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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:

experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

APRESENTAÇÃO

No âmbito da UTFPR – Universidade Tecnológica Federal do Paraná,


compete ao Departamento de Educação (DEPED), entre outras ações, propor e
executar políticas para qualificação e capacitação docente. Buscando atingir essa
meta, bem como entender a inserção da UTFPR na sociedade moderna e a busca
de respostas aos desafios do novo conhecimento, da tecnologia e da inovação, da
educação, da pesquisa e da capacitação tecnológica, um grupo de servidores do
câmpus Apucarana realizou estudos, em encontros quinzenais a partir do 2º
semestre de 2011.
Essa iniciativa culminou com a criação de um grupo de pesquisa,
cadastrado no CNPq sob o título “Ensino de ciências e tecnologia”, composto
por uma equipe bastante eclética, envolvendo profissionais do DEPED
(professores, pedagogas, psicólogas, assistentes sociais, intérprete de libras) e
também outros servidores técnico-administrativos com formação em áreas
educacionais.
Conhecer as linhas de interesse desse grupo torna-se de fundamental
importância para multiplicação dos grupos e linhas de pesquisa na instituição.
Além disso, havia uma necessidade de fornecer aos alunos dos cursos
superiores, em especial da Licenciatura em Química, opções para concluírem
suas atividades complementares garantindo-lhes acesso a pesquisadores e
pesquisas na área educacional, garantindo uma formação mais completa.
Esse livro é resultado das ações que vem sendo desenvolvidas desde
então. A primeira parte apresenta reflexões oriundas do “Ciclo de Seminários
Pedagógicos”, ação desenvolvida pelo DEPED e coordenada pelo primeiro e
terceiro organizadores desse livro entre os anos de 2012 e 2014. Por meio de
seminários ministrados por profissionais e pesquisadores das áreas de Educação
e Ensino, promoveu-se um espaço de interlocução que possibilitou o
aprofundamento de conhecimentos e propiciou a reflexão de professores,
técnicos-administrativos, estudantes da UTFPR – câmpus Apucarana,
professores da Educação Básica e comunidade em geral.
No primeiro artigo, “A formação de professores universitários em um
espaço de debates pedagógicos na própria universidade”, Roseli Gall do Amaral,
Wierly de Lima Barboza e André Luis Trevisan apontam que, ao considerar a
lacuna existente na formação de docentes no Ensino Superior, a universidade vê-
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se pressionada em criar espaços para o debate pedagógico que permitam a


reflexão sobre a prática e não a sua cristalização, proporcionando, assim, uma
maior interação entre a comunidade acadêmica e o compartilhamento de
metodologias pedagógicas. Citam que, numa tentativa de fomentar a formação
continuada dos docentes, em parceria com a equipe de profissionais que atua na
instituição, foram desenvolvidos projetos pedagógicos objetivando incentivar os
processos de ensinos e de aprendizagem por intermédio de oficinas, ciclos de
debates, grupos de pesquisa, enfim, espaços para a interação. O texto relata
algumas experiências da UTFPR – câmpus Apucarana, em seus ensaios e
tentativas de promover espaços de discussão pedagógica mediante seus avanços
e limitações.
Marcelo Ferreira da Silva e Fernando Barreto escrevem o segundo artigo,
que trata do desenvolvimento de uma ferramenta computacional em linguagem
de programação Java, para auxiliar o professor no processo de avaliação da
aprendizagem de seus alunos. Intitulado “Aplicativo em Java para auxílio no
processo de avaliação via Taxionomia de Bloom”, utiliza a Taxonomia de
Bloom como esquema classificatório para os diferentes tipos de
comportamentos cognitivos desenvolvidos pelos alunos durante a experiência
educativa. Tal Taxonomia propicia aos educadores um estímulo no auxílio da
aquisição de competências específicas em seus alunos, com a conscientização de
dominar as habilidades das mais simples para as mais complexas. Neste sentido,
utilizam-se do editor NetBeans IDE 7.2 para desenvolver uma interface gráfica
bem simples na qual os níveis de domínios cognitivos da taxonomia são
apresentados nas telas. Cada tela indica um nível cognitivo, de um total de seis,
que o usuário poderá analisar/construir sua prova respondendo questões
características do respectivo nível, que foram elaboradas utilizando um escala
Likert. As respostas de cada tela são armazenadas e, posteriormente, uma média
é calculada. Conforme resultado, o professor identificará possíveis mudanças em
sua prova, com a finalidade de ajustá-la a Taxonomia de Objetivos Educacionais
de Bloom. Foram investigadas as provas de Física dos professores do câmpus da
UTFPR de Apucarana com a finalidade de calibrar o aplicativo. Segundo os
autores, este projeto é o início de uma ferramenta completa de avaliação do
processo ensino/aprendizagem, podendo ser utilizada pelos professores como
guia para direcionar/orientar na construção dos instrumentos de avaliação.
“Contribuições do PIBID para a formação docente dos licenciandos em
Química da UTFPR câmpus Apucarana”, de Alessandra Machado Baron e
Lilian Tatiani Dusman Tonin, tem como objetivo relatar as principais atividades
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Thanile Andressa Ghiraldi e ações desenvolvidas pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à
Discente do curso de Licenciatura em Química da Universidade Tecnológica Docência (PIBID) de Química da Universidade Tecnológica Federal do Paraná
Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Bolsista do PIBID. Contato: (UTFPR), câmpus Apucarana, desde seu início em agosto de 2011 até o final de
thanileg02@hotmail.com. 2014. Busca avaliar a importância de cada ação para a formação docente dos
licenciandos participantes do projeto e a interação com os professores e alunos
Wierly de Lima Barboza
do Ensino Médio de escolas públicas de Apucarana, parceiras do projeto. Os
Mestre em Saúde Mental e Clínica Social pela Universidade de Leon, Espanha;
Pedagoga da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – câmpus Apucarana. resultados demonstram o crescimento na formação acadêmica dos bolsistas, e
Contato: wierly@utfpr.edu.br. demonstram a importância do projeto na criação de novas e inovadoras
metodologias de ensino de Química.
No quarto artigo, “Instrumentos de avaliação para disciplinas matemáticas
no Ensino Superior”, André Luis Trevisan apresenta propostas de utilização de
diferentes instrumentos de avaliação, baseado em experiências vivenciadas em
aulas dos diferentes cursos da UTFPR – câmpus Apucarana e Londrina.
Segundo o autor, esses instrumentos possibilitam tomar a avaliação como
prática de investigação e oportunidade de aprendizagem, na medida em que
permitem ao professor rever sua ação e suas escolhas didáticas e, aos estudantes,
suas estratégias de estudo.
Em “O papel ativo do sujeito no conhecimento, a pedagogia e o ensino de
Ciências”, José Bento Suart Júnior, Silvia Parrat-Dayan e Marcelo Carbone
Carneiro buscam apresentar contribuições diretas de Jean Piaget à Pedagogia e
ao Ensino de Ciências. Tais contribuições encontram-se fundamentadas em
dados advindos dos estudos referentes à Epistemologia e Psicologia Genéticas,
além das considerações sobre Educação feitas em vários textos. Neste sentido, o
epistemólogo suíço defenderá o self-government, o trabalho em grupo e o ensino
de ciências como importantes metodologias integrantes de um processo de
descentração e construção do conhecimento no sujeito.
Fabio Alexandre Pereira Scacchetti e Maura Maria Morita Vasconcellos
apresentam o sexto artigo, “O stricto sensu como tempo e espaço de organização
de formação docente: a experiência de um bacharel de Engenharia Têxtil”, fruto
de reflexão acerca da formação de docentes oriundos das ciências exatas, em
específico de um profissional do curso de bacharelado em engenharia têxtil, num
relato de experiência sobre a formação para a docência no Ensino Superior. O
texto busca responder à seguinte questão: De que maneira os programas stricto
sensu em educação contribuem para constituição docente, ainda que a produção
científica de conhecimento e formação do pesquisador seja sua principal
característica? O objetivo do texto foi refletir sobre a importância dos saberes
pedagógicos para a docência superior, principalmente para os profissionais
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graduados em bacharelados. Trata-se de um relato de experiência articulado com Maura Maria Morita Vasconcellos
um estudo biblioFigura, que busca compreensão sobre o processo de formar o Doutor em Educação pela Universidade Estadual de Campinas; Docente
docente de Ensino Superior em diversos aspectos. Como conclusão, considera- Associada da Universidade Estadual de Londrina. Contato:
mmorita@sercomtel.com.br.
se o relevante papel do stricto sensu em educação na formação do docente de
áreas não pedagógicas, e destaca-se a responsabilidade de tais programas na Meirielen Ribeiro
formação daqueles que serão responsáveis pela formação de profissionais e Discente do curso de Licenciatura em Química da Universidade Tecnológica
possíveis docentes. Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Bolsista do PIBID. Contato:
“Pesquisa em Ensino de Ciências: metodologias que aplicam a análise meirielenribeiro@hotmail.com.
qualitativa – uma dissertação para contar”, de Alessandra Maziero Lalin-Soato e
Roseli Gall do Amaral, relata uma apresentação realizada aos alunos de Moisés Alves de Oliveira
Licenciatura em Química, como parte de um Ciclo de Seminários de uma Doutor em Educação Básica pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos;
metodologia qualitativa aplicada numa dissertação de mestrado para coleta de Docente adjunto do Departamento de Química e do Programa de Pós-Graduação
dados e análises de resultados, com o intuito de despertar o interesse desses em Ensino de Ciências e Educação Matemática da Universidade Estadual de
alunos para as possibilidades que as metodologias qualitativas podem oferecer Londrina. Contato: moises@uel.br.
nas atividades de pesquisa sobre ensino e aprendizagem. A contraposição entre a
Raphael S. Queiroz
metodologia quantitativa aplicada nos roteiros das aulas práticas e pesquisas na Discente do curso de Licenciatura em Química da Universidade Tecnológica
área de Química Pura, com a metodologia qualitativa aplicada na dissertação Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Bolsista do PIBID. Contato:
apresentada, mostra que as demandas para as duas pesquisas são diferentes e o raphaelsanko@gmail.com.
universo de estudo na área de Ensino é muito diversificado, com variáveis
exclusivas e com impossibilidade de repetição de situações de estudo. Também Renato C. L. Moreira
explora as limitações e dificuldades da adoção da metodologia qualitativa, com Discente do curso de Licenciatura em Química da Universidade Tecnológica
um breve relato sobre o surgimento, a adoção e a evolução desse tipo de Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Bolsista do PIBID. Contato:
metodologia em vários países e no Brasil. renatocecone@yahoo.com.br.
Finalizando a primeira parte do livro, Angélica Cristina Rivelini da Silva
Roseli Gall do Amaral
e Moisés Alves de Oliveira apresentam “Um laboratório (in)certinho a Mestre em Educação (História da Educação) pela Universidade Estadual de
construção do conhecimento químico em aulas práticas no Ensino Médio”. A Maringá; Doutoranda em Educação pela Universidade Estadual de Maringá;
pesquisa realizada para a elaboração do trabalho busca entender como são Docente da Universidade Tecnológica Federal do Paraná- – câmpus Apucarana.
legitimados certos enunciados científicos durante as práticas pedagógicas em Contato: roseliamaral@utfpr.edu.br.
funcionamento na instituição escolar, mais especificamente em aulas de
Silvia Parrat-Dayan
Química para o Ensino Médio. Apoiados na perspectiva dos Estudos Culturais Pesquisadora e colaboradora científica no Arquivos Jean Piaget, da
das Ciências e no conceito foucaultiano de enunciado, buscam problematizar a Universidade de Genebra (Suíça). Contato: Silvia.Parrat-Dayan@unige.ch.
condição naturalizada dos enunciados químicos e deslocar o entendimento dos
saberes químicos para um conjunto de dispositivos que regulam a forma como Tayssa Nogueira da Silva
Discente do curso de Licenciatura em Química da Universidade Tecnológica
os sujeitos produzem o seu conhecimento sobre o mundo. Para a realização
Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Bolsista do PIBID. Contato:
deste estudo, foram utilizadas algumas ferramentas da etnografia permitiu aos
tayssa_nogueira@hotmail.com.
autores circular pela variedade de espaços e atividades escolares. Olhar como a
escola acaba por atuar como um dispositivo de enquadramento dos saberes e
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José Bento Suart Júnior sujeitos, que ao fixar determinadas normas, ordena, controla e sistematiza
Mestre em Ensino de Ciências pelo Programa de Educação para a Ciência da teorias e procedimentos estabelecendo um sistema de significação, no qual o
Universidade Estadual Paulista - câmpus de Bauru; Doutorando pelo Programa enunciado químico ganha visibilidade e compreensão.
de Educação para a Ciência na Universidade Estadual Paulista; Docente
A segunda parte do livro traz resultados dos trabalhos desenvolvidos por
Assistente na Universidade Tecnológica Federal do Paraná – câmpus
Apucarana. Contato: suart@utfpr.edu.br. alunos do Curso de Licenciatura em Química participantes do PIBID –
Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência. Ao todo, são dez
Larissa Caroline da Silva Borges relatos de experiência, organizados por estudantes do curso de Licenciatura em
Discente do curso de Licenciatura em Química da Universidade Tecnológica Química da UTFPR – Câmpus Apucarana, sob orientação das professoras
Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Bolsista do PIBID. Contato: Alessandra Machado Baron, Angélica Cristina Rivelini da Silva (terceira
larissacsb_96@hotmail.com. organizadora deste livro) e Lilian Tatiani Dusman Tonin. Relatam experiências
resultantes da parceria Universidade e Escolas Públicas, que permitem ao aluno
Lilian Tatiani Dusman Tonin
Doutora em Química Orgânica pela Universidade Estadual de Maringá; Docente de licenciatura aperfeiçoar sua formação docente desde os anos iniciais, além de
Adjunto da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – câmpus Apucarana. contribuir para a formação continuada dos professores envolvidos no projeto.
Contato: . Agradecemos à Diretoria de Relações Empresariais e Comunitárias
(DIREC) da UTFPR – câmpus Apucarana, à Capes, ao CNPq e à Fundação
Luana Pires Vida Leal
Discente do curso de Licenciatura em Química da Universidade Tecnológica Araucária pelo apoio financeiro ao desenvolvimento dos diferentes projetos que
resultaram nesta obra.
Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Bolsista do PIBID. Contato:
luanapvidaleal@gmail.com.
Organizadores e autores
Marcelo Carbone Carneiro
Livre-docente em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de
Mesquita Filho"; Doutor e Mestre em Educação, ambos os títulos pela
Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"; Docente do
Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e
Comunicação Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" –
campus Bauru. Contato: carbone@faac.unesp.br.

Marcelo Ferreira da Silva


Pós-Doutorado em Física pelo Instituto de Física de São Paulo, na área de
conhecimento de Estruturas Eletrônicas e Propriedades Eletrônicas de
Superfícies, Interfaces e Partículas.; Doutorado em Física pelo Instituto de Física
de São Carlos da Universidade de São Paulo na área de conhecimento de
Materiais Magnéticos e Propriedades Magnéticas; Docente Associado da
Universidade Tecnológica Federal do Paraná – câmpus de Apucarana. Contato:
marcelosilva@utfpr.edu.br.

Maria Gabriela Verdério Fressatti


Discente do curso de Licenciatura em Química da Universidade Tecnológica
Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Bolsista do PIBID. Contato: m-
gabriela@hotmail.com.
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Beatriz Bianca Schulz Ramin


Discente do curso de Licenciatura em Química da Universidade Tecnológica
Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Bolsista do PIBID. Contato:
beatriz_ramim@hotmail.com.

Bruno Rafael Machado


Discente do curso de Licenciatura em Química da Universidade Tecnológica
Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Bolsista do PIBID. Contato:
brunnoraffaell@hotmail.com.

Caroline Franco Carbuloni


Discente do curso de Licenciatura em Química da Universidade Tecnológica
Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Bolsista do PIBID. Contato:
carolinefcarbuloni@hotmail.com.

Daphne Christine Salles Oliveira


Discente do curso de Licenciatura em Química da Universidade Tecnológica
Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Bolsista do PIBID. Contato:
daphne@alunos.utfpr.edu.br.
PARTE 1 – Reflexões dos “Ciclos de Seminários
Evandro Bonifacio
Pedagógicos” Discente do curso de Licenciatura em Química da Universidade Tecnológica
Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Bolsista do PIBID. Contato:
bonifacioevandro@gmail.com.

Fabio Alexandre Pereira Scacchetti


Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Londrina; Doutorando em
Engenharia Têxtil pela Universidade do Minho de Portugal; Docente Assistente
da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – câmpus de Apucarana.
Contato: scacchetti.utfpr@gmail.com.

Fernando Barreto
Doutor em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica e
Informática Industrial da Universidade Tecnológica Federal do Paraná; Docente
da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Contato:
fbarreto@utfpr.edu.br.

Jéssica Guerreiro Martins


Discente do curso de Licenciatura em Química da Universidade Tecnológica
Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Bolsista do PIBID. Contato:
jessicamartins30@live.com.

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SOBRE OS AUTORES A FORMAÇÃO DE PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS EM UM


ESPAÇO DE DEBATES PEDAGÓGICOS NA PRÓPRIA
Alessandra Machado Baron
UNIVERSIDADE
Doutora em Química pela Universidade Federal do Paraná; Docente da
Universidade Tecnológica Federal do Paraná - câmpus Apucarana. Participou do
PIBID como coordenadora da área de Química nos anos de 2011 a 2012; como
coordenadora de gestão do programa PIBID UTFPR de 2012 a 2014. Contato: Roseli Gall do Amaral
alessandrab@utfpr.edu.br.
Wierly de Lima Barboza
Alessandra Maziero Lalin-Soato André Luis Trevisan
Mestre em Ensino de Ciências e Educação Matemática pela Universidade
Estadual de Londrina; Técnica em Assuntos Educacionais na Universidade
Tecnológica Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Contato:
alessandrasoato@utfpr.edu.br. INTRODUÇÃO
Ana B. Silva
Discente do curso de Licenciatura em Química da Universidade Tecnológica A formação de professores universitários, conforme as políticas
Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Bolsista do PIBID. Contato: educacionais vigentes, perpassa um aparelhamento voltado cada vez mais para a
abeatrizsilva1994@hotmail.com.
pesquisa na ciência específica do que para uma dimensão pedagógica da
André Luis Trevisan docência.
Doutor em Ensino de Ciências e Educação Matemática pela Universidade
Estadual de Londrina. Docente da Universidade Tecnológica Federal do Paraná- O problema relacionado à docência universitária, conforme Severino
câmpus Londrina; Coordenador do Programa de Mestrado Profissional em (2013), tem constituído segmento destacado nos estudos e investigações sobre o
Ensino de Matemática - câmpus Londrina/Cornélio Procópio. Contato:
andrelt@utfpr.edu.br. Ensino Superior, ocupando espaço relevante entre outros tantos problemas que
assolam a universidade. Igualmente, ao lado das questões extramuros, outras de
Angélica Cristina Rivelini da Silva
Mestre em Ensino de Ciências e Educação Matemática, na Modalidade Química natureza social, política e econômica que dão conta das dificuldades de
- pela Universidade Estadual de Londrina; Doutoranda em Ensino de Ciências e manutenção dessa instituição, são, também, levantados e debatidos problemas de
Educação Matemática na Universidade Estadual de Londrina; Docente da
cunho epistemológico, pedagógico e didático, típicos intramuros, que
Universidade Tecnológica Federal do Paraná- – câmpus Apucarana. Contato:
arivelini@utfpr.edu.br. comprometem os resultados que dela se esperam (SEVERINO, 2013).
Vários fatores históricos de nossa cultura universitária colaboram para o
Ariel Colaço
Discente do curso de Licenciatura em Química da Universidade Tecnológica desprestígio da função docente, e dentre eles destacam-se a ausência de
Federal do Paraná – câmpus Apucarana. Bolsista do PIBID. Contato: preocupação com a preparação para o exercício dessa função, o que se propaga
ariel.colaco@live.com.
pela ideia de quem sabe, sabe automaticamente ensinar. Vasconcelos (1998, p.
86) fez um diagnóstico: “há pouca preocupação com o tema da formação
pedagógica de mestres e doutores oriundos dos diversos cursos de pós-
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graduação no país. A graduação tem sido ‘alimentada’ por docentes titulados, futuramente como um alicerce para iniciarmos nossas atividades como futuros
porém, sem a menor competência pedagógica”. Masetto (2014), em 1998, professores da Educação Básica, pois é indiscutível a necessidade do aluno
também apontou a mesma preocupação e em 2014 a consolidou. A universidade, licenciando obter experiências relacionadas à área da docência, antes de atuar no
sob seu modelo napoleônico não materializou na cultura acadêmica uma ambiente escolar.
preocupação com o preparo pedagógico do professor ou com a qualidade A experiência de passar pelo PIBID é rica tanto para aqueles que têm a
didática de seu trabalho. plena certeza que irão assumir o papel de professores após a vida acadêmica
Em uma retrospectiva histórica das universidades, é possível observar que quanto para aqueles que ainda não decidiram seus futuros profissionais. Durante
a formação exigida do professor universitário tem sido restrita ao conhecimento as atividades do projeto algo de grande proveito é a oportunidade que nós,
aprofundado da disciplina a ser ensinada, um conhecimento prático, decorrente alunos participantes, temos de se deparar com a realidade, que até então só era
de exercício profissional anterior, ou teórico/epistemológico decorrente do vista na teoria, pois é de nosso conhecimento que ao sairmos do curso de
exercício acadêmico (PACHANE, 2003). licenciatura, iremos nos deparar com situações reais, que vão nos mostrar
Bastos (2007), ao discutir a formação do professor, evidencia a legislação limitações diversas, pois tais situações se apresentam mais complexas e distantes
expressa nas políticas públicas voltadas para esse fim, que centralizam-se nas das condições ideais abordadas em algumas disciplinas teóricas relacionadas ao
discussões acadêmicas e, também, nas reformas educacionais empreendidas pelo processo educativo (ROSENAU; FIALHO, 2008).
governo brasileiro, de maneira significativa a partir da década de 1990. Assim,
portanto, o que se evidencia são proposições que tem como referência o lócus de REFERÊNCIAS

formação do professor universitário na pós-graduação, surgida no Brasil em BARBOSA, J. et al. Vídeos didácticos de física y química. Ensenanza de las
meados da década de 1960. Ciencias, v. 9, p. 181-185, 1991.

Tanto Morosini (1997) quanto Pachane (2003) fazem referência à Lei BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica.
Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio. Brasília, DF:
Federal nº 5.540/1968, que propunha a reforma do Ensino Superior e que Ministério da Educação, 2000.
modificava a estrutura das universidades, havendo a institucionalização da
PIMENTA, S. G.; LIMA, M. S. L.. Estágio e Docência. 6. ed. São Paulo:
pesquisa, através da pós-graduação e estabelecendo-se pela primeira vez, na Cortez, 2011.
legislação brasileira, a indissociabilidade entre ensino e pesquisa. ROSENAU, L. S.; FIALHO, N. N.. Didática e avaliação da aprendizagem em
Nesse contexto, a pós-graduação passou a ser definitivamente entendida química. Curitiba: Editora IBPEX, 2008.

como a condição básica para transformar a universidade em centro criador de ZANON, L. B.; PALHARINI, E. M.. A Química no Ensino Fundamental de
Ciências. Química Nova na Escola, n. 2, p. 15-18, 1995.
ciência, de cultura e de novas técnicas. Cabia a ela, além do desenvolvimento da
pesquisa, formar os quadros para o magistério. Até a década de 1970, mesmo já
tendo diversas universidades em funcionamento aqui no Brasil, e já havendo
investimento na área da pesquisa, a exigência para se contratar um candidato à
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A partir das propostas experimentais os alunos seriam estimulados a docência referia-se ao mesmo possuir o bacharelado e a competência no
vincular os conhecimentos adquiridos durante as aulas teóricas a situações exercício de sua profissão. Sendo marcado pela rápida expansão do Ensino
ocorrentes no cotidiano, é fato que a probabilidade de que os mesmos passem Superior brasileiro, e por um grande avanço quantitativo nas ações voltadas para
por situações que são simuladas em situações-problema, por exemplo, é quase a formação de professores universitários, como ressalta Berbel (1994), esse
nula, porém este estímulo de induzir os alunos a pensarem, pesquisarem e processo ainda não pôde ser considerado satisfatório em termos de preparação
criarem elos entre conhecimentos empíricos com conhecimentos científicos é de destes profissionais, especialmente no que diz respeito à docência. A própria
grande valia não só para a vida estudantil de cada um, mas para a vida “fora da legislação da área educacional, era omissa no concernente à definição e à
escola” de cada um. exigência dessa formação.
A utilização dos experimentos nas aulas de Química ajuda o professor a Somente na LDB de 1996 se registra, pela primeira vez, de modo formal e
despertar no aluno o interesse em sua disciplina e contribui no processo que explícito essa questão. Trata-se do que estabelece o artigo 66, ao afirmar que “a
enriquece a qualidade de ensino de ciências, que por sua vez trata-se de algo preparação para o exercício do magistério superior far-se-á em nível de pós-
utópico, estas aulas com demonstrações experimentais transformam o ensino em graduação, prioritariamente em programas de mestrado e doutorado” (BRASIL,
algo menos complexo para os alunos o que incentiva a melhora do processo de 1996, art. 66). Conforme Severino (2013) foi o que restou, depois do
ensino/aprendizagem. enxugamento generalizado, da proposta inicial do senador Darcy Ribeiro, que,
no artigo 74, contemplava de forma mais incisiva essa formação didático-
CONSIDERAÇÕES FINAIS pedagógica.

As atividades propostas á nós, alunos participantes do projeto PIBID, tem [...] a preparação para o exercício do magistério superior se faz, em
nível de pós-graduação, nos programas de mestrado e doutorado,
proporcionado uma grande contribuição para o nosso futuro docente. As
acompanhados da respectiva formação didático-pedagógica, inclusive
experiências adquiridas durante as atividades realizadas na escola proporcionam, de modo a capacitar o uso das modernas tecnologias de ensino
(SAVIANI, 1998, p. 144).
a grande parte de nós, uma motivação a mais para seguir a carreira direcionada a
docência, pois esta é uma área de atuação que precisa ser repensada. Suprimida essa questão da formação didático-pedagógica, inclusive de
Durante o acompanhamento das aulas na escola a qual fomos destinadas, modo a capacitar o uso das modernas tecnologias de ensino, a lei refletiu e
algo que notamos foi a escassez de atividades diferenciadas no processo de sedimentou a antiga crença de que para ser professor basta o conhecimento
ensino/aprendizagem. Todas as atividades abordadas não passavam de aprofundado de determinado conteúdo. Assim, a formação pedagógica dos
atividades tradicionais, se prendendo apenas ao uso do quadro negro e de professores universitários, não encontrando amparo na legislação maior, fica a
reprografias. cargo dos regimentos de cada instituição responsável pelo oferecimento de
As elaborações e aplicações dos projetos ao longo das atividades cursos de pós-graduação.
realizadas no PIBID possuem consideráveis experiências que serão utilizadas

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A universidade encontra-se questionada, tanto, na forma de realizar investigações criminais. Na proposta uma das atividades preza pela utilização
algumas de suas funções, como também, em questão da função, do papel do dos conhecimentos prévios dos alunos, a atividade busca induzir o aluno a
docente dessa universidade: “mais do que nunca nos encontramos em condições utilizar seus conhecimentos empíricos vinculados ao científico para solucionar o
de ousar discutir o tradicional papel que este professor vem desempenhando ao problema proposto por meio de teste utilizando-se de indicadores ácido e base.
longo da história do ensino superior brasileiro e propor alternativas de atuação” Esta proposta foi criada por conta do notável interesse de adolescentes por séries
(MASETTO, 1998, p.155). de cunho criminal e principalmente por experimentos químicos.
O que requer discutir a conceituação de universidade, que para Sousa A segunda proposta, Experimentação no ensino de Química: o uso do
Santos (2000, p. 72) pode ser concebida como: açafrão como indicador ácido-base, traz como objetivo utilizar o açafrão como
indicador ácido-base, tanto em solução como em papel. Em seguida, propomos a
[...] o retrato de uma família intelectual numerosa e instável, mas
também criativa e fascinante, no momento de se despedir, com alguma realização da problematização de um experimento no ensino de Química onde é
dor, dos lugares conceituais, teóricos e epistemológicos, ancestrais e
íntimos, mas não convincentes e securizantes, uma despedida em possível utilizar o indicador. O experimento que propusemos para a
busca de uma vida melhor a caminho doutras paragens onde o
otimismo seja mais fundado e a racionalidade mais plural e onde, problematização pode ser utilizado tanto em laboratório como em sala de aula,
finalmente, o conhecimento volte a ser uma aventura encantada. A pois utiliza materiais de fácil acesso, atóxicos e baixo custo.
caracterização do paradigma dominante de pode ser concebida traz
consigo o perfil do paradigma emergente. Estas propostas experimentais prezam pela construção do conhecimento
Nesse sentido, a universidade existe como espaço de desenvolvimento de científico partindo do conhecimento empírico.
saberes para todos que participam dessa comunidade, tanto professores como os A terceira proposta, vídeo-aulas de Química: pesquisa sobre a utilização
alunos. Nela os alunos devem aprender conceitos, teorias, desenvolver desta ferramenta didática por alunos do Ensino Médio, expõe o uso de recursos
capacidades e habilidades de pensar e aprender, formarem atitudes e valores que audiovisuais, neste caso o vídeo, que pode servir como um aliado no trabalho do
permitam que se realizem como profissionais e cidadãos. É para isso, que são professor e contribuir no aumento do interesse dos alunos pela Química,
formulados os projetos pedagógicos, os planos de ensino, os currículos, os transformando-os em sujeitos ativos da aprendizagem, possibilitando a
processos de avaliação. É para isso que existe a gestão dos cursos e construção do conhecimento de forma dinâmica e interativa (BARBOSA et al.,
departamentos. Portanto, não há lugar mais propício para promover mudanças e 1991). No presente trabalho realizamos uma pesquisa escrita a respeito da
inovações em vista da melhoria da qualidade de ensino, do que os cursos, com utilização de vídeos-aulas como instrumento de consolidação dos conhecimentos
seus professores e alunos, e a melhor forma dessa efetivação é a gestão com alunos do Ensino Médio. Propusemos no trabalho que os bolsistas PIBID-
participativa, que promove uma aprendizagem significativa. Química desenvolvessem um projeto para produzir vídeos-aulas a respeito de
Duas coisas são importantes para que se mantenha uma ênfase de diversos conteúdos, com o intuito de contribuir na implementação desta
aprendizagem interativa. A primeira é que a aprendizagem tem que estar ferramenta no ensino de Química. A proposta é que os vídeos sejam amplamente
relacionada com a atividade de pesquisa tanto do aluno quanto do professor, o divulgados nas escolas participantes.
que implica promover situações em que o aluno aprenda a buscar informações,
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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

Como forma de suprimir esta visão simplista sugere-se, pela equipe que aprenda a localizá-las, analisá-las, relacioná-las com conhecimentos anteriores,
propõe os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM), dando-lhes significado próprio, a redigir conclusões, a observar situações de
que se deve adotar uma perspectiva que preze pela contextualização dos campo e registrá-las, a buscar solução de problemas. E a segunda, é que a
conhecimentos. Neste documento, é relatado, em síntese, que se deve recorrer a aprendizagem precisa ser significativa; um conhecimento significativo é aquele
um saber diretamente útil e utilizável para responder às questões e aos que se transforma em instrumento cognitivo do aluno, ampliando tanto o
problemas sociais da atualidade (BRASIL, 2000). conteúdo quanto a forma do seu pensamento.
Antonio Nóvoa (2007) no livro Desafios do trabalho do professor no
Mundo Contemporâneo defende a ideia de que a escola, independente de que
ATIVIDADES DESENVOLVIDAS E RESULTADOS OBTIDOS NA nível for, não deve centrar-se no aluno, mas, na aprendizagem. E, uma
VIVÊNCIA NO PIBID instituição centrada na aprendizagem tem que saber fazer, inevitavelmente, três
coisas, entre muitas outras: a primeira é a ideia de um patamar comum de
Durante o desenvolvimento das atividades propostas pelo PIBID
conhecimento. A segunda é refletir e mudar práticas e identidades profissionais.
elaboramos três propostas didáticas para futura aplicação no âmbito escolar ao
E a terceira é focada na aprendizagem do estudo, do trabalho, do trabalho
qual nós estamos inseridas.
autônomo, em grupo e cooperativo.
O motivo pelo qual fomos estimuladas a elaborar as propostas foi a ampla
A primeira, que foi o grande debate francês dos últimos dois anos,
necessidade de motivar o estudante a participar de forma ativa e participativa no
baseado na ideia de um patamar comum de conhecimentos, é o fundamento para
seu processo de ensino. Duas, das três propostas que elaboramos, trazem em seu
as outras duas. Os franceses deram o título à sua nova reforma de fazer com que
conteúdo experimentos químicos que contextualizam teoria e prática, tendo em
todos os alunos tenham verdadeiramente sucesso. A chave dessa reforma são as
vista o amplo interesse dos alunos por experimentos químicos. Já a terceira, por
palavras “todos” e “verdadeiramente”.
sua vez, traz como enfoque principal a importância e eficácia do uso das
António Nóvoa (2009), no livro Professores: imagens do Futuro presente,
Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC’s) vinculadas com a educação.
refletiu a formação docente e enfatizou que a crise na formação docente é uma
Uma das propostas que realizamos ao longo das atividades é intitulada
questão de âmbito mundial. Segundo o autor, a formação de professores deve:
como: Investigação Criminal: Uma proposta de situação problema para o ensino
assumir um forte componente prático, centrado na aprendizagem dos alunos e no
de Química. Nela, o assunto principal abordado expõe o uso da organização
estudo de casos concretos; assumir uma postura reflexiva a respeito da profissão,
curricular Situação de Estudo (SE), como forma de aprimorar o processo de
isto é, basear-se na aquisição de uma cultura profissional, valorizando
ensino e aprendizagem dos temas pH e indicadores ácido e base bem como o
experiências práticas como papel central na formação docente; dedicar uma
tema de reações de óxido-redução. Optamos pela elaboração de uma situação de
atenção especial às dimensões pessoais, trabalhando a capacidade de relação e
estudo que partisse de apurações de fatos investigativos criminais, a fim de se
de comunicação que define o trato pedagógico; valorizar o trabalho em equipe e
abordar técnicas e fundamentos da perícia, elucidando a ciência envolvida nas
o exercício coletivo da profissão; e, por fim, a formação deve estar marcada por
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um princípio de responsabilidade social, favorecendo a comunicação pública e a RELATO DE EXPERIÊNICA: PROPOSTA PARA O ENISNO DE
participação dos professores em espaços públicos da educação. ÁCIDO E BASE EM ATIVIDADES DO PIBID
Nesse aspecto, há um déficit de práticas na formação e Nóvoa (2007)
chama a atenção para a reflexão dessas práticas. Citando John Dewey, salienta
que o essencial é a reflexão sobre as práticas. Tayssa Nogueira da Silva
Maria Gabriela Verdério Fressatti
E Dewey tinha aquela velha história que no final de uma palestra – ele
que nos anos 1930 inventa o conceito de professor reflexivo – um Angélica Cristina Rivelini da Silva
professor virou-se para ele e disse ‘o senhor abordou várias teorias,
mas eu sou professor há dez anos, eu sei muito mais sobre isso, tenho
muito mais experiência nessas matérias’. Então, Dewey perguntou: INTRODUÇÃO
‘tem mesmo dez anos de experiência profissional ou apenas um ano
de experiência repetida dez vezes?’ (NÓVOA, 2007, p.16).
O Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) tem a
Ao analisar a situação dos que hoje atuam nas salas de aula das finalidade de aperfeiçoar e valorizar a formação de professores para a educação
universidades, Anastasiou (2005) verificou que, com exceção dos docentes básica. Os licenciandos em Química da Universidade Tecnológica Federal do
provenientes das Licenciaturas, a grande maioria dos professores universitários Paraná (UTFPR), câmpus Apucarana, vinculados a este projeto, são inseridos no
não conta com a formação sistêmica necessária à construção de uma identidade âmbito escolar e desenvolvem atividades como: discussão de artigos e livros da
profissional para a docência, situação essa observada na UTFPR, enquanto área da educação além de elaboração e aplicação de novas propostas didáticas.
instituição que tem como função destacada o desenvolvimento tecnológico. Por Com estas atividades propostas os bolsistas aperfeiçoam suas percepções
conta disso, alguns professores, repetidas vezes não dão importância ao ato de em relação à situação de ensino e são estimulados a buscar sempre o progresso
planejar e de refletir sobre sua ação, pensar sobre o que faz e repensar seu dos quadros observados. O projeto permite que os alunos tenham uma formação
próprio processo. crítica a partir da realização de alguns links entre a teoria que é aprendida na sala
O mito em torno da prática precisa ser desvelado. E como afirma Nóvoa de aula com a prática que é observada em professores que já possuem
(2007), não é a prática que é formadora, mas sim a reflexão sobre a prática. É a experiência na atividade docente, levando assim o aluno a vivenciar a realidade
capacidade de refletir e analisar a própria prática na interação com todos os observada fora da teoria que muitas vezes é transmitida de maneira idealizada
participantes do processo formador que provoca e renova a práxis pedagógica. A (PIMENTA; LIMA, 2011).
formação dos professores precisa romper com a cristalização de modelos Notas-se dificuldades por parte de alguns professores de Química em
tradicionais, de modelos teóricos muito formais, que dão pouca importância a relacionar conteúdos específicos com eventos da vida cotidiana. Não é raro a
essa prática e à sua reflexão. Química ser resumida a conteúdos, o que tem gerado uma carência generalizada
Suanno e Montagnini (2011) sugerem como proposta para uma reflexão de familiarização com a área, uma espécie de analfabetismo químico que deixa
coletiva contínua em relação aos elementos constitutivos da profissão docente, a lacunas na formação do cidadão (ZANON; PALHARINI, 1995).

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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

REFERÊNCIAS criação de uma equipe de apoio pedagógico incluindo professores que se


envolvam com a problemática pedagógica apresentada pelos docentes. Ao
ATAÍDE, S. E. C.; SILVA, C. V., B.. Discutindo as metodologias de ensino de encontro dessa proposta, constitui-se na UTFPR o Departamento de Educação
ciências: novos problemas velhas questões. ENCONTRO DE PESQUISA EM
EDUCAÇÃO, 6., 2010. Anais Eletrônico... Disponível (DEPED), ao qual compete, entre outras atribuições, propor melhorias no
em:<http://www.ufpi.br/subsiteFiles/ppged/arquivos/files/VI.encontro.2010/GT. desenvolvimento dos processos de ensino e de aprendizagem por meio do
13/GT_13_03_2010.pdf>. Acesso em: 04 fev. 2015.
acompanhamento do trabalho desenvolvido pelos docentes. O Núcleo de Ensino
BRASIL. Ministério da Educação. O plano de desenvolvimento da educação.
Razões, princípios e programas. 2012. Disponível (NUENS), que faz parte do DEPED, é responsável “pela execução da política de
em:<http://portal.mec.gov.br/arquivos/livro/>. Acesso em: 04 fev. 2015. qualificação e capacitação docente, pela formação dos discentes dos cursos de
BRASIL. Ministério da Educação. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal licenciaturas relacionada às disciplinas de cunho didático-pedagógico e pela
de Nível Superior - CAPES. Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à
Docência – PIBID. 2014. Disponível em:<http://www.capes.gov.br/educacao- supervisão de estágio destes estudantes” (UNIVERSIDADE TECNOLOGICA
basica/capespibid>. Acesso em: 13 fev. 2015. FEDERAL DO PARANÁ, 2009, p.16).
PASSONI, L. C. et. al.. Relatos de experiência do Programa Institucional de No câmpus Apucarana, essas propostas têm se concretizado em diversos
Bolsa de Iniciação à Docência no Curso de Licenciatura em Química da
momentos: em palestras e discussões coletivas realizadas nos Períodos de
Universidade Estadual do Norte Fluminense. Química Nova na Escola, v. 32,
n. 4, p. 201-209, 2012. Planejamento e Capacitação que ocorrem no início de cada semestre letivo, em
SOARES, C. F.. A escritura “da pesquisa em educação e suas diversas reuniões de coordenações nas quais se convida algum membro do DEPED, em
linguagens”. ENCONTRO DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO, 5., 2009. Anais grupos de discussões e oficinas propostas ao longo do semestre, além de
Eletrônico... Disponível em: <http://www.ufpi.br/ppged/index/pagina/id/2062>.
Acesso em: 04 de fevereiro de 2015. momentos de assessoramento individual em que os docentes procuram a equipe
pedagógica.
Este é um enorme desafio para profissão, aprender a fazer de outro modo,
repensar as várias maneiras de se fazer algo. Foi nesse sentido que o
Departamento de Educação da UTFPR – Câmpus Apucarana, o DEPED, ousou
fomentar oficinas e ciclos de seminários pedagógicos como espaços de formação
docente no lócus da própria instituição.
Um dos objetivos que norteou este trabalho foi a busca por significar o
que é ser um docente que atua com profissionalismo e competência num
contexto social em que se vive sob o impacto da revolução tecnológica e de uma
redefinição de paradigmas profissionais.

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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
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O DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO E A PROMOÇÃO DE ESPAÇOS


DE DEBATE PEDAGÓGICOS: ALGUMAS EXPERIÊNCIAS

Por sua tradição na Educação Profissional, a UTFPR tem em seu quadro,


docentes de destaque que atuam em áreas específicas, mas que em sua maioria
não tiveram formação para a docência. Como apontam Oliver e Barreto (2009),
grande parte deles possui cursos de mestrado ou doutorado, mas que em muito Figura 1: Apresentação do trabalho no II Seminário Estadual PIBID Paraná.

pouco foram discutidas questões envolvendo aspectos didáticos das funções de


ensino. Estar no PIBID nos possibilita a ter a primeira visão do Ensino Médio como

Entendendo o ser humano numa perspectiva sistêmica, aberto às professores, não mais como alunos, igual tínhamos antes. Essa experiência de estar

possibilidades do mundo e atuante no meio que o cerca, o desenvolvimento dos com os alunos na sala de aula é algo que nos ajuda para quando nos formarmos,

servidores (tanto docentes como técnicos-admnistrativos) da UTFPR assume pois não estaremos só vendo as aulas de didática na teoria, mas também na prática,

papel de relevância como política institucional e a sua inserção profissional e melhorando a nossa formação profissional e pessoal, trazendo novos métodos de

capacitação são tidas como processos que superam o mero treino mecânico, que ensino para despertar o interesse dos discentes em sala de aula.

visa a um ser humano completo e que consegue lidar satisfatoriamente com as


CONSIDERAÇÕES FINAIS
situações de sua vida, tornando-se, portanto, profissionalmente eficaz.
A capacitação é realizada de forma dirigida para áreas específicas e, O PIBID é uma grande iniciativa para os estudantes de licenciatura, pois tem
quando solicitado, também na forma de divulgação coletiva, estimulando o contribuído não só para melhorar o diálogo entre os pibidianos e os professores das
relacionamento interdepartamental, para grupo de servidores, conforme disciplinas de Química do Colégio, mas também a relação entre os bolsistas com os
verificado no Planejamento Anual de Desenvolvimento, sendo este construído alunos do Ensino Médio, possibilitando um contato para uma melhor formação
com a demanda solicitada das diversas áreas da Instituição (UNIVERSIDADE quanto à prática da docência, com novos métodos de ensino.
TECNOLOGICA FEDERAL DO PARANÁ, 2009, p. 109). Além de o subprojeto proporcionar o contato inicial do bolsista com a sala
Para elaboração do Plano Anual de Capacitação de cada câmpus, realiza- de Ensino Médio, ele também valoriza o magistério, incentivando os graduandos
se um levantamento de necessidades de desenvolvimento (treinamento e em licenciatura à prática da docência nas salas do Ensino Médio, pois existe
capacitação) voltado tanto para docentes quanto para técnicos-administrativos, uma carência de profissionais qualificados nessa área.
por meio de entrevistas com as chefias das áreas acadêmicas e administrativas e O subprojeto PIBID Química da Universidade Tecnológica Federal do Paraná
de relatórios de pesquisa. Outros elementos de subsídio estão nos formulários de se faz de extrema importância para nós bolsistas, pois além de nos proporcionar o
avaliação de desempenho e nos resultados da pesquisa do clima organizacional. contato inicial com o magistério, nos dá a oportunidade de participar de eventos,
Dessa forma, o Programa de Capacitação da UTFPR abrange diversas ações, apresentando trabalhos para melhorar a nossa vida acadêmica.
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frequentar as salas, os alunos tinham certo receio em tirar dúvidas, mas com o entre as quais a integração de novos docentes, técnicos-administrativos,
tempo isso foi diminuindo, criei até amizade com alguns que depois me estudantes-monitores e estagiários recém-contratados (UNIVERSIDADE
ajudaram na Feira de Ciências, indo aos sábados de manhã no colégio para testar TECNOLOGICA FEDERAL DO PARANÁ, 2009, p. 110).
o experimento da feira. Numa tentativa de fomentar a formação continuada não apenas dos
Conversei com a coordenadora e comecei a dar monitoria em contra-turno docentes, mas da equipe de profissionais que atua na Educação Profissional e
para as turmas que estava acompanhando. Ficava na biblioteca a disposição para Tecnológica, a UTFPR proporciona em sua estrutura de funcionamento um
tirar dúvidas, ajudar com trabalhos e nas listas de exercícios que o professor calendário de atividades denominado Período de Planejamento e Capacitação
passava em sala de aula. A monitoria era uma forma de me ajudar a lidar melhor (PPC)1 , acontecendo em dois momentos ao longo do ano, sempre no início de
com os alunos e com o conteúdo. Acredito que para os alunos também foi cada semestre letivo. É nesse momento que oficialmente ocorre a inserção
proveitosa, pois os que frequentavam diziam que ficava mais fácil entender o profissional desses novos servidores.
conteúdo com diferentes professores ensinando. Como a demanda de alunos que Conforme apontam Barboza e Trevisan (2014), desde sua primeira edição,
frequentavam estava muito baixa, achamos melhor parar com o projeto. o I PPC de 2007, com uma configuração claramente técnica (e pouco
No Colégio, nós, bolsistas do PIBID fizemos a primeira Feira de Ciências pedagógica), os PPC vem passando por múltiplas reformulações, numa busca de
e Artes, na qual convidamos todos os professores, das diferentes áreas para fomentar junto aos docentes a necessidade de planejar, refletir sobre sua ação,
apresentarem trabalhos juntamente com os alunos. Foi dividido então, entre os pensar sobre o que faz, antes, durante e depois.
bolsistas, algumas práticas para realizarem com os alunos na parte de Química. De acordo com os autores, a constituição do Departamento de Ensino e
Fiquei responsável por fazer um experimento com os alunos do 2º ano, chamado Pesquisa – DEPEN em 2008, composto à época por uma pedagoga, uma
“Bolhas Explosivas”. psicóloga, uma técnica do laboratório de química, uma bibliotecária e uma
Além do convívio nas salas de aula, o PIBID também nos possibilita a técnica de assuntos educacionais, proporcionou a valorização desses
fazer projetos e participar de eventos apresentando trabalho. Apresentei um profissionais de diferentes áreas, com múltiplos olhares voltados para um
trabalho, nomeado: “Proposta de ensino de funções orgânicas através do estudo mesmo fim comum – a qualidade dos processos de ensino e de aprendizagem e
do caso A planta que repele o mosquito da dengue” no II Seminário Estadual evidenciou a ausência de uma preparação específica de uma série de
PIBID do Paraná (Figura 1). Esse trabalho foi apresentado como comunicação profissionais para a atuação na docência. Se por um lado esses profissionais
oral. A apresentação deste trabalho me deu uma visão melhor sobre como tinham a seu dispor uma equipe disponível para assessorá-los pedagogicamente,
funciona uma apresentação em um congresso, e também me ajudou a perder o eles apresentam uma forte resistência, e até mesmo aversão, a compartilhar suas
medo de falar em público. práticas e discutir questões pedagógicas. Tal equipe foi responsável pela
1
Falamos aqui enquanto responsáveis pela organização dos PPC: primeira autora, professora da área de
Pedagogia, responsável pelo DEPED entre os anos de 2013 e 2014; segunda autora, pedagoga da Instituição
desde 2008, respondendo pelo Núcleo de Ensino (atrelado ao DEPED) entre 2009 e 2013; terceiro, docente da
área de Matemática no câmpus Apucarana entre os anos de 2009 e 2012, e responsável pelo DEPED no período
de 2011 a 2012.
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elaboração dos PPC no ano de 2008, sempre buscando aproximar o grupo de ATIVIDADES DESENVOLVIDAS E RESULTADOS OBTIDOS NA
docentes, ainda pequeno naquele momento, de uma discussão com VIVÊNCIA NO PIBID
características mais pedagógicas. As atividades a partir de 2009 foram
configuradas dentro de uma nova estrutura de Regimento, com o No início de 2014 participei de uma seleção para bolsista de Iniciação à

desenvolvimento de atividades por Núcleos que fariam parte do Departamento Docência referente ao projeto PIBID/Química da UTFPR Apucarana. Sempre

de Educação (DEPED): o Núcleo de Acompanhamento Psicopedagógico e tive vontade de trabalhar na área do Ensino e vi no PIBID uma ótima

Assistência Estudantil (NUAPE) e o Núcleo de Ensino (NUENS). Esse ano, oportunidade de um primeiro contato com o Ensino Médio, agora não mais

marcado pela chegada de um novo grupo de docentes ao câmpus, vários deles como aluna, mas como futura docente.

principiantes na docência, corresponde também a uma nova configuração dos Desenvolvi meus trabalhos no PIBID no Colégio Estadual Nilo Cairo,

PPC. A organização de uma atividade de recepção, que passaria a ser replicada localizado no centro da cidade, acompanhando as turmas 2º A e 3º D.

nos semestres subsequentes (atividade de ambientação) revela uma preocupação A realidade do Colégio Estadual Nilo Cairo, diferentemente de muitas

administrativa da Direção Geral e da Diretoria de Graduação e Educação localizados na periferia da cidade, é boa, porém sofre com alguns problemas,

Profissional (antigo DEPEN) em apresentar aos novos servidores a estrutura e os como todas as escolas públicas. O Colégio tem um laboratório grande de

diferenciais dessa Instituição centenária. Química, mas não é muito utilizado pelos professores. Com a inserção do PIBID

Para Barboza e Trevisan (2014), tal “evento”, passa a ser uma marca no no colégio, a frequência dos alunos no laboratório aumentou, pois nós, bolsistas,

processo de inserção profissional dos novos servidores, tanto docentes quanto planejamos as aulas práticas no ano de 2014, de acordo com o conteúdo que

técnicos-administrativos, no câmpus Apucarana da UTFPR, e evidenciando uma estava sendo passado pelo professor na sala de aula.

vez mais o caráter “técnico” que passa a ser ressaltado. Vale lembrar que, dentre Acompanhei as turmas do 2º A e 3º D do Ensino Médio. Pude realizar

esses docentes, muitos deles passaram direto da Graduação para a Pós- algumas práticas no laboratório com o professor/supervisor do PIBID. Uma das

Graduação sem experiência em sala de aula e, portanto, principiantes no práticas foi com o 3º ano, identificação de carbono pela sacarose, na qual foi

magistério. proposto que os alunos pegassem açúcar e por meio de reações químicas,

No transcorrer ano de 2010, novas sugestões apresentadas e considerações provassem que ele é composto por átomos de carbono.

foram tecidas pelos servidores com relação as atividades dos PCC. Foi notável que as aulas práticas despertaram um maior interesse e

Questionamentos constantes do conta do corpo docente acerca da necessidade de entendimento da matéria pelos alunos. No laboratório, o professor me deu

participação obrigatória nos PCC levaram ao redimensionamento das atividades. autonomia para conduzir a aula prática, explicando para os alunos os

Em reunião com os coordenadores de curso, define-se no final daquele semestre procedimentos, discutindo com eles os resultados e tirando algumas dúvidas que

um novo design para as atividades dos PCC a partir de 2011. Docentes veteranos iam surgindo no decorrer do experimento.

passam a organizar momentos de capacitação dentro das próprias coordenações Na sala de aula, ficava a disposição para tirar as dúvidas dos alunos e

de curso, definidas junto a seus pares, o que inclui o oferecimento de auxiliar o professor quando ele precisava de algo. No começo, quando comecei a
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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

melhoras nos problemas da educação no Brasil. Um desses programas é o Programa minicursos, oficinas e visitas técnicas próprias das áreas de formação desses
Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID). O PIBID/CAPES é um docentes (foco “técnico”) e reuniões que, a critério dos coordenadores, incluem
projeto que visa elevar a qualidade dos graduandos em licenciatura, incentivar os a participação de alguns membros do DEPED. Por outro lado, o DEPED fica
professores das escolas públicas como conformadores dos futuros docentes e responsável pela proposição de atividades de carater pedagógico, cuja
contribuir para a valorização do magistério (BRASIL, 2014). participação passa a ser opcional, tanto para docentes veteranos quanto para
O PIBID vem se firmando como uma grande iniciativa do país na questão novos docentes. Tal estratégia possibilitou que muitos docentes veteranos não se
de formação inicial dos professores, aparecendo como uma promessa de sentissem obrigados a participar de nenhuma delas.
incentivo e valorização do magistério e dando possibilidades aos acadêmicos
dos cursos de licenciatura a praticar métodos inovadores em salas de aula, CONSIDERAÇÕES FINAIS

através do contato com a realidade escolar, situando melhor o docente entre a O Câmpus continua crescendo e, a cada semestre, novos docentes são
teoria acadêmica e a prática escolar. integrados, docentes muitas vezes sem experiência didática (bacharéis) ou
Segundo Soares (2010), o ensino de Química praticado nos dias atuais no advindos de outros sistemas de ensino. Na configuração mais recente dos PCC,
Ensino Médio, têm certa resistência por parte dos alunos, pois consideram uma quando ocorre alguma participação do DEPED em reuniões com as
ciência “complicada, difícil de compreender, e na maioria das vezes sem sentido coordenações de curso, busca-se por meio delas proporcionar aos docentes
e sem nenhum significado”. informações sobre os acompanhamentos que o NUAPE através das psicólogas,
Ataíde e Silva (2010) acreditam que esse fato, em algumas situações, pode assistentes sociais, técnica de enfermagem e pedagoga efetuam durante o ano
ser explicado pelos métodos de ensino que os professores utilizam em salas de com os alunos; a pedagoga responsável NUENS, com base nos planos de ensino
aula, como por exemplo, fazer os alunos fixarem fórmulas, fatos e teorias, e no acompanhamento das aulas de uma forma geral, apresenta algumas
chegando ao ponto de “decorar” uma equação científica. reflexões e considerações sobre os métodos utilizados.
O nosso subprojeto PIBID/Química está sendo feito para dinamizar o ensino Durante o primeiro semestre de 2011, considerações feitas por alguns
de química, para não deixar o conteúdo muito maçante para os alunos, despertando docentes, que mostram alguma “identificação” com discussões pedagógicas,
o interesse deles pela disciplina, em outras palavras, deixando a matéria mais acerca da configuração dos PCC, mostraram uma nova possibilidade de
atraente, uma vez que ela é vista pelos alunos como algo muito difícil. desenvolver atividades de capacitação também no transcorrer de cada semestre.
Na busca de novas ferramentas de apoio para o ensino na disciplina de Desde então, passaram a ser organizados encontros em que tanto técnicos-
Química nos foi proposto pela coordenadora do subprojeto PIBID Química, administrativos quanto docentes possam dialogar a respeito de temas que
preparar novas atividades didáticas a fim de reconquistar a participação e o promovam uma maior compreensão tanto do conceito de Educação Tecnológica
interesse dos alunos do Ensino Médio durante as aulas aplicadas. O presente quanto de temáticas pedagógicas.
trabalho tem o objetivo de relatar experiências vividas por uma bolsista do
PIBID, subprojeto Química da UTFPR câmpus Apucarana.
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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

Tais iniciativas culminaram com a criação de um grupo de pesquisa, RELATO DE EXPERIÊNCIA: OLHAR DE UMA BOLSISTA DO
cadastrado no CNPq sob o título “Ensino de ciências e tecnologia”, composto PROJETO PIBID DE QUÍMICA NO COLÉGIO ESTADUAL NILO
por uma equipe bastante eclética, envolvendo profissionais do DEPED CAIRO
(professores, pedagogas, psicólogas, assistentes sociais, intérprete de libras) e
também outros servidores técnico-administrativos com formação em áreas Beatriz Bianca Schulz Ramin
educacionais (BARBOZA; TREVISAN; AMARAL, 2012). Lilian Tatiani Dusman Tonin
Assim, tanto na acolhida quanto no trabalho diário de cada novo semestre,
as ações do DEPED voltam-se ao desafio de estabelecer alguma “identificação” INTRODUÇÃO

dos docentes às questões pedagógicas, buscando conhecer as áreas de interesse


O Ensino Médio tem sofrido uma constante desvalorização profissional no
de cada um e abrindo as portas para novas oportunidades de pesquisa e extensão.
Brasil. Com o passar dos anos, o país melhorou em muitos setores produtivos,

REFERÊNCIAS mas o setor educacional, como também todo o sistema de ensino brasileiro, não
tem seguido o mesmo desenvolvimento dos demais setores. Durante esse tempo,
ANASTASIOU, L. das G. C. (2005) Profissionalização continuada do docente
o magistério está com déficit de profissionais qualificados para trabalhar, em
da educação superior: desafios e possibilidades. Revista Olhar de professor, v.
8, n. 1, p. 09-22. Disponível razão dos baixos salários e da desvalorização de cargos, prejudicando assim a
em:<www.revistas2.uepg.br/index.php/olhardeprofessor/article/download/1424/
qualidade do ensino. O enfrentamento da situação em que o magistério se
1069>. Acesso em: 21 out. 2013.
encontra nos dias atuais requer estratégias articuladas para estabelecer e
BARBOZA, W. de L.; TREVISAN, A. L.; AMARAL, R. G. do. Oficina de recuperar um ensino voltado parar a construção de cidadania e de saberes
avaliação: a difícil tarefa de avaliar com qualidade. In: SEMINÁRIO
NACIONAL DE ENSINO DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA, 3, 2012, Ponta (PASSONI et al., 2012).
Grossa. Anais eletrônico... Disponível Entre os principais desafios do Plano de Desenvolvimento da Educação
em:<www.sinect.com.br/2012/selecionados.php>. Acesso em: 25 ago. 2012.
(PDE), estão: vencer a dicotomia entre a teoria e a prática ainda presente em
BARBOZA, W. L.; TREVISAN, A. L.. O design de um conceito pedagógico: muitos cursos de formação de professores; formar professores que atendam às
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18 183
O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

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Acesso em: 01 jul. 2014. das vezes, o oposto; não generalizando, pois alguns estudantes destacavam-se
em meio aos demais. Diante desta turma, seguindo a mesma divergência, pode-
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experiência. São Paulo: Cortez, 2000. se incluir a reação da professora em relação as atitudes dos alunos, esta
SUANNO, M. V. R.; MONTAGNINI, M. L.. Formação pedagógica de professores demonstrava impaciência e incômodo com a irresponsabilidade dos estudantes
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2013/PDI%202009-2013.pdf/view.> Acesso em: 29 out. 2013.
mim, bolsista, o crescimento como futura profissional na área da docência. O
professor possui um papel muito importante na vida do estudante, pois este tem
o poder de persuadir, incentivar e motivar os mesmos. Agir de maneira errada
pode afastar o interesse destes pela disciplina, neste caso, a de Química. Inovar o
modo de como aplicar o conteúdo é o começo para conquistar a atenção de cada
um, até mesmo daqueles que demonstram apatia pelas aulas.
Para que mudanças sejam vistas dentro da realidade das escolas públicas
de Ensino Médio no Brasil é necessário que elas comecem desde o ensino
básico. Assim o hábito e a paixão pelo conhecimento será algo adquirido pelos
estudantes. Os professores precisam aprender, muitas vezes, a cativar seus
estudantes, precisam mostrá-los a importância de cada disciplina, mesmo que
esta pareça longe do seu dia a dia, e de cada conteúdo aplicado durante o ano
letivo para que pensem sempre que aprender é uma constante necessidade para
tornarem-se pessoas melhores e, consequentemente, sucedidas no futuro.

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pessoas que já estiveram inseridos dentro de uma rede de educação. Esses APLICATIVO EM JAVA PARA AUXÍLIO NO PROCESSO DE
métodos, conhecidos, são designados como o uso do livro didático, que AVALIAÇÃO VIA TAXONOMIA DE BLOOM
apresentava o conteúdo e os exercícios que foram utilizados durante o ano
Marcelo Ferreira da Silva
letivo, pesquisas de trabalhos através dos meios de comunicações como a
Fernando Barreto
internet e avaliações durante o bimestre para obtenção da média final de cada
estudante. A partir da didática utilizada pela professora notei que os alunos ao INTRODUÇÃO
serem expostos as rotineiras aulas se mostravam impacientes, pois não havia
A avaliação da aprendizagem é parte fundamental do processo
vontade pelo que estava sendo ensinado. A disciplina de Química tem aparecido
ensino/aprendizagem. Sendo assim, sua prática pedagógica requer um
desfavorecida e ser enriquecida se houver a possibilidade de torna-la mais
comprometimento dos profissionais envolvidos para que se possa refletir
prática do que teórica. O efeito visual de uma aula prática é incrível, porque essa
questionar e transformar nossas ações. Dentro dessa perspectiva, Hoffmann
chama a atenção dos alunos cativando-os aos poucos para o maravilhoso mundo
(1995, p. 18) assim descreve a concepção transformadora:
que há dentro dessa disciplina.
Outro notório comportamento, dentro do ambiente escolar, é o A avaliação é a reflexão transformada em ação. Ação, essa, que nos
impulsiona a novas reflexões. Reflexão permanente do educador sobre
compromisso dos alunos em relação aos estudos, esses apresentaram diferentes sua realidade e acompanhamento, passo a passo, do educando, na sua
interesses que nem sempre foram construtivos, porém preocupações comuns trajetória de construção do conhecimento. Um processo interativo,
através do qual educandos e educadores aprendem sobre si mesmos e
entre eles apareciam quando atividades eram aplicadas com o intuito de sobre a realidade escolar no ato próprio da avaliação.

acrescentar notas as médias bimestrais de cada indivíduo. Todos os estudantes Na avaliação o professor tem a possibilidade de verificar se houve
mostravam-se interessados, em ambas as salas de aulas, e caso não houvesse construção satisfatória e significativa da aprendizagem em seus alunos e também
bonificação poucos se manifestavam e realizavam o que havia sido proposto. realizar uma reflexão com uma possível mudança de suas ações. Neste sentido, a
Alguns problemas como esses são notados quando se analisa a postura dos avaliação da aprendizagem deve ser entendida como um processo contínuo e
alunos diante de deveres básicos. E esses podem ser vistos quando alguns dos orientador dos objetivos educacionais propostos ao ensino. Segundo Haydt
adolescentes demonstravam preocupação apenas em concluir o Ensino Médio, (1992, p. 13),
não possuindo motivação para adentrar em uma universidade após a conclusão
A avaliação é um processo contínuo e sistemático. Portanto, ela não
deste. pode ser esporádica nem improvisada, mas, ao contrário, deve ser
constante e planejada. Nessa perspectiva, a avaliação faz parte de um
A professora da disciplina de Química apresentava comportamento sistema mais amplo que é o processo ensino/aprendizagem, nele se
distinto em cada uma das turmas. Na sala de aula, com menor quantidade de integrando.

alunos, agia sempre mais calma e compreensiva, conseguindo fluir seu trabalho Os objetivos educacionais são elementos norteadores da avaliação, sendo
melhor e aplicando o conteúdo de forma mais explicativa. Como os alunos fator importante para ter sucesso no ato de ensinar. Por meio desses objetos os
demonstravam maior interesse e entendimento do conteúdo havia uma facilidade
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professores podem se orientar com relação (i) ao conteúdo, (ii) as estratégias e ATIVIDADES DESENVOLVIDAS E RESULTADOS OBTIDOS NA
(iii) instrumentos para avaliação de desempenho do aluno e deles próprios. VIVÊNCIA NO PIBID
Entre os instrumentos educacionais para auxilio da avaliação, tais como
provas, dissertações, questionamentos orais, estudos de caso, seminários, entre A atividade que participei durante o período de três meses em que estive

outros, dar-se-á ênfase nas provas, que na avaliação tradicional, são concebidas, inserida ao programa PIBID foi a de acompanhar duas turmas de terceiro ano do

de acordo com Perrenoud (1999), objetivando mais o desconto do que a análise Ensino Médio em uma escola da rede pública de educação na cidade de

dos erros, mais para classificação dos alunos do que para identificação do nível Apucarana, Paraná. Ao longo das aulas, o método que utilizei resumiu-se a

de domínio de cada um (JURKEVIZ, 2010). Segundo Perrenoud (1999, p. 15), observação da didática da professora para o ensino de Química, e ainda, suas
estratégias para lidar com o comportamento dos alunos em relação ao conteúdo
[...] a prova suscita erros deliberadamente, já que, de nada serviria, se
todos os alunos resolvessem todos os problemas. Ela cria a famosa aplicado.
curva de Gauss, o que permite dar boas e más notas, criando, portanto, Ao observar a rotina da professora fui me imaginando como docente ao
uma hierarquia. Uma prova desse gênero não informa muito como se
operam a aprendizagem e a construção dos conhecimentos na mente lidar com as situações cotidianas do ensino de Química. Fui me envolvendo na
do aluno, ela sanciona seus erros sem buscar os meios para
compreendê-los e para trabalhá-los. tarefa e senti a necessidade, a motivação e o interesse em realizar estas

De acordo Perrenoud (1999) o êxito e o fracasso escolar estão atividades. Percebi que ao me envolver inteiramente poderia chegar a bons

correlacionados, por um lado pelos procedimentos e escalas instituídas e, por resultados. Como coloca Mello, dizemos que ao realizar uma atividade e, ao

outro, pela arbitrariedade do professor ou do estabelecimento de ensino. Neste realizar essa atividade, está se apropriando das aptidões, habilidades e

sentido, na elaboração das questões da prova, quer sejam objetivas ou capacidades envolvidas nessa tarefa (MELLO, 2002).

discursivas, não há uma preocupação adequada com os objetivos educacionais De acordo com a prévia apresentada sobre a atividade que escolhi dentro

estabelecidos. É comum encontrarmos questões extremamente difíceis ou do PIBID foi possível compreender, a partir dela, o método utilizado pela

totalmente óbvias, em muitos casos aparecem falhas técnicas na elaboração das professora para lidar com os alunos e também o comportamento destes em

questões. Portanto, o planejamento, elaboração e análise das questões são relação a disciplina aplicada. Ao acompanhar o dia-dia desses estudantes do

extremamente importantes no processo de construção da prova. Colégio José Maria de Anchieta na cidade de Apucarana, Paraná, adquiri uma

Um dos esquemas classificatórios dos diferentes tipos de comportamentos visão abrangente de como é a vida de um licenciado dentro da escola.

desenvolvidos durante a experiência educativa para atingir os objetivos As duas turmas acompanhadas, ao longo de alguns meses, foram de

educacionais é a Taxonomia de Bloom. Tal Taxonomia, do ponto de vista terceiro ano do Ensino Médio. Estas possuíam números distintos de alunos,

educacional, possibilita não só uma análise comparativa entre diversos tipos de porém comportamentos semelhantes quando eram expostos a mesma situação. A

provas, mas também permite o estudo da relevância dos instrumentos de professora responsável por ministrar as aulas da disciplina de Química, nessas

medidas. Sendo um poderoso instrumento para desenvolvimento e escolha de salas de aulas, foi a mesma ao longo do período em que os acompanhei e a

uma estrutura de avaliação que considera diferentes níveis de aquisição do mesma utilizou métodos didáticos considerados rotineiros e comuns por todas as
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RELATO DE EXPERIÊNCIA: OBSERVANDO A PRÁTICA DOCENTE conhecimento (concreto/abstrato, simples/complexo). O uso da Taxonomia de
EM ATIVIDADES DO PIBID Bloom permite ao professor/educador uma visão mais precisa da aprendizagem
do aluno.
Caroline Franco Carbuloni Neste contexto, por meio de uma pesquisa bibliográfica, verificou-se que
Angélica Cristina Rivelini da Silva não há no momento um aplicativo educacional, desenvolvido em linguagem de

INTRODUÇÃO programação Java, para direcionar/orientar o professor na construção de suas


provas - que é um dos instrumentos de suas avaliações. Apesar da importância
O Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) foi criado
que a taxonomia adquiriu nos últimos anos, sendo revisada por Anderson
com o objetivo de valorizar o magistério e incentivar os estudantes de licenciatura.
(1999), e dos avanços na área de tecnologias educacionais, pouco se tem
Os alunos da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, campus Apucarana, que
desenvolvido em termos de aplicativos computacionais para explorar o processo
cursam Licenciatura em Química têm a oportunidade de participar do programa e os
de ensino/aprendizagem por meio da Taxonomia Bloom.
que já se encontram nele são inseridos no cotidiano de escolas da rede pública de
Tendo em vista essas questões, este artigo apresenta a construção de um
educação da cidade. A finalidade é o ganho de experiência ao conviverem no âmbito
aplicativo em Java para apoiar o planejamento e construção de instrumentos de
escolar, sendo assim, esses adquirem uma visão ampla do dia-dia de um professor,
avaliação embasados na Taxonomia de Bloom, visando contribuir para o
da importância deste dentro da instituição e sua contribuição para a sociedade.
processo de construção do conhecimento da aprendizagem do aluno, de modo a
A intervenção realizada pelo professor durante as aulas em relação aos
proporcionar o alcance dos objetivos educacionais estabelecidos pelo professor,
alunos e a cultura escolar apresenta especificidades, ou seja, a educação formal é
além de contribuir para uma reflexão docente sobre a avaliação educacional,
qualitativamente diferente por ter como finalidade específica propiciar a
como um instrumento de efetiva verificação da qualidade e quantidade do
apropriação de instrumentos culturais básicos que permitam elaboração de
ensino que está sendo orientado.
entendimento da realidade social e promoção do desenvolvimento individual.
Assim, a atividade do professor é um conjunto de ações intencionais, FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
conscientes, dirigidas para um fim específico (BASSO, 1994, p. 4).
Em 1991, a Sun Microsystems estava interessada em criar uma linguagem
Sendo assim, os bolsista do programa PIBID tem como uma de suas
de programação que pudesse ser utilizada em equipamentos eletrodomésticos,
atividades semanais acompanhar e observar aulas de professores de Química
tais como controles de TV, telefones, fornos, geladeiras e etc. Tal linguagem
para o Ensino Médio. Neste relato apresento minhas observações das inversões
deveria ser capaz de (i) fazer com que os equipamentos comunicassem entre si
da professora e alunos durante a apresentação de conteúdos/culturas da Química.
de forma integrada, (ii) gerar códigos muito pequenos e (iii) ser praticamente
infalível.

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A linguagem de programação C++ foi escolhida pelo grupo de enquadra neste fator, não podemos descartar os alunos aqueles que indicam se
engenheiros projetistas como ponto de partida, por ser uma linguagem orientada nosso trabalho esta realmente sendo efetivo.
a objetos, muito poderosa e capaz de gerar pequenos programas. No entanto, Assim, crescemos em todos os sentidos justamente devido as
C++ não correspondeu às expectativas do grupo e foi criada uma nova experiências que somente o PIBID pode nos proporcionar, experiências onde no
linguagem de programação que fosse realmente portátil, simples e interpretada. inicio do ano de 2014 eram tabus se tornaram barreiras, mas, barreiras que
Foi criado também o conceito de máquina virtual para solucionar o problema de percebemos ser destrutivas, onde nos motiva cada vez mais a continuar no
execução em várias arquiteturas, de forma que cada fabricante iria suportar programa e utilizar as estratégias de ensino salientadas pelo próprio programa e
algumas funções básicas que os programas utilizariam. fica claro que estas ferramentas ou estratégias são muito valiosas para o ensino.
Atualmente, Java não é utilizada em eletrodomésticos. Ao invés disso, É muito gratificante fazer parte deste processo e ver que pequenas medidas
com o crescimento da Internet e o desenvolvimento dos Applets (mini- realmente fazem muita diferença e nos firma ainda mais em nosso propósito de
aplicativos) ela se tornou uma das linguagens de programação mais utilizadas. fazer a diferença.
As especificações da linguagem Java são mantidas uniformes através de um
processo comunitário gerido pela Sun Microsystems, que é também detentora da REFERÊNCIAS

marca registrada com o nome da linguagem (BRITO, 2008).


PASSONI, C. L. et. al. Relatos de Experiência do Programa Institucional de
Em geral, na maioria das linguagens de programação, pretende-se Bolsa de Iniciação à Docência no Curso de Licenciatura em Química da
compilar ou interpretar um programa para ser executado em um computador. Na Universidade Estadual do Norte Fluminense. Química Nova na escola, v. 34, n.
4, p. 201-2019, 2012.
linguagem Java é diferente, pois os programas são compilados e interpretados.
Com o compilador, inicialmente o programa é transformado em uma linguagem
intermediária chamada bytecode, que é independente de plataforma.
Posteriormente é interpretado por um interpretador Java, na qual analisa e
executa cada instrução da bytecode no computador. O processo de compilação é
executado apenas uma vez, já o processo de interpretação ocorre toda vez que o
programa é executado. Na Figura 1 mostramos o processo executado em Java.

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apresentavam muitas dificuldades e nos mantivemos presentes auxiliando-os,


dentro e fora da sala de aula.
Foi se tornando prazeroso trabalhar no ambiente escolar, poder ajudar os
alunos, fazendo melhorar o desempenho não apenas em Química, os alunos
passaram a nos chamar de: – “Professores” a aplicação das vídeo-aulas foram
muito satisfatórias, afirmando que foi muito útil para os estudos, foram Figura 1: Ilustração do processo de Compilação-Interpretação executado na linguagem de
aplicadas monitorias para um reforço com os alunos. Não sabemos se é correto programação Java.
Fonte: Adaptado do site: <http://docs.oracle.com/javase/tutorial/getStarted/intro/definition.html>.
chamar os estudantes do primeiro ano do colégio estadual Manoel Ribas
“Colégio Agrícola” de nossos alunos, mas temos certeza de um fato, onde Os bytecodes podem ser entendidos como instruções de máquina para a
podemos chama-los de amigos. Máquina Virtual Java (Java Virtual Machine - JVM). A linguagem bytecodes
De fato o PIBID é um programa que auxilia as partes, tanto o graduando torna possível a tecnologia “escreva uma vez, execute em qualquer lugar”. Pode-
de licenciatura, quanto aos alunos do Ensino Médio que recebem os bolsistas e se compilar um programa Java em qualquer plataforma que possua um
não apenas os alunos, mas escola toda em si, o PIBID proporciona experiências, compilador e os bytecodes gerados são interpretados em qualquer plataforma
a inclusão do universitário dentro do ambiente escolar, o convívio com os que possua uma JVM instalada. Em resumo, um programa escrito em linguagem
alunos, pode-se dizer que os alunos que participam do PIBID, se tornam um Java pode ser executado em Windows, estação de trabalho Solaris ou em um
professor alunos, pois ele tem muito para passar, ensinar novos métodos, uma MacOS, desde que o equipamento tenha instalado uma JVM, conforme ilustrado
nova visão, mas o bolsista também aprende muito em pesquisas e trabalhos. na Figura 2.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Participar do PIBID é uma experiência onde somente quem faz parte


sabe descrever, como pode ser notado no relato acima, a participação do
programa proporciona um enriquecimento profissional, devido a vivência dentro
da sala de aula, torna-se um prazer e privilegio a vivência com os alunos,
concretizando nossa certeza no profissional que queremos nos tornar no futuro,
este relato expõe a dedicação tanto dos supervisores fornecendo ideias, sendo
nossos guias, isso vale também para os supervisores dentro da sala de aula que
nos permitem frequentar as aulas dando-nos a liberdade para aplicar aquilo que
Figura 2: Ilustração da tecnologia “escreva uma vez, execute em qualquer lugar”.
acreditamos poder acrescentar em positivo para a sala, a escola também se Fonte: Adaptado do site: <http://docs.oracle.com/javase/tutorial/getStarted/intro/definition.html>.

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experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

Para finalizar, as características principais da linguagem Java são Antes disso, passamos uma lista para os alunos inserirem seus
(BRITO, 2008): respectivos nomes, e-mail e Facebook (alguns poderiam utilizar nomes
diferentes no perfil do Facebook), em seguida foram criados dois grupos
• Orientada a objeto por basear-se nos quatro princípios do virtuais, uma para cada turma do primeiro ano, esse foi o meio encontrado para
paradigma da programação que são: abstração, encapsulamento, poder direcionar os vídeos para os alunos. O trabalho foi muito satisfatório, a
herança e polimorfismo; aplicação do material rendeu notável melhora no desempenho dos alunos nas
• Neutra porque a Máquina Virtual Java (JVM) pode ser avaliações. Outro ponto que ressaltamos foi a aproximação com os alunos após
implementada em qualquer plataforma; a aplicação dos vídeos. Eles passaram a nós procurar com mais frequência a fim
• Distribuída por suportar vários tipos de conectividade em de tirar dúvidas e até para conversas informais.
aplicações distribuídas em rede; Com o material gerado nesta proposta de ensino elaboramos um artigo
• Sem ponteiros uma vez que a JVM possui o Garbage Collector que foi apresentado no II Seminário Estadual PIBID do Paraná, evento

capaz de gerenciar automática e dinamicamente a memória; realizado em Foz do Iguaçu, no Paraná. Foi um momento de desafio ter que

• Segura protege as "máquinas-alvo" contra quaisquer operações apresentar nosso trabalho em público e defender o material que havíamos

em seu sistema de arquivos por aplicações obtidas pela rede, já produzido.

que os Applets são desenhados para existirem na máquina cliente É notável a importância do PIBID, para nós graduandos em Licenciatura

somente em tempo de execução. em Química, devido às pesquisas dedicadas para melhorias nos métodos de
ensino e aprendizagem, o convívio em grupo onde todos se ajudam os

Já a plataforma utilizada para desenvolvimento do aplicativo foi a Java. profissionais que nos acompanham e tem muito para nos oferecer, mas antes de

Uma plataforma é o conjunto de hardware e software no qual um programa é tudo o fator mais importante do PIBID é a inserção do bolsista no ambiente

executado, sendo que as populares são Windows, Linux, Solaris e MacOS. A escolar.

maioria das plataformas podem ser descrita como uma combinação de sistema O Colégio Agrícola Manoel Ribas, local em que realizamos nossas

operacional e hardware. A plataforma Java difere da maioria, pois é uma atividades do PIBID, é um colégio atípico por ser um colégio agrícola tem

plataforma de software que utiliza a plataforma de hardware das outras e possui elevado número de meninos/rapazes. Precisava ser derrubada essa barreira

dois componentes: inicial, passamos a nos oferecer para tirar as duvidas dentro de sala de aula e
interagir mais com os alunos para que estes percebessem que estávamos lá para

• Java Virtual Machine (Java VM ou JVM); ajuda-los nos conteúdos de Química.

• Java Application Programming Interface (API Java). No decorrer dos dias, essa barreira pode ser ultrapassada e foi dando
inicio a um trabalho diferente que só foi possível graças ao PIBID, os alunos

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Para uma aprendizagem efetiva do aluno ao ensino de Química, o A API Java é uma grande coleção de componentes de software prontos,
professor deve ter domínio sobre o conteúdo, pois a falta do mesmo gera que fornecem muitos recursos úteis, desde estruturas para manipulação de
insegurança e cria métodos rotineiros. Então os saberes devem ser atualizados arquivos até a construção de aplicativos Figuras. A API é organizada como um
tanto no âmbito teórico quanto prático, aliando ambos e ensinando o aluno de grupo de bibliotecas com classes e interfaces; essas bibliotecas são chamadas de
forma eficiente. pacotes. A
Este trabalho tem como objetivo expor a importância do PIBID para os Figura 3 abaixo ilustra o esquema de execução na plataforma Java. Como
bolsistas, salientando a introdução dos estudantes na sala de aula no período do mostra a Figura, a API Java e a Máquina Virtual isolam o programa do
curso, onde estes trazem melhorias para a sala de aula e ganha em beneficio hardware.
próprio, ajudando na formação de um novo professor.

ATIVIDADES DESENVOLVIDAS E RESULTADOS OBTIDOS NA


VIVÊNCIA NO PIBID

Durante o ano letivo de 2014, foram realizadas reuniões semanais com


todos os participantes do programa PIBID, juntamente com nossas
coordenadoras. Durante este ano acompanhamos as duas turmas do primeiro ano Figura 3: A API Java e a Máquina Virtual Java isolam o programa do
do Colégio Agrícola Manoel Ribas de Apucarana, sob a supervisão do professor hardware.
Fonte: Adaptado do site: <http://docs.oracle.com/javase/tutorial/getStarted/intro>.
regente.
Atendendo uma solicitação do professor supervisor desenvolvemos um Como a ideia do aplicativo desenvolvido é que o mesmo seja
projeto para a criação de vídeo-aulas. Selecionamos as questões onde os alunos disponibilizado na Internet e, posteriormente implementado na Plataforma
teriam mais dificuldades. A partir dos dados elaboramos os roteiros para a Moodle, torna-se importante apresentar uma visão geral de um Applet, a
preparação de vídeo-aulas que pudessem auxiliar os alunos em seus estudos. definição de um Applet Java e algumas de suas características.
Reservamos um dia para aprender a operar a câmera e gravar os vídeos. Os Applets são programas que podem ser executados no contexto de outro
As aulas gravadas foram elaboradas de maneira sucinta e dinâmica, a fim programa. No caso dos Java Applets, são softwares aplicativos, feitos na
de explicar o conteúdo de modo simples envolvendo o cotidiano dos alunos. linguagem Java e que são executados dentro do web browser. São invocados
Após as filmagens, não sabíamos como direcionar estes vídeos para o acesso dos pelo código HTML e executados ali mesmo (como se fossem uma imagem)
alunos, assim aproveitamos o uso expansivo das redes sociais e os vídeos foram "dentro" da página web, independente do sistema operacional que se esteja
enviados diretamente para os alunos via Facebook. usando.

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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

Os Java Applets são suportados por muitos navegadores, sendo necessário RELATO DE EXPERIÊNCIA: É POSSIVEL FAZER A DIFERENÇA?
apenas ter instalado a Java Runtime Environment (JRE) na máquina cliente e o
Evandro Bonifacio
plugin Java, para o navegador. São executados numa "caixa de areia" (sandbox)
Ariel Colaço
pela maioria dos navegadores, impedindo-os de acessarem os dados da máquina
Angélica Cristina Rivelini da Silva
na qual estão sendo executados. O código do Applet é baixado de um servidor
web e o navegador o embute dentro de uma página web exibindo a interface do
programa. Eles são ótimas alternativas em alguns casos, pois, de forma prática,
são executados no browser do cliente, oferecendo soluções criativas e INTRODUÇÃO
inteligentes para alguns tipos de situações (BRITO, 2008).
Tanto aplicações como Applets possuem muitas semelhanças, desde A fim de formar professores que atendam as exigências acadêmicas e
características como recursos em comum. No entanto, os applets possuem a sejam capazes de elaborar estratégias didáticas voltadas à construção do ensino-
vantagem de serem programas pequenos e voltados para a web, ao passo que, as aprendizagem temos a implementação do Programa Institucional de Bolsas de
aplicações são programas maiores e mais robustos. Os Applets são criados pela Iniciação à Docência (PIBID) em cursos de licenciatura. Este programa
extensão da java.applet.Applet e não possuem um método principal main como as incentiva estudantes, destes cursos, a vivenciarem o dia-a-dia escolar,
aplicações. oferecendo atividades e metodologias novas, permitindo assim o aprimoramento
Os Java Applets são desenvolvidos geralmente com as Interfaces Gráficas do estudante e futuro docente (PASSONI et al., 2012).
com o Usuário (Graphical User Interface - GUIs) Swing e Abstract Window O PIBID de Química incentiva seus bolsistas a desenvolverem
Toolkit – AWT. Os widgets do Swing oferecem componentes GUIs mais metodologias diferenciadas, facilitando a aprendizagem e interação dos alunos
sofisticados do que a AWT. A AWT usa widgets do próprio sistema operacional com seu conteúdo, proporcionando aos alunos um melhor conhecimento
para criar os componentes Figuras, ao contrário do Swing, o que “desenha” científico das transformações que nela ocorrem, para isto cumpre-se uma função
quase todos os seus widgets, resolvendo o problema da portabilidade. Devido a fundamental que é a inserção do graduando dentro do ambiente escolar.
essa característica, o Swing é levemente mais "pesado" que o AWT, tornando a O programa proporciona aos bolsistas oportunidades de apresentar novas
sua execução relativamente lenta, que em muitos casos não chega a ser ideias, novos conceitos que possam ajudar e auxiliar como material didático,
perceptível. como: jogos, dinâmicas, teatros, gincanas, oficinas, feiras, vídeo- aulas.
O esquema ilustrado na Figura 4, mostra a maioria das classes que Essas ações experimentais devem ser elaboradas de acordo com o nível
compõem o Java Swing e a relação entre as classes AWT (retângulos claros) e as de desenvolvimento da aprendizagem dos alunos e mantê-las vinculadas sempre
classes Swing (retângulos escuros). Como se pode observar, as funcionalidades que possível com situações cotidianas, para que assim possam entender o
básicas são comuns nas duas GUIs. assunto de forma mais simples e dinâmica. Desta forma, estas e outras
atividades podem ser realizadas pelo PIBID.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Concluímos que, o PIBID, como subprojeto no câmpus da UTFPR em


Apucarana, atende aos requisitos de inserir o futuro docente no ambiente escolar
e de proporcionar a eles experiência, melhorando a qualidade da sua formação e
oferecendo formas de melhorar o ensino de Química na Educação Básica. Mas,
podemos testemunhar de que vai muito além disso, pois além de nos fornecer
experiência, ele proporciona a nós futuros docentes o amor pela profissão,
ensina a ter empenho e dedicação e nos apresenta a cada instante a importância
que temos na vida e na educação de cada um dos alunos que passam por nossas
mãos.

REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Educação. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior - CAPES. Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à
Docência – PIBID. 2014. Disponível em:<http://www.capes.gov.br/educacao-
basica/capespibid>. Acesso em: 08 fev. 2015.
GUIMARÃES, C. C.. Experimentação no ensino de química: caminhos e
descaminhos rumo à aprendizagem significativa. Química Nova na Escola, v. 31, n. Figura 4: Diagrama resumido das classes AWT (amarelo) e Swing (azul)
3, p. 198-202, 2009. Fonte: Adaptado do site: <http://cee.uma.pt/people/faculty/pedro.campos/docs/guia-IHM.pdf>.

PELLIZARI, A. et al.. Teoria da Aprendizagem Significativa Segundo Ausubel.


Revista Pesquisa Educação Cultura, Curitiba, v. 2. n. 1. p. 37-42, jul. 2002. Por outro lado, na educação, escolher e definir os objetivos de
aprendizagem constitui em estruturar de forma consciente o processo
educacional, de modo a proporcionar mudanças de pensamentos, ações e
condutas. Tal estruturação é resultado de um processo de planejamento que está
relacionado à escolha do conteúdo, de procedimentos, de atividades de recursos
disponíveis, de estratégias, de instrumento de avaliação e da metodologia a ser
adotada (FERRAZ; BELHOT, 2010 apud SABINO et al., 2012). Portanto,
estabelecer os objetivos educativos define não só a aprendizagem do estudante
como também todos os procedimentos para torná-la mais fácil, agradável e
significativa (PELISSONI, 2010).

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Segundo Vaughan (1980) é importante antes de iniciar qualquer processo


de ensino definir os objetivos instrucionais cognitivos, atitudinais e de
competências, pois permite, entre outras coisas, aos estudantes avaliarem seus
desempenhos, uma vez que sabem, com exatidão, o que é esperado deles.
De acordo com Ferraz e Belhot (2010) existem diversos instrumentos que
facilitam o planejamento didático-pedagógico, a organização, a estruturação, a
escolha de objetivos instrucionais e a definição de instrumentos de avaliação da Figura 1: Aplicação do experimento do sabão caseiro.
aprendizagem educacional. Dentre estes, a Taxonomia dos Objetivos
Educacionais de Benjamin Bloom possui grande destaque em trabalhos Estamos em constante trabalho e pesquisas no projeto, somos
relacionados nessa área, uma vez que auxilia a identificação e a declaração dos incentivados o tempo todo pelas orientadoras a buscar novos projetos e a os
objetivos ligados ao desenvolvimento cognitivo (SABINO et al., 2012). elaborar da forma mais criteriosamente didática. Além dos trabalhos produzidos
Em 1949, um grupo de educadores assumiu a tarefa de classificar metas e para melhoria do ensino de Química e melhoria da nossa formação, ainda
objetivos educacionais (KRATHWOHL, 2002). A intenção foi desenvolver um participamos de reuniões sobre didática, palestras sobre maneiras distintas de
sistema de classificação para três domínios: ensinar, eventos na área de educação, entre outros projetos que estão
• Cognitivo: O domínio cognitivo é o âmbito do SABER. Inclui os diretamente ligados ao ensino.
objetivos vinculados à memória ou recognição e ao O projeto nos ajudou desde o começo a nutrir gosto pela docência, a nos
desenvolvimento de capacidades e habilidades intelectuais. As tornarmos professores melhores, mais desinibidos e competentes, nos
categorias desse domínio são: conhecimento, compreensão, incentivando a procurar diferentes metodologias de ensino e a ter a experiência
aplicação, análise, síntese e avaliação; de aplicá-las em sala de aula e poder observar os seus resultados na prática. O
• Afetivo: Compreende aspectos relacionados com as emoções, os PIBID nos proporciona o convívio com os alunos e com suas diferenças e
sentimentos, o grau de aceitação ou rejeição. Inclui mudanças de distintas formas de aprendizagem e nos permite a experiência de aprender a lidar
interesse, atitudes e valores e o desenvolvimento de apreciações e com cada uma das dificuldades, aprendendo onde são mais frequentes e como
ajustamento adequados. As categorias desse domínio são: tentar contorna-las. Chamar a atenção do aluno apenas relacionando o
receptividade, resposta, valorização, organização e caracterização; e conhecimento científico com o seu cotidiano não é uma tarefa fácil, porém
• Psicomotor: Diz respeito a todas aquelas destrezas motoras estudamos maneiras e buscamos métodos de como levar até o aluno o
relacionadas com ação, coordenação e manipulação de objetos. As conhecimento, de forma clara e dinâmica. O PIBID nos incentiva e nos auxilia
categorias desse domínio são: imitação, manipulação, articulação na busca desses métodos, e através dele nos ajuda e nos impulsionam a nos
e naturalização. tornarmos professores melhores capacitados na árdua e gratificante tarefa de
ensinar Química.
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Todo o trabalho que aplicamos com os alunos, buscamos relacionar com o O trabalho no domínio cognitivo foi concluído em 1950 e é comumente
seu cotidiano, que conseguem, em sua maioria, absorver o conhecimento e referido como Taxonomia de Bloom do Domínio Cognitivo (BLOOM et al.,
associa-lo com os acontecimentos do dia-a-dia. Por exemplo, ao ser aplicado o 1956). Outros educadores desenvolveram taxonomias para os domínios afetivo e
estudo de caso: “Consumo de álcool de forma irresponsável”, o qual planejamos psicomotor, mas o cognitivo é o mais conhecido e utilizado. Portanto neste
com o auxilio da coordenadora do projeto, e que foi executado na Escola trabalho, será abordado apenas a Taxonomia do Domínio Cognitivo.
Estadual Polivalente, os alunos se interessaram e participaram da aula. Foi um A ideia principal da taxonomia é que um determinado tipo de conteúdo
tema bem aceito por eles, já que é algo que está começando a fazer parte de sua (especificados nos objetivos educacionais) pode ser organizado em uma
vida social, sem deixar de ser novidade todo o conteúdo de Química que hierarquia de níveis de complexidade crescente, ou seja, do mais simples para o
aprenderam com essas lições. mais complexo. Os níveis são entendidos como sucessivos, de modo que é
Segundo Ausubel (1982 apud PELLIZARI, 2002), os conhecimentos necessário o domínio de um nível antes do próximo nível pode ser alcançado.
prévios dos alunos devem ser considerados pelo docente para que estes possam Os níveis originais de Bloom e colaboradores (1956) foram ordenados da
descobrir e redescobrir outros conhecimentos. Segundo Pellizari (2002) a seguinte maneira: conhecimento, compreensão, aplicação, análise, síntese e
aprendizagem se faz mais significativa conforme um novo conteúdo é avaliação (Figura 5).
incorporado no conhecimento do aluno, e esta adquire um significado
relacionado aos seus conhecimentos prévios e se torna repetitiva e mecânica a
medida que isso não ocorre.
Outro exemplo que podemos mencionar é a aplicação do experimento da
química do sabão, que em geral é feito em casa por seus pais e avós. Mesmo
sendo do conhecimento dos alunos os reagentes necessários para a produção do
sabão, os alunos não sabiam o porquê todas aquelas substâncias ao serem
misturadas formaria o sabão, e o papel de cada uma delas no resultado final
desse experimento caseiro. Isto despertou um maior interesse dos alunos no
experimento, desde a explicação até o seu resultado final. Com essa prática foi
possível não só educar cientificamente os alunos, mas também a comunidade Figura 5: Categoria do domínio cognitivo proposto por Bloom et al. (1956), que ficou
conhecida como Taxonomia de Bloom.
ligada a eles, já que estes alunos vão comentar sobre a aula com a mãe, com a
avó e assim por diante (Figura 1). Fonte: Adaptado do site: <http://www.dynamicflight.com/avcfibook/learning_process/>

Segundo Ferraz e Belhot (2010), apesar da Figura 5 representar a estrutura


mais conhecida da Taxonomia de Bloom, sua concepção é um pouco mais
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complexa. Para melhor orientar a definição dos objetivos instrucionais e Este trabalho relata as experiências de duas bolsista do PIBID – Química
estabelecer limites entre eles foram, originalmente, criadas subcategorias. Para durante o ano de 2014 na Escola Estadual Polivalente de Apucarana, parceira do
os propósitos deste trabalho desconsiderar-se-á as subcategorias. A seguir faz-se projeto.
uma breve descrição de cada categoria (FERRAZ; BELHOT, 2010):
ATIVIDADES DESENVOLVIDAS E RESULTADOS OBTIDOS NA

1. Conhecimento: Habilidade de lembrar informações e conteúdos VIVÊNCIA NO PIBID

previamente abordados como fatos, datas, palavras, teorias,


O PIBID, proporciona a nós bolsistas, algumas oportunidades que nos
métodos, classificações, lugares, regras, critérios, procedimentos
ajudam a aprender a lidar com o cotidiano de uma sala de aula. Descobrimos
etc. A habilidade pode envolver lembrar uma significativa
através dessa experiência como fazer os alunos se interessarem em uma aula e, a
quantidade de informação ou fatos específicos. O objetivo principal
descobrir métodos para ensinar que permitam aprender de forma concreta o
desta categoria nível é trazer à consciência esses conhecimentos.
conteúdo que está sendo aplicado, sem que para isso precisemos nos envolver
2. Compreensão: Habilidade de compreender e dar significado ao
em projetos extremamente elaborados ou caros, como os softwares e
conteúdo. Essa habilidade pode ser demonstrada por meio da
equipamentos de Universidades.
tradução do conteúdo compreendido para uma nova forma (oral,
Saber o que os alunos gostam é fácil, basta perguntar o que querem na
escrita, diagramas etc.) ou contexto. Nessa categoria, encontra-se a
próxima aula de Química e a resposta é sem sombra de dúvida: “experimento”.
capacidade de entender a informação ou fato, de captar seu
Ir ao laboratório para o aluno do Ensino Médio ou para qualquer aluno que
significado e de utilizá-la em contextos diferentes.
entenda um pouco sobre Química ou Ciências, como no caso do Ensino
3. Aplicação: Habilidade de usar informações, métodos e conteúdos
Fundamental, é a parte mais “divertida”. Segundo Guimarães (2009), encontrar
aprendidos em novas situações concretas. Isso pode incluir
professores do Ensino Básico que se sentem inseguros para a realização da
aplicações de regras, métodos, modelos, conceitos, princípios, leis e
experimentação em sala de aula ou estão desmotivados pelas condições de
teorias.
trabalho é algo muito comum, geralmente devido a excesso de horas aula que
4. Análise: Habilidade de subdividir o conteúdo em partes menores
precisam se dedicar para compensar os baixos salários. Os alunos do PIBID
com a finalidade de entender a estrutura final. Essa habilidade pode
aprendem a lidar com o pouco tempo que têm disponíveis e a planejar aulas para
incluir a identificação das partes, análise de relacionamento entre as
serem aplicadas, sendo sempre incentivados a não desanimarem e a buscarem
partes e reconhecimento dos princípios organizacionais envolvidos.
sempre a qualidade das aulas que ministrarão.
Identificar partes e suas inter-relações. Nesse ponto é necessário
Durante o ano de 2014 participamos de atividades de estudo na UTFPR,
não apenas ter compreendido o conteúdo, mas também a estrutura
com acompanhamento da coordenadora do projeto, e acompanhamos uma turma
do objeto de estudo.
de 3º ano na Escola Estadual Polivalente de Apucarana.

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RELATO DE EXPERIÊNCIA DE DUAS BOLSISTAS PIBID QUÍMICA 5. Síntese: Habilidade de agregar e juntar partes com a finalidade de
DA UTFPR APUCARANA NA ESCOLA POLIVALENTE criar um novo todo. Essa habilidade envolve a produção de uma
comunicação única (tema ou discurso), um plano de operações
Ana B. Silva
Meirielen Ribeiro
(propostas de pesquisas) ou um conjunto de relações abstratas
Lilian Tatiani Dusman Tonin (esquema para classificar informações). Combinar partes não
organizadas para formar um “todo”.
INTRODUÇÃO 6. Avaliação: Habilidade de julgar o valor do material (proposta,
pesquisa, projeto) para um propósito específico. O julgamento é
O Programa Institucional de Bolsa de Iniciação a docência (PIBID) da
baseado em critérios bem definidos que podem ser externos
Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) câmpus Apucarana,
(relevância) ou internos (organização) e podem ser fornecidos ou
desenvolve projetos que buscam melhorar o ensino-aprendizagem e o interesse
conjuntamente identificados. Julgar o valor do conhecimento.
sobre as aulas de Química dos alunos das escolas de educação básica da rede
pública de ensino. Tem como principais objetivos: incentivar a formação de
No Quadro 1, a taxonomia é apresentada com os verbos associados a cada
docentes em nível superior para a educação básica, assim como elevar a
nível e alguns exemplos de objetivos da aprendizagem.
qualidade da formação inicial de professores nos cursos de licenciatura,
Diversas pesquisas foram desenvolvidas a partir da publicação do trabalho
promovendo a integração entre educação superior e educação básica (BRASIL,
de Benjamin Bloom e colaboradores. No entanto, hoje o mundo é diferente
2014).
daquele representado na Taxonomia de Bloom em 1956, com o passar dos anos
O projeto busca, dessa maneira, relacionar o conhecimento cientifico com
e a incorporação de diversas tecnologias ao sistema educacional houve a
o cotidiano do aluno, o que por sua vez acarreta grandes dificuldades, já que não
necessidade de reavaliar os pressupostos teóricos.
é apenas apresentar ao aluno um experimento a se realizar, mas, também,
Em 1999, Dr. Lorin Anderson, um antigo aluno de Bloom, e
preparar uma aula dinâmica e criativa para que os alunos se interessem e
colaboradores publicaram uma versão atualizada da Taxonomia de Bloom que
compreendam como cada uma das atividades está ligada ao conhecimento
considera uma gama maior de fatores que afetam o ensino e a aprendizagem.
científico e poder se utilizar desses exemplos, sejam eles pra ilustrar ou pra
Essa taxonomia revisada tenta corrigir alguns problemas da taxonomia original,
ajudar a fixar conteúdos, para a melhoria da qualidade da sua educação
como por exemplo, diferencia “saber o quê” (o conteúdo do raciocínio) de
científica. Desta forma, propondo novas metodologias de ensino e colocando-as
“saber como” (os procedimentos para resolver problemas) (ANDERSON, 1999).
em prática nas escolas para que possam ser avaliadas na aprendizagem dos
Para facilitar o desenvolvimento do aplicativo, optou-se em utilizar a taxonomia
alunos, os bolsistas e futuros docentes aprendem muito na prática a doce arte de
original, no entanto a migração para a taxonomia revisada faz-se sem problemas
ensinar e se tornam melhores profissionais já que estão sempre buscando
significativos.
melhorar a qualidade das suas aulas.
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Quadro 1: Descrição da Taxonomia de Bloom. Para cada nível cognitivo é apresentado os REFERÊNCIAS
principais verbos e alguns exemplos de objetivos educacionais.

EXEMPLOS DE OBJETIVOS BRASIL. Ministério da Educação. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal


CATEGORIA VERBOS ASSOCIADOS
EDUCACIONAIS de Nível Superior - CAPES. Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à
Enumerar, definir, descrever, identificar, Definir termos comuns; descrever Docência – PIBID. 2014. Disponível em:<http://www.capes.gov.br/educacao-
denominar, listar, nomear, combinar, fatos específicos; distinguir métodos
realçar, apontar, relembrar, recordar, e procedimentos; relembrar conceitos basica/capespibid>. Acesso em: 11 fev. 2015.
Conhecimento
relacionar, reproduzir, solucionar, declarar, básicos e princípios dentre outros.
distinguir, rotular, memorizar, ordenar e SAVIANI, D. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 7. ed.
reconhecer. Campinas, SP: Autores Associados, 2000.
Alterar, construir, converter, decodificar, Entender fatos e princípios;
defender, definir, descrever, distinguir, interpretar verbalmente uma VEIGA, I. P. A. et al. Pedagogia universitária: a aula em foco. São Paulo:
discriminar, estimar, explicar, generalizar, informação escrita ou diagramada; Papirus, 2000.
dar exemplos, ilustrar, inferir, reformular, resolver um problema matemático;
Compreensão
prever, reescrever, resolver, resumir, interpretar um texto; ilustrar um
classificar, discutir, identificar, interpretar, conceito adquirido, dentre outros.
reconhecer, redefinir, selecionar, situar e
traduzir.
Aplicar, alterar, programar, demonstrar, Aplicar conceitos e princípios a novas
desenvolver, descobrir, dramatizar, situações; demonstrar leis e teorias
empregar, ilustrar, interpretar, manipular, em situações práticas; produzir um
modificar, operacionalizar, organizar, texto; Resolver problemas
Aplicação
prever, preparar, produzir, relatar, resolver, matemática e construir Figuras e
transferir, usar, construir, esboçar, escolher, quadros; empregar corretamente um
escrever, operar e praticar. método ou procedimento, dentre
outros.
Analisar, reduzir, classificar, comparar, Distinguir fatos e inferências;
contrastar, Determinar, deduzir, diagramar, determinar os fatores implicados em
distinguir, diferenciar, identificar, ilustrar, um problema matemático; classificar
apontar, inferir, relacionar, selecionar, estruturas biológicas segundo sua
Análise
separar, subdividir, calcular, discriminar, função; testar uma determinada
examinar, experimentar, testar, fórmula; analisar um poema; analisar
esquematizar e questionar. a estrutura e organização de um
trabalho específico dentre outros.
Categorizar, combinar, compilar, compor, Resumir um determinado texto;
conceber, construir, criar, desenhar, propor um plano para realização de
elaborar, estabelecer, explicar, formular, uma experiência; integrar e
generalizar, inventar, modificar, organizar, reconhecer a conexão entre assuntos
Síntese originar, planejar, propor, reorganizar, de diferentes áreas para a resolução
relacionar, revisar, reescrever, resumir, de um problema; planejar as etapas de
sistematizar, escrever, desenvolver, um trabalho científico; formular um
estruturar, montar e projetar. novo modelo para classificação de
objetivos, entre outros.
Avaliar, averiguar, escolher, comparar, Continua; julgar a consistência de um
concluir, contrastar, criticar, decidir, material escrito; julgar a adequação
defender, discriminar, explicar, interpretar, com que uma conclusão é suportada
Avaliação justificar, relatar, resolver, resumir, apoiar, pela base teórica exposta; avaliar um
validar, escrever um review sobre, detectar, trabalho pelo uso de critérios
estimar, julgar e selecionar. internos, externos ou padrões de
excelência; dentre outros.
Fonte: Adaptado de Ferraz e Belhot (2010).

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conteúdos de quase todas as práticas, além da integração da turma, não MATERIAIS E MÉTODOS
observada em aulas teóricas anteriores. Acreditamos que a aula permitiu o
A metodologia adotada foi de caráter qualitativo/quantitativo, com
conhecimento das particularidades por parte dos alunos, e foi possível verificar
predominância de uma análise qualitativa dos dados, que foram coletados por
as vantagens de utilizar a experimentação para facilitar o entendimento do
meio de questionário, observações e estudo do aplicativo produzido. Na análise
conteúdo. Já o professor percebeu o entusiasmo dos alunos diante da estratégia
dos dados considerou-se a perspectiva de Lüdke e André (1986) que consideram
didática.
a análise qualitativa dos dados como uma leitura crítica de todo material
Dentro de tudo que fizemos no CENC, o que mais repercutiu foi, sem
coletado durante a pesquisa, mapeando os assuntos mais recorrentes e os
dúvidas, a Feira de Ciências, que surgiu a partir da ideia de uma das bolsistas do
aspectos de convergência e divergência com relação ao objeto investigado.
PIBID. A Feira contou com a participação dos professores de todas as
A partir da revisão bibliográfica identificou-se quatro conceitos essenciais
disciplinas, divididas entre as turmas. Foi realizada num sábado, com livre
para caracterizar os níveis cognitivos da Taxonomia de Bloom. Estes conceitos
acesso das pessoas, com a doação de 1 Kg de alimentos, e repetida na segunda-
foram selecionados como focos teóricos e utilizados como base para a
feira para uma melhor observação dos próprios alunos que estavam associados à
elaboração do aplicativo. Sob esse ponto de vista, esta pesquisa é qualitativa e
Feira. Ousamos dizer que foi a experiência mais gratificante do ano, na qual
descritiva (RAMPAZZO, 1998) além de possuir uma etapa quantitativa que
vimos que depois de tanto tempo conosco em sala de aula, eles se interessaram a
permitiu obter um panorama geral, por meio da Taxonomia de Bloom, dos
fazer os experimentos e aprenderam o suficiente para explicar várias e várias
níveis cognitivos utilizados em nossas amostras de provas da disciplina de
vezes para cada uma das pessoas que passavam nos estandes, muitas vezes
Física, aplicadas no Câmpus da UTFPR de Apucarana. Desta forma, foi
fazendo os experimentos com sorrisos nos rostos e uma incrível vontade de
analisado cinco provas (Prova A, Prova B, Prova C, Prova D e Prova E)
continuar a aprender Química.
correspondente a cinco professores (Professor A, Professor B, Professor C,
Professor D e Professor E) de Física.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Portanto, no desenvolvimento do aplicativo primeiro atentou-se para a
A utilização das práticas facilitou o aprendizado dos alunos, tornando o identificação dos níveis cognitivos por parte do usuário. Em cada um desses
ambiente das salas de aula mais dinâmico. As práticas despertaram a níveis foi abordado quatro focos: (i) Noção do nível; (ii) Estrutura da questão,
curiosidade, incentivaram a busca pelo conhecimento e a integração da classe. (iii) Palavras mais adequadas e (iv) Exemplos de questões. Com o objetivo de
Tivemos sorte de contar com um grande professor e amigo, sempre dedicado a apresentar uma interface simples e clara, optou-se em incluir um pequeno
trazer novos conceitos às aulas e despertar o interesse de cada aluno à sua mecanismo de ajuda, onde se apresenta um conceito mais complexo do nível e
disciplina. O professor demonstrou confiança em nosso trabalho nos dando incluem-se os focos (iii) e (iv). Para a estrutura da questão formulou-se um
autonomia nas aulas práticas, nas quais observamos nos alunos seus olhos questionário de três questões (perguntas) que possibilita identificar o grau de
atentos e suas mentes sedentas para adquirir conhecimento. concordância, das questões da prova elaborada pelo professor, com o respectivo

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nível cognitivo. Neste sentido, optou-se por utilizar uma escala de atitudes. Iniciamos as atividades no PIBID participando das aulas na Escola. Nossa
Atitude é definida como uma preferência considerando-se uma dimensão de dupla foi selecionada para atuar no Colégio Estadual Nilo Cairo que fez 50 anos
favorabilidade ou desfavorabilidade em relação a um grupo familiar, instituição, em 2014.
conceito ou objeto (SAX, 1996). Um tipo de escala largamente utilizada para No decorrer do ano tivemos a oportunidade de administrar 2 salas, uma do
medir atitudes é a escala de Likert. 2º E e outra do 3º A, do Ensino Médio. Foram realizadas práticas relacionadas
Na escala tipo Likert é solicitado ao usuário manifestação como grau de ao conteúdo que estava sendo passado nas aulas teóricas, como: “Diluição”,
concordância desde o “discordo totalmente” (nível 1) até ao “concordo totalmente” “Oxidação e Redução”, “Compostos Orgânicos” e a prática que mais rendeu
(nível 5) a respeito de um determinado assunto. A atitude do usuário é medida curiosidades e elogios, “Identificação de Proteínas”, na qual cada grupo de aluno
somando, ou calculando a média, do nível cognitivo selecionado para cada item2. observava, por meio da simples mudança de tonalidades de azul, a quantidade de
Na análise dos resultados, foi realizada uma abordagem quantitativa com o proteína existente em cada um dos alimentos que foram levados para a prática
objetivo de estabelecer o Ranking Médio (RM) para o questionário que utilizou (Figura 1).
escala tipo Likert de cinco pontos, atribuindo-se um ponto para Discorda
Totalmente, dois para Discorda Parcialmente, três para Indiferente, quatro para
Concorda Parcialmente e cinco para Concorda Totalmente. Com isso, procura-se
mensurar o grau de intensidade das respostas. Para os resultados do RM
considerou-se a seguinte configuração: até 1,5 como Discorda Totalmente; de 1,5
até 2,5 como Discorda Parcialmente; entre 2,5 e 3,5 como Indiferente; entre 3,5 e
4,5 como Concorda Parcialmente e, a partir de 4,5, como Concorda Totalmente.
Para cada nível cognitivo da taxonomia desenvolveu-se uma tela, que
Figura 1: Aula Prática de Identificação de Proteínas aplicada no Colégio Nilo Cairo.
permite sua identificação.
Na Figura 6 apresenta-se a tela para o primeiro nível da taxonomia, ou
Foi possível observar que as aulas práticas atuaram de forma fundamental
seja, Conhecimento (ou Reconhecimento). Nela pode-se observar que é
para o processo de ensino-aprendizagem dos alunos, pois temos que manter
apresentada uma noção (ou definição) do nível, acompanhado da estrutura da
teoria e prática em conjunto para existir um melhor entendimento do assunto
questão com perguntas que permite ao professor identificar similaridade com as
abordado para os alunos. Observamos que com a intervenção das aulas práticas,
questões de sua prova. Em todas as disponibilizou-se opções (botões) que
foram despertadas nos alunos atitudes investigativas acerca dos assuntos e
permitem cancelar ou calcular a média para o nível. Na parte inferior da tela
consequentemente melhorando seus rendimentos na disciplina de Química.
observam-se botões para avançar ou retroceder na taxonomia.
Para nós, bolsistas do PIBID, o resultado do desenvolvimento da atividade
2
Likert propôs inicialmente um método de cálculo do resultado final por meio de uma média ponderada das
respostas dadas, na qual atribuía um peso a cada nível de concordância expresso pelo sujeito (GHIGLIONE, foi positivo, visto que os alunos se sentiram motivados a compreender os
1993, p. 292).
36 165
O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

incentivar escolas públicas de educação básica, mobilizando seus


professores como co-formadores dos futuros docentes e tornando-as
protagonistas nos processos de formação inicial para o magistério; e
contribuir para a articulação entre teoria e prática necessárias à formação
dos docentes, elevando a qualidade das ações acadêmicas nos cursos de
licenciatura.

Nós, alunos de Iniciação à Docência, temos como principal missão dentro


da UTFPR, procurar, estudar e trazer maneiras mais práticas e diferentes de
explicar certos conteúdos da disciplina de Química no Ensino Médio.
Procuramos aprimorar nossos conhecimentos tanto em didática, quanto na
própria química, adaptá-los para situações que, na maioria das vezes, não
teremos todas as ferramentas necessárias para o processo de ensino-
aprendizagem. Este, sem dúvidas é um dos piores problemas que ocorre dentro
das escolas do Estado em geral. Podemos ter sorte de serem bem equipadas e
preparadas para nossos experimentos, mas ao mesmo tempo como falaremos a
seguir, queremos trazer a tão distante Química para perto do conhecimento geral
dos alunos, fazer com que eles possam usar os conhecimentos que adquiriram no Figura 6: Tela do Aplicativo para o nível cognitivo (Re)Conhecimento.

Ensino Médio para melhorar a qualidade de vida e percepção dos produtos,


comidas e objetos que manejam diariamente.
Para as situações na qual o professor não compreende a noção do nível, pode

ATIVIDADES DESENVOLVIDAS E RESULTADOS OBTIDOS NA ser utilizado o botão de ajuda (localizado no canto superior direito) que apresentará

VIVÊNCIA NO PIBID uma definição mais precisa e completa do nível, algumas palavras que o caracteriza,
além de exemplos ilustrativos de questões, conforme mostrado na Figura 7.
Durante o ano de 2014 participamos de minicursos e palestras sobre
diferentes assuntos relacionados ao Ensino de Química. Além da formulação de
propostas que são aplicadas nas salas designadas a cada dupla na sua escola.
Desenvolvemos nossas atividades no Colégio Estadual Nilo Cairo (CENC), com
a supervisão do professor Paulo Vaz, nas turmas do 3º A e 2º E.

164 37
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professor tem a necessidade de buscar um recurso para facilitar a aprendizagem


e tornar as aulas de Química mais agradáveis e dinâmicas para os alunos,
promovendo assim um conhecimento científico mais rico.
A Química é uma ciência experimental, sendo que fica muito difícil
aprendê-la sem a realização de atividades práticas. Com isso, exibir o conteúdo
na prática incentiva o lado investigativo do aluno, além de uma melhor forma de
repassar o conhecimento e curiosidades aos alunos.
Segundo a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (CAPES) (BRASIL, 2014), o Programa Institucional de Bolsas de
Iniciação à Docência (PIBID) é uma iniciativa para o aperfeiçoamento e a
valorização da formação de professores para a educação básica. Os alunos de
licenciatura selecionados através de edital nas Instituições de Ensino Superior
(IES) são contemplados com bolsa remunerada, e a partir daí devem começar
suas atividades tanto nas escolas de educação básica da rede pública de ensino
quanto nas IES, segundo o subprojeto PIBID de cada instituição aprovado.
Dentre os principais objetivos do programa se destacam (BRASIL, 2014):
Incentivar a formação de docentes em nível superior para a educação
básica;
Figura 7: Tela de Ajuda para o nível cognitivo (Re)Conhecimento. Nela apresentam-se uma
descrição mais detalhada do nível, os principais verbos utilizados para identificar o nível e contribuir para a valorização do magistério;
alguns exemplos gerais de questões típicas.
elevar a qualidade da formação inicial de professores nos cursos de
licenciatura, promovendo a integração entre educação superior e educação
Nas Figura 8 e 10 apresentam-se as telas para o nível: Compreensão. Para básica;
as situações na qual o professor não compreende a noção do nível, pode ser inserir os licenciandos no cotidiano de escolas da rede pública de
utilizado o botão de ajuda (localizado no canto superior direito) que apresentará educação, proporcionando-lhes oportunidades de criação e participação
uma definição mais precisa e completa do nível, algumas palavras que o em experiências metodológicas, tecnológicas e práticas docentes de
caracteriza, além de exemplos ilustrativos de questões. caráter inovador e interdisciplinar que busquem a superação de problemas
identificados no processo de ensino-aprendizagem;

38 163
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RELATO DE EXPERIÊNCIA DE DOIS BOLSITAS PIBID:


ATIVIDADES DESENVOLVIDAS NA ESCOLA NILO CAIRO DE
APUCARANA

Raphael S. Queiroz
Renato C. L. Moreira
Lilian Tatiani Dusman Tonin

INTRODUÇÃO

O professor tem um papel social fundamental, no processo ensino-


aprendizagem é um dos personagens principais na promoção de transformações
sociais e educacionais. Pode facilitar vias de acesso à integração social para
Figura 8: Tela do Aplicativo para o nível cognitivo Compreensão.
todos, redemocratizando o conhecimento e superando as exclusões. (SAVIANI,
2000). Por isso, todas as leis, todos os livros, todos os prédios, todos os
computadores e todas as verbas governamentais serão inúteis, se na sala de aula
não estiver presente, inteiro, motivado, bem formado e consciente, o professor
(VEIGA, 2000).
O objetivo da Química é compreender a natureza, e os experimentos
propiciam ao aluno uma compreensão mais científica das transformações que
nela ocorrem. Memorizar nomes e algumas fórmulas, decorar reações e
propriedades, sem conseguir relacioná-los cientificamente com a natureza, não é
conhecer Química (SAVIANI, 2000).
Infelizmente as escolas públicas não oferecem boas estruturas e carga
horária para o professor colocar em prática o que tanto deseja, ficando difícil
relacionar a prática com a teoria. Para os estudantes, o estudo da Química torna-
se desmotivador.
Muitos alunos, por sua vez, entram em um processo de decorar os Figura 9: Tela de Ajuda para o nível cognitivo Compreensão. Nela apresentam-se uma
descrição mais detalhada do nível, os principais verbos utilizados para identificar o nível e
símbolos e fórmulas, deste modo, tornando-se uma atividade exaustiva. O alguns exemplos gerais de questões típicas.
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Nas REFERÊNCIAS
Figura 10 e 12 apresentam-se as telas para o nível: Aplicação. Para as
situações na qual o professor não compreende a noção do nível, pode ser BRASIL. Ministério da Educação. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Nível Superior - CAPES. Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à
utilizado o botão de ajuda (localizado no canto superior direito) que apresentará
Docência – PIBID. 2014. Disponível em:<http://www.capes.gov.br/educacao-
uma definição mais precisa e completa do nível, algumas palavras que o basica/capespibid>. Acesso em: 20 jan. 2015.
caracteriza, além de exemplos ilustrativos de questões.
DELIZOICOV, Demétrio; ANGOTTI, J.A.; PERNAMBUCO, M.M.. Ensino de
Ciências: Fundamentos e Métodos. São Paulo, Cortez, 2002.

GOMES, N.; SILVA, P. B. G.. O desafio da diversidade. In: GOMES, N.;


SILVA, P. B. G.. Experiências étnicos-culturais para a formação de
professores. Belo Horizonte: Autentica, 2002.
KRASILCHIK, M.. Caminhos do Ensino de Ciências no Brasil. Em aberto,
Brasília, v. 11, n. 55, p. 2-9, jul./set. 1992.

NUNES, A. S.; ADORNI, D. S.. O ensino de química nas escolas da rede


pública de ensino fundamental e médio do município de Itapetinga-BA: O olhar
dos alunos. In: ENCONTRO DIALÓGICO TRANSDISCIPLINAR -
ENDITRANS, 2010, Vitória da Conquista. Anais... Vitória da Conquista, BA:
ENDITRANS, 2010.

Figura 10: Tela do Aplicativo para o nível cognitivo Aplicação.

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aplicada foi capaz de estimular o pensamento reflexivo e crítico dos alunos, na


busca de alternativas que solucionassem o desafio lançado.
A aplicação desta proposta exigiu detalhar cada conceito por envolver
muita leitura, interpretação e nenhuma realização de experimento. O resultado
foi satisfatório, pois bons resultados foram observados quando transcreveram
para o papel a discussão que realizaram em grupos. Entretanto, entristecemo-nos
por observarmos o pouco interesse dos alunos perante o assunto, em comparação
com a proposta aplicada anteriormente. Acreditamos que isto se deva ao
desconhecimento dos mesmos em relação ao tema, e/ou também pela não-
realização de algo prático, um dos motivos que atraiu, e muito, a atenção dos
discentes na aplicação da proposta anterior.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É de fundamental importância nós futuros docentes termos contato com os


alunos no espaço escolar, tanto para a construção da futura profissão perante a
prática de ensino, como para diagnosticar e minimizar os possíveis problemas no
ensino. O conflito que se estabelece entre a teoria e a prática deve suscitar a
Figura 11: Tela de Ajuda para o nível cognitivo Aplicação. Nela apresentam-se uma
inquietação dos bolsistas, que mediados pelo coordenador, busquem meios para descrição mais detalhada do nível, os principais verbos utilizados para identificar o nível e
alguns exemplos gerais de questões típicas.
a compreensão e resolução dos problemas encontrados.
Nas Figura 12 e 14 apresentam-se as telas para o nível: Análise. Para as
A proposta do PIBID em correlacionar os conhecimentos e a experiência e
situações na qual o professor não compreende a noção do nível, pode ser
prática dos professores da rede pública e licenciados em Química é significativa
utilizado o botão de ajuda (localizado no canto superior direito) que apresentará
na formação docente, pois permite unir a teoria do curso de graduação à prática
uma definição mais precisa e completa do nível, algumas palavras que o
docente e o desenvolvimento de novas abordagens e métodos de ensino, ou seja,
caracteriza, além de exemplos ilustrativos de questões
a interação entre a Universidade e o Colégio.
Assim concluímos que o PIBID, subprojeto Química da UTFPR – câmpus
Apucarana, tem permitido uma formação inicial fortalecida aos estudantes
bolsistas, propondo ações e sobretudo a reflexão quanto à prática docente.

160 41
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com os estudantes, sentimo-nos realizados e com desejo ainda maior de nos tornar
professores, visto que a metodologia aplicada, mesmo que sendo prolongada,
despertou o interesse dos alunos em conhecer tanto a respeito da vitamina C quanto
as funções orgânicas. Sentimo-nos animados em perceber que estávamos
conseguindo ensinar de forma significativa o conteúdo proposto. Para obter
resultados em relação à proposta apresentada foram elaborados questionários que
permitiram analisar o conhecimento prévio e o conhecimento científico construído
durante a aplicação do método de ensino. Pelos resultados obtidos, concluímos que
a metodologia mostrou-se eficiente no ensino do conteúdo funções orgânicas, e
ainda reitera a importância na formação dos futuros docentes em criarem novas
metodologias de ensino, mais interessantes e contextualizadas.
Figura 12: Tela do Aplicativo para o nível cognitivo Análise.

Figura 1: Alunos participando do experimento “A procura da Vitamina C”.

No mês de dezembro, quando a professora supervisora trabalhou com o


conteúdo isomeria, desenvolvemos outra proposta de ensino, intitulada como:
“Situação de estudo: O poder do Limoneno como proposta didática para o
ensino de estereoquímica no Ensino Médio”. Este projeto visou um ensino
contextualizado e diferenciado para o conteúdo de isomeria ótica. Foi escolhido
o tema Limoneno, para apresentar uma abordagem ao cotidiano e por apresentar
características que facilitam a compreensão dos alunos. Essa proposta
apresentou como estrutura uma situação problema, em que os alunos teriam que
Figura 13: Tela de Ajuda para o nível cognitivo Análise. Nela apresentam-se uma descrição
mais detalhada do nível, os principais verbos utilizados para identificar o nível e alguns utilizar seus conhecimentos químicos prévios para propor soluções ao desafio
exemplos gerais de questões típicas.
fornecido a eles. Desta forma, acreditamos que a metodologia de ensino situação
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para os alunos. Desta forma, nosso principal papel era sanar as dúvidas dos Nas
alunos, tanto no conteúdo quanto na resolução de exercício. Observávamos na Figura 14 e 16 apresentam-se as telas para o nível: Síntese. Para as
sala de aula, que diversos alunos apresentavam dificuldades na compreensão do situações na qual o professor não compreende a noção do nível, pode ser
conteúdo, outros demonstravam maior facilidade, e outros ainda eram tímidos e utilizado o botão de ajuda (localizado no canto superior direito) que apresentará
tínhamos que nos aproximar para ajudá-los com as dúvidas. uma definição mais precisa e completa do nível, algumas palavras que o
Observando as dificuldades dos alunos, propomos uma monitoria em caracteriza, além de exemplos ilustrativos de questões
contra-turno para auxiliar os alunos em suas dúvidas. Acreditávamos que seria
trabalho importantíssimo para nossos alunos, pois poderia auxiliá-los em suas
dificuldades, fazendo com que compreendessem melhor os conteúdos que foram
vistos. Infelizmente, foi um projeto sem sucesso, pois diversos alunos não
tinham condições de retornar à escola em um período diferente do qual
estudavam, seja, pelo trabalho, outros afazeres ou até mesmo desinteresse. No
período em que a monitoria esteve vigente, somente uma vez, um único aluno
compareceu.
No mês de junho, desenvolvemos um trabalho que foi intitulado como:
“Vitamina C: uma proposta para abordagem de funções orgânicas no Ensino
Médio”. Essa proposta de ensino foi estruturada nos três momentos pedagógicos
de Delizoicov Angotti e Pernambuco (2002), com o intuito de ensinar funções
orgânicas, sendo escolhida a Vitamina C como um tema de estudo por estar
presente no cotidiano dos alunos. Na aplicação do projeto, inicialmente foi
realizada uma problematização sobre a Vitamina C, levantando questões sobre o
conhecimento prévio dos alunos. No segundo momento, para a organização do Figura 14: Tela do Aplicativo para o nível cognitivo Síntese.
conhecimento, foi apresentado um vídeo e discutido o assunto em sala de aula,
havendo uma interação dos bolsistas do projeto PIBID com os alunos. E no
terceiro momento pedagógico os alunos realizaram um experimento para
comparar o teor de vitamina C em diferentes frutas (Figura 1). Este terceiro
momento foi aplicado de forma problematizada, direcionando os estudantes a
levantar hipóteses e sugerir explicações para os eventos observados. No decorrer
desta etapa, no qual tivemos a oportunidade de termos um contato mais próximo
158 43
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professores supervisores no aprimoramento do processo ensino-aprendizagem e


os projetos que estão em andamento. Houve também o desenvolvimento de
apresentações mediante as práticas de ensino-aprendizagem e informações
pertinentes ao grupo.
Semanalmente as coordenadoras do projeto realizaram reuniões com os
vinte e quatro bolsistas. Nesses encontros foram desenvolvidos estudos acerca
de teóricos, metodologias de ensino, com o compartilhamento de experiências e
divulgação de informações.
As coordenadoras do projeto PIBID-Química UTFPR-Câmpus Apucarana
participaram juntamente com os bolsistas dos seminários e alguns encontros de
formação. Mas ainda há um bloqueio entre os professores supervisores, pois
estes ainda não efetivaram sua participação nas reuniões semanais ou em outros
encontros do PIBID.
Ao ingressar no PIBID, tínhamos uma visão de que novas portas
abririam-se para nossa dupla, em relação às novas maneiras de ensinar, de
vivenciarmos a sala de aula, ou seja, de estarmos inseridos no ambiente escolar,
Figura 15: Tela de Ajuda para o nível cognitivo Síntese. Nela apresentam-se uma descrição
mais detalhada do nível, os principais verbos utilizados para identificar o nível e alguns só que agora, sendo “quase-professores”.
exemplos gerais de questões típicas. Buscar novas metodologias e colocá-las em prática seria uma tarefa fácil,
pois diversos detalhes deveriam ser analisados para que nossos trabalhos
pudessem ser significativos e compreendidos por parte dos alunos.
Nas Figura 16 e 18 apresentam-se as telas para o nível: Avaliação. Para as
Durante o decorrer do ano de 2014, estivemos presentes em diversas
situações na qual o professor não compreende a noção do nível, pode ser
situações, buscamos diversas alternativas para sanar as dúvidas de nossos alunos
utilizado o botão de ajuda (localizado no canto superior direito) que apresentará
e cremos que poderíamos ter desenvolvido diversos outros trabalhos, entretanto,
uma definição mais precisa e completa do nível, algumas palavras que o
diversas ocorrências não nos permitiram que isto fosse possível. Nos trabalhos
caracteriza, além de exemplos ilustrativos de questões.
que aplicamos, buscamos dar nosso melhor, para que a Química fosse vista
“com outros olhos” por parte dos estudantes.
Em 2014, grande parte do trabalho que desenvolvemos pelo PIBID foi
feito em sala de aula; a professora supervisora ministrava seus conteúdos no
quadro de giz, e somente utilizava o livro didático para selecionar exercícios
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Na prática docente, diante da realidade escolar, vê-se a importância de se


formar professores que saibam lidar pedagogicamente com a diversidade. Tal
afirmação implica que se deve inserir nos processos de formação de professores
reflexões sobre o reconhecimento, a aceitação do outro, os preconceitos, a ética,
os valores, a igualdade de direitos, a diversidade e a construção de novas
metodologias de ensino que cativem os alunos (GOMES; SILVA, 2002).
A utilização de metodologias inovadoras proporciona o ambiente escolar
como um local para exercitar questões que norteiam a construção da cidadania e
a democracia, envolvendo diversos aspectos de diferentes dimensões da vida
social e cultural dos educandos. Enfim, a escola precisa formar indivíduos que
respeitem as diferenças, que procurem resolver conflitos pelo diálogo, que se
Figura 16: Tela do Aplicativo para o nível cognitivo Avaliação.
solidarizem com os outros, que sejam democráticos e que tenham respeito
próprio, e principalmente, capacitados para tomar decisões e participar
ativamente de uma sociedade democrática e pluralista (KRASILCHIK, 1992).
O presente trabalho tem a finalidade de relatar as experiências adquiridas
por dois bolsistas PIBID/Química/Apucarana durante a execução do projeto no
ano de 2014.

ATIVIDADES DESENVOLVIDAS E RESULTADOS OBTIDOS NA


VIVÊNCIA NO PIBID

Na UTFPR, sob orientação da coordenadora do projeto PIBID, foram


realizadas durante o ano de 2014, reuniões semanais e estudos dirigidos sobre
Química e Ensino. No Colégio Estadual Polivalente, acompanhamos uma turma
de 3º ano , cuja carga horária era de duas aulas semanais, sob supervisão de
uma das supervisoras do nosso subprojeto.
Atuando como bolsista do PIBID- Química ao longo do ano de 2014,
realizamos encontros para planejamentos de ações uma vez por semana, onde
analisamos as dificuldades de aprendizagem dos alunos, as necessidades dos Figura 17: Tela de Ajuda para o nível cognitivo Avaliação. Nela apresenta-se uma descrição
mais detalhada do nível e ilustra com alguns exemplos gerais de questões.
156 45
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RESULTADOS E DISCUSSÃO UM RELATO DE EXPERIÊNCIA DOS BOLSISTAS PIBID–QUÍMICA


ATUANTES NA ESCOLA POLIVALENTE
Para uma primeira análise do aplicativo, optou-se em realizar um estudo
de caso controlado. Neste sentido, solicitou-se aos professores de Física do Jéssica Guerreiro Martins
câmpus algumas provas que foram aplicadas durante a ministração do conteúdo Bruno Rafael Machado
de Mecânica, em seguida pretendeu-se verificar o grau similaridade das provas e Lilian Tatiani Dusman Tonin
a Taxonomia de Bloom.
Nesta etapa agrupou-se os dados referentes aos mesmos níveis cognitivos
para cada prova, facilitando sua observação e análise no Figura. A análise INTRODUÇÃO

quantitativa dos dados obtidos permitiu vislumbrar um panorama mais abrangente


das provas de física aplicadas no Campus em comparação com a taxonomia em Dia após dia, nossos educandos recebem uma grande quantidade de

estudo. A seguir discutiremos brevemente aspectos gerais dos resultados. informações em seu âmbito escolar, e em muitos casos, estas não são

O Figura 19 indica que as Provas A e B apresentam em seus conteúdos devidamente passadas e compreendidas de maneira adequada. O repasse destas

questões representativas do nível cognitivo Reconhecimento. Tais questões nas informações cabe ao professor que, no desenvolvimento do conhecimento

provas permitem ao aluno recordar ou reconhecer informações, ideias e técnico-científico, precisa desenvolver diversas habilidades em seus alunos, mas

princípios aprendidos, mesmo que de forma aproximada. Observa-se também para isso, requer um trabalho amplo e de forma contextualizada.

que as três provas (Provas C, D e E) restantes discordam completamente, ou Particularmente, no ensino de Química, os conteúdos são apresentados aos

seja, não apresentam nenhuma questão que possa representar tal nível. alunos de forma descontextualizada, distantes da realidade e difíceis de serem
compreendidos, causando o desinteresse e a desmotivação. Além disso, diversos
professores de Química apresentam dificuldades em correlacionar conteúdos
científicos com situações do dia-a-dia, desta forma, ministram esta ciência
valorizando a cópia e a memorização (NUNES; ADORNI, 2010).
Diante desta realidade, o governo Federal criou o Programa Institucional
de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), como uma iniciativa para aperfeiçoar
e valorizar a formação de professores para a Educação Básica. De uma maneira
geral, através deste programa, os licenciados obtêm contato com a sala de aula
desde o período de graduação, desenvolvendo projetos e atividades, visando
tornar significativo e contextualizado o ensino de Química nas escolas
Figura 19: Representação gráfica das respostas dadas na análise do primeiro nível cognitivo (BRASIL, 2014).
da Taxonomia de Bloom.
46 155
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Outra atividade que desenvolvemos no PIBID é a participação em eventos na No Figura 20 apresenta-se a análise para o segundo nível cognitivo da
área de Ensino. Esta ação nos possibilita interagir com outras Universidades, até taxonomia, Compreensão. Nele observa-se que duas provas abordam em seus
mesmo de outros países. Nestes eventos temos a oportunidade de apresentar nossas conteúdos questões relacionadas à capacidade de entender a informação ou fato,
ideias para a comunidade científica e também aprender com estudos de outras pessoas. de captar um significado e utilizá-lo em contexto diferente. Novamente três
provas (B, D e E) sequer relacionam com o nível.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

O PIBID se mostra hoje um excelente projeto de apoio para licenciandos. Os


resultados foram satisfatórios e podemos notar a importância desse intercâmbio de
informações entre a universidade e a escola. É necessário refletir tudo o que
aprendemos para desenvolvermos nossas próprias metodologias, para quem sabe
no futuro poder solucionar os desafios que estão presentes nas salas de aula.
Acompanhar uma sala de aula me fez ter a noção de como é o cotidiano
de um professor. Esse contato com os alunos do terceiro ano tem me dado várias
Figura 20: Representação gráfica das respostas dadas na análise do segundo nível cognitivo
experiências boas, que com certeza serão levadas como base para a minha
da Taxonomia de Bloom.
formação pessoal e profissional.
Para o Figura 21 fica evidente que o nível cognitivo Aplicação é muito
REFERÊNCIAS bem abordado em todas as provas analisadas. Talvez esse fato esteja relacionado

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica com a especificidade da disciplina de Física, que traz em seu bojo uma
(Semtec). Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Brasília: característica prática muito singular
MEC/Semtec, 1999.

BRASIL. Ministério da Educação. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal


de Nível Superior - CAPES. Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à
Docência – PIBID. 2014. Disponível em:<http://www.capes.gov.br/educacao-
basica/capespibid>. Acesso em: 06 fev. 2015.
GUIMARÃES, C. C.. Experimentação no Ensino de Química: Caminhos e
descaminhos rumo á aprendizagem significativa. Química Nova na Escola, v.
31, n. 3, p. 198-202. 2009.
LACERDA, C. C.. Problemas De Aprendizagem No Contexto Escolar:
Dúvidas Ou Desafios? Disponível em:<http://www.psicopedagogia.com.br/
artigos/artigo.asp?entrID=1157> Acesso em: 06 fev. 2015.
VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1989. Figura 21: Representação gráfica das respostas dadas na análise do terceiro nível cognitivo
da Taxonomia de Bloom.
154 47
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O Figura apresenta a distribuição para o nível cognitivo de Análise. Neste prévios que os estudantes construíram ao longo de sua vida. E quando não há
nível as questões das provas devem propiciar ao aluno habilidade de distinguir, relação entre o que o aluno já sabe e aquilo que ele está aprendendo, a
classificar, e relacionar pressupostos, hipóteses, evidências ou estruturas de uma aprendizagem não é significativa.
declaração ou questão. Observa-se que três provas apresentam um bom nível de Foram utilizados então procedimentos experimentais para que os alunos
concordância com o nível. relacionassem a teoria que aprenderam em sala de aula com práticas do seu dia-a-dia.
No meu caso em específico, foram abordados na sala do 3º ano do Ensino Médio os
conceitos de teor de álcool na gasolina e algumas práticas relacionadas aos
hidrocarbonetos.
Primeiramente foi entregue um questionário para que os alunos
respondessem, sobre os conceitos citados acima, que já haviam sido vistos
anteriormente em sala. Alguns alunos apresentaram dificuldade para responder o
questionário. Então, foi dado o início aos experimentos.
No segundo momento os alunos realizaram a prática experimental. O
laboratório da escola é bem equipado, mas mesmo assim a professora não
frequenta o local com os alunos. Com essa visita no laboratório foi possível
Figura 22: Representação gráfica das respostas dadas na análise do quarto nível cognitivo da
notar que quase tudo no local era desconhecido por eles. Com isso os alunos
Taxonomia de Bloom.
criaram um interesse para aprender o conteúdo abordado na aula, e quando
existia alguma dúvida os mesmos se sentiam mais a vontade para perguntar. No
Nos Figuras 23 e 24, observa-se que os dois níveis de maior complexidade final, foi pedido para que eles respondessem novamente o mesmo questionário e
da taxonomia (Síntese e Avaliação) são apresentados apenas em uma prova a grande maioria da turma conseguiu resolvê-lo. Foi possível perceber o
analisada (Prova E). Pesquisas dos últimos quarenta anos confirmaram a benefício de usar esse tipo de metodologia.
taxonomia como uma hierarquia, com exceção destes dois últimos níveis que é A escola parceira tem dado todo o apoio necessário para que possamos
aceitável colocá-los em um único nível, pois ambos dependem da análise como realizar as atividades propostas. Disponibilizaram também um bom espaço para
processo fundador (BLOOM; HASTINGS; MANDAUS, 1983). Entretanto, na desenvolvermos monitoria com os alunos, no período da tarde. Esse momento foi
Síntese espera-se que o aluno crie, integre e combine ideias num produto, plano ou reservado para que os alunos tirassem suas dúvidas e também, com nosso auxílio,
proposta, novos para ele, enquanto que na Avaliação espera-se que o aluno aprecie, resolvessem exercícios relacionados ao conteúdo aplicado em sala. Cerca de 20
avalie ou critique com base em padrões e critérios específicos. Ambos os níveis são alunos compareceram no meu período de monitoria e foi um momento em que eles
importantes no processo de ensino/aprendizagem, mas um não é superior ao outro. se sentiram a vontade para fazer perguntas. No final os alunos mostraram-se
satisfeitos e alguns passaram a entender melhor a disciplina.
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ATIVIDADES DESENVOLVIDAS E RESULTADOS OBTIDOS NA Embora, como observado nos Figuras 23 e 24, a maioria das provas
VIVÊNCIA NO PIBID analisadas não apresentam os níveis mais complexo da taxonomia, as pesquisas
no campo psicológico mostram que os alunos lembram-se mais quando
O projeto PIBID tem orientado os bolsistas de Iniciação à Docência à aprenderam a abordar um tópico desde o nível mais elevado da taxonomia
como lidar com alunos em sala de aula. Os estudos dos métodos de (SOARES, 2009 apud BLOOM; HASTINGS; MANDAUS, 1983). Isso
aprendizagem, realizados por nós bolsistas, vem reformulando nossos conceitos acontece porque, nos níveis superiores, exige-se mais elaboração, um princípio
de como deve ser um bom profissional na área da educação. Alguns exemplos de aprendizagem baseado em descobertas desde a teoria de aprendizagem
são: qual a postura que o professor deve manter perante a sala de aula, qual ancorada na abordagem do processo de informação (STEMBERG, 2000 apud
decisão tomar diante das diferentes situações, entre outros, nos orientando para BORUCHOVICH; COSTA; NEVES, 2005). Portanto, é desejável que os níveis
que possamos melhorar o ensino e aprendizado de cada aluno no futuro. Síntese e Avaliação estejam representados em todas as provas.
Foram realizadas na UTFPR juntamente com a coordenadora do projeto Neste sentido, verifica-se uma completa ausência destes requisitos nas
PIBID reuniões semanais durante o ano de 2014. Acompanhei uma turma de 3º Provas A, B, C e D (ver Figuras 23 e 24).
ano no Colégio Estadual Polivalente, cuja carga-horária era de duas aulas
semanais, sob supervisão de uma professora supervisora do nosso subprojeto.
No início senti dificuldade ao acompanhar as aulas, pois a única experiência
que tinha naquele local era apenas como aluna, mas com o passar do tempo fui me
sentindo mais à vontade para auxiliar a professora durante as aulas. Minha relação
com os alunos e com minha supervisora foi a melhor possível, o que facilitou na hora
das atividades em sala de aula. Comparando com as outras atividades que participo
no projeto esse é o momento que mais aprendo, pois é possível adquirir técnicas e
também como devo me comportar perante a sala de aula.
Na tentativa de chamar a atenção do aluno para as aulas de Química,
foram propostas atividades práticas no laboratório. Estas aulas estimulam a
curiosidade, a iniciativa e a autoconfiança; aprimoram o desenvolvimento de
habilidades linguísticas, mentais e de concentração; e exercitam interações Figura 23: Representação gráfica das respostas dadas na análise do quinto nível cognitivo da
sociais e trabalho em equipe (VYGOTSKY, 1989). Segundo Guimarães (2009), Taxonomia de Bloom.

muitas críticas ao ensino tradicional referem-se à ação passiva do aprendiz que


frequentemente é tratado como mero ouvinte das informações que o professor
expõe. Tais informações, quase sempre, não se relacionam aos conhecimentos
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Pensando em ultrapassar esses desafios, foi criado o Programa


Institucional de Bolsas de Iniciação a Docência (PIBID), lançado pela
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) no ano
de 2007. Dentro dos propósitos do PIBID está a inclusão do licenciando no dia-
a-dia escolar da rede pública de ensino, visando a adiantar o vínculo entre os
futuros professores e as salas de aula. Segundo a Capes (BRASIL, 2014), entre
vários objetivos os principais são:
Incentivar a formação de docentes em nível superior para a Educação
Básica;
Contribuir para a valorização do magistério;

Figura 24: Representação gráfica das respostas dadas na análise do sexto nível cognitivo da Elevar a qualidade da formação inicial de professores nos cursos de
Taxonomia de Bloom.
licenciatura, promovendo a integração entre Ensino Superior e Educação
Básica;
Inserir o licenciando no cotidiano de escolas da rede pública de educação,
CONSIDERAÇÕES FINAIS
proporcionando-lhe oportunidades de criação e participação em
experiências metodológicas, tecnológicas e práticas docentes de caráter
A problemática da avaliação da aprendizagem, comumente debatido por inovador e interdisciplinar que busquem a superação de problemas
especialistas da área, foi abordada do ponto de vista dos instrumentos de identificados no processo de ensino-aprendizagem;
avaliação. Neste caso, optou-se pelo estudo e aplicação da Taxonomia dos Incentivar escolas públicas de Educação Básica, mobilizando seus
Objetivos Educacionais de Benjamin Bloom, na temática de construção de professores como conformadores dos futuros docentes e tornando-as
provas/testes pelo professor, para avaliação em suas disciplinas. Por meio de protagonistas nos processos de formação inicial para o magistério; e
uma pesquisa bibliográfica verificou-se que são poucos os aplicativos Contribuir para a articulação entre teoria e prática necessárias à formação
computacionais desenvolvidos para auxiliar o professor na elaboração de seus dos docentes, elevando a qualidade das ações acadêmicas nos cursos de
instrumentos avaliativos via Taxonomia de Bloom, em especial nenhum escrito licenciatura.
em linguagem de programação Java.
Neste contexto, desenvolveu-se um aplicativo em Java com o objetivo de
minimizar tal carência e propiciar uma ferramenta a mais para auxiliar o
professor no processo de ensino/aprendizagem. Utilizou-se o ambiente Figura do
programa NetBeans 7.2, e as suas facilidades, para construção da primeira
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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
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RELATO DE EXPERIÊNCIAS DE UMA BOLSISTA PIBID NA ESCOLA versão do aplicativo. Para todos os níveis cognitivos da taxonomia foram
POLIVALENTE DE APUCARANA abordados quatro focos principais: o conceito, a estrutura da questão, palavras
mais adequadas e alguns exemplos. Acredita-se que tais focos possibilitem uma
Daphne Christine Salles Oliveira razoável identificação dos níveis cognitivos. Utilizou-se um questionário em
Lilian Tatiani Dusman Tonin escala Likert para aquisição e posterior análise dos resultados. Para cada nível
uma média é calculada, na qual identifica na escala Likert, o grau de
concordância com a Taxonomia de Bloom. Alguns testes padrão foram
INTRODUÇÃO realizados com provas de professores de física do Câmpus, com o objetivo, num
primeiro momento, de calibrar o aplicativo e analisar sua aplicabilidade. É
Muitos são os desafios que os professores enfrentam nas escolas nos dias importante enfatizar que se optou em dispensar o uso de um grupo de controle,
atuais. Por conta dos avanços da sociedade e das tecnologias, o professor uma vez que não era nosso intuito comprovar se o enfoque metodológico
necessita estar sempre atualizado e preparado para encarar os diversos utilizado demonstra a eficácia da taxonomia.
problemas encontrados em seu cotidiano. Diante disso, os novos desafios vêm De qualquer forma, as reflexões e análises desenvolvidas neste trabalho
instigando os profissionais da educação a buscarem novos saberes, têm a nosso ver, um ponto de partida para o desenvolvimento de um sistema
conhecimentos, metodologias e estratégias de ensino (LACERDA, 2011). bem mais robusto, no qual será possível para o professor criar (construir) suas
De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino provas usando a taxonomia e aplicá-las via web.
Médio, relacionado à Química Finalmente, acredita-se que esta investigação contribui para o uso de
há necessidade de superar o atual ensino praticado, proporcionando o tecnologias da comunicação e informação no processo de ensino/aprendizagem
acesso a conhecimentos químicos que permitam a construção de uma
visão de mundo mais articulada e menos fragmentada, contribuindo além de fornecer subsídios para estudos complementares via Taxonomia de
para que o indivíduo se veja como participante de um mundo em Bloom. Entende-se que os resultados aqui discutidos bem como a proposta do
constante transformação (BRASIL, 1999).
aplicativo possam ser utilizados por docentes do Magistério Superior (ou Ensino
A disciplina de Química é vista como um assunto de desinteresse pelos
Médio) como ponto de partida para reflexões sobre seu processo de avaliação da
alunos, apesar de estar presente em quase todas as atividades de seu cotidiano.
aprendizagem.
Podemos relacionar esse desprendimento ao assunto a diversos fatores. As
escolas, em geral não utilizam laboratórios nem fazem uso de recursos
multimídia; além disso, existe ausência de metodologias interativas de
aprendizagem. Há uma enorme necessidade de se formar bons educadores nessa
área para suprir essa carência.

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REFERÊNCIAS CONSIDERAÇÕES FINAIS

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BLOOM, B. S.; HASTINGS, J.; MANDAUS, G. F.. Manual de Avaliação tenhamos subsídios suficientes para elaborar e aprimorar a forma de
formativa e somativa do aprendizado escolar. São Paulo: Livraria Editora
aprendizagem, por meio de metodologias inovadoras, inclusive refletir sobre a
Pioneira, 1983.
prática docente em um contexto geral.
BORUCHOVICH, E.; COSTA, E. R.; NEVES, E. R. C.. Estratégias de
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Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2010.
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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
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sala de aula. Foi encerrada com pouco tempo devido à baixa procura dos alunos, JESUS, E. A.; RAABE, A. L. A.. Interpretações da Taxonomia de Bloom no
Contexto da Programação Introdutória. SIMPÓSIO BRASILEIRO DE
que em grande parte não se mostraram realmente interessados.
INFORMÁTICA NA EDUCAÇÃO, 20., 2009, Florianópolis. Anais Eletrônico.
No decorrer do projeto os alunos me procuravam cada vez mais, seja para Disponível em:<http://www.brie.org/pub/index.php/sbie/article/view/1151>.
Acesso em: 5 abr. 2012.
dúvidas sobre a matéria ou auxílio na resolução de exercícios extras.
No segundo semestre, tive a oportunidade de trabalhar com uma bolsista KRATHWOHL, D. R.. A Revision of Bloom: An Overview. Theory Into
Practice, Ohio, v. 41, n. 4, p. 212-264, 2002. Disponível
que propôs uma Feira de Ciências e Artes no Colégio. A Feira envolveu todos os em:<http://www.unco.edu/cetl/sir/stating_outcome/documents/ Krathwohl.pdf>.
professores da instituição e qual cada um apresentou seu projeto. Os outros Acesso em: 5 abr. 2012.

bolsistas participantes do subprojeto PIBID Química Apucarana também LITTO, F.; FORMIGA, M.. (orgs). Educação a distância: o estado da arte. São
Paulo: Pearson Education do Brasil, 2009.
apresentaram seus projetos, como a fabricação de cola e tinta a partir da caseína
LIKERT, R.. A technique for the measurement of attitudes. Arch. Psychol., v.
do leite, sangue falso químico, queima da pedra de carbureto e eletrólise da 22, n. 140, p. 5-55, 1932.
água. Quanto à parte artística, consegui reunir CDs e livros da cultura local
LÜKE, M.; ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em Educação: Abordagens
paranaense e presentear os alunos, já que eles participaram de um concurso que Qualitativas. São Paulo: EPU, 1986.
definiria a logomarca da I Feira de Ciências e Artes e os desenhos que foram MOORE, M.; KEARSLEY, G.. Educação a distância: uma visão integrada.
utilizados para a divulgação do evento. São Paulo: Thomson Learning, 2007.

Utilizei o espaço escolar para gravar uma vídeo-aula. O tema escolhido PELISSONI, A. M. S.. Objetivos educacionais e avaliação de aprendizagem.
Anuário da Produção Acadêmica Docente, Valinhos, v. 3, n. 5, p. 129-139, 2009.
para minha vídeo-aula foi “Nomenclatura de Ácidos e Bases”, e está disponível Disponível em: http://sare.anhanguera.com/index.php/anudo/article/view/1585.
no link <https://www.youtube.com/watch?v=wm9YppUmgM8>. Acesso em: 05 abr. 2012.

Ajudei na recepção dos alunos do Colégio Polivalente na UTFPR, quando PERRENOUD, P.. A avaliação entre duas lógicas. In: PERRENOUD, P..
Avaliação: Da excelência a regulação das aprendizagens – Entre duas lógicas.
nós, bolsistas do projeto PIBID, divulgamos o curso de Licenciatura em Tradução de Patrícia Chilloni Ramos. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.
Química aos alunos, mostrando os experimentos “Pasta de dente de elefante” e
SABINO, M. M. F. L. et al.. Uma análise cognitiva do processo de orientação de
“Desintegração do isopor pela acetona”. Ainda, auxiliei na aplicação das trabalho de conclusão de curso na modalidade a distância: o caso do projeto
piloto do curso de Administração a distância da UFSC. Revista Renote - Novas
Olimpíadas de Química.
Tecnologias na Educação, v. 10, n. 1, jul. 2012. Disponível em:
Portanto, participar do projeto PIBID, proporcionou momentos em que <http://seer.ufrgs.br/renote/article/viewFile/30858/19215>. Acesso em: 12 dez.
2012.
pude utilizar todo o conhecimento que aprendi nas reuniões semanais e
encontros com as coordenadoras e professor supervisor, a fim de sempre SAX, G.. Principles of education ad psychological measurement and
evaluation. 4. ed. Belmont: Wadsworth Publishing Company, 1996.
desenvolver intelectualmente a futura prática docente.
RAMPAZZO, L.. Metodologia científica para alunos de graduação e pós-
graduação. Lorena, SP: Stiliano, 1998.
VAUGHAN, C. A.. Identifying course goals: domains and levels of learning.
Teaching Sociology, v. 7, n. 3, p. 265-279, 1980.
148 53
O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
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CONTRIBUIÇÕES DO PIBID PARA A FORMAÇÃO DOCENTE DOS


LICENCIANDOS EM QUÍMICA DA UTFPR CÂMPUS APUCARANA

Alessandra Machado Baron


Lilian Tatiani Dusman Tonin

INTRODUÇÃO

Atrelada a questões relacionadas à história do ensino de Química, a


formação inicial de professores de Química permanece ancorada em paradigmas
disciplinares. A estrutura curricular, normalmente vinculada a cursos de
Bacharelado, está mais centrada sobre o projeto de fazer dos professores técnicos
Figura 1: Apresentação do trabalho no I Seminário Estadual PIBID do Paraná.
de ciências do que de fazê-los educadores em ciências. Consequentemente, os
licenciandos chegam ao final do curso com práticas que enfatizam mais os
Já para o 3º ano B, fiz uma prática na qual os alunos pudessem identificar
conteúdos que as ligações que estes fazem com as demais áreas do conhecimento
o carbono, principal objeto de estudo nesta etapa escolar e correlacionar o
(SANTOS, 2005). Neste sentido, a insegurança na prática docente vem sendo
produto obtido da combustão da pedra de carbureto (Figura 2) ao caráter ácido
minimizada através do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência
ou básico.
(PIBID). O referido programa tem incentivado a formação acadêmica
integralizada e mais global dos alunos de cursos de licenciatura, já que os
coordenadores de área em parceria com os supervisores das escolas envolvidas
têm a oportunidade de orientar os licenciandos bolsistas desde o início do curso,
de forma intensiva e num largo espectro de atividades relacionadas especialmente
ao ensino e pesquisa (BRAIBANTE; WOLLMANN, 2012).
O PIBID Química da UTFPR – Apucarana iniciou em agosto de 2011
com doze licenciandos, um supervisor e um coordenador de área. Desde início
Figura 2: Combustão da pedra de carbureto e produção do hidróxido de cálcio.
de 2014, o programa conta com vinte e quatro bolsistas de iniciação à docência
(ID), dois coordenadores de área e quatro supervisores. O presente artigo tem
Em contra turno, ofertei monitoria uma vez na semana para as turmas que
por finalidade relatar e analisar as principais atividades e ações realizadas
acompanhava, justamente para auxiliar os alunos com as dificuldades que fui
durante estes 3 anos e meio de projeto, buscando ainda avaliar a contribuição do
observando. Foram resolvidas questões de vestibular e sanadas as dúvidas de
referido programa para a formação dos nossos alunos como futuros docentes.
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de discutir e comentar sobre teóricos da aprendizagem, quando nos foi proposto FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
estudar e apresentar um estudo a respeito de (teorias de aprendizagem).
Quando iniciei o projeto no Colégio Nilo Cairo as turmas foram muito O PIBID é uma iniciativa para o aperfeiçoamento e a valorização da

receptivas comigo, inclusive a própria instituição que me recebeu, desde o formação de professores para a educação básica. O programa concede bolsas a

professor supervisor até o diretor. Senti-me livre para trabalhar com os alunos de alunos de licenciatura participantes de projetos de iniciação à docência

forma autônoma, dessa forma, conheci melhor sua realidade e consegui perceber desenvolvidos por Instituições de Educação Superior (IES) em parceria com

as dificuldades de alguns deles. Conheci melhor os objetivos e metas da escola escolas de educação básica da rede pública de ensino. Os projetos devem

quando participei das reuniões pedagógicas da escola. promover a inserção dos estudantes no contexto das escolas públicas desde o

Ao observar as turmas durante as duas aulas semanais, pude conferir a início da sua formação acadêmica para que desenvolvam atividades didático-

realidade que se constitui a educação básica atual. Busquei estar sempre presente pedagógicas sob orientação de um docente da licenciatura e de um professor da

e realizando atividades para que os alunos compreendessem que a Química vai escola. Os objetivos do programa são:

além dos cálculos e representações. Incentivar a formação de docentes em nível superior para a educação
básica; contribuir para a valorização do magistério; elevar a qualidade
Ao acompanhar as aulas do professor, desenvolvi as propostas da formação inicial de professores nos cursos de licenciatura,
pedagógicas com o objetivo de ensinar Química de forma contextualizada e promovendo a integração entre educação superior e educação básica;
inserir os licenciandos no cotidiano de escolas da rede pública de
sempre atentando para as dificuldades encontradas em determinados conteúdos. educação, proporcionando-lhes oportunidades de criação e participação
em experiências metodológicas, tecnológicas e práticas docentes de
Estas propostas foram aplicadas no laboratório, que possui muitos recursos caráter inovador e interdisciplinar que busquem a superação de
problemas identificados no processo de ensino-aprendizagem;
(vidrarias novas, reagentes, equipamentos de segurança). incentivar escolas públicas de educação básica, mobilizando seus
Através das dificuldades observadas desenvolvi para o 2º ano B, com professores como coformadores dos futuros docentes e tornando-as
protagonistas nos processos de formação inicial para o magistério; e
orientação da professora coordenadora, uma proposta de ensinar a influência da contribuir para a articulação entre teoria e prática necessárias à
formação dos docentes, elevando a qualidade das ações acadêmicas nos
concentração das espécies no equilíbrio de dissociação do AAS, por meio de cursos de licenciatura (COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO
DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR – CAPES, 2015, s/p. ).
uma problematização do experimento. Esta proposta foi apresentada no I
Seminário Estadual do PIBID Paraná, em Foz do Iguaçu, nomeada “Uma
Em se tratando da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR),
proposta de problematização do Equilíbrio Químico do AAS”, mostrado na
possuem PIBID/Química os câmpus de Apucarana, Campo Mourão, Curitiba,
Figura 1.
Londrina e Pato Branco. Em Apucarana o programa tem como objetivos:
oferecer condições de inserção no contexto escolar, que permita ao aluno de
licenciatura aperfeiçoar sua formação docente inicial num sentido global, de
forma a desenvolver habilidades e competências necessárias, visando com isto

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seu ingresso na carreira de magistério e consequentemente melhora na qualidade conhecimento dos jovens sobre os fenômenos, nem mesmo de desenvolver ou
de ensino da educação básica. Os objetivos específicos são: organizar o raciocínio do senso comum dos jovens. Para eles, aprender
ciências vai além de desafiar ideias anteriores dos alunos e requer que sejam
• promover a integração entre a Educação Superior e as Escolas Públicas introduzidos em uma forma diferente de pensar acerca do mundo natural e de
de Ensino Básico, contribuindo para a elevação da qualidade da explicá-lo.
formação inicial dos licenciandos em Química; Com essa proposta de auxiliar na formação intelectual dos estudantes de
• aperfeiçoar a linguagem científica escrita e oral dos licenciandos, através Química e promover uma aprendizagem eficiente para os alunos de escolas
da elaboração de relatórios técnicos, cursos de aperfeiçoamento, públicas estaduais, no ano de 2014, os alunos bolsistas do projeto PIBID foram
apresentação de seminários e da participação em eventos; incentivados pelas coordenadoras a propor estratégias novas e eficientes para o
• propiciar aos alunos bolsistas a oportunidade de vivenciar o cotidiano Ensino de Química.
das escolas públicas para que possam, posteriormente, planejar e Este relato de experiência visa expor os trabalhos realizados em 2014, no
executar experimentos controlados, bem como, aplicar práticas Colégio Estadual Nilo Cairo, localizado na cidade de Apucarana/PR, sobre o
docentes inovadoras, com a finalidade de minimizar problemas de olhar de uma bolsista participante.
ensino-aprendizagem na área de Química e em áreas correlatas;
• elevar a qualidade das ações acadêmicas dos licenciandos em Química ATIVIDADES DESENVOLVIDAS E RESULTADOS OBTIDOS NA
através do estímulo para a realização da pesquisa bibliográfica em temas VIVÊNCIA NO PIBID
relevantes do Ensino de Química no Brasil. Consequentemente, os
futuros docentes, quando em observação nas escolas públicas, poderão O PIBID tem como meta principal o aperfeiçoamento e a valorização da

perceber e aprimorar a relação entre teoria e prática em sala de aula. formação de professores para a educação básica e a inserção dos licenciandos no
contexto das escolas públicas para que desenvolvam atividades didático-
pedagógicas sob orientação de um docente da licenciatura e de um professor da
Estes objetivos pretendem oportunizar a observação, reflexão e
escola (BRASIL, 2014).
intervenção das práticas desenvolvidas nas escolas de Ensino Médio, para poder
Durante todo o ano letivo de 2014, reuniões semanais foram realizadas na
formar professores que tenham a real dimensão da responsabilidade do exercício
UTFPR juntamente às coordenadoras do projeto PIBID. Acompanhei duas
docente e que busquem sempre aperfeiçoar sua metodologia de ensino.
turmas no Colégio Estadual Nilo Cairo, 3º B e 2º B, cada uma com duas aulas

METODOLOGIA semanais, sob supervisão do professor da turma, um dos supervisores do nosso


subprojeto.
Os alunos de ID, juntamente com as coordenadoras de área, se reúnem Durante as reuniões semanais na UTFPR discutimos sobre o planejamento
semanalmente para debater e estudar conteúdos relacionados ao ensino- das ações ao longo do período escolar. Nessas reuniões, tivemos oportunidade
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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

RELATO DE EXPERIÊNCIA DE UMA BOLSISTA DO PROJETO PIBID aprendizagem, artigos científicos sobre ensino de Química, propostas
QUÍMICA NO COLÉGIO ESTADUAL NILO CAIRO pedagógicas, discutir assuntos relacionados ao projeto, partilhar as experiências
vividas nas escolas onde estão inseridos, entre outros assuntos. Os alunos
Luana Pires Vida Leal
(normalmente em duplas) propõem propostas didáticas para o ensino de
Lilian Tatiani Dusman Tonin
Química, para tal, as duplas selecionam um conteúdo, planejam a atividade,
apresentam para a coordenadora de área e para o supervisor, aplicam na escola,

INTRODUÇÃO analisam os resultados obtidos e apresentam-nos para o grupo, em eventos e/ou


em artigos científicos. Na Escola os licenciandos acompanham duas turmas de

Sabe-se que a formação inicial de docentes enfrenta atualmente um Ensino Médio, colaborando com atividades que o professor supervisor solicita.

cenário de desvalorização, devido a presença dos modelos educacionais Os resultados das atividades apresentadas neste trabalho serão avaliados

vigentes, tornando-se difícil mudar essa realidade, e por consequência tem-se de forma qualitativa, destacando a análise das principais atividades e ações

futuros professores inseguros quanto a propor metodologias de ensino realizadas pelos bolsistas no período de agosto de 2011 a dezembro de 2014,

inovadoras (WEBER et al., 2012). buscando ainda avaliar a contribuição do referido programa para a formação dos

Para mudar esse cenário, o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à licenciandos como futuros docentes.

Docência (PIBID), financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal


RESULTADOS E DISCUSSÃO
de Nível Superior (Capes), surgiu com o intuito de assegurar uma educação de
qualidade, apoiando desde à graduação a formação superior dos futuros Desde o início do projeto (agosto de 2011), os alunos são divididos em
professores da educação básica, incentivando pesquisas relacionadas à duplas e inicialmente fazem apenas observações em duas turmas do Ensino
formação de professores (BRASIL, 2014). Médio nas Escolas parceiras do projeto. Após o período de conhecimento das
O projeto PIBID atua nas diversas áreas da Licenciatura, em várias turmas, os professores supervisores delegam às duplas algumas tarefas como:
instituições de ensino superior, como é o caso da UTFPR câmpus Apucarana, ajudar na resolução de exercícios em sala de aula visando uma interação
que possui o curso de Licenciatura em Química, ofertando aos futuros dinâmica com os alunos e a melhora na participação e rendimento destes
professores de Química, o subprojeto PIBID Química. estudantes, elaborar listas de exercícios, corrigir exercícios (sem atribuição de
O subprojeto beneficia os licenciandos em Química com a interação nota), auxiliar na organização do laboratório de Química da escola, apoiar na
entre a Educação Básica e o Ensino Superior, de forma que as questões preparação de aulas teóricas e no uso de novas estratégias e abordagens dos
emergentes sobre a prática escolar possam ser articuladas por meio das conceitos químicos de maneira a favorecer a troca de experiências e a evolução
pesquisas em Educação Química e Educação em Ciências, já que de acordo na atuação profissional de ambos, testar e aplicar experimentos de Química
com Driver e colaboradores (1999), aprender ciências não é apenas ampliar o sobre os conteúdos aplicados pelos professores supervisores. Alguns dos

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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

experimentos aplicados foram: Relógio de Iodo- Influência da Concentração dos satisfação inexplicável, ao ver que o conteúdo explicado por nós foi aprendido e
reagentes na velocidade das reações; Medindo o pH da solução obtida a partir da que eles entenderam aquele assunto. Dá-nos a sensação de dever cumprido,
eletrólise da água em presença de solução de cloreto de sódio; Medindo o pH de principalmente ao tornar o ensino de Química prazeroso e diversificado aos
soluções usadas no cotidiano dos alunos; Densidade de solução e concentração alunos, despertando neles o gosto de aprender a matéria em questão.
comum; Preparando, dividindo e misturando soluções; Atividades práticas Essa experiência de criar e aplicar uma aula, traz a sensação de
envolvendo Equilíbrio químico; Cálculo de concentração (mol/L); Doce de maturidade, de agora sermos responsáveis pelo conteúdo ensinado a outra
pedra; Identificação de carbono na sacarose; Título; Identificação de Proteínas. pessoa, que não é uma tarefa simples de realizar. Pois implica em dedicação,
Produção de sabão; Pasta de dente de elefante. conhecimento, empenho e pesquisa para poder criar uma aula satisfatória a
No ensino de ciências, a experimentação tem sido uma estratégia eficiente ambos, tanto ao ministrador da aula quanto ao aluno.
para a criação de problemas reais que permitam a contextualização e o estímulo Realizar experimentos diferenciados com os alunos, é uma experiência
de questionamentos de investigação (GUIMARÃES, 2009; DELORS, 2001). diferente de todas as já vividas, o contato com os alunos, possibilita a certeza de que
Em nosso grupo os licenciandos buscavam sempre despertar questionamentos fazer licenciatura é o que realmente queremos, o PIBID ajuda profissionalmente,
por parte dos educandos antes e durante a interação com o contexto criado facilitando a compreensão na parte da Educação, vivenciando as situações que
(experimento realizado). provavelmente serão encontradas em sala de aula quando estivermos lecionando.
Os licenciandos também confeccionaram jogos educativos relacionados à Desenvolver a atividade proposta em principio não parecia algo tão
conteúdos de Química para apoiar na construção do conhecimento durante as complexo, porém a partir do momento do planejamento, durante a realização do
aulas. Alguns destes jogos receberam a denominação: Banco Periódico - como experimento e depois de sua aplicação, foi possível perceber o quanto nos trouxe
ferramenta para o ensino do conteúdo Tabela Periódica; Micolândia - para o inquietação o fato de ter grande responsabilidade, pelo que você está ensinando,
ensino de nomenclatura de funções orgânicas; Quiligando Carbonos – para o ou do que está sendo proposto, e se será aprendido da forma planejada.
ensino de funções orgânicas; Distribuindo PEN – para o ensino do modelo REFERÊNCIAS
atômico de Bohr.
PASSONI, L. C. et al.. Relatos de experiência do Programa Institucional de Bolsa de
O uso de jogos educacionais no ensino de ciências é uma prática já
Iniciação à Docência no Curso de Licenciatura em Química da Universidade Estadual
estabelecida, cujo objetivo é auxiliar os alunos a aprender ou revisar o conteúdo do Norte Fluminense. Química Nova na Escola, v. 32, n. 4, p. 201-209, 2012.
ministrado de forma lúdica, porém efetiva. Uma grande variedade de jogos SANTOS, W. L. P.; SCHNETZLER, R. Função social: o que significa ensino de
educacionais tem sido proposta no ensino da Química (RUSSELL, 1999; química para formar cidadão? Química Nova na Escola, v. 4 , n. 4, p. 28-34, 1996.

MORRIS, 2011; OLIVARES et al., 2011; SILVA et al., 2012). O uso de jogos _______. Contextualização no ensino de ciências por meio de temas CTS em uma
perspectiva crítica. Ciência & Ensino, v. 1, p. 1-12, 2007.
pedagógicos permitiu aos licenciandos do PIBID UTFPR-AP observar
SCHNETLZER, R.. Apontamentos sobre a história do ensino de química no Brasil.
especialmente que esta ferramenta auxilia no rompimento de obstáculos In: SANTOS, W. L. P.; MALDANER, O. A. (Orgs). Ensino de química em foco.
Ijuí: Ed. Unijuí, 2010, p. 51-75. (Coleção Educação em Química).
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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

O segundo experimento foi com o uso do indicador Ácido/ Base, que consiste presentes nos processos de ensino e aprendizagem e permite o contato com
em adicionar indicadores como fenolftaleína e alaranjado de metila em substâncias novas práticas pedagógicas.
desconhecidas. Ao adicionar esses indicadores a substância adquiri a coloração de Nas reuniões semanais na UTFPR, foram realizados diversos estudos.
acordo com o seu pH, podendo observar se trata de uma substância ácida, básica ou Durante o segundo semestre de 2011 e primeiro semestre de 2012 foi estudado o
neutro. Após os experimentos os alunos foram questionados sobre a mudança de livro A ciência através dos Tempos (CHASSOT, 1994). No ano de 2012 ainda
coloração e motivados a encontrarem uma resposta química para o observado. foram estudados os artigos: O Professor Pesquisador como Instrumento de
Melhoria do Ensino de Ciências (MOREIRA, 1988); Momentos pedagógicos e
as etapas da situação de estudo: complementaridades e contribuições para a
educação em ciências (GEHLEN; MALDANER; DELIZOICOV, 2012) e
Experimentação Problematizadora: Fundamentos Teóricos e Práticos para a
Aplicação em Salas de Aula de Ciências (FRANCISCO JR, 2008). No ano de
2013 foram estudados os artigos: Atividade discursiva nas salas de aula de
Figura 2: Experimento indicadores ácido/base.
ciências: uma ferramenta sociocultural para analisar e planejar o ensino
Foi perceptível o interesse dos alunos durante o desenvolvimento dos (MORTIMER; SCOTT, 2002); Concepções de ensino e de avaliação de
experimentos, os alunos tiveram a oportunidade de manusear os materiais do professores de Química do Ensino Médio (MACENO; GUIMARÃES, 2013);
laboratório como voluntários, e vários alunos se dispuseram a ajudar. Podendo Pesquisar e Aprender em Educação Química; Música e o Ensino de Química
concluir que eles tiveram bastante interesse pela aula desenvolvida, atingindo (SILVEIRA; KIOURANIS, 2008). No ano de 2014 foi estudado o livro Teorias
assim o objetivo esperado. da aprendizagem, de Marco Antônio Moreira – através de seminários
apresentados pelos bolsistas (em duplas) e posterior debate e discussão. Ainda
CONSIDERAÇÕES FINAIS
em 2014, os discentes pesquisaram e apresentaram os resultados de trabalhos
que estão sendo desenvolvidos por outros grupos PIBID, a fim de que através da
A realização desta aula prática teve para nós um valor inestimável, pois nos
leitura e pesquisa tenham novas ideias para melhorar o ensino nas escolas
possibilitou a oportunidade de vivenciar como é a docência, pois coube a nós a
públicas. Alguns destes trabalhos apresentados foram: Os jogos educacionais de
responsabilidade de propor as práticas e também o conteúdo teórico da matéria em
cartas como estratégia de ensino em Química (FOCETOLA et al., 2012); O
questão. Tivemos que recorrer aos conhecimentos químicos, mas também aos
Projeto Água em Foco como Uma Proposta de Formação no PIBID (SILVA;
saberes da didática, para então, associando os conteúdos da Química com a aula
MORTIMER, 2012); O júri químico para discussão de conceitos de Química
prática, buscar estratégias para que os objetivos fossem alcançados.
Orgânica e suas aplicações no cotidiano (LEMES; ALVES, 2014).
Ao participar do PIBID temos a oportunidade de exercitar essa prática à
Os estudos dirigidos tem melhorado a formação dos licenciandos nas áreas de
docência, saindo da teoria e podendo vivenciá-la. E ao vivenciá-la temos uma
Ensino, Educação e Química. Observa-se também um maior desenvolvimento da
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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
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capacidade comunicativa, oral e escrita do aluno, bem como no aprimoramento e ATIVIDADES DESENVOLVIDAS E RESULTADOS OBTIDOS NA
complementação da aprendizagem didático-pedagógica. Destaca-se também um VIVÊNCIA NO PIBID
maior interesse, por parte dos futuros docentes, à prática da pesquisa em ensino. Ao preparar a atividade para ser desenvolvida no laboratório foi analisado
Acreditamos que os alunos terão melhores condições para aperfeiçoar estas e outras o perfil da sala de aula, o que os alunos estavam acostumados a fazer em aulas
habilidades e competências necessárias para a formação da docência. no laboratório e como a atividade que seria desenvolvida ajudaria na formação
Paralelamente às leituras, os alunos, em duplas, estudam temas deles enquanto alunos e em nossa formação à docência. Por isso, foi preparada
relacionados à Química, para preparação de propostas didáticas distintas dos uma aula dinâmica em que os alunos também deveriam participar ativamente,
métodos tradicionais de ensino, que sejam inovadoras e diferenciadas. Os alunos realizando e participando dos experimentos. No decorrer dos experimentos foi
apresentam para a coordenadora e supervisoras, e dando sequencia, aplicam possível ver o fascínio dos alunos pela experimentação e também foi gratificante
estas propostas nas escolas envolvidas no projeto. Este etapa do projeto tem proporcionar esta experiência a eles.
despertado nos discentes o hábito de preparar aulas interessantes e eficientes Buscando uma inovação no ensino temos em mente a melhoria da
levando em consideração a contextualização e a interdisciplinaridade, mudança aprendizagem, na significação dos conhecimentos escolares com benefícios para
de paradigmas em relação ao ensino e melhor desempenho no curso de os estudantes, os professores e a sociedade em geral à medida que a educação
licenciatura. Em relação aos alunos das escolas parceiras, observa-se também básica tem como principal objetivo a formação para a cidadania (SANTOS:
um melhor desempenho e aproveitamento da disciplina. Como forma de SCHNETZLER,1996, 2007).
avaliação e autoavaliação dos discentes e alunos envolvidos em algumas Para esta proposta foram realizados dois experimento. O primeiro foi o
propostas, fez-se a aplicação de questionários semiestruturados antes e após a Teste de Chamas, que consiste em colocar um Bico de Bunsen e ascender a
aplicação das propostas didática (dados não mostrados). Na análise das chama até que ela fique azul, o que indica que ela está bem aquecida. Em
respostas, os alunos enfatizaram a importância de novas metodologias, que seguida um elemento químico é colocado na chama com a ajuda de uma haste de
despertem o interesse na aprendizagem de Química. Na Tabela 1 estão metal e um pedaço de algodão, cada elemento químico absorve energia em um
apresentados os títulos das 32 propostas criadas pelo grupo PIBID Química – comprimento de onda e emite uma cor que é observada no espectro visível,
AP nestes 3,5 anos de trabalho. Pode-se observar que diversos assuntos foram através da mudança na coloração da chama. Após a realização do experimento
abordados, abrangendo várias metodologias de ensino. fizemos uma reflexão com os alunos sobre o porquê da mudança na coloração
da chama, os alunos foram questionados e motivados a falarem sobre a prática e
tentar uma explicação para o que foi observado.

Figura 1: Experimento teste de chama.


60 141
O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
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RELATO DE EXPERIÊNCIA: AULA PRÁTICA EM LABORATÓRIO Tabela 1: Propostas didáticas desenvolvidas por bolsistas PIBID - AP durante o período
2011-2014.
UMA EXPERIÊNCIA NO PIBID
Título da Proposta Ano

Larissa Caroline da Silva Borges Química dos Medicamentos: uma Proposta para abordar funções orgânicas no Ensino Médio aliada à
2012
conscientização social
Thanile Andressa Ghiraldi A Contextualização no Ensino de Química através dos Fármacos que contém Metais 2012

Angélica Cristina Rivelini da Silva Plantas Medicinais Africanas: uma proposta para abordar Processos de Extração e Separação de
2012
substâncias no Ensino de Química
Estudando pH através da temática Solos: Influência do pH do Solo no Cultivo e Crescimento do Feijão 2012
Taxonomia de Bloom como proposta de análise dos livros de Química 2012
INTRODUÇÃO Dieta atômica: uma proposta didática para o estudo da radioatividade no Ensino Médio 2012
Proposta Didática de Aprendizagem de Funções Orgânicas Utilizando a Temática Condimentos. 2013
As aulas práticas no ensino de Química apresentam-se como um Situação-problema para abordagem o tema ácidos e bases no Ensino Médio 2013
Teste da chama e o jogo didático “Distribuindo PEN” como ferramentas para auxiliar o ensino de modelo
importante recurso didático, bem como uma ferramenta metodológica tornando 2013
atômico de Bohr e distribuição eletrônica
conceitos mais compreensíveis e estimulantes de se aprender. No Ensino Médio Abordagem do conceito pH numa perspectiva de Ensino por Situação-Problema 2013

poucas escolas favorecem as atividades práticas e o motivo desta carência pode Uma visão problematizadora para o experimento: Escurecimento e limpeza de objetos de prata 2013
Experimentação problematizadora aplicada na prática Descontaminação da água por eletrofloculação 2013
estar na falta de laboratórios, equipamentos, reagentes adequados e formação
Problematização do experimento: Cromatografando com giz e espinafre 2013
insuficiente do professor (PASSONI, 2012). Dificulta dessa maneira, o ensino Problematização do experimento: À procura da Vitamina C 2013
dessa disciplina que é tida como complicada, mas apesar disso, importante. Por Estudo do caso “O sabor ácido do doce” como proposta didática para o ensino de isomeria espacial geométrica 2014
Consumo de álcool de forma irresponsável: um estudo de caso 2014
meio do Programa Institucional de Bolsas Iniciação à Docência (PIBID) os
Problematização do experimento isomerização do ácido butenodióico 2014
alunos bolsistas começaram a diagnosticar este problema. Pilha de Daniell 2014
As aulas experimentais promovem e motivam a pesquisa ao permitirem que o Reação Endotérmica e Exotérmica 2014
Proposta didática de aprendizagem de funções orgânicas utilizando a temática condimentos 2014
aluno manipule objetos e ideias que serão discutidos em aulas e atividades com
Vitamina C: uma proposta para abordagem de funções orgânicas no Ensino Médio 2014
colegas e o professor. O ensino deve ser focado, mas deve existir a interação entre a Situação de estudo: “O poder do limoneno” como proposta didática para o ensino de estereoquímica no Ensino
2014
pesquisa e o ensino, pois nesse processo são utilizadas ferramentas presentes em Médio
Uma proposta de problematização do equilíbrio químico do AAS 2014
outras áreas de estudo interdisciplinares (SCHNETZLER, 2010).
Proposta de ensino de funções orgânicas utilizando o tema dengue 2014
De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais os conteúdos devem Proposta de ensino de funções orgânicas utilizando o tema dengue 2014

ser relacionados às práticas, às experiências cotidianas, relacionadas às Proposta de ensino de funções orgânicas através do estudo do caso “A planta que repele o mosquito da dengue 2014
Problematização contextualizada para o Ensino de Química: dissolução do isopor com Acetona 2014
competências adquiridas dos alunos”. A presente pesquisa realizada por
Experimentação no ensino de Química: Proposta de ensino utilizando o açafrão Como indicador ácido-base 2014
bolsistas do PIBID reúne informações e experiências vividas acerca do ensino Proposta de experimentação para identificação de funções orgânicas para o Ensino Médio: empregando o teste
2014
de Tollens
de Química com a proposta de uso de aulas práticas em uma escola estadual
Experimentação problematizadora no ensino de Química: reatividade de compostos saturado e
parceira do programa. 2014
insaturados, utilizando os três momentos pedagógicos de Delizoicov

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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

Perfumes: uma proposta de contextualização para o ensino de Química 2014


Investigação criminal: uma proposta de situação-problema para o ensino de Química 2014
Estudo de caso: Reciclagem do óleo de cozinha 2014

Tabela 2: Vídeo-aulas desenvolvidas por bolsistas PIBID - AP durante o período 2011-2014.

Assunto abordado Disponível no link


Balanceamento de reações de combustão http://www.youtube.com/watch?v=_OtENEMhdmg
Soluções https://www.youtube.com/watch?v=4wVE09lA4Fo
Pilhas https://www.youtube.com/watch?v=idNmwM5hHwc
Nomenclatura de ácidos e bases https://www.youtube.com/watch?v=wm9YppUmgM8
Equilíbrio químico https://www.youtube.com/watch?v=tEo0Da2N_lg
Equilíbrio químico 1 https://www.youtube.com/watch?v=cJvcAHVSEzA&list=UU
GH9ijExlcNtdoEfn5rvdEQ
Átomo neutro, catiônico e aniônico https://www.youtube.com/watch?v=yYOgF0Y6z5o
A diferença entre uma substância
homogênea e substância heterogênea
https://www.youtube.com/watch?v=jHNCT3weQi8
PARTE 2 – Resultados dos trabalhos do PIBID
O que é matéria? https://www.youtube.com/watch?v=_kjE9QiVELo
Modelo atômico de Rutherford https://www.youtube.com/watch?v=pwWzm2w_m7I

Aliado ao desenvolvimento da proposta didática, os licenciandos foram


estimulados a utilizar recursos digitais para preparar as propostas didáticas,
apresentações dos seminários e trabalhos em eventos. Prepararam e publicaram
nove vídeo-aulas sobre assuntos de Química para o Ensino Médio (Tabela 2).
Em 2012, os bolsistas criaram um site
<http://www.wix.com/pibidquimicautfpr/apucarana>, no qual é possível
conhecer um pouco do projeto. Em 2014, foi criado uma página no Facebook
para divulgação das atividades desenvolvidas pelo grupo
<https://www.facebook.com/pibidquimicautfprapucarana?fref=ts>. Esta prática
tem auxiliado os licenciandos a desenvolver a prática do uso das Tecnologias de
Informação e Comunicação TIC’s e melhorar sua formação pedagógica e
científica.

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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

LATOUR, B.. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Rio Tabela 3: Eventos que o grupo PIBID – AP participaram durante o período 2011-2014.
de Janeiro: Editora 34, 1994. Nome Data e local
_______. A Esperança de Pandora. Bauru, SP: EDUSC, 2001. I Encontro PIBID 02/08/2011 UTFPR-CT
I Fórum de áreas PIBID UFPR e UTFPR 01/10/2011 UTFPR-CT
OLIVEIRA, C.. A vertigem da descontinuidade: sobre os usos da história na
arqueologia de Michel Foucault. História, Ciências, Saúde, Manguinhos, v. 15, I Semana de Tecnologia Química - SEMATEQ 17 a 21/10/2011 UTFPR-AP
p. 169-281, jan./mar. 2008. IV Encontro de debates sobre o Ensino de Química de 07 e 08/11/2011 Maringá -UEM
Maringá e região de abrangência
SANTOS, L. H. S.. Sobre o etnógrafo-turista e seus modos de ser. In: COSTA,
I Encontro PIBID/UEM 14 a 16/03/2012 Maringá - UEM
Marisa Vorraber; BUJES, Maria Isabel Edelweiss. Caminhos Investigativos
III: riscos e possibilidades de pesquisar nas fronteiras. Rio de Janeiro: DP&A, I Seminário Estadual PIBID do Paraná 24 e 25/08/2012 Ponta Grossa

2005. p. 9-22. III Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia - 26 a 28/09/2012 Ponta Grossa
SINECT
SILVA, T. T. (org.). O Sujeito da educação: estudos foucaultianos. 7. ed. VI Mostra de Educação Ciência e Artes - MECA 03 a 05/04/2013 UTFPR - AP
Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.
I Encontro Paranaense Grupos PIBID Química 17 a 19/06/2013 UTFPR - CM
VEIGA-NETO, A.. A Ordem das Disciplinas. 1996. Tese (Doutorado em II Semana de Tecnologia Química - SEMATEQ 18 a 21/06/2013 UTFPR - AP
Educação) - Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal IV Congresso Brasileiro de Educação - CBE 25 a 28/06/2013 Bauru - UNESP
do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1996.
III Congresso Paranaense de Ensino de Química - CPEQUI 07 a 10/08/2013 Ponta Grossa - UEPG
IX Encontro Nacional de Pesquisa em Educaçao em Ciências - 10 a 14/11/2013 Águas de Lindóia - SP
ENPEC
VII Mostra de Educação Ciência e Arte – MECA 09 a 11/04/2014 UTFPR-AP
2d International Congress of Science Education – ICSE 27 a 30/08/2014 Foz do Iguaçu - UNILA
II Seminário Estadual PIBID do Paraná 23 e 24/10/2014 Foz do Iguaçu - UNILA
IV Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia – 27 a 29/11/2014 Ponta Grossa
SINECT

Os trabalhos desenvolvidos e os resultados obtidos pelos alunos de ID são


normalmente compartilhados e disseminados em eventos da área de ensino de
ciências e Química. A participação em eventos visa ainda desenvolver a
capacidade comunicativa, oral e escrita dos licenciandos através da produção e
apresentação de trabalhos. A Tabela 3 lista os eventos que o grupo PIBID –
Química – AP participou no período 2011-2014. No total foram 17 eventos,
incluindo regionais, nacionais e internacionais.
A Tabela 4 apresenta o título dos 40 trabalhos apresentados pelo grupo
PIBID- Química – AP em eventos no período de 2011-2014. Através destes

138 63
O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

dados pode-se observar o dinamismo do grupo e a constante busca pela melhoria REFERÊNCIAS
do ensino de Química.
BAUMAN, Z.. Vida Líquida. São Paulo: Zahar, 2005.

Tabela 4: Trabalhos apresentados pelo PIBID – AP durante o período de 2011-2014. BOUCHE, P. H. et al. Antropologia pedagógica. Madrid: UNED, 1993.

Título Evento/ano CARDOSO, I. A. R.. Foucault e a noção de acontecimento. Tempo Social -


O uso de vídeos-aulas como uma alternativa complementar no processo I SEMATEQ/2011 Revista de Sociologia da USP, v. 7, n.1-2, p. 53-66, 1995.
de ensinagem em Química no Ensino Médio
Produção de um alvejante doméstico através de uma célula eletrolítica: I SEMATEQ/2011
DELEUZE, G.. Conversações. São Paulo: Editora 34, 2000.
possibilidade de experimentação no ensino de Química utilizando
materiais de baixo custo FISCHER, R. M. B.. Foucault e a análise do discurso em educação. Cadernos
Produção de um alvejante doméstico: possibilidade de experimentação I Encontro PIBID/2012 de Pesquisa, n. 114, p. 197-223, nov. 2001.
no ensino de Química
Química dos medicamentos: uma proposta para abordar conceitos de I Encontro PIBID/2012
FOUCALT, M.. Isto não é um cachimbo. Tradução de Jorge Coli. [S. l.]:
Química Orgânica no Ensino Médio aliada à conscientização social Sabotagem, 2004.
O uso de vídeos-aulas como uma alternativa complementar no processo I Encontro PIBID/2012
de ensinagem em Química no Ensino Médio _______. A Verdade e as Formas Jurídicas. 2. ed. Rio de Janeiro: Nau
A contextualização do ensino de Química através dos fármacos que I Encontro PIBID/2012 Editora, 1999.
contém metais
Plantas medicinais africanas: uma proposta para abordar processos de I Encontro PIBID/2012
_______. A arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta. Rio de
extração e separação de substâncias no ensino de Química Janeiro: Forenser Universitária, 1995.
Estudando pH através da temática solos: influência do pH do solo no I Seminário Estadual PIBID
cultivo e crescimento do feijão do Paraná/2012 _______. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France,
Química dos medicamentos: ensino de funções orgânicas aliado à III SINECT/2012 pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Tradução de Laura F. A. Sampaio.
conscientização social Campinas: Loyola, 1998.
Possibilidade de experimentação para o estudo da cinética química no III SINECT/2012
Ensino Médio _______. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas.
Plantas medicinais Africanas: uma proposta de sequência didática no IV CBE/2013 Tradução de Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
ensino de Química.
Proposta didática de aprendizagem de funções orgânicas utilizando a II SEMATEQ/2013
_______. O nascimento da Clínica. Tradução de Roberto Machado. Rio de
temática condimentos. janeiro: Forense, 2001.
Jogo “Banco Periódico” como ferramenta pedagógica no ensino da III CPEQUI/2013
tabela periódica. _______. Vigiar e Punir: história de violência nas prisões. Tradução de Raquel
Micolândia: Jogo didático para auxiliar o ensino de nomenclatura de III CPEQUI/2013 Ramalhete. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.
funções orgânicas no Ensino Médio
Jogo didático “Quiligando Carbonos” como instrumento de III CPEQUI/2013
GEERTZ, C.. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989.
aprendizagem de funções orgânicas
GOTTSCHALK, S.. Sensibilidades Pós-Modernas e Possibilidades
A contribuição do PIBID na formação do licenciando em Química da VI MECA/2013
UTFPR câmpus Apucarana Etnográficas. In: BANKS, Anna; BANKS, Stephen P.. Fiction & Social
Experimentação para o estudo de cinética química no Ensino Médio VI MECA/2013 Research: by ice or fire. London: Sage Publications Ltda, 1998.
Experimentação problematizadora aplicada na prática descontaminação VI MECA/2013
da água por eletrofloculação
HALL, S.. A centralidade da cultura: a dimensão global. Educação &
Problematização do experimento: À procura da vitamina C VI MECA/2013
Realidade, v. 22, n. 2, p. 15-46, jul./dez. 1997.
Problematização do experimento: Cromatografando com giz e espinafre VI MECA/2013 _______. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A,
Uma visão problematizadora para o experimento: Escurecimento e VI MECA/2013 2003. v. 10.
limpeza de objetos de prata

64 137
O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

com a professora, tomavam novos sentidos à medida que os discursos dos Utilização de um jogo didático para auxiliar o ensino-aprendizagem do VI MECA/2013
conteúdo equilíbrio químico no Ensino Médio
alunos ficavam repletos dos enunciados químicos. “Professora, vamos destilar Identificação de funções orgânicas em condimentos II SEMATEQ/2013
um fermentado de cana, nós vimos ontem na sala do Edson um destilador Taxonomia de Bloom como instrumento da prática avaliativa na IX ENPEC/2013
educação
completo”. Proposta didática de aprendizagem de funções orgânicas utilizando a 2nd ICSE/2014
temática condimentos
A teoria do discurso está intimamente ligada à questão da constituição do Vídeo-aulas de Química: pesquisa sobre a utilização desta ferramenta 2nd ICSE/2014
didática por alunos do Ensino Médio
sujeito. Se a Química é significada, os indivíduos envolvidos no processo de
Consumo de álcool de forma irresponsável: um Estudo de Caso VII MECA/2014
significação também o são e isto resulta em uma consideração fundamental: os Situação de estudo: “O poder do limoneno” como proposta didática para II Seminário Estadual PIBID
o ensino de estereoquímica no Ensino Médio do Paraná/2014
sujeitos sociais não são causas, não são a origem do discurso, mas são efeitos
Uma proposta de problematização do equilíbrio químico do AAS II Seminário Estadual PIBID
do Paraná/2014
discursivos (PINTO, 1989 apud FISCHER, 2001). Descrever uma formulação
Proposta de ensino de funções orgânicas utilizando o tema dengue II Seminário Estadual PIBID
enquanto enunciado não consiste em analisar as relações entre o autor e o que do Paraná/2014
Problematização contextualizada para o Ensino de Química: dissolução II Seminário Estadual PIBID
ele disse (ou quis dizer, ou disse sem querer); mas em determinar qual é a do isopor com Acetona do Paraná/2014

posição que pode e deve ocupar todo indivíduo para ser seu sujeito Relato de experiência: vídeo aula como ferramenta para o ensino II Seminário Estadual PIBID
Química do Paraná/2014
(FOUCAULT, 2013). Experimentação no ensino de Química: Proposta de ensino utilizando o II Seminário Estadual PIBID
açafrão Como indicador ácido-base do Paraná/2014
Ao de entender a ciência como uma prática cultural com suas Proposta de experimentação para identificação de funções orgânicas II Seminário Estadual PIBID
para o Ensino Médio: empregando o teste de Tollens do Paraná/2014
especificidades que acabam legitimando o conhecimento científico ao tornar os
Experimentação problematizadora no ensino de Química: reatividade de II Seminário Estadual PIBID
sujeitos suscetíveis ao mesmo regime de verdade da ciência. A professora, não compostos saturado e insaturados, utilizando os três momentos do Paraná/2014
pedagógicos de Delizoicov
intencionava relacionar o discurso a um pensamento ou sujeito que o produziu, Perfumes: uma proposta de contextualização para o ensino de Química II Seminário Estadual PIBID
do Paraná/2014
mas associá-lo ao campo prático no qual ele está imerso. E, nessa busca, a Investigação criminal: uma proposta de situação-problema para o ensino II Seminário Estadual PIBID
de Química do Paraná/2014
escola atua como um dispositivo de enquadramento dos saberes e dos sujeitos,
Estudo de caso: reciclagem do óleo de cozinha II Seminário Estadual PIBID
visto que ao estabelecer normas ela ordena, controla e sistematiza as teorias e do Paraná/2014
Vitamina C: uma proposta para abordagem de funções orgânicas no IV SINECT/2014
procedimentos. Dessa maneira, estabelece um sistema de significação, no qual Ensino Médio
Contribuições do PIBID na formação inicial de professores de Química IV SINECT/2014
os enunciados químicos ganhavam sentido ao serem configurados através de da UTFPR Apucarana: estudo da teoria de aprendizagem de Gagné

conhecimentos e práticas da Química ganhando, assim, visibilidade e


compreensão. Na configuração dos enunciados químicos, a professora tratou de
O grupo PIBID – Química – AP participou ainda de outros tipos de
“ajustar” as multiplicidades de entendimentos dos alunos para o que
evento, como: no colégio P.J. de Anchieta (2011) e no Colégio Nilo Cairo
representaria os conceitos químicos da maneira como estão instituídos nos
(2014), os alunos auxiliaram na realização da Feira de Ciências. Participaram
discursos científicos.
como ouvinte no Ciclo de Seminários Pedagógicos (2012) na UTFPR-AP, que
teve por finalidade aprofundar os conhecimentos na temática “Ensino de

136 65
O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

Ciências e Tecnologia”, propiciando debates com a contribuição de todos os “abrem o objeto ao olhar e, ao mesmo tempo, o olho que observa” (LARROSA,
participantes. Em 2013 prepararam e aplicaram a oficina oferecida aos alunos da 2010, p. 61).
licenciatura em Química da UTFPR Apucarana e Londrina sobre a Taxonomia
de Bloom. Em 2013 e 2014 participaram da Mostra de Projetos SESC CONSIDERAÇÕES FINAIS

divulgando as ações desenvolvidas pelo grupo. Em 2011 e 2014 recepcionaram


Como coloca Silva (2010, p.147), “do pondo de vista da visão pós de
os alunos das Escolas de Apucarana na “Visita de alunos das Escolas públicas à
discurso, a teoria está envolvida num processo circular: ela descreve como uma
UTFPR – AP”, em 2014 participaram ainda da oficina “Poesia e música no
descoberta algo que ela própria criou”, assim, paralisando o momento da aula,
ensino de ciências”, ministrado pela professora Camila Silveira da Silva, na
os enunciados químicos (científicos), são de propriedade daquele grupo
UTFPR – AP.
particular, daquela aula e daquele momento, onde os enunciados acabam por
Os bolsistas de ID estão envolvidos ainda com produções artístico-
serem constituídos ou (re)criados na prática discursiva. Afinal de contas, “todo
culturais. Em 2011 participaram da Semana da inclusão na UTFPR – AP, na
enunciado compreende um campo de elementos antecedentes em relação aos
qual apresentaram, em forma de teatro, experimentos que tivessem resultados
quais se situa, mas que tem o poder de reorganizar e de redistribuir segundo
visuais. Em 2013 produziram e apresentaram a peça teatral “Show da Química”
relações novas” (FOUCAULT, 1995, p. 143).
no I Encontro Paranaense de Grupos PIBID Química. No ano de 2014 os alunos
Nesse sentido, ao construir uma rede de significação no decorrer das aulas
participaram de uma oficina de teatro, na UTFPR - AP, com duração de 20
teóricas e práticas, quando a professora passou a apresentar e detalhar
horas. Os alunos tiveram aulas de interpretação e conseguiram associar a
determinados enunciados químicos, estes foram adquirindo o significado de um
importância da oficina com a docência, pois em muitos momentos há a
campo do conhecimento e ao mesmo tempo em que os enunciados foram sendo
necessidade de improvisação na sala de aula, trabalhou-se a inibição e a
naturalizados como um objeto do qual se ocupa, também o campo da Química o
fala/entonação.
foi.
Em 2014 os alunos de ID participaram na oficina “Redação Científica”,
A professora e os alunos nas suas relações cotidianas geravam as
ministrada pela professora Dra. Elvira Barbosa da Silva na UTFPR - AP. O
condições para os deslocamentos de poder, deslocamentos estes necessários no
objetivo desta atividade foi de aperfeiçoar o domínio da língua portuguesa
processo de apropriação e construção de suas verdades, pois não há
(leitura, escrita e fala), de modo a promover e ampliar a capacidade
possibilidade de um real controle do que é dito, este está em constante processo
comunicativa do licenciando. A oficina abordou temas de escrita correta da
de reformulação, que varia de acordo com o que eles tomavam como válidos.
língua portuguesa, interpretação de texto, escrita de artigos e resenhas,
Neste processo, apropriavam e (re) significavam os enunciados nas relações que
ampliando a capacidade de leitura, escrita e fala.
se davam entre eles e os discursos científicos. Este ponto de vista restabelece o
poder dos alunos, enquanto um grupo específico na escola, com seus anseios e
suas culturas. E, no processo pedagógico as relações entre os alunos e destes

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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana experiências em ensino, pesquisa e extensão na UTFPR câmpus Apucarana

aí?”, a professora corrige, “Você não vai forçar aqui, vai forçar na torneirinha". CONSIDERAÇÕES FINAIS
A aluna Aline olha para a colega ao lado, Andressa, e comenta em voz baixa
“torneirinha”, estranhando o termo utilizado pela professora. A Andressa
comenta “Ah! No registro?” e o aluno Marcio que ouvia a conversa completa, O projeto tem dado a oportunidade aos licenciandos um contato direto

“É aquele bagulho ali, né, professora?”. com a realidade escolar desde os primeiros anos da graduação, sendo instigados

As “percepções” e os sentimentos dos alunos eram (re)significados em a atuarem de maneira diferenciada no processo de ensino-aprendizagem,

contato com os conhecimentos químicos. Lembrando que o termo percepção e permitindo um amadurecimento da docência ao longo de sua formação e

conhecimento são utilizados na perspectiva de Foucault, com a intenção de preparando-os para seu futuro campo de atuação.

diferenciar os saberes – ditos – próprios químicos dos saberes dos alunos. Para A integração entre a Universidade e a Escola permite que o licenciando

Foucault, “percepção” e “conhecimento”, “são ‘modos’ de saber” (VEIGA- compartilhe experiências de ambas as partes envolvidas em seu processo

NETO, 1996, p.156). Ainda, segundo Foucault (2000), o conhecimento refere-se formativo, permite a percepção de que durante a aula o professor pode se

a uma elaboração teórica que constitui determinado objeto, por exemplo, a deparar com inúmeras situações que implicam em mudanças no seu

construção de teorias e de explicações químicas sobre os enunciados. Já com o planejamento prévio, exigindo improvisação. Observa-se que o projeto tem sido

termo “percepção”, Foucault refere-se à relação que se estabelece com o aluno e um elemento motivador para a futura atuação na carreira docente, e a

que não seja ditada por regras do conhecimento científico. A “percepção” é uma permanência dos alunos no curso de licenciatura. Os alunos participantes do

relação do aluno com suas experiências cotidianas. projeto, de maneira geral, têm apresentado maior desempenho, quando

A escola não contava com um ‘laboratório certinho’ e a aula foi comparado ao desempenho nos primeiros semestres do curso, no que diz

improvisada naquelas condições. É a organização e o funcionamento do respeito à apresentação de trabalhos, discussões e posicionamento para

laboratório na sua série de registros que acumulam e transmitem informações. diferentes assuntos.

Os alunos acabam por tomarem os enunciados químicos como objetos na As escolas parceiras ao projeto são fortalecidas como espaço de

medida em que se estabelece sobre eles uma visibilidade através da qual eles são profissionalização e com a valorização da experiência docente dos professores

diferenciados, classificados e comparados, construindo um saber, apropriando-se em exercício nestes espaços. Além disso, os alunos destas escolas são

desse discurso que passa a operar para os sujeitos envolvidos nesta prática. privilegiados com aulas mais motivadoras, contextualizadas e práticas, propostas

Dessa forma, o laboratório e os enunciados químicos ali (re)significados pelos bolsistas.

podem ser entendidos como dispositivos que os tornam visíveis. Mas essa O projeto PIBID-Química-AP tem cumprido seu papel no auxílio na

visibilidade está ligada a códigos disciplinares, a campos de saberes formação de futuros professores para a Educação básica e no constante estímulo

(FOUCAULT, 2001). Em outras palavras, os dispositivos obedecem a um na atuação dos mesmos no magistério.

regime de visibilidade, isto é, a um conjunto de regras, técnicas e condições que

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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
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REFERÊNCIAS institucional de evasão, quanto o desejo de verdade, ou ainda comprovação da


verdade cientifica. Iniciando a preparação dos reagentes analíticos a professora
BRAIBANTE, M. E. F.; WOLLMANN, E. M.. A Influência do PIBID na
Formação dos Acadêmicos de Química Licenciatura da UFSM. Química Nova Flávia orienta “Vocês vão colocar a água destilada com a proveta no
na Escola, v. 4, p. 167-172, 2012. erlenmeyer, junto com o vinagre. Ai, vocês vão colocar três gotas de
COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL fenolftaleína, que é o indicador, lembra que eu expliquei para vocês?” Uma
SUPERIOR - CAPES. Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à
docência – PIBID. Disponível em:<http://www.capes.gov.br/educacao- pausa e silencio, até ela questioná-los, “O que faz a fenolftaleína que é o
basica/capespibid>. Acesso em: 13 abr. 2015. indicador?” Um coro de alunos de alunos responde e mal posso entender o que
CHASSOT, A.. A ciência através dos Tempos. [S.l.]: Moderna, 1994. dizem, porém a que sobressai diz: “Ela vai mudar de cor por causa do ácido”.
DELORS, J.. Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez; Brasília: Ao ouvir esta resposta a professora brada “Isso! Na hora que der o ponto de
MEC; UNESCO, 2001.
viragem, né? A hora que a reação acontecer vocês vão ver mudar de cor, né? Se
DELIZOICOV, D.; ANGOTTI, J. A.; PERNAMBUCO, M. M.. Ensino de não tiver fenolftaleína vocês não vão ver acontecer nada”. Volta a questionar os
ciências: fundamentos e métodos. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2009.
alunos: “E daí? Qual é a cor que vai ficar neste caso? As respostas alternavam
FAZENDA, I. A.. Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. Campinas:
Papirus, 1999. entre “incolor” e “rosa”. A professora intervém, “Não, não! No ácido ela fica

FOCETOLA, P. B. M. et al. Os Jogos Educacionais de Cartas como Estratégia incolor, quando for colocada a base ela fica rosa. Lembra? Falamos isso na
de Ensino em Química. Química Nova na Escola, v. 34, p. 248-255, 2012. sala”.
FRANCISCO JUNIOR, W. E.; FERREIRA, L. H.; HARTWIG, D. R.. Assim durante a aula, ao observarem as reações e os aspectos da análise
Experimentação Problematizadora: Fundamentos Teóricos e Práticos para a
volumétrica, os alunos acabaram confirmando o que havia sido explicado –
Aplicação em Salas de Aula de Ciências. Química Nova na Escola, n. 30, p.
34-41, nov. 2008. precisamente - sobre o assunto. Na articulação entre o experimento e seu
GEHLEN, S. T.; MALDANER, O. A.; DELIZOICOV, D.. Momentos resultado, ambos marcados como representações “autênticas” da Química, foi
pedagógicos e as etapas da situação de estudo: complementaridades e criada a condição para que os alunos tivessem a experiência do dos enunciados
contribuições para a educação em ciências. Ciência & Educação, v. 18, n. 1, p.
1-22, 2012. químicos. A realização da análise constituiu um ritual de “exame” (FOUCAULT
GUIMARÃES, C. C.. Experimentação no Ensino de Química: Caminhos e 2013, p.154) no qual, os dispositivos - os enunciados químicos - eram (re)
Descaminhos Rumo à Aprendizagem Significativa. Química Nova na Escola, afirmados através da teoria e sua confirmação na prática laboratorial.
v. 31, p. 198-202, 2009.
Como por exemplo, quando o aluno Tomaz (que já trabalha em um
LEWIN, A. M. F.; LOMASCÓLO, T. M. M.. La metodología científica en la
construcción de conocimientos. Revista Enseñanza de las Ciencias, v. 20, n. 2, laboratório da Sanepar há 15 anos) iniciou a titulação manuseando a bureta e a
p. 147-154, 1998. professora chama a atenção dos demais alunos para a forma “correta” de segurar
MARCONDES, M. E. R.. Proposições metodológicas para o ensino de química: a mesma. “Vocês estão prestando atenção como o Tomaz tá pegando na bureta?
oficinas temáticas para a aprendizagem da ciência e o desenvolvimento da
Oh! Olha a posição da mão! Aqui, oh! Tá vendo?” A Aluna Vanessa olha
cidadania. Revista Em extensão, v. 7, p. 67-77, 2008.
tombando a cabeça para se aproximar e pergunta, “Mas não vai quebrar se forçar
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O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA: O PEDAGÓGICO ENTRA EM CENA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA:
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p.216). A diretora estava satisfeita de oportunizar aos alunos um contato com a RUSSELL, J. V.. Using games to teach chemistry: an annotated bibliography. J.
Chem. Educ., v. 76, p. 481-484, 1999.
química de laboratório, “nossa eles estão adorando”.
Estes sentimentos e desejos confluíam para um disciplinamento do desejo SANTOS, C. S.. Ensino de Ciências: abordagem histórico crítica. Campinas:
[S.n.], 2005.
científico, Veiga-Neto (1996) ao falar de disciplina argumenta que esta, ao
MOREIRA, M. A.. O Professor Pesquisador como Instrumento de Melhoria do
instituir uma regulamentação das operações e apontar para aquilo “que é Ensino de Ciências. Em Aberto, Brasília, v. 7, n. 40, p. 43-54, out./dez. 1988.
pensável e deitando sombras sobre aquilo que não é”, estabelece “um Disponível
em:<http://www.emaberto.inep.gov.br/index.php/emaberto/article/viewFile/671/
disciplinamento corporal” que “faz com que se torne impensável um 598>. Acesso em: 30 abr. 2015.
comportamento transgressivo, isto é, um comportamento que se situe fora das MORRIS, T. A.. Go chemistry: a card game to help students learn chemical
regras ditadas pela disciplina” (VEIGA-NETO, 1996, p. 282), pensar em uma formulas. J. Chem. Educ., v. 88, p. 1397-1399, 2011.
aula de laboratório exige a preparação de um local, ainda que (in)certo, propicio MORTIMER, E. F.;SCOTT, P.. Atividade discursiva nas salas de aula de
ciências: uma ferramenta sociocultural para analisar e planejar o ensino.
a realização das atividades. E estar fora do laboratório gerava incertezas que
Investigações em Ensino de Ciências, v. 7, p. 283-306, 2002.
precisavam ser controladas durante a aula, “onde vamos lavar o material” dizia a
OLIVEIRA, M. A.. O laboratório didático de química: uma micronarrativa
professora. etnográfica pela ótica do conceito de articulação. Ciência & Educação, v. 14, n.
A preparação desta aula carregava um desejo pela comprovação das 1, p. 101-114, 2008.

verdades químicas, e como a verdade é constituída de relações - entre a


professora, coordenadores, diretoras e alunos – em jogos que regulam o modo de
produção de seus enunciados e as regras de produção de sua legitimidade
(FOUCAULT, 1995). Preparar um roteiro antecipava situações incontestáveis e
definir um caminho bem trilhado, para que os resultados da análise volumétrica
conformassem com aos resultados esperados. Os alunos haviam recebido
orientações sobre o que observar e como proceder, a professora assume uma
posição de porta-voz do enunciado, não é o autor de tudo o que diz, mas
representa tudo o que é dito. Ao mesmo tempo em que forja um dado conteúdo,
sinaliza os limites do próprio campo (OLIVEIRA, 2009). E a professora dava
alguns direcionamentos, “Vocês vão ver como a prática é mais simples que a
teoria”.
A escolha desta atividade prática - e não outra - gerava o movimento
necessário à demonstração, que permitia aos alunos uma visibilidade do que era
dito em aula. E a possibilidade desta visibilidade, acobertava tanto a aflição
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INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO PARA DISCIPLINAS período os professores improvisavam atividades experimentais em outros locais
MATEMÁTICAS NO ENSINO SUPERIOR ou simplesmente não as realizavam.
Era recorrente no discurso da professora de Química Analítica que as
André Luis Trevisan
aulas em laboratório faziam falta para o bom andamento das atividades. O
laboratório e seus equipamentos, dois “dispositivos de visibilidade”, duas
INTRODUÇÃO “máquinas de ver” (FOUCAULT, 2013, p.22). Ao insistir nas aulas práticas a
professora buscava dar visibilidade e operar dispositivo para alcançar a
No cotidiano da sala da aula, a avaliação é parte do trabalho dos percepção dos alunos para as coisas da Química.
professores e oferece subsídios para as decisões a serem tomadas a respeito do Atendendo aos pedidos da professora a coordenadora improvisou no salão
processo educativo. Além de sua função de controle dos conhecimentos, deve nobre da escola um laboratório. As mesas foram acomodadas ao fundo do salão
tornar-se um instrumento de formação, fazendo-se presente no processo nobre, em um espaço não ocupado por cadeiras. Foram arrumadas duas mesas
educativo tanto como meio de diagnóstico dos processos de ensino e de grandes, em uma delas estavam dispostos os seis suportes de metal com garra,
aprendizagem quanto como instrumento de investigação da prática pedagógica, algumas buretas e algumas pipetas. Os alunos, ao chegarem já se posicionaram
sempre com uma dimensão formativa. ao redor desta mesa. Na mesa em frente estavam os reagentes, outras vidrarias e
Acerca dessa multiplicidade de papéis assumidos pela avaliação no algumas caixas de papelão contendo vidrarias extras.
contexto escolar, Barlow (2006, p.70) lembra-nos que a avaliação não tem outro A aula tornou-se um evento na escola, a Diretora fotografou e chamou
objetivo a não ser ajudar o estudante “a otimizar seus próprios recursos”, e que outros professores e funcionários da escola para testemunharem a aula que
“ela não terá utilidade se não for assimilada, se não servir de ferramenta para estava acontecendo. Os coordenadores ficaram todo o tempo auxiliando e
que ele próprio construa seu saber”. observando. A professora redistribuiu os alunos em grupos e, com a ajuda do

Conforme aponta-nos De Lange (1999), é necessário entender a real Edson, fixaram as buretas no suporte. Ela distribuiu os roteiros das análises,

função da avaliação nos processos de ensino e de aprendizagem, uma vez que orientou algumas alterações na prática e iniciou a aula solicitando que todos

ela pode revelar informações importantes sobre os problemas dos estudantes ao enchessem as buretas.

aprender, os seus progressos e o nível de formalidade em que estão operando, de A realização desta aula gerou uma movimentação na escola, o desejo pela

modo que, os professores reconhecendo essa função, possam adaptar suas ciência provocou um misto de situações em torno da experiência química. Ao

estratégias de ensino para atender às necessidades dos estudantes. Ainda de mesmo tempo em que trazia certa satisfação à coordenadora de estágio, “tá

acordo com esse autor, uma melhoria no processo de avaliação em sala de aula vendo, não precisa do laboratório mesmo, dá pra improvisar e fazer as análises”.

pode trazer uma forte contribuição para a melhoria da aprendizagem. Também gerava apreensão na professora “será que vai dar tudo certo” no
sentido de que por “caminhos bem marcados”, precisava mostrar aos alunos e
chegar ao valor da concentração de uma amostra de vinagre (OLIVEIRA, 2008,
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As observações foram realizadas no Colégio Estadual Alberto Santos A seleção de instrumentos de avaliação deve ocorrer durante o processo
Dumont, na cidade de Apucarana estado do Paraná, sul do Brasil. Na turma do de planejamento de ensino, buscando adequar os recursos de avaliação aos
primeiro ano do Ensino Médio Profissionalizante em Química Industrial no ano objetivos previstos, aos conteúdos estabelecidos e às atividades propostas para a
de 2010. Os principais atuantes que, no fluxo de suas vidas pessoais, escolares e aprendizagem. Devem ser utilizados suportes variados (observação, avaliação
profissionais nos oportunizaram a criação deste objeto de pesquisa foram: a pelos pares, auto-avaliação, registros escritos) e instrumentos diversos, com
professora responsável pelas aulas de Química Analítica e alunos da turma ‘A’. vistas a coletar uma maior quantidade de dados e assim, ter ao dispor
Alguns alunos já trabalhavam em laboratórios químicos e voltavam a estudar, informações para (re) planejar seu trabalho e orientar a aprendizagem dos
outros haviam concluído o Ensino Médio e optado por um curso técnico ao estudantes.
curso superior. Estes são os alunos que de alguma maneira participaram da Neste texto apresentamos propostas envolvendo a utilização de diferentes
pesquisa e dos registros que apresentamos aqui. instrumentos de avaliação que envolvem o uso de registros escritos, em
As observações aconteceram principalmente nas aulas de Química disciplinas matemáticas no Ensino Superior, baseados em experiências por nós
Analítica onde inicialmente, foi preciso estabelecer relações, selecionar vivenciadas em aulas dos diferentes cursos da Universidade Tecnológica Federal
informantes, transcrever textos, levantar genealogias, mapear campos, manter do Paraná - UTFPR – câmpus Apucarana e Londrina. Em especial, os exemplos
um diário e fazer registros de foto e de áudio (GEERTZ, 1989). Para a aqui apresentados são oriundos de aulas de Cálculo Diferencial e Integral (CDI)
composição dos registros foi vivenciado o cotidiano da turma, procurando ministradas entre os anos de 2011 e 2014. São eles:
participar das diferentes atividades, interagindo com as pessoas envolvidas como
• A prova escrita em uma fase;
os estudantes, professores, zeladores, técnicos, diretoras e coordenadores e
circulando por uma variedade de espaços e de trabalhos que compunham as • A prova com cola;

atividades da turma como: aulas práticas e teóricas, horários de intervalos, • A prova escrita em duas ou mais fases.
visitas a empresas e estágios supervisionados. A pesquisa de campo durou
Esses instrumentos possibilitam tomar a avaliação como prática de
aproximadamente quatorze meses, do início de 2010 a maio de 2011.
investigação e oportunidade de aprendizagem, na medida em que permitem ao
professor rever sua ação e suas escolhas didáticas e, aos estudantes, suas
UM LABORATÓRIO (IN)CERTINHO
estratégias de estudo.
No ano de 2010 foi oferecido, pela primeira vez, um curso técnico em
A PROVA ESCRITA EM UMA FASE
Química no Colégio Estadual Alberto Santos Dumont. Mas, para que todas as
aulas e atividades práticas pudessem ser realizadas, o colégio, precisava Apesar da variedade de instrumentos para a avaliação escolar, a prova
reformar o laboratório de ensino. Esta reforma durou cerca de 10 meses e neste escrita tem sido utilizada como o principal, e, em muitos casos, como o único
instrumento nas aulas de Matemática. Mendes, Trevisan e Pereira Junior (2014)
130 71
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lembram que a prova escrita, por si só, não promove as respostas necessárias para determinado campo de saber; não “é algo que paira no mundo e ao qual o
gerir e compreender os processos de ensino e de aprendizagem, mas fornece a pesquisador ou pesquisadora deve se adequar a fim de ‘encontrar’ os resultados
produção escrita de cada estudante, que auxilia o agir do professor e do estudante, que busca” (SANTOS, 2005, p. 20). Ela está impregnada de conceitos e
em qualquer momento desses processos de ensino e de aprendizagem. pressupostos e, em momento algum, o processo investigativo pode ser
Concordamos com Buriasco, Ferreira e Ciani (2009, p. 7) quando considerado neutro. Desta forma, será descrito o “como” e “onde” esta pesquisa
apontam que não se trata de abandonar a prova escrita, mas sim “olhá-la como foi realizada e seus (des)caminhos teórico/metodológicos.
um meio pelo qual se podem obter informações a respeito de como se tem O método é parte constitutiva da representação investigativa e “se
desenvolvido o processo de aprendizagem dos estudantes”. A virtude do constitui no próprio andar da pesquisa” (SANTOS, 2005, p.20). A metodologia
instrumento está no uso que dele fazemos e na utilização das informações se inspira naqueles utilizados em abordagens etnográficas1. Esse aspecto se dá
produzidas a partir dele. quando o processo de ida a campo evidencia algumas referências presentes
A utilização de uma prova escrita em uma fase3 perpassa as seguintes durante as visitas, que mostram o processo de excursão do pesquisador e sua
etapas: definição dos objetivos, escolha das questões, elaboração de critérios de inserção no lugar, pressupondo um projeto de condução, roteiro e registros. Nas
correção, correção propriamente dita, atribuição de notas, planejamento de ações palavras de Santos (2005, p. 11):
de feedback e recuperação.
São, enfim, muitas as possibilidades de ter estado lá. Possibilidades
Acerca da elaboração de uma prova escrita, a Taxionomia de Bloom essas que variam em intensidade, em risco, em capacidade de se
‘miscigenar’, de se misturar com hábitos, valores, crenças, modos de
(BLOOM, 1983) mostra-se como uma ferramenta que auxilia na definição dos ver, enfim, de tornar-se mais um(a) daquele lugar (de ser menos
estrangeiro(a)). Efetivamente, esta é uma das tentativas do(a)
objetivos e escolha das questões. Proposta em meados de 1955, por uma equipe etnógrafo(a). É também por esta experiência que ele(a) é autorizado(a)
de pesquisadores liderados pelo psicólogo Benjamim Bloom, como um sistema a falar.

de classificação de objetivos que se tornasse ponto de partida e base para o A pesquisa etnográfica educacional ou etnografia escolar é entendida por

planejamento educacional, a Taxionomia pode contribuir para o estabelecimento Bouche (1993) como uma disciplina que visa identificar, descrever e registrar as

de critérios que facilitem a objetividade e rompam com a subjetividade do condutas. O trabalho etnoFigura em educação permite a descrição coerente com

processo avaliativo. Originalmente, define seis principais categorias do domínio a dimensão sociocultural dos de estruturas significantes; indivíduos que

cognitivo4, ordenadas da mais simples para a mais complexa e, possuem uma partilham o ambiente escolar, ou seja, como se comportam, reagem, se inter-

hierarquia cumulativa: conhecimento, compreensão, aplicação, análise, síntese e relacionam. Tratando-se de uma pesquisa com características etnográficas, é
fundamental direcionar os olhares às (re)significações, às negociações e às
3
Utilizaremos o termo prova em uma fase para as provas escritas individuais e sem consulta, aplicadas com relações que educadores, alunos, e demais atores sociais do ambiente escolar
tempo limitado (provas usualmente utilizadas nas escolas), como forma de diferenciá-las da modalidade que
envolve duas ou mais fases, apresentada na sequência deste texto.
4
dão às formas como as práticas educacionais são vivenciadas.
Na Taxionomia de Bloom, foram identificados três domínios dos objetivos educacionais: o cognitivo, o
emocional e o psicomotor. No domínio cognitivo, os objetivos educacionais focam a aprendizagem de
conhecimentos, desde a recordação e compreensão de algo estudado até a capacidade de aplicar, analisar e
1
reorganizar a aprendizagem de um modo singular e criativo, reordenando o material ou combinando-o com É imodéstia demais usar o termo etnógrafo neste trabalho, no seu sentido antropológico e de sua imersão a
ideias ou métodos anteriormente aprendidos. campo. A intenção é apenas utilizar esse termo para auxiliar no processo de elucidação metodológica.
72 129
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Ao utilizar certos enunciados sabemos que eles carregam consigo uma avaliação. Em 1990, a taxionomia passou por um processo de revisão e, em
vasta relação de poder. E assim, assumimos seu caráter de verdade, e “cada 2001, foi publicada por Lorin Anderson e seus colaboradores. Na Taxionomia
sociedade tem o seu regime de verdade, [...] os tipos de discurso que ela acolhe e revisada, foram combinados o tipo de conhecimento a ser adquirido e o processo
faz funcionar como verdadeiros” (FOUCAULT, 2013, p. 10). Precisamos de utilizado para a aquisição desse conhecimento (ANDERSON et al., 2001
admitir que o “poder produz saber”, e também que poder e saber estão apud FERRAZ; BELHOT, 2010). O tipo de conhecimento passou a ser
diretamente implicados, “que não há relação de poder sem constituição correlata designado por substantivos e os processos para atingi-los passaram a ser
de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo descritos por verbos. O nível do conhecimento, compreensão e síntese foram
tempo relações de poder” (FOUCAULT, 2013, p. 31). renomeados para relembrar, entender e criar, respectivamente.
Foucault com conceito de dispositivo definido por ele em Microfísica do Uma prova escrita deve conter, sempre que possível, questões que
Poder como termo que tenta “demarcar, em primeiro lugar, um conjunto contemplem os diferentes níveis do domínio cognitivo presentes na Taxionomia
decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações de Bloom. Numa investigação envolvendo provas escritas de Matemática
arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, elaboradas por professores do Ensino Fundamental II e Ensino Médio de escolas
enunciados científicos, proposições filosóficas” e ainda que “o dito e o não dito públicas, participantes que um projeto de formação continuada, observamos uma
são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer prevalência de itens classificados nos níveis mais baixos do domínio cognitivo
entre estes elementos.” (FOUCAULT, 2013, p. 138). Esse conceito ajuda a olhar da Taxionomia de Bloom revisada (lembrar, entender e aplicar) e uma quase
as ciências na escola como dispositivos de ajustamentos dos saberes e dos ausência de itens nos níveis mais elaborados (analisar, avaliar e criar). Nosso
sujeitos que nas relações de poder/saber se significam e produzem “o modo pelo contato diário com professores de disciplinas matemáticas do curso superior,
qual um ser humano torna-se sujeito” (FOUCAULT, 1995 p. 75). Assim, é que oportuniza momentos de trocas a respeito do como selecionam questões
sujeito aquele que procura fixar determinadas normas, ordena, controla e para compor suas “listas de exercícios” e provas escritas (em geral, a partir de
sistematiza a circulação de conceitos, teorias e procedimentos, estabelecendo um livros didáticos), tem apontado situação muito similar.
sistema de significação no qual os enunciados químicos se dobram sobre os Uma das razões que justifica essa prevalência é a ideia arraigada no
seres e passam a ser vistos e compreendidos. ambiente escolar de Matemática enquanto aplicação de técnicas e
procedimentos, e que, portanto, o estudante precisa ser “treinado”, ideia essa
METODOLOGIA reforçada por avaliações de larga escala aplicadas aos mais diferentes níveis de
ensino; a valorização em sala de aula de uma avaliação classificatória, em
Para falar em teoria, é preciso apontar que na perspectiva desse trabalho, a
detrimento a uma prática formativa; os tipos de itens presentes nas tarefas
metodologia não existe separada do referencial teórico que lhe dá sustentação.
apresentados pela maioria dos livros didáticos presentes na escola; a ausência de
Assim, não existe uma metodologia a priori, que antecede a pesquisa e está
políticas públicas e ações de formação continuada de professores que
pronta para ser usada, ela é tecida, estabelecida e elaborada dentro de um
possibilitem reverter esse quadro.
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A título de exemplo, apresentamos na Figura 1 uma questão apresentada sozinhos, fora do próprio contexto da representação onde os objetos e discursos
por Hughes-Hallet e colaboradores (2011), que poderia compor uma prova não podem ser analisados por eles mesmos, mas sempre em relação à sua
escrita de CDI. Ao invés de simplesmente pedir que estudante resolva uma construção e a seus efeitos sociais, como coloca Foucault (1995, p. 56) é na
integral indefinida, a formulação proposta pelos autores mobiliza a ação de produtividade dos discursos e na prática “que [se] formam sistematicamente os
avaliar (dimensão de processo cognitivo), pautada um conhecimento do tipo objetos de que falam” . São nos processos de apropriação do discurso e
procedimental (no sentido de comparar dois procedimentos). interações sociais que se produzem certos efeitos de realidade e natureza, os
discursos são constituídos de signos e o que fazem é mais que utilizar esses
a) Calcule ∫ senθ cos θdθ utilizando alguma substituição. signos para designar as coisas, “é esse mais que os torna irredutíveis à língua e
b) Calcule a integral do item anterior usando uma das identidades trigonométricas a seguir:
sen(2θ ) = 2senθ cosθ e cos(2θ ) = cos 2 θ − sen 2θ . ao ato de fala. É esse mais que é preciso fazer aparecer e que é preciso
c) As expressões que você encontrou nos itens (a) e (b) para ∫ senθ cos θdθ não são
descrever” (FOUCAULT, 1995, p. 56). Dessa maneira, durante as aulas
diferentes. Explique por quê.
observou-se nos discursos a produção de enunciados químicos que eram ditos e
Figura 18: Proposta de questão para prova de CDI.
(re)ditos enquanto (re)produziam significados e problematizavam os saberes dos

O “Manual para correção das provas com questões abertas de sujeitos.

matemática” (BURIASCO; CYRINO; SOARES, 2003) pode oferecer Para Foucault (1995), o discurso é entendido como prática social,

parâmetros nas tarefas de elaboração dos critérios de correção, correção historicamente determinada, que constitui os sujeitos e os objetos. Pensando nos

propriamente dita e atribuição de notas. De acordo com as autoras, seu intuito momentos de aula e nos processos de apropriação discursiva, os enunciados

não é que as questões sejam corrigidas apenas como corretas ou incorretas, mas aconteceram para os sujeitos à medida que eles eram negociados nos jogos

verificar, por meio da produção escrita do estudante, seu conhecimento discursivos. Acontecimento “como a irrupção de uma singularidade única e
matemático, levando em consideração o grau de compreensão demonstrado pelo aguda, no lugar e no momento da sua produção”, e é nesta singularidade que os

estudante na interpretação da questão, sempre em busca do que ele já sabe e do enunciados são (re)significados (CARDOSO, 1995 p. 12). A teoria do discurso

que está a caminho de saber. Além disso, se a resposta dada a uma questão está intimamente ligada à questão da constituição do sujeito e se a Química é

estiver incorreta, recomendam examinar a produção do estudante para significada, os indivíduos envolvidos no processo de significação também o são.
considerar possíveis créditos parciais. Isto resulta em uma consideração fundamental: os sujeitos sociais não são

Em nossa tese de doutorado (TREVISAN, 2013), descrevemos as etapas causas, não são a origem do discurso, mas são efeitos discursivos (Fischer,

de correção de uma prova escrita de Matemática baseados nesse manual. De 2001). Decorre disso que descrever uma formulação enquanto enunciado não

forma resumida: (i) inicialmente fizemos um levantamento de possíveis consiste em analisar as relações entre o autor e o que ele disse (ou quis dizer, ou

estratégias de resolução para cada uma das questões da prova; (ii) criamos, para disse sem querer); mas em determinar qual é a posição que pode e deve ocupar

cada uma delas, uma grade com critérios de correção e pontuação; (iii) após a todo indivíduo para ser seu sujeito.

74 127
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UM LABORATÓRIO (IN)CERTINHO: A CONSTRUÇÃO DO aplicação da prova, buscamos identificar possíveis estratégias e procedimentos
CONHECIMENTO QUÍMICO EM AULAS PRÁTICAS NO ENSINO diferentes daqueles que havíamos previsto, readequando os critérios de correção,
MÉDIO quando necessário; (iv) por fim, utilizamos uma escala de 0 a 10 pontos para
atribuição das notas de cada questão: parte dos pontos seria atribuída à
Angélica Cristina Rivelini da Silva identificação da estratégia que resolvia corretamente a questão, parte ao
Moisés Alves de Oliveira procedimento que resolvia aquela estratégia e parte à resposta, com as
respectivas unidades, quando fosse o caso.
INTRODUÇÃO Moraes (2013), em sua dissertação, analisa episódios de correção de uma
prova escrita de Matemática, composta por questões abrangendo conteúdos da
Explorando as possibilidades de entender e continuar a questionar como
Educação Básica e resolvida por estudantes ingressantes em um curso de
as aulas de Química no Ensino Médio se tornam espaços para produção cultural,
Engenharia. Algumas das inferências que o estudo, listadas abaixo, apontam a
que permitem, em suas singularidades, a negociação e a apropriação dos
necessidade de quebra de um paradigma tradicional imbricado nessa prática:
enunciados químicos, procurou-se estabelecer os dispositivos pelos quais os
• a maioria dos professores atribui a resoluções com estratégia correta
alunos tomam como válidos o discurso dos professores e, eles próprios validam
mas cálculos incorretos;
um sistema de significação para os enunciados químicos.
• professores não mantém, durante o processo de correção, critérios
Para isto, formam percorridos os processos, pelos quais se pode diferenciar
adotados inicialmente;
os Enunciados Químicos na singularidade dos acontecimentos de aulas de
• fazem diferentes correções em provas diferentes (mesmo adotando um
Química para entender as regras daquilo que é dito, e como os dispositivos atuam
mesmo critério);
para produzirem o conhecimento químico. Essas questões foram olhadas a partir
• item resolvido de maneira muito semelhante foi com frequência
de um referencial teórico que não procura explicar, comprovar ou resolver os
corrigido de forma distinta;
problemas, mas sim fazer estranhar, problematizar aspectos que não haviam sido
pensados desta forma. Entender a ciência como uma prática cultural com suas • as respostas são mais valorizadas do que os processos de resolução;

especificidades que acabam legitimando o conhecimento científico ao tornar os • não se consideram significativamente as diferentes estratégias e

sujeitos suscetíveis ao mesmo regime de verdade da ciência. respectivos procedimentos utilizados;


• itens presumidamente mais difíceis recebem pontuação mais alta do
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA que os mais fáceis.
O planejamento de ações de feedback (fornecer informações úteis das
Tendo como principais referenciais os autores Michel Foucault, Bruno
etapas vencidas e as dificuldades encontradas) e recuperação parecem ser ações
Latour e Jorge Larrosa, buscar a possibilidade de olhar a Química escolar por
quase inexistentes na prática dos professores com a qual convivemos na
horizontes ligeiramente diferentes e inquietantes, no qual, os objetos nunca estão
126 75
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universidade. O primeiro muitas vezes restringe-se à “disponibilidade” do REFERÊNCIAS


professor em mostrar a prova corrigida ao estudante, caso ele se disponha à AQUINO, O. F. L. V.. Zankov: aproximações à sua vida e obra. In: LONGAREZI,
procurá-lo em horário pré-estabelecidos. Já a recuperação, restrita à recuperação A. M.; PUENTES, R. V. (Org.). Ensino Desenvolvimental: vida, pensamento e
obra dos principais representantes russos. Uberlândia, MG: EDUFU, 2013.
do aproveitamento acadêmico (como previsto no Regulamento da organização
CODATO, L. A. B.; NAKAMA, L.. Pesquisa em saúde: metodologia
didático-pedagógica dos cursos de graduação da UTFPR5, em seu artigo 34, quantitativa ou qualitativa? Revista Espaço para a Saúde, Londrina, v. 8, n. 1,
parágrafo terceiro: “para possibilitar a recuperação do aproveitamento acadêmico, p. 34-35, dez. 2006.

o professor deverá proporcionar reavaliação ao longo e/ou ao final do semestre DAMAZIO, A.; PERES, E. S.; NURNBERG, J.. Contribuições da teoria de ações
mentais de Galperin à prática pedagógica. In: SIMPÓSIO E FÓRUM NACIONAL
letivo”), restringe-se na maioria dos casos à aplicação de uma prova escrita DE EDUCAÇÃO. 3., 6., 2009, Torres. Anais... Torres, RS: ULBRA, 2009.
substitutiva (que substitui a menor nota dentre as obtidas naquele semestre) ou de DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S.. O Planejamento da pesquisa qualitativa:
um exame (que substitui total ou parcialmente a nota do semestre). teorias e abordagens. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006.
GALPERIN, P. Y.. Introducción a la Psicología. Habana: Pueblo y
Entendemos que um professor que assume a avaliação como prática de
Revolución.1982.
investigação e oportunidade de aprendizagem não pode planejar ações de
LALIN-SOATO, A. M.. Interações discursivas nas aulas de Biologia do
feedback e recuperação restritas a tais práticas. Na verdade, o professor não Ensino Médio: a elaboração dos conceitos de Fototropismo e Gravitropismo.
2010. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências e Educação Matemática) –
precisar “esperar” os momentos de prova escrita para “constatar” que
Universidade Estadual de Londrina, 2010.
determinados conhecidos não foram elaborados pelos estudantes. MARTINS, H. H. T. S.. Metodologia Qualitativa de Pesquisa. Educação e
Na ótica de uma avaliação dita formativa, todas as interações do Pesquisa, São Paulo, v. 30, n. 2, p. 289-300, maio/ago. 2004.
estudante, sejam com o professor, com outros estudantes ou com o material NASCIMENTO, C. P.. A Organização do Ensino e a Formação do
Pensamento Estético-Artístico na Teoria Histórico-Cultural. 2010. 249 fls.
pedagógico, “constituem ocasiões de avaliação (ou de autoavaliação) que Dissertação (Mestrado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade de
permitem adaptações do ensino e da aprendizagem” (ALLAL, 1986, p.191). São Paulo, São Paulo, 2010.
Trata-se de “oferecer uma ‘orientação’ individualizada ao longo de todo o NÚÑEZ, I. B.. Vygotsky, Leontiev, Galperin: formação de conceitos e
princípios didáticos. Brasília: Liber Livro, 2009.
processo de aprendizagem, mais vantajosa do que uma remediação à posteriori”.
SFORNI, M. S. F.. Interação entre Didática e Teoria Histórico-Cultural. Educ.
Sabemos que essa orientação individualizada muitas vezes mostra-se inviável Real., v. 40, n. 2, p. 375-397, abr./jun. 2015.
devido ao número de turmas e estudantes por turma na qual ministramos aulas. VARGAS, E. et al.. Os usos da abordagem qualitativa na produção científica
Entretanto, a prática de trabalhos em equipes torna possível essa prática. nacional recente sobre ensino em biociências e saúde. ENCONTRO
NACIONAL DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS, 7., 08 nov.
Pode-se, por exemplo, criar tarefas que proporcionem o aparecimento 2009, Florianópolis. Anais... Florianópolis: [S. n.], 2009.
equívocos comumente observados em provas escritas (CARVALHO; PONTE, WELLER, W.; PFAFF, N.. Metodologias da Pesquisa Qualitativa em
2014), ou na qual os estudantes identifiquem equívocos nas resoluções dos colegas, Educação. Petrópolis: Vozes, 2010.

5
Disponível em:<http://www.utfpr.edu.br/estrutura-universitaria/pro-reitorias/prograd/legislacao/copy_of_
REGULAMENTODAORGANIZACAODIDATICOversAoalteracoesfinais052013.pdf>.
76 125
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esse fim, os termos de consentimento e os dados originais devem ser guardados para que estes sejam discutidos e clarificados em momentos de discussão coletiva
por tempo indeterminado, para dirimir qualquer dúvida do processo. (VAZ; NASSER, 2015). Na Figura 2 apresentamos um exemplo de questão que
Weller e Pfaff (2010) ressaltam que é um consenso entre os pesquisadores procura instigar os estudantes a identificarem e analisarem equívocos cometidos na
a buscar por desenvolver e definir padrões de qualidade da pesquisa qualitativa, resolução da uma integral definida. O mesmo vale para erros observados ao
uma vez que é recorrente a crítica sobre a falta de rigor metodológico no analisar resoluções de questões de provas escritas: sua discussão e clarificação são
tratamento e análise dos dados. fundamentais para que não perdurem.

Abaixo apresentamos uma resolução equivocada encontrada nas provas de alguns estudantes de
CONSIDERAÇÕES FINAIS Cálculo 1 ao tentarem resolver integrais definidas. Identifique o(s) equívoco(s) cometido(s) e,
em seguida, apresente a resolução correta:
Explorar o tema com alunos que futuramente estarão em sala de aula  2 3 13   2 2 12  7 3
 −  +  −  +
2 x + x
3
 3 3  2 2 = 3 2=3
ajuda a desmistificar a pesquisa qualitativa e considerando o público alvo em ∫1 x 2 dx =
 2 3 13  7 2
questão, percebeu-se, através dos comentários feitos durante a apresentação, a  − 
 3 3 3
contraposição que os alunos estavam fazendo com as técnicas protocolares da
pesquisa quantitativa amplamente explorada na área de Ciências Puras. Figura 2: Proposta de questão para identificação de equívocos na resolução de uma integral
definida.
Ao mostrar que existe um trabalho sério de quem se propõe a executar uma
pesquisa científica com análise qualitativa, buscou-se ampliar a confiabilidade da Cury e Bortoli (2011, p.111 – 112) apontam sugestões para se fazer um
pesquisa e aumentar o rigor das aplicações metodológicas. Isso é fundamental para uso didático dos erros dos estudantes:
que os estudos na área de educação tenham maior credibilidade e relevância,
a) partir dos erros e criar atividades nas quais o aluno seja desafiado a
diminuindo a angústia e ansiedade dos professores em buscar uma fórmula pronta e retomar os conteúdos nos quais apresenta dificuldades; b) usar jogos
para repetir procedimentos, regras ou cálculos algébricos; c)
mágica de realização de determinada aula, inserindo esse professor na dinâmica apresentar listas de exercícios cujas soluções apresentam algum erro e
solicitar aos alunos o reconhecimento da ocorrência de erro e a
reflexiva, exploratória e atuante no contexto escolar. possibilidade de corrigir.
Divulgar estudos dessa área ajuda a associar a riqueza dos estudos em
profundidade com a possibilidade de transferência de conhecimento e geração Quando as dificuldades dos estudantes não são detectadas durante o
de hipóteses para outros estudos nos mesmos contextos, enriquecendo o processo de aprendizagem, mas por exemplo a partir dos resultados observados
universo da pesquisa qualitativa, e para isso, inserir os futuros professores na por meio de sua produção escrita em questões de uma prova, o feedback terá
proposta é fundamental. natureza retroativa e falaremos em “recuperação”. Não se trata apenas de
oferecer aulas de “revisão de conteúdos” (como se os estudantes os tivessem
AGRADECIMENTO
aprendido...), pedir que os estudantes “refaçam” a prova ou refazê-la no quadro
Ao Prof. Dr. Álvaro Lorencini Júnior, do Programa de Mestrado em Ensino de Ciências e Educação e pedir que copiem.
Matemática da Universidade Estadual de Londrina, orientador da dissertação citada nesse artigo.
124 77
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Trata-se de se contrapor a uma AS ANÁLISES

organização linear de um currículo, na qual a ideia de ‘pré-requisito’


aparece fortemente, reforçando mitos que foram criados a respeito do As transcrições realizadas compuseram o material de análise da minha
conhecimento, ligando-os à ideia de acumulação e linearidade dos
pesquisa (LALIN-SOATO, 2010). Analisando as interações ocorridas na sala de
conteúdos predeterminados em sequências rígidas, não admitindo
nenhuma modificação na sua forma de sucessão de etapas moldadas e aula, sob a ótica fortemente fundamentada na abordagem teórica escolhida para
rigorosamente estruturadas (SILVA; PIRES, 2013, p. 250).
a dissertação, foi possível inferir sobre o processo de ensino/aprendizagem que
Repensar a estrutura organizacional do currículo de disciplinas
estava sendo realizado. Como exemplo, transcrevo o trecho abaixo:
matemáticas, a partir do rompimento do paradigma linear, como conteúdos são
distribuídos de maneira injustificável, permite ao professor planejar ações que Nos turnos 46 e 47, os alunos relatam o efeito da luz sobre o vegetal, e
percebem que não foi o vegetal que se curvou para “encontrar” a luz
oportunizem ao estudante o “retorno” aos objetivos não atingidos durante um introduzida pela abertura, pois a luz passaria ali de qualquer maneira
e, passando por ali, poderia ter algum efeito sobre o vegetal. Estando
determinado período de estudo, a partir do replanejamento do trabalho todas as hipóteses sugeridas pelos alunos no quadro e concluindo-se
que as demais não eram adequadas, o aluno no turno 51 responde
pedagógico. sobre a concentração do hormônio (LALIN-SOATO, 2010, p. 48).
Acerca da recuperação de rendimento acadêmico, ao invés de uma prova
Obviamente é preciso analisar todas as aulas, como foi feito na
substitutiva ou exame ao fim do semestre, o professor pode, por exemplo, após a
dissertação com todas as aulas desse conteúdo específico, mas o objetivo era
realização de cada prova, indicar aos estudantes, de forma individualizada,
mostrar aos futuros professores como utilizar a ferramenta e fazer as análises.
objetivos de aprendizagem não atingidos e necessários de serem revisitados. Por
Durante o encontro com os alunos de Licenciatura em Química, ressaltou-se
meio de um plano de estudo orientado (que pode contar, por exemplo, com o
algumas dificuldades encontradas, como estar ao mesmo tempo exercendo o
auxílio do monitor da disciplina, quando este existir), os estudantes dedicam-se ao
papel de professor e pesquisador. Afinal, como professor você tem o objetivo da
estudo desses objetivos no prazo de uma ou duas semanas após a realização da
aula a ser alcançado e como pesquisador você tem que ter o cuidado da
prova e, após, têm a oportunidade de resolver novas questões que possibilitam, ou
imparcialidade, para não contaminar os resultados.
acrescentar alguma nota à anterior, ou substituir a nota de questões relacionadas a
Outra condição indispensável para a realização da proposta é aprofundar-se
esses mesmos objetivos. Por exemplo, se após a realização de uma prova o
no conceito teórico para realizar as análises, pois como são dados que não podem
professor identifica que o estudante soube aplicar as regras de derivação do produto
ser repetidos (a mesma aula não pode ser dada exatamente igual duas vezes) o
e do quociente, mas não resolveu satisfatoriamente questões relacionadas à
material que o pesquisador tem em mãos deve ser explorado ao máximo.
aplicação da regra da cadeia, é para o estudo desse último tópico que o estudante
É importante ressaltar que a ética profissional deve estar acima de tudo,
desse ser orientado, e questões relacionadas a ele é que o estudante deve ter a
para dar credibilidade e confiabilidade à pesquisa. A transcrição deve ser
oportunidade de resolver no momento de recuperação.
fidedigna, os resultados devem ser extraídos claramente, as imagens e sons só
podem ser gerados com autorização dos envolvidos, e só devem ser usadas para

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pelos alunos, a partir do que estavam verificando na prática através do A PROVA COM COLA
acompanhamento do crescimento das plantas de feijão, e como instrumento de
Embora não encontremos na literatura a expressão “prova em cola” e nem
análise ter-se-ia apenas as imagens e falas gravadas dos alunos e do professor. O
mesmo trabalhos que a ela remetam, essa prática tem sido por nós experienciada
foco de análise estava nas interações discursivas controladas pelo
em nossa prática enquanto professores de Matemática; em especial, temo-la
professor/pesquisador para promover a aprendizagem significativa. Exemplo:
adotado na disciplina de CDI. A professora Bernadete Urbanski (URBANSKI,
Jô: Ela vai crescer mais pra pegar mais luz.
Profª.: Ou é uma consequência? 2012) relata, em seu trabalho para o Programa de Desenvolvimento Educacional –
Jô: Consequência. PDE, do estado do Paraná, a utilização da “cola” como recurso de aprendizagem
Profª.: Como então? Você disse, a folha dela é maior, de quem
estava no claro, e é consequência dela ter mais luz, então? em uma prova escrita de matemática em uma turma de 9º. ano do Ensino
Jô: Para poder pegar mais luz. Fundamental. A autora aponta que, enquanto sinônimo de pesca, “cola” é uma
Profª.: Aí é objetivo e não consequência. Vamos lá, a folha é
maior com o objetivo de pegar a luz ou como consequência consulta a uma fonte não autorizada e lembra que, muito além do significado
de pegar a luz? encontrado no dicionário, a “cola” na escola é uma prática amplamente utilizada,
Lu: Objetivo, será?
porém pouco discutida ou utilizada como recurso em situações de avaliação.
Já o objetivo de se explorar essa experiência com os alunos de graduação, Aponta que a
no Ciclo de Seminários Pedagógicos, era mostrar as possibilidades que eles
[...] ‘cola’ tomada como um recurso para uma prova com consulta pode
podem ter de pesquisar a sua prática e usar ferramentas para isso, que permitam ser uma alternativa viável para contribuir com o processo de ensino e de
aprendizagem, na medida em que, pode fornecer informações que
a análise e compilação de informações para construção de estudos científicos ajudam na compreensão das escolhas feitas pelos alunos ao estudarem
sobre essas práticas. Assim como se ensina aos estudantes de Química seguir fora da sala de aula. [...] exige a participação dos alunos não apenas no
momento específico de avaliação, mas antes dele, uma vez é ele quem
protocolos em laboratório que os permitem criar ou melhorar algum componente que deve decidir o que colocar nela. Assim, a utilização da ‘cola’ pode
se tornar uma útil fonte de informação tanto para o professor quanto
ou substância química, também temos que ensinar aos futuros licenciados a para os alunos (URBANSKI, 2012, p. 7).
refletir sobre sua prática e estudar as consequências de suas atitudes em sala de Baseando-se em Hadji (1994), segundo o qual as “regras do jogo” devem
aula, buscando interpretar os dados que eles conseguem coletar dos alunos, tanto estar claras, como aponta o próprio título do seu livro, é fundamental que o
por meio de seus registros escritos (como as resoluções de uma prova, de uma professor desenvolva junto aos estudantes “combinados” (contrato pedagógico)
lista de exercícios ou de um relatório) quanto das interações e discussões que acerca da utilização desse recurso. Por exemplo:
surgem durante a aula, saindo da condição de detentor do conhecimento a ser (i) Qual o “tamanho” da cola (uma folha sulfite, meia folha, um
transmitido ao aluno, que muitas vezes irá apenas memorizá-lo, e levando-os a quarto de folha)?
condição de facilitador de aprendizagem significativa ao aluno. (ii) Deve ser manuscrita? Digitada? Fotocopiada?
(iii) O que poderá ou não conter (fórmulas, esquemas, resolução de
questões)?

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(iv) Como poderá ser utilizada (durante toda a prova, apenas nos laboratoriais, uma proposta de análise qualitativa de dados provenientes de sala
momentos iniciais, apenas ao final)? de aula, que está relatada a seguir.
(v) Será atribuída alguma pontuação (nesse quais, mediante quais
critérios)? RELATO DE EXPERIÊNCIA

No caso desse último item, uma possibilidade é atribuir nota caso na cola
Este artigo faz parte dos trabalhos apresentados no Ciclo de Seminários
constem informações (fórmulas, esquemas) que contribuem para a resolução de
Pedagógicos que compõe esse livro. A proposta foi apresentada aos alunos de
questões da prova (indicando, assim, uma capacidade de síntese do estudante),
Licenciatura em Química como um relato da atividade realizada na dissertação
ou ainda levar em conta o reconhecimento (ou não) de elementos da cola que
da primeira autora, intitulada: Interações discursivas nas aulas de Biologia do
poderiam (ou não) ter contribuído durante a realização da prova.
Ensino Médio: a elaboração dos conceitos de Fototropismo e Gravitropismo

A PROVA ESCRITA EM DUAS OU MAIS FASES (LALIN-SOATO, 2010).


Um dos objetivos da dissertação era verificar a possibilidade de elaborar
A chamada prova em duas fases, cujas referências são encontradas, por uma sequência didática, com base nas interações discursivas, que, suprimindo o
exemplo, em trabalhos de De Lange (1987, 1999) e Van Den-Heuvel Painhuizen discurso de autoridade do professor, fizesse prevalecer a construção
(1996), é uma prova escrita realizada em dois momentos: uma primeira etapa na compartilhada de um conceito científico em uma sala de aula de Biologia, cujo
sala de aula, com tempo limitado, e uma segunda fase, num tempo maior, em geral, tema era Fototropismo e Gravitropismo (Fisiologia Vegetal). As análises da
a ser feita em casa. Para De Lange (1987), a prova em duas fases oportuniza aos investigação basearam-se na perspectiva teórica de Vygotsky, em seu aspecto de
estudantes refletir a respeito de seu próprio trabalho: depois de resolvida pela construção do conhecimento de forma interativa, bem como nos estudos sobre as
primeira vez na escola, a prova é corrigida e comentada pelo professor e, interações discursivas (COLL; ONRUBIA, 1998; MORTIMER; SCOTT, 2002;
posteriormente, devolvida ao estudante para o trabalho adicional em casa. MORTIMER, 2007) e sobre aprendizagem significativa (AUSUBEL, 1978;
Enquanto meio para ressignificação da prova escrita, propomos o COLL; ONRUBIA, 1998; MOREIRA, 1999; COLAÇO, 2004).
desdobramento da prova em mais fases, referindo-se a esse instrumento como Nesse contexto, atividade de fisiologia vegetal9 foi realizada com os
uma prova em fases. Conforme aponta Mendes (2014), uma prova em fases alunos do 3º ano do Ensino Médio, acompanhando o crescimento e
pode ser utilizada sob várias perspectivas de ensino. As ideias da Educação desenvolvimento de exemplares de feijão colocados em situações experimentais
6
Matemática Realística demarcam os pressupostos da perspectiva adotada por específicas para avaliar fototropismo e gravitropismo.
essa pesquisadora em suas ações de ensino a partir da utilização do instrumento. Com relação à metodologia qualitativa aplicada, optou-se por utilizar a
gravação de áudio e vídeo para posterior transcrição e análise dos resultados,
6
Abordagem para o ensino da Matemática que tem suas origens em meados da década de 1960, tendo como seu
precursor o matemático naturalizado holandês Hans Freudenthal. Ao invés de tomar a Matemática como um
uma vez que a aula era montada de forma a privilegiar a construção do conceito
assunto a ser transmitido, Freudenthal defende a ideia de matemática como uma atividade humana. As tarefas
9
propostas devem oferecer aos estudantes a oportunidade guiada para reinventar matemática, de modo que o foco Os feijões eram colocados dentro de condições que imitariam fototropismo ou gravitropismo, como caixa
do trabalho didático deve estar no processo de matematização. fechada, deitado, luz lateral.
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para o Ensino de Ciências, passou a ser foco de estudo de muitos pesquisadores. No Trata-se de uma prova escrita, resolvida individualmente e em sala de aula,
Brasil começamos a ver trabalhos a partir das décadas de 70, com forte presença a contendo questões associadas aos objetivos de aprendizagem a serem explorados
partir da década de 80 (WELLER; PFAFF, 2010). ao longo de determinado espaço de tempo (um bimestre, um semestre, um ano), a
Segundo Denzin e Lincoln (2006) a pesquisa qualitativa ainda é, por si só, um qual os estudantes tem acesso desde a primeira fase (portanto, antes mesmo das
campo de investigação, possuindo pesquisadores e publicações específicas sobre as aulas na qual serão explorados tais objetivos). Os próprios estudantes podem
diversas abordagens e mecanismos de utilização, como análise documental, reconhecer/escolher quais questões resolver em cada fase podendo alterar as
observação direta, estudo de caso, pesquisa etnográfica, pesquisa ação, entre outros. resoluções, nas etapas subsequentes, sempre que julgarem necessário.
Conhecer e melhorar as técnicas existentes, categorizações e organização Alguns encaminhamentos possíveis são:
de dados, bem como construir formas de validação dos resultados fizeram parte • pode-se elaborar mais de uma modelo de prova, em especial no caso de
dos desafios dos pioneiros na área, e ainda hoje se fazem presentes para turmas numerosos, que podem diferir entre si tanto pelo enunciadas
aprimorar a aplicação e obter resultados mais expressivos. questões quanto pela ordem na qual são apresentadas na prova. É
É possível encontrar trabalhos na área de Ensino de Ciências utilizando importante, porém, que as questões de provas diferentes atendam os
diversos instrumentos de coleta de dados como Questionários; Entrevistas; mesmos níveis do domínio cognitivo presentes na Taxionomia de Bloom.
Desenhos/Figuras; Caderno de registro; Testemunhos de Vida; Testes; • os estudantes podem ter acesso à prova logo nas primeiras aulas da disciplina,
Filmagens, entre outros. Segundo Weller e Pfaff (2010, p. 32), a ou mesmo no primeiro dia de aula, por um espaço de tempo limitado (20 ou

alternativa apresentada pelos autores para superar os problemas


25 minutos, por exemplo). A intenção não é que os estudantes resolvam
encontrados nos estudos de sala de aula é a abordagem antropológica. questões nessa fase7, mas apenas “tomem nota” do que será a prova.
Segundo eles, os acontecimentos de sala de aula só podem ser
entendidos no contexto em que ocorrem e são permeados por uma • a prova pode contemplar conteúdos de todo curso (numa proposta, mais
multiplicidade de significados que, por sua vez, fazem parte de um
universo cultural que deve ser estudado pelo pesquisador. Propõem, “agressiva” – conforme diriam os investidores do mercado de capitais)
para isso, a observação participante, a qual envolve registro de campo,
entrevistas, análise documental, fotografia, gravações. Nessa parte dele (numa perspectiva, diríamos, “moderada” – como nos trabalhos
abordagem, o observador não pretende comprovar teorias nem fazer desenvolvidos por Trevisan (2013) e Mendes (2014), em turmas do
grandes generalizações. Busca, antes, compreender a situação,
descrevê-la em suas especificidades, revelar os múltiplos significados Ensino Médio e de CDI, respectivamente). Para professores mais
dos participantes, deixando que o leitor decida se as interpretações
podem, ou não, ser generalizáveis com base em sua sustentação “conservadores”, uma opção é iniciar o trabalho com uma prova
teórica e sua plausibilidade.
envolvendo uma pequena parte do conteúdo da disciplina.
Assim, esse universo pode ser explorado e deve ser inserido nos cursos de
formação de professores, ampliando as possibilidades de intervenção do docente
7
na sua prática e colaborando para a pesquisa científica sobre o assunto. Partindo Embora possam, inclusive no caso de estudantes em regime de dependência, oferecendo assim ao professor,
parâmetros para a realização de uma avaliação diagnóstica desses estudantes. Uma variação possível é pedir que,
desse pressuposto surgiu a ideia de se discutir com alunos de Licenciatura em ao invés de resolver questões, avaliem o conteúdo matemático subjacente a cada uma delas, assinalando opções
como: (i) nunca ouvi falar; (ii) já estudei, mas não me recordo; (iii) já estudei, recordo o conteúdo, mas penso
Química, habituados com metodologias quantitativas em suas análises que não consigo resolver a questão; (iv) penso saber resolver a questão. A análise desses resultados pode
oferecer para o professor elementos que contribuam no (re) planejamento do trabalho pedagógico.
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• o número de fases é variável. Pode ser feita alguma analogia entre o Considerando esse contexto, inicia-se a exploração e aplicação da
número de fases e a quantidade usual de provas que o professor utilizaria metodologia de pesquisa qualitativa nos trabalhos sobre ensino/aprendizagem.
(por exemplo, Trevisan (2013) propôs seis fases para uma prova Muito utilizada nas áreas de Ciências Sociais, a metodologia qualitativa é definida
contemplando conteúdos de um semestre, fazendo analogia ao modelo como aquela que privilegia a análise de micro processos, através do estudo das
usual adotado em escolas do Ensino Médio: duas provas por bimestre ações sociais individuais e grupais, realizando um exame intensivo dos dados, e
mais uma prova de recuperação) ou em função da necessidade de caracterizada pela heterodoxia no momento da análise (MARTINS, 2004).
comunicação entre professores e alunos (como fez Mendes (2014), A amplitude de possibilidades que a metodologia qualitativa oferece, em
chegando ao número de 10 fases para alguns estudantes). relação à metodologia quantitativa, está mais de acordo com a diversidade
• os estudantes não precisam ter acesso a todas as questões desde a primeira encontrada em sala de aula. Metodologias e propostas didáticas, somadas a
fase: novas questões podem ser apresentadas a cada nova fase, juntamente diversidade cultural encontrada em sala de aula, geralmente não podem ser
com as questões da fase anterior, cujas resoluções podem ser mensuradas por análises quantitativas. Afinal, como mensurar a quantidade de
modificadas/complementadas. Um exemplo dessa abordagem desenvolvida pensamentos e interpretações que o aluno está fazendo durante uma aula expositiva?
junto a uma turma de CDI foi o seguinte: numa primeira fase, os estudantes Como generalizar para todas as turmas, uma prática que parece ter dado certo? Como
deveriam analisar a continuidade de uma determinada função (dispondo de o professor pode ter certeza que realmente a prática deu certo, ser imparcial e fazer
um tempo de 10 minutos); na fase seguinte (uma semana depois), deveriam uma análise crítica sobre a atividade? A prova pode fazer isso? Não é foco de esse
também investigar se aquela função era diferenciável; por fim (após mais trabalho entrar nessa discussão, mas sobre a avaliação já há muitos estudos
uma semana), deveriam fazer um estudo da função buscando identificar a considerando as suas possibilidades e limitações. Dessa forma, a metodologia
existência de pontos críticos e de pontos de inflexão. qualitativa abriu o leque de possibilidades de coleta e interpretação de dados mais
• embora o professor possa ou não fazer intervenções durante a prova, é voltada para a realidade escolar. Segundo Weller e Pfaff (2010, p. 33), a
desejável que o faça. Afinal, ao utilizar uma prova em fases, tem subjacente expansão na pesquisa educacional da chamada abordagem qualitativa veio
a intenção de fazê-la um instrumento de comunicação entre professor e no bojo de uma busca de métodos alternativos aos modelos experimentais,
às mensurações, aos estudos empiricistas numéricos, cujo poder
estudante, “que oportunize identificar as dificuldades e potencialidades dos explicativo sobre os fenômenos educacionais foi posto em questão, do
mesmo modo se pôs em debate os conceitos de objetividade e neutralidade
alunos nos conceitos envolvidos para melhorar as decisões relativas à embutidos nesses modelos. Mas a opção quase total no universo dos
pesquisadores em Educação pelas abordagens qualitativas não esteve
aprendizagem e, de modo especial, instruir o aluno sobre seu próprio isenta de uma perspectiva que identificou tais abordagens como as
percurso para regular a aprendizagem” (MENDES, 2014, p. 66). Tais revolucionárias, as únicas transformadoras, condenando ao exílio do
conservadorismo os tratamentos quantitativos.
intervenções podem ser feitas por meio de questionamentos/apontamentos,
Na sequência o desafio era conhecer melhor a metodologia para aplicá-la de
podendo esses, inclusive, serem tomados como novas questões (desde que
forma correta. Explorar trabalhos das áreas sociais e de saúde, que já aplicavam a
acordado com a turma) e, portanto, sua resposta passível de pontuação.
metodologia de abordagem qualitativa e considerar suas possibilidades e limitações
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divulgação de práticas educacionais muito ricas, inserindo até os professores A prática de intervenções apontada nesse último item deve ser uma
mais acanhados num universo rico de experiências didáticas com suas turmas. O constante na prática pedagógica do professor, não restringindo (porém
aluno, por sua vez, também foi inserido nesse contexto de forma mais atuante, englobando) episódios de avaliação, mas sendo ampliada por meio da prática do
mais crítica e participante no processo de aprendizagem, deixando de ser trabalho em equipes. Enquanto proposta de implementação de ações individuais,
considerado apenas um “arquivo” para depósito de informações. ao invés de propor imensas “listas de exercícios” que induzem os estudantes
Obviamente também houve relatos de experiências negativas, sobretudo muito mais a transcrever resoluções copiadas de colegas (em troca de “algumas
quando se interpretava a tendência Histórico-Crítica de forma radical, até migalhas de décimos pontos”8), muitas vezes entregues ao professor nas
mesmo influenciado pela tentação de transformar uma ideia em fórmula mágica, vésperas ou na data da prova (tolhendo assim, qualquer possibilidade de
pronta para uso. Mas, aparando os excessos, pode-se considerar uma das feedback das resoluções apresentadas), tornando a prova escrita mais um jogo de
contribuições da Pedagogia Histórico-Crítica para o processo educacional foi loteria do que um instrumento de avaliação da aprendizagem (uma vez que, se
colocar tanto professores como alunos na condição de autores do processo e tiver a “sorte” de encontrar na prova uma questão da “lista” cuja resolução ele se
transformar a sala de aula num espaço de exploração. recorda – ou porque a resolveu antes, ou simplesmente porque foi capaz de
A partir de então, o perfil de profissional que passou a se buscar nos decorá-la), o que propomos é organização de tarefas de investigação.
cursos de formação de professores, incluía a habilidade de pesquisador, atento e Acrescentamos que utilizar a prova em fases como instrumento de
reflexivo sobre sua prática. Timidamente o interesse dos licenciados às avaliação em aulas de Matemática implica buscar por “bons” problemas de
pesquisas nas áreas puras das ciências foi compartilhando espaço com o avaliação. Baseando-se em uma vasta literatura, Van Den Heuvel-Panhuizen
interesse pelas pesquisas nas áreas de ensino das ciências. (1996), apresenta uma visão geral das características para “bons” problemas de
Os primeiros pesquisadores no Brasil eram docentes das áreas puras que avaliação. Dentre elas, destacamos algumas:
migravam gradativamente para a área de ensino. Programas de pós-graduação • os problemas precisam ser significativos e “valer a pena”: precisam
stricto sensu passaram a ser criados e atualmente estamos recebendo a primeira ser matematicamente interessantes e cativantes. Para alguns autores,
geração de profissionais cuja formação foi totalmente voltada para o Ensino de um problema é uma situação em que nenhum método de solução
Ciências / Educação Matemática. E esse perfil profissional já começa a fazer a pronto está disponível, enquanto outros pensam que o estudante
diferença nos cursos de Licenciatura, pois as universidades já conseguem precisa ter uma razão para resolver o problema. Além disso,
incorporar profissionais doutores em Ensino aos cursos de formação de problemas significativos não precisam necessariamente ser
professores, o que impacta positivamente na formação dos novos professores. diretamente relevantes ou práticos, mas precisam ser atraentes e
Voltando um pouco ao início dessa transformação, um dos maiores desafios estimulantes para os estudantes.
enfrentados pelos primeiros pesquisadores da área foi validar as pesquisas realizadas
8
O que nos leva a questionamentos éticos ainda mais preocupantes: qual o parâmetro balizador utilizado por um
para formalizar o caráter científico que elas têm. Enfrentar um pouco de ceticismo e professor que reprova estudantes cuja média na disciplina é 5,7 ou 5,8, ou 5,9, e aprova aqueles cuja média é 6,0,
quando esses últimos podem ter conseguido esses 0,3 de ponto pela simples cópia de resoluções de “listas de
críticas acirradas de colegas de trabalho foi realidade para muitos profissionais. exercícios”?
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• problemas matematicamente interessantes são principalmente aqueles Para que a ação mental se materialize, faz-se necessário que haja unidade
em que mais de uma resposta correta é possível, além de ter certo grau ente linguagem e pensamento, ou, para que de fato se apreendam conceitos e
de complexidade. Além disso, bons problemas devem exigir mais do não apenas palavras ou procedimentos vazios de significado, é necessário que o
que lembrar de um fato ou a reprodução de uma habilidade, ter estudante atue mentalmente com o conceito. Nesse sentido, o princípio ativo da
componente educativa (tanto estudantes quanto professores vão aprendizagem implica a participação efetiva do aluno na elaboração da síntese
aprender com a tentativa de respondê-los), e devem ser abertos (o que conceitual, na qual estão aliados pensamento e linguagem (SFORNI, 2015).
significa que várias respostas podem ser possíveis). Na Teoria de formação por etapas das ações mentais, Galperin afirma que

• os problemas devem elucidar o conhecimento a ser avaliado: os a atividade interna deve passar por cinco etapas qualitativas que são: 1ª etapa

problemas de avaliação devem envolver o que se pretende avaliar, “elaboração do esquema da base orientadora da ação (BOA)”, 2ª etapa

fornecer informações do conhecimento que os estudantes possuem, e “formação da ação em forma material ou materializada”, 3ª etapa “formação da

expressar o máximo possível o quanto os estudantes assimilaram ação verbal externa”, 4ª etapa “formação da linguagem externa para si” e 5ª

desse conhecimento e o quanto podem aplicá-lo em novas situações. etapa “formação da ação em linguagem interna” (GALPERIN, 1982).
Neste trabalho de pesquisa buscou-se destacar a importância da
• os problemas devem revelar algo dos processos de aprendizagem dos
comunicação entre professor-aluno e a criação de situações problemas como
estudantes: é importante que os problemas incitem certas estratégias,
motivação para a aprendizagem.
exponham as técnicas de solução adotadas pelos estudantes e revelem
A solução de um problema de aprendizagem constitui-se mais na
algo subjacente ao processo de resolução. explicitação de um modo geral de ação por parte do educando e,
portanto, na apropriação de um conceito pelo estudante, do que na
Fernandes, Mello e Barbejat (2001) apresentam uma alternativa à resolução concreta do problema, ainda que essa resolução sempre se
dê. Em outras palavras, a resolução concreta de um problema deve ser
realização de uma prova em fases: a utilização de uma fase oral (facultativa), considerada como um caso particular da resolução geral do problema,
isto é, do modo geral de ação para resolver aqueles tipos de problemas
após a realização da fase escrita. (NASCIMENTO, 2010, p. 215).
A partir do momento que deixamos de buscar fórmulas mágicas e
Após a realização da verificação escrita, cada aluno recebe cópia do
enunciado de cada prova escrita [corrigidos com indicação de acerto passamos a refletir sobre a dinâmica da sala de aula como um problema,
pleno, erro total ou parcial]. Após divulgação das notas tem início o
período de Defesa Facultativa de Prova (Revisão), com a respectiva começamos a nos aprofundar na riqueza de possibilidades que a diversidade da
Vista de Prova. [...] Durante a defesa de prova, o aluno não portará sala de aula nos oferece. Criar e explorar metodologias que são mais focadas ao
livros ou material de consulta próprios. [...] Será permitido ao aluno
expor as razões que originaram os erros acontecidos. Será permitido público, intervalo de tempo e interações sociais, específicas de cada
ao aluno utilizar rascunho para explanação de sua defesa e/ou
questionamentos realizados durante a defesa. A inquirição do aluno turma/disciplina/professor, mostra-se mais produtivo do que simplesmente
durante a defesa de prova poderá ser sobre conteúdo não aferido na
prova escrita, mas apresentado anteriormente. [...] O incremento da ignorar as especificidades e criar um modelo único infalível.
nota está diretamente à forma e a segurança na exposição da sua Nesse contexto, a atuação do professor como professor/pesquisador, que
defesa (FERNANDES; MELLO; BARBEJAT, 2001, p. 3–4).
baseia suas decisões na ação e reflexão sobre a ação, permiti a exploração e
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aprendizagem deve ser voltada para o desenvolvimento da personalidade Segundo os autores, apesar do tempo despendido para a realização desse
integral do indivíduo, precisando ser compreendida como um tipo específico de procedimento, “vem demonstrando resultados favoráveis. Em primeiro por se
atividade que leva em conta diversas relações, entre elas, a comunicação verificar médias superiores às das turmas onde não realização do procedimento
estabelecida entre professor-aluno. Nessa relação, faz-se necessário a participativo. Em segundo, pelo retorno (sempre estimulante) da opinião dos
compreensão da Teoria de Ações Mentais, na qual é necessário esclarecer que, a próprios alunos” (FERNANDES; MELLO; BARBEJAT, 2001, p.8).
assimilação e apropriação de conceitos científicos requerem atividades psíquicas
específicas, que envolvem os processos de abstração, análise e generalização de CONSIDERAÇÕES FINAIS

nível superior. Os processos mentais envolvidos nesta dinâmica não estão Não tivemos aqui a pretensão de trazer discussões amplas ou mesmo
concluído, para que possam ser desenvolvidos, é preciso que a atividade de teóricas (e porque não dizer “utópicas”) acerca de avaliação. Ao contrário, temos
ensino seja organizada em determinadas etapas com ações de nível diferenciado, consciência que a prova escrita ainda é o instrumento mais utilizado em aulas de
condições necessárias para transformação da estrutura da atividade psíquica, de Matemática em todos os níveis de escolaridade, e enquanto professores sentimos
um nível empírico ao teórico (DAMAZIO, 2009). não ter a oportunidade de refletir acerca do modo como a organizamos, nem
Dentre os passos estabelecidos na Teoria da Assimilação por Etapas das mesmo de analisá-la criticamente.
Ações Mentais de Galperin, para a assimilação e apropriação de conceitos Não estamos aqui propondo “abolir” a prova escrita das aulas de
científicos, como o desenvolvimento da personalidade integral; o caráter Matemática. Ao contrário, por estarmos consciente de suas limitações,
científico do ensino e a Zona de Desenvolvimento Próximo (ZDP) destaca-se a discutimos suas potencialidades e possibilidades de ressignificá-la, no sentido de
aprendizagem significativa e a organização das estratégias didáticas para compreender a avaliação enquanto oportunidade de aprendizagem tanto para o
desenvolver esse estilo de aprendizagem. A aprendizagem significativa ou o estudante quanto para o próprio professor.
caráter consciente da aprendizagem em que os alunos se apropriam dos
conteúdos desenvolvendo estratégias ativas de participação e co-autoria,
requerem um caráter objetal que identifica as ações específicas a serem
realizadas com os objetos da assimilação e os princípios didáticos da Teoria.
A contribuição metodológica dessa teoria científica para a atividade de
ensino centra-se na conceituação e na organização da assimilação do conhecimento
em etapas, passando do plano da experiência social para o plano da experiência
individual. Assimilar é apropriar-se do objeto do conhecimento e habilidade é o
conhecimento em ação. Por trás de cada imagem e de cada conceito oculta-se uma
ação mental generalizada, abreviada e automatizada (NÚÑEZ, 2009).

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REFERÊNCIAS PESQUISA EM ENSINO DE CIÊNCIAS: METODOLOGIAS QUE APLICAM


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O PAPEL ATIVO DO SUJEITO NO CONHECIMENTO, A PEDAGOGIA atingir o real compromisso da universidade, o de “plantar a semente da reflexão
E O ENSINO DE CIÊNCIAS para que, à luz do pensamento, os homens e mulheres por ela formados possam
decidir se este é o mundo que desejam, se esta é a melhor forma de vida para o ser
humano” (GOERGEN, 2006, p. 85). Finalmente, este relato considera relevante o
José Bento Suart Júnior
papel do stricto sensu em educação na formação do docente de áreas não
Silvia Parrat-Dayan
pedagógicas e destaca a responsabilidade de tais programas na formação daqueles
Marcelo Carbone Carneiro
que serão responsáveis pela formação de profissionais e possíveis docentes.

REFERÊNCIAS
INTRODUÇÃO

AMARAL, A. L.. As eternas encruzilhadas: de como selecionar caminhos para a


O fim do século XIX trouxe à tona a discussão advinda da biologia em formação do professor de ensino superior. In: ROMANOWSKI, J. P.;
relação à presença de mecanismos de transmissão de características hereditárias MARTINS, P. L. O.; JUNQUEIRA, S. R. A. (Orgs.). Conhecimento local e
conhecimento universal. Curitiba: Champagnat, 2004. p. 139-150.
assim como a Psicologia também emergente viria a propor estudos diretamente
AUSUBEL, D. P.. A aprendizagem significativa: a teoria de David Ausubel.
direcionados com a atividade da psique. São Paulo: MORAES, 1982.
É deste ponto de vista que Piaget toma um ponto de vista original no
BIREAUD, A.. Os métodos pedagógicos no ensino superior. Porto: Porto
início do século XX, a partir dos estudos desenvolvidos no Instituto “Jean- editora, 1995.
Jacques Rousseau” (atual Universidade de Genebra na Suíça). A ideia de uma BOLZAN, D. P. V.. Pedagogia universitária e processos formativos: a
razão dialética toma um novo perfil, em que o sujeito toma um papel ativo na construção do conhecimento pedagógico compartilhado. In: ENCONTRO
NACIONAL DE DIDÁTICA E PRÁTICA DE ENSINO: trajetórias e processos
compreensão do mundo, sendo que sua forma de compreensão do mesmo de ensinar e aprender: lugares, memórias e culturas, 2008, Porto Alegre. Anais...
progride assim como os instrumentos por ele utilizados. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008. p.102-120.

Para o autor (PIAGET, 1996) nem o empirismo e nem o racionalismo BOLZAN, D. P. V.; ISAIA, S.. A pedagogia universitária e aprendizagem
docente: relações e novos sentidos da professoralidade. Revista diálogo
puros são capazes de explicar como um conhecimento de menor amplitude e educacional, Curitiba, v. 10, n. 29, p. 13-26, 2010.
alcance leva a um conhecimento maior. O posicionamento conclusivo de Piaget, BOTOMÉ, S. P.; KUBO, O. M.. Responsabilidade social dos programas de pós-
integrante de uma concepção dialética construtivista, é o principio de auto- graduação e formação de novos cientistas e professores de nível superior.
Interação em Psicologia, v. 6, n. 1, p. 81-110, 2002.
regulação cíclica com tendência intrínseca ao equilíbrio. Piaget admite a
BRASIL. Lei n. 9.394/96, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e
“solidariedade” entre a psicogênese e a biogênese: o organismo constitui um
bases da educação nacional. Diário Oficial [da] República Federativa do
ponto de partida, mas admite reorganizações acrescentando novas leis à Brasil, Poder Legislativo, Brasília, DF, 23 dez. 1996. p. 27833. Disponível
em:<http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaTextoIntegral.action?id=75723
estruturação.
>. Acesso em: mar. 2013.

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autocrítica, permitindo a libertação dos esquemas tradicionais e dogmáticos que O conhecimento é fruto de uma dialética entre as estruturas presentes no
a graduação não foi capaz de eliminar. A partir dos estudos dentro da sala de indivíduo (estofo necessário da espécie) e a interação deste com o meio físico e
aula do stricto sensu, o docente responsável zela pela construção do social, num mecanismo construtor, que admite a construção de estruturas de
conhecimento pedagógico para que os futuros professores possam construir seus pensamento. O papel deste desenvolvimento é a “descentração” do sujeito em
saberes pelos conflitos e problemas cognitivos em conjunto nesse ambiente. Isso relação ao mundo (papel sobre o qual a Ciência tem grande importância dentro
se dá por meio de discussões e participação ativa entre vivências e experiências da educação, o que veremos mais adiante).
de todos que compõem algumas disciplinas da pós-graduação. Em a Representação do Mundo na Criança (PIAGET, 1973), Piaget
Todavia, cabe ressaltar que mesmo o docente com formação em nível de encontra que a distinção entre pensamento e o mundo exterior não é inata, mas
mestrado e doutorado, de forma alguma, garante uma docência de qualidade aos lenta em dissociar-se e construir-se. O pensamento da criança é realista,
estudantes, seja graduação ou pós-graduação. Isso ocorre principalmente em pressupondo que o pensamento está ligado ao objeto, que os nomes estão
decorrência de que tais cursos têm privilegiado a pesquisa no detrimento do ligados às coisas nomeadas. Tal realismo consiste em uma tendência espontânea
ensino, conforme apontado por Amaral (2004). O dano implicado ao ensino está em confundir o signo e o significado, o interno e o externo, assim como o
relacionado aos critérios quantitativos de avaliação de docentes pertencentes a psíquico e o físico.
programas stricto sensu, critérios regidos pelas regras de políticas de educação O real está impregnado do “eu” e o pensamento é concebido à base da
que recompensam a produtividade por resultados obtidos no campo de pesquisa matéria física. Do ponto de vista da causalidade, todo o universo está em
e publicação. comunhão com o “eu”, obedecendo aos desejos do “eu”, já que os desejos e
Não é possível desmerecer ou diminuir a importância das pesquisas ordens do eu são considerados como o único ponto de vista possível.
científicas, de extrema significância e relevância para a disseminação de A falta de uma consciência, do eu propriamente dito, acarreta um
conhecimento e o desenvolvimento de um país, além de pertencerem ao egocentrismo integral. A criança ignora os pontos de vista dos outros
compromisso do docente pós-graduado. Não é aceitável diminuir a importância essencialmente porque a criança egocêntrica acaba por considerar que todo o
dessa responsabilidade, mas é preciso refletir sobre uma forma inteligente de mundo pensa como ela.
conciliar a essa cientificidade o ato de ensinar com senso crítico e Existe assim um círculo que encerra a consciência primitiva: para que a
responsabilidade. Deve-se formar pesquisadores que tenham a capacidade de consciência dissocie o mundo de si mesmo é necessário que o pensamento tenha
realizar a transposição didática dos conhecimentos aos alunos e à sociedade. consciência de si mesmo e se diferencie das coisas. Contudo para distinguir-se
Considera-se que os programas de stricto sensu em educação têm capacidade das coisas é necessário que o pensamento não introjecte caracteres ilusórios
de formar docentes com plena consciência e domínio do papel de investigador, devidos à perspectiva egocêntrica. O contato com os outros permite o
orientador e agente influenciador. E, principalmente, que eles têm competência reconhecimento do sujeito a ponto de separá-lo de um egocentrismo,
para se tornarem um referencial na formação e constituição dos futuros renunciando assim a introjectar sentimentos nas coisas.
profissionais e professores durante a graduação. Essa capacidade é necessária para
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Em a Construção do Real na Criança (PIAGET, 1996), Piaget estabelece uma docente tenha vínculo com a realidade concreta da atividade de ser professor em
correlação direta, para a constituição dos objetos sensório-motores, entre os processos seus diversos campos de atuação (BOLZAN, 2008).
elementares infantis e o pensamento científico em sua objetivação do mundo. O ambiente da sala de aula deve contribuir significativamente para a
A objetivação própria das ciências se dá através de três critérios (PIAGET, 1996): formação do docente, possibilitando que haja discussão das práticas, debates,
1. Um fenômeno é objetivo se exposto a uma previsão em oposição àqueles estudos e exposições relativos aos problemas da área. Deve-se aproveitar esse
fortuitos e contrários à possibilidade de hipótese; espaço para encarar a realidade da docência, se descobrir e se desenvolver em
2. Um fenômeno é tanto mais objetivo quanto maior for o número de sua formação como docente. Propiciar esse espaço contribui diretamente na
resultados concordantes em experiências distintas; concepção de ser docente, principalmente por unir suas experiências prévias
3. Um fenômeno é objeto real quando unido de maneira inteligível a um com a pesquisa constante no programa (SANTOS NETO, 2002). Dessa forma,
conjunto de sistema espaço-temporal e causal. considera-se que o entendimento de docência incide nos processos de reflexão e
prática dos docentes, processos estes partilhados por meio de suas vivências, que
Os estudos psicogenéticos propostos por Piaget encontram que são estes proporcionaram trilhar esse caminho diversas vezes, expectativas e sentimentos,
os mesmos passos constituídos pela criança para construir um mundo objetivo. a união de saberes escolares e tácitos, entre outros (ISAIA, 2003).
Desta forma os dados obtidos por Piaget (1996) no estudo das noções de objeto,
espaço, causalidade e tempo o levam a concluir que a elaboração do universo CONSIDERAÇÕES FINAIS
constitui uma passagem de um estado em que as coisas encontram-se centradas
A formação stricto sensu em educação deve ser compreendida como
em torno de um eu que acredita direcioná-las e ignorar-se a si mesmo enquanto
prática da liberdade, para conscientizar os futuros docentes e pesquisadores,
indivíduo para um estado no qual o eu se encontra em um mundo estável e
proporcionar uma visão crítica e reflexiva da realidade, conseguindo transpor o
concebido como independente da atividade própria.
que é ensinado em aula para seu cotidiano enquanto docente formador. Pode
proporcionar a percepção de que com a educação, transcende-se para um novo
Desta forma, podemos nos perguntar se um tal perfil de relação sujeito-
mundo, com melhores perspectivas de vida, e motivar o desejo de contribuir
objeto, construído a partir de dados psicológicos não poderia contribuir em
para a transformação da sociedade. As aulas de pós-graduação são um espaço
questões pedagógicas, e especialmente em relação ao ensino de ciências?
difusor de ideias, e não uma etapa a ser cumprida no decorrer da formação
continuada.
Segunto Parrat-Dayan e Tryphon (1998, p. 12):
No transcorrer do programa, as aulas de determinadas disciplinas
Piaget volta-se para a escola nova que inova ao introduzir os novos despertam a sensibilidade e percepção durante esse momento de transição pelo
métodos da escola ativa: estes sublinham a importância dos princípios
de liberdade, de atividade e de interesse da criança com o objetivo de qual os futuros docentes devem passar. Esse processo possibilita a maturação
favorecer seu desenvolvimento “natural”: trata-se do trabalho em
grupo e do self-government. profissional, permitindo o desenvolvimento da capacidade reflexiva e

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no caso das ciências exatas, especificamente neste relato de experiência, que por A defesa que Piaget faz em relação a estes dois métodos não é unicamente
sua finalidade não se preocupam com uma formação pedagógica. ideológica, mas completamente construída em função de argumentos científicos
Devemos ressaltar que os docentes da área de engenharia são profissionais advindos de sua Epistemologia Genética. Assim, é possível encontrar entre os
de carreira industrial e que, por diferentes razões, optam por mudar para a trabalhos de Piaget contribuições diretas à Pedagogia ainda que este não tenha
academia, possuindo um grande conhecimento tácito. Além disso, há docentes sido o centro de suas pesquisas.
que se dedicam exclusivamente à carreira acadêmica e pesquisa, após o término Neste trabalho, das produções voltadas para a Pedagogia, especificamente
da graduação, sem experiência de trabalho na área. Entretanto, Bolzan e Isaia advindas de discussões acerca de contribuições da Psicologia para o campo da
(2010) chamam atenção para o fato de que a formação não se refere somente à Educação, extraímos de textos do próprio Piaget contribuições a partir de três
prática ou somente à teoria, mas que podem ser assumidas ideias, possíveis temas, dois métodos e uma disciplina, que se inter-relacionam no
comportamentos e ações, nos quais a apropriação ocorre a partir de regras processo de descentração do sujeito egocêntrico: o trabalho em grupo, o self-
estabelecidas no ambiente, permitindo aos docentes e futuros profissionais government e o ensino de ciências.
capacidade para enfrentarem situações conhecidas que se reproduzem ou novas
situações. A DESCENTRAÇÃO DO SUJEITO E OS PAPÉIS DO SELF-

Cabe ressalvar que a ideia de quem sabe fazer também sabe ensinar GOVERNMENT, DO TRABALHO EM GRUPO E DO ENSINO DE

proporciona sustentação à lógica de recrutamento dos docentes. Cunha (2005) CIÊNCIAS

faz uma rigorosa reflexão sobre a formação docente, na qual a sua formação é
A defesa feita por Piaget em relação aos métodos de self-government e
atrelada como base de sua profissão paralela exercida no mundo do trabalho. A
trabalho em grupo assim como em relação às contribuições advindas do ensino
universidade tratada como legitimadora do conhecimento, tornou-se súdita do
de ciências, é construída dentro de um quadro positivo em relação às
poder enraizado e dominado pelas corporações, que naturalmente compreendem
proposições da escola nova, assim como em defesa de uma pedagogia que
que para a construção e definição de um currículo nada melhor que um
almeje o entendimento frente ao quadro pós Primeira Guerra Mundial. Neste
profissional da área, como um médico definindo o currículo de medicina, entre
contexto Piaget se mostrará positivo em relação aos métodos que promovam o
outros sucessivamente, contando com a pedagogia apenas como coadjuvante no
contato social como ferramenta frente ao egocentrismo.
processo de tramitação dos projetos pedagógicos e processos avaliativos.
O self-government trata-se de um método pedagógico defendido dentro do
O programa contribui para uma reflexão dos docentes quanto à falta de
quadro da escola nova que consiste em confiar à criança a organização da
conscientização de que a dimensão pedagógica é necessária para quem está
disciplina escolar (PARRAT; TRYPHON, 1998).
vinculado diretamente à formação de profissionais e professores. Não basta
Piaget faz pertinentes considerações acerca do uso do self-government.
apenas ensinar conteúdos específicos relativos às diversas áreas do
Tais considerações encontram-se em Observações psicológicas sobre o self-
conhecimento, é preciso propiciar o conhecimento de ser professor nessas e em
government originalmente publicado em 1934.
outras áreas. Para que seja possível a garantia desse processo, é preciso que o
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Piaget (1983c) alerta para o fato de que sob esta alcunha confundem-se uma mesmo. Assim, ideias pré-concebidas são responsáveis pelo enorme erro de
série de procedimentos que vão da completa autonomia até à delegação limitada e manter o ensino nessa espécie de cegueira conceitual. Cabe ressaltar que parte
momentânea aos alunos de determinados poderes antes em mãos do professor. dos docentes das ciências exatas não procura uma qualificação pedagógica por
O ponto de partida em defesa do método é o de que o exercício da compartilhar das ideias descritas adiante.
moralidade e o da lógica pela consciência e pela razão supõem e são construídos Gauthier e colaboradores (1998) declaram que não basta conhecer o
na relação com a vida social. Isso porque a organização social impõe formas de conteúdo, porém muitos docentes ainda consideram que para ser bom professor
organização, indivíduos impondo mutuamente regras morais e maneiras de basta este conhecimento. Contudo, para ensinar são necessários habilidades,
pensar. Mesmo que a consciência tenha um papel fundamental na organização atitudes e outros conhecimentos diferentes da matéria lecionada. O ofício de
de tais aspectos, cabe à sociedade impor “conteúdo concreto”. ensinar não seria apenas questão de talento, admitindo que o docente nascesse
pronto, conquanto este seja indispensável ao exercício de qualquer ofício e sua
[...] como é de fora que o indivíduo recebe as regras ou a obrigação de
a elas obedecer, é óbvio que a evolução da criança não consiste apenas ausência limite sobremaneira o desempenho. O oficio de ensinar não seria
no florescimento progressivo de suas aptidões inatas, mas, sobretudo,
numa socialização real que transforme qualitativamente suas apenas questão de bom senso.
personalidade (PIAGET, 1983c, p. 115).
Complementando as ideias do autor, para ser um bom docente não basta
Segundo Piaget, ao assistirmos uma evolução gradual do indivíduo, temos seguir a sua intuição e correr o risco de ouvir a própria consciência e,
de prestar atenção ao fato de que inicialmente, ainda que submetida a um eventualmente, ir contra a própria razão. Não basta ter experiência apenas,
conjunto de regras morais e valores, a criança encontra-se dominada por um acreditando, por assim dizer, que o aprendizado vem com a prática entre os erros
egocentrismo inconsciente e espontâneo. e acertos. De fato, não se pode repudiar o saber experimental, entretanto não se
deve acreditar que a prática profissional se represente na totalidade da ação. E,
Esse egocentrismo, nos diz Piaget (1983c), é bem conhecido, tendo em como última ideia, o autor cita que não basta cultura ao professor como garantia
vista que em relação aos adultos a criança tem dificuldade de compreender as do aprendizado, quando destinada ao culto, ainda que o saber cultural tenha
regras e obedecê-las assim como entre elas mesmas. O egocentrismo leva a uma grande relevância, tomá-lo como exclusivo é propiciar a continuidade do ensino
preferência pela satisfação do que pela objetividade no qual surgem então as na ignorância (GAUTHIER et al., 1998).
“pseudo-mentiras”, a fabulação e os jogos de imaginação. A realidade dos profissionais da área de ciências exatas revela que grande
Como o indivíduo se liberta do egocentrismo? Os mecanismos evocados parte dos professores parece não ter a consciência ou entendimento de seu papel
são importantes na compreensão do self-government com método pedagógico e na função de formador. Bolzan e Isaia (2010) consideram que os processos
estão intimamente interligados com o contato social. formativos específicos para a docência na educação superior são inexistentes,
Segundo Piaget (1983c), os pais são responsáveis pelo primeiro processo além de prevalecer a formação voltada ao saber fazer ou saber técnico,
de socialização, cuja ação é eficaz, mas instituída em função do respeito, o qual evidenciando que o docente universitário não tem conhecimento pedagógico
Piaget vai reinterpretar como “coerção social”, a pressão social dos grandes para atuar na formação de futuros profissionais. A afirmativa se torna relevante
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Contudo, mesmo em um curso de graduação das ciências exatas, ao sobre os pequenos, e de “respeito unilateral” o respeito que o inferior sente pelo
menos aulas opcionais deveriam ser ofertadas ao público que almeja construir a superior e que torna possível a coerção.
carreira de docente no ensino superior. Os programas stricto sensu que se
destinam à Educação buscam relação com a formação docente durante as aulas, Entre os resultados de tais fenômenos, a criança é levada a considerar

e deve-se propor a responder ou mesmo discutir as questões de formação obrigatórias as regras recebidas, obrigações imperativas. Isso traz uma grave

profundamente, questões estas que, durante a graduação, ficaram sem sentido, consequência: “[...] na medida em que a moralidade é adquirida de fora, ela

sem respostas ou nem foram ao menos discutidas. Os docentes que atuam na permanece heterônoma e produz uma espécie de legalismo ou de ‘realismo

formação de possíveis professores do ensino superior devem preocupar-se com moral’, no qual os atos não são avaliados em função das intenções, mas de sua

uma aprendizagem que prioriza a exposição de ideias e a participação ativa dos concordância externa coma regra” (PIAGET, 1983c, p. 117).

alunos.
A atuação de docentes sem uma qualificação pedagógica pode acarretar Do ponto de vista intelectual isso provoca graves consequências: não só tudo

problemas de aprendizagem para os alunos da graduação. Bireaud (1995) relata que é “imposto” pelo adulto se torna verdade, assim como isso retarda os processos de

o isomorfismo, segundo o qual, o estudante que se torna docente reproduzirá as correspondência lógica que supõem o esforço pessoal e o controle mútuo.

práticas pedagógicas utilizadas por seus formadores durante o período de Em contraposição, a cooperação leva a uma ética de solidariedade e de

graduação na universidade. Tal fenômeno ocorre com frequência no ensino reciprocidade, em oposição à simples obediência às regras impostas. Não só em

superior e outros níveis de ensino, de acordo com o relatório da Organization relação ao conteúdo, isso modifica a questão de justiça, mas também em relação

pour La Coopération et Le Dévelopment Économique (OCDE), contando com ao ponto de vista intelectual já que investe em uma crítica mútua e a uma

30 países, exclusive o Brasil. Cabe lembrar que a formação pedagógica não é objetividade progressiva.

exigência para contratação ou permanência no trabalho. Mas o isomorfismo Pensar a partir do outro garante não apenas a compreensão recíproca mas

seria o bastante? E qual a garantida de que os modelos reproduzidos sempre também a constituição da própria razão, o que substitui assim o egocentrismo,

seriam os melhores para se aprender? Questões como essas mostram a resultando assim na “lógica das relações”, que liberta a criança das ilusões do

importância de uma formação pedagógica para os docentes de diferentes áreas egocentrismo e da autoridade adulta mal-compreendida.

do ensino superior, principalmente aqueles cujos saberes pedagógicos não são A principal função do self-government é contribuir para a descentração:

abordados em nenhum momento da formação. “O self-government é um procedimento de educação social que tende, como

De acordo com a análise de Gauthier e colaboradores (1998), pouco se todos os outros, a ensinar indivíduos a sair de seu egocentrismo para

sabe sobre o oficio de ensinar, desde a sua origem grega, na antiguidade, e por colaborarem entre si e a se submeter a regras comuns” (PIAGET, 1983c, p.

toda parte do mundo. Os autores expõem, ainda, a ideia do ofício sem saberes, 119).

contrária a outros ofícios que necessitam desenvolver conhecimento específico O tripé, egocentrismo do indivíduo, coerção dos mais velhos e cooperação

ou um corpus de saber. Segundo os autores, o ensino tarda na reflexão sobre si entre os iguais é essencial para a compreensão e organização do self-government
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como método, o qual não é fechado, e implica as mais diversas formas de superior? O presente relato de experiência busca compreender a formação
articulação entre os três elementos antes colocados, cujos efeitos são diferentes. docente a partir do funcionamento das aulas no programa e discutir a
Piaget aponta que nas formas em que a coerção social desempenha um intervenção no cotidiano na educação. Destaca-se a importância do programa na
papel preponderante, as sanções, desempenhadas pelas crianças, diferem pouco formação do docente em relação a sua futura atuação nas instituições ou
do que ocorre em casos de autoridade adulta. Ao contrário, a cooperação coloca universidades. Para tanto, foi formulado o seguinte problema: de que maneira os
em questão o valor moral da ideia de sanção, substituindo a punição por um programas stricto sensu em educação contribuem para constituição docente,
sistema de medidas de reciprocidade que atestam a ruptura dos laços de ainda que a produção científica de conhecimento e formação do pesquisador seja
solidariedade em que consiste o ato culposo. Quanto maior a cooperação mais a sua principal característica? O objetivo é refletir sobre a importância dos saberes
sanção de afasta da punição e se aproxima da desconfiança coletiva. pedagógicos para a docência superior, principalmente para os profissionais
Desta forma Piaget conclui com duas grandes contribuições do self- graduados em bacharelados. Trata-se de um relato de experiência articulado com
government: um estudo biblioFigura, que busca compreensão sobre o processo de formar o
docente de ensino superior em diversos aspectos.
No que tange a educação moral, pode-se dizer em uma palavra que o
self-government contribui para desenvolver ao mesmo tempo a
personalidade do aluno e seu espírito de solidariedade. A FORMAÇÃO DOCENTE NO PROGRAMA STRICTO SENSU EM
Do ponto de vista da educação intelectual, o self-government
desenvolve qualidades paralelas ao que é o respeito mútuo no plano EDUCAÇÃO
moral: a compreensão recíproca e, sobretudo, a discussão objetiva,
aquela que consiste em se colocar do ponto de vista alheio para pesar
os prós e os contras das opiniões contestadas (PIAGET, 1983c, p. 126- A graduação na área de ciências exatas, considerando o curso específico
127).
de Engenharia Têxtil, prioriza a difusão e aplicação dos conhecimentos
O desenvolvimento em defesa do self-government proposto por Piaget tem
científicos e tecnológicos na prática, em escala industrial, não considerando a
íntima relação com a questão da convivência social. A seguir exploraremos tais
opção de formação em docência. Possivelmente, mais prejudicial que não
questões dentro do contexto da defesa feita por Piaget em relação ao trabalho em
estudar os saberes pedagógicos durante a formação, é a constituição de preceitos
grupo.
no decorrer do aprendizado. Durante diversas situações, é exigido do aluno um
A defesa de Piaget em relação ao trabalho em grupo aparece em
comportamento disciplinar, mecanicista e passividade no acompanhamento de
Observações Psicológicas sobre o Trabalho em Grupo, texto publicado em
raciocínios, muitas vezes abstratos, sobretudo das particularidades do curso,
1935 (PIAGET, 1998c). Segundo Piaget a introdução e o desenvolvimento do
limitando sua participação apenas em tarefas propostas ou impostas,
uso de pequenos grupos em sala de aula para a execução de atividades, que se dá
transferindo, assim, o papel de contribuir e educar para uma formação docente
principalmente após 1918, é resultado de uma dupla preocupação:
com domínio de conhecimentos específicos, científico e metodológico aos
primeiramente a necessidade político ideológica de se desenvolver a vida social
programas de stricto sensu.
em classe, e em segundo lugar a preocupação em respeitar a atividade

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habilitação para o exercício do magistério superior deve ser obtida em espontânea da criança, já que esta espontaneamente tende à vida coletiva e ao
programas de Mestrado ou Doutorado”, artigo 66 da Lei de Diretrizes e Bases da trabalho em comum.
Educação Nacional (BRASIL, 1996). Para avaliar os métodos de trabalho em grupo, Piaget aponta a
Os programas de pós-graduação em Educação, que na representação de necessidade de compreensão de três, emergentes, aspectos referentes à
docentes da universidade significam uma alternativa de formação pedagógica, psicologia infantil em confronto com o trabalho em grupo.
normalmente atraem professores de diversas áreas com o intuito de satisfazer Em primeiro lugar, o egocentrismo inicial só é ultrapassado na medida em
seus interesses no campo da docência, mesmo que nem sempre essa formação que a criança aprende a conhecer o outro. É pelo atrito, pelo conflito e
seja reconhecida ou valorizada por seus pares (SOARES; CUNHA, 2010). Nas compreensão mútua que o sujeito se compreende como sujeito. A formação da
ciências exatas, o foco de formação é a pesquisa e tecnologia, e, por se tratar de personalidade é um diálogo entre a tomada de consciência de si e o esforço para
cursos de bacharelados e áreas tecnológicas responsáveis pelo desenvolvimento, situar-se no conjunto. Isso implica que uma relação pedagógica baseada na
não existe um delineamento para a formação de docentes durante o período de transmissão e na autoridade do professor não serão capazes de articular tal
graduação. A formação docente de ensino superior, frequentemente, torna-se contexto.
responsabilidade dos programas stricto sensu, quando procurados pelo docente. Em segundo lugar, a cooperação, permite a objetivação do mundo. A
É durante as aulas do programa que se espera o preenchimento da lacuna cooperação faz com que o indivíduo renuncie a seus interesses próprios para
originada na graduação. Anseia-se pela apropriação de toda a produção de pensar em função da realidade comum enquanto o hábito de colocar-se no lugar
conhecimento durante as aulas, e se espera que o todo seja satisfatório e do outro leva a inteligência a dissociar o real das ilusões antropocêntricas.
contribua na formação dos que tomaram para si a incumbência de partilhar, O terceiro grande aspecto é que a lógica constitui-se como um conjunto de
construir e reconstruir o conhecimento, transcendendo como ser humano, regras e normas, as quais não são inatas, sendo a cooperação fonte de tais regras
possibilitando respeito e oportunidade na educação. para o pensamento. Pensar em função de todos, e não mais somente de si
O programa de Mestrado em Educação pertencente à Universidade mesmo, impõe a necessidade de se permanecer fiel às próprias afirmações e
Estadual de Londrina – UEL contém em seu programa disciplinas que visam estar de acordo consigo mesmo. Eis que a cooperação acaba por influenciar a
estudar assuntos didático-pedagógicos com foco na formação docente, inicial e constituição de um sistema normativo.
continuada, possibilitando a graduados de áreas advindas ou não da pedagogia Bem, o que isso definitivamente implica em questões pedagógicas
discutirem a atuação do docente em diferentes esferas escolares. Permite concernentes à sala de aula? Piaget aponta então para o fato de que em salas
reflexões e construções, ainda que agregadas de visões díspares, mas numerosas, repletas de alunos, é difícil para o professor “fazer tudo para todos”.
enriquecidas, oriundas das experiências prévias de profissionais das demais Eis o risco recorrente de que aqueles de personalidade mais fechada persistam
áreas não pedagógicas. em uma atividade egocêntrica. Sendo o sistema normativo, um sistema
Mas afinal, qual a relevância da contribuição dos programas de pós- sociologicamente construído, o baixo rendimento escolar de determinados
graduação stricto sensu para a formação docente nas diferentes áreas de ensino grupos é em fato decorrência de uma inadaptação social.
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Entenda-se aqui que o sistema de normas constituído nesta visão não é (conhecimentos prévios). Mas se esse processo for estabelecido mecanicamente,
aquele imposto pela autoridade de modo coercitivo, mas o ponto de chegada a incorporação e atribuição de significado do conteúdo serão armazenadas por
proposto é evidentemente a ideia de um sistema normativo em função da meio de associações arbitrárias a sua estrutura cognitiva, tornando o processo
cooperação. como um todo ineficaz, conforme relata Ausubel (1982).
Desta forma: o trabalho em grupo apresenta decisivamente um progresso Essas considerações remetem à questão da formação do docente do ensino
e suscita um desenvolvimento intelectual? Assim como self-government, o superior. A docência envolve problemas específicos: a transposição didática do
trabalho em grupo admite diversas formas de organização e consequentemente conhecimento específico, a organização de atividades que facilitem a
diversos resultados. O trabalho em grupo é essencialmente ativo, embasado em compreensão e transferência de conhecimentos, a vinculação entre teoria e
interesses internos. Se o objetivo for memorizar dados e resolver problemas prática e a avaliação do processo de aprendizagem. Toda essa trama complexa
advindos de fora, em modelo de exame prescritivo baseado em um modelo de funções requer uma formação específica e diferente daquela formação de
normativo coercitivo em que o professor constitui o pólo detentor, o trabalho em base, que confere legitimidade ao professor universitário (DONATO, 2007). A
grupo constitui-se definitivamente como um obstáculo. questão que se coloca é: que formação proporcionar a esse docente? Segundo
Percebe-se aqui a importância que Piaget dá ao trabalho em grupo em sua Ferry (1990, p. 98–99 apud DONATO, 2007, p. 131):
função descentradora ao colocar o indivíduo em contato com o outro. Podemos
Quando se fala de formação, fala-se de formação profissional, de
nos questionar se a ciência, em sua relação peculiar com o mundo, cuja principal colocar-se em condições para exercer práticas profissionais. Isso
supõe muitas coisas: conhecimentos, habilidades, certa representação
posição é posicionar-se em distanciamento do mundo, tratando de objetivá-lo do trabalho a realizar, da profissão que se vai exercer, concepção do
papel e imagem do papel que se vai desempenhar etc. Essa dinâmica
não traria contribuições, justamente em relação a esta objetivação do mundo de formação, essa dinâmica da busca da melhor forma é um
para o sujeito. desenvolvimento da pessoa, orientado segundo os objetivos que ela
busca e de acordo com sua posição. Por um lado a pessoa forma a si
Piaget também nos traz uma resposta a esta questão, tendo em vista, que mesma, mas se forma somente por mediação. As mediações são
variadas, diversas. Os formadores são mediadores humanos, assim
para o estudo da construção das noções científicas, o epistemólogo sempre se como as leituras, as circunstâncias, os acidentes da vida, a relação com
os outros. Os dispositivos, os conteúdos da aprendizagem, o currículo
apoiou na filosofia da ciência e na história da ciência. Tal posição é encontrada não são a formação em si, mas os meios para a formação. Isso supõe
em Observações psicológicas sobre o ensino elementar das ciências naturais intenção de mudança e ruptura de formas de entender o conhecimento
e o processo de ensino e de aprendizagem e uma intervenção por parte
(PIAGET, 1998a). dos docentes que facilite o processo de reflexão pessoal e grupal.

Piaget (1998a) admite uma posição bastante positiva em relação ao ensino São necessárias, segundo Ferry (1990 apud DONATO, 2007), condições
de ciências. Para ele, se um dos objetivos essenciais do ensino é a formação da de tempo e lugar para realizar esse trabalho sobre si mesmo. Daí a importância
inteligência ativa, crítica e construtiva, então o ensino de ciências passa a ser dos programas de mestrado em Educação para a formação do docente do ensino
cada vez mais importante, pois a educação científica favorece a livre atividade e superior. A habilitação para a docência, nesse nível, como previsto em lei, é
enfoca o aspecto experimental de atividade do sujeito em relação ao mundo, em adquirida por meio da frequência a mestrados e doutorados que possibilitem o
distinção ao aspecto dedutivo ou matemático. aprofundamento do conhecimento em uma área específica de atuação: “A
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completo, o de buscar o exercício da crítica, oposição e resistência, tendo como Assim, evocando resultados de pesquisa Piaget admite que se o ensino de
desígnio a formação de uma sociedade igualitária e mais justa, constituindo ciências interessa aos alunos entre 7 e 12 anos quando este é desenvolvido
fundamentalmente um melhor indivíduo para a sociedade. dentro de uma perspectiva de pesquisa é porque ele vai ao encontro daquilo que
Para Goergen (2006), no mundo contemporâneo, o mercado de trabalho se identifica a tendência mais profunda do desenvolvimento intelectual. A
tornou influenciador no delineamento substancial de pesquisas, discursos, correlação entre o desenvolvimento natural das noções e os métodos de
currículos dos cursos, conteúdo das disciplinas, entre outros. Delimitando o caso iniciação á investigação científica parece a Piaget direta.
da graduação nas ciências exatas, bacharelado em engenharia têxtil, há a A melhor compreensão desta relação se dá introduzindo uma distinção
necessidade de um currículo voltado à ciência, imprescindível para a fundamental entre dois modos de pensamento que se pode observar na criança:
transposição de conhecimento específico à área. Mas é perceptível que, • O pensamento verbal, separado de toda ação que opera por ocasião do
independentemente da área de atuação, desde cedo se avalia o que se aprende ou simples espetáculo, contemplados de fora, ou mesmo nos discursos alheios
ensina à luz da real ou suposta utilidade, principalmente em se tratando de – responsável por representações míticas.
ensino superior, quando os alunos já estão prestes a ingressar no mundo • O pensamento instrumental ou operatório, que opera por ocasião de
corporativo. manipulações ou experiências que consiste em coordenar entre si operações
Muitas vezes, não é proporcionada uma aprendizagem significativa, mas ou ações - responsável pela construção de noções cinemáticas, mecânicas,
somente a replicação mecânica de conteúdos que, para esse autor, apenas reflete raciocínios propriamente científicos. Não que se aprenda meramente pela
na aplicação direta entre o que se ensina ou se pesquisa e seu uso prático, avulso experiência, mas que ao experimentar podemos colocar questões que serão
a uma avaliação ética ou social. Devemos considerar, ainda, que os mundos motivadoras e problematizadoras de reflexões teóricas.
empresarial e acadêmico, mesmo que relacionados, vislumbram distinções.
Enquanto o mundo corporativo está voltado aos produtos, no qual se destacam a Para Piaget (1998a), o conhecimento físico supõe a existência de
eficiência, o lucro e resultados imediatos, a perspectiva do mundo acadêmico invariantes, que se conservam ao longo de transformações observáveis. Em toda
tem como sinônimos o longo prazo, o presente e futuro na expectativa holística, etapa do pensamento racional as mudanças são concebidas em função da
e que não se preocupa apenas com o indivíduo, mas com a construção da identidade. E em todo contato que a criança tem com o mundo real a partir de
sociedade em sua totalidade. objetos reais manipuláveis, ela principia empreendendo pela constituição de
O docente deve ter a consciência de adequar subsídios teóricos e práticos invariantes operacionais, através da ação, da operação.
cuidadosamente, proporcionando consciência da importância da aprendizagem, É assim que agindo sobre as coisas (por exemplo: questões cinemáticas)
além de explorar a importância da profissão desenvolvida. O processo de operando bolotas de massinha, mudando e retomando a forma, a partir da
aprendizagem se torna muito mais significativo no momento em que o novo identidade e da reversibilidade, que a criança poderá compreender que a massa é
conteúdo é incorporado às estruturas cognitivas de conhecimento do discente e constante, neste processo. A operação inversa é a prova da conservação do
contrai maior significado devido aos seus conhecimentos anteriores objeto. É assim também que a manutenção do peso, se dá, a partir da
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constatação da reversibilidade com invariância. E assim se dá também com o O STRICTO SENSU COMO TEMPO E ESPAÇO DE FORMAÇÃO
volume. DOCENTE: A EXPERIÊNCIA DE UM BACHAREL EM ENGENHARIA
Ao comparar as construções advindas de tal procedimento, Piaget nos traz TÊXTIL
que no caso das operações verbais, não há manutenção do raciocínio, mas para
cada uma das noções eles tem que ser redescobertos ou reconstruídos. Fabio Alexandre Pereira Scacchetti
Assim, para Piaget: Maura Maria Morita Vasconcellos

É fácil imaginar tudo o que as crianças, depois de terem elaborado


essas soluções, aprenderão para o resto da vida, se colocarmos nas
mãos delas os instrumentos de verificação efetiva (balanças, INTRODUÇÃO
microscópios etc.) e se as ajudarmos a generalizar as operações
empregadas até lhes fornecer as bases de uma físico-química
elementar. Considera-se fundamental a participação das instituições de ensino
Pode-se imaginar em que medida o ensino posterior da física e a
solução dos problemas matemáticos correntes podem ser superior no desenvolvimento científico e tecnológico de uma nação. As
simplificados quando a criança detém, graças a essas pesquisas ativas,
um conjunto de esquemas concretos que podem servir de instituições têm como uma de suas atribuições contribuir com a formação de
subestruturas para as deduções abstratas posteriores (PIAGET, 1998a,
p. 173-174). profissionais para inseri-los no mundo do trabalho, e também formar
pesquisadores e professores, almejando potencial para produção e disseminação
Tendo em vista esta correlação entre a organização física do mundo e os do conhecimento, por meio de pesquisas e publicações, contribuindo com a
aspectos psicológicos do desenvolvimento da criança Piaget é capaz de traçar formação de profissionais que possam cooperar com o desenvolvimento e
uma defesa para os métodos empregados no ensino de ciências, a partir dos avanço científico tecnológico do país.
dados advindos de estudos psicológicos: As instituições ou organizações objetivam formar pessoas que tenham a
Na educação das crianças, os objetos são mais importantes que as capacidade de transformar o conhecimento científico produzido em benefícios
palavras”, dizem as recomendações oficiais irlandesas, e “não é tanto
o conhecimento dos fatos que importa mas o caminho seguido para para a sociedade. Estão diretamente envolvidas com a pesquisa, principalmente
adquirir os conhecimentos”, dizem-nos lá do Transvaal. São estes,
parece-nos, o alfa e o ômega de uma didática fundada sobre a por meio dos programas de stricto sensu. Dessa forma, Botomé e Kubo (2002)
psicologia (PIAGET, 1998a, p. 178).
afirmam que os programas de mestrado e doutorado têm um papel fundamental
na garantia do potencial de conhecimento, tecnologia e aprendizagem de nível
Piaget analisa o ensino das ciências experimentais e observa uma falha
superior no país. Contudo, Goergen (2006) ressalva que o compromisso social
das escolas tradicionais, o fato de negligenciarem na formação dos alunos a
das universidades não evidencia que as mesmas devam estar sempre a serviço de
experimentação. Não que se aprenda meramente pelas experimentações, pois há
exigências e interesses da conjuntura socioeconômica vigente.
uma atividade do sujeito que constrói ativamente o conhecimento. Uma
A universidade não deve se dispor a atender as vantagens e interesses
experiência que não seja realizada pela própria pessoa, com plena liberdade de
privados do sistema. O real compromisso está num contexto social mais amplo e
iniciativa deixa de ser uma experiência, transformando-se em simples
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REFERÊNCIAS adestramento, destituído de valor formador por falta da compreensão suficiente.


Lembremos que o princípio fundamental dos métodos ativos é a compreensão
PIAGET, J.. La representación del mundo en el niño. Madrid : Morata, 1973.
ativa e a reinvenção constante do conteúdo ensinado.
________. A epistemologia genética: sabedoria e ilusões da filosofia. São
Paulo: Abril Cultural, 1978. Acerca do ensino de Ciências, é preciso ainda insistir em um ponto
central, mas que se restringe essencialmente aos níveis secundários e
________. A construção do real na criança. São Paulo: Ática, 1996.
universitários, o aspecto cada vez mais interdisciplinar que assume
________. Observações psicológicas sobre o ensino elementar das ciências
naturais. In: PIAGET, J.. Sobre a pedagogia. São Paulo: Casa do Psicólogo, necessariamente a pesquisa em todos os domínios. Piaget é um dos primeiros
1998a. que coloca como indispensável para a formação dos professores e dos alunos a
________. Observações psicológicas sobre o self-government.. In: PIAGET, J.. História e Filosofias das Ciências.
Sobre a pedagogia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998b.
Piaget construiu uma impressionante obra que elabora uma investigação
________. Observações psicológicas sobre o trabalho em grupo. In: PIAGET, J..
Sobre a pedagogia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998c. epistemológica original, fundamentada em fatos, produzida em cooperação com
pesquisadores das mais diversas áreas de conhecimento, de um saber que
PARRAT-DAYAN, S.; TRYPHON, A.. Introdução. In: In: PIAGET, J.. Sobre
a pedagogia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998. dialoga criticamente com as filosofias, que contribuiu com a construção de uma
psicologia científica, que permite pensar o processo de desenvolvimento e
aprendizagem no sujeito, que possibilita compreender o processo de construção
de noções científicas, que possibilitou pensar a criança e respeitá-la em sua
dignidade e liberdade etc. “Em outras palavras, também, a criança não deveria
permanecer passiva e receptiva mas deve estar a cada instante livre para
desenvolver por conta própria todos os recursos da experimentação e do método
indutivo (Checoslováquia)” (PIAGET, 1998a, p. 179).
Desta forma Piaget chama a atenção da abordagem da experimentação
que pode se dar essencialmente de duas formas:
1. Como leitura compulsória e totalmente regulada de antemão;
2. Ou a invenção pelo aluno das próprias experiências limitando-se a fazer
com que tenha plena consciência dos problemas.
Por excelência, contrário ao primado de um método indutivo, Piaget defenderá
então a adoção da segunda opção, o que enfatiza a posição ativa do sujeito. Desta
forma, ele admite que os experimentos realizados levam em conta os dados, mas que
se organizados pelas próprias crianças contribuiriam de forma pedagógica:
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Se, ao contrário, tais mensurações ou experiências forem organizadas Neste quadro, a interação entre a questão psicológica e a questão
pela criança a respeito de problemas levantados, explicita ou
implicitamente, por suas atividades anteriores (a habilidade do pedagógica é central nas defesas de Piaget em relação ao trabalho em grupo e ao
professor consistindo justamente em fazê-la tomar consciência das
questões e em provocar na criança, por uma maiêutica renovada em self-government.
funções de cada aluno, a necessidade de verificar tudo que percebe por
conta própria), então o aluno obterá bem mais do que pela simples
leitura dos fatos serão operações novas de seu espírito que ele Por fim, se a atividade científica poderia ser “culpada” de uma objetivação do
desenvolverá ao longo da pesquisa indutiva, até chegar a um método
mundo, e do distanciamento do homem em relação ao mundo é devido a própria
generalizável de coordenação dos fatos e de verificação (PIAGET,
1998a, p. 180). atividade do sujeito e não a obtenção indutiva de dados externos. Tal

Por fim, Piaget conclui que as estratégias de experimentação, atreladas à uma objetivação do mundo e sua manipulação são parte integrante de um processo

concepção de sujeito ativo, admitem ainda a necessidade de uma arquitetação que assimilamos as coisas ao nos modificarmos (acomodação) e só nos

social, ou seja, o trabalho em grupo, já que a discussão conjunta convoca a modificamos assimilando coisas novas (posição extremamente dialética, na qual

colaboração de pesquisadores, a cooperação intelectual que é necessária a o desenvolvimento depende de um mundo já todo dado que será todo assimilado

organização das próprias operações individuais, como já colocamos em relação pelo sujeito.

ao método de trabalho em grupo.


Somente mais um fato nos parece emergencialmente considerável ao final
deste trabalho e ao mesmo tempo o mais importante. Considerando-se toda a
CONSIDERAÇÕES FINAIS
defesa de uma área de Ensino de Ciências, especificamente em relação aos
Se a Epistemologia Genética pode trazer contribuições para a Pedagogia, métodos investigativos e a proposição de experimentos como método
é o próprio Piaget o responsável por elucidar tais contribuições ao defender o educacional, a emergência de tal discussão como parte de uma defesa para a
self-government, o trabalho em grupo e o ensino de ciências, que se autonomia do indivíduo não é de fato recente. Ressaltamos aqui que as
interconectam para um só objetivo, a descentração do sujeito egocêntrico. discussões acima propostas datam de anos anteriores ao início da década de 30.
O trabalho em grupo implica a livre colaboração e a cooperação, assim Assim nos perguntamos ao final: não deveria ser Piaget, alvo de uma série de
contribui para reduzir o egocentrismo, desenvolvendo a personalidade. Mas o novas reflexões?
trabalho em grupo não obterá seus resultados se a pedagogia imposta ao grupo
for a da transmissão autoritária. Assim a outra técnica defendida é o self- AGRADECIMENTO

government, o qual confia às crianças a organização da disciplina escolar. É o


Os autores agradecem à CAPES pelo financiamento desta pesquisa, através da
self-government o responsável por operar um caminho de intercâmbio entre
concessão de bolsa PDSE. Bolsista da CAPES – Processo nº
professor e aluno.
99999.013835/2013-00.

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