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UNIVERSIDADE VIRTUAL DO ESTADO DE SÃO PAULO

UNIVESP

Licenciatura em Pedagogia

DIREITOS HUMANOS:
O AMBIENTE ESCOLAR A LUZ DOS DIREITOS HUMANOS

SÃO PAULO
2017
UNIVERSIDADE VIRTUAL DO ESTADO DE SÃO PAULO
UNIVESP

Gildezio Ribeiro Rocha – RA 1708961


Jaqueline Rodrigues Lopes – RA 1713766
João Carlos de Souza – RA 1715143
Marco Aurélio da Silva Cruz – RA 1706871
Regiane Cardoso de Morais – RA 1709521
Rosana Aparecida Marcondes – RA 1702661
UNIVERSIDADE VIRTUAL DO ESTADO DE SÃO PAULO
UNIVESP

A FALTA DE ESTRUTURA NO AMBIENTE ESCOLAR:


UMA DISCUSSÃO DA QUALIDADE DOS DIREITOS HUMANOS

Projeto integrador apresentado ao Curso Superior de


Licenciatura em Pedagogia da Universidade Virtual
do Estado de São Paulo, em cumprimento às
exigências legais como requisito parcial à
obtenção do título de licenciado em Pedagogia.
Tutor Presencial: Professor Daniel Laporta.

SÃO PAULO

2017
RESUMO

O presente trabalho analisa os Direitos Humanos, suas características,


conceito e trajetória histórica, com uma visão voltada ao ambiente escolar,
abordando a inércia do setor público principalmente em relação às escolas
distantes dos grandes centros, gerando desigualdades e afetando
diretamente a vida dos alunos, professores e usuários da escola. Parte da
análise foi feita de forma prática em escola pública, levando-se em conta os
problemas reais vivenciados, onde são relatados problemas estruturais, de
saúde pública e espaços extremamente reduzidos em decorrência da
construção de um prédio novo, onde seriam as novas instalações dos alunos
iniciada em 2012, mas que se arrasta por quase cinco anos, encontrando-se
ainda sem conclusão e em processo de deterioração, provocando um cenário
que leva ao cerceamento dos Direitos Humanos relativos a um dos direitos
sociais mais inerentes ao desenvolvimento humano, que é a educação
escolar, comprometimento da sua qualidade, ruptura de currículo escolar, a
evasão e o desestímulo dos profissionais que ali atuam.

Palavras-chave: Direitos Humanos. Qualidade na educação. Inércia estatal.


Desigualdade Social.

ABSTRACT

This study analyzes Human Rights, its characteristics, concept and historical
trajectory, with a vision focused on school environment, showing the public
sector’s impartiality, most specially when it comes to schools far from citie's
big centers, creating inequalities and directly affecting student’s lives, their
teachers and school users. Part of the analysis was made in a practical way in
a public school, considering the actual experienced issues, where there are
reported structural, public health and tiny spaces problems, as a result of the
new building construction, where would have been the new facilities for the
students , wich have began in 2012, but has not been completed yet, even after
five years. It is still incomplete and in the process of deterioration,
disrespecting the most important Human Rights, concerning to one of the
social rights and most intrinsic to human development, wich are the school
education, the commitment with it's quality, the rupture of school curriculum,
the evasion and discouragement of it's proffesionals.

Keywords: Human Rights. Quality in education. State inertia. Social inequality.


SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO 6
2. OBJETIVO GERAL 7
2.1. OBJETIVOS ESPECÍFICOS 7
3. JUSTIFICATIVA 8
4. A CONFIGURAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS 8
5. EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS NO BRASIL 9
6. LEGISLAÇÃO E DIREITOS HUMANOS NA EDUCAÇÃO ESCOLAR 10
7. UM OLHAR SOBRE A REALIDADE DA ESTRUTURA EDUCACIONAL 11
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS 15
9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 17
1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem como temática a importância dos direitos


educacionais, entendidos aqui de maneira integral, com a apresentação de locais
com infraestrutura apropriada para receber alunos, professores, comunidade, enfim,
todos aqueles que dão vida e movimento ao espaço físico estrutural, base para
todas as etapas do ato pedagógico.
Tais direitos, embora garantidos na Constituição e ratificados por meio de
acordos supranacionais, respaldados na Declaração Universal dos Direitos
Humanos, ainda estão longe de atender às especificações exigidas para que o
processo de aprendizagem, na busca da formação de um cidadão integral,
característica principal da educação escolar, aconteça de maneira satisfatória,
principalmente para os alunos de escola pública no período da educação básica.
A questão da melhoria da educação, tema de longa data no cenário
brasileiro, apresenta diferentes problemas educacionais, principalmente, quando
falha nos princípios mais evidentes, como o de oferecer uma infraestrutura
adequada à escola, lugar que aspira o mínimo para formar um aluno/cidadão,
sujeito crítico de sua própria realidade.
Ao desenvolver este trabalho, buscamos diálogos com o processo de
consolidação dos Direitos Humanos que não aconteceu de maneira natural, mas,
sim, como fruto de reivindicações históricas dos grupos excluídos e excessivamente
explorados, que reivindicavam, entre outras coisas, o direito à educação.
Ao estudar a ausência de condições que interfere diretamente no espaço
físico, impactando substancialmente os processos de aprendizagem, nos ajudará a
pensar em alternativas que buscam referenciais nos Direitos Humanos para que as
escolas se tornem ambientes agradáveis para seus alunos, professores e
funcionários.
Nos dias de hoje, as escolas nem sempre são consideradas como ambientes
estimulantes para a aprendizagem dos alunos. Com a observação do espaço físico
podemos identificar questões e desafios a fim de contribuir para a qualidade da
educação.
O objetivo deste estudo é pensar o espaço escolar e suas repercussões na
aprendizagem, considerando a perspectiva do professor como mobilizador de
recursos essenciais para que ocorra a aprendizagem, mas que entende as
limitações e adversidades impostas ao seu trabalho.
Na Tentativa de perceber as condições do ambiente escolar; elaboramos
uma pesquisa de campo, realizada em uma escola municipal na cidade de São
Paulo/SP, que abrange os anos iniciais do ensino fundamental de nove anos. As
ferramentas utilizadas para reflexão neste trabalho foram: pesquisa de campo,
questionário e entrevista aberta com professores e gestores.

2. OBJETIVO GERAL

● Discutir a importância da qualidade dos espaços físicos no ambiente escolar


na realização da plena garantia dos direitos educacionais, aprovados
constitucionalmente e reforçados nos ideais exigidos pelos Direitos Humanos.

2.1. OBJETIVOS ESPECÍFICOS

● Resgatar a importância do ambiente escolar à luz dos Direitos humanos;

● Conhecer a realidade da escola pública na cidade de São Paulo/ SP através


da sua estrutura física e da atuação docente;
● Verificar os impactos causados pelas más condições da infraestrutura
escolar.

3. JUSTIFICATIVA

O presente trabalho relaciona os direitos humanos com a educação trazendo


ao cenário as inércias do poder público, onde tais omissões violam os direitos
humanos, uma vez que é dever do estado proporcionar a todos uma educação de
qualidade. Os impactos aqui gerados afetam não só os estudantes de todos os
níveis de educação, mas também os professores e demais servidores da educação
estatal. O trabalho demonstra a importância do conhecimento dos Direitos Humanos
na garantia dos direitos educacionais e no combate aos problemas sociais
causados, principalmente aos moradores dos bairros periféricos, provocando
rupturas no currículo escolar, gerando evasão escolar, desestimulando os jovens e
podendo condená-los ao fracasso acadêmico e ao mercado de trabalho.

4. A CONFIGURAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS

A princípio, como salientam Hoy e Haddad (2005, p. 6), lembremos que os


direitos humanos1:
constituem um conjunto de princípios aceitos universalmente, reconhecidos
pelas Constituições dos diferentes países e garantidos através de normas
jurídicas. Eles objetivam assegurar o respeito à dignidade de todos e
todas. O respeito à dignidade, por seu turno, envolve considerar as
dimensões: individual, social, material e espiritual das pessoas.

A configuração atual dos direitos humanos deve ser estreitamente


relacionada aos grandes acontecimentos históricos que remontam ao século
XVII, com os grandes conflitos deflagrados pelas ideias iluministas, até as
transformações sociais provocadas pelo advento da Revolução Industrial,
propiciando uma intensa produção de inovações científicas e tecnológicas,
características fundamentais, presentes até os dias atuais. Todavia, tomaremos
como ponto de partida a segunda Guerra Mundial (1939 até 1945). Este
importante evento de proporções globais trouxe profundas transformações nos
Direitos Humanos, uma vez que ali foram cometidas barbares e genocídios contra
povos e raças.
Com o final da Segunda Guerra Mundial, reuniram-se em uma conferência,
representantes de cinquenta países com o propósito de evitar que eventos como

1
Direitos Humanos: Uma abordagem Conceitual. Escola de Gestores Educação Básica. Disponível
em: <http://escoladegestores.mec.gov.br/site/3-sala_fundamentos_direito_educacao/pdf/unidade1.pdf>Acesso
em 10 dez. 2017.
estes tornassem a se repetir. Em 10 de dezembro de 1948, em uma comissão
criada, foram codificados os trinta artigos da “Declaração Universal dos Direitos
Humanos”. Contexto presente na obra de Marcos Mondaini:

Elaborada por uma comissão específica da recém-criada, em 1945,


Organização das Nações Unidas (ONU), a Declaração foi redigida com o
intuito de proclamar definitivamente os direitos fundamentais da
humanidade, o respeito inviolável à dignidade da pessoa humana. Com
ela passa o acúmulo de três níveis diferenciados de direitos, a saber, os
direitos civis, os direitos políticos e os direitos sociais, além de ter sido
dado um decisivo passo na direção da afirmação dos direitos dos povos
(MONDAINI, 2016, p.142).

Todavia, quando falamos em direitos humanos não podemos nos ater


somente nas questões de guerras, genocídios, atrocidades, etc., mas, também,
pela omissão do estado nas diversas áreas sociais que afetam diretamente a
população, como, por exemplo, no caso da educação, enfoque principal do
presente trabalho.

5. EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS NO BRASIL

Ao abordar a questão dos Direitos Humanos e atrelá-lo ao campo da


educação faz-se necessário uma reconstrução histórica dos seus conceitos e da
sua estreita relação com os contextos políticos e sociais em que foram
construídos, buscando sempre os conflitos e contradições produzidos nessa
relação.
Por isso, resgatar a questão dos Direitos Humanos é percorrer os caminhos
das revoluções que provocaram mudanças no campo político, econômico, social
e cultural, é reconhecer que a formulação de tais têm sua fundamentação nos
embates da experiência humana e através das profundas modificações na
realidade sócio-histórico-cultural.
Como já dito, a evolução da noção de Direitos Humanos acompanhou os
avanços das ideias iluministas que, atrelado à formação dos Estados-Nação,
configurou-se em uma série de direitos individuais. Com a consolidação da
Revolução Industrial e as diversas mudanças acarretadas por ela, novos direitos
começam a ser reivindicados por uma população excessivamente explorada nas
fábricas e que mora em péssimas condições nas metrópoles europeias. A
educação escolarizada toma corpo e dinamiza-se em um momento onde o
Estado é chamado a cumprir seu papel na garantia dos direitos sociais.
Neste contexto, a educação atrelada ao Estado é entendida como um bem
essencial, que hora pode ser entendido como aparelho ideológico de doutrinação
estatal ou, de outro lado, como meio de transformação social.
No Brasil, o processo educacional aconteceu intimamente ligado aos ideais
de doutrinação, dado que em seus primórdios, visava colaborar com o processo
de colonização, característica predominante em boa parte da história do Brasil.
Mesmo assim, podemos afirmar o caráter socializador da educação que, ao
sistematizar e disseminar os conhecimentos historicamente acumulados dialoga e
apresenta os valores civilizatórios de uma sociedade. Valores que, no Brasil,
provocaram, por um lado, aspirações de desenvolvimento integral do ser
humano, em suas perspectivas cognitivas, sociais, culturais e afetivas, essenciais
na formação de um cidadão com plena capacidade ao convívio social, mas que,
por outro, excluiu durante muito tempo um grande contingente de pessoas, por
conta da sua cor, do seu gênero, da sua classe social, etc.
Com a entrada do Brasil na modernidade, caracterizada por sua
industrialização tardia e pelos reflexos do seu caótico processo de urbanização, a
educação institucional e, portanto, a escola recebe papel de destaque na
construção de uma sociedade moderna e produtiva, que compactuam das
mesmas identidades e valores sociais.
Porém, é necessário destacar que a educação escolar brasileira é fruto de um
constante embate de ideias e conflitos, que vieram por colaborar com as
aspirações de uma educação que incorpore todos os segmentos sociais, na
tentativa, ainda falha, de superar as exclusões históricas, que tanto colaboraram
para o agudo quadro de desigualdades sociais, particularidade essencial para
entender os atuais problemas nacionais.

6. LEGISLAÇÃO E DIREITOS HUMANOS NA EDUCAÇÃO ESCOLAR

Já evidenciamos a importância da educação escolar na formação de um


indivíduo que tenha plena capacidade de dialogar, entender e intervir criticamente
no meio social onde vive. Apontamos, também, a importância da garantia dos
direitos humanos para que se concretizem todos os potenciais de superação das
desigualdades, preconizados pelo Estado através da educação escolar.
Porém, cabe lembrar que historicamente em nossa sociedade, o Estado
atuou, quase sempre, de maneira insuficiente na garantia de direitos
fundamentais e na promoção e valorização do indivíduo enquanto cidadão. São
muitos os exemplos em que podemos apontar as falhas do Estado em garantir
aquilo que é básico como a moradia, o bom atendimento à saúde, distribuição de
renda e, talvez, aquilo que seja o bem mais importante no mundo moderno: o
direito a uma boa educação.
Com a promulgação da Constituição de 1988, a educação recebeu status de
direito social, presente nos artigos 205 a 214, atendendo ao acordado no Pacto
Internacional dos Direitos Econômicos, sociais e Culturais, onde no artigo 13,
segundo Castilho, é demonstrado com maior clareza:

Os Estados Partes no presente Pacto reconhecem o direito de toda pessoa


à educação. Concordam que a educação deverá visar ao pleno
desenvolvimento da personalidade humana e do sentido de sua dignidade e
fortalecer o respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais.
Concordam ainda que a educação deverá capacitar todas as pessoas a
participar efetivamente de uma sociedade livre, favorecer a compreensão, a
tolerância e a amizade entre todas as nações e entre todos os grupos
raciais, étnicos ou religiosos e promover as atividades das Nações Unidas
que em seu artigo 26 já estabelece o direito à educação, tendo como
objetivos principais o pleno desenvolvimento da personalidade humana e o
fortalecimento dos Direitos Humanos em prol da solidariedade entre os
povos e a manutenção da paz. (CASTILHO, 2016, P.100-101)

Na declaração universal dos Direitos Humanos, as garantias da educação


estão inseridas no artigo 26 in verbis:
Artigo 26° 1. Toda a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser
gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O
ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional dever ser
generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos
em plena igualdade, em função do seu mérito. 2. A educação deve visar à
plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos
humanos e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão,
a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou
religiosos, bem como o desenvolvimento das actividades das Nações
Unidas para a manutenção da paz. 3. Aos pais pertence a prioridade do
direito de escolher o gênero de educação a dar aos filhos.

No Brasil, as violações dos direitos humanos no ambiente escolar são


recorrentes. As estruturas escolares são de péssima qualidade, não há um
padrão de escola no estado, pois podemos encontrar boas escolas em algumas
áreas e péssimas em outras localidades, chegando até faltar materiais essenciais
para a higiene pessoal.
A discussão sobre Direitos humanos, pensando em uma educação para
garantir os direitos, deve ser feita de modo a contemplar os indivíduos como um
todo, na sua integralidade. O aluno deve ter por completo todas as garantias do
Estado quanto à educação, não importando a cor da pele ou condição social, seja
nas áreas nobres ou nas periferias, a qualidade de vida na escola deve ser a
mesma, e não basta dar uma carteira, dar refeição, dar a sua vaga em uma
escola, etc., isso não é garantia de direitos humanos. Devem-se proporcionar
bons espaços educativos, materiais didáticos, professores preparados, segurança
e saúde, etc. Ao garantir esses direitos, dá-se oportunidade desse indivíduo ter
um olhar mais motivador, menos preconceituoso, o faz sentir que está inserido
dentro de um projeto social educativo com qualidade.

7. UM OLHAR SOBRE A REALIDADE DA ESTRUTURA EDUCACIONAL

Uma educação de qualidade perpassa por uma série de fatores, como


professores qualificados e bem remunerados, a participação da comunidade, uma
boa infraestrutura escolar, etc. Por isso, parece prudente dizer que quanto melhor
a infraestrutura escolar, melhor será o ambiente de estudo, favorecendo o aluno
em seu processo de aprendizagem e colaborando com os apontamentos de
Sátyro (2007) ao destacar que “a infraestrutura escolar pode exercer influência
significativa sobre a qualidade da educação” (p 03).
Neste contexto, conforme aponta Marinho (2012) a educação escolar, e sua
caracterização própria, com seus tempos e espaços definidos para realização do
ato pedagógico, torna-se, também, local privilegiado para educação em Direitos
Humanos.
Assim, compreender os impactos da infraestrutura educacional é uma ação
extremamente necessária para discutir os aspectos de qualidade da educação de
maneira mais abrangente, já que conforme apontado por Pedro Demo (2001):

[...] Está educação por sua vez, exige a construção e participação, precisa
de currículo, de prédios, de equipamentos, mas, sobretudo de bons
professores, de gestão criativa e de ambiente construtivo, participativo,
sobretudo de alunos construtivos e participativos para a qualidade se
efetivar. (DEMO, 2001, p. 21)

Considerando que muitos aspectos influenciam diretamente no cotidiano


escolar, acreditamos ser de suma importância entender como a organização dos
espaços físicos da escola (ou a ausência deles) impacta diretamente no trabalho do
professor e, consequentemente, nas ações pedagógicas que buscam um
desenvolvimento integral do aluno.
Para tanto, foi realizada uma pesquisa campo em uma escola na Rede
Pública Estadual de São Paulo, mais precisamente do bairro do Jaraguá, região
noroeste da periferia da cidade de São Paulo. A escola escolhida foi a E.E.
Professora Isabel Vieira de Serpa e Paiva, a primeira escola da região.
Inaugurada em 1950, a escola transformou-se em Grupo Escolar a partir do
DECRETO nº 26.118, de 16 de julho de 1956, assinado pelo então governador do
Estado de São Paulo, Jânio Quadros e que, segundo Abreu (2007), foi fruto de um
convênio firmado entre os governos municipal e estadual que visava acabar com o
déficit de 1.200 salas de aula na cidade, até o fim do seu IV Centenário.
Atualmente a escola funciona em dois períodos (matutino e vespertino)
atendendo alunos dos anos iniciais do ensino fundamental em suas oito (8) salas de
aula em funcionamento. Segundo os dados do Censo Escolar 2 a escola possui
cinquenta (50) funcionários e 395 alunos, que se distribuem entre os dois horários
de atendimento já citados anteriormente.
Inicialmente, organizamos uma visita para conversar com a diretora e
observar algumas características do ambiente escolar, no entanto, fomos recebidos
pela professora mediadora. Ao entrar em contato com o espaço interno da escola foi
possível perceber certa quantidade de situações adversas. Fomos informados que,
por conta de uma reforma, com o intuito de ampliação e modernização do espaço
da escola, iniciada em dezembro de 2012, com previsão de término em dezembro
de 2014, mas que, até os dias de hoje, continua inacabada, a escola está com
muitas limitações no espaço físico.
Ao observar o local, é possível verificar que os impactos causados por conta
da reforma são muitos. O isolamento de algumas áreas com tapumes impossibilita o
acesso para manutenção e asseio como, por exemplo, no corte periódico do mato,
que, além do impacto visual negativo, pode colaborar com a infestação e
proliferação de insetos que incidem diretamente na saúde pública.

2
Dados do Censo Escolar 2016. Disponível em:
<http://qedu.org.br/brasil/censo-escolar?year=2016&dependence=0&localization=0&item> Acesso em
07 dez. 2017.
Além disso, a nova arquitetura programada pela reforma compeliu a
compressão de algumas salas que, além de ficarem menores, foram reestruturadas
com paredes de compensados de madeiras que pouco protegem o ambiente,
principalmente nos dias em que faz muito calor. A biblioteca original também foi
desativada e os livros estão organizados de maneira improvisada em algumas salas
e corredores.
Outra questão constatada são as goteiras em dias de chuva, verificada em
alguns corredores. Outra questão, talvez, até mais importante, por se tratar de uma
escola que atende os anos iniciais do ensino fundamental, é que não existe mais a
quadra poliesportiva, uma vez que faria parte do prédio novo, que até o momento
não foi terminado.
Diante da situação descrita acima e colaborando com as ideias de Lima
(1998) onde o espaço produzido pelo homem interfere no processo educativo de
maneira positiva ou negativa e concordando que, as boas condições do espaço
físico escolar, entendidas aqui como direito essencial, garantido pela ratificação da
Declaração Universal dos Direitos Humanos e garantida na Constituição de 1988,
como um dos mais expressivos direitos sociais, são elementos essenciais ao
desenvolvimento escolar, elaboramos um questionário com o propósito de verificar
como a ausência de direitos básicos são percebidos e impactam diretamente as
relações pedagógicas no ambiente escolar.
O questionário foi do tipo semiestruturado, composto por oito (8) questões
dissertativas e endereçado aos professores e gestores onde versaram o conteúdo
das seguintes questões:
1. A atual situação da escola afeta o aprendizado dos alunos?
2. Os professores sentem-se prejudicados em exercerem suas práticas
pedagógicas?
3. De que forma as circunstâncias comprometem a segurança no ambiente escolar?
4. Existem pontos em que há água parada e mato alto ao lado da sala de aula?
5. Quais os maiores problemas que a atual reforma trouxe para escola?
6. Você acredita que há violação dos Direitos Humanos no ambiente escolar?
7. Como a gestão, professores, alunos e comunidade têm se empenhado para
superar os problemas atuais?
8. Qual a perspectiva para o futuro da escola?
A pesquisa foi feita com seis (6) dos oito professores que trabalham no
período matutino, além da direção e da coordenação pedagógica.
Com relação à primeira questão, quatro professores, a diretora e a
coordenadora apontaram, em suas respostas, que existem situações adversas,
principalmente, na falta de uma infraestrutura ideal, provocada, essencialmente,
pela reforma que está paralisada há mais de dois anos.
Curiosamente duas professoras responderam que “não”, sem maiores
justificativas sobre suas respostas. Sabíamos que entre os professores havia
aqueles que eram efetivos e outros contratados, aqueles que já trabalhavam há
muitos anos e outros que ingressaram no ano corrente. Essas questões nos
levaram a proposição de que alguns professores, por não conhecerem
anteriormente a estrutura física da escola em tempos anteriores a reforma, estariam
evidenciando a precárias condições apresentadas como naturais. Outra questão
que nos ocorreu é que se, essas mesmas professoras, demonstram uma visão
tradicional da educação e, portanto, das práticas pedagógicas e havendo, na sala
de aula, tudo àquilo que fosse necessário (lousa, giz e livro didático) para realização
de práticas que dialogassem com essa concepção, não haveria, de fato,
constatação de adversidades.
Em relação à segunda questão, com exceção das duas professoras, todos os
respondentes alegaram a existência de mato alto e/ou água parada em diferentes
pontos dentro do espaço da escola.
Já sobre a questão três, as respostas apontaram para a sensação de
insegurança com relação às doenças transmissíveis por insetos, principalmente em
épocas que existem surtos de doenças transmitidas por mosquitos. Uma mãe, que
também respondeu parte do questionário, expressou sua preocupação com as
possíveis “[...] doenças ou machucados”.
Sobre a questão quatro, a respostas convergem em apontar que, com as
adaptações feitas em algumas salas e outros espaços, além da ausência de uma
quadra de esportes, limitaram-se os trabalhos pedagógicos por conta das condições
preexistentes, causando certo prejuízo ao trabalho docente.
Em relação à questão cinco, as respostas foram mais variadas. Alguns
frisaram a impossibilidade do desenvolvimento das aulas de educação física em
condições ideais. Já outros apontam a maior rotatividade dos alunos e a diminuição
dos projetos anteriormente desenvolvidos. Outros, ainda, destacaram o descrédito
da comunidade em relação às ações da gestão para sanar o problema.
Com relação à pergunta seis, onde indagamos se os respondentes
acreditavam haver violações de direitos humanos, a maioria respondeu que sim,
principalmente por entenderem que os espaços disponíveis e utilizados para a
realização das atividades não eram suficientes para o desenvolvimento de
atividades que atendessem às reais necessidades daquele segmento do ensino
fundamental, uma vez que os alunos ficavam “confinados na sala de aula” ou, ainda
pela falta de condições de acessibilidade, uma vez que, segundo o professor 1, “se
um cadeirante que têm seus direitos, e não pode participar da hora do recreio, por
falta de acesso ao pátio é óbvio que há violação de Direitos Humanos”.
Já a pergunta sete, indicou que a gestão e os professores estão empenhados
em minimizar os problemas ali existentes, buscando alternativas pedagógicas que
deem conta de propiciar aos alunos o desenvolvimento integral a que tem direito. De
outro lado, buscam colaboração junto à comunidade na tentativa de fazer pressão
para que os órgãos competentes resolvam o mais brevemente o problema.
Com relação a oitava e última questão, perguntamos sobre as perspectivas
para o futuro da escola. Neste ponto, algumas respostas convergem para as
expectativas de finalização da obra, o fim dos transtornos e a possibilidade de
elaboração de rotinas escolares mais lúdicas para os alunos. Outros, porém,
receavam pelo aumento da evasão e rotatividade escolar, já que no relato da
professora 2, “uma escola sem recursos, não consegue manter a permanência do
aluno”.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A complexidade do sistema de educação brasileiro só pode ser entendida à


luz do contexto histórico que a formou, associado à lógica da omissão/exclusão que,
durante muito tempo, predominou nos debates sobre educação no Brasil e que, por
mais evidentes que sejam seus avanços ao longo dos anos, ainda, assim, podemos
perceber os diferentes tratamentos dados aos cuidados na infraestrutura escolar,
que muitas vezes, nas escolas das periferias, acabam transformando-se em
violações de direitos tidos como fundamentais.
O trabalho procurou entender a importância da efetivação dos Direitos
Humanos, inerente a sociedade, em todos os seus aspectos, com o enfoque na
educação escolar e as suas estruturas garantidoras do currículo escolar e
consequentemente da qualidade no ensino, direito do cidadão e dever do Estado.
Muitos foram os problemas apontados na pesquisa que são violações
acessórias aos Direitos Humanos, que atingem vários direitos à dignidade humana.
Pode-se observar que essas violações interferem também no direito à educação
que, como mencionado, estão positivados na Declaração dos Direitos humanos e na
Constituição Federal de 1988. Vale lembrar que a educação é um direito humano
propriamente dito e são as suas várias violações mencionadas ao longo do trabalho
que comprometem substancialmente tal direito.
De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) n°9.394/96 em seu terceiro
Artigo, o inciso I, aponta que o ensino deverá ser ministrado com base nos
princípios de “igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”. Já
em seu Artigo quarto, aponta para o dever do Estado em garantir condições
mínimas para efetivação da educação escolar, deixando expresso em seu inciso IX,
que são necessários “padrões mínimos de qualidade de ensino, definidos como a
variedade e quantidade mínimas, por aluno, de insumos indispensáveis ao
desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem.”
Diante disso, ao analisar as condições do ambiente escolar na E.E.
Professora Isabel Vieira de Serpa e Paiva nos deparamos com a complexidade que
é pensar a realidade educacional. Por um lado, temos toda uma legislação
respaldada na Constituição e ancorada em pressupostos universais de direitos à
educação, que deve garantir, por diversos instrumentos e mecanismos, condições
mínimas para que a realização do ato pedagógico aconteça de maneira satisfatória.
No entanto, não é incomum encontrarmos escolas que funcionam com bem menos
do que o necessário garantido pela legislação.
Nas entrevistas verificamos que a estrutura da escola pública analisada está
em desacordo com os pressupostos de “igualdade de condições” e padrões
mínimos” regulamentados através da LDB, uma vez que a redução de algumas
salas de aula, a ausência de acessibilidade e a inexistência de biblioteca e quadra
poliesportiva concebem uma estrutura inadequada ao pleno aproveitamento e
desenvolvimento dos alunos e professores.
Tais ideias coadunam-se com as respostas ratificadas pelos professores,
onde fica evidente através da sustentação coletiva de que existem situações
adversas que geram sensação de descaso, insegurança e comprometem a
qualidade do trabalho pedagógico.
Ainda assim, pode ser observado o comprometimento dos professores na
busca por propostas e soluções que superem a dificuldades ali apresentadas, com o
intuito de propiciar novas experiências e tentando fortalecer os laços com a
comunidade, somando forças para empregar ações coletivas no espaço escolar e
cobrando do Estado a devida solução para o problema.
Outra questão é que fica claro a concepção pedagógica empregada pela
maior parte dos professores e gestores, pois, quando buscam propor soluções
visando a garantia dos diversos Direitos Humanos do alunos e trazendo a
comunidade para discutir e colaborar com a superação dessa realidade, neste
contexto, a educação passa a ser entendida como mais do que um ato pedagógico,
e passa ser, então, como aponta Freire (1982), educação como um ato político.
9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABREU, Ivanir Reis Neves. Convênio escolar: utopia construída. Dissertação de


mestrado apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de
São Paulo para obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo. São
Paulo, 2007. Disponível em:
<http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16138/tde-13052010-152451/en.php>
Acesso em 07 dez. 2017.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil.


Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. 292 p.

CASTILHO, Ricardo. Educação e direitos humanos. 1ª Ed. São Paulo: Saraiva,


2016.

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS. Assembleia Geral das


Nações Unidas em Paris. 10 dez. 1948. Disponível em:
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2017.

DEMO, Pedro. Educação e qualidade. 6° Ed. São Paulo: Papirus, 2001.

DORNELLES, J. R. W. O que são direitos humanos. 2. ed. São Paulo: Editora


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