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Copyright©2019 por Percino

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1
SOBRE O AUTOR

E. PERCINO é consultor e pesquisador experiente


na área de música. Administra nas redes sociais as
páginas do GUIA DO MÚSICO. Possui graduação,
mestrado e doutorado pela Universidade de São
Paulo (USP). Dedica-se a estudos
transdisciplinares que envolvem, entre outros
temas, conceito artístico, composição, produção e
divulgação musical.

gdomusico@gmail.com

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APRESENTAÇÃO

Este ebook gratuito se baseia na ciência musical, ou seja, na ciência que


estuda os fenômenos relacionados à música e ao mercado musical,
desenvolvida especialmente em grandes universidades europeias e norte-
americanas.
Esta ciência aglutina hoje diversos grupos de pesquisa e cientistas de
vários países, como Diana Deutsch, Volkmar Kramarz, Daniel Levitin, John
Seabrook, Aaron Copland, Aaron Williamon, John Sloboda, Elizabeth Hellmuth
Margulis e muitos outros. Nós também, aqui no Brasil, estamos participando
ativamente desse processo, em diálogo com as principais discussões
acadêmicas, procurando difundir suas descobertas mais relevantes.
Recorrendo à ciência musical, mas também à minha experiência de 20
anos como consultor e pesquisador na área de música, faço aqui, ao longo das
páginas, uma análise das questões fundamentais que constituem o problema
da composição musical, fornecendo informações atualizadas e orientações
importantes. Para ensinar como fazer um hit, evito transitar em simples
opiniões e achismos, sustentando-me apenas em provas, evidências e
fundamentações teóricas, como deve agir todo cientista musical.
Tenho certeza de que os aspectos abordados neste ebook serão muito
úteis para diversos músicos autorais, especialmente para aqueles que atuam
no campo do pop ou do superpop. Vocês serão fortemente impactados pelas
descobertas da ciência musical.
Aproveitem para acompanhar o nosso trabalho nas redes sociais. No
Instagram, procurem por @guiadomusico. No Youtube, canal GUIA DO
MÚSICO. Aliás, inscrevam-se no canal, pois acabamos de começá-lo (e apertem
o sininho). Obrigado! Um grande abraço!

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COMO FAZER UM HIT

PADRÕES ESTRUTURAIS

MÚSICA DE SUCESSO E CÉREBRO


HUMANO
TÉCNICAS DE COMPOSIÇÃO

A QUESTÃO DO TALENTO

APLICAÇÃO DAS TÉCNICAS DE


COMPOSIÇÃO
TÉCNICAS DE MELODIA POPULAR

TÉCNICAS DE LETRA POPULAR

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PADRÕES ESTRUTURAIS
Como fazer um hit? Existem macetes técnicos para se compor uma música
de sucesso? Por que os hits são todos grudentos e viciantes? Recentemente,
uma análise atenciosa das músicas de sucesso dos últimos cinquenta anos
forneceu à ciência musical algumas pistas. Um grupo de pesquisadores da
Sorbonne (Universidade de Paris) examinou cerca de três mil músicas de
sucesso, obras de artistas muito distintos, de diferentes nacionalidades. Essas
três mil músicas selecionadas para a pesquisa foram apontadas pelos grandes
institutos de ranking musical como os maiores sucessos mundiais de todos os
tempos.

Ao analisarem tecnicamente os aspectos formais dessas músicas (modos


de introdução, acordes, refrãos, ganchos, pontes, instrumentos, efeitos, solos,
finalizações, letras, imagens poéticas, gírias etc), os pesquisadores chegaram a
conclusões surpreendentes. As músicas de sucesso de todos os tempos, ainda
que muito diferentes entre si, variando em temática, estilo ou gênero musical,
têm características estruturais similares, perfeitamente identificáveis. Ou
seja, elas apresentam configurações semelhantes, especialmente do ponto de
vista da construção da melodia e do ponto de vista da construção da letra.

No âmbito da composição, o que faz de “Yesterday”, dos BEATLES, um


sucesso mundial irretocável são os mesmos elementos estruturais que fazem
de “Garota de Ipanema”, de TOM JOBIM e VINICIUS DE MORAES, um sucesso
mundial irretocável. São músicas extremamente diferentes entre si, mas com
um direcionamento estrutural semelhante, envolvendo, por exemplo, melodia
simples e letra objetiva. Da mesma forma, há pontos em comum entre “Your
song”, de ELTON JOHN, e “Thriller”, de MICHAEL JACKSON. Também os hits de
BEYONCÉ, BRITNEY SPEARS, KATY PERRY e MILEY CYRUS convergem, em

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termos estruturais, com os hits de outros artistas, como A-HA, COLDPLAY e
KEANE. As novidades do superpop de ANITTA e ED SHEERAN se assemelham
estruturalmente. E assim por diante.

Sem dúvida, as músicas de sucesso de todas as épocas possuem


dispositivos técnicos muito parecidos, consolidados de uma forma especial na
estrutura da melodia e da letra, independentemente do gênero musical. É
possível observar, por exemplo, que as canções de ROBERTO CARLOS têm
soluções melódicas, rítmicas e harmônicas muito comuns no universo da
música romântica, mas também que os seus maiores sucessos, como
“Emoções”, “Amigo” ou “Detalhes”, apresentam elementos estruturais
similares aos elementos que encontramos nas músicas de sucesso em geral,
como a presença de refrãos melodicamente intensos e repetições de palavras
ao longo das letras. De fato, há padrões estruturais que, atravessando várias
décadas, põem-se como formas determinantes para o sucesso. Isso é o que diz
hoje a ciência musical, baseada em pesquisas acadêmicas, experiências
técnicas, laboratoriais.

MÚSICA DE SUCESSO E CÉREBRO HUMANO


Tais elementos estruturais, que obviamente se constituem por diversos
aspectos, são o que garante a satisfação dos ouvintes. Eles funcionam nas
músicas como chamarizes muito eficazes, tendo um forte poder de
engajamento. Isso ocorre porque o cérebro humano, como indicam várias
pesquisas científicas, está biologicamente destinado a receber melhor certos
tipos de estruturas melódicas e estruturas de letras, em detrimento de outras.
O cérebro compreende-as em primeira mão (familiaridade), sente-as como
agradáveis (satisfação), fixando-as bem (memorização). Assim, as pessoas

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tendem a gostar mais das composições que têm um determinado tipo de
estrutura, recusando aquelas que não são convenientes às suas necessidades
cerebrais de razão e emoção.

Por que uma apresentação musical leva a plateia às lágrimas e outra


apresentação a compele a dançar, aplaudir ou se mover? Por que uma playlist
de músicas eletrônicas pode motivar alguém a fazer exercícios na academia?
Por que determinado hit fica na cabeça de todo mundo? Isso tudo está ligado
ao funcionamento do cérebro humano, isto é, à maneira com que
recepcionamos as músicas em termos de familiaridade, satisfação e
memorização, seja em momentos de tristeza ou de alegria. Músicas que
atendem às nossas necessidades cerebrais pegam. Músicas que não atendem
às nossas necessidades cerebrais podem até ser ouvidas, mas não pegam.

As músicas se tornam grandes sucessos


quando têm poder para engajar o público, e
depois são substituídas por novas músicas
(desde que as novas músicas consigam ter o
mesmo poder de engajamento). No livro The
Psychology of Music, a pesquisadora
ELIZABETH HELLMUTH MARGULIS explora
esses e outros temas. Para ela, o
engajamento dos ouvintes tende a diminuir
com o tempo por causa das exposições
repetidas do público a uma mesma música.

De fato, os ouvintes se cansam de uma música. Mas isso não significa


que eles se cansem de seus elementos estruturais. Pois logo aparece um novo

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sucesso, com elementos estruturais semelhantes, gerando igualmente
familiaridade, satisfação e memorização.

Em outras palavras, o cérebro humano pede sempre “mais do mesmo”.


Não os mesmos gêneros musicais, não os mesmos estilos, não os mesmos
arranjos, não os mesmos ritmos, não as mesmas melodias, não as mesmas
letras, não os mesmos artistas. Mas a mesma estrutura profunda que, em
sentido técnico, causam prazer cerebral. Para o músico que deseja fazer um hit,
o segredo então é compor algo diferente das experiências de sucesso
anteriores, mas utilizando os mesmos elementos estruturais de sempre.

FAMILIARIDADE

CÉREBRO
HUMANO

SATISFAÇÃO MEMORIZAÇÃO

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É devido pensar bem o que se passa com o cérebro humano ao ouvir
música. Onde exatamente reside o enorme poder, muitas vezes indomável, que
a música exerce sobre nós? Por que nos sentimos tão afetados? O que ocorre
com a nossa razão, com a nossa emoção? Essas são algumas das questões que
OLIVER SACKS explora, em seu estilo cativante, no livro Alucinações musicais.
Ele mostra, por exemplo, como a música pode nos induzir a estados racionais e
emocionais que de outra maneira seriam ignorados por nossa mente. A música
é uma das experiências humanas mais assombrosas e inesquecíveis. E no caso
das músicas de sucesso, que se caracterizam por elementos estruturais muito
convincentes, nossos estados racionais e emocionais se expandem e se
intensificam de maneira imprevisível.

Ainda que ao longo do tempo variem as


modas e o privilégio de certos gêneros
musicais, ainda que surjam a todo momento
novíssimas bandas e novíssimos cantores,
ainda que variem os estilos sonoros e as
maneiras dos artistas interagirem com o
público, a estrutura da música popular de
sucesso continua sendo mais ou menos a
mesma, revelando-se estável: melodias
simples, letras objetivas, acidentes
melódicos que servem de preparação para o
refrão final, presença de uma história, uso de notas altas e longas, repetições
de palavras ou frases etc.

É que o cérebro humano, em qualquer lugar do mundo, é sempre o


mesmo, com necessidades semelhantes. Para ele, a consonância é mais

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racional e emocional que a dissonância, o inteligível é melhor que o não
inteligível, o efeito imediato é mais prazeroso que o efeito tardio, as sensações
concentradas são mais interessantes que as sensações difusas. Raras são as
exceções. Poucos são os ouvintes com necessidades diferentes. Se o músico
iniciante quiser fazer uma música de sucesso, deve estar atento a isso.

TÉCNICAS DE COMPOSIÇÃO
Podemos então pensar que, assim como
Os grandes existem técnicas de pintura, dança ou escultura,
compositores existem técnicas de composição para a música
populares criam
popular. Ao fazerem suas músicas, os grandes
elementos
estruturais compositores populares utilizam, com feições
familiares, variáveis em cada época, as mesmas táticas de
agradáveis e fáceis
sempre. Ou seja, conscientes ou não de suas
de memorizar
metodologias, eles empregam técnicas específicas
em suas canções, criando elementos estruturais
familiares, agradáveis e fáceis de memorizar, elementos determinantes para a
sedução do público popular em geral – seja no rock, seja no gospel, seja na
música eletrônica, seja na música sertaneja.

São notáveis os casos em que artistas diferentes utilizando as mesmas


técnicas alcançam resultados positivos. O sucesso, nesse caso, resulta da
aplicação de técnicas compositivas. Isso ocorre porque, como já vimos, o
cérebro humano reage de uma forma mais ou menos padronizada quando está
diante de determinados padrões estruturais.

Alguns livros importantes, aliás, tratam exatamente desse assunto. Em


The song machine, por exemplo, JOHN SEABROOK atravessa a história de vários

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artistas de sucesso para explicar tecnicamente por que algumas de suas
canções são grudentas e viciantes. O escritor conta que, no recente universo do
superpop, muitas músicas de sucesso foram minuciosamente trabalhadas em
“laboratórios musicais”, para se ajustarem melhor ao cérebro humano em
termos de melodia, ritmo e repetição, respeitando os padrões estruturais já
consagrados. No livro This is your brain on music, DANIEL LEVITIN discorre
sobre a importância da música em geral e revela como os compositores podem
produzir efeitos sonoros universalmente prazerosos, que tornam uma música
aderente aos ouvidos humanos. Enfim, no livro The pop formulas, VOLKMAR
KRAMARZ procura explicar em detalhes quais são as características estruturais
das músicas de sucesso.

Evidentemente, ao falarmos de técnicas de composição, não estamos


falando de “fórmulas de composição” (receita de bolo). Em qualquer tipo de
arte, aliás, a ideia de “fórmula” é razoavelmente inapropriada e perigosa (por
isso, o título do livro de KRAMARZ é inadequado). Em primeiro lugar, a ideia de

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fórmula é ruim porque tende a inibir os atributos essenciais de toda atividade
artística: a criatividade, a alternância, o desregramento, a capacidade de
produzir efeitos imprevistos ou inusitados. Em segundo lugar, a ideia de
fórmula é ruim porque implica elevado compromisso com uma repercussão
positiva, estabelecendo uma taxa de previsibilidade de resultados que, na arte,
nunca podemos garantir.

Ao falarmos de técnicas de composição, estamos nos referindo, mais


propriamente, a um conjunto de procedimentos provados e aprovados no
tempo, metodologias que, por estarem em sintonia com as predisposições
gerais do cérebro humano, podem descomplicar, apenas descomplicar, a vida
dos compositores populares. De pronto, a simples aplicação dessas técnicas
não vai garantir o sucesso do artista, pois a notoriedade de um músico nunca
depende de um único fator, mas de uma rede de fatores que sempre se
comunicam e se entrelaçam (composição, produção e divulgação) – todos eles
atravessados por um determinado conceito artístico.

De qualquer forma, é importante que o músico iniciante tenha o


entendimento e o domínio dessas técnicas em seus processos de composição,
podendo aplicá-las ou não. A consciência dos aspectos estruturais que, em
qualquer época, viabilizam o sucesso no universo da música popular lhe dará,
no mínimo, uma visão mais acurada sobre o funcionamento das percepções do
público popular.

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A QUESTÃO DO TALENTO
Antes, porém, de expormos algumas das técnicas de composição que
tornam possível, em qualquer época, o sucesso de uma música popular,
precisamos abordar um assunto que comumente aparece quando pensamos
em composição musical: a questão do talento. Afinal, a experiência histórica
nos ensina que somente músicos talentosos podem se tornar bons
compositores. Daí a máxima: “talento é tudo”.

Mas o que é exatamente talento? A despeito da banalidade do termo,


usado cotidianamente por músicos e não músicos, os grandes pensadores,
incluindo renomados filósofos, têm posições variadas sobre o assunto. A
definição mais aceita atualmente é a de que talento é uma condição inata do
ser humano, mas uma condição que só se desenvolve e se confirma ao longo
do tempo, depois de certo esforço, tanto pelo estudo teórico (o domínio da
teoria musical, por exemplo) quanto pelo estudo prático (exercícios,
repetições, memorizações), elementos decisivos em qualquer experiência
histórico-cultural.

Sabemos que os seres humanos, por razões genéticas, nascem com


diferentes qualidades originais. Além de surgirem com distintas constituições
físicas (altura, força, agilidade, simetria), que naturalmente condicionam certos
indivíduos para determinadas atividades, eles surgem com diferentes
constituições emocionais e intelectuais, qualidades inatas que, em síntese,
regulam as primeiras escolhas e comportamentos.

De fato, é possível identificar que desde a primeira infância existem nas


crianças variadas potencialidades e inclinações – ora mais para o esporte, ora
mais para o raciocínio lógico, ora mais para a arte. Os familiares percebem: as

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crianças vão se insinuando numa ou noutra atividade, por conta própria, sem
estímulo ou apoio. Elas manifestam, assim, desde o nascimento, as
competências originais que se definiram nelas geneticamente.

No entanto, tudo isso ainda não é garantia de talento. Se meras


potencialidades e inclinações naturais fossem garantia de talento, teríamos que
dizer que, invariavelmente, todas as crianças nascem prontas em alguma coisa,
sem precisarem fazer qualquer esforço. Pelé seria Pelé de qualquer forma, sem
nenhum treinamento. Neymar seria Neymar de qualquer forma, sem precisar
se desenvolver no esporte. Talento seria, assim, algo garantido pela biologia,
sem a necessidade de alguma experiência histórico-cultural.

Na verdade, não funciona assim. Pois o fato é que as qualidades naturais


de cada ser humano, para se concretizarem como talento, precisam se
desenvolver e ganhar consistência ao longo do caminho, normalmente
condicionadas por muito estudo teórico e prático. É por isso, aliás, que através
de um insistente treinamento qualquer pessoa com mínimas qualidades inatas
pode se sair bem numa ou noutra atividade. Talento é um valor que se
evidencia num processo de construção, dedicação, esforço.

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Se o talento depende do desenvolvimento de competências originais, o
músico talentoso é aquele que consegue ampliar e aprofundar as qualidades
inatas que um dia percebeu em si mesmo. Ele se confirma como músico
talentoso somente na medida em que, por meio de uma experiência histórico-
cultural, consegue apresentar determinadas habilidades.

É claro que cada um possui uma dotação genética específica. As pessoas


têm aptidões diferentes no início de suas vidas. Mas a experiência, o
treinamento e o esforço pessoal conduzem-nas no restante do percurso. Como
diz ROBERT STERNBERG (guru da inteligência na atualidade), no texto
“Intelligence, Competence, and Expertise”, o principal modo de aquisição de
conhecimento especializado não é alguma capacidade prévia e fixa, e sim a
dedicação com objetivo. Aliás, uma verdade da vida de todos os profissionais
que se confirmam como talentosos é a seguinte: eles acreditam que as
habilidades naturais podem e devem ser desenvolvidas por meio de muito
trabalho, boas estratégias e orientação especializada. Até mesmo os gênios
têm de se esforçar para obter resultados positivos.

Como então o talento se revela no processo de composição musical? A


verdade é que, no mundo da composição, o talento envolve tentativas
contínuas de composição (experiência, treinamento, esforço). É notório, aliás,
que os maiores compositores da música popular de todos os tempos sempre
compuseram dia e noite, sem parar. Para lançarem um álbum com dez músicas,
por exemplo, além de ouvirem muitas canções, de vários artistas, todos os dias,
todas as horas, chegaram a compor cinquenta ou sessenta músicas,
selecionando depois as dez melhores.

O verdadeiro talento para a composição musical só se manifesta numa


experiência histórico-cultural caracterizada por muito treinamento. Mesmo

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que uma pessoa acredite que não saiba compor bem, ainda assim é possível
mergulhar numa frutífera série de tentativas, com empenho e perseverança. E
a insistência nas tentativas de composição produz sempre um efeito
qualitativo: quanto mais o artista talentoso compõe, melhores ficam as suas
composições.

APLICAÇÃO DAS TÉCNICAS DE COMPOSIÇÃO


Como já dissemos, existem técnicas de
composição para a música popular. Elas visam
Criar um hit é construir os elementos estruturais que
como fabricar um
historicamente agradam ao público, gerando nele
automóvel: tudo
depende de fortes sentimentos (alegria, excitação, tristeza,
procedimentos saudade, esperança). Nesse sentido, devemos
técnicos
esquecer o mito do compositor simplesmente
inspirado, que não domina nenhuma técnica. Criar
um hit é como fabricar um automóvel: tudo
depende de procedimentos técnicos.

As técnicas são numerosas. Mas existem algumas que são mais


importantes, como veremos abaixo. Elas se dividem em termos de construção
de melodia e construção de letra, instâncias que no processo de composição
surgem ao mesmo tempo ou em momentos diferentes. Questões de ritmo,
andamento e arranjo geralmente vêm depois, no momento da produção
musical, embora desde o primeiro minuto seja imprescindível já colocá-las em
perspectiva.

No campo da melodia, é necessário construir algo atraente e eficaz; no


campo da letra, algo inteligente e criativo. Dessa forma, o cuidado meticuloso

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com a melodia e com a letra, aliado à
percepção do que dá certo e do que não dá
BRANDING
certo, deve ser uma atitude corriqueira do
Todo o trabalho
compositor popular. E ele sempre pode ter realizado com o
como parâmetro as músicas de sucesso de objetivo de tornar a
marca de um artista
todos os tempos. mais conhecida, mais
desejada e mais
São conhecidas, aliás, as histórias de positiva aos olhos do
público se chama
compositores famosos que, antes de branding (gestão de
comporem seus principais sucessos, fizeram marca).
A marca se constitui
uma investigação e uma análise técnica das
por tudo aquilo que
músicas de sucesso dos outros. Não estamos remete ao artista:
nome artístico,
falando que fizeram plágio ou imitação, mas personalidade,
que tomaram certos elementos estruturais logotipo, estilo visual
etc. No entanto, seu
bem-sucedidos como referência para seus principal elemento
constituinte é a própria
próprios trabalhos de composição. Quantas são
música do artista
as bandas que já afirmaram terem tomado (melodias e letras).

como base de suas composições as músicas dos O artista popular vai se


diferenciar no mercado
Beatles? Quantas são as bandas que já da música somente se
houver sintonia entre a
confessaram terem se inspirado nas músicas do
gestão de sua marca e
Queen? De fato, podemos e devemos aprender as características das
suas composições. Isso
com o sucesso dos outros. significa que o
branding deve se
Mais interessantes ainda são os estudos orientar pela essência
do produto musical.
científicos que vêm sendo realizados em
grandes universidades pelo mundo. Todos eles
mostram, como já dissemos, que as músicas de
sucesso têm elementos estruturais comuns.

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TÉCNICAS DE MELODIA POPULAR
Vejamos, em primeiro lugar, a questão da construção da melodia. É certo
que uma melodia atraente e eficaz, como nos mostram as músicas de sucesso
de todas as épocas, implica a presença de vários elementos estruturais.

As técnicas de composição consistem, por exemplo, em construir uma


introdução e um desenvolvimento enxutos (o refrão precisa chegar no máximo
até 1m30s), adotar uma estrutura simples (com poucos acordes, gerando
familiaridade), explorar uma combinação agradável de notas (gerando
satisfação), inserir um refrão que se destaque plenamente (gerando
memorização, visto que 80% do valor mnemônico de uma música popular está
no refrão) etc.

No entanto, vamos nos deter aqui apenas nas três principais técnicas que
historicamente predestinam diversos tipos de melodia ao sucesso:
simplicidade, peripécia e intensidade.

TÉCNICA DE MELODIA 1 – SIMPLICIDADE

A simplicidade é a característica mais importante na estrutura melódica


de qualquer música de sucesso. E fique claro: melodia simples significa
estrutura melódica descomplicada, caracterizada por elementos simétricos, e
não estrutura simplista. Melodia simples é aquela que apresenta partes
uniformes, e não partes sem uniformidade.

Todos nós podemos perceber que, com raríssimas exceções, os grandes


hits têm melodias simples. Isso se deve a uma verdade psicológica: quanto mais
simples é uma melodia, mais satisfatória ela é para o cérebro humano. As
pessoas em geral gostam mesmo é de simplicidade – ou seja, estruturas

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básicas, proporções regulares, combinações equilibradas, sequências
convencionais, pares, semelhanças, repetições. É por isso que “Yesterday”, dos
BEATLES, é uma das canções mais ouvidas na história da humanidade.

Por um lado, a simplicidade se manifesta na estrutura consagrada da


música popular: introdução, desenvolvimento e conclusão. O desenvolvimento
quase sempre se caracteriza por duas sequências de estrofe e refrão,
interrompidas por um trecho diferenciado (a chamada “ponte”), que cria o
suspense para o clímax do refrão final, momento de máxima intensidade. A
conclusão, por sua vez, não raramente é apenas uma repetição da introdução.
Tudo é bastante previsível.

Por outro lado, a simplicidade se manifesta na correspondência dos


elementos melódicos, o consórcio organizado que eles mantêm entre si
(simetria), com sequências de acordes visitando preferencialmente lugares-
comuns. Nesse sentido, uma pesquisa recente provou algo que os grandes

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compositores populares já sabiam: a sequência de acordes mais comum na
música popular é C, G, Am e F, como ocorre em “Let it be”, dos BEATLES. O
motivo é que essa progressão é simples – ou seja, fácil de fazer e entender. Um
livro bastante útil para a compreensão desse assunto é Music Theory for
Dummies, de MICHAEL PILHOFER e HOLLY DAY.

TÉCNICA DE MELODIA 2 – PERIPÉCIA

A segunda técnica de melodia popular é a peripécia, que se manifesta no


acidente melódico da chamada “ponte”. Trata-se de uma terceira parte,
introduzindo uma mudança na lógica que até então se apresentava. Isso
surpreende os ouvintes, que nesse ponto já haviam memorizado a estrofe e o
refrão.

O rap, o dubstep ou qualquer ritmo diferenciado, desde que inserido


repentinamente numa música, como diversidade estratégica, também não
deixa de ser uma peripécia: o ouvinte se depara com algo que até então não
podia prever. Os compositores populares costumam caprichar bastante na
peripécia, visto que uma peripécia inadequada ou insuficiente não consegue
criar o suspense necessário para o clímax do refrão final.

TÉCNICA DE MELODIA 3 – INTENSIDADE

Enfim, a terceira técnica de melodia popular é a intensidade, que se


manifesta geralmente no refrão (e mais ainda no refrão final), com a
exploração de notas altas e longas. Quanto mais, melhor. Ou seja, o tipo de
refrão que mais mobiliza o público da música popular é aquele que apresenta
notas agudas e extensas, muitas vezes incrementadas por uma voz potente. E
isso vem ganhando proporções ainda maiores nos dias de hoje. Notável é a

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observação feita recentemente por alguns estudiosos norte-americanos: a
música popular, na tentativa de se tornar muito atraente, está cada vez mais
explorando notas altas e longas.

Também é um elemento de intensidade os chamados “ganchos” – que


podem ser, por exemplo, um riff instrumental insistente ou um “oh, oh, oh”
repetido pelo vocalista ou pelo backing vocal. O cérebro humano comumente
os compreende como agradáveis. E não por acaso durante um show as pessoas
tendem a reproduzir os ganchos com suas próprias bocas. Quem nunca se
flagrou reproduzindo com a boca as frases de guitarra de “Sweet Child O’
Mine” do GUNS N’ ROSES? A música é um sucesso porque possui, entre outras
qualidades, combinações de ganchos irresistíveis. Também vemos uma
combinação de diversos tipos de gancho na música “Crazy in love”, de
BEYONCÉ, destacando-se as frases dos trompetes.

→ Em suma, se o compositor popular deseja fazer um hit, deve perseguir


na construção da melodia, antes de qualquer coisa, os seguintes objetivos: (1)
valorizar a beleza da simplicidade, (2) inserir uma peripécia antes do refrão
final e (3) explorar a intensidade melódica dos ganchos e do refrão através de
notas altas e longas.

Os estudos realizados pelos pesquisadores da Sorbonne também indicam


um mapa de probabilidades de sucesso para as melodias populares, tomando
como parâmetro o comportamento geral do cérebro humano. Os
pesquisadores Jacques Rennet e Victor Boulanger selecionaram 250 pessoas
cujas preferências musicais eram diferentes. Submeteram-nas a um teste de
percepção melódica, que consistia numa exposição a uma bateria de estímulos
sonoros em laboratório. Chegaram a conclusões de certa forma
surpreendentes. A probabilidade de sucesso de uma melodia popular aumenta

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na medida em que os três elementos (simplicidade, peripécia e intensidade) se
entrelaçam. Se apenas dois elementos se entrelaçam (por exemplo,
simplicidade e peripécia), temos uma probabilidade de sucesso de Grau 2 (mais
ou menos 25% de chance de sucesso). Se, no entanto, os três elementos se
entrelaçam, temos uma probabilidade de sucesso de Grau 3 (mais ou menos
70% de chance de sucesso).

SIMPLICIDADE

PERIPÉCIA INTENSIDADE

TÉCNICAS DE LETRA POPULAR


Vejamos, em segundo lugar, a questão da construção da letra. É
igualmente certo que uma letra inteligente e criativa, como nos mostram as
músicas de sucesso de todas as épocas, implica a presença de vários elementos
estruturais.

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As técnicas de composição consistem, por
exemplo, em construir uma abordagem
AUDIENCE
inesperada para um tema comum (o amor
Muitos artistas
sendo comparado ao vento ou ao movimento fracassam por não
das águas), adotar uma perspectiva diferente entenderem as
necessidades e as
(um homem falando sob a perspectiva de uma expectativas da sua
audience.
mulher), inserir um primeiro verso
Entender a dimensão
surpreendente (um grito de euforia ou uma pública (público-alvo e
lamentação), explorar a polissemia das palavras persona) é uma das
tarefas primárias de
(certas palavras se contorcendo na letra em qualquer artista.

sentidos contrários), usar metáforas ou símiles Assim, um artista que


deseja fazer sucesso
(“teus olhos têm asas de avião”), demonstrar no âmbito da música
emoções pelas ações (“coloquei orquídeas popular deve criar
composições
sobre o nosso túmulo”, para representar não a adequadas à
compreensão da
morte, mas o fim do sentimento de amor),
audience popular.
recortar palavras avulsas e organizá-las Melodias simples e
aleatoriamente na letra (forma de letra letras objetivas são
características que
abstrata), registrar o fluxo da consciência (a facilitam a
familiaridade, a
presença na letra do que simplesmente veio à
satisfação e a
cabeça), colocar como título da música a memorização de
qualquer ouvinte. No
palavra principal do refrão etc. caso da música
popular, porém, a
No entanto, vamos nos deter aqui apenas audience não espera
mais do que isso.
nas três principais técnicas que historicamente
predestinam diversos tipos de letra ao sucesso:
objetividade, história e repetição.

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TÉCNICA DE LETRA 1 - OBJETIVIDADE

A objetividade é a característica mais importante na letra de qualquer


música de sucesso. E fique claro: letra objetiva significa mensagem clara,
caracterizada por elementos simétricos, e não mensagem superficial. Letra
objetiva é aquela que trata de apenas um assunto, e não de vários assuntos ao
mesmo tempo.

Todos nós podemos perceber que na música popular, com raríssimas


exceções, não existe aquela complexidade que encontramos em grandes
poetas da literatura universal ou em letristas muito sofisticados (ideias
profundas, imagens poéticas fortes, rimas especiais, reflexões múltiplas e
paradoxais). A letra popular segue o mandamento da objetividade,
apresentando um conjunto de versos que, do ponto de vista tático, favorecem
a memorização do ouvinte. Afinal, o que importa é “todo mundo cantar junto”,
como diz a música “Fácil” do JOTA QUEST.

É verdade que a objetividade da letra popular se coloca desde o início


como uma tendência natural à percepção consciente, gerando facilidades para
a compreensão. Afinal, ninguém quer ouvir e cantar uma letra dificílima de ser
interpretada. Porém, tal objetividade não precisa desaguar em superficialidade
nem em banalidade, como fazem alguns compositores medíocres. As melhores
letras da música popular não abrem mão de certa inteligência objetiva, certa
profundidade objetiva.

TÉCNICA DE LETRA 2 - HISTÓRIA

A segunda técnica de letra popular é a história. Quem tem a competência


de contar uma boa história numa letra (um caso de amor, um caso de
despedida, um caso de saudade) – de preferência com início, meio e fim – tem

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nas mãos uma ferramenta poderosíssima. Os grandes letristas fazem isso o
tempo todo. “Eduardo e Mônica” e “Faroeste Caboclo”, da LEGIÃO URBANA,
são apenas exemplos extremos e caricaturais dessa técnica. Pois, na verdade, a
ideia de letra que conta uma história aparece em inúmeras músicas de sucesso,
do rock progressivo dos anos 1970 às novíssimas cantoras norte-americanas do
superpop.

TÉCNICA DE LETRA 3 - REPETIÇÃO

Enfim, a terceira técnica de letra popular é a repetição, um recurso que


pode aparecer tanto nas estrofes quanto no refrão. Novamente, a técnica dos
compositores populares que visa facilitar a memorização da letra se baseia na
ideia de repetição de palavras ou frases, como uma estratégia publicitária,
capaz de tornar a música muito grudenta e viciante. Letras com palavras ou
frases repetidas funcionam como um martelo irresistível: “Strawberry fields
forever”, “Strawberry fields forever”, “Strawberry fields forever”.

→ Em suma, se o compositor popular deseja fazer um hit, deve perseguir


na construção da letra, antes de qualquer coisa, os seguintes objetivos: (1)
valorizar um tipo de objetividade que facilite a compreensão e a memorização
da letra por parte do ouvinte, (2) aproveitar a letra para contar uma história e
(3) repetir palavras ou frases nas estrofes e no refrão.

Os estudos realizados pelos pesquisadores da Sorbonne indicam da


mesma forma um mapa de probabilidades de sucesso para as letras populares,
também tomando como parâmetro o comportamento geral do cérebro
humano. Os pesquisadores Jacques Rennet e Victor Boulanger submeteram as
mesmas 250 pessoas do teste de percepção melódica a um teste de percepção
de letra, que consistia numa exposição a uma bateria de 50 letras

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reconhecidamente populares. As conclusões foram as seguintes. A
probabilidade de sucesso de uma letra popular também é absoluta quando os
três elementos (objetividade, história e repetição) se entrelaçam. No entanto,
há aqui uma diferença importante. Se apenas dois elementos se entrelaçam
(por exemplo, objetividade e história), temos uma probabilidade de sucesso de
Grau 1 (mais ou menos 10% de chance de sucesso, e não 25%). Isso significa
que nas letras populares a dinâmica de entrelaçamento é significativa somente
quando os três elementos estão em cena. Assim, torna-se indispensável
conjugar os três elementos para aumentar a chance de sucesso.

Numa experiência complementar, realizada em 2017, alunos da


Universidade de Vincennes submeteram mais 80 pessoas ao teste de
percepção de letra que fora realizado na Sorbonne. E os resultados foram os
mesmos. No caso das letras populares, chega-se a uma probabilidade de 70%
de sucesso somente quando os três elementos estão presentes na letra. O
professor Gilles Ferriet, que conduziu as experiências em Vincennes, tem uma
explicação para isso: “numa letra, os principais elementos que viabilizam o
sucesso dependem diretamente uns dos outros, que é a lógica linguística de
qualquer discurso convincente; um elemento precisa do outro”.

OBJETIVIDADE

HISTÓRIA REPETIÇÃO

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Melodias, letras: coisas que os compositores talentosos adoram fazer.
Alguns se destacam principalmente pela beleza de suas melodias, como PAUL
MCCARTNEY e ELTON JOHN. Outros se destacam principalmente pela beleza de
suas letras, como JOHN LENNON e BOB DYLAN. O músico iniciante do
segmento popular deve adquirir a capacidade de construir em uma música,
sem maiores dificuldades ou confusões, os elementos estruturais que, em
termos de melodia e letra, agradam ao público e viabilizam o sucesso, ainda
que não possam garanti-lo em absoluto. Como vimos, a ciência musical já
identificou quais são os principais elementos estruturais.

A criação desses elementos, ainda que não seja uma garantia de sucesso,
pois o sucesso implica certa complexidade, não podendo ser explicado de uma
forma simplista, é o caminho adequado para o compositor popular. Eles
viabilizam o sucesso de uma música. E deixemos em destaque a modéstia dessa
palavra “viabilizam”, pois não há garantia de sucesso nem mesmo para artistas
supertalentosos que dominam os segredos do music business. É devido alertar
que tem muita gente por aí vendendo “fórmulas de sucesso” para novos
artistas, desprezando que uma carreira musical é em certa medida um jogo
aleatório e imprevisível. Não há como garantir em 100% o sucesso de uma
música porque, no universo musical, certas conquistas independem de
qualquer atitude do compositor, podendo ser consequência até mesmo do
acaso ou da sorte.

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