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DA NECESSIDADE DE REORIENTAÇÃO DO ENSINO DE FILOSOFIA.

FERREIRA, Stéphany Rodrigues

RESUMO: O presente trabalho fundamenta-se acerca da discussão a cerca da


necessidade de reorientação do ensino de filosofia. Versará nos eixos de
discussão de Alejando Cerletti e de Raúl Fornet- Betncourt, partindo do
pressuposto de repensar a filosofia desde uma perspectiva intercultural e
enquanto saber memorial, como descrever Fornet.
PALAVRAS CHAVE: ensino de filosofia, interculturalidade, saber memorial.

1. INTRODUÇÃO

Para que consigamos começar a pensar sobre a questão do ensino da


filosofia e as relações de gênero, é necessário que nos situemos sobre como
essa filosofia está inserida dentro do Ensino Médio, seja ela como disciplina, que
atende a um currículo voltado para a necessidade de desempenho, dentro de
uma educação formal e que toma distância da realidade local de seus alunos.
No ensino de filosofia os professores sempre tiveram a pretensão de
serem capazes de quebrar paradigmas estruturais incorporados na
sociedade(como é o caso das relações de gênero), com o que foi nomeado como
uma educação crítica. Entretanto, a relação da filosofia no ensino médio se
construiu na contramão deste anseio, de maneira historiográfica, da história do
ocidente que é uma história de pretensa revelação de uma verdade, quando na
verdade é uma história de disputa do poder, que muito mais tem a ver com
transmissibilidade de uma história da filosofia ocidental do que com a filosofia
enquanto relação com o saber.
se pretendemos apoiar-nos na transmissão, nos vemos
obrigados a delimitar o objeto “transmitido” (a filosofia) como
algo identificável e, de certa forma, manipulável; e, se
pretendemos definir que é filosofia, deveremos redefinir o que
significa ensiná-la, já que cada caracterização julgaria a
possibilidade de sua transmissão. Se a isso somamos que nos
interessa pensar o ensino da filosofia em um contexto educativo
formal, ou seja, naquele em que os conteúdos estão prescritos
ou regulados pelo Estado, o panorama se complexifica ainda
mais.(CERLETTI, p.11,12)

Acontece que caminhamos para um entendimento de que precisamos de


uma educação que tenha serventia, de uma relação técnica e prática entre o
saber e sua aplicação. Esse entendimento que segundo Cerletti, complexifica o
panorama de relação do ensino de filosofia com seu mantenimento na educação
formal serve como argumento para que enquanto disciplina seja questionada sua
permanência no sistema educacional brasileiro.
Qual seria então a serventia dessa filosofia que vem sendo feita/ensinada
nas escolas? Ou melhor, é necessário que a filosofia tenha uma serventia? Um
porque ou para que de se fazer filosofia.

[...] Aqueles que nos perguntam “por que ou para que Filosofia?”
querem também saber o que ela é. E nós, que nos dedicamos a
estudar a disciplina, muitas vezes não sabemos responder. E
não sabemos não por que não há uma resposta, ou por que a
filosofia não é exata, ou não serve para nada, mas porque há
várias respostas. E dizer que há várias respostas não significa
dizer que a filosofia é qualquer coisa, ou que qualquer frase feita
é filosofia, e qualquer definição é válida. Mas significa dizer que
essa variedade faz parte do seu modo de ser, o que torna a
disciplina mais difícil de ser ensinada, pois parece que ela não
precisa ser ensinada. [...] (CAMPANER, 2012, p. 5).

Exigir da filosofia uma praticidade, ou objetividade faz com que ela perca
seu sentido primeiro, porque o ensino da filosofia deve ser uma relação com o
saber, bem como da origem etimológica da palavra, que sugere não somente o
conhecimento (sophia) mas com a substancial relação entre o conhecimento e o
desejo de conhecimento.
Logo a filosofia pode dessa maneira, pensada enquanto saber relacional,
ser construída na sua pluralidade, essa possibilidade que ela tem de única,
permite aos estudantes e educadores se “movimentarem” pelas temáticas e
colocarem nas mesmas as questões pertinentes a que lhes cabem. No ensino
da filosofia a questão versará sobre uma maneira de inquietar por meio do ensino
da filosofia.
Ainda que se possa criar as condições para um encontro
amoroso com o saber (pode-se convidar a pensar), os encontros
sempre têm algo de aleatório. Como dissemos, há uma distância
impossível de preencher com os saberes do professor, na qual
se joga a novidade do outro, sua própria relação com a filosofia.
Pensar implica novidade e isso tem sempre algo de inquietante
porque escapa ao controle da simples transmissão de um saber.
É inquietante para o próprio professor, porque o afasta do
caminho já trilhado da transmissão de conhecimentos e o leva a
enfrentar o desafio de pensar ele mesmo.(CERLETTI,p.38)

Mas afinal, como seria a filosofia, mais especificamente o ensino dessa


filosofia para os adolescentes, capaz de quebrar esses paradigmas
estruturacionais que são apresentados a todo o momento, das mais variadas
formas? Para que consigamos começar a pensar sobre a questão, precisamos
pensar como essa filosofia está inserida dentro desse ensino médio.
A filosofia no ensino médio encontra resistência tanto de dentro dos
corredores das próprias escolas, de dentro dos lugares ocupados pelos alunos
e das mentes ofuscadas pelo senso comum e pela superficialidade das
discussões. O ensino da filosofia passa por diversas convergências durante a
história da educação brasileira, ainda sendo até hoje hostilizada e marginalizada.
A filosofia no ensino tem como objetivo essa “transmissão” de conhecimento.

O ensino de filosofia deve introduzir o estudante no universo da


problemática filosófica, fazendo-o ver que esse é o universo das
possibilidades. A discussão filosófica permite que o caminho de
um programa e/ou de temas a serem perpassados, caminho
esse traçado inicialmente, possa ser modificado de acordo com
o desenrolar de questões que por ventura mobilizem os alunos
e o professor. (CAMPANER, 2012, p. 27)

Logo, pode ser considerada uma questão central o anseio de mudar o


fazer filosófico, reorientando-o, considerando que a filosofia se desenvolveu sob
a luz da filosofia europeia, nas palavras de (FORNET,2006), a filosofia conhece
bem o seu passado e se amarra a ele de maneira a situá-lo em uma estrutura
assentada na filosofia tradicional, a qual carrega uma história de argumentações
e interpretações com as quais temos que construir novos rumos em convivência
e diálogo com o passado. Essa reorientação, pretende um repensar da filosofia
que pretende romper com a visão de que um bom professor será aquele que
tivesse boa metodologias para a “transmissão” de um conteúdo filosófico
tradicional, aquele relacionado à história da filosofia. Tornar a escola um espaço
de construção de conhecimento em um determinado tempo espaço. Um
repensar da prática de transmissão por uma filosofia que seja crítica e reflexiva,
colocando a sí mesmo em questão, considerando que as questões são mais
importantes que as respostas em sí .
Reorientar no es desechar ni negar; es imprimir un nuevo rumbo,
abrir un nuevo cauce para que – en este caso – el caudal de la
reflexión filosófica puede correr mejor por y con su época.
Hablamos entonces de la necesidad de un cambio de rumbo en
filosofía, pero no para invalidar su presente de hoy sino para
reposicionarlo en su tiempo y en su propio presente.
(FORNET,2006 p.)

Em uma análise sobre o passado, como diz Fornet (2000) a filosofia é um


saber em alguma medida contextual e intercultural, que reflete uma pluralidade
de fazeres filosóficos, de modo que a razão é uma “geocultura do pensamento”
(Kusch apud Fornet, 2000, p. 8). A filosofia é, também, saber memorial pois traz
consigo tradições de pensamento que, enquanto tal se renova em cada tempo
histórico.
Reorientar a filosofia numa perspectiva intercultural (Fornet, 2000)
considerando as mulheres representa uma ação concreta de renovação, visto
que as mulheres são uma das vozes ausentes na filosofia.
No livro “Mulher e Filosofia no pensamento ibero-americano: momentos
de uma relação difícil” Raúl Fornet-Betancourt explicita com precisão o problema
do androcentrismo na história do pensamento filosófico ibero-americano e, ao
mesmo tempo, oferece perspectivas para sua reconstrução via transformação
da filosofia com e desde a experiência filosófica das mulheres:

“É fácil comprovar que até agora a mulher tem falado, diretamente,


muito pouco de si mesma. Os homens tem falado enormemente dela,
por necessidade de compensação, sem dúvida, mas, certa e
fatalmente, através de si mesmos: através da gratidão ou da decepção,
através do entusiasmo ou da amargura que esse anjo ou esse demônio
deixava em seu coração, em sua carne, em seu espírito. Pode-se
elogia-los por muitas coisas, mas nunca por uma profunda
imparcialidade em relação a este tema. Até agora, pois, escutamos
principalmente testemunhos da mulher, e testemunhos que a lei não
aceitaria, pois os qualificaria de suspeitos – testemunhos cujas
declarações são tendenciosas. A mulher, mesma, apenas pronunciou
algumas palavras. E é a mulher a quem lhe toca não apenas descobrir
este continente inexplorado que ela representa, senão falar do homem,
por sua vez, na qualidade de testemunha suspeita.” (OCAMPO,
Victoria apud Fornet, 2008, p. 7-8)
Essa relação que se pretende para uma nova filosofia

CONCLUSÃO
É importante pensar que o processo de aprendizagem nunca é um ponto final, sempre
é uma passagem que levar a um novo ponto inicial. Compreender assim que filosofia e
filosofar são o mesmo movimento e que reaprender a ensinar filosofia requer uma
relação diferente do que se tem com a história da filosofia. É necessário pensar uma
nova relação que permita repensar a filosofia não como um momento enclausurado no
passado mas em uma maneira relacional durante todo o tempo.

Referencial Bibliográfica
CRAMPANER, Sônia. Filosofia: Ensinar e aprender. São Paulo Livraria Saraiva,
2012
CERLETTI, Alejandro. O ensino de filosofia como problema filosófico, Belo
Horizonte editora autentica.
FORNET-BETANCOURT, Raúl. Transformación intercultural de la filosofia
latino-americana: ejercicios teóricos y práticos de la filosofía intercultural en el
contexto de la globalización. Desclée de Brouwer, 2001.
__________________________. La interculturalidad a prueba. Aachen: Revista
Concórdia, Band 43, 2006.
__________________________. Filosofar para nuestro tiempo en clave
intercultural. Wissenschaftsverlag Mainz, Aachen, 2004.
_________________________. Mulher e Filosofia no pensamento ibero-
americano: momentos de uma relação difícil. São Leopoldo: Oikos/Nova
Harmonia, 2008.

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