Você está na página 1de 176

.

\.

Poliedro
da História
direcção de Fernando Catroga

Como é que a Polícia é utilizada pelo Poder?


Qual a sua função? Questões, tão velhas quanto o mundo,
já colocadas por Platão, inerentes· a toda organização social
e que séculos de história ainda não conseguiram respond~r.

A Polícia deverá ser um instrumento nas mãos da política?


Uma ferramenta de opressão, de abuso de Poder?
Como é que outras civilizações se protegeram de~tas t~ções?

Baseando-se em dados históricos e fazendo um enquadramento


filosófico, Hélene L'Heüillet dá-nos um olhar lúcido
e documentado sobre a Polícia.

Esta obra foi distinguida com o prémio Gabriel Tarde da Associação


Francesa de Cri.mmologia
:iJ1'/
©
(J
POLIEDRO PA HISTÓRIA
l:Y
:(1)

-~
'~
'@
~

"@)
~
@
@
ISBN 972-46-1421-2
~-(3. (Edição original: ISBN, 2-213-60922-5)

~@~ © Librairie Arthême Fayard, 20_01


:@ Direitos reservados para Portugal
~® EDITORIAL NOTÍCIAS ..
;@ Rua Bento de Jesus Caraça; 17
1495-686 Cruz Quebrada --- .....
~~ E-mail: geral@editorialnoticias.pt
Internet: www.editorialnoticias.pt
~~~ )Rl'ENTRETENIMENTO~:
%@
,·:@ Título original: Base politique, haute police
Tradução: Luís Fonseca
;:® Revisão: Silvina Sousa
Conceito de capa: 3designers .gráficos

=:e® Edição: 01 407 009


l .ªedição: Setembro de 2004
Dep6sito legal n.º 215 574/04

ALTA POLÍCIA, BAIXA POLÍTICA


?@
''.'·
Pri-impressão, impressão e acabd.men~o:
:tvlultitipo - Artes Gráficas, ~da. UMA ABORDAGEM HISTÓRICA DA POLÍCIA
ifü e
0)
· 'Nesta colecção:
HÉLENE L'HEUILLET im '
e
MORTE EM LISBOA ;ffi
Ana Cristina Araójo .e <

:Ji
..'.BRUXARJAE suPERsTiçÃ~-~·2.~tdição
-)osé Pedro Paiva ·
é'
o;.; "'
:.:..

A GUERRA EM l?ORTUd.At; NOS FINAiS .DA IDADE MÉDIA
João Gouv_eia Monteiro

A TERNURA AMOROSA
Maurice Daumas

"O REPUBLICA~1SMO EM PORTUGAL- 2.• tdiçdo


F~rn~a~n~90 Catroga

HISTÓRIA DAS PRÁTICAS DE SAúDE A~TA POLÍCIA, BAIXA POLÍTICA


Georges Vigarello ·
UMA ABORDAGEM HISTÓRICA DA POLÍCIA
·o TROVADOR GALEGO-PORTUGu"ts E o SEU Mt!NDO :~
António Resende de:Olíveira . · "\
Tradução
· NlJDEZ E PUDOR Luís Fonseca
Hans Peter Duerr

ALTA POLfOA, BAIXA POLfrrCA


Hé!~ne L'Heuillet

notícias
editorial
I*''"'
i'
~
/.-.
~
~
~
-~

.;~
Se o tenente de polícia quisesse comunicar aofi-16so/o
~) tudo aquilQ qlfe sa'f;>e, tudo aq~ilo que descobre,·:tudo o
que vê, e dar·lhe a conhec"er certas cQisas secretâs .sobre-·
as quais ele apenas está suficientemente informa.dó, _'nada
<.fe mais curioso nem instrutivo sairia_ dá p~na dÓ filósofo.

Louis Sébastian 1\[ercief, I;e,- Tab~eau -_de. Paris


,(1781-1789), Paris
Mercure de Frarice, 1994, Tomo 1, p. 171.

::®
~ID
~~

~:
2@
ffi
;(·,~-
~ ~
~ e
,~
~,j e
~
''
!
·~ €t
/

1 ®
'i @>.
\ @
®l INTROI:JUÇÃO
®
® Interrogar-se, enqti.anto-filósofo, acerca da polícia pode parecer surpreen- 'G;
~ dente. Se é frequente perguntarmo-noS acerca do que faz a polícia.-já é mais

® \
raro interrogarmo'-nos acercá ·daquilo que ela é. A ambição ·deste livro é tentar
defini-la e_ escI~ec~ra~--suaS',rey?.Ç.õeS:_com·:a.política.:
~ No entanto, asSim que adopt"àinos lfm ponto de vista filosófico, o:. termo
@i; <<polícia» ou significa demasiado ou demenos. Na sua acepção de «goveino»,
~-
recobre toda ·a extensão ·da política. A palavra "J?p}i;l_ejqf,~ de que deriva «po-
@ •'
'
lícia» - apenas designa, na sua.origem grega, a forma da Constituição e do
E]f;- ·governo. Interrogarmo-nos soh~e a polícia significa, neste caso, estudar as
teorias de governação ou procurar saber qual o melhor regime. A filosofia é
® geralmente tida por uma iniciativa nonnativa e formal, que tem por objectivo
@ elucidar um dever-ser, escla'recer normas teóricas, fundar ou trazer à luz prin-
-@ cípios, eventualmente propor fins:, «O tema da filosofia Política é mais o re- -~

gime (politeia) do que as leis·» 1, e esta é essencialmente uma interrogação so- /.


"""
\-:;j;·

§?
•,,,,_
bre a «natureza.das coisas políticas· e da melhor ordem política» 2 • Não existe
aqui lugar, ao que parece, para uma teoria da instituiçãÔ poli~iª1. ·Sê' tomar-
@ mos o termo <<polícia» na Sua acepção contemporânea, o próblema é exacta--
mente o inverso, mas o resultado é idêntico. Em,, vez· de ser·.Qiss'olvida'nO
pensamehto·polítiCo, a oolíci:éé-eXcluídâ-. Com efeito, que diZer de uma ins-
tituição do Estado detentora da força públi~a? Os meios de.aplicar a lei inte-
ressam pouco ao filósofo: o s.eu objecto é á forma da lei, não _a força encarre-
gada de a aplicar. Além disso, como ultrapassar a -dificuldade, uma vez que
tomar a instituição policial como objecto Significa expor-se ao encontro com

l STRAUSS, Leo, Qu'est-ce que·la philosophie politique? (1959), trad: do inglês por
O. Sedeeyn, Paris, PUF, 1992, p. 38.
2 Jbid., p. 59.

9
-~
.:!

~.
:,r· ~
1i
·~ hl3Lb..:"1E L'P.EU11,LET ir INTRODUÇÃO
·-. f.,,
~ os obstácuios que lhe são inerentes? Com efeito, por tradição, a instituição [ existe Estado sem polícia, sem forças annadas e todos· os outros meios mate-
·~
:~
policial desconfia do interesse que lhe é votado. O segredo do qqal a institui-
ção se rodeia, a desordem labiríntica que mantém por vezes inte.ncionalinen- i
.!\.·
riais que impliquem a defesa do territ6rio5 .»

·~.
te, a multiplicidade de formas e seus conteúdos contribqem para fazer da po- Este traba1ho pretende inverter estas perspectivas. Consiste .num estudo fi-
--:--:-
~ lícia uma ,te,a~_idade múltivla e inacessível3 . Para aqqele que vem raciocinar losófico da polícia, tomada.no seu sentido actual. Pràcede da· idei~ dé.Que ·ela.)
enquanto filósofo, podemos juntar-lhe dois obstáculos suplementares. O va- não é um simples meio_ da_.políclca ...-.mas_um elemento-consdtuÍi_VO da:.~ua es- ·~.
ê CN..;.k
.<::- !@
lor atribuído à acção priva o pensamento conceptual da sua legitimidade e a
própria natureza da instituição torna penosa uma abordagem teóric.a. Com
u ,.
ci.~')
c1..li;'à'
. ~·
trutura. que participa na definição' dos seus fins· e. não é desrirovi.dá de· Sentido._
Uma tal intenção implica uma al?ordagem da poHtica ·de forma distinta ~a
efeito, se nos reportarmos à definição jurídica .dà· polícia, ela parece mais não «alta política>>, e a tentar agarrar-as .coisas «por· baixo~>.._· A investigação_.das nor-
-'9 1
' it
mas e dos prin~ípios, a oposiÇão do legítimo e dO·ilégítiin~;,d~ jUstO e dO.injus·
ser do que um auxiliar dos poQ.eres. ·~%-
..-:-;-----
.;~ tO em matéria de Constituiçã9 e regime não seni?am a_qui de _fi(r.cóndutor. ~-
O Vocabulaire juridique de Gérard Comu4 distingue quatro sentidos para
·~
;li ta-se de guestjgnar nãg asH~e ser maS póroue é:ãguiló que é: Neste
-<J! o termo «polícia», que correspondem a graus de especificação progressiva. No
.~. caSo, o estudo. da polícia toma~se não simpleSmente possív~f!n.as ·de5ejável. . (21<.
Ç\ primei.ro sentido - o mais geral e mais antigo - , significa «ordem, sanea-
1.·'·: ··0_:,)"

i@
mento, controlo, para a salvaguarda do Ín\eresse geral>>. O termo especifica-se f A polícia recobre com efeito o "çampo real da OOlítiCa. ·O·«baiXO»· da·políiica é a · l&'.1.<e,, e;,
. política concreta. Deixar de tcimar a polítiéa «pel?·alto», para._~e~tar unia:«expli- .~~. &Dl.í-tk.
de uma primeira· maneira, para se restringir ao «conjunto das r~gras imp9stas
pela autoridade pública aos cidadãos com .vista a fazer reinar a ordem, a tran-
quilidade e a segwança no Estado». De marieira ainda mais específica, desig-
f
efF
cação pelo baixo6», é tentar evitar JJ.ma «Ontologia>~ e uma
«metafisicado poder7». --
\Abordar a política pela polícia1omporta um d~plo significado:· !ell~ uma ·~'~.·)!!.
I} V
·. · .:·:·: 1
. Cc\ <p;,.w,;
aproximaCão ·filoSó:fiCa -da políéia __: no que contém· de política - e perceber

i•.:'
na uma das três matérias penais, aquela que «agil,lpa as penas e as infracções , ~

'

de menor graviê.a~e»-(as contravenções, por oposição.:aos delitos: e aos crí-. *:. ~
o.lugar da políéia na política~ A partir·daí, os obStácul6s sãÓ .tiampo1ins. As
qti~StõeS do segredo e·da·visibilidade, da ordeni e da desordem:,' da ins~men-
mes). Por fim, toma o sentid9 de instituição policial, que p9demos definir
como «a força pública que tem por funÇão fazer respeitar as regras de gover- talidade e da a17tOrtoniía toniarn-se· éondições de inteliiibilid,ade da prática.e dó

~@
no». A polícia, neste sentido, distingue-se em polícia.administrativa, encarre-
gada de manter ou restabelecer a ordem pública, e policiajudic_iária, ·cuja acti-
vidade consiste em «constatar as infracções, procurar os SeuS autores e ~unir
as provas que pennítirão a determinaçãó da culpa destes últimos». «Braço ar-
i ~-
:,;,:.
·iJ:.
.. ·;,,.
discurso policial: É a partir dos·problerµas-qUe se põem que podemos tOrnar
possível uma aprOXimação conceptual das. actividades poliCi.ais: reunU:.1nfor-
mações, idelltifiCar;.inspeccio~ar. regillar a circulação,. garantir a ~egm:ilnça .
Para iSso é ·necessáriÕ· recorrer ~·história, à··so.Ciól6gia, ·à:é.iêncJa p.Õlítica e
mado» dos poderes executivo e judiciário, a polícia não parece dar nenhuma• W,~: também a:o direito. Tràta-se, pclmeiro quetudo,.de umã shnpl~_s ·questãO ·_de bom
~. senso. A partir do momento em.que.se pretende refl~.CÜr .ac.erê;(do signifiCado da
~·&
\'.';
";.. ideia da finalidade da política. Em todo o caso, podemos argumentàr acerca da ~;'.'
sua necessidade, como o faz Julien Freund: «A força é 4ffibém_ o meio usual .,,~' existência de .uma instituição chamadà «polícÍa» no··EstadO··e··s~. deci~é ·assim -- ..,
-.:;,.~; .:@ exercer um intereSse P,.eÚl"polítici.rio seu aSpeCto <<baixo»~ P~-~_.coriv6t;riente
da a:ctividade política corrente, qualquer que seja a natureza dos objectiyos de
it conhecer oobjecÍtJ,dd.qual.noS ocu.Pamos, e Por,issq diriginiló'-ri~S·_aos.:e~peci<l­
um Estado, para assegurar a segurança ext~rior e manter a ordem iriterior. Não
listas da pÓlíCia: historiador~s~ ·sOció~ogos, ·politÓlog·Os, CriID.in6log9s, ·jÚristas.

2:@ :: {{Corno o compàrtamento criminal, a acção policial é· Um objecto. que opõe uma resis- ~~' A interdisciplinaridade é aqui o corolário
. do carácter
, . <<transdisCipllilarsi
. do Opjecto.

:;:,~ tência deliberada ao projecto de conhecer», BRODEl,JR, Jean~Paul, «La police:.mythes etrea- ", F-,.; I~.'
ii\{r {·í.':·.
"~""'
~~1~
'\::} lités», in Criminologie, 1984, Vol. XVII, n.º l, p. 9; «No coração deste processo, encontra- 5 FREUND, Julien, Qu'est-ce qué la politiqUe?, Paris, Sirey; 1965, reed: -Seuil, col.' ~;points»;
~ -se a prática do segredo que, partilhado, constitui o cimento. Para manter a oidein, a. policia

l'@
:1~
alimenta.se da desordem social que ela alimenta e recusa ao m.esmo tempo», ÜLEIZAL, Jean-
-Jacques, GAm~DOMENACH, Jacqueline, e JouRNEs, Claude, La Police, le cas des dimo-
craties occidentales, Paris, PUF. 1993, p. 281; GLEIZÁL, Jean-JaCques,~ Désorcffe policier,
Paris, PUF, 1985; HEILMANN, Éric,.Des hirbiers auxfichiers: L'histoire du renseignement
'I".·: '
~~
6

ris, GaUimard-Seuil, 1997, p. 46.


. .
·
.. .
.FouCAULT, Micbel, Ilfaút déjendre la soctité, curso.no· Collêge de Fiancé,·1976, Pa~
·
7 FOUCAULT, Michel,-«Deux e{õsais sur le sujet et le pouvoir», in D~YFU~,-Hubert; e RA-
BINOW, Paul, Michel Foucault, unparcours philosOphique (1982}, trad.' do· inglês por.F. Du·
.

li
dans la police, teSe, Universidade de Estrasburgo, 1991.
4 CORNlI, Gérard.(dir.), Vocabulairejuridique, Paris, PUF, 1987, p. 627. rand~Bogaert, Paris Gàllimard, 1984, reed. col. «Fo!iÓ», p, 309. · ·-...

·e>:
'.:.:~. 10
ui
~r
11
~ .;:;;;, ·~
fil0 HÉLÉNE L'HEÚJLLET ~ IN-:rRODVÇÃO ,,
1l ~
11@
1l •'
· No.en_tanto, a plu~idade das disciplinas poderia aparecer como um Pobre ré- sujeito («ser nomeado polícia»);e as «premissas não postulam uma e a outra ,.

1!0 . cúrso; cô~vocad_as aO :Simples·.-tíÜilo de poSitividade prévia e de concessão mini- ,if' questão da mesma forma 10»: num 'dos casos, a polícia é diferente dela própria
~ t+"
iA rriai.:ao effipirismo, ~- disCi_plin~.-exteriQres à filosofia seriam consideradas de conforme a activi_dade (as policias não fazem todas a mesma coisa); nO outro ~ :,,
~., -0 maneira estritamente instrumental, despojaqas elas problemáticas críticas que a5 caso, conforme o nome (nem tudo o que faz a polícia tem o nome de policia·
l (".) sustêm. Ma_s a restitu'~Ção fiei -de-_cad·a proj;cto crítico faria, Por outro lado, cor- rne_nto e nem tudo o que tem nome de policiamento chega para definir a polí-
~· ,2) cia). A especificidade da questão ftl0S6fica surge então aqui ao mesmo tempo
re·r o ris;o de uma di_SSolução dÔS saberes uns nos outros, fosie pela redtJção das IJ;
~·.·. f
~· e.:4~c. J

I
diferenças, fosse pelá agre"gaÇão: de aproximações discordantes, até mesmO-in- que a sua necessidade. A questão_ «O que-é?» parece com efeito dever ser posta
@
A

comp~tíveis. A inteidtSciplinaritj.ade, na medida em que se pode defull.r como Um
processo controlad~ 4e empréstiirios recíprocs:is; não é aqui mais' do qt!e a passi-
bilidade de entender ·6_ alcance dos conceitos, .de _tra_nspor_·anáJises e de exportar
·-:;-
_-l
pela única razão de, o que quer qq:e se.diga, uma definição ter-sido postulada.
Falar «da» oolícia no singular. tentar pensar «a» políCia como um cónceito,
não é de maneira alguffia diZ& que a polícia é imutável na história ou idêntica
r,IM
tJr,
-\( "' ,,_
·~

r~ (/e. . ;:.;,;
@ rri_étodos· - ó que o e_Strito resJ>eito das front~Íras diSciplinares interdita. Trata-se ~-
{.-' a ela própria em cada uma das suas.tarefas. Mas opor a polícia que socorre à po-
l:i-'
lícia que reprime é desconhecer qt.Ie socorrer e reprimir normalmente não se _se- ,....,,
@'· dé- alguma fonna de·'.idmitir, entre disciplinas, a prática da livre troca que, se
,J.'i.·
reqUerTegulamentos e_ controlós;·Ilão interdit~- o import-export. param. de tal fonna pare.ce lógico que a polícia, na sua missão pastoral, tenha
@
Esta livre-circulaÇão siipõe,~ntretanto, qUe se resolva a querela do uno e do •f;· de reprimir para proteger de µm possível perigo ou de um eventual agressor e -
© niúltiPio que opõe a filosofi~ àS ciênci~_-socia"is. Perguntar-se em que é que con- que na sua missão repressiva ela se. «cubra>> sempre, talvez abusivamente, da ~

siste- a.polícia é, ao--q~e par~Ce,:_Jiostular,uiria ~nidade: unidade conceptlj.al e, sua finalidade pastoral: não é súpo~to que a repressão seja ela mesma.d seu-pró-
0 aqli~m, un.idà:de coloCacta pelª slnipleS ope~ç~o da nomeação. O sociólogo Da- prio fim, mas um meio para socorrer aqueles que estão ameaçados. Para além ·
·-.:,;

·® vJ:_d-B _ay1ey parece api~sentai' :a-e8té re_speito uma objecção forte. A impossibili- de diferenças, que são apenas da ordem da imagem, é legítimo procurar uma de-
@ dade -dé. definir a p61ícia resúltft, para' ele, dos estudos de polícia comparados, finição que se apoie sobre um conceito.-Ainda aqui, é agarrando as coisas por
qii_e t6Stemunham qu_~- nãci- ·se_·!n~Ontrá _j~i:naiS em 1,ugar-algtim nenhÚma coisa baixo que se pode avançar.A pcilícia está encarregada, de maneira indetermina· Jc,,,.~ ~ ç """'
® L
@
qtie seja. «ii>>_ polícia.!:Não· eXiste com _:ef~ito nenhwna relação constante entre a da e em diferentes-graus. daquilo gue-«não está.bem>>. realmente ou virtual·
mente, na sociedade ou no-Estado Ela ocupa-se do «sensível», no sentido poli-
';.J~~~
;;i:-:;,:;:~-
"~
'IV) ~·
p~aYra e a coisa. NãO exíSte·:concordâ.nCia entre aq_ui1o que Chamamos polícia ~

@ e:aquilo que faz a p'olíeia. Erii"todos .os-ca~os encontramos contra-éxemplos. cial do termo .. Existe a polícia porque eXistem «pontos sensíveis» na sociedade, e(,, '(';tJ;;.Í .J... - ·:_-_
Não soi::ne!ite. aquiló _que ;chamamos p_Õlícia não designa a mesma activ-idade «negócios sensíveis». «Sujeitos sensíveis». A polícia é baixa pcirgue se· compro-
@:· efectiva· conforme o-País e- a época, como_ não é aquilo ·que- chamamos polícia mete com o «Sensível». No entanto, se, enquanto ponto sensível, a antipatia
@ q~e policia efectiva:menté.-núm dadO, país e numa daQa época:. sumariamente, a <rSi
-.W~,
social constitui ·num certo sentido «O baixo» da política, a prática-desta anti-
polícia nem sempre polida e o· Poliêiarilento nem sempre é feito pela polícia8• patia e a reflexão sobre ~la .;_ que os re_sponsáveis policiais não deixam de
rJV Esta análi~e sed~tora parece;- no entanto, depender da petição de princípio,
'lf,ft'
produzir - representam «6 alto» da polícia. --
@ quer dizer.de um uso desregulado do.se~elhante e do diverso num raciocínio9• A oposição entre· o alto e o baixo não é uma relação ·de Contradição lógica:
;%j A içieia de Polícia é, Primeiro, postulada para, em· seguida, ser oposta a ela pró· trata-se mais de umá diferença de perspectiva. A baixa políticâ'é então a polí- Q ~o
elki \2
~.

pri~: os mesmos predicados (~<fazer _b policiamento») são negados ao mesmo tica da deCisão e da ordem, da avaliação de circunstâncias, da urgência eda in-
@"'· ,,; determinação relativa acerca da qual a· acção se exerce. A alta polfcia está· pró·
,_
~.~
® ------
.- 8 BAYLEY, David H.,-;«The' poli e~ ·and pÓlitical developm-ent in Europe», -in TiLLY, Char-
• xima daquilo que poderíamos chamilr ·a consciência poljcial, o pensamento
da polícia interno à polícia,. até mesmo ã ·série cje princfpios da acção poli-
&%' les "(dir.), The Fonnation ofNátional_States in V(estem Europe, Princeton, Princeton Univer-
sify Press, 1975, pp. 328-379. Da"'.id Bayley escreve por eXemplo: «A especificação.da na- cial. A oposição do «alto» e do «baixo>> .é também a do obscuro e do claro, do
é;,
-..;,_;~·=/
iufé:ia da polícia não é .tão fá~il coµio pod~~a pii.recer. Organizações com-o nome Çe polícia i1 e·scondido e _do manife_sto; do avesso. e do, direito-, do grande e·do pequeno,
desempenham diferen~es funções _:em diferentes países; -organizações diferentes no_me$mO
© paíSJevam a.cabo obrigações poliéiais; unidades põliciais tratam de obrÍgações.oãé j:Joliciais, :g
:J; do indi_vidual ·e do uni'versal, -40 emp~co e _do a pr,iori.

GS~ àsSim como obrigações pqliciãiS SãóexecutadaS p0r pessoal nllo policial», ibid., p. 328.
{S; ~ AR1sróT$LES, Les. Réfatátio;/S Sophistiqile-s, I; 5, 167 a 37, i~· Organon, 'Livro VI, -tra4 !O ARISTÓTELES, Les Premiers Analytiques, ll, 16, 65 a 34, in Organon, Livro ill, trad.
~.::~~~
J. Tricot, Paris, Vrin, 1995, p.: 19:'"_ J. Tricot, Paris, Vrin, 1992.-p. 288.

@
12 13
1
'--"'·~,,

~
HÉlli:'-;C L'HEU:lLL3T ~
iD ~ :.INTRODl!ÇÃO
~
~ Seguir uma tal iniciativa comporta, no entanto, um risco. Pode, ao que pa-

I
~ caminha.11do 15 , a baixa política argumenta cinicatnente a_ Su?-- eficácia: seria
rece, conduzir a uma denúncia da «alta política» e convidar a -qma concepção
~ <~olicial» da política. Desmistificar a política para exibir a sua secreta fea1da-
~
através das «redes subterrâneas» de infÕrmação e ·de- acçãci qu'e µma política
·"h «c~minharia». A alta política tem o seu fundamento sobre o_dis~urso, não por-
ii,il d.e (cálculos, manipulação, golpes-de força e desejos de dominação) constitui


. que se componha exclusivamente de palavras, mas porque ri.ela 6 discurso se
;;} normalmente a· fin.aJ.idade de uma tal denúncia. Trazer à luz do dia a baixa po- constitui em acto e a palavra é perform3.tiva. É por isso que De~Gaulle, no caso
lítica seria um efeito da dessimbolização do Estado. Desaparecida toda a altu- Ben Barka, se faz valer, ironicameD1e, da sua «ineX.periênCia 16?>. A alta políÚ-
,])
ra do político, nada mais re'staria do que a polícia. Ora não se trata aqui de fa-
~ ca .pode sempre incorrer na suspéita de uma iri.gentiidade éventualménte rei-

I
zer o e-iogio da baixa· política, ainda menos de pretender que ela constitui a !··. vindicada como companheira da grandeza: a alta política.fiz queS~ão cte honra
verdade da política. Dizer qi.;re é necessário; enquanto filósofo, interessar-se •j
·2
Z:;:'.Y em ignorar as recei"ta:S e aqu~les que pretendem detê·las. }\. acÇão-incorre, pelo
pela baixa política não significa, de maneira alguma. gue esta consiste no todo g
:-'7;'; cOntrário, na suspeita de comprometimento.
~,
~
\.'..:..' da oolítica. ; ~ Dev.eríamos nós considerar, para ultrapassar.este confü~O; que.-tanibém em
~ É necessário, não obstante, começar por estabelecer a çiigni4ade filosófica
e;_:;
da baixa política. O termo «baixo» tem também, com efeito;Um significado 1 política «existem deuses na cozinha>>? A palavra:, :imputada a'JÍeraélito, vale

.
efectivamente como marca de ·reconhecimento _da filosofia aplic;adil_ -:-..-da qual
r·.
moral que convém pôr de parte. Faz referência a uma opo~iÇão ·entre a nobre- 1 um estudo filosófiCb da pOlícia participa17 • Coni eféito, se aj)Olfciâ consiste na
,- ', za do interesse geral e a vilania do interesse particular, entre a clareza do con- ~ parte ~aixa ~a política: ela rião é em ..si m~sma·_«bai~a». É-9.d~·:Illesm~fom:a -ZJ ... ,:'
~·k./ _:··.':"1

~,,.;-\
~

<:5· fessável e a obscuridade .do inconfess_áyel, entre a regra direita e a «baixa


culinária 11 ». Assim, na conferência de imprensa do dia 21 de Fevereiro de
1966 que se seguiu-ao rapto em território francês do líder d~ esquerda marro- 1 1
-
que sao «ba1xos» os pe}os, a 1~ e tudo o que: é SUJO,.que·_Q:gr.and~ P(l!mén1.;--. .- ~·. º;
des, no Parménides de Platão, aconselha .a um Sóc!ates aillda jOveni ·de não
nianter fora do alcance do conceito 18 •
· "1
oP · Í:..c"Y\ c..u_' .~.,C(.

1•
· · ..
':"0,
·~j quina Me~di Ben.Barka, a 29 de Outubro de 1965, Çha'rles d.e Gaulle, então Assim, a polícia não é nem uma força bruta 'nem um inst;r'U!Jiénto d~provi­
presidente da República, declarou que neste tipo de casós nada existiria «Se- do de vontade. ·Ela não igriora nein o im~ginárió nem os jog·9S ae 'Somb!a e de
não o que é gross'eiro e·subáiterno 12»:-Este caso - da política interna marro- espelho. Se Vai buscar a sua autoridade ·às-instâncias que a ~·andatám; deve não
~
·\_ ., quina - tornou-se num assunto de Esta:do francês em razão da provável
.cumplicidade de um_informador·dos serviços seGreios frallceses e-da utilí-
1 .
obstante utilizar. os seus próprios re~ursos para se f~er respeitar - e d~ve por
isso encontrar a· stia párte· de soberania. Ela é, por fim, q.rria'fonna de~saber e ·
:':-:'-
zação, através de-manipulação, de dóis policiais 4a prefeitura de polícia 13 • de inteligência da política.'- Com efeito, ~ alta ·pOlíci_a. d~signa;· em prim_biro lu-
Tão menosprezável como os próprios factos seria, para o presidente, a atrac- gar, a polícia de informações, Paia Joseph Fouché (1759-1820) - que gene-
i':·.·.
"'
l
.
<{> ção pela raliza a expressão «alta polícia>> -'-,a sua furição é a ·de infi?I_l?-a! o poôer:
.
«eSpécie de au_noSfe"ra à Belphégor, a evocação das rri.i.st~riosas "\;>arbas", a inclinação «Tpdo o governo tem·necessidade, como primeiro ga!ante·da.sUa ~egiJ.rall~~:de uma
[... ] por histórias que fariam lembrar as do Gorille; de James B_ond, do Inspector polícia vigilante, ~ujos chefes sejam firmes e esclarecidOs'.9.» .

I1
'·::··;
Leclerc 14>>, ~
' 15 DIÓGENES LAêRCIO, Vie et doctrines des philosophes _illustres-, tz:ad. do grego ·por M.-
;
A sua dignidade, a baixa política parece ir bl].scá-la ao melhor do seu . ~ -0. Goulet-Cazé (dir.), Paris, Le Livre de poche, col.. «µ Po~hotCqui!», p. 717. · _
. ' 16 GAULLE, Charles de, Db;cours et messages, in Oévres complêtis, ófi.·cit., p. i3.
0 apoio sobre d argumento realista, que faz calar Os princípios e prescinde das 17 Aristóteles e~preg!Í·a para justificar o seu interesse .nos animais. (ARlSTóril.ES, Les
~~
palavras. Da mesma· forma que Pióge~es, o Cínico, provava o móvi.m.ento .
.
Parties des animaux, 645 a, trad. do grego por P. Louis, -Paris, Les.'_Belles-Letie~;-J956,
p. 18); François Dagognet re~o~-a para encerrar um estudo das artes. aplicadas (DA,GOONET,
··® --17'Tom;-~so d-; expressão a Jean-Marc Berliére, Le Monde des polices en France, XIX-
~~
;> François, Pour l'arl d1aujourd'hui. De_ l'objet".d'art à l'art de ob/et, Paris, Dis Voir, 1992,
~~ -XX siecle, Paris, Complexe, 1996, p. 133.
12 GAULLE, Charles de, Discours et messages, in OeVres completes, Paris~Plon, 1970,
p. 137). Nos dois casos_,. trata-se dé cruimar a filpsofia à ex;g~ncia ae· dar éonta _do teaL
'
18
l?LATÃO, Parménides, 130 c-e,-trad..do'grego por A.: Dies, Paris:Les Belles Lettres,
~§) Tomo V, \té:rs Ie terme, Janvier 1966-aoa} 1969, p. 14,
13 V10LET,-Bemard, L'Affaire Ben Barka,-Pa..-is, Fayard, 1991, re_ed~ Seuil, col. «Points».
1923, p, 60, . .
Mémoires de Joseph Fouché; d~c_d'Ótrante (posth. 1824), Paris, Imprimerie'.-nationa-
~J@
19

14 GAV"l.LE, Charles de, Discours et messages, in Oev'res completes, op. cit., p. 16. le, 1992, p,91: ''
1(§3
1~
f 15
,,,

''"'~
<f
............,.i:;...., rll'.:.U!Li..l::!T ;~ IN'!RODUÇÃO -~'

•e
1;_;,

n;, "" ·""<-


· A alta policia é·:pnméirq ·que tqd9;-na verdade; a polícia da: sombra, aquela «cima de1a23». É preCis.ar:D.énte porqu~ o objectivo do EStado não é o niesmo da
~ qüe:fàz abortar a:~_:alíanÇas e as-conspirações: Podemos,.entretanto, alargar a -~"'
sociedade ci~il, e que·o seu objectivo, enquanto tal, não é o de «velar pela se- .e
-w~
\1 n_Oção para nela ~n_clllinnos a p_o!íCía inteira, na medida 'em que.protege o polí- gurança, assegurar a protecção ·da propriedade privada e da liberdade pes-
"~' ® tico e decorre da existência de um
saber de Estado. Toda a polícia pode ser tida '.';''
soal24», que disso encarrega apolícia25 ~ Esta é constitutiva da política, sem, no
@ Por áita, conforme-~· mane4"a como para
ela:. olhamos. A alta polícia não é a úni-
,~.,

entanto, se confundir com ela26• A problemática de Hegel revela-se particular-


@ ca polícia política, _fias a .pOlfcia-enqUantó ·política. mente útil hoje em dia, pois procede de l!ma preocupação com a antipatia so-
ae
Não se trata aqUi; portailto, ~em denunciar, nem cte reabilitar. e ainda me- cial. O seu propósito pode ser ressituado nos debates internos da teoria liberal.
®' nos de pretender dizer o que deveria ser. a pOlícia. O que está em jogo _é impor-
@ tante: trata-se de sabér que posição tomar rélàtiVamente à perigosidade policial.
i"
:Aquela que se tenta:torriar-:a!Jui·-fundam.enta-se.na, cqD.statação da.polícia no seu Phi/osophie des Rechts, Estugarda, Reclam, 1070, p. 59) não signifiCa, em Hege1,justit1car
@ Co.njunto. Seria com efeito" fu:génuo aGÍ-eçfitar que tal ·activiciade policial é em si o que é abstendo-se de o julgar, mas levar até ao fim o projecto de conhecer. Nos dois
,,-_
casos, pensar o Estado é também pensar a polícia.
® perigÓ~a, por exempIO, qi+e:-_a-_.p~líci~ de-informação seria Qma regressão à mo-
23 Traduzo literalmente a expressão uber sich empregue por Hegel em L 'Encyclopédie -0-~

. 11afqilia, enquanto a polícia jUqi~iárla_ seria a boa polícia. Se esta é aparentemen-


®· fe a:Jnrus- pastoral, sendo.<? S'eu objecti~o «a defesa da sociedade contra o exérci-
para designar a relação da polícia com o Estado, na frase: «Die Ordnung· ist als thãtige
1-:facht der aüsserliche Staat, die Policen, weiche in sofem die substantiellen Staat tiber sich
$' ·to' d6-mal20», ela é ~éi:itlJili recurso essencial Qos regimes de terror. Quanto hat, als Staatpolicen erscheint», HEGEL, E_ncycloplidie der philosophisqhen WisSenschaften "-.$

® ."à- pO_lícia dC ordem;· _Se é:verdaç!e que_·e1á- pão se intromete nos meus pensamen- im Grundrisse, Heidelberg, 1827, § 534, p.-475. J. Gibelin traduz por:- «Esta ordem, en:--
quanto potência activa, é o Estadà exterior, que, tep.do a sua raiz numa esfera mais alta, o
~s21, pode tbrnar-~e:·ma'çà<:IOia ~o pÓhto':de'tornar toda a viQa impossível. Seria '...;

® iguà.lmente demasiJtrlo fácil dizer que a-pOiíCia não é inriis Qo que aqijilO que um
Estado substancial, se apresenta como polícia de Estado», HEGEL, Préeis de l'Encyclopédie
des sciences phüosophiques, trad. do alemão por J. Gíbelin,Paris,Jlrin, 1978, § 534, p. 281. :..,.:_;:;; 1
©· régiine raz dela: u~a tal·:asSet_Ção suPÕ:e uma pura llistnµnentali<lacte da polícia. ~ 24
HEGEL, Principes de Iaphilosophie'du droit, § 258, op. cit., p. 258, Grundlinien der
que os factOs desm6iteni:.Pár:tir da hÍp:ítese da ambivalêrÍcia e esforçarmo-nos ':.l Philosophie des Rechrs, op. cit,_, p,. 387. ;..J

fj'or m_anter uffia·:-neutralid~d~ axioI6g;lca tão estrita ·qüanto possível, é "Ibid., §§ 230-249, pp. 245'254/pp. 371-38!.
26 PoderiamOs objectar que aquilo que Hegel entende por «polícia» não corresponde
·:w
dizer, pelo contrário, que a polfcia é perigosa em potência, mesmo gue não seja ) exactamente ao que nós entendemos 'por isso, mas aproxima-se mais da POlizeiwissenschaft, ~
perigosa em actos. _?la pOde, sem coiltradição, compOrtar a sua própria perigosi- a antiga ciência da administração alemã. Que ela inclua, por exemplo, «a íluminaç~o públi~
@ dade e acompanhar as formà.s mais lib6rais do viver em·conjunt?. A pretensão ca, a construção das pontes, a estimativa das necessidades quotidianas, a saúde dos cida-
deste trabalho é tornar clara_'.~ definição que se aplique no~ dois c~os. · dãos)) (ibid., Add ao § 236, p: 248/p. 373) explicar-se.ia por es"se sentido ·antigo da polícia
G} Dois filósofos abrirarit o- caminhÓ para uma tal filo'.sofia da políqia: Hegel. e admlnistrativa que é conceptualizadÔ na Alemanha a partir do século XV1I (Hans Maier de-
finiu-a como a teoria científica da política interior do antigo Es'tado territorial alemão;
FoucatÍlt22• Em Heiel, a políCia é be'm uma «baixa pOlítica>>: tem_o.Estádo por
® MAIER, Hans, Die altere deutsche Staats und Verwa!tungslehre (Polizeiwissenschaft), Ein
Beitrag zur Geschichte der politiSchen ·Wwsensch.qft iw Dt;utschland, Berlim,. Luchterhand
""'·
1-::~:;1 Verlag, 1966, p. 13. Ela diz, portahto, respeito a domínios tão diversos co_mo a'étiéa, a eco-
. zo LÉPINE, Louis, Mes souvenirs, Paris, Payot, 1929, p. 141. nomia, o comércio, a-fiscalidade, a medicina oti a política demográfica.-Hans-Maier 4_e-
. 21 Al.AIN, extracto·de ·éLeDictat.eur rêgne par l'opinion ... », Propos s_ur les pouvoirs, Pa- monstra que Hegel toma a polícia como fonna concreta, histórica e social: ela pertence aÕ ·
ris, Gallimard, col. «F\:llio>.>: •. 1985, p. zqo. sistema da vidà ética (Sittlichkeít); ibid., p.· 238. Assim,- para Jean.François I<Çervégan, ao
22 A filiação, 1'.ª 'ciçdem dis ·i~ias, que vai-de Hegel a Foucault é menos disparaiadil: do utilizar a palavra: polícia (Po!ízei); Hegel-faz «Uso de um vocabulário já em de'suso» (KER-
,d.
'":) qú.e_parece. Em L'ordre du discours,·Foucau1t homenageia Jean Hyppolite, tradUtor de He- .VÉOAN, Jean-François;- Hegel, Carl Schmitt:Le politique entre spécu!ation et Jiositivité.Pa-
get-A herança da filosofia dabis'tória hegelianà, em filosofia, é, diz ele, -«uma filosofia pre- ris, PUF, 1992, p. 233. No entanto, adatitii uiaa tal objecção suporia que a relação de
(] sente, inquieta, mób~ ao Jongo'ifá_-slla linha, de_ co_ntacto ÇO!Il a não, filosofia» (F(}UC\.ULT, Hegel com a tradição: do Estado.pnls~iano i;;ra unilateral. Ora, Éric Wei! mostra que a Pnís- ~

Michel •. L'ordr:e du disf;ours, PáriS, Gallimaid •. 1971, p. 78), uma.filosofia preoc1,1pada com sia de Hegel e a Prússia histórica ·apenas têm- Jongfnq~os pontos de-contacto - o que
G o concreto, até com à presente e. o·-4ctual, segundo aquil9 que represen_ta - como diz Fou- explicaria que esta não ·se· reconhecesse naquela: (Wm}Éric, Hegel e o -Estado, Paris,
n
0;;º cault comentando Kant .- a_heiançã do Aufküirurig \FoucAULT, ·Michel,- «Qu'es~ ce que les Vrin, 1_985, p. 13). HegeI·conhece.i!s.instltuições frances~. Ora, a polícia é, na sua origem
Lumiêres?», in.Magazine iiú!Taire, n.º 207, pp. ~5~39; extraído do curso de5 !e Janeiro de institucional, francesa: podemos datar a invenção do édito de 1667~ p·elo qual Luís XIV
1983 no Collêge .de Fra.nce, i~_ Piti.etÉç_rits, Piris_. Gallimard, 1994, Tomo IV, pp~ 679-688). cria a função do tenente. de. polícia. N~poleão, que, em Hegel, não é o simples guerreiro
«Faier-a paz com a reaHdadé» (HEGEL, Georg·Wilhelm Friedrich, Principes de Ia philoso· mas o homem de EstadÓ cio_so da a.àminisq-ação, inspira-se .nas instituições do antigo
@_ phie. du droit-[!821],-.trad. R.' Deràthé, Paris, V~n, 1982, prefácio, p. 58; Grundlinien der regime. ....
@
!6 17
8
r::~~
-.-"

jl'T
» E:é:LE!\'E L'HEUILLET
W!ROD\JÇÃO
.~
,..-,-..,
Se, como mostra Lucien Jaume 27 , Hegel se opõe ao liberalismo à inglesa, esse preciso pensar, mas aquilo que ·ela mesma pensa da sociedade,._.do·Estado.. ~ da
.iEl «liberalismo da particularidade triunfante28», no entanto, «fornece um mocf,elo St).a tarefa, Tentaremos pois saber que espécie 4e sa~er é o seiJ,:..... ~sua. inteli-
j) interpretativo interessante para o estudo do discurso liberal29>>, pois tenta pen- gência - , examinar as relações que mantém com a ordem e a·,d~oidem,_ avio-
sar a conciliação do particular - cujo direito é incon.testável - e do univer· lênCia e a paz - em q'+e é que ela consiste num «btaço» -,·para·por fim nos
~ sal -. do qual não se p'ode negar a efectividade sem arriscar a abstracção. A so- perguntarmos porque é qJJe ela é também o «olho» do E'stado;:Mas trata..:se ain-
18 ciedade ci:vil não é o lugar, nem da identidade natural dos interesses, nem da da de tentar, a partir Q.aí, analisar as fílodalidatjes da. sua relaÇâo. ac"rual com o
sua identificação artificial, para retornar a alternativa pela qual Élie Halévy re- poder. Precisar o que representa a figura do policial no'. imaginário .conteinpo-
.7. @ sume a oposição entre 1v,1andeville e Smith, por. um lado, e Hume e Bentham, râneo, compreender qual o lugar atrib].\ído à polícia na distribuiç~o das funções
~}Ji por outro3º, mas de uma antipatia. Ela não gira so'zinP,a, e o Estado deve regu- cj.e a"tftoridâde e socorro, e te~tar aproximarmo-nos . da sua real. ·competência:
?>. lar a circulação não só dos homens, mas também das mercadorias. A mediação tais são os objectivos deste estudo.
-~·
deve ser feita pela administração, a class~ dos fijncion'ários. O fyncionário é o
2V secretário da razão política. A polícia é a função pública· por exce~ência.
Em Michel Foucault, a polícia é igualmente a «baixa pol~tica». Ela· é. o qq.e
'.-7;\ encontranios «por baixo» da doutrina da s·oberania, constitutiva da «al,tá. polí-
·!{;/
tica». Mas no período que cobre os séculos XVII e XVIII, a polícia,_explica
Foucault, tinha um sentido.«lato e preciso~ 1 ». No seu sentido estrito, ela tor-
nou-se imPrecisa. ·É nesse momento qú.e, segUndo Foucault, a polícia se toma
p. algo de «pejorativo32><
~ Trata-se aqui de partir do sentido estrito e pejo.ratiVo.da polícia. É pois ne-
cessário analisar a lnstitt.tição, _perguntarmo-nos não somente ãquilo em q\le é
:@
z; JAUME, Lucien, L'Individu ejfacé ou le paradoxe du libéralisme jrançais, Paris,
Foya<d, 1997, pp. 281-284.
28
Ibid., p. 283.
29
JbüJ., p. 284 p. 251). Da mesma forma, coino mecanismo de governação, a políéia nãO é específica. En·
30 HALÉVY, Élie, IA Jeunesse de Bentha.m 1776-1789, in La Formation du radicalisme quanto a polícia tem como objecto o indivíduo como corpo, à biopolitica tem como óbjec-
philosoph.ique, Paris, Alcan, 1901, reed. Paris, PUF, 1995, Tomo I, pp. 25-27, to o.homem vivo (FOUCAULT, Michel, «-{~a technologie politiiJ.ue des inO.i.Vidus)), in Dits et
..:::
--:.:..:' 31 .FoUCAULT, Michel, «La technologie politique des individus,.,, «The Political Techno- Écrits, op. cit., Tomo IV, p. 828). Mas o C<Unpo da política pastoral cobre·muito mais·o·cam-
logy ofindhiduals», trad. P.·E. Dauzat; universidade de Vermont, Outubro Qe 1982, in Hut- po da medicina e da ássistência do qUe o da policia. É mais pela meQicaliza"Ção da existên-
ton (P. H.), Gutman (H.} e Martin (L. H.), ed. Technologies of the Self;A Seminar with Mi- cia que é efectuada a malhagem política das vidas buman·ãs do que pela instiruição pqiícial,
chet.Foucualt, Amherst, 'The t]niversity. of Massachusetts, .1988, pp. 145-162, in Dits et que intervém em caso de litígio.
Écrits, op. cit., Tomo IV, p. 821. fyias é precisamente péla deslocaçãó da problemática que opera, que Foucault ajüdii. a
32 FOUCAULT, Michel, «"Omnes et singulatim": vers une critique de Ia raison politique», pensar a polícia. Não haveria nenhuma coerência erri tentar tomar a política «pelo baixo·» e
«"Omnes et singulatim": TowarQ.s a Criticism·of Political Reasom) («"Omn.es etsingu_latim": em continuar a raciocinar «pelo alto», quer dizer, interdital)do-nos de pensar.a instituição de
vers une critique de la raison politique», trad. por P.·E. Dauzat; universidade de Stanford, 1O outra forma que não nos se1,1s próprios termos. A história foucaUltiana (a história d_QS ·dis-
e 16 de Outubro de 1979), in McMurrin ·($.), The Tanner lectures on Human Values, cursos e dos modos de subjectivação. Se a· alta polícia é a conséiênc.ia policial, esta Ilão se
T.. II, Salt Lake·City, University ~f Utah Press, 1981, pp. 223.-254, in l)its et Écrits, op. cit., limita necessaria-mente à instituição policial. Como faz notar Denise L;t:' J?anteF, "Michel
Tomo IV, p..150. Podemos, com :Michel Berges ...:.. mas sem que isso constitua aqui uma Foucault renovou a reflexão sobre o conceito de polícia, ao assinalar a exte.nsão· nàva da vi-
objecção - , duvidar de que a polícia e o Estado sejam objectos de Foucault (BERGEs, Mi- gilância (LE DANrEc, Denise, artigo «Police», in AURoux; Sylvain [dir:]; Dictionnaiie des
chel, «11ichel Fouca1,1lt e a polícia>>, in LoUBET DEL BAYLE, Jean-Louis [dfr.], Police et so- notions philosophiques, Paris, PUF,_ 1990, Tomo li, p. 1977). Abordar a pol~Cia «pelo'àlto»
ciété, Toulouse, IEP de Toulouse, 1988, pp. 315-361). Em Suryeiller et punir, ele e~plica que é, portanto, adoptar também como linha de mira a análise do paradigma polic"ial. É p6rque
a polfcia não é o assunto do livro e que existiria um contra-senso em confundir disciplina e ela é «baixa política» que a p'Õlícia indica o limite da política eé porque.ela é o resíduo,não
racional de uma política toritada racional que toma o valor de:moQelo. A.partir daí, ·não· há
@ polícia: <(Seria inexacto crer que as funções disciplinares foram coilfiscadas e absorvidas de
nada que impeça que se lhe dê vál.or de paradigma nas relações intersubjectivas.. ·· ·· :-
uma vez por todas p.cr um aparelho de Estado» (Fot,rCAULT, Michel, Surveiller ei punir, op. cit.,
1

~-:é~ 18 19
/ 1

·~
;.,,.

ó;)I.LrJOd Olliillí'1t!SN0;) o no út!J.Ol:ld


/@
:@
@
@i
@(
@!
.·.•·.. 1
~.

;..:.,·'
~1
~
81
~?
.,
~

"-. ·~
$
= $
...
~
Fc- ;~
r:.-. i~
1
:~- @
~ A INSTÂNCIA DA PREVISÃO

'.'
:@i
0~ O ÉDITO DE LUÍS xrv·(!6 DE MARÇO DE 1667)

:,_~
O nascimento da instituição policial, nó reinado de Luís xfy,: é apresenta-
·@r do como uma separação da polícia- e da justiça. A poliCia nã_O nàsce do -nada.
_,;@ Luís XIV não a «inventa.» 1• As funções de polícia eram exerchias .soO . esse
nome antes do seu é4ito e durante a Idade Média. Para· além: do mârechiilato,
-··@ polícia dos exércitos, -criada no Século XII, e que, tal como rriais.tarde a.guar-
~@ da da polícia, se especializa na vigilância e guarda.das: fegiões tu!aiS, a pÜlícia
,-,,__ existia nos donúniOs senhoriais, nas abadias e nas cidades: em_Pàris~ ·em .-1526,
0
Francisco I institui um magistrado encai:regado da <<pÓµ-cia ·das: Jndigefltes»;
desde: a Idade Média que as cidades- eram guardadas .-à ·110ite, e ·uma ron~ real
'""""
-·<~; foi_instaurada-em Paris- em 1254.
Mas a policia.era um pod~r subordinado ao poder da justiÇi~.. É isso que
muda com o édito de Luís XIV. Pela primeira vez. ó têrmo ·«po1ícia»-é·usa- J ? w.:, .,,.,. i<;;t;·dt
---@ do, num texto oficial; no sentido que é ainda hoje o seu. be ~a:·SimpleS;fun:·-

~-º
'·'·

''@; 1 P!ASENZA, Paolo, «Üpiníón publique, identité des instituti6.ns, "absolutisrne". -Le pro-
blême de la legalit_é à Paris entre l~ XVIIº et XVIIIe siêcle»,-1!'.~yue histOriqw;_,:n;° 58?, .Ju-
:,~ lpo-Setembro de 1993; pp. '97-142. O aut_ormostr_a que é nOs anos 16~_163Õ que se Situam
-'{i.Y as
os verdadeiros inícios da policia parisiense" e analisa razões pelas quaiS nãO foram d_e ime-
,_ diato seguidos de efeitos. Isso pênnit6-lh"e iluminar cpm uma no'v.á-luz o __gesto de Luís:xrv.
Não.apenas este não Cria a polícia· ex·nihilo, como chega_a:_ institucionaíizar-se a iniCiativa
·,:B: de RicheJieu, é graças à acção do primeiro tenente de policia La Reynie, qÚe "faz aCeitar a
Sepãração da polícia e da justiça semtranslgir acerca 9-o laço directo daquela com aàUtori-
dade do rei, mas sabendo «compor» com as autoridades iradicionals da. justiça e do p_ar~a­
mento. Agradeço a Ani::la Gro_ppi Q tt:_r-me as~fualado este artigo.
. 1 Trata-se da antigajQstiça prebostal. E~ P~s. <Jesde 917, o «Preboste·da Cidade e·Yis-
~® condado de Paris» estava instala:dÕ-no Châtefot; na qualidade de.lugar-tenente do rei1 te~nia
~
as· funções de governador militar e ·os poQ.eres dejudiciaturi Existe também_ éni Paris·; des-
S@ de 12€)0, uip preboste dos mercadores,.sf_ndico das corporações d3. btµ"gl.l_~~a parisiense (an-
tepassado da câmara municipal) .. Estas duas autoridades disp~~ os direitOs e poderes da
:t~g~ pOücia. - . - .,. . ·

00
;;>,,..,,_
(i
'•I@
J
l~
.
HÉIÉNE L:HEUILLET

f~
.- ·ção·, i.uís XIV _uma in~ti~~ição
•.A insti.tucionalização piocede não de uma
::E'naçã.o ~ o termo é aqui_ empregue apenas Por comodidade - , ma:s de uma
PROTEU OU O CONSELHE!RO POLÍTICO

«E esta incessante observação deve .Ser acum1,1lada numa série de relatórios e regis-
. tos; em toda a extensão do século XVIlI, um imenso texto policial tende a recobrir a
;;:_{:

-~paraBS. O gesto. é e.n~o um gé~to de-partilha, como o indica o texto do


li
1 .
sociedade graças a uma organizaÇão documéntal co1'.1plexa5 .»
·e
{::;,
ln Enquanto .o guarda observa p intruso-vindo do exterior, a polícia vigia o in-
1w
'® «e. como as funçõ··.~s fre~uentemente
da 'juS_tiça.· e da pO!Ícia são ~
incompatfVeis de uma)
terior. Um está encarregado de prender aquele que se intromete, o outro regis-
ta informações em arquivos, deixando circular a maior parte dos indivíduos.
~
grande extensão, ·.e·para ser bem exercidas por {!ID só oficial em Paris, resolvemos divi-
@ di-las:\>, : A polícia C;ontrola a identidade mais que as-fronteiras do território. Daqui em '..:.:
,....., a1ante, a segurançaªº territ_óno passará pelos dispositivos de segurança inter-.
\:_
(·7>. A_função de lugar-tenente CivH do preboste <;}e :Paris, ql).e compreendia, en- na. Podemos ver nesta moàificação da função da guarda u~ exemplo da pas- ""'
~
\o_·.,
. tre outras, as funÇ_ões·de polícia, acha-se·· então Sl,lprimida. No seu lugar, são sagem do Estado de território ao Estado de população6: este controla os indi-
eP.,
, criados dois cargO~ de- lugar."tenerite do preboste âe Paris: o conselheiro e lu-
gar-:tenente civil do preboste:de P~s e o conselheiro e lugar-tenente de Paris
víd1,1os, enquanto aquele controlava o espaço. Podemos também reconhecer na
tenência de Paris o momento fundador da alta polícia7• """
'..::.:: Esta origem pode parecer chocante: não somente o tenno alta polícia; no seu "-
para a· polícia. .
·O Mas a ·partir d9 ·mó!Ilento em que a polícia não é mais t;1.ma simples parte sentido de policia política, é mal recebido· na ·pré!pria polícia, corno as activida- ,,.., ~

.i \.-:;;·
rf-. .da justiça, podemo-nos pe_Í-guntar-o qu..e é ela e o que a toina específica. Ora des de recolha de informações têm dificuldade em estabelecer a sua legitimida- __
'..,,

o..· o':que distingue a polísia-'f~ita peló lugaf..tenente da polícia da Paris não so- de8, e a origem monárquica da instituição ainda acrescenta mais à_ obscuridade
I~~}
__ mente das antig~_s'técní_càs ~e guarda,· de ronda, maS também de inquérito e da prática. No entanto, longe de ser uma actividade policial «desviante» que pu- -...;,,,
(':':",
\.;::./ ,-de testemunho, é uma riova utilização do saber. da escrita. e. por cbns·eguên- desse ser suprimida, podemos considerar a alta polícia coffio- o paradigma da ac-
·~

; eia, da memórÍaié do·argúivo. É porisso que; para Michel Foucault, pode- tividade po1icia19• Para maisj em vez de ser um arcaísmo, a polícia de informa-
@;
, ril_os· estabelecer."únia divís~o· entre ·à- idade clássica, qlJ.e assiste ao-D.ascimen- ção é particularmente actual na época das te~ologias dé informação 1º·e -da ·~
<@l
·.,;,-'.( ·:·tO da polícia, e as antj..gàs:·fu:iições·de·polícia tal como eram exercidas antes .evolução do político na direcção de .um grau .cada vez maior de,antecipação do '~
~ da criação da tenência; Éin: _Surveiller et punir, Foucault põe em e-vidência o acontecimento. A.história do:momento fundador da alta polícia deve, portanto,
º' âp8.rélho .de esC:rita dó, ESiado mod.effiO. Mais dO que nullca, poder e saber ensinar-nos qual- a função de:Ste s~ber~-que se apresenta menos·-como uma épis-
@; teme do que comq uma curiosidade de Estado. Ao separar-se da justiça, a polí-
: sus.citam-se um áo outÍ:o4 ." I0'.~síno S_e ·a polícia não faz mais -do q~e participar
® -:-' deste:sistema de pode~..,Sabe"r que Foucàult nomeia «O exame» e que consi- . eia aproxima-se_efectivamente·do executivo: é para este. ao que parece. que ela
: dera cotno éspec~fico _da:s:Sd~iedades· da_dis~iplina que surgem np final do sé- recolhé-as infonnacões. Existe políçlli:·quando o saber desempenha o papel ·.de
J~
i@
.-'.- clllO XVII, ela tofna-S~ n~:·ihetonímia Q:ós sistemas discíplinares. Deste-pon- mediador entre--o.governo e.a popuiãçao.,A.vigilãncia, da qual Luís xiv·acon-
._'to de vista, a polícia~_ iárCO_mo LuíS ·xrv. a irfstitl;ií, pareçe Ser Primeiro que •,
. tudo,. emp_lenláticà de. uma . modalidade 9e relações de -poderes. organizados s lbid., p; •249;
li@.'' . 6 Fot,rCAULT, 11khel1!<''4~gouvernementalité'>» «"La governamentalita"» («"La gou-
pelas técilicas-do·exanie.:-De. maneiÍ'a CO~tínu?-~ portanto, nos séCulos XVII e
1@ v~menm.entalité~'»-~ Curso_ do Collêge de Fcinç_e,._ ano 1977-1978: _«Sécurité, tertjtoire, po-
!~ 'XVIII,.a sociedade.dupliêa·se no seu-próprio comentário escrito-pelos agen- . p_~i~tion»,_4c_-ieÇon, 1. 0 qe Fe~eieÍro de 197$)1 Á.ut~AUt, -n.'"· 167-168, Séteffibro-Óezembro
l! "'-.;;,..-
*'"" tes do poder graç;u; às:-inforril:ações ciue·registaram. no.acto de vigiar a socie- iJ~ !978, pp. 12-29:'in Dits et tcrits, op. cit., Toàló m, PP. 63s--657. .
1@ dade: , 7
BRODEV-R, Jean-Paul, -.<High' Policfug'and Lbw-POiicing:· Reinark_s About the Policing
l. ·. of PoliticalActiVities», SociaiProblemS, ·Vol. 30, n." S. Junho de 1983, pp. 507-520.
1 8
poBRY, Michel, «Le renseignetnefitdans les démocraties occidentales. Quelqúes pis-
:tSJ tes-potir fidentificatio~ d'un objet fiou», iri LeS CahierS-de la securité intérieur, PARIS, 1997,
·-;:;
3 Lufs XIV, édito.de 17 Março de.1667, in Manuscrits·royaux, Bibliothê'tÍtl-e_ nationale, · n.º.30, p. 59.
"@ 23612. . . 9
BRODEl.!R, Jean-Paul, «High Policing and Low Policing: Reamarks About the J:>olicing
·4 FoucAv1.T; Michel, ·Surveiiler et punir, .Paris, Gallimard; 1975, reed. col. «Tel», ofJ>olitical Activities», ar:t. cit., p. 512.
@ pp. 22~222. . . 1º Ibid., p. 517.

24 25
,-~

â
,,
/

;)
~
HÉLENC L'HEUTLLET
PROTElJ OU O CONSELHEIRO POLfTICO
;:-----.
~ selha ao Delfi.1.'11 que faça a trave mestra.cj.a sua arte 4e.governar, é tjm controlo «a inquietude de se saber.a todos os momentçis vigiado pelO rei. ~enhufua·c?rresp?n­
que passa pelo saber, e não mais pela simples vigilâ,ncia. ·Luís XIV; explicando
~ a seu filho que o ofício de reinar nada mais requer do que trabalho e que o seu
dênca poderia· esta; segura de ser secreta, e nem mesmo.nenhuma con':e.r~a:: O rei, Sém-
pre curioso acerca das· notícias da poHcia, era informado de tudo o que: _lhe pudesse in-
AI
= a
exercício não comporta outra dificuldade do que de <(deixar a'gir o bom sen- teressar pelo tenente ·d~ Polícia, cujas «m~scas» trabalhayal? nas ·igreja'.;_,· nÔs ~osteiios,
$ so11 »,elogia-lhe para mais os encantos deste saber político específico, que con-
siste na posse de informações úteis ao acto de governa:r:
nos hotéis 1 nas casas particulares, nas I1.1a.5 de Paris 15 >>.

:@
A rolícia não seria nesse caso senão o indício de uma polític;Üornada ra- )
~~ «Tudo aquilci que é mais necessário a este trabalho é ao mesmo tempo o ql)e é mais cional. A baixa política seria enQarregada das condições de aplicaÇão da alta
p, ~­ agradável; pois consiste, meu filho; n~~ palavia, 'em manter os olhos l;iem abertos so-
bre toda a terra; saber a todo o momento as notícias de todas as províncias e de todiis as
polffiéa. . ... ·.. . ·

@ nações, o segredo de todas as cort~. o humor e a fraq~;~ d~ ~o4o~· ~~ ~ríncipes e de to-

~~ dos os minis1;ros estrang!!iros; ser infonnado de tim niJ.mero infinito de coisas qqe todos
juigam que ignoramos; penetrar por entre os nosso sijbditos naquilo· que eles nos es-
O NASCIMENTO DA RACIONALIDADE POLÍTICA

]~
condem com mais zelo; descobrir os mais diferentes pontos de vista dos nOssos próprios A polícia, sob a forma elementar da tenência de Parjs, nasc~ri~, portanto,
:ID cortesãos, os seus interesses mais ?bscl,lros que chegam até nós através de interesses bem no interior da monarquia absoluta tanto quanto esta é urµa ·monarqUia
0\ contrários. E não sei que outro prazer riã.o abandonaiíamos ·pOr este, se soinente a
,,
administrativa:
curiosidade no-lo desse 12.»
«Através do tenente de polícia em Paris, através dos intendentes e· do.f tenentes ele
Este texto, cuja celebridade esconde o seu caráC!~r enigmático, é prove- pOlícia na província, a ad~istração monárquica completa-se: ·o rei sabe tudo e pode
niente de um singular manual de governação: a ·memória destinada a instruir o agfr com segurança e prontidão 1 ~.» . · . - '
Delfim para· quando tiver elê. mesmo de exercer ·O ·sel,1 «ofício de rei». Distin-
gue-se dos «espelhos de príncipes» da Id.ade Média e da Renascença. Os con- O seu nascimento resultaria.de um aperfeiçoamento da divisão dÇi trabalho e
selhos do monarca ao seu filho já ·não repousam com efeito ·sô°Qte uma con- da repartição de tarefas. Ela acompanha o movimeilto ·geral da· á~istração
i,~_} cepção ética e religiosa articulada à volta da função ·cte exemplaridade r_eal, que e da c.entralização <lo. poder sob Luís xrv. A Academia das Ciên.Cias· (e*11666)
não se compreende senão pela existência de uma «relação significante do visí- e a Academia Francesa (em 1671) são agregadas ao EstadÚ. Até aí e~ apei:ias
vel ao·invisível1 3». Na concepção medieval, as màliifestações da bondade e do sociedades sábias privadas. Sob o n~ino de Luís XN, caeln ·soO ~ .prott±_Ção .~eal
'e...;' poder reais são também signos da divindade todo-poderosa. Pelegado de ·Deq~~ e-,s~o-lhes atribuídos locais. Colbert fixa.horários de trabaTu.o aos ~c~dérirlco~.ê.n­
o monarca ante~or à Renascença sustenta a sua autoridade p.a·potência·invisí- Garregados da redacção do dicionário e controla-lh~s a àssiduidade.:'fo&s es~
vel. Pelo contrário, a referência à religião não é central em Luís XIV, e quan- medidas parecem inscrever-se no movimento geral dâ. em_ergênc_ia :dO _Estado
do ela se apresenta não se insere de maneira nenhuma ni,lma problemática teo-
lógica 14 • O monarca absoluto não cohta Senão consigo próprio. O seu poder é
::® o resultado do seu trabalho. A qualidade deste depende, portanto; dos conse-
14 Michael Stolleis classifica certas Il1emórias polítiças prod.uzidas nos _séculos XVII e

XVIII, «do próprio inferior do sistema absolutista» num novo ·género que.nãd_é o· dos espe-
lhos e infonna:ções que recolhe. Lllís XIV seria assiffi o inventor de uma n'ov~ lhos dos príncipes, mas do qual sai como p6r derivação. Se não· fala daS)efémoires P.Our
t'instrl,/Ction du Dauphin, eYoca o Testament politiqUe de RichelíeU, Comó ós:espelh6s~:es­
arte de governar, cujos fundámentos se encontrariam sobre: tes textos contêm conselhos, dos mais velhos aos mais no\(O.s. N:ão·se destinruldo·a-publica-
çãó, especializam-se no aspecto «pri\'ado» do oficio tje governar e tratam, por cO"nsequêilcia,
dos arcai(a, Siou.Eis, 11icliael, Histoire du droit publiç en 4.llerriagne, Droii·f;ubU.'implrial
H Lvis xrv, Mémoires pour l.'instruction du Dauphin (lé.161-1668), Paris, lmprimerie na- et scíence de la police, 1600-180(), N,Iuniqiie,_ 1988, trad. d~ alerílãp pOr M.. Senellart, Paris,
tionale, 1992, pp. 51-52. .-· PUF, 1998,'p. 519. .
12
lbid., pp. 52. . 15 LAVISSE, Emest, Louis Xfv, histoire d'un grand rCgne (1643-1715), P<µis;RoberiLaf-
13 SENELLART, Michel, J.,ts Arts.de gouverner. l)u regiÍnen inédiéval a.u concept de gou- font, col. d3ouquins», 1989, p. 728. · '
vernement, Paris, Seuil, 1995, pp. 47-52. 16 lbid., p. 881..

26 27
:HELENE VHEUJLLET PROTEV OU O CONSELHEIRO POLÍTICO ,,.,
1!13 '•}:

~ .: moderno na Europ_a nos_ Séculos XVI e ~ 17 • Reconhecemos a existência desta tiva, Polizeiwissenscha/?3, mas historicamente: a cientifiCidade torna-se o <17
® a
:riiciona~dade forni3.I e: ··eficácia -desta. or.ganização na ~pacidaQ,e _de prever. objectivO das polícias judiciária (no século XIX) e de informação (no século .~
';'.'.'
_ O Es~do deve::'.ctOtai~~.e:. portanto~ Qe uma instância· de previsão.politica. Se XX s_obretudo).
® nos reportarmos à çlassific.aÇão das actividades policiais, t_al como são exposµs Para governar é preciso, portanto, conhecer, pois conhecer serve para pre- "
~ ·'pelo juriSta e. comissárfO· d~'EÓJ(cia 1'4arcel Le Clere, em tarefas de preverlção, ver.. Se a informação, particularmente a lrr{orrnação política, serve para gover- <;
'.;'

(l1 ~de repressão e de PreviSão_18 , d~vemos con~luir que a polícia de previsão, longe nar, é porque o faz em nome da ideia âe que governar seria, acima de tudo, pre-
··de representar a parte IliaiS·s_ombria ·qa:insdtuição, é, pelo contrário, aquela que ver24. Uma informação policial, uma averiguação, não é, na verdade. apenas '-~e:

8 . sé compromete m~Dos ·coin o_: «baixo» da sociedade e ·aquela cuj_o fim é mais uma simples informação, mas uma informação que instrui alguém acerca de al-
@ eievado. A previsão_ parece: dar sentido à·polÍciá.- polític,a. Em vez de preveni,r os guma coisa. Mas também não_ se trata de uma simples instrução, pois não visa
crimes, os-delitos e as _cori_trá.venções e de proct;trar. os culpados para os trazer a formação dos governantes. Está, pelo contrário, ligada à ~cção, a ela subor-
(-';; à_justiça, como fazem as polícias de -prciem e judiciária,- a policia de informação, dinada ou nela implicada: eia,é o «alvo». Vale pela e para a acção política. Se '\;..;.:
@ ·-:ocupada em conhecer o eSj,ítjto público, é prevenção da prevenção, espírito de a polícia de informação é tenúda, é porque o inverso é também verdadeiro:
prevenção anteriOr,_a toda a rriedida:_preyentiva: «Ela ausct,ilta a opinião com o prever e antecipar é governar.
® .fim de:-êS.clarecer o pod~r so~ré. o estado de espírito e as reacções çla população Mas, se é este o caso, a polícia parece ser um curioso recurso da açiminis- '~
@ . ·:,e detecta as activiÕades _suóversivas 19;».Se as dl.J.as primeiras fonnas de polícia, . tração governamental. É porque representa um ponto limite da administração
:"

e . p~evenÜva e repressiva,:·se podem fazer.,valer de noções tj.e serviço público, de


.ptàtecção da sociedade. Coílti-a ela próprill.;-, de mediação nas manifestações de
e do governo Que a polícia é uma realidade paradoxal. Constituída no movi-
mento de transfonnação racionaL.da política, ela hão é, entretanto, um elemen-
~

Ci . _ii~tipatia engendradas pélci Yi_ver junto; a polícia de iílforrnação, antecipadora, tO qualquer desta reorganização. Articu~ada com a vontade de saber do gover-
~

0 .--pirece estar somén_te ao: se_f,V_iço-do Estado ·e da sua p_olítica. Se ela-proteg.e _al- no,_é também o P?nto cego da acção pur~. Elemento indispensável da inserção
V. ~--0 : i J. ;,·. .
[\i)n <-.....,,

C?) filima coisa, é o -próprio Estàdó e o conjunto das iristituicões. Dedica-se por in- da sociedade nas malhas de um conhecimento éx-au!tivo, confronta-se, no en- e..tio" C,,,.,t<v.j,, . • ·~

'teiro a colêctai.uni-'sabef qUé--aClJmulâ, ·classifica e conserva, ao ponto de cons- tanto, com o real gue resiste ao saber e à previsão, toma ·a velocidade do a:con- '
@:' titUir uma ~etdadefta-«'érudieão-de·EStado2!?». -oS s_eJJs agent~ são·_co:nsiderados· tecjmeptg ;mprevisível: conspiracão, ·ffiotim •. crime, simples delito ou contra- r~ e .~r: '·
®
®
:comp polícias inVl.,!lg~_s ·tj_ao_.·apenas· porque se--parecem ri:Iais com espiões-do
·gue cóm mardiães-da··pai,'preferindâ._como eles «o anoni!náto do ja:qUetão à
venção. A polícia deve ao mesmo tempo antecipar e afrontar·o imprevisto. Não
se deve deixar surpreender e· <,ieve ·preparar-Se para ser surpreendida. Donde, o '"f "1 vJ;, '. ~

!ziarciaiidade do unifomie2 1»; Iião disPondO.non:Tia.b:nente·dé pÕderes'.judi~i~;s, uma dupla tarefa que implica dois _in.bdelo·s diferentes. Na sua função de ante-
(,' i ""vi r".:.
..
6' e._
'81 .·mas ~bétn poiqlle se·po_detfam cOnsiderar como- a <<lnteligênCia>> da p'olícia. cipação, ela parece poder tomar a ciênciá como modelo. Mas, como ofício da t
-A-alta :polícia paiece, p'ortànto~ bem·re_pre~entativa do mOmerito - assinalado
""
8;'
· p~r Foucaúlt - ém. qu_e Pas~amos- «de_ uma ~ de governar a uma ciência
urgência, é reenviada em direcção à- gueria. Estes dois princípios, serão eles
compatíveis? --. 1r~~
@j
polftica22>>: A passagem.· da· ~<ãrte de gOvernar»- à «ciência polític~> as~inaia-se
@ na históriá da polícia, 'tião 'apenas geograficaÍnente~ na oposição da tradição
@ .francesa, onde a pÜlícia :é- ~t,. à tradição· alemã, onde ela é: ciência administra-
23 Ela toma, rios primeiros trinta ano_s- do século XVffi, uma forina que a diStingue

@ n VrCENS V!VES, Jaime, «Lá.'strutura am..'Tiinistrativa statale nei secoli xVI j XVTh>, in
particularmente dos repertórios d_e regulamentos produi:ldos na mesma época pelos Fran-
ceses ..Q trabalho de Johann Heinrich GÓttlobs von _Justi consiste, por exemplo, em ten~
:·RoTELLi, Ettore, e SCHIERA, Pierangeio, Lo Stato moderno, TOino I, Dal medievo alfeta mo-
® --derna, -Bolonha, Mu!éno, 1971, pp. 221-246.
tar deduzir pelos princípios os elementos da polícia e a eles oferecer· um ensino dogmá-
tico fundado sobre a nanireza da própria coisa (Jusn, Jean-Henri Gottlobs, Eléments
13
L~ CLERE, Marcel, La Po!~ce~ Paris, PUF, 1972, col. «Que sais,je?», p. 7, généraux de la_ police - démontrés Par des raisonnements Jondés sur l'objet et la fin
~ "Ibki., po 7, . qu 1elle se propose [1728], trad. do alemão por M. E***, Paris, Rozet, 1769, p. 2 e p. 15, cf.
(j? 20 DEWERPE, Aiaúl; Espion .. Une anthrOpologie hístorique du secret d'Émi contempo- MAIER, Hans, Dieii.ltere deutsche Sta.tltS - und Verwaltungslehre [Polizeiwissenschaft], op.
@ rain,_Paris, Gallimaid~- Í994~ p.:_219. ·. · cit., pp. 38-39).
24
!C"\
lt LE CLERE, Milré;e!, La Polic"e; op: cit., p. 7. LE Q.ERE, Marcel, «La police pqlitique sous. la m~ Répub!ique», in AUBJõRT, Jacques
~') 21 FoQcÁULT, Michei, «''G_ gouvi!mementalité"», in Dits et Écrits, op. cit., Tomo ID, p. 657. (dir.), L'État et sapolice-en France (1789·1914), Genebra, Droz, 1979, p. 103. ' .. ._
Q) 28
.•
29
o é
"~,

.,.=-,

,,.~ HÉLEI\"E L'HEU1LLET PROTEU OU O CONSEL1iEIRO POLÍTICO

O~ agentes de ínfonnação seriam os engenheiros e técnicos·da'·polÍtica;·Como


·~
-~- A BAIXA POLfTICA, UMA «POLÍTICA APLICADA»
.-em <;iência, estariam- encaµ-egados de organizar as relações entr~- a teoria e a
.~ >tática-,. entre o geral_ e o especial.
A noção de previsão reporta-se à ideia de que o ~onhecimento ra:c;ional con-
--~
e
fere a possib-ilídade de esclarecer, combinando o raciocínio a observ,ação dos ....,.. Baixa política; a p61ícià sê-lo-ia como ciência política aolicada .A ~pliCaÇão
·l_etn·p~r função regul:µ--a relação do alto côm o baiXo _e de não>i_.abando.Ô8r à
·~ factos, as relações de. constância e a reiularidade que existem entre os fen_ó-
menos. Não é surpreendente que a referência a Auguste Comte se imponha tingência de· métodos sqsceptíveis de funciona;r ou não. Dà m~~ fonna
--~
.__,
(":-.",
para explicar que: e-a·ciência aplicada assegura uma verdadeira ·dOm,inação·da."natµreia, men-
:5 _,_:ável pelos seus efeitos; uma política ·acrescentada de 'Qma instân~ht. de aV~ri­
«[ ... ]a informação tem por papel ajudar os decisOre's .[...].~.portanto, çlaro ql,le a tare- ão pOOe ter pretensões 'à eficácia, -lá-onde umâ:simp~es ro$a vê:a.sua:efi-
fa essencial da informação consiste em fornecer ao po?e;r po_lítico, ao_ comando militar, ·ência depender do acaso das cfrcUnstâncias. · :.
@ os elementos de conhecimento que p~rmltam, segundÕ o aforismo de Auguste Comte, 1)ras não se trata aí de uma técnica indiferente, sem ~ompioin_eiet'"llenln,lm
0alor. O objecto, ao contrário, é àqui o próprio sujeito, e aqvilo aó qU:á(ele átri-
~ "saber para prever antes Qe agir", ou melhor talvez, a fim de decidir e agir, se for caso
''O maior valor em matéria de afirmação do·seu próprio-arbítri~: as·suas opi-
disso 25 .» '
s. Enqijanto política aplicada, a baixa política de infonnação t"m por fina-
:-'."':'\.
0 ~e Comte é aqui utilizado, não o é pefa s~a políticà.: ele não teria tomado d~de prever as reacções de opinião, como diz Marcel Le Clere:. ·
como sua uma tal acepção da cientificidade polític;a26. Na sua classificação sis-
JJ temática das ciências, a sociologia descend'e·4a biol9gia:. A política positiva faz- «Esta fonna de polícia constitUí uma espécie de previsão da acção,.mui_tó útil para
~ -se acompaÍlhar de uma religião e de mna educação. Se é verdade que em polí- ·tÕfihecer ou presumir as repercussões de uma·<!.ada decisão ~omo para: ciX~iiC-~ de boca
. ,·a-orelha o objectivo de certas medidas ou "preparar" os esp"íritos2ª.»
~ tica também existe, paraAuguste Comte, uma «lei dos tr~s estados», permitindo ,
considerar que o acesso da pol_ítica à científicidade viria fechar as suas idades .
~~ metafísica e antes teol6gica27 ;·a interpretação que l_he ·dá Auguste Comte nãb é Se tais declarações· têm por ambição acálmar Os ·ieceios: e- expulsar o
011 a mesma que é proposta como paradigma· à polícia. É o que Comte diz da fisi~ :tásma d.e Fouché, -compreendemos; no entanto, que. a 'definiÇãd, aparente-
_.te:"inofensiva, da polícia de- infonnação" como ciênCia políti~a- aplicada
\:e-' ~ ca que é aqui transposto directamente para a política Aqui,. como em ciência,
:e:caso falha. Com efeito; em Comte, a previsão correcta do.S- fenómenos
teríamos o direito de esperar que da ciência resultasse l.ima téCnica. Visto que a
··;,.•
técnica não é um proCedimento independente da ciência - -teoria- e prática es- necessariamente por prova-eficiei:ite a modificação possíyeJ _ d.os efeitos
'-Uma manipulação ajustada da aparelhagem técnica. Se a opin~ãO é aq1Ji·o
"<.,C;
JS tão unidas em Comte pela-subordinação-desta àquela-, mas t;LIIla aplicação, a
npo'dos- fenómenos, a definição da polícia· Como. ciência ~àplicà_da Vale
polícia seria, se prosseguíssemos com a analogia, uma «política aplicada».
mq autorização à manipulação da opinião. Usa! a nOção de.: pr~visã~ Para
%} ctar dar à averiguação policial uma significação eufemisante é co'ntraditório
u PASCAU..ON, Pierre, ~<L'importance croissante du renseignement», in PASCALLON, Pier- ... ~Olta a colocar em valor o outro IDodelO- sobre o qual esta funçãú. POliciai_ se
re (dir.), Defense et Renseignement, Paris, L'Harmattan, 1995, p. 44.
·-.:.-
26 É certo, explica Juliette Grange, «que a pOlítica comtiana é uma política da ciên-
.··il: o modelo militar. O tempo Do qual a averiguação policial. gallha se~tjdo
;;) cia», mas é para mostrar que não o é pela fonna, mas pelo objecto: «O trabalho e a in- fil.og_o à temporalidade que _a gueITa .instal_a Com ~·feito,. a PrimeiI:a_ cons_e-
"""':\ dústria são os traços constitutivos da modernidade, bem mais essenciais do que a ideia de ,ência -da antecipação é a aceleração. do tempo. Óra, -os -·ofícios da tirgêÍlCia
0
Estado, as teorias do contrato social ou o individualismo das teses liberais», GRANGE, Ju- dos quais participa a polícia - dependem -da lQgica".da gu_erra:na.-medida
liette, Politique de Auguste Comte, Paris, Payot, 1996, pp. III-N. A política positiva que devem adoptar, mesmo qpe artificialmente,_Unia·tê:mpotaiidade ace1e-
quer-se «relativa» (ibid., p. VII), «ciosa de doravante fund.ar as -decisões políticas sobre
coD..hecimentos r_igorosos (históricos, sociais), quer dizer, uma ciência políticaJ> (ibid.,
~ p. VII), mas Comte «teoriza a necessidade da- crença, pois propõe colocar Uma religião
secular; uma moral colectiva, um '.'religião dà humanidade'~ no centrO da ~ida. poiítica
~ mundial» (ibid., p. VII).
'I11íACHEREY,- Pierre, Comte. La philosophie et les sciences_, Paris, Pl[F, col. «Philoso-
~~ phies>}, 1989, pp. 64-69.
.zs ~ CLERE, Marcel, IA Police, op:_Cit., p._ 9.-

:~ . -:
30 31
n.t!J.,l:::J'.'it J...'HBUILLET
PROTEU OU O CONSELHEIRO POLÍTICO ""'
~i;l

G ~m
.. O TEMPO DA lJRGllNC!A É O Th\jl'O DA GUERRA
@ ~3 7>>. A pior situação é, pelo contrário, aquela onde nenhuma· contradição en- ,-'!:'.

~- as informações pode ser encontrada, mas onde estas se concordam e se con- 0


@ É· certo que o tempo· d~ oPeraçõts de gilerra nem sempre é regq.lado·pela v_e- .f"Ciliam para desenhar «Uma espécie de quadro que cada camada de cor suple- ."""'
· iocida:de e ·pela urgência ~·veJOcidade e a urgência dizem respeito, de qualqtler
® maneira, mais à táctíca do que à eitratégia Se elas constih!fssem sempre o nef\'.O
·mentar vem completar3 8». Esta representacão de aparência demasiado nítida '~
.: vem «extorquir a decisãc39 ». As infonnações que dãd da realidade uma visão
CD das operações, a guerra corisi_sfuia afinal, em todas as ocorrências da sua história, ~·demasiado coerente convidam ó espírito ao erro. O maior perigo «no· tumulto ';,..:._:
·)·:
0 num encadeamento-rigoroso de aCçaes29• Ora, observando como se desenrolaram "'.da guerra» reside na força da imaginação. A averiguação não suprime a su- ~
as·-guerras do passado, Çlarisewitz fiz flotar que algumas foram Ientas30 e que,
º'
@
-n{uiia_s vezes, a acção qa.gueITa é Suspensa .pe~o campo que prefere esperar3 1•
.·,A urgência da acçã9 reqúer a recolha de numerosas infonnações, mas o «desejo
rperstição sempre potencial em tempo de guerra, em razão do aumento do
~.'.·medo: ·-
~

~) 'de esperar pelo momento propYcio para agir''» requer, ·pois, averiguações: «Todà agente é levada, particulannentenaguerra, a dar mais fé às más notícias dogue_
~

@ às boas. Toda a gente tem inClinação para to~ar um pouco mais graves as más notícias40 .»
«Ü_termo averiguação designa o conjunto·Qe conhecimentos relativos ao inimigo e
® a~ ~.ê"U país e, por conse_q~~Q_Cja, o fun~~ento sobre o· cjual se ergo.em .as nossãs pró- Para contrabalançar esta tendência, Clausewitz prescreve como lei a das pro-
prias ideias e actos53 .»
@ Wabilidades. É o que o leva a dizer que, ffiesino se a guerra não é nem uma arte
:ém uma ciência, ela aproxima-se mais - se devêssemos escolher entre Os ter-
® .: ·No eritailto, faZ~rda_.iP.'~ri~ação «ó fu,ndamentc3 4» sobre o qual devem as-
..os da alternativa - da primeira do que da segunda, na medida em que a arte
® ·s'e:ritrµ- as ideias e o~ ~ctÔs·; ~ ..dar o conselhd' de não «Se fiar senão nas infonna- '~

;qller o uso do julgamento41 • Mas a definição que Clausewitz dá da guerra


Ções certas35», é a.cied.if~ Íiü~·funcionô:filento mecânico da averigtJação e.ima- ·~·
® ginar-se dispensado de eXei"cer; o seu julgamento. Se ·c1ausewitz zomba assim
.eve convidar-nos à.interrogação, se não é a uma noção aristotélica do prová-
qUe se prende a teoria da guerra, para além Qaquilo que a noção do cálculo
r@ dos «escreVinhadd.!es» ·.que-eXpiicam~. que não se deve n]fnca «partir· de l,lma ·probabilidades evoca. ·A maneira· como Clausewiti recusa ver na guerra uma
,.('ili. desconfiança geriil36 », 'é·.portjÜe-eles se·estjueceffi"<:Je que em.tempo tj.e guerra para dela fazer uma fonna de.eXistência ·social, semelhante ao comércio e
\'.::::!S"
a maior parte das húonD;açõeS.é fal~à~ O perigQ leva.Cadàcampo a proteger-se. aítica, não está longe da distinÇão da"poiesis e da-praxis' estabelecida por
,·~-.

® Ora, a dissimulação não.é co~seguida.~enão multiplicando-se por ela própria, ,;.St6teles42 :


@ di~sim.ul~do-se scib uma ~Sparência qlle tdma-3. aparência-da.difi;são \".O-
luntária. de il)fonnações,daqüUo que chamamos hoje em dia.«desinfonnação». , «Nós diiemos que a guerra hão perte~ce ao domínio· das artes nem das ciências, mas
@ \Jfua tal.atitude dé' descón.fiança só faria sentido se apenas algwnas informa-
<SI ·. sim ao da existên~ia ~ocial. Ela é um conflito de grandes interesses regulados pelo· san·
·çõ~s 'fossem fals.3$.
""'@! A· contradição· dás.-iilfo"tm?-ções entre: elas é.seínp're um acaso: põe o.j1.,i.1-
<'glJe·e é somente nisso· que difere dos outros conflitos. Valeria mais compará-la. de pre-
ferência, a uma qualquer arte, ao comércio, qtie é iambé~ um ~onflito d_x.intéresses e
·~--...

;ga:mento ..em aleita;.'N.~te_·ca~o.. com efeito, «a crítica impõe"-se ao ignoran-


@) ,"a.Ctlvidades humanas; ela assemelha-se aindà mais à política, que po'db ;er considerada,
'~
. ':; por sua vez, pelo me~os em parte, como uma espécie de comércio em grande escala.
®' CuusBWm, Carl voh,De· fa.guerre'(1832-I834); prüneii'a parte, LI,14, traq; do ale~
. 29 Para mais, a política é a matriz a partir da qual a guerra ~e desenvolve: as suas linhas de
@ :mão por D. Navine, Pátls, Minuit. '1955, p.·61;· Vom Kriege, Bonn, Ferd.·Dümmlersverlag,
1980e1981, pp. 203'204. . .
.~)oid., primeira parte, I, J, 6, p. 107p. 259.
© 30
lbid., primeirá Párte, I, .I, 12;:p. 60/p. 202.
~.~"Jbid., primeira parie, I, I, 6, p. 107/p. 2;i9.
" I'oid., primeira parte, l, !, l3;pp. 60-6l/pp. 202-203.
. 31 lbid., primeira' parte, 1,:1, 13_,'p. 60 (em destaque no texto}/p. 292.
? Ibii, ·primeira parte, 1, I, 6, p.. 107/p. 259..
33 [bid., primeira.pàrte, I, I, 6, p. 107/p. 258. ~4!J·[bid., primeira parte, I, I, 6, p. 108/p. 259.
34 Ibid., primeira parte, 1; I, 6 p. 107/p. 258.
u (~.1 Ibid., primeira parte;. II, 3, pp.)44•146/p. 303.
1
3 ~ lbid., prlmeiri.parte, I;I, 9,-p. 107/p. 25.8. ·-~2 ARIST6T&.ES-, Éthique à Nicomaque: \(!, 4,. 1140 a-a 23. trad. do grego por J. Tricot,
· 1 Vrin, 1990, pp. 282-284; para o téxto·grego, ARISTÓTELES, Nicomachean ethics, VI,
36
lbid., priÓleira P'.llte, I~ l, ~,.·p. 107/pp. 258-259. , Harvard University Press, Loeb Classical Library, Vol. XIX. 1926, pp. 334-336 .......

@ 32 33
-
.,
j

~
~

~
-~1
'., PROTEU ou o cONsE;ruRÜ POI,..ÍTICO
~:
.it~?
HÉLEN-:E L':i-iEU1LLET

:~ desenvolvimento já rudimentarmente formadas aí se escondem, tal como as proprieda- a da cortesia para passar a ser a do sucesso45 , completando_assim a Tl).ptura com
-~'-
a velha arte de governar medieval. Metáfora da· regra pofqve m~táf6Í-a do co-
'~
,<-· des das criaturas vivas nos seus embriões. [...]A diferença reside n~ facto c;le que a gtJ.er-
ra não é uma· actividade da vontade aplicada a 1,lma m<i.téria ine;te. comç nas artes me- nhecimento de. s_i, o «espeµio do príncipe» era então d mari.Ua.I da governação •1
~) cãnic3:", nem a um objecto vivo mas pasSivo e submissó, tal como o espírito humano e de si de um prínéipe-espeUio que Q.everia «dar o exempl~46 ?>.14.C:táf0ra da visi-
..-_,,
9 a sensibilidade nas belas-artes, mas a um objecto que vive e reage' 3.» bilidade, enquanto capta os raios luminosos, designa o brii.hc;i.'pri-D.cip:esco.-Me-
táfora da mimesis, sugere 1.JID modelo divillo·inv.isível47• ·ora:, no século XVI,
'& A informaÇão milÍtar permite-nos compre_ender _a informação política, nãq para Michel Senellart, passamos deste modelo especular _p·ara _â ídeia de uma
;~~ em virtude de.uma qualquer semeihança, mas, pelo contrá,rio, porque a guerra técnica política de previsão do futuro. Mas ele n9tà tambérll G,U~ ne~~ época a
'_'.'?f, é -qm caso extremo onde constatamos fileihor do que em qualquer outro lugar arte de prever ainda se chamava prudênêia48 • Para além d~ id~ntidadé etimoló-
1<:' :2P que as informações são aleatórias. Estas con,clusõ~s. são.t:c:ari.sferíveis para a po- gica em virtude da qual a-prudência poderia ser-definid~:comO. a piópria arte
@. lítica, mesmo se a guerra nãQ constitui o mode10 para a política. Se Clausewitz de prever, a previsão, n_a ~rdem dos assunto.s humanos,'Pa!~~er ser_ainda de-
pensa a guerra como acção, é porque para ele a política é acção, e o sa~er po- pendente, nl,lilla linha aristotélica, da phronesis, mesmo-se ·no _seu interior ~-e
lítico é urna ordem específica que não se c_ompreende senão na lógica da ac- realizam mµtações. Como tal, ela não supõe,.comO o faz á: Pr~v~São racional de
ção. ~fais do que previsões, tratar-se-ia, po~anto, atra~és da-recolha de infor- Auguste Comte, a anterioridade do conhecimerito-sobre a:CJ.cção: Ela.não mar-
mações, do inquérito, rj.e separar graus de probabilidade, quer dizer, adquirir Gii 1Jm retorno a um qualquer platonisnlo; prévernão signifiéa «fabtjcar» o po- ·
. uma forma de prudência . lítico. Se a prµdência inclui a antecipação do acontecimen~O.~_se./> teffiio de téÓ-
-~,

·, riica- de governo pode ser empregue, este nãO recupera -pOr-"·essa razão :o
signific;àdo de domínio de aplicação. Ele é ai~da:sln6nim~:·.~e.c'.apaci~.ade, com
PREVISÃO OU PRl]DftNClA? todas as cOnsequências que pode ter o yso deste termo na ~oiítÍcá. Oc~çulo nã.6
·-é· uma «aritmética» política e socia149, nias si;n úrria <<prud~llciiá"capaz, feita de
Olhando:Para a suá.história, -"considerar que. a política seja uma ciência da êálculo e de iilstinto50», Q.ma espécie de metis, portanto, se p"oi.:fr~O entendemios:
qual deriva uma técnica, nada tem de evidente. Na tradição do pensamento
aristotélico, ciência e técnica· não detêÍn o monopólio da racionalidade. Ora, a «Um certo tipo- de inteligência empenhada ria prátic;~ afrontand~· obslácuióS_ que é ne-
referência a Aristóteles é o lugar-comum da política. fyfesmo hoje em dia, as cessário dominar utilizando a astúcia para obter su~SSo nos doinínios mais-~iversos da
ciências sociais apoiam-se ne1a44 • Ora, é a prudência: e não a previsão, que acçãost».
\::;:
- pela herança aristotélica passada para a filosofia cristã a partir de: São
Tomás de Aquino - é considerada-a virtude da acção de governar. 45 SENELLART, Michel, Les Arts de gouverner, op. cit., p. 211.
A ciênc_ia da governação parece, é certo, um dos últimos prolongamentos 46 Ibid., pp, 47-52.
de uma mutação que, como mostra Michel Senellart, vê, no século X\Tl, a arte ,, lbid., pp, 145-147.
de governar passar do visível ao previsível, e a finalidade política deixar de ser 'º Ibid., pp, 274-276.
49 REYNlÉ, Do mini que, «Le regard souverain. Statistique sociale· et raison ~'État du xV-re

43 CLAUSEWITZ, Carl von, De La Guerre, op. cit., p. 146. au xvme siêcle», in LAZZERI, Christien, e REYNIÉ; bominique, IÀ:Rais0n'd'Étiit: politiq!fe
44 BOLTANSKi, Luc,e THÉVENOT, Laurent, De la justification. Les économies de la gran· et rationalité, Paris, PUF, 1992, pp. 43-82.
50 SEI-<"ELLART, Michel, Les Arts de gouverner, op. cit.,_ p, 58.
deur, Paris, Gallimard, 1991, pp. 186-187. Paul Lardriere dá um bom exemplo. Introduz as-
sim o seu propósito: «Ela [a noção de phronêsis) .Pennanece uma referência necessária às 5! DÉ'TIEN!'<"E, Marcel, e VER.NANT, Jean-Pierre, l.es Ruses de l'intelligenC'e. La. «mJtis» des

discussões que suscitam as teorias .decisionistas, voluntaristas, utilitaristas ou cévticas», Grecs, Paris, Flam.marion, 1974, reed. col. «Champs·Flammarion», p; 8.-Não há ã.qui contra··
LARDRIERE, Paul, «La sagesse pratique. Les implications de la notiori aristotélicienne de <lição oom a referência aristotélica, mesmo sendo necessário temperai: a afirinaçãõ de Détien-
phron.êsis pour la théorie de l'action» in Raisons pratiques, Paris, 1990, n._º 1, pp. 15-37. So- ne e Vernant segundo a qual, se, em Platão, a mêtis é ~X~or à éj:Jisteine,_-r;m Contrapartida,-em
bre o papel do recurso à phronisis em sociologia, e particularmente sobffi·.o sentido-da refe- Aristóteles, a prudência retém traços da metis (ibid., p~·tti). PierreAubantjue nióstrou que' a
rência aristotélica na obra de Luc Boltanski e Laurent Thév~not, podemos referir-nos a Jac- prudência em Aristóteles não se deixa enclal,Jsurar nas oposições mbóei;nas .(teofia e prática,
qi;es HCÍareau, «L'abaissement et le regain de la prudence», in TOSEL," André (dir.), Fo~es fins e meios, .consciência e acção) naS quais a retemeis qi,ÍaÍl.dÓ nos .qUestiOiiamoS se deve ser
de rationalité et phronétique moderne, Paris, Les Belles Lettres, 1995, pp. 120-142. interpretada como cálculo racional (interp~etação de Jaeger), cOmo sabedoria (inte!pretação de

34 35
::...,
nci..l!Nt L:HEl]lLLET PROTEU OU O CONSELh'EIRO POLfrICO
~
~ A vontade de_ prever não re~ete necessariaménte para o sentido próprio de A distinção entre a instância qçe recolhe passivamente·os dados e aq~ela que
e
cálculo. mas também pàra o se.ij s·entido metafi;Srico·, e a previsão só tardia- estabelece a s~.a análise e os ayalia existe, portanto, deveras. O observador for-
~ mente toma a sua acep:Çã_o·comtian:a. Aquilo que devemos reter é, pelo centrá~ nece os factos sem os an~sar. Ele ajuda a análise. A avaliação da importância
(;:
~

~ rio, a origem política d"a pfobl~~átiÇa Como a· fazem notai Márcel Détienne e ou da veracidade procede não dos factos mas da sua análise. Será então neces-
~ Je.an-Pierre Veffiant,.-r1ão_eXiste na Grécia soberania sem merit2• sário pensar que, mal-grado a semelhança de rotinas de vigilância, o inquérito
.:._.
O interesse· da p~viSã~ consisté em desembaraçar a decisão política Q:a sµs- ter-se-ia modificado entre o antiga regime e o império? Fouché declara-se, no
Ó 1
peita da razão ·de ESta:dO. A razão de Estado seria uma forma balbuciante da entanto, restaurador em matéria de polícia. Mesmo se tem palavras duras para os ~
r:, raciorialidade-Política. -tDdo até ao .fim da lógica da pre':'isibilidade, o cálculo tehentes de polícia do final do antigo regime, caído por culpa da «nulidade da
<,,._:.:
perderia progreSsivame:nte_ o seu seàtido ·cte_estratagema para tomar o de pros- alta polícia56 », ele retoma ~s procedimentos de Argenson e de Sartine57• Fouché
8 pectiva; Desta .maneirá;_po<,Ieria realmente servir de ajuda à decisão política e pretende menos inventar novos métodos do que devolver.a polícia à sua verda- ~

Ci ·. merecer o seu n"ome de::~ciência pOlítica do segredo


de Bstado53». A verdadeira deira finalidade. A mudança estará então na diferença entre a prevenção, que é o
(!) · prudênéia seria· entãó o· c{)il:hecimento real e racional do Estado. A polí~ia seria objectivo atribuído por Fouché à alta polícia, e a previsão, ponto de apoió do dis- "
uma pai-te da cí~ncià:._dó. Estado. curso actijal? A prevenção peonanece, tal como a prudência, da ordem da práti-
_@ na
.... -Não. é, no entant9·; Sêiu.ro qtJe, ordem do método, a previsão seja um aper- ' ca: trat_a-se menos de antecipar o conhecimento do acto do que o próprio acto.
feiÇoamento da- prÜdê~_Cia.. Se cori.ipararmos os protOcolos contemporâneos . Não se trata, portanto, de opor a prevenÇão à repressão, como opomos a palavra
com os métod0S" antigos, PódemoS_duVÍdar da existência de uma ruptura. A prá- à violênCia e a doçura do conhecimento à dureza dos actos. Pelo contrárlo, oco-
tica ·contempoi~ea ·do_.itjquérítO pãSsa.,:por três etapas: a recolha de infornia- ~ecimento e a acção não se distinguem, em matéria de polícia. Fouché faz-nos
@ ções· -- que eÍlquan~o .bru.tas·não constiÍ:uem ainda· conhecimento e podem ~er compreender que as «três actividades policiais», da prevenção, da previsão e da
~-·

Q;i falsas-:-. a sua ànálÍse~ qu~ deve estabelecer a sua veracidade, e'a sua avalia:. repressão, não são justapostas umas às outras de tai maneira que pudéssemos es:
ção, que deve deternµnata_.sua ut4idades 4• Fouché: nas suas circulares aos pre- .Colher esta em vez daqQ.ela, tnas qQe a _noção de: polícia reside no entrecruza-
@; . feitos encàrreg11dos de Víiiar o espírito público, forinula preceitos que respei- mento das três, que pode~ ê·certo, desde que atinjamos um certo grau de com-
@ ·· tam estas três etapas:da !e.colha,yerificação e relacionamento dos factos com ·~plexidade na adm,inistração, ocúpa,r-se de_ tarefas distintas e potvezes rivais, mas
A outros factos: que não têm sentido senão em relação um.as ·com as outras.
>.J.'
Ena articulação· destas ~fas, e não Íias próprias taref2.s, que se situa a peri-
@ «.i.'l"ão peço· neffi.qu~r<J ~nhecer senão os factos que sejam recolhidos com cuidado, '· ·:;gosidade ou a relativa inOcuidade da polícia. Existe; por exemplo, perigo em
@ apresentados com eiac_tidão e simplicid,ade, desenv9lYidos com todos os detalhes que pos'"
lo • • .
confiar à polícia de informação ó poder judiciário de aprision_amento. Para os co-
sam fazer sentir as çoris~q)Jê"ncias, indicar as relações, facilitar a aproximação. Noqueis, let:tores de. informações, tudo é boin de apanhar e as averiguações mais diversas
é0 todavia, que, ~do enéerÍidà. dentro de estreitos limites, a vpssa vigilância não pode jul- t..,:..;.: as verdadeiras tal como as falsas - são postas no mesmo plano. É: uma polí-
'

@ '

gar da importância dos .factos que ela obs~a. Um dado acontecimento, aparentemente ',óia ·que, precisamente, não faz julgamenÍ:os mas~ conJeéturas. _A suspeição que

{tJ, pouco importante na esfera-· de um departamento, podé ter ·mn grandé interésse na ordem . .p_teside à recolha .deve, portanto, ser corÍigida não somente·peÍa análise mas por
'
geral, pela sua ·Íigação com. 'análogos que vós não podeis conhecer; é por isso que nada ·~a outra fu~ção policia!, que suspeita da suspeição que presidiu à reéolba.
®· posso ignorai- do que Se passa de'extraordinário ou segúndo o curso habitual das coiSas55.» 1

®
10. Garithier). ou·_antes Comci:habilidade. Como ele relembra, Péricles, que é o exemplo_por exe- 0
0 INQUÉRITO E AS TÉCNICAS DE INFOR.\1Ai;ÃO
.\..l~:
lência da. phronê'Sii; não: é n"ém .a «bela altha», nem Bismarck, nem Maquiavel "(AUBENQT,JE,
@i Pierre, La Prudence chez Aristôte, Paris, PUF, ~963, reed. col. «Q1J3.drige», 1993, p. 63).
52 Ibid., p. 62. . .. Terá, todavia, uma tal problemática .ainda 1entido? A multiplicação dos
® ~ 3 DEwÉRPE, Alain,-Espfon·, "pp. cit., p. ·223, . ,. \meios de fazer circular à.informação - em m~téria de polícia; o aumento do
54 PASCA_LLON, Pierre",:«I/impOrtance croissant.e du renseignement», art.·cit., pp. 44-45.
('Ji 55 FOUCHÉ, JoS~h; ~ÇirCú.!Ílire. aux :préfeÚl», 3 l de -Márço de 1815, éi~ .in. BTJISSON,
56 Mémoires de Joseph Fouché,-duc d'Otrante, op. cit., p. 91.
®. Hen!y, Qui érait Fou~é,· duc d'._Otrante?, Paris, Le Pavillon Roger !\.farie éditeu,r, 1968, p. 305. 57
lbid., p. 22 l.

©~ 39 37
®
""'",

"'h.
\~

D
·~
;,,,. t'~LEl,iE L'HEUILLET PROTEU OU O CONSELHEIRO POLÍTICO
-t1P
..

·~·~ «inquérito aberto» - terá tornado obsoletas a recolha e a análise.de informa-


ções? Através desta questão, não é apena$.a- concepção mas a própria existên-
investigação torna-se de novo secreta .. Para mais, mesmo.-se a infor_mação pro-
curada pelos serviços secretos -não é secreta, estes. mereceni mesino assim o
cia da polícia que está em jogo.- Se a polícia se_ torna transparente-, desaparece seu nome: o_. que- eles devem dissimular é o seu intere'~~e por est_a ou-aquela
""'
.:,.~::; enqlJanto tal. A realização da polícia seria o seu- eclips-e. Os meios de controlo, informaçãd. Isso volta a ser uma recolha secreta.
_,-,_
<D ~
mais sofisticados,_ tornariam inúteis as formas grosseiras de espionagem - or-
ganizada ou não. o aperfeiçoamento 4os métodos suprimiria. o problema mo-
No ent~to, a abundância d~_informações -_não faz desap'!-fecet.a alta polí-
cia, da mesma forma que não lhe torna a tarefa mais fáciL)~oderíamos pensar
,,___:;
dificando o obje~to. que a recolha.fi.ca facilitada, enquanto a análise se toma _àiaj:S difícil~ Numa so-"~ .
0· -'9 O espírito público parece efectivamente não 'precisar mais de ser espiado. ciedade de informações, o problema-da-polícia é com.~feítÕ-.o d9 seu trata-
Ora, este era um dos objectivos maiores dà aCtividade policial de recolha de in- mento. Mas a dificuldade da <i.nálise influi ao invés sobre ·a Cblecta. Como é im-
formações, sob a monarquia como sob os regi,mes.que-J_he ~\lçederam, nomea- possível reter todas ·as informações, a recolha.deve cbi:;npo~ u~à parte de
:<:S"~
1·:-'· _-::J: damente o império. A polícia já não p<Íre;c;e ser o melhor meio para conhecer os análise, o que é, em prinCípio, desaconselhado. Isso requer-da polícià uma nova
humores. A sondagem de opinião é mais precisa do que as circulares dos pre- avaliação das-informações. Numa lógica de espÍonagem:clás"s!ca,- ·o preço da
feitos de polícia de Fouché; a n1edida SlJ.bstituiu a intuição e a avaliação a dis- -informação ril.ede-se pelo seu grau de opacid_ade: quanto Inais ã inf()rmação foi
p.-- crição. Não há necessidade de um ciicuito secreto para consultar os resultados: qmcn de obter, maís_probabilidades tem de ser verídica.· séi-Pelo coµtrário; in-
o jornal é suficiente. As-informações secretas não São mais· do ql).e com~le­ fonnações de valor desigual se contradizem, é ·necessário: e,nc~ntràf um out+o
mentos das informações publicadas .. f:.. policia não faz má.is que· dar nomes e meio de avaliar o seu valor. A polícia parec~ ter de se ~Sfonnar effi gabine-
desenhar caras sobre informações das ·q1Jais qualquer pessoa pode ·dispor. N.a te de peritos e as agências de informação em laboratórios de·p~ritag~m60 • É ne-
sua hostilidade. para com toda: a polícia política, na.qual ele mais não via q~e cessário então llm saber para julgar as inforinações. Sobretudo quanto mais as
um «ofício escabroso», o prefeito de polícia Lépine;,entendia que o jornal cu~­ informações são abundantes, tanto 'mais fácil é dissimW~-unla d.entre elas.
pría-lhe a função com vantagem5s. É a pôr em.marcha modificações como esta A dificuldade da recolha torna-se.quántitativa: qtianto rÜaiOI-·-_r~r a é:ruantida~e
que se dedica igualmente-hoje em dia_ o almirante Pierre Lacoste, antigo direc- de infÔrmações, mais longa" será a recolha: A nat1,lreza do_ -segr_e"do é iemporal.
tor da DGSE. Este afirma com efeito que as «informações "abertas", cuja ·re- Assim qlle o seu tempo passa, ele deixa de o ser. Então, o:tenÍpo requerido p~a
colha não faz uso de práticas-clanJestinas, fornecem mais de noventa pÜr cen- se aperCeber que falta uma infonnação e que qu,alqµer ·coi_S_à. 'se nianteve es-
59
to das informações verdadeiramente úteis aos decfaores ». condida é tambéní aquele_por causa do qual se deixou pas-~a_i: .a :~casião de agir.
A diferença entre os regimes (monarquia e-império Q.e Q.IIl lado, república, Para saber que qualquer cdisa é Secreta é necessário estar já).Ílformad.o; Assim,
\.._;.," do outro}não é, portanto, a causa directa do eclipse aparente do trabalho de in- quando hoje em dia qualquer coisa é secreta, é-o ainda mais·{,{o que no_-iempo em
quérito. São mais os argument_os técnicos do _que as razões morais que são ale- que a infonnação era menos acessível. Coberto Pela mul~tude de info~ações- . . .
gadas pelo prefeito da m República ou pelo almirinte da v: É certo _que numa disponíveis, o segredo não arrisca ser descoberto~ Ó saber·maD:té~- a ign<:>rância.
-·~.,::;· república· a liherdade de exprimir Opiniões e de diÍi+ndir informações é um efei- Pelo saber, os governos tentam proteger-se do acontec~mento. Mas então,
to da definição do regime. Entretanto, a conclusão policial não cons-iste em di- precisamente, o conhecimento pertence à polícia. definida -Il~o «6m ideia>> mas
~~-.-· zer que o espírito público não deve ser espiaçlo, mas em considerar que o seq «em acto», como ofício da urgência, como função do «iridetenninado61 » e do
'.-_,. conhecimento se tomo1,1 mais-fácil porque a socie_dade se põe c).e alguma ma- «desfocado62». O saber policial Ti.ão é instrunienio da deci~ão política63 • Apre-
neira à disposição do Estado. Se a polícia renuncia às investigaçõés secretas, é visão não suprime o acontecimento, mas denuncia, pelo contrário; o carácter
porque estas são menos necessárias. Não são, portanto, os métodos qo:e se trans-
formam e se tornam rn:ais transparentes, mas o objecto qo:e se mostra em ple- 60 DoBRY, Michel, «Le renseignement dans les démocraties ocCiden"tales. Qúdques pis-
na luz do dia. De resto, a partir do momento em que 1.).m facto é secreto, ? tes pour l'identification d'un objet fiou», art, dt., p. 63.
61
MONJARDET, Domínique, Ce quefait la police,· Earis~La Découvertei; 1996, p. 186.
62 DOBRY, Michel, «Le renseignie:ment dans les démbcraties ocdidentalés, Quelques pis-
~
~

-------
ss Lê?rNE, Louis, Mes souvenirs, Paris, Payot, 1929, p. 170. tes pi:>ur l'identlfication d'un objet fiou», art, cit., p. 54. · ·_ .
s9 LACOSTE, Pierre, ({Responsabilité et éthíque des services de renseignement», in Appro· 63 BRODEUR, Jean-Paul, «High Policing and Low Policing: Rem_arkS A.bout the-Policing
,-., chesfrançaiSes du renseignement, Paris, Fondition pour les études de défense, 1997, p. 147. of Political Activities», art. cit., p. ~14. ' .-

38
HÉLÉNE L'HEUJLLET ·~

1,1. ,.
1 " incisivo. Exac~ente:por.a_í, a ideia de qQ.e Um progreSso na racionalidade uni-
,g
·:;o;
+ _ria- a _prudência :e a pr~vi-sãQ virá-se contra eia própria: qlJanto mais o provável
1 ~.
~-:'"

é previsível, mai:S o ~p.i:e-yisível é improvável,_ e, portanto, mais es~e·tem valor


I~ ·· de acontecimento quando se produz. ~-'·'

!~
@
. ·A polfcia parCce tér;-p9r. conseguinte, como seu assun~o. os :resíduos de im-
:·previs_ibÍiidade_ prod~zi~(;Js·-pela preV.isão. Ela tem 4e ~e oéqpar_ cçim o impre-
',; ••
. _yisto e·-com o acidente. ·A: decisão, -que não é a simples aplicação de 1,1m saber, II
&4 constitui' o. traçó. distiiitivo ·do ofíéio ·Policial. Se a polícia participa de uma po-
QS AIDGLIARES DA POLÍTICA
WJ líücà. toi:nada raCion~ii;::rião o faz epquanio 'emblema ou espelho. Ela também ·...::,.
não é ~ es·queci_dá- da _i'ázã.ó·, _6 resfdl.)o _da força_~-~ çxcePçã9 ao. direito. mas uma
~~ insd~ição atraYessad~ pei~· racionali4ade ad~inistrativa e definida pelq direj- \;,..;.;

~· to. ~ ~~.st~!.~.Ilsâó qué.ela se ~itua! e.é Po~ql.1e se situa nuriÍa tal tensão que. cons- UM: «CHEQUE EM Clli'ZENTO»
~~
ctituLllma Chave'_para·-á:ini~iigibilidade_ da política. Pensar â_ :polícia obriga a
®i considerar qoe e_ntre os rii6í0s e os fins dil política rião exist~ continuida4e nem Em vez de ver ·na polícia o simples elemento de uma racionalização pro- ·.;_,.
@;-

:
· c0:ntigpidade e _qúe o~·se~tldo da polftica se situa também nos meios - e não gressiva das técnicas de governação - o que sempre sucede quando se tomam
~

.sométíte rlo's fins·.. .- ··. · - as coisas «pelo alto» -:, é mais operatório, para pensar a polícia, tentar cõffi-
\ preender o que é um auxiliar da política. Essa é a contribuição fundamental de 0·

Jean-Paul Brodeur. Este parte da aporia onde nos mergulha a aplicação sem '0

~. discriminação Q:a concepção do devir racional da política - saído, por exeni-


. pio, dos trabalhos de Max \Veber - , para refutàr nomeadamente a possibili- '--

1 .
dade de aplicar à polícia uma concepção caricaturai de uma tal evolução:

<Mesmo se ela é sob diversos aspectos burocratizada, não constitui no verdadeiro


sentido uma burocracia. Falta-lhe, de facto, um dos traços essenciais da definição (we-
r
N.J ~-
u..:..\;c.o
to"'f""
r..C:,,:
~:
•>
·;·
~

!
beriana) de uma burocracia; a saber, o exercício de um controlo estreito dos altos
escalões da hierarquia sobre os funeionários do nivel_.inferio.r:1.>l: J.v,'""'f""" li :;
cf..ed f.l'0 tJ;; ';
Na mesma ordem de ideias, Dominique Monjaidetfala da «inversão hierár-
~~ quica»: «No trabalho poli~Íal. as iniciativas cruciais emanam dos·e'Xecutantes2.» ~ w'-".
® Mesmo se, como em t6da a administração, as ordens vêrri «do altO», e se, por-
r.r !""'~) ~:.
~ tanto, a relação do alto e-do .baixo ·é <;Ia ordem da aplicação, na polícia, na me-
dida em que a sua:es_pec_~c;;idade:-!eside na urgência, no inÍprevisto;·n~ aciden-
te, a decisão e o ju1gament6 ·vêIÜ·:<<de ~aixo>>, Cada operação. policial procede
Ct.twkt:.:: ..:'. )

Pf···. de uma selecção, comO demonstra: Monjardet, tomaildo como exemplo a pa- JJ,.c,,·df.,.,., ,
~t- ~
trulha noctumii.: .para apliCar a .oi'dem de manter a tranquilidade urbana, ela
ffe/' deve julgar aquilo que merece ser-apreendido ou assinalado3 ; deve traduzir e
~-· I>Í. ~" "' :t··
~

1BRODEVR, Jean-Paul, «La police: mythes et réalités», art. cit., p. 31. ,p.l,rttü,d. o4 vf!

1
2 l\10NJARDET, Dontlnique, Ce quefait la police, op. cit., pp. 88-89. ··--· .-.... ···-·- ----.....J,.
3 lbid,, p. 43.

40 41
@
~
~
; i

d.ic.0iVI k-'> ~ o({ ;,.,c.i/\-lt\f"'- ~ '-' -,,,z"
HÉLÉc'E<.:HEUILt.Er r (.,,,,;;:l:H1.1.J?~ . \ V2J11Z~J~
~-. PROTEU OU O. CÇ>NSELHEIRO POLÍTICO
~
ift.1. 2::terpretar a ordem dada. A vigilância não é u:zia visão passiva, mas tJ,ma es- ria e o critério da boa aplicação sería jurídico. Mas tal c.oino a equidade, a ac-
~;;; ..
colha de orientar, retardar, ou desviar o seu olhar:.Estando a faculdade 1e jul- ção policial refere-se a uma regra, e tem por fim qma eSpéCie·de rectidão e cj.e
;r~ ;~ ~-- gar no fundamento d~ actívidade policial, é nec~ssário, se dela querei:io~ com- nivelamento. _ Ela é um «correctivo» 7• Tal corno ela, é uma.regra branda, qµe do
·./f , ..=]:: _S) preender qualquer coisa, representar a parte de incerteza que a const1tu1: ponto de vista do direito pode ser classificada como CÔÍnpromisSo, que -uma
h''. § abordagem rígida ...:.. por ser estreltament€'.-judiciári~, _:.:'.-do i~al n~o·pode agar-
t:: ·. <~ r
'•:it/, .
.j
«É um profundo erro obstinar-se a destrinçar um esquema racionalizante sobre tima
.
rar. Mas da mesma maneira qúe a virtude policial, a equidade n~o,'está acima·
,;!Tu.~. i ..., t. actividade qµe concebe a sua incerteza como um dos trunfos decisivos4 .» das leis. Ela é mais rigorosa do que a justiça minuciosa; Á poliéi'a, à seme-
~ ! -& lhança da justiça equitativa, não pode ser arreliadora.- O .eSpírit9. do regula-
~. .5 -~-7.
Não se trata aqJJi somente de .reflectit·nos desenvolvimentos, também eles mento não pode conduzir a mais rigidez do que o espírito da lei:.·:_- · _/
:~-- largamente aporéticos, da oposição do subj~c:ti:irç· e: do .o'~jl?ctivo, das «motiva-
' ..._ Se a equidad.e é sUperior à justiçS., segundÓ a lei, é ;:ià medida eni que o espí- ./ -: ·
(. ·, )~~.: .$, "]. .;
ções» dos actores, etc. A ori$inalidade de Bfodéur é a de te! ultrapassado estas rito a leva à letra: A letra da lei é por Oefinição faltosi ·Do-·pon_to de vista da I~
jp.;. .i L.
oposições: a do objectivo e do subjectivo, a do acto _e da intenção, do fim e dos os «buracos jurídicos» não são defeitos: a lei não pode.ser .Universal se não fa-
®-l: '"'! €meios: Ele propõe uma nqva man~ira de encarar a a~ção. ~ ~ pçir circunscre- lhar no particular. Enquanto t_al, a lei não e~tatui sobre as su.as Çondições Çe apli-
t'" .. .~~ .:: ~ . . _. 5ver a mcerteza do processo da acçao que Br9deur forJa a meta.fora do «cheque cação. Deve assentar sobre o maior ~úmero de casos póssíVeI. ·Ela só evoca cir-.
~f:: :i -2 ~em cinzento» - ou «cheque em branco»: cunstâncias gerai_s. Tal como a equidade, a virtude policial.é:uma interpretação
-:;:_:$):· ~ .§ da lei. pois aquilo que a: ·polícia deve efectuar em ·nome: da lei não pode .T11W\1o J.z-
./
~.':!: :!' ~~ ~ «Metaforicamente diremos que.os~andados que. são atribuídos à policia tomam a .estar-, por natureza, incluído na ietra da lei. Como escreve Jeári-Paul Brodellr: -r'p rr~ ~
(.·:;:
·Jsc;;'
"_~:--.:;.:
_,;/f8:~
~
.) ·~ Y

_i.·;.·;. ~L_ ~
.1:
forma de um <<cheque em cinzento». A assinatura e os montantes conseritidos são sufi-
dentemente imprecisos para fornecer ao ministro que o emite o motivo lflterior de uma
denegação plausível da9uilo que foi. efec. tivamente ·~utorizado. Eles são, todavia, sufi-
«Aquilo que é apercebido superficialme;ite ?Orno u~ e. xtraVisaJ!!-ento policial dal a ~\tl .' ~CM-
.ffã :'
-~'
~ "] cientemente legíveis para assegurar ao policial q~e recebe este cheque uma margem de . . .·
legalidade é na realidade instituído pela própria letra da lei8 .»·. ··
. . . . .=
· : /, ·
1. "~ /.vw~.
;~~:. ::$ manobra da qual ele poderá, também, plausivelmente afirmar qi.:ie ela lhe foi efectiva- Como ·na equidade, apeceSsidade de interpre~ hão. autOriza, Ílo entanto, a r,,~ ·. ~ (.,!,;./
·.~.
<:::.
1:"-* -··
.~.@!_'._\, a"'
'-
~
0
V.,:>" mente concedida5.» tomar liberdades com a lei. Oespírito está contido na Ietia,:Ajnterpretação não .. ·•
·.~:,: é um extravasamento. fyfas o princípio dainterpretaçãq-não.é·.9 mesmo no éaso _CeA..1Z • _,
!fr;":.: Como analisar uma tal disposição? Pociemo's tentar uma formalização, por da polícia e no caso da_justiça. Ser equitatí.vo é- 'pÍ-eench.ei:Urii-vazlo inerente à
. . _
-t;_r ' a i l.. _' -
1\Je.!> ~ 'l') IV' t(I.{ ""fi.!
:jj"Ef,: exemplo, inspirando-nos no modelo aristotéliCo. A noção de «c;heque em cin- ,própria forma da lei: tra~-se de julgar. Em col'.-trapartida,.-aq~ilo qu~ Jean-Paul _ -·: ~-..
. 2;::;
~;f0-,:; zentO» parece com efeito derivar desta «disposição prática». Mas devemo- Brodeur châma «cheque em cinzento» consiste em ctái· tini conteúdo a uma._ ~v) _..
~;: -la aproximar da equidade ou da prudência? Em que se afasta ela de uma e da -Jnissão: trata-se de uin acto: A equidade é aip.da uma '.7itfude judiciária, tanto · ~ ({'. «., -- e. e,~
:.fr';~ outra? m·ais q-Ue a políci~ mesmo s~ se mantém no quadro da· Jegajidade, sai do jul- .
.:;:t; :·
~~
A aproxímação da equidade_ aristbtélíca e cio·«cheque em cinzento», que re-
presenta o crédito dado pelo Estadcfà si.Ia políéia para cumPrir a sua missão, e,
gamento pãra·agir. .
A sua relaçao cOm a lei é uma relação de autorizaçã~, 'o qu_e Jean-Paul Bro-
'Gifu"htqi
~t,;; portanto, a inargem de indeterminação ·entre a ordem e a sua execução, se e~is- deur designa, retomando a metáfora polici?}, pelo nom~ ~e «cobertura». A-po-
;f~j te, não é da ordem da imagem. Não se trata aq:ui c;ie proPor que o bom policial, lícia não é tanto uma correcção da lie::i que, tal como a e_quidàde, estaria encar-
,:,?::: aquele que sabe agir, é o policial equitativo. Em.Aristóteles, a equidade é a vir- regada <le acor:riodar a seParaÇãO entre. o uruversal oU ge~ai e- o paiticulà.r, mas
~%,\~. tude do juiz6• É no horizonte da aplicação da lei que o saber_policiaI ·se medi- aquilo que se eÍlco~tra ent:re:.a:lei·e· a' sua aplicaçãO. entre a-ordem e a sua eXe-

.:~].:
t.~r~:
-------
4BRODEUR, Jean-Paul, «La police: mythes et réalitéS», art, cit., p. 2~
.Cucão. Os mandados confiados à polícia, metafotj:za:dos pelo ·«cheque em _cin-
_ zento», não dependem tanto .de um pensame.nto ·d_a aplic~ção ·que· ~e uma ideia,
\~l· s Ibid., p. 31.
-~J~: 6 ARISTÓTELES, Ét_hique àNicot7iaque, V, 14, 1137 a 30 até 1138 a, op. cit.;.pp. 265-268; 7 ARISTt'm:LES, 'Nicof[Ulchean ethics, op. cit., p. 31.4.
1ªV:' para o texto em grego, ARISTÓTELES, Nicomachean ethics, V, IX, 5, op. cit., PP·: 312-316. 8
BRODEUR, Jean-Paul, «La police: mythes et réalités», art. Çit., -p. 36.

t· 42
,
~
.•.. llÉLÉNE L'HEUILLET

.da inaplicação. É a inapliçàbilidade·c!irecta da lei que requer que seja dado, ao


PROTEU ou o CONSELHEIRO POLfTico

autoridade, e porque, -agindo em·nome da lei, age também em seu nome. «Em
~
-_,~~

~s

~
;t:;
mesmo tempo quC a tÍllssão,--Um Créciito não ilimitadç_(existe um limite para lá nome da lei!» pode ser substituído por «polícia!». Instrumento, ela é-o porque a :'7
do qual a "instâncla manda.tirite já não ·«cobre») mas indefinido (ela «cobre» até sua autoridade:-decorre dil lei;para:ir <<mais baixe»> do que a lei pode ir. O «che-
""
""" um certo" ponto, i~detemiinado mas não menos ~). A metáfora ~-uma exten- que em cinzento» é a autonzaçao da autonomia. A polícia é um instrumento au-
::~
~

~
~
são da do «c;ré~íto». _O q:ge_rião está qtJantificado não é por i$i;O não quanµfi. tónomo. Por·fim, a autonomia é a consequência necessária da «inversão hienfy-
® cável. Por exerri:plo, prender.sem fai~r·uso qe nenhl.,1Il1a violência req"Uer da- quica>> - para retomar a ~Xpressão de Dominique Monjardet - que se produz ·,.._;.;

e;:, quele q~e é preScfunià.d~cÚidade t]µe·não pode ser PostulaQa a priori. Ma~ a em todos os_ ofícios que - como a medicina - têm de agir na urgência e no ter- \.._:,;
"-" violência· aqui não é taíl.to 3.t,itoriiada pela lei como cciberta por ela; enquanto reno, como o demonstram Dominique Gatto e Jean-Claude Thoenig:
1® tal, ela não sabe"ria ser ilirr.i.ifada. · ..-.;,,,.. 1

@ Não s"abemos:áqu(se.o·limite deve provir 90 direito positivo - e do con- «Trabalho pouco prescrito e parcialmente escolhido, dá Uma forte autonomia pro-
trolo judiciário e~ercido Sóbi'e a políCia - ou, muito- sirriplesmente, da lei não fissional a quem o executa; e isto a diversos níveis da hierarquia. AqtJi o factor ql.le dá
~' ·.'·escrita. Os dois casos·_--sãÓ Possíveis a partir da análfse de Jean-Paul :Sr0deur. aces.So à autonomia não é o grau ocupado na hierarquia da autoridade, mas o facto de
® ÀlPlfõnse Bertillon, iriVe~tQr da antropometrià judiciária no tinal do século estar em contactó directo com a sitQ.ação a tratar11 .»
XIX; opta pelas duas s-OlllÇões - e é:dessa fonna que isola o fenómeno anali- '
~· . sido.por Jean-Paul Bt~d~ur: N;ão é, portanto, a ·equidade qqe caracteriza a polícia. l)"ma tal ideia proce-
@ ., deria da nostalgia da unidade da polícia e da justiça, unidade rompida pelo édi- /

@ lo
«Enquanto a.justiÇa-"de~e
, · , .
somente
.
ex~CQ.tar aquilo" (f\le
.
a lei llie ordena, todos os to de 1667. É certo que a polícia sempre teve a ver com o particular, e.nada im-
meios são bon~_-Para a polfC!a ·a partir do momento em qtle possam ·ajudar à descoi;ierta pede que o policial"faça ~o da temperança do juiz neste ou naquele caso. Mas
~. da verdade: de fa.cto, dà législa.Ção, ela sô tem de conhecer os límites que a lei e os cos- o vínclilo que, fora da polícia judiciária, o une aq_ político diz respeito à rela-
® tumes não permitem tranSp.or9.» ção do executivo e do legislativo~ Se a polícia é a institucionalização de uma {;-

~-
virtude, não é, porventura, _tanto a equidade como a prudência _, <.
A consequênC_i~ do.:qUe diz Jean-Paul BrÓde"Ur parece impor-se: não apenas A polícia poderia então aparecer como a institucionalização de um «inte-
"©) a autonomia da-p61ícia não é inccimpatíve1 cóm ·a sua instrumentalidade, como, lecto prático» da política.
@ paradoxalmente, é a sua consequência dírecta. O deslocamento que sugere Jean-Paul-Brodeur conduz com efeito a reco- _r.
locar radicalmente em questão a própria noção de instrumento de Estado apli-
® cada à polícia A noção .de instrumento é falsa"mente clara. É ela que está na_
"''·

@ AUTÜNOMIA E INSiiUMEN'fAÍioADE origem da falsa antinomia entre a'íristrumentalidade-e a autonomia. Os termos


0- de «missão» policial, se separarmos as suas conotaçõ~s morais m':!ginais e de <
A missão da P_olícia C~nSiste realmente em servir. Nô entanto, o policial é «mandado», não apresentam as mesmas desvantagens. C~mprir uma missão
G> senhor na maneira cóffio. C:fectq.a aquilo que lhe fcfi pedido. 'A f60nula «em ou executar- um mandado é respop.der a um pedido, e até mesmo a uma ordem.
cyg nome da lei» exprirne. a mqdalidade de relacionamento da instrumentalidade e A vantagem da noção de mis.são está enl que uma missão é sempre «confiada>>,
da autonomia da·Polícia 10• A_utónoma, e_la é-o enqtianto exerce uma função .-de que ela supõe, portanto, a ·existência de um pacto e não de uma relação servil.
® Se a ob~ência, ao contrário-da inStrumentalidade, supõe b exercício de uma
8'.
\~?-
---------.
9 BERTIUON, Alphonse, ldentification_ anirOpoméfrique, ··Í!'}Structions ·sighalétiques, vontade, a missão ou o mandado reqtJer o empenhamento de um sujeito (da sua
Mel~n •.Ini.p:rimerie-administrative, 1893, p.:vn~.
® !O
·
Sobre a questão instru:~entalizaÇÚ)e da aufonomÍa;como topos dos estudos poli-
aa:
inteligência, .do seu sentido ·de iniciativa, do seu desejo, da sua paixão, etc.).
Aquele Çúe a:umpre uma ·missão está não· só empenhado na finalidade da sua .lt..-.ftt _u.~;
G ciais, ver BRODEUR; Jeán:Paul, «La police·: tnythes et réalités», art cit., pp. 21-22, e MoN-
JARDET, Domíniqué.: Ce quejait la police: Op. cit., pp. 15-17, Jean-Paul Bró'áe"IJr ultrapassa
acção, mas também encarregado:da escolha dos meios. A determinação da ')1,-..,'~tl
@ a alternativa ao íntêirar-eStes· ·dois termos. no processo da acção e ao denunciar o plano pos- [

w
@>
terior. substanciali_sfa.:.de ·uma tal· prob!erilática.· Dominique Monjardet- mostra o limite da
definição ins~mentii.I mas ·raciocina neste quadro.
J! GAITO, Dominiqué, e THOENIG, Jean-Claude, Le Policier, le ma.gz'strat et le préfet. La
sécuritê publique à l'épreuve ~u terrain, Paris, L'Harmatt:án, 1993, p. 22.
o, lo tfu, ....,,,.,,,.,_

44
@
';-~~··.
45
?"'1<.

"""' ;@ ... ~·

i> HÉLtl'>;p L'HE!J1LLET


. PRÜTEU OU O CONSELHÉIRO POLÍTICO
1 margem de iniciativa que ~he é outorgada repousa sobre l.J.ma interpretação da aumento ou um crescimento. A sua raiz (o.verbo latino augereXé, portanto, a
( ·'' ~
..,,,._ missão. Se aquele que obedece pode· ser dito autónomo, na medida em ql,J.e a mesma que a das palavras «autor>> e «autorid8.de». O ·auxiliar é. aquele que
vontade pode ser dita inalienável, aqtJ,ele que cumpre uma missão é· autónomo aumenta a autoridade. É assim que se pensa a alta políCí~...
·~ no sentido próprio: deve dar a si mesmo a sua própria regra de acção. Uma vez que este auxiliar que é a polícia' se reporta à "fo_nie da autoridade, é
~ Em tanto .quanto comporta uma autonorn,ia, a acção policial depenei.e da tra- , o acto político que confere ao collselho polítiCo a sua. na,tUreza singular. É a·
~.Ô dição aristotélica da prµdência, tal como se desenvolve a partir das iticas d~ agarrar e~ta siilgularidade que Sê dedica Gabriel Naudé·nas Corisiçlérationspo-
Aristóteles, não apenas na Idade Média·, mas na Renascença e no sé.culo clás- litiques sur les coups d'État 13 • Este texto,. que perten_C'.'e._ à Corrente cj.e pensa-
1;:"· d Sico. Recorrer à noção aristotélica de prudência para pensar a polícia não con- mento estatis~a (o seu aJJtor é o bibliotecário da Mazarin),._permite compreender
siste somente em abandonar o ponto de Vis'ta do direitÜ pelo da política («asa- o contexto das ideias de ~uís XIV e as intenções que acoffipantiam OS Seus aCtos.
bedoria política e a prudência são uma e~ mes.m_a di.spo.sição 12»),·n1as em A influência de Gabriel Naudé exerce-se sobre o rei atray·és ~e Maiarin, tanto
situar-se na m"aneira aristotéI;ca de distinguir a técnica e a acção. O ql1.e está quanto for verdade que este rei, que foi «mau aluno14», encontrou rio.regente o
~p em jogo será, portanto, dizer que, se a polícia é acção, ela não é uma técnica, se1;1 verdadeiro preceptor~ Se do cardeal ele não aprendeil. tódã. a ~e de gover-
::~ no sentido contemporâneo do termo, que o assimila 1à utilização de instrumen- nar, dele reteve, no entanto, o ensinamento da razão de EStadol 5 • Ora; Para a sua
~~
tos·. Mesmo se, como demonstra Michel Senellart, as 1eitwas de Aristóteles sãq constituição, é legítimo pensar que Naudé teve importãnCía; Por ex~!úplo, a pas-
muito variadas, a prudência não é uin simples nome que dissimularia manipu- sagem das lefémoires pour l 1ins"truction du DaUphin nas··qurus-Luís·XIV ensina
'.~~
-~ lações e estratagemas; mas 1).ma tentativa de circunscrever a especificidade do a seu filho a importância- do trabalho de vigilância e de -~ei;Olha de.-Ínfonnaç-ão,·~
'l ~·-
,acto-polítiCo. Aquilo que nos importa,'nesta tradição, é a_m~eira como, a par-
<!f} recômendando-lhe-(<ter os olhos bem abertos sobre toda_á··ieria;.de «saber a toda .
tir da reflexfü? Sobre o acto Polític9, se revela uma outra noçãó, a do conselho
~~
a hora notícias-de todas as províncias e de todas·as nações·». -Ou de «descobrir os ·
político. pontos de Vista mais diferentes dOs nossos Próprios c~~ãq~» 16 ; evoca_~a

·~
\.c..:.
passagem de l'{auQi referi.Ildo-se precisamente à·«aprendi.itigem de bem gover-
'~ ..· nar17». Esta consiste, segundo a SlJ.a explicação,·.em aprerÍ.der,«~ ser ~"atreiro [...]
·~
-G O CONSELHO PÜLÍTICO com a raposa 18» .e em utiliza!- agentes encarregados de missOe?,;

~
1
'.~?:
~
O conselhq é sempre, ao que Parece, a missão da baix.a política. A institui-
ção policial não tomou, no entanto, o lugar do~ conselheirós 4o príncipe. Não
só o príncipe nem sempre ouve a sua polícia, como os conselheiros,. mais Ou
menos s·ecretos, mais ou menos próximos, e n:iais o~ menos informados~ exis-
tem independentemente da polícia. A complexidade ~o EstadQ moderno per-
«Os agentes, núncio_s, embaixadores e legados são env:iadós:para espiar as acções
dos príncipes estrangeiroS e para dissimular, ccibrir e <lÍsfarçàr·~·-dos seus-senhores 19.»

O papel destes mandatários é·duplo: espi?-r'e. dissimul~..O.effibáiXador·nã9~ ...


é aqui um diplomata mas·, Ilo sentiG.o pr6j:irio,-·~ni «enviad_o>>, Um nWicio. Pou-
(' mite a coexistência de uma baixa política e de qma polícia inQ.epende'ntes. co importa que seja ele próprio secreto ou qti.e $e mostre . ?:~-rQ~io descoberto, .
·,""""·
-~~ A rivalidade dos conselheiros Secreteis e das altas funções. da polícia.indica em pois a sua ac·ção, essa, é secteta." Se serve .. o sell senh~r, nã.0- o faz ·como' o
f contrapartida que a baixa política e ..a alta polícia não são realmente distintas,
,h lt mas mantêm uma relação especular (ao mesmo !empoo mesmo e o-outro).

1t
13 NAUDÉ, .Gabriel, Considérations politiquei s'ur les: coups d"Éiat (1639); Paris, Edi-
A polícia pode aparecer como um prolongamento da actividade de aconse- tions de Paris, 1988.
14
lhamento. A «ajuda à decisão política>> alegada hoje em dia para definir os ob- LAVISSE, Emest, Louis Xtv, hiStoire d'un g'rancJ. regne (1643~1?15), op. cit., p. 116.
jectivos do i~quérito é um avatar do conselho ·pOlítico. Ora, a reflexão sobre o JS /bid., p. 117,
conselho' conduz à elucidação da noÇão de aúxiliar e introduz a problemática
16
Luís XIV, Memoires-pour l'instrucrion du Dauphin, Opf cit., P: 52;-,
<"'· 17
itli! do fundamento da autoridade. Com efeito, o auxiliar não é ans.,ilar. Chamamos N-AUDÉ, Gabriel,. Considérations politiques sur leS coups d'Étát, op. cit., _p. 88.
18 lbid., p. 88. . .
auxiliar àquele que tr_az socorro e que, segundo a etimologia, ·permite um

1
19
lbid., p. 88. Mazarin dizia: «É bem verdade que -é neÇ:essáiiéi..ttidO,sabet; tudo ouvir,
------
12 ARI.STÔTELES, Éthique à Njcomaque, VI. 8, op. cit., p. 293.
tudo en_tender, ter espiões em tÕdo o lado», MAzARlN, Jules_ (cardial)~·Bréviaire· 4_es politi-
cieris (1684), trad. do latirrÍ por F. Rosso, Paris, Arléa, 1996'. .

,-_,,
46 47
·€
li
1 jl
HÉLÉNE L'HEll!LLET

.escravo mas corilo o .e·SpiãQ ..:Ele protege: e aumenta·· a autoÍ"idade recolhenQ"o um


, saber sobre o outro eriqUanto mantém uma lgnoiância sob~ si.
PROTEU ou o CONSELHEIRO POLtnco

É exaCtamente por :aí que o conselho aparece como instnmientO necessário


,'!':'!
>~:

;;::-;
,,;_;
'-'.:

<
·$ ao golpe de Estad6. N'.'audé ridiculariza as tentativas dos seus_ predecessores que -
I~ tentaram manter a prudência pol,ítica dentro dos limites do direito. Não pode-
mos assimilai o exercício do golpe de Estado .ao da equidade. O político não é ·"

1e OS GOLPES DE ESTADO o jurídico. Se a equidade é o limité interno do direito, o golpe de Estado é o seu
--..:.

i~·.
1 É pela noçãó de «goÍ~~», no caso presente de «golpe de Estado», q1J.e o acto
limite externo. Para ele, se é _claro que é necessário distinguir en~e os golpes
feitos no interesse público e aqueles que somente serviriam o -interesse parti-
'
i@ é ·especificamente det_~rinfuádo em Gabriel Navdé. Por «golpe de Estado» não cular de um príncipe, ele não vai mais longe do que afirmar que são todos «ex-
€f!: se deve entend~r o gOipe. ~eito ~<contra>> o Estado, mas o golpe «do» Estado: de- c.esso ao direito comJJm2S». O golpe de-Estado justifica-se pela urgência de agir.
ciSão pela qual um prínéipe·corta a direito µll!a_qu~stão <~colocando o seu acto É porque convém por V'ezes· em política agu. prontamente que a urgência pro·
® nos limites do pàdef20>), O. traço comum da piudêllcia .e do acto político pare- cµra a ocasião propícia, o kairos, com o risco de se situâr no limite da legalidade.

9
@~
ce sbr o da.nece_Ssidade de:escolher o momento oportuno para agir. A diferen-
. ça parece provfr do ·factô ·-d_e que a prudência é Q.ma_ a,rte da deliberaçfü;), en-
Nesse caso, porquê. ter conselheiros? Existe aí um paradoxo, Pois se, em
Aristóteles, a phronesis consiste em aproveitar o kairos, ela requer, no entanto,
quanto o golpe _d~ Estaçlo se realiza na urgência. Nos dois casos, «a acção deve que se tome tempo para deliberar. A pmdência política é um caso limite da pru-
contar com a imBrevisibili.~ade do mundo 21 ». Q.ência. Que o tempo falte ou seja -dado, o princípio é, entretanto, sempre o
O conselheiró político deve, portanto, prever o imprevisível. Gabriel Nau- mesmo: a prudência exige qm forma de inteligência específica. ·A inteligência
0\ dé não pensa·a_··acçãO política como a·-.aplicação de uma regra, nem mesmo prudencial é \]ma inteligência prática: não existe ·com efeito ocasião propícia

como excepçã.o.à regra1 rrias Como acto_puro, «golpe». O termo golpe tem por senão pela transformação do acaso e do imprevisto. Agir é,-·antes de tudo, abrir
0
e. ob]ectivo acen~á.r o t·arácter incisivo22 da deciSão.polftic_a em contellda com o os olhos, depois ser capaz de distinguir, no meío do acaso, um achado26• Se o A
Ç; acontecimento;. o imp.reVi~to e o acid~nte. Ele designa acto político é um golpe de Estado, pertence· mais à «baixa» do que à «alta»
política. É o conselheiro qllew tem consciência da urgência. Ele tem, por isso
. _«acções arrojadM_e _eXtra~rdinárias qúe os príncipes são constrangi.dos a executar em mesmo, consciência da coritingência das coisas polfticas.
negóCios difíceis eA~mO qúe desespeiados, contra o direito comum, sem mesmo guar- Aoontece que.ª iniciativa.policial compartilha as características do golpe
dar nenhuma ordem·nem.forma de j"ustíça, pondo em perigo o· interesse do particular de Esta.do. Por exen;i.plo, quando o prefeito de polícia Louis Andrieux manda
para o bem do-públiCo23»~ confiscar La Lanterne, em 1880, por causa dos afagues do jornal contra apre-
feitura dá. polícia,_ não pede autor:\zação aos seus superiores, pois sabe - con~
•Não pode haver plano prévio do golpe de Estado, nem máximas que o justifi- ta ele - que ela. não lhe seria dada. Ele expliC'a que, por consequência, se ve-
.quem, pois, ao ~~tráriO doS actos ordinárioS onde as justificaÇões precedem os ria na obrigação de de:Sobedecer. J;:>esóbedecendo, ficaria na ilegalidade. Ao
actOs, aqui «a eXécução-precede a sentença~>. A aCção f>olítiça é «acção especial». ptaticar um «golpe», foi até ao «extremo Iinúte dô seu direi~o27 », para retomar
· ~Certo que o teTino não· sé encontra_ ein. Naudé, mas circunscreve aquilo que, nes- os termos do ministro do Interior da época, por conta--Pi6Pria. Ele justifica-se

1&r
µi:
te tipO de acção .. é rigoÍó:Sam'ente ilegítlnio, n~o em virtude de qualqµer alteração
à moral mas en_tj_uant(Y-atto '.tjue nãd depende d.a lógica do universal e não consti-
tUi, portanto, urr..ia exCepção..à sua o~dem, mas que se insere numa Ol,ltra lógica.
entretanto: «A minha desculpa era salvar a prefeitura de polícia numa opera-
ção cirúrgica tornada.necessária28 .» O raciocínio de Louis Andrieux assenta
sobre a ideia da necessidade; sinónima, coÍnô na tradição do pensamento ma-
quiavélico, de urgência. É pelo impei-ativo de agir que se explica o-cálculo que
~i
@
q,:. 20 MARm, LoUiS, «Porir:_urie-théorie_ b~que d~ l'action-politique», in NAUDÉ, Gabriel,
.~
. Có'ns_idérations Politiques sUr)es coups·d'_Étcit, op. cit., p. 19 . 25 Jbid., p. 101.
. -21 AUBENQui, :Pierre, La Pi-Udence ~he!. Aristote, op. cit., p. 99. .,;

1
u; BRAGUE, Rérni, An'Stote et le systeme du monde, Piri.s,' PUF, 1988, pp. 358·36Í.
i2 NAuDÉ, GaO~~l, ConS_üf~rations_Politiques sur les coups d'État, op. cir., p. 76. 27 Al\/DRIEUX, Louis, Souvenirs-d'un préfet de police, Paris, Jules Rouff et Cie éditeurs,
23 lbid.;p. 101. 1885, p. 93. 1 ,
.-_24 lbid., p. 10( . 28 lbid., p. 93 .

~\ 48 49
iJlY. :.:;
-~

~-

I"
HÉLENE L'HEUILLET .PROTEV óU O. CONSE.LHEIRO POLf11CO
~
consiste em não solicitar autotização pafa não ter de Q.ésobedecer.- O facto de A urgência seria, po~to; a ideia reguladora da alta polícia. $Ilquant0 tal, ela
Louis Andrieux ter sido um prefeito autoritário faz cóm que o traço aqui seja não remete para nada de intuitivo, p_ois a siruação de llrg~Íi~ja ab_s:oluta é caótica.
-~···
p,
mais grosso. Mas o que a caricatura toma visível, se dela afastarmos a pers- Prever o.estado de urgência é prever o·-in;lp6:à.sável..Aiôeiá da razão de Estado
)?)• pectiva moral, é o tipo de necessidade ql,le reqJJer aGção. O.interesse do relato parece, colltudo, uma tentativa de Pensar .â Úrgência ·polítiCa. Se esta conduz a
\;jC\'; ..
reside na ausência de pseudojustificações morais. O narrador isola a acção, que uma acção no limite do direito, ·parece. éi:i.ra~terística da «baixa>; :política; Ilo sen-
:;·
·~-
~- ;,·~

:zr:
retém, ela só, a sua atenção. A regra de direito representa para ele o. papel de tido moral do termo. .f'i. urgêirc~a Parec~ Cof'.dúzir à cedência ~o: (#reito. A..sanção .
simples critério formal: Poderíamos objectar ao prefeito que ele desobedeceu, de tais faltas é o silêncio qije recobre a -baixa política A prudência política nãri
'k·
·e.) uma vez qµe sabia que a sua acção receberia a desaprovação da sua hierarquia. seria então um caso limite da prudência. Ql,le exista Ou não·uriência, não será
~ Mas, para além da atitude cínica que consiste em não solicitar autorização para secundário. A JJigênc~a dá origem a.uma fo~a tj:e p~?êJ!çi°2; «rnj.sta»,
!if~ não desobedecer, o acto deAndrieux é um «golpe.de ~sta~o». Para dele falar.
(~ :3·2' o prefeito usa a me.táfora cirúrgica: o corte do escalpelo evoca o corte a direi-

1
to do golpe de Estado. · UMA PRUD~NCIA «1flSTA»
i;·.
A inteligência da polícia é, portanto, uma intell'gência da decisão ráoida.
\:~::;· A diferença entre a justiça e a polícia é de temporalidade. A j?Jstiça é lenta; a A expressão «prudência mista» é de Justo Lípsio;jllrista e historiador que
polícia é rápida. Polícia e justiça não se distingti:em, por conseguinte, como se ensinou em Leyde, Colónia e LÕvaina no século XVI. Se a su_a_ teoria·parece
,.__.,, ~r::
distinguem a prevenção e a repress~o, pois uma e a outra exercem fi,Inções re· inscrever-se mais directamente numa linhagem protestante daS-:~eorias da polí- ·
i;, pressi\'aS e preventivas. Mas a políCia,_ nasce com o imperativo da rapidez. cíae do Estado, a sua obraLes Politiques conheceu um·sticesso.returnbante em
'-:·;.:· ~ O conflito entre'. a justi_ça e _a· polícia situa-se aí. A ·excepção à regra ordin~a França, na Holanda e na Alemanha nos séculos x0 e xvrrJo; Naudé cita-o

~4%
vai buscai: a suaj1.;1stificação ao imperativo da rapi~ez. qra, o imperativo dara· abund2!1temente: a sua influência é dificilmente diSCutí....,.el. .
pidez não pode ser obJecto' de wna:regra, toda· a instauração de uma regra .pres- A prudênCia mista é, portanto, uma prqdêi:icia «Pnde ezjste.fraude e sul;iti-
~-, supõe pelo contrário que"'iomemos-'O .tempo de decompor os ·meios e os fins, as leza~1».,Podem muito bem existir algumas «gotfculaS.d.~·engano32» nestas ac-

i
'''~"
causas e os:efeitos. fyl"as ao separ~.a: polícia Q.a justiça, L-Úis XIV ~inha em vis- Ções: elas não deixarão, Ilo entanto: de ser prudente~ •.d~'.mesm~ forma queº4m
ta ª·resposta a um tal imperativo. Os mandados de cã.ptuia secretos são un1a pouco óe água não faz desaparecer o vinho ao qtJ.al -~_nllstllrartj0s 33 . Em maté-
das disposições I~gais que o tenente de polícia pode tomar para· anci.ar depres.:. ria de deontologia, ele propõe· uma simples classifiCaÇão 40 <~S» ao «ltie-
fll sa, lá, onde a juStiça é demasiado lenta. lv,fas isso· tambéni dá· oQgem à. qlJeixa
'

policial de ser privada pela justiça dqs frutos da ·sua eficácia: :à.ão ten40 o po· ·
nos». Assim, a fraude é ligeira, média ou gra.I_lde. Apriµleipl é <~aquela que não
se afasta demasiado da Virtude, ligeiramente Qanh_ada'de.:uma névoa de malí-
der de. punir,.mas apenas de interrogar, informar e apresentar em juízo pei.ante cia34»: é feita de desafio e de dissimulaçãó' .e deve ~:e:i: aconselhada ao: pr<\_ti-

i
r os tribunais, ela receia para nada servir se não for seguida pela justiça: cante Qa política3S, Só a terceira,.a íntrujic.e pérfid_a·~ ·injusta;.: é condenável.
Quanto às manipulações baseadas em fa.1$ás promessâS.,. .ffiánigâncias e artifí-
«A justiça muitas vezes repro'lou à polícia a sua rapidez, e se jamais a polícia pode: cios secretos, podem s'er toleradas mal-grado a sua Y~h~ça Com O·-«Yício».
~ ser autorizada a queixar-se das fonnas e das lentidões·da justiç~ essas são as circuns· Uma hierarquia não é,_portánto, uma justificaçã?_·de ~~tratagemas. Rebai-
xar à categoria de simples patifana cerh\~bras prmclpescas, é considerar
~'
tâncias em que se encontra a república. Quantas v.ezes arruaceiros apanhados c;om ar·
mas na mão Dão encontraram refúgio nas suas fornias sagradas! Quantas vezes a lenti·

1
,:---~ dão em punir um culpado não encorajotJ muitos a execu~ crimeS! A polícia de um povo 30 SENELLART,1fichel, «Le stoicisme dans la constitiltjon de là pe!!-Sée politique. 1..es Po~
livre deve sem dúvida revestir-se de muitas fonnas-de justiça, mzs a prÓpria justiça deve litiques de Justo Upsio (1589)», ln Le $toicisme auX XV1e Ú·XJ.iII~-'siec!es, Caen, Presses .
r- universitaires de Caen, 1994, p. 109. , ·
sancionar e adoptar a rapidez da polícia, quando esta. age contra -os arruaceiros que
• "LlJ>sro, Justo, Les Poliriquei(I589j, Livro IV, op. cit., p. 19. •
~1W-
_r,..
fazem ·a guerra contra a liberdade desse mesmo pov.o29 .» @. 32 Ibid., p. 79. . . . ., .
.t?"·
('>
Il1t. 29 fOUCHÉ, Joseph, _Compte. rendu de l'administration de la police générale, p(!ndant
l'an 8, par'le ministre de ce département, Paris, Archíves z:ationales, AF rV 1043, piece 03.

50
33 lbid., p. 80,
34 lbid., p. 82.
3s lbid., p. 82.

"'~'": ~~- '"


.
.
"'
-:;~, '!:-':;

i'
. · HÉLÉNE L'HEÜÍLLET PROTEU OU O CONSELHEIRO POLÍTICO n
' ;:~;
"
que elas encontrám ÇédÇ> 9ti tarde o seu·limite'é qtJe não podem moldar a po- pa,ra não ser demasiado governado. Não se trata apenas de uma Simples ques- 0 ç

r•': ç

Íl!l>·
.'Iítica. Para JustO: LfpSicf, ·a cat,tsa riãO é a irilprevisibilldade do acontecimento
:__:mas a indiscipliÍia huillán~ Asua <<tecnologia 4a ~Qtoridade3 6 , ·tanto quanto re-
tão de técnica. A eficácia do :ip.quérito, é por isso a da polícia, não assenta so~
mente na su~ capacidade de saber e de prevenir, mas também cie agir sobre a .~
-
'.!t.~·' pousa sobre a ideia da turi)ulência popular, não deixa de rec.ordar a articulação, imaginação. "'
fiJ· ria' teoria da polícia de F()Úché, entre a disciplina política e a necessidade de ter
.~

~ _,-
eni. _conta a Qpinão PUb_Iic~_"inclqsive q.e saber segui-la. «Adivihbar, preparar,
@\. dirigir os aconte_éimen~0-~~1».: é o que um príncipe espera da slJa polícia. ~ o «GOVER.'l\fAR É FAZER ACREDITAR40»
~ii
{ "'
t;~-:.
·príncipe quem queria .que·-a_ sua info_rmação antecipasse o aqontecimento até
~· ·suprimi-lo com6_ ~al. O inqúérito aparece-lhe.como o meio por excelência para «O m+xílio à decisão política» consiste em acumular informações, em que~
contornar a part~ da i~po~_sÍvel coffi.a qual t9da a poHtica se_ defronta. A polí-
'f.},j'.i
rer tudo saber e em saber não importa o quê, mesmo:o que é mais fútil e mais
@;: cia é, pelo contr.ãrio, Uma Yerdadeira consciêriciã do acontecimento e do im- insignificante, em querer saber por saber. O gosto dos serviços de informações

~.
possível, uma Vez qu{ela existe para lhe evitar os efeitos. Haveria aqui conti- pelas informações privadas, pela maledicência infundada e pelos rumores
ntüdade entre aqtiilo que é chamado ex post «absolutismo» e a traQição policial. compreende~se a partir daí. Recolher informações consiste antes de tudo em
O fio que condu~-_de Gilbriel Naudé a Justo Lípsio e a Joseph FOuché não deve, fazer crer q1Je se sabe, corho afirma Joseph Fouché: ·
~l, no entanto, deiXar-noS inSensiveis às-suas diferenças na Concepção do aconte-
• - 1 •
ciment_o político.-,-Para Gabriel N:aud.~. ele é facto da história, para· Justo Lípsio, «No meu segti.ndo ministério, administrei muito mais através do império das repre-
.<"

~-.: da indisciplina humana, paia Joseph F;u<;hé - que atravessou a Revolução - , sentações e da ap~eensão do qo.e pela compressão e pelo emprego de meios coercivos;
~
é· cri.ldo pela opiniã6 ·p_úbÚca: a força da história ehcama na opinião. À des-
~·.
fiz reviver a antiga máxima da polícia, a saber: que três homens não podiam reunir-se e ;~
niesura princ_ipesca, ?9.Uélé· que conhec~ o espírito' gúblico opõe a força da opi- falar indiscretamente dos assunt_os pUblié:os sem gue, no dia seguinte, o ministro d~ po-

1l
nião. pública, <li.qual .todá· a _8.Utoiidade deve. tira! a medida: lícia fosse infonnado. É Certo que fiz:questão que se espalhasse e fizesse crer que em
,c--·,.
todo o lado onde -quatro pessoas se reunissem se encontrariam a meu soldo olhos para é,

«A opinião ~Q se p~nde forteme~te ~os· princípios.e ao~ interesses gerais. É ela que ver e ouvidos para ouvir4 1.»

··J.~
prepara, adopt~:~Ú ·rejeita -es~ sistemas de riioraI e de pol~tica áos qÚaiS ~e congreiam {

·as·naÇôes. Ela ·rOnna-se no Silêncio e·pelo.tempo,·manifesfa-se :raramente pela violên- Independentemente do poder real que possa~ conferir (chantagens, pres-
)~~ " cia, ~~s defende.:se sem:pre·com obsti~~~ãc?3 8 .» sões), as informações privadas possuem nelas próprias uma· potência de inti-

li!~
, midação. Recolher informações é indissociável de dar a saber. O importante
A. prudência :!nista: dà· alta polícia:manter-se-ia· no ~e~ lugar niediano entre não seria, portanto, que o agente-estivesse escondido, mas que se acreditasse (
a eXigência de-niestri~ VÍndâ do príricipe, rriaior ou menot conforme· os .regi~

1
- ou fosse sabido ~ qUe estava escondido. pe lfª~ª serve ao espião estar es- ó
mes-,.e.o conheCfuientó _da reSistênci~~cio ·povo a ser gove'roado. Maquiavel de-
J monstrou que énÍre a vonÚde de governar e a voritade de não sé~ govemad.o
condido se ninguém-soubér-que ele pode está-lo. O estaf escoiidido articula a
presença e a aparência da a:usência. Os dois elementos contam tànto um como
--~f não_ existe compl~mentarlda_de, misurn qonflito ~ssencial_ ao político: o humor
1. do pÓ_vo não é n~in o.dos ·gr~des nem o do príncipe39• A policia é.o lugar· de
o outro. A aparência. não é aqui "'.elamep.to mas manifestação. A e_spionagem
policial é uma encenação da presença como ausência. A ausência que assim se ,

1~·
.••
mistura Cntre a·:pructêÍ1ci~ ~~ Péric_!eS e a prudência do poyo, q~e artimanha .
. .

3~ A e~Pressão:~~~e Mi_ch~~-S~nellari. Les A~s de gówefner, op. cit., p,-230 .


·37 Propos de N_àpoléo"n à. Fouché, cité dans ·Bmsso]i, Henry, Qui étalt Fouché, duc
manifesta é omnipresença, enquan!o a presença real está simplesmente e
necessariamente aqui, ou lá. _
É inútil, salvo no inquérito, Vigiar sem se mostrar, se isso deve mantei~Se
ignorado~ A vigilância secreta !e11J; por finalidade 0 medo. Saber-se vigiado se-
~t
~l
d'Otrante?, op. dt:;-p. 241. - ·
cretamente suscita o medo. O espião deve __peixar-se suspeitar mesmo na sua
·· 38 FOUCHÉ, JoS-e'pb, citado eiit'Bt.1SSON, Henry, Qui était Fouché, ductd'Otrante?, op.
cit., p. 306. . . ..
·. 39_SFEZ, Gérald;:·~Machiavel: I_a raison des humeurs», in'Rue Descartes, Maio de 1995, 40
'TuuAU, Étieruie, Raison d'État e1 pensée politique à l'époque de Rich'eiieu, OP._. cit., p. 169.
41 Mémoires de JosePh Fouché, oP,. cit., p. 221. '
n.~ 1:;?-13,.pp. 11~37f


~}
52 53
~

"""
t~ ;I ~··'

;! liÉLÉNE V HE\!ILLET PROi°El!. ou b ÇONSELitkmo POLÍTICQ

;fl) a-usência. Deve acreditu"-se que ele passçrq por ali, mesmo quando nada denun- «CORDAS DE N-:ECESSIDADE>> E «CORDAS DA IMAGINAÇÃO~>
·.~ cia a sua passagem. Só existe omnipresença com o Gene.urso da imaginação.

r:'·:

(
\;
'~
'\;
É a razão pela qual a denúncia do poder da polícia sustém ijm pensamento po-
licial. Denunciar reforça. A vigilância age sobre a imaginação. As técnicas de
vigilância, na medida em que dependem da infonnação, não transfonnam a
vigilância em técnica. A tradição francesa da polícia, tal como Joseph Fouché e,
A política pascaliana articula-se com o:seü pensamento_ sobre a.Imaginação: ·
O poder ri ão ·poqe assentar só sobre a forÇa. A essên~ia da: Políéi~ é, tal como. ·
a do político, o divertimento . .Antes que isso possa sei1evad9 à le~a. como é o
caso na nossa cultura, onde a polícia é um rec~so d<Í . ficção .escrÜa ou visual;
:·tu antes dele, os tenentes da polícia ilustram, poderá repousar sobre uma teoria da a afirmação deve ser entendida no seu sen~dp _estritainerite :Pasccliano. Desde
imaginação? Será o facto puramente empírico, ou terá ele raíies filosóficas? a época d_e Pascal, os dois sentiçios ·nãci. São· Contradit_óriOs·. Co!no bem de-
Joseph Fouché formou-se no Oratório, ·e ensinoµ no colégio de Juilly. Os monstra Gérard Ferreyro.lles:
oratorianos estavam mais próximos. do jansenismo do qi+e do molinismQ, em
razão da sua preferência comum pelo pensarrÍe~tO ·~gostilli~o. Paradoxalmen- «Se a política se aJusta tã~ facilmente ~ metáforas d0-div.ertirn.ento:._ o jogo_.ou o
te, o pensamento de Pascal po.de ser esclarecec).or para cqmpreender o estatis- teatro -, é porque o di~ertirnento' põe em jo_gô a essência-do político-4.~~
mo. Com efeito, para lá das dissensões religiosas que colocam os jansenistas
como inimigos.dos estatistas, Pascal dá forma aos temas do pénsamento ·bar- O termo essência não deve ser tomado aqui na su'a· _acepção essencialista;
:t? fazendo do pensamento pascaliano uma mera recoloca_ção em questão da es-
roco no qual eclode o estatisrp.o. 9 jansenismo, como movimento político,


pode mesmo aparecer como um elemento determinante na for!Í1ação política sência como substrato o'Ü substância. O político, partic1.ll~eó.te, diz respeito
de um homem de Estado do períodà d~ transição. Po.liticamente si+bversívo, a uma antiontologia:
uma vez q"9-e Richeli~u_e Luís XIV e_nfrentaram Port.:.Royal 1 socialmente novo,
(~ «Tal é o fundarnentó ontológico do político que o disign.8._como lugar.da aparência
uma vei' qtie seduziu a grande burguesia, o jan?_enismo impregna o século

1
XVII. _De uma maileira geral, a oposição não implica necessariamente a niptu- essencial. A política é o reino do significante [.. .]'A orderh ·P.ciiítica' é fundada não ·sobre ·
ra. Pierre de Bérulle, o fi.Índador do· Oratório; aconsélha Luís XIII antes de se um conhecer mas sobre \l.m re·conhecef5 .»
opor a Richelieu. O pensamento de Pascal, me~ino cont.endêf uma teoria d.a in-
submissão, concilia-se com certos 'princípios do estatismo. Por·ex_emplO, a Se a alta policia é a baixa política:, existe entre as duas perspectjvas um pon-.
'~··

1 ideia de que «governar é fazer crer}) não é, como o faz notar Thuau, um prin-
cípio próprio só.aos cardinalistas42•
to onde elas não_ se encontram46• Em moral e em polítiéà. não exiSte-ponto fixo
de representação. Não existe nenhum lugar 011de ã apaI~ncia "pudesse encontrar

i O que.Pascal traz é igualmente negligenciávél para co~pi'eender à realida- o real. Daí o a!Js~o de·tJ.nia política que, da Sua-aitura;·pr~tendeS_s~:fazer a eco-
de intelectual ecléctica da polícia que, mesmo S·e esta é filh~ do Estado abso- nomia da baixa·politica e de uma policia. Afor'Ça devê ocUP~·Se $.polític~· e4
luto, a sua relaçã~ com o estatismo não se passa ·sem conflito, precisamente força é baixa· Mas a força sozinha de _nada Val~ em política.:o~te ponto de viS~ ~
e;·
porque ela é lima forma baixa da política. Se a alta política, no estatismo nas- ta, a ilusão da bilia política reside na força. A baixa politicà·e.~tra1.também a sua

1
e cente sob a monarquia absoluta, pode, sem grande dificulda~e, fazer-se valer, eficácia da autoridade, que óão é a força O verdadeiró·eíifPreendimentQ § o da .
pela vertente racional da herança, de uma filiaÇão-hobbesiaiia (Hobbes foi lido, imaginação, não-das cadeias ou.das algemas. Se a baixa:polfd.Ca deve fazef.crer
r
conhecido e discutido em França43), a baixa poJ:ítica n~o obeQ.ece netessaria- que· conhece, e mesmo que sabe tudo, é porque~_ tal comá ria _;iita política, «as cor-
p
mente nem inteiramente ao mesmo ·princípio. Mais que uma aplicação da po- das que preridem o respeito47» .são «cordas da imaginaÇã_o.48 >~. ~certo ciue Pascal
~ ~· lítica tom<).da racional, ou uma «prudênc.ia mista», a. baixa política ·é.º avesso
da alta política. Ela co~ei-e o seu lugar à imag_ina9~0 e à aparência, à, falsa apa- 44 FERREYROLLES, Gérard, Pascal ou la raiso'n du politique;P~s, PÜF, 1984, p. 127.
1 f'"".
rência e à:s fonnas múltiplas ~ variadas do visível, ao siin:o e ao símbolo. 45
lbid., p. 126. :· ·.
... 46 PASCAL, Blaise, Pensée~ (1670), 21-381, in..Qeuvres completes; Paris; ,Le Seuil, col.
42 .THUA.U, Étfon_ne, Ra.iso1t· d'Érat Ú pensée p_oliti-qu~:à l' époque-de Ri~helieu, 'Aimand «L'intégrale», 1963, p. 502.
41 Ibid., 828·304, p. 606."
·
Colin, Presses universitaires d'Athenes_, 1966, p. 169. ·
48
43 Jbid.,.p. 380 (nóta). · lbid., 828-304, p. 606.

?,-
55
ifit
QW
54
-=-
·-íill
nci...c~.Cl..:HElJILLET
8
'i
PROTElJ OU O CONSELB;filR:O ,PQLfrICO

$ f~a aqui dçi «h~bito»-·qu~ Í_nipõe o respeito: Pareceria, porta.rito, mais natural ·a É certo que esta pacificação é também uma falcatrua: ela não é mais do que po- f§
:1;.
utili_zação da Sua:~áÍise_piu:a compreender a função do Qni{onne policial, en- liciamento. Mas precis2.m.ente, explica Pascal utilizando uma metáforá teatral, ·~~
@ qUanto consiste, Wcoin_O.p :r!ianto do magistrado, numa «força49», mas:uma for- é então ql}:e a <dmaginação começa a representar o seu pape155». Ela permite r::::
·ça que assente sobre à imaginação. Isso seria defonnar o pensamento de Pascal, que a força tome partido. A força nã_o se estabiliza: a imaginação não opera ne-
na ni.edida em qll~ o unifonii_e ~cobre a polícia d.e ordem e significa, por con-
~

~ seguinte, a possíbi!idade·dO"utilização da força real. O polícia «de farda» é o·


nhuma transfiguração mágica· da força no seu contrário. A força· não funda
nada: a política é puro fingimerit'o,. quer dizer, não é- simples imag~_nação, mas
h..._. guarda ·de antigamente; Dos· guardas, tal como dos soldados, podemos dizer: imaginação e força. Não existe af.nenhum traço de cinismo político, mas res-
() «Não têm hábitó,:_sorn~nte têm a força5º.» Bem entendido, Pascal não entende peitos.em timidez da ordem estabelecida, consciente de que a impostura da au-
00 dize·r que _eles não: são reconhecíveis. Mas.' não trazem hábito-no sentido próprio. toridade não poderia constituir o elemento da sua denúncia. Da mesma forma
\,> A difereriça ent:rt'. .hábih:i e. -~arme seria, portanto, que o_ segundo significa a que, para Pascal, a existência da imposrura po:
detrás de toda autoridade não
(f·· força, enquanto o primeiro; suscitando·a admiraÇão; à semelhança do efeito pro- implica que todos os. governantes valham o mesmo, e não autoriza a que se
duzido pelo hábi!o do fidalgci, faz e.sql.).ec~r todo o significado - e assim signi-
~ fi,ca. A imaginação só. iflterVém na d~missão da razão. Ora o reconhecimento
desculpe a Corrupção: ··
O que Pascal traz à luz do dia é a função do consentimento na manutenção

e;® da fõ~pagem da f6rça riãO· dà licença àrazão. Pelo contrário, é pbr uma espécie
ae silogismo prático qq"e.elltão nos mant~mos tranquilos. o qniforme, com efei-
0;D.ão é belo nein deve·tentâz: sê-Io. Ao invés, o <<manto de ann,inho», as «flores
da ordem estaQelecida. A alta polícia está encarregada de medir o consenti-
mento. É a razão pela qual, embora tendo de.se mostrar fiel ao poder político,
® delis» e toda a «at,iitJsta.ap.ilrelhagem»·o\justiça, maravilhando-nos, e:ncadeia-
ela o domina pelo.conhecimento que tem daquilo que dele é dito. se a políCia
pode_ nascer sob a monarquia absoluta, é menos em virtude de uma qualquer
·i
,.,.,
~ -noS:no mesmo te+npo pela imaginação. ·Assim, se-existe u~a polícia que nos particular tirania, e mais pela aliança entre a força e a imaginação.
pode encadear pela ·nnagfua.Ção, Dão é a· pOÍícia qij.e Significa a QrQe~ a f>olícia:
~
.c;o
Podemos analisar o poder, na lógica do estatismo, como um efeitO da ima-
visívêl, mas a policia que signífica o saber, a polícla inVis~Vel. llma tal polícia pro- ginação. Nisso, a política barro~a: e conciliável com o pensamento de Pascal. ·>~
~~ di.J_z Omesmo efeito. que o ~B.rda.-Mas:ela gua,rda de-uma o~tra maneira · Neste jogo de espelhos, a alta_ política confirma as ·opiniões do povo: para este,
~
.0
Sé seguhmoS- a demonstra_ção de PasCal no fragmento 828-304, a ideia de
. que a·política é U~a réfaÇão -~e forÇàs· é Índis.sociável da sua redução à imagi-
o maior dos males é. a guerra civi1~ 6 , e para Luís XN, o maior dos males foi a
Fronda. Esta guerra civil teve sobre o futuro rei um impacte que se tornou um
V-! .· naÇão, à «falcatr4.~ general~_ada. As- ·cordas de·necessidade «detêm a prima- dos móbiles da sua acção política uma vez chegado ao poder57• Seria a preo-
~ zia.»-. Sobre este p0nto,Pàsca1_ partilha á ideia comum à teologia -,.particular- cupação de Luís XIV em.evitar nÜvos problemàs qüe estaria ná origem da sua
.·.mente ag~stiniaria: '":"".e ao perisamento estatista - nomeaQamente de inspiração
~ bodiriiana - segtirido á qúar _~_polítiCa-.tem a sua origem na relação de forças5 1•
vontade de completar a prática do conselho político pela institucionalização da


polícia. A baixa política não é, portanto, apenas um auxiliar da deliberação. Ela
~1as a'origem neni sempre é-.t~mponil,_no ·sentido religioso do termo. Ele reina, tem o encargo da coesão socia158 • O jovem Luís.XIV aprendeu, durante a Fron-
p~rtanto, sempre, .e a fotç~.é :o «tira.rio» do mundo52• A opiriião, p~Io conirário, da, a medir a potência dã. opinião: o tenente de p~lícia deve eVitar que tais
f!à pertence ao mundo: Ela é tem:Poral. Elà é efémera. fy!as reina. Ela é como a «rai-
~::.O.V
ri.h~· dÔ. munda53»:À opinião~."Cujo ifilpérici é o mesmo 'da imaginação, detém ~
-~;:-
!>'"/, segundo lugar. Mas é "átravé~ dela qqe çm relacionamento social pacificado, 55 Jbid., 828-304, p. 606.
Jbid., 94-313, p. 511.
~-
_«Policiado», é peiniltido: cOm efeito «este império é doce e voluntárlo54». 56
5'. GouBERT, Pierre, Le Siecle de Louis xiv, Paris, Éditions de Fallois, 1996, reed. Le Li-

~.
---------
49
Jbid., 89-315, i:i":-510.
vre de Poche, 199&, pp.. 187-188.
58 <<Após os acontecimentos da Primavera de 1652, os notáveis vão pensar que o inimi-

so Ibid., 44-82, p.csos. go está tambéni. no interior, vai smgir fim profundo temor das· pilhagens populares, contu-

,,~- tá:
s1. ~YROLUS;' Gérard, Pascal ou raisOn_ du politique, op. cit. , pp. 1,05-130. do, extremàmei:ite raras, Lui'.s-XIV,· ao criar a tenência de polícia no Châtelet, e um controlo
5
Z PASCAI..,Blaise; ['ensées, 665-311, op. cit.; p. 589, policial muito mais eficaz sobre a polícia parisiense, dará uma resposta eficaz a esta neces-

~~ 53 Jbíd., 665~311, p. 589.


54 fbid., 665-311, p,_589;
sidade de ordem. As classes dominantes não acreditavam ser capazes de manter a coesão so-
cial, elas esperavam, doravante, que o Estado o fizesse. DESCIMON, Robert. «La Fr.o.nde: une
révolut:ion de la noblesse», in L'Histoire, n.º 222, Junho de 1998, p. 62,

' ~.·
56
57
9
~
~

r 1
1 Hfill'{E L'HElrlLLET PROTEl,l OU O CONSELHÉIRO .POLÍTICO
·'7·;
JI• ·. fenómenos se reproduzam59 • A baixa política n.ão consiste assim na série de considerações de bem-estar. público que têm mai~ importância do- que a ~atu­
.& meios em vista a um fim que constituiria a alta política. Ela é a própri.a alta po- reza, a justiça. a religião e.a hJJ.manidade. Ele invoca rri~nos o direito divino do
~ lícia, verdade e avesso da política. Que o «baixo» comece com a queda Ol.f com que as necessidades do Estado:

*~·
a história puramente humana, -nada muda: nesta perspectiva, a política não é
~~1 mais do que uma polícia. A alta política é feita de falcatrijas. Ela recobre a p9- «É~om ele qqe aparecem os direitos do Estado; _as máxi:znas ~o Est:ido, os católicos
·~ do Estado, as prisões e os criminosos do Es4ld6; Os segrei'.Ios de Estad0:~ os miStérios·
lícia com uma aparência de pensamento. É preciso fazer c;ie conta que se acredi-
ta na acção política lá, onQe nada existe senão composição com a realidade. de Estado. Todas estas noções compõem um_a mo~ de ESt~d~, uma m~ral do bem-e;-. ·
O político crê no seu poder de mudar as c;_oisas, q\lando, na realidade, ele não tar público, muito diferente da moral vulga,r; qu~ escandaliza üffi bom ·l).i:í:mero de fran-· .
r, _-
ceses, mas que:~ minis~o praticava.62.))

~
<._::_
pode senão impedir que elas se corfompaffi. Acreditar no poder é a ilusão do
meio esperto. Se o poder assenta sobre a força e a imaginação, ~. p9rtanto, sobre
' a força da imaginação, é melhor não lhe dar mais crédito do que o necessário, A máxima do Estad,o não é uma regra de conduta~_.ma.S_ çm cáÍCulo de'stina'.'·
$~ mas respeitá-lo unicamente por aquilo que ele é. Não é preciso cjar à polícia mais do a frustrar um outro cálculo. Estes-prec6it9s:não sãó prillcípios·: esta moral
<t -~:f po~er do que o que ela tem. A polícia, porque serve o poder político, conhece tam- está atenta à excepção e não à-regi-a, ao Singl+lar e-não .aO 'univer:Sal. Mesmo se
);j bém o limite do seu poder. O saber da alta polícia ·não é técnico. O conP.eciffiento ela deve agarrar o kµiros, a moral de Estado não _é um·opo~nism:O. MesnÍo se.

1-
;:~h:
do espírito público é também conhecimento do lim_íte do político, pois é conhe-
cimento de uma força: força do acontecimento, força do povo, força da opinião.
as máximas do oportunista Úão são:Univ~r~alizáveis, elas. existez?:."·é o a poste-
riori que dá a regra~· N"a: moral de EstadO, _não existe tegr<i., poi:s ás regraS en-
fraquecem o julgamento. O desafio da moral de Estado assenta.- sobre o pro~
A criação da polícia ensinaria poi~Q_ualquer coisa acerca da concepção ab-
~
-7tq
solutista da soberania política: esta não apareceria simplesmente limitada pelo
«alto» (mesmo se a soberania é soluta legibus, ela não está, no entanto, desli-
jecto O.e dar forma àquilo que não p'arece ser possível "fOrmatat: A moral de
Estado não é uma moral do possível, mas-do ·ii~possív~l. ·El_a não_ diz como in-
""'.· seri! o real numa condl).ta reglllada por uma lei, mas ~inala a intrusão do
~~"-
1; gada de toda a-lei60 ), mas também pelo «baixo». A razão de Estado é menos um
argumento p6iítico do que a consciência do falhanço interno. da ·política. Se é·
esse o caso, devemos poder encontrar, no absolutisffio anterior a Luís XIV, ves-
tígios de pensamentos semelhante~. '
acontecimento na direcção dos assuntos públicos.
Mais que a .«govemabilidade», deveríamós ver nes_ta rrioral .Uma teoria da
ingoveniabilidade. _A impossibilidade de governar é aí pensada como interna,
e não como externà. Não é tanto a dificuldade em manter a indep~ndência po·
~~'~
lítica, é sobretudo a cõnspiração que mo~va ·ª sria criaÇão. À mOral de EStado .

',; ..
1
i(f]"0
·1:
A -MORAL DO ESTADO

É com Richelieu ql!e a razão de Estado aparece co1119 uma «moral de Esta-
do61». O próprio termo razão de Estado não significa .mais do que isso. Antes
tem por finalidade prevenir as conspirações e trazer~ll}eS remédiq: Richelieq
não dissimula o carácter paradoxal desta moial: «Esta~ máximas. ·pàrecem: pe-
rigosas eco~ efeito não são inteiramente isentaS_ de p_erig_oé.» :EStes preceitos·
aconselham com efeito «começar-por vezei pe1a execução64», ·P.~r exemplo,
sempre que se trate-de lutar contra esses «mÓnopólioiqUe se formam cogtra o.
.- de tomar o· sentido forte de racionaJidade ou o sentido ·fraco de álibi da cor-
bem-estar público65» e que «se ~rgIDlizam _nonnalmente-c0p_iantá:astúcia e· sç;-
rupção, designa para Richelieu aquilo que chainaríamos hoje e:m dia o «senti-
r· gr.edo que nunca deles temos prova evidente, a não ser.pela Sua ipanifestação,

1i
do ·de Estado» ou. «O partido do Estado», como O.emonstra -Étienné Thuau.
quando já rião tem remédio66». · ·
r Richelieu é o primeiro á empregar o termo razão de Estado para; designar as
_,-:,,,
• 59
61
Ibid., p. 351. . . . . . .: -. .
.~.
Como diz' Robert l)esciroon, o povo é instrumentalizado pelos partidários da Fronda, 63

"'' '~~l-
e o objectivo deciarado das mazarinades é «agir e mánipular esta opiniãq .pública mais do
que reflecti-la», ibid., p. 60. · Clt
~~*
64
.. . .
RICHELIEU, Testament politique.(l689), Reprint, Caen; Pres.ses Uíliversitaires de Caen,

.·1··"
-·~~{ lbid., p. 267 .
.. 60 GoYARD-FABRE, Simone, Les Principes philosophiques Ju droit politique moderne,
65 Ibid., p. 267 1

~~'
_.":'".•,
Paris, PUF, 1997, pi). 110-114.
66
6! THUAU, Étienne, Raison d'État et pensée politique à l'époque de Richelieu, op, cit., p. 3S:I lbid., p. 267'

i!
i1i~f 58 59
-~
llELEl;E L'HEUILLET PROTEU OU O CONSELHEIRO POÚTICO
@ "<'.i
w1'.
~~
~,.,, A moral polfticã que prescreve o rigo~ em caso de çonspiciçã9 é, portanto, «A razão de Estido é a máxima segundo a qual o Estado age, a lei .que rege o seu (TI
fi;lncion~e~to. É ~a_qqe diz ao homem de Estado aquilo que deve fazér para que con-
fi~ ·~·ts..
"
tWa moral de·.PrOtecÇ_ão da: Política A rapidez de reaCção é uma máxima essen-
·cial desta moráL.PorqÚe é.a urgência que ordena que se corneei! pela-execl,Ição. serve a for~ e a saúde do Estado69 .» e
r
-~

~e A moral de Estado pode ap"'°"er como anc:estra) da polícia, pois assenta sobre ~I: -.:.;

L~~ a ideia de perigÔ ·inteino .ao" Estaô.o e de dificuldade inerente à arte de governar. O político pensa-se, portanto, aqui nos termos únicos do interesse, e a razão ~

15
~

A moral de EStado iriÍroduz, entretanto, uma outra ideia: os seus negócios de Estado é sinónimo de meio-de aumentar a potência. Ela obedece à regra do
são negócios secretos; Ela: leva-nos a encarar a baixa política como política «sempre mais». A autoridade·estaria certamente então próxima do seu sentido ·-
1$ -secreta. Se, com_ efeito, _a ~Pnspiração se trama em segredo, é em segredo que
ela deve ser desfeita· e que·os seus autores 'devem ser punidos. Uma tal apro-
ximação seria coerente com a genealogia correntemente admitida da razão de
etimológico, mas é em virtude de uma evidên'cia falaciosa que confundimos o
interesse e o desejo de obter sempre mais. Se a definição de Meinecke pode
incorrer na crítica de «essencialísmo», é, como mostra Michael Stolleis, por-
® . Estado. No seu. sentidQ de .política secreta;e"Ia é com. efeito remetida à con- que efectua uma «absolutização do Estado nacional ·de potência7º». Em Mei-

t!:::"'-"'

@)_.
cepção desenVolvida por Tácito, dos arcana imperii. Tal' é a tese de Friedrich
Meinecke:

«~s grand~:obras hi$t~ricas de Tácito· são-totalmente .iinpregnaQas da ideia dara-


necke, a razão de Estado pertence à alta política. Ora, a teoria d3. soberania
faz-se acompanhar de um deslocamento da problemática política do Estado
para o governo. Se a polícia é o segredo do poder, não o é directamente, no
·sentido em que serve a sua potência, mas porque constitui um elemento do seu

~
zão_ de Estado; as·palavras qUe ele coloêa n? boca de Cássio no XNLivro d6s Anais po- saber - e este não é um simples meio do poder. Podemos, asslm, reter-aqui,
de.m, só por si;_.testet?_unhá-Io: Habe~ ~lic;1:1(d exiniq~o mag1Jnqm exemplum quod contra da análise de Meinecke,_ a aproximação entre a razão de Estado e a polícia
iingulos utilita:-e pu?_J!ÍC,q._ rep_enditurC'. :Mais tarde, TácitO torna-se na gi;ande al.!toridaQe secreta. Mas é necessário fazer-lhe ·a aplicação à baixa política.
~ quanto à razão;de Estado -- _se não :Poi~1aquiavel, que se baseou sobretudo em TI to Lf· Longe Q.e -ser um' simples-instrumento da racionalidade governamental, a
ifX· · vió, Arist6tef~·e_Xe~ofonte_- pelo-riien~s depois da-~ova ediÇão das.suas obras, in- alta polícia é também um elemento, dotado de vontade, da «moral de Estado>},
~
~</
·. centivada e~~Í574 porJu:SÍ; Lfpsio, e ~urante todo um século flo~ceu ~m seguida uma
-~
Peve prevenir e parar as conspirações. Deve averiguar e informar o poder.
êc; Htei-atura· de ntãcitistas" ·que 9 utiliz.~_·cOrrentemente nos seus escritos polfticos68.» Dispõe de uma margem de· iniciativa e conhece o limite da alta política. Mas
}!'i; . .· . não partilha a ilusão da omnipotência na qual os príncipes se embalam por ve-

i;,r.
tH
~·.·
.Mas Meinek;_ nã; reténi..aqui dà razão de E$tado senão a ideia do sacrifício
. _-~o i_ntefesse. priY:ado ._ao .-jp~reSse ·pti.blico. Esta cóncepção é subordinada ao
·: _priÍiCípio dire~tqr-que-governá a sua análise:
zes, pois mede a força das oposições ao poder. Enquanto tal, ela é baixa polí-
tica. Não ignora, com efeito, nem as condições reais nem os compromissos da
política.. É desta maneira que eia participa do segredo político. Entretanto, é
porque participa da administraçã_o pública que produz segredo e se mantém
secreta, ou porque designa a parte especificamente secreta da actividade polí-
,, ,--,,
.--·.-.
ft;;;: tica? O que distingue o se~_ào policial do sêgredõ políti~~º-e.m geral?
llf 61 «Todo o grande castigo tem qualquer coisa de injusto, do ponto de vista.do indivíduo,
•.
· : mas é comPensadÜ''.pe!o.inte!esse gerã!», TÁÇITO, AnaiS, Livro XIV, 44, ttad. do latim por

'
P. GrilnaT, Paris; Ga11imard, 1990, reed.:éol. «Folio», p. 367. O contexto é o se&uinte: o pre-
feitó da cidade acaba de ser morto por um dos seus escravos. O uso em vigor é o de matar
,t';i}
..··. . _todos os escravos, Sob o pretex~-de que 1l~ tal:crime não poderia ser perpetra'1o_ sem cum-
'ri( pndda·de ..A multidão reúne-se para im~dir ~te suplfcio·e cerca o Senado. Apesar.disso,
try~· : , uma_-maioÍia de senadore~ apela.para o ~stigo .. T.Jm de!eS, Cássio, faz um discurso que con-
c!Uf hos seguintes ténnos.:o· _cástigo dev~ ter JJm valor·exemplar (mqgnÚm ~eniplum). Este
/,

,-.-

~"
,~
deve incitar os escravos ã ti-ait.os-que fomentám. as intrigas. O argUmento tj_ue_ invoc;a é o d<i
69

~i·· ·, .-segUrança:. «Muitos sinais pt'.eceQem um_crime; se houv.er escraVos que o réyelem, Ilós po- Ibid., p. 12.
70 STOu..EIS, Michael; -;{.>Idb!°de lá ra,ison d'État'de Friedrich Meinecke et la recherche ~-!
demos, cada um dC :nóS, vivêr ~s; rodeados de- uma riiultidão e em segurança, no meio de
~:; P.
tantá gente inquieta_(.~.]»; ibid.; 377 i · actuelle», trad. do alemãdpbr lw.1.·Sendfart, in ZARKA, Yves Charles (dir.), Raison et dérai- {
'IK· -6 8 ME1NEcire. Friedrich;L'ld(e de la raisoiz d'État danS l'histoire deS tenips niodefnes son d'État, Théoriciens et théories de la rpison d'État auxXVJ• et XVII• stecles, Paris, PUF,
'i'.. (~·924): traii do al~mão p6r ~:· CheváIHer,_Geii~bra, Droz; 1973, p. 31. 1994, p. 16.

~:.:
.60 61
'lfii··
~
-,,
~,

/~
~
/~
~ ' ~~.

~
,Ç-,

~
.("..-,-

/"--
~
~
it1 '

m
;~
&
@; A POLÍCIA, SEGREDO DO PODER
k? .':

:~
--.;,.v CONSPIRAÇÃO -E Sl,1PERSTIÇÃO POÚTICA

~)
A.polícia parece:Wnstihµr um ponto de vis_~ parado~al sobre ~-política
~ l)epertdente da soberariia, limitada pelo governo, por um ládo, péla justiça, por
?§' ,,
outro, ela parece partilhar dos seus segredos. :OeSmentid.ó-,polítj._cO da::P.olítiéaj
~~. ~la é então bem mais que uma-instituiÇão:·é u*1 ~onVite a ~a-niineirà:de pen-
:.:.-'
sar. Baixa, ela é c;omo que a caixa-forte dos p:oderes. A existência de uma ins-
~
~--· tituição consagrad"a ao segredo dá 1Jma exiStêUcià aq segredo~ ·se a. pO_lícia é -o·
-baixo do político. então é porqµe existe real.mente.uma baixa polítici:
& Desde logo, p:odemos. susi}eita,r, <<por baixo;> d~,acontecime~tO. do aP-anjo:aiti~­
@ ficial, sob a decisão, ócálculo, sób a escolha, o i.Ilteresse. umà tal PetsPectiva·pare--
~~::.;·
. ce colocar-n~s no carnjnb.o de uma interpretação da história pOµtj~·.comó_.história
<._;_, secreta, história dos _golpes de Estado e das conspirações. Se ~O o _acontecimento
é artifício, a política"éuma ai-te do segredo. O acontecimento não é. mais.do que uma
tJ]) .quimera: a sua· aparência depende da ignorância dis causas,_.dq_.desconhecimento
'~> das maquinações. Da mesma fonna, 'roda a decisão ·e redutível -a uin cálculo. Uma-
< tal história prefere a ap.edOta (a <q>equena>> história) à análise: OS_faCtos mai.~ baixos -- ..
·t1 são para ela os _mais significativos. Ela dá-se o aspecto de uma c~tica dO Estado.
d~ A maior ilusão da-política residiria ·na crença no segredo:-A:·ba.P;,a polí~ca
não é secreta pelo seu objecto, mas em virtude desta crençà. A _revel~ç_ão coÚ~
~;
fere ao segredo um modo de exi~iência: este torna-se quaiquer Coisa,·de subs-
-~· tancial e Qe infinito. A cripio-históri_a não de°Svenda o segredo: torna-o maís
·@ espesso. Mas é uma c;oncePção :religiós·a·qo segr€:do que·p~rice ser-·~qui pro-
,~ jectada sobre a política. Trã:ta:-se cjo segredo· como do sei.na.ontologia eleátl---~
f01: <;a: se_ ele existe, e~e é e não pQ_de nã_o-_ser. Não pode, po~tà~·-s_er_dividjdo, nem ••
~gp ~
encetado pelo conhecimento. o· prolongamento ,ije uma «ontologia'do segre-
~~~
~
1BourANG, Pierre, Óntologie du secret; Pàris, 'pTJF, 1973,reed. coi. -~Quadrigue», 1988,

~'
r
pp, 429-46L

~:~ 63
f2

•i
r.:iti•
HÉÍ.ÊNE L'HEl)ILLET PROTEU ou o CONSELHEIRO POLtrrco
,,,..,
-.;, ·~

do 1» não pode.ser senão:·uma teologia, e nem pode ser uma polícia nem uma Ele procede da inversão da ordem tradicional do alto e do baixo no imaginário :;:
genealogia. N~ ffiedÚação religiosa Sobre ó segre(Jo, á d~scoberta do segredo político. S1,1põe, com efeitd, que o segredo é «baixo», enquanto os arcanos me- _;S

'
é~!-

~.
~
.\:>:/'.
nã6 significa o desapal'e~ihiento do Segredo, mas a descoberta.da dimensão do
invisível, e, portanto, o aumento do segredo'. Osegredo é então o imaginário
da política. Explicar Pel~ c6nspiração é fazer brilhar falsas luzes. A cripto-his-
: t6ria assinala-se·. assiin po.r_tJ,ma retórica da «evidência»: é o mistério que pas-
dievais erain. «altos»-. Num artigo onde investiga a origem da advertência Noli
altum, sapere da Vulgata de São Jerónimo, para mostrar como este se_ torna pro-
gressivamente inaceitável e deixa lugar à réplica de Kant (Sapere aude5), Car-
lo Ginzburg traz à luz a identifiéação do segredo e da altura6• -o facto de este
r
~

'!;:~' sa Por claridade,-e. ~·no_. inexplicável· qtÍe é suposto encontrar-se a explicação. preceito ter sido compreendido «Como uma colocação em guarda cOntra o co-
~
.
<;! As_ falsas luzes-da revelação não·sv.primem o segredo, mas colocam-no em nhecimento ilícito das coisas elevadas 7» é a este respeito eloquente. Na sua ori-
i:,,;:
cena, fazendó aSsÚri cres~er-o pod~rio-4a·_ilUsão. . gem, a expressão de São ~eróIÚmo significava «não sejas orgulboso8». De atribu-
~, :~'.
A supez:fície:_:f~flect~ra çonsti~i a estrun,u:a._d~ -~onSpÍnl:Ção. -A conspiração to do sujeito, o adjectivo altum tomou-se complemento .de objecto. A interdição
@ seria um.espelhÓ deformante· Ça política::. umà face a faZer c~etas e um exces- de olhar do alto toma-se interdição de olhar para o alto. Se a explicação pela
so deiira~tf'. da raclorialida4e. Com· efeitÇ, cOmo .d~nionstra Michel Senellart, é
'
"
conspiração-é perante as leis da história o que a crença numa vontade subterrâ-·
P1eeisamente a mt,Úiança sobre a próPria- noção de espelho que dá nascença ao nea é perante as leis da natureza, a crítica desta é condição necessária para a <
@i
f'-'i"'• ·tem3. dos arcalµÍ-}mperiP. Com os afcana, os segredos da política s.ão pensados libertação da razão poiític;a. Seria, portanto, necessário afirmar que não existe
~
@
a partir da metáfora da visibilidade decorrendo de um pensamento especiflca-
merite.político.-f e já não piorai e t~_Ológico - da políticà. A imagem do espe-
em política uma ordem escondida.
Mas a crítica desta superstição não será ela uma solução de facilidade? Po- é
r!!:i lhO-perde a sua -~-ignificação_.metaf9rÍ~"a.·-9e espelho da alma - onde o «Verda- deremos nós reduzir a conspiração a um efeito de perspectiva? Ao recusar a ex-

1, dei!Q» speculum'.é_livrO ~-~nsameµto-:..-::- para remeter mais nitidamente para a


··.:·Sua dimensão esi;eclll?r e·6Ptica. Metáfora de si p_f6pria e metáf:ora por exc_e-
:·. _Jência --:--- metáfoi;a multiPiiêada pcir ela própria - , a imagem ·do éspelho isola
plicação da história pelas conspirações, deveremos concluir q?Je elas não exis-
tem? O delírio do segreQ.o deverá levar a que _se desconheça a existência de
· segredos? Não explicar pela1conspiração não deve conduzir a que não se ex-

1
·-..,,1.-

~
. . a·dimenSão do~uplo ..É· éXà_Ctameri~_pot aí que ela faz aparecei" aquilo que faz
ci~~~parecer e Prêduz,áss4n:·a religião .do segredo:

«É por eílb--e os teóricQS_' da ragiôn di Stato que a ruptura com a forma antiga do
pliqi+e a conspiração ou a ignorar a sua existência.= A crítica da conspiração, por
sã que pareça, pode tornat-se num obstáculo, como diz Michel Dobry: "
~-:~> «Ó mais insidioso dàs obstáculos [ao estudo do inquérito-] reside numa das postu*
~ Speculum se i"ealiza coin nitidez. Não que_-seja abolida. a função instrutiva do· espelho, ras menos discuúveis a priori daquelas que são próprias-às ciências sociais e que cons-
ií".
. · m~ este encoritra-se de-alguma fOrma-desdobrado no interior de si próprio, mostrando

l1,..
;r.f,,
.
_áo prÍncipe nã~-~penaS ii~ilo qúe er~ de~e fazer e comp deve aparecer, mas igllalmen-,
te aquilo que lhe é necessário escondet.»·
tituem (ou deveriam constituir) uma das componentes do habitus do investigador nest~s
domínios. Trata-se da colocação à distância - indispensável - de todas as visões cons-
a
pirativas da vida social~ de toda fotm<!- de interpretação dos factos sociais em termos
de conjuras, cabalas, acord~s escondidos, manipuiaçõe~ ocultas, chefes de orquestra
. ;

O teina da cÜnspifação'.-~eria, P_ortallto, inseparável deste novo·sentidO do


~.
cla'.ndestinos, eti::. [... ].A dificuldade provém do facto de as conspirações e as manobras

@ .eSpelho: só existé projeCção._através d.O-reflexo. Nasce paradoxalmente de uma


concepção racional da pólítica (de um projecto de tomar tudo visível), ao qual
secretas, enquanto modos e estilos de acção particulares, e que as representações cons-

~ se enxerta uma ohtolcigia do segredo- (a garantia de não poder dissipar as tre-


.v.~s) ..Ele faz entâq- nasce~ uka superstição polítiCa.
5
KANT, ,Immanuel, «Réponse à la question: "Qu'est-ce que les Lumiêres?"» (1784), in
~ Critique de la faculté de juger, trad. do alemão por A. D!!lamarre, J.·R. Ladmiral, ~1. de

~ ·A superstiçã~ assep.b ~ol:>re u!na distinção· do alto e do baixo: ela institui Launay, J.-M. Vaysse, L. Ferry, H. yYismann, Paris, Gallimard, col. «Bibliothêque de la
· Pléiade», 1985, reed,. «Folio», p. 497.

i
urria ordem escorlQidà;'Ã;·c6nspiraÇ~o :é·a 'forma moderna da superstição política.

2_ e~. Jeari-1,.oU.is;'~eur cfu secr~t, Paris, L'Herne,.1985, p. 10.


. 6
G_INZBURG, Carla, «Le haut et le bas, !e thême de _la connaissance interdite aux XVIº
etXVII? siêcles», 1986, trad. -do.italiano por M. Aymáitl., in Mythes, emblemes, traces, Pa-
ris, Flammarion, 1989, pp. 97-112.
3 SENELLART, Miéhel; Les Arts de gouven_ter, qp. cit., pp. 55-59. 7
lbid., p. 99.
~ 4 Jbid., p. 54. . . 8 lbid., p. 97.
tf~'


64 65
?•"l

i'
~"' -PROTEU ou·o CÓNSEul:EIRO POLfr1CO
~-

.,,í
WJi'!·
HÉt,:E:t...~ L'HEUILLET

pirativas da vida social existem, quer se queira ql!er nã?, que umas e mitra fazem parte conselheiro. Esp~lhOs, nãq do príncipe, mas do seu seaj:etário; eles não ensi- ·.
da realidade e que é necessário, a partir do ·momento em que tomamos por objecto o · nam como aparecer, más como se dissimuJar,=ou; mai$-e;<actamen'te, como se
~
h:- RPI 9, dotar-se de meios Qe uma apreensão soci~lógica rig-orosa destes modos e estilos mostrar sem s_e. mostrar.
~
f!''··:i
de acção ou representações, o que de modo nenhlJm equivale a qualquer fonna de ade- A arte d.o disfarce e da sua reduplicação (que conSiSie em.-pare_êer o cúmu-
são a estas representações enquanto explicações dos factos sociais 1º.» lo c).o natural) funda-se no pressupósto de uffia duplicidade; mas es"ta não é mo-
1JJ.
D Trata-se, portanto, de recusar as interpretações gerais que afinnam seja que
ral. O que é duplo não é o secretário - nem-o ·príncipe: é a própria história,
não no sentido em que ela abrigaria qualqu_er" propósito secreto, _irias em que

~ff/ a conspiração não existe, seja que tudo é conspiiação. Nos dois casos, a cons-
piração é considerada como uma condiçãó-de inteligibilidade da política. O se-
gredo é, portanto, a «Chave». A recusa do seg!edo - quer tome a fonna de re-
ela é lugar de mudança. A primeira lição do secretariado político.'_em Gabriel
Naudé é a consciência da ·mudança. Nele, à inSt8.bilidade pertencé" a.o: coração
Qas coisas. É pela mediiação sobre ela que o secretár:iO forja o se'U._ 'tempera-
;_@; cusa em acreditar na existê~cia de coisas escondidas ou a de imperativo de mento. A força é a virtude do conselheiro secreto,
"~)
-~
transparência - participa na mesma lógica O.a cripto-história. N_os dois casos,
«ªqual virnJde se pode facilmente adquirir fazendo COnti;nu~_-reflexões S9bre as condi-
~~
~:.;
o segredo é promovido à patente de substância.·
:::, · O estudo do «secretariado» político faz descobrir uma outra cllmensão do ções da nossa natureza fraca, débil, e sujeita a todas :ii.s espédes:de·_doeD.ç_as e enfermi-
dades, sobre a vaidade das pompas e honras deste-_ni0ido, sob~~ a fraque~.e a imbeci-·
~ segredo, menos fascinante porque menos prometedora de revelaçõe$, mas mais
reai e apta a fazer compreender em que - mesmo quando é afinnádo o impe- !idade Qo nosso espírito, sobre as mudançis e rl.'.voluções dos ·rieg9cios, sobre as diV€rsas

'
~
~:
~i
rativo de transparência - constitUi ·a~ baixa política uma parte irredutível da
política.
faces e metaesquematismos do Céu e da Terra, Sobre a diversidade das opi~ões, das sei-
tas, das religiões/sobre o pouco qu·e duram as coisas 13 ».

A consciência da instabilidade das coisas da qual o S"ecretáriO se/deve-com-


lji! PROTEU, SECRETÁRIO DÓ.POLÍTICO penetrar é, no domínio da·baixa: política, o gUe_· cOnfere lque1e:_que ~suporta a
~~,
f§i>t;:1 altuÍ"a da consciência. No d6m.fuii:{da altá:política,-umç. tai··cortsciência serii ·
~-
O secretário é não apenas -aquele que está a par cj:o segredo, mas o que se. baixá: seria depressiva O··grande.hÕmerii:nãó tem tenlpO· de mêditar; iige.
'@/
~~: mantém secreto. O segredo é discrição, não invis~bilidade. O secretário não A corisciência da mudanca não leva.o secretário à melancolia; traZ-lhe, pelo
~
{,~
está escondidO, mas exposto aos olhares. No entanto, a sua função é a de dis- contrário. f6rçá:: é que a SUa .acção-não-teni a:·mesrn.a origem: Se--~JÓrça.é aqui
definida, como na Idade Média, como uma.virtude-m9~al 1 ~. :ela_nãO._confere a
simular, e ·de dissimular que dissimula:_ portanto, ele mostra-se. Nesté sentído,
~
ele é ((homem da corte 11 ». A dissimul~ção'não visa somente a protecção: ele capa~idade d~ dominar·às e:oisas, mas a de 'insérlr-se no·-.Seti'-çu.rSO._·A pnldê~.:-- ....
~- %~­ eia política adquire-se ao lorígo-de urila prova;: qUe consiste .nãó em olhar-o Sol ·
~? não age por simples prudência, mas pata intervir, através 4os seus coh_selhos,
~~ nas mudanÇas políticas. Juntamente com o tratado de M'.3Zarin 12, os textos de de frente Ou de tentar ver lOnge, mas em supOrtar olhfil. .P.!oteú 15 •. Ela não é,
( Baltasar Gracián são manuais para o· uso não de quem governa,· mas do seu como em Justo Lípsio, uma espécie de compromisso e ·de _intennédio. É ape-
,..,
r 1~
9 Informação politlca interna.
io DoBRY, Michel, «Le renseignementdans les démocraties occidentales. Quelques pis-
nas urna qualidade do sujeito ou uma: àrte de agir. Ela é o-próprio-Proteu. Ad-
quirir a prudência política não _é adaptar un;a -certa mrul:eira de. agir,_ nem de-
masiado direita nem dem<1:5iado falsa, inas sair transfonna:do da contemplação
<;lo monstro. Anticonversão, a.formação do secretário é.uffi~ descida- ao antro
~~
(-:--.. tes pour l'identification d'un objet floy»_, an. cit., p. 62.
JJ GRACIÁN, Baltasar, L'Homme de·coUr (1684);-trad. do espanhol por A. de I,.a Hous-
de ProteU. A subida· em direcção à ~uz daquele" que or_ient0,U o Ôlhar nessa
,!"· saye, reed. Paris,,Ivréa, 1993, ID, p. 2. Estes «espelhos» dos secretários podem também en-

'=
,'."". sinar a desmascarar o autor de uma carta, como vemos no tratado de Camillo Baldi, La. ~t­
tre déchiffrée, Bolonha, 1622, trad. por A.-M. Debet-e-A. Fontana, Paris,'i.es Belles Lettres, Gabriel, Considératlons po}itiques surtes coups d'É~t, ·op_. cú.,_
13 NAí,IDÉ; pp.
1'59-160.
,""'- ~f:Ji 1993. Agradeço aMichel SenelJart·por meter indicado este texto,
14TOMÁS DEAQUlNO (S.ão)~ Somme_théologique, Ila, Ilae, Q-.123--i4o, trad.· do latim por
'(?' ; 2 MAzARIN, Jules (cardeal), Bréviaire d.es politidens (!684), Í"eed., Paris, trad. do latim A. M Roguet. Paris, Le·Cerf, 198.4-1986, Tomo III, pp. 733-744:· ·:
por F. Rosso, Paris, Arléa, 1996.
15 NAUDÉ, Gabriel, considéfations politiques sur·les coups d'~idt,;op._ c_ii., -p:1s. .,
66 67
_.---.;, •1!%
~"'"
/1)
'~~ --'=,

ilfj' HÉLÉ!>'E L'HEUlLLET PROTEU OU O CONSELHElRO POÚTICO ~


>;f '-
1
~~r
direcção tqrna-o prorito· às metamorfoses e aos disfarces. Toda a pretensão à
-·transparência e ao j1:Jrid~s:°1o sai denunciada_ na sua Vaidade:
«Pássaro-Mosca, ~cunha deste agente, leva consigo; sob as suas vestimentas, um
sortido ligeiro de adereços para mudar, e metamorfoseia-se à vonta4e. [... J Sempre em
~

\:~
-~
'
1
lff';; «Esta ptjl~ência" política ~ comparáVel ao ·Prot_eu, do qual Dos é imp9ssível ter um
·andamento, ele veste, se:m se fazer notar, uma camisa e um avental de tanoeiro; o seu
chapéu mecânico desaparecerá· sob a camisa, para dar lugar a um boné de seda que toma
.,

~-:
~

~· coÍlhecimenb··Certo ·senão depois de d~r aos.segredos desse v.elho, e de ter contem· todas as formas e todas as dimensões particulares às profissões que ele representa. Por ,(:;

plado, com\lma olhar fiX:o e seguro_, tod~s os SeÚs d~versos movimentos e metamorfo·
~
fim, 1.).ma ba.rba postiça e dois falsos dentes, da frente, muito salien~es. tomá-lo-ão irre-
b s~i por mefO dos. q~iiS~-ef~ repente.':_e!e :àpresenta o horror de um javali, cobre·se com conhecível perante olhos experimentados21 .» ~

I
~"'': ·a pele negra.de-um_ ttire, Com as escamás. de .um dragão e com o pêlo vermelho de uma ~
_-:
'
leoa (Virgqí~, Ge67-gi~a$)1 6 ,» . . . A esta tirada, o seu interlocutor teria respondido: «Ü Proteu da fábula anti-
~_; ga não passa de um raÍ>azote ao pé dele22 .»
~
~.., O~a. a fi~ dé ·ProtéU é ~m ~lo ·comÚ~ pa;a falir da policia, nomeada- A figura de Proteu ~erve por fim para designar o iugar obscuro da política,
~--. mente no séCUlo XD;, ém França17 • Ela designa a aptidão do pólicial sem uni- bas1onds onde os valores se metamorfoseiam e descobrem a sua faCe nocturna.
1}g·· ~O_nne, sempr~,~ompaiá~~~ ao espião, ª·mqdar de aparência. O próprio François A consciência do se.cre:tário é semelhante à consciência de Proteu. O saber polí-
@ Vidocq abre as· suas-M,ertz6rias vangloriando-se da sua «aptidão singular para se tico que a polícia representa não é, portanto, como o quer uma representação or-
~
_ ca.racterlzar 1 ~>~. Passar:,déSpercebidO é ainda uma man~ira de imitar o vd.ho dQ
~~- dinária da política, <<pelo alto». Obriga aquele que o possui a el?-contrar um an.
mar,_ cujas metamorfqse"S_ estão -I~gad_a$, no mito, à omilísciênÓia e ao dom da

1.,,.
tro. O seu lugar é·subterrârieo. O baixo é um l?gar barroco por excelência,-o dos .-~

··. pfOfeC:ia. AsSifii, o policiii.1, cofio Pro.,teu, só poGe acumular o saQer manten- jogos de sombra, dos qJJadros dé dupla face, do teatro de ilusões. A baixa políti-
--d~-se disCretÓ~·.A táctic<i de-Gabriel de Sartine, tenente da polícia de Luís _XV ca é o lugar onde as aparências se baralham e onde a luz não consegué senão tor· ~-,..

~
t_;-,p de 1759 a 1774; consisti~ ~m apiesentar-se como um-person<Ígerll çle mCdíocre nar mais espessas as trevas: ·· . -,~-,,

· envergadura;·a fim de nãO ser leyado .a sério. ACercâ ·i:;iele,-o es~tor François
!;~:.;.,:,'.·.
O bom secretário é, portanto, aquele que consegue suportar as· mudanças da
q,;:;
N.t;armontel es~reveu: _«Ele possriía em circunspecção, em discrição, em adap- história. Ele muda com ela. Ele próprio é Proteu. Ele não atinge essa posição -r
tabilidade·, todOs os talentos miúdos_-cja medioc_ridade 19 .» Ora.não só Sartine é unicamente pela força do ·seu _temperamento, mas por dois meios específicos
1:
fJiJj
considerado, jÚ_nto com Nicolas· de. La Reynie, coino um dQs mais importantes que são o-silêncio e a m'erhória.
t~nentes de pç~ícia _do ant,lgo regllp.e·,. como a sua arte consistiu sobretudo em

'1
_aperfeiçoar os_.-Serviços_ 9e infoimaçãó e em multiplicar os espiões. É verosi-
~ :_rriilmente nelé.:que pe_n:S_a·Joseph Fouché quando declara confonnar-se aos mo- A MEMÓRIA SECmrrA DA POLÍCIA
~~{@
d6Jos do àntiio regfm~.-.. · . . · ' _
lt'i' É àinda a ProteU- qUe.-se refe~ Gustave Macé, chefe da S-(treté no início da Proteu não fala. YveS Bonnet, director da DST de 1982 a 1985, declara: .-;
·_ ill República, pai-a de·stre"ver Oagente. secreto que encarrega das suas missões
· de viiilância.. Nas suà,_mein6ri~S, deséreve o «chui» ·- cortio um_â «mosca2º»: «Um serviço de polícia vale-pelos. seus arquivos, p_ela·sua memória. l,Jm boI? poli-
-~ cial é, em primeiro luga,r, -alguéffi:·de quem não se fala e, em segundo lugar, alguém qtJe

~~; 16 tem memória. A policia é o silêncio e a men:ória23.»'


lbid., p. 7S-. _. ·. ,1 •
17
É o que riiç}Stra AnÍlie ~uck na sua ~se de doutoramento, J.,es Représentations de la
pó!ic_e parisienne_de la Restàuration à ia monarchie de Juillet (1814-1832), dirigida por Ele enuncia assim, ao que parece, a regra de prudência do secretário. Ele
~- Alain Corbain, e.defen4~da, effi 1996 na· universidade de Paris, O estUdo dos Panilek>s da épo-
ca pennitiu-lhe c_oricJuit.qUe «a comParàção.com Proteu é constante,- uma vez que este mons-
fala como émulo de Prote\I. Se, antes de ser preenchida por «serviços», a fun-

~~. ~ antigo se tran·sfQ~a para Permanecer inatingível e guar~ ôs seu~ segredos» (p. 382).
18 VIDOCQ, Eugêne~Franç6is, Mé"1oires,_Paris, _1829, ín Assassins, hars·la-loi, bandits
de,grands chemins, Paris,"Çoniplexe, 1996, p. 412.
2 1 JvIACÉ,
22 Jbid.,
Gustav, "(/n}olie monde, Paris, G. Charpentier e Cie, 1887, p. 56.
p. 56.
~
19
MOl\TBAs,'HugueS de, La_-Polic'e parisienne sous Louis XVI, Paris, Hachette, 1949, p. 24. 23 Bor..'l"!"ET, YVes, in PÉAN, Pierre e NrcK, Christophe, L'Affaire des Irlandais de -Vincer.·


w Uma daS'supostas r<lfzes da palavrajlic é o.alemão Fliege, a mosca. nes, difusão "televisiva emitida_ em 22 de Janeiro de 1996.

68 69

0
""""
"""-
ô :e
,;:'';
~
~)
F.ÉI,ENE L'h"EUILLET PROTEU 01/0 CONSELHEIRO POLÍTICO

,-~-.

[$-
~;
ção de servir o príncipe era ocupada por ·«·qualquer minís?"o ou conselheiro se- Gabriel N.audé, na sua recusa:de uma teoria p~lítiCa ~ue não Seja 'Ui:na reflexão
creto, fiel e confidente24», podemos procurar em Gabtlel Naudé, qIJe os enun- sobre a pragmática, oponha a filosofia à soffSti'éa. A. inteli_gêncià. 'da política,
'&
~,
cia explicitamente, as qualidades deste secretário. Este último distingue os mi- que assenta sobre uma «erudição do Estado3º», seiia uma sofística 'semelhante,
1"'ll nistros - na acepção original de servidores - «que Se co'Qrerh ·das plumas de
-~ 11-m pensamento reduzido a uma :mpemotecnia. PÓf-certo; ç}S :proce_dimentos di-
'~ outrem» daquele qJJe, tal como o sofista Hípias, carrega vestes feitas pela sua ferem. Onde em Hípias uma performance era necessárlà.; à:S técni~as actuais de
'""
f;,.·
própria mão 25». Esta observação parece irónica e paradoxal. Ççimo ter por per- classificação e de ordenação déinfonnações, bem com:o.-a:miieniÓiecnia irifor-
D tinente, em tarefas onde convém brilhar na arte de desaparecer, a partilha mática, realizam as condições de umâ c;i.paéidade prática,: .aPlicávei à política.
~0 entre o factício e o autêntico? Nos dois casos, a niemória parece ser Qinstfument~. da Piudência. Na Ida-·
i6 A referência a Hípias é, no entanto, eloquente. Hípias é l,lm «fazedor>> no de Média, as arte$ da memória são tidas co_mo parte de:sta. FrinceS Yates ássi- .
?:7·" sentiào próprio: sabe fazer tudo. É um sofista e, jtJ.sqmente por isso, um homem
·~
na!a que São Tomás de Aquino detém um lugar particfilarmente i)nportante no
.,- ..
:;,;: do artificio. Ora não é o artifici~ que define o fàJ.so, !llªs o empréstimo: pode ser desenvolvimentq de uma nova mnemotecnia~ 1 • Por meio indire6t0 de Tomás
de Aquino, é ainda uma vez mais para a referên~i~ às Éticás de AtÍstóteles '1ue.·
-.

dito falso aquele que não obtém nada de si próprio .. Q artifício sofístico consis-
te em obter tudo de si, «fazer-se a si próprio» pelo seu trabalho. É levancio a ló- somos remetidos. É na realidade a Aristóteles que S~o Tomás f<if referência ·
gica.do artifício a seu termo que encontramos o bom m.ipistro. Nal.ldé perturba para explicar:
a ideia que fazemos do homem da sombra Com efeito, se o hom~m da sombra
é um homem falso, poderemos conir.ará-lo à Lua: «Não tendo aq4ilo que o. faz «A prudência tem por objecto as acções h1.:1man.as na .su.~· cOntj~g_ênc_iil; já o ·dl,Sse-.
brilhar senão poi' empréstimo, ele mostra~m pouco.tempo a sua fraqqeza26 .» Ao mos. N;esse domínio, o homem não pode ser dirigid~ por ver~des ii.bsolüias e necessá~ ··
invés, a soberania é uma «solidão solar27». O conselheiro secreto deve partilhá- rias, mas segundo regras cuja propriedade é serem verdàdeiças ~a uiaior P~ dos casos
-Ia e dela participar: «É necessário que, como o Sol, ~le prodµza do interior a luz [...]."Por su·a vez, a experiência é o prodµtó de'.lltÍi grande:-ndmero de·:~ecordaÇ9es",_
que alumia o exterior28.» O parado~o é apenas aparente. A imagem da sot?era- diz ele ainda. ·consequenteinente, requere-se à pnidê'ncia q~e,·~a mui~ ~ecordacões:
t:., nia aplica-se·ao:·homem dÕ segredo-tanto quanto ele é um olho, e,.portanto, se- É então pbr direito que a meni.ória se conta Como_fai:endo pai-te'da prudê~.cia32 .»
"-~"'-
melhante ao Sol. A r~ferência a Hípias_diz, todavia, mais do-que o que explici-
ta Gabriel Naudé.Autárcico em tudo,.Hípias é de facto o sofista omnisciente até Ainda sobre este ponto, paieceria· que a ru.~.polícia- - ·a -polÍ~~3:-enquanto
' à caricatura. Ele é sobretudo o inventor de uma mnemotecnia: detentora de um saber e,enquanto inteligência:da políti'ca - é~ ·em·Si meSma e
pelas suas actividades, elemento do segredo de Estado. Em que s~ntido?
G

"·· «Hípias de_ Ellis, o sofista, tinha µma tal memória que, mesmo na sua velhice, era O segredo não é aquilo que sé Opõ.e à· Í'ev:elação. Gabriel N'áudé distancia-.
capaz, tendo escutado apenas uma vez uma lista de cinquenta només, de a recitar pela -noS_de um imaginário político:fundado si)bre a Óposição da sombra e da:fuz-...
ordem em que a tinha ouYidc29 .» A imagem de Proteu .escondei-um outrO" nível de n1etáfota:, convid~:Ilão apenas
a ver a sombra, mas a ler o iilverso do _serÍtid9.: ·o· segred.6- é aqq,ilQ que se ·de-
O artificio político pode aparecer como sofístico, se por isso entendermos cifra, não aquilo que se destapa. Michel Senellart pensâ.que é necessário tomar
não apenas uma teoria, mas uma prática - por e:Xemplo, a de Hípias. Talvez a expressão «decifrar os segredos» à letra. Naudé es_creye, corri efeito:
?;
'.-<::.::
( ... --------
:(D NAUDÉ, Gabriel, Considérations politiques sur les coups d'État, op. cit., p. 156.
24
«E quando os secretá.1.os tiverem aprendido. com estes aúto~ei _o :ne.io de compor
,,-... "7'> 25 Jbid., p.159. cartas com o ornamento que lhes· é necessário, será bom que .~aSsem àqueles que en~i-
·-~-'
;~~,
26 Jbid., p. 159.
r-· ~
27 l\1ARL~. Louis, (<Pour une théorie baroque de l'action pôlitique», in NAUDÉ, Gabriel,
~!Ji

~
(""' · ConsUiérations politiques sur les coups d' État, op. cit., p. 38. 30DE'NERPE, Alain, Espion, op. cit., p. 219. . ..
u NAUDÉ, Gabriel, Considérations politiques sur les coups d'État, op. é'Ü., p. 159. 31 YATES, Frances A., L'Art de la mémoire (1966), trad. do ingiês por o:·Arasse, Paris,
2 ~ PHfLOSTRATE, «\!ie des.sophistes», in Les Présocratiques, edição estabelecida por Gallimard, 1975, para a trad. francesa, pp. 94-118;
"' -~31
,~._ Jean-Paul Dumont com a colaboração de Daniel.Delattre e de Jean-Louis Poirier, Paris, Gal- 32 TOMÁS DE AQUlNO (São), Somme thiologique, !Ia Ilae, Q. 49; op. éiÍ:._ Tom0 ill,

~ !imard, col. «Bibliotheque de la Pléiade», 19j$8, p. 1078; pp. 335-36. .


,-:;,
~~ 70
~~~
"
-~
"'

e PROTEU ou·o CONSELHEffiO POLÍTICO


HÉLÉNE L'HEUJLLET . ~­
·,~;:

' . . q
naram.a arte d~'esconder .º q1,Je 6la$ contêm usando certas nia~as particulares, e sob a objectar que_ os mais cínicos· não são aqueles que se manifestam como tais, e


~:
coberrura das ~irras33 .».· · ·

Comparando a passagem ·de Lti Bibliographie politique na qual Gabriel Nau-


dé trata estas qll~~õêS~.(onde dá a ·d~fi~çãO positiva do segredo) com o início
que reclamai--se da moralidade nestes assuntos é falhar a coisa e faJ,har a mo-
ra,!. O segredo _da política é então detenninado negativamente.· Apenas merece
esta denominação o segredo extraordinário: aquele que o príncipe paÍtilha com
lJm ou dois conselheiros secretos. Em La Bibliographie politiq~e, Gabriel Nau-
,.;""
'.O;;

•€) das Corisidératióris sur-les Coups d'Étcit (oncje ele evoca as suas C!ll"a.Cteristicas dé precisa estes pontos: dizendo que o segredo diz respeito ao elemento pro-
negativa~). MiChel Senella.it..mostra-cómo este adiciona um ponto ~ignificativo. priamente político da política (as próprias condições do Estado, a·sua funda-
@ Nas: ConsidératiOns, NaUdé. Procede ·poi· eliminação. Exclui primeiro da defi- ção) e. ao cargo do secfetário. O secretário é de imediato definido como aquele
;niçãO:de seg:redp:_is as_túcia:S,:_<<fraud~s-_e ~rãbUstes ligeiros», «perfídia?», «injus- _que, na divisão do trabal_ho, se ocupa do indivisível: da soberania. Adiciona um
fui·· tiças ou falsas prbmesSas:»__que Justo :r,Jpsio comp~een<:Jia so.b o termo de «pru- ponto: o segredo de Estado, devendo ser mantido- sec~eto, deve ser consultado _...,,
0> dência mista». Sã~ os fa1sos-SegrecJos 3S que cad~ um Conhece e dos quais· os prin- na sua fortaleza ou no s_eu cofre. Esta fortaleza ou este cofre são da ordem da
m~ .·éipes reivindicani::quase aberÍamente-o uso. Ele recQsá igt;ialmente a defmição de escrita: o_ segredo deve estar encript~do.
~:.

@: Aoiold Clapmaf,6• Mal~grado as etimologias qtJe recusa, a teoria de Çlapmar é Assim, o segredo não pertenc~ nem à técnica nem à métis: não é uma re-
··tão falsa quanto <,f_ de Lípsio. QlJe a faça derivar de arx (fortaleza) ou de arca (co- ceita de governação. É um discurso político que não deve ser dito e que deve
fre)37, ou de ari:ivum (arquivo)38, não podemos chamar segredo senão àquilo que manter-se escondido. Ora, o verdadeiro esconderijo está na escfÍ:ta e está sela-
éffi~ti_do ao abrigo e guardado do co~eCimento e do oJhar39. Oia, as ilustrações do pelo código. Michel Sene11art sublinha este ponto colocando-o em relaÇão
,.
,,,..,,
de Arnold Clapmàr e de Justo Lípsio remetem para a mais banal das políticas: com dois facto$ históricos. O prÚneiro é a prática-do sinete do rei, selo pessoal
fragmentar a info~ação é por certO u_m ·meio cje mailtera sva al,ltoridaQ.e, mas que permite ao rei, desde o fim do século XIII, enviar cartas secretas:
-isso .não tem nada_ a ver com -a prátiCa.do Segredo. E_stes autores «corro"mperam
as:palavras 40» e ~d~pravarar:ri a_coisa41 ». À.o terem eJabOrado uma teoria do se- «Este selo é a primeira ma.rca de uma escrita do segredo que começa a t_omar forma.
gredo, fonnul~ -re~ :ê :rnáxim~: qué devem .governar o seu 1JSO. Gabriel paralelamente à ·escrita da lei: selo de um lado, que esconde as mensagens latentes, e,
Nau~é .di_yerte-se:.Com o -fàcto: de que o. absurdo de uma tal ·iniciativa não teµha do outro, sela vontades·patentes, Pôr o sinete numa carta foi um meio de'escondere ao
' atin~do Os au~o~·13."É po.ç-._af:Gue renu,ricia.tamQém a qualquer tentativa-de justi- mesmo tempo identificar42.»
ficâ.ção d_o arcano...
· O desejo de mostrar q"Ue a prudência política não é tãó grave e injusta como O segundo é o desenvolvimento da criptografia no século XVII. Ela tem
parece sustenta os pensàme~tos deJusto Upsio e deApiold Clapmar. Um mes- uma parte ligada ao ocultismo e é uma teoria da cifra43 . Segundo Michel Se-
.. ·rrÍ9 r?cioCínio p21'.C-ce estai- sempr~·ezn operação na· reflexão sobre as polícias nellart, é a criptografia que constituí o paradigffia da dissimulação dos-tratados 1:
<secretas: ·se elas ·àparéCerii como lrieYitáveis, ao menos - cremo-lo - é ne- de corte de Baltasar Gracián ou do cardeal Mazarin. Este preconiza o uso de
.c~ssário prescre~~i--lh~s u!llá-~parêD_cia de deontOJogia. Com N:audé, podemos Uma linguagem codificada que dê a ilusão cte pod°er Ser Cs>mpreendida, «pois
·:;.

l,lIIla linguagem codificàda que forrieça um texto inintelígível desperta ne_ces-


33 sariamente as suspeitas44>>. Michel Senellart comenta assim a passagem de
NAÍJDÉ, Gabriel, Ld Í3iblio°graphie Politique, contenant les livres et la méthode né-
cessaires à étudier lii. po!idque, Paris, I 647, p. 124. Mazarin:
"IUd., ppc 120-125. .
35
NAUDÉ, Gabriel~ CoMidéfations pqlitiques sur les coups d'État, op. cit., p. 89. «É preciso dissimular aquilo que p~nsamos, que sabemos ou que procuramos saber.
6
) C'LAPMAR, AmOld, De arcanis rerum publicarum libri sex (1605), Amsterodami: apud Mas esta técnica só é eficaz se dissimularmos-que dissimulamos. Ser-secreto é fingir que
L, Elzevirium, 1641. ·
37 !bid., J, 3, p. 6.:
nada se esconde, multiplicando ~s sinais de uma visibilidade sem sombra. É, noutros ter~

28.Jbid., I, 3, p. 7.-
3~ NAUDÉ, Gabriel, Consii:lérations politiques sur les coups d'État, op. cit., p. 9b. 42 SENl:l..UllU', Michel, Les Arts de gouverner, op. cit,, p. 225.
4ll Jbid,, P• 91. ... 43 lbic!., p. 256.
4.l-!bid., p. 91.. 44 MAZAR.!N, Jules _{cardeal), Bréviaire des politiciens, op. cit., p. 46.

72 73
>""'\

~.

~
(· HÉLENE L'HEUII,LET
't PROTEU OU O GONSELHEIRO POLfrrCO
~F,"),, f mos, oferecer aqs olhares q\le espiam, espreitam, persc111U\m ~do à s11a volta a evidên- ane qe apr~veitar a ocasião, é arte de distinguir o ordiná:ri~ do ~xtraordinári~.
('::; I' cia engana4ora de ~ma conduta inteiram~nt.e legível. Artifíd 0 extraído da criptografia45 .» O segredo da política é, portan\o, não apenas a transfo!ffiAÇão, mas o carácter
1
efémero do ser. A precariedade da política c9nstitui o seg!edo ·do ~ecretário.
r~ :.
O $egreoo depende, portanto, de uma escrita: deve ser decifracj.o, não reve- Mesmo se Naudé não hesita em citar Maquiavei, a ontologia que~sustém o seu
lado. Mas se a Bibliographie politique e a literlJ,tura de corte iluminam as Con- pensamento não é talvez retirada·das mesmas fontes. Este cqma ~mpres~ado ao
sidérations politiques sur les co1,1ps d'État, ao invés, o tom metafísico das Coh- historiador grego Pol.íbio a crénça de que a história se desenrola âe forma cícli-
sidérations elucida o recurso pragmático à cifra. É necess~o falar aqui oo ca e que as cidades passam por.fases de ascensão e de enfraquecimento com~
«tom metafísico» - por oposição aos outros textos mais técnicos de NauQ,é - paráveis às do ser vivo; elas nascem, crescem, envelhe.c.em .e monem. Em Ga-..
e não de metafísica. Na verdade, se Naudé parece por vezes fazer concessões briel Naudé, não encontramos traço de tais referências 'nem de semelhantes ·.,•
ao aristotelismo, pelo meio indire.cto (,ia referência a Pierre Charron, é, como metáforas. A ideia da mobilidade de tocjas as coisas, ,que .pzj-tilha: com Maquia;
para este, a um aristotelismo t?mado lugar-cormmi do pú'olico cultivaçio, trans- vel, não é articulada, mesmo qe m,ap,eira inítica~ com dClos: as co~sas humanas,.
formado e transportado pela escolástica e que não contém assim naõa de sa- pelo contrá#o, não têm «uma ordem certa; O:etii um seguimento iinutável49 », e·
liente. Por outro lado, m~s viva é a presença de elementos tomados de em- mesmo se nos casos ordinários o semelhànte prod112 Q seme~e. «existe ne·
préstimo à sofística. Podemos, portanto, perg1mtar-n9s se. a ~eotia oa prudência les uma grande inconstância e uma grande "iariedade50». O EStado~ para Naudé? ·.
(phronesis) e do momento oportuno (kairos), atribuída a Aristóteles em razão não é frágil como um ser vivo que é necess.ário co~ervar ae ~eia saúde, mas ··.:
da fama do seu pensamento e cJa sua irradiação através dçis séóulos, não pro- precário, pela natureza das CQisas nas qu~ se irisere. O segredo ~ criaçãó-pode
vém aqui da sofistica. Ela é cQm efeito {Ulterior a~stóteles: o cone.eito de k.ai- bem ser' em parte técnico: não é Dells quem coôsei:Va 'o Estado, ~as a aliança ·-
ros é verosimilmente Çe oriiem pitagórica e teria sido introduzido na sofistica do páncipe e do sec~etário, da alta e da baixa política. Se ~ontológico, esse se: ·
por Górgias, q1,1e a teria obtido do seu mestre Empédocles46. A singular «Onto- greqo é-o no sentido que os sofistas dão a ess~ termo. O Estado é precário; pois
logia» sofistica é de alguma maneira «uma ontolÕgia sem ser [...], uma onto- não existe nenhum ser ela política. O segredo da política -é o da: .sua origem,
logia não teórica: a ontólogia da prática do disciirso 47». Nã9 é senão uma con- e este segredo não é em si substancial. ·.·
sequência téóric:a da prática 'da ret6ripa. É certo 9ue seria falso dizer _que para
os sofistas as coisas não exi~tem. mas, para eles, o s~r é «fugitivo, s~m unida- ...··
L de, por assim dizer, sem substância48 ». Variabilidade do ser e variabilidade da O SEGREDO DA ORIGEM
aparência são u~a só e a mesma coisa. É o próprio ser-apaiê~cia que é protei-
(
forme. O verdadeiro segreqo da política eoosíste; par conseguinte, Ji~ facto de nãÓ
I
'-: .. Ora, esta ontologia que extrai as consequências da práticit da retórica é ade- podermos saber, ainda menos con.becer ot;i comuoi~. O homem politjca. é. ·
quada ao político e constitui me.smo talvez ijma reflexão sobre esse singular tipo aquele que med~ o vazio da política. Gabriel J:'iaudé,.pa,@o fazer sompreender,
de ser que é o ser efémer9 da política. O tema da acção é o ponto comum da tem uma imagem que se afasta, também, da metáfora .da ~9mbr~ ~·da luz. O se-
,.
prática da retórica e da política. A retórica vale pela sua eficácia, quér dizer, pela gredo é a fonte da a~ção política. Ele d~ mesmo â,i~gem d.e uma fonte
sua capacidade de desencadear uma acção. Deste ponto de vista, a alta política escondida, como o era então a do N"tlo: · ··
é retórica. pois assenta sobre a possibilidade cje a palavra yaler como acto, e de
ser credível por esta razão. Mas a política é também o sentido da ocasião. Se a «A natureza nâQ revelou a ninguém a tua fonte, 6 Nilo, e não exiS(!: nenhum povo
alta política pode jogar com a variação· das circunstâncias, a (:Jaixa política ins- que te possa ter visto no teu início: ela distanCiou os seus recessos e preferiu q1,1e as na-
tauraria uma certa estabilidade na mobilidade universal. A prudência, enquanto ções admirassem .à tua origem m~is que dár-)lies aconhecê-la51 .~ . .

45
SENELLART, Michel, Les Arts ·de gouverner, op. cit., ~· 257. ,.,,.
46
«La sophistique ancienne», in Les Présocraliques, Qp . .cit., p, 1521. 49
NAÜDÉ, Gabriel, I.,a Bi/Jliographie politique, op. cit., p. 147 •.
47
lbid., p. 1520. 50
lbid., p. 147. . .•
4 8 lbid., p. 1519.
51 NAUDÉ, Gabriel, Consid~rations politiques sur les coups ·<l'État._ op. cit., p. 91.

74
r
(J. ' <.!

ff
. PROTEU ou o CONSEI.HEIRO POLtrrco
!!';
"'
O segre<;lo.qo rio é a sua fonte: Ora toâa·a fonte é inco~o~cfvel, pois põe lo, é apenas ignorada, e não desconhecida, ele cria sempre 1Jm efeito de pers- ·;;:.
é .questão do té)meço·sobi'e o m9dO qa causalidade imanente e não transitiva. pectiva. O segredo é o baixo da origem. A altura, atributo da soberania, apoia- (.l
\;.
"
' , . E porque a fo~te do rio,·~ão é sepárável da sya essência, não sabemos em que ·Se sobre o afastamento. Admirar opõe-se a conhecef. A admiração apoia-se só· tr:
•,:·.
momento pod~mos dizer.gye nos encontramos no ponto de passagem, não do bre no segredo, mas dispensa a fascinação pela obscuridade. Ela procede da
f"
ser em potência ·ao ser .em acto, ·mas do não ser ao ser em potência. A imagem aceitaçã'.o da ignorância. Assim, o segredo de Estado é irredutível perante qual-
. d~ rio é tradiciÔnalmente'.a metáfora do mobilismo universal desde Heraclito. ql!er op~ração de transparência: .esta pode quando muito revelar algumas pati- -·
Mas se admlti:n:nos ·qtie o mobilismo de Naudé é mais sofistico do que bera- farias. Não é um segredo sobre~ ou tal coisa, uma vez que o seu objectivo é
clitiano, o segfedo não eStá na ausência de estabilidade, mas na ausência de um 1.)ma expectativa do que ainda não é. Com efeito, se a política em geral
ser substancial do segredo· Nesse casq, 'o 'verdadeiro segredo diz respeito não - quando atinge a grandeza - é comparável ao Nilo, é ao golpe de Estado
1
à~ilo que é, mas àquilo que ainda não .e. Com tqdp o rigor, o segredo não e-xis· em particular que é necessário assinúlar o segredo dá grandeza. O segredo da
te Ele só é vidvel pelos se1.1s efeitos:·é, portanto, visfv~I para aquele que sabe grandeza reside, portanto, na pequenez da origem;
ver, invisível pm o que não sabe.
- 7 Não pode~!)~. claro está, tomar de forma ligeira o exemplo de Gabriel Nau- «Farei notar [...] que podemos fazer um bom paralelo entre esse rio Nilo e os se- .·
dé-argumentando o~ progressos do conhecimento. Mesmo que safüamos boje grecjos de Estado. Pois; assim como os povos mais vizinhos da sua fonte dele retiravam
em dia que o Nilo te1n a· ~úa nascente no lago Tanganhica, poderíamos der que mil comodidades sem ter nenhum conhecimento da sua origem; assi~ é necessário que
•'
a .ciêl)cia da p<:>.lftica tomou vã uriia..tal reserva sobre a origem da arte política. os povos admirem os felizes efeitos destes golpes de mestre sem, no entanto, ·~ada
Nó entanto, o segredo do nãscime.nt~ p~rsiste, quando o fazemos recuar ao seu conhecerem das suas causas e diversos motivos 53.» ..
ponto extremo. ·Não s~emos em que momento o Nilo é já o Nilo e não mais
·' . ~a pequena fülite. É'neêessário.conseguir enco11trá-lo no meio da diversida· O segredo de Estado é o segredo das causas e motivos dos golpes de mes- ~ ....
r
de de cursos d~ água qµe "têm a sua nasce.nte no· mesmo· sítio que o fururo rio. tre que fazem a política. Esta causa e estes motivos são, entretanto, da mesma 1

Da mesma forina, o,enh:êlaçamento.das circunstâncias impede que passamos, ordem que a habilidade de Hípias: não é pensamento. O saber deste sofista
sem risco de nos engana:nn.Ó's, conhecer a origem' das grandes acções políticas. pode servir de modelo à erudição de Estado, pois é um enciclopedismo em for- !..,.,
No começo, ell\~ bfua: é apenas um fio. Só o olhar retrospectivo, análqgo à ma de colecção, alinhando conhecimentos reduzidos ao estado de informação.
subid·a do rio dÔ estú.~rfo êm direc9ão à sua fonte, proporciona uma segurança Hípias é troçado em nome do desprezo da informação. No entanto, na ordem ! :?>

na matéria. Ma§ a acção, essa, não pode ir de jusante a montante. Ela começa de acção, a informação constitui um saber legítimo: ela prepara o aproveita- ,~ .
. . necessariamente pelô seu início. A origem é inevitavelmente fraca e precária.
Falr.a-lhe a forçà do rio. O segredo da política reside na precariedade da origem.
mento do kairos. É também porque toda a definição do segredo de Estado ar-
ticulada com <<preceitos gerais e com máximas universais 54» constitui para . .;··.
Su~de o mêsmo com os grandes acontecimentos. Se o acontecimento é Naudé uma deformação daJ exigências da acção política.
uma ruptura da ordem, {porque a sua origem·é desconhecível. Os maiores Esta colocação eni causa da filosofia par.a apreender o político deve ser aqui
acontecimentos só se deixam vaticinar por indícios insignificarues. É por isso apreciada, mas não como obscurantismo. Dizer qµe existe na política um ele·
também que se ·pareeem produzir de surpresa: mento que se mantém irredutível ao conceito é instrutivo para o filósofo do po-
lítico. A partir do momento em que a P'Jlftica se aproxima do real, ela passa por
í ·h
..r )
«Não é necessário revoiver a terra inteira para provocar as mudanças dos maiores baixa.. O segredo da política, para Gabriel Naudé; é este real surpreendente q11e
impérios; elas chegam mulÍas vezes sem qu11~equer pensemos nelas, ou pelo menos sem faz e desfaz as coisas. Adescoberta da origem da política deve manter-se escon· ~$,~

que façamós Jiiandes prep~tivos52 .» djda, pois esta verdade ·é tão repugnante como Ptoteu é monstruoso. A alta poií~
tica deve embelezar-se e disfarçar a assustadora fealdade da origem. A baixa po·
L ('-J
. . A soberanh1 não pode senão manter esta ignorância, e deve f~ê-lo.1\1esmo lítica é não apenas a da ·Origem, mas a q1,1_e conhece o segred~. Naudé, nas t~·J.
.. .•'se o segredo da origem pode
.. .
ser vist.o no ser acabado, se .a origem, a este .títu-
'"''
.
~ '

./';--~~-- Sl fbid,, p. 91.


52 Ibfd., p. 136. 54
Ibid., p. 91. 1~D
: • ... l

'76 77 ~l
-~
.:.;·:·: ~~

J.S,
.' •
HÉLENE L'HEUILLET PROTEU OU O CONSl;lLREIRQ PQI,.fTICO ·.
Consfriérations, <jirige-se ao cardeal de 13agni, ao serviço cio g11al ele se encon- ao mesmo passo que a pru4encia panicular58»; mas tem.<<Um passo mais largo
tra desde 1631. A confidencialidade do segredo de Estado é assegurada por l)ma e mais livre59». É de Charroo que 11em a diStinção entre a prudência ordinária
difusão deliberadamente reduzida da obra (doze exemplares na primeira publi- e_ a prudência extraordinária que Naudé retoma por sua conta©. Ainda qàe pra-
cação) e por um prefácio denunciando os defeitos ele impressão: De demasiado ticando a· arte·da distinção, Piel!e Ch.arron pennite ~empreender a especifici-
longe, a política é tão desconhecível como de demasiado perto. O lugar do secre- dade da arte do secretário e da baixa política. Ele estábelece dois níveis de dis-
tário é o único ponto entre o alto e o baixo que pode ser o da perspectiva justa. tinção no interior da noçãóde prudência. Primei.to;' separa ~quela que diz
Para designar o segredo do secretário, (Jabriel Naudé prefere o termo italia- respeito às pessoas e aquela·que diz r~peito aos ne~ócios 61 • A prudência que-
no para evitar a confusão induzida pelo termc:> latino. Ele nomeia-o segreteu_a. diz respeito às pessoas divide-se em prudência privad1l,social e económica (in-
Com a segretez;.a, tratamos com uma função e uma conduta: a função do secretá- termediátia entre a po,tdência privada e a plibllca), p~blica ou 'política - ela
rio e a conduta da discrição55 • A segretez.za é uma parte da pmóência. A prudência também cindida em duas, já que pode ser pacífica o\l militar. A prudência que
é, por um lado, o sentido do morr:ento oportuno, a capacidacj~ de antecipar o fu- diz respeito aos negócio$ divide-se em dua:s partes, segundo os negócios são
turo e, por outro, a memória: «Ela ordena o presente, prevê o futuro e lembra-se ordinários ou extraordinários. A primeira tem pór objecto as leis'eos costumes, .
do passado56.» Ela é a segunda, o acidente. O segundo nível de distinção iip.lic~-se tanto à prudên-
cia para as pessoas como à prvdência para os n~gócios: Consiste'ém distinguir
«tão universal que compreende sob si toc!as as 04tras virtudes, ci!"cunstâncias e obser- a prudência própria e a prudência emprestada,:àq1.1ela qu'e.i;ião heces&ita senão· ,. ..
vações que podemos fazer aqui da ciência, modéstia, experiência, cond11ta, reserva, dis- do próprio conselho e aquela que·faz apelo 110. conselho ~e 0 utr~s62. As·distin-
crição, e particulannente aquilo que os ItaÚànos chamam segretezza por um termo q11e ções de 'Gharron ajudam a compreender 9 p~nsamento_.d~ Naud!, A prudêncía :
lhes é própriol.1». que se assemelha a Proteu é a extraordinár4t, e o q1.1e é 1ábil, variado e sur-
preende~te ·é o acidente. Ela diz respeito aos ~negócios.e ~ãO"·às pessoas. A. pro- ·
dência proteiforme não é, a bem dizer, a prudência paÜtica ele Chârron, que diz
'•
O SEGREDO DOS «GOLPES DE MESTRE» respeito·às pessoas. Estas têm o mes_mo· ~elac~onameoto mútuo ·que a alta e a •·.
(
\ .. bai.l(a política. As prudências ordinária e extra:otd.inária deseonam uma outrã
( Os golpes de Estado são golpes de mestre; não 'são, portanto, simples gol- região diferente da diplomac.ia, da_paz e da guerra - ~de tudo Ó.que constitui
pes de força. Pelo c:ontrário, se a série de golpes de mestre é semelhante ao o universo da 'alta pol!tica: Elas aplicam-se à conduçã.o dos negócios. Por in-
Nilo, é porque as margens deste são grandes e· férteis. A autoridade tem \lma termédio da noção de-consélho, vemos como a prud~~cia das p;ssoas e a pru-
diipla face. Ele é políticl). não apenas na sua essência, mas também na sua efi- dência dos negócios se_juntam. O príncipe pçde tomar-um conselheiro para se
các~a: deve produzir efeitos políticbs. ocupar dos negócios enquanto ele se ocupirdas pesso~.Adisti.nção entre.pru-
A partilha do justo e do injusto é afectacla por·esta conc:pção. O jiisto ,em dência das pessoas- e a dos neg'óci~s. precis~ ~ierre Çha{!on, é Unia tjiferençá
política é da ordem do artifício; Será então a prudência política unia arte de se de espécie. Ela não concerne o-obJecto. Uma mesma:cQisa- pode-dizer respeito
·'•...
ser bem sucedido? Será a baixa política puro artifício de uma política reduzida à prudência das pessoas ou à dos negócios, segilndo ~ia tratada como..objecto
à ap~ência? Mais que a definição de Justo Lípsio, Naudé prefere a de Charron. da baixa ou da alta política. ·
É como «prudência mista» que a baixa política se apresenta normalmente; ela ~ práticas âa dissimulação e da inteligência secreta· são bem·necessárias
r· aparece sempre como derrogação da moral, como política comprometida com a aos P.ríncipes, ~as não dependem nem da prudência públiça paéffica ou mili- ·
' necessidade e a urgência.
Pelo contrário, para Gabriel Naudé, a contribuição de Pierre Chanon.consis-
....... ________
58
.
lbid., p. 88. ..
te em evitar este tipo de facilidade, Para ele, a prudência política não «caminha
.,;
s9 Ibid.,.p. 88. .-
~ lbi{f.., p. 92 . ' ..
•'
CHARRoN, Pierre, De l4 s_oge~e (1601), Paris; Fayard, coL ~Le corp'Us des oe~vres
61
ss Ib(d., p. 164.
56 lbid., p. 164. philosophiqucs», 1986. Livro m, p. 547. · . · . <..,. .
.
51 lbid., p. 164.
62 Ibid., p. 548. .
., .
PROTEU OU O CONSELHEIRO POLfTICO
·. HÉLENE L'fIEVIL~Er

·w..nem da pru~ência o~ihária. Óra, se depenqem d~ prudência extraordiná- de Estado é «um tr6vão 67». Faz-se em segredo. Os grandes efeitos não reque-
,-f.
rià, o justo não;~e pode discernir senão na sua sombra. N.audé explica-o enu- rem por essa razão grandes ca~sas. Se nada, em política, é eterno, os meios que "-
.merando as quilidades dÔ.íninistro do príncipe: «a força, a justiça e-a prvdên· servem para destruir são por vezes os mesmos que servem para construir. Exis- .
eia~>> . O terdeiro termo, a prudência, não é justaposto aos dois primeiros, mas te uma equivalência de pontos. de vista e de meios. ..:;.

•.;
'orienta-os e dá-ihes sentido: Ajustiça ppJdente do·secretário toma, portanto, a Para Gabriel Naudé, o modeio da política é o do teatro. A ip.udança em po-
medida·dO artifÍtio polltico, não apenaS para dissimular Ol,1 trocar as voltas, Se lítica é um recurso dramátiéo. Não é necessário recorrer à guerra para pertur-
necessário, ma~'para saber que em Política fazemos uso não do justo mas das bar o estado do mundo. As maiores mudanças não requerem as maiores ofen-
«sombras do justo~. O·argumentç de· Gabriel Naudé não é nem platónico sivas nem as estratégias mais elaboradas. Ó artifício polfüco não consiste em
ne~ pascaliano:,- 'rrata-se, J?.elo contrário, ê:le·um.a reflexão sobre o uso: fabricar a política, mas em arranjar-lhe o aspecto dramático. A referência con-
vocada parece a do centro de gravidade e do princípio da alavanca:
«Aj\lsti~a-naturai, U.nivcrsal, nobre,e filosóflc~ está por vezes fora do vso e incomo-
. da na:prática do inundo61.~- · «E como Arquimedes removia os mais pesados fardos com dois ou três paus indus-
triosamente ligados uns aos outros, também nós podemos por vezes remover, até m~s­
_Se é verdade que nos_servimos das som'Qras do justo na «prática do mundo», mo arruinar ou fazer nascer grandes negócios através de meios que são de nula consi-
· porque não temos «11_enhuma.effgie. s.ólida e expressa do verda~eiro 4ireito ». é
66 deração68.»
P.orgue ~ a effgie"se presta ao vso:; ~'? mais que o jl,lsto em si não se deixa íns-
... trimientaliiar. N?o é tantó à forç~ ·<pie-,faltaria ao justo como a comodidaqe. A po- Mas em vez de interpretar a imagem em referência à mecânica e às leis de
lítica iostrumen~ o justo, e, poi isso, perde-o, pois a vniversalidade não é l)ni- funcionamento dos c.orpos, podemos ver aí uma referência ao artifício teatral.
versalizável. A ·própria; pôlíi:ica está por inteiro na SQµlbra. A utilidade fa.z perder A fabricação seria menos a das próprias coisas do que a dos cenários, que ~ão lu-
de vista a verQa!ieira."justi~ ao süpor uma outra ordem onde as diferenças não gares de artifícios. É nos bastidores dos te>atros que encontramos a:s alavancas, as
são mais do que de perspêçtiva e onae as mudanças são metamorfoses. A política molas, os «fios». Se «os grandes negócios» nascem «através de meios de nula
é, por essência bllrroe,a, própri,a ao éncantarnento, votada aos mitos. Quando a alta consideração», é porque, na cena do mundo e da história, os efeitos são também
poiftica deixa de·encantar, é à·baixa poUtica que se to.ma objecto do fascínio. Entre de perspectiva. 1
a alta e a baixa política, a·.diferença é ·só de pernpectiva: é uma diferença da ordem Assim, a: imprevisibildáde do acontecimento não impede os políticos c:le
· d~ grandeza, e não uma âiferença de natureza. A baixa política não se j~ga, por· nele representarem um papel, de intervir agarrando as 'linhas de força e os pon-
tánto, senão-em rélaçãó a ela mesm~ e não em relação aos critérios-da alta política. tos de inserção. Mas a baixa política não é o lugar onde se fabrica o acopteci-
O argumento realista toma-se, assim, no seu contrário. A necessidade polI- mento. A relação da alta e da baixa política não é, portanto, uma relação de
tica não se fundamenta sobre um imperativo técnico incontestável e seareto, causa e efeito, À alta política pertence a compqsição dos efe,itos de perspecti-
mas consiste num acÓ·modamento permanente entte o justo e o injusto. va. A baixa política isola a circunstância, o «átomo d11 política69 >~,_a «muito pe·
q~ena fonte» onde nasce «O grande rio7º». 0 mais ínfimo elemento (!Jrpolfti-
ca, invisível a olho n~ e necessitando de-um saber, é também o lugar onde a
J;>A·POL1TI~ política se realiza, não por fabpcação mas por engendramento. ·
.
A ENCENAÇÃO
),
'
. .. Assim nãô é possível prever quem acciona a alavanca arquimédica da polí-
·'.· '. ·· A bai~a política é·a:ionsciêricia de ~ma insegurança constitutiva da políti- tica. A alta política consi.ste em fazer um golpe 4e mestre ·de uma das circ~ns­
'ca; a alta política é uin divertimento éncarregado d_e o fazer esquecer, O golpe tâncfas de pouca monta, jogando de tal forma que o seu vaior seja modificado:
..,,.
67 Ibid., p. 101.
63 NAUDS. Qabril'I, Çpn.sjdérations politiques sur les co_ups d'État, op.itit.. p. 159.
68
Ibid., p. 136.
64 Ibid., p. 164. 69 Ibid., p. 136.
65 Ibid., pp. 163~1.64; 70 Íbid., p. 136.
66 Ibid., p. J64;.

81
80
..... \
,-'"-······ - --------.

HÉLENE L'HEWLLET PROTEU ou ci ,ÓONSEummo POLÍTICO

«É dever do bom político levl\): em consideração as Jilenores circunstâncias qlj'e se não é o caso do segr~do, qQe s6 9 é se escapl\I' ao conhecime1úo ( ...].Aquilo que 4eve,
encontram nos negócios sérios e difíceis para delas se servir aiimentando-as, e fazendo na a.rte de governar, pela sua natureza, manter-s~ escondidÓ; '~ã~ ·é da ord~m do enten-
às vezes de uma mosca um elefante, de 11ma arranhadela uma gran<je ferida e 4e uma dimento, 111as da ordem i;!a acção73 .»
faísca um grande fogo; ou diminuindo todas essas coisas seguindo o q\le for preciso para
favorecer as suas intenções; numa palavra, o "grande político é aqqele que sabe levan-
tar ou baixar" 71 .» A ACÇÃO POLICIAL RJ;!SISTB À TR"ANSpA~GIA

A alta política consiste em fazer o granqe com o pequeno. Procurando carac- Nos regimes democráticos, condenamos o segre4o se!D diferem;iar o segredo
terizar o artifício político, Gabriel Naudé coloéa-'o também.na distância que se en- ordinário do extraordinário. Ora, se esta difei:tinça, na reilidade; existe, o seu
contra entre o universal e o particular. «0 artifício pqlftico» é 1l política parti- desconhecimento leva a desvalorizar injl.!Stamenté todjt a pqlítica, enquanto sur-
cular: a política do particular. A al_ta política não é, portanto, nada em si mesma. ge como baixa, a partir do momento em que encerra um~ qualquer opacidade.
É na baixa política que se encontra o motivo da ac.çãc;>, como numa mec.ânica de O receio do abuso de poder conduz à recusa ao mesmo 'tempo·da opacidade
teatro. constitutiva do acto político. O segredo não está.por essêncra'.ligaçlo a um e~er­
Em Gabriel N,audé, a «fábrica da política» c.onsiste emjçgar sobre os efei- cício monárquico do ppder, mesmo se é esta modalid;!de de autoridade que abre
tos de perspectiva. Ela é menos 1.jma técnica do que uma arte do artifício. É so- ao conhecimento do segredo, pois ele é uma coisa relativarÍiente líc.lta. Abs~­
bre uma teoria da acção que assenta a .igeia de N,a1,1dé, como o faz notar Yves do os estratagemas, existe, portanto, uma opacidade política em todos os· regi-
Charles Zarka: mes, e em toda a política - mesmo se tomarmos C§le' te~ô 'no sentido fraco q1,1e
é o seu nas expressões como «política da cidaê!C?> ou «pl::ilftica'da educação».
«Considerando a política do ponto de vista c)a acção!. N.audé é leva<jo a distinguir A polícia po.de ser encarada como uma encarnação '<les.ça opacidade. ·Ela
três ordens na prática da governação, a ordiná.Pa, a extraordinária e a excepcional72.» o
não é para o executivo o.que o ütensilio é paia operárid,.não porque se per-
mitisse desobedecer, mas" porque goza c!e uma margem âe.iniciativa conferida
A distinção entre o ordinário e o extraordinário cond\l·lo a pensar numa ou- pelo próprio poder. Se, mais que um instrum~n~o: a pejÍci~ é seer~tária do po-
tra forma de segredo para além do segredo ordinário. É do segredo ordinário lítico, o segredo do secretário não é·mais ao que o seu , p~Óprio trabalho, en-
que falamos quando o tomamos por critério de distinção entre .as tipps de re- quanto este não ~e reduz à escolha QQS meios llll!S COIÍStitui uma interpretação
girµe. Monarquia ê democracia distribuem-se em relação ao valor atriQuído ao concreta da autoridade;' não consiste-tanto em calai-se como éin agir «em nome
·"·
segredo: instrumento necessário de governação, num caso, 11buso de pocl.er, no de». O segredo resid~ na margem de desconhecimentô. qúe a aç~o encerra em '.
outro. ·O segredo monárquico ordinário é uma encen~ção: o rei faz de alguma si. O segredo da politica"reside na imprevisibilidade do acontecimento; da · o
maneira demonstração de invisibilidade. Quanto mais se mostra, mais con- polícia está ligado à sua· missão. · - -- "'
templamos a sua insondável profundidade. O segredo extraorcl.inário é de uma Se o saber político é assimilável ao secÍetanado po!ítig>, .tal como o defin;
e.. outra ordem, passa para·além da diferença entre regimes, e é irredutível a 1.!ma Gabriel Naudé, ele é uma «espada de dois gumes74 » ;~como ·esses remédios
teorização política, como o explica Yves Charles Za;rka a propósito de Gabriel que podem matar ou curar75». Se é assim, é porque ele pertence à .lógica da ac-
(<..,.. .:.·. .:>' Naudé: ção. A acção comporta, ao mesmo tempo. que o risco de .desencadear as con-.
sequências, uma. perigosidade inerente .ao seu processo. Assim, quando abor- . ·;.
«Segundo N.!iudé, os termos secretum e arcanum não jlOdem de maneira alguma de-
signar os princípios de uma ciência; quer dizer, os objectos q1,1e ~zem respeito ao en-
damos â pQlíciá não como um «conjunto de coisas qu~ S\< exibem1.mas como
um grupo de pessoas que agem761>, o segredo.swge como constitutivo·da acção. ...
'.
..
tendimento. O que cliz respeito ao entendimento deve por definição ser conhecido, o que
73
lbíd., p. 16.0. ..
(
..
71
lbid., p. 76.
74
NAUDÉ, Gabti,tl, Consídérations politiques sur les coups d'Étal, op.
7l lbíd., p. 76. '
tit:; p. 76.
72 ZARKA, Yves Charles, «Raison d'État, maximes d'Éta,t et coups d'État chez Gabriel . "
Naudél>, in Yves Charles Zarka (dir.), Raison et déraison d'État, op. cit.; p. 157. 76 BRD!lEVR, Jean-Paul, «La poHce: mythes et réalités», art. cit., P• 25.

82
~ 1,..:.:

ÍiÉt.ENE L'HEUILLET ~ROTEU OU O CONSELHEIRO POÚTICO


GTI '-<

de duas maneiras: Primeiro;.é convocado como meio. Desvend_ar as suas in- eia do político8º.» No entanto; o segredo não desaparece da política. Longe de ~ 4:.:.
tenções é ameaçàr· a sua realização'. Não é tanto enquanto as~cia ou cálculo se refugiàr na falsa oposição entre a teoria e a prática (o segredo seria recusa- (.f:
<.,:,
que o segredo é um rrieiÓ, rrias porque representa a temporalidade reqllerida do na teoria mas aceite na prática), Alain Dewerpe faz do paradoxo um verda- '"
· para o desenvolvimento de.uma estratégia, como explica Jean-Paul Brodeur: qeiro trompe-l'oeil barroco: uma ilusão real e não uma simples manigância. q
O. saber qo segredo é ainda mais confidencial. Assim submerso no silêncio, o Q
«Na medida: em que_·a p~ica bum~a· é ordenada pelos fins, ela encarna-se sob a segredo é ainda mais secretõ8 1• A transparência multiplica o segredo por ele
próprio: «A transparência é a máscara do segredo82 .»
!:f'
.forma de uma estratigia pela qual -a opacidade e a ambiguidade c.onstituem um~
{
· · · dimensão deliber~dl\Il1eilie p~4rada e11lim~ntada77 .» Será necessário por essa razão justificar o segredo de Estado? É o que ten-
;.· . . . . ..
ta fazer Carl Schmitt._ A sua crítica da transparência funda-se sobre considera- •'

, Ele também aí pertenc.e ·como·. ~l~mento do próprio processo. A acção é ções técnicas: '·
,.
:,;.
, sempre o.ma inteÇacçãg, _-\l_ma vez ,qiJ~ consiste e'm fazér intervir uma vontade
'.; num campo de cifcul1Stiiíoi_as sempr~ inéditas. A acção é sempre improvi~a- «Para o postulado do carácter público, o adversário reside na representação que a :.~
. çao~ãil~ptação das' tác~cas'e· dQS seuS'falhanÇOS à estratégia. S~ 3 polícia deve cada política pertencem os arcana, segredos da técnica política q1,1e são, na realidade,
..:;
,

ser defiiúda por iima abçãoijue comporte uma margem de indeterminação, ela para o absolutismo, tão necessários como os segredos de fabrico e de comércio (Ges-
·é duplamente opa~a. O s.ilê~qio não recobre necessariamente Q «abuso». Exis- chtifts-und Betriebsgehefmnisse) para uma vida económica baseada _na propriedade pri-
te «abuso» quan~o a acção policial se siwa não à margem da legalidade, mas vada e na concorrência83 .>> {:

fora desta. Quanto mais a reiação com'~ legalidade é incerta, mais a .acção é·
f;
,. r·
opaca: Para ele, existe uma esfera do secreto. O propósito toma a aparência do ar- ~
"""
(~:
gumento de autoridade; ele postula que o seu autor está «dentro» do sei;redo
,,_ p!.
«A opacidade da acçã9 é evidentemente uma fünção direc\a da previsão que é feità da polJtica e que é necessário estai: «dentro»' para julgar a acção política. O se-
do carácter ilegal ou repreensível d~ operações que devem ser realizadas para as colo- gredo é, portanto, da ordem da iniciação: separa a política em discurso esoté- -~..:.

car em aplicação .» 71 rico e exotérico. Ora - como foi demonstrado -, o segredo de Estado não é \.!
,;:'.\
um se~redo de fabrico da política. Mesmo se existe, no absolutismo, uma acei- r .
Enquanto estíver se~pre em acç.80: a policia resiste à transparência. A trans- tação do cálculo, não é no sentido económico ou técnico do termo. Mesmo se
1Í: 'i"PA
pârência é uma noção judiciária, que acompanlla a exigência aa justiça ql.le aí existe uma parte privada da política, não se trata de uma esfera fechada. na
-::; ~'1~
sanciona os factos conSl)mados. Ela parece inap!icá:vel a qma ·actividade cm Cj11al nos·poderíamos ou não eocontiar, mas uma int.eracção permanente do pri- 1,,:

e;
movimento progressivo de maneirá geral, a tudo o que se modifica. Ao olhar ~ado e do público, do cscondidp e do ostentatório, uma representação do invi- ~rl\

' ó que está em móvimentô, a transparência é uma «sombra do justo». sível pelo visível e do visível pelo invis(ve~84 . :í
<: ~.l'·J
·- Aproximar ~sim as i;ialidades 'descritas de pontos de vista tão diferentes
·~orno são os de Gabri~l N'âudé ·e qe Jean,Paul Brodeur é evidentemente para- 10 lbid., pp. 78-9. 4
.doxal. É; no en°tanto, ·neste~ tipo de paradoxo que se apoia a crítica. Assim,
81

: Alain Dewerpe,·na si)a.análise do segredo oe Estado contemporâneo, ~a


lbid., p. 79.
82 lbid., p. 108.
,.
..,
·;~

q1,1e «O ~ame da5 teoriàs·tiifoleetuais dos príncipes de hoje desenha uma arte
13 SCHMTI7, Carl, Pai:lementarisme et db~ocrotie (1923, 1926). trad. do alemão por

J.·L-Scblegel, Paris, Seuil, 1988', p. 47; Die geistegeschichtlicl1e [Age des heutingen Parle-
i·,
.
ºf.f\.

)
de ·governar bem.
mai;·l?róxÍma dos golpes de Estado-de ~àudé do que do ideal menrarlsmus (1923). Berlin, Duncker e Humblo1, 1991, p. 48. -~·)
de publicidade e,transparêtida79 ». Despois do século XVIIl é que a transpa- 34 É vcrdáde que a concepção de Gabriel Neud6, para quem o arcano·não ~ um segredo

rência é declarada: «A retórica política associa-se estreitamente ~ transparên- 4a política, mas o nome dado ao seu domínio impossível, se opõe em pane à teoria,alemã .;!.>l
contemporânea, que define os arcana como «fécnjcas aplicadas de modo racional» (STOL-
LEIS. MichaeJ,.Histoíre du droit public en Allemâgne, op. cit., p. 302). Apesar disso, pode <.&J
julgar-se a interpretação de Schmitt anacrónica. Coinencando a concepção schmittiana da
17 Ibid.,
78 lbid.,
p. 25. .
publícidade política, Michel Senellart recusa a tese segundo a qual «O princfpio da publici- ~
p. 32. ..
79 DEWERPE,' Alain, EspiOn, op. cif;,'p. 89 . dade nasceu da oposição aos arcana absolutistas» (SENE!.LART, ll!lichel, Les Ãrrs de gouver- rf;,..:J
~-

'84 85 •-· J
-a t
.,_,,.
( '

HÉLENE L'HEU!LLET o:o :/.,.


PROTEQ . 'b. GONSEI,.):{E\RO
.. . Po1,.tr1cc
.
i

O segredo estará ligado a 1.1m exercício monárqv.ico da soberania? Eo q1.1e decisão. Ora, governar é um ofício <la v.rgência, e p~~:-cÓnse~uência de ded·
p11Iece à primeira vista. Uma tal interpretação d.aria sentido à crítica qe Alain são. t,J'm ofício de decisão é um ofício onde, a q~alquer nível que o. exerça·
Dewerpe: as nossas instituições esconderiam sempre qualquer coisa de mos, é preciso·agir em nome próprio, quer·dizer; niq em virtude do artificie
monárquico. mas em função daquilo qlle se é, «pois a d~cisão terii. necessidaqe de um es·
pírito de mestre e é sem c;ompâração mais fácil fazé:r' aqu:ilo que somo~ do que ·...
imitar aquilo que não somirsª 6». · ,. ·. ·. · · · ; ··
SOBERANIA E MONARQl)IA O poder pessoal de Luís XIV é uma interpretaçã'.o.aa soberània. É o temic
«pessoal» que é importante. É por isso, de acordo cpm Hegel, qlle a soberanif
A monarquia absoluta parece .ter o segredo para um11- das condições do se1.1 é, em matéria de. governação, a expressão do princípio d.a sub)ectividade e dz
s1.1cesso. O seu princípio parece ser o poger pess.oal. Po( pessoal, não se deve vontade livre: ,.
imediatamente entender o arl;litrário e o caprlcho. Pelo contrári9, govemat «em
Se\J nome» significa também acarretar com as SlJ.aS responsabilidades, comQ «A soberania[... ] não existe senão como subjectividade, tendo a certeza de si, come
parecem significar os conselhos de Luís XIV a seu filho, pela analogia do exer- autodetenninação abstracta, portanto, sem fundamento, dá vontade; pois é nesia que re·
cício do poder com a escrita de correspondência: side o elemento último da decisão. É af q11e está precisarn~nte ó elemento individual de
Estado e o que faz com que o Estado seja unos1,,.;
«Que se notamos quase sempre.11ma diferença entre as cartas particqlares, q11e nos
i;!amos ao trabalho de escrever nós próprios, e aque.Jas lque os nossos secretários mais A monarquia absoluta designa, portanto, menos· uma exten~ão quantitativs
hábeis escrevem por nós, descobrindo nestas últimas um não sei q\lê de menos nat11ral, do poder do que um deslocamento qualitativo da autoridade so~re o nome pró-
e a inquietude de uma pena q\le teme eternamente fazer de menos 011 demasiado, não prio do ·monarca: «Ü espírit() deste podÚ t~i:na-se eI)Íão tal ql)e ele é um mo-.
duvideis de. que nos as~untos de maior consequêncfa a diferença não seja ainda maior narca ilimitado - que não conhece limites8 8.» Não é pÓrq\le é. qemasiàdo gran-
entre as nóssas próprias resoluções e aquelas q11e nós deixaríamos tomar aos nossos mi- de que é absoluto. Este poder atinge um extremo qualitatjvo, e nãó quantitàtivo.
nistros sem nós, onde mais eles sejam hábeis, mais eles hesitarão, por receio dos acon- «Absoluto}> deve; portanto, se.r tomado à letra e eiltendidb :como «separado de»,
tecimentos, e, de deles serem encarregados, embaraçam-se por vezes pqr demasiado «isolado», ou ainda, como diz Étienne Tuuag; ~<lnde.12endéµter desligado de t6'
tempo com dificuldades que não nos fariam parar seq11er um instante 85 .» dos os outros 89 ». A fórmula do ·po:der, absoluto é bem'a ftaSe reai.ou fictícia atri·

O princípio·do absolutismo reside na referência do soberano ao seu no.me


buída-a Luís )UV, «o Estado sou eu». ·orei governa e,ni:nome·próprio mal-~· -.·
do o artifício do direito 'dívinq. Ao conjentiir à fuqçao .do' nome próprio do.rei
.
próprio. O nome é a marca da soberania, pois não se f)9d.e delegar. O-nome no absolutismo, Hegel mostra ~m() este é ·UlllfI ~Ção da mona.rquijl - tlQ :, ·..
próprio é a_ única coisa que não é em polí~ica dà ordem do art;ifício. A cora- sentido em que um só (monos) governa ·..:.... mais perféita .qµe a política te"ôÍógi·. .
gem política reside, portanto, no facto de se falai- ém seu próprio nome. A ur- ca da Idade Média. Doravante, este rei :que gqvema <:~Úeq ~orne, que é eh.a-:
gência só se resolve pela coragem. Os ofícios da urgênc;ia são os ofícios da 'mado pelo seu nome próprio, e vale, portanto,·na sua diferença' singular, está
e ner, op. cit., p. 281). Ao contrário, segundo ele, os «drcana, despidos da sua ganga mística
verdadeiramente só: ' · .

(ibid., p. 272), penencem ao mesmo regime de visibllidade q11e a publicidock,. (ibid. ,


p. 282). Com efeito, para este autQr, a rupwra essencial no que ele chama «a economia do
86
visfveb; é aquela que separa «Uma relação significante do vfafvel e do invMvel» (iflld., lbid., p. 61.
87
p. '281) - concepção mística, mas tmnbém mágica da polítiç~ - de uma concepção racio- HEGEL, Principes de la phi/Qsophie du droit, op. cit., ·§·279; p. 290;.Grundlinien der
nal do poder. Na teologia política medieval, o alto e o.!>aix.o são encarados como relaçõi:s Philosophie des .Recht$,· op. cit., p. 433. . . .. ·. · ·
a:illlógicas em \•inude das quais o mais alto (na term, o mona.rcit) pode descer até·ao mais . "~ La ~hl110111tno/ogie de l~spric (1~07), trad. do alemão por ! · Hyp~lite, Pa-
baixo (aproximar-se do mais humilde) porque ele também é uma cr!attfui ínfima. A racio- ns, Aub1erMon~gne, 1941, Tomo II, p. 72; Phtir:omenologie des Geiscú, Estugarda, Re- ·
nalidadé, por seu lado, isola radicalmente o alto e o balxo da política e requer, portanto, a clam, 1987. p. 362. .. > · .
existên~ià de m~d.iações institucionais.
·~·:
THUAV, ÉÜenne, Ralson d'Ét~r et pemte poliHque d l'ipoque de RÍchelieu, op. cit.
89
8
~ Luts xw, Mémoires pour l'instruction du Dauphin, op. cit., p. 61. p. 391. ·: . ~ .·•
'

86 87

(
~
•• HÉLÊNE L'HEUILLET , :

. «Por este nome, o m<iriiirca está completamente ·sepa,rado de todos, excliishro e so-
PROTEU OU O CONSELHEIRO PóÚTICO
~
€I ~~

ê••
''-
. , . utárjo;.no nome, é!~ é o átomd q)Je ·nadá pode -Corrillnicar dá S\la essência e não tem par e do corpo qlie R0usseaij dá lugar a esta «emanação» - que não é mais do que
E .:.::,
.' [imd nichi seinesgiei~hen há.t ]9Q,,, uma divisão dà soberania - a que chamamos executivo. A potência executiva
rr;
e '"

ê.:
·.: Ora a alta políqia pens·~-se. em ~elação· com a soberimia. Ela age e~ seu
distingue-se da legislativa como a força da v.ontade, mesmo se elas a.ão são dis-
tintas como o são as parfes entre ela~ 93 • A potência legislativa não pode exe· (
'<:,;;:

·~

'<1l'l ~orne e, entretanto;.exer'ce'.µin pode~ dé decisão. É nesta margem q11e ~es1de o 'ourar as suas próprias vontades, que não são mais que leis. Como o seu nome {[

seu segredo..Será diferehté. ~ir «em nome da lei» ou «em nome ~o re1~>? Mo- indica, o executivo executa as orden~ do legislativo, como o corpo executa as '<:

....""'
(.
dificara a teoria do.'conti"atO social - ta:nto _q~anto destaca o~ pnncíp1os. for- da vontade: «Quando caminho em direcção a um objecto, é, primeiro que tudo,
® mais de um regime republicano - a concepÇão da soberania de maneira a necessário que eu af queira ir; em segundo lugar, qlle os meus pés me levem
94
® fazer desaparecer o~ segredos? lá .» O executivo não pode ser «geral11. O primeiro agente da força pública é
o próprio governo. Ministro do soberano, ele coloca em obra os actos da von-
"'-

® tade geral. A sua função é.de «comunicação» entre o querer, o soberano, e o '
@ SOBERANIA E CONTRATO seu campo <je aplicação, o Estado: «Ele.faz na pessoa pública o que faz no ho- • ,,
. . •'
mem a união da alma e do corpo95.» Neste domínio, a opacidade não está
.É referindo-no~ à formu)aÇão do «i:ontrato social» de Jean-Jao~u~ Ros-
excluída. ti
~- "-1
··s~au que nos podemos perguntar se es1..e impec!e a opac~dade _constil\!tiva ~a Para mais, o contrato soc!al não implica necessariamente a democracia, que ,!,•

bl)ixa política. Ele parece é:ond~nat. os arbanos monárqu1cos e P,:OPº_r à repu-


·blica um ideal de transpatêocia. Se o povo é soberano, a sua acçao nao parece
não é mais do que uma forma de governação. Faz com que exista, ou não;·ie-
pública. Decide do respeito ou usurpação da coisa pública; ele é um critério
:: .
.· poder conservar UJ'.!1ª qu?J4ú~r opacidade. . · . . _ de legitimidade, não de legalidade. Entre as formas ele governo, a diferença
·. .. Com efeito 0 soberano/, a·pessoa plíbhca.enquanto é, activa, por opos1çao é quantitativa. A democracia e a monarquia sãq_ os dois extremos, a primeira,
'. ao Estado, qu: designa.· p~ssoa públi~a.enquanto é passiva91 • ·Se, DG Du con·
a distinguindo-se pelo grande nqmero dos seus magistrados, enquanto a segun-
(
' trat social, a sob~rania,.pe~.nce ao povo, este não é, entretanto, na~~~ natu-
1
ga o restringe tanto quanto passível; a aristocracia e as outras oligarquias ~·-

ocupando o lugar de solução intermédia.


ral nem históricd! ·0 po'(o.'nã~ 'é senã? o efeito deste aoto de asseciaçao que é ,...,...
•"~ ·contrato; não é, portaiito, a soma dos indivíduos c~ntrataotes, mas ~~ ~os Rara Rousseau, de qualquer maneira, os arcanos não são tanto um facto do ~:
·: ' es da.unidade polftic:a~."Os s.eus membros tomam o home de c1dadaos governo monárquico como são do despotismo. O s.egredo reina nos negócios ~
nom
· do s-a0 activos
.. . - . n· quando a coisa pública se toma 'pi;ivàda. É no contexto de uma tal usurpação,
q11an . • e de $Úleitos
. ~ .... do ·Estado
· quando sao pass1\\'0s.
· d izer que 0 ,?,
' povo é soberano não si~.j.fi~a mais que dizer que enquanto c1da ãos os me~- cujo efeito imediato é uma corrupção dos costumes e,-portanto, do interesse, ~i

... bros:Jla associação ~ci,P~ na 3;Utoridade soberana. O contrat~ dá na~c1- que Rousseau condena «lis pequenas e miseráveis artimanhas» chamadas «md- (
~~

.: ment~ a um corpo; que enqu'anto tal ·tem um «eu», uma vontade, uma \\'Ida, , ximas de Esrado e mistérios do gabinete96 ». Se o contrato suprim;., os segredos, :0
: um~ ruma, e é ~ª esMcieAe umão.~~ alma e do corpo. _ somente o faz com estes. O éontrato não estatui sobre a opacidade constitutiva
ela acção. · t:
. • Mas tambéni· existe e;m Rousseau .urna fVnção da govemaçao. A vontade
.·· poi si só não é suficiente Para ptod~zir mn
acto, é ainda necessária «1Jma po- O qtié está em jogo é importante: acreditar no inverso seria confundir o con- :f'.:°'<
;têrteia que o execute92>>, utrtaforça. É levando ao seu termo a meWora da alma trato social e o contrato governamental, contrato de fundação e contrato de fun-
~.. : , . •
óionamento. É anicamenté na constituiçã9
1
do co.rpo político que existe contrato. -.•'.
- . W·Heoa., La Phinomifto19ile ~e {'esprfi; op. dt., p. 72; Phlino1114110logle 4es Cietstes, op. ,1 J•
1
, dr 362. Em vez d.o ttaauzit,.c.omo J. Hyppolite 1md nicht se/Msgle/c~n hat por «e n~o
· le~ ~:in,, ~gcriráqui ~literal «e.~~ 1gn~ ~q: :nl\
0
: .'· 93.Jbid., III, 1, p. 395. =r
poder-se-ia uma lrn;dúção ;em •.
. · onta do facto de a mon3J1:1Úia e9so!Uta SCT ~ma ordem Onde a VlSlbílidadc dcf'l>od .
94
lbid., III, 1, p. 395. .. ,
e ;1 Roussuu Jean-Jaeques, ·!>u contrqt social, 1, 6, -in_O_euvr~s co_mpletes; Tomo III • s Ibtd., m, 1, p. 396.
9
.l.·
(1753.-1771), Pa.6s. Oallitnar?, col. «Biblioth~que de ia, Pléiade», P· 362. · ~ Roussao.1.1, Je19-iacques, «Discours sur l'~nornie politique.o (1755), in DmERot ...
~~.t
91' fbid., m, I , p. 395, . eóls, e 0' A}..EMBERT, Jean (din), E/lcyc/opldie ou dictionna~ raisonnl d~ Arts etdes M/
~. Paris, 1751, ín ROVSSEA_IJ, Je~-Jacques, Oeuvres compteies, tomo ID, op. ciJ., p. 253. Ç~J
1
88 '
""!i
&'
89
,r]1
%
r~-'
)

•·
•·• HÉLENE L'HEQU.LET PROTEV OTJ O CONSBI,J~IR0 PQÚI'IÇO


e
e
Não existe contrato com o governo. Roussi:;au insiste riisso e intitqla o capítulo
XVI do Livro III de Du co~trat social: «Qu.e a institÜição do governo não é "Um
contrato 97 ». Com efeito, a ideia de um contrato com o executivo é o pior desvio
que pode existir na si+a teoria, que não é, portanto, «contratualista» no sentido ·
Rousseal,l l~va menos longe que os constituintes tiJinbes~ ~ ei;trita instrumen-
talidade do governo, uma vez ·que ele Ih~. atrifüµ ·a ~ção 'de comunlcaçãQ
entre a alma (a vontade soberana) e o corpo (o povo enqljailtQ passivo). A his-
tór;ia polftica francei;a transformou _a ligação entre a al.niàio 'corp.ô em corpo
trivial. Um contrato com os governantes (com a po!Ícia, no sentido clássico) ar- e o corpo em vontad~, Exao.tamente por aftudo o que.na$: in:stãndas de exe-
@ ~inaria o contrato de associação; reintroduziria urna violência à qual o contra- cução constituí exc.epção à instãimentalidade ~é da ordeQ1"4ó «abuso». .
to fundador é suposto pôr fim. Todos os casos que se assemelhassem a i,Jm con- A políc;ia -no sell conjunto aplica e~te. raciocínio. A ~fl~~te l!Dl.Ínomia $.
® trato com o executivo não seriam senão . v,ariarites do pseudopacto de . S!J3. instrumentalidade e da sua autonomia depep.4e desta iil~rpretação do con-
@ escravatura; de qualquer maneira que a tomem~s, a '<:Ontade soberana teria, nes- trato, enquanto, se consideramos o pensamento ,de Rouss~à~ ·em si mesmo, ins-
@ te caso, alienado o seu direito. Rousseau é claro: «Ü' ácto que institui o gover- trumentalid~de e autonomj,a articulam-se na concepÇ,li~ 4o.'-govemp. Numa
~t:ID. no não é um contrato, mas uma lei98 .» O dever dos governos não é, por conse- concepção ll!Str\J.mental ·do governo, a polícia é duplamente instrumental.
~
guinte, o de passar um contrato com o po'<o - o que os manteria numa posição A instância· que dá as ordens está encarregaqa de execotar·as voJltades do
de dominação-, mas muito simplesmente de obedecer9 9• Os membros do exe- soberano. Neste caso, -a poUci.a, enquanto instrumento do gove'mo, é.jnstrmento
cutivo têm uma missão, agem em nome do soberano, são uma «polícia». O sen- d~ instrumentQ da vontade-geral. Como ela nã() se.podé·:colot;µ. ad senriço da
.'-ffi. tido actual da polícia ilumina aqui o sentido clássico . lei sem meà.iação e sem esta instância de comunicação q11e.é o govérno, não
"@/
O governo encontra-se, assim, na posição de ter, por um lado, de toma,r de- apenas é duplamente instrumental, como arrisca sempre ·s~ir um contia 0
cisões (ninguém o pode fazer em seu lugàr, tendo a vontade geral necessaria- outro. De facto, como nota Dominique Monjardet:
mente um objecto geral) e, por outro, de obedecer à vontade geral, da qual não
é mais do que o executante. Ora, a partir do momento em que o governo é o «A instrumentalidade teórica atesta o facto de que-~ polfcia"não tem influência ne'm
sobre o montante nem sobre "o jusante da·sua tarefa. A..detiniçiio.da ~rdeiti e da desor-
;:.
«secretário» da vontade geral, ele parece ser à vez um instrumento e i+ma von-
tade. A problemática da autonomia e da instrumentalidade surge necessaria- dem é o fac10 da lei, domínio do político do qual ela é ÍOltllalmente·exclufda; as suas
mente a este propósito. Ela encontra aí a S\la raiz. sanções são, em primeira instância e semp~ em llltima, a m4são do aparelho judicíá.-
rio, ao qual eli!. esthubordinada.101.,. ·
.:i..,.•'

A SOBERANIA DA POLÍCIA Mas o facto de ela agir sempre em nome do soberano não a ~rfva do seu .
poder de. a~ir. Ela não é ~crava do yoder. :el~ contrário. ·de~e, P8:ª ser e~- / :
Não é traduzindo.a soberania popular em soberania nacional que a Assem- c~z, p~rtic1par da soberania, quer dizer, agu: soberanamente. A cultura poli-- ~ .· . .
bleia Constituinte escava a maior distanciação com os princípios de Rousseau, Clal nao é apenas uma C1Jltura de obediência, nl3S ,também de soberanla. .( ~ ~!.,\....- \'!"( d,1
mas pela sua «concepção das relações entre soberano e govemo 1ºº». l):nquan- Se é verdade - como afinna Jean-Marc Be{liere, ·fa!ando.áo cáso francês - ' (. . ·'
to Rousseau chama lei a um acto da vontade geral cujo objecto não pode ser q.u· e ~ão poden:-os c~mpreend:r a p?lícia ignorando «ã-~dupla heran. ça n-apo- J."":' . 9"1~\tor- .
senão geral, os revolucionários chamam lei àquilo que vem do corpo legislati- leómca e a leg15laçao revoluc1onár1à que lhe serve de base'º 2», então deve- · · ;
vo e tenha forma legislativa, qualquer que seja o conteúdo. Este deslocamento mos subir em direcrão à ori.ge:m filosófica·.do pensame~to ~statista nos sé- · · -~ :
r c;onduz a uma nova maneira de encarar o segredo de Estado. Até mesmo culos XVI e XVII e a algumas das µ-adiçõ~s · hístóricas; ·coriló a tenência <)e " !
~a.ris, na qual Bonaparte se insp~ra para cri~ a prefeitW-a de polícia de Pa- '·"
ris - sob o, consulado pela lei de 28 ·pluvioso ·alio VIII, i 7 de Fevereiro de
97 ROUSSEAU, Jean-Jacques, Du contrai social, III, 16, in (Jeuvres completes, Torno III,
op. cit., p. 432.
98 Ibid., p. 434.
1800. As duas heranças não são contraditórias e·.articulam-se sobre 0 lega-
do da soberania. - ·\
..
99 /bid., p. 434.
100 RAYNAl!D, Philippe, «Dérnocratie», in Fi,JRET, François, e QzoUF, ~ona '(dir.), Dic- 101M
ONJARDET,
o' . . · . ·
omin1que, Ce que/ait la police, op. cit., p. 211.
1frmnaire critique de la Révolutionfrançaise,IParis, Flarnrnarion, 1988, p. 676. mB
ERLIERE,
.
Jean-Marc, [,e M~11cie qes polices en France, op. cit., p. 13. ;(11m::.
··~· on l\À G\?.-G}.~ -
'"
t. , .
-~tadó~ Ela é a parle eia ·política gue se ocypa·do segredo da ordem e da de-
PROTEU OU O CONSELHEIRO POLÍTICO

dade das tarefas. 'Oá à função policial o sentido que permite ao policial saber
sordem. É nisso que :el~ é tambén:i o «braço <lo Estado». Da monarqqia abso- o que faz, quer dizer, ser aut6nom9, e de servir um objectivo sem ser um ins-
1 1uta, a polícia herd"a não arcanos ·destinados a dissimular os estratagemas do trumento. O sentido, assim entendido, designa uma outra relação em nome da
·· . :~

poder, mas o seiredo: da acÇão do Estado e o sentido do secretariado do sobe- instância mandante que não a qe instnimento. É inteligência do objectivo em
1. rano. ·Se a monajquiá os·fo~izolj., isso não CJ1.ler dizer que lhe estejam ligados, virtude do qual as iniciativas são possíveis. r;
!.l' :,
1. pois atravessamos regimes. Soberania e a,bsolutismo não são, com efeito, sinó-
nimos. Se o absolutismo requer a soberania, a soberania não implica o absolu-
tismQ. Não ape~as essa é anterior a este, como llie sobrevive sob outras formas.
· · Esta evidência tem por~Qnseqijên~i_a 1,1tn pii.ncfpio de método: obriga a çonsi-
1

derar que nem rudo,.no.nii:imento comumm~te chamado «Jilonarqu.ia absolu-


tll», pertence ao absolutismo. Qbnga a-v,er no absolutismo·D.}go mais para além
de um despotismo rc:spon~ável por toda a espácie de males da história. A po!S-
. eia surge como uma·dessaS proquçõ_es da monarquia absoluta nas quais o q1Je .:'
~tá: ém jogo não é tar;ito .o pç~~r como a aytoridade e a ordem. Ela não é
.apre.ensfvel, como o. Quereri~ fa,zer.par-ecer a evidência, como 1Jma simples
aplicacão de uma política «àutoritári,11». Ela c;çinduz-nos antes a pensar a .ordem
. · como aquilo gue não·funcíona por si:'só,e que só subsiste pelo artifício.
..! · O golpe 'de Estado é á política do facto coos\llDad~..lrbnicarnente, é ao se-
cretário q).le in~Um~endossá-la, enquanto ela se .9PQe à política da delibera-
Ção e do conse~bo. É·,qµas~ ·por antífrase, e pelo m~nos por eufemismo, q11e o
conselhei:ro ·é.ássim cb~ado. A ra~o de Estado é .a Jústiflcação do facto con-
sumado, quando,faltã.tempo para.q1,1e.as negociações tenham l1,1gar ou quando
:.é certo que as relações cfe f~iça qu~ cbnstiruem a trama s~ta das deli9erações
. 'farãe falhar o momen~o dé àgir. .A r;r?ão de Estado é lllDª das conjugações ,,..
,,,".
:' ·. da sob~ania. Ela nã<f se'co~juga serião no pass.ado, não: «CU guer-o», mãS «CU
J • .. . - -;:..,
,. qw~»- -" .. .
.. . :

*•;*

·1.
;\
·~&.:
Enquanto sa~r e 1qt~lig~ncia do EStado, a alta polícia não é, portanto, uma
. política.aplicada·ne~- a·parte obscu;-a do estado. No entantó, ela não é tràns-
,. parente. Comporta, pelo contrário;, a· opacidade c:onstit!J'tiva da acção pol!tica.
. Ela é secretárla.-A sua· figtira rutelar 6Prote1,1.
.
!). ·
.. Se a sua altu~ parece.ter'a ver eom
li .
o seq poder qe decisão, a sua·baixeia
parecer provi:r do facto àe'tjue ela não age senão por de.legação de soberania.

1 .· Por cons~quência, pó_d~rí~os ser tentados a concluir que'ela é jesprovida de


.
,
. ~bjeativo. s. Se fqsse es~e.,<> :·caso., a 8:1~ polícia não _seria~. ais q~e uniá técru.·e.a /:
. · ·do poder. Ora, ela é ta~bém IJIDS baixa política, cu1a finalidade pareçe-ser, pn- / •

1
. rrteiro·gue rudo,'.a ordem. A·"ordem fomece um conceito que atticW.a à diversi- ·
1

94 95
~

·,'

: .. .
I . . ..

.. '.
SEGUNDA PART:g ••...
HÉRCULES OU O FUNCIONÁRIO DÊ POLÍCIA

\!}

..
~ . ..·. :~.
,,
.·. .
·· .

... t '

:
. ..
\.

r
.i"
QT•
(:'.(
"-·
·G (.
~~

'l
.~"0
,:;;?~ {?
.-::;
..1:
h .

::.i
.:-
-r:::~
; ~\

V?z

·~
·. A ORDEM CQMO FINALIDADE DA ALTA POLÍÇIA
~
,-_··
~·:·
'°i,d
OS OllJEÇTIVQS DA POLÍÇIA ·:~:·
•, \.{~
l.
' '
~~~
~ ...
Q\le a ordem possa ser considerada como elemento da «aita polícia» parece
paradqxal, de tal forma- a manuten~o desta surge como a tarefa mais baixa da
;;~
'"~r
6

1 ~~/-;) alta polfcia. No entanto, ela enct>ntra-se no centro da análise da «baixa.polfüoa>> ;;~ """
·~
. ' e muito .próxima i~almente do-sentido antigo da polícia, a politeia ..A ordem, .:~~
\.
""--

~ eom efeito, é primeiró que tudo uma forma. A manutenção da ordem é mais que
~
~
uma função da polícia, é uma ideia da pol(tiea. Se existe 1JJI13 finalida-de da po- ·:J
lícia, ·essa é a ordem. Se a pol!cia é 1,1m saber e uma inteligência do Estado, é ..
<"
.,"'-.,~

~- com ia ordem em vistâ: .t> ségredo de -Estado é o da manutenção da. or-Oem . .


'\
L.

1 .é a·ordem que liga a polfoia antiga à polícia contemporânea; Num édito §.


(.:
l
~:
·~L.

,.. precedendo a instituição do tenente de polícia de Paris, «O éclito·do rei para a


segurança da cidade de·Pari's>>; de Dezembro de 1666, Lufs.:xrv escreve: :~: <~

~ ;'·
.;'"
·'i-

1".
«As queixas que nos têm sido feitas da pouca ordem existente na polícia da nossa -
,. boa cidade de Pfilis, e subúrbios da mesma, tendo-nos obrigac!ci a investigar as càusas
:~:-
-~· ·~

das quais estes di:feitos poderiam proceder, terfarrros mandado examinar .em nosso con- .,:
. selho 'as antigas ordenanças e regulamentos de polícia que tét!'~os étÍcontrado tão pru- " -~\:
~ ;r; t\ ~ . 0..
dentemente concertados; que teríamos estimado q'ue, ao tâusar a aplicação e os.cuida-
-~ gos necessários para ~ sua aplica2ão, ela p9deria ·ser fa~i1mente restabeleeida, e os ~~ "~-~
-;~;

I.
habitantes da noss'a boa:cidade de Paris podeJiam voltar a receber as suas notáveis co-
.. h modidades.
'
[...] B o fim ·de que nada mais faltasse da nossa parte à segurança da capital·
..
,;~

"
. 1 do nosso reino, onde fazemos o nosso domicilio como os reis nossos precedentes; qui- :-;: ·;l1:·
semos por bem enc~egar áS nossas finan~as da despesa necessária para a duplica'Ção
- : ~-: ,;

1
'! ó
da gqarda, e acaQll;nOS ·4e esta'(ieJecet' com tanta ordem, disciplina e Vigilância que
' - .· .. temos toda a razão para nos promete!Jllo~ o res_t~belecimento de toda a ~egurança 1 .»
.,1
[;}
;rI0,
~ ~XIV, ÉdÜ du Roipo~r la sllret~ de la ville de Paris, Dezembro de 1666, Actes
~' ..r:::•\
~ royaux, BN 23612, Janéiro de 1666 (855)-Março de 1667 (931), piece 909. -
/
t:'.~Y
.,-.,

~. ,
'.j
·~
99
~ '0
(il}
'
...::,
HÉLENE L'HEUII,J,,ET HÉRCUI.ES OU 0 ~CIONÁRIO QE POLÍCIA

$ a ordem que constitui o ponto comum das actividades díspares da polícia reprimindo. toma to.da a vida por desordem. Se a po1fÓia:parece uma ;xc~o ~
..
no seu sentido contemporâneo, «estreito e vago», para retomar os qualiJícativos ao princípio de contradição,, uma vez que reprioie e .protêg~. faz aplicar a lei e
de Michel Foucault. Este opõe, com efeito, a polícia de hoje à do_s séculos XVII e
transgride-a, fli,ra OS segredos entretêm-nos, etc., lSS?·sucederia em razão da
e XVIII, cujo sentido era «larg9 e preciso2». A polícià antiga «engloba tudo3» e ordem, q1.1arido é apercebida como aquilo que deve ser «maritido». ~m
«vela pelos vivos4». Foucault cita os onz:e objectivos que o corrússário Nicolas não necessita mais de conteúdo; pois não é mais que forma. A sociedade, cada ,•
J)elamare, no Traité d~ la police, aqibui à polícia. Para Qelamare, a felicidade vez mais racional, teria adoptado 9s objectjvos da põU:cia..A ú.J;lica finalidade
do homem depende de três espécie8 de bens: QS bens da alma (a polícia tem por da polícia não seria senão, portà.n.to, uma finalidade Ror: ~feito;· regular os ~i- ···:
isso como objectivos a religião e o~ costumes), os bens do corpo (a saúde, os úgios, interpor-se nos conflitos, apaziguar a-violênc~a. :O sentido pejorativo da
alimentos, o alojamento) e a fortuna (a segúrança e atranquilidade públicas, as policia decorreria, portanto, do progresso da sµa causa.. É P<>r a·sociedade es-
ciências e as artes, o comércio, as manufactura_s e its ai:tes mecânicas, os operá- tar cada vez mais policiada que a p~lfcia não sc;1 ocupa.mais do que resist~ à or-
rios, os pobres) 5• Mas é precis.amente porque'~ i~tuito. é a ordem pública que a dem. Quanto mais a paz é alta, mais a violên,eia é bitlxa Baixa poütica,'encar-
polícia se atribui todos estes objectivos. No seu sentido restrito, que - precisa rega<J.a da violência residual, a polícia é qt,ie_ deve reallz;u- a pai eivil.
Delamare - é o verdadeiro sentido, a polícia visa «a ordem pública de cada Se a alta polícia, no seu sentido de p~lícia políticà; naice d~ &ua separação
cidade6». da ji+stiça, nQ se1.1 sentido .de polícia de ordem, ela pe~sa~§e na sua diferença
Mesmo em Foucault, se a polícia vela pelos vivos porque reno'l!a a trac;liçãQ com o exército e a regulação rrú!itar dos conflitos.
do pastorado cristão, ela mantém a ()rdem, cJ.e uma certa manei,rà. A orcj.em não
é certamente, antes de tudo, uma fÓ~a de poder, mas uma configuração de
a;~"'v,'c...
«poder-saber»: é mais insidiosa do ql!e poderia p'arecer. M~ mesmo se a ver- «CHAMARA~·-. /. : ,.
dadeira polícia, nas relações de poder, não é sen:ipre ::i instituição, esta não é
menos um~ polícia. Por definição, ela visa a ordem de maneira menos subter- Foi·sobre a manutenção da ordem que o··investigaqor-contemporâneo ame-·
rânea dó que as outras irtstâncias do controlo social. É. a face visível daquilo ricano Egon·Bittner escolhev insistir na sua tentativa ~e d~finiÇão da polícia.
que estas outras instâncias (escola, manufactuta, .fa,nu1ia, etc.) constituem a Se ele toma a «faculdade de usar a força» como <<funaamc;1nto do papel da po-
face invisível. lícia7», é menos com vista a destacar uma essência do.que-? destàcar o que está
A diferença_ entre o sentido estrito e o sentido largo reduzir-se-ia, portanto, em jogo. Ele não define a polícia pela força, mas por. umá. ·«faculdade», uma
a uma separação puramente formal: aquilo que separa·IJ,ma definição por com- potência na dupla acepção do termo. É, na -realidade, nÜm certo tipo de uso da
preensão e, uma definição por extensão. Se a partir, aproximadamente, do séct1- força, e não na simples capacidade de dispor desta, que .se situa a especifici-
lo XIX a polícia parece desca,racterizar-se, é porque íl ordem não precisa .mais dade da polícia Existe polícia; para Egon Bittner, não por imitação do mode-
de·ser acompanhada de um conteúdo positivo. Ela torna-se um critério formal. lo romano - transmitido por Maquiavel ou Bodin - mas,,pek> contrário~ no
A ordem: de facto, obedece à mesma indeterrrúnação que a polícia, desde espaço deixado pelo esquecimento de Ro~. Roma não designa.apenas meto-
1. ... que não seja dotada de um conteúdo preciso. Manter a ordem tanto é levar as- nímicamente as instituições da república, mas uma sin.gula:r·concepção.da pa-
sistência e socorro como reprimir e prender. A vigilância e a prevenção têm a cificação das provCnéias colonizadas: sob o nome de·pa:c romana, é necessárfo
ordem como mira comum. A ordem tanto é aquilo que faz com gue as coisas entender a série de meios para «submetctr os arrogantes pela força 8». A ideia
estejam disponíveis para a vida como aquilo que, deslocando, censurando. que governa a concepção de ordem nas socied~des que no.s são contemporâ~
neas e, segundo Egon Bittner, totaimente dife~ente:
r .
z FoUCAULT, Michel, «"Omnes et singulatim": vers une critique de la raison poli tique»,
e in Dits et Écrits, op. cit., Tomo IV, p. 155.
3 Ibid;, p. 155. ·-
BITJ:NER, Egon, «De la facu!té d 'user de lã force oomm~ folideme~t du rôle de la.
lfli 1
p.
.,..
4
lbid., p. 157.
' 5 DEI.AMARE, Nicolas, Traité de la police, Pa.ris, J. e P. Cot, 1705, Livro 1, p. 4.
police» trad. do inglês, in J,,es Çahiers de la séi:µrité irjtérieure, n,º"3, Novembro de 199Q;
pp. 224-235. . . .
6
[b(á., \l· '2.. 8
lbid., p. 224.
·"·
100 101
•••
·--....
HÉLENE L'HEUll,.LET FIÊRCULES OU O FUNCIONÁRIO DE POLfCTA

«É necessário considerai" qu~ uma cl~s tenclências culturais <)os ~ltimos cento e cin· resposta 16»' à violência residual: a força de resposta individual de autodefesa,
quenta a:nos tem sido umà ~onstante as~iração à paz e à estabilidade na vida quotidia- a força de certos corpos profissionais que guardam indivíduos perigosos (dos

. e
na. [... ] Onde antigamente se ol?tinha obediência pela presença física e pela potência ar- quais faz parte o corpo de guardas de prisão), a força de polícia. Ora, os dois
9
mada, são hoje em dia a pàsuasão pacífica e a obecjiência ponderacja que se utilizam .» primeiros usos da força são delimitados pela lei. A autodefesa transforma-se
o
l '~ '
em crime quando não responde aos critérios legais (ter previamente esgotado
Esta afinnaÇãQ tem: muito mais do que valor Q.e con~tatação, uma vez que
~ : é proposta como ideia ·regulãdora: · ·
todos os outros meios, não l!lÍrapassar a quantidade de força necessária para
pôr cobro à agressão). Quanto às prerrogativas do pessoal penitenciário, elas
®' ·.«Para as nossas forÇas."de polícia, seguir ~m modelo ql}ase militauignifica dependem de 1,1ma·decisão da justiça.
@ ériar as condiçõ~s para a derrota. Isso desemboca sitnp\esmente na criação 4e É, portanto a jQstiça penal q11e parece deter o poder de c!.istribuir o uso da
I·· '
obstáculos ao desenvoivlmento de um sistema. de polícia profissiona11º.» for~a na sociedade. A tese de Bittner seria exactarnente a mesma que a de We-
® Daí deriva, portanto, yttia definiç~o qqe conjuga aquilo q-qe é com aqvilo ber: é o Estado (e não a polícia) quem detém o monopólio da viol~nciaJegfti­
@j
·:. que deve ser: ma. Por conseguinte, a objecção de Brodeur não se sustenta. No interior do Es-
©. «A faculdade de ~tilizat li.força o.e coerção dá uma 1miclade temática a toda a acti-
tado, a justiça C}Stá encarregada·da distribuição, e a polícia recebe uma parte,
importante mas não exclusiva. Em apoio desta tese, podemos notar que, ex-
@, vidade ·da polícia:, 4a. )Ile~~a ~aneira que curar a doença dá uma unidade a tuclo o que cepto sob regimes totalitários e autoritários, a maior parte das jurisdições não
~ é feito no domSnio d~ práiie~ Jílédlca11 ,,._ • con'fere aos agentes de infonnaçã9 - mesmo membros da polícia - o·poder
@. ." de coacção. Nem todos os polícias estio habilitados a 9sar a força, mas, quan-
' Não se trata.aqui, p~rtanto~ de fazer qma interrogação,· à maneira cje·}fol;>- do é o éaso, estão•no sempre em virtude cje uma habilitação judiciária: ~les
~ hes soqre as condiç~s <fa paz pública nem sobre a~ modalidadeS' cje um pac- agem sob controlo. .
!
to·~lo q~al cag~:indiyf?ii> aÇandon~ia l,!ma parte do se11 direito ao _faze! tJSO
I'·
~ Mas Brodeur não se fica por aí, e considera que a própria ideia de Weber é
.-
·.i

da força. As críticas dirigiqas a Bittner provêm em parte cj,esta projecçao de fais.a. Ele.retoma um exemplo de Bittner, o do pessbal dos hospitais psiquiátri-
t,
:,
,,

...
~
"
..
· .i,ima problemática que: não:.é a sua. Por ·exemplo, Jean-Paul Brode~ retém ~a
.. análise de Bittner aquilo .qué vii.i .btJSt;ar a fyil!X Weber. Ao defiQlT a polícia
na
coino '«mecanismo de·:distribuição socieqade de uma força jljstificada por
utria:situação12~>, Egon :$ittnér retorna, restringindo"ª só ·à polícia, a ideia de
.qlle 0 Estado det.érn o moriopólio da violência físlca legítimaP. Ora, i~to é
cos,' para propor uma interpretação diferente. Para Brodew, o caso do pem>al
psiquiátrico deve ser alargado ao de tóda a profissão médica. A medicina, a par-
tir do momento ein que nãb é sQave, é para ele uma forma de violência. Assim
selfdo, a prática da cirurgia por inteiro, mas também todas as quimioterapias
-" .na,rnedida e~ que «OS efeitos SO,bre Oorganismo Sã'O •violentos 17» -, a~sim
@ ...
;~. ~
pura.e sirnplesm,~nte falSo; segundo Brodeur 1.4• :Sste fornece u~_certo nume-
ro de exemplos para sustentar a sua objecção: ó~ guar4as cj.e pr1sao e o~ .agen-
cõmo outras formas de 'terapia, como os electrochoqlies, é tida como o exercí-
cio tle u-ma violência No entanto, mesmo s-e 11 meÇicina também é, .em algumas .....
~
.•
tes privados de segurança, que não são policiais, s~o «legalmente hab1!1ta~os só
da:s suas partes, um ofício da urgêncja que requer autonomia, podemos con- ...
"';'"-

.·® a usar de coerção física contra terceiros 15». }{Ias B1ttner responde à ob1ecçao .. sitlerá-la como um exercício da violência se alargarmos consideravelmente esta ~f

Ele explica que ~<a-nossa sÓ<iiedade reconhece a legitimidade,d.e três forças d.e noção. A verdadeira violência resíde na acção sobre a vontade ou·o desejo de ...
®· .. . '
Qutrem. Neste sentido, a retórica pode ser mais violenta do quê a medicina.
....~.·

1'
Quando um doente se recusa a ser op~rado, não é à-meliicioa que é necessário
9 lbid., p. 232• .
10 lbid,., p. 2~4, •·.
recorrer, mas à retórical 8• O discurso é uma arma que Egon Bittner não exclui,
r.: 1i lbid., p. 229: .

12 Ibtd.. p. 226~ · .: · ·- P r
l6 BrrrNÇR, Egon, «De la faculté d'user de la for~e cornrne foncl.ement du rôle de la po-
V1 iJ WEB~R, llflax, «Lem~~~ et la vocatio.n d'homme politique», tra~. do,alemao, « o 1-

~
tik ais Beruf», 1919. in {A ~ávânl e.t la p~/1rique, trad. J. Freund,.Pans, P!bn, 1959, reecl.. lice», art. cit., p. 224, ·
17 BRODEUR. Jean-li'nul, «La police: mythes et réa!ités», art. cit., p. 19 .
. ~10/18», p. 101; Polillk ~J,r Bátif, ·EStug~. Reclam, p. ().
f, ' . 14 BRODEUR, Jean-Pau!, «La police: rnythes et réalités», art. cit.. p. 19. 11 PLATÃO, G6;gi11.S, 456 b, U'lld. da grego por A. Croiset, in Oeuvres compJetes, Tomo
~ ll [bid., p. 19. m, Paris, Les Belles Lettres, 1923, p. 122.

~ ,
' 102
103
~.
·~·
;.
·.
"l
"'1
);..
(.
~
ii
~
HÉLEN.E L'HEUILLET H$RCULES ou o FUNCIÓNÁRIÓ DE POLÍCIA
(8~
'
não limitando o \l~O da força aqs se\js meios mais bivtais, Pelo contrário, ele faz ofícios, nem - como diz Bittner, pedindo desculpa p~lo emprego do termo
;D notar: num contexto sociológico - «(issencial20». O pessoal.psiquiáttico tem pri·
meirÔ que tudo como missão cuidar, mesmo o das pris~ çleve, antes de tudo,
C: ..:,;
"..!>
'i·
.
«É muito provável que o uso do constrangimento físico seja raro para todos os pa- guardar. Ninguém contestá a existência, na s9cjedade, de diversas aútorizações
[;:·:;:.
·~
t·;' ,-\:·
:..,."'·

}~
liei.ais e que sejam numerosos aqueles que nunca se encontram em sitl,lação de a ela
recorrer. 19»
para o uso da força. O, indivíduo .
,.. agredido e aquele quy.exerce unia profissão...
(,

de risco gozam de um direito diferente mas da mesma natureza: u~ pode jan-


.l
·_:·~
tar-se ao outro: o guarda de prisão eo enfermeiro psiquiátnc0 podem alegar le-
C< .:{:·
I···' A definição qa violência é composta de dirp.ensões políticas. Trata-se de sa- gítima defesa. O direito das prgfissões de risco a exercér. rima coerção nasce- '.
u;: ;®
- ......:i' ber que margem de repressão é atribl!ída ao Estado. Bittner define implicita- ria, portanto, de uma defesa «por provisão», tomada nec~s~ru:~ pel?- existência ·.:
-1: ~.
;~ mente a violência como uma acção exercida: contra \lma vontade. Ele inclui a cje um perigo potencial maior do que o campo ordináriÓ ~ circwcitâncias ca-
~~:-:::~
)·!:
acepção comum de acção que podt; ateritar contra a vida; assim como a per- suais nas q~ ais um indiv'íduo se pode encon~ Entre estas -hl!bilitações limi-
( ·~
J_._,,
..'.;' .
;:l;
suasão, a partir do momento em que ela tem por finalidade conduzir alguém a tadas e pareialmente concedidas pela lei e a l\lltorização s:ie.,Us?-da fórça da qual
;~ renunciar a um acto. A polícia americana c.ontemporânea desenvolve largamen- goza a polícia existe, para Bittner, ruptura e não contin~dad~. A cµterença é
{/ 1· te as técnicas retóricas - apoiando-se sobre as ciências dá comunicação - em não apenas quantitativa, mas qualitativa. Se~- no caso da P.9.lícia, o diie.ito a usar
ti~; ~ situações de tomada de reféns, para persuadir um raptor a soltar os seus pri- da força é ilimitado e - com algumas excepções - inteity, ~o é porque a P-9-
~'@ . lícia beneficiaria de um direito m1iior mas da mesma natureza, mas .sim porque
t:.;~.,'. . ·~ sioneiros. Egon Bittner, ao contrário de-J~an-Paul ~rodeur, exclui da definição

t;;) :~ de violêneia aquilo que provoca à modific'lição - mesmo transtornadora - de


um estado. No se~tido de Bittner, a medicina é rar'amente violenta. Q1,1ando o
ela é institufáa para exercer este direito de coerÇãÓ de m~_eifa ilµni~a e com-
pleta. . .

\,;: i '·'.~~
,·, é, é na maior pas vezes ·na medida em que está ·encarregada de indivíduos A polícia é uma terceira espécie; de resposta.à violência: ·Jfila é, por cons~­
.~~ perigosos. guinte, uma resposta éspecífica. A. prioridade policial é Q.~x~rcfcio completo e
t~,· 1
Qpe os pais · b~ os profe.ssores tenham o dfreit() de exercer uma fonna de ilimitado do direito de coerção. Egon Bittner baseia-se, pá@ convencer; sobre
· ·~

~
(,, constrangimento sobre as .crianças, que o capitão_de· um navio faça legalmente a· iniciativa moxmalmente denominada «ch~-a bófia2 i»\~>orq1,1ê, com efei-
aplicar' a disciplina, ou que o ooxe -. desporto violento por excelência - não to, «Chamaremos nós a bófia» se não for para que·eles exe!Çao}.o seu poder de ...•
Kco,·•
seja· interdlto, não impede em nada que a polícia seja. a única que tenha como coerção, lá onde todos os outros recursos se ~velaram v~~?· «Chamamos a
e ~~
' . '
último recurso o direito de exercer a força. Todos os casos citados depe~dem bófia» -para que uma situação.'qlie resiste à negociação ordkárià sej11 reso.lvida.
.~ . de µma legislação limitativa, e a polícia pode intervir em caso do abuso do po- Estas siruações «não negociáveWl» onde se toma.necessário. «ébamar a bófia»,
~" ~~
1 ,.J. der 'ae constrangimento dos pais, tal comô dos professores, dos ·capitães de na- podem ir, e.orno nota Bitrner, da prisão de úm suspeito recalcitrante-a cair sol>-~
f"'" )
\.
:~
.'.;.·{'.··
vio o~ .dos pugilistas. Mesmo no caso da.persuasão, também é assim. Uma ju- a alçada da lei a uma intervenção numa cena da. vida dom~tica23 As simações
(' 'J risdição lifl)ítativa impõe-se aos publicistas ou aos homens políticos no uso das são diferentes mas a intervenção é similar. Podemos jun.tar às Óbservações de
~
··~ técnicas de comunicação (interdição dl( mentira, das «imagens subliminais», Bittner que a policia asa, para se tomar eficaz, não apenas a·força, mas os si·
r •\.

·~
;·'!.''}.- etc.); não é este o caso da polícia, salvo pela prudência. nais da força e da urgência: sirenes, alarmes, etc. Assim·que esse poder de
r ~@
Egon Bittner coloca o caso do pessoal dos hospitais psiquiátricos na se-
gunda categoria de resposta à violência. Se esta está habilitada a fazer uso da
coerção deixe de se exercer in~iramente e de forma ilimitada, a polícia falha
a sua missão. Certamente existem «abusos» que são claramente distorções da
r
'r ~® força, é no mesmo quadro e pelas mesmas razões que o.s guardas de prisão: no lei. Eniretanto, nesse caso, podemos dizer que não se ~ata de um pi9blema de.
J~ quadro da autorização legal que Lhes é dada. Bittner não é ingénuo: sabe que a polícia mas de individuo. Podemos mesi_no consider~ gu.e ó policial que infli-
......,
~~ jurisdição é por vezes transgredida. Mas precisamente, os maus tratos são dis-
torções da lei. A habilitação ao uso da força não é, portanto, prill}eira nestes 20

~
1'- lbid., p. 225.
21
lbid., p. 226.
,,..,,
\~
19 22
BlTINER, Egon, «De la faculté d'user de la force comine fondement du rôle de la po- Ibid., p. 228.
.·, lice», ar!. ci!., p. 228. 23
lbid., p. 227.
n .
, .f..
G'"'· b 104 '·
.•HÉLENE L'HEVILL.ET
HÉRCULES OU O FUNCIONÁRIO DE POÚCIA
ge indevidamente màus tratos esqyece qtJe exerc.e uma f]Jnção de· autoridade,
· e que se conduz como u~ indivíduo que respeita a limitação 4o direito de atJto- ~edid!l.. Esta problemática se:ria mais a de Jean-Paul Brodeur: as objecções
deste tendem a mostrar que a cessão de direitos ao Estado não é completa, e é
. d.efesa. N:em todos qscasos entram, no entanto, neste quadro, assinala Egon
a razão pela q1,1al el~ aborda o problema do monopólio da violência legítima.
· .·· Bittner. .Os goipes clistri~Ufdos aos suspeitos ou aos à1J.tores qe infril.cção pren-
.·. 'didos em: flagl'l\1lte deÍito são por vezes verqadeiros golpe~ de policiais, e não Como vimos, trata-se na v~rcj.ade aqui mais de último recurso do que de mo- ·
nop6Iio. O monopólio é «a)to», o último recurso é «baixo». O monopólio con-
. golpes dados por indivfdUós que se encontram com uniforme. 9 fac.to explica-
duz a raciocinar nos termos~do uno e do múltiplo, que são os da alta política,
-se pela natureza da jn:is'são policral.
pois servem para pensar a unÍão e a coesão sociais. O último recurso conduz a
Nã;é ~to; como .~m.jean-Pa.ui Bro?eur, um «cheque erp cinzento», q1,1er
pensar nos termos da fundação, pois designa a última solução antes c;la ruptura.
dizer, uma missão mpe~erminada nas suas iipliC1J,ções, que seria confi.ac,la à po-
Se a intervenção da polícia é de último recutso, se a sua acção é a de uma «coer-
licia, como um.a tarêfa:·impóssrvel e·contraditória. Na realidade, a ac~ão da po-
ção não negociável» numa situação não negociável, ela é aquilo que se ocupa
.. lfcia define-sé- «ess~nc'1hlmente» «Comq q\lalquer coisa à qual não nos pode-
mos opor e contra.a qtJ~l; se nos opusermos mesmo assim, poderá ser.feito uso do que ,h~. de mais baix.o. A definição <;la polícia como fact1ldade .de usar a for-)
ça em ultimo recurso quando tod~s as outras sol1,1ções se mostraram ineficàzes :
oãforça24». Exteriormente.à prescnção dada ao Policial de ser «humano e cir-
é efectivamente pejorativa, larga e imprecisa: o baixo é ainda rebaixado.
. cunspecto2S», as ccmdições do exerc;ício da força nãq es~o definidas. El'às não ·,
Para l'l(fichel Foucault, o baixo da política designava aquilo que diz respeito
o podem s~r nà.mediqa. em que a única'directivà q\,le provém da definição con- ;'
ao corpo da cidade, por oposição à «alma» que insufla a alta política. A polícia
siste em pedir ao po1idal <<que não· abandone aquilo que começou sob. pretex- ,.
pode então interessar-se pela religião, pelos costumes, pela saúde, pelos víve-
• to que isso suppria recorrer a métodos"coercitivos 26 »; e não devem sê-lo, pois,
a
'.' se o fossem, poiídá deixaria de ser o último recurso contra a violência.
res, pelos alojamentos e pela tranquilidàde pública. Ela é pastoral, geral e está
oc1,1paqa com a felicidade cio povo: «O seu único objectivo consiste em condu-

· A tarefa é impossível,·~ Bittner acrescenta · · r
zir o homem à màis perfeita felicidade 3º.» Entre esta polícia dos séculos XVII
' «que enquan~ este' pont~ não for admitido totalmente e sem equívocos, o debate sobre
e xvm e aquela descrita por liittner '(que data, segundo ele, aproximadamente .- ~

c!e meados do século XIX), Miche1 Foucault vê uma fractura. Uma visa 0 bem / º..
a brutalidade policial manter-se-á·num impasse e toda a vontade de com ela acabar per-
- embora contenha nela todo o processo de vigilância e de controlo da indivi-
~lnane.cerá impotenté». • .r:;.,
dualidade - , a 01,1tra não é mais do que violência respondendo à violência. Em (
vez de 1,1ma substituição, podemos ver nesta successão o desenvolvimento de um
contradi~ão .resolve~se, como na acthridade do inquérito, pelo· segredo,
F'":'?'
A processo.
que. aparece aqQi comei «vontade não saber (demasiado)28». Mas, independen- ~,·...,'."

A polícia de ordem é filha da .polícia filantrópica. A racionalização da so-


temente à propensão· para fazer como· se os golpes não existissem -:-- oQ.a en-
ciedade, que se pode defiajr comô uma operação de divisão: é crescente. O pió- 1 ~·.;·~!:?,:

tregar-se a «homilias mótalizadoras28 ». -, a ·violência policial confirma o


prio controlo dividiu-se ao racionalizar-se..O controlo' da iluminação e da hi-
actual sentido ~<pejorat~VO» da polícia.·
·fi) ' giene públicas não depende, é certo, da policia s~não em.úJtilli'o recurso. Desde
o sentido pejorativo; largo e in~.eterminado, resQltaria.pax:a~oxalmente d,e que não cheguemos, nas ordens- da saúde, da alimentação, da educaçã'O ou do
~I uma pacificaÇão deis costumes. Q\le \IIIͪ instituição se especialize no exerc1- comércio, a situações de· violência não negociável, a polícia não intervém.
~.: cio da violência testemunha a existência de um ·pacto· social. Não são as COfü Os ofícios dotaram-se de ínstincias de controlo especializadas.
. dições de semelhant~ ~licto que interessam a ~gon Bittnet. Pouc;o i~porta aqui
...
~;~
Eles têm a sua própria polícia, que compreende os seus corpos de inspecção
~' que exista ou não ~essão de direito individ.ual ao Estáclo, e, se sim, em que e. de guardas, os quais saõem geraµnente «conduzir à petfeita felicidade» pela
~
I
1
pe~uasão ou pela dissuasão. É·a privatização progre~$iva c;las tarefas de polfcia
' .• 24
2l
lbid.,
lbid.,
p. 228 .
p. 226. que, ao mesmo tempo q~e toma invisfveJ o controlo .ordinário, faz swgir a ins:
26 Ibtd., p. 226~
27 lbid., p. 22~: . 2
21
' ' ' . ' ' ' ' ' '' .
DOBRY, Míohel, «Le renseignerrient dans les démocraties occidentales. Quelq1Jes p1s-
• ~ B~R~ Egon·, «De la faculti·<f'user de la force comme fonder,ne~t du rôle de la po-
lice», art. c1t., p. 226. . · . '--
. t~s pour l'Jdentifüiation d'un qbjet flou~,. art.·cit., p. 76.. 1
'º DELAMARE; Nico!~, Tràité de la pp/ice, Préface, p. II (página não numetada pelo editor).
106
107
HÉLENE L' HEUIJ,.J,.,J;:T . ~RCULES OU O ~C!ONÁRIO DE POLÍCIA
"
tituição policial como indeterminaqa, ostentatória e vic;ilent!J,. A polícia não está da polícia não devemos concluir do carácter infonnal-d~ tarefa: A verdadeira
pois encarregada senão do óltimo rec1.1tso. QllanQo a pers1,1asão olJ a dissuasão clivagem não se situaria, po~anto, aqui entre o antigo' regime eo Estado con-
não convence os recalcitrantes, então é necessário «chamar a bófia>>. :$ nisso temporâneo..Também não oporia os diferentes países segl)Ildo a maneira de en-
que a polícia não é nem o emblema do devir racional da política, nem uma re- carar a repartiçã~ daS'tarefas de polícia. Situar-se-ia antes entre aquilo que pen-
gressão desta ao irracional, mas o «resto» não racional da política tornado ra- samos que a polícia faz e aquilo que ela faz realmente~ Urnà vez que depois da
\11'!\\ cional. A argumentação de Egon Bittner visa denunciar a valorização exagera- instituição da tenência de Paris até aos nossos dias, ·a polícia faz tudo e não im-
-~
da da polícia judiciária e a judiciarização geral das relações sociais e da política. porta o quê. Que iSs() tome a fonna Q.e uma lista cje atribuições sob o antigo re-
Que o executivo seja o paradigma do poder é cada vez menos aceite: ele surge gime ou a de uma indeterminação desconcertante no_s nossos di_as vai dar ao
como compromisso com a ordem do mon~s ':_ do monárquico C()mo monopó- mesmo. Assim, o lugar-comum segundo o qual a policia- de hoje e a oe ontem·
lio. Não é mais o legislativo que toma este lugl/-f, como foi o caso na herança da não teriam nada a ver 'uma com a outra deverá ser recolocado eni questão. Às
Revolução Francesa, mas o judjciário. Em virtude deste novo paradigma, a fun- descontinuidades respondem as continuidades temporal- (os p9liciais reclamat\1-
ção judiciária da polícia é valorizada em detrimento de outras: ela é «boa», pois -se de -uma tradição), espacia:J (a invenção francesa propaga-se rapidamente por
persegue os criminosos, e legítima, pois faz respeitar a lei. Ora, como nota Egon todo o reino de Luís XIV33) e política (a polícia atravessa,todos os regimes, dos
Bittner, a luta contra a criminalidade não representa aproximadamente senão mais liberais aos mais autoritários, tomando relativas às tipologias tradicionais).
um terço das actividades de polícia31 • Fazer crer que a finalidade «essencial» da A constância policial reside paradoxalmente :numa indetenriinação das tarefas,
polícia consiste em ajudar a justiça a pôr os criminosos fora do estado em que que não é nunca uma indeterminação dos fins. _
podem causar aborrecimentos, é não àpenas regressar ao gesto inaugural de É ceno que a definição de Bittner é um pouco descritiva~.Isoia um traço ca- :
Luís XIV que separa a justiça e a polícia - e por aí mesmo promover implici- racterístico da polícia mais do que a define. Para ele;.o que dá ~ma coerência
tamente um regresso ao paradigma medieval do,E_stado de justiça-, mas in- e unidãde às actividades he1er6clitas da polícia é a capacidade-de intervfr em
verter a ordem tradicional do alto e do baixo na polícia. Quando ·a polícia judi- último ~cl.!rso, pelo uso de força coerciva: · -
ciária surge ccitno a font~ da legitimidade policial, as Ol.!tra_s actividades da
polícia são tidas por baixas. Não é em virtude da sua finalidade ql)e ela recebe «Em suma, o papel da polícia 6 tratar de .toda a es~cíe de problemas humanos sem-
este suplemento de altura, mas em razão da nobr~za do sei+ papel (ela protege a pre que e-na medida em que a sua solução ncce&site do u~o dá f~;ça,. no local ·e no mo-
sociedade), oposta à vilania das pollcias de infonnação e de ordem, que prote- mento em que eles surgem. É isso que Comece, uma •ho!!J-~ge~eid,ade ~ actividades tão -
gem o poder. Ora, esta hierarquia irttema às actividades policiais é causa do wrinda.n:omo conduzir o pn:sidente da câmara ao aeropo"rt~.-- p~der Ym malfeitor, ex-
mal"estar profissional da polícia e da dificuldade em formar policiais: pij]sar um "bêbado. de uni bar, regular a circulação, contei umii. multidão, ocupar-se de
crianças perdidas, ac!mÍnisbr ~s primeiros socorros e sepi!Xm:: PS casais q"ue se baiem 34 ,»
, ___ .....
«A idei_a de que a luta contra a criminalidade é a única actividaoe séria, importante
e necessária do trabalho da polícia tem efeitos nocivçs sobre a moral dos policiais' com Mas o texto de Bittner artj_cula-se bem a úma ide.ia de iglíeia. Ele não define
1)niforme que passam a maior parte do seu tempo a tratar de outros ass.untos. [...]'Para a polícia como instrumento, nem como força, mas co~õ-.o' ferceiro ladgjnstitu- . .
mais, manter estas tarefas em baixa estima leva a negligenciar o desenvolvimento das cional. Tal é o sentido 4a ·comparação com a medicina: cllama:mos a jlolíci~ como '•

aptidões e os conhecimentos necessários para as efectuar correcta e eficazmente32.»


33 Arlette Lebrigre conta: «Desde 1693, o Papa insistia juli_to de L_a Reyriie para que este
A indeterminação das tarefas não implka a ausência de definição. Não é lhe comunicasse os regulamentos da poHcia, que ele go~taria de ·aplicar em Roma. Em 1673,
porque as situações nas quais a polícia intervém são infinitamente variadas que aparecia em Londres uma obra intitulada The Police of Paris. "Erh-1770, Sartine envia uma
as acções da polícia não tendem para o mesmo objectivo. Da descaracterização memória para Viena que, a pedido d;i iII)p~ratriz Maria Teresa, o comissário I,.emaire tinha
... elaborado. No mesmo ano, Catarina da-Rússia, a G_rande," pede que lhe enviem uma: colec-
ção completa dos regulamentos qa poHcia». LEBIGRl!/Arlette, LlJ folice sous influence, Pa-
31BlTINER, Egon, «De Ia faculté ~·user de la force comme fondement d1) rõle de Ia ris, Gallimard, col. «Découvertes», 1993, p. 48. _
police», art. cit., p. 228. 34 BITTNER, Egon, «De la faculté d'user de la force co~e fondement du rôle de la
32
Ibid., .P· 119. police», art. cit., p. 231. - -.
108 109 ·'..
·.·. ~f..ENB L'~mLLET HÉRCtJl,ES OU' O Fl)NC!ONÁRIO·DE POLÍCIA
..
: cb~amos o médico (quand() as cois11s não vão bem), «Charnamon póf!a» não Apolici~. está, pQrtlmto;·encarregada de restaurar a ordem onde ela está amea-
apenas quando não podenicis, mas q1Jando não queremos resolver nqs próprios çada. A polfcia descrita por Bittner é ao mesmo lempo uma policia a4minist<ati-
·' os nossos.assuntos e retribuii. violê~cfa po:r \.'.iQl~ncia. A finalidade 4a polícia é va e 1Jma pol.fcia de proximidade. Estes dois caracteres aplicam-se também à ·teo-
·. f;izer valet uma força inten:iiédiiu Se a poiicia é força, não é no sentido - ane- ria de Qel~e e à do~ prefei.tos de polícia que, coino f,.ouis Andrieux37, Louis
;' dótico -: da potência ffli~~ ~as no'. sentido de força de int.erpo;ição. A policia J..épine3 8 ou Jean Chiappe39, foram também escritores da policia. Que as suas
tem por função re_pres~n$,: .ª autoridade. ~ a autoridade q1Jem tem po~er de memQrias não tenham o sentid.e e a forma clássicos do ensaio, mas cjo relato
. ·• fazer cessar a viol~ncia, lá Ónde a res}iosta violenta aumenta a violência: de memórias, não impede qtJe eles af apresentem concepções da polícia. -~

: ..· Qs «onze objectivos da polícia» de J;)elamare reencontram-se com po\lcas


«O que esteS cxemplQ~ i l.ustram ~ qve qvaiqÜcr ql!e seja a natvreza da tarefa a cum- diferenças em Lépine. É.certo, este não divide os objectivos de policia, como o
prk, q11cr se trate de proteg7r às p-..ssoas ·contra os qançs, .de.s~ oçupar daqueles que não se1,1 antecessor, em três espécies de bens (da alma, do,corpQ, da fortuna), mas
o podem fazer eles próprios, ô~ tentar encontra; o c~pã4o de 11m delito. de ajl)dar a sal- diviqe-os, no entanto, erp. três. A taxonomia já não assénta sqbre o objecto, mas
var uma vida, a iit.tervençi!o :dá polícia salda-se sobn;tudo no fazer \!SO da 511a capacida- sobre o sujeito. t.ouis Lépine distingue entre as actividades de polfciã. Ele elas: .··;
~de ~ sua autoridade ·~m'i~p!)r um_a sol)lção a um problema, mal-grado as resistências, sifica-as' em três categorias: polícia administra~va, municipal («a força pública
nàs próprios loeais on~e o problema se põe».,. · em uniforme"°») e «Secreta» (a polícia secreta não·designa, em Lépine, somen-
te a policia de inform~ção, mas toda a polícia à civil)". Ele enumera as sua ta- ~::

A força é, portantç, um .$frnples m~io. Ela é, entretanto, o melo específico refas. As da polfcia administrativa são a circulação, a alimentação", a navegação,
do qual goza a polícia·para ~l}prtkentar a .utoriqade. A força, em último recur- a higiene, os teatros, Q nietropolirano, os sapadores-bombeiros, o laboratório
.. • so, é b meio de ini.por a.orÇem. A p~lícia encarnaria (:n~ão a forç~ da autorida- municipal (encarregado Qa «análise química e ba.cteriológica de to.dos os víve- ,
. de. Mas, uma vez que o séu·1<xercício real importl). me~os elo que o seu exercí- res que entram na alimentação42»), o controlo (destinado a informar o prefeito
. ·cio potencial, é como .repr~~nt.ante qa autoridade que a policia é .forte e em de policia sobre o funcionamento .de todos os serviços da pr~feitura)~3 • A policia
virtuqe da sua eàpacidade «:i~· constrangir. fisicamente.
Podemos-assici dizér não ~penas que a indeterminação cja pol(Çia a,ão se 37
A.NDRIEOX, Louis, Souvenirs ii'unpréfet de police, Paris,; Jules Rouff, 1885.
opõe à precisão·da sua· fun~ão, mas_que é precisamente porque ela está enc:µ-- 38 I.~ÉPINE, Louis, Mes souv~nirs, op. cit. . ' .•
19 CH!APPE, Jean, Paroles d'ordre, Paris, Eugêne Figu~re. 1930. ;:
regáda de manter.' a ordem que é indeterminada. :É por iS$O que Biuner refuta ,-
~ A poUcio de ordem ~· 1,1ma poUcia ostensiva; foi cri.ada pelo prefeito de poUcia Louis-
• O argumento S«gllndo .O qu~ O processo de espccializaçãQ q\1~ CQnd.uziu à
!
·Marie Debelleyme em 12 4e Mai:ço de 1829, com o nome ·de corpo d11scrgems de ·vil/e de
indeterminação áparente da policia poderia prossegujr indefinidamente: Paris. O seu unifonÍie era o sinal visível da ordem. Este corpo policial tinha a tripla função de
diss11asão, socorro e disciplina pc5S?al: cQ pr:efeito da policia Louis-Marie Debclleyme man-
, ...
,

tinha que o iac:to.de os vestiJ: com uina-~arda lhes conferia a autoridadê necessária ao exerci-
"
«Poderia parecer preferfvel retirar das mãos da polícia tocj.as as t11Tefas q11e são. do
cio dàs suas funções, permitia ao p~lico rcconhecê-l~s e pedir-lbes ajuda__em caso de neces-
domínio de outrqs esp~ci;uistas e de as ~onfiar àqueles ql!e têm competência para delas sidade e protegê-los-ia contr-i si próprios obrigando-os a conduz.ir-s~ cotiéctamcnte», CAAAor.
se ocupar[...]. Infelizmente, esta concepção negligencia um factor iinpcirtante. Se é ver- Gcorges, Hi.srolre de la police française, di:s oi:lgims ô •nos jours, P:iris, Tallandier,_1992,
dade que os pofü:_iais vêm ~m. ajuc;la dos doentes e das p<:Ssoas em dificuldade porque os p. 138. Sobre a criação dos SQ'Btnts de vil/e, antepos:sadosdos guardas da paz, cf. igualment.e
médicos ou os irabalhas:Jores sociais 11ão poc:lem ou não qll ~rem intervir lá onde é ne- l,.AuCK, Annie, Les Répresentation.s tle la police parislenne dJ: ta Rl!Siauraiion ô la monarchie
"cessário, essa não.é a razão principal c!a intetv.enção da,po!Icia. De facto, ~iio muitas ve-
de Juiller (1814-1832), pp. 365-370: Debelleyme é contemporâneo de Robert Peel, o minisiro ... "

ing!BS que é tido por inventor da polfcia de'p19ximidade: esta traz.algumas inovações, entre as
7.eS os médicos ~u os trabalhadores sociais que "chamam a bófia'~ Pois, 1,1m pouco como quais o recnita.mento de agentes de polfcio urbana, vestidos com_ym unifonne a,zul. facilmen· ,,...
na ~dministraçãÓ"cja justiça.
. na periferia.. da· praticá
. m~ica. t na·da prática do !n!.balho
. te reconhecível. qlllS não mililarizal!os («a distin.ctive but not martial ·blue unil'orm»; SKOL·
N!CK, Jcrome.. H., e BAYLBY, i;:>avicj. H., The NeHI Blue ~ne. Police /nnovatwn in Six Ameâcan
~

social; cujos processos são or4enados racjo!\lilinentc, ~rsistem ci.rcunstâríc:ias que exi-
Cities, N:ova Iorque, 1986, p. VII); sobre Rotiert Peel, cf. E.\!SLEY. Clive, The Eng/Lfh Police,
g~m o exerc{ciq do·c~nsttaiipmentol 6,,.· .' ..
a Po/idcal ar.d Social HiJtoTY., '.!iarvester Wh.eaishcaf, 1991 pp. 23-40.
. :• 41 1,.ID>!NB, Lóuis, Ales sol<Venirs, op.cit.,-p. 107•

.35 Jbid., p. 228: ; ' 1 lbid., p. 12A.·


3 6 Jbld., 43 Jbid., pp. 107-128;
p! 230; · .

110 . 111
·. ,,
HÉLENE L'HEUILLET H;ÉRCULES OT,J' b Ft,JNCION~O DE POÚe)A
·.
municipal é a polícia de manutenção da ordem44 • A polícia secreta cqmpreende demasiado rapidamente entendida como'uma, alu'São aos .afrontamentos políti-
a políciil de segurança e a polícia política. Oponto domum a estas quas polícias cos cja época. Se a·polícia, defendendo a lei, defende à ordem, é por uma razão
com objectivos tão diferentes é a sua obrigação de discrição. É porque elrui se externa às querelas de partido. A questão implica o.próprio. fundamento dopo-
ocupam as duas de 'um «adversátj.o que se embosca na sombra» que elas não o po- lítico. Se a ordem deve ser defendida, é porque é precária. Como em Joseph
dem atacar de «rosto descoberto45 ». A polícia de segurança tem por objectivo QS Fouché ou, antes dele, em Gabriel Naudé, a baixa política não é a simples de-
costumes, o roubo e o assassínio, os jogos, as casas ~e Mspedes, os ana,rquistas, a fesa do Estado, d.o partidq, ou até da pessoa que ocu.pa o poder. Mais funda-
autuação, as reuniões, as pesquisas no interesse qas fa;nµias, os objec;tos encon- mentalmente, o baixo c!o político está em relação coto ·a própria ·origem da or-
1.;: ·;;.~-
trados46. Quanto à polícia política, Lépine ouvida da sua utilidade numa época dem. Se o Estado parece precário, é que, do lado de cá do Estado e das pessoas
(~(·~~:
onde não se conspira nem nos salões ne~ ila Assembleia e onde, ainQa. por .cima, que o representam; ~ a própria ordem que surge pi:ec;ária àqueles que se
a imprensa divulga os segredos antes que eles cheguem a tornar-se mistérios. Sal- ocupam da baixa política. A sensibilidade pessoal de .certos indivíduos em.re-
t:, vo razão em cqntrário, ela nãQ faz parte das atribuiçõ.es do prefeito da polícia. lação à 'precariedade da orc!em pode; como o nota Lo~is Andrieux; favorecer o
~,,,,;; Esta polícia, portanto, vela sobretudo pela ordem. Era o caso igualmente da recrutamento. Mas, para lá dos factores psicológicos, a precariedade da ordem
tenência de Paris, que devia rest.abelecer a segurança numa cidade descrita surge como aquilo que se encontra «por baixo» da Pf~cariedade do Estado. Ela
~.A~ como perigosa, sobretudo de noite47 . O assassínio em pleno. dia, no se1.1 domi- diz respeito ao próprio fundamento do vínculo social · . . ..
[ 1:' cílio, do tenente criminal Tardieu e da sua mulher, no dia 24 de Agosto de 1695, Isso pode retirar-se, por exemplo, da tese de Georges·carrot, Le Maintien
é por vezes apresentado como uma. das causas da criação da tenência de polí- de l'ordre en France depüis la:fin de l'Ancien Régi~.t1Jusqu'à i968.'Nesta liis-
~,.,,,:'
da48. Esta anedota é surpreendente;'pois, na história da polícia, ela é menos tócia f!lctual da manutenção da ordem, o a~tor, corm~s~o. ~visionário hoi.10;-
~;~::· apresentada como ·Um fait divers sensacional (nada sabemos do inquérito) e rário, adopta o ponto de vi.Sta da OÍd..,"m. Esta obra é:põi;Unto, in~rcssánte a Çois . .
j~D;:
mais como sinal dos problemas dá ordem pública. Na história da polícia não é, títulos. Antes de abordar-a história, ele começa -por justificai a ·exigência ·de .. ~

por consegu4ite, a pregcupação judiciária que é noi;malmente percebida como manter a· ordem, e recorre para isso ao argfu_nento da ·\d~ e d~, conservação:
~,,, prioritária, mas o imperativo de restabelecer uma ordem que foi perturbada. «A ordem é uma n1:1cessidade inerente a ~odas as s·od.e~ádes qúe queiram não
(,;.. 1 Para lá da questão administrativa; esta leitura d.a história da instituição põe o
problema dos valores da ordein e da desordem.
apenas prosperar mas tão simplesmente vivero.» Ora, a.sal~agtiarda da ordem
não se pensa de· manei!a evidente em termos de co~érvagão. ·Em
Platão,' p~r
(""", exemplo, trata-se m:en9s de sàlvaguai~ âo que de gU~dà; menos· de vida do
9ue de govemo, como o·indica a metáfürá dq pilotÔ,·~ Leis: ·
'···' A ORDEM RESTABELECIDA
,. . :

'\,_, «Ulll}\ '><ez que wirf)arco que navega rio 'mar tem n~idade noite e dia de uma
/
r, __ - Se a ordem é uma finalidade, e se a polícia é menos uma técnica que uma ' guarda constante, e que ~a me.sma.mnnein um Estado ~:gov~ dirigmdo-se atrã~
,, prática, a. ordem pode com efeito tornar-se uin «valon>, ou, para retomar a . das ondas dos outros Estndos e po~ entre l}S ccinspira~ ~'.toda--a ~ie que amea-
""- expressão eloquente do prefeito de polícia Louis Andrieux, uma-«causa». çam conquisiá-lo, 6. necessário, todo o dia a~ à ~oite, qu~. iii°~gisi:rados fa~ a cor-
1' Reflectindo sobre as razões da sua nomeação para a prefeitura de polícia, rente, que guardiães hão cessem de suceder a outros guardiães ~ de pa8sar a pai avra de
( Louis Andrieux diz ter sido cha,mado por alguns ser\.iços prestados «à causa ordem a outross 1.» .
da ordem em 1870 e 1871 49 ». A «causa da ordem» não dev'e no entanto ser
( Os guardas são os agentes da politeia, rrias a pol!teia rtÃo é a polícia. O pa-
("' 44Jbid., pp. 128-140. pel destes é Da verdade de simptes'"aeresa~ A ordem ·in~rna e a ordem.externa
45 Ibid., p. 141.
são aqui pensadas em analogia wna com a outra: a ~~nspkação.é o resultado
r 46 lbid., pp~ 142-169.
47 EL-GHOIJL, Fayçal, La Police parisienne dlins la seconde moilfé du XVIII' siecle
P'' (1760-1785), universidade d~ Tunis, 1995, dois volumes, Tomo II, pp. 563-640. 5
° CA.11.ROT, Gc:orges, L4 Maint1'en d~ l'crdre en F'rance depuis'la.jin de l'Ançien Régi- . ~
48 LEBIGRE, Arlette, 41 l'olice, une histoire sous injluençe, op. cit., p. 34.
(~~ me jusqu'à 1968, Toulouse, Prcssos de l'IEP, 1984~ Tomo 1, p; XVII. · ·
49
AN_DRlE\JX, Louis, Souvenirs d'un préfet de police, op. cit., p. 11. 51
w
Pt..ATÃO, Leis, Lívrsi VI, in Oeu.vres completes, op. Ci(., ·758 a, p., 118.
"
t·'?"-.

~..,.,~ 113
HÉLENE L'HETJU-J..ET HÉRCULES OU O FUNCIONÁJUO DE POLÍCIA
"
1 de um inimig9· inte!"?o,'sja mesma. maneira que·o'l!taq11e ·supõe um inimigo ex- A justificação. tla · nêc~sidade de ordem baseia-se, portanto. sobre o argu-
terior. Pelo coptrário; eici.Sie polícia.quando esta anaJogia é distintá e q11ando a mento de uma desordem primei.ta e insuportável. Este ttJmulto que compro- 1z:
. antipatia social não e.pens:áda sobre o rÍio~elo da guerra. A poifcia pensa-se em
\· mete a sob~vivência parece enraizar a ideia.policial nas teorias do «estado de
ruptura. com ? '.modelç~ ~tar.' Dirigindo-se · ao exercito, ·J;.épine afirma pqr • natu.reza» dos séculÕs XVII e X\'IlI. ]14as existe uma diferença considerável:
exemplo: os jusnaturalistas Hobbes ou Espinoza, e até. mesmo Roussea1,1, situam-se fora ··~
da historicidade das sociedal!es, interditam-se a uma leitura da história a par-
«ÜS processos ~o· exÚçíto e da polícia são diferentes. São mesmo opos!çis. !;!11 não tir cje 11-m inicio, especulam e não contam. Pelo contrário, a leitura policial da
devo empregar .a foi'ça senão em tíltima hipótese, ain~a menos recorrer à violêncja, vós, passagem da desordem à ordem dá nascimento a uma interpretação dá histó-
é por a! que começais 3 ~.~ · ria. Esta toma-se a história da instauração da ordeffiz a partir de uma ·desor-
dém original. A ordem estabelecida pode assim surgir como uma ordem res-
. Mas, justamente pox: isso, a ordem siirgê àpolíCia como aquilq que deve tabelecida. .
ser conservado; A polícia: não pode, como o c;xército, travar !?atalha. A or- É, portanto, na história gue se situa a desordem. Esta deve encarnar-se num
dem .civil .e a ordem militar não se con~nd'em. A prova está, para Lépine, ou vários períodos históri.cos. Facto paradoxal ao olhar da filosofia medieval,
, ~que não é taro yer' militare~. tão rápidos - no si;:1.1 domínio - a elabo- é esta função de representação que preenche, em Georges Carro!; a Idade Mé-
rar estratégias .é. tácticas,· .qom.repugnância em tomàr a iniciativa qa mam1- d~a. É menos necessário w r aí a oposição da teoria (da hierarquia natural) e
tenção da paz dvHs 3 • A sociedade, na república, não é -assimilável a l!m ter- da realidade (do caos) que uma ideia feita sobre a idade das trevas, intêrpre-
ritóào. -,
tada aqui como a ida(je da anarquia. Por antigo regime deveqios, pax:a ele,
É a partir d?,í:que,. para ~çorgeS Carrot, a qrdem poqe ser promovida à ~te­ entender r
~ .
goria de «neceSs!dadeit. Para lá ?o regis1!>·biopolftico apa_tentemente induzido, o
erilpregé deste tenno l,Inplie:.a _que aor4em não ~ aqiiílo que deve ser g11a.rdado mas \
«esse sistema poiltico, económícci e social que se elaborou lentamente e empiricam:en"
conservado, A§tdem tolll\l-'se então independente da jçstiça, enquanto em Platão p"
te depoi.S da anarquia da álta Idade Média, para satisfazer as necessidades el~mentares '
e, em seguida,' ~m todo opensa!D:el)t~ mediev.al, dela era depenqente. Q9er seja
da sociedade-1 8».
º"
de inspiração plàtóniea corD:o em Santo Agostinho, aristotélica, como em Sãe !:.
·.Tomás de Aquino, ell( é articula$ à figura do rei justo, «Sábio», até-«piedoso», e
Este estado de anarquia sucedeu, segundo Carrol, às estiutu.ras da paz ro-
rex
«a oposição do j~tu.S e do tirano g~verna todo o pensamento medievaJ 5<.,>. To·
mana, destruídas pelas invasões do século V. Aquilo que, nesta interpretação,
rnás de Aquino55 cita-Agostinho, qi1e .coioca a pergunta: «Sem a justiça, que são
se forma progres.sivamente, após a alta Idade Média, é a constituição de uma
os reinos; senão. vastos refúgios de ba.ndidos 56 ?» Caqa um pode, através d~_Pim­
forma monárquica qe autoridade: num s6 homem encontram-se reunidos os
ples observação,' verificar a diferença entre aquilo que os príncipes exigem aos
poderes de comando pol:ftico, jurídico e judiciário, militar, encontrando esta uni-
·seus súbditos «Bara a gl)arda do bem comum do qual eles são responsáveiS 57» e a
cidade o seu limite na autorização teológica da soberania, quer dizer, simulta-
·rapina. Mesmo -s~ os prínciges devem por-ve~ usar o _constrangimento pa;ra su-
neamente a condição do seu exercício e o ponto que não deve ser ultrapassado .
.bir. os impostos;;eles não esiji.o a roubar ~e se trata de di.ãh.eiro público. A ordem
Numa tal leitura da história, o momento do reino de Luís XIV representa o
deve ser guari'.lada," não tem de ser salva. : .r;.
ponto qo apogeu, áquele em que a aqtoódade está ·plenamente constitúfda,
inaqgurando-se uma outra fracrura ~m o reino de Lufs XVI, cúmplice da Re-
s2 L~INll. Louis, fefes sO!fV~'riirs, op, cit., p. 130. volução, pois, «ele próprio fil6sofo, pelo menos por instinto. não deixoú de
. n /bÍd., p. iai:. . . partilhar mais ou menos as ideias do seu séculoS!I».
S4 ~. Michel,'Maçhiavélisme et raison 4'État; P~ris, PUF, col. ~Philosophies»,
1989, p. 16. . .
. ss To~.1ÃS DE ÁQUJNO csã:'o), Somme tMologique, Ua Ilae, Q. 66, op. ci#, P· 444.
·• . · .Ili SANTO AOOSÍ'lNlio, 1,JtCJtl 4e.Dieú, Livro P.oíi tra4. do latim porL. ~areal! (1846), 5B CARRÓT, Oeorges, .(,.e Jefaintien de l,'ordre en France depuis lafin de l'Ancien Régime
••revista por .J.-C. Bfün, Pari$,.~Scuil, .cor;·..-Põints», 19!l41 'Iiomo I, .p. 167. jusqu'à 1968, Tohlouse,Pressesde l'IEP. 1984. Tomo I, p. XVII.
!7 TOMÁS DB AQtJINO .(São); Somme _'1iréologique; Da-Ilae, Q. 66, op. cit., p. 444. 59 Ibid., p. 3.

114 115
.,,
~,

l:'!l\ ''"
~t
~ ~o&~ ~ k"- ffW-ry,
ot'11\1
'f-i·~
.3 H.ÉLENE L'HEl]ILl,.ET Y\C'rYI ~Jrv e,... • HÉRCt)iES OU OFlJN:ÇlbNAJUO:DE POLÍCIA
~
O emprego do termo anarquia é esclarecedor precisamente porq1,1e é ana- O efeito de excesso produzido pelo t9m p~nftetário deve certamente ser mo-
~·~~;
(.<_(!',
~~ crónico e ilumina ao avesso a leitura policial da história. A desordem é ausên-
cia de comando e défice de autoridade. Os dois sentidos cja ordem. juntam-se
derado pela análise. Neste texto, aP<>lícia ~stá para alé~ do seu sigoificadq clás-
sico de «governo», para Íá mesmo de uma identificação com o Estado, para se
.~
aqui. Podemos, é certo, objectar que o autor deste trabalho defende a causa da tornar praticamente sinónima de «raZào de_Estado». A fa.zão de &tado, para os
f~;{
-~ ordem de uma forma caricatural. Mas Arlette I;,ebigre, mesmo se o teor do seu seus adversários, é opartido do Estado. Não é uma ausência de l)ierarquia, mas
a substituição de 1.)ma antiga 1fü;rarquia por uma nova, q~e reprova o pensa-
b propósito é sensivelmente diferente, escreve acerca do édito de 1667, q1,1e este
«colocava um ponto final a séculos d~ incoerência e anarquia60». Uma brochura mento estatista. O nascimento da política, para os antiestatista~. é contemporâc
t1.:; a
• .i· ~
da prefeitura de polícia, intitulada Dix siecles d'histoire de la police parisienne, neo da sua acepção pejorativa: toda a política é «politiqueirii>>. Toda a política
~, i:' :~ surgida em 1946 para fundar O mito de umà ·polícia parisiense resistente à OCl)- é baixa, pois ela deveria manter-se 'no seu lugar, secundário; "roda a política é
pação «nos dias gloriosos de 1944», também ~e entrega ao lugar-comum61. Fa- polícia, a· partir do momento em. que a religião deixa;c;!e ser considerada como
~~,;· ,, '.03 lando da baixa Idade Média, época em q1,1e as instituições romanas se enc;on- primeira. A política reb.aixa-se quanto mais luta pela altura que pertence por di-.
{(:~~: •®)., tram periclitantes, a brochura dá a ler: «Abandonadas à sua sorte, as cidades reito à religião. A razão de Estado é, portanto; primeiro que fudo, uma ordem de
@) sofrem a anarquia62.» Que, nesta perspectiva, a poijcia não comece com Luís preferência. Tomar o partido do Estado é fazer passar-o imperativo político
~~·t
XIV, mas com Luís IX não muda grande coisa, O importante é que antes da antes de qualquer outra consideração. · .
t.,. ~ ordem existe a desordem. A ordem estabelecida é uma ordem resta bel~ Mesmo se o termo «polícia» não tem ainda aqui o sentido qu~ hoje tomou;.
tu• ·~
~ Assim, a manutenção da ordem contém em si uma ideia de ordem. Convida este texto é instrutivo., Estudo e polícia não são aqui sinónimos.:A polícia, as-
·~
· ~a.
a pensar a ordem a partir da desordem, A desordem está em primeiro lugar. sim ligada ao Estado. não significa apenas «governo~; no · ~entíci~ técnico do
t ./ A ordem em segundo; não está inscrita na natljreza das cojsas mas resµlta do tra- terrtlo. A existência cjo governo 'não supõe necessariamente a da r~ão de Esta-
~
,... do. Os termos distinguem-se aqui como o «iilto» e o ~baixo>; da :mesma coisa,

;f ~
\ ... balho e do artifício. Se, para a polfoia! a sociedade-tem «necessidade» de ordem,
! parece que a policia, essa tem «necessidade» da .desordem. A desordem funda a ou mais exactl\II1ente do mesmo preconceito: A razão de Estado designa aqY,i
e ordem. Não exiSte propensão.para á ordem sem experiência da desordem . . a preferência acordada com a polícia sobre a religião. Aqueles 11ue em tudo
( .,! '. . preferem a polícia são chamados políticos, pois ri.ada para eles é superior ·
..........
t.t;_,..., ao Estado. Eles rebaixam a política, não lhe reconhecendo nada de superior.
A DESORDEM ESTABELECIDA :$ porque está colocad~ d,emasiado alto,que a política, para os ap.tiestatistas, se
(. repaixa. E; esta bai,)celJ! é para eles um a,bismo: ã políticâ,pode c.air cada vez
r- ~ «O ídolo e o escândalo do século»: são estas as palavras que emprega Étien- piais b~o. A «pelicia» 'é já. um termo piais pejorativ.b -.élo _gue'_ 6 pe Es!_ado. '·
"'· -·~ ne Thuau para designar a razão de Estado na época de ~chelieu. Estes atribu- A oposição ep,tre os estatistas e os religiosos qão é apê'~s· iµna rivalidade-pela.
e- :,.
l•. tos 'de·«enigma do século 63 » não vêm dele. Ele reprod)iz a iifumação de um ad- . afuira: diz respeito .ao próprio se*ido da, di_stinção ebtre .alto e. ba,ixo. Dora-
,,r · t versário do pensamento estatista, neste caso, D. Robert A., religioso ~eneditilio: vante, a partilha do alto ~ do abaixo passa para. o interi9r da -própria política.
~ A.religião perde por isso a evidência da grandeza. · •·
r '"
® «E pela razão que uns e outros gritam sem para,r: "o Estado, o E~tado, a Polícia, a O olhar sobre a sociedade sai desta qu,estã·o modifi.cadó. O oficial do ma-
r •''l~
Polfcia", sem se preocupar em primeiro lugar com a santa religião, até dizendo que a rechalato Guillauté, autor de uma proposta de refonií'i.da polícia submetida
t':" ~ Polícia lhe deve ser em tudo e para tudo preferida, são muito justamente chamados polí- ao rei em 1749,'faz-se eco desta mudanç~ E!~· explica que ~brdem que àpo-
lfcia faz reinar não é n~m deve ser -~ ordem totàJ:. «É'ne~essário diminuir

~ ticos64.»
p.
"• tanto quanto podemos certos·inconvenientes: [... ] seria talvez perigoso redu-
~
r.. ·i- 60
LEBJORE, Arlcue, La Po/içe, une histoire !$OUS influence, op. cit., p. 34.
zJ.-Ios a nada65:» É precisamente esta· aceitaçã~ relativá«:J,a desordem qu~. dis­

1
61
Dix SiAcks d'histolre tk ia police parisienne, Paris, Préfect11re de pc!lice, 1946. tirigue a polfoia e a,Teligião: «Não se tra~ de fazer Msociedade uma casa
PC'!.
~ 62 lbid., p. 10. '
63
i:;~· THUA1J, Étienne, Raison d'Étcit et pensée politique à npoque de Riche/ieu, op. cit., p. 9. 65
GUJLLAUT!, Mémolrqur /a .réformatíon de /apoiice de FraiWe,·Pa,ris;,1749, Reprlnt,
64 Ibid., p. 1O. Paris, Hennann, 1974, p. 19. ·· · ' ·
~-
.r
~· . :
......
?:,'"':''tV.
' 111;.'
116
' HÉL~E L'HEUTI,LET
e ~
HÉRCULES OU O FUNCIONÁRIO DE POL!CIA
e ~
.·.·'religiosa, isso nã.o é poS~'+eJ§§~>) Q eJrô p'a(tic;4lar qa religião remete para JJm «Apresenta-se como o grande. destruidor das solidariedades naturais. [... ) Toma-se ·>'"~
1::;:,,
erro mais getal, e qu~ çatisis~e em s11por 9$ homens tal cc;imo eles deveriam uma cons!njção artificia! que suplanta os elementos naturais da sociedade. Representa
o- "-
ser. A polícia, pelo cónttâii~, toma os home!ls pQr aq11ilo qqe sãQ. ·A an~o­ o papel de um agressor da ordem estabelecida69.» •r.
1:..z
pologia opõe-se: à teo~oiia, áté m~smo :na concepção de uma sociedacje na t~
..
:· qual a ordem é mantiqa P.O{qma polícia. A policia não visa a instawâção qe A polícia, a partir do momento em que adopta o discurso da sua função, é um "'i
uma ordem ideal. Manter a Ofdem é compor: «É necessário combinar o qvc resíduo da ideia segundo a qt1al a-0rdem está sempre por estabelecer, e da «ideo- ·- \•.:;i

,, o e~tàdo actual da socieélá~e permite 01,1 não, e trabalhar~ paitir destes prin- logia que não justifica a ordem estabeleciqa, mas a ordem que se tém de estabe-
cípios67.» lecer7~. É justamente porque a ordem tem sempre de ser estabelecida, que está '-

Es<a ideia de ..ordem :ac9mpanbaria neée8:sariamente o estatismo, não por- ainda «a caminho» de o ser, que exige sempre trabalho e esforço, q1Je pode cons-
•. que este seria uma· dou~ria .do poder vinda dq alto, mas porque está \igado à tituir uma «CB1JS8». .

·. eme~gência da in.dividualidade. Se a polícia pem'lanece trib11tária da ideia de A adopção da «causa .4a ordem» parece ser um elemento determinante qes-
raz.ão de ~tado- tâl como ~ta se desenvolve no absolutismo, é porqqe o mo· te devir policial11 • Por «causa», seria necessário entender menos a expressão .
,.
@ viih~iito em dire;c9ão à ~so\.idãÔ>> do monarca ab·soh~to, que ll?va ao extremo ,
'
\;;:-r,
a realização do,princípi9 do monDs, não é- simplesmento o do mçnarca, mas 69
lbid., p. 363. Pode objeçtar-se qye as solidariedades familiares nunca deixam inteira-
,... também, S\:gurid9 'ThuáU; ô do<&tado ~a comimidade dos Estados, e - so- mente ele existir no Estado: não há um llnico indivíduo que pertença eJlcl11Sivameme ao Es- r
@
.. " '
bretuq.o.:.. o dos jnembror~a socie.daçle. Oabsolutismo lum princípio de se- tado. Mas o Estado recompõe o laço com a família e faz repensar a pertenÇa qc cada um. [
·~ . O elo com o passado pensa-se da m~ foi;ma que o laço aos outros. A este respeito, o ab5o·
..paração que se a'p!ica; ao:mesmo temPO'<JlJe ao governo, ao Estacjo e à socie-
lu?smo é m~nos conservador do que o quereria a releitura feita pelos pensadores contra-re- 1:
dade: voluoionários. ~esta interpretação ql\e falseia a abordagem do skulo clássico; ao contrário. ... 1
-.
e.orno escreve Thuau: «Ós escritores estatiStas do século XVIl nã.o embelezam o passado. [...]
pilo vêem no estado de coisa$ ,~tente uma ordem natural, mas umâ dc.sl?rdem liabitua.bt; "º .-,
«No que diz respeito .à_§Ôciedade organizada, este autoritarisi:no ii'aduz a \:ontade de
· destruir as .solÍ4ariedaqe~: infuµiacion~s da mesma maneira que destrói a s0lidarieda<:fe
·. Iega,do do passa.do é para eles llill:ll desord~m .estabelccidait (ibid., p. 381). Michael Stolleis
aqopta uma petspectiva compa,rável pill!I Cllplicar Onascimento do direito plfulico- que COm·
1
- ,,,.-. ~

· supranacional ·da Res p_ubÚ~a christlanl;i.6ª.>•


~.
• p~nde a ciência da p0lfcia - na Alémanba; nos inícios do S~lllo- XVIl: «Poderiâ. com-
r·-~
. prtender-se o processo de "criação" ou a !'descoberta" ·do direiro público, nes,te.~entido, cro- J, .•

nologicamcnie paralela à ei:oerg!nf.ia do Esta~o moderno; como a tentativa em grande escala


Se a «CauS'a d.a ·ordem» cQnsiste em tomar a desordem por original, a emer- ~e reordenar um mundQ caído na désordem. Numerosos autores, com efeito, na segunda me-
gênc~a da figura.do indivfduo poge també!Il surgir como iirur das causas da re- tido do skuli:> XVI. descrevem o miindo como um enlgltlll iildCcifnlvel. 0 caos, o labirinto,
novação deste tefua da fundâçãÇ. A «causa da ordem», entendida neste sentido oartiffcio e a melancolia constituem as palavras-chave desta idade maneirista. O que tinha ,, ~

~omo «cáusa da funda~o», ~ arlimad~.~la idei~ e Pe°ia aáitaçãb'da desorcj~m. sido festejado no in{cio do século CQmo uma cjescobcrta e uma iibei:tação, em duas geraçõts, ;~

ttansformou-se em medo. A multiplicidade das liberdades engendrou a pc.rturbação.e a in·


À represe-ntaÇãO; tradicionaJ_QO' absolutjsróo CQÍnO regime de 'ordêm, Thuau q11ietude perante os violentos conflitos que ela suscita, os novos conhecirQentos científicos .-:,, ~-!·-~·\
substitui a ide.ia d.e uma $.Qbver5ão da ordem. pa· mesma forma, a Fronda se- transtornam a ordem tradicio'nal das coisas e não i. por llllaSO que B•palavm "revolu~o" data
meia a d~ordem; màs aquílC? qiie a~a QS froilde11rs é airid.a uma ideia de or· da obra de Copérnico, Db J'ltl!()/urionnibus orbit1nn coelestium, editado em 1543. A anuiga çs-
lpltura da sociedade da ord~, ao mesmo.tempo, está grovemen~ amcaçada:.os camponeses
dem: 0 Esmdo hão substitu:i_ apenas ij(Íla ideia de ordém por ou~. como não .~~: ~\
q11ercm ter os mesmos ·,ditejios d.os buf!lJCSCS, os burgueses os mesmos d~ilos qu_ê os no- ;t:
pretende assentàr iióbte uma ideiâ 'de ord,em original, natural. É sóbre a ausên- bres"' A sua inte:prctação..da.acção da polfcià diferé, no. en~to, daquela q11e.é aqui tentada. ,, '~~-.~~)
cia de ordem, através de .um ' «gplpe>~. que ela se institui: Para·ele1a polícia não é,mais do que o garante da ordem tradicional. ata roma·o partido da
·- ' Igreja: él'ar;ibém os pn;'gaclçires, mais do que nunca, repetem que 6 um pecndo deixar o éS· ·, 1f~i)
tado em que Deus·coloce11 .cada um; e as .autoridades multiplicam .es regulamentos matti·
moniais. as medidas contra o'·luxo ~ai; PQStu(llS policiais. q~e.se opõem 115 evoluções julga- :,;':~
..... ~.
en
Qas perigosas»,.STOLL.E!S, Michael, HiJtoire du droit p(lblic Allt1714gn11, op cit.. p. 604. 1
66 /qid.;,p. 19. .. . ,,· . • 10 Tuu~I!, Étienne Rai;;n'tiii().(et'flef!Sle poliriqui! d /'époque de Richclieu, pp. cir., p. 417. (!?
71 Pode, é cerfo, objeetaHc.que a escolha'da profissão de polícia não decorre senão oca-
'67 lbid., p. 19: _ .
68 THUA.(/, Éti~nné, Rai,fon ·4·$tat.etpensie politique 41' époql!e de k.'ichelieu, ()p. cif., ~iona!me11te de qma•vocação,,riuis resclta na maior parte dos CllSOS de um 'desejo de inser- ~:ii
p: 366. . . ção ou de promoção so.ciàis, quando hão 6 o puro acaso ou simples encontros com conhe- {.
·~
ff:

.
.· ·118 119 ~

~
HÉLENE L'HEUILLITT HÉRCTJLES ou O ~ÇIONA:iUO PE POLfÇIA

de uma tomada de posição arbitrária que a aceitação de yma responsabilidade72 • «polido74». Preqjs.<unénte· quando quer cjemonstrar que' «p0liciado» e «p<>lic!o» .e .
Pertence ao policial fazer sua esta causa, pois Q seu trabalho consiste em tor-
nar a ordem sensível. A polícia é a ordem tornada sensível:
não têm o mesmo'senticjo no século xvm;e que em termos das qii'àlidades dos
povos o primeiro le'l(a a melhor sobre o·segúndo, .Lucien Pebvre tes~monha que
ç~,ofo·_
eles se definem um em relação ao outro1s: a superiorida:~e de «poÜcÍado>~ sobre ·
· «polido» permite compreender como o sentido .de «polícia» 'se pode modificar
A ORDEM TORNADA SENSÍVEL progressivamente, a,té passê!J de lím quase sinónimo de pqlitéia (por exemplo, em
Roi,JSSeau) para o sentid9 ltçnico q1,1e se'tôma .o seu em. Delamare_ó'U em Guil- ·
Num primeiro tempo parece que o prob~ema da ordem social assenta sobre la1Jté. Com efeitô, esta supe_rioridade .assenta .sobre a distinção ela le{e da nature- .
um jogo de palavras, que liga sociedade e Estado, o termo «polícia» - q1.1e re- za: porque o termo «poJícilV> significa governo, administração, .Estado regido
mete para o Estado - e o termo «policiado» .- que designa o efeito da acção pelas leis e 'pelo direito, nos dicionários usuais dos sécll:los XVI e )ÇVII, designa
policial sobre a sociedade. A polícia teria então por função policiar. Mas não uma modalidade de obediência. Vm povo policiado obedece a leis e regulamen-
se consegue ver, para além do jogo de palavras, em que é que o acto de poli- tos: é nisso·que reside a sua superioridade. Dessa forma, ~sinl que o termo «po-
ciar. designaria um acto de pacificação mais do que de instituição de uma pax lícia» toma o se1,1 sentido técnico no "século XVII com o naScimento da institui-
romana, para retomar a alternativa formulada por Egon ~ittner. ção, e depois no século XVIII nos primeiros escritos que lhe são consagrados, ele
A formação do verbo «policiar» mostra-se aqµi instr1.Jtiva, na medida em que mantém-se tributário deste pressuposto. . .
testemunlia as modificações inesperadas na maneira de encarar a política. A ho- Ora, o sentido técnico da polícia é um sentido restrito em comparação com o
mofonia dá politeia - que c\á o substàhtivo <<polícia» e o verbo «policiar» - sentido inicia:! da politeia. Da causa, o sentido desloca-se e~ 4irecÇão ao ef~ito.
com os derivados do verbo «polir», que são o substantivo «polidez» e o adjecti- l,Jm povo policiado já não é um povo submetido a leis, mas um povo sobre o qua:l
vo «polido», parece ter tido efeitos de sentido. Se., tal ·como' polícia e política, se faz sentir o efeito das leis; ~e ·LuCien f;ebvre escolhe insistir sobre a ideia.de
o termo é formado a pa.i:fu do grego politeia (passado para o latim politia); o que este é superior ao povo apenas polldo, podemos ao 4ivés notar ~Ue" a polidez
verbo latip.o p~lire encontra-se, por ·homofori.ia:; como. q\,lê a fazer uma contri- é-a medida-TCferência•do efeito das leis e dos regulamentos sobre uin·povo. C::om ·'
buição, semântica. Em si mesmo, hão é mais do que lfill termo de ofício, que sig- efeito, no século X\f.IIl, um povo bár.baro ('sem·lei)'}>ode'.ser;contudo, polido. Se--
nifica «esquadrar>>, «rebocar>>, ;<revestir>>, «decorar>>, que declina ·ássim o senti- me!hante povo governa-se como que «naturalinente».·ds. cosrumes 'de .um povo ·'
do do verbo francês «polir», a saber «unir, igualizar, aplanar13». Não é, em latim, pôlidci são naruralmente bons, os de"vm povo policiado são-no ~çaS' às leis e
1Jm termo que evóque a suavidade. À semelhança da pa;x romana, designa mais aos regulamentos. Os povos policiados são, portantó, pov9s «polido;» - no sen~
a operação de bater. No entanto, «policiado» acaba qij!).,Se por significar ser tido próprio - pelas leis. A poÍícia, ao manter a ordem•.~orma.os· costumes
em bons costumes: ela pole o povo. Polidez e polícia, no en'tanto;não se encon-
cidos (CHARRAS, Igor, «Récits de vie de policiers: états des lieux», in J.,es C:ahiers de la sé· km. A polidez contém um princípio de distinção-(s6 diz.respeito .a.algU!lS, ~é~
curité intériezire, Pris, 1997, quarto trimestre, n.0 ~O. pp; 217-226), ~as rtão é porque não por acaso q1Je ela pode estender-se a 1Jm povo.inteiro), enqiÍ.imto podemos dizer
se era polícia antes de o ser que níio se toma polícia depois de o ser.
n É o que está em jogo na formaçãb dos polfcias. A:> etapas dQ proc;esso estendem-se de de uma nação e de um povo (de um t.odo ao qual a:lgunÚaze:m excepção) que
1880 a I9i4, data qa criaçio da primeira escola de polícia. Os argumentos utilizad~s pelo são policiados, mostrando assim que a língua -~arda no sel,I :espírito: !l' origem eti-
comissário Célestin Hennion na defe.sa -O.a sua criação síio que «3 prá.t:ica·da autondade é mológica (,Polis). A mudança de ponto· de \,'.ista autorizá ao m~smo :tempo a re-
sempre uma coisa delicada; mais ainda num regime democrático que, por sua n_arure~ pela pressão (as excepções devem sujeitar-se à regra comum) e. co~tradi~ toda a con-
satisfação dos instintos de liberdade, tão profundos no homem e o levam 'nms facilmente
para.além dos limites do respeito necessário à liberi!adedo outrO. A função da·polfcia está
cepção de_uma ordem natural. · ·
quase toda no constrangimento imposto à UberÇade de uns. em proveito da libenlJ1de qos
74 os· autores do artigo "Policier» ·(,lo Dictionnalre ".gé~ral de _ 1'1 lt111g~ française, i;le
outros»: que a profissão de polícia é «uma profissão de complexidade irúguallivel»: e que
"ª policia não representa somente a forç&Jt: citado por BER!.$\t!. Jcan-M:arc, odA profcs· Halzfeld, Danncsteter e A. Thomas, ~ariS. Delagrave,,1964, pe~ "quil'a pàsiagem do pri-
sionalisation de la police cn France: un phéno~ne nou11eau au début i.m xx• si~cle», in meiro sentido (reagir pela pol!cia) ao segundo (adoçâr-pela cul1U111)'_~ #>'ida à inf]uênci~ de
Déviance et sociétê, 1987,V.ol. 11, n.º l,.p. 67. ·<!POiir». . , . . . :~ .
7l Migo «Palio, lvi, itum, ire», in Félix Oaffiot, Dictionnaire illustré iatinljrançais,
75
FEBVRE; Lucien, «_Civilisation, évolution d'un mot et d'un gro\lpe d'idées», in four
Hachette, Paris, 1934. une histoire à part entiere,. Pa;is\ 1962, _SE\!Pl!N, pp. 494-495. .. . :.
1""'..'

120 . 121
·e:.:_
. 1
. ' .' : Httàra L'HBulú..1IT HÉRCULES OU O FUNCIONÁRIO DE PQL;fCTA

. Pesta relaç.ao entre «polido» e ~licia4o», Lvcien J'.1e.bvre conclui qi,e o ter- antigo do q\le da prescrição de procurar neles \lm paradigma político para com-
mo PQlfcia tem difii::ulp_ade em impor-se no seu sentido-técnié,o e i,mívoco76. pret:rti:J.er uma realidade nova: «Ainda não há cem anos que temeis uma polícia
.... · Nele se enxe~ um ·signifieado moral cjue não .Provém d~ Qm-arcafsmo, mas de - escreve Gi:,illauté - e que polícia ainda8º!» O alcance heurístico do modelo
uma noção novano's~ol!?)NITL a n~o de «civiliiação». Se a «civilização» e é, todavia, limitado.
a <•polícia» co~fron~J>o'r iµn momento os seus regi$tos semânticos, isso não A polícia recebe a função outrora entregue à música, mas a «suavidade»
deixa de ter um efeito sob~ a polícia, tal como a nÓção ~e tran~!JlÍte até aos nos- m11dou de sentido. Em Platãó, Aristóteles, e nos antigos em geral, relei:nbra
sos dias. O seriÍido téc.nic~· da palavia «polícia» é uma restrição em comparação Montesquieu, era a «mtjsica que tomava suaves os costumes» e 'que, portanto,
com o sentido--geral. Luf~ XI\( e depois os Olltros legisladores aa policia ope· é prescrita ao·s povos de guerreiros e atletas, inclinados, sem a Slla influência,
ram também uma especifieação do sentida: A deslocação qa c~usa em Q.ireC.ção para maneiras brutais81 • É certo qJJe a ml,Ísica tem por função, nas cidades, a
ao efeito sigJÍifica deixar de lado a interrogação sobre a justiça das leis, a cons- prevenção de crimes 82 , e não deve ser confundida com a virtude. Ordem tor-
tituição e a aite' qe dirigir, p~ apenas reter ~ noção de ordem pública. ·na.da sensível, permanece, ~l como a polícia, na exterioridade. M!lS ela ainda
. De!amare, ~depois d.ele Boucher d'Argis, na $ncyclopédie, Ievo4 mais lon- é da ordem dos cosnimes: é espiritual. Se a polícia toma primeiro os costumes -.-
ge. as consequências (ja iiproximação semântica tje «pQliciaÇo» e «polido» para por objectjvo 83 , e se o seu objectivo é suavizar a violência potêncial, é mais
dar uma definiç_ão larga àa: policia, como «afte de alca,nçar uma vida cómoda e pelo fortalecimento da regra, que pela SJJa flexibilização. Suavizar consiste
tranquila77 ». A própria de!.inição da politeia é influenciada pela noção de ordem do muito exactamente em amolecer o guerreiro demasiado rfgiÇo, fazê-lo sen-
pública. Delamare, ineio 'século ant<(S, atribuía ainda coino çbjectivo à polícia tir «a doçura, a piedad~, a ternura, o doce prazer!~>> - tudo coisas que são 'pos- ,,.
conduzir os homens e ãs sodl1dades ~'felicidade. Se Delamare- e Boucher d' Ar- síveis porqlle, segundo a f6nnula de Montesquieq, «a música, que atinge ·o
gis não estão fundamentálinente em .desacor(jo, a felicidade define-se, doravan- espírito através dos órgãos do corpo, era muito apropriada para isso85 >>. Ora, :
te, explicitamente conío ~az e tran'quilicjade: é 11ma felicidade policiaà~ e con- a polícia não «atinge o espírito», wna vez qu_e ela não visa a harmonia, mas a ·:·· :(,";;.,.
.-,
fó!'mada à fihâlidade policial.- c)isciplina. ~,;

Quê l;>e1arriare, Bou~her d'Ar&-i~ bt1· Guillauté queirain. enc;ontrar nos Gre-
,~::""~
A harmonia é t1m fim. ~litar e não policial. Quando o sofista Protágoras
!:'
gos l,)m paradigtna adviriapdmeiro.que t\ldO mais dó argufnento Qe '<!Utorida- expõe a s~a concepção da educação das elites gregas, elogia a virtude dos .P':~
de do que -da_preocup~çãQ. em ·enc~nµâ"r t1rila filiação ré<U entre a politeia' e a ir:-{
policia. o recurso ao antigo obedece, é ~no. aum desejo de elucidação, mas se antigo valor, só posso experimentar espanto e dol'», MAC!-UAVEL, Nicolas, Discours sur la
a aproximação ·pemianece.ánacrónica. Procede de uma exigência definicional, premiere décade de 7ite-Live, posth. 1532, ln Ocuvres, trad. do italiano por C. Bec, Gamier, .{
mas a crítica que lh.é ro·i feita de ter âplicado retroacti vamente- o presente s0bre 1965, reed. Robert Laffont, «Bouquins,., p. 187.
.f"i 1
o passado7ll, ê,áe se ter seNido do passado como ornamento, é e.m parte justi- 80 GtJlLt.A.UT!l, Mlmoire pour la ré[omuuion de la police de Frânce, op. cit., p. 34.
(
" ficada 79. A imitação dos àntigos .procede menos elo prec.0nceifo relativo ao ai Mo:m:.sQ1JIE1J, De l'esprit des /ois, IV. 8, Genebra, 1748, Paris, Le Seuil, col. «L'in·
tégrale», p. 543. ( .:.• l

· 12«Aq4eles de Cynetc que negligenciaram a música ultrapassaram em crueldade todos


--.-----
;6 lbid., p. 495. ' os Gregos, e não há cidade onde se terihamvisto fantbs ctimés», MoNTESQUI!ÍU, De"/'esprit
" •.)
in
77 BOUOIBR o'_;.RQIS, 'a/tjgo."otPoliceio-, °1;}1DEROT, Denis, e D' A~ERI', Jean, ~neyclopé· 4es /oiJ;, op. cic., p. 543.
83 Os eostumes são o segundo.cios onze objec~vos-enumeraclos por Oelamarc. Esta cnu·
-
-~··

die 011 dlcJicn~·ràisonnl_tÍes Ans tiMétiers_, Paris, 1751·'178Q, Tomo XII, ~p. cll., p. 905.
71 éLOUIN, ~UCl!1!'1' A., ~AT e., 'fiouve<IJ! Dictionnaire de police, rilcudl aruzlytiq~ meração é retomada na ordem d~ ~oueher'd.' Argis (llftÍgo «Pol!c:illl>, art. ci.t., pp. 911·913), :
.
. de.dois, ordo11n.1µ1ces, rhlt:!Mnts; et lnsrructioru concemant la police judiciaire et admt- e
que suprime, 1)0 entanto, a. cl~ificáção em: trê$ categorias de bens qadtÍ por Dclamarc: qllC,
~~· ~J
' rrÚtra1ive err li'r<Jli;e. Paris; Béêhêt jeune, 1835, p. J'{. para este, a polfcia é um objedo qlJe se..distingue em onze. Com efeito, antes_de dizer que «a
79 O aviso eSraya, no entanto, contido na líção ele ~aquiavcl: «Conslclerando., pois, a hon- vida cómeda e tranquila é o primeiro.çbjectivo das sociedades» (DELA.MAR.E, Nicolas, Trait4 iis,)
ra que se atn'bui às coisas antiga$, e como tanta$ veus, para não multiplicar os exemplos, um de la poli~. l . 1, p. l), Del3,DllUC começa por dizer que"º· ú.nlco objecrlvo dà pol!~ia é con·
. fragmento ele cstá!Ua antiga t cômpracla' por. ilm grande preço para ser GOi;ierve.~a em ~Sll. • duzh: o homem à mais perfeita felicidade que se..possa ter nesta vida» (lbid., prefácio). o que
é abandonado por Boucbcr d' Árgis .. E é porque a fellciclade do homem depende de três
u
p'ani honrar·a casa,'e estimula à .imitação aaqqeles,1que, apl_'CCianclo aquela.arte, empregam-se
a•irnítil·la; '1enclo, por outro lado, que âs vajorosas acções que a história i:ios dá conta, reali- espé,cies de bens, QllC ele divide em ·três categodas os onze objectivos ela poHcia. !U
zadas nos reinos e.'repllblicas antigas, po't reis, eapirãc.s; cidadãos, legisladores, são mals aQ- 14 MONTESQtJlEU, /)e l;esprlt Íles /ois, IV, 8, op. cit., p. 544. ·
nlli::1das que imillldas e são mcsn:io ~ ign~radU-4e todos q11e já ~fto ·reSta qii!llquer Üaço dcs· ~~~M ~ ~
,
'.
~v
122 123
(~

~
HÉLENE L'HEUILLET HÉRCULES OT,J o FUN'CIONÁlU() DE POLÍCIA

«ritmos e das melodias», capazes supostamente de formar «na palavra e na simultaneamente pr6itjmo e longínquo, coberto por esse tipo de silª~cio q~e é .... :.
as
acção 86». Platão exclui da educação dos guerreiros melodias e os ritmçis que o efeito específico da qiscipli11a: o s~lêncio (ja ordem, N:à dísciplin11.i não exis-
não são convenientes, ·mas guarda dJJas harmonias, a violenta e a voluntária, te luta aberta. Adisciplina assenta sobre um sabei e não'.só6re um·súnples po-
a primeira é aquela der. Ela não é riem bruta.nem brutal. Visa a pacificaçãq do corpo~ não a sua .
.l)(\nllonia. Ela age por p,reven9ão e não por sanÇão; Não é judiciá,ria; mas age
«que sabe imitar como convém os tons e as acções de um bravo envolvic,lo numa acção antes da justiça. A fonnação do iadivfduo disciplínado é_ 'l).m trei,no Pi'eventivo.
guerreira ou em qualquer trabalho violento 87», É na suavidade qÚe os corpos aprendem a mariter-se tranqi.illos, A.s-uavidade
. não é o resultado, mas o i~ti:u,mento. ·. · ··
,, ~' O nascimento da polícia ratifica o fim do' ideal oe harmonia em política. ~ coerção não é violenta. Policiar é agir aii.tes da ~~plosão de'..violência.
Deste facto, neste mesmo século, a oposição à polícia faz-se.em nome da har- · A disciplina nasce com o .«desaparecimento dos suplíciçs9<!»~ ó apa_&amento do
monia, enquanto esta já não assenta sobre a cosmologia antiga. A ideia de uma espectáculo da punição, substituído por ijma ~<certá discrição na arte 4.e fazer sc;;-
harmonia social possível, necessária à eficácia da música, não se encontra no frer91», e uma forma de {<sobriegade punitiva92». A encenaÇão literária !fa obra de
fundamento da concepção policial da ordem. Se a música torna a ordem sensí- Foucault, Surveiller etpuntr, ilustra esta modificação. Ele começa por citar um
\~ •. ;:'·
vel, é ·porque permite ao indivíduo adquirir uma mestria do seu próprio corpo. suplício, o que foi infligido a Robert-François Parniens em 1757 e relatado na
~
;:.m,
Por esta razão, ela convém aos guerreiros. A música, enquanto ritmo, regula o Gazette d'Amsterdam, para o colocar imediatamente a seguir, em comparação, a
11.WI movimento. O corpo segue então a orclem da razão. um regulamento de uma prisão parisiense, elaborado por ):,.écm Faucher. em
· A ideia de ordem que corresponde à'invenção Q.a polícia não é a mesma. 1838 93 . O regulamento é o instrumento de disciplina social. AÓrdem instituída
1.._;_.:) N:ão se trata de regular o movimento e de produzir uma harmonia. N;ão se tra- pelo regulamento é a norma, e não o magistério especial. Aquilo que deve ser .·
~ também de se referir ao modelo da guarda e da. &Uerra. N;ão somos mais controlado passa a ser o «desvio»: já não é a desobediência. .
guardiães do nosso corpo d.9 qiie o ~omos da cidade. Á ordem do corpo,é uma o uso do regulameÍito ....... ea substituição da-lei pelo n~gulamento - é ca-
. ........ ordem restabeletida e ma~tioa porq~e não existe ordem natural. É pela disci- racterístico de -uma sociedade <;la norma: esta «policia» efectivamente os cos-
plina que a produzimos e não pelo afrontamento. tumes. O exercício da mestria qe si não visava a supre;são <;lo desejo, ma$ a
~ua dominação. Osujeito devia fazer o esforÇo qe renu11ciar: existia:gilerra, cle-
l_.
'9 safio e coragem, nesta tarefa. Por o~tro lado, a obediência ao ~guiamento deve
A DISCIPLINA apagar o desejo, sem qué· 9 s1,1jeito disso se aperceba. A diScipllna a~ariha o de-
1
:~ sejQ n·a sua origem, prevj.ne a emergência e c;lesvia as s1,1as"nµnifesU1ções. 0 ser
'· ~ A disciplina é um cuidado do corpo. 1;[as diferentemente da medicina ou.da disciplinado é «policiado», m.~s a sua suavidade· não éâ.4o guerreiro. Esta sin-

'~ ginástica antigas, que são «musicais», a disciplina deve restabelece; a ordem. gular suavidade; que dissimula a violência dos desejos escondidos, não é mfils- ~
;\{'Jf)J
( A mestria de si, na Antiguidade, é explicitamente pensada sobre o modelo ago- do que a colocação em segredo c;lo desejo e da \liolênçia dli. sua-origem. Assim, .,
nístico; visá-la é adoptar uma «atitude» polémjca <~em relação a si p~óprio88 ». a violência, que na guerra é aberta, aqui enterra-se e ~coná'e~se. O-supliciado
Se a disciplina supõe um conflito, é enquanto guerra invisível, somente identi- punido como o guérreiro senhor de si extraem do seu desajo1a sua e~ergia para
ficável pelos seus efeitos. Ela não é da ordem da repressão. O «bramido da ba- sofrer ou para se bater..Só os ritmonêm mão sobre tantã efetv<:Scêhcia. Em
talha89», que não ~e dá a ouvir senão àquele qu·e sabe es.cutai', ·é um ruído surdo, a
contrapartida, lá onde reinam «ordem e o' silêncio 94», .este tumulto desapa-
·.
rece. Longe de ser como a violência ·guerreira, apenas· disfarçada, esta nova
86
PLATÃO, Protagoras, 326 b, trad. do grego por A~ Croiset, in Oeuvres completes, ill,
-primeira parte, Les Belles Lettres, Paris, 1923,-p. 112.
81
PLATÃO,~ Républlque, m, 399·b,,:tiad. do giiego por E. Çhambry, in Qeuvres com- 9Q lbid., p. 14..
91
pletes, Tomo IV, i,es Belles Lettres, Paris, 1932, p. 41. •· lbid., p. ·14.
88 92 lbid., p. 21.
FoucAULT, Michel, Histoire de la sexualitê, Tomo II, L'Usage des plaisirs, Paris, Qal-
93
limard, 1984; reec:I. Gallimarc:I_, col. «Te!», p. 93. Ibid., pp. 9-13.i
89 94
FOUCAIJLT, Michel, Surveiller et punir. op. cit., p. 360. lbid., p. 13.
.!
124 . 1.25
~

••
\\~.~

HÉLENE L'HEt.JILLST ,:

yiolê~cia não del~a sequer'às suas vítin'f!s o·dire'ito ~e grita,r. A Q.isciplina

º
·..:. 1
tomaria, portanto; a ordem \ogo pela i:aiz.
A desordem d~ qual a·polfcia necesslia tem a ~llª ori~em no corpo - corpo .
(O· individual ou cÕI"P.O social. Qcorpo disciplinadÔ'não é um corpo moldado so-
® bre os ritmos, maS atravessaêlo pel.a ~gra. Manter a ordem não é, senão aces-
soriamente, comb')lter um inimigo. Consiste mais, normalmente, .em fazer 1,1ma
® ingerênci.a na desordem· interior que ' rege os corpos. A polícia entende por II
~
.(.
desordem toda a.massii. c.onípacta e homogéne~ de cuja tendência para se re-
~· constituir se 4eve ·acautelar. É por isso·q-qe'o"seu oójecto privilegiado é a cióa- A ORDEM NA CIDADE .,
de, encarnação dó ·corpo social naquilo que ele po9~ ter de ~s t\Jmultuoso e
·@ de mais espesso. A cidàd~.'com efeito, abriga àmij}tidã9, qve é ela própria um
~.· c.orpo e uma massa C.omp,.~ctos e türbulentos, densos e perigo.sos. A CIDADE, W;1 PROBLEMA POLÍTICQ

@ A cidade dá ttm conteúdo concreto à noção de sociedade. No século XVIII,


a noção de ville (cidade) toma porveze:; o lugar da noção de cité (urbe). Assim,
Boucher d'A,rgis ~aduz p~lis por .ville 1• A cidade (ville) não nasce, portanto,
;7"' '
no século XVIII, nem mesmo no século XVII2• Que se passa então para que
ela venha a ser a encarnação da socialidade, e que seja do problema colocado
pela cidade (vílle) que nasce a polícia como instituição? Podemos certamerite
responder ql).e uma coisa não entra sempre no pensamento no momento em que ,:
.,. "
~· : ' entra na realidade. Mas esse é um argumento muito geral. Podemos igualmente
responder ql).e, se o século XVII ·não inventa as cidades, 'inventa as grandes ci-
! ' dades: Londres e Nápoles, Palenno e Roma, Milão. Mas podemos sobretudo
pensar que a cidade se toma na própria figura do impensável, do inumerável e
do ingovernável. Segundo Louis-Sébastian Mercier, Paris é quase tão grande
" como Londres no século XVIII. Pa,ra Emmanuel Le Roy Ladurie, o século XVIII

.<
«abole a imagem estetizante e fictícia da llrbe (cite); [...] interroga-se também sobre o /

peso do ·!\Úmero: com mais de cinco milhões de habitantês, Paris-Versli!hes faz figura de
enigma e de monstro4».

'. 1BoucKER o'A11.a1s, artigo «.Políé~, art.-dt., pp. 904-913.


i Histoire de la Fr01Jct urbaine, Paris, Le Seuil, col. •L'univers historique.io, 1980-1988, .;~ '•/

cinco vol., Tomo 1. !..a Ville antique, Tomo ll, La ViÍle méditvale. ..
1 ~ERCJER, Louis-Sébasti.en, ~ Tableau de Paris ( 1781-1789), Paris, Mercure de Fran-
ce, 1994, Tomo II,.pp.-781-782..
...' • 1.e RO't'LADl/RlE. Emmanuel, La '(llle Çla.ssique;in Georges D.uby (dir.), Histoire de la
France urbaine., Tomo m. op. Cfl., p.·293; reed. C!wmER·, Reger, DV.ussl1'AND-NOGARET•
.Quy, ~EVl!UX, Rugue$, !,.E lfOHADUlUB, Bmmanuel, {.a Vi/le ~ Timps modunu_di!. la Re·
nai:mmce aux rb<olutions, Paris, ie Seuil, col. «.Points», p. 291.
-.
•· 12Õ'.'" 127
'' .·..

.._
..
HÉLENE L'HEUILLET HÉRCQLES OU O Fm\CIONÁRIQDE POLÍCIA

O qqe se passa então não é unicamente de ordem quan~itativa. Louis-Sé- a urbe é uma forma, 11m modo de organização política. Se o nome próprio é
bastian 1'4ercier coloca bem o acento sobre esse ponto: não é tanto o <;resci- sempre uma marca de singularidade11 , a cidade (v'ille), tendo o nome do seu su-
mento da população ql}e está em causa, como a desproporção entre a «Cabeça» posto fundado~, homem OU del}S, da sua localização geÔgiáfica OU do·seu em-
qo país e o seu «corpo»~. Deste ponto de vista, ·ó ca~o de Paris é menos grave blema, remete para uma identidade que anoção de ur.be niío contém. ?v,fesmo
do que o qe Londres, pois, se as duas capitais se equivalem, Inglaterra é me- .Atenas não designa a mesma coisa conforme fale~os da·cidade (vll/e) coloca-
nos populosa que a França6• · da sob o signo da sabedoria ou àa cité do século V (j. ç~ .,. ' ..'··.
O que torna a cidade impensável, fá-la parecer ingovernável e, por conse- Mas a c,idade não celebra a glória da sua fundação s~plesmente pelo seu
quência, promove-a ao escalão de objectivo privilegiado da polícia, encontra- nome. Colbert não comete o mesmo erro qiJe Richelieu •. AconselÍlàndo Luís .
-se exactamente no ponto onde se cruzam duas concepções do Estado. Se, XIV a ocupar-se de perto da ordem em Pari~. não se refuiíi. como o .fez o mi- '. ·
como mostra Foucault, os séculos XVII e ~ v~em o .E.stado administrati- nistro de Luís ~ no sonho de uma cidade nova, ºr?~mada mas..~em COJP.O
vo territorial dos séculos XV. e XVI deixar lugar ao .Estado de governo, cuja nem alma, como fOi a ci~de de Richelieu. C9Jbert sabe:que- a prosperidade é
maior preocupação é a população 7, então compreendemos que o enigma do sempre económica e demográfica: ela depenú do nú~ero da w1êJJcia dos e
século venha a ser, a pouco e pouco, a cidade. :Pa preocupação do l;lstado, che- seus habitantes. A teoria mercantilista jiinta-se aqui ·ao ·saber poUtico. Colbert
gamos à da cidade. A maneira a partir da qual o Estado se define, em articula- ' lembrava-se talvez da fábula da' fundação de:Alexandria 'relâtaaa por Maquia-
ção com uma ordem desligada das antigas solidariedades, condu-lo exacta- vel. Alexandre desejava fundar ~ cidade:· que deixass~ o traço concreto da
mente a reconhecer-se nas suas cida?es. Luís XIV in'lenta a polícia para Paris, . sua presença na história milndial. Um arquiteçto qesejo~o d~ lisonjear o coo-
que não é uma cidade ordinária, mas 'Política, uma vez; que as instituições do - qvistador propõe-lhe esculpir o monte Athos.para dele fazçr uma crdade-está-
·-
Estado encontram-se aí. A preocupação da popl}lação e a da ordem política tça. Alexandre rid.iculàrizá-o: ·
juntam-se:
«À questão de Alexandre, que lhe perguntou de que viveriam os hàbitantes, ele res-
•..,_ , ,· «A nossa boa cidadê .de Pa,'is, sendo a capital dos nossos Estados e o lugar do nosso pondeu que não tinha pensado nisso. Alexandre riu·se, e, deix~do de lado esta monta-
domicílio habitual que deve servir de exemplo .a todas as cidades do nosso -reino, esti- ' nha, constnliu Alexandria, ~nde os ~abilantes devessem habitài:d~·li~e vontade, graças
mámos que n~da seria mais digno dos nossos cuidados que aí l)ein regular a.justiça e a à riqueza do pafs .e à comodidade do mar e do N'JloÍl:i. • ·
polícia8.»
, • ~aquiavel interprelll esta·escolha como uma préfexêac1a dada à ft;rtilidade
A capital, que é ainda nesta época o domicílio habitual do rei, é notável pelo • · c~ução de uma err.ladeira posteridade, oposta à celebrl!.Ção de uma imB'gem
número e potência dos seus habitantes. Ela representa de maneira embl()máti-
"'e .ji~.. Mas Alexandria !\ão é aperias uma região p .ca: é também
. . .um porto. Num_,
ca o ponto de sobreposição entre o Estado territorial e o Estado de governo. 9 , rto, as vias de circulação contam mais do que os muro~. O modeÍo.do porto
Não apenas .o Estado de território perdura no Estado de governo, como o Es- àaba vantagem sobre o da praça-forte. ·
tado de justiça perdura ho Estado de território. A cidade inst!lla-se com efeito · Ora, no século XVII, as cidades renunciam progressivamente ao modelo da
sobre um território. A diferença entre a cidade (ville) e a urbe (cité) é qllé «a a-forte. O aumento da ,população das cidades não é, portanto, ~penas de-
1~. palavra urbe é uma palavra de direito que não significa de modo algum um áfico; também se explica pelo deslocamento dos lliziites urbanos. emma-
lugar, um sítio, como a palavra cidade 1º». A cidade tem llm nome, enquanto el Le Roy Ladurie precisa que se a capitaÍ 4e França-a.ti~ge o m~io milhão ,
5
.Habitantes no final do reinado de LÜ!s XIY, é porque :contamos conjunto ' o
MERCIER, I,.ouis-Sébastien, I,,e Tablea1' de Paris, op. cit., Torno 1, p. 65.
6 lbiá.• p. 27. . 1 _, .....
FoUCAlJLT, Michel, «La gouvernerrlentalité», in Dits et Écr:its, Tomo Jll, op. cit., p. .!' La Phénoménologie d11 l'esprit, Tomo II, p. 72; Ph/Jnq/ll!Jno.logie de~ Geistes,
7 1
• HEGEL,
~~ ~ ~~~
12
..
• •
.•
8 Luts XIV, E<!it du 17 M~s 1667, in Manuscrits reyaux, ~iblíotheqije nationale, 23612.
0
"' ·l\'IACH!AVEL,. Nicolas, Discours sw la premiêre d~càde de nte-üv~, op .. cit.. p. 190.
9 F01JCA\.JLT, }.;iichel, «La. gouvernement!llité», in Dits et Écrits, Torno W. op. cit., ·P·
EEZ, Oérald, «~s villes en guerre», in Les Cahiers de Fon~ni:;. n."'-30-3.i Junho de
654. ~. pp. 4649. . . · ." . .

128 ·1?0
HÉLENE L'HEViÜ.ET
HÉRCULES OU O Fl,JNCIONÁRIO PE POLÍCIA
13
Paris e ~ersal}l~s • É!~ explica q11e já nesta época o há~ito de c;onsiderar as Instituição. Ele formul~ . tµna palavra que os seus contemporâneos diziam
muralh~ COtr((fUma fron~eira perde-se. A evol~ção pros$e~e nos reinados de ~s frases. La Blllyére-c!izia, sem encontrar a palavra, ·que o problema
Luís XV e de·Lufs XVI::.<<Os s11bijrbiqs incorporam-se cada ~ez mais no teci- da cidade é um problema de polfcia. Ele explica que a potência da pátria seria
do urbano, para lá dO ODStáculO efémero das muralhas OIJ QO que delas resta 14.» vãs.e,
A contagem dos hal;>itântes torrla-se muito importante, ~ a obsessão pelo nú-
mero de habitantes não '~ só um simples simµ qe racionalidaqe poUtica!S, é <Ctriste e inquieto, eu vivesse na Õpressiio e na indigência; se, a eobeno das pilhagen~do
também indfcio de cjue·a matéria de Estado é a ciQ.ade. inintigo, eu me encontrasse exp<:1sto nos lugares ou nas ruas de uma cidade ao ferro de ,,.(
Porque é como· (<inumerável» que o nqmero dos habitantes <!a cidade é um ~Sll$SinQ, e q11e temesse menos, no horror da noite-, ser roubado ou massacrado nas
··.l

apreendido, antes dê ser çontabilizado, é"nei<essário interpretar dialecticamen- espessas florestas do qu~ nas ruas; se a segurança, a ordem e a decência não tornassem
te. a passagem.úacionalíaade govemame11t~l. .Se ~ verqage q1Je não poôemos a vida nas cidades tão deliciosa, e não lhe tivessem trazido:com a abqndãncia a doçu.ra
falar d~ governo•. no sêntido estrito (~.ei>arando EStado e gQvemo), s~não q1.1an- da sociedade 16.,. • ·:
o
. do a acção de governar se baseia'sobrê coµbecím;nto da coisa a go~emar, l'
~antes ·no intei-ior de..uma problemática da ing9vemal;iilidade. dos homens A afirmação de La Bruyêre responde aos text0s de Luís XN. Em 1666, num
- .eqvivalente à resistência·das côis'.iis ..:.. que O!i$Ce' a p91ícia. Ao nomeai qual: édito preparatório à Criação cio cargQ de tenente de polícia, o rei justifica a sua
quer coisa «polícia»~ ;t:ors fIY
no"rneja hm problema mais do q1.1e inventa ~rna preocl,lpação com os d,etalhes ela go'i(ema~o e e.oro as «coisas de cada instante,
e onde não se trata normalmente de pouco 17», que constituem, segundo Montes-
~E R~Y~
13 «Réflexi~ l'es$Cn~
E.mmanuel, su:r el le foncti9nncment de la mo· quieu, os otijectivos da polícia Esta preoc;~pação vem de baixo:
parchie classiqu~ (xv1..XVJi•:si~cle)», i!iifacc à MboutAN, Henry (dii.), ,L'É1a1 baro-
qve., 1610-1652.~aris, Vrinr 1.985, p. XXI. . _ • . «As queixas qqe nos têm sido feitas da pouca _ordem existente na polícia da nossa
· 1' LE ROY ub'ÇRra, Emri:iapuel, .µ vflle classique11, in 'Georges Duby (rur.), Hi:uoire de
boa cidade 4e Paris, e .subijrbios da mesma, tendo-nos obrigado a investigar as causas
la France urbabie Tomo m';º'<ip. ci1., p~·293. ·
15 Sobre esbt'.qiaixl() nqya _pelo n11nlero», cf. REYNJl!, Oominique, «+e regard souverain, cjas quais estes defeitos poderiam procederl9.»
. statistique sociale êt raison d!"&at du XVl''av xvm• si~lei., in Chriman J,.uuri e Dom.i·
' ,. ·niql!e Reynlé, 1.p-:·Raison' d'i1at: politique ér ratlonalitl, .Paris, PUF, tm, pp. 43·82. Participa da arte de governar: .
·, A análise desenvolve-se no interior da problemática da racionalização da jiolítica. Q mime-
ro.aparcce, de fac~. como" ~excmplo-tipo deste fenómeno, contemp<:1rlneo da época em
que a matemática ·«tnz à luz uma outra norma de verdade,. (SPJNOZA, Bthique [posth. 1677),
16
1, apêndice, trad:· do latim por'.Appuhn, Parl.s, Flammarion, col. «Çlami~r Flammarion», LA BRUYt!RE, Jean de, f,,t.s Caractbes, «Du souv.erain ou de la République» (1688),
p. 63). ~tienne Thyau sublinha ºq11e 6 o·mesmo fenómeno que permite dar conta dQ pensa- Paris, Hacbeue, col. «NelsonJ>, pp. 331·332.
17
mentó estatista: este 6 an'alftico, enquanto <! penmnento religioso é an!i)ógico (THIJAU, • ?v,fONraSQlJIBiJ, De l'esprit des lpis, XXYn, 24, op. cit., p. 719. Ae_xpressão é eira· .;:
Étienne., Raison d';f1a1 et-p~ns~e polftiqul! li Npoqu~ de Riçhel~e~, ºP: cit., p. 148). '.Pw:a a da pe.lo comissário Lemaúc numa memória escrita pór orclém de Gabriel -de Sartine, a pe·
substitui9ão, na o!d.em das representações; da analogia pela anfilise, ve1a·se o estudo da no- dido de Maria 'J'.eresa de Áustria, La Police (!.e Paris en 1770, p. 8. Este texto só foi edi-
'
ção de ordem na rêpresenração .feita por F<!ucault em ~$ !efots et les choses. Une arr:Mo· cado no século seguinte (Paris, Çliizier, 1879). As referancias aqui dadas são dêsta edíÇão.
Jogie d~s sci~nc~s· huniaines, Paris, 'oalllinard, 1966, pp. 64-72. Nos inícios do século A frase de 1'.:fontesquieu é igualin~nte retomada por Foucault, que também atribui o seu ·'
XVII, .,à idade 4às semelhanÇS.s está ein via$ de se fechar sobre si mesmu (lbid,, p. _65). ijSO à im,peratriz dn R~ssia Catarina II; cf. FOUCAUJ-T. Michel, Survelller et punir. op. cit.,
«o semelhante é dissoc\ailo11 (lbid., P:·68), e e ordem ap~cce ~mo uma .figura rad'.cal· p. 249.
menre inovadora~ . «Esta 're1~ç_l!"Q ·eom a Orykm ~ t.ão essencial na idade clássica como unha is Sobre o sentido desta expressão, que não significa que a cidade é uma praça-fone, nem
sido no RenascimefitO a ;elaçã<rcom a lnterpmação (ibid., p. 71 ). ~as mesmo se a gover- c?muna liv.re, nem que goza de qm tratamento ou UIDll afeição particular p<lr parte do rei, e
11arnentalldade exige o nú~ei;o,'.l;ma tal preoc\lpaçio não é, lajvez, unicamente decorrente amda menot que·é objecto de uni vago elogio, cf. CHÉ\IAl.IElt, Bernard, Les BonMS Vllles de
;~ de uma preoçuyaçãi;i de hicfonalidade..Esta dí1vi4a não deve conduzir-à pretensão de rcve-
. Íafsoõ a .razão, a desrazão:'.ou - pa!Jl retomar a5 oposições irónicas·de Fo11ca11lt - sob ir Franee du XJV< au XYl' si~cle,. p.a,ris, Anbier, 1982. Este autor explica que a noção ele bonne
llillc deve ser cn1endiáa na oposição à cidade ~ral. Com efeito, as bonnes 11illes são «pôtên·

' mecânica,.a vida, ·sob ~ m~t~D?ática, informe. Mas irata-se ,de tenuncisr' aos Jugnres-c'.o- c'i.as êepazes de se impor CQmo, tais pela Sl!a e.xiscênéia como um dos principais ''Estados"
'lnuns da mecanit;ição ·e 4a· ma_tematização. É'a ordem enquanto tal q11e deve ser pensada. dentro do Estado» (ibid., p. 43).
. sem a reduzir a uina qÜalquer evidência. de racionalidade é sem lhe'opor, portanto, uma 19
«t3dit d1.1 Roi pbur la. san;té de la ville de Paris», Dezembro de 1666, in M,prniscrits
qualquer irrncioniltldade: (ibld., pp. 70_-71). royaux., BibliotMque nationale, 23612, 909.
. ; -.
130
131
•. .,
~-.,

~
r71• •11
1i ;:·

j1. •.'

\,;•e
,
HÉLENE L'~UIT..LET HÉRcl,JJ..ES ÔlJ O Fl/.NcrbNAR!O DE POI,..lCIA

meato da pa,z. Definido ijlll território sem estar deÍmido por ~le, abcigando uma
(C';)
l.t
,,·'.-
«Não obstante, como não estimamos ql)e nacja esteja abi!ixo da nossa atenção, e que
população que lhe dá em contrapartida o sell. estilo· e a süa·reputação, a cidade
. podemos bem descer até às mais pequenas coisas _q1,1ando sé trata da comodidade pllb!i·
~

ff? ·'•
'LlJ)
·'
'
ca [...], etc. 20 .» parece ter nec_essidade de ser govemacja na ~epenciência. do Estado."'Se ela fos-
se definida pelo seu território, não seria mais do que unia espécie de prinoipa-
cjo, e não uma cidade. A cidade não deve ser govêmada' como o ~tádo, pois :..
~<f :i Mas porque é que o termo «polícia» é escolhido? Porque é que a cidad
apreendida como um problema de ' ·? ·
é
ela não é o Estado. O governo da cidade deve ser específico. Não .(ieve asse-

:~. ~~ ~.. -~ p!!:ss gem o Estado de justiça feudal ao Estado administrativo e depois gurar a defesa do território, mas deve ocup~-se da população. Se . não existe
ao Estado de governo faz-se acompanha,r de uma modificação das figuras da harmonia natural, é a uma forma de go'éemo específico que compete o cuida-
t·:~ .~
iffilf sociabilidade. O significado da cidade residiria ·no seu modo de organização do de velar pela vida com_um dos habitantes da cidade. '
i!r
(_ ;·~;{.~ -~
~ft
;;illll
social. Oposta ao mundo rural, que é tradicio~ãlmente associado à feudalida- .. _ ..
·:··.
tt/1 de, ela designaria bem mais que um reagrup'ame'nto~ A cidade, para o Estadçi '
«A ARTE DE PROPORClO~AR AOS HABITANTES OE UMA CID~B UMA vIDA· CÓ~ODA

'
feudal, é um facto, não um problema. É o p.ensamento estatista que dá à cida-
~--'-'' de o seu sentido. A ideia fundamental de Étienne Th1,1aµ consiste em avançar E TRANQUILA»
'
\.,;:j~
~ q1,1e, assim que a ordem social se dá por análoga à ordem nat1,1ral, ela corres-
'
~;a
~ ponde a um modo de organização paternalista: A solidariedade dos membros, J;;>a mesma forma q1,1e a ordem assenta sobre a desordem, a felicidade re-
lj,:. :~~:-:
,·~ na famfüa, assenta sobre a s1,1a diferença de lugar. da mesma forma que à si+a ~ulta de uma infelicidade original. Tal como a 9:dein e a·Jus~ça, a vida cóm?-
,_,
k. ·r

r;~
pertença comum. Para ele, é uma orde~ mecâníca q-qe funda, no séc1,1lo XVI, da e tranquila é um artificio: provém c;!a existência de uri:i.à polícia. is .necessá-
~® as Leorias do Estado. 'r-!o quadro desta análise, a passagem do modelo da rvra- rio reserv.azmo-nos de ver na filantropia policial uma':teritati~a abusiva de
1 tL-;i· ;. -~·
lidade ao da urbanidade seria a tradução, na experiência humana, de uma legitimação: é sobretudo uma concepção do :viv~r:-em conjunto.: ...
~'-{
~-_µJ
<...•.
ºi~ 1
-
mudança qua não é apenas um acontecimento da história das ideias:

«A passagem de uma concepçã_o a o_utra será do_


lorosamente sentida pelo homem do
século XVII: ela corresponde \,lm pouco ao abandono da qljente intimidàde familiar e à
: Boucber d'Al"gis parte de "Qm axioma inspi.fudo no pnmeiro êapítulo do
Traité de police: '.·

«A vida cómoda e tranquila foi o primeir~ o\ljectivo das sociedade;: ril~ os e~s
~r·.
descoberta da solidão humana num mundo frio e hostil2 1». eram talvez .mais comuns, o amor-próprio mais refinado, as ·paixõ~s, senã~ ·mais via-
"
~-i'
l
~
fº"
' .lentas, pelo menos mais vàstas nos homens agrupados dei que rios hoinerts dispersos 22.»

~ A ordem natural finalizada da teologia medieval correspondia a um modelo


de sociabilidade fundado sobre a solidariedade e a comunidade. A ordem.me- A evocação de uma dispersão anterior à sociedacje é talvez um eco da filo-
i~
.~
'-'·
cânica do pensamento estatista corresponde a uma forma de sociabilidade q1,1e sofia de Jean-Jaêques Rousseau. Os pensamentos são _por certo diferentes; Bou:-- ~
e ''•
":®
,.,
~N..f assenta sobre a independência e a divisão. É a cidad~. que não exige nem a Q.e- ; cher d'A.rgis não é filósofo e escre'ée enquanto junsta. t;Jão dis!Jngue á Ciftica da
"'~- ·.@ pendência nem a comunicação, que parece ser o lugar mais conveniente para • sociedade e a reflexão sobre os princípios do direito. ·Pelo· con!rário, .a crítica
,..,,_
"· ;~
esta maneira de viver em sociedade. A cidade seria o loca,! onde a ordem natu- da sociedade condu-Jo a uma definição da polícia. Não eJciste, com efeito, para
::!:> ral daria lugar a uma desordem natural. Com efoito, mal-grado a aparência, não . ele (e nunca existiu), agrupamento humano no qual a- coeSão llão seja parado-
( :~ existe analogia entre a ordem natural e a ordem mecânica. Se a leí da natureza ' xal. O termo sociedade significa; segundo e!é, muito mal àquilo que designa:
r
~ não é mais do que a ordem das causas, ela é, do ponto de vista humano, uma.
'Í ~
11, desordem. A ordem htµIilina está por .estabelecer, não está preestabeleeida. «Chegou quase a acontecer o contráriq daqui!~ que se tinha proposto, e ~quele que, •
fF.,.•. ~..
A,, Mas se i+m tal fundamento é necessário, não é-suficiente. :Sle deixa inteiro não ouvindo senão o valor, se esforçasse, acerca da: sociedade, por formar u_ma ideia da
,, .,:,t_
o pioolema d~ ~anutenção da ordem e da su.a diferença com _o .restal;>eleci- · Goisa, adivinharia exactamen.te ·o contrário daquilo _-q~.e é23·" · ·
~

,t . ~

.,
F -:
<: 22 0 ' AROIS, Boucher, artigo ..Police», art. cit., p. 904.
'
;
~&~ '
~... ·~ "" 21 THAu, Étienne, Raison d'État et pe~!e politique à l'époque de R.ichel!eu, op. çit., p. 151 . 2J fbid. , p. 904.
• .-
r 132 133 .·
rr.::';P, ~
HÉLtiNE L'HEUILLET HÉRCULES OU O FUNCIONÁRIO DE POLICIA

Em vez de se agn1parem, os homens opõem-se uris aos outros; Em vez ·de vasta (cidades, grandes Estados) teria na verdade aumentado «a agitação e as
serem aliados estão em
concorrência. É por este meio índirecto ....,. e não pelo divisões27». 1v,tas se - como pensa Boucher d'.Argis - a cidade, semelhante
tema da desi~lildaqe .:- que ele sej4nta à. crítica roussc;aQísta da cidade. Em nisso a todas as outras fonnas de sociedade humana, deve ser governada,
;o
Rousseau, as ciçJades sãó lugar do espectáculo c!a desigualdade social, 4o ar- requer uma fonna de governo que responda à sua especificidade.
tifício e da aparência; ~esmo se Ro1,1sseau e Bouther d'Argis não atribuem a É por isso que, indiferente à origem da legislação, Boucher d'Argis não faz
: mesma origem) antipatia social (neste, ela é inerente à socieqade), evocai:i 4a polícia um efeito çla cidade,"mas da distinção entre duas formas de Jegisla_-
os dois o probfoma do século: a cidade e os seu.s costumes. Na cldade, .ºs ef~1- ção, o direito pdblico e o direito privado. Os dois visam produzir um remédio
. tos da :sociablidade. são ·oütros tal).tos obstáculos. à sociabilidade; e a msoc1a- para os inconvenientes da sociedade: o direito público visa o «bem geral da so-
- bilidade é uma consequênéia da s9cíabiÜdade.·A sOciedade produz a sua pró- ciedade», e o direito privado, o «bem dos particulares». A diferença entre a po·
- pria ameaça, não per qualquer erro de procyqirnento no agrupamento, o qual liteia e a policia é \!.ma diferença entre uma polfeia g~ral e uma policia parti-
qm poµco de ,baa vontade poderiit remediar, m;m mesi:no e.m 'lirtuc!e de_ qu.~­ cular, entre t1m sentido largo e geral·da polícia e um sentido restrito e técnico:
~
i.,J,~
qÜer falta cará'C_teástica ~o· hQmano, mas do próprio movimento. 4a s?c1_abih- «Os Gregos deram o nome de-polícia ao primeiro ramoZB», enquanto
C!ãdê, que, u-ru;sportando o's hom~ns qns ém direcÇ.âo aos ou~os:, multi.p~ca_ ~
&!
~ .,J
.

pàixões, e incíusive no que e!as._têm ~e errónep, até noci o para a soc1abil1- «O termo polícia quase só se toma entre nós neste t1ltimo sentido. Es111 parte do gover-
@ . dade. . .
no ~ confiada a um magistrado a que chamamos tchente de po!Jcia. É ele quem está par-
Delamare· àcreditava ~nda na:l~gislação. O início· é idêntico, mas onde

1
• • •• •
0
ticularmente entarreg'ado <!a execução das leis publiçadas"». .
. Boucher d1A;gis tenta Jiertsar uma ~insociável sociabilidade», Nicolas- J;)ela-
a
. mirre contentavá-se com c)posiçaO tradicional da sabedoria e da loucura:
. .. UMA LEGISLAÇÃO PARTICVLAR: Q REGULAMENTO
«A vida c6moda e ti~nquila· foi o primeiro objecto destas sociedades: mas'h amor-
-próprio e óutras paixõ~s l~nçararri· nelas a agit~çiio e a divisão. Para reme9iar este mal, A diferença entre o sentido -largo e o sentido técnico pare~e. ponanto, estar
os mais sábios dentre os lt~mens·recorreram ao estabelecimento das leis1 ,,. :. em que no segundo a polícia não é um ramo autónomo da.legislação, mas uma
4

: parte desta. Ela•cobre tamÇém a. diferença entre a lei e a sua execução. Ore·
... · As.leis, errf Delamar~; estãc;>. siilvas: a sua origem encontra-se na sabedoria : gulamento seria então a fo!'IDa de legislação que convém à polícia, pois é uma
de alguns. Bo~cher d'Argis retoma o princípio da génese da legislaçã~, mas . @giSlaçãtrpartrou ar e uma aplicaçao· a eg1s ãção geiãl. \'.5 regulamento é are-
impessoaliza a sua origem: «Proc~rar,am-se remédios para este terrível mcon- ,'. tferência do tenente de polícia nos assuntos de p,a"lícia. A diferença entre o sen-
. veniente 1 e fizeram-se âs leis25.» Em vez de tima antipatia constitutiva do so- . tido geral e o sentido restrito da polícia é também uma diferença entre a terra
cial, que se r6.tira dÓ texto de Bou~her. d'Argis, em Delamare, a sociabilidacje,é · e.idade. !,)e maneira bastante extravagante, Boucher d'Argis atribui aos Gre-
anterior à insociabilidade: a sodedade precede o se\l desregulamento •
26
' -:
os «a ideia de i;ma polícia do mQ.ndo3º». C~rqpreendemos. be-in que ele pre-
. Mas já eni petam~~;é a cidade que toma a polícia necessária. É na cida• ' ende falar da definição formal da polícia31 , tal como Delamare a expõe. Mas
. de que surge ~ insodabilidade:,·a pàSsagem de uma so.ciedade si'.11ples e qua~• 27 lbid., I, 1, p. 1.
· titativamente reduzidá..(lugarejos, aldeias) a uma sociedade mais complexa•e. 28 J;>' ARGIS, Boucher, artigo «Police», art. cit., p. 905.
29 lbi<J., p. 905.
'
--z4o~MAR~, Nieolas: Traité 4~ police, op. cit., Livro 1, útulo primeiro: «Idée génér.I : ;o lbid., p. 905.
31 «A sul! politela estendia-se, pois, a todas as formas ele governo: neste sentido, podia
!e de la policeb, P,· I. . · ·
2$ D' AROIS, ~oucher ·artigo «Police», art. cir., p. 904. . o dizer-se a polfcla do mundo, ·monárquica aqui, aristocrática noutro lado», ibid.,
. 26 o conteitto ~a ífàse iitilizada p.or :~oqcher. d' Argis e_po~ DeJamare.é difcre~tc-. <
· OS. Delnmare escrevia: •A pála''.-3 polícia, que p~ssou dos Gregos aos Romanos, che-
quanto 0 pri.meíio parte de um princípio gen.1. a saber que -«:11 vida ~mmi~ e ~q111la foi ' até nós com o mesmo significado, mas como tem em si·todas as formas de governo, e
primeiro objei:to das ~ociedadesit, o seg\lndo começa por uma ?lllTlltiVll•de ongem .~~da ~rque houve várias espécies de governo, ~equívoca, Por vezes, toma-se esta palavra como
no «amor à socfédade que os bom é~ t!nl !1º inascen; J;>ELAMARE, Traité lk la polic~. o governo geral qe lodos os Estados. Então podia dividír-se em monarquia, aristOCT1lcia,
ocraci11», n-aitl <k la police, Livro I, êap. 1, op. clt., p. 2. -
eit., I, 1, p. 1. '

135
134
,
"' •
fl'

~
J,;
~· HÉRCUL.ES ou o FVNCIO~ÁJUO PE POLÍCIA
~ HÉLENE L'HEUI!,.LET ,.
'
::-:8: i
.:1:1;
este não tinha a incongruência de precisar que ela seria a «arte de proporcionar
32
MULTIDÕES PARA POJ,,ICIAR
._
'{

a todos os habitantes da terra uma vida cómoda e tranquila Se admitirmos


f8 -~ esta definição um pouco surpreendente, a polícia urbana po<;!e ser «rigorosa-
».

~ ~ ~.\.
-~
..\)··
mente» deduzida. É por dedução do geral ao particl,lfar que a polícia se torna a
('}'' t')
·~\·' arte de «proporcionar aos habitantes de uma cidade [por exemplo, da capital]
uma vida cómoda e tranquila33 ». Una na Sl,la definição, a polícia pode ser di-
@
versa nas suas aplicações. Por definição, ela desposa ~ circ1.mstãncia e o lugar:
·•.
f>. ~~
...;2~~

~rp «É o génio dos povos, a natureza dos lug'ar~s que eles habitam, as circunstâncias nas
34
·.
quais eles se encontram, etc., que decidiram os rne)os próprios par~ obter as vantagens .»
·~
,_-,~
~

\ ,, '$ Assim, longe de ser deduzida, nos textos fundadores, da politeia grega, a
~@> assimilação da polícia à «polícia de todos os habitantes da \erra» permite pen- .~
sar que se trata do inverso. A cidade oferece uma releitura da politeia, e a po-
-~
~ lícia é deduzida do modelo parisiense. Para ~oucher <:l'Argis, «a terra» é como ·.
;~•:(°\' •'
·~:.!
!.
1 l,lma grande cidade para policiar, e o governo da cidade torna-se no modelo do
\' :~: .:~.:r · ?-.'
/ governo. ·,
@ [ É certo que a polícia parece ser um singular gov:erno1 pois não se ocupa se- «No séeulo X'lIII, em numerosos relatos de viaj~ns, ir.ua:se menos d~ exoúsmo do
\.,/
" ; não de detallies 35• O regulamento é da ordem da legalidade, sem ser uma lei. As que de espanto inquieto. Atordoados pelo ruído e moviment6,.os visi11111~ reprod~m·
\,; !\:'~
decisões regulamentares qizem respeito àquilo que não entra no ql,ladr? da_ lêi.""° dia a dia 8$ suas ~prcssõc.s, particularmentc sôlic:itadas peJÔ vai~ém in<:es§ante da mui·
·@
Na ordem juMciái:ia, o ~güíainen o "PQn üi à aíshnÇão ãápo1icía~e'dafúsuÇa. tidão, o ruído en~utdecedor, ~ sujidade malcheirc?sa e a bruiàlidade de um. ~aço urba-
~...~; .f
;j Em matéria judiciária, o juiz, de alguma maneira, apaga-se perante a lei: «No jul- no que os acolhe sem considcração42,,. ' ·
' . '-~·-

~
ti.
gamento dos crimes, é a lei que pune, mais do que o magistradc36.» m matéria
37
C,,, da polícia, é o ipverso: «É mais o !ÍUlgisaado, do que a lei,. 1quem purie .» . as
..;~ Isto foi bem destacado por Fl'l\D~i.se Charles·D~b#t, no.seú 'artigo cI..e "libéninage
31

.
_ , ... - isso mostra fiem êjue a polícia não é uma simples·execução da lei, que ela não é érodit" et le probl~me du conseivatisme'énÍdití., ln Mêi:.!idULAN, Henry (dir.), L'ÉtQl barÕque,
i® susceptível de uma abordagem simplesmente jurídica, ql,le ela não é baixa no !610-1652, Paris,'Vrin, 1985: N.a passagem consagi:ada-.à noção de pôvo nos ~aoies li-
bertinos ~ séc~o XVII. esta' autoia mostta coJr!ó. o pe~amcnto libenino, que'. tcm o saber ~
t. :~ sentido de subalterna, mas no sentido de uma fotma.especffica de' gover;}O -
ççmo v8!°r maíor, toma prim~iro o povo.como ca1egoiia intelectual (os.espíritos fracos). para
\__ ;i.,
que ela não é um·detalhe. A sua espee1 c1 e, a po çia parece retirá- a o seu
·~ em segwcla o entender (apenas) como cntegorla social: «Passa-se, llSSÍJ:\'I, de uma noção de ·
~ .~.. :
objectivo, a multidão, que reiJne os mais pequenos elementos do co~o social, e povo, definido pela sua credulidade e ignorância, para uma noção.de. pol(o, massa, poder po-
l
"
~ chama a atenção do público para o baixo. tencial que~ necessário domilul,oo, lbid., p. 183.
"'(·· 39 Não~ demos, mas or:hlos, para retomar a distinção p!arónica. Cf. RANom, Jacques,
êlí·; Atee bords du politique, Paris, Osiris, 1990, p. 21. . .
(" -· '° +a
'
~
1 FARGE, í\rleue, We fragi/e. l(io/encl!, pou;oirs et solidarif,ts·à Paris àu XV/l/' siê·
•. ,de, Paris, HJ!chene, 1986, reed. Le Seuil, col. «Points», pp. 197-321'.

1
t: i2 D' ARGIS, Boucher, art. cit., p. 905. • ~ 1 Neste ponto, o pensame~to libertino é mais maquiavélico do quç o próprio Maquia-
33 lbid., p. 905. vel, para quem o povo-não det4m o monopólio da inéonstância (os Espelhos dos PrúJCipes
( 34 lbid., p. 905. nã~ existiriam se não tivesse sido necessário ensinar.aos reis a.conslâneia), at6 porque a his-
is «Ela ocupa-se perpetuamente de ,qeta,lhes: os. gr.andes exemplos não. foram feitos tóaa mostra que, se um povo consegue o poder, .e!~ 6 mais cons~te e'Sábio que um piín-
~
. para ela. Ela tem sobretudo reg11lamentos,. .não J~s», ~ONTESQlJIEU, De<l'esprit des lois, clpe, MACHJAVEL, Nicolas, Discours .sur la premi~re áicade de TIJe.Uve, op. dt., cap. LVIII,
pp. 143-147. ··

1
(' XXVII, 24, op. cit., p. 719.

r
36 lbid.; p. 718,
31 lbtd .. y. 718.
42 FARGE, A;Iette~ Vivre dans la rue à Paris au XVIII' siecle ,Gal~ard-i~Úiard 1979
col. «Archives», reed. «Folio», p. 16. ' > '. .· ·-:- ' ·'
·-~
.,_..
1.
.-::;-.

--·--;..
136
('~ ~~i
~~.··
. HÉLENE L'HEUil:LET HÉRCtJLES OU O FUNCIONÁRIO 'DE POLÍCIA
(f ;.i'.;

No século Xrx, o cuidado com· a multidão ~orna-se na maior preocvpação . 1


«Ela pode conter not'malm.ente vinte e cinco a trinta mil pessoas. Estava negra de <1?
. da policia. Pa:Ssa-se assim c;om as róqltldões .re~nidas em Pa,ris pelo general
~~~. .:j
uma multidão compacta. O general coloca-se no seu lugar e, para aquecer o entusiasmo
· Boulanger. O ~iato qtte..dá o prefeifo ~pine da s~a oPet:ação manutenção da
;!':',
4e cya multidão, dá 11ma volta triunfal ao obelisco. Eu estava à cabeça da ponte com du- ··-:<:
,,-
\.::..;,:

ordem mostra como o perigo da mii!Mão não venrtanto de ~ma força c;omo de zentos gqardas e um esqgadrão em coluna cerrada por detrás de mim. Tinha consciên- :j
......
uqia massa. o·perig~ nasÚ ela cônjunção da qvantidade com a Çensiqacje. Não cia de q11e o instante era crítico. Se; af chegado, Boulanger se tivesse erguido na sua via-
apen!l.S a m1,1Jtidão pôi:!e ser louca, pois os seus movimentqs são inde(errnjnados, tl)ra e tivesse, com o chapé11, convidado a multidão a segui-lo, eu teria sido varricjo e a "'
como ela é uiia, Âsociedade é uma cpmposição do uno e Ço m~ltiplQ, 011 Qo câmara invadida, com todas as consequências q11e este acontecimento poderia implicar.
'-
outro.
·mesmo e do A ín~Jtldão é ape~as fusão. Á repressão dev~,·porfã;ntõ, prç- Os landa11s passarain sozinhos à minha frente sem incidentes, e a barreira foi restabele-
··-
ce. er por es 9cação. -tépine nãç a considera como o afrontamento de dois po- cida por detrás deles. ~ara duvidar QO perigo corrido, é preciso nunca ter constatado a "-
tfores, mas como. u.m . exercício
... . ele reindividualizaÇ.ão,
. ~
que~quer
. preViamente a energia dinâmica que se liberta de uma grande multidão4~,,. "
· ~ ·· deéomposição,da ~sa _ compacta. Ele con~a como, depois de ter colocado ~>

.~ · .· B9ulanger mil'Q comboio; na garé de I_,.yon, em 8 dé Julho, teve de se 0<;upar da A polícia de ordem, na mc:dida em q11e está encarregada de salvaguardar as ,.-
.-
. ·:: .. ~11ltidão cone~ntrada· na :~are e·desapontada por esta partida: insígnias do poder, vê, portanto •. em qualquer multidão uma ameaça instirucio-
nal. A continuidade das policias, d.o antigo regime à repl1blica, não se deveria a
«E agora, ·como evacuar a multidão desil11dl<)a qqe c;mpurrava e gritava furiosamen- um traço de carácter subjectivq {a cultura da obediência, por e~emplo) , mas a ~

.'
te? Não tinh~' pensadq ni&So e çei:ri à ~astilha para esperá-la. °Já comeÇava a desembocar uma identidade do object . N,os dois casos, trata-se de governar a ttlmte~ (!
da Rua de I,.yon. A cabeçà 'marchava em'\fi!eiras 11Cm.das, oficiaiS em \lnifonne, c;!e q11é- tonomia da policia dever- e-ia, por conseguinte, à const§.!lcia do seu objecto: a
pi na mão, ~iavam-na. Gritavam todOS'a uma voz "Ao Eliseu!''. J;lu+entos g1,1ardas es- cidade, e mais exactamente a grande cidade. Q11e a polícia tenha necessidade da e
tavam esta~iÓnados ·ao pé dçi génio da :Sasti!ha. Com eles, C31feguei sol;>re -essa massa, desordem deve, portanto, entender-se stricto sensu: um «grande chui» é: alguém ,...
córtando-a, ~inpurranda:-a; ptocurando deslocá-la, procura.ado desagregá-la43 .» que passou pela prova da desordem.
... ,1
. :: A grande cidade é, para além do mais, uma das causas alegadas para expli- ,~

car o nascimento, o cjesenvolvimento e o sucesso do romance policial..Enume- ;•.


rando, no início da sua obra, estes diferentes factores (a fascinação pelo crime, '
~ r·
a atracção pelos aventureiros, o gosto pelas intrigas), Régis Messac faz notar: ~

«Por debaixo de tudo, o sentimento da compleiddade misturaclo de espanto que pro- ·1 ~ '
porciona o espectáculo ·das m\lltic!ões agitadas daS grandes cidades, da ·Sua acumulação
_,l
·-
titânica de pedra e ferro encontra-se tão frequent.emente expresso no romance policial,
que seria necessário procurar-lhe a causa e estudar-Ih~ a origem~6.» -
t<

Que, na sua conclusão, ele chegue à ideia de que a grande cidade constitui
unicamente o cenário do romance policial é tanto mais interessante que ele note
- Ci!\le a realidade urbana toma o lugar d!! floresta47 • Mesmo se, segundo ele, o ro-
: mance policial pouco vai buscl\l' à verdadeira polícia, <:le vai; no entanto, l;>us-
car-lhe o seii real: a multidão urbana. A polícia é na verdade criada para a·.cidade
r-- . _,
~ 5 Lé!'INE, Louis, Mes souvenirs, op. cit., pp. 70~ 71.
~ MESSAÇ, Ré~is, Le D.étective Novel et la naissance de la pensée scientifique, Paris,
6

41 LáPINB, Louis, Mes souvenirt, op: . cit•·,1p;.·69. ' Honoré Champion,' 1929, p. 11.
.,. BERLieRE, Jean-1',ifiirc, ie Préfet Lépine, Paris Denõel, 1993, p. 90. ' 1 lbid., p. 6.52. .

138 139
!{ÉLENE L'HEUILLET HÉRCULES OU ó FUNÇIONÁJUO DE POLfÇIA

e permanece urbana. A polícia das regiões nirais é-lhe preexistente; criada ~ rua-é a própria obra da oolícia Antes' neÍa m~ter a Qrdem, regular a ci,.r-
de
no século XIII para apanhar os desertores; os ladrões e os crim.inosos de estra- culação e vigiar a sua higiene nurnmação, '6 nepessário ,ra,ze:1a e~tir. quer dizer,
f
da, o marechalato, como mais tarde a guarda, opera essencialmente no meio ru- não apenas Qesenhá-Ja, mas também instituí-la: d.ar-lhe um nome. Á _primeira me-
ral. O conhecimento do terreno, no campo, é o das passagens ordinárias ou ex- dida do primeiro ienente de polícia, Njcolas de.La Rejrue;.é :à.de abrir as ~as do
traordinárias, que se tomam para se deslocar. ~a cidade, é na multidão que nos Cairo e do Nilo, na ideia de destrúir o «pátio dos :lnilagres>~, ti~o não apenas pelo :
escondemos para desaparecer. No campo, a ameaça vem do vagabundo: 'llem do esconderijo dos ladrões, mas fiar \1ID lugar oride precise,Í.ilênte o dentro e o fora;
exterior. Na cidade, v.em do interior. O sentimento de perigo é, portan\o, difuso o privado e o público, não se separavam de nenhuma forina É em 1728 que ai · . '
e const;ihte: pode se~pre acontecer tudo num lugar onde se circula com Q.ifi- ruas cameça,m a-ter placas indicando o seu nome52• Pemnie·a recusa popu em
culcj.ade e onde nos podemos perder na multidão. }4as não existe romance onde ãCe1ar uma resiõencia . a , a msntuiçao res1s regulaÍido. a circ açao. o mes-.
os oficiais do marechalato e cj.a guarda sejaqi os. herói.s de uma história de sus- mo princípio que preside à fi,xação o nome p pnÕci~ pes,soas, ruas e da rna-
pense. Temos dificuldade em.imaginar um romance policial que se desenrolas- triculação das ca.rroças e viaturas públicas levada a ca~ pelo tene~te de polícia .
se no campo - se exceptuarmos as zonas rurais urbanizadas Q.os arrecj.ores das Hérault (1725-1739) - ao mesmó tempo que as primeiras regras ~e ch'culàção e
grandes metrópoles contemporâneas. Ora, o que distingue a cidade do campo é de estac' ente"Ul'bah . uan a au . ele q 1ge que s · os irn6-
...
a intensidade cjo agrupamento e a capacidade de deslocação. ve· . A rua é não apenas um corte real, mas um.recorte nominal éla ci
..
'·• Por oposição à selvajaria urbana natural, uma í::iqade policiada seria 1.1ma ci- serviço e fünpeza llZ- P , por definição, da urbani a e; uma vez qu ·
daae que tem ruas, uma cidade di'iid!da em b~os , P.~ª, ci: ca, e p;l,..l uitl'P-ocle- é aquilo que permite à cidade ser um lugjll' de.troca e não apen~ 1Jm conglo-
mos organizar o plano. Se a cidade se·toma, nos séculos XVII e XVIII, um ob- merado. É a partir do século XVII que a preocupação',com as ruas se toma um
--· jecto problemático, é também por uma razão m.~terial: ela só tem por vias ~as objectivo da polícia e que se passa a considerar q11e é'iim assunto.publico, sus-
«estreitas e tortuosas onde a circulação dos homens e das mercadorias era di- ceptível de ser regulamentado. No ~éculo XVI, não er~ por preQ_rupaçãQ 'com
fíci148». A rua que não é_ rua, nas cidades onde s~ circula ma!, é um espaço que a ordem, a b~Jeza, a segurança ou a higiene que; ~s pessoas se ocupavam da ruJl,
despreza a separação do público edo privado. A rua não é um simples lugar de mas por senndo de honra55• A sua manutenç~o era privádà: cada particularvar-
passagem, mas um lugar habitado. Arlette Farge explica: ria a sua parte da rua'6. · ·.
O gesto de La Reynie surge como inaugural na tarefa infinita da manuten-
«A nJa parisiense no final do antigo regime é um espaço q1,1e não se escolhe, 1,1m ção da ordem, tanto q~anto o seu· objectivo é a cida4e. p que ~tá em jogo é
..
- tomar publico o filie era privado. ~a verdade, não é a potência pública que ne-
- espaç.o q1,1e se ocupa pela única razão de que não se poss11i 01,1tro, um espaço para viver.
[...] Deixada àqueles qqe não dominam nem poss11em, ela é, mais do que 1,1m h1ga,t de gligencia as cidlides, mas os particulares que .resistem' ao·~~ende~te do poder:
l
(r.-'
passagem, uma forma inevitável de existir. [...]Assim se desenhvm espaço o.nde não emard Chevalier descreve como, nos século~ XV e Xvr, os
!Qa.os esforços.dei
existe nJptura real entre o deritro e o fora 49,» · rei e dos parlamentos foram postos em xequ~· P.elas esJ>ecl,llªÇões t manceiras e.
pelas empresas privadas, para con,cluir q~e. no exempl~J!Ie~iso .da construção
<je pontes capa;zes de res~stir às .grandes cheias·dos riós,.~será neçessáriQ para
ARUA ".encera natureza, ó-pulso e os meios financeiros dos grandes intendenies do
século XVIIJS7», A rua toma-se num Jugà:r;eomum da causa'da ordem. A ques-
A rua é um objecto da polícia desde a criação da tenência de Paris50 • No fi- tão da circulaçâO' liga a· monarquia !i?soluta a toda-a polícia m?dema Ela dá
h.
o
nal do século XIX. Lépine gosta de se fazer chamar <qm;feito da rua51 ». Para
Vivre dans la rue à Paris au XVIII• siecle; ~p. éÚ., pp..241-242.·
52
um policial, fazer a prova da desordem, é fazer a prova d;i rua. FARGE, Arlette,
"~~m . . .. .·. .
Gun.u.ure, Mlmoire pour la rljor~tion de la polic~ de Fr~e, op. cit., p. 22.
54
48 EL-oHOUL, Fayçal, La Police parisienne dans la seconde moitié 4u XVIII' siec/e
(1760-1785), op. cit., Tomo l, p. 261. ili ss «A honra da cidade exige q11e neJa se possa circular com facilidadei.; cimvAUER, Ber-
49 FARGE, Arlette, Vivre dans la rue à Paris au XVIJ/' siecle, op. cit., p. 20.
nard, ú s BoMts Villes ~ Fran~e du XIV' au XVI' si~cle, op. clr.: p. 224 . ·
50 Jbid., pp. 261-389. ló lbid., p. 225;
li L~!N.E, Louis, Mes souvenirs, op. cit., p. 128. 57
Ibid., pp. 225-226:

140 1.dl
N..f1:J'. r; t ,,
Í\· ,.~ l
\.,..
f
~ \.A-
1 '\ (J. ó'~
\;"-. \')'·~.... ' .

HÉI.,fil\E L'HETJILLET HÉRCULES 01,1 O Ft}NCIONÁRiO DE POLÍCIA

lugar a uma võrdaáeira lenda policial: o qve se toma tradição e comporta uma Belle Époq\le, o aci4ente de circulação torna-se numa ercj.adeira c;a\)sa de
obrigação de tra'nsmissão:· Assiro, qllando 1:-ouis \,épine evoca· q emaranha4o insegurança urbana63.
·..:..:...
das ruas de Piiris do a.nti~Ô regime,·4iz retirá-lo <)e~ «av~or a1itigo5s». Ainda A activic\ade de Lépine não foi iµtlcamente regulamentar.' Ele inventa o bâ-
hoje em dia, utn antig'~i s~cretário-geijl da organização lnterpol, Roben Bos- ton blanc e a «circulação única e girat6ria64 ». Não existe oposição de princípio
. \
sard. intitula o-··seu livro.:t>a grande Yagabunàagem59 em homenagem a La entre a actividade do agente que 'faz girar as viaturas em ordem e a actividade
Reyni~ e à s~a tentativ_a d~ destniiÇão do «pátio dos milagres)), geral da manutenção da ordem .. É, pelo contrário. ao definir a ordem pela cir-
Trata-se, portanto; c.ie'(jÍstinguir os lug~ e <)e pensa; os ei)(os <)e c~ação. Se culação, e a cirtulação pela ausência de problemas, gue se dá à actividade poli-
a·cidade é o mÓdelo de comunidade que leva à criação da poltcia; é tal'<ez menos · cial o seu sentido. A manifestação polftica perturba a circulação erequer a inter-
' ··Jior causa do n.Po de'a&TIJi>ameoto qye ela ·re'~enta cjo qt1e por ca'Q.sa daquilo que- venção ·do Estado. Parl! Lépine, reprimir a manüestaç_ão é não apenas proteger o {

ª corta, a f\)a:, _9ue permit~.ao mesmo tempo ~e_p~~a nos desl l!emos e pe~a­ regime, mas proteger a liberdade de circulação. É da:análise do alcance da no- '-

neçamos. Beni entendido; ·a!11ª não foi inventada nem com ~ ciêra'a a ?m çã9·de circulação que se retira a unidade de sentido das três espécies de polícia (
· 'polícia, m :. a e assa a eiÇJ~tLr como lu ar P.Olfüco e como o to (administrativa, municipal, secreta): :~
a p.o é!!i· ão é apenas uma mu ança de nome que faz a passagem ....
11 - - ..ra
<<p; ""ça c~. tradicionalmerite reconhecida como ~ugar ~clítico (ágora, f~
- p-'"u'lt'b';li"!'... «Em certos dias, a circulação seria absolutamente suprimida se o guardião da paz
m, mercado· O\! adro), para a !\la, mas sim uma mod1ficaçao da representaçao não pudesse contar com o seu colega agente secreto. É quando a calçada é invadida por
dá palavra pqbÚca que s.e diz na cida,_~e: do debate e <la deliberação, passamos ~P' l;>a,ndos wmulll!osos. Felizmente, não existe reunião, pública ou priva4a, onde este não
: p~otesto e à mánifes~ação~ ·do diál_ogo ~o grito, ao «rumor e ao clamofD>) ,j.g;dis- penetre. :$ por ele ·que a pcllfcia municipal é prevenida. Como vos dizia, as três polícias
n~o sã<Yseilãoumã~:; ·------- . , ...'!".

. curso ao slogan. . '


· · : .' tfci , ó o, or .e wçao p oblemático. A rua é, com efei-
, t~. um «forii»~para o·Esiádo e Ílm «de~tro)) para a sÕciedade. Dela fazer u~ !~·
0
Manter a ordem é, pdrtanto, regular a circulação. Mesmo se a enum ração
. 'garpúblico ·9üe não seja ambfgu6,~as gue articule o d~~tro e~ f~ra, o pnva~o 8 ~
tarefas da polícia adm,iriistrativa
. é, mesmo com as inôvaçÕes, pró · a.das
-·e 0 p11blico, é'a aposta-de 'uma polfnca que confia à polícia a rmssao de ser, na~ da po cià..d icolas Delamare, a ênfase colocada sobre a circula~ão é maior.
. úm «meio-temo»; m'as uma i:n~iação. A fonna desta meQ.iação pode, em pn· Louis Lépine notâ que, sob o antigo regune, era necessário, antes de qualquer
meir61ugar, s~rgii ·nuin regwaménto part~cular, o ela c\rculaçãQ. O!Jtra cóisa, àssegurar a circulaÇão das mercadorias e alimentos qa capital.
.Pteocijpação pastoral e manutenção da ·ordem não eram dissociáveis: aescas-
•· sêz desencadeia o rn,otim. Mas em I,.épine, a alimentação depende da circula-
: . .· ção. Aquilo que conVélJl l!SSegurar nao P.M as merca nas
REGULAR A CIRCULAÇÃO
-. c mo, nâa:m"Cn ente, a pÕ'Ssibilidade de trabalhar. o is YihiQ d :J;n
A circulaÇ~o é a px:imeira das tarefas da p~cia~ministrativa. Lo~is Lé~i­ 1ca 1mpe em a 1 a para o tra o. Ora, é necessário ,que-o «bom burguês
ne nlrõ lhe õã't"m sentmõ emitõ,'.'rtnrs O:eTme:a«ê'omõã"IDy~Qe de rr e vi.r» que trata dos seus assuntos teolla a via desimpedida66». ·s e a rua se torna assim
- que constitui «Ulil dós d,ireitos do homem e do cidac:\ão »: Jean-~arc Be:- um lugar verdadeiramente público, a casa v! também ser-lhe atribuído o esta-
61

liere explica que as qificuldades da circulação automóvel eram reais na Pans ti)to de residência privada. O que está em jogo na circulação, para o prefeito
da época. LuísX'{I q~eixava-se do número O.e acidentes na capital , mas, na
62 Chiappe, é a instituição de ~ma ordem onde cada um se mantenha em sua casa
e perca o hábito de viver na rua. Ele toma à letra a expressão de Pascal: «Toda
a infelicidade ct·os homens a~vém de uma única coisa que é de não saber man-
SB LÊPINB Louis, Mes s9uvenirs, op, cit., p. 97. •
·s~ BossA;D, AncW_,Carr.~fo11r de fa grande.Jr:uanderie: phénomenes criminels à l'aube
du lll' millénaire, Paris, S)oek, 1998. · . · , · *' 63 BERLIÉRE, Jean-Marc, Le préfet Upine, op. éir., pp. 168-169.
64 UPINB, Louis, Mes souvenirs, op. cit., p. 109.
i;o FAROB. Arlette;,l!hore, dan.s la ruc à-Paris-tlu XVIII' siecle, op. cit., p. 106 e PP· 111-112.
6
~ Ibid.. p. 109.
61 UPJNB;:to~is,Jefes.soililmirs, op. cit., p. lOS. . ·
62 MoNTBASN Hu~h.és d.e; /,A Police pàrisienne-sous 4,.ouis XVI, op. dt., P· 16.
66 Ibid., p. 129.

:
142 .... .,
'
143
"
HÉLENE L'H.EUILI,?T HÉRCULES ou 6 FUNCIONÁ:Íl!O DE POLÍCIA

ter-se em repouso dentro de um qua.rto 67 .» Ele '!Jlalisa a manuten~ão da ordem Que a manutenção da: ordem Sl!rja como imperativo de assegurar a circt,lla-
como circulação: ção é coerente com a nova ordem qo mundo que se imi)õe no século XVIlI. Fa-
'''t lando daqu~lo qiJe tem PQr conceito fundamental do Auft.larung, o conceito de
«Tudo contribuiu para atirar os homens para fora das suas casas. Ei-los na rua e nós
utilidade, Hegel descre'l(e o homem das Luzes como 1@ indlvídlfo «q1,1e se pas-
temos a missão delicada de assegurar as suas deslocações com um mínimo de aborreéi-
seia como num jardim plantado por ele7 l». O jardim' onde «Se P.asseia» é o lµ-
mentos e o máximo de rapidez e segl)rn,nça68 .»
gar do trabalho e do artificio; da produção d~. rique~ e dá su~..coloc:açã? em
circulação. Jean Ryppolite, na sua tradução, utiliza o v~rbo se ptomener. O ter-
mo empregue por Hegel é umhúgehe11, que significa ~iietahnen~. «dar a volta»,
O próprio Lépine (falando da crise bou.langista) repro'(a o hábito
,.q~~ «ir e vir7~>. O homem das Luzes é um homem gue circula. .
' r<4,., A noção de.circulação permite destacai a,originalidide-aa eç>ncepção poli- .
«de se marcar encontros na _via pública» ~por motivos fúteis», «de aclamar, apupar
eia! da ordem. A man1:1tenção da ordem policial não s~ ie~e~.a nêllhwna ordem ·
~--~j

não importa quem, pelo mero prazer de fazer banilho e de se engalfinhar com os agen-
preexistente (quer se trate da q'rdem teológica. ou dá régijlação do mercado~ ·
tes69». nem a nenhlllllJl or<Jem absQlUta. Não se deifca 'fechar n<!':Oposi~o da ordem e .-
'
da desordem. .Oaí resulta,, paradóxalm~nte, vm conflitÓ possfvel acerca do '
ordenamento do território.
v ores. e az.en o crrcuiar que se po c1am as c1 a es, a aixa o uca tor-
- na-se um elê'méJ'ifo essêri'êi.ãlâ po ~ca r . ~sim, a «inversão hierárqui-
ca70», identificada por Monjardet no funcionamento da instituição policial, é O MODELO REcm.fN.EO DO ORDENAMENTO DO TERRITÓRÍO
bem mais do· que uma característica profüsional: é uma inversão dos valóres ~.

fundadores da ordem A partir do momento em que a hierarquia deixa de ser O ordenamento do território de 1,lma cidade é certamente po}ítico. Na aná-
natural e <<hâanónica», á.co~unicação já não funciona só por si. Se a ordem lise da~ constitilições·políticas, Aristóteles interessa-se ~bém :pela otgilniz.à-
estabelecida continua a não ser.mais do que uma ordem ~tabelecida, a polí- ção da cidade. A alma eocorpo da cid~de· não 'estão separadosi·o urbanismo·.
tica real consiste em evitar que as cidades, esses pontos extremos da socializa- tem efeitos políticos sobre·o bem-estar, mas também:a seguranÇlj., sobre o laço
ção, se feche.m sobre si próprias em massas COJ;Ilpactas. ApoUtica re.al é a po-
lítica da cida~ Ela é baixa, pois não deixa de ser apenas uma co~diçã.o da
a
social e a relação com o exterior. Mesmo se polícia ·compõe as coisas tal
como elas são, ex:isti;rá um ordenamento urbano mais: propício·à manutenção
... pol1tica. Ela é polícia porque participa da ordem do gov<:_mo do con;unto das da-ordem? Qual·o plano~ propício à circul!lção?.- '_,
partes. A polícia é baixa política tanto quanto constitui a polftica espcci~, en- Parece que o melho~ plano será aquele que tem o· ~or ntimero de·ruas.
quanto o governo é a política geral. Se a polícia de'(e vigiar as cidades, é por- A polícia parece terinteresse nas esquadrias ..o plaiiõ:cia cidade, qe Mileto,..tal ·
•.
'
que a cidade. não é naturalmente um lugar de socialização. A cidade pode se~­ como é concebido por Hipodamos, parece ser o mais·p0li~ia1-dos planos de or- •.

..,.
~

pre reterritorializar-se. Desde o fim do século XVII que aqUilo que chamamos denamento urbano. Teve·vma.pesteridacie.'Q~ando o se~ autor ~hda .Ci:!I vivQ,
hoje e~ dia delinquência urbana e que na época const;ituía o «pátio dos mila- foi aplicado nq.. Pireu, Ser\riu de zriodelo a Alexaridrja e a outra:S cidade.s fun:'
gres» tornou a cidade o seu território. Tal como a polícia, ela divide a cidade, dadas por Alexándre, foi utÜizado pelos ~Romarias, iiispiiou Ric~elieu, a cida-
corta-a e recorta-a. mas fá-lo para isolar o bairro onde qQer reinar e não a rua de do· cardeal, e foi adopta4o em Nova Iorque, no século XVIII:.: •
onde se faz. circular. Hipodiunos de Mileto é o prlnieiro arquitecto a $~r cpnsidet~do como ho-
mem político. Eo que lhe 'olale ter sido .citado por Aristóietes na Política. Aris-
tóteles'sublinha'o carácter e:X.cepcíonal c!o feriózrieno: . ·
67 PASCAL, Pensées.136-139, op. cit., p. 516, citado por CHIAPPE, Jean, Paroles d'ordre,
op. cit., p. 55. .;
71 HEGEL, La Phénoménologle de l'esprit, op, cit.",Tomo.JI, p. 112... ·
6S lbid., p. 56.
-~ 69 LÉPINE, Louis, Mes souvenirs, op. cit., p. 129. 72 «[...] und er geht, wie er aus Gottes H~d gekomen, in der Welt ais einem für ihn gep- ·
70 MoNJARDET, Dominique, Ce quefait la police, op. cit., pp. 88-89. flantzen Garten umhei"», Í1I HroEL, Phlinomenclogie des Geistes, op. cit., p. :S98. ·

1.1..d 145
~ ;1.
'..lt...:·>


HÉRCUL1jS OU O R,JNCIONÁRIO DE POLÍCIA
·~
~ (:.~~
77
«Hipodamos 4e MHeto '(.;.]foi o prlmeiro dentre aq11eles q11e não eram homens po- damos encara a tidade, 'janta o lltil ao agradável • Alexandria e Nova IorCj\le (;3 \:~!
·~

'
líticos a dizer q~alquer cois'a.acerca da !llelhor constituição73.,. não têm, na históri.á, a ~utação de cidades tristes. Longe de aí ver cid.ades de
~i . -.
.. polícia, Aristóteles acusa Hipocjamos qe favorecer a insegu.l'ança. A circulação @ ;~
~ Ele inventa na cidàde ,ó plano ortogonal e estende a lógica cjo ângulo não é nunca somente a da polícia. Existe circulação e circulação. A polícia não
~
.;.;.
' recto ao conj\lnto de wrtà:~idade, ~omo se se tratasse de ym tabl!leiro qua- . gosta da ci,rculação só por si Ela prefere regular a circulação a deixar circular. ,~

. driculado: Estavâ em éausar precisa Aristóteles, uma extravagância: as cida- A mvisão fa'<orece a circulação,>!Tlas não necessariamente a sua regulamentação. t;r~
© : des gregas são tradit:.i_o_nalrrtente amontoadas e conflJs.as. Mas o plano em O plano ortogonal permite a cifculação em detrimento da segurança. O planó de ti.:;:
%? quacjócula não é ·o úruC:~'~l~ento: polftico da sqa concepção. A djvisão da t{ípodamos conv,ém às cida,des largamente abertas p·ara o exterior, às cidà.Qes de
\;...,.
@ . popu_lação em tiês pártes ·. ~opetário_s ~ camponeses, gv.eueiros), do território trocas e de comércio, ~s cidades novas, q1.1e devem acolher ao mesmo tempo
,.
· (sagrado, público, privâd.6), Qas lei~ (se~ndo .t~s_ c<,ausas.de processos·: o ui- muitos habi!llntes novos.' Mas tais cidades são frágeis em tempo de guerra: \(._.
@/.
·. traje, os danos ê Õ ais~sfnio) constituem os O!flros elem~ntos do plano de •:;.,...

·~·
1
· Í{ipodamos. ·, «Para a segqrança em tempo de guerra, parece que vale melhor a maneira dos tem:
'
~)
- Para Gilles LaP,Ouge, es~9s em preSença, antes qo SClf ~empo, de 11ma c!- pos antigos, pois, com ela, os estrangeiros têm dificuldade em entrar e os invasores têm
'-
'. <jade cõncebi<ja môre 8:~of!1e{rico eo~o con'lém na cidade qe Tales. Mas, lem- dificuldade em se orientar7R.» !.

~
\_.
-~ra-o, a invenção ·de "fÍipo<J~os não diz respeito ao. ~!ano em q~adrfcula.
'.il·. L
J;)e origem '\i'erosimilmçnte.mesopotânlJca, este era conheciqo cjos 'Gregos des- Q plano em quadrícula facilita tanto as entradas como as saídas. Não.faci-

'
,-:'
. cfe o ·s"échló v.p: antes ·ae .éristo74 • A'ottginalidade .de Hipodamos resi(!e na lita a manutenção da ordem; quando muito, previne as agitações intémas. Mes- I
@ \ ttansferência do. rÍiodelo·arquiteot\ltal do ângulo recto da çonstn:ção relígiosa mo aí não é lJin. cálculo desprovido de incerteza. A facilidade de repressão foi
'<.,;..
,-

~
,. '\;_
~ ~ara a organizaÇão 11rban~ ~ipodamos «laiciza» o Rlanê> em q1,1adrfoula: \!lll argumento avanç?4o a favor dos grandes trabalhos do barão Ha1,1ssmann 79 , a'f·-
que recó.rtaram Faris segundo um plano tão geométrico quanto a antiguidade (.
~ ,,•Ele ~ubm~ à lei geôili61rica já'não um templo ou um monumento, mas o pró- da cidade lho permitiu, di~trib~indo··o espaço urbano à volta das grandes arté-
("
'"(:-'
·'· ~
't1Y'
,• prio desenho Qii·:cidade., aS ~u~s ruas, as suas praças, as suas habit11ções e os se11s ci· rias e dos civzamentos em estrela80 • Isso teve sobretudo como efeito dar às
·® dadãos. A linha· direit~ os ~gulot, cm 'vez de participarem npma simbólica relígio• m8l\ifestações urbanas o carácter de batalhas cle rua. '.Q
ó entanto, pocle~os interrogar-nos ~o~re o fenómeno da cidade de Riche- ;.;·
1

·® sa, recebem a mlSsão co'ntn!ria: impor a racionalidade ao d.omlcOio dos homens, (...]
Com Hipodamos, o ângulo muda de cstat1110: dessacralizado, organiza a cicjade como lie1.!, q11e, ao contrário dos outros exemplos, é uma cidade triste. Annand du
\~

~:if"
@ º1!1 sistema. ~t~be!ec'e a r~ldSncia humana sobre 11ma terra nova, a dos matemáti· Plessis te-la construir sobre os terrenos do seu donúnio familiar a partir de ·~
,.
~.:...~
·@D cos15,.. Hi3 l. O plano de Hipodamos foi·aí aplicado. A cidade.é concebida segundo o ·cl._
.1 plano rectilíneo e não comporta seq11er um centro. Ora, se adnritirplos que o 8i~
@. o·jufuo de ~~tóteles i itaa-se num mitro plano. Diz respeita à capacidade cardeal Riobelieu é um.elemento central da eon.strii9ão do absolutismo, a ci- .... •,
~'
~

da cidade assim concebida de realizar.obem-estu", ~. sobre este ponio, ele faz dade nova que ele manda construil' parece ter de ser necesS"ariamente a ~~a tra- ·;.::_

4ma objecção. Es'te plano ·~~ plano.ae 4ivisão.. Não é, no en~to, acusaclo d1.!_ção. Christian Joubaud deséi:eve-assim a cidade:

t de'pr'oduzir a tris~eza. 'A tristeza polftica,produz-se, em Aristóteles; não na cjj-
~ii.
,'q,i

visão mas na unidade; .é, :portanto, o pro~· de.Platão tjÚe é julgado triste,
,:1 ~. \
0t 1
·~J

·~ pois institui a comunidàde .'dos bens7~. Pelo·Cantrário, a maneira como Ripo- n «Por outro lado, também se estima que a disposição 4as casas ·pa.rticulares é mais
agradável e mais útil às diferentes actividades se for feita segundo uma disposição regular
~1IB\

~ à maneira moderna. isto é, à maneira de Hipoqamos», ibid., VII, 11. p. 484. !Q)
:'~·
. ti
13 ARISTÓTELES, w; Poii!iq~e.r. II, 8, 1267 b 2-28 sqq.; trad. Óo grego por P, Pellegrin, 11 lbid., p. 4S4. .
79 BouRDIL, Pierre- ~ves, «La cité entre Jes signes et les choses», pp. 13-14, in ~s Ca·
~~ ~]J
\~w·
Paris, Flamm.arion, col. "Gamier-Flammarion»; 1990, P• 172. .;
' 74 L>.Pouqs Gille5: Uropfe er civlliseqion, ~,,Weber, 1973, reed, Albin Michel, 1990, p. 13. hiers philosophiques, n.º 55, Junho de 1993, pp. 8-59.

:'
0
fL.
ll
6
lbid,: p: 13.
7 ÁRISTÓTELES,
.. .
Les Poliiiques'II,.5, º'~' oft;1 p~ -140 sqq.
. !O MARCHAND, Bernard, Paris, histoire d' une vil/e (XIX'-XX' siecle), Paris, Le Seuil, col.
«Poinrs», 1993. pp. 75-81.
Wili
.1 ·. 146 ·' 147 6J
:~ ,·. ©
~
. )

.
•. 7
,,
HPLENE L'HE1)IL!,.ET HÉRCULES OU O FIJN.cÍONÁRIO.DE POLÍCIA

t, _ . «A cidade é um rectâng11lo de seisçentqs e oitenta e dois por qvatrocentos e oitenta que é urna cidade, esconderijos, recantos, zonas de sombra e todo. um territó-
e sete metros cortado em dois rectângulos igl,lais pela rua central que atravessa as dl)as rio secreto sob o traçado luminoso das ruas. Os delinquentes de hoje em dia sa-
praças que se correspon<lem numa perfeita simetria corno se cqrrespondem os outros bem-no bem, eles que inventam «SOb>; O•pÍano oficial da cidàde Utn território
edifícios 81 .» e ei;rns de circulação indiferentes à organização simbólica do espaço, quer se .
.trate dos limites da cidade OIJ dos passeios das escolas. As.cidades a policiar
Interrogando-se sobre esca presença da simetria e esta ausência de ceotro, não são cidades mortas, mesrno~e por vezes são. violentas. Se a niá é o objec.-
Christian Jouhaud avança a hipótese de que aquilo que se tentoi+ advém (ja ten- tiv-o da polícia, rião é suficiente traçar as ruàs paia polieiru: a ddade: A polícia
tati,va de reconciliação do plano e da sua tradução visível. A ordem da cidade permite e requer o desenvolvimento desordenado da cidad~, ·. , ...
~· é o apagamento de codo o compromisso com o sensível. É uma ordem que A invenção de Luís XIV distingue-se da de Richelieu. na medid.a em ql.)e o
compõe sem nenhum constrangimento exterior a si própria: objectivo de urna é regular a circulaÇão a posteriori el)-qua~t9 o da outra é re- ''
g~lar a priori. Em Richelieq, nem sequer é nece5sárió {~er o policiamento.
«Poderíamos avançar que, eni Richelieu, du.as dimensões que normalmente se ex- O cardeal esqueceu que o modelo de Hipodarnos só se pode aplicar às cidades
cluem foram tomadas possíveis em conjunto: a escala da representação e a escala da vi- cuja situaçãc;i a expõe à circulação (corno os portos), e: nãO. .às cidades que se
'_., sib.ilidade. A representação é o plano, o projecto intelectual, a totalidade desenhada. estendem tranquilamente na planície. · ·
A visibilidade é espaço aos bocados, o ângulo de visão, o cenárl 0 82.»

., . A cidade de Richelieu é a razão torha~a visível: ~<Em R,ichelieu, a imposi- CO~OR COM A DESORDEM
ção de uma razão política sobre um espaço foi tentada e atingida83 .» No en-
" . tanto, como sugere Christian Jouhaud, o espaço da éidade não é o espelho da na
A lógica da ordem restabelecida induz verdade urna óptica ~ais cbnser- ·
razão política senão através de efeitos de perspectiva e jogos de ilusão84 • vadora do que reformadora, excluindo, para reservá-la para a alta política, .
Enfim, Richelie~ , é um sonho que nunca se rea)izou verdadeiramente, mesmo qualquer ideia de ordem nova. O oportunismo reprovado aos altos fii,neionários
se a cidade ainda vive hoje em dia. Ponto extremo-da razão política, a cidade da polícia tomaria sentido a partir daí. O carácter compósito das ·Cidades é o
ensina que o real da política não pode ser esquecido impunemente: modelo do qual se serve Descartes para forjar a metáfor~ da desord~m. Ele eh- ·
.- tende primeiro que tudo, ao que parece, mostrar·no que a l.!Didã_?e supera a .'
«Richelieu sena, deste ponto de vista, u.ma espécie de sonho acordado do poder so- composição. Para tomar sensfvel a confusão que .reina nQ saber do· seu tempo,
bre si próprio. N.a sua ambição, demasiado desmesl,lrada, na Sl)a implacável coerência, compara este às cidade$ construfdas por açumtilação i;~1.1cessão1 " ~0 mesmo
o projecto [...] conjuraria um resseptimento, a impossibilidade de agir num ambiente tempo que sugere que o projecto do discurs,o do métód6 ~e~a análõgo à cons·_' ,
r· virgem das relações de força herdadas, o despeito de t~r de trabalhar numa socíed~de trução de uma ci~~de nova:
que resiste. A hiper-racionalidade de Richelieu substituir-se-ia à fraca racionalidade da
r
! acção política quotidiana, à impossível razão de EstatJo•S ,,. «Assim, estas antigas cidades, que ~ão pass~vlU!l. no se~ ÍníCio; de pequen~ po-
voações e se tomaram pela sucessão do tempo em grandes 'Çidade.~;''são .normalmente .
A ordem policial não se parece com semelhante plano. As cidades conce- tão mal traçadas, à custa dessas praças.regul~s que.vm enginheuo:traça:ao seu dese-
bidas em quadrícula não apresentam menos dificuldades do que as outras. jo mima planície e onde, considerando os sei)s edifícios cada um ·por si, encontramos
'\®
;~ Mesmo que a cidade fosse racionalmente concebida, haveria sempre nela, por- tanta ou mais ane que nesses outros que; a ver .como são arranjados, aqui u.ín grande,-ali
-~
'"' ';
J; .~. um pequeno, e como tomam ~s ruas cu.rvas e desiguais, dir-se-ia que é mais a fortuna
81 JoUHAUD, Christian, La Main de Richqlieu ou le pouvoir du cardinal, Paris, Galli-
do que a vontade de àlguns homens usando da razão que .assim os .dispôs~~»
mard, col. «L'un et l'autre», 1991, p. 166.
' <:"~· 82 Ibid., pp. 167-168.


83 Jbid.,p. 168.
~------~ .
84 Jbid., p; 168. a6 DESCAR'lliS, René, Disçours de la méthode (16~7), segunda p~e, Oeuvres, Paris, Gal-
&l Jbid., p. 181. lima.rd, col. «Bibliothcque de la Pléiade»; 1953, p. 133. · -
··,. 149
148
{.
·!
(!1
HÉLENE L'HEUI!,.LET f!ÉRClJLES OU O F\]NCIONÁRIO DE l'OÚOA
~ ~

,- Todavia, em v~ de ~ oposi_ção simples ~ caricat1:1ralmente em conflito Seria por fim t1ma loucura pedagógica se ele tendess.e .~
''..i.l
-.com a tradição e ~ moél~r'nidade, ~~cJUtes coloca-nos perante lJma alternativa. '
. ' É necessário ~coiher entre":à Qrdém cio todo e a orqem Q.as partes. l]ma não «a reformar o corpo das ciências ou a ordem estabelecida nas escolas para as ensi-