidade de transportar pode afetar o estado ácido-base do
hipercapnia, hipoxia, hipotermia, dor, oxigênio também deve ser avaliada, paciente, resultando em um aumento
arritmias e anormalidades eletrolíticas mediante verificação dos níveis mínimos do potássio sérico. Pacientes com níveis
são alguns dos problemas potenciais de hemoglobina. séricos de potássio maiores do que 5,5
para esses pacientes e que devem Sistema cardiovascular mEq/l não devem ser anestesiados, até
ser considerados na elaboração do Deve-se avaliar a cor das mucosas, que os níveis séricos do potássio tenham
protocolo anestésico, assim como o o tempo de preenchimento capilar, sido reduzidos. Por isso, os resultados da
histórico do animal, os medicamentos a frequência cardíaca, o ritmo, a bioquímica sérica pré-anestesia devem
previamente utilizados, o exame físico qualidade e a sincronicidade do pulso, ser analisados com o objetivo de se
completo, os exames complementares além da pressão arterial. Assim como avaliar a função hepática, renal, estado
necessários, os exames de emergência em relação ao sistema respiratório, ácido-base e os eletrólitos.
(glicemia, lactato, hematócrito, sólidos qualquer anormalidade deve ser Manejo da dor
totais e eletrólitos) e o procedimento investigada, sempre que possível, antes O tratamento da dor é uma questão
a ser realizado. É comum que surjam do procedimento anestésico, com a importante a ser considerada após o
dúvidas acerca dos fármacos a escolher, finalidade de tornar o procedimento exame inicial do paciente crítico, porque
das doses a serem utilizadas e em que mais seguro para o paciente. ela se mostrou um fator poderoso na
ordem administrá-los. O conhecimento Sistema nervoso produção de instabilidade fisiológica
das particularidades dos diferentes A anestesia é a depressão reversível do nesses pacientes. Por isso, é fundamental
compostos disponíveis, associado com sistema nervoso central, e o anestesista que o seu controle seja tomado como
a experiência clínica, influenciará baseia-se inclusive na avaliação deste uma das prioridades.
diretamente nos índices de sucesso. É sistema para avaliar a profundidade A principal preocupação que se tem
importante lembrar que, sempre que da anestesia através dos reflexos e quando se inicia o tratamento da dor é
possível, a escolha dos fármacos deve ser tônus muscular. O desenvolvimento que ocorra “desestabilização” do paciente,
feita após avaliação completa e detalhada de um plano anestésico seguro e eficaz devido aos efeitos dos analgésicos. No
do paciente, assim como estabilização para os pacientes em questão requer o entanto, essa preocupação é injustificada
respiratória e hemodinâmica. Ou seja, conhecimento do estado neurológico na maioria dos casos.
a tentação de apressar os pacientes basal, ou seja, aquele anterior à Para o tratamento da dor, podem ser
instáveis para a anestesia/cirurgia administração de qualquer fármaco. utilizados fármacos opióides, AINES,
deve ser evitada sempre que o risco da Alguns medicamentos anestésicos anestésicos locais e dissociativos. Eles
anestesia em um animal crítico for maior podem resultar em alterações devem ser escolhidos de acordo com
do que o do adiamento da cirurgia ou significativas na pressão intracraniana, suas propriedades farmacocinéticas e
do procedimento, até que o animal seja com possibilidade de agravamento possíveis efeitos adversos. Vale ressaltar
estabilizado. dos efeitos de eventual traumatismo que os opióides são os fármacos mais
craniano ou doença cerebral, razão pela
11
EMERGÊNCIAS

utilizados para promover analgesia vista cardiorrespiratório, embora possam no paciente, a depressão cardiovascular
em pacientes críticos, porque são causar uma depressão respiratória dose- e respiratória que causam, a eficiência
hemodinamicamente seguros. dependente. do organismo para os metabolizar e
Fármacos tranquilizantes, eliminar e a incidência de afecções
Medicação pré-anestésica principalmente os benzodiazepínicos, gástricas que promovem (náusea,
A MPA não é comumente podem ser necessários nos casos em regurgitação, salivação ou vômito).
utilizada em pacientes traumatizados que o animal está agitado ou que se Nos pacientes letárgicos, deprimidos
ou criticamente doentes, se o deseja promover relaxamento muscular. ou instáveis, a dose da maioria dos
tratamento sistêmico da dor tiver sido Os fenotiazínicos também podem ser fármacos deve ser diminuída. Inclusive
implementado no período de avaliação. utilizados, desde que em baixas doses e a MPA deve ser evitada nos casos em
Se nenhuma analgesia foi previamente em animais normovolêmicos. que seja desnecessária ou perigosa,
administrada, os opióides estão Os fármacos a serem utilizados passando-se imediatamente à indução
indicados e devem ser administrados, devem ser escolhidos de acordo com o anestésica.
por serem fármacos seguros do ponto de impacto hemodinâmico que promovem

Tabela 1. Doses recomendadas de analgésicos, tranquilizantes e sedativos para uso em pacientes críticos.

Drogas Doses Comentários

OPIÓIDES
É agonista total dos receptores mu. Pode causar salivação, vômito,
0,1 a 1 mg/kg IM, SC, retenção urinária, constipação intestinal e depressão respiratória
Morfina IV a cada 4-6 horas leve. Possue baixo impacto cardiovascular, bom efeito sedativo,
0,1 a 0,5 mg/kg/h (infusão) analgésico potente e efeito antitussígeno. Quando administrada
pela via IV, pode causar liberação de histamina.
É agonista total dos receptores mu. Promove impacto
0,002 a 0,01 mg/kg IV a
cardiovascular e depressão respiratória de forma dose-dependente.
Fentanil cada 20-30 minutos
Pode causar salivação. É muito utilizado em pacientes críticos.
0,0001 a 0,0007 mg/kg/min (infusão)
Analgésico potente e bom efeito sedativo.
É antagonista dos receptores mu e agonista dos receptores kappa.
0,1 a 0,8 mg/kg IM, SC, Possui efeito antitussígeno e sedativo leve. Recomendado para
Butorfanol IV a cada 1-2 horas tratamento de dor leve. Promove baixo impacto cardiovascular e
0,1 a 0,2 mg/kg/min (infusão) depressão respiratória, assim como menor ocorrência de efeitos
gastrointestinais.
É agonista parcial dos receptores mu. Promove baixo impacto
0,01 a 0,03 mg/kg IM, SC, cardiovascular e depressão respiratória, assim como menor
Buprenorfina
IV a cada 6-8 horas ocorrência de efeitos gastrointestinais. Muito utilizada para tratar
dor pós-operatória leve a moderada.
É agonista total dos receptores mu.
0,2 a 1 mg/kg IM, IV, Pode causar bradicardia, mas não demonstra depressão respiratória
Metadona
SC a cada 4-6 horas relevante. Promove sedação média e analgesia potente. Menor
ocorrência de efeitos gastrointestinais.
É agonista total dos receptores mu. Promove menor atividade
hipnótica, efeito constipante e ação sobre o centro da tosse, quando
2 a 5 mg/kg IM, IV, SC comparada à morfina. A depressão respiratória é semelhante a
Meperidina
a cada 1-2 horas da morfina, assim como as alterações cardiovasculares. Promove
sedação média e analgesia potente. Quando administrada pela via
IV, pode causar liberação de histamina.

Naloxona 0,01 a 0,02 mg/kg IM, IV, SC Antagonista dos receptores mu e kappa e delta.

12
EMERGÊNCIAS

BENZODIAZEPÍNICOS
Diazepam 0,1 a 0,5 mg/kg IV Mínima depressão cardiorrespiratória. Não promovem
analgesia. Indicados para pacientes críticos e podem se
EMERGÊNCIAS NA CLÍNICA VETERINÁRIA combinar com opióides ou dissociativos. Promovem adequado
CONDUTAS QUE SALVAM VIDAS! relaxamento muscular, sedação e efeito anticonvulsivante.
Midazolam 0,1 a 0,5 mg/kg IM, SC, IV
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0,1 a 0,5 mg/kg/h (infusão)
Flumazenil 0,01 a 0,05 mg/kg IM, IV Antagonista

FENOTIAZÍNICOS
Acepromazina 0,01 a 0,05 mg/kg IM, SC, IV Seu uso não está recomendado em pacientes críticos devido
ao impacto negativo a nível cardiovascular (hipotensão e
vasodilatação). Promovem boa sedação, são antieméticos e
não possuem efeito analgésico. Efeito prolongado. Não existe
antagonista. São antiarrítmicos.

ALFA 2 AGONISTAS
Medetomidina 0,01 a 0,04 mg/kg IM, IV Promovem excelente analgesia, sedação e relaxamento muscular.
Efeitos cardiovascular e respiratório relevantes, com hipertensão
inicial seguida de hipotensão, bradicardia, vasoconstrição
periférica intensa, arritmias e depressão respiratória. Podem
provocar vômitos, hiperglicemia e diurese. Não recomendado
para uso em pacientes críticos.
Dexmedetomidina 0,001 a 0,01 mg/kg IM, IV

Atipamezole 0,05 a 0,1 mg/kg IM, IV Antagonistas

DISSOCIATIVO
Ketamina 2 a 5 mg/kg IV Aumento da FC, contratilidade miocárdica, consumo de oxigênio
5 a 10 mg/kg IM pelo miocárdio e pressão arterial. Depressor do miocárdio
em pacientes com sepse ou hipovolemia descompensada. Uso
acompanhado de relaxante muscular. Promove boa analgesia.
Deve-se ter cuidado com seu uso em pacientes com trauma
crânioencefálico, devido ao aumento da PIC e pressão intra ocular.

Indução e Manutenção Anestésica


Os pacientes traumatizados devem que a entubação seja realizada em todos causa hipotensão, e isso aumenta o risco
ser considerados com estômago os casos de anestesia geral, para controlar anestésico em pacientes hipovolêmicos
cheio, de modo que a proteção das a ventilação e proteger a via aérea de ou com baixas reservas cardíacas. Uma
vias aéreas é uma prioridade. A lesão possível aspiração. A indução anestésica, alternativa de indução mais segura
do SNC deve ser assumida, a menos de maneira geral, requer menores para pacientes hemodinamicamente
que seja comprovado o contrário, e doses nos pacientes críticos, quando instáveis é o uso de opióides,
os medicamentos anestésicos devem comparados aos pacientes submetidos principalmente fentanil, associados aos
ser selecionados de acordo. A pré- a procedimentos cirúrgicos eletivos. A benzodiazepínicos, para promover o
oxigenação deve ser realizada antes indução com propofol ou etomidato relaxamento muscular adequado. Para
da indução, pois permitirá tempo deve ser feita de maneira lenta, para facilitar a entubação pode-se realizar a
adicional para entubar o animal, o que permitir a identificação da dose mínima dessensibilização tópica da laringe com
se torna importante em animais com necessária a entubação endotraqueal. lidocaína.
dificuldades respiratórias ou com via A indução com propofol, entretanto, Todos os anestésicos inalatórios
aérea de difícil entubação. É importante
13
EMERGÊNCIAS

promovem depressão cardiovascular, bloqueios são lidocaína e bupivacaína, efeito analgésico pela via IV, sendo os
respiratória, diminuição do metabolismo sendo que o tempo de início da ação mais utilizados os opióides, lidocaína e
cerebral, aumento do fluxo sanguíneo da lidocaína é menor (5 minutos), ketamina.
cerebral e aumento da PIC de forma dose quando comparado ao da bupivacaína Em pacientes com trauma
dependente. Por isso, deve-se encontram (15 minutos), enquanto que a duração crânioencefálico e aumento da PIC, a
a CAM mínima necessária para manter da bupivacaína é maior (4 horas), manutenção anestésica com agentes
o paciente em plano anestésico/ quando comparada a da lidocaína (2 inalatórios não é indicada, pois pode
cirúrgico com mínimos efeitos horas). Outra alternativa para diminuir induzir a desregulação do fluxo cerebral,
secundários. Nesse sentido, o uso de o requerimento dos agentes inalatórios como consequência da vasodilatação
analgesia multimodal é o mais indicado. é fornecer analgesia parenteral usando cerebrovascular. Nesses casos, pode
Técnicas de bloqueio locorregional fármacos que tenham menos efeitos ser mais seguro o uso do propofol
são recomendadas para diminuir o deletérios no desempenho cardíaco. A em infusão contínua, como forma de
requerimento dos anestésicos gerais forma mais simples é administrar, de manutenção anestésica.
e os fármacos mais utilizados nesses forma contínua, fármacos que tenham
Tabela 2. Doses recomendadas de anestésicos para uso em pacientes críticos.

Drogas Doses Comentários

BARBITÚRICOS
1 a 10 mg/kg IV (dose dependente)
Rápida indução anestésica (30 segundos) e curta duração (5 a 10
Propofol minutos). Importante depressor cardiorrespiratório dose-dependente.
0,005 a 0,2 mg/kg/min
Anticonvulsivante. Diminui a PIC. Não promove analgesia.
(infusão contínua)
Rápida indução anestésica e eliminação. Pobre relaxamento muscular,
por isso deve ser associado a sedativos ou tranquilizantes. Promove
Etomidato 0,5 a 2 mg/kg IV mínima depressão. Pode induzir aumento da PIC, por isso seu uso
deve ser evitado em pacientes com trauma craniano. Não promove
analgesia.

INALATÓRIOS
Isofluorano/ Promovem depressão cardiorrespiratória dose-dependente.
Sevofluorano/ --- Requerem adequada ventilação alveolar e débito cardíaco para serem
Desfluorano absorvidos.

Monitoração temperatura corporal (monitorada para quando têm mais de um acesso venoso
O suporte transcirúrgico deve ser definir quando são necessárias medidas (via de administração de escolha),
individualizado para cada paciente de suporte). Mesmo após o término do possibilitando que múltiplos agentes
e orientado também por fatores período anestésico/cirúrgico o paciente e fluidos possam ser administrados
identificados durante o período crítico requer a mesma intensidade durante e após o período anestésico.
pré-cirúrgico. É importante que a de monitoração e supervisão, sendo Ambos os fluidos, cristaloides (5-15
monitorização seja a mais completa essencial uma unidade de cuidados ml/kg/h) e coloides (4ml/kg/bolus),
possível, avaliando principalmente intensivos, até que a recuperação do podem ser apropriados, dependendo
eletrocardiografia (avalia a função paciente seja completa. A administração do caso. Animais com hipoalbunemia
elétrica do coração), capnografia de fluidos é necessária nesses pacientes, e hipovolemia se beneficiam de bolus
(método não invasivo para avaliar devido às perdas normais, somadas, de coloide, que pode aumentar o
ventilação alveolar e perfusão pulmonar), eventualmente, às perdas excessivas volume plasmático entre 2 e 4 ml por
oximetria de pulso (mede a saturação e associadas às hemorragias, perdas ml de colóide administrado. As perdas
arterial de hemoglobina com oxigênio), gastrointestinais e consumo de água de sangue estimadas superiores a 25%
controle da pressão arterial (oscilômetro, diminuído. Dessa forma, pacientes indicam a necessidade de administração
Doppler ou pressão arterial invasiva) e críticos geralmente se beneficiam de componentes sanguíneos ou sangue
14
EMERGÊNCIAS

total, como forma de fornecer equilíbrio Kushner, L. I. (2010). Anesthetic protocols for
coloidal adequado e proporcionar systemically healthy cats. Em K. J. Drobatz, & EXAMES REALIZADOS PELO TECSA LABORATÓRIOS

capacidade de transporte de oxigênio M. F. Costello, Feline emergency and critical care


COD EXAMES DIAS
aos tecidos. Além dos cuidados para medicine (pp. 53-61). Ames: Wiley-Blackwell.
EMERGÊNCIAS NA CLÍNICA VETERINÁRIA
manutenção do equilíbrio coloidal, pode 581 PERFIL GLICÊMICO 1
CONDUTAS QUEser
SALVAMnecessária
VIDAS! uma terapia específica Kushner, L. I. (2010). Guidelines for anesthesia
para tratar a hipotensão. Agentes in critically ill feline patients. Em K. J. Drobatz,
333 0
www.vetsciencemagazine.com.br PERFIL HEPÁTICO
inotrópicos, como dopamina (0,003- & M. F. Costello, Feline emergency and critical
0,007 mg/kg/min) ou dobutamina care medicine (pp. 39-52). Ames: Wiley-
233 CHECK-UP EMERGÊNCIA 0
(0,002-0,005 mg/kg/min), podem ser Blackwell.
utilizados para aumentar a pressão
788 CHECK UP GLOBAL DE FUNÇÕES COM 0
sanguínea e estabelecer hemodinâmica Perkowski, S. Z. (2009). Sedation of the critically HEMOGRAMA
estável. ill patient. Em D. C. Silverstein, & K. Hopper,
Small animal critical care medicine (pp. 700- 570 CHECK-UP GLOBAL DE FUNÇÕES 0
Referências 704). St. Louis: Saunders elsevier.
324 PERFIL BIOQUÍMICO 0
Aldrigde, P., & O’dwyer, L. (2013). Analgesia Raiser, A. G., Castro, J. L., & Santalucia, S.
and anaesthesia of the emergency and critical (2015). Trauma - avaliação e manejo. Em A. G. 801 PERFIL CHECK-UP GLOBAL PLUS 1
patient. Em P. Aldrigde, & L. O’dwyer, Practical
Raiser, J. L. Castro, & S. Santalucia, Trauma:
emergency and critical care veterinary nursing
uma abordagem clínico-cirúrgica (pp. 20-34).
(pp. 52-62). West Sussex: Wiley-Brackwell. 331 PERFIL ELETROLÍTICO 1
Curitiba: Medvep.
Araos, J., Portela, D. A., & Otero, P. E. (2013).
Considerações anestésicas no paciente crítico.
348 PERFIL PRÉ-ANESTÉSICO I 0
Em R. Rabelo, Emergências de pequenos
animais: condutas clínicas e cirúrgicas no 345 PERFIL PRÉ-OPERATÓRIO 0
paciente grave (pp. 743-750). Rio de Janeiro:
Elsevier.

15
EMERGÊNCIAS

PRINCÍPIOS GERAIS DA CIRURGIA DE URGÊNCIA


Dra. Karoline Figueiredo Camargo, Médica Veterinaria, Serviço de Urgência, Cuidados Intensivos e Anestesia do Hospital VetCentral, Portugal
Dr. Nuno Paixao, Médico Veterinario, Director do Serviço de Urgência, Cuidados Intensivos e Anestesia do Hospital VetCentral, Portugal
Dra. Alice Volpi, Médica Veterinaria, Serviço de Urgência, Cuidados Intensivos e Anestesia do Hospital VetCentral, Portugal

Todo hospital ou clínica veterinária 1) Pacientes que necessitam cirurgia mente que o procedimento cirúrgico
admite frequentemente pacientes em imediata para evitar a morte; pode ser essencial para a estabilização.A
estado de urgência, no qual alguns 2) Pacientes hemodinamicamente determinação da estabilidade do paciente
podem exigir intervenção cirúrgica instáveis e com lesões que contribuem é crítica e é uma área de investigação
de emergência em minutos a horas significativamente para a morbilidade e em curso na medicina humana.
de chegada. Garantir que o hospital que exigem intervenção cirúrgica; Há pouca literatura na medicina
esteja preparado para receber esses 3) Pacientes hemodinamicamente veterinária sobre o momento ideal para
animais é primordial para um resultado estáveis e podem ser operados conforme a intervenção cirúrgica. Complicações
bem sucedido. Esta preparação inclui a gravidade das lesões. Em pacientes em paciente com trauma severo são
assegurar que o estabelecimento esteja gravemente traumatizados onde há frequentemente associadas à lesões
adequadamente equipado e com necessidade de intervenção cirúrgica teciduais graves e desenvolvimento de
uma equipe de médicos veterinários urgente, pode ser realizado com pouca um estado inflamatório geral. O trauma
competentes com conhecimentos e consideração pela assepsia, no entanto, induzido pela cirurgia contribui para a
habilidades necessárias para avaliar, preconizar ao máximo uma cirurgia inflamação e se for realizada durante
priorizar, estabilizar e proporcionar limpa. Em casos que não é necessária a fase inflamatória sistêmica, podem
cuidados definitivos. O Médico uma cirurgia de salvação iminente, a ocorrer efeitos adversos. A complicação
Veterinário deve ser rápido e eficiente reanimação apropriada e estabilização do mais significativa da cirurgia com
em sua triagem e avaliação inicial paciente são essenciais antes da indução tempo inadequado é o potencial para
do paciente para determinar a anestésica. Se o animal não estiver desenvolver falha de múltiplos órgãos
gravidade do quadro clínico e se há respondendo a reanimação volêmica e (MOF).
necessidade de intervenção cirúrgica. aos cuidados de suporte, deve-se ter em
É primordial haver prontidão para
realização de procedimentos cirúrgicos
potencialmente vitais, incluindo acesso
vascular, manobras para controle de
hemorragias ativas e toracotomia
de emergência para reanimação
cardiopulmonar aberta. Celiotomia de
emergência pode ser necessária para
controle de hemorragias, dilatação
vólvulo-gástrica, remoções de corpos
estranhos no trato gastrointestinal,
rupturas em sistema urinário, cesarianas
de emergência, por exemplo.
Procedimentos cirúrgicos, onde a morte
é iminente, não devem ser adiados por
qualquer motivo. O bom julgamento
deve ser exercido, isso porque os riscos
de realizar o procedimento devem
ser ponderados contra os riscos de
transporte e a cirurgia tardia.
Os pacientes traumatizados podem
ser classificados em três categorias: FIGURA 1: Trauma torácico em um cão. Fonte: Hospital Veterinário Vetcentral.

16
EMERGÊNCIAS

Ambiente Hospitalar Organizado presença ou ausência de hipoxemia ou antes da indução anestésica. Na


e Equipado hipoventilação. A hipoxemia prolongada avaliação do paciente, incluir a inspeção,
É primordial um centro cirúrgico e o mau fornecimento de oxigênio no palpação, auscultação e percussão do
organizado e equipado em casos tecido podem resultar em falência de abdome, com objetivo de localizar a dor e
EMERGÊNCIAS NA CLÍNICA VETERINÁRIA
que a intervenção cirúrgica de órgãos, portanto, devem ser tratados detectar presença de fluidos, órgãos com
CONDUTAS QUEemergência
SALVAM VIDAS! é indicada. Uma sala imediatamente. A permeabilidade da gases, massas sólidas, corpo estranho ou
equipada, incluindo monitores via aérea superior deve ser avaliada hérnias. Lembrando que, a manipulação
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cardiorrespiratórios, ventilador primeiro. A presença de estridor de felinos deve ser realizada de forma
anestésico, anestesia inalatória, bombas juntamente com dispnéia inspiratória, gentil para evitar o estresse, em local
de fluidos, aquecedores de fluidos, pode ser indicativo de obstrução silencioso e a quantidade mínima de
aspirador cirúrgico e eletrocautério. de vias aéreas superiores. Todos os pessoas no ambiente. A palpação
Fluidos intravenosos devem estar animais traumatizados, mesmo que abdominal é realizada para localizar a
disponíveis, incluindo cristalóides, não apresentem quadros de alterações dor e obtermos diagnósticos diferenciais
colóides e sangue total, juntamente respiratórias, a oxigenioterapia deve de acordo com a sua disseminação e
com materiais para autotransfusão, ser iniciada até sua estabilização. Se localização anatomicamente. Além dos
se necessário no paciente gravemente o paciente estiver com dispnéia grave sinais gerais, os sinais de dor abdominal,
hemorrágico. O material cirúrgico ou apneia, a entubação endotraqueal como taquicardia, taquipnéia, ganidos
deve estar devidamente esterilizado, imediata deve ser realizada e a ventilação ou gemidos e o enrijecimento dos
juntamente com a vestimenta. Uma por pressão positiva deve ser iniciada. A músculos abdominais, espontaneamente
caixa cirúrgica básica deve conter entubação endotraqueal dos pacientes ou em resposta à palpação. Deve-se
todos os instrumentos para realizar críticos deve ser em posição dorsal ou saber que nem todos os felinos irão
qualquer celiotomia exploratória. Os lateral, com a cabeça na mesma altura que demonstrar dor na palpação, mesmo
instrumentos curvos são preferidos o coração para preservar a oxigenação na presença de doença intra-abdominal
sobre os retos, pois permitem uma cerebral, já que na posição ventral ocorre significativa. Na inspeção visual
melhor visualização dos tecidos a serem diminuição do fluxo sanguíneo. Avaliar é importante avaliar se há distensão
incisados. O uso de grampos cirúrgicos o estado hemodinâmico do animal, abdominal, realizar o balotamento suave
é útil para diminuir o tempo operatório isto é, coloração das mucosas, tempo do abdômen para verificar se há presença
e prevenir a morbidade quando usados de preenchimento capilar, temperatura de líquido livre. Presença de hematomas
adequadamente. Clipes vasculares corporal, frequência cardíaca e e lesões periumbilicais (Sinal de Cullen)
proporcionam uma rápida e segura respiratória, pressões sanguíneas, podem ser sugestivos de injúrias, porém,
ligação vascular, desde que os vasos pulso femoral e metatarsal e estado trombocitopenia ou trombocitopatias
estejam entre um terço e dois terços de hidratação. Os pacientes devem ser devem ser considerados. Petéquias
do diâmetro do grampo. A prontidão estabilizados o máximo possível antes da e equimoses pode ser sugestivo de
não se refere apenas às instalações cirurgia. A estabilização do paciente se coagulopatias. Realizar palpação retal
físicas, mas também à equipe. Esta dá através do controle da hipoperfusão para observar presença de sangue,
deve ser composta por, no mínimo, três e hipoxigenação, com o objetivo de melena, fraturas pélvicas ou outras
pessoas, incluindo o cirurgião, auxiliar normalizar a oxigenação dos tecidos e patologias. Os sinais clínicos podem ser
e anestesista. O treinamento da equipe a perfusão sanguínea. A hipoxigenação variados de acordo com a enfermidade
é vital, onde deve assumir a forma de é revertida quando garantimos uma via acometida. O animal pode apresentar
sessões didáticas além de situações de aérea viável e uma respiração eficaz, letargia ou depressão, anorexia,
emergências simuladas. juntamente com a oxigenioterapia. vômitos, desidratação, hipersalivação,
A hipoperfusão é revertida com hipertermia, taquipnéia, taquicardia e
Avaliação inicial do paciente fluidoterapia, controle das pressões distensão abdominal. Os felinos podem
A avaliação primária de emergência sanguíneas e hemorragias ativas, apresentar uma postura com cotovelos
deve ser rápida, direta e é regida restaurando assim, um volume efetivo abduzidos e pescoço distendido devido
pelo ABCD (Aiway – Breathing – de circulação e mantendo a capacidade a dor, mudanças de comportamento
Circulation – Disability) do trauma, de transporte de oxigênio. O cateter como agressividade e relutância para
com objetivo de avaliação da patência da venoso deve ser o maior calibre possível se movimentar. Porém, alguns gatos
via aérea, ventilação e respiração, estado para melhor administração de fluidos. podem não expressar dor à palpação
hemodinâmico e por fim, avaliação Diante de uma intervenção cirúrgica abdominal mas não se deve descartar
da capacidade neurológica. de urgência, devem ser priorizadas a doença abdominal aguda. Os cães
A avaliação do sistema respiratório reposição de fluidos e correção das podem apresentar a “posição de oração”
está focada na determinação da anormalidades ácido-base e eletrólitos em casos de dor abdominal cranial

17
EMERGÊNCIAS

intensa, como na pancreatite, por exemplo. No caso das obstruções intestinais, os sinais clínicos dependem do tempo decorrido
entre a instalação da obstrução e a apresentação, da sua localização anatômica e se está completa ou parcialmente obstruído.

FIGURA 2: Obstrução intestinal em um cão devido a corpo estranho. FIGURA 3: Presença de áreas de necroses nas alças intestinais. Fonte:
Hospital Veterinário Vetcentral.

Exames Complementares
Exames complementares são estranhos, obstruções, perfurações ou 2% a 5%. Em um estudo de 16 casos de
frequentemente necessários para se neoplasias e também, coletar amostras felinos com hemoperitôneo espontâneo,
determinar a extensão da doença e guiadas. Entretanto é importante 12 casos (75%) foram associados em
confirmar o diagnóstico e a necessidade ressaltar a importância do lavado patologias hepáticas como neoplasias,
de intervenção cirúrgica, na qual peritoneal diagnóstico (LPD) na necrose e amiloidose. Em outro
incluem as análises sanguíneas, exames ausência do método FAST, uma vez estudo de 65 casos de hemoperitôneo
radiográficos e ultrassonográfico, que o método apresenta índices de espontâneo, 46% dos gatos tinham
abdominocentese, lavagem peritoneal e acurácia superiores a 95%. As principais neoplasia abdominal e 54% não tinham
até avançar para celiotomia exploratória. indicações do método incluem os casos neoplasias associada e sim, apresentavam
Lactato, hematócrito, proteínas totais, de abdome agudo, trauma abdominal, necrose hepática ou coagulopatias.
glicemia, gases sanguíneos, eletrólitos bem como nos casos que é preciso avaliar Hemangiossarcoma foi a neoplasia mais
e uma tira de urina são extremamente a presença de peritonite secundária a comumente diagnosticada. A análise
úteis na determinação da gravidade do deiscência de pontos em pós cirúrgicos bioquímica do fluido abdominal não
quadro clínico. Outros exames incluem de enterotomia ou enteroanastomoses, diluído é uma importante ferramenta
perfil bioquímico, hemograma completo, por exemplo. O fluido abdominal deve de diagnóstico para identificar a
cultura de líquido abdominal/torácico e ser analisado através da mensuração de origem da causa. Valores de creatinina
cultura de feridas. O uso do ultrassom glicemia, lactato, hematócrito, sólidos e potássio no líquido peritoneal acima
na emergência através do AFAST e totais, creatinina, potássio e citologia dos valores séricos indicam ruptura
TFAST é um método de avaliação do líquido. Efusões hemorrágicas em algum segmento do trato urinário
rápido e não invasivo, ao contrário do são classificadas como traumática – uroperitôneo. Valores de lactato
lavado peritoneal diagnóstico (LPD). (traumas fechados, traumas penetrantes, superior a 2,5 mg/dL sugere peritonite
É útil para detectar presença de líquido mordeduras e armas de fogo) ou séptica no cão. Valores de bilirrubina
e ar livre, peritonite, organomegalia espontânea. A realização do hematócrito superior ao sérico sugere ruptura do
e alterações gastrointestinais diretas do fluido pode revelar hemorragia intra- trato biliar, geralmente nesses casos o
ou indiretas compatíveis com corpo abdominal se revelar valores acima de fluido tem coloração esverdeado. A
18
EMERGÊNCIAS

diminuição da glicose no sangue pode paciente é posicionado dorsalmente, Controle de Hemorragias


estar associada a quadro de sepse e diminuindo assim, a pré-carga e O hemoperitôneo é definido como
associada ao sintoma de dor abdominal consequentemente o débito cardíaco. uma acumulação patológica de sangue
aguda pode ser sugestivo de peritonite Colocar o animal em um ligeiro ângulo extravasado dentro da cavidade
EMERGÊNCIAS NA CLÍNICA VETERINÁRIA
séptica. A mensuração de glicose entre pode evitar essa complicação. peritoneal que pode ser classificado em
CONDUTAS QUEoSALVAM
líquido
VIDAS! abdominal e o sangue é uma Os pacientes colocados em decúbito duas categorias: traumático e espontâneo.
forma de diagnostico bastante sensível dorsal com os membros mantidos O hemoperitôneo traumático é
(86%) ewww.vetsciencemagazine.com.br
altamente especifico (100%) em posição amplamente estendida resultado de traumatismo contundente
para peritonite séptica em gatos. Os não conseguem manter uma boa ou penetrante e o espontâneo pode ser
valores de glicose superiores a 20 mg/ ventilação. Uma maneira de diminuir associado aos processos neoplásicos,
dL do sangue periférico para o fluido o comprometimento ventilatório é coagulopatias congênitas ou adquiridas,
abdominal são sugestivos para a doença. dobrando os membros torácicos nos torções hepáticas/esplênicas e dilatação
No entanto, o diagnóstico definitivo cotovelos até um ângulo de 90°. vólvulo-gástrica.A decisão de prosseguir
de peritonite séptica deve-se basear para intervenção cirúrgica deve ser feita
na integração de exames citológicos, Tempo Cirúrgico uma vez que a terapia médica não seja
bioquímico e de imagem. O tempo operatório prolongado foi efetiva, como por exemplo, quando há
associado a uma maior morbilidade hipotensão não responsiva à reanimação
Preparação Cirúrgica do Paciente e mortalidade principalmente nos volêmica com fluidos. Outras indicações
É sempre indicada a preparação ampla pacientes críticos. Em traumas graves, para prosseguir com cirurgia incluem
da pele no paciente emergente, pois pode o tempo operatório não se deve exceder identificação de massa abdominal
ser necessário a implantação de tubos mais de uma hora. O tempo cirúrgico hemorrágica, ferida abdominal
ou drenos fora do campo cirúrgico. As prolongado promove hipotermia, agrava penetrante, sinais de isquemia de órgãos
dimensões do campo cirúrgico variam a acidose e o quadro de coagulação, devido à torção. Os principais objetivos
com a cirurgia em individual, mas em além de, dobrar a taxa de infecção a no tratamento de hemorragias incluem
geral, deve-se incluir o mínimo de cada hora a mais de cirurgia. A cada a redução do fluxo sanguíneo para a área
15-20 cm da extensão mais distante hora de procedimento cirúrgico leva afetada e o uso de agentes hemostáticos.
da incisão de pele. Assepsia cirúrgica à perda de 4,6°C de temperatura Com técnicas hemostáticas apropriadas,
adequada com Cloridrato de hexidina e corporal devido à exposição da a redução do fluxo sanguíneo permite
o iodo povidona são os mais utilizados cavidade. É primordial que o que haja formação de coágulos. Os
na rotina. O posicionamento adequado cirurgião tenha conhecimento profundo grandes vasos – incluindo aorta, artérias
do paciente na mesa é essencial para de anatomia, pois a cirurgia em pacientes renais, veia cava e a artéria hepática e
garantir uma boa exposição. No entanto, traumatizados pode ser complicada e veia porta – podem ser temporariamente
a posição pode ter consequências desafiadora, exigindo maior agilidade, ocluídos de forma segura e por curto
negativas na ventilação e no estado delicadeza e competência da equipe. A período de tempo (Tabela 1). Os meios
hemodinâmico. As massas abdominais técnica cirúrgica deve ser tão precisa de oclusão incluem o tamponamento
ou útero gravídico podem ocultar quanto possível e os tecidos devem ser digital ou com compressas, torniquete
a veia cava abdominal quando o manipulados suavemente. de Rummel ou por pinças vasculares
atraumáticas (Satinsky ou Bulldog).
Tabela 1: Tempo limite para oclusão vascular para auxiliar na hemostasia cirúrgica.

TEMPO LIMITE PARA OCLUSÃO VASCULAR

VASO SANGUÍNEO TEMPO DE OCLUSÃO

Aorta ascendente (proximal à subclávia esquerda) 2 – 3 minutos


Aorta torácica descendente 5 – 10 minutos
Tríade Portal 10 – 15 minutos
Artéria hepática 30 minutos
Artéria e veia esplênica 15 – 20 minutos
Artéria e veia renal 30 minutos
Aorta abdominal 30 minutos
Veia cava caudal (distal do fígado) Sem tempo limite

19
EMERGÊNCIAS

Em casos de hemorragia hepática infecciosos ou células neoplásicas.A fechada. A drenagem abdominal aberta
grave, o controle temporário pode ser hemostasia precisa é importante em tem muitas desvantagens, incluído perda
alcançado através da realização da todos os pacientes, porém em pacientes de proteínas, anormalidade eletrolíticas,
Manobra de Pringle modificada, que críticos esta se torna mais complicada. perda de fluidos, potencial para infecção
tem como objetivo ocluir a tríade que As coagulopatias são comuns nesses ascendente e risco de evisceração. A
compõe a veia porta, artéria hepática animais. Coágulos sanguíneos e drenagem fechada é uma alternativa
e o ducto biliar comum. A manobra hematomas devem ser evitados porque efetiva, onde drenos são implantados
controlará aproximadamente 70% ambos podem levar a um retardo na em abdômen cranial. Os drenos
do fluxo sanguíneo para o fígado e cicatrização e uma maior probabilidade devem permanecer até a quantidade
proporcionara um curto período de de infecção. de fluidos produzidos esteja dentro
tempo para identificar claramente a dos limites fisiológicos (1-2 ml/kg/dia)
lesão e assim, controlar definitivamente Tubos de Alimentação e e a citologia do fluido não apresente
a hemorragia. A hemostasia definitiva Descompressão Nasogástrica sinais de inflamação ou infecção ativa.
pode ser atingida com pressão direta, Deve-se tomar uma decisão Este método de drenagem é eficaz e
suturas de feridas, ligaduras de vasos, consciente em relação à colocação de um minimiza a morbidade.
clipes vasculares, tamponamento com tubo de alimentação em cada paciente
omento viável, eletrocauterização, submetido a cirurgia de urgência. Controle de Danos
seladores de vasos (EnSeal®, Idealmente, um tubo nasogástrico Todos os pacientes traumatizados
Harmonic Scalpel®) ou remoção do deve ser colocado para descompressão estão sujeitos a apresentarem a tríade da
tecido hemorrágico. Os materiais pós-operatória, alimentação enteral morte que é composta por um quadro
hemostáticos tópicos também podem precoce e quando há suspeita de de acidose, hipotermia e coagulopatia.
auxiliar para o controle de hemorragias gastroparesia. Tubos gástricos ou em Portanto, diante de um paciente em
em determinadas situações. Colas de jejuno em pós operatórios de cirurgias emergência, a rapidez e eficiência é
fibrinas, esponjas hemostáticas e celulose gastrointestinal superior, incluindo a primordial para evitarmos a piora do
oxidada são produtos disponíveis. Nos cirurgia hepatobiliar e pancreática, se quadro. Há pacientes politraumatizados
casos de hemoperitôneo sem origem caso houver dúvida de que a nutrição que apresentam maior probabilidade de
neoplásica ou séptica, a autotransfusão enteral não será tolerada dentro de 24 morte em um procedimento cirúrgico
da hemorragia peritoneal pode ser a 48 horas. definitivo em relação a procedimentos
realizada quando não há bolsas de cirúrgicos de reparação. A cirurgia de
sangue fresco disponíveis. Se o sangue Lavagem Peritoneal controle de danos tem como finalidade
autotransfundido estiver presente Antes de fechar o abdômen, deve-se o controle de hemorragias, prevenção
na cavidade por mais de uma hora, lavar com fluidos isotônicos aquecidos de infecções e evitando assim, mais
não é uma boa fonte de fatores de na quantidade proporcional ao grau danos ao paciente. Nos casos de trauma
coagulação, pois estes foram esgotados de contaminação. Recomenda-se 200 severo que requerem intervenção para
pela hemorragia. Por esse motivo, os a 300 ml/kg de peso mínimo ou até controlar a hemorragia com risco de
pacientes que recebem transfusões que o efluente de lavagem seja limpo. vida, as recomendações humanas atuais
maciças de sangue autotransfundido, Antibióticos intraperitoneais não são são para manter o tempo operacional de
precisam de transfusão de plasma indicados, pois não demonstraram 90 minutos ou menos para evitar a tríade
congelado fresco para fornecer fatores efeitos benéficos, além de causarem da morte. Diante de um paciente com
de coagulação. irritação à serosa dos órgãos. Assim hemorragia massiva de difícil resolução
O sangue deve ser coletado de forma como o uso de anti-sépticos no líquido definitiva é recomendado realizar uma
mais asséptica possível, em recipientes de lavagem que podem levar a peritonite hemostasia transitória compressiva
estéreis e administrado intravenoso química, aumento da formação de mediante a utilização de compressas,
com filtro acoplado para remover adesão e retardo na cicatrização. que proporcionam pressão direta sobre
contaminantes. Idealmente, o sangue do os sangramentos. A aplicação deve ser
abdômen não é recomendado para uso Drenagem Peritoneal feita por fora do órgão lesado e realizar
de autotransfusão até que tenha sido Em casos de peritonite, a drenagem pressão contra o parênquima do órgão.
determinado que não há contaminação peritoneal é indicada se a fonte de Alguns cuidados devem ser
grosseira do trato gastrointestinal, trato contaminação não for completamente ressaltados com a pressão exercida das
biliar ou neoplasias (hemangiossarcoma, controlada. Se a infecção anaeróbica compressas em vasos principais como
por exemplo). Porém, em situações for provável, uma segunda celiotomia a veia cava, no qual pode prejudicar o
graves, o sangue deve ser coletado deve ser planejada. Há duas opções de retorno venoso e aumentar a pressão
mesmo contaminado com organismos drenagem peritoneal descritas, aberta ou intra-abdominal. O aumento na

20
EMERGÊNCIAS

pressão intra-abdominal pode levar à há presença de extremidade de ossos da contribuidor a hipoperfusão tecidual.
síndrome do compartilhamento, com fratura, perfurações e sangramento retal, A anemia pela perda de sangue, a
diminuição da perfusão de órgãos, com o objetivo de definir a necessidade vasoconstrição periférica em resposta a
dificuldade respiratória e insuficiência de intervenção imediata, sempre hipotermia e hipovolemia, a diminuição
EMERGÊNCIAS NA CLÍNICA VETERINÁRIA
renal e intestinal, secundariamente. acompanhada da avaliação AFAST geral do débito cardíaco, prejudicam
CONDUTAS QUEPara evitar a pressão excessiva, deve
SALVAM VIDAS! ultrassonográfica de urgência. gravemente a liberação de oxigênio para
ser colocado um material estéril - os tecidos. Isso resulta uma demanda
como por exemplo, plástico de soro
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Tríade da Morte excessivamente superior de oxigênio
fisiológico cortado em forma plana Todos os pacientes traumatizados para os tecidos. Devido a isso, as células
– e suturado nas bordas da linha alba estão sujeitos a desenvolver a tríade da do organismo iniciam o metabolismo
como um curativo impermeável, o morte, na qual é definida pelo quadro anaeróbio, resultando na produção
que ajuda a prevenir a perda de calor de hipotermia, coagulopatia e acidose. de ácido lático como subproduto. A
e perda de proteína, evitando assim, Em estudos em medicina humana, medida que a perfusão do paciente
o desenvolvimento da síndrome cita que aproximadamente 50% dos traumático agrava, o ácido lático
compartimental. O tamponamento não pacientes traumatizados apresentam rapidamente se acumula nos tecidos,
tem efeito em hemorragias arteriais. algum grau de hipotermia. É citado que resultando em acidose metabólica grave.
Ao fechar a cavidade abdominal deve- a hipoperfusão causa a queda de 4° a 5 É importante ressaltar que esse processo
se certificar se não há sangramentos e ° C por hora de perda de calor corporal, ocorre frequentemente na presença de
verificar se não há aumento da pressão ainda mais exacerbado pela exposição sinais vitais normais ou ligeiramente
intra-abdominal. As compressas devem de cavidades abertas ou órgãos, perda anormais. As consequências da
ser retiradas em, no máximo, 48 horas. da capacidade de termorregulação em acidose ocorrem em diversos sistemas
Estudos comprovam que a incidência pacientes intoxicados ou com danos do organismo. No cardiovascular ocorre
de sepse é de 16% quando estas são neurológicos e administração de diminuição do débito cardíaco e pressões
retiradas em 48 horas e o índice aumenta fluidoterapia à temperatura ambiente, no sanguíneas, diminuição da resposta
para 60% quando são removidas em 4 qual a cada litro de fluido administrado cardiovascular para catecolaminas
dias. A temperatura corporal deve ser diminui a temperatura corporal em (epinefrina), redução do limite para
controlada e acidose tratada. Uma vez 0,5°C. Outros fatores que interferem o desenvolvimento de fibrilação
que o paciente se encontra mais estável, na hipotermia é a idade do animal, ventricular. Já no sistema respiratório
o abdômen é reexplorado e uma cirurgia peso corporal, severidade do trauma e causa hiperventilação e fadiga dos
definitiva é realizada como indicado. anestésicos/sedativos. Um meio para músculos respiratórios. No sistema
Para controle de vazamentos de órgãos minimizar esta questão, são o uso de nervoso central leva a diminuição do
são necessários procedimentos simples circuitos de aquecimento em máquinas estado mental e coma. Alterações na
como ligadura de alças intestinais anestésicas, fluidoterapia aquecida e função dos fatores de coagulação e
com fita cardíaca, sutura contínua ou uso de colchões térmicos (aquecimento das plaquetas também pode ocorrer.
grampeamento gástrico e intestinal. passivo) e secador (aquecimento ativo). Uma causa adicional de acidose no
Anastomoses intestinais são evitadas A temperatura da sala de tratamento paciente com trauma é a reanimação
nessa fase. deve permanecer entre 25° - 30°C, o volêmica excessiva utilizando soluções
A cirurgia de controle de danos suficiente para permitir a termogênese cristalóides desequilibradas, como a
ortopédicos (“Damage Control e evitar a perda de calor. A l g u m a s solução salina que é acidificante. Essa
Orthopedics” – DCO) é definido consequências do quadro hipotérmico acidose metabólica hiperclorêmica
como uma intervenção minimamente incluem: diminuição do débito só serve para agravar a acidose lática
traumática, menos agressiva a tecidos cardíaco e isquemia do miocárdio, existente do trauma. Além disso, há
moles e menor perda sanguínea, diminuição da resposta cardiovascular evidências de que o uso excessivo de
com o objetivo de uma estabilização para catecolaminas (epinefrina), cloreto pode aumentar a inflamação
ortopédica para diminuir a resposta hipoxigenação tecidual e arritmias do tecido sistêmico e assim contribuir
inflamatória. A osteossíntese pode ser como fibrilação atrial e ventricular. A para a coagulopatia do trauma. Por
feita com fixadores externos após a nível sanguíneo, ocorre diminuição da último, o trauma também pode ter
reanimação inicial do paciente. Após função dos fatores de coagulação e das acidose respiratória. Isto é resultado
estabilização dos parâmetros clínicos, a plaquetas, dificultando a hemostasia de hipoventilação devido à depressão
cirurgia definitiva é então realizada com e diminuição do número e função dos ou obstrução das vias respiratórias,
maior segurança. Nos casos de fratura glóbulos brancos, aumentando assim, o resultando em hipercapnia. Em estudo
pélvica, há necessidade extrema de risco de infecção, pneumonia e sepse. O na Medicina Humana mostrou que
checagem por toque retal para avaliar se quadro de acidose tem como o principal a função do sistema de coagulação foi

21
EMERGÊNCIAS

reduzida em 55-70% quando o pH caiu volêmica com fluidos. Quando há


de 7.4 para 7.0. O sistema de coagulação suspeita que o paciente esteja com EXAMES REALIZADOS PELO TECSA LABORATÓRIOS
é uma série de reações enzimáticas distúrbios hemorrágicos, recomenda-
complexas dependentes da temperatura se a administração de plasma fresco
e do pH que resultam na formação congelado antes de sinais clínicos de COD EXAMES DIAS
de coágulos sanguíneos responsáveis coagulopatias.
pela hemostasia. A coagulopatia pode
ocorrer por algumas razões, no entanto, Referências 581 PERFIL GLICÊMICO 1
independente da causa especifica, a SILVERSTEIN, D.; HOPPER, K. Small animal
coagulopatia resulta no potencial de critical care medicine. 2 ed. St Louis: Saunders,
2015.
hemorragia continua no paciente com 836 0
DEMPSEY, S.M; EWING, P.J. A review of the PERFIL PRÉ-ANESTÉSICO II
trauma hemorrágico. A coagulopatia no pathophysiology, classification, and analysis of
trauma ocorre não só pela hipotermia e canine and feline cavitary effusions. JAm Anim
Hosp Assoc. 47:1, 2011.
acidose, mas também como resultado
NORSWORTH, G.; GRACE, S.; CRYSTAL, M. 331 PERFIL ELETROLÍTICO 1
da perda de fatores de coagulação et al. Linear Foreign Body. In: NORSWORTHY,
por hemorragia e hemodiluição. A G. The Feline Patient. 4 ed.Iowa: Wiley –
Blackwell. P.304, 2011.
coagulopatia devido à hemodiluição se
EDELMUTH, R.; BUCARIOLLI, Y. Cirurgia
dá quando reanimamos um paciente para controle de danos: estado atual. Revista do 570 CHECK-UP GLOBAL DE FUNÇÕES 0
hemorrágico com fluidoterapia que Colegio Brasileiro de Cirurgiões. Rio de Janeiro,
v.40, n2, 2013.
não contem os mesmos fatores de
DROBATZ, K.; COSTELLO, M. General
coagulação que foram perdidos. Além approach to the acute abdômen. In: SNOW, S.; 801 PERFIL CHECK-UP GLOBAL PLUS 1
disso, em pacientes críticos, uma série BEAL, M. Feline Emergency & Critical Care
Medicine. Iowa: Wiley – Blackwell, 2011. p. 229.
de reações enzimáticas pode levar a uma LITTLE, S. Approach to the cat with ascites
and diseases affecting the peritoneal cavity.
ativação anormal e excessiva do sistema In: BARAL, R. The cat: Clinical Medicine and
de coagulação, causando a formação Management. St Louis: Saunders, 2012. p. 538. 333 PERFIL HEPÁTICO 0
NELSON, R.W.; COUTO, C.G. Medicina interna
excessiva de coágulos. As transfusões de pequenos animais. 4. ed. Rio de Janeiro:
Elsevier, 2010. 1468p.
sanguíneas são indicadas quando houver SLATTER, D. Manual de cirurgia de pequenos
perdas agudas de sangue de mais de animais. 3. ed. São Paulo: Manole, 2009.2v.
2714pp. 233 CHECK-UP EMERGÊNCIA 0
20% do volume sanguíneo do paciente, OLIVEIRA, A.L.A. Técnicas cirúrgicas em
pequenos animais. Rio de Janeiro. Elsevier.
ou se os parâmetros de perfusão não 2012. 492p.
estão melhorando com reanimação FOSSUM, T.W. Small animal surgery. 3. ed. St.
Louis: Mosby, 2008. 1195p.

22
EMERGÊNCIAS

EPIDEMIOLOGIA DOS ACIDENTES OFÍDICOS


EM ANIMAIS DE COMPANHIA
EMERGÊNCIAS NA CLÍNICA VETERINÁRIA
CONDUTAS QUE SALVAM VIDAS!

Dr. Warley Gomes dos SANTOS 1; Dra. Marília Martins MELO 2


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MV, MSc, DSc Ciência Animal, área de concentração Toxicologia e Plantas tóxicas pela Escola de Veterinária, UFMG.
Professora titular de Toxicologia e Plantas tóxicas - Laboratório de Toxicologia Veterinária, EV, UFMG

Introdução respondido. Foram feitas as seguintes jararaca. Ainda foi reportada como
O ofidismo é uma doença tropical perguntas: jararaquinha do rabo branco, jararacussu,
comum que faz parte da lista das Descreva o nome popular das urutu e cruzeira. As serpentes do
doenças negligenciadas, pois constitui serpentes que tem causado acidentes em gênero Crotalus, foram referidas em
um relevante problema de saúde sua rotina: sua totalidade como cascavel. Para as
coletiva, com mortalidade mundial Você já atendeu algum animal picado serpentes do gênero Micrurus como
estimada em cerca de 50.000 óbitos de por serpentes? coral e gênero Lachesis como surucucu.
pessoas por ano (Chippaux, 1998).No Algum animal que você atendeu
Brasil, as serpentes da família Viperidae picado por serpente foi a óbito? Entre as 2 respostas por acidente por
são as principais envolvidas nos Há soro antiofídico no seu serviço surucucu, uma resposta é do estado do
acidentes ofídicos que podem culminar médico-veterinário? Pará e a outra do interior do estado de
com complicações e até mesmo o óbito Qual a via que você administra o soro São Paulo.
(SINAN NET, 2016). Em medicina antiofídico?
veterinária, por não haver um sistema Em relação às respostas para acidentes
de notificação de agravos obrigatório Resultados e Discussão por serpentes coral, 3 respostas são do
nos casos de acidentes ofídicos, detalhes Neste inquérito epidemiológico, estado de Pernambuco (50%); 1 resposta
epidemiológicos são desconhecidos. foram obtidas respostas com abrangência do estado do Pará; 1 Minas Gerais e 1
Outro fato, é que há muitas crenças e de grande parte do território nacional, São Paulo.
mitos em relação ao manejo clínico dos com respostas oriundas de 14 Unidades
animais envenenados por serpentes, Federativas como a seguir: Para a pergunta se você já atendeu
pois quase sempre ocorre um atraso ou Amazonas: 1 algum animal picado por serpentes,
não administração do soro antiofídico Bahia: 1 houve um total de 92 respostas, sendo
na vítima (Santos et al., 2013).O Distrito Federal: 2 que 53,3% afirmam já ter atendido
presente estudo objetiva conhecer o Espírito Santo: 3 algum animal vítima de acidente ofídico.
perfil epidemiológico aliado a outras Goiânia: 1
características do acidente ofídico bem Minas Gerais: 29
como utilização de soro antiofídico em Pará: 4
cães e gatos. Paraná: 5
Pernambuco: 16
Materiais e métodos Rio de Janeiro: 4
No presente estudo, foi realizado Rio Grande do Sul: 2
um inquérito epidemiológico e para São Paulo: 24
isto, houve a aplicação de um breve Santa Catarina: 2
questionário com perguntas com Tocantins: 1 Em relação à pergunta se algum
respostas fechadas. As perguntas Para a pergunta: Descreva o nome animal que você atendeu picado por
envolviam aspectos epidemiológicos popular das serpentes que tem causado
serpente foi a óbito, foi obtido um total
importantes para se conhecer em acidentes em sua rotina:
de 95 respostas, sendo que 60% alega
relação aos acidentes ofídicos em cães Foram obtidos 64 nomes de serpentes
como causa de acidente na região que não houve óbito.
e gatos e também quanto à aspectos
do tratamento nos envenenamentos do veterinário que respondeu. Deste
ofídicos. O questionário foi distribuído universo de resposta, segue a seguinte
via formulário eletrônico pelo https:// distribuição: Bothrops spp 35 (54,68%);
docs.google.com sendo enviado aos Crotalus spp 21 (32,81%); Micrurus
colegas médicos veterinários abrangendo spp 6 (9,37%); Lachesis spp 2 (3,12%).
um grande número de regiões do As serpentes do gênero Bothrops
país. Um total de 95 questionários foi foram descritas pelos colegas quase
na totalidade com o nome popular de
23
EMERGÊNCIAS

Para a pergunta se há soro antiofídico semelhantemente à epidemiologia


no seu serviço médico-veterinário, humana. Pode-se inferir que os casos de Conclusões
houve um total de 95 respostas e 60% acidentes ofídicos em animais podem O presente estudo demonstra haver
refere não haver soro antiofídico para ser sentinelas epidemiológicas de uma casuística considerável de acidentes
uso veterinário em seu serviço. possíveis acidentes no ser humano. por serpentes principalmente em cães
e que a abordagem destes animais
Fato preocupante observado foi a quanto ao tratamento na maior parte
ausência do antiveneno em 60% das das vezes não é realizada de forma
respostas bem como a sua não aplicação adequada, pois o soro antiofídico
em 35,8% das respostas. Tal fato pode não está presente em muitos serviços
está relacionado também à resposta veterinários. A taxa de óbitos observada
obtida abordando a mortalidade, onde foi superior à encontrada em vítimas
Para a pergunta qual a via que você o observado no presente estudo foi que humanas. Em relação às espécies de
administra o soro antiofídico, houve um 60% dos animais não foram à óbito e serpentes envolvidas nos acidentes com
total de 95 respostas. por conseguinte interpreta-se que pode os animais está em consonância com a
haver uma mortalidade de até 40% dos epidemiologia relatada nos acidentes
animais vítimas de acidente ofídico. Taxa ofídicos com humanos.
muito acima a observada no ser humano.
Dentre os acidentes botrópicos no ser
humano no ano de 2015, 968 (7,24%)
EXAMES REALIZADOS PELO TECSA LABORATÓRIOS
os casos foram classificados como grave
e um total de 24 óbitos pelo agravo.
O acidente crotálico provocou 194
(13,64%) casos classificados como grave COD EXAMES DIAS
e 22 óbitos. Os acidentes laquésicos
Segundo os dados epidemiológicos 5 (0,56%) pessoas foram classificadas
humanos on line do Ministério da como grave, porém houve 7 óbitos
e pelas serpentes não peçonhentas 2 788 CHECK UP GLOBAL DE FUNCOES COM 0
Saúde/SVS - Sistema de Informação HEMOGRAMA
de Agravos de Notificação - Sinan Net (0,22%) casos foram classificados como
na plataforma do Tabnet Datasus, no grave (Disponível em SINAN NET,
ano de 2015 houve 18.565 notificações Acidente por animais peçonhentos). O
decorrente de acidentes com serpentes. percentual de atendimentos decorrentes CULTURA COM ANTIBIOGRAMA
576 8
Deste total, 13.373 (72,02%) foram de picadas por cascavéis em cães no COMBINADO (AEROBIOS E ANAEROBIOS)
notificados como serpentes do gênero ano de 2012 até maio de 2013 foi de
Bothrops. Serpentes do gênero Crotalus aproximadamente 90%, sendo um
foram 1.422 casos (7,66%). As serpentes caso somente por Bothrops spp em
consonância com a epidemiologia PERFIL TIPAGEM SANGUINEA+CHECK
do gênero Micrurus correspondem a 139 715 UP GLOBAL DE FUNCOES+HEMOGRAMA 1
casos (0,75%). Lachesis corresponde a humana na região metropolitana de CANINO
524 casos (2,82%). As serpentes não Belo Horizonte havendo uma inversão
peçonhentas 897 casos (4,83%) e 2.210 da epidemiologia nacional e também
(11,90%) acidentes ofídicos foram não ocorreu óbitos provavelmente
58 HEMOCULTURA 8
ignorados o tipo de serpente ou em relacionados à administração do soro
branco (Disponível em SINAN NET, antiofídico (SANTOS et al., 2013). Na
Acidente por animais peçonhentos). experiência do autor, a epidemiologia
Deste modo, as serpentes do gênero dos envenenamentos ofídicos pode 856 PERFIL CHECK UP CARDIO - RENAL 2
Bothrops são as principais espécies variar grandemente dentro do
envolvidas nos acidentes ofídicos território nacional, necessitando
no Brasil em humanos quanto em maiores investigações. O mesmo teve
a participação em diversos casos de 304 PACOTE TOXICOLOGICO COMPLETO 15
animais conforme as respostas obtidas 11 ITENS

neste inquérito. As serpentes do envenenamento por serpentes Micrurus


gênero Crotalus foram a segunda ibiboboca em cães na Unidade Federativa
resposta mais frequente, Micrurus em de Pernambuco (dados não publicados),
terceira colocação seguida de Lachesis o que demonstra esta variabilidade
dentro do território nacional.
24
EMERGÊNCIAS

SEPSE E A SÍNDROME DA ANGÚSTIA


RESPIRATÓRIA AGUDA (SARA)
EMERGÊNCIAS NA CLÍNICA VETERINÁRIA
CONDUTAS QUE SALVAM VIDAS! Dr. Breno Curty Barbosa
(Doutorando em Ciência Animal – Universidade Federal de Minas Gerais)
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Introdução Sepse e sua derivações em clínicas veterinárias, e de grande


Conhecida desde 1967 em Medicina O conceito de sepse tem sido importância intervenções imediatas
Humana, a Síndrome da Angústia atualizado, sendo a classificação anterior para seu controle e tratamento (Fig.1).
Respiratória Aguda (SARA) ganhou adotada definida como a síndrome da Nos quadros de sepse grave (segundo
vários sinônimos com o decorrer resposta inflamatória sistêmica (SIRS) critérios de SEPSE 2) observam-se
do tempo, dentre eles pulmão de com um foco infeccioso presumido além de dois critérios da SIRS, que
choque, síndrome do pulmão rígido, ou comprovado, seja por vírus, fungos são oriundos de alterações sistêmicas
síndrome da angústia respiratória ou bactérias. Esta pode ser classificada como ilustrado no quadro 1, mais a
do adulto, lesão pulmonar aguda em quadros conforme os sinais clínicos associação de ao menos uma disfunção
(LPA). Apesar de tantas derivações que o paciente apresenta. Sendo assim, orgânica decorrente da intensa
de nomenclatura, nenhuma expõe o é estratificada em sepse, sepse grave e liberação de citocinas inflamatórias
componente inflamatório sistêmico que choque séptico. A classificação mais e comprometimento dos sistemas
é o responsável pela sua ocorrência em recente (SEPSE 3) que ainda está orgânicos como ilustra o quadro 2. Como
especial os quadros sépticos. Associado repleta de discussão define sepse como exemplos a síndrome do desconforto
a vasta denominação acompanham- disfunção orgânica potencialmente respiratório agudo responsável por uma
se os métodos diagnósticos, sendo as fatal causada por uma resposta imune disfunção respiratória grave; diminuição
definições de Berlim em 1994, posterior desregulada a uma infecção e choque da pressão arterial sistólica do valor
atualização em 2011 os consensos séptico sendo a sepse acompanhada por basal; oligúria; elevação dos valores
determinantes para a classificação. profundas anormalidades circulatórias e de lactato sérico; alterações em nível
Em Medicina Veterinária a SARA é celulares/metabólicas capazes aumentar de consciência como a escala AVDN
pouco conhecida, com poucos trabalhos a mortalidade substancialmente. descrita no quadro 3; alterações em
em literatura, sendo suas definições Segundo Barbosa et al. (2016), a sepse enzimas hepáticas e/ou renais, entre
próximas as de Berlim 1994. Tanto em tem sido diagnosticada com maior outros (Theobaldo, 2012).
Medicina Humana quanto a Veterinária, frequência na medicina veterinária,
a síndrome é responsável por elevadas sendo responsável por alta mortalidade
taxas de mortalidade. em unidades de terapia intensiva e

Quadro 1. Valores de variáveis fisiológicas em cão com quadro de síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SIRS).

VARIÁVEL CÃO
Temperatura retal < 38,1˚C ou > 39,2˚C

Frequência cardíaca > 120 bpm

Frequência respiratória > 20 mpm

Leucócitos totais; bastonetes < 6 x 103/mm3 ou > 16x103/mm3; > 3%


Fonte: Hauptmann et al. (1997).

25
EMERGÊNCIAS

Quadro 2. Disfunções orgânicas mesmo que o foco infeccioso não seja Diagnóstico
associadas ao quadro de sepse grave em pulmonar. Isso ocorre pela abundância Seu relato inicial na medicina
cão. de mediadores inflamatórios na humana ocorreu no ano de 1967,
circulação sistêmica durante os quadros em que 12 pacientes em unidades de
inflamatórios acentuados como os terapia intensiva foram admitidos no
Hipotensão: PAM < 80mmHg ou
sépticos. A barreira alveolocapilar, que setor com os mesmo sinais clínicos
PAS < 120mmHg
é composta pelo íntimo contado dos de intensa taquipneia, hipoxemia
Hipotensão grave: queda abrupta de pneumócitos tipo 1 com as células do refratária a oxigenoterapia, dispneia, e
mais de 40mmHg na PAS ou PAM endotélio capilar alveolar, desencadeia uma opacificação bilateral dos lóbulos
< 65mmHg papel vital na oxigenação sanguínea. O pulmonares pela radiografia sendo
pneumócito tipo 1 é o responsável pela que os insultos não eram oriundos
Oligúria (< 2ml/kg/h) ou Creatinina troca do gás carbônico das hemácias dos pulmões inicialmente. Porém
> 2mg/dL oriundo da circulação sistêmica, pelo somente em 1994, na cidade de Berlim,
Hiperbilirrubinemia: > 0,5mg/dL oxigênio que se encontra no interior a American-European Consensus
dos alvéolos. Porém, nos quadros de Conference (AECC) determinou os
Consciência alterada: Glasgow inflamação desordenada como na critérios básicos para classificação do
pediátrico modificado < 17 ou sepse, algumas citocinas inflamatórias paciente na síndrome. O primeiro
AVDN < A em destaque a IL-8 que é a citocina critério é que o surgimento do quadro
mais importante no recrutamento seja de caráter agudo, o segundo é
Disfunção respiratória de células polimorfonucleares para o índice de oxigenação derivado da
Trombocitopenia : < 50.000/mm3 ou o espaço alveolar, causam danos relação da pressão parcial de oxigênio
queda de mais de 50% em 12 horas endoteliais nos humanos e em cães. arterial (PaO2) (mensurado na
O conjunto inflamatório resulta em hemogasometria arterial) com a fração
Prolongamento de TP, TTPa/ perda da integridade da barreira inspirada de oxigênio (FiO2) se menor
aumento de D-dímero ou queda de alveolocapilar, distanciamento da íntima ou igual a 200 seria um forte indicativo
fibrinogênio junção dos pneumócitos tipo 1 com o da síndrome, sendo que em pessoas
endotélio vascular comprometendo a saudáveis esse valor deveria ser maior
Íleo paralítico oxigenação, associado com aumento que 450. Outro ponto seria infiltrados
de permeabilidade dos capilares bilaterais pulmonares visibilizados
Albumina < 2,5g/dL
pulmonares causando influxo de no exame radiográfico, e por último
proteínas plasmáticas e células ausência de hipertensão atrial esquerda
PAM: pressão arterial média; PAS: sanguíneas para o interior dos alvéolos, por exames clínicos ou pressão capilar
pressão arterial sistólica; AVDN: elevação da pressão osmótica intra- da artéria pulmonar menor ou igual a
alerta, responsivo a comando verbal, alveolar atraindo líquido para o local 18 cmH2O (Caldeira Filho e Westphal,
responsivo à dor, não responsivo; TP: que deveria estar ocupado por ar, além 2010; Angus, 2012). A SARA era
tempo de protrombina; TTPa: tempo de acarretar diluição e inativação do considerado, pelas definições de Berlim,
de tromboplastina parcial ativada. surfactante pulmonar. Sabe-se que o quadro mais acentuado da lesão
Adaptado de Rabelo (2013). são altas as taxas de mortalidade em pulmonar aguda (LPA) que apresenta
Quadro 3 – Escala AVDN medicina humana, porém em medicina os mesmos achados, porém uma relação
veterinária está em fase de estudo, PaO2/ FiO2 menor ou igual a 300.
A Alerta, responsivo a chamado.
com ampla variação entre 21-100% de Algumas limitações ocorrem nessa
mortalidade (Caldeira Filho e Westphal, classificação de Berlim, dentre elas a não
V Responsivo a comando verbal 2010; Kitsis, 2011).O distanciamento limitação do tempo para se caracterizar
da junção alveolocapilar, a morte dos um episodio agudo; variação da relação
D Responsivo apenas à dor pneumócitos tipo 1 por radicais livres, dos pacientes que se encontram em
ocupação dos alvéolos por infiltrados ventilação mecânica com pressão
Não responsivo a comando proteicos, líquido e células inflamatórias
N verbal ou estímulo doloroso
positiva ao final da expiração (PEEP) ou
diluindo e inativando os surfactantes, em taxas diferentes de fração inspirada;
Fonte: Rabelo, 2013. acarretam no principal sinal clínico subjetividade na identificação dos
da SARA, que é a intensa hipoxemia infiltrados pulmonares via radiografia;
Pulmões na sepse
refratária a oxigenoterapia não invasiva e as falhas em classificar hipertensão
O pulmão é um órgão que
(Caldeira Filho e Westphal, 2010; atrial esquerda. Com isso em 2011
frequentemente evolui com disfunção
Angus, 2012). foram realizadas outras reuniões para
orgânica nos animais em sepse

26
EMERGÊNCIAS

adequação do quadro de SARA (Sorbo inflamatórias (ácidos graxos ricos em


et al., 2016). Segundo essa atualização de ômega 3) e a solução salina hipertônica,
EXAMES REALIZADOS PELO TECSA LABORATÓRIOS
Berlim 1994 no ano de 2011, definiu-se porém se faz necessário mais estudos
que a SARA seria uma forma acentuada (Ísola, 2013), principalmente em
EMERGÊNCIAS NA CLÍNICA VETERINÁRIA
de LPA sendo, portanto, excluído esse Medicina Veterinária. Portanto o
COD EXAMES DIAS
CONDUTAS QUEtermo das definições. Determinação
SALVAM VIDAS! suporte e controle dos quadros sépticos
do prazo de tempo caracterizado como são fundamentais para seu controle,
agudo, sendo de até uma semana após
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entrando com os pacotes de controle
uma injúria conhecida ou não, além da e sobrevivência de sepse o mais rápido 788 CHECK UP GLOBAL DE FUNCOES COM 0
HEMOGRAMA
piora do quadro respiratório; presença possível.
de opacidade bilateral em radiografia
de tórax sendo não derivado de efusões, Considerações finais
colapso de lobo pulmonar ou nódulos; A SARA é uma síndrome sistêmica 576 CULTURA COM ANTIBIOGRAMA COMBINADO 8
(AEROBIOS E ANAEROBIOS)
remoção do cateter de Swan-Ganz complexa, que possui um grande
como ferramenta para exclusão de envolvimento sistêmico. A necessidade
edema cardiogênico por ser uma técnica de adequação da classificação da SARA PERFIL TIPAGEM SANGUINEA+CHECK
pouco empregada, invasiva e elevado em Medicina Veterinária também se faz 715 UP GLOBAL DE FUNCOES+HEMOGRAMA 1
custo, associado ao fato de pacientes em necessária, haja vista poucos critérios CANINO
falência cardíaca ou sobrecarga de fluido de inclusão da Síndrome. Avanços
também poderem apresentar a síndrome, como a utilização da hemogasometria
surgindo como sugestão à realização do permitirá o diagnóstico e a ventilação 58 HEMOCULTURA 8
ecocardiograma; presença de hipoxemia mecânica microprocessada favorecerá
pelo índice de oxigenação PaO2 / FiO2 um adequado tratamento, não se
com a seguinte classificação: esquecendo de adotar precocemente 856 PERFIL CHECK UP CARDIO - RENAL 2
200 mmHg < PaO2/FiO2  ≤ 300 mmHg – Leve todas as medidas para o tratamento
da sepse e suas derivações. SARA e
100 mmHg < PaO2/FiO2≤ 200 mmHg – Moderada
SEPSE são nomes que não podem ser
PaO2/FiO2 ≤ 100 mmHg – Grave esquecidos na medicina veterinária.
Em Medicina Veterinária a
caracterização do quadro de SARA
ainda se assemelha com a classificação
de Berlim de 1994, ou seja, exposição
aos fatores de riscos tanto as desordens
respiratórias primárias quanto as
afecções sistêmicas; sinais com
desenvolvimento agudo; radiografias
torácica apresentando um padrão de
infiltrados pulmonares bilaterais; uma
relação PaO2/FiO2  menor 300 mmHg
para LPA, que ainda permanece, e
PaO2/FiO2  menor 200 mmHg para
SARA; ausência de evidências clínicas
de hipertensão atrial esquerda (DeClue
e Cohn, 2007).

Tratamento
O tratamento das disfunções
respiratórias decorrentes da sepse ainda é
inespecífico e sem terapias direcionadas
para seu controle. Em medicina
humana aplica-se o uso da ventilação Figura 1 Fotomacrografia de lobo pulmonar coletado em necropsia. Área pulmonar com hepatização,
infiltrado piossanguinolento. A maior parte do pulmão deste animal estava em atelectasia. Causa
mecânica, substâncias surfactantes, e do óbito choque séptico associado a SARA. Imagem cedida gentilmente pelo MV Warley Gomes dos
Santos.
ultimamente uso de substâncias anti-

27
EMERGÊNCIAS

HIPOCALCEMIA GRAVE COM SINAIS NEUROMUSCULARES


PROVENIENTE DE HIPOPARATIREOIDISMO EM UM CÃO
Dr. MV, MSc, DSc Warley Gomes dos Santos
Dra. MV Cíntia Cristina Martins Valadares de Souza

Introdução raça definida, sexo masculino, atendido na forma de gluconato de cálcio pela
O hipoparatireoidismo é uma no dia 09 de Agosto de 2016 em uma via intravenosa. Apresentava-se ativo,
endocrinopatia considerada rara a clínica após múltiplas crises epiléticas eliminações presentes. No dia 15 de
incomum em cães decorrente da convulsivas generalizadas. Tais crises Agosto em horário de visita, animal
deficiência absoluta ou relativa do ocorriam há dois dias (sete episódios ficou muito agitado e apresentou
paratormônio (PTH). Provenientes em domicílio). Animal tinha uma uma crise generalizada, sendo esta
da concentração inadequada deste dieta totalmente caseira à base de tratada no momento com midazolam
hormônio podem surgir desordens proteína bovina cozida. À admissão do pela via intravenosa. No dia 16 de
neuromusculares graves devido às paciente, foi administrado midazolam Agosto, paciente sem crises e os níveis
alterações dos níveis de cálcio, fósforo para cessar o episódio agudo de crises séricos de cálcio total encontravam-se
e outras desordens metabólica e epiléticas convulsivas generalizadas. baixos e níveis de fósforo elevando-
ácido-base com risco de óbito do Após o internamento não teve crises se. No dia 17 de Agosto, ainda sem
paciente. A dosagem do cálcio iônico epiléticas convulsivas até o dia 11 crises epiléticas convulsivas, ativo,
e paratormônio são imprescindíveis de Agosto. O animal estava ativo, alimentando. Iniciado suplementação
para a conclusão diagnóstica. As causas eliminações presentes (diurese e fezes), de cálcio via oral. Realizado urinálise
do hipoparatireoidismo podem ser e normorexia, aceitando o alimento que na qual havia presença de proteinúria,
diversas tais como destruição ou atrofia tutora trazia de casa (carne cozida). O traços de corpos cetônicos, sem
das paratireoides secundário a uma paciente era agressivo, irritadiço com glicosúria. Adicionalmente, foi
tireoidite linfocítica; enteropatias com a equipe quando manipulado. Sem coletado amostra para a dosagem de
perda de proteína; após laringectomias, alterações em ecoDopplercardiografia e paratormônio. De forma súbita em
tireoidectomias (como exemplo nos eletrocardiografia e sem alterações graves plantão noturno, o quadro clínico do
felinos) ou quimioterapias. Outras causas no hemograma. Proteína plasmática animal ficou pior, sendo que no dia
comuns de hipocalcemia no cão que total encontrava-se ligeiramente elevada 19 de Agosto foi realizado intubação
devem ser consideradas no diagnóstico e os níveis da albumina encontravam-se orotraqueal e ventilação por bolsa-
diferencial são tetania puerperal no caso adequados. Entre os exames bioquímicos válvula-máscara devido ter ocorrido
de fêmeas, intoxicação por etilenoglicol, de triagem, a dosagem sérica de cálcio uma parada respiratória. Animal evoluiu
hipoalbuminemia, doença renal crônica, total encontrava-se abaixo dos valores rapidamente com acidose respiratória e
pancreatite aguda e até mesmo erro de referência para a espécie, sendo metabólica (nos demais dias, os exames
laboratorial devido coleta em tubos observado 4,1 mg/dl. Animal teve alta de hemogasometria não apresentavam
com quelantes de cálcio como o EDTA e no dia 13 de Agosto, foi internado graves alterações do equilíbrio ácido-
(Feldman e Nelson, 2004; Freitas et al., novamente devido episódio de crise base). Os níveis de cálcio iônico dosado
2014; Cardoso et al., 2015). epilética convulsiva em domicílio. em equipamento de hemogasometria
No internamento não apresentou (Cobas B 221) encontravam-se
Relato de caso e Discussão nenhuma crise. A dosagem sérica do intensamente abaixo da referência
Relata-se em ordem cronológica, cálcio total era de 3mg/dl. No dia 14 para cães, sendo suplementado pela
dentro de um curto período de de Agosto foi realizada uma tomografia via intravenosa. Os níveis do potássio
tempo, toda a evolução de um caso computadorizada e não houve qualquer também se encontravam em níveis
de hipoparatireoidismo primário que intercorrência ou mesmo alterações baixos para a espécie antes do tratamento
foi atendido dentro de um quadro de relacionadas à administração de da enfermidade. O Quadro 1. apresenta
emergência clínica devido às alterações contraste iodado, sendo mantido em exames seriados de hemogasometria
dos níveis de cálcio no organismo fluidoterapia com cristaloides. Não venosa do animal evidenciando os
promovendo uma miríade de alterações, houve qualquer alteração digna de nota níveis de cálcio iônico de forma
principalmente de ordem neurológica. em exame tomográfico. O paciente cronológica durante o internamento
Trata-se de um paciente canino, sem mantinha-se em reposição de cálcio do paciente. Durante o dia, o animal

28
EMERGÊNCIAS

apresentava-se com tosse não produtiva animal mantinha-se sem crises convulsivas, mas foi devido tutor não
frequente e estava prostrado, porém epiléticas convulsivas, porém com administrar o fármaco, aliado ao fato
sem crises epiléticas convulsivas. Dia níveis críticos de cálcio iônico, mesmo de nunca ter seguido a dieta correta do
20 de Agosto, apresentou uma crise com suplementação via intravenosa e animal.
EMERGÊNCIAS NA CLÍNICA VETERINÁRIA
convulsiva e ainda com os acessos de oral, sendo observados valores de 0,2
CONDUTAS QUEtosses intensos. Em novo hemograma
SALVAM VIDAS! mmol/L. Dia 24 de Agosto, Animal Considerações Finais
realizado, apresentava-se com discreta teve alta hospitalar supervisionada e iria O paciente do presente relato teve
anemia www.vetsciencemagazine.com.br
normocítica e hipocrômica, e iniciar o uso de calcitriol. Em domicílio, um desfecho clínico favorável apesar
leucocitose por neutrofilia. Mantinha- no dia 25 de Agosto, apresentou de episódios de gravidade antes do
se a discreta hiperproteinemia uma crise focal com movimentos diagnóstico e tratamento adequado de
anteriormente observada. Plaquetas involuntários da face (ainda não estava sua condição clínica. Todos os achados
dentro de valores adequados para a em uso do calcitriol) sendo internado laboratoriais e clínicos que este animal
espécie. Foi iniciado com nebulização, novamente. Dia 26 de Agosto, os níveis apresentou levaram ao diagnóstico de
dropropizina e glicocorticoide pela via de cálcio iônico encontravam-se 0,5 hipoparatireoidismo primário. Uma
oral e adicionalmente, fenobarbital pela mmol/L. Durante a visita (momento característica do paciente crítico é a sua
via intravenosa. No dia 21 Agosto, a de excitação do animal) apresentou instabilidade, requerendo monitoração
tosse não produtiva reduziu e animal uma crise parcial. Neste dia, iniciou o constante. O paciente com desordens
apresentava-se estável, e alimentando uso do calcitriol. De forma exponencial, que cursam com hipocalcemia grave
da dieta caseira, porém, apresentava-se após o início do calcitriol, os níveis como o hipoparatireoidismo possui
com síncope durante a manipulação. O de cálcio iônico elevaram-se, tendo o estas instabilidades em seu quadro e
cálcio iônico dosado em equipamento maior valor até então de 0,83 mmol/L necessita de monitoramento e cuidados
para hemogasometria encontrava-se no dia 27 de Agosto. No dia 29 Agosto, intensivos para evitar agravos ou mesmo
extremamente baixo sendo observado níveis de cálcio iônico encontrava-se em óbito. A suplementação de gluconato de
o valor de 0,3mmol/L. Foi realizada a 0,9 mmol/L (Referência cálcio iônico cálcio pela via intravenosa com devida
reposição pela via intravenosa na forma 1,15-1,35mmol/L). Não apresentava monitoração aliado a mensurações
de gluconato de cálcio. No dia 22 de mais crises epiléticas convulsivas tendo seriadas de hemogasometria e dosagens
Agosto, havia reduzido os episódios alta hospitalar. Após isto, os níveis eletrolíticas (cálcio iônico, sódio,
de tosse. Os resultados laboratoriais do cálcio iônico se mantiveram em potássio) também são importantes
das dosagens do paratormônio foram valores adequados para a espécie em para uma adequada correção imediata
conclusivos para hipoparatireoidismo, consonância com o bom quadro clínico das alterações instaladas bem como
sendo os valores de 0,12 pmol/L do animal. Apenas um ano após o intervenção imediata nos casos de crises
(Referência paratormônio 1,9-12,38 início do tratamento com calcitriol que epiléticas convulsivas.
pmol/L). No dia 23 de Agosto, o animal teve um episódio de crises
EXAMES REALIZADOS PELO TECSA LABORATÓRIOS
Quadro 1. Exames seriados de hemogasometria venosa e eletrólitos de um cão com hipocalcemia grave
com diagnóstico de hipoparatireoidismo.
COD EXAMES DIAS

17 18 19 21 23 25 26 27 29
*HEMOGASOMETRIA 419 PARATORMONIO VETERINARIO - PTH 3
08 08 08 08 08 08 08 08 08
VENOSA CÃES
16 16 16 ** TOT 16 16 16 16 INÍCIO
CALCITRIOL 16 16 ALTA
730 PERFIL TRIAGEM HORMONAL MACHOS 2
pH 7,35-7,45 7,382 6,880 7,356 7,406

pCO2 35-45 mmHg 36,3 46,5 43,5 42,5 702 PERFIL TRIAGEM HORMONAL FEMEAS 2
HCO3- 20-24 mmol/L 21,1 8,5 23,3 26,1
331 PERFIL ELETROLITICO 1
BE -4 - +4 mmol/L -3,5 -24,4 -1,3 1,2

Na+ 140-155 mmol/L 154,3 150,6 144,7 146,8 788 CHECK UP GLOBAL DE FUNCOES COM 0
HEMOGRAMA
K+ 3,5-5,5 mmol/L 2,62 2,74 3,62 3,90
696 PERFIL HIPOTIREOIDISMO 2
iCa++ 1,15-1,35 mmol/L 0.319 0,244 0,521 0,3 0,242 0,443 0,500 0,833 0,9 RADIOIMUNOENSAIO

HT 35-54 % 37,3 38,2 40,5 43,0 697 PERFIL HIPERADRENOCORTICISMO 2


RADIOIMUNOENSAIO
*Os valores de referência podem ter diferença entre equipamentos, sítio de coleta, tipo de heparina,
tempo de realização do exame após coleta e entre sangue venoso e arterial. ** TOT- tubo orotraqueal.

29
EMERGÊNCIAS

RECEPÇÃO DE PACIENTES EM URGÊNCIA


Dra. Veruschka Kellermann Brauer, Médica Veterinaria, Serviço de Urgência, Cuidados Intensivos e Anestesia do Hospital VetCentral, Portugal
Dr. Nuno Paixao, Médico Veterinario, Director do Serviço de Urgência, Cuidados Intensivos e Anestesia do Hospital VetCentral, Portugal

O modelo de receção de pacientes em devem ser coletadas de maneira objetiva podem estar sendo disfarçadas, e o
urgencia, é uma sequencia de, avaliação e rápida. Perguntas a serem feitas tempo deve ser usado para identifica-
primária, anamnese e história clinica envolvem nível de consciência, padrão las. Para otimizar o tempo, a triagem
e avaliação secundária. A avaliação respiratório, hemorragias, mobilidade, deve ser bem-feita, assim como sala e
primária, tem como objectivo detectar feridas e quando as alterações equipamentos de emergência devem
alterações que colocam em risco de vida começaram. Os proprietários devem- estar organizados e preparados. É
imediato o paciente. Deve ser rapida se manter longe de riscos, reduzindo o importante lembrar que a “hora de ouro”
e eficaz, tendo em conta prioridades stress do animal e protegendo gatos com não deve ser considerada como uma
fisiológicas. A avaliação primária um cobertor e cães com mordaça. O hora de atendimento, mas sim, a partir
de pacientes recebidos em urgência transporte também deve ser direcionado, do momento do trauma. Pacientes
é fundamental, principalmente na com pequenos animais dentro de específicos como felinos, pediátricos e
medicina veterinária. Isso porque nem caixas, e grandes sobre superfícies retas. geriátricos não suportam um período
sempre as informações sobre o animal Possíveis traumas medulares devem ser prolongado de descompensação,
e as queixas são passadas corretamente minimamente manipulados e serem necessitando de uma intervenção ainda
pelo proprietário, podendo haver transportados em superfícies retas mais rápida. A avaliação primária
doenças primárias descompensadas, e firmes, em decúbito lateral, desde deve incluir a triagem, que pode ser
e a triagem feita pela recepção pode que o animal o permita. O tempo é fatal para o paciente em serviço de
ser falha. Geralmente, o primeiro chave essencial para reverter o quadro urgência e está relacionada ao processo
contato do proprietário com o serviço com sucesso. Mortes que ocorrem de fornecer prioridade de tratamento
de urgência é telefônico, havendo a após poucos minutos do trauma estão à determinados pacientes quando os
necessidade de um preparo da recepção relacionados com lesões extremamente recursos são insuficientes para todos.
para se comunicar ou passar a ligação graves, como ruptura medular cervical Uma triagem bem-feita seguida
para alguém devidamente preparado. e hemorragia de grandes vasos. A de processo de reanimação precoce
Quem tiver esse contato telefônico deve primeira hora pós trauma é considerada aumentam a taxa de sobrevivência
coletar nome e contato do proprietário, a “hora de ouro”, não sendo um tempo dos pacientes. Deve haver preparo e
acalma-lo, ter conhecimento médico e exato, e podendo levar pacientes à treinamento para saber diagnosticar
de situações de emergência e reconhecer morte quando o processo de reanimação riscos de morte, sabendo escolher entre
situações que deverão ser encaminhadas não for realizado adequadamente. dois ou mais pacientes. De preferência,
a um centro médico e atendidas Através de processos de compensação a triagem deve ser feita por profissionais
imediatamente. Todas as informações do organismo, sequelas maiores capacitados a diferenciarem a gravidade

30
EMERGÊNCIAS

e determinarem quanto tempo o animal auxiliam na organização e na rapidez um esforço respiratório, está relacionada
pode ficar seguramente sem tratamento, dos procedimentos. São avaliados os à algum comprometimento respiratório.
caso necessário. A triagem é importante mesmos sistemas da triagem, mas de Porém, na ausência de esforço, pode estar
não apenas na necessidade de escolher maneira mais aprofundada e mais relacionada à um processo de hipóxia,
EMERGÊNCIAS NA CLÍNICA VETERINÁRIA
qual o caso mais grave, mas também rápida. A abordagem inicial deve seguir geralmente associado à hipovolemia,
CONDUTAS QUEna recepção,
SALVAM VIDAS! visto que os proprietários o algoritmo A-B-C-D, que engloba, dor, distensão abdominal e hipertermia.
de animais não possuem um senso de respectivamente, vias aéreas, ventilação, A suplementação de oxigênio sempre
urgênciawww.vetsciencemagazine.com.br
adequado, a não ser que haja circulação e status neurológico. Em deve ser o primeiro passo para qualquer
sinais clínicos muito evidentes. Na inglês, e originalmente: Airway, alteração respiratória, seguido de outros
recepção também deve ser feita um Breathing, Circulation, Disability. procedimentos direcionados à causa
exame físico, incluindo frequências Essa sequência prioriza os sistemas primária. Por exemplo, em caso de
cardíaca e respiratória, padrão mais responsáveis pela manutenção presença de líquido ou ar em espaço
respiratório, ausculta cardiopulmonar a vida, e o exame físico deve ser feito pleural, realizar toracocentese.
e abdominal, temperatura central e simultaneamente, focando nas alterações
periférica, tempo de preenchimento mais graves do momento e preparando Em felinos, o cuidado na
capilar e jugular e coloração de mucosas. o início da terapia reanimadora. A manipulação deve ser redobrado,
Esta avaliação deve ser feita inclusive em avaliação do status neurológico não visto que qualquer estress pode levar à
pacientes que têm horário marcado para entra na avaliação primária de urgência, uma descompensação maior, seguida
consulta, visto que podem ter alguma devendo ser avaliado após a estabilização de paragem cardiorrespiratória.
descompensação recente e inesperada. das demais etapas. Primeiro, deve ser Geralmente, nesses pacientes,
Mais recentemente, foi criado um avaliada a funcionalidade das vias aéreas taquipneia e esforço respiratório em
meio de triagem veterinária baseado na e se está havendo troca gasosa adequada decúbito lateral sugerem uma severa
categorização dos pacientes em cores na ventilação. O objetivo desse primeiro hipoxemia, devendo-se evitar qualquer
relacionadas com o tempo que deverão passo é detectar se há ou não hipoxemia manipulação desnecessária. Gatos
ser atendidos: vermelho, atendimento e/ou hipoventilação. Englobando essas assim podem ser beneficiados primeiro
imediato; laranja, 15 minutos; amarelo, duas etapas, o padrão respiratório deve ser com uma suplementação de oxigênio
30 a 60 minutos; verde, 120 minutos. observado, para auxiliar na identificação através de uma via não estressante, em
Em comparativo, esse método é mais da alteração e iniciar o tratamento o uma incubadora, por exemplo, e apenas
efetivo em relação à avaliação intuitiva mais rapidamente. A ausculta deve ser após a sua melhora, terminar a avaliação
de técnicos veterinários com base no feita em todo o trato respiratório, para primária e partir para acesso venoso. A
exame visual do paciente e seu histórico identificar possível local com maior importância da circulação se deve ao
médico. Ao receber o paciente, deve-se intensidade, podendo indicar local fornecimento adequado de oxigênio aos
obter um breve histórico médico com de obstrução. Por exemplo, pacientes tecidos, sendo o sistema cardiovascular
o proprietário, motivo para dar entrada com obstrução de via aérea superior responsável pelo transporte de sangue
na urgência e sinais apresentados. Uma reduzirão a frequência respiratória oxigenado do pulmão a todo o
avaliação rápida, englobando sistema mas aumentarão a amplitude, afim de organismo. Uma perfusão inadequada
respiratório, cardiovascular, neurológico minimizar a resistência aérea. Casos é considerada indicador de choque
e urinário também deve ser feita, sendo com apnéia ou bradipnéia severa são circulatório e pode ser diagnosticado
que qualquer alteração em pelo menos indicativos de paragem respiratório, através do exame físico. A identificação
um dos sistemas deve encaminhar devendo ser entubado, ventilado e deve ser o mais precoce possível, pois
o animal para a sala de urgência. estabilizado, conforme a necessidade. uma hipóxia prolongada e severa leva
Demais condições como dor intensa, Caso as vias aéreas superiores estejam a uma cascata de eventos que resultará
recente ingestão de toxinas, convulsões íntegras e funcionais, a frequência em um disfunção múltipla de órgãos e
recentes, trauma, hemorragias ativas, e esforço respiratório devem ser óbito. Pacientes em fase compensatória
órgãos prolapsados, mordidas de avaliados, juntamente com a coloração podem apresentar apenas alterações
cobra recentes, hiper ou hipotermia, de mucosas. Mucosas cianóticas circulatórias brandas, porém, não deve
feridas abertas, fraturas, queimaduras, indicam um processo de hipóxia já ser desvalorizados, pois podem acabar
distocias e óbito também devem ser bastante avançado, e qualquer alteração tendo uma deterioração maior, com pior
atendidas rapidamente. A partir do na ausculta pulmonar necessitam de prognóstico e tratamento dificultado.
momento em que o paciente é recebido suplementação de oxigênio até que A frequência cardíaca normalmente
na sala de urgência, e visto que o outros procedimentos possam ser varia de 70 a 120 batimentos por
tratamento deve ser rápido, é de grande realizados. Atenção para diferenciar a minuto em cães pequeno, 60 a 120
importância seguir protocolos, que causa de taquipneia: quando associada a em grandes e de 140 a 200 em gatos.

31
EMERGÊNCIAS

Uma redução nessa taxa pode resultar preenchimento capilar também é um estiver acompanhada de mucosas pálidas
em um débito cardíaco menor, e, fator que deve ser seguido no exame e tempo de preenchimento capilar
consequentemente, uma perfusão físico para avaliar perfusão periférica, aumentado, há possibilidade de choque
inadequada. A bradicardia é incomum e, em conjunto com qualidade de pulso, cardiogênico. Para finalizar circulação,
na urgência, e pode ser consequência de frequência cardíaca, padrão respiratório qualidade de pulso. O pulso femural
desequilíbrio eletrolítico (hipercalemia), e coloração de mucosas, também deve ser palpado simultaneamente
alteração neurológica (aumento da avalia volemia e etiologia do choque. à auscultação cardíaca ou palpação
pressão intracraniana), distúrbios de O tempo normal de preenchimento da batida. Quando a volemia estiver
condução (bloqueio atrioventricular) ou é de 1 a 2 segundos, desde que haja adequada e o débito cardíaco também,
até mesmo efeito de drogas anestésicas volemia e perfusão adequadas. Quando haverá sincronia entre o pulso e
ou analgésicas. Já o aumento é mais aumentado, é sugestivo de hipoperfusão batimento. O pulso é consequência
fácil de receber em urgência, visto que a associada a vasoconstrição periférica, da diferença entre a pressão sistólica
taquicardia é secundária à hipovolemia, resposta compensatória para manter a e diastólica, podendo mascarar
dor, ansiedade, hipoxemia e inflamação perfusão e entrega de oxigênio em órgãos alguma alteração nelas. Sendo assim,
sistêmica. O aumento da frequência vitais. Em casos de vasoconstrição marcadores como o lactato acabam
cardíaca irá aumentar o débito cardíaco e periférica, haverá também extremidades por ser mais fidedignos em relação à
a entrega de oxigênio, porém, essa é uma frias. Quando o tempo estiver reduzido, perfusão periférica, e, se estiver alterado,
manobra compensatória e temporária. há vasodilatação ou uma alteração deve haver um aprofundamento maior
O eletrocardiograma sempre é indicado sistêmica, como inflamação, choque para definir uma causa dinâmica, como
para bradicardia e taquicardia arrítmica. distributivo, hipertermia ou choque de sepse ou algo que leve a redução na
A avaliação da coloração de mucosas calor. pressão diastólica. Pulsação fraca ou
é subjetiva, porém, pode promover Distensão venosa é outro parâmetro sem sincronia com os batimentos está
informações sobre a perfusão periférica. importante para definir volemia do relacionada com baixo débito cardíaco
Quando de coloração marrom, indica paciente. A distensão é reflexo de associado a hipovolemia, redução na
metahemoglobina, quando amarelada hipervolemia, insuficiência cardíaca contratilidade cardíaca, vasoconstrição
(icterícia), aumento de bilirrubina sérica congestiva direita ou aumento da periférica ou redução na pressão do
secundária à hemólise ou alteração pressão em cavidades cardíacas direitas. pulso. A falta de sincronia ou pulso
hepática, quando pálida, anemia ou Melhor do que avaliar distensão de irregular são indícios de arritmia
vasoconstrição periférica consequente jugular, é avaliação de safena lateral. O cardíaca, devendo o paciente passar por
ao choque, e, quando congestas, paciente é colocado em decúbito lateral, eletrocardiograma.
vasodilatação por inflamação sistêmica e, se a safena lateral do membro oposto Tanto na avaliação respiratória,
ou hipertermia. Mucosas cianóticas ao decúbito estiver distendida mesmo quando na cardíaca, a auscultação é
são indicativas de hipoxemia associada acima da linha do coração, indica essencial. O sistema respiratório deve
à volume normal de células vermelhas, aumento de pressão venosa central. ser auscultado em toda a sua extensão,
já que cianose não é clinicamente Causas para isso são efusão pericárdica, desde cavidade nasal até pulmão, onde
evidente na ausência de níveis normais hipervolemia, ou insuficiência cardíaca cada alteração é indicativo de uma
de hemoglobina. O tempo de congestiva direita. Quando a distensão etiologia.

LOCAL ALTERAÇÃO SUSPEITA


Vias aéreas superiores Estertores Presença de fluidos

Presença de fluidos (edema pulmonar,


Pulmão Crepitação
pneumonia, hemorragia pulmonar)

Inspiração Estridor inspiratório Paralisia laringe

Expiração Chiado expiratório Colapso de vias aéreas menores ou bronquite

Porção cranioventral – pulmão Densidade, Pneumonia aspirativa

Consolidação pulmonar,
Pulmão Abafamento de sons
pneumotórax ou efusão pleural.

32
EMERGÊNCIAS

A ausculta cardíaca deve ser feita avaliar presença de bexiga íntegra e procedimentos, tanto clínicos quanto
rotineiramente, e a frequência depende repleta, descartando possibilidade cirúrgicos, e principalmente para
de cada caso, sempre simultaneamente de ruptura vesical ou uretral. Bexiga estabilizar vias aéreas, ventilação
à palpação de pulso. Qualquer alteração repleta associada a bradicardia, e um positiva, oxigenioterapia, acesso
EMERGÊNCIAS NA CLÍNICA VETERINÁRIA
em sincronia ou ritmo cardíaco, deve eletrocardiograma apresentado arritmias vascular, fluidoterapia, controle
CONDUTAS QUEser
SALVAMencaminhado
VIDAS! para outros exames cardíacas são sugestivas de hipercalemia, de hemorragias, monitorização
diagnósticos. Durante o exame físico, havendo necessidade de estabilização cardiovascular, e administração de
ou já nawww.vetsciencemagazine.com.br
recepção do paciente, o nível de imediata. Um acesso intravenoso drogas. A sua localização também é
consciência deve ser avaliado. Animais deve ser adquirido rapidamente, de essencial, com fácil acesso, aberta e de
pouco responsivos à estímulos visuais forma confortável e menos estressante boa circulação, próxima da recepção,
e táteis podem estar assim por diversas possível para o paciente, afim de iniciar facilitando o contato entre veterinário,
causas importantes. Casos em estupor, qualquer tratamento necessário para administração e cliente, além da
onde ainda há resposta à estímulo as anormalidades diagnosticadas na proximidade com o centro cirúrgico e
doloroso, estão relacionados com severa avaliação primária. Normalmente, é setor de imagens. Antes de qualquer
alteração neurológica ou metabólica. Já colocado em veias cefálicas ou safenas sala repleta de equipamentos, a equipe
casos de coma ou convulsão são sinais lateral, podendo o acesso venoso disponível deve ser experiente, estar
de atividade elétrica cerebral anormal, central ser levando em consideração preparada e periodicamente treinada.
por alteração neurológica primária ou quando suspeitas de coagulopatia e O atendimento deve ser organizado
metabólica, como encefalopatia hepática. aumento de pressão intracraniana forem e coesivo, e idealmente todos devem
A temperatura geralmente está alterada descartados. Para pacientes neonatos conhecer todas as etapas. O treinamento
nos pacientes em urgência. Quando ou demasiadamente pequenos, uma deve ser efetivo, padronizado e
aumentada, deve-se eliminar a causa alternativa é o acesso intraósseo. Análises periódico, preferencialmente a cada
ambiental, e investigada rapidamente, de urgência incluem microhematócrito, 6 meses para reduzir riscos de perda
já que está associada com inflamação sólidos totais, glicemia e esfregaço de habilidade, além de reuniões mais
sistêmica e infecção. Pacientes com sanguíneo. Idealmente inclui gases frequentes para discutir performances
hipotermia, facilmente relacionada sanguíneos venosos, eletrólitos e realizadas, e identificar pontos fracos e
com hipovolemia e déficit neurológico, mensuração de lactato sanguíneo, já fortes. Conversas imediatamente após o
devem ser aquecidos imediatamente. na avaliação primária do paciente, para atendimento de um trauma também são
Na avaliação neurológica, são avaliados auxiliar no diagnóstico e definição de importantes, gerando enriquecimento
atividade cerebral e medula espinhal. terapia que deverá ser feita. significativo para o próximo evento.
Convulsões, status mental alterado Exames de ultrassom como o FAST Comunicação e treinamento em
(estupor ou coma) e paralisia aguda (Focused assessment with sonography) equipe melhoram a efetividade, além
com perda de nocicepção devem ter são usados para uma avaliação rápida de ter um líder dentro do grupo, para
atenção imediata. Convulsões devem ser e objetiva de cavidades abdominal conduzir, distribuir funções e aplicar
controladas imediatamente, pois quando e torácica, em busca de líquido em regras e procedimentos. Há uma técnica
prolongadas levam a hipertermia, edema pleura, abdômen e pericárdio, além de de comunicação denominada “circuito
cerebral e lesões cerebrais irreversíveis. identificação de pneumotórax, hérnia fechado”, onde uma ordem é repetida por
Aumento de pressão intracraniana deve diafragmática e fratura de costelas. quem a recebeu, para verificar a acurácia,
ser levada em consideração em qualquer evitando que não seja cumprida, ou
caso de alteração de status mental, e Preparo da Sala de Urgência seja cumprida de maneira inadequada.
os cuidados consequentes devem ser Visto que a triagem, a recepção e o Para haver uma centralização dos
tomados. O aumento pode levar a tratamento de reanimação devem ser equipamentos mínimos necessários,
isquemia cerebral e herniação através do feitos de maneira organizada e rápida, pode-se usar o carrinho de urgência,
forame magno. Pacientes com suspeita a sala de urgência deve estar sempre sem acumular equipamentos
de lesão medular devem ser imobilizados preparada e organizada, além de ter desnecessários que possam levar a
para prevenir lesões secundárias ou uma equipe devidamente treinada. alguma confusão no evento e demora
agravação do quadro. Alterações renais Do contrário, dependendo do quadro do tratamento. Pequenos detalhes como
agudas ou em vesícula urinária podem do paciente, o indicado é encaminha- tiras de adesivo previamente cortadas e
levar a acidose metabólica, hipercalemia, lo para outro local mais adequado. Os separadas, conjunto de fluido conectado
arritmias cardíacas e óbito; quando primeiros minutos de atendimento são a equipo, seringas e cateteres com
que precisam de tratamento urgente. essenciais para o prognóstico e sobrevida seus pacotes semi-abertos e seringas
Sendo assim, todo paciente recebido do paciente. A área de atendimento com ar conectadas aos traqueotubos
em urgência deve ser palpado para tem de estar preparada para variados já otimizam o tempo. Todos os itens

33
EMERGÊNCIAS

presentes no carrinho devem ser 27X8, kit de sutura rápida (fio nylon
revisados diariamente e após cada 2-0, porta agulhas, pinça hemostática
EXAMES REALIZADOS PELO TECSA LABORATÓRIOS
atendimento, organizando-o e repondo curva e tesoura), seringas de variados
material que foi utilizado. Esse material tamanhos já agulhada e lâmina de
deve ser exclusivo para atendimentos bisturi 11 e 23. No terceiro, devem
COD EXAMES DIAS
de urgência. As repartições do estar as drogas: adrenalina, vasopressina,
carrinho devem estar divididas sulfato de atropina, lidocaína 2%,
conforme o protocolo A-B-C. No lidocaína em spray, cetamina, diazepan
primeiro compartimento, haverá tubos ou midazolan, fentanil, naloxona, 324 PERFIL BIOQUÍMICO 0
endotraqueais de diversos tamanhos, glicose 50%, gluconato de cálcio 10%,
mascara laríngea, bolsa de reanimação cloreto de potássio 19,4%, manitol e
com reservatório de oxigênio, furosemida. Para facilitar a utilização,
laringoscópio, sondas uretrais para preencher seringas e identifica-las. E 801 PERFIL CHECK-UP GLOBAL PLUS 1
aplicação de fármacos via intrabronquial, no quarto compartimento, matérias
kit para punção traqueal ( cateter 14G, que podem complementar e facilitar os
seringa 20 mL e conexões para fonte de procedimentos anteriores, como gel para
235 CHECK-UP PÓS-OPERATÓRIO 1
oxigênio), kit para cricotireoideotomia Doppler, eletrodos e desfibrilação, fonte
e traqueotomia de urgência (lâmina de de luz, material de proteção individual,
bisturi 23, lâmina de bisturi 11, tesoura, campos operatórios. Todos organizados
pinça hemostática curva, cânulas de e de fácil visualização sempre. A estação CHECK UP GLOBAL DE FUNÇÕES COM
788 0
traqueotomia de diversos tamanhos), fixa de atendimento de urgência também HEMOGRAMA
kit de punção torácica (torneira de três pode ter a disposição equipamentos de
vias conectada à seringa de 20 mL, monitorização bastante importantes,
com scalp 19G) e kit de sucção de como Doppler vascular e manguitos, 233 CHECK-UP EMERGÊNCIA 0
vias aéreas e luz auxiliar. No segundo lactímetro e glicosímetro, oxímetro de
compartimento, foco no acesso vascular. pulso, eletrocardiograma, capnógrafo,
Bolsa de fluido, preferencialmente desfibrilador e pás, estetoscópio,
Lactato ringer, conectada a equipo termômetro retal e de periferia e 570 CHECK-UP GLOBAL DE FUNÇÕES 0
macrogotas pronto para uso, tiras de ultrassom para exame FAST de
adesivo preparadas, gazes estéreis, urgência.
cateteres intravasculares periféricos de
diferentes tamanhos, agulha 40X12 e

34
EMERGÊNCIAS

DISTÚRBIOS ELETROLÍTICOS E DO EQUILÍBRIO ÁCIDO-BASE


EM DOIS CASOS PRESUNTIVOS DE LEPTOSPIROSE CANINA
EMERGÊNCIAS NA CLÍNICA VETERINÁRIA
CONDUTAS QUE SALVAM VIDAS!
COM ÓBITO PRECOCE
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Dr. Warley Gomes dos Santos
MV, MSc e DSc Ciência Animal, pelo Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinárias, da Escola de Medicina
Veterinária da UFMG. Doutorado com linha de pesquisa em toxicologia e plantas tóxicas. Atuação Emergência e
Cuidados Críticos Veterinários.
Introdução no aparecimento predominantemente Os exames de hemogasometria
A Leptospirose é uma enfermidade de alterações renais. No último caso, foram realizados com sangue venoso
provocada por bactérias do gênero o cão pode eliminar leptospiras na em seringa heparinizada, coletado
Leptospira. Há grande frequência de urina por um longo período de tempo. da jugular externa e executados
ocorrência da doença acometendo Podem ocorrer outros sorovares, causando imediatamente após a obtenção da
cães do meio urbano e grande relação síndromes anictéricas (Mitika et al., 2004). amostra. Os parâmetros obtidos com as
com o crescimento desordenado das principais alterações eletrolíticas e do
cidades, com pouca infra-estrutura e Relato de caso e discussão equilíbrio ácido-base estão apresentadas
o deficiente saneamento ambiental Relatam-se dois pacientes caninos (Fig.2). Ambos os pacientes caninos
urbano. A doença também acomete da cidade de Recife, PE, que foram apresentavam distúrbios caracterizados
os animais do meio rural, incluindo encaminhados de outro serviço para por acidose metabólica e respiratória,
bovinos, equinos, ovinos e suínos. cuidados intensivos devido quadro ou seja, um distúrbio misto. O animal
Estas bactérias do tipo espiroquetas presuntivo de leptospirose canina. número 1, apesar de apresentar um
podem sobreviver por longos períodos Ambos os animais eram contactantes distúrbio misto, o valor elevado de
em poças d’água, favorecendo a sua no mesmo domicílio. Estes animais PCO2 demonstra um predomínio do
transmissão nos períodos de chuva apresentavam-se com hipotermia grave, componente respiratório. O animal
e alagamentos (Schuller et al. 2015). icterícia cutâneo-mucosa generalizada número 2, inicialmente o componente
Devido a estas características da doença, (Fig.1). Foram iniciadas manobras de metabólico era o mais predominante em
Recife, PE e região metropolitana, por reanimação volêmica com soluções seu quadro, porém no terceiro exame,
ter longos períodos pluviométricos com cristaloides e aquecimento corporal anteriormente ao óbito, havia também
alagamentos, sobretudo nos meses de interno com pequenas quantidades similarmente ao animal 1 o predomínio
Junho e Julho, têm ocorrido uma maior de enema com água aquecida e outras de uma acidose respiratória. Ambos os
frequência de ocorrência da doença em medidas de suporte clínico, bem animais evoluíram ao óbito em curto
cães, inclusive com casos notificados como antimicrobianos intravenosos. período de tempo e apresentavam
no ser humano. Entre os meses de Os pacientes evoluíram ao óbito acidose metabólica e respiratória com
Janeiro e Junho do corrente, no mínimo em menos de 24h após a admissão. anion gap (intervalo de ânions) elevado
um animal por mês foi dado com evidenciando um acúmulo de ácidos
Figura 1 Mucosa oral apresentando icterícia
diagnóstico sorológico de leptospirose intensa em animal com diagnóstico presuntivo (ânions não mensuráveis). As principais
canina no serviço de internamento da de leptospirose canina. Arquivo pessoal. causas de anion gap elevado no cão são
instituição onde foram internados os devido às toxinas urêmicas, acidose
animais do presente relato. Os sorovares lática, cetoácidos, intoxicação por
mais frequentes diagnosticados tem salicilatos e intoxicação por etilenoglicol,
sido canicola e icterohaemorrhagiae. sendo o último, pouco frequente os
O sorovar icterohaemorrhagiae causa casos de intoxicações no Brasil. De fato,
a síndrome ictero-hemorrágica em os autores do presente relato observam
cães, que é de evolução desfavorável na em sua rotina clínica que a maior parte
maioria das vezes com danos ao fígado dos animais com anion gap elevado são
e rins, resultando em icterícia e injúria de causas renais (azotemia ou uremia
renal aguda e óbito muito precocemente. e hiperfosfatemia) e em segundo lugar
A infecção pelo sorovar canicola resulta devido a níveis elevados de lactato. Os

35
EMERGÊNCIAS

animais que apresentam anion gap com administrado via intravenosa gluconato apresentavam níveis muito inferiores
valores muito elevados frequentemente de cálcio para proteger o miocárdio da aos valores de referência para a espécie.
tem um prognóstico desfavorável. Na hipercalemia, bicarbonato de sódio e Embora os valores de cálcio iônico em
avaliação do anion gap, os valores podem glicose hipertônica). Aliado ao quadro analisadores de gases sanguíneos, em
ser corrigidos para os níveis séricos de clínico geral, esta hipercalemia pode ter amostra heparinizada são tipicamente
fósforo e albumina caso estes estejam contribuído com o óbito tão precoce do inferiores à amostra não heparinizada
alterados no paciente. Esta correção animal (Kogika et al., 2017). O animal os valores obtidos estão bem abaixo
propicia uma avaliação etiológica número 2 do relato, além da grave da referência para a espécie (Galvão
mais acurada da acidose metabólica hipercalemia, também apresentava et al., 2017). A literatura humana
(Artero, 2017). O animal 2 apresentava níveis de sódio abaixo da referência tem reportado que o paciente grave
hipercalemia grave provavelmente caracterizando uma hiponatremia. frequentemente apresenta baixos níveis
pela não excreção renal por quadro de Tal hiponatremia pode ser de origem deste íon tão importante em múltiplas
injúria renal aguda anúrica. Mesmo diluicional devido retenção de água atividades vitais e este pode ser utilizado
com tratamento clínico direcionado à bem como pela quantidade excessiva de como prognóstico do paciente crítico
redução dos níveis do potássio, não houve solutos (toxinas urêmicas). Em relação (Zhang et al., 2014).
efetividade do tratamento (havia sido ao cálcio iônico, ambos pacientes caninos

30-06-17 01-07-17 01-07-17 01-07-17


*HEMOGASOMETRIA VENOSA ANIMAL 1- PRETINHA ANIMAL 2- MEL ANIMAL 2- MEL ANIMAL 2- MEL
EXAME 1 EXAME 1 EXAME 2 EXAME 3

pH 7,35-7,45 7,178 7,217 7,214 7,080

pCO2 35-45 mmHg 52,4 37,3 32,0 53,6

HCO3- 20-24 mmol/L 19,0 14,8 12,6 15,5

BE -4 - +4 mmol/L -9,7 -12,1 -13,9 -14,7

Na+ 140-155 mmol/L 142,2 134,1 143,0 131,7

K+ 3,5-5,5 mmol/L 4,8 8,6 8,1 8,4

iCa++ 1,15-1,35 mmol/L 0,715 0,931 0,610 0,792

Anion Gap 28,4 34,9 40,5 33,4


Figura 2 Hemogasometria com sangue venoso de dois animais com distúrbio ácido-base e eletrolítico. *Os valores de referência podem ter diferença entre
equipamentos, sítio de coleta, tipo de heparina, tempo de realização do exame após coleta e entre sangue venoso e arterial. Equipamento Cobas B 121.

Considerações Finais
EXAMES REALIZADOS PELO TECSA LABORATÓRIOS

As alterações eletrolíticas e do COD EXAMES DIAS


equilíbrio ácido-base ocorrem
788 CHECK UP GLOBAL DE FUNCOES COM HEMOGRAMA 0
frequentemente no paciente grave. A
monitoração por avaliações seriadas em 785 LEPTOSPIROSE - PCR REAL TIME QUALITATIVO 7
exames de hemogasometria ou mesmo 786 LEPTOSPIROSE - PCR REAL TIME QUANTITATIVO 7
na avaliação por métodos tradicionais
no laboratório clínico é fundamental 81 LEPTOSPIROSE CANINA OU EQUINA - MICROAGLUTINACAO (IGM) 2
tanto para a obtenção do prognóstico 526 PERFIL DIAGNOSTICO COMPLETO DE LEPTOSPIROSE CANINA 2
quanto para o direcionamento do
tratamento clínico. 527 PERFIL DIAGNOSTICO SOROLOGICO LEPTOSPIROSE CANINA 2
331 PERFIL ELETROLITICO 1

36
EMERGÊNCIAS

INFEÇÕES NOSOCOMIAIS
Dr. José Vieira, Médico Veterinario, Serviço de Urgência, Cuidados Intensivos e Anestesia do Hospital VetCentral, Portugal
Dr. Nuno NA
EMERGÊNCIAS Paixao, Médico VETERINÁRIA
CLÍNICA Veterinario, Director do Serviço de Urgência, Cuidados Intensivos e Anestesia do Hospital VetCentral, Portugal
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Introdução adversa à presença de um agente Tal diferenciação deve-se ao menor


Começamos a afirmar que muitas infecioso ou às suas toxinas, sem que haja número de pacientes, aos períodos de
das infecções nosocomiais, aparecem evidência da presença ou incubação dessa hospitalização mais curtos ou a não
por mau maneio nosso de pacientes, infeção no momento de admissão do submissão a procedimentos altamente
antibióticos, desinfectantes, etc, em paciente, ou seja, corresponde a infeções invasivos como os que são levados
ambiente clinico e hospitalar.O avanço adquiridas pelo paciente num ambiente a cabo nesta última. Contundo esta
científico e tecnológico da medicina hospitalar e que se manifesta durante o realidade não é estática e termina
permitiu beneficiar em muito a saúde dos período de hospitalização ou após a alta por seguir a tendência observada
pacientes devido ao desenvolvimento de se relacionado com os procedimentos na medicina humana devido ao
novas terapêuticas e técnicas cirúrgicas levados acabo durante esse período progresso feito que permitiu aumentar
contundo apesar desse benefício (Blood & Studdert, 2002; Rodrigues, a qualidade de vida e longevidade dos
surgem paralelamente, nalguns casos, 2013; Horan, Mary & Dudeck, 2008). animais, o que se deduz num maior
prejuízos devido a infeções adquiridas Estas podem ser causadas por fontes número de pacientes geriátricos,
em âmbito hospitalar. Deste modo endógenas, em que o foco de infeção crónicos e imunocomprometidos,
as infeções adquiridas em hospitais está presente em partes do organismo realizar procedimentos cirúrgicos mais
tornaram-se mais frequentes nos países do paciente usualmente colonizadas por diversificados e em maior número e
industrializados, sendo a razão mais micro-organismos (pele, nariz, boca, aumentar o período de hospitalizações.
proeminente de falha nos tratamentos trato gastrointestinal) ou por fontes Na medicina veterinária tem que
médicos avançados tais como cirurgias exógenas, que não são menos do que ter sido em conta também o desafio
complexas, tratamento de pacientes todas as fontes externas ao paciente tais relacionado com a higiene dos pacientes
imunodeprimidos e de pacientes que como a equipa que fornece os cuidados , assim como o potencial zoonótico que
exigem cuidados intensivos (Mielke, de saúde, as visitas, o equipamento e alguns agentes etiológicos apresentam
2010). As infeções nosocomiais ambiente hospitalar (Horan et al., 2008). (Wieler, 2014; Milton et al, 2015; Stull
ou hospitalares são responsáveis De igual modo as infeções nosocomiais & Weese, 2015).
pelo aumento da morbilidade e podem ser classificadas em endémicas
mortalidade dos pacientes, altos custos e ou epidémicas, sendo as endémicas as
prolongamento do internamento e estão mais comuns e as epidémicas as que Agente Ambiente

dependentes de vários fatores como surgem durante surtos, definidos como


seja o estado imunitário do paciente um aumento inusual, acima da média,
Hospedeiro
internado, a realização de exames e de uma infeção específica ou de um
terapêuticas invasivas, o ambiente micro-organismo infetante (WHO,
hospitalar e as práticas de prestação de 2002). Estima-se que este tipo de
Figura 1: Esquema da tríade ecológica de
cuidados aos doentes, como o recurso infeções chega a afetar entre 4 a 9% dos Leavell & Clarck.
intensivo e desmesurado a antibióticos pacientes (ECDC, 2008).
responsáveis pela promoção da Não se pode falar de risco de infeções
resistência anti-microbiana. Quando Fatores de risco sem mencionar os três elementos
presentes em taxas elevadas deixam em Como expectável o espectro e essenciais para a sua instalação,
evidência a má qualidade na prestação frequência de infeções nosocomiais nomeadamente o agente, o hospedeiro
de cuidados de saúde (WHO, 2002). difere em função do país, regiões dentro e o ambiente. Respetivamente ao
do mesmo país, tipo de instalações de agente é necessário ter em consideração
Definição saúde e ainda departamentos dentro que os pacientes hospitalizados
As infeções nosocomiais ou infeções dessas instalações (Mielke, 2010). Na poderão ser expostos a diversos micro-
adquiridas em hospitais são definidas medicina veterinária pode deduzir- organismos distintos, porém nem
como uma condição localizada ou se riscos mais reduzidos quando sempre o contacto entre estes resulta
sistémica que resulta de uma reação comparado com a congénere humana. no desenvolvimento de doença clínica.

37
EMERGÊNCIAS

Para que tal se dê será necessário a concentração em determinada área 24 horas, longos períodos de anestesia
conjugação de fatores vários como as para além da promoção da deslocação anteriores às cirurgias para realização
características do micro-organismo, dos micro-organismos também de exames de diagnóstico ou a idade do
resistência antimicrobiana se aplicável, promove uma maior contaminação de paciente na qual pacientes com idade
virulência intrínseca e quantidade de objetos, dispositivos e materiais que inferior a um ano ou superior a 10
material infecioso inoculado. no seu conjunto irão contribuir para o apresentando maior risco. Além destes
Como referido a transmissão destes surgimento de infeções nosocomiais. fatores acresce a interferência do animal
agente pode dar-se pela própria flora (WHO, 2002). que poderá morder, lamber ou permitir
do paciente (endógena), por fontes o contacto da sutura com superfícies
externas (exógena), ou mesmo infeção Localização das infeções contaminadas (Dunning, 2007; Braga,
cruzada entre diferentes pacientes. nosocomiais 2008). Respeito às infeções da corrente
A evolução científica inerente ao Na medicina humana as infeções do sanguínea estão normlamente associadas
desenvolvimento humano levou a uma trato urinário e respiratório, infeção do ao uso de dispositivos intravasculares.
mudança de paradigma em que antes sítio cirúrgico, e infeções da corrente A colocação de cateteres intravenosos
da introdução de boas práticas de sanguínea assumem aproximadamente pode levar à sua contaminação pela flora
higiene e da antibioterapia a maioria 80% das Infeções nosocomiais, para da pele aquando da cateterização, mas
das infeções hospitalares se deviam a a medicina veterinária suma ainda também por patogénios ambientais e
patogénios de origem externa ou por as infeções gastrointestinais (Stull & entéricos (Marsh-Ng, Burney, Garcia,
micro-organismos que não faziam Weese, 2015). As infeções nosocomais 2007). Segundo Seguela & Pages, 2011,
parte da flora normal do doente, para localizadas no trato urinário são, deste a infusão de soluções enriquecidas
uma situação em que a maioria das tipo de infeções, as mais comuns com dextrose ou a manutenção de
infeções adquiridas atualmente são na clínica de pequenos animais. Os cateteres durante períodos superiores
causadas por micro-organismos comuns patogénios envolvidos podem ter origem a setenta e duas horas potenciam a
na população em geral, não causando no reto ou períneo do próprio animal sua contaminação e colonização. Os
doença ou causando quadros mais ou então nos sistemas de drenagem mesmos autores isolaram, a partir
ligeiros do que nos doentes internados das sondas ureterais caso estes sejam destes dispositivos, Staphylococcus
(WHO, 2002). No que diz respeito ao contaminados por ascensão de bactérias epidermidis, Staphylococcus
hospedeiro serão as suas idiossincrasias até a bexiga em casos de fluxo retrógrado intermedius, Staphylococcus aureus,
a determinar a não infeção ou infeção de urina, situação que pode suceder Enterobacter spp, Escherichia coli,
clínica e a sua gravidade. Fatores como caso o sistema esteja colocado num Pseudomonas spp, Klebsiella spp,
a idade, sendo os mais prejudicados os plano mais elevado do que o paciente, Streptococcus não hemolítico e Candida
jovens e geriátricos, o estado imunitário, quando é realizado flush, ou em casos glabrata. Apesar do maior risco associado
o historial clínico, intervenções de obstrução ao normal fluxo. As sondas à longa permanência dos cateteres
diagnósticas e terapêuticas realizadas, uretrais acarretam consigo um outro intravenosos não existem evidências de
ou serem portadores de doenças crónicas risco, a formação de biofilmes por que uma mudança profilática reduza
ou de síndromes de imunodeficiência bactérias presentes na sua superfície por este risco, motivo pelo qual o paciente
que comprometem as defensas ao fraca penetração bacteriana, resistências deve ser mantido cateterizado o período
ponto de micro-organismos inócuos se ou falhas na terapêutica (Saint & mínimo indispensável para levar a cabo
poderem tornar patogénicos (Mielke, Chenoweth, 2003).AS infeções do local a sua terapêutica (Stull & Weese, 2015).
2010; WHO, 2002). Estes pacientes cirúrgico acometem tecidos, órgãos e No que toca às infeções gastrointestinais
apresentam uma maior vulnerabilidade cavidades manipulados durante um são reconhecidas quando há um
para este tipo de infeções, tipicamente procedimento cirúrgico e consideram- aumento de episódios de diarreia nos
acometidos através de infeções nos se para este efeito as que surgem até o pacientes hospitalizados. Em instalações
sítios submetidos a intervenções trigésimo dia pós-cirúrgico e no caso para pequenos animais a salmonelose é
cirúrgicas, infeções por mordedura, da colocação de próteses este período a infeção nosocomial intestinal mais
por colocação de cateteres intravenosos estende-se até um ano. frequentemente reportada, contudo
ou por colocação de sondas uretrais Como fatores de risco temos uma esta situação poderá dever-se não a
(Walther, Tedin & Lübke-Becker, tricotomia insuficiente ou mal realizada, um maior risco mas a uma mais fácil
2016). Por último temos o ambiente; duração do procedimento cirúrgico identificação e notificação (Benedict,
os hospitais veterinários congregam (superiores a 90 minutos aumentam Morley & Metre, 2008).
tanto animais infetados como animais o risco de infeção em duas vezes
com risco elevado de contrair infeção. quando comparado com cirurgias Patogénios relevantes
Portanto, situações de sobrelotação, de 60 minutos), antibioterapia em Os patogénios envolvidos tendem
a ser oportunistas encontrados em
transferências frequentes de um feridas limpas duas horas antes do animais saudáveis, estáveis no ambiente
serviço para o outro ou uma elevada procedimento e continuação após as
38
EMERGÊNCIAS

ou patogénios que já desenvolveram complicações, tipos de procedimentos vir a ser hospedeiros (STRATTON
resistências a alguns fármacos. terapêuticos ou de diagnóstico, C.W,1990).
Na clínica de pequenos animais anamnese e historial clínico à chegada, os Conclusões
destacam-se o Adenovirus canino, resultados de antibiogramas e períodos As infeções nosocomais são um
Bordetella bronchiseptica, Calicivirus, de internamento estimados (Mendes, sério problema de saúde pública que
EMERGÊNCIAS NA CLÍNICA VETERINÁRIA
Chlamydophila, Esgana, Herpes vírus, 2006). A monitorização da ocorrência se vê agravado pelos cada vez maiores
CONDUTAS QUE SALVAM VIDAS! agregados populacionais, variações
vírus influenza, Microsporum canis, de infeção hospitalar na medicina
Parainfluenza virus, Parvoviroses, veterinária não tem sido valorizada o de imunidade, deteção de novos
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coronavirus respiratório, organimos suficiente, daí imperar a necessidade patogénios e resistência dos patogénios
conhecidos. Sabe-se que são
multiresistentes, Acinetobacter spp, de consciencalizar toda a equipa
mais os pacientes que durante surtos
Escherichia coli, Enterococcus spp, envolvida para a temática em discussão
desenvolvem infeção subclínica do que
Salmonella spp, Staphylococcus spp e incluindo a realidade das resistências os que chegam a desenvolver a doença,
Pseudomonas spp (Stull & Weese, antimicrobianas por forma que sejam o que nos deve levar ao pensamento
2015). No que toca às resistências adotadas por estes medidas de prevenção, crítico de não ficarmo-nos apenas com
há que ressalvar que vários patogénios que seja realizada uma monitorização os animais doentes mas também com os
relevantes no que diz respeito às infeções das tendências no centro em questão, que podem vir a ser um foco importante
nosocomiais na medicina veterinária já seja a incidência e distribuição das de infeções cruzadas . Na medicina
estão classificados como ameaças graves infecções nosocomiais, a sua prevalência veterinária, e de forma consistente com
de resistência antibacteriana pelo Centro e quando necessário proceder â adoção os estudos realizados para a medicina
de controlo e Prevenção de Doenças de novo programas ou adaptação dos humana, observa-se que a presença de
dos EUA, nomeadamente Acinetobacter existentes, como a avaliação do impacto patogénios resistentes varia consoante
das medidas preventivas ,identificando o centro médico, localização, pacientes
spp, Enterobacteriaceae produtores
a necessidade de novos programas ou admitidos, serviços oferecidos e relação
de b-lactamase de espectro alargado com outros centros Deste modo os
(ESBL), Pseudomonas aeruginosa, ou intensificar os existentes e avaliar
o impacto das medidas de prevenção centros de referência apresentam
Salmonella spp e Staphylococcus aureus maior risco de introdução deste tipo
levadas a cabo(Ogeer-gyles, 2006).
resistente à meticilina (SARM), agentes de patogénios. A título de exemplo,
O primeiro passo para minimizar a
estes com graus variáveis de resistência incidência e os riscos associados às Hoet et al. (2013), conclui que cães de
nos estados europeus conforme evidencia infeções nosocomais é a adoção de estudantes de medicina veterinária estão
o relatório do Centro de Controlo e medidas e comportamentos preventivos, fortemente associados a maior risco de
Prevenção de Doenças Europeu (CDC, e para tal é necessário documentar todas colonização por MRSA, de igual modo
2013; ECDC, 2017). Esta resistência as situações identificadas. Benedict, pessoas que trabalhem ou vivam com
deve-se à seleção e troca de elementos Morley e Metre, no ano de 2008, levaram animais, especialmente se doentes,
a cabo um estudo em 38 hospitais apresentam maior risco de ser infetados.
genéticos que promovem a emergência
veterinários, que concluiu que 82% dos E se tivermos em conta que 60% das
de estirpes bacterianas multirresistentes doenças infeciosas são consideradas
podendo conduzir à eliminação de hospitais estudados reportaram surtos
de infeções nosocomais no período zoonoses então não podemos esquecer
micro-organismos sensíveis e a uma a relação homem-animal como link
persistência das estirpes resistentes de 5 anos anteriores ao estudo, 45%
epidemiológico para a propagação deste
que em determinadas situações podem reportaram mais do que um surto, 58% tipo de infeções (CLeaveland et al.,
tornar-se endémicas no centro médico necessitaram de restringir a admissão 2001; Donker et al., 2012; Gronthal et
em questão. Situação que se agrava nos de pacientes e 32% viram-se obrigados al., 2014).
países em vias de desenvolvimento, onde a encerrar partes das instalações por
os antibióticos de segunda linha são forma a controlar a propagação dessas Referências bibliográficas:
infeções. Igualmente relevante é o facto Solicite as Referencias bibliográficas
caros ou não estão disponíveis. Portanto
de 50% destes centros terem reportado originais do autor através do email:
pode concluir-se que o aumento do tecsa@tecsa.com.br
número e concentração de animais zoonoses nos dois anos anteriores ao
e pessoas, alterações de imunidade, estudo.
surgimento de novos microrganismos A adoção de boas medidas de higiene e
EXAMES REALIZADOS PELO TECSA LABORATÓRIOS
e uma maior resistência bacteriana aos assepsia, assim como a descontaminação
antibióticos permitirão uma maior dos diferentes departamentos destes
centros serão passos elementares e COD EXAMES DIAS
difusão deste tipo de infeções (WHO,
essenciais para prevenir este tipo de
2002).
situacões. Contudo, não poderá deixar 349 CHECK-UP GLOBAL DE FUNÇÕES 0
de contar com programas de controlo,
Prevenção e programas de desenvolvidos nos próprios centros
controlo da infeção de atendimento médico-veterinário 869 CHECK-UP CARDIORRENAL 2
Uma prevenção adequada idealmente (consultórios, clínicas e hospitais
será feita através da criação de divisões veterinários) e que envolvam a precoce
para distintos grupos de pacientes deteção e tratamento dos doentes 837 CHECK-UP EMERGÊNCIA 0
considerando, por exemplo, tipos de
clínicos detetados e deteção dos
intervenções cirúrgicas e potenciais
portadores assintomáticos que possam

39
MEDICINA LAB. DE FELINOS

ANEMIAS EM FELINOS
Dr. Rubens Antonio Carneiro – Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Dr. Marthin Raboch Lempek – Universidade Federal Minas Gerais - UFMG

Introdução sanguínea, destruição eritrocitária, medular dos gatos demora cerca de sete
As anemias são definidas quando ocorre produção eritrocitária efetiva diminuída, dias a partir do início da anemia, onde se
diminuição de eritrócitos, hemoglobina sendo ser classificadas em agudas e espera uma boa resposta reticulocitária.
e volume globular. Em geral estes crônicas. As anemias podem ainda Os reticulócitos dos cães são do tipo
valores se alteram proporcionalmente ser classificadas por resposta medular agregado, os dos felinos são agregados
pois todos são avaliações dos eritrócitos como regenerativas e arregenerativas, e pontilhados que são grânulos
do sangue. Entretanto, eles podem pela presença de resposta reticulocitária citoplasmáticos espalhados pela célula.
não estar uniformemente diminuídos, e pelos índices eritrocitários, VGM, A resposta eritropoiética adequada
por causa da variação de intervalos CHGM em macrociticas, microcíticas, à anemia em gatos, quando baseada
de referencia, presença de eritrócitos normocrômicas, hipocrômicas. apenas na contagem de reticulócitos
anormais, volume eritrocitário anormal, agregados é cerca de metade daquela
ou concentração de hemoglobina Anemias em felinos esperada em cães, nestes casos, o
intracelular anormal. Anemia é mais As anemias de felinos seguem um número de reticulócitos pontilhados
um estado anormal, patológico, do que padrão semelhante às outras espécies devem ser considerados, pois podem
uma doença, com significância principal em relação as causas determinantes. A ser os únicos reticulócitos aumentados
na capacidade diminuída do sangue de diferença está relacionada ás anemias nas perdas sanguíneas discretas. Os
transportar oxigênio para os tecidos., infeciosas com parasitas bem específicas. reticulócitos pontilhados permanecem
resultando em intolerância á exercícios, Em geral, os felinos reagem de forma elevados por um período mais longo
fraqueza, depressão, e taquipnéia e diferente e mais resistente que os cães no sangue periférico (até duas semanas
mucosas pálidas.A anemia pode se aso processos em que se desenvolvem após a resolução da anemia).
desenvolver quando ocorre perda a anemia. Em geral a resposta máxima

Hemácias de felinos Reticulócitos agregados e pontilhados

Os eritrócitos de felinos são menores métodos manuais. Os corpúsculos de para o procedimento podem aumentar
que os dos cães, sendo a variação do howell Joly podem se confundir com a contagem. Os corpúsculos de Heinz
volume globular (24 – 45%). Devido Haemobartonella felis, geralmente são podem ser observados em gatos sadios,
a esse pequeno tamanho, inclusive encontrados em tratamentos crônicos em geral são formados pela agregação de
sendo ás vezes semelhante em tamanho com corticosteroides, e também grânulos finos precipitados, indicando
a algumas plaquetas, os aparelhos indicam função esplênica diminuída. desnaturação da hemoglobina. Em
de contagem eletrônica ás vezes se A forma de coleta nos felinos pode felinos indica uma propensão a
confundem. Em geral a contagem influenciar no número de reticulócitos, desnaturação da hemoglobina. Esse
tem que ser avaliada e conferida por animais quando excitados e contidos corpúsculos tem sido atribuídos ao

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MEDICINA LAB. DE FELINOS

número acentuado de grupos sulfidrila microorganismo no plasma. Em sangue Anemia hemolítica imunomediada
reativos encontrados na molécula da refrigerado, na presença de EDTA, os A anemia hemolítica imunomediada
hemoglobina felina. .A média de vida organismos frequentemente se destacam (AHIM) é definida como uma redução
da hemácia felna é de cerca de 68 dias. dos eritrócitos, sendo importante a do número de eritrócitos em decorrência
EMERGÊNCIAS NA CLÍNICA VETERINÁRIA
As causas de anemias em geral são as confecção do esfregaço á fresco. É um da destruição por imunoglobulinas ou
CONDUTAS QUEmesmas
SALVAM VIDAS!em todas as espécies, variando parasita de difícil diagnóstico, sendo pelo sistema complemento (hemólise
de acordo o parasita ou microorganismo recomendado hemograma e esfregaços intravascular) ou ainda, pela remoção
que sejawww.vetsciencemagazine.com.br
espécie-específica. Os gatos consecutivos. Os sintomas clínicos promovida pelo sistema monocítico
tem características peculiares na são perda de peso, febre, desidratação, fagocitário (hemólise extravascular).
demonstração dos sintomas clínicos, em icterícia, linfoadenomegalia, anemia. Ocorre quando o sistema imune de um
geral a cor da mucosa não é indicado, O grau da anemia dependerá da animal produz anticorpos que se ligam
pois os felinos tem as mucosas com infestação e resistência do animal. A direta ou indiretamente seus próprios
aparência relativamente pálidas. O ideal anemia é regenerativa normocítica e eritrócitos (IgA SE) e provocam a
é observar o palato. A resposta a anemia hipocrômica, sendo que alguns animais sua destruição. As moléculas IgASE
é que é diferente nos gatos. Os gatos podem não apresentar remissão da podem ser IgG, IgM ou IgA, e o
apresentam baixa concentração de 2,3- anemia. Pode ocorrer sequestro de grau de lise vai depender do tipo e
DPG que é importante na liberação de eritrpocitos infectados no baço, fígado, quantidade de anticorpo que se liga ao
hemoglobina pela hemácia. Isso facilita pulmões e medula óssea. Pode ocorrer eritrócito e também do envolvimento
a liberação da hemoglobina nessa eritrogagocitose, mas também apenas do complemento de fixação. Os
espécie, tornando mais resistentes aos remoção do parasita por macrófagos. animais podem apresentar anemia,
quadros anêmicos. A esplenectomia não afeta o curso anorexia, letargia, vômitos, constipação,
da doença. Animais FeLv positivo obstipação, polidipsia. Geralmente não
Anemias devido a agentes podem ter doença mais exacerbada. O apresentam febre e podem apresentar
infecciosos tratamento em geral é pela doxiciclina e esplenomegalia. O diagnóstico é
corticosteroides. clínico, mas pode ser feito o teste de
Babesiose aglutinação e Coombs. A observação de
É parasita intracelular e é espécie Cytauxzoonoses esferócitos em gatos é difícil devido ao
especifico; em gatos a espécie é a O parasita não é encontrado tamanho diminutos dos eritrócitos. As
Babesia felis. O parasita geralmente não comumente no Brasil, é um piroplasma causas podem ser primária (idiopática)
é observado no sangue periférico, mais encontrado em eritrócitos e sua e secundária. As secundárias podem
frequentemente no sangue capilar. É esquizogonia ocorre em macrófagos estar relacionadas com o micoplasma
transmitido pelo carrapato ixodidae. de vários tecidos. A esquizogonia é e neoplasia. Podem estar associadas
Babesiose em gatos determinam responsável pelos sinais clínicos e a FeLV, erliquiose, babesiose,
anorexia, letargia e anemia de vários macrófagos intravasculares podem micoplasmose , Linfoma, leucemia
graus dependendo da intensidade aumentar significativamente, mieloide, síndrome mielodisplásica.
da infecção. Geralmente a anemia é obstruindo o lumem de vasos. Podem Alguns medicamentos usados para
regenerativa macrocítica e hipocrômica, apresentar desidratação, depressão, febre tratamento de hipertiroidismo e
a icterícia é rara e geralmente não acentuada, anemia não regenerativa. eritropoietina para tratamento de
apresenta febre. O diagnóstico pode Pode apresentar também leucopenia e injúria renal.
ser sorológico, mas principalmente pela trombocitopenia.
visualização do parasita. O tratamento é
Doxociclina e imidocarb

Hemobartonelose
Haemobartonellas são pequenas
estruturas cocoides na superfície
do eritrócito, sendo um organismo
altamente pleomórfico. É transmitido
entre brigas entre os animais.
Geralmente causa uma anemia aguda
em felinos, onde normalmente só os
eritrócitos maduros são infectados.
Raramente, podem ser observados Cytauxzoonose: Schslm’s Veterinary hematology M. Haemofelis: fonte Shalm”s Veterinary
hematology

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MEDICINA LAB. DE FELINOS

M Haemofelis: Fonte Shalm”s Veterinary hematology M. Haemofelis: fonte Shalm”s Vetrinary hematology

Micoplasmose Anemias oxidativas • Acetaminophen (Paracetamol)


Causa anemia hemolítica aguda A hemoglobina de felinos é bem • Propilenoglicol
dependente do número de parasitas mais sensível a lesões oxidativas devido • Hipertireoedismo
no sangue. Pode ocorrer mesmo em a presença de oito grupos sulfidrilas, • Linfoma
animai não imune comprometidos, reativos e frágeis e a facilidade de • Azul de metileno (Mictasol)
mas infecções de FIV e FeLV podem dissociação da hemoglobina. O baço • Fenazopiridina (Pyridium)
predispor. A hemólise é primariamente dos felinos é não sinusoidal e ineficiente • Benzocaína
extravascular e anemia pode ser na remoção de Bh dos eritrócitos • Cebolas
acentuada, sendo a parasitemia cíclica. porque os poros largos nas vênulas da Bibliografia
Mesmo após o tratamento o gato poupa esplênica permitem os eritrócitos
pode permanecer como portador. A entrarem e saírem sem deformação. 1) Schalm’s Veterinary hematology – sexta edição
– 2010 -1206pag // DOUGLAS J. WEISS - K.
transmissão se deve a presença de Por essa facilidade de circulação JANE WARDROP
pulgas, mas pode ser também por esplênica ocorre maior facilidade de 2) Immune-mediated hemolytic anemia:
understanding the nemesis // Sheila McCullough
lambedura, mas pode ocorrer também desenvolvimento de anemia por estresse - Vet Clin Small Anim - 33 (2003) 1295–1315
3) Fundamentos de Patologia clínica veterinária
por transfusões e vertical via mãe. oxidativo. Produtos causadores de // Steven L. Stockham - Michael A. Scott –
anemia oxidativas : segunda Edição 2011 – 726pag

Corpúsculo de Heinz: fonte Shalm”s Veterinary hematology

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Em primeira mão, nossa próxima edição:

ISSN 2358-1018

um benefício para o cliente TECSA MAG AZI NE


Número 19

BACTERIOLOGIA VETERINÁRIA
MANUAL DE BOAS PRÁTICAS PARA O CLÍNICO

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