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| ESPECIAL • INCONSCIENTE |

OS DESCONHECIDOS UNIVERSOS DA MENTE


ANO XIII
No 319

O QUE
MOVE
VOCÊ? LER PENSAMENTO
Tecnologia permite exploração de
A motivação traz satisfação informações guardadas no cérebro
e favorece conquistas, ATENÇÃO
mas nem sempre é fácil Truque do cérebro ajuda a eleger
manter o entusiasmo. estímulo para evitar as distrações
Para cientistas, é indispensável OLFATO
entender o que está Cheiro de suor da pessoa amada
por trás de nossos objetivos diminui estresse e ansiedade
carta da editora

Os “porquês” de cada um

O
que faz você se levantar da cama a cada dia? Qual é a sua motivação? Quan-
do se trata de trabalho, é muito frequente que as pessoas respondam ra-
pidamente que o que as impulsiona é a necessidade de “ganhar dinheiro”.
Certo, mas para quê? Por que comprar coisas ou pagar contas, qual o objetivo mais
profundo de suas ações? Afinal, sabemos – mais ou menos claramente – que é onde
colocamos energia (entendida aqui como empenho de tempo, capacidade intelectual
e afetiva) que acreditamos, no mais íntimo de nós, que encontraremos satisfação.
Especialistas chegam a argumentar que a motivação – aquilo que move a ação –
pode ser até mais importante e determinante do que o talento. Claro, sempre é pos-
sível recorrer à didática pirâmide proposta por Abraham Maslow, de 1954, para falar
das buscas nas quais nos empenhamos ao longo da vida. Ele classificou necessidades
humanas, em ordem de prioridade, em fisiológicas, de segurança, de amor e atenção,
de estima e de autorrealização. Os dois textos sobre motivação, nesta edição digital de
Mente e Cérebro, mostram que atualmente a psicologia identifica “elementos críticos”
que oferecem suporte à motivação. Quando enfrentamos dificuldade, convém pergun-
tar o que está faltando. A resposta, em geral, se relaciona à ausência de autonomia,
sensação de que a tarefa é inútil ou dúvida sobre nossa capacidade. Pesquisadores ob-
servam que, quando o entusiasmo se esvai, o questionamento pessoal é fundamental
para avaliar objetivos e, eventualmente, rever escolhas.
Como enfatizam ensinamentos budistas, o mais importante não é a experiência
em si, mas o que restou dela após seu término. Ou seja: em quem você se trans-
formou após a tão sonhada viagem, a conclusão do curso, o sucesso da dieta, o
casamento ou chegada do bebê ou a promoção no trabalho? O que o motivou e
ainda continua a impulsionar suas atitudes? No final do dia, qual era mesmo o seu
“porquê”?

Boa leitura.

GLÁUCIA LEAL, editora-chefe


glaucialeal@editorasegmento.com.br
@glau_f_leal

3
sumário agosto 2019

6 Máquinas que
capa Motivação
leem pensamentos
Parece enredo de filme de ficção científica, mas
é realidade: técnicas de imageamento cerebral
já permitem a exploração de informações
12 O que move você? armazenadas do cérebro
O entusiasmo tende a nos tornar mais
comprometidos e alegres. Mas nem sempre
a dedicação é compatível com os resultados.
22 Truque cerebral
Novas pesquisas mostram a importância de para evitar distrações
rever objetivos e formas de alcançá-los Quando algo nos atrai em um momento
em que precisamos nos concentrar,
a mente “escolhe” apenas um estímulo
por vez para ser alvo de interesse

26 Pintinhos bons de
matemática
Assim como as crianças, filhotes de galinha
parecem ter preferência inata por algarismos
menores à esquerda e maiores à direita

30 Cheiro da pessoa amada


diminui estresse
Mulheres que cheiram a camisa suada
do parceiro relataram ter menos reações
18 O que vale de ansiedade do que aquelas que sentiram o odor
de um estranho ou de uma roupa não usada
a pena buscar?
A satisfação está muito mais
no empenho em conseguir o que 34 A forma secreta
queremos do que em atingir nossos das letras
objetivos. Essa conclusão ajuda a entender Cientistas encontram pistas sobre
por que aceitamos postergar o prazer
a razão de associarmos certas letras e palavras
com formatos circulares ou pontiagudos
especial
Inconsciente

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Edição no 319, agosto de 2019,


ISSN 1807156-2.
www.mentecerebro.com.br
tecnologia

Máquinas
que leem
pensamentos
Nos últimos anos,
as técnicas de
imageamento cerebral
avançaram tanto que
se tornaram capazes
de perscrutar – e em
alguns casos alterar
– conhecimentos
guardados no cérebro

6
tecnologia

A
ideia de que a mente está completamente prote-
gida das intrusões externas persistiu por séculos.
Mas hoje essa suposição pode não ser mais válida.
Sofisticados equipamentos de neuroimageamento
e interfaces cérebro-computador detectam a atividade elétri-
ca de neurônios, o que permite a decodificação e até altera-
ção de sinais do sistema nervoso que acompanham proces-
sos mentais. Embora tais avanços tenham grande potencial
para as áreas de pesquisa e medicina, eles trazem um desafio
ético, jurídico e social: de repente se torna importante deter-
minar se, ou em que condições, é legítimo obter acesso à
atividade neuronal de outra pessoa ou interferir nela.
Essa questão tem especial relevância porque muitas neu-
rotecnologias se desviaram de uma configuração médica
e passaram a fazer parte do domínio comercial. Tentativas
de decodificar informações mentais por meio do imagea-
mento também estão ocorrendo em processos judiciais em
tribunais, às vezes de modo bastante questionável cientifi-
camente. Há quase uma década, por exemplo, uma mulher
indiana foi condenada por homicídio e sentenciada à prisão
perpétua com base em um exame de varredura cerebral
que mostrava, de acordo com o juiz, “conhecimento expe-
riencial” sobre o crime.
O potencial uso de tecnologia neural como um detector
de mentiras durante interrogatórios ganhou atenção espe-
cial. Apesar do ceticismo de especialistas, empresas já es-
tão comercializando tecnologia baseada em imageamento
por ressonância magnética funcional e eletroencefalografia
para detectar mentiras. As forças armadas americanas tam-

7
tecnologia

bém têm testado técnicas de monitoramento, mas por outra


razão: a ideia é utilizar estímulo neural para aumentar o es-
tado de alerta e a atenção dos soldados.
A tecnologia de leitura cerebral pode ser vista como só
mais uma etapa de uma tendência inevitável do mundo digi-
tal de avançar um pouco mais sobre nosso espaço pessoal.
Talvez não estejamos dispostos a aceitar essa intromissão
em nosso universo mental. As pessoas poderiam, de fato,
considerar tal tecnologia como algo que exige a revisão de
conceitos acerca dos direitos humanos básicos e até mes-
mo da criação de “direitos neuroespecíficos”.
Diante da evolução tec-
Empresas como Facebook, nológica, é possível falar
Netflix e Samsung já cogitam hoje em direito à liberda-
traduzir pensamentos direto de cognitiva. Isso daria às
do cérebro do usuário para pessoas a possibilidade de
tomar decisões livres e in-
o computador; num futuro
formadas sobre a aplicação
próximo, o controle cerebral
prática do conhecimento
poderá substituir o teclado científico que possa vascu-
e o reconhecimento da fala lhar seus conhecimentos
ou até afetar seus pensa-
mentos. Num futuro próximo, o direito à privacidade mental
deveria nos proteger tanto de intrusões não consentidas de
terceiros em nossos “arquivos” cerebrais, quanto da coleta
não autorizada dessas informações.
Violações de privacidade no âmbito neural poderiam ser
até mais perigosas do que as convencionais, uma vez que
ultrapassam o nível do raciocínio consciente, deixando-
-nos expostos ao risco de ter nossa mente lida involunta-
riamente. Por mais que lembre enredo de filme de ficção,

8
tecnologia

o fato é que esse perigo existe não apenas em estudos de


marketing predatório ou tribunais que poderiam utilizar a
tecnologia em demasia, mas também em usos que afeta-
riam consumidores em geral.
Esta última categoria, aliás, está crescendo. Há poucos
meses, o Facebook revelou um plano para criar uma inter-
face “discurso-para-texto” com o intuito de traduzir pensa-
mentos direto do cérebro para o computador. Ensaios pare-
cidos são feitos por empresas como a Samsung e a Netflix.
No futuro, o controle cerebral poderia substituir o teclado e
o reconhecimento da fala como forma principal de interagir
com computadores.
Se tais ferramentas se tornarem cada vez mais
comuns – como é bem possível que ocorra
–, novas possibilidades de uso indevido
surgirão, inclusive violações de segu-
rança. Cientes de que dispositivos
neurológicos conectados ao cére-
bro são vulneráveis a sabotagem,
neurocientistas da Universidade de
Oxford sugerem que a mesma fra-
gilidade se aplica a implantes ce-
rebrais e que podem levar a um
fenômeno chamado brainjacking,
que seria uma espécie de “hackea-
mento” da mente. Tal possibilidade
pode exigir a reconsideração do que
entendemos hoje como direito à integri-
dade mental, já reconhecida como uma prerroga-
tiva indispensável para a saúde mental.

9
tecnologia

Essa nova interpretação, porém, tem desdobramentos:


não só protegeria pacientes contra uma possível recusa a
tratamentos para doenças mentais, mas também defenderia
as pessoas de modo geral contra manipulações prejudiciais
de nossa atividade mental pelo uso indevido da tecnologia.
Por fim, o direito à “continuidade psicológica” pode pro-
teger a vida mental contra alterações feitas por terceiros.
Um exemplo: o mesmo tipo de intervenção em estudo
para reduzir a necessidade de sono nas forças armadas
poderia ser adaptado para tornar soldados mais belige-
rantes ou destemidos.
A neurotecnologia traz benefícios, mas para diminuir riscos
indesejados precisamos de um debate aberto que envolva
neurocientistas, psicólogos, psicanalistas, médicos peritos le-
gais, especialistas em ética e cidadãos comuns. Para alguns,
podem parecer precipitadas essas preocupações, mas o
mundo se transforma rápido, frequentemente nos surpreen-
de. Afinal, há 15 anos você imaginava o quanto a tecnologia
ocuparia sua vida hoje e o faria tão dependente de seu celu-
lar ou computador?

10
Coleção

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História da Pedagogia
P i a g e t • Vi g o t s k i • Wal l o n • Fre i re • Ro u s s e a u • D e w e y

Entenda o que eles pensaram.


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capa • motivação

O que
move
você?
Pessoas motivadas
procuram se superar e
buscar melhores resultados,
são mais entusiasmadas,
responsáveis, comprometidas
e, principalmente, mais
satisfeitas. O problema é
que nem sempre nosso
empenho está alinhado com
os resultados que obtemos.
Novas pesquisas indicam a
importância de rever rotas
capa • motivação

T
odo mundo que cursa psicologia – ou mesmo outras
formações na área de ciências humanas – em algum
momento assiste à aula sobre a famosa pirâmide de
Abraham Maslow (1908-1970). O psicólogo america-
no estabeleceu uma hierarquia, expressa graficamente, locali-
zando as necessidades mais básicas (como alimentação, por
exemplo) na base da figura geométrica. No topo, ficam aspec-
tos ligados à realização pessoal. Psicólogos e neurocientistas
acreditam, porém, que as coisas não são tão simples. O que
nos faz trabalhar, estudar, viajar, tomar banho, fazer ginástica,
correr riscos, iniciar e manter relacionamentos? Resolvidas as
necessidades básicas, o que nos move mesmo é uma exigên-
cia interna de autonomia, conhecimento, envolvimento e dina-
mismo. Fácil? Nem tanto. Em
Quando enfrentamos plena era da tecnologia, em
dificuldade, convém que as possibilidades se mul-
perguntar o que está tiplicam diante dos nossos
faltando; a resposta, em olhos, muitos pesquisadores
geral, se relaciona a falta de têm questionado ideias sim-
autonomia, sensação de que plistas sobre as necessida-
des e os anseios humanos.
a tarefa é inútil ou dúvida
Alguns estudiosos veem
sobre nossa capacidade
a maior fonte da motiva-
ção humana na ampliação
das próprias competências e falam de dois sistemas de
razões antagônicas que se formaram ao longo da evolu-
ção: curiosidade e medo, ambos repletos tanto de oportu-
nidades quanto de riscos. É o caso do psicólogo Clemens
Trudewind, pesquisador da Universidade de Bochum, na
Alemanha, que durante algum tempo estudou essa inte-
ração. Ele comprovou algo que muitos pais e educadores

13
capa • motivação

já sabiam: crianças curiosas e destemidas resolvem pro-


blemas com mais eficácia do que as temerosas e passi-
vas. No entanto, a curiosidade e o medo não são opostos:
os pequenos muito medrosos e ao mesmo tempo curiosos
também se revelaram bons solucionadores de problemas,
segundo Trudewind. Razões supostamente antagônicas,
portanto, não são obrigatoriamente excludentes.

Três elementos críticos


Uma grande vantagem bastante prática da motivação é que
ela nos faz mais entusiasmados, comprometidos, empenha-
dos em buscar os melhores resultados e, em última instân-
cia, felizes – no que quer que estejamos empenhados. Além
disso, aumenta a capacidade criativa e favorece as habili-
dades de comunicação. Especialistas chegam a argumentar
que a motivação – aquilo que move a ação – pode ser até
mais importante e decisiva para o sucesso do que o talento.
Mas, afinal, de onde vem esse ânimo de direcionar a
energia (um misto de empenho de tempo, capacidade in-
telectual e afetiva) em direção a um objetivo? A psicologia
identifica três “elementos críticos” que oferecem suporte à
motivação. A boa notícia é que todos podem ser ampliados
e ajustados em nosso próprio benefício.

n Autonomia. Os psicólogos Edward L. Deci e Richard


M. Ryan, da Universidade de Rochester, acreditam que au-
mentamos nosso grau de motivação quando nos sentimos
responsáveis. Os pesquisadores trabalham com grupos
de estudantes, atletas e funcionários e descobriram que
a percepção de autonomia prediz a energia com a qual os
indivíduos perseguem uma meta.

14
capa • motivação

Junto com o psicólogo Arlen C. Moller, Deci e Ryan desen-


volveram vários experimentos para avaliar as consequên­cias
emocionais e cognitivas de uma ação controlada por outras
pessoas em comparação aos efeitos das próprias escolhas.
Eles descobriram que os voluntários que tiveram a oportu-
nidade de desenvolver uma ação com base em suas opi-
niões (contra ou a favor de algum tema) persistiram mais
tempo em uma atividade subsequente de resolução de um
quebra-cabeça (tarefa aparentemente desvinculada da an-
terior). Os cientistas afirmam que agir sob coação gera uma
espécie de “tributário mental”, enquanto perseguir um obje-
tivo no qual acreditamos nos deixa energizados.

n Valor. Motivação também costuma persistir quando per-


manecemos fiéis às nossas crenças. Atribuir valor a uma ativi-
dade pode restaurar o senso de autonomia, uma descober-
ta de grande interesse para os educadores. Em um artigo de

15
capa • motivação

revisão, os psicólogos Allan Wigfield e Jenna Cambria, pesqui-


sadores da Universidade de Maryland, observaram que vários
estudos haviam encontrado correlação positiva entre a valori-
zação de um assunto na escola e a vontade do estudante de
investigar a questão de forma independente.
Felizmente, valores podem ser mudados. O psicólogo Chris-
topher S. Hulleman, professor da Universidade da Virgínia,
descreveu uma intervenção realizada no final do semes-
tre letivo com dois grupos de estudantes do ensino médio.
Um deles escreveu sobre como a ciência se relacionava
com sua vida e outro deveria simplesmente resumir o que
fora aprendido nas aulas de ciências. Os resultados mais
marcantes vieram de estudantes com baixas expectativas
de desempenho. Aqueles que descreveram a importância
da ciência em sua vida melhoraram suas notas e relataram
maior interesse, em comparação aos alunos em situação
semelhante no grupo de resumo-escrita. Em suma, parece
que pensar sobre algo (uma situação, uma área de conhe-
cimento etc.) tende a aumentar nosso comprometimento.
Não por acaso, um tema básico de meditação analítica
do budismo é o fato de que o praticante vai morrer, mas
não sabe quando isso vai acontecer, o que leva à reflexão
sobre a preciosidade da vida – e à motivação para desfru-
tá-la de forma significativa.

n Competência. Gostamos do que fazemos ou fa-


zemos o que gostamos? Tudo indica que, à medida que
dedicamos mais tempo a uma atividade, percebemos que
nossas habilidades melhoram nessa área e adquirimos
senso de competência. Psicólogos das universidades De-
mocritus da Trácia e da Tessália, ambas na Grécia, entre-

16
capa • motivação

vistaram 882 alunos sobre suas atitudes e o engajamento


com o atletismo durante um período de dois anos. Os pes-
quisadores descobriram uma forte ligação entre o sucesso
obtido por um aluno nos esportes e o desejo de praticar
determinada modalidade. A conexão funcionou em ambas
as direções – a prática tornou os jovens mais propensos
a se considerar competentes e o senso de competência
determinou a perseverança na prática esportiva. Estudos
semelhantes, considerando atividades como música e ren-
dimento acadêmico, reforçam essas constatações.
A psicóloga Carol S. Dweck,
A curiosidade e pesquisadora da Universida-
o medo não são opostos; de Stanford, mostrou que a
estudos mostraram que competência está bastante
crianças muito medrosas associada às próprias crenças.
Em uma série de estudos, ela
e ao mesmo tempo
descobriu que aqueles que se
curiosas se revelaram
apoiam mais em talentos ina-
boas solucionadoras tos que no trabalho árduo de-
de problemas sistem mais facilmente quan-
do enfrentam um novo desa-
fio, porque temem que ele exceda sua capacidade.
Já acreditar que o empenho promove a excelência nos
ajuda a continuar aprendendo. Em geral, quando enfrenta-
mos dificuldades para atingir aquilo que desejamos, con-
vém perguntar o que está faltando. Muitas vezes, a respos-
ta está em uma (ou mais de uma) destas três áreas: falta
de autonomia, sensação de que a tarefa é inútil ou dúvida
sobre sua capacidade. Enfrentar essas fontes de resistên-
cia pode fortalecer sua determinação. A escolha é pessoal,
claro. (Leia mais sobre o tema na pág. seguinte.)

17
capa • motivação

O que
vale a
pena
buscar?
Neurocientista da
Universidade de Washington
mapeou centenas
de cérebros de animais
e constatou que o prazer
está muito mais em buscar
o que queremos
do que em conseguir.
Talvez isso explique
por que suportamos
postergar o recebimento
de recompensas

18
capa • motivação

N
o começo da década de 50, o psicólogo James
Olds, professor da Universidade Mc-Gill, no Ca-
nadá, chegou à conclusão de que a busca pela
satisfação e a satisfação em si são processadas
na mesma região no cérebro dos ratos. Outras pesquisas
realizadas depois revelaram que o funcionamento men-
tal de seres humanos segue a mesma lógica. Isso explica
por que buscamos prazeres continuamente. Mas a maioria
das pessoas também consegue postergar a realização dos
seus desejos: na expectativa de viver algo que queremos,
nosso cérebro já nos dá uma
Nosso cérebro tem dois provinha da satisfação.
sistemas de recompensa, O professor de psicologia e
um que nos leva a querer neurociência da Universidade
e outro, à sensação de Michigan Kent Berridge,
vencedor do prêmio Grawe-
de satisfação. Sentimos
meyer de psicologia em 2018,
vontade de obter algo
fez uma descoberta funda-
e, na sequência, mental sobre motivação: nos-
a alegria da conquista so cérebro tem dois sistemas
de recompensa, um que nos
leva a querer e outro, à sensação de satisfação. Sentimos
vontade de obter algo e, na sequência, a alegria da con-
quista. Por estarem muito próximos, esses dois movimen-
tos mentais confundiram os cientistas, mas hoje se sabe
que eles podem funcionar separadamente.
Quando estamos muito ansiosos, estressados, ou sob o
efeito de drogas, por exemplo, a vontade de conseguir o
que almejamos é potencializada e a capacidade de escolha
fica comprometida. Talvez você mesmo já tenha se flagra-
do, em momentos de grande tensão e cansaço, compran-

19
capa • motivação

do e comendo com avidez (mesmo sem fome) guloseimas


pouco saudáveis, das quais sequer gosta de verdade. Po-
demos pensar que naquele momento você queria aquilo,
embora realmente não gostasse.
O neurocientista Jaak Panksepp, pesquisador da Uni-
versidade de Washington, mapeou centenas de cérebros
de animais e constatou que o prazer está muito mais em
buscar o que queremos do que em conseguir. Talvez isso
explique, do ponto de vista da neurociência, por que su-
portamos postergar o recebimento de recompensa – como
o pagamento no fim do mês ou uma boa nota depois de
passar o fim de semana estudando para a prova. Segundo
Panksepp, isso também é observado no comportamento
de muitos mamíferos que preferem procurar comida a en-
contrá-la de uma forma fácil.
Entre humanos, a lógica pode ser a mesma em muitas
áreas da vida. Por exemplo, na paquera ou no início do na-
moro, em que existe a constante motivação da conquista,
em contraste com a “calmaria” da relação estável após al-
gum tempo.

Algo maior
Durante uma das mais comentadas palestras do TED, a
maior convenção de ideias do mundo, que acontece anu-
almente na Califórnia, o professor do departamento de
psicologia da Universidade de Chicago Mihaly Csikszent-
mihalyi fez uma pergunta à plateia: “O que faz a vida valer
a pena?”. Em 15 minutos de apresentação, ele chegou à
seguinte conclusão: Não podemos ter uma ótima vida sem
o sentimento de que fazemos parte de algo maior do que
nós mesmos.

20
capa • motivação

Durante a maior parte da vida,


buscamos recompensas –
que podem aparecer em forma
de bens materiais, prazeres sensoriais
ou afeto – e evitamos punições,
mas em geral nos frustramos

Talvez seja esse o propósi-


to maior da nossa motivação.
Além de atender às nossas ne-
cessidades biológicas de so-
brevivência, de sermos recom-
pensados por aquilo que faze-
mos bem feito e realizar com
autonomia algo que importa,
precisamos ter a sensação de
que o que queremos e do que
gostamos tem um significado.
Ganhar dinheiro? Assistir a sé-
ries? Viajar? Receber elogios?
Ter um corpo considerado boni-
to segundo os padrões de bele-
za vigentes? Tudo isso é ótimo.
Mas se empenhar continuamen-
te em conseguir o que se deseja
pode ser muito mais gratificante.
Principalmente se o objetivo não
for obter apenas satisfação pes-
soal, mas encontrar um objetivo
maior para motivar suas ações.

21
atenção

Truque cerebral
para evitar
distrações
Diante de uma situação em que
precisamos nos concentrar, mas vários
estímulos nos atraem simultaneamente,
“escolhemos” apenas um para nos ater

22
atenção

V
ocê está dirigindo por uma rodovia por onde não
costuma transitar e sabe que a saída está em algum
lugar desse trecho da estrada, mas nunca a utilizou
antes e não quer perdê-la. Enquanto olha atenta-
mente para um lado em busca do sinal de saída, numerosas
distrações se intrometem em seu campo visual: cartazes, um
conversível charmoso, o toque do celular.
Como o seu cérebro se concentra na tarefa que está rea-
lizando? Para responder a essa pergunta, neurocientistas em
geral estudam o modo como o cérebro reforça sua resposta
para o que você está procurando, condicionando-se com um
impulso elétrico especialmente forte quando vê o que pro-
cura. Outro “truque”
neurológico pode
Neurocientistas acreditam que a
ampliação dessa linha de pesquisa ser igualmente im-
portante: segundo
poderá ajudar a compreender o
um estudo divulga-
que ocorre no cérebro de pessoas do pelo periódico
com transtorno de déficit de científico Journal
atenção e hiperatividade (TDAH) of Neuroscience, o
cérebro enfraque-
ce sua reação deliberadamente perante tudo o mais, de modo
que, comparativamente, o alvo de interesse ganhe destaque.
E o mais curioso: fazemos isso sem sequer perceber.
Os neurocientistas cognitivos John Gaspar e John McDonald,
ambos pesquisadores da Universidade Simon Fraser, na Co-
lúmbia Britânica, Canadá, chegaram a essa conclusão depois
de pedirem a 48 universitários que fizessem testes de atenção
em um computador. Os voluntários deveriam identificar rapida-
mente um círculo amarelo isolado em meio a um conjunto de

23
atenção

círculos verdes sem serem distraídos por um círculo vermelho


ainda mais chamativo. Durante todo esse tempo os pesquisa-
dores monitoraram a atividade elétrica no cérebro dos estu-
dantes por meio de uma rede de eletrodos conectados a seu
couro cabeludo. Como primeira evidência direta desse pro-
cesso neural em ação, os padrões registrados revelaram que
o cérebro dos participantes do experimento consistentemente
suprimira reações a todos os círculos, exceto quando se referia
àquelas formas geométricas que estavam procurando.
“Neurocientistas estão cientes da supressão há algum tem-
po, mas ela não tem sido tão estudada quanto mecanismos
que aumentam a atenção”, salienta McDonald. “A novidade é
que, com esse trabalho, determinamos como é possível evitar
distração por meio da supressão.”
O neurocientista acredita que pesquisas desse tipo algum
dia poderão ajudar os cientistas a entender o que ocorre no
cérebro de pessoas com problemas de atenção, como o trans-
torno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). E, em um
mundo cada vez mais permeado de distrações, o que é um
importante fator para acidentes de trânsito, qualquer insight
sobre como o cérebro concentra atenção deve despertar tam-
bém a nossa.

24
inteligência

Pintinhos
bons de
matemática
Assim como as crianças,
filhotes de galinha
parecem ter preferência
inata por algarismos
menores à esquerda
e maiores à direita

26
inteligência

P
ense em um número. Agora imagine um maior.
Tente visualizar os dois na sua frente. Se você
enxerga o menor do lado esquerdo, apenas
confirma um dado encontrado frequentemente:
tendemos a posicionar números no espaço da esquerda
para a direita. Cada vez mais evidências, incluindo pes-
quisas com bebês lactentes pré-verbais, sugerem que
nascemos com essa tendência, que pode ser facilmente
influenciada pela cultura e alterada. O curioso é que um
estudo publicado pelo periódico científico Science , por
uma equipe de pesquisado-
Os resultados mostram res da Universidade de Tren-
que as escolhas dos to, na Itália, mostra que be-
bês de uma espécie comple-
animais dependem de
tamente diferente também
quantidades relativas,
preferem colocar os algaris-
e não de qualquer mos maiores nessa ordem.
preferência absoluta Os cientistas treinaram pin-
por algum número, tinhos de três dias de vida
e indicam que essa para andar em torno de um
predisposição é inata painel em busca de alimen-
to. Num primeiro momento,
alguns filhotes aprenderam a encontrar comida atrás de
uma divisão em que havia cinco pontos desenhados. Em
seguida, os cientistas, coordenados pela psicóloga cog-
nitiva Rosa Rugani, substituíram o painel por outros dois.
Quando essas novas separações mostravam duas mar-
cações cada uma, os animais caminhavam inicialmente
para a marca da esquerda em 70% das vezes. Quando

27
inteligência

os painéis exibiam oito, os pintinhos tendiam a escolher


o número da direita, como se tivessem certa preferência
pela disposição numérica.
Os pesquisadores repetiram então o experimento com
outros filhotes, que foram treinados com divisões exibin-
do 20 pontos e testados com marcação de oito ou 32. Sur-
preendentemente, em ambos os ensaios, os animais viraram
à esquerda para os números pequenos e à direita para os
grandes. Os cientistas escolheram como menor o oito em
um contexto e maior no outro para mostrar que o efeito de-
pende de quantidades relativas, e não de qualquer prefe-
rência absoluta por algum número.
Os resultados confirmam fortemente a ideia de que essa
predisposição é inata. A pesquisa indica, porém, que a prefe-
rência pode ser facilmente modificada pela experiência; por
isso, é bem provável que substituí-la não represente muita
dificuldade para cérebros jovens numa cultura que escreve
nesse sentido. Falantes de árabe, por exemplo, mostram ten-
dência espacial inversa. Outros povos que escrevem da di-
reita para a esquerda e os dígitos na outra direção, como em
hebraico, não mostram nenhuma predileção particular.
Os autores do estudo sugerem que esses resultados estão
relacionados com o fato de que cérebros não são simétri-
cos. O hemisfério direito domina o processamento visuoes-
pacial, levando a uma preferência para o lado esquerdo do
espaço para comandar a atenção – o que talvez explique por
que tendemos a pensar nos “primeiros” números nessa di-
reção enquanto contamos. O esquema espacial pode surgir
também de um mapa físico dos algarismos no cérebro, algo
encontrado em humanos no córtex parietal posterior direito,
mas ainda não observado em animais.

28
sentidos

Cheiro da pessoa
amada diminui
estresse
Em um novo estudo, os pesquisadores descobriram que as
mulheres que tinham cheirado a camiseta suada do parceiro
relataram ter menos estresse do que aquelas que sentiram o
cheiro de um estranho ou de uma roupa não usada

30
sentidos

E
stá ansioso com a situação caótica do país, com o
trânsito ou com o compromisso assumido de fa-
lar em público? Tente cheirar a camiseta suada da
pessoa amada. Estranho? Talvez, mas um estudo
experimental recente revelou que o odor do parceiro afetivo
pode reduzir os níveis de estresse psicológico e fisiológi-
co, mesmo quando a pessoa não está presente. Já o cheiro
de um estranho tende a aumentar os níveis de estresse, de
acordo um estudo publicado no periódico científico Journal
of Personality and Social Psychology.
“Muitas mulheres usam a camisa do parceiro e homens às
vezes preferem o lado que a companheira normalmente ocu-
pa na cama quando ela está fora”, diz a doutora em psicologia
Marlise Hofer, pesquisadora da Universidade de British Co-
lumbia.  “Ao observar esses comportamentos, fiquei curiosa
para saber se traziam algum benefício efetivo”, conta Hofer.
Ela e outras três pesquisadoras recrutaram 96 casais hete-
rossexuais para participar do estudo.  Os homens foram ins-
truídos a usar uma camiseta branca por 24 horas e evitar usar
desodorante, fumar ou comer alimentos como alho ou cebo-
la, que interferem diretamente no odor exalado. Após usarem
as peças durante cinco horas, as devolveram ao laboratório. 
As camisetas foram dobradas e congeladas pelo avesso, em
embalagens individuais, com a área da axila voltada para cima
para preservar o aroma, e descongeladas duas horas antes do
início do teste de estresse.  Aliás, há algo curioso no método:
congelar uma peça de roupa preserva o odor do usuário por até
dois anos, segundo as pesquisadoras. Os homens foram esco-
lhidos para usar as roupas porque costumam ter suor mais forte,
enquanto as mulheres tendem a ter um olfato mais apurado.

31
sentidos

As participantes deveriam cheirar, aleatoriamente, uma


entre três tipos de camisetas por um minuto: a de seu par-
ceiro, outra de um estranho ou uma peça limpa, não usada,
sem saber de qual se tratava. As pesquisadoras pergunta-
ram a cada uma se acreditavam que a roupa tinha sido usa-
da por seu parceiro. Na sequência, as voluntárias passa-
ram por um teste psicológico, destinado a induzir estresse,
composto pela simulação de uma entrevista de emprego
e um desafio mental que consistia em contar, de 2027 a 1
(ordem decrescente), o mais rápi-
As camisetas foram do possível, por 17 segundos, en-
dobradas e congeladas quanto eram observadas por uma
pelo avesso, em banca de “juízes”, previamente
embalagens individuais, instruídos a não sorrir.
com a área da axila As pesquisadoras coletaram
voltada para cima para amostras de saliva das mulheres
sete vezes ao longo do experimen-
preservar o aroma, e
to, para medir os níveis de cortisol,
descongeladas duas
o hormônio associado ao estres-
horas antes do início se. Para controlar as diferenças na
do experimento produção de cortisol, as voluntá-
rias foram submetidas ao teste de
estresse durante a mesma fase de seus ciclos menstruais.
As mulheres também responderam ao mesmo questio-
nário cinco vezes, indicando quão ansiosas, tensas ou des-
confortáveis se sentiam numa escala de zero (nada) a 100
(muito). No geral, tanto antes como depois do exercício de
matemática e da entrevista simulada de trabalho, as que ti-
nham cheirado a camiseta do parceiro relataram se sentir
menos estressadas do que aquelas que sentiram o cheiro
de um estranho ou de uma roupa não usada.  Os níveis de

32
sentidos

cortisol caíram principalmente quando a mulher não só to-


mava contato com o cheiro do marido ou namorado, mas
também o reconhecia. “O cheiro associado à percepção de
que o odor é do companheiro reduz sensivelmente a res-
posta do estresse fisiológico”, afirma Hofer.
As mulheres que cheiraram o odor da axila de um estranho
apresentaram nível mais alto de cortisol. No entanto, elas não
relataram se sentir especialmente estressadas. “Isso sugere
que as reações ao hormônio podem representar mobiliza-
ção de energia dentro do sistema metabólico em preparação
para uma ameaça potencial (a resposta de lutar ou fugir) e
que a reação ao cortisol pode não ser acessível à experiência
subjetiva de estresse”, escrevem as pesquisadoras no artigo
sobre o experimento.

33
linguagem

A forma
secreta
das letras
Os idiomas variam muito de uma
cultura para outra, mas raízes comuns
podem ser encontradas na maioria
deles. A ciência tem pistas sobre a
razão de associarmos certas letras com
formas redondas ou pontiagudas
34
linguagem

V
ocê sabe o que quer dizer bouba, takete, malu-
mi e kiki ? Se não tem ideia, não faz mal, pois de
fato as palavras não têm nenhum significado.
Apesar disso, por décadas os vocábulos têm
sido estudados por linguistas fascinados pela maneira
como esses termos podem transmitir significado em mui-
tos idiomas. Pesquisas da década de 1920 já demonstra-
vam que crianças e adultos, independentemente do idio-
ma que falavam, combinavam as palavras bouba e malu-
mi com formas arredondadas e kiki e takete com forma-
tos pontiagudos. O porquê
Consoantes parecem permanece um enigma.
carregar significado além Consoantes e vogais não
das palavras que ajudam têm nenhuma relação ine-
a formar; um estudo recente rente com o significado na
com 71 falantes de francês maioria das expressões.
mostrou associação de A letra “o” em “octógono”,
palavras com b, m e l com por exemplo, não está liga-
formas arredondadas da de maneira “natural” a
formas de oito lados, nem
azul ao tom, à cor que associamos à palavra, por exemplo.
Então, o que haveria de tão especial em bouba e takete ?
Hoje os cientistas apresentam uma resposta parcial a
essa pergunta: consoantes parecem carregar significado
além das palavras que ajudam a formar. Em um estudo
recente com 71 falantes de francês publicado na Langua-
ge and Speech , pesquisadores europeus liderados pela
psicolinguista Mathilde Fort, da École Normale Supérieu-
re, em Paris, mostraram que os participantes associavam
consistentemente palavras com b , m e l com formas re-

35
linguagem

dondas e termos contendo k e t com forma-


tos pontiagudos, independentemente
das vogais com as quais eram
Em diferentes combinadas. Os resultados
culturas há reações sugerem que bouba e kiki
semelhantes a certos podem ser semelhan-
sons, que persistem tes às palavras ono-
matopaicas em in-
apesar da ampla
glês “ crash” (colisão)
diversidade de
e “crunch” (masti-
línguas; cientistas gação), em que as
acreditam que certos consoantes forne-
sons desencadeiam cem um sentido
associações específicas simbólico de som
no cérebro do barulho do im-
pacto, independente-
mente das vogais. A di-
ferença seria que b , m e
l têm esses significados em
vários idiomas, não apenas em
inglês, como k e t .
Um pequeno experimento de acom-
panhamento, no entanto, mostrou que o efeito não é limi-
tado a algumas consoantes. Participantes de uma amos-
tra de 23 pessoas também combinaram palavras com d ,
n, s, p, sh e zh com formas arredondadas e termos com
f, v e z com formatos pontiagudos. Assim como antes, os
indivíduos pareciam ignorar as vogais. O resultado, que o
simbolismo sonoro não pode explicar, sugere que temos
reações fundamentais a certos sons, que persistem ape-

36
linguagem

sar da ampla diversidade de paisagens


melódicas de línguas do mundo todo.
É provável que as consoantes de cada
grupo tenham algo em comum que de-
sencadeia essas associações no cére-
bro, mas os cientistas ainda não desco-
briram de que se trata essa propriedade
– a acústica simples não pode explicar.
De qualquer forma, a descoberta mos-
tra que as consoantes em geral desem-
penham papel excepcional no idioma.
De fato, algumas línguas, como árabe
e hebraico, priorizam as consoantes so-
bre vogais, muitas vezes omitindo es-
tas últimas nos textos. A raiz do termo
“escrever” em árabe é / ktb /. Se preen-
chermos essas letras com vogais dife-
rentes, teremos uma variedade de pa-
lavras relacionadas, como kataba (ele
escreveu), yaktubna (eles escrevem)
e kitab (livro). A presença desses idio-
mas no mundo – e a ausência de qual-
quer um que priorize vogais – ajuda a
reforçar a ideia de que as consoantes
são fundamentais. As vogais continuam
necessárias porque tornam possível di-
zer as palavras em voz alta. Mas são as
consoantes que fazem o trabalho duro
de transmitir significado.

37
especial • inconsciente

Universos
além da
consciência
Há em nossa mente
significados codificados,
revestidos de metáforas
e imagens; sentimentos
reprimidos, porém,
reaparecem disfarçados
e deslocados, tanto
nos sonhos quanto
no cotidiano

por Gláucia Leal

38
especial • inconsciente

O
inconsciente é por definição incognoscível. O psi-
canalista está, portanto, na posição infeliz de um
estudioso daquilo que não se pode conhecer”, es-
creveu Thomas Ogden, em The primitive edge of
experience, de 1989. Na verdade, podemos pensar o incons-
ciente sob duas ópticas. Como adjetivo, é possível associá-lo ao
que escapa à consciência, sem estabelecer discriminação entre
conteúdos dos sistemas pré-consciente e inconsciente. Para
melhor compreender, vale observar aqui que a concepção de
consciência parece semelhante à de atenção: estamos cons-
cientes daquilo para o que nos voltamos e inconscientes daquilo
com que não nos ocupamos.
Poderíamos, segundo essa
lógica, estar conscientes de
situações e fenômenos para
os quais voltássemos nossa
atenção – entraríamos então
no que Freud chamou de
pré-consciente. Aquilo para o que evitamos dar atenção por
acharmos que pode deflagrar perturbação e dor está no in-
consciente reprimido. É possível, nesse caso, falar do incons-
ciente como substantivo, no sentido tópico. Trata-se, assim, de
uma instância psíquica, faz parte da primeira teoria do aparelho
psíquico desenvolvida por Freud, constituído de material recal-
cado, não diretamente acessível à consciência.
A consciência pode ser comparada com o que está visível na
tela do computador. Temos acesso imediato a outras informa-
ções “pulando” para outra parte do documento ou mudando
de janela. Esse gesto seria análogo às partes consciente e pré-
-consciente da mente. Mas pode ser mais difícil acessar outros

39
especial • inconsciente

conteúdos, pois podem estar criptografados ou atachados, po-


dem exigir senha ou ainda ter sido corrompidos, de modo que
a informação esteja embaralhada e, portanto, incompreensível.
A ideia de que guardamos motivações sobre as quais não
temos controle (e, por vezes, nem mesmo, ciência) traz à tona
a hipótese que oferece consistência a comportamentos e vi-
vências que, de outra forma, pareceriam completamente inco-
erentes. Freud se deu conta de que lapsos verbais e de escrita,
falhas da memória, ações confusas e outros equívocos podem
ser, em um nível mais profundo, não casuais – mas inconscien-
temente intencionais. Para ele, os sonhos constituem um cami-
nho privilegiado para o inconsciente, embora não seja possível
desvendá-los completamente.

Lapsos verbais e de escrita, falhas


da memória, ações confusas e outros
equívocos podem ser, em um nível
mais profundo, não casuais, mas
inconscientemente intencionais
Da mesma forma que os sonhos, outras formas de comu-
nicação podem apresentar representações de desejos e ob-
servações inconscientes que empregam os mesmos meca-
nismos oníricos. Os significados inconscientes são codificados,
revestidos de metáforas e imagens. Um exemplo muito co-
mum disso se dá em situações em que sentimos raiva, mas re-
primimos essa emoção por sabermos que desencadeará sen-
timentos dolorosos e em especial quando é dirigida a alguém
com quem temos relação mais próxima. Assim, os sentimentos
reprimidos são disfarçados e deslocados – e aparecem, por
exemplo, quando criticamos outra pessoa.
40
especial • inconsciente

É possível pensar na se-


guinte situação: a orienta-
dora de pesquisa de uma
jovem avisa que vai ausen-
tar-se do país durante um
período crítico do trabalho.
A estudante pode até com-
preender, de forma sincera,
as razões da orientadora.
Mas, prosseguindo a conversa, ela fala de um caso que ouvira:
uma mãe havia deixado o filho pequeno sozinho em casa para
fazer compras, a criança acordou e terminou se ferindo ao cair
da escada. A mensagem inconsciente é clara: a orientadora é
tida como a mãe negligente, a aluna é o filho desprotegido.
A queda faz alusão ao risco que ela julga correr. Consciente-
mente, a garota fala como adulta, mas inconscientemente se
ressente com a orientadora que não cumpre a função de mãe.
A AUTORA Cabe considerar que a consciência tem gradações. É frequen-
GLÁUCIA LEAL é
jornalista, psicóloga te que vivências infantis que evocaram grande vergonha ou
e psicanalista,
especialista em culpa fiquem tão abafadas que se torna muito difícil resgatá-
psicossomática
psicanalítica. -las, sendo possível ter apenas indícios desse material. Já uma
Editora-chefe de
Mente e Cérebro. introspecção momentânea, aliada a alguma capacidade psico-
lógica de tolerar o desconforto de lidar com algum conteúdo
PARA SABER MAIS
Freud nosso de cada dia.
que estava inconsciente, pode levar o desejo que parecia es-
Gláucia Leal. Em: Por
que Freud hoje? Coord. condido ao pleno conhecimento.
Daniel Kupermann.
Zagodoni, 2017. Do mesmo modo, no decorrer de uma terapia psicanalí-
O estranho (1919).
Em: Freud (1917-1920) -
tica na qual o paciente é encorajado a falar e pensar com
“O homem dos lobos”
e outros textos. Sigmund maior liberdade para estabelecer associações, seus anseios
Freud. Obras Completas.
Companhia das e temores tendem a se aproximar, gradualmente, da cons-
Letras, 2010.
ciência. (Leia mais sobre o tema no artigo na próxima pág.)

41
especial • inconsciente

Estranhos
mundos
internos
Esse intrigante aspecto psíquico que
influencia escolhas organiza memórias e
experiências que preferimos esquecer ou dos
quais não queremos saber. E se revela em
sonhos, amores, desejos e fantasias
42
especial • inconsciente

G
rande parte dos nossos conteúdos psíquicos são
inacessíveis ao próprio conhecimento. E apesar
de “escondidos”, surgem disfarçados e influen-
ciam nossas escolhas. Recentemente, ao pesqui-
sar a ação de neurotransmissores, o psiquiatra Eric Kandel,
ganhador do Nobel de Medicina em 2000, comprovou que o
inconsciente tem também o papel de intensificar as emoções
e sensações de angústia que pareciam ocultas. O incons-
ciente freudiano não é apenas a inconsciência, no sentido da
não consciência ou no de uma outra consciência. Trata-se
de uma instância simultaneamente “descoberta e inventada”,
uma vez que é um sistema que organiza nossas memórias,
desejos e experiências que pretendemos esquecer ou dos
quais não queremos saber. Ele existiu desde sempre, desde
que sonhamos, amamos ou fantasiamos.
O psicanalista Jacques Lacan acrescentou que há incons-
ciente desde que falamos com os outros. Os animais não têm
inconsciente não porque não são racionais, ou porque não te-

Características da mente oculta(*)


• Impulsos ou ideias incompatíveis podem existir simultaneamente sem
parecer contraditórios. É aceitável que amor e ódio se expressem ao mesmo
tempo, sem que haja discordância.
• Os significados podem ser facilmente deslocados de uma imagem para outra.
• Muitos significados podem ser reunidos em uma única imagem;
é o que chamamos de condensação.
• Processos inconscientes são atemporais e as ideias não têm ordem
cronológica. Conteúdos referentes a anos atrás podem surgir misturados
aos mais recentes.
• O inconsciente independe do mundo externo, representa a realidade
psíquica, interna. Por isso, sonhos e alucinações são percebidos
como reais.
(*) Identificadas por Freud no texto O inconsciente, de 1915.

43
especial • inconsciente

nham consciência e muito


menos porque estão pri-
vados de afetos e emo-
ções – mas exclusivamen-
te porque não falam.
Na verdade, o que Freud
inventou foi uma forma de
usar o inconsciente para
alguma coisa – aliviar o
sofrimento psíquico e os
sintomas, de modo a tor-
nar a vida das pessoas
mais interessante e, quiçá,
menos dolorosa. Ele criou um método para ler o inconsciente
e libertar o desejo do qual ele é feito, usando uma maneira
reduzida e muito mais concentrada de inconsciente que se
chama transferência. Após algum tempo de análise, muitas
pessoas se perguntam, surpresas, “o que acontece”, ao per-
ceberem que passaram a agir de forma menos repetitiva e
mais autônoma, sem, contudo, saber precisar de forma exata
os momentos nos quais se deram as transformações. É o in-
consciente que “acontece” entre analista e analisando. Com
essa constatação, Freud mudou também nosso entendimen-
to do que é uma patologia mental. A mesma neutralização do
inconsciente se dá com o que chamamos de “psicológico”.

O vizinho, o passado, a amnésia


Se o inconsciente sempre existiu, o que Freud inventou foi
um método de tratamento, usando o inconsciente como hi-
pótese de trabalho e reforçando a ideia de que esse aspecto

44
especial • inconsciente

psíquico é algo que ocorre na relação entre pessoas, na for-


ma como nós nos interpretamos e nos entendemos – ou nos
desentendemos. Podemos pensar que o inconsciente tem
três capítulos principais: o sexual, o infantil e o recalcado.
São as três figuras deste estranho que nos habita: o vizinho
lascivo que “só pensa naquilo”, o passado de enganos e ilusões e
a amnésia deliberada para coisas desagradá-
veis. Para Freud, sonhos são a “via régia
para o inconsciente”. Segundo ele,
porém, aquilo de que nos lembra-
mos ao acordar é resultado da
elaboração onírica, resultante
da passagem do conteúdo la-
tente para uma representação
consciente, o que implica um
processo de deformação da-
quilo que está escondido em
nossa mente. Para que esse “dis-
farce” ocorra, os elementos são
fundidos, combinados, deslocados e
os pensamentos, expressos em palavras,
sensações e principalmente imagens.
Em 1919 Freud escreveu o ensaio das Unheimliche, na
maioria das vezes traduzido para o português como O es-
tranho e, mais recentemente, por Paulo César de Souza, di-
reto do alemão (e publicado pela Companhia das Letras),
como O inquietante. Souza reconhece, porém, que é “des-
necessário chamar a atenção do leitor para a insuficiência
desse termo”. Em seu texto, o criador da psicanálise não tra-
ta propriamente do inconsciente, mas de temas afins, como

45
especial • inconsciente

castração, compulsão à repetição, pulsão de


morte, narcisismo e o duplo, tomando
como ponto de partida o conto de
E. T. de A. Hoffman, O homem
da areia. Para Freud, o estra-
nhamento tem origem em
traumas da infância, é recal-
cado no inconsciente e se
torna algo, de alguma for-
ma, “familiar” e ao mesmo
tempo “suspeito”; ele chega
à conclusão de que o inquie-
tante é algo já conhecido, en-
clausurado no inconsciente – e
quando vem à tona causa sensação
de medo, terror, estranheza.
O conto de Hoffman revela estreita ligação entre o medo
de perder os olhos com a castração na fase edípica. Nessa
época, “poetas e escritores já dominavam um pensamento
diferente daquele racional imposto pela ciência positivista
que Freud bem articulou à nova ciência humana emergen-
te, a psicanálise”, escreve a psicanalista Sandra Edler, na
apresentação do livro Freud e o estranho, organizado por
Bráulio Tavares (Casa da Palavra, 2007). “A qualquer mo-
mento podemos nos confrontar com um episódio estranho,
sem explicação à primeira vista, e por isso mesmo pertur-
bador; mas Freud nos lembra de que vamos acabar por
reencontrá-lo ou ainda reviver a inquietante sensação de
estranheza que experimentamos. (Leia mais sobre o tema
no artigo na próxima pág.)

46
especial • inconsciente

A mente no
laboratório
Um século depois de Freud apresentar a teoria
de que habita em nós uma instância sobre a qual
não temos controle – mas se mostra em nossas
ações e pensamentos – muitos cientistas se
rendem a evidências e buscam estudá-la

47
especial • inconsciente

H
á mais de um século, quando o criador da psica-
nálise lançou a ideia de que temos em nós um
aspecto inconsciente, foi inevitável que fosse de-
flagrada a desconfiança dos cientistas, que se per-
petua ao longo de décadas. Não é para menos, a proposta de
Sigmund Freud é intrigante. Segundo ele, essa parte da mente
abriga pensamentos, desejos e lembranças que, por seu teor
excessivo, sexual ou violento, não suportamos manter por per-
to – e, por isso, são removidos para uma espécie de “porão”
psíquico para que não tenhamos de lidar com eles a cada ins-
tante. Apesar de nossos esforços para manter esses conteú-
dos recalcados, eles continuam vívidos e vez por outra retor-
nam mais ou menos disfarçados.
Como esse aspecto não é, por definição, facilmente acessí-
vel, não é simples estudá-lo – embora se apresente inúmeras
vezes por meio de atos falhos e no conteúdo dos sonhos, por
exemplo. Depois de muitas abordagens buscarem negar ou
ignorar essa instância – o que, aliás, é compreensível, visto que
parece realmente desconfortável ter um “estranho morando
dentro de nós” –, a ciência tem se rendido e procurado com-
preendê-la melhor.
Atualmente, o domínio da
inconsciência, descrito mais
genericamente no âmbito da
neurociência cognitiva como
qualquer processo que não
permita a ativação da cons-
ciência, é rotineiramente estu-
dado em centenas de labora-
tórios que usam técnicas psi-
cológicas objetivas baseadas
em análises estatísticas.

48
especial • inconsciente

Dentre tantos, dois experimentos revelam algumas capacida-


des da mente inconsciente – embora nem de longe na profun-
didade proposta por Freud e estejam mais ligados à percepção
do que ao profundo universo da inconsciência abordada pela
psicanálise. Os dois experimentos abordam um aspecto interes-
sante dessa (ainda) misteriosa instância psíquica: ambos bus-
cam compreender processos de “mascaramento”, a ocultação
de objetos da cena apresentada. Ou seja: as pessoas que parti-
cipam dos estudos olham, mas simplesmente não veem o que
seus olhos captam.
Ao longo do tempo, várias O primeiro estudo resultou
abordagens psicológicas de uma colaboração entre os
buscaram negar ou ignorar pesquisadores Filip van Ops-

a instância inconsciente em tal, da Universidade Ghent,


Bélgica, Floris P. de Lange, da
nós, o que é compreensível,
Universidade Rad-boud Nij-
já que para muitos é megen, na Holanda, e Stanis-
desconfortável ter um las Dehaene, do Collège de
“estranho morando em nós” France, em Paris. Dehaene,
diretor da Unidade de Neuroi-
mageologia Cognitiva (Inserm-CEA, na sigla em francês), é mais
conhecido por suas investigações sobre mecanismos cerebrais
responsáveis por contas e números. Ele explora até que ponto
uma simples adição ou uma média podem ser calculadas de for-
ma automática – o que ele acredita que ultrapasse os limites da
consciência. Somar 7, 3, 5 e 8 geralmente é considerado um pro-
cesso cognitivo consciente e sofisticado.
Porém, Van Opstal e seus colegas provaram o oposto de for-
ma indireta, mas bastante convincente. Durante o experimento,
a imagem de um conjunto de quatro números arábicos com

49
especial • inconsciente

um único dígito (1 a 9, excluindo o 5) era projetada rapidamente


numa tela. Voluntários tinham de indicar, o mais rápido possí-
vel, se a média dos quatro números era maior ou menor que 5.
Cada rodada era precedida por uma pista oculta que podia ser
válida ou inválida. A pista consistia num flash mostrando outro
conjunto de quatro números cuja média era menor ou maior
que 5. Estes eram precedidos e seguidos por marcas hashtag
ou jogo da velha (#) no lugar dos números visualizados de re-
lance durante o flash. As marcas efetivamente escondiam as

Em menos de 3 segundos somos capazes


de detectar imagens incongruentes;
sofisticadas redes neurais
do córtex codificam as imagens,
pois aprendemos que certos
objetos combinam e outros não
pistas de modo que, conscientemente, não era possível ver
esse conjunto de números. Convidar os participantes a adivi-
nhar se a média dos quatro números escondidos era menor ou
maior que 5 também não funcionou: ela era aleatória.
No entanto, a pista ainda influenciava a reação dos participan-
tes. Quando a dica implícita era válida, a resposta final era cons-
cientemente mais rápida que quando a pista era inválida. Na
ilustração, a média dos quatro indícios invisíveis (3,75) era menor
que 5, enquanto a média dos números-alvo visíveis era maior
que 5. Resolver esse conflito requer mais tempo de proces-
samento (cerca de 1/40 de segundo). Isso significa que a pista
aciona a atividade neural representada pela declaração “menor
que 5” que, por sua vez, interfere no estabelecimento imediato

50
especial • inconsciente

de uma associação de neurônios representando “maior que 5”.


Essas pistas invisíveis e indetectáveis influenciam no compor-
tamento e sugerem que “saber sem se dar conta disso” pode, de
alguma forma, ajudar a estimar a média dos quatro números de
um dígito. É pouco provável que nesses casos as pessoas ajam
seguindo as regras algébricas precisas que as crianças apren-
dem na escola. Mas o processo pode basear-se na heurística
(método para fazer descobertas). Por exemplo, para cada nú-
mero maior que 5, realmente aumenta a probabilidade de o vo-
luntário apertar o botão “maior que 5”. Este é apenas o último de
uma batelada de experimentos que demonstram a capacidade
de “codificação do conjunto”, uma habilidade da mente de esti-
mar, em poucos segundos, a expressão emocional dominante
de uma multidão de rostos ou das dimensões aproximadas de
pontos agrupados, mesmo que as faces ou os pontos isolada-
mente não sejam conscientemente identificados.

Capa de Harry Potter


Creio que a possibilidade que temos de agrupar rapidamente
todos os diferentes elementos contidos numa cena e colocá-
-los no mesmo contexto é uma das principais características da
consciência. Intrigados com essa questão, os neurocientistas
Liad Mudrik e Dominique Lamy, da Universidade de Tel Aviv, e
Assaf Breska e Leon Y. Deouell, da Universidade Hebraica em

51
especial • inconsciente

Jerusalém, dispuseram-se a testar até


Num piscar que ponto é possível integrar incons-
de olhos cientemente todas as informações de
Participantes do experimento um único quadro numa experiência vi-
viam quatro números durante sual unificada e coerente.
600 milissegundos e precisavam
decidir rapidamente se a média Os psicólogos israelenses usaram a
ultrapassava 5. Máscaras com “supressão por flashes contínuos”, uma
marcas hashtag (#) garantiam que
os quatro números sugeridos não
técnica poderosa de ocultação, para
seriam vistos conscientemente; no tornar as imagens “invisíveis”. Nesse
entanto, a média pode ser estimada processo, padrões coloridos aleatórios,
de forma “automática”.
que mudam rapidamente, são dispa-
rados na forma de flashes em um dos
olhos enquanto a imagem de uma pes-
soa realizando qualquer tarefa vai de-
saparecendo lentamente no outro olho.
Em poucos segundos, a figura torna-se
completamente invisível e o observa-
dor vê apenas formas coloridas. A cena
que vai se tornando gradativamente
mais intensa acaba finalmente irrom-
pendo e o espectador consegue vê-la.
Algo parecido com a capa de invisibili-
dade de Harry Potter que, com o passar
do tempo, vai sumindo e revela o que está por baixo. O aspec-
to fascinante do estudo de Liad Mudrik é que o tempo até a
cena se tornar visível depende do conteúdo da imagem.
Imagens reais de uma mulher colocando uma pizza no
forno, um garoto mirando um alvo com arco e flecha ou
um jogador de basquete saltando para fazer um arremes-
so levam 2,64 segundos para se tornar visíveis, enquanto
os quadros não naturais são mascarados por 2,50 segun-

52
especial • inconsciente

dos. A diferença é pequena, mas significativa:


a mente inconsciente detecta coisas incon-
gruentes nessas imagens. Uma mulher coloca um tabuleiro
de xadrez no forno, a flecha a ser disparada é substituída
por uma raquete de tênis e a bola de basquete se transfor-
ma em uma melancia.
Os psicólogos verificam se as duas imagens, a congruente
e a incongruente, estão realmente invisíveis e não podem ser
distinguidas uma da outra quando mascaradas. Essa desco-
berta implica que a inconsciência reconhece que há algo er-
rado nas imagens, que o objeto manuseado está fora do con-
texto. A forma como a mente conduz esse processo é mui-
to intrigante, talvez porque as vastas e intrincadas redes do
córtex cerebral que codificam as imagens tenham aprendido
que certos objetos combinam, outros não.
Considerando o número quase infinito de combi-
nações de objetos e contextos, é possível que essa
solução seja realizada pelo cérebro? Ou será que
as técnicas de ocultação suprimem a visibilidade
da imagem, mas não impedem completamente o
acesso consciente a elas? Somente mais pesqui-
sas poderão responder a essas perguntas. Assim,
talvez no futuro possamos finalmente conhecer a
capacidade da inconsciência cognitiva e ter mais
informações sobre o papel fundamental desempe-
nhado pela consciência neste nível mais prático. Já
para acessar aspectos mais profundos da estância
inconsciente proposta por Freud nada melhor do
que recorrer à psicanálise.

53
livro | lançamento

O oráculo da noite – A
história e a ciência do
sonho. Sidarta Ribeiro.
Companhia das Letras,
2019. 472 págs. R$ 79,90.
E-book: R$ 39,90.

Do misticismo
à psicobiologia
Livro de Sidarta Ribeiro trata do sonho,
uma atividade mental governada por emoções
e processos neuroquímicos, que nos permite
simular futuros possíveis, esquecer,
criar, ensaiar comportamentos e aprender

A
o longo da história, as experiências oníricas guiaram decisões de líderes
e várias culturas, e ainda hoje muitas pessoas fazem escolhas (como
adiar viagens, por exemplo) com base nos sonhos. Em linhas psicote-
rápicas que valorizam o papel da instância inconsciente, como a psicanálise
e a psicologia analítica, essas manifestações noturnas são recursos importan-
tes para compreender desejos e processos mentais nem sempre óbvios. Em O
oráculo da noite, o neurocientista Sidarta Ribeiro, pós-doutor pela Universidade
Duke, se pergunta – indagações que certamente já passaram pela cabeça de
muita gente: o que é o sonho, afinal? Qual seu propósito? Como compreender
suas mensagens simbólicas e detalhes tantas vezes intrigantes?

54
livro | lançamento
 Para oferecer respostas, de forma instigante e inteligente, o professor de neu-
rociência, fundador e vice-diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal
do Rio Grande do Norte (UFRN), busca embasamento em consistentes informa-
ções antropológicas, psicanalíticas e literárias, além das mais recentes referências
sobre biologia molecular, neurofisiologia e medicina. O neurocientista assinala,
por exemplo, que experiência onírica foi provavelmente a primeira demonstração
para nossos ancestrais de que a percepção sensorial pode ser apenas um teatro
de ilusões. No momento em que foi possível experimentar vividamente a riqueza
dessa formação psíquica, e lembrar-se disso na vigília, tornou-se possível perceber
que nem tudo que é pensado deve corresponder a uma percepção ou ato motor na
vida real. Daí para a imaginação consciente (incluindo o planejamento do futuro
e a lembrança do passado, articulados)
Desvendar os mecanismos e funções pode ter sido um pulo.
oníricas esclarece muito sobre a Colunista de Mente e Cérebro du-
rante 12 anos, Ribeiro recorre a histó-
origem da consciência humana;
ria, filosofia, narrativas sobre amores,
o uso do sonho como tecnologia monges e demônios para compor um
psicológica e pedagógica é um panorama atraente e ao mesmo tempo
recurso pessoal poderoso aprofundado. Ele ressalta que, hoje, a
ciência sabe que sonhar – uma ativi-
dade mental governada por emoções, motivações e processos neuroquímicos –
nos permite simular futuros possíveis, esquecer, criar, ensaiar comportamentos.
E aprender durante a noite sem nos submetermos aos riscos da realidade.
O ato de compartilhar essas experiências por meio da linguagem talvez te-
nha inaugurado a religião, confirmando para todos os membros da tribo que
além dessa realidade há outras, fato atestado por todos ao despertar de manhã.
Desvendar os mecanismos e funções oníricas esclarece muito sobre a origem
da consciência humana. Embora numa época em que se dorme tão pouco os
sonhos muitas vezes sejam desacreditados, menosprezados ou simplesmente
esquecidos, seu uso como tecnologia psicológica e pedagógica se torna cada vez
mais poderoso, à medida que adquirimos conhecimento sobre a melhor forma
de dormir e sonhar.

55
Coleção

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