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A Teoria Geral do Negócio Jurídico.

Noções Gerais
O homem, por natureza, tende a se organizar em sociedade. O ser humano, em regra,
desenvolve suas primeiras habilidades de convívio no seio da família e, no decorrer de
sua existência, os círculos sociais em que ele se desenvolve crescem de tal modo que a
sociedade passa a influenciar sua formação. Quanto mais o indivíduo se insere em
grupos sociais, como escolas, igrejas, clubes, grupo de amigos, mais as normas de
conduta social conduzem a sua personalidade de acordo com os padrões da sociedade.
Utilizando a expressão empregada por Pontes de Miranda em sua obra, o homem passa
por processos de adaptação social como, a Educação, o Direito, a Moral, a Política, a
Ciência, a Religião e etc. Tratam-se de ferramentas utilizadas pela comunidade para
transmitir a cada indivíduo todos os elementos que compõem a cultura daquela
sociedade. Contudo, em que pese o homem ter a capacidade de viver em sociedade, a
vida em comunidade depende da observância de “normas de conduta que tenham um
caráter obrigatório em decorrência do qual a sua impositividade ao homem seja
incondicional e independente da adesão das pessoas. Essas regras constituem as normas
jurídicas que, no seu conjunto, consubstanciam o direito”.
Assim, partindo do pressuposto que o Direito surge dos fatos, Marcos Bernardes de
Mello explica que: Na sua finalidade de ordenar a conduta humana obrigatória, o
direito valora os fatos e, através das normas jurídicas, erige à categoria de fato jurídico
aqueles que têm relevância para o relacionamento inter-humano. Explicamos. A vida é
uma sucessão permanente de fatos. Desde o nascimento até a morte, com todos
os atos que integram a vida, desde a estrela cadente que risca o céu ao vai-e-vem da
onda do mar, tudo o que nos cerca, física ou psiquicamente, são fatos. Segundo Pontes
de Miranda, o fato passa a ser considerado jurídico quando a situação prevista na norma,
de forma abstrata, acontece no mundo jurídico5; tem-se aí a “incidência” da norma
jurídica. A incidência é o resultado produzido pela norma jurídica ao transformar
em fato jurídico o suporte fático que o direito considerou relevante para ingressar no
mundo jurídico.
Pontes de Miranda define suporte fático como sendo o fato ou conjunto de fatos
previstos em abstrato na norma. Para o autor, o conceito de suporte fático aplica-se a
todos os ramos do Direito; é de aplicação universal na Ciência Jurídica. Tanto é verdade
que essa expressão aparece em diferentes áreas do direito, mas por outras
designações, tais como pressuposto de incidência, tipificação legal,tipo legal, hipótese
de incidência.
Deste modo, a compreensão dos conceitos de fato, ato e negócio jurídico é fundamental
para entender as relações jurídicas. Essas concepções são relevantes para o Direito Civil
e para a Teoria Geral do Direito, mas, sem sombra de dúvida, repercutem em todos os
ramos do Direito.
Inicialmente, é interessante conhecer o conceito de fato. Fato pode ser compreendido
como qualquer acontecimento que tenha ou não relevância para o mundo jurídico. Por
conseguinte, o mundo dos fatos divide-se em: fatos não jurídicos, que não são
relevantes como objeto de estudo; e fatos jurídicos, que são eventos que produzem
efeitos na esfera jurídica.
Os fatos jurídicos, por sua vez, são subdivididos em: fatos naturais e fatos humanos.
O fato jurídico natural ou fato jurídico stricto sensu é aquele que independe de atuação
humana e pode ser classificado da seguinte forma:
i) Fato jurídico natural ordinário - são os eventos comuns e previsíveis de acontecer, tais
como, a morte, o nascimento e o decurso de prazo;
ii) Fato jurídico natural extraordinário - são os eventos decorrentes da natureza, como o
caso fortuito e a força maior.
Já o fato jurídico humano, também conhecido como fato jurígeno, se caracteriza pela
presença da vontade humana (=elemento volitivo) e compreende os atos lícitos e os
ilícitos. Assim, pode ser classificado em:
i) Ato jurídico em sentido amplo ou ato jurídico lato sensu – o conceito será tratado no
próximo parágrafo;
A conceituação de caso fortuito e força maior não é uníssona na doutrina e na
jurisprudência, há aqueles que defendem uma diferenciação quanto à inevitabilidade e à
irresistibilidade do evento, e outros que sustentam a equivalência destes conceitos.
ii) Ato ilícito - é a conduta voluntária ou involuntária praticada em desacordo com a
ordem jurídica. O ilícito pode ser penal, administrativo ou civil e, de acordo com o art.
935 do CC, essas três esferas são independentes entre si. O ato jurídico lato sensu
também pode ser subclassificado em:
i) Ato jurídico em sentido estrito (ou ato jurídico stricto sensu) – os atos, que
manifestam ou declaram vontade humana, tornam-se atos jurídicos quando sofrem a
incidência da norma que os prescreve. Os efeitos da manifestação de vontade são
predeterminados pela lei. Ex.: reconhecimento de um filho, pagamento de uma
obrigação, ocupação de um imóvel.
ii) Negócio jurídico – fato jurídico cujo elemento nuclear do suporte fático consiste em
manifestação ou declaração consciente de vontade, em relação à qual o sistema jurídico
faculta às pessoas, dentro de limites predeterminados e de amplitude vária, o poder de
escolha de categoria jurídica e de estruturação do conteúdo eficacial das relações
jurídicas respectivas, quanto ao seu surgimento, permanência e intensidade no mundo
jurídico.
Alguns doutrinadores defendem, ainda, a figura do ato-fato jurídico, que depende de um
ato humano para existir, mas a norma jurídica abstrai desse ato qualquer elemento
volitivo como relevante.
Para facilitar a compreensão da matéria vejamos os conceitos analisados no esquema a
seguir:

Aprofundando o tema em relação ao negócio jurídico, verifica-se que todos os


contratos, sem exceção, constituem um negócio jurídico.
O Código Civil não conceitua tanto o ato jurídico stricto sensu quanto o negócio
jurídico, tratando apenas dos seus elementos estruturais (art. 104 do CC).

Doutrinariamente classifica-se o negócio jurídico:


I) Quanto às manifestações de vontade dos envolvidos
- Negócios jurídicos unilaterais;
- Negócios jurídicos bilaterais;
- Negócios jurídicos plurilaterais.
II) Quanto às vantagens patrimoniais para os envolvidos
- Negócios jurídicos gratuitos;
- Negócios jurídicos onerosos;
- Negócios jurídicos neutros;
- Negócios jurídicos bifrontes.
III) Quanto aos efeitos, no aspecto temporal
- Negócios jurídicos inter vivos;
- Negócios jurídicos mortis causa.
IV) Quanto à necessidade ou não de solenidades e formalidades
- Negócios jurídicos formais ou solenes;
- Negócios jurídicos informais ou não solenes.
V) Quanto à independência ou autonomia
- Negócios jurídicos principais ou independentes;
- Negócios jurídicos acessórios ou dependentes.
VI) Quanto às condições pessoais especiais dos negociantes
- Negócios jurídicos impessoais;
- Negócios jurídicos personalíssimos ou intuitu
personae.
VII) Quanto à sua causa determinante
- Negócios jurídicos causais ou materiais;
- Negócios jurídicos abstratos ou formais.
VIII) Quanto à extensão dos efeitos
- Negócios jurídicos constitutivos;
- Negócios jurídicos declarativos.

Por seu turno, os elementos constitutivos do negócio jurídico são estudados e


concebidos a partir da teoria desenvolvida por Hans Kelsen e difundida no Brasil pelo
jurista Pontes de Miranda, denominada Escada Ponteana ou Escada Pontiana.
Segundo essa teoria o mundo jurídico divide-se em três planos: existência,
validade e eficácia. Assim, o fato jurídico passa por diferentes planos:
Primeiramente, o fato jurídico tem existência (plano ontológico, ganhando uma
estruturação básica e elementar); em seguida, ganha validade (quando se conformar
com a ordem jurídica vigente, atendendo aos elementos exigidos pelo sistema jurídico);
e finalmente, sendo existente e válido, o fato jurídico, naturalmente, produzirá efeitos
jurídicos (admitindo-se, porém, que essa eficácia, produzida, de ordinário,
automaticamente, possa ser controlada pelos interessados).
Depreende-se desse entendimento que o fato jurídico pode:
a) existir, ser válido e eficaz (contrato de compra e venda celebrado com outorga do
cônjuge, entre maiores e capazes);
b) existir, ser válido, mas ineficaz (testamento realizado por pessoa maior e capaz, antes
de sua morte);
c) existir, ser inválido, porém eficaz (como no exemplo do casamento putativo);
d) existir, ser inválido e ineficaz (doação realizada por pessoa absolutamente incapaz,
pessoalmente);
e) existir e ser eficaz (nascimento com vida).
Finalmente, o plano da existência compreende todos os fatos jurídicos em
sentido lato (fatos jurídicos stricto sensu, os atos jurídicos, os negócios jurídicos, os atos
ilícitos e os atos-fatos). O fato existe juridicamente quando composto o suporte fático,
com a incidência da norma. O plano da validade restringe-se aos atos jurídicos lato
sensu (=exteriorização de vontade consciente consiste no núcleo do suporte fático do
ato jurídico lato sensu). Por fim, o plano da eficácia engloba os fatos jurídicos
existentes no mundo jurídico e aptos a produzir os seus efeitos típicos.
Convém mencionar que o fato jurídico lato sensu pode criar, modificar,
substituir ou extinguir relações jurídicas, podendo produzir, portanto, os seguintes
efeitos: aquisição de direitos, modificação de direitos, defesa dos direitos e extinção dos
direitos.