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024 Rua Dr.

Francisco Sá

MANUAL Carneiro, n.º 635


4990 –Ponte de Lima
Tel/Fax: +351258941289
PREVIFORM – Laboratório, E-mail:
Formação, Higiene e Segurança do previform.lda@gmail.com
Trabalho, Lda.

Código:
Designação do Curso: Direito social
Acão Nº: 1
3.03. Formações Modulares para DLD Local de
Tip. de Intervenção: Ponte lima
POISE-03-4231-FSE-001516 Realização:
Nome do/a formador/a Sandra Campos
Nº Horas: 25 Data Início: 25/02/2019 Data Fim: 15-03-2019

[Escreva texto]
Código IMP/DF/47

Edição 01

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Introdução
Quando pensamos em direitos fundamentais, há que colocar o marco na data de
1776, com a Declaração de Direitos do Estado da Virgínia, e em 1789, com a
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Eles representam a viragem na
história humana que nos permite hoje discutir e distinguir direitos fundamentais. No
nosso caso, toda a matriz europeia de construção da dignidade humana partiu desse
ponto e assim abre o artigo 1.º da Constituição da República Portuguesa (CRP). Todos
os desenvolvimentos, bem como os que discutimos aqui hoje, daí resultam.

A temática que se coloca de ponderação sobre os direitos sociais promove a sua


análise tal como são consagrados pela Constituição da República Portuguesa, mas
também convida à leitura dos textos de proteção de direitos fundamentais de origem
europeia e especificamente os da União Europeia.

Os direitos sociais são verdadeiros direitos fundamentais, eventualmente com a


necessidade de reafirmação, quando colocados perante a posição dos direitos, liberdades
e garantias, mas, ainda assim, verdadeiros direitos fundamentais, porque consagrados no
texto constitucional. Essa preocupação foi sublinhada também pelo direito da União
Europeia.
 Objetivos Gerais

 Reconhecer os direitos do Homem como direitos, liberdade e garantias


fundamentais;

 Identificar algumas funções sociais do Estado Português;

 Analisar os obstáculos que limitam a concretização dos direitos sociais em


diferentes áreas;

 Reconhecer a importância da existência de instituições internacionais de


solidariedade social como a Amnistia Internacional, a UNICEF, a AMI, a Cruz
Vermelha, entre outros.

 Objetivos Específicos
 Direitos sociais;
 As funções sociais do Estado;
 Instituições internacionais de solidariedade social;
 A cidadania;
 Limitações ao exercício dos direitos sociais.

 Benefícios e condições de utilização

Com a utilização do manual pretende-se que os formandos possibilitam:

 Reconhecer os direitos do Homem como direitos, liberdade e garantias


fundamentais;

 Identificar algumas funções sociais do Estado Português;

 Analisar os obstáculos que limitam a concretização dos direitos sociais em


diferentes áreas;

 Reconhecer a importância da existência de instituições internacionais de


solidariedade social como a Amnistia Internacional, a UNICEF, a AMI, a Cruz
Vermelha, entre outros.
1. DIREITOS SOCIAIS
CONCEITO

A Revolução Industrial é um evento marcante não só para o avanço da


tecnologia e consolidação do capitalismo, mas também para o surgimento de direitos
dos cidadãos. O grande impacto das alterações que proporcionou ao mundo e a
substituição de trabalhadores por máquinas gerou uma onda de desemprego, o que
deixou grande parte da mão-de-obra desocupada. Essa onda de desemprego que se
formou ao longo do processo resultou em um grande número de indivíduos a viver no
limiar da pobreza. Por outro lado, a parte extremamente beneficiada pela Revolução
Industrial vivia em condições radicalmente diferenciadas, ou seja, houve uma
intensificação da desigualdade social.

O Estado deparou-se com uma situação preocupante, o volumoso número de


pessoas na pobreza. Esses indivíduos deixavam, inclusive, de incluir o exército de mão-
de-obra capitalista que, para o funcionamento do sistema, é necessário que esteja
desempregado. Como essas pessoas estavam abaixo da condição mínima de sustentar o
sistema, a situação gerou uma grande agitação social.

Para contornar esse problema na sociedade, o pauperismo, o Estado precisou de


intervir e proporcionar proteção mínima aos trabalhadores, garantindo que eles tivessem
condições de, pelo menos, integrar o sistema. A oferta e a prática de serviços que
garantissem a Segurança Social como esta é conhecida nos dias de hoje, apenas surgiu
mais tarde.

O sociólogo alemão T. H. Marshall argumenta que, na Europa Ocidental, houve


uma conquista gradual e consecutiva de direitos. O primeiro deles teria sido o Direito
Civil, conquista do século XVIII. O Direito Político teria sido o próximo, pertinente ao
século XIX. E o Direito Social teria sido o último deles a ser alcançado, durante o
século XX. O somatório destas três conquistas (Direitos Civil, Político e Social)
resultaria no que consideramos como Cidadania.

O Direito Social, de fato, é fortemente relacionado com o século XX muito em


função dos impactos do marxismo e do socialismo. Essas correntes ideológicas
incentivaram movimentos sociais no mundo ocidental criando um cenário no qual os
trabalhadores buscavam direitos questionando da divisão do trabalho e do capital. O
Estado reagiu ao chamado movimento operário do século XX oferecendo proteção
social mas, estudos atuais demonstram que a população, antes disso, já se organizava
autonomamente em associações para o preenchimento de tais lacunas.

Foi prática muito comum nas décadas finais do século XIX e na primeira metade
do século XX a participação dos trabalhadores em associações de caráter mutualista, as
quais eram provedoras de certas garantias sociais num cenário deficiente de políticas
públicas por parte do Estado. As mutuais proporcionavam, em geral, assistência em caso
de doenças, acidentes, reforma e falecimento, concedendo, neste caso, pensão à família,
além de educação, amparo jurídico e ambientes de lazer. Sendo assim, tais instituições
eram provedoras de elementos que viriam a fazer parte dos Direitos Sociais que o
Estado tentaria garantir. Não só o movimento operário tido como de resistência, ou seja,
o sindicalismo, mas o movimento mais ameno, que é o mutualismo, influenciaram para
que o poder público assumisse uma posição mais presente no que diz respeito à
concessão de Direitos Sociais.

Os Direitos Sociais são uma grande conquista dos trabalhadores no século XX,
que, embora tenham repercutido com mais notoriedade em tal momento, fazem parte de
um processo de longo prazo e que exige alto investimento. Para proporcionar uma vida
digna ao cidadão ou, como diz T. H. Marshall, permitir que ele tenha uma vida de ser
civilizado, o Estado deve garantir o direito à vida, o direito à igualdade, o direito à
educação, o direito de imigração e emigração e o direito de associação. A atual
Constituição Brasileira, de 1988, por exemplo, estabelece que são Direitos Sociais o
acesso à educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, lazer, segurança, previdência
social e a proteção à maternidade, à infância e aos desamparados.

Inspirados em postulados de justiça, os direitos constituem a ordem institucional


à qual compete regular os comportamentos humanos em sociedade. Os Direitos Sociais
tratam-se portanto de um conjunto de regulamentações que permitem resolver os
conflitos sociais. O direito pode ser divido em vários ramos e nesse sentido, deve
distinguir-se primeiramente o que é direito público (quando o Estado, e quanto
autoridade, intervém com as suas faculdades coercitivas) e o que é direito privado (as
relações jurídicas são estabelecidas entre particulares).

O ramo do direito social nasce no direito público com base nas modificações nos
modos de vida e o seu principal objetivo consiste em ordenar e corrigir potenciais
desigualdades que possam surgir entre as classes sociais, com vista a proteger as
pessoas perante distintas questões que decorrem no dia-a-dia. O Direito Social, por sua
vez, compreende outros ramos, nomeadamente o direito laboral, o direito à segurança
social, o direito migratório e o direito agrário.

A Constituição da República Portuguesa define que, em Portugal, os direitos


sociais englobam as seguintes particularidades: segurança social e solidariedade, saúde,
habitação e urbanismo, ambiente e qualidade de vida, família, paternidade e
maternidade, infância, juventude, cidadãos portadores de deficiência, e terceira idade.
1.2. DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS

As ideias e valores dos direitos humanos podem ser traçadas através da história
antiga e das crenças religiosas e culturais ao redor do mundo. O primeiro registro de
uma declaração dos direitos humanos foi o cilindro de Ciro, escrito por Ciro, o grande,
rei da Pérsia, por volta de 539 a.C. Filósofos europeus da época do Iluminismo
desenvolveram teorias da lei natural que influenciaram a adoção de documentos como a
Declaração de Direitos de 1689 da Inglaterra, a Declaração dos Direitos do Homem e
do Cidadão de 1789 da França e a Carta de Direitos de 1791 dos Estados Unidos.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os aliados adotaram as Quatro Liberdades:


liberdade da palavra e da livre expressão, liberdade de religião, liberdade por
necessidades e liberdade de viver livre do medo. A Carta das Nações Unidas reafirmou
a fé nos direitos humanos, na dignidade e nos valores humanos das pessoas e convocou
a todos seus estados-membros a promover respeito universal e observância dos direitos
humanos e liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou
religião.

Quando as atrocidades cometidas pela Alemanha nazista se tornaram conhecidas


depois da Segunda Guerra, o consenso entre a comunidade mundial era de que a Carta
das Nações Unidas não tinha definido suficientemente os direitos a que se referia. Uma
declaração universal que especificasse os direitos individuais era necessária para dar
efeito aos direitos humanos.

O canadense John Peters Humphrey foi chamado pelo secretário-geral da


Nações Unidas para trabalhar no projeto da declaração. Naquela época, Humphrey
havia sido recém-indicado como diretor da divisão de direitos humanos dentro do
secretariado das Nações Unidas. A comissão dos direitos humanos, um braço das
Nações Unidas, foi constituída para empreender o trabalho de preparar o que era
inicialmente concebido como Carta de Direitos.

Membros de vários países foram designados para representar a comunidade


global: Austrália, Bélgica, República Socialista Soviética da Bielorrússia, Chile, China,
Cuba, Egito, França, Índia, Irão, Líbano, Panamá, Filipinas, Reino Unido, Estados
Unidos da América, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, Uruguai e Jugoslávia.
Membros conhecidos incluíam Eleanor Roosevelt dos Estados Unidos (esposa de
Franklin D. Roosevelt), Jacques Maritain e René Cassin da França, Charles Malik do
Líbano e P. C. Chang da China, entre outros. Humphrey forneceu o esboço inicial que
se tornou o texto de trabalho da comissão.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem é uma carta de princípios


onde se estabelecem e defendem quais os direitos do indivíduo que são inalienáveis.
Esta declaração, proclamada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas
a 10 de dezembro de 1948, é o resultado direto do conhecimento das atrocidades
cometidas durante a 2ª Guerra Mundial, especialmente, pelos nazis.

Neste documento são enunciados os direitos considerados fundamentais para a


vida do ser humano. São referidos os direitos individuais e coletivos, sem discriminação
de raça, género ou nacionalidade. A declaração não é sobrescrita por todos os países da
Organização das Nações Unidas, que todos os anos apresente uma lista de denúncias e
violações cometidas tanto por países subscritores como não-subscritores.

Preâmbulo

Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros


da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da
liberdade, da justiça e da paz no mundo;

Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos do homem


conduziram a atos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o
advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos
do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração do homem;

Considerando que tão essencial a proteção dos direitos do homem através de um


regime de direito, para que o homem não seja compelido, em supremo recurso. A
revolta contra a tirania e a opressão;
Considerando que é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amistosas
entre as nações;

Considerando que, na Carta, os povos das Nações Unidas proclamam, de novo, a


sua fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor da pessoa humana,
na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e se declararam resolvidos a
favorecer o progresso social e a instaurar melhores condições de vida dentro de uma
liberdade mais ampla;

Considerando que os Estados membros se comprometeram a promover, em


cooperação com a Organização das Nações Unidas, o respeito universal e efetivo dos
direitos do homem e das liberdades fundamentais;

Considerando que uma compreensão comum destes direitos e liberdades é da


mais alta importância para dar plena satisfação a tal compromisso:

A Assembleia Geral

Proclama a presente Declaração Universal dos Direitos do Homem como ideal


comum a atingir por todos os povos e todas as nações, a fim de que todos os indivíduos
e todos os órgãos da sociedade, tendo-a constantemente no espírito, se esforcem, pelo
ensino e pela educação, por desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por
promover, por medidas progressivas de ordem nacional e internacional, o seu
reconhecimento e a sua aplicação universais e efetivas tanto entre as populações dos
próprios Estados membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição.

Artigo 1

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São


dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de
fraternidade.
Artigo 2

1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades


estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor,
sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social,
riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.

2. Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica
ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um
território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra
limitação de soberania.

Artigo 3

Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Artigo 4

Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de


escravos serão proibidos em todas as suas formas.

Artigo 5

Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano


ou degradante.
Artigo 6

Todo ser humano tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como
pessoa perante a lei.

Artigo 7

Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual
proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que
viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.

Artigo 8

Todo ser humano tem direito a receber dos tribunais nacionais competentes
remédio efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais que lhe sejam
reconhecidos pela constituição ou pela lei.

Artigo 9

Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado.

Artigo 10

Todo ser humano tem direito, em plena igualdade, a uma justa e pública
audiência por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir seus direitos e
deveres ou fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.
Artigo 11

1. Todo ser humano acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido
inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em
julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à
sua defesa.

2. Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento,
não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Também não será
imposta pena mais forte de que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato
delituoso.

Artigo 12

Ninguém será sujeito à interferência na sua vida privada, na sua família, no seu
lar ou na sua correspondência, nem a ataque à sua honra e reputação. Todo ser humano
tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.

Artigo 13

1. Todo ser humano tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das
fronteiras de cada Estado.

2. Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio e a
esse regressar.

Artigo 14

1. Todo ser humano, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar


asilo em outros países.
Manual de Direito Social
2. Esse direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente
motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos objetivos e princípios
das Nações Unidas.

Artigo 15

1. Todo ser humano tem direito a uma nacionalidade.

2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade, nem do direito de


mudar de nacionalidade.

Artigo 16

1. Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça,


nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família.
Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução.

2. O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos
nubentes.

3. A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção


da sociedade e do Estado.

Artigo 17

1. Todo ser humano tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros.

2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade.


Artigo 18

Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião;


esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar
essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto em público ou em particular.

Artigo 19

Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; esse direito
inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir
informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

Artigo 20

1. Todo ser humano tem direito à liberdade de reunião e associação pacífica.

2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.

Artigo 21

1. Todo ser humano tem o direito de tomar parte no governo de seu país
diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos.

2. Todo ser humano tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país.

3. A vontade do povo será a base da autoridade do governo; essa vontade será


expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou
processo equivalente que assegure a liberdade de voto.
Artigo 22

Todo ser humano, como membro da sociedade, tem direito à segurança social, à
realização pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a
organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais
indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.

Artigo 23

1. Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a


condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.

2. Todo ser humano, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por
igual trabalho.

3. Todo ser humano que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória
que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade
humana e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.

4. Todo ser humano tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para
proteção de seus interesses.

Artigo 24

Todo ser humano tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável
das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas.
Artigo 25

1. Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua
família saúde, bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos
e os serviços sociais indispensáveis e direito à segurança em caso de desemprego,
doença invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência
em circunstâncias fora de seu controle.

2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas


as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mesma proteção social.

Artigo 26

1. Todo ser humano tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos
nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A
instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior,
esta baseada no mérito.

2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da


personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos do ser humano e
pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a
amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos e coadjuvará as atividades
das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.

3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será


ministrada a seus filhos.

Manual de Direito Social


Artigo 27

1. Todo ser humano tem o direito de participar livremente da vida cultural da


comunidade, de fruir as artes e de participar do progresso científico e de seus
benefícios.

2. Todo ser humano tem direito à proteção dos interesses morais e materiais
decorrentes de qualquer produção científica literária ou artística da qual seja autor.

Artigo 28

Todo ser humano tem direito a uma ordem social e internacional em que os
direitos e liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente
realizados.

Artigo 29

1. Todo ser humano tem deveres para com a comunidade, na qual o livre e pleno
desenvolvimento de sua personalidade é possível.

2. No exercício de seus direitos e liberdades, todo ser humano estará sujeito apenas
às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido
reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer as justas
exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.

3. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos


contrariamente aos objetivos e princípios das Nações Unidas.

Manual de Direito Social


Artigo 30

Nenhuma disposição da presente Declaração poder ser interpretada como o


reconhecimento a qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer
atividade ou praticar qualquer ato destinado à destruição de quaisquer dos direitos e
liberdades aqui estabelecidos.

3. DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DA CRIANÇA

A Declaração Universal dos Direitos da Criança foi proclamada pela Resolução


da Assembleia Geral de 20 de novembro de 1959. Tem como base e fundamento os
direitos à liberdade, educação, brincar e convívio social das crianças que devem ser
respeitadas e preconizadas em dez princípios estabelecidos por esta declaração. Em
suma, a Declaração Universal dos Direitos da Criança assenta nos seguintes princípios:

 Todas as crianças têm o direito à vida e à liberdade;

 Todas as crianças devem ser protegidas da violência doméstica;

 Todas as crianças são iguais e têm os mesmos direitos, não importa a sua
cor, raça, sexo, religião, origem social ou nacionalidade;

 Todas as crianças devem ser protegidas pela família e sociedade;

 Todas as crianças têm direito a uma nacionalidade;

 Todas as crianças têm direito a alimentação e ao atendimento médico;

Manual de Direito Social


 As crianças portadoras de dificuldades especiais, físicas ou mentais, têm
o direito a educação e cuidados especiais;

 Todas as crianças têm direito ao amor e à compreensão dos pais e


sociedade;

 Todas as crianças têm direito à educação;

 Todas as crianças têm direito de não serem violentadas verbalmente ou


serem agredidas pela sociedade.

Preâmbulo

Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, a sua fé


nos direitos fundamentais, na dignidade do homem e no valor da pessoa humana e que
resolveram favorecer o progresso social e instaurar melhores condições de vida numa
liberdade mais ampla;

Considerando que as Nações Unidas, na Declaração dos Direitos do Homem,


proclamaram que todos gozam dos direitos e liberdades nela estabelecidas, sem
discriminação alguma, de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou outra,
origem nacional ou social, fortuna ou outra situação;

Considerando que a criança, por motivo da sua falta de maturidade física e


intelectual, tem necessidade uma proteção e cuidados especiais, nomeadamente de
proteção jurídica adequada, tanto antes como depois do nascimento;

Considerando que a necessidade de tal proteção foi proclamada na Declaração


de Genebra dos Direitos da Criança de 1924 e reconhecida na Declaração Universal dos
Direitos do Homem e nos estatutos de organismos especializados e organizações
internacionais preocupadas com o bem-estar das crianças;

Manual de Direito Social


Considerando que a Humanidade deve à criança o melhor que tem para dar,

A Assembleia Geral

Proclama esta Declaração dos Direitos da Criança com vista a uma infância feliz
e ao gozo, para bem da criança e da sociedade, dos direitos e liberdades aqui
estabelecidos e com vista a chamar a atenção dos pais, enquanto homens e mulheres,
das organizações voluntárias, autoridades locais e Governos nacionais, para o
reconhecimento dos direitos e para a necessidade de se empenharem na respetiva
aplicação através de medidas legislativas ou outras progressivamente tomadas de acordo
com os seguintes princípios:

Princípio 1.º

A criança gozará dos direitos enunciados nesta Declaração. Estes direitos serão
reconhecidos a todas as crianças sem discriminação alguma, independentemente de
qualquer consideração de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou outra da
criança, ou da sua família, da sua origem nacional ou social, fortuna, nascimento ou de
qualquer outra situação.

Princípio 2.º

A criança gozará de uma proteção especial e beneficiará de oportunidades e


serviços dispensados pela lei e outros meios, para que possa desenvolver-se física,
intelectual, moral, espiritual e socialmente de forma saudável e normal, assim como em
condições de liberdade e dignidade. Ao promulgar leis com este fim, a consideração
fundamental a que se atenderá será o interesse superior da criança.

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Princípio 3.º

A criança tem direito desde o nascimento a um nome e a uma nacionalidade.

Princípio 4.º

A criança deve beneficiar da segurança social. Tem direito a crescer e a


desenvolver-se com boa saúde; para este fim, deverão proporcionar-se quer à criança
quer à sua mãe cuidados especiais, designadamente, tratamento pré e pós-natal. A
criança tem direito a uma adequada alimentação, habitação, recreio e cuidados médicos.

Princípio 5.º

A criança mental e fisicamente deficiente ou que sofra de alguma diminuição


social, deve beneficiar de tratamento, da educação e dos cuidados especiais requeridos
pela sua particular condição.

Princípio 6.º

A criança precisa de amor e compreensão para o pleno e harmonioso


desenvolvimento da sua personalidade. Na medida do possível, deverá crescer com os
cuidados e sob a responsabilidade dos seus pais e, em qualquer caso, num ambiente de
afeto e segurança moral e material; salvo em circunstâncias excecionais, a criança de
tenra idade não deve ser separada da sua mãe. A sociedade e as autoridades públicas
têm o dever de cuidar especialmente das crianças sem família e das que careçam de
meios de subsistência. Para a manutenção dos filhos de famílias numerosas é
conveniente a atribuição de subsídios estatais ou outra assistência.

Manual de Direito Social


Princípio 7.º

A criança tem direito à educação, que deve ser gratuita e obrigatória, pelo menos
nos graus elementares. Deve ser-lhe ministrada uma educação que promova a sua
cultura e lhe permita, em condições de igualdade de oportunidades, desenvolver as suas
aptidões mentais, o seu sentido de responsabilidade moral e social e tornar-se um
membro útil à sociedade. O interesse superior da criança deve ser o princípio diretivo de
quem tem a responsabilidade da sua educação e orientação, responsabilidade essa que
cabe, em primeiro lugar, aos seus pais.

A criança deve ter plena oportunidade para brincar e para se dedicar a atividades
recreativas, que devem ser orientados para os mesmos objetivos da educação; a
sociedade e as autoridades públicas deverão esforçar-se por promover o gozo destes
direitos.

Princípio 8.º

A criança deve, em todas as circunstâncias, ser das primeiras a beneficiar de


proteção e socorro.

Princípio 9.º

A criança deve ser protegida contra todas as formas de abandono, crueldade e


exploração, e não deverá ser objeto de qualquer tipo de tráfico. A criança não deverá ser
admitida ao emprego antes de uma idade mínima adequada, e em caso algum será
permitido que se dedique a uma ocupação ou emprego que possa prejudicar a sua saúde
e impedir o seu desenvolvimento físico, mental e moral.

Manual de Direito Social


Princípio 10.º

A criança deve ser protegida contra as práticas que possam fomentar a


discriminação racial, religiosa ou de qualquer outra natureza. Deve ser educada num
espírito de compreensão, tolerância, amizade entre os povos, paz e fraternidade
universal, e com plena consciência de que deve devotar as suas energias e aptidões ao
serviço dos seus semelhantes.

1.4. CARTA SOCIAL EUROPEIA

Adotada em 1989, a Carta dos Direitos Sociais Fundamentais dos Trabalhadores,


mais conhecida por Carta Social Europeia, estabeleceu os princípios sobre os quais o
modelo de legislação de trabalho europeu se baseia e deu forma ao desenvolvimento do
modelo social europeu na década seguinte. Os direitos sociais fundamentais declarados
nesta Carta estão desenvolvidos na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia,
que se tornou juridicamente vinculativa com a ratificação do Tratado de Lisboa.

Nos termos da Carta Social Europeia, a Comunidade é obrigada a assegurar os


direitos sociais fundamentais dos trabalhadores, nas seguintes rubricas:
 Liberdade de circulação (artigos 1.º a 3.º)

 Emprego e remuneração (artigos 4.º a 6.º)

 Melhoria das condições de vida e de trabalho (artigos 7.º a 9.º)

 Proteção social (artigo 10.º)

 Liberdade de associação e negociação coletiva (artigos 11.º a 14.º)

 Formação profissional (artigo 15.º)

 Igualdade de tratamento entre homens e mulheres (artigo 16.º)

 Informação, consulta e participação dos trabalhadores (artigos 17.º e 18.º)

 Proteção da saúde e segurança no trabalho (artigo 19.º)

 Proteção de crianças e adolescentes (artigos 20 a 23.º)

 Idosos (artigos 24.º e 25.º)

 Pessoas com deficiência (artigo 26.º)

 Ações dos Estados-Membros (implementação) (artigos 27.º a 30.º).

A Carta Social Europeia foi subscrita por todos os Estados-Membros – com a


exceção do Reino Unido, que usou da sua cláusula de opting-out para ficar à margem
da assinatura inicial, acabando, no entanto, por subscrevê-la em 1998.

Em dezembro de 1991, foi assinado o Acordo Social que definiu os objetivos da


política social na via traçada pela Carta Social Europeia de 1989. Este acordo
estabelece ainda o procedimento de adoção de medidas no domínio da política social, e
confirma o papel primordial desempenhado pelos parceiros sociais neste domínio.
Para atingir os objetivos da Carta, a Comissão Europeia adotou um Programa
de Ação Social. Assim, apesar do seu carácter meramente declaratório, e da oposição
do governo do Reino Unido, a Carta foi fundamental no lançamento de iniciativas de
política de emprego e relações laborais, que produziu uma série de diretivas na década
de 1990.

Entre elas estão a diretiva de 1992 sobre gravidez e maternidade, a diretiva de


1993 relativa ao tempo de trabalho, a diretiva de 1994 acerca do Comité de Empresa
Europeu e as diretivas baseadas nos acordos-quadro sobre a licença parental, a tempo
parcial e trabalho a termo. A Carta antecipou muitos dos direitos fundamentais
individuais da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, adotada em Nice,
em dezembro de 2000.

O preâmbulo do Tratado da União Europeia confirma a ligação dos Estados-


Membros aos direitos sociais fundamentais, tal como definido na Carta Social
Europeia, do seguinte modo: «Confirmando o seu apego aos direitos sociais
fundamentais, tal como definidos na Carta Social Europeia, assinada em Turim, em 18
de outubro de 1961, e na Carta Comunitária dos Direitos Sociais Fundamentais dos
Trabalhadores, de 1989 […].»

Por outro lado, no artigo 151.º (ex-artigo 136.º do TCE) do Título X,


denominado por Política Social, do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia
(TFUE), lê-se que: "A União e os Estados-Membros, tendo presentes os direitos sociais
fundamentais, tal como os enunciam a Carta Social Europeia, assinada em Turim, em
18 de outubro de 1961, e a Carta Comunitária dos Direitos Sociais Fundamentais dos
Trabalhadores, de 1989, terão por objetivos a promoção do emprego, a melhoria das
condições de vida e de trabalho, de modo a permitir a sua harmonização, assegurando
simultaneamente essa melhoria, uma proteção social adequada, o diálogo entre
parceiros sociais, o desenvolvimento dos recursos humanos, tendo em vista um nível de
emprego elevado e duradouro, e a luta contra as exclusões”.

Como tal, a Carta Social Europeia pode ser utilizada pelo Tribunal de Justiça
Europeu como um guia interpretativo em litígios relacionados com os direitos sociais e
laborais. Esses litígios podem assumir a forma de ações legais por meio de referências
dos tribunais nacionais, de acordo com o artigo 267.º do TFUE (que corresponde ao ex-
artigo 234.º do TCE), desafiando os Estados-Membros em matéria de aplicação do
direito da União, que poderia violar os direitos sociais fundamentais dos trabalhadores
previstos na Carta.

Esta Carta Social Europeia da UE não deve confundir-se com a Carta Social
Europeia do Conselho da Europa, que foi aberta à assinatura dos seus Estados em
Turim, em outubro de 1961, foi objeto de um Protocolo Adicional em 1988 e que,
novamente em Turim, foi objeto de uma nova versão revista em 21 e 22 de Outubro de
1991.

1.5. CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA

A Constituição da República Portuguesa de 1976 é a atual constituição


portuguesa. Foi redigida pela Assembleia Constituinte eleita na sequência das primeiras
eleições gerais livres no país em 25 de Abril de 1975, 1.º aniversário da Revolução dos
Cravos. Os seus deputados deram os trabalhos por concluídos em 2
de abril de 1976, data da sua aprovação, tendo a Constituição entrado em vigor a 25 de
Abril de 1976 - na sua origem, tinha forte pendor socializante, arrefecido porém nas
sucessivas revisões constitucionais que adequaram Portugal aos princípios da economia
de mercado vigentes no Velho Continente.

Até ao momento, a Constituição de 1976, é a mais longa constituição portuguesa


que alguma vez entrou em vigor, tendo mais de 32 000 palavras (na versão atual).
Estando há 40 anos em vigor e tendo recebido 7 revisões constitucionais (em 1982,
1989, 1992, 1997, 2001, 2004 e 2005), a Constituição de 1976 já sofreu mais revisões
constitucionais do que a Carta Constitucional de 1826, a constituição portuguesa que
mais tempo esteve em vigor: durante 72 anos (a qual, com cerca de 7 000 palavras na
versão original, recebeu somente 4 revisões).

Preâmbulo

A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa


resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou
o regime fascista.

Libertar Portugal da ditadura, da opressão e do colonialismo representou uma


transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade
portuguesa.

A Revolução restituiu aos Portugueses os direitos e liberdades fundamentais. No


exercício destes direitos e liberdades, os legítimos representantes do povo reúnem-se
para elaborar uma Constituição que corresponde às aspirações do país.

A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a


independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de
estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de
Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da
vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais
justo e mais fraterno.
A Assembleia Constituinte, reunida na sessão plenária de 2 de abril de 1976,
aprova e decreta a seguinte Constituição da República Portuguesa:

Princípios fundamentais

Artigo 1.º

República Portuguesa

Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e


na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.

Artigo 2.º

Estado de direito democrático

A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na


soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no
respeito e na garantia de efetivação dos direitos e liberdades fundamentais e na
separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia
económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa.

Artigo 3.º

Soberania e legalidade

1. A soberania, una e indivisível, reside no povo, que a exerce segundo as formas


previstas na Constituição.

2. O Estado subordina-se à Constituição e funda-se na legalidade democrática.

3. A validade das leis e dos demais atos do Estado, das regiões autónomas, do
poder local e de quaisquer outras entidades públicas depende da sua conformidade com
a Constituição.
Artigo 4.º

Cidadania portuguesa

São cidadãos portugueses todos aqueles que como tal sejam considerados pela
lei ou por convenção internacional.

Artigo 5.º

Território

1. Portugal abrange o território historicamente definido no continente europeu e os


arquipélagos dos Açores e da Madeira.

2. A lei define a extensão e o limite das águas territoriais, a zona económica


exclusiva e os direitos de Portugal aos fundos marinhos contíguos.

3. O Estado não aliena qualquer parte do território português ou dos direitos de


soberania que sobre ele exerce, sem prejuízo da retificação de fronteiras.

Artigo 6.º

Estado unitário

1. O Estado é unitário e respeita na sua organização e funcionamento o regime


autonómico insular e os princípios da subsidiariedade, da autonomia das autarquias
locais e da descentralização democrática da administração pública.

2. Os arquipélagos dos Açores e da Madeira constituem regiões autónomas dotadas


de estatutos político-administrativos e de órgãos de governo próprio.

Manual de Direito Social


Artigo 7.º

Relações internacionais

1. Portugal rege-se nas relações internacionais pelos princípios da independência


nacional, do respeito dos direitos do homem, dos direitos dos povos, da igualdade entre
os Estados, da solução pacífica dos conflitos internacionais, da não ingerência nos
assuntos internos dos outros Estados e da cooperação com todos os outros povos para a
emancipação e o progresso da humanidade.

2. Portugal preconiza a abolição do imperialismo, do colonialismo e de quaisquer


outras formas de agressão, domínio e exploração nas relações entre os povos, bem como
o desarmamento geral, simultâneo e controlado, a dissolução dos blocos político-
militares e o estabelecimento de um sistema de segurança coletiva, com vista à criação
de uma ordem internacional capaz de assegurar a paz e a justiça nas relações entre os
povos.

3. Portugal reconhece o direito dos povos à autodeterminação e independência e ao


desenvolvimento, bem como o direito à insurreição contra todas as formas de opressão.

4. Portugal mantém laços privilegiados de amizade e cooperação com os países de


língua portuguesa.

5. Portugal empenha-se no reforço da identidade europeia e no fortalecimento da


Acão dos Estados europeus a favor da democracia, da paz, do progresso económico e da
justiça nas relações entre os povos.

6. Portugal pode, em condições de reciprocidade, com respeito pelos princípios


fundamentais do Estado de direito democrático e pelo princípio da subsidiariedade e
tendo em vista a realização da coesão económica, social e territorial, de um espaço de
liberdade, segurança e justiça e a definição e execução de uma política externa, de
segurança e de defesa comuns, convencionar o exercício, em comum, em cooperação ou
pelas instituições da União, dos poderes necessários à construção e aprofundamento da
união europeia.

7. Portugal pode, tendo em vista a realização de uma justiça internacional que


promova o respeito pelos direitos da pessoa humana e dos povos, aceitar a jurisdição do
Tribunal Penal Internacional, nas condições de complementaridade e demais termos
estabelecidos no Estatuto de Roma.

Artigo 8.º

Direito internacional

1. As normas e os princípios de direito internacional geral ou comum fazem parte


integrante do direito português.

2. As normas constantes de convenções internacionais regularmente ratificadas ou


aprovadas vigoram na ordem interna após a sua publicação oficial e enquanto
vincularem internacionalmente o Estado Português.

3. As normas emanadas dos órgãos competentes das organizações internacionais de


que Portugal seja parte vigoram diretamente na ordem interna, desde que tal se encontre
estabelecido nos respetivos tratados constitutivos.

4. As disposições dos tratados que regem a União Europeia e as normas emanadas


das suas instituições, no exercício das respetivas competências, são aplicáveis na ordem
interna, nos termos definidos pelo direito da União, com respeito pelos princípios
fundamentais do Estado de direito democrático.

Artigo 9.º

Tarefas fundamentais do Estado

São tarefas fundamentais do Estado:


a) Garantir a independência nacional e criar as condições políticas, económicas,
sociais e culturais que a promovam;

b) Garantir os direitos e liberdades fundamentais e o respeito pelos princípios do


Estado de direito democrático;

c) Defender a democracia política, assegurar e incentivar a participação


democrática dos cidadãos na resolução dos problemas nacionais;

d) Promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os


portugueses, bem como a efetivação dos direitos económicos, sociais, culturais e
ambientais, mediante a transformação e modernização das estruturas económicas
e sociais;

e) Proteger e valorizar o património cultural do povo português, defender a


natureza e o ambiente, preservar os recursos naturais e assegurar um correto
ordenamento do território;

f) Assegurar o ensino e a valorização permanente, defender o uso e promover a


difusão internacional da língua portuguesa;

g) Promover o desenvolvimento harmonioso de todo o território nacional, tendo em


conta, designadamente, o carácter ultraperiférico dos arquipélagos dos Açores e
da Madeira;

h) Promover a igualdade entre homens e mulheres.

Artigo 10.º

Sufrágio universal e partidos políticos

1. O povo exerce o poder político através do sufrágio universal, igual, direto,


secreto e periódico, do referendo e das demais formas previstas na Constituição.

2. Os partidos políticos concorrem para a organização e para a expressão da


vontade popular, no respeito pelos princípios da independência nacional, da unidade do
Estado e da democracia política.
Artigo 11.º

Símbolos nacionais e língua oficial

1. A Bandeira Nacional, símbolo da soberania da República, da independência,


unidade e integridade de Portugal, é a adotada pela República instaurada pela
Revolução de 5 de outubro de 1910.

2. O Hino Nacional é A Portuguesa.

3. A língua oficial é o Português.

Além dos onze princípios fundamentais da Constituição da República


Portuguesa aqui apresentados, esta estende-se ainda pela seguinte estrutura:

Parte I – Direitos Deveres e Fundamentais

Título I – Princípios Gerais

Título II – Direitos, Liberdades e Garantias

Capítulo I – Direitos, Liberdades e Garantias Pessoais

Capítulo II – Direitos, Liberdades e Garantias de Participação


Política

Capítulo III – Direitos, Liberdades e Garantias dos Trabalhadores

Título III – Direitos e Deveres Económicos, Sociais e Culturais

Capítulo I – Direitos e Deveres Económicos

Capítulo II – Direitos e Deveres Sociais

Capítulo III – Direitos e Deveres Culturais

Parte II – Organização Económica

Título I – Princípios Gerais


Título II – Planos

Título III – Políticas Agrícola, Comercial e Industrial

Título IV – Sistema Financeiro e Fiscal

Parte III – Organização do Poder Político

Título I – Princípios Gerais

Título II – Presidente da República

Capítulo I – Estatuto e Eleição

Capítulo II – Competência

Capítulo III – Conselho de Estado

Título III – Assembleia da República

Capítulo I – Estatuto e Eleição

Capítulo II – Competência

Capítulo III – Organização e Funcionamento

Título IV – Governo

Capítulo I – Função e Estrutura

Capítulo II – Formação e Responsabilidade

Capítulo III – Competência

Título V – Tribunais

Capítulo I – Princípios Gerais

Capítulo II – Organização dos Tribunais

Capítulo III – Estatuto dos Juízes

Capítulo IV – Ministério Público

Título VI – Tribunal Constitucional


Título VII – Regiões Autónomas

Título VIII – Poder Local

Capítulo I – Princípios Gerais

Capítulo II – Freguesia

Capítulo III – Município

Capítulo IV – Região Administrativa

Capítulo V – Organização de Moradores

Título IX – Administração Pública

Título X – Defesa Nacional

Parte IV – Garantia e Revisão da Constituição


Título I – Fiscalização da Constitucionalidade

Título II – Revisão Constitucional

1.6. TIPOS DE DIREITOS SOCIAIS

Os Direitos Sociais apresentam um conjunto alargado de direitos que se


subdividem em três principais grupos: de carácter universal, das instituições e de
classes. No que concerne aos primeiros, Direitos Sociais de Carácter Universal, estes
1. Direito ao Trabalho

Artigo 58.º - Direito ao trabalho – CRP


1. Todos têm direito ao trabalho.
2. O dever de trabalhar é inseparável do direito ao trabalho, exceto para aqueles
que sofram diminuição de capacidade por razões de idade, doença ou invalidez.
3. Incumbe ao Estado, através da aplicação de planos de política económica e
social, garantir o direito ao trabalho, assegurando:

a) A execução de políticas de pleno emprego;


b) A igualdade de oportunidades na escolha da profissão ou género de
trabalho e condições para que não seja vedado ou limitado, em função do sexo, o
acesso a quaisquer cargos, trabalho ou categorias profissionais;
c) A formação cultural, técnica e profissional dos trabalhadores.

2. Direito à Educação

Artigo 73.º - Educação, cultura e ciência – CRP

1. Todos têm direito à educação e à cultura.

2. O Estado promove a democratização da educação e as demais condições para


que a educação, realizada através da escola e de outros meios formativos, contribua para
a igualdade de oportunidades, a superação das desigualdades económicas, sociais e
culturais, o desenvolvimento da personalidade e do espírito de tolerância, de
compreensão mútua, de solidariedade e de responsabilidade, para o progresso social e
para a participação democrática na vida coletiva.
Manual de Direito Social
3. O Estado promove a democratização da cultura, incentivando e assegurando o
acesso de todos os cidadãos à fruição e criação cultural, em colaboração com os órgãos
de comunicação social, as associações e fundações de fins culturais, as coletividades de
cultura e recreio, as associações de defesa do património cultural, as organizações de
moradores e outros agentes culturais.

4. A criação e a investigação científicas, bem como a inovação tecnológica, são


incentivadas e apoiadas pelo Estado, por forma a assegurar a respetiva liberdade e
autonomia, o reforço da competitividade e a articulação entre as instituições científicas
e as empresas.

Artigo 74.º - Ensino - CRP

1. Todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de


oportunidades de acesso e êxito escolar.

2. Na realização da política de ensino incumbe ao Estado:

a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito;

b) Criar um sistema público e desenvolver o sistema geral de educação pré-


escolar;

c) Garantir a educação permanente e eliminar o analfabetismo;

d) Garantir a todos os cidadãos, segundo as suas capacidades, o acesso aos graus


mais elevados do ensino, da investigação científica e da criação artística;

e) Estabelecer progressivamente a gratuitidade de todos os graus de ensino;

f) Inserir as escolas nas comunidades que servem e estabelecer a interligação do


ensino e das atividades económicas, sociais e culturais;

g) Promover e apoiar o acesso dos cidadãos portadores de deficiência ao ensino e


apoiar o ensino especial, quando necessário;
h) Proteger e valorizar a língua gestual portuguesa, enquanto expressão cultural
e instrumento de acesso à educação e da igualdade de oportunidades;

i) Assegurar aos filhos dos emigrantes o ensino da língua portuguesa e o acesso à


cultura portuguesa;

j) Assegurar aos filhos dos imigrantes apoio adequado para efetivação do direito
ao ensino.

3. Direito à Segurança Social

Artigo 63.º Segurança social e solidariedade - CRP

1. Todos têm direito à segurança social.

2. Incumbe ao Estado organizar, coordenar e subsidiar um sistema de segurança


social unificado e descentralizado, com a participação das associações sindicais, de
outras organizações representativas dos trabalhadores e de associações representativas
dos demais beneficiários.

3. O sistema de segurança social protege os cidadãos na doença, velhice, invalidez,


viuvez e orfandade, bem como no desemprego e em todas as outras situações de falta ou
diminuição de meios de subsistência ou de capacidade para o trabalho.

4. Todo o tempo de trabalho contribui, nos termos da lei, para o cálculo das
pensões de velhice e invalidez, independentemente do sector de atividade em que tiver
sido prestado.

5. O Estado apoia e fiscaliza, nos termos da lei, a atividade e o funcionamento das


instituições particulares de solidariedade social e de outras de reconhecido interesse
público sem carácter lucrativo, com vista à prossecução de objetivos de solidariedade
social consignados, nomeadamente, neste artigo, na alínea b) do n.º 2 do artigo 67.º, no
artigo 69.º, na alínea e) do n.º 1 do artigo 70.º e nos artigos 71.º e 72.º.
4. Direito à Proteção na Doença

Artigo 64.º - Saúde – CRP

1. Todos têm direito à proteção da saúde e o dever de a defender e promover.


2. O direito à proteção da saúde é realizado pela criação de um serviço nacional de
saúde universal, geral e gratuito, pela criação de condições económicas, sociais e
culturais que garantam a proteção da infância, da juventude e da velhice e pela
melhoria sistemática das condições de vida e de trabalho, bem como pela
promoção da cultura física e desportiva, escolar e popular e ainda pelo
desenvolvimento da educação sanitária do povo.
3. Para assegurar o direito à proteção da saúde, incumbe prioritariamente ao
Estado:

a) Garantir o acesso de todos os cidadãos, independentemente da sua


condição económica, aos cuidados da medicina preventiva, curativa e de
reabilitação;
b) Garantir uma racional e eficiente cobertura médica e hospitalar de todo
o país;
c) Orientar a sua ação para a socialização da medicina e dos sectores
médico-medicamentosos;
d) Disciplinar e controlar as formas empresariais e privadas da medicina,
articulando-as com o serviço nacional de saúde;
e) Disciplinar e controlar a produção, a comercialização e o uso dos
produtos químicos, biológicos e farmacêuticos e outros meios de tratamento e
diagnóstico.
5. Direito à Habitação

Artigo 65.º - Habitação e urbanismo - CRP

1. Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão
adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a
privacidade familiar.
2. Para assegurar o direito à habitação, incumbe ao Estado:

a) Programar e executar uma política de habitação inserida em planos de


ordenamento geral do território e apoiada em planos de urbanização que garantam a
existência de uma rede adequada de transportes e de equipamento social;
b) Promover, em colaboração com as autarquias locais, a construção de habitações
económicas e sociais;
c) Estimular a construção privada, com subordinação ao interesse geral, e o
acesso à habitação própria ou arrendada;
d) Incentivar e apoiar as iniciativas das comunidades locais e das populações,
tendentes a resolver os respetivos problemas habitacionais e a fomentar a criação de
cooperativas de habitação e a autoconstrução.
3.O Estado adotará uma política tendente a estabelecer um sistema de renda
compatível com o rendimento familiar e de acesso à habitação própria.
4. O Estado, as regiões autónomas e as autarquias locais definem as regras de
ocupação, uso e transformação dos solos urbanos, designadamente através de
instrumentos de planeamento, no quadro das leis respeitantes ao ordenamento do
território e ao urbanismo, e procedem às expropriações dos solos que se revelem
necessárias à satisfação de fins de utilidade pública urbanística.
6. Direito ao Ambiente

Artigo 66.º - Ambiente e qualidade de vida – CRP

1. Todos têm direito a um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente


equilibrado e o dever de o defender.

2. Para assegurar o direito ao ambiente, no quadro de um desenvolvimento


sustentável, incumbe ao Estado, por meio de organismos próprios e com o
envolvimento e a participação dos cidadãos:

a) Prevenir e controlar a poluição e os seus efeitos e as formas prejudiciais de


erosão;

b) Ordenar e promover o ordenamento do território, tendo em vista uma correta


localização das atividades, um equilibrado desenvolvimento socioeconómico e a
valorização da paisagem;

c) Criar e desenvolver reservas e parques naturais e de recreio, bem como


classificar e proteger paisagens e sítios, de modo a garantir a conservação da
natureza e a preservação de valores culturais de interesse histórico ou artístico;

d) Promover o aproveitamento racional dos recursos naturais, salvaguardando a sua


capacidade de renovação e a estabilidade ecológica, com respeito pelo princípio
da solidariedade entre gerações;

e) Promover, em colaboração com as autarquias locais, a qualidade ambiental das


povoações e da vida urbana, designadamente no plano arquitetónico e da
proteção das zonas históricas;
f) Promover a integração de objetivos ambientais nas várias políticas de âmbito
sectorial;

g) Promover a educação ambiental e o respeito pelos valores do ambiente;

h) Assegurar que a política fiscal compatibilize desenvolvimento com protecção do


ambiente e qualidade de vida.

No que respeita aos Direitos Sociais das Instituições, podem caracterizar-se


como os direitos particulares a uma dada instituição que estão em conformidade e
dependem dos Direitos Sociais Universais mas que contudo, estão bem delimitados às
características das instituições.

1. Direito das Famílias

Artigo 67.º - Família - CRP

O Estado reconhece a constituição da família e assegura a sua proteção,


incumbindo-lhe, designadamente:

a) Promover a independência social e económica dos agregados familiares;


b) Desenvolver uma rede nacional de assistência materno-infantil e realizar
uma política de terceira idade;
c) Cooperar com os país na educação dos filhos;
d) Promover, pelos meios necessários, a divulgação dos métodos de
planeamento familiar e organizar as estruturas jurídicas e técnicas que permitam o
exercício de uma paternidade consciente;
e) Regular os impostos e os benefícios sociais, de harmonia com os encargos
familiares.
2. Direito dos Grupos Religiosos

Artigo 41º - Liberdade de consciência, de religião e de culto – CRP

1. A liberdade de consciência, de religião e de culto é inviolável.

2. Ninguém pode ser perseguido, privado de direitos ou isento de obrigações ou


deveres cívicos por causa das suas convicções ou prática religiosa.

3. Ninguém pode ser perguntado por qualquer autoridade acerca das suas
convicções ou prática religiosa, salvo para recolha de dados estatísticos não
individualmente identificáveis, nem ser prejudicado por se recusar a responder.

4. As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres


na sua organização e no exercício das suas funções e do culto.

5. É garantida a liberdade de ensino de qualquer religião praticado no âmbito da


respetiva confissão, bem como a utilização de meios de comunicação social próprios
para o prosseguimento das suas atividades.

6. É garantido o direito à objeção de consciência, nos termos da lei.

Por fim, e no que concerne aos Direitos Sociais de Classes, estes caracterizam-
se pela individualidade, isto é, pelo direito específico à classe a que se associam como é
o caso dos Direitos dos Trabalhadores. Em grosso modo, e neste caso, o legislador opta
por se debruçar sobre estes em códigos ou Decretos de Lei à margem da Constituição da
República Portuguesa, como é o caso do Código do Trabalho ou Código Civil.
1.7. O EXERCÍCIO DOS DIREITOS SOCIAIS

O campo social, longe de se tornar restrito e simples alarga-se e complexa-se


pelo enviesamento de novas políticas sociais e económicas, com reflexos nas evoluções
estruturais no aumento e diversificação dos riscos de precaridade e dos processos de
exclusão social. Neste contexto, os direitos sociais, entendidos como direitos resultantes
da política social adotados pelas várias organizações internacionais e instâncias
comunitárias, necessitam de uma efetivação coerente e sistemática para que possam
tornar-se mecanismos capazes de minimizar os efeitos nocivos da nova ordem
socioeconómica.

Por um lado, o exercício efetivo dos direitos sociais constitui preocupação em


alguns instrumentos comunitários recentes designadamente a Recomendação do
Conselho, do ano passado, sobre os critérios comuns respeitantes a recursos e
prestações suficientes nos termos do qual se recomenda aos Estados Membros o
reconhecimento do direito aos recursos suficientes e a definição desse reconhecimento
segundo princípios gerais, designadamente com base no respeito pela dignidade da
pessoa humana.

Mas, por outro, em matéria de exclusão social ou, aliás, em relação ao papel dos
direitos sociais como forma de contrariar as situações de exclusão social, não há igual
certeza sobre a incidência do seu exercício para a transposição da barreira da exclusão
social. E isto porque, as transformações económicas e as mutações a que estão sujeitas
as sociedades de hoje originam relações de um certo tipo de dominância social que se
traduz na exclusão social pondo em causa o direito à dignidade humana.

Nestes casos, para as pessoas em situação de grande vulnerabilidade, põe-se o


problema da relevância dos direitos sociais já que, estando em risco o próprio direito de
cidadania, a questão que antes se coloca é a do direito aos direitos. Colocada a questão
nestes termos o que está em causa não é, pois, tanto o elenco e a afirmação dos direitos
sociais, mas o grau da sua concretização, designadamente, nos direitos dirigidos a
determinados grupos sociais de modo a que o direito à dignidade humana seja traduzido
no direito de todos à cidadania.
A concretização dos direitos sociais passa antes de tudo pelo reconhecimento a
todos os cidadãos do direito ao respeito pela dignidade humana. Se a exclusão social,
pelo estigma do estatuto de assistido que comporta, põe em risco este direito, só fará
sentido falar-se na relevância dos direitos sociais, se estes se afirmarem como
instrumento potenciador de prevenir a sua perda, já que a perda do mais fundamental
dos direitos, naturalmente que incapacita os cidadãos de fazerem uso dos outros
direitos.

Ora, se a exclusão social, pela sua dimensão e carácter multidimensional, exige a


participação dos próprios no combate à sua exclusão e, se, por outro lado, a perda
daquele direito os incapacita de participar, bem pode dizer-se que, nesta medida, a
exclusão social se apresenta como causa própria da sua perpetuação. Mas, se por tudo
isto é necessário dotar os direitos sociais da eficácia necessária para contribuírem para o
combate à exclusão social, o certo é que, a ponderação das causas estruturais e do
carácter multidimensional deste fenómeno e, ainda, o seu desenvolvimento, fazem apelo
a uma ideia assente na necessidade de se inverter a lógica socioeconómica.

Assim, não estamos já perante a necessidade pura e simples da aplicação de


programas específicos em função de contextos e de grupos sociais, úteis sem dúvida,
mas, também e paralelamente, perante a exigência de apostar-se na convergência das
políticas socioeconómicas e consequentemente na adoção de medidas e ações
coordenadas e coerentes à integração social. O verdadeiro desenvolvimento social
participado embora se indissociável do desenvolvimento económico, vai mais longe,
porque parte de dentro para fora e não se esgota no modelo construído a partir de
quaisquer premissas variáveis com os quais os indivíduos e os grupos não se sentem
nem identificados, nem comprometidos.

Não é por acaso que mesmo em tempos de “progresso” económico, as tensões


sociais não se diluem, antes se agudizam abrindo brechas visíveis no processo de coesão
social nacional que se pode configurar como uma ameaça, ora latente ora com sinais
evidentes, ao processo de desenvolvimento entendido como bem-estar das populações.

Não há dúvida que, para o grau de realização dos direitos sociais, concorre o
volume de recursos suscetível de ser mobilizado para esse efeito, isto é, a reserva das
disponibilidades da coletividade e a forma da sua distribuição. Será que este confronto é
igualmente claro para os agentes económicos e que existe a perceção integral de que
apenas da sinergia entre as políticas, as instituições e os atores diretamente envolvidos
resultará um processo de integração social e duradouro?

Esta perceção, a existir de facto, impõe a assunção de novas responsabilidades


para os Estados Membros, para as instituições, para os atores envolvidos e,
naturalmente, para a própria comunidade.

2. FUNÇÕES SOCIAIS DO ESTADO

1. O Estado enquanto responsável por assegurar a concretização dos direitos


sociais

No século XIX o advento do Estado liberal trouxe consigo a consagração dos


primeiros direitos fundamentais, chamados de direitos de liberdade, que exigem do
Estado obrigações negativas, ou seja, a abstenção estatal. Nesta fase, prevalecem, pois,
os direitos civis e políticos, como o direito à vida, à liberdade e à propriedade e não há
qualquer referência a direitos sociais, já que se entendia que todas as necessidades
seriam satisfeitas pela “mão invisível do mercado”.

Porém, com o endeusamento do mercado, a corrida ao lucro e o crescimento


económico desregrado, esta conceção conduziu rapidamente à concentração do capital –
e dos direitos de liberdade – nas mãos de uma minoria, em detrimento de vastos grupos
sociais marginalizados. A igualdade formal de direitos de liberdade escondia a
desigualdade económica e social, que é uma desigualdade de facto. Em consequência do
reconhecimento desta crescente desigualdade, começou então a delinear-se, a par dos
direitos individuais tradicionais ou direitos de liberdade, uma nova geração de direitos
fundamentais, que transcendem os direitos individuais, complementando-os – os
direitos sociais concebidos como direitos a prestações do Estado.

Neste quadro, o Estado deixa de ser o Estado liberal mínimo e não interventivo
para passar a assumir-se como um Estado que intervém ativamente na vida económica e
social, o Estado social ou Estado providência ao qual se exige, não já uma conduta
passiva, mas antes uma intervenção ativa no sentido da concretização de uma justiça
social redistributiva. Nesta nova conceção o Estado social passa a ser encarado como o
garante da justiça, da coesão e do bem-estar sociais, o Estado prestador, que desenvolve
um conjunto de atividades, a fim de garantir a satisfação das necessidades coletivas, de
acordo com princípios de universalidade, solidariedade e justiça social.

O Estado social – o nosso Estado de direito democrático – assenta assim numa


complementaridade recíproca entre os direitos fundamentais individuais ou de
liberdade, essencialmente de carácter civil e político, e os direitos sociais, uma vez que
sem a intervenção ativa do Estado no sentido de alcançar a justiça social e a igualdade
de facto entre todos os cidadãos, os direitos civis e políticos não poderão ser plenamente
garantidos. A universalidade é uma das principais características de todos os direitos
fundamentais, sobretudo os direitos sociais, porquanto eles se dirigem a todos os
cidadãos e não apenas a uma classe ou grupo social específico.

Por outro lado, o postulado da universalidade dos direitos sociais não pode
deixar de ter em conta o objetivo essencial da consagração destes direitos que é atingir a
igualdade de facto entre todos os cidadãos, sendo para isso necessário atender à desigual
distribuição da riqueza. Note-se que a universalidade dos direitos sociais não significa
necessariamente uma igualdade formal no acesso a esses direitos. Os direitos sociais
existem para colmatar as diferenças geradas pela igualdade formal, a fim de obter a
igualdade de facto entre todos os cidadãos.

Neste sentido, sem restringir a titularidade dos direitos sociais, a própria


natureza destes direitos exige que concentremos esforços numa distribuição equitativa,
de acordo com as reais necessidades de cada um. De facto, os direitos sociais são
equacionados a partir da ideia de justiça social e enquadram-se na necessidade de
distribuição dos rendimentos, sob a lógica de princípios como a igualdade e a
solidariedade. A efetivação dos direitos sociais implica que o Estado, e
consequentemente toda a sociedade, assumam solidariamente um conjunto de encargos,
a fim de sustentar a satisfação de necessidades sociais básicas, como a saúde, a proteção
social, o ensino, etc., tendo sempre em atenção a proteção dos cidadãos mais
vulneráveis.

A principal fonte de receita do Estado são os impostos – impostos que existem


precisamente para gerar receitas que se destinam a ser utilizadas pelo Estado na
satisfação das necessidades coletivas dos seus cidadãos. Assim, compete ao Estado
assegurar receitas fiscais a níveis adequados para proporcionar aos cidadãos a prestação
de diversos serviços públicos, como a educação, a saúde e segurança social e sustentar
políticas sociais, nomeadamente em matérias como a luta contra a pobreza, os
transportes públicos e a habitação social. Mas o sistema fiscal é também um
instrumento para a obtenção de uma justa repartição dos rendimentos e da riqueza, a fim
de assegurar a diminuição das desigualdades geradas no processo produtivo e permitir
uma divisão de encargos, conforme as capacidades de cada um, de modo a que quem
mais tem contribua com uma parte maior para a solidariedade coletiva, ou seja, para a
concretização dos direitos sociais que assistem a todos os cidadãos sem exceção.

Se a finalidade essencial dos direitos sociais é a procura da igualdade de facto


entre todos os cidadãos, a análise da universalidade destes direitos não pode deixar de
ter em conta as desigualdades existentes e especialmente a desigual distribuição de
riqueza que caracteriza as nossas sociedades. Porém, esta consideração não deve
conduzir à restrição da titularidade dos direitos sociais, antes exigindo que se
concentrem esforços numa distribuição equânime dos encargos conforme as
capacidades de cada um. Ou seja, a função redistributiva não deve ser assegurada
retirando direitos a quem mais tem, mas sim através do sistema fiscal, que deve garantir
que quem mais tem, também contribui com mais para a solidariedade coletiva.

Mas, precisamente porque contribui e com uma fatia maior proporcional aos
seus rendimentos, não deve perder a titularidade dos direitos sociais, que são, por
natureza, direitos universais. Nos últimos anos, toda esta construção do Estado social
que pretende garantir a universalidade de direitos e a igualdade real entre todos os
cidadãos tem sido alvo de ofensivas sucessivas que visam a desmontagem economicista
do Estado-providência, numa lógica marcadamente neoliberal.
É então à luz de todas estas considerações e pressupostos que devemos refletir
sobre o papel e as funções do Estado e qual a conceção de Estado que melhor protege e
garante a todos os cidadãos a plenitude dos seus direitos, a construção de uma igualdade
real entre todos e a manutenção da coesão social.

3.INSTITUIÇÕES INTERNACIONAIS DE SOLIDARIEDADE SOCIAL

A intervenção instituições internacionais de solidariedade socia como as


organizações de ajuda humanitária têm vindo a ganhar importância nos últimos anos,
com a escalada de catástrofes naturais, conflitos armados e crises financeiras. Segundo a
Organização das Nações Unidas (ONU), o Mundo enfrenta a maior crise humanitária
desde a fundação da instituição. Um panorama que coloca alguns desafios de monta às
organizações de ajuda humanitária, como a UNICEF, CARE, Save The Children, AMI e
Médicos Sem Fronteiras.

1. UNICEF

A UNICEF – Fundo da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Infância


– trabalha em 158 países e dedica-se à promoção dos direitos das crianças e dos jovens,
procurando dar resposta às suas necessidades básicas e contribuir para o seu pleno
desenvolvimento.

Quando surgiu?
Inicialmente designada de “Fundo Internacional de Emergência das Nações
Unidas para as Crianças”, a UNICEF foi criada em dezembro de 1946 para ajudar as
crianças europeias, no rescaldo da II Guerra Mundial. Em 1953, tornou-se uma agência
permanente da ONU. O nome mudou para “Fundo das Nações Unidas para a Infância”.
No entanto, a sigla UNICEF, que a tornou conhecida em todo o mundo, mantém-se.
Em que áreas atua?
Mais de metade dos recursos da UNICEF destina-se a campanhas de vacinação
infantil, cuidados de saúde materno-infantil, nutrição, acesso a água potável e
saneamento básico.
A agência da ONU centra ainda os seus esforços na prevenção da transmissão do
VIH de mãe para filho. Para minorar este flagelo, disponibiliza tratamento pediátrico,
previne a infeção entre os jovens e apoia as crianças órfãs e vulneráveis devido à SIDA.

2. CARE
A CARE está presente em 94 países e tem por missão salvar vidas, erradicar a
pobreza e alcançar justiça social. O seu foco são as meninas e as mulheres. O motivo?
Estes grupos são os principais rostos da pobreza nas comunidades mais pobres do
Mundo. Além disso, as quase sete décadas de experiência da CARE mostram que a
capacitação da população feminina é a chave para famílias inteiras saírem de uma
situação de pobreza extrema.

Quando surgiu?
Foi fundada nos Estados Unidos em 1945. A CARE nasceu da junção de 22
organizações norte-americanas que se mobilizaram para apoiar os sobreviventes da II
Guerra Mundial, através do envio de “Care Packages”, que continham alimentos e
outros bens essenciais Atualmente, a CARE é uma confederação internacional de 14
organizações.

Em que áreas atua?


A CARE encontra-se entre as primeiras organizações deste género a chegar ao
terreno numa crise humanitária. E é das últimas a partir. Durante uma situação de
emergência, a organização satisfaz as necessidades imediatas das pessoas afetadas,
fornecendo comida, abrigo, água potável e produtos de higiene. Através dos seus
programas de emergência, a CARE presta auxílio anualmente a 12 milhões de pessoas.
Além disso, a CARE ajuda as pessoas, famílias e comunidades a construírem as
suas vidas após uma crise humanitária. A organização prepara-as ainda para lidarem
com catástrofes futuras, de modo a mitigar o seu impacto.
No seu trabalho com as raparigas, a CARE constrói escolas e garante o seu
direito à educação. A organização desenvolve também ações para impedir os
casamentos infantis (antes dos 18 anos) e forçados.

3. Save The Children


A Save The Children é uma Organização Não Governamental (ONG) que tem
como objetivo defender os direitos das crianças e contribuir para que desenvolvam o seu
potencial em toda a plenitude.

Quando surgiu?
Esta ONG foi criada em Londres, em 1919, com o propósito de ajudar as
crianças nas áreas devastadas pela I Guerra Mundial. Hoje, está presente em 120 países,
do Ruanda ao Bangladesh, da Serra Leoa ao Iraque.

Em que áreas atua?


A Save the Childrens responde a situações de emergência provocadas por
desastres naturais, fome, guerras ou surtos de doença, protegendo as crianças.
A educação é outra das prioridades desta ONG. A Save The Children apoia
programas de educação para crianças, tanto na sala de aula como em casa. Nesta área, a
organização distribui ainda livros e brinquedos educativos.
Os cuidados de saúde constituem igualmente uma área de atuação prioritária
para a Save The Children. Segundo a organização, 5,9 milhões de crianças morrem
todos os anos vítimas de doenças que podem ser evitadas e tratadas.
A Save The Children está ainda empenhada na luta contra a pobreza infantil,
uma barreira ao desenvolvimento pleno das crianças. E, porque a pobreza está
indissociavelmente ligada à fome, a organização também combate a subnutrição nas
regiões mais pobres do Mundo. Para esse efeito, tem programas focados na melhoria do
acesso aos alimentos, das práticas agrícolas e das finanças familiares. O objetivo é
ajudar os pais a proverem às necessidades básicas dos seus filhos.
4. AMI – Assistência Médica Internacional
A AMI é uma ONG de ajuda humanitária portuguesa. Destina-se a lutar contra a
pobreza, a exclusão social, o subdesenvolvimento, a fome e as consequências da guerra
em qualquer parte do Mundo.
Na área internacional, a AMI desenvolve três grandes tipos de intervenções:

 Missões de Emergência;

 Missões de Desenvolvimento com equipas expatriadas;

 Projetos Internacionais em Parceria com Organizações Locais (PIPOL).

Quando surgiu?
A AMI foi fundada em 1984 pelo médico-cirurgião urologista Fernando Nobre.
Assume-se como uma organização humanitária inovadora em Portugal vocacionada
para missões internacionais. Desde 1987, a organização já realizou missões em 79
países, tendo enviado centenas de voluntários e toneladas de ajuda. Em Portugal, a AMI
dispõe atualmente de 16 equipamentos e respostas sociais: 9 centros Porta Amiga, 2
abrigos noturnos, 2 equipas de rua, 1 serviço de apoio domiciliário e 2 polos de receção
de alimentos do FEAC.

Em que áreas atua?


A AMI desenvolve a sua atividade nas mais variadas áreas: água e saneamento,
alimentação e nutrição, ambiente, educação e formação, inclusão social, luta contra a
pobreza e saúde. É exemplo da sua intervenção na área de alimentação e nutrição um
projeto desenvolvido na Colômbia, num bairro da cidade de Cartagena das Índias onde
vivem muitos deslocados. A missão visa avaliar o estado nutricional das pessoas que aí
se encontram, desenvolver ações de formação e capacitação agrícola, realizar
campanhas de saúde e permitir o acesso à saúde da segurança social. Na mesma área,
em Lisboa, a AMI presta apoio domiciliário, satisfazendo necessidades básicas de
pessoas que se encontram em situação de isolamento e impossibilitadas de se
deslocarem.
5. Médicos sem fronteiras
Oferecer ajuda médica e humanitária a populações afetadas por conflitos
armados, epidemias, catástrofes naturais e sem acesso a cuidados de saúde, em qualquer
lugar do Mundo. Esta é a principal missão dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) – a
maior ONG de ajuda humanitária mundial, na área da saúde. Esta organização tem
também como objetivo sensibilizar o público sobre o sofrimento dos seus pacientes,
denunciando situações de violação dos direitos humanos mais elementares.
A sua “ação de ajuda humanitária civil e independente das influências políticas”
valeu-lhe o Prémio Nobel da Paz, em 1999.

Quando surgiu?
A organização foi fundada em 1971, em França, por jovens médicos e jornalistas
que trabalharam como voluntários, no final da década de 60, na Guerra do Biafra, na
Nigéria.
A primeira missão dos MSF foi em Manágua, capital da Nicarágua, em 1972,
depois de um terramoto ter destruído grande parte da cidade e matado entre 10 000 a 30
000 pessoas.
Atualmente, os MSF desenvolvem programas em 71 países, envolvendo
milhares de profissionais de saúde e pessoal administrativo e de logística.

Em que áreas atua?


A atuação da organização é essencialmente médica. Os MSF fornecem cuidados
de saúde básicos, realizam cirurgias, combatem epidemias, reabilitam e administram
hospitais e clínicas e realizam campanhas de vacinação. São também responsáveis por
centros de nutrição e prestam cuidados de saúde mental.
As suas atividades incluem ainda o tratamento de pessoas feridas, prestação de cuidados
maternos e fornecimento de ajuda humanitária. Quando necessário, criam sistemas de
saneamento, fornecem água potável, entre outras ações.
4. CIDADANIA

1. O cidadão enquanto co-responsável pela concretização dos direitos


sociais

Cidadania é o conjunto de direitos e deveres ao qual um indivíduo está sujeito


em relação à sociedade em que vive. O conceito de cidadania sempre esteve fortemente
ligado à noção de direitos, especialmente os direitos sociais e políticos, que permitem ao
indivíduo intervir na condução dos negócios públicos do Estado, participando de modo
direto ou indireto na formação do governo e na sua administração.

Ninguém nasce cidadão, mas torna-se cidadão pela educação, porque a


educação atualiza a inclinação potencial e natural dos homens à vida comunitária ou
social. A cidadania é o direito de ter uma ideia e poder expressá-la, de poder votar em
quem quiser sem constrangimento, de praticar o exercício pleno dos direitos civis,
políticos e sociais. Cidadania é, nesse sentido, um processo. Um processo que começou
nos primórdios da humanidade e que se efetiva através do conhecimento e conquista dos
direitos humanos, não como algo pronto, acabado, mas como aquilo que se constrói.

A origem da palavra cidadania vem do latim "civitas", que quer dizer cidade. A
palavra cidadania foi usada na Roma antiga para indicara situação política de uma
pessoa e os direitos que essa pessoa tinha ou podia exercer. Segundo Dalmo Dallari:

“A cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de


participar ativamente da vida e do governo de seu povo. Quem não tem cidadania está
marginalizado ou excluído da vida social e da tomada de decisões, ficando numa
posição de inferioridade dentro do grupo social”.

A cidadania esteve e está em permanente construção; é um referencial de


conquista da humanidade, através daqueles que sempre buscam mais direitos, maior
liberdade, melhores garantias individuais e coletivas, e não se conformam frente às
dominações arrogantes, seja do próprio Estado ou de outras instituições ou pessoas que
não desistem de privilégios, de opressão e de injustiças contra uma maioria desassistida
e que não consegue ser ouvida, exatamente por que se lhe nega a cidadania plena, cuja
conquista, ainda que tardia, não será obstada.

A cidadania é algo que não se aprende somente com os livros, mas com a
convivência, na vida social e pública. É no convívio do dia-a-dia que exercitamos a
nossa cidadania, através das relações que estabelecemos com os outros, com a coisa
pública e o próprio meio ambiente. A cidadania deve ser perpassada por temáticas como
a solidariedade, a democracia, os direitos humanos, a ecologia, a ética. A cidadania é
tarefa que não termina. A cidadania não é como um dever de casa, onde faço a minha
parte, apresento e pronto, acabou. Enquanto seres inacabados que somos, sempre
estaremos buscando, descobrindo, criando e tomando consciência mais ampla dos
nossos direitos. Nunca poderemos chegar a entregar a tarefa pronta, pois novos desafios
na vida social surgirão, demandando novas conquistas e, portanto, mais cidadania.

O conteúdo de cidadania em âmbito constitucional é mais amplo do que o


simples fato de possuir um título eleitoral para votar e ser votado. Ela não se restringe
ao voto, o qual é apenas uma etapa do processo de cidadania. A atual Constituição
amplia a cidadania, qualificando e valorizando os participantes da vida do Estado, e
reconhecendo a pessoa humana como ser integrado na sociedade em que se vive.

Cidadania é a participação efetiva no destino de um Estado por meios que


façam com que os representantes do povo, eleitos para cargos políticos, cumpram as
funções a eles atribuídas. Cidadania engloba uma série de direitos, deveres e atitudes
(...), a participação, ativa ou passiva, na administração comum. Pressupõe, por exemplo,
o pagamento de impostos, mas também a fiscalização de sua aplicação.

Portanto, para efetivamente exercer a cidadania, o indivíduo deve conhecer os


direitos dos quais é titular, bem como suas repercussões no meio social em que convive,
assim como ter plena consciência de seus deveres e entender que atua, com sua conduta
ativa ou passiva, também sobre a esfera jurídica de outras pessoas, e não apenas sobre a
sua própria. Em última análise, deve se entender como parte integrante da comunidade
em que vive, e, portanto, capaz de nela intervir, afetando a si próprio, a terceiros e a
comunidade em si.

Manual de Direito Social


Ser cidadão é ter consciência de que é sujeito de direitos. Direito à vida, à
liberdade, à propriedade, à igualdade, enfim, direitos civis, políticos e sociais. Mas este
é um dos lados da moeda. Cidadania pressupõe também deveres. O cidadão tem de ser
cônscio das suas responsabilidades enquanto parte integrante de um grande e complexo
organismo, que é a coletividade, a nação, o Estado, para cujo bom funcionamento todos
têm de dar sua parcela de contribuição. Somente assim se chega ao objetivo final,
coletivo: a justiça em seu sentido mais amplo, ou seja, o bem comum.

5.LIMITAÇÕES AO EXERCÍCIO DOS DIREITOS SOCIAIS

Os direitos fundamentais não são direitos ilimitados ou ilimitáveis. Vivendo os


indivíduos numa sociedade, é normal que o Direito seja chamado. a limitar os direitos
fundamentais de modo a proteger os direitos fundamentais de outras pessoas ou ainda a
garantir bens jurídicos de relevo específico, como a segurança ou a ordem pública.
Apesar de os direitos fundamentais serem universais e inalienáveis, a sua
interdependência (1) e a vida em sociedade trazem, na prática do dia-a-dia, a
necessidade de determinar os limites aos direitos fundamentais (2) .

A primeira questão a considerar, neste âmbito, será a da restrição aos direitos


fundamentais. Esta matéria remete-nos, por exemplo, para a problemática de saber se, e
como, pode o direito à inviolabilidade do domicílio e da correspondência ser limitado
de forma a facilitar uma investigação criminal (pense-se, por exemplo, nas escutas
telefónicas ou buscas em domicílios). Ou, ainda, por exemplo, de saber se e em que
medida a liberdade de imprensa e dos meios de comunicação social pode justificar a
publicação de informação pessoal ou sobre a vida privada de um indivíduo — quer
dizer, questiona-se até aonde vai a liberdade de imprensa e dos meios de comunicação
social, quando se considera o direito à privacidade das pessoas e o direito de acesso à
informação por parte do público. Como deve o Direito “gerir” estes direitos e identificar
uma barreira ou fronteira, de modo a que se possa atingir a esperada coexistência
pacífica? Por conseguinte, a restrição aos direitos fundamentais assume uma
importância especial no regime jurídico dos direitos fundamentais. No entanto, há que
distinguir entre as restrições e as intervenções restritivas aos direitos fundamentais, estas
últimas objecto da nossa atenção mais abaixo.

Pode, ainda, acontecer que, por razões diversas, a normalidade de um Estado


seja posta em causa por uma série de motivos. Nestas situações extremas, a questão que
se coloca é a de saber em que medida o Direito pode intervir para garantir a gestão
adequada das circunstâncias excecionais e o retorno à normalidade. Pode o Direito
aceitar que o exercício dos direitos fundamentais seja afetado, permitindo a sua
suspensão? Esta questão não diz respeito à titularidade dos direitos fundamentais, uma
vez que os mesmos são inalienáveis, mas a uma limitação ao seu exercício, em
condições bem definidas e de caráter excecional.

Na vasta maioria das vezes, a limitação dos direitos fundamentais é realizada


pelos poderes públicos. Numa sociedade democrática baseada no princípio do Estado de
Direito, devem tais poderes ser sujeitos a prescrições específicas, que os autorizem a
limitar os direitos fundamentais e que determinem o “como” da limitação. Dada a
relevância desta matéria do ponto de vista do gozo dos direitos fundamentais, importa
conhecer os eventuais limites ou requisitos a verificar no processo de limitação do
âmbito de proteção e do exercício dos direitos fundamentais, os quais visam, desde
logo, diminuir o risco de limitações inconstitucionais

Bibliografia
 https://direitosociais.org.br/article/os-direitos-sociais-direitos-
humanos-e-fundamentai/

 https://rafaelbertramello.jusbrasil.com.br/artigos/121943093/os-
direitos-sociais-conceito-finalidade-e-teorias

 http://ssasociologia.blogspot.pt/2014/09/direitos-civis-politicos-
sociais-humanos.html