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editorial

A edição nº10 da ReDObRA é um desdobramento do Corpocidade 3, encontro bienal realizado em


parceria pelos Laboratórios Urbano PPG-AU/UFBA e Coadaptativo LabZat PPG Dança/UFBA e que nesta
sua terceira versão articulou-se a duas pesquisas com temas e problemas correlatos e pesquisadores em
comum: “Experiências metodológicas de apreensão da cidade contemporânea“ conduzida pelo Laboratório
Urbano sob coordenação de Paola Berenstein Jacques e contemplada pelo edital PRONEM – FAPESB/CNPq
2010; e “Cidade e Cultura: rebatimentos no espaço público contemporâneo” conduzida pelas equipes no
PPGHIS/UFMG coordenada por Regina Helena Alves da Silva, no PROURB/UFRJ coordenada por Lilian
Fessler Vaz e no PPG-AU/FAUFBA coordenada por Paola Berenstein Jacques, contemplada pelo edital Pró-
Cultura CAPES/MinC.
Inteiramente dedicado a Ana Clara Torres Ribeiro – integrante das equipes de pesquisa PRONEM e Cidade e
Cultura, membro do Conselho editorial da ReDobRa e colaboradora do Corpocidade desde sua primeira
edição – o Corpocidade 3 programou uma mesa especial de homenagem, em que foram apresentados os
princípios do seu método de pesquisa denominado Cartografia da Ação Social, pelos membros do seu grupo
LASTRO: Cátia Antônia da Silva, Luis Perucci, Ivy Schipper e Vinicius Carvalho, cujo artigo correspondente
foi publicado na edição n°9 da revista. 1

À esta aproximação entre a prática geográfica Cartografia com os estudos sociológicos sobre a cidade,
tão singularmente formulada por Ana Clara Torres Ribeiro e já adotada por alguns outros grupos de
pesquisa brasileiros e latino-americanos interlocutores do LASTRO, acrescentamos a aproximação da
Arquitetura e Urbanismo com o trabalho etnográfico da Antropologia, já longamente praticada pelo
Laboratório Arquitetura/Antropologia – Paris La Villette, para expandir essa constelação cooperativa
com um terceiro eixo aproximativo entre a critica da experiência urbana pela Arquitetura e Urbanismo
e os estudos sobre corporalidade e espacialidade pela Dança, instaurado pelos Laboratório Urbano
PPG-AU/UFBA, e o LabZat Laboratório Coadaptativo PPG Dança/UFBA.
Neste terceiro encontro Corpocidade, partimos do pressuposto (já anunciado no primeiro e consolidado
no segundo) de que corpo e cidade estão coimplicados na formulação da vida pública e sua esfera política,
para enfocar, como tema central, as possibilidades de experiência corporal da cidade e seus modos de
compartilhamento e transmissão, tensionando as noções de corpo, cidade, cultura e cartografia a partir
da ideia de experiência.

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Retomamos aspectos das versões anteriores que se consolidaram como uma ética da nossa
conduta e os tornamos princípios organizativos da programação, tais como o enfoque
processual, a simetria entre os participantes e a coimplicação entre as experiências teórica e
empírica para pensar os agenciamentos entre corpo, cidade, política e arte, pelas práticas de
cartografia e narrativa.
O encontro integrou três atividades diferentes e complementares, com formas específicas
de participação:
• Experiências metodológicas – atividades de campo que chamamos de “oficinas”,
em áreas específicas da cidade de Salvador, destinadas a testar procedimentos para
apreensão da cidade. Ocorreram ao longo dos dias 23 e 24 de abril, sob a coordenação/
condução de proponentes selecionados e com a participação de interessados inscritos
para integrar os grupos.
• Seminário de articulação – atividade conjugada e subsequente às experiências
metodológicas, realizado dia 25 de abril, destinada ao exercício de reflexão crítica
sobre as experiências vividas e as narrativas construídas pelos grupos participantes.
• Seminário público Cidade e Cultura – atividade aberta à participação de demais
interessados inscritos, dias 26 e 27 de abril, destinada ao compartilhamento público
das sínteses alcançadas no seminário de articulação bem como de relatos previamente
selecionados sobre outras experiências metodológicas realizadas em outras ocasiões
por pesquisadores ou artistas.
Numa longa jornada de cinco dias de trabalho contínuo, muito se testou, se discutiu e se
compreendeu sobre os modos de apreensão da cidade propostos pelos grupos de pesquisa e
coletivos de artistas, quanto aos seus argumentos justificativos e suas condutas de ação,
convívio, interlocução. Mas percebemos que a intensidade das experiências mereceria maior
extensão de tempo para ser assimilada e as narrativas delas menor dispersão de sessões para
2 serem debatidas.
Desejando oferecer um outro espaço para a continuidade das reflexões instauradas
naqueles dias, nos pareceu pertinente e necessário dedicar essa e a próxima edição da revista
ReDobRa às ressonâncias do Corpocidade 3, não como um catálogo ou relatório mas
como um registro dos seus rebatimentos na pesquisa PRONEM que lhe fundamenta e também
dele deriva. E, nosso recorte editorial para a definição da pauta foi “começar de dentro”: pela
contribuição dos integrantes da nossa equipe de pesquisa e dos grupos parceiros, num gesto
mais centrífugo do que endógeno com intenção de pontuar eixos em torno dos quais outras
contribuições possam ser articuladas, em futuros números da revista.
Entendidas como nós de tessitura dos temas, cada sessão da revista, a partir de sua definição,
se oferece como um diferente campo de atravessamento das mesmas questões que tanto foram
trabalhadas na pesquisa quanto mobilizaram o encontro em Salvador: os modos de apreensão
da cidade e suas possibilidades narrativas como recurso de transmissão e compartilhamento.

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CONTRAPONTO – movimento de construção de arranjos polifônicos superpostos e entrelaçados num
mesmo espaço de encontros, distensões e cruzamentos em torno de ideias e discursos.
Toma por ponto de partida as comunicações dos convidados Cibele Saliba Rizek (IAU/USP), Frederico
Guilherme Bandeira de Araújo (IPPUR/UFRJ) e Pasqualino Romano Magnavita (PPG-AU/UFBA) integrantes
da mesa redonda “Cidade, Cultura, Corpos e Experiência” ocorrida no segundo dia do Seminário Público
do CORPOCIDADE 3, para entrelaça-las a outras distensões em torno deste tema, produzidas por três
narrativas de experiência de intervenção performativa na cidade que, embora correlatas em suas escolhas
pela escala da corporalidade como forma de ação crítica-perceptiva sobre a cidade, praticam diferentes
engendramentos entre experiência, narração e teorização. O “Chão nas cidades”, de Andrea Maciel (Rio
de Janeiro/RJ), narra a experiência de mesmo nome realizada no Corpocidade 1 e incorporada à sua
tese de doutorado (em Artes Cênicas), tomando a polêmica situação do corpo deitado no chão como uma
perspectiva de apreensão da cidade. “Deriva parada”, de Janaína Bechler (Porto Alegre/RS), que também
se articula a um doutorado acadêmico (em Psicologia), parte da ideia de deriva para criar o paradoxo do
corpo parado como mobilizador de certa dinâmica sócio-urbana. E “Breve relatório sobre a primeira de
uma série de opacificações urbanas”, de Silvana Olivieri (Salvador/BA), parte de provocação apresentada
no Corpocidade 2 para narrar a primeira experiência, no carnaval de Salvador, em 2012, de operação
de um dispositivo criado pela autora para contrapor a opacidade ao espetáculo. Também integra essa
sessão, uma síntese introdutória dos debates levantados pelas mesas redondas e comunicações ocorridas
no Seminário Público Cidade e Cultura, preparada pelos seus coordenadores Washington Drummond,
Fernando Ferraz e Luiz Antonio de Souza, que tecem, ainda, algumas considerações gerais sobre o processo
de seleção das participações.
FERRAMENTARIA – local e prática de exposição dos recursos usados para construção de argumentos,
formulação de propostas e elaboração de projetos derivadas de experiências de apreensão da cidade.
Coloca em pauta os aspectos mais diretamente relacionados com metodologias de apreensão da cidade,
conjugando dois tipos de matéria: as oficinas realizadas no Corpocidade 3 e trabalhos acadêmicos
de conclusão de curso de integrantes do Laboratório Urbano. Começando pelas sete oficinas que
3
foram propostas por grupos parceiros na pesquisa PRONEM, esta seção traz uma síntese das discussões
havidas no Seminário de Articulação sobre as experiências feitas nas Oficinas e algumas considerações
críticas, preparada pelos seus coordenadores Fabiana Dultra Britto, Francisco de Assis da Costa e
Thais de Bhanthumchinda Portela; além da apresentação de cada oficina preparada por seus próprios
coordenadores, e das narrativas sobre o processo de sua realização, elaboradas pelos seus respectivos
acompanhantes designados pelo Laboratório Urbano.
Assim, a oficina “Composição do Comum”, do Laboratório Coadaptativo LabZat – PPG dança/UFBA, é
apresentada por Tiago Nogueira Ribeiro e Fabiana Dultra Britto, e narrada pelos participantes Ana
Rizek Sheldon, Isaura Tupiniquim Cruz, Thiago Sampaio, Renata Roel e Cinira D’Alva. A oficina “Teatro do
jornal” do Laboratório da Conjuntura Social: Tecnologia e Território LASTRO – Instituto de Pesquisa
e Planejamento Urbano IPPUR/UFRJ, é apresentada por Ivy Shipper e narrada pela acompanhante Ida
Matilde. A oficina “Cidadeando: uma aventura poética com som, imagem e movimento”, do Grupo de Pesquisa
Modernidade e Cultura – IPPUR/UFRJ, é apresentada por Frederico Guilherme Bandeira de Araujo e

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narrada pela acompanhante Priscila Erthal Risi. A oficina “Oficinar ao habitar”, do Laboratório de
Estudos Urbanos (LEU) – Programa de Pós-Graduação em Urbanismo PROURB/UFRJ é apresentada
por Iazana Guizzo e Cristiane Knijnik e narrada pela acompanhante Marina Cunha. A oficina “Fazer
corpo, tomar corpo, dar corpo às ambiências urbanas” do Centre de Recherche sur L’Espace Sonore P
et L’Environnement Urbain CRESSON/CNRS, é apresentada por Rachel Thomas e narrada pelos
acompanhantes Maria Isabel Costa Menezes da Rocha e Osnildo Adão Wan-Dall Junior. E a oficina
“Selva-quintal comum” do Laboratório Arti Civiche – Roma Tre, é apresentada por Francesco Careri,
Giorgio Talocci e Maria Rocco e narrada por Gabriel Schvarsberg e Janaína Bechler.
E, dentre os trabalhos acadêmicos, também com foco no debate metodológico, esta sessão traz dois
artigos referentes a Dissertações de Mestrado: Dos espaços de apropriação: o Minhocão de São Cristóvão
de Clara Passaro, e Experiências urbanas: conclusões de um processo no Aglomerado da Serra de Carolina
de Castro Anselmo. E outros três referentes a Trabalhos Finais de Graduação: Morar na Carlos
Gomes: possibilidades e limites para a habitação de interesse social no Centro de Diego Mauro; Cine-teatro-rua:
possibilidades para o fim-de-linha do Uruguai de Ícaro Vilaça, e Os usuários do Dois de Julho: encarando o uso
de crack no espaço urbano de Jamile Lima.
TUMULTO – encontro de dissonâncias, discordâncias, distensões, digressões e outras tantos modos de
desdobramento de sentido praticados sobre um mesmo foco discursivo.
Coloca em tensão ideias em torno do processo de pesquisa sobre os modos de apreensão da cidade pelos
habitantes e em torno dos modos de ação na cidade pelos pesquisadores, a partir de três diferentes
posicionamentos teóricos e proposições metodológicas: o da arquiteta Alessia de Biase, coordenadora
do Laboratório Arquitetura/Antropologia (UMR 7218 LAVUE/CNRS) – Escola Nacional Superior de
Arquitetura de Paris La Villette, apresentado em “Por uma postura antropológica de apreensão da
cidade contemporânea: de uma antropologia do espaço à uma antropologia da transformação da cidade”;
o da antropóloga Urpi Montoya Uriarte (PPGA/UFBA) apresentado em “Podemos todos ser etnógrafos?
Etnografia e narrativas etnográficas urbanas”; e o da socióloga Rachel Thomas, coordenadora do
Laboratório CRESSON CNRS/Grenoble, apresentado em “Crítica e engajamento – posturas de apreensão
4
sensível da cidade contemporânea”.
RESENHA – espaço de apreciação crítica sobre objetos artísticos, bibliográficos, acadêmicos e
cotidianos.
Neste número, o livro Elogio aos errantes de Paola Berenstein Jacques, publicado pela EDUFBA e lançado
no Corpocidade 3, recebe a leitura crítica da professora Margareth da Silva Pereira, que atende ao
convite tomado por ela como uma provocação a seu ofício de historiadora do urbanismo.
Que a experiência de leitura dessas tantas narrativas entrelaçadas neste nº 10 da ReDobRa também
provoque nos leitores, incitações borbulhantes aos seus próprios desafios de pesquisa e métodos de
apreensão da cidade.
Fabiana Dultra Britto
Setembro/ 2012

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Paola Berenstein Jacques*
entrevista
Alessia de Biase**

Paola: No último número da revista


publicamos a entrevista que você fez com
a Ana Clara Torres Ribeiro. Você e Ana
Clara têm alguns traços em comum, vocês
duas trabalharam a questão da cartografia,
era o tema da sua entrevista, trabalharam
também no cruzamento entre diferentes
disciplinas, a Ana Clara entre Sociologia,
Geografia e Urbanismo e, você, entre
Antropologia, Arquitetura e Urbanismo,
e vocês duas também trabalharam com
a questão que mais nos interessa aqui, a
Apreensão da cidade. Apreender a cidade
é o título do seu último trabalho1 que
será publicado em breve. Vou pautar essa
5
entrevista toda neste texto ainda inédito,
que eu tive o prazer de ler, e eu queria
começar exatamente por seu título. O que
você entende exatamente por “Apreender a
cidade”?

Alessia: Eu gosto muito da palavra


apreender que existe em português
mas que não existe em italiano, existe
como nome, substantivo, apreensão,
* arquiteta, urbanista, professora PPG Arquitetura e mas não existe como ação, como verbo,
Urbanismo UFBA e Coordenadora do Laboratório Urbano apreender. Quando eu descobri essa
palavra foi muito importante para
** arquiteta, antropóloga, coordenadora do Laboratório
Arquitetura Antropologia – LAA/LAVUE/CNRS - mim, porque apreensão em italiano
ENSAPLV/ Paris-França

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está somente relacionado com medo, mãos) e, em seguida, saisir (aprender)
qualquer medo, uma angústia. intelectualmente, compreender. E isso
é que me interessa: essa passagem do
Paola: Em português apreensão tem esse
apanhar entre as mãos, empiricamente,
sentido também, a palavra tem os dois
fazer a experiência, como você diria, e
sentidos…
o depois quando se compreende. Então
Alessia: Em italiano, só tem esse tem esse sentido de que passa pela
sentido. Então eu pensava que, em experiência primeiro e depois é que vem
francês, appréhender (apreender) e a compreensão intelectual.
apprendre (aprender) era a mesma coisa, Paola: Então apreender a cidade para você
e quando eu descobri que não era a é experimentar a cidade primeiro e depois
mesma coisa, porque em italiano não compreendê-la?
tem essa ação e não tem esse segundo
significado, para mim importantíssimo, Alessia: Sim, as duas coisas. Mas
quando eu descobri isso, eu disse: não sei se é diacrônico. Eu acho que
é isso que nós estamos fazendo! O para ter uma compreensão intelectual
que eu gosto muito em apreender, da cidade tem que passar por uma
é o sentido de pegar com as mãos. experimentação, então as duas coisas
Tem esse lado empírico também na funcionam ao mesmo tempo, por isso
apreensão da cidade, de ir ver como é uso a metáfora do artesão, porque
que é e, em italiano, eu não sei porque o artesão, no sentido de Sennett,2
desapareceu esse sentido… eu gostaria é aquele que ao fazer as coisas, as
de trabalhar sobre isso também mas não compreende.
sei quando [risos]. Eu já escrevi sobre
Paola: Compreende ao fazer?
a etimologia da palavra: appréhender é
prehendere daí prendre (pegar), que me Alessia: Sim, compreende fazendo.
6 interessa, porque entre hériter (herdar)
e appréhender (appreender) tem o Paola: Passo, então, para o subtítulo do
entretenir, prendesi cura em italiano seu trabalho: Vers (verso, a caminho de)
(tomar cuidado), que quer dizer também uma antropologia da transformação. De
tenir entre les mains, ter, manter entre um debate entre a Antropologia do espaço
as mãos. Então me interessava esse – que você explica bem no texto publicado
sentido de ter na mão, ter entre as neste número – à Antropologia na cidade
mãos, não num sentido demiúrgico, e à Antropologia da cidade, você passa a
do demiurgo que tem as mãos sobre a propor uma Antropologia da transformação
cidade, mas mais no sentido do artesão urbana, da transformação da cidade. A
que faz as coisas com as mãos, entre as Antropologia da transformação da cidade
mãos. Herdar é prendre dans les mains seria um tipo de Antropologia da cidade?
(pegar nas mãos), apreender é primeiro Ou seria ainda outra coisa? Você poderia
saisir entre les mains (apanhar entre as explicar melhor essa passagem?

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Alessia: A passagem não é direta, a da cidade era a Antropologia que,
porque na verdade o primeiro caminho finalmente, trabalhava sobre a relação
que eu fiz foi: eu deixei para trás a entre o espaço e as ações, onde o espaço
Antropologia do espaço e fui verso à não é mais cenografia, mas é um sujeito
Antropologia na cidade e da cidade, mas também e, assim, com os moradores
no início eu fiz também Antropologia na e os demais atores territoriais, o
cidade. antropólogo fala desse espaço e não de
outra coisa. Mas para o Michel Agier
Paola: Você poderia então nos explicar
não existe concretude. Para ele a cidade
melhor o que seria a Antropologia na
é o objeto, episteme. Então esse foi o
cidade?
mal entendido com ele durante vários
Alessia: A Antropologia na cidade anos, nós falamos todos os dois sobre
é uma Antropologia mais clássica, o da cidade mas não era exatamente
Antropologia urbana, como também é a mesma coisa. A minha passagem
chamada, são os herdeiros da Escola de então da Antropologia da cidade para
Chicago, onde a cidade é uma cenografia a Antropologia da transformação da
das ações humanas, onde a forma da cidade é mesmo a questão da concretude
cidade não influi necessariamente que existe dentro da Antropologia da
nas ações, no sentido das ações. cidade.
Depois o problema é a Antropologia Paola: Com concretude você quer dizer a
da cidade. Porquê? Porque eu tive um materialidade da cidade?
mal entendido com a Antropologia
da cidade, pois se considero que na Alessia: Sim, a cidade mesmo, concretus
Antropologia da cidade – como eu é croîte ensemble (crescer junto).
chamo essa Antropologia há 5, 6 ou 7
Paola: Uma construção coletiva.
anos – a cidade é sujeito, não só sujeito
intelectual ou objeto de pesquisa, mas Alessia: Contínua. Sim, contínua e 7
um sujeito concreto, então digo que coletiva. A partir desse mal entendido
a Antropologia da transformação da com Michel Agier, com a Antropologia
cidade é um processo que vem daí. da cidade, eu percebi que no final
Paola: Então a Antropologia da eu estava herdando, sem saber, algo
transformação da cidade vem da da Antropologia do espaço, que era
Antropologia da cidade? o espaço mesmo. Você imagina?
Quando eu compreendi isso eu
Alessia: Sim, mas o problema para mim fiquei desesperada! [risos] Eu estava
é a da cidade. Porque relendo muitos herdando a concretude do espaço, que
textos de Michel Agier onde ele fala de na Antropologia do espaço era só isso…
Antropologia da cidade, eu percebi que Essa minha passagem para Antropologia
há 5 anos nós dois estamos num mal da transformação da cidade é então o
entendido enorme, porque para mim resultado de um mal entendido com a

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Antropologia da cidade, entre a cidade Você ainda não falou na questão do tempo…
como episteme e a cidade concreta,
corporal no sentido de uma presença, e Alessia: Sim, só falei no espaço porque
qualquer coisa que eu estava herdando a questão do tempo não é uma batalha
da Antropologia do espaço sem saber. complicada com os antropólogos,
a relação da Antropologia com as
Paola: Que era o próprio espaço. temporalidades da cidade não é
uma coisa complicada. A questão
Alessia: Sim, o próprio espaço, mas
temporal é sempre bem trabalhada
essa herança era também a necessidade
pelos antropólogos, o problema é
que tenho de espaço, que vem da minha
sempre o espaço e quando eu falo
formação em Arquitetura, não posso
em transformação é uma forma de
pensar a cidade como algo que não se
trabalhar juntos tempo e espaço.
pode pegar [pega e bate na mesa com as
mãos]. Paola: O terceiro capítulo do seu trabalho
é sobre Experimentar ferramentas para
Paola: Pegar nas mãos. Tocar…
a apreender a cidade, você cita três
Alessia: Não no sentido do demiurgo. ferramentas: a grille (grade ou grelha), a
Mas de algo que se pode ver, pegar, carte (mapa, cartografia) e, por fim, um
tocar … outro tipo de olhar. Para seguir sua ordem
comecemos pela grade ou grelha. Pode
Paola: Então seria uma Antropologia da parecer paradoxal você propor uma grade,
cidade que leva em conta a concretude e a sobretudo para os arquitetos que associam
materialidade da cidade. imediatamente a grade a uma ferramenta
moderna, dos Congressos Internacionais
Alessia: Sim, minha linha é um de Arquitetura Moderna (CIAM) e você,
desenvolvimento da Antropologia da ao contrário, relaciona a grade a uma
cidade como eu a entendi, eu parti experiência corporal, você poderia nos
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daí para agora ver como a cidade se explicar melhor isso?
transforma, mas se nós pegamos a ideia
mais pública da Antropologia da cidade, Alessia: Esta coisa da utilização da
de Michel Agier,3 bem mais conhecida grelha é incrível, porque cada vez que
e divulgada que a minha, eu diria que o apresento essa questão da grelha, que
que faço não é bem uma Antropologia eu gosto muito, quando tem arquitetos
da cidade mas é uma outra coisa. na sala, eles berram: “Como é possível
Paola: Que é a questão da transformação. anos e anos e anos de batalhas para se
livrar das grelhas e agora chega uma
Alessia: Sim. fazendo apologia da grelha!” [risos].
Mas isso só acontece nos primeiros 5
Paola: Mas quando você fala minutos, é só ao falar a palavra grelha
transformação há também a questão do g-r-e-l-h-a… 30 minutos depois não
tempo, e você só falou até agora do espaço…

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tem mais isso, é uma maneira astuciosa na rua e perguntar informações – se
de começar a brigar com os outros, é perto ou longe, é o que eu chamo de
sem saber porque no final… Pois eu pré-pré-pré etnografia ou trabalho de
desvio essa ferramenta. O problema campo, um coisa meio troglodita do
é que, você sabe melhor isso que eu, etnógrafo, de só perguntar [risos]. E
com o movimento moderno em geral, depois tem um tipo de olhar gráfico,
a grelha é usada como uma ferramenta muito ligado a formação do arquiteto:
para analisar o mundo mas, para mim, você coloca a grelha sobre um lugar e vê
não é essa a função. A grelha funciona que não é do bom tamanho, é como uma
para escolher o campo, eu coloco a camiseta que você vê que não é do bom
grelha na cartografia mas não é para tamanho, do tamanho certo [risos].
compreender algo com o que a grelha Têm então a experiência da cidade, do
me faria ver. Essa é primeira coisa. caminhar e a do tamanho da camiseta
A grelha não é parecida em lugares também para arrumar o tamanho
diferentes, o tamanho da grelha da grelha. Então, é tudo que não é
é algo que o pesquisador trabalha moderno, não tem um sentido científico
mesmo corporalmente na cidade. da grelha, é mais ligado à sensação que
Fizemos experiências disso entre você tem na cidade, um olhar gráfico
Paris e Bordeaux. Quando fizemos a que você tem, mas não tem uma lei…
experiência em Salvador4 fizemos a
Paola: Mas para que serve exatamente essa
grelha do mesmo tamanho de Paris, mas
ferramenta?
isso foi logo no início. Agora, depois da
experiência em Bordeaux, seria bom Alessia: Esta ferramenta, nós
ver o tamanho da grelha em Salvador. pensamos pela primeira vez em Paris.
Porque o tamanho é ligado à experiência É para quando você está fazendo
urbana que você tem. Em Bordeaux um pré trabalho de campo ou ainda
por exemplo nós vimos isso de duas precisa escolher um campo, você é 9
maneiras, vimos corporalmente o que muitas vezes influenciado por muitos
era perto em Bordeaux comparado com fatores, os fatores podem ser a história
o que era perto em Paris, compreender do lugar, como essa história fica nas
caminhando o que parece perto, o que constituições das fronteiras culturais
está dentro da grelha é considerado ou administrativas da cidade, podem
perto. O que em Bordeaux era perto, ser também as questões econômicas,
em Paris era ainda mais perto, ou seja, bairros mais ricos que outros. São
o tamanho da grelha em Paris era informações que no início do campo,
maior. E também não é só a percepção do momento de escolher um campo são
do pesquisador, ele também faz como muito pesadas, porque? Porque você
um turista chegando na cidade, faz já escolhe a maneira de ver, caminhar
perguntas às pessoas na rua – isso não e olhar dentro, e este para mim era
é etnografia, é simplemente caminhar um problema, porque se eu quero

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entender como a cidade funciona, se uma percepção muito estranha do
eu já represento cartograficamente que é o perímetro, porque você não
a cidade que quero compreender, já sabe bem onde é, você está dentro
com suas fronteiras administrativas, do perímetro mas de uma maneira
socio-econômicas ou políticas, eu já diferente daquela do cotidiano, que
dou uma visão muito precisa. Então a é sempre influenciado por muitas
questão da grelha é uma coisa bem mais fronteiras simbólicas, culturais etc.
simples, era pensar que podemos ver Esse perímetro é uma maneira de se
e representar a cidade sem fronteiras, perder ou de se reperder na cidade,
em Paris isso era muito importante, porque lhe obriga a ir no limite do
a questão das fronteiras aqui é muito perímetro e ver o que acontece. Em
pesada. Paris, isso foi muito importante no
início porque aqui tem o problema do
Paola: Sem fronteiras, mas fixando uma
Périphérique5 como fazer um quadrado
delimitação aleatória…
que o Périphérique não seja o perímetro,
Alessia: Sim claro, completamente mas fique dentro do quadrado? Porque
aleatória. a maneira de representar Paris, em
qualquer tipo de cartografia, tem
Paola: Para desviar das fronteiras sempre uma representação política-
existentes… administrativa da cidade, você tem a
representação pelos arrondissements.6
Alessia: Isso. Por isso que digo que Sempre tem essa representação do
a grelha ajuda a se perder, porque na dentro e do fora, como podemos
nossa maneira de caminhar nas ruas sair desse tipo de representação que
da cidade, nós sabemos, de forma influencia completamente a maneira
consciente ou não, onde estão algumas de olhar? De escolher um campo etc.
fronteiras, só caminhando… Essa é uma Então a grelha, é fundamentalmente
10 herança dos situacionistas, dos jogos uma maneira de se desviar na maneira
psicogeográficos, como, por exemplo, ao de apreender, de entrar em jogo, com a
caminhar, pegar a primeira rua à direita cidade. Ela ajuda a se liberar de muitas
e depois a primeira rua à esquerda, essa coisas… Me faz lembrar de quando eu
era também uma maneira de desviar… fiz meu primeiro grande trabalho de
Paola: Criar uma outra regra para desviar campo no Brasil, eu tive uma reunião
das regras existentes… com o meu orientador, Marc Augé, antes
de viajar, eu estava muito estressada,
Alessia: Exatamente, digo se perder queria preparar o trabalho de campo,
porque ao estar dentro do quadrado (a aproveitar o máximo antes, aí eu
grelha é feita de quadrados) que não perguntei para ele, você tem alguma
segue nenhum dos sentidos, mesmo bibliografia para eu ler? Ele respondeu:
o urbanístico, da cidade, você tem “Não, nada. Você não sabe nada do

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Brasil e se você conhecer alguma coisa temáticos, espacializam em cima das
antes de ir você vai ver as coisas lá com temáticas que trabalhamos com eles
o olhar dos outros...” Na realidade, no protocolo etnográfico que fazemos
isso foi uma generosidade incrível que antes, com várias entrevistas, só
ele me ensinou. Como ficamos com na última entrevista que fazemos
o olhar “virgem” num lugar, sendo os mapas temáticos. Isso para mim
que na cidade você não pode fazer é um desenho, não considero uma
isso, é a sua cidade… Mas quando nós cartografia ainda… A passagem mais
tiramos os significados dos mapas, das importante é a questão da tradução, que
cartografias, as fronteiras mais pesadas, é substancialmente antropológica, o
os significados ficam em mim, em você, pesquisador é o tradutor, ele traduz não
e quando eu lhe peço para desenhar as só a narração do habitante para outros,
fronteiras você pode desenhar, como os que vão ler, mas ele traduz também o
você quiser, mas eu não lhe dou um seu desenho numa forma mais legível.
mapa já com as fronteiras existentes, é Se nós queremos uma ferramenta
bem mais interessante… que possa ser comparada com as
cartografias clássicas, temos que achar
Paola: Você já passou diretamente para a
uma maneira de representar as coisas
segunda ferramenta que é a questão dos
que não estejam ligadas às biografias
mapas, das cartografias, que a princípio
das pessoas mas ao que as pessoas
também pode parecer paradoxal, já que
estão dizendo, o conteúdo das suas
essas representações estão relacionadas
falas, que não está ligado sempre a uma
com uma visão do alto, de cima para baixo,
maneira de representar. Por isso, que as
mapas topográficos, militares, que seria
cartografias habitantes são diferentes
o contrário de uma visão de dentro, dos
dos mapas mentais de Kevin Lynch,7 por
moradores, mas aí você propõe essa ideia
exemplo, onde o desenho mesmo tem
de cartografias habitantes. Seria essa
um significado, para mim o desenho não
uma outra ferramenta metodológica? Se 11
tem significado próprio.
para Arquitetura e Urbanismo a utilização
da cartografia é algo corrente, para a Paola: Tem também toda a questão da
Antropologia não é, porque então usar as Psicologia, uma interpretação psicológica
cartografias para falar com os moradores? do desenho, que você não faz…
As cartografias habitantes seriam traduções
espaciais das etnografias? Alessia: Eu não quero examinar como
as pessoas desenham. Se eu coloco
Alessia: O que eu chamo de cartografia uma página em branco na frente de
habitante é o final deste processo, alguém pedindo para me desenhar
o morador faz os mapas - eu gosto algo, colocar sua narração de algo numa
muito de dizer que eles jogam folha A4, para isso para mim é preciso
cartas, como no Tarô [risos] – para saber desenhar em escala. E desenhar
nós, então eles desenham mapas em escala é algo que se aprende nos

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primeiros anos da Faculdade de uma tabula sinóptica, eles fazem
Arquitetura, eu me lembro disso. Para relações que não tendo essa visão
mim, deontologicamente aí já tem de cima para baixo eles não fariam.
um problema, ou você considera que Essa forma de trabalhar de cima para
qualquer pessoa sabe desenhar em baixo é também um salto abstrato,
escala ou você vai analisar a maneira ver a cidade de cima para baixo, sem
pela qual as pessoas vão representar fotografias, sem cores, é uma abstração
as coisas sendo que elas tem muitos completa. Trabalhar com essa abstração
problemas de expressão gráfica. Então é interessante para ver como algumas
por isso utilizo sempre uma base. relações entre as partes da cidade
podem ser interpretadas e propostas
Paola: Que já tem uma escala…
pelos habitantes, depois, claro, um
Alessia: Sim. Eu quero trabalhar com mapa é sempre uma visão de cima para
eles no conteúdo do que eles falam e não baixo. Não acredito que só olhar de
nas maneiras de representar. Eu pensei baixo para baixo dá em algo…
muito porque eu não estava de acordo Paola: A cartografia habitante então ela é
com Kevin Lynch, eu reli muito o Lynch uma abstração mas com os dados dos próprios
no ano passado, ele foi muito importante habitantes, o que muda são os indicadores
para nós todos, mas ele faz, ainda nos que não são mais os dados estatísticos, e
anos 1960, os moradores desenharem também os temas que são espacializados
numa folha em branco, isso é tipicamente pelos próprios habitantes, é isso?
moderno, ele faz uma tabula rasa
simbolicamente, e são os moradores que Alessia: É isso, mas só para concluir
devem reconstruir a cidade! Para mim sobre as biografias das pessoas,
isso é um problema, você não trabalha quando você faz esses mapas, são
sobre a cidade, não faz ver a cidade. mapas maravilhosos, mas são objetos
12 Então, o que eu quis fazer foi trabalhar singulares, o problema é: como eu
com a cidade que está aí. Não com todo faço passar do singular ao coletivo?
o poder para mim… que é também Esse é um problema da Antropologia,
uma recolocação da figura demiúrgica como faço esse salto trabalhando
do arquiteto, dizendo isso com muito com esse coletivo que não esquece o
cuidado, mas o processo é o mesmo, o singular? Esse é o grande trabalho da
gesto no lugar onde não tem nada. Antropologia, esse é o fundamento
mesmo da disciplina, poder falar do
Paola: Mas quando você dá uma base, ela é
geral partindo do mais particular. Como
uma visão de cima, também demiúrgica..
nós podemos sair das visões muito
Alessia: Claro, é uma visão demiúrgica particulares, biográficas de cada um,
mas é também uma visão técnica, desenhos lindos dos moradores, obras
que damos aos moradores, eles estão de arte, para algo que seja uma narração
trabalhando para a cidade, é também coletiva.

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Paola: A cartografia habitante é coletiva então o habitante não marca no mapa
e pode ser comparada com cartografias sozinho, este é um momento muito
tradicionais, o que daria então para elas importante com o pesquisador, então
uma valor quase técnico, no momento em o pesquisador precisa entender o que o
que você as compara… morador está marcando no mapa para
depois o pesquisador poder redesenhar
Alessia: Um pouco técnico, como o mapa para torná-lo mais legível.
sempre digo. Essa é uma grande
Paola: A terceira e última ferramenta que
questão epistemológica. Sempre
você propõe, é um outro olhar, uma outra
comparamos as cartografias, a questão
forma de olhar do pesquisador, um olhar
é como comparamos qualitativo
de dentro e do detalhe, que é também um
com quantitativo. A necessidade
tipo de deslocamento do olhar, um tipo
do qualitativo trabalhar com o
de desvio, na verdade as três ferramentas
quantitativo.
são desvios, você usa a grelha para desviar
Paola: Juntos. da fronteira existente e pré–concebida,
você usa a cartografia habitante também
Alessia: Sempre juntos, para para desviar de alguma forma das
isso o qualitativo precisa ter cartografias mais objetivas e estatísticas,
uma representação que possa ser mas também para poder conversar com
comparada mas nunca fazendo um elas, e tem também esse desvio do olhar.
falso mapa qualitativo, como os mapas Essa ferramenta do olhar, que é diferente
cooperativos do Google, por exemplo, do olhar de cima e de longe da cartografia,
todo mundo coloca I like no lugar que estaria intimamente ligada ao que você
gosta, I like, I like, I like, mas isso não é defende, inclusive no seu artigo publicado
um mapa qualitativo, é quantitativo, neste número da revista, que seria essa
mas ninguém acha que é quantitativo, postura antropológica de apreensão
isso é um falso qualitativo, só porque da cidade? Essa postura antropológica 13
são as pessoas que vão marcar no mapa, estaria ligada a este desvio do olhar, para o
mas o problema é o que quer dizer o I pequeno, o quase nada, o detalhe, um olhar
like de cada um, o que eu digo do meu I de dentro?
like de um lugar é diferente do que você
diz do seu. Alessia: [risos] É. Também. As duas
coisas não são pares antitéticos
Paola: Porque aí não tem a tradução do
para mim, olhar de cima e de longe,
pesquisador.
e olhar de dentro e do detalhe,
parecem antitéticos mas não são. A
Alessia: Não tem tradução alguma.
postura antropológica é intimamente
Tem só o gesto de marcar um lugar no
ligada à maneira de se perguntar
mapa, isso sim é de cima para baixo.
incansavelmente sobre a realidade
A tradução é tudo que o pesquisador
que está na nossa frente e, por isso, o
entende da entrevista com o morador,

Book 1.indb 13 25/9/2012 13:19:03


detalhe ganha significado. Por isso eu pequena escala, numa outra escala
defendo que os arquitetos e urbanistas bem maior, aí se têm relação com
podem ter uma postura antropológica, outras disciplinas, como a geografia,
se quiserem, no sentido de se abrir para ou ainda com as questões temporais,
a possibilidade de ver que o mesmo com a história. Não se tem nunca uma
lugar, se temos que falar de espaço, só maneira de ver, por isso eu falo de
pode ser interpretado, visto e sentido de uma postura antropológica, que é mais
maneiras outras, e que essas maneiras uma maneira de estar aberto – como um
outras participam da construção desse bom antropólogo ao fazer etnografia
lugar, e essas outras maneiras controem – ao fazer um trabalho de campo, é
também a nossa maneira de olhar a estar aberto para compreender como
cidade. A postura é o modo como nós funciona o mundo e compreender
podemos compreender as maneiras dos todas as relações que os outros estão
outros olharem a cidade, por exemplo. contando para nós. O que o antropólogo
Mas não são todos que têm esta faz é compreender essas relações e
necessidade de entender como a cidade colocá-las juntas, não num esquema
pode ser olhada, interpretada, contada, como faziam os estruturalistas, mas
narrada, e o significado que ela tem num tipo de narração que faça sentido
para os outros. Para muitos essa não é a para um determinado momento
questão. histórico. Essa é uma postura
antropológica, não é só disciplinar,
Paola: Mas aqui onde estamos agora, no
pois vai além das disciplinas, é uma
Laboratório de pesquisa que você coordena,
maneira de trabalhar com o tempo e
essa é a questão principal…
com o espaço, por isso a luta disciplinar,
Alessia: Para nós aqui sim. Para nós entre as disciplinas, não me interessa
essa é a questão, por isso tem um salto em nada.
14 disciplinar necessário, um mesmo Paola: Aqui no Laboratório Arquitetura/
lugar pode ser interpretado por vários Antropologia, eu percebo claramente
atores, não só pelos habitantes, então a busca desta postura antropológica
temos que aprender a falar com os pelos pesquisadores que são arquitetos e
habitantes e como trabalhar sobre isso urbanistas, estamos aqui dentro de uma
com os habitantes. Os antropólogos dão Escola de Arquitetura,8 mas e os outros
ferramentas para os arquitetos fazerem pesquisadores, antropólogos e outros,
entrevistas com os habitantes e também que não tem formação em Arquitetura e
os antropólogos mais puros, no mesmo Urbanismo? Será que poderíamos falar
lugar, vão entrevistar arquitetos para também de uma postura urbanística para os
entender como o espaço foi concebido, antropólogos?
eles precisam aprender a ler mapas,
mas também pode ser interessante Alessia: [Risos]. Eu gostaria muito!
ver esse mesmo lugar estudado numa [risos] Gostaria muito!

Book 1.indb 14 25/9/2012 13:19:03


Paola: Esta postura urbanística para os Paola: Para quê?
antropólogos poderia ser equivalente a
esta postura antropológica para arquitetos- Alessia: Sim, para que separar? Qual o
urbanistas e seria o que possibilitaria os sentido dessa separação? Não valoriza
diálogos entre eles, arquitetos, urbanistas e em nada, não. A Antropologia urbana,
antropólogos? Sociologia urbana, Geografia urbana
nasceram todas no mesmo momento,
Alessia: Sim, claro! então não entendo para que separá-
las, não entendo essa pequena guerra
Paola: E poderíamos falar, juntando essas
disciplinar entre as disciplinas sobre a
duas posturas, de uma postura ou de um
cidade. Não compreendo, mesmo se eu
diálogo mais humanista sobre a cidade,
batalho muito…
como dizia Ana Clara Torres Ribeiro…
Paola: Mas minha pergunta era um pouco
Alessia: Já me falaram que eu tinha outra, por minha própria experiência
uma postura ecológica, não no sentido aqui no Laboratório, eu entendi muito
ambiental, mas da maneira de trabalhar bem um aprendizado, uma apreensão, nos
com as diferentes disciplinas, uma dois sentidos da palavra, de ferramentas
abertura disciplinar como no início do da Antropologia e Etnografia para os
século XX, chamado de Ecologia Urbana, arquitetos e urbanistas, mas eu vejo
que não era uma disciplina mas era um que tem também um aprendizado de
conjunto de disciplinas pela cidade, ferramentas arquitetônicas e urbanisticas
não no fechamento disciplinar que para os outros pesquisadores, sobretudo
aconteceu depois, quando o sentido antropólogos, como você falou já da questão
ficou outro. Falar de Ecologia Urbana da cartografia…
agora é outra coisa…
Alessia: Sim, claro, eu comprendo o
Paola: Você fala da Ecologia Urbana da
que você diz, você têm toda razão. Sim,
Escola de Chicago? 15
sim, mas eu queria que ainda fosse
Alessia: Sim, no início na Escola de mais. Eu discuti muito sobre isso no ano
Chicago não era só Sociologia urbana, passado com um amigo arquiteto que é
Antropologia urbana, disciplinas um grande leitor da Antropologia, ele
separadas, eles faziam, sociólogos, me perguntou, “eu leio os antropólogos
geógrafos, urbanistas, um trabalho mas porque os antropólogos não
conjunto sobre a questão da cidade, o que leem os arquitetos e urbanistas?”.
era muito inteligente. Depois só ficaram Não são todos que escrevem coisas
as “escolinhas” uma na frente das outras desisteressantes, os textos de arquitetos
e eu não sei nem dizer a diferença e urbanistas não são sempre uma visão
entre, por exemplo, Geografia Urbana de cima para baixo. Nisso eu estou
e Sociologia Urbana… Se pode falar em de acordo com ele, tem algo, que não
pequenas diferenças mas, por quê? seria bem um desprezo, talvez seja um
tipo de desqualificação da parte dos

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antropólogos, que fazem um discurso arquitetos mas eles tem a formação para
de que os arquitetos e urbanistas não isso, para juntar as coisas, lêem coisas
podem tem uma visão, uma escritura, diferentes, de literatura, de filosofia…
sensível da cidade porque eles não Os antropólogos já ficam mais dentro do
teriam uma experiência sensível da círculo da grande literatura produzida
cidade, esta experiência só poderia pelos que estão dentro do campo, sobre
partir dos habitantes, ou seja, só o que está fora… Mas os que escrevem
se compreenderia passando pelas de fora para dentro são raros, são os
etnografias… Eu acho esse discurso dos filósofos, existe uma relação entre
antropólogos muito limitado. Então Filosofia e Antropologia ou Psicologia
se você pergunta para um arquiteto e Antropologia, mas são poucos os
daqui do Laboratório sobre Michel de antropólogos que trabalham com
Certeau, Marc Augé, todos conhecem, geógrafos, por exemplo, são raras essas
mas se eu pergunto a um antropólogo relações.
sobre Aldo Rossi, Giancarlo de Carlo,
Paola: Mas talvez seja também
por exemplo, eles nunca ouviram falar…
simplesmente por causa da abrangência
É como se tivesse um peso disciplinar
da produção bibliográfica dentro do
mais complicado para os antropólogos.
campo disciplinar da Antropologia, que
Os arquitetos são educados a fazer
é bem maior de fato do que no campo da
montagens, colocar juntas disciplinas
Arquitetura e Urbanismo, que ainda produz
diferentes, seja só entre técnicas
muito menos…
e humanísticas, são dois mundos
diferentes. A Antropologia não tem esse Alessia: Isso é certíssimo, mas
problema, tem escolas de pensamento é incrível: é muito raro ver os
no interior da própria disciplina, mas antropólogos daqui do Laboratório
não tem muitas coisas juntas de outras lendo livros de urbanismo da nossa
disciplinas, não se faz montagem, só de biblioteca, por exemplo… Isso é
16
narrações, de palavras de moradores, uma pequena briga minha com os
mas não de outras disciplinas. Por isso antropólogos… A minha luta é para
digo que o problema epistemólogico de que os antropólogos tenham também
fundo é colocar juntos o qualitativo com essa cultura urbanística dos arquitetos,
o quantitativo, as duas coisas juntas. Os que saibam mais sobre a história do
arquitetos e urbanistas juntam as duas urbanismo, das teorias urbanísticas,
coisas, quase sempre fazem, ou melhor, que é também fundamental para
os bons fazem… se trabalhar sobre a cidade, para se
Paola: Ou deveriam fazer… compreender a cidade, sobre o que eles
estão trabalhando. Sobretudo o discurso
Alessia: Sim, deveriam fazer, juntar da disciplina urbanística, das teorias
qualitativo e quantitativo. Não estou urbanísticas, sobre o que eu chamo de
fazendo uma apologia da formação dos fazer a cidade, ou seja, as maneiras,

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teorias, escolas de pensamento que batalha é para que os antropólogos
estão por trás disso… possam participar dos projetos, sejam
atores, do início ao fim do processo. O
Paola: É isso que nós fazemos na nossa
problema é dos dois lados, os arquitetos
pesquisa da Cronologia do Pensamento
e urbanistas pedem aos antropólogos
Urbanístico,9 que vocês também
ajuda no início do processo, na parte
colaboram…
do “diagnóstico”, mas eles não sabem
Alessia: Exatamente. que isso já faz parte do projeto. Por
exemplo, como o Alban Bensa trabalhou
Paola: Buscamos entender esta circulação para o Renzo Piano no projeto da Nova
de ideias urbanísticas, que às vezes vem de Caledônia, ele só participou no início,
outras disciplinas e que às vezes vão para passou todas as informações mas depois
outras disciplinas também… não participou mais. É como quando os
moradores entram no processo e depois
Alessia: Exatamente, para mim estas saem, tem uma certa blindagem dos
são questões fundamentais, mas não sei arquitetos e urbanistas que defendem o
se são fundamentais para todos… projeto como algo que tanto do lado da
Paola: Talvez a grande questão do criação quanto do lado da técnica seria
Laboratório Arquitetura/Antropologia só para os “iniciados”. Não seria nem
esteja nessa dupla formação, ou ainda, a participação o termo, porque quando
própria contaminação mesmo entre as duas você participa tem sempre alguém que
disciplinas, Arquitetura e Antropologia, ou lhe chama para partipar, por isso acho
seja, quando uma disciplina contamina e que é melhor falar em implicação, que é
se deixa contaminar pela outra, para que se sentir, ser ator do processo. É como
o diálogo entre elas possa ser ainda mais uma peça teatral, tem atores principais,
profícuo. protagonistas, e tem os figurantes,
que entram e saem sem saber o valor
17
Alessia: Sim. Tem também a questão da palavra dele no contexto de toda a
da implicação que é importante, ter peça. O problema é como fazer de todos
a liberdade de poder pensar que os os atores, protagonistas, moradores e
antropólogos também podem fazer outros, do início ao final da peça.
projeto urbano, que o projeto não é
Paola: Mas isso muda se passarmos a
só a criação de uma forma, mas se
pensar, o que não é fácil para a maioria
trata de um processo e que eles são
dos arquitetos, que o projeto não é a
também atores nesse processo. Esse
configuração final do processo mas que é
é um problema, porque parece que há
o próprio processo, desde o início, e que o
uma certa magia, que seria a magia da
processo todo já configura o projeto. Seria
criação, que só os arquitetos teriam,
então uma questão de mudar a maneira
e aí os antropólogos ficam de lado,
de pensar o projeto e pensá-lo como um
olhando os arquitetos que desenham,
processo, e também como processo coletivo.
como se o projeto fosse só isso. Minha

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Pensar que o projeto urbano não é um faça isso, mas para o Laboratório a
monopólio de arquitetos e urbanistas, mas empiria é necessária, tem que antes de
aí a questão autoral é colocada em jogo se sentar, correr um pouco pela cidade,
também, uma vez que todos que estão suar um pouco antes de se sentar, e o
implicados no projeto são também co- impertinente é o lado indisciplinado,
autores… você pode fazer empiria, trabalho
de campo, sem seguir as regras mais
Alessia: Exatamente. Eu tive a rígidas de fazer o trabalho de campo.
chance de conhecer arquitetos que
Paola: Os protocolos?
integravam outros atores no projeto,
isso é algo fundamental para mim Alessia: Sim, os p-r-o-t-o-c-o-l-o-s. Nós
agora, sobretudo do ponto de vista criamos nossos protocolos, mas que
pedagógico. Para mim é um ato corajoso mudam a cada vez. O impertinente é
que reconhece as competências de cada desviar todas as regras que nós mesmos
um e solicita a implicação de todos, nos colocamos, mas como se desvia
uma maneira de fazer não especializada e porque se desvia? O impertinente
dos atores para poder coconstruir um é também dizer: eu não sou um
processo e tornar todos planejadores, antropólogo mas eu vou fazer um
para cuidar, tomar cuidado, da cidade. trabalho de campo.
Paola: Para fechar, eu queria que você Paola: Então um arquiteto pode dizer que
falasse um pouco mais do que você chama vai fazer uma etnografia?
de “empirismo impertinente”, eu gosto
muito deste termo… De que forma você Alessia: Mas é claro! Aqui no
leva essa ideia tanto para as pesquisas Laboratório isso não é mais
do Laboratório quanto para a pedagogia, impertinente porque todo mundo
com seus estudantes em Arquitetura e faz, mas para a academia seria uma
18 Urbanismo? impertinência essa ideia de que para
compreender algumas coisas nós
Alessia: Na pesquisa acadêmica, precisamos passar pela empiria, e que
para mim, isso é não se deixar cair a empiria, todo mundo pode fazer,
na facilidade e no conforto de fazer cada um de sua própria maneira, sem
teoria sem fazer prática. Agora, é julgamento nenhum. E que, entre nós,
muito confortável se fazer só teoria: podemos trocar nossas ferramentas,
você está bem confortável na sua casa, por exemplo, a Sandra Parvu, arquiteta
sozinho, ninguém lhe chateia, você e e urbanista, está no campo e liga para
seu computador, fantástico! Então, você pedir ajuda para a Cristina Rossi, que é
escreve, você se lê, uma ligação amorosa antropóloga.
entre você e você… [risos] Não estou
dizendo que isto não seja necessário, Paola: Isso não quer dizer que a Cristina
é importante que tenha gente que e os antropólogos fazem as entrevistas e a

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Sandra e os arquitetos as cartografias, ao Paola: Como você constrói com os outros?
contrário, quer dizer que as duas trocam
de lugar também e fazem as duas coisas, Alessia: Sim, com os outros, não
etnografias e traduções cartográficas, não é? sozinho, porque senão você só
faz performances ou outras coisas
Alessia: Sim, é isso, por isso que confortáveis [risos]. E outro problema
empiria impertinente seria uma empiria é como transmitir isso para os
na frente de tudo, antes de tudo nós estudantes, acho que isso tudo passa pela
vamos tocar as coisas [bate na mesa], a experiência também, dar aos estudantes
realidade, e depois falamos entre nós, possibilidades de experimentar
só depois... Mas como nós tocamos a ferramentas, fazer exercícios de
realidade [bate na mesa] também é experimentação. Mas não é fácil, às
uma maneira impertinente, como nos vezes falta tempo também de sentar
colocamos, trabalhamos juntos etc. confortavelmente depois e entender
o que fizemos, esse é o problema do
Paola: Então esse tocar a realidade volta
empirismo, não sobrar tempo para
naquela sua fala inicial do ter, pegar,
compreender o que se fez, as ferramentas
apanhar entre as mãos, essa impertinência
que se usou etc. Gosto muito quando os
tem ligação com isso? Com um apreender e
estudantes usam depois as ferramentas
ter uma experiência empírica, sem importar
que foram dadas, sozinhos, nessa parte
de qual disciplina você vem, seria uma
tem toda a tradução, já tem um protocolo
ação indisciplinada nesse sentido, de não
mas tem uma interpretação também, é
interessar a disciplina?
quando eles fazem o salto, compreendem
Alessia: Sim, o que interessa é como que as ferramentas são algo que eles
você está no campo, no seu trabalho de ganham…
campo, não me interessa de onde você Paola: E que eles também podem mudar,
vêm, de qual disciplina. É como você é, criar outras ferramentas, elas não são 19
nesse sentido é humanista, como você sempre dadas, não são pré-existentes...
disse.
Alessia: Sim, isso é difícil porque
Paola: É a postura no trabalho de campo?
estamos ainda na utopia de dar
Alessia: Sim, no sentido humanista, todas as ferramentas na mão dos
de como é você no campo, como você estudantes, mostrar todas possíveis,
contrói a sua relação com os outros, seja fazer experimentar as formas de olhar
você um arquiteto, um antropólogo, um a cidade, olhar de dentro, de baixo, de
geógrafo, não me interessa, você têm cima, do lado, dançando, tudo, mas aí
seu próprio óculos para ver a realidade eles ficam assim… [faz uma expressão de
depois, mas o que me interessa é como estar perdida, tonta] e eles não pararam
você está no campo, como você contrói para entender o que fizeram. É um pouco
uma situação de campo. demais. Isso é por causa do medo que

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temos de dar uma visão única, acabamos arco semântico, na mesma família de
dando muitas maneiras, que eles podem sentidos, de cura, de...
escolher, mas o problema é a falta de
Paola: ...de cuidado.
tempo.
Paola: Então a relação da pedagogia com Alessia: Isso, cuidado, mas tem que ser
a empiria impertinente está diretamente curioso também.
relacionada também com a postura Paola: Mas para ser curioso tem que sair de
antropológica, mas esta postura não é fácil sua zona de segurança…
de se ensinar…
Alessia: É claro, são os dois opostos
Alessia: Claro. Não é fácil de se mas que estão na mesma família.
ensinar, você não pode ensinar, você
só dá pedaços de coisas, é como um Paola: Para você então a empiria
jogo, e você espera que os estudantes impertinente é sair da segurança para
façam as relações… Para um professor chegar numa curiosidade que leva... ao
também, eu sempre me sinto mal incerto?
quando estou muito confortável, eu
me entedio só de pensar… Como não Alessia: É isso, o problema é esse, sair
ficar na zona de conforto e trabalhar da segurança, do confortável, é isso.
sobre isso? Tenho alguns resultados, Paola: Mas para você a teoria “pura”,
tem alguns estudantes curiosos, o que é sem essa empiria, e a arte, você falou da
raro na França, aqui se eu tenho um só performance, também ficariam nesta zona
estudante curioso, eu já fico contente! A confortável, na zona de segurança?
curiosidade aqui é um talento raro, não
tem uma educação para a curiosidade Alessia: [Silêncio] Não, não são todos
e essa curiosidade é a empiria assim, eu não diria isso, é mais uma
20 impertinente. Curiosidade é aquela de maneira de fazer, tem uma empiria
querer saber o que o seu vizinho está outra, que não é só aquela de ir para a
fazendo [ela se levanta e abre um pouco rua, de fazer coisas, tem uma empiria
a porta para ficar espiando o que está de ver os livros, de estar com os autores,
acontecendo lá fora], é um pouco isso. outro tipo de curiosidade que não é
Eles não têm curiosidade de saber, por só ligada à realidade externa, que é
exemplo, na história da arquitetura, mais uma postura pessoal, nós temos
quem eram os arquitetos, quem eram necessidade, eu também utilizo muito
os amigos deles, suas vidas privadas, os teóricos, que não fazem trabalho de
eles não tem curiosidade alguma. campo…
Empiria impertinente é uma forma de
Paola: E os artistas? Que por vezes
curiosidade. Curiosidade e segurança
também fazem trabalho de campo…
tem a mesma etimologia, que é “cura”,
curioso e seguro estão no mesmo Alessia: Sim, claro [pausa] na verdade

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eu gosto de muitos artistas que fazem
trabalho de campo.
Paola: Você quer dizer mais alguma coisa?

Alessia: Eu quero dizer bacio à la


mamma [gargalhadas], como todos os
italianos quando entrevistados pela
televisão nos jogos de futebol [muitos
risos].

Notas
1
Apprehender la ville. Vers une anthropologie de la
transformation urbaine.Trabalho formulado para defesa de HDR
(Habilitation à Diriger des Recherches), que teve como banca
(13/4/2012) os professores e pesquisadores: Anne Raulin,
Université Paris Ouest; Michel Agier, EHESS; Augustin Berque,
EHESS; Jean Marc Besse, CNRS e Philippe Bonnin, CNRS. A
publicação encontra-se no prelo, será publicado pelas éditions
Donner Lieu (Paris).
2
RICHARD, Sennett, The Craftman, publicado em português
(tradução de Clovis Marques) como O artífice. Rio de Janeiro:
Record, 2009.
3
AGIER, Michel. Antropologia da cidade: lugares, situações,
movimentos. Tradução Graça Cordeiro. São Paulo: Editora
Terceiro Nome, 2011.
4
Recorte Salvador, Atelier 5 FAUFBA – <http://www.
laboratoriourbano.ufba.br/recortesalvador/index.htm>. 21

5
Anel viário em torno da cidade de Paris, no lugar dos antigos
muros da cidade, que faz a fronteira entre Paris e as banlieues,
as periferias.
6
As 20 regiões administrativas de Paris intramuros, cada qual
com sua subprefeitura.
7
LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. Tradução Jefferson Luiz
Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
8
O Laboratório Arquitetura /Antropologia (LAA) faz parte da
Escola Nacional Superior de Arquitetura de Paris-La Villette
(ENSAPLV).
9
Pesquisa realizada por equipe do Laboratório Urbano (UFBA)
e equipe do LEU (UFRJ): <http://www.cronologiadourbanismo.
ufba.br>.

Book 1.indb 21 25/9/2012 13:19:04


CONTRAPONTO

Fernando Ferraz Gigante*


Luiz Antonio de Souza**
Washington Drummond***

Do Seminário
Público ou a zona
de risco – uma “quando se tem pressa, não se deve correr.”
contribuição B. Brecht

analítica 1.
Chegamos à terceira edição do
22
CORPOCIDADE, desta feita em conjunção com o 3º
* engenheiro civil, professor do PPG Arquitetura Encontro Cidade e Cultura (Pró-Cultura – Capes/
e Urbanismo UFBA MinC) e com o 1º Seminário do Projeto de pesquisa
“Experiências metodológicas para a compreensão da
** arquiteto, urbanista, professor do curso de complexidade da cidade contemporânea” (PRONEM
Urbanismo da UNEB – FAPESB/CNPq), denominado Seminário Público
– uma atividade operada a partir de comunicações
*** historiador, professor do PPG Crítica Cultural de cunho mais teórico.
UNEB, PPG Arquitetura e Urbanismo UFBA.
A comissão de seleção das comunicações
composta pelos professores Fernando Ferraz (PPG-
AU/UFBA), Luiz Antonio de Souza (UNEB) e
Washington Drummond (PPG-AU/UFBA e UNEB) se
pautou em tentar selecionar uma gama de trabalhos

Book 1.indb 22 25/9/2012 13:19:04


que apresentassem uma grande variedade temática, de performance/intervenção aqui tomados como
metodológica e disciplinar, contando com a presença práticas metodológicas. Talvez, a ousadia da
de pesquisadores acadêmicos, artistas, estudantes etc., empreitada exigisse em demasia dos pesquisadores.
além de tentar oferecer aos participantes um panorama Entretanto, retomando a ideia de zona de risco,
nacional do nosso “campo de pesquisa”. talvez possamos avaliar de maneira diferente as
As diretrizes subentendidas para as diversas mesas do Seminário Público. 
apresentações das comunicações foram associadas
3.
a três eixos de apreensão da cidade contemporânea:
ação artística, propostas metodológicas e Qual a mediação possível que o estético nos
experiências. Parte das comunicações que assistimos proporcionaria nas investigações do urbano?
manteve conexões com as Oficinas que, juntamente A primeira imagem que nos chega é o protagonismo
com o Seminário de Articulação, compuseram a do corpo (já delimitado pelo tipo de prática artística
estrutura geral do Encontro. contemporânea escolhida: body art, performance,
intervenção) . Uma grande parte dos trabalhos
2. apresentados condiciona sua potência ao estatuto
Através de uma análise do conjunto dos do corpo como suporte, o que na visão dos
trabalhos selecionados e apresentados no Seminário pesquisadores poderia dar não apenas um vetor
Público notamos que existe hoje um grupo de de diferenciação, mas a superação de um exercício
pesquisadores que se encontra num produtivo investigativo que se caracterizaria tanto pela postura
dilema: como abandonar os cânones das pesquisas de “gabinete”, quanto por uma excessiva aventura
urbanas e iniciar uma outra prática, que leve em teoricizante, inócua e árida. Por outro lado, a inclusão
conta o fazer estético e uma adaptação/reinvenção da gestualidade e da “incorporação” do ato de
do exercício etnográfico ? De qualquer forma, pesquisa a qualificaria como ato de presença e daí
parte-se da estética e da etnografia, como uma seu primeiro viés “etnográfico”, o espontaneísmo
metáfora do seu exercício moderno. A arte está e todos os correlatos russeístas: os perigos de uma
temperada com a sua prática dita pós-moderna, etnografia selvagem como paradigma de um contato
fruto das tentativas do campo, quando nos anos mais profundo do que aquele propiciado pelo conceito 23

1970, do século passado, buscou-se o abandono e pela abstração teórica. A membrana estética
das galerias ou sua crítica radical, a ênfase no corpo recobriria então a investigação urbana, numa dupla
como “suporte”, o espaço urbano como campo crítica aos fazeres dos pesquisadores agora prosaicos
expandido; quanto ao universo etnográfico, as e ultrapassados, com os dons de uma partilha cristã
investigações dos surrealistas e dos pesquisadores do sensível (a teoria é cinza e mefítica!) e uma nova
do Musee d l’Homme, que alguns definem abordagem metodológica afinada aos tempos, posto
como uma etnografia selvagem, assim como, as que colaborativa (o conceito parece ainda muito
práticas narrativas antropológicas, também dos próximo do nome próprio e da tradição moderna!).
anos 70, que atuavam na indistinção entre relato Eis, sem delongas, a nossa zona de risco.
etnográfico e ficcionalização, entrando em campo
4.
um conjunto de narrativas. As diversas falas que
marcaram o Seminário Público confluem em Uma experiência como risco tem limites?1
gestos de intervenção aliados aos procedimentos Quais os riscos que nos permitiríamos correr para

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reformularmos as práticas de pesquisa urbana? 5.
Se uma análise institucional indicaria as formas Seguindo a nossa metodologia de análise do
pelas quais são garantidas a sobrevivência dos seus Seminário Público, destacamos como a segunda
regimes de produção de saber, a circunscrição dos grande discussão traumática dos nossos impasses
discursos aos modos estabelecidos de enunciação, o debate ocorrido entre o pensamento da
quais seriam nossas estratégias e quais as estratégias pesquisadora Ana Clara Torres Ribeiro, apresentado
institucionais? Pois, se um dia pautaram-se pelo pelos pesquisadores/orientandos do grupo de
domínio discursivo, impondo e restringindo, hoje pesquisa LASTRO do IPPUR/UFRJ, a incisiva
se recompõem numa virada astuciosa, a saber: comunicação de Cibele Saliba Rizek e a elaboração
incorporar a diferença enquanto multi/inter/ filosófica de Pasqualino Romano Magnavita.
trans disciplinaridade, no caso sob os auspícios do
As circunstâncias que nos ameaçam, nesse
estético, numa gestão dessa diferença que espelha
momento, nos incitam a procurarmos caminhos
a sua própria face: a falsa dicotomia entre prática
de compreensão e intervenção na cidade que
e teoria, a autonomia da metodologia, a recusa à
não passe ao largo de uma análise dos principais
abstração. Melodrama da diferença sob o signo
enfrentamentos políticos pelos quais passamos
do mesmo e do medo, posto que escorrega num
todos. A figura do homem urbano ordinário surge
falso caminho. A diferença sendo programada
como o sujeito primordial de nossas investigações,
institucionalmente.
sendo travado um corpo-a-corpo teórico para
Felizmente, a zona de risco dos trabalhos do estabelecermos os quadros estratégicos, seja
Seminário Público se encontrou em outro teatro de sua submissão às novas formas de controle
das formas: a própria estrutura da proposta visava e assujeitamento, seja às novas táticas de
articular os eventos experienciais e metodológicos enfrentamento que esses mesmo homens não
com a apresentação, análise e debate dos mesmos. cessam de enfrentar. Talvez, daí nossas expectativas
Era-nos claro desde o princípio que a produção nas apresentações dos trabalhos dos três
teórica e as experiências urbanas deveriam, longe de pesquisadores elencados acima.
um afastamento ou de uma comunhão utópica, se
Qual o ponto de partida de nossas análises?
24 confrontarem num permanente desafio.
O pensamento crítico contemporâneo, apesar de
O agendamento de pesquisadores para a
sua perspicácia e por vezes, criticidade exasperante,
coordenação das mesas, ancorados numa leitura e
delineia caminhos diversos, que a nosso ver,
análise prévia das comunicações, visava justamente
deveriam confluir para a superação dicotômica, a
isso, a saber, concorrer para que a distribuição
caminho de seu fortalecimento como uma grande
das falas entre artistas, estudantes, pesquisadores
metáfora de nossa capacidade de descrevermos
profissionais, fosse o momento e o lugar propício
o presente urbano que nos assombra. A despeito
para esse embate frutífero.
das fórmulas e conceitos de circulação globalizada,
As mesas, em seu conjunto, embora oriunda de campos teóricos diversos (estado de
tematicamente diferissem, cumpriram o mesmo exceção, partilha do sensível, diferença e heterogeneidade,
destino, evocar as contradições éticas e políticas dos ecologia do medo etc.), pensamos que o Seminário
nossos principais impasses enquanto pesquisadores Público nos proporcionou vislumbrar pelo menos
do urbano. duas vias contraditórias e que deveriam se
atritar para que possamos – como faz o já célebre

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acelerador de partículas, enterrado sob a fronteira apoia a ação”. O que ficou claro é que a cartografia
França-Suiça, que acelera e provoca colisões frontais que interessa é um instrumento de ação e também
entre pedaços de átomos – perceber e registrar de resistência. O que deve ser cartografado, “posto
as suas outras partículas de conceitos ainda não na carta” são as formas de resistências dos sujeitos
identificadas, mas que só surgirão da colisão e de seus gestos, a leitura e a percepção que esses
daquelas já estabelecidas. sujeitos têm do espaço.
Apresentamos agora um breve relato desse Outra questão que nos pareceu importante nas
pequeno e hipotético big-bang teórico de acordo com discussões provocadas por essa mesa foi o de como
o que definimos como uma ontologia do presente e inserir o tempo na carta. Ficou clara a dificuldade,
uma oncologia do presente, ambas embasadas numa ficou claro também que aí reside um desafio:
crítica ferrenha, aliada a uma visada rigorosa do consegue-se colocar a datas não o tempo. Por fim
estado urbano contemporâneo.   algo pareceu-nos importante. Afinal a cartografia
não foi sempre um instrumento de poder? Como
6. fazer da cartografia da ação um instrumento de
A primeira mesa do Seminário Público foi toda contrapoder?
ela dedicada a uma homenagem a Ana Clara Torres A mesa “Cidade, cultura, corpo e experiência”
Ribeiro e sua noção de “cartografia da ação social” foi formada pelos pesquisadores Cibele Saliba
coordenada pelo grupo de pesquisa LASTRO do Rizek, Pasqualino Romano Magnavita e Frederico
IPPUR/UFRJ sendo composta pelos pesquisadores Guilherme Bandeira de Araujo. A estrutura dessa
Cátia Antonia da Silva, Luis Peruci, Ivy Schipper e mesa foi menos homogênea que a anterior. Ao nosso
Vinicius Carvalho. A ideia de fundo, obviamente, foi ver, um dos problemas importantes levantados pela
a de “cartografia”. Em uma entrevista dada por Ana mesa partiu das provocações feitas por Rizek, que
Clara Torres Ribeiro à Alessia de Biase, Ribeiro2 nos trataram do problema da “militarização da gestão
diz que essa noção deve ser entendida como “[...] a urbana”, tendo como modelo de análise a cidade de
construção do espaço realizada pelo sujeito e pelos São Paulo.
gestos dele”. Nesse sentido a cartografia seria “[...]
Rizek partiu de uma ideia cara defendida por
uma cartografia da ação, ela não é uma cartografia 25
Walter Benjamin e retomada por Giorgio Agamben,
social. Porque a cartografia social está preocupada
qual seja, “somos pobres em experiências limiares”.
com os indicadores, com as desigualdades sociais e
De início, o limiar é radicalmente distinto do limite,
no meu caso é a construção do espaço pelo gesto”.
esse último se refere a fronteiras, sendo que o
Foi muito debatida, durante essa primeira limiar se refere a transições a passagens. Para Rizek,
mesa, a utilização ou não da técnica, entendida anular as transições seria o mesmo que construir
como técnica cartográfica mediada por sistemas a homogeneidade, o zapping. Passa-se de um lugar
computacionais. Os participantes da mesa foram a outro, de um ponto a outro, sem transições, sem
categóricos em defender o não uso de semelhantes “ritos de passagem”: “este é seu lugar, não aquele
técnicas. O argumento arrolado é de novo, o da ação. outro...”. Isso, ainda segundo a pesquisadora,
Na entrevista citada acima Ribeiro nos diz que levaria a que não haja mais escolhas e sim gestão,
“A cartografia que é importante, que ajuda, é aquela administração da vida e dos lugares. A gestão como
que é uma expressão da ação social e aquela que sucedânea da política.
ajuda a ação social. A cartografia que me interessa

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Essa questão nos faz lembrar pelo menos A fala de Magnavita, caminhando no mesmo
dois autores que trataram do problema: Hannah sentido da crítica, apesar de que com outros
Arendt e Michel Foucault. Em seu A condição instrumentais teóricos, nos alerta sobre os perigos
humana, Arendt é bastante clara quando afirma da ideia de identidade. Em seu argumento a ideia
que no ocidente ao político se sucede a economia e da diferença como ponto crucial, aponta para uma
a essa se sucede o social e a esse último sucede-se comunidade dos sem comunidade. Dito de outra
a administração. Há de se gerir economicamente o forma, a sociedade entendida como uma gestão
social; é a vitória do homo laborans. Por seu lado, econômica familiar tem levado ao declínio da política.
Foucault, por outros meios, chega a conclusões A polis é o lugar do político, não da gestão
semelhantes: Il faut defendre la societé o título calculada dos corpos sejam eles individuais ou
de um de seus cursos no Collège de France. Ou coletivos. Talvez o título de um dos livros de
dito em outras palavras, é preciso gerir o corpo Agamben, A comunidade que vem, possa nos fazer
social, como corpo que trabalha, tornando-o dócil pensar em uma possível saída desse impasse.
e útil: trata-se aqui das noções bem conhecidas de
“biopoder” e de “governamentabilidade”. É a “gestão 7.
das necessidades” dir-nos-ia Arendt. Trata-se aqui de
Por fim, gostaríamos de enfatizar que o
uma certa “afinidade eletiva” entre dois autores que,
encontro foi marcado pela heterogeneidade
curiosamente, não se leram.
de abordagens e práticas, configuradas no que
É claro que essa “gestão das necessidades” chamamos de zona de risco, estando cientes da
essa “defesa da sociedade” vai ter como um de seus parcialidade dessas análises e dos entrelaçamentos
mecanismos o que Rizek chamou de “militarização inesperados entre as zonas de sombra e
da gestão urbana”, o que também se relaciona de luminosidade implícitas em todo trabalho de
perto com a “anulação das transições” sugerida abordagem das questões urbanas contemporâneas.
acima a partir da noção de limiar. A nosso ver, o
que, aliás, foi sugerido por Risek, essa militarização
Notas
se relaciona com o conceito de “estado de exceção”,
26 novamente, noção muito cara a Benjamin (sem 1
Aqui retomamos algumas ideias desenvolvidas por Drummond,
W. O risco indisciplinar e a alteridade radical. Cadernos de
esquecermo-nos de Carl Schimit) e retomada por
provocações - debates em estética urbana 2. 2010, Salvador,
Agamben: “a exceção se torna regra”. UFBA. Ver: <http://www.corpocidade.dan.ufba.br/2010>.
Talvez a conexão subterrânea que se possa 2
N.E.: Ver Revista ReDobra n. 9. Disponível em: <http://www.
fazer entre as duas falas analisadas aqui, seja a crítica corpocidade.dan.ufba.br/redobra/ano3/>.
à governamentabilidade e à sociabilidade. Ou dito
de outra forma, a “cartografia da ação” de Ribeiro
tenta se distanciar de uma cartografia social. Por
outro lado, para Rizek uma crítica à militarização
acompanhada de uma nova face do higienismo e sua
moralidade travestida de dignidade, também tenta
se distanciar da noção de gestão da vida e do social.
Ambas as falas apontam par um declínio do político
em função do econômico, do social, da gestão, da
administração.

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CONTRAPONTO
Pasqualino Romano Magnavita*
Cidade, cultura, corpo
e experiência

“Não se sabe o que pode o corpo, ou o que se


pode deduzir da mera consideração de sua natureza.”
Espinosa

Este texto tem um viés estritamente


conceitual, pois o tema relaciona-se com um
conjunto de conceitos enquanto virtuais
(incorporais) e indissociáveis entre si: Cidade,
Cultura, Corpo e Experiência. Considerando que a
filosofia tem por objetivo traçar um plano e criar
conceitos, os referidos conceitos habitam o Plano
de Imanência (filosófico) onde o pensamento se
orienta para pensar. Neste sentido, o autor adota
o Plano de Imanência e o repertório conceitual
do pensamento rizomático, visando atualizar 27
discursivamente e criticamente estes conceitos e
outros conectados a eles, a exemplo dos seguintes:
estratos (estratificações), agenciamentos e a tríade
conceitual Saber/Poder/Subjetivação.
Particularmente, este último conceito, Subjetivação
que pressupõe, por sua vez, o conceito Criatividade,
o qual evidencia um forte apelo na formação
discursiva contemporânea.
Inicialmente, vale observar que esses quatro
conceitos temáticos, são indissociáveis dos dois
conceitos anteriormente referidos: Estratos
* arquiteto, professor PPG Arquitetura e (estratificações) e Agenciamentos, pois tanto Cidade,
Urbanismo UFBA quanto Cultura, Corpo e Experiência constituem

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estratificações históricas que pressupõem e a indissociabilidade desses dois universos: molar
Agenciamentos, os quais se efetuam em zonas da e molecular (macro e micro), entretanto, a questão
descodificação dos estratos, e constituem Territórios. que surge seria então: como se efetuam no universo
Os quatro conceitos temáticos configuram-se macro as ações que emergem do universo micro?
em territórios agenciados, os quais, por sua vez, Os agenciamentos coletivos de enunciação,
pressupõem permanentes desterritorializações. o que se diz sobre as cidades, enquanto regime de
Tomando por primeiro o conceito Cidade, signos e os agenciamentos maquínicos, enquanto
em uma visão planetária molar (macro) do mundo intervenções, construções nas cidades (o que se faz
da representação, ou seja, da lógica dos sentidos nelas), configuram diferentes saberes, multiplicidade
(dos efeitos de superfície), constata-se uma e heterogeneidade deles e que se relacionam com
multiplicidade e heterogeneidade de cidades, a guisa as três formas de pensar e criar: Filosofia, Ciência
de uma rede aberta, uma totalidade segmentaria, e Arte e que, respectivamente, cada qual em sua
ou seja, um conjunto dinâmico de cidades de especificidade, e sem dominância de uma delas sobre
diferentes graus e níveis de urbanidade e que, as demais, pressupõem, respectivamente a criação
sob o impacto dos atuais avanços tecnológicos e de conceitos, de funções e de percepções e afetos, e
de intensas conexões de fluxos de informação e fazem, assim, do pensamento uma heterogênese.
comunicação dos processos midiáticos, sob a égide O conjunto de saberes específicos sobre as
das “Sociedades de Controle”, elas se caracterizam cidades e dos saberes em geral configura o conceito
como lugares de indução de Multidões de cidadãos, Cultura, a qual, igualmente, constitui uma totalidade
enquanto corpos, para o irrefreável consumo de segmentaria de multiplicidade e heterogeneidade
bens materiais e imateriais e, ao mesmo tempo, de de saberes, ou seja, saberes que se relacionam, se
sedução dessa multiplicidade e heterogeneidade conectam, se sobrepõem, mantêm entre eles zonas
de corpos no âmbito da espetacularização da de vizinhança, temporalidades diferentes, enquanto
existência. alguns saberes emergem, outros desaparecem,
Entretanto, no universo molecular (micro) a pressupondo a variação contínua da existência.
questão é de outra natureza, pois, o “fora”, enquanto Vale salientar que o conhecimento não é
28 estratificações de saberes sobre as cidades, ou seja, Ciência (Foucault), embora a Ciência seja uma
o que se diz sobre elas, e isso, de forma simultânea específica forma de conhecimento que visa à
e indissociável das redes de poderes existentes construção de verdades e sua comprovação,
(ações, fluxos de intensidade de afetar e de ser embora muitas das verdades construídas sejam
afetado), restando entender a presença deste “fora” desconstruidas, ou apenas limitadas em seu
e de seu desempenho. Para tanto, emerge um outro desempenho. Neste sentido, vale lembrar que,
conceito, também, indissociável do “fora”: a Dobra. através do pensamento positivista da Modernidade,
Pressupõe-se, portanto, o dobramento, ou seja, a a Ciência ocupou e ainda ocupa uma posição
Dobra do “fora” no “dentro”, agenciamento esse que hegemônica no entendimento da existência, e isso,
promove a construção (fabricação) dos processos de em detrimento das duas outras formas de pensar
subjetivação individual e/ou coletiva. Como veremos e criar, ou seja, da Filosofia e da Arte que são
mais adiante, a subjetividade emerge como lugar da igualmente importantes nos processos da própria
criatividade. Todavia, vale salientar a coexistência existência.

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Sem dúvida, o eixo dominante deste habitam cidades. Corpos que não expressam
Seminário, visa estabelecer uma estreita relação dos apenas a condição fisiológica orgânica (biológica),
conceitos Cidade e Cultura com o conceito Corpo. mas, expressões mentais (psíquicas) enquanto
Vale lembrar que desde Espinosa a potencialidade complexidade de específicas atividades do cérebro e
do conceito Corpo e suas variações têm muito a que em outros tempos na forma de pensar dialética,
ver com a forma de pensar, ou seja, com o Plano ou seja, dos efeitos de superfície, emergiu a relação
de Imanência adotado e dos conceitos que nele contraditória entre Matéria e Espírito.
habitam. Da forma de pensar dialética à forma Na concepção de Espinosa, a indagação é: “o
de pensar rizomatica, constata-se uma ruptura, que pode o corpo?” Pergunta que se refere ao corpo
uma descontinuidade, uma mudança de natureza enquanto conceito em sua dimensão universal, sem
na forma de pensar, a qual vem assumindo cada levar em conta (e não poderia ser diferente em sua
vez mais uma configuração bem mais complexa, época), a multiplicidade e heterogeneidade de corpos
particularmente, quando se tem presente a atual que são construídos socialmente e que constituem,
configuração de um mundo globalizado sob o hoje, multidões urbanas, as quais, pensam, criam
controle do Capitalismo Mundial Integrado, e desenvolvem cidades. A questão que se levanta
se consideramos os avanços tecnológicos e a é de natureza ética, portanto política no sentido
importância dos processos midiáticos, os quais, de “visão de mundo”, pois, resta saber com que
através do poder de sedução dos efeitos de superfície objetivo se pensa, se cria e se desenvolvem cidades
dos sentidos, promovem a construção subjetiva e sob que condições ocorrem, sejam elas de controle
de corpos de multidões urbanas orientadas ou de emancipação social. E isso, tendo presente o
para o marketing, ou seja, do Ter e não do Ser, conceito de Multidão, enquanto agregado informal
pressupostos que se encontram distanciados do constituído de multiplicidade e heterogeneidade
célebre enunciado de Espinosa. de corpos, agregado esse descentrado, nômade
O conceito Corpo no entendimento do senso e anônimo. Embora na história de cidades e
comum (doxa) se aproxima da dualidade entre o de urbanismos, produzidas pelo pensamento
conceito Organismo enquanto materialidade e o dominante, via de regra, procura-se atribuir
pensamento (cérebro) enquanto espiritualidade. essas criações urbanas e seus desenvolvimentos 29
Para Deleuze, o conceito clássico Organismo, e a à individualidades específicas enquanto autores
relação conceitual Significante/Significado, tão de traçados e/ou de desenvolvimento de cidades,
presente no pensamento dialético, constituem ignorando, assim, os agenciamentos coletivos
as mais resistentes estratificações aos processos de enunciação e os agenciamentos maquínicos,
de decodificação dos estratos enquanto enquanto individuações sem sujeito. Questão essa
territorialidades, ou seja, resistência aos processos que leva a pensar as cidades enquanto construção
de desterritorialização que visam entre outros anônima, portanto sem Sujeito (conceito do
objetivos à construção de Corpos sem órgãos pensamento cartesiano e inalienável enquanto
(enquanto corpos desejantes voltados para a criação, propriedade individual vigente no atual sistema
para um devir outro da existência). de produção, tanto de bens materiais quanto
Contudo, considerando, a rede de cidades, o imateriais).
conceito Corpo assume uma diferente configuração Torna-se, oportuno, relacionar os conceitos
frente à Multidão de diferentes corpos que Multidão e Corpo com o par conceitual proposto

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por Deleuze em sua seminal obra filosófica: de superfície) e da invisibilidade do exercício das
“Diferença e Repetição”. O conceito Multidão redes de poderes de afetar e ser afetado.
acima sumariamente definido, pode ser também Se para Espinosa o enunciado: “não se sabe
entendido como Totalidade segmentaria e o que pode o corpo”, enquanto indeterminações,
caracterizado por ser um agregado disperso, hoje, podem-se evidenciar os conceitos acima
centrífugo, anônimo e nômade. Portanto, diferente referidos, Diferença e Criatividade, os quais,
dos conceitos modernos, ainda largamente em uso, não eliminando a indeterminação apontada por
especificamente no meio acadêmico, tais como: Povo, Espinosa, ajudam a caracterizar as possibilidades do
Massa e Comunidade, os quais se caracterizam pela que pode o corpo com base na lógica da Diferença
Homogeneidade e Unidade de seus componentes. e na condição humana inalienável da Existência
Tratando-se de um agregado informal enquanto Criatividade, e isso, no seio de multidões
constituído de uma multiplicidade e incomensuráveis de corpos tão diferentes entre si
heterogeneidade de corpos, torna-se oportuno e, ao mesmo tempo criativos em diferentes graus
perguntar: o que há de Comum entre eles? Pois, e níveis. Que diferenças e que criações podem
se há algo de Comum no seio de uma Multidão, os corpos, é uma questão que merece algumas
no entendimento deste autor, dois conceitos considerações.
emergem: Diferença e Criatividade, pressupondo Vale lembrar, em época posterior a Espinosa,
que cada corpo é diferente e, ao mesmo tempo, é Lavoisier, enunciava uma mecânica concepção
diferentemente criativo, mesmo que essa criação da existência: “nada se cria, tudo se transforma”.
seja apenas de grau ou de nível (enquanto recriação) Será que essa “verdade”, embora aceita tanto
e não uma diferença de natureza daquilo que é pelo senso comum quanto pelo senso erudito da
criado o que seria um Acontecimento, no sentido academia (urdoxa), mantém ainda sua validade?
de um Devir-outro da existência, pois, os corpos No universo molar, dos efeitos de superfície, da
em seus desempenhos, (comportamentos, atitudes, relação causa/efeito, sim! Entretanto, no universo
ações, imaginações, desejos, entre outros atributos), molecular da física quântica da Ciência com suas
se repetem, todavia, sempre se diferenciando. novas funções (functivo); na Filosofia com o
30 Nesse sentido, parafraseando o enunciado conceito de Acontecimento (ruptura a-significante);
de Espinosa, considerando multiplicidade e e na arte com suas novas percepções (perceptos
heterogeneidade de corpos que constituem e afetos), levariam a pensar que a existência é
multidões, frente às imprevisíveis conexões, contínua criação, sem princípio nem fim, no tempo
portanto, sem nenhuma certeza (“não se sabe”, incomensurável de Aion, da Eternidade e do
como já afirmava Espinosa), entretanto, pergunta- Instante do Acontecimento, da criação.
se hoje: o que se pode deduzir, das formas de Valeria, num seminário como este, procurar
pensar e criar, ou seja, o que podem os corpos relacionar não o que pode o corpo, mas, o que
pensar e criar? Esta é uma questão crucial, embora podem multidões de corpos que habitam e agem
o pensamento e a criatividade não sejam neutros, numa rede aberta de cidades, enquanto experiências
isentos da indissociabilidade das relações existentes urbanas contemporâneas, e isso, considerando
dos saberes/poderes, frente aos contra-saberes/ os axiomas do Capitalismo Mundial Integrado
contra-poderes do universo molar (macro), das das Sociedades de controle e das tecnologias
manifestações de exterioridade dos saberes (efeitos avançadas relacionadas com os processos midiáticos

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de informação e comunicação, particularmente, no oceano do marketing e seduzido pelos efeitos
em relação às mega-aglomerações urbanas, pirotécnicos das mídias, que os mantêm cativos
particularmente as capitais mundiais do capital pela “coleira eletrônica” (Deleuze) e, diríamos,
financeiro. Pois, como afirma Castells, os “espaços atualizando a imagem deleuzeana, corpos rastreados
de fluxos” interferem nos “espaços de lugares”, pois, por diferentes chips das Sociedades de Controle.
a atual dinâmica planetária do capitalismo, vem A questão não é apenas lamentar o
determinando o que podem os corpos. empobrecimento da experiência, mas, reconhecer
Em narrativas históricas da modernidade, e a riqueza e potencialidade das novas tecnologias
em diferentes textos atuais, acadêmicos ou não, e que, dependendo da criatividade daqueles que
lamenta-se o “empobrecimento da experiência”, as usam, elas podem se tornar instrumento de
frente ao condicionamento dos atuais modos, resistência ao controle social existente. Pois, se o
a exemplo do pensador, arquiteto e urbanista empobrecimento da experiência refere-se à real
Paul Virilio, autor dos livros Espaço crítico e possibilidade dos sentidos enquanto organismo
Inércia polar entre muitos outros, e mentor (visão, audição, olfato, paladar e pele), e que
das “Transarchitecture” (arquiteturas além da continuam inalienáveis nos corpos, o importante
arquitetura), temas centrados no universo digital, é reconhecer que a desterritorialização dessa
ele lamenta o progressivo empobrecimento estratificação orgânica, não é propriamente um
da experiência sensorial (analógica). Será um empobrecimento, mas, uma maior possibilidade
empobrecimento, no sentido dual em contraponto de criar como recomenda Deleuze referindo-se à
à riqueza anteriormente adquirida? No entender construção de Corpos sem órgãos, enquanto corpos
deste autor, não é questão de empobrecimento, desejantes, em que o desejo não é carência, mas,
mas de radical transformação. O importante não Acontecimento, Criação.
é lamentar a perda, mas, criar eticamente algo na Justamente por isso, na contínua variação
variação contínua da existência. da Existência, a questão não é de perda, de
Nesse sentido, emerge o complexo conceito empobrecimento, mas de enriquecimento da
de experiência enquanto experiência urbana, experiência, de novas experiências. E isso, desde
cultural e corporal, a qual acaba por se expressar quando sejam desenvolvidas resistências aos 31

em específicos condicionamentos, os quais processos de controle social existente, no sentido


dependem dos diferentes corpos e das diferentes da incorporação de uma atitude política em sua
cidades em que eles habitam, dos diferentes dimensão ética. Pois, a apreensão de qualquer
saberes sedimentados, de gênero e/ou etnia a que cidade pelos diferentes corpos que nela habitam e
pertencem, da idade que possuem, do emprego a que se locomovem, pressupondo, antes de tudo, uma
estão atrelados e/ou desempregados, pelas relações “visão de mundo” enquanto atitude ética, pois,
de poderes que os atravessam de serem afetados ou sem este pré-requisito, a apreensão de cidades se
de afetarem, enfim, um conjunto de especificidades torna um mero exercício da constatação de efeitos
e que, todavia, acabam sob controle da forma de de superfície. Via de regra, essa atitude crítica
pensar dominante em que as preocupações desses de natureza política, nem sempre se encontra
diferentes corpos e de seus desejos é o de Ter e presente em abordagens de temas de natureza
não o de Ser. Basicamente, os diferentes corpos acadêmica, com base na tradição moderna da
encontram-se imersos, para não dizer afogados experiência urbana a partir do andar, ou seja, através

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de deambulações, flanerie, errâncias ou derivas,
embora desenvolvidos através de competentes
metodologias e/ou registros cartográfico, não são
suficientes sem uma explícita atitude política,
enquanto ética.
Além dessa visão de mundo em sua conotação
ética, a experiência urbana exige um outro
importante pré-requisito: a forma de pensar. Embora
no pensamento dialético herdado da modernidade
com sua lógica binária, a questão ética tenha uma
forte vinculação com a Moral, ou seja, entre as
codificações estabelecidas e consensuais, de práticas
relacionadas com as atitudes, comportamentos de
consenso ou dissenso, entre os pares conceituais
Bem e Mal e suas variações (justo ou injusto,
certo ou errado etc.). Entretanto, a micropolítica
enquanto pensamento rizomático, pressupõe
que a transformação no sentido ético resulte da
emergência de uma singular jurisprudência, e isso,
através de revoluções moleculares promovidas pelas
ações de multidões de corpos.
Portanto, longe das então pretendidas
revoluções totais, a nova forma de pensar da
Lógica da Diferença enquanto motivadora de nova
Experiência poderá contribuir para que multidões
de corpos sob a égide do paradigma ético-estético,
32 ou seja, que cada corpo a seu modo em cada dia no
seio de multidões de corpos, repetindo a indagação
de Espinosa, pergunta-se: o que pode ele, o corpo?
Respondendo, se poderia dizer que cada corpo em
conjunto com multiplicidade e heterogeneidade
de outros corpos, pode fazer micropolíticas e
microrevoluções, e isso, visando à emancipação
social dos sutis, invisíveis, todavia, perversos
dispositivos midiáticos hoje existentes de controle
social. Que assim seja!

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CONTRAPONTO

Aprendi, lendo e relendo Benjamin e seus


Cibele Saliba Rizek* comentadores, que há uma diferença entre o que lhe

Limites e limiares/ era possível identificar como limite e como limiar.


Há uma diferença em português, mas a precisão do
Corpo e experiência1 alemão distingue as duas noções de modo muito
claro. A primeira noção – a de limite (Grenze) tem
um sentido jurídico forte. Sua transposição remete
às noções de transgressão, agressão. Limiar, soleira,
umbral (Schwelle) sugerem outro tipo de operação.
Há aqui um desdobramento interessante, já que
33
seria possível considerar que essas ideias são, na
verdade, metáforas e como tal, apontam relações,
* socióloga, professora PPG Arquitetura e Urbanismo
IAU/USP aproximam dimensões no registro do movimento,
do ultrapassar, de passagens (talvez sempre plurais),
de transições. Movimento e passagem, umbral
e limiar são noções que pertencem às ordens do
espaço, mas também do tempo. Podem descrever
duração e movimento, tempo que depende do
tamanho do espaço que se atravessa ou se pretende
atravessar. Simmel, antes de Benjamin, de alguma
forma pensou essas diferenças entre limite e limiar
e lhes deu espessura em um ensaio sobre Portas
e Pontes – o que serve para separar, interditar,
interromper e para reunir, permitir a passagem,

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ligar – operações sempre produzidas pelos homens os territórios do indeterminado, da suspensão,
que são, diz Simmel, construtores de caminhos. da hesitação, do tatear, contra as classificações
apressadas. Recuperar a possibilidade de pensar
Os limiares são zonas menos definidas que
devagar, pela prática do desvio, sem os resultados
as fronteiras. Lembram fluxos e contrafluxos,
rápidos da linha reta, do dado objetivo, das
viagens, desejo. A confusão linguística e semântica
contagens, das categorias e das taxonomias. Pensar
entre limite e limiar faz esquecer que esse último
reconhecendo a concretude irredutível das coisas e
aponta para um lugar e um tempo intermediários e
dos corpos. Pensar, aponta Benjamin, como pensam
indeterminados que podem ter extensão indefinida.
as crianças – cujo futuro se desconhece – a partir de
O limiar é um entre, uma zona cinzenta que funde
um tempo de espera, um tempo que se conforma
categorias e mistura oposições. Benjamin adverte:
como lugar privilegiado dos limiares, um tempo do
na vida e na cidade moderna, as transições são
desconhecido diante de um presente de descoberta,
irreconhecíveis. Somos pobres em experiências
um tempo em que nada está definido, em que nada
liminares. O tempo moderno – e por consequência
é definitivo.
o nosso tempo – encolheu, ficou mais curto
reduzindo-se a um conjunto de momentos iguais Limiares seriam assim momentos em que
sob o véu da novidade – tão iguais como o fluxo o futuro está aberto. Sua corrosão dá lugar a um
de produção de mercadorias seriadas devidamente achatamento das superfícies, apagando diferenças
flexibilizadas ou não. Houve assim, uma diminuição entre vida e morte, entre público e privado,
drástica da nossa percepção dos ritmos e dos produzindo um nivelamento universalizado, que
tempos diferenciados de transição. Tanto do ponto ameaçaria transformar a melhor das experiências
de vista das nossas sensações, quanto do ponto de ou sua possibilidade em uma nova mercadoria
vista da nossa experiência intelectual, as transições lucrativa, como os parques temáticos e a indústria
se encurtaram. Não podemos perder tempo. O do turismo não cansam de anunciar. Nesse
melhor mesmo seria poder anular as transições e encolhimento de experiências liminares, é como se
assim passar de uma cidade a outra, de uma imagem houvesse portas que não separam, que não levam
à outra, de um programa de TV ao outro, de um a lugar nenhum. As portas se escancaram, mas não
34 interlocutor ao outro, pelo acionar de uma tecla. podemos sair do lugar. De corredor em corredor,
Abolimos as passagens e os ritos de passagem: de limiar em limiar, de sala de espera em sala de
ritos de separação, de agregação, ritos de margem espera, acabamos por esquecer nosso destino, o alvo
– de limiares, isto é, de transformação, ritos que que em algum momento tínhamos desejado. Esses
permitem deixar um território estável e adentrar em limiares – lugares de transição – se transformam
um outro lugar... em lugares de detenção. As grandes questões – as
questões sobre as passagens – ficam ali presas ao
Pode-se lembrar ainda com Benjamin, um
se transformarem em problemas administrativos,
Proust descrevendo o acordar e o adormecer – um
em problemas de gestão em que não há mais
estar adormecendo e acordando – momentos de
escolha, mas acomodação, gestão sobre vivos e
indecisão, de indecidibilidade, matrizes de uma
mortos, sobre corpos que vagueiam em limiares
outra experiência de tempo e de memória, que
indefinidos e inchados, quase figurações do humano.
embaralham sonho e vigília, realidade e ficção. Seria
Esses limiares correspondem a uma região sem
então necessário recuperar como alvo e objeto de
nome, à norma secreta, o nomos, da biopolítica.
reflexão e como possibilidade de pensar e nomear

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São espaços dilatados, zonas cinzentas, lugares de urbanas – e alguns de seus correlatos: a ideia de
indeterminação, objetos de indiferença generalizada. otimismo cruel e/ou de exclusão participativa.2
Sair desses espaços de detenção, atravessar a porta Recentemente a reflexão sobre as cidades
talvez seja recuperar a experimentação, ir além do brasileiras aparentemente revestida de rigor
dado, em vez de simplesmente existir no terreno da científico – isto é de categorias traduzíveis em
indiferenciação e da indiferença como se a existência magnitudes mensuráveis – parece estar submersa
administrada fosse o sucedâneo da vida, a gestão o nas tramas de um otimismo cruel. Não é muito
sucedâneo da política, o condomínio o sucedâneo simples definir essa onda de otimismo passível de
da cidade, o parque temático o sucedâneo do lugar o ser caracterizado como cruel, mas ele pode apontar
turismo o sucedâneo da experiência. para um alvo, uma aposta, um projeto de melhoria
Mais uma palavra sobre limiares e soleiras. contínua de vida, uma curva ascendente envolta em
Trata-se da ligação, da passagem, dos poros entre uma ilusão de chegada que funciona como curto-
dentro e fora – a ideia é a de demonstrar o exercício circuito em relação às suas alternativas. Trata-se da
do pensamento em trânsito como campo de forças, “longa marcha democrática brasileira” – igualdade
nunca fechado nem susbstancializado em área jurídica, sufrágio universal, políticas distributivas
específica, pensamento que é um tatear capaz de sem fraturas violentas que abreviassem esse percurso
compreender o que é a posse e perda, o que em direção a esse novo patamar, fim ou intensa
é dentro e o que é fora, talvez compreender um diminuição da miséria, extensão indefinida da
lugar – visto como pura diferença, o que aliás suposta “classe C”. Essa melhoria contínua se reveste
permitiria aproximar lugar, diferença, experiência. muito frequentemente de um manto de participação
Pensar a partir da experiência, a partir e com que alguns denominaram exclusão participativa e
o corpo, talvez possa ser pescar farrapos, recolher outros, como eu em outros textos, de gestão das
estilhaços e resíduos, sem pretender concluir, necessidades.
guardar a possibilidade da passagem. Assim, a Tal como nas referências a Benjamin,
produção de um certo conhecimento – para além estaríamos em um limiar dilatado – um limiar que se
das grandezas e magnitudes contabilizadas, para transformou progressivamente, silenciosamente, em
além da pura impossibilidade – supõe atravessar zona de detenção. Por um lado, somos condenados 35

limiares, cruzar soleiras, por em suspensão. Em a escolher permanentemente entre o pior e o


linguagem benjaminiana – aproximar pensamento menos pior, ou então, para enunciar de outro modo,
e desvio. Dessa perspectiva gostaria de trazer estamos cercados e circunscritos a um momento
para essa reflexão duas noções que me parecem em que em nome da curva ascendente – da suposta
importantes para pensar a nossa condição que democracia formal, da melhora dos padrões de vida,
Kafka teria enunciado de modo tão peculiar. É dos programas sociais de todos os tipos, de canais
Kafka que assinala: “há uma enorme esperança – de participação, de conselhos e órgãos bi ou tri
mas não está ao nosso alcance”. Essa possibilidade partites, devemos abrir mão de uma reflexão crítica,
e impossibilidade permite que se entreveja e silenciar os pessimistas, fazer avançar um ideário
que se aponte a noção de crise do sujeito, ou do que substitui reivindicações por reconhecimento
sujeito em crise – em especial no que diz respeito participativo. Um exame a partir de um olhar mais de
às possibilidades e potências dos atores nas cenas dentro e de perto – talvez possa ajudar a decifrar algo

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desse enigma sobre a fluidez entre regra e exceção. e as várias investidas policiais na “Cracolândia”
A primeira dimensão dessa fluidez diz respeito apresentam exemplos flagrantes de truculência,
à legalidade do que não é legalizável – Estado de com direito à desocupação de um edifício da
exceção na sua acepção original. A segunda aponta administração usado pelos estudantes para moradia
para uma pergunta clássica: quem decide sobre a estudantil na segunda feira de carnaval às 5 horas
exceção? Pois bem, se tomarmos alguns índices da manhã. Mas o que mais interessa é perceber que
sobre a gestão da cidade de São Paulo hoje, apenas esse regime de repressão excepcional – esse estado de
para citar um exemplo, essa liminaridade entre regra exceção que indica graus crescentes de militarização
e exceção, legalidade e ilegalidade, formalidade e de uma gestão urbana que deslegitima conflitos,
informalidade ganha densidade e visibilidade. aponta para uma associação ao mesmo tempo das
O primeiro desses índices é a operação bico legal mais clássicas e, ao mesmo tempo, inteiramente
acrescida da operação delegada – o que implica em contemporânea. Trata-se por um lado da associação
curiosa terceirização das atividades de fiscalização entre limpeza social e gestão da cidade – novas faces
urbana crescentemente exercidas por policiais de um higienismo que recai sobre moradores de rua,
militares em seus momentos de... “folga” remunerada pequenos traficantes e drogados – os noia – tal como
em dobro pelo trabalho a serviço da prefeitura. É são conhecidos entre os moradores de rua. Ao lado
possível imaginar o que esse amparo do poder de dessa dimensão ostensivamente policial, a novíssima
polícia – ainda que de folga – produz em feirinhas face da associação entre polícia e políticas sociais.
da madrugada e pontos de concentração de camelôs. Trata-se dos modos de operação, das
Um comércio popular e nas linhas de indeterminação condicionalidades e do acompanhamento dos
entre legalidade e ilegalidade vinculado, como sempre “beneficiários do bolsa família”. A questão da gestão
é necessário dizer, aos grandes interesses econômicos e da implementação dos programas sociais como o
cujas práticas tampouco se caracterizam por uma bolsa família coloca algumas das dimensões mais
imaculada legalidade. Esses interesses hegemônicos interessantes que as visitas à campo – Zona leste
se fazem representar fortemente em conselhos e de São Paulo – revelaram no último ano. Trata-
órgãos gestores, em parcelas do parlamento etc. Ou se da forte associação entre esses programas e as
36 seja, os mesmos interesses estão intrinsecamente formas de governamentalidade, os modos de tornar
vinculados às agências do Estado e da gestão da governáveis as populações por meio de algumas
cidade. Essa combinação entre contravenção e sutilezas, a propósito muito pouco visíveis. Trata-se
policiamento via bico legal e operação delegada das práticas dos operadores dos programas sociais
pode se tornar dramática quando se acrescenta a que acabam por constituir novos territórios – novos
essas esferas outra ainda mais brutal: trata-se da desenhos territoriais que são constituídos nas e
militarização da gestão urbana. Ao que tudo parece pelas condicionalidades dos programas. Vacinas,
indicar, São Paulo conta com 40 militares de alta escolarização, procura de emprego, vida familiar
patente em postos chave da administração Kassab. sujeita a um acompanhamento periódico são algumas
Considerando o crescimento das subprefeituras dessas condicionalidades que são fiscalizadas e
ocupadas por policiais militares, já contamos com 30 acompanhadas de perto por associações de todos
das 31 subprefeituras chefiadas por coronéis.3 os tipos, entre as quais destacam-se algumas que
Além disso – a desocupação do Pinheirinho,4 a podem ser vistas como resquícios da velha militância
presença e o convênio entre a USP e a polícia militar5 católica cuja matriz foi a das comunidades de base

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e os movimentos de bairro ou ainda associações de a intervenção na chamada Cracolândia7 escancara
mães e mulheres sem filiação religiosa necessária uma associação no mínimo escandalosa: trata-se da
ou ainda associações beneficientes ou “solidárias” imbricação entre assistência à população de rua e
vinculadas às igrejas evangélicas e pentecostais; por aos consumidores de Crack com forte intervenção
todo lado, pobres lidando com pobres, um conjunto policial na disputa entre governos estadual e federal.
nada desprezível de mediações morais que permitem Laboratório de formas de vigilância e controle que
antever formas de policiamento cotidiano, pequeno, associa práticas médicas, de assistência e agressões
invisível em nome da “dignidade e da cidadania”.6 policiais de todos os tipos, talvez possamos recordar
Mulheres pobres acompanhando mulheres pobres Foucault e com ele pensarmos essas dimensões cuja
em sua lida diária, acompanhamento esse revestido incidência sobre populações parece ser bem mais do
de valores moralizadores da pobreza – finalmente que uma fantasia. Também aqui é preciso lembrar,
pobres porém limpinhos, mesmo porque se as com algumas etnografias8 sobre moradores de rua
condicionalidades não forem respeitadas adeus em cidades do estado de São Paulo, devidamente
programas sociais. Por um lado uma pobreza que se assistidos em centros de referência e em albergues
quer moralizada, por outro devidamente investida que os funcionários municipais encarregados dessas
por iniciativas culturais que trazem a marca dos práticas são como que condenados, punidos com
empreendedorismos, da elisão dos coletivos, do lado essas nomeações. Mais uma vez esses dispositivos de
B da cultura do dinheiro. Para finalizar essa trama, gestão e de controle, essas formas de administração
o combate à pobreza como negócio: ou o negócio e governo da vida não são exercidas apenas sobre os
do trabalho associado, o negócio das empreiteiras e públicos beneficiários ou assistidos, mas envolvem
grandes construtoras produzindo casas dentro do os operadores que, nas margens do Estado, dentro
Minha Casa Minha Vida (MCMV), grandes empresas e fora de suas práticas, implementam programas,
fazendo o trabalho social de urbanização de favelas ou “políticas públicas” e policiamentos.
de acompanhamento de instalação de infraestrutura, Uma dimensão parece ser de fato nova nos
o negócio do consumo popular e do crédito territórios da periferia: a produção cultural em vários
devidamente securitizado, exceção e financeirização campos de atividade parece finalmente constituir um
da pobreza se acoplam assim em territórios de campo de conflitos em que as significações mesmas 37
controle constituídos pela gestão e pelo governo das da vida precária e dos territórios da pobreza são
precariedades, pelo seu cerco, montando linhas de disputadas. Pois bem, é aí exatamente que mais um
demarcação, construindo linhas de fronteira entre terreno movediço parece se instalar um laboratório
assistidos, mas sobretudo enredando operadores e de praticas em que se naturalizam e\ou ganham
públicos alvo no mesmo dispositivo de gestão. Pobres ares de virtude os programas de geração de renda,
cuidando de pobres, mulheres pobres cuidando das o aumento dos empregos, os empreendedorismos
condicionalidades de famílias pobres sob os auspícios sociais e culturais, os investimentos culturais. Pode-
morais do lulismo e das teologias da prosperidade se perguntar a serviço de quem, de que virtude se
conformam novas realidades, novas demarcações, fala, como se constituíram e como se desenham os
novas “comunidades” de assistidos ou de beneficiários campos de força, como pensar pertinência e pertença
dos programas sociais. e seus deslizamentos, do cidadão ao beneficiário,
Da perspectiva de um policiamento mais do sujeito de direitos a alvo das políticas de crédito.
ostensivo, mais espetacularizado, basta recordar que Pode-se ainda apontar uma crise de nomeação, além

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de uma crise de representação e de mediações entre águia – os colocou para fora de casa embaixo de tiro de borracha.
as situações sociais e a constituição e destituição de Apesar de a tragédia já estar anunciada, os moradores ainda
traziam a sensação de vitória comemorada na sexta-feira (20),
sujeitos políticos – um campo de indeterminações. quando a reintegração de posse teoricamente havia sido anulada
A cidade inscrita nos corpos atravessa temporariamente pela Justiça Federal. O que valeria, todos
pensavam, seria o acordo firmado na quarta-feira (18), em reunião
objetividades e subjetividades – fazendo de cada
entre advogados dos moradores, o senador Eduardo Suplicy,
uma dessas dimensões – cidade e corpos - um deputados estaduais e federais e representantes da massa falida
campo de tensões, um lugar de conflito, de forças que da empresa Selecta, de Naji Nahas, proprietário do terreno, que
constituem e destituem labirintos, suas portas e suas suspendia por 15 dias a retomada da área.”
pontes, fronteiras e poros, limites e limiares. 5
Ver a esse respeito Estevam e Telles (2012). O artigo afirma
que a escalada de intolerância iniciou-se em setembro de 2011,
data do convênio entre a secretaria de segurança pública e
reitoria Rodas – para aumentar a presença da Polícia Militar (PM)
Notas no campus a pretexto de coibir a criminalidade. Um de seus
efeitos foi a operação de reintegração de posse do prédio da
1
Esse texto ,escrito como comunicação, se assenta na leitura de
Reitoria, bem como outras duas reintegrações – do edfício do
W. Benjamin e seus comentadores. O livro organizado por G. Otte,
Diretório Central Acadêmico (DCE) e do Coseas , bem como a
S. Sedlmayer e E. Cornelsen (2010), Limiares e passagens em
prisão de 85 estudantes e a expulsão de 6 alunos, os processos
Walter Benjamin,foi mais do que fonte bibliográfica, alertando para
contra dirigentes do SINTUSP e da Associação dos Docentes
um conjunto de leituras e temas das passagens do autor de infância
da USP (ADUSP) e um escândalo de espionagem institucional,
berlinense. Dois textos em particular foram utilizados amplamente
que envolve o gabinete do Reitor. Em 8 de novembro de 2011,
nessa reflexão. São eles Entre a vida e a morte, de J. M. Gegnhebin
400 policiais do Batalhão de choque e cavalaria e Grupo de
e À porta: noções sobre o limiar em Giorgio Agamben, editor de
Ações táticas Especiais (GATE) e Grupo de operações especiais
Walter Benjamin de S. Sedlmayer.
além de um helicóptero águia para a desocupação, diante de
2
Ver Berlant (2006). Devo essa indicação a Sergio Baierle, em uma ação que teria sido uma resposta à detenção de três alunos
especial no texto, Crise do sujeito, otimismo cruel e exclusão acusados de fumar maconha. Espetacularização da desocupação
participativa apresentado no III Encontro ETTERN Globalização, – anuência do governador agressão de alunos no CRUSP e
Políticas Territoriais, Meio Ambiente e Conflitos Sociais, que dentro da Reitoria, a esses fatos pode-se acrescentar – longe das
aconteceu em Vassouras, em 2012. Ver ainda sobre a noção de câmeras – o espancamento de uma aluna pela tropa de choque.
alternativas infernais em P. Pignare e Isabelle Stengers (2005, Na ocasião houve a detenção de 73 pessoas.. Em dezembro de
2007). A indicação da ideia de alternativas infernais se ancora 2011 – teve lugar a eliminação/expulsão de 6 alunos implicados
em H. Acselrad. Essas ideias advindas recentemente de Baierle e na ocupação do COSEAS ao final de um simulacro de processo
38 Acselrad, a quem agradeço, deram continuidade à imagem de uma disciplinar. No dia 19 de fevereiro – domingo de carnaval – houve
gestão legítima da necessidade e da precariedade contida no texto a desocupação do COSEAS com a prisão de 12 alunos. Em 2
Orçamento Participativo em São Paulo – publicização da cidade? de março, uma liminar de reintegração de um desses alunos
(OLIVEIRA; RIZEK, 2006) garantia provisoriamente sua volta. Além disso, a reitoria impetrou
uma interpelação judicial dos 10 membros da direção executiva
3
Ver a esse respeito excelente artigo de Hirata (2012). Nesse da ADUSP por calúnia e difamação Há um número assustador
mesmo artigo, Hirata aponta que o início da fiscalização urbana de processos e sindicâncias instauradas pela Reitoria contra
realizada pela polícia militar teve lugar na gestão de Marta Suplicy, funcionários, estudantes e a associação dos docentes - ADUSP.
ainda que atinja na gestão atual, sua maior extensão. Além disso, documentos divulgados por C. Gianazzi sugerem que
a Reitoria montou um aparato ilegal de espionagem contra as
4
Ver a esse respeito Moncau (2012). Nele se encontra a descrição
entidades e movimentos sociais atuantes na Universidade. O caso
a seguir: “A maioria dos moradores da ocupação do Pinheirinho, em
foi publicado na revista FORUM em janeiro de 2012.
São José dos Campos, dormia às 6h da manhã do domingo (22),
quando as bombas da Polícia Militar levaram gás lacrimogêneo 6
Ver entre outros textos Georges (2011).
dentro dos barracos. As 1700 famílias, cerca de 6 mil pessoas, mal
puderam pegar seus pertences quando a operação militar – com o
7
Ver Frúgoli Jr. (2010).
ostensivo contingente de 2 mil policiais, além dos dois helicópteros 8
Ver como exemplo o texto de Pereira (2012).

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BAIERLE, Sérgio. Crise do sujeito, otimismo cruel
e exclusão participativa. In: ENCONTRO ETTERN
GLOBALIZAÇÃO, POLÍTICAS TERRITORIAIS,
MEIO AMBIENTE E CONFLITOS SOCIAIS, 3.,
2012. Vassouras. Anais... Vassouras: Editora UFRJ,
2012.
BERLANT, Lauren. Cruel Optimism. Nova York: Duke
University Press, 2006.
ESTEVAM, Pedro da Rocha; TELLES, Flávia. Prisões,
expulsões espionagem: eis a USP tolerância zero.
Revista da Adusp, nº 52, abr. 2012.
FRÚGOLI JÚNIOR, Heitor. Da Cracolândia aos
nóias: percursos etnográficos no bairro da Luz.
PontoUrbe6. v. 4, ago. 2010. Disponível em: <http://
www.pontourbe.net/edicao6-artigos/118-da-
cracolandia-aos-noias-percursos-etnograficos-no-
bairro-da-luz>. Acesso em: jul. 2012.
GEORGES, Isabel. Entre participação e controle:
os(as) agentes comunitários de saúde da região
metropolitana de São Paulo. Sociedade e Cultura,
Goiânia, v. 14, n. 1, p. 73-85, jan./jun. 2011.
HIRATA, Daniel. A produção das cidades
securitárias: polícia e política. Le Monde diplomatique
Brasil. n. 56, maio 2012.
MONCAU, Gabriel. Moradores denunciam péssimas
condições e vigilância violenta nos abrigos da Prefeitura.
2012. Disponível em: < http://carosamigos.
terra.com.br/index/index.php/cotidiano/1139-
pinheirinho-jornalista-de-caros-amigos-narra-os- 39
abusos-em-s-j-dos-campos>. Acesso em: jun. 2012.
OLIVEIRA, Francisco; RIZEK, Cibele. (Org.). A Era da
indeterminação. São Paulo: Boitempo, 2006.
OTTE, Georg; SEDLMAYER, Sabrina; CORNELSEN,
Elcio. Limiares e passagens em Walter Benjamin. Belo
Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010. (Coleção
Humanitas)
PEREIRA, Luiz Fernando. Sobre gestão e vinculo –
Memorial de qualificiação apresentado ao Programa
de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos.
São Carlos, 2012. Mimeo.
PIGNARE, P.; STENGERS, Isabelle. La Sorcellerie
capitaliste. Pratiques de désenvoûtement. Paris: La
Découverte, 2005. Édition Poche 2007.

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CONTRAPONTO

Frederico Guilherme Bandeira de Araujo*

Corporeme
audiovisual presencial/virtual

40

* engenheiro, professor do IPPUR/UFRJ


e coordenador do Grupo de Pesquisa
Modernidade e Cultura

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SEQUÊNCIA NO CENA CENA VIRTUAL SEQUÊNCIA NO CENA CENA VIRTUAL
TIME CODE INÍCIO / FIM PRESENCIAL (PROJETADA) TIME CODE INÍCIO / FIM PRESENCIAL (PROJETADA)
DESCRIÇÃO AMBIENTE DESCRIÇÃO AMBIENTE
SEQUÊNCIA I IMAGEM: IMAGEM: Câmera em ângulo em
00:00 / 00:05 Personagem apresentador Tela preta. relação ao rosto. Ela não
Sala tipo auditório. Ambiente “recebe a palavra” do SOM: encara a câmera. Olha para
de evento acadêmico. Público coordenador da mesa. Em Sem som. o chão, feições serenas,
de estudantes, professores, silêncio, constrito, mas sem constrita.
pesquisadores e alguns aparentar tensão, volta-se SOM:
militantes de organizações para a tela. Figurino discreto, Voz em off destacada sobre
populares. Mesa à frente com informal. a trilha Corporeme (lenta,
expositores sentados. Tela SOM: cadenciada por breves
de projeção colocada atrás Ruídos do ambiente. silêncios):
ou lateralmente à mesa, de _ Por isso eu queria oferecer
modo que a Personagem a ela (pausa) esse momento
Apresentador, de seu lugar, de leveza (pausa) de uma
possa virar-se e ver a tela. sensação sem peso ...
IMAGEM: CORTE SECO IMAGEM: CORTE SECO IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO
SOM: CORTE SECO SOM: CORTE SECO SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE
SEQUÊNCIA II IMAGEM: IMAGEM: SEQUÊNCIA IV IMAGEM: IMAGEM
00:06 / 00:53 Personagem Apresentador Ambiente de galpão de 01:15 / 01:33 Idem, sequência anterior. Ensaio de dança moderna.
Mesmo ambiente permanece com a mesma fábrica fechado, estrutura Mesmo ambiente SOM: Grupo de dançarinas, Pina
atitude silenciosa, olhando metálicas à vista. Tons Idem, sequência anterior. Bausch à frente. Coreografia
com naturalidade ora para pastéis. Homem sentado coletiva. Figurino de ensaio
a tela, ora para o público. no chão, dobra e desdobra de dança. Malhas coloridas.
Atento mais à projeção. continuamente com as mãos Planos gerais. Close de Pina.
SOM: suas pernas, como se estas SOM:
Ruídos do ambiente estivem sem movimento Trilha Corporeme. Volta nível
próprio. Ao mesmo tempo de volume da sequência II
vai girado o corpo em seu IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO
próprio eixo e acelerando o SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE
movimento. Atrás do homem
SEQUÊNCIA V IMAGEM: IMAGEM
há esteira movendo-se, de
01:34 / 01:39 Idem, sequência anterior. Clown maquiando o rosto
vez em quando passam
Mesmo ambiente SOM: com pasta branca. Close,
vagonetas. Depois de dois
Idem, sequência anterior. tomada lateral, altura dos
ou três giros, o homem deita
olhos. A personagem olha
apoiando-se nos braços.
fixo à frente, sugerindo um
O último movimento é a
espelho que não se vê.
manipulação da cabeça
SOM
para encostá-la, no chão. O
Trilha Corporeme
plano termina com o homem
deitado, imóvel, de barriga IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO
para cima. SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE
SOM:
SEQUÊNCIA VI IMAGEM: IMAGEM:
Trilha Corporeme: música
01:40 / 02:23 Idem, sequência anterior. Dança coletiva em palco com
instrumental densa.
Mesmo ambiente SOM: chão de terra. Coreografia e 41
Dramaticidade do tango.
Idem, sequência anterior. figurino modernos. Grupo de
Piazzolla rasurado.
homens / grupo de mulheres.
IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO Não aparece público.
SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE Iluminação sóbria. Palheta
SEQUÊNCIA III IMAGEM: IMAGEM: de cores quentes. Sombras.
01:04 / 01:14 Idem, sequência anterior. Plano médio de mulher Tensão entre os dois grupos
Mesmo ambiente SOM: negra, fundo escuro, com expressa pelo gestual.
Idem. sequência anterior. malha de dança preta. SOM:
Trilha Corporeme.

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IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO
SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE
SEQUÊNCIA VII IMAGEM: IMAGEM SEQUÊNCIA XI IMAGEM: IMAGEM:
02:24 / 02:52 Idem, sequência anterior. Plano médio frontal de 03:07 / 03:10 Idem, sequência anterior. Continuação da sequência
Mesmo ambiente SOM: homem jovem, fundo Mesmo ambiente SOM: IX. Mulher amarra sapatilha
Idem, sequência anterior. grafitado, não figurativo, em Idem, sequência anterior. de balé em um dos pés
tons frios. Camiseta preta. Ele apoiados na cadeira que
inicialmente olha para o chão, trouxera.
feições serenas. Lentamente SOM:
levanta o olhar e fala olhando Trilha Corporeme
à câmera. Pode-se identificá- IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO
lo como o ator que faz a SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE
personagem Clown.
SEQUÊNCIA XII IMAGEM: IMAGEM
SOM:
03:11 / 03:21 Idem, sequência anterior. Clown ainda maquiando o
Fala em off destacada sobre
Mesmo ambiente SOM: rosto, agora pintando os
a trilha Corporeme:
Idem, sequência anterior. lábios com batom vermelho.
_ Que caminhos inventei, que
Close, tomada lateral, altura
não me fiz Pina Bausch.
dos olhos. A personagem
(Pausa)
olha fixo à frente, sugerindo
_ Forma, movimento, palavra.
um espelho que não se vê.
Fúria, orvalho, uma linha reta.
Sua expressão começa a
IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO
indicar estranhamento ou
SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE
certa tensão com sua própria
SEQUÊNCIA VIII IMAGEM: IMAGEM: face que (supostamente) vê
02:53 / 02:54 Idem, sequência anterior. Tela preta refletida.
Mesmo ambiente SOM: SOM: SOM
Idem, sequência anterior. Trilha Corporeme Trilha Corporeme
IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO
SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE
SEQUÊNCIA IX IMAGEM: IMAGEM: SEQUÊNCIA XIII IMAGEM: IMAGEM:
02:55 / 02:57 Idem, sequência anterior. Mulher caminha 03:22 / 03:24 Idem, sequência anterior. Tela preta
Mesmo ambiente SOM: aceleradamente ao longo do Mesmo ambiente SOM: SOM:
Idem, sequência anterior. eixo horizontal da câmera, Idem, sequência anterior. Trilha Corporeme
carregando cadeira e depois IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO
a colocando no chão. SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE
Figurino: vestido curto, de
SEQUÊNCIA XIV IMAGEM: IMAGEM:
pano leve e colorido. Plano
03:25 / 05:23 Idem, sequência anterior. Continuidade das sequências
geral. O cenário é um pátio
Mesmo ambiente SOM: IX e XI. Agora a mulher dança
de fábrica com galpões e
Idem, sequência anterior. balé, os pés em ponta, no
estruturas altas, deserto.
pátio árido. Céu azul pálido.
Linhas retas e duras. Sol
SOM:
fraco, tons pastéis.
Trilha Corporeme
SOM:
Trilha Corporeme IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO
SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE
IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO
42 SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE SEQUÊNCIA XV IMAGEM: IMAGEM:
05:24 / 05:27 Idem, sequência anterior. Pina Bausch em close. No
SEQUÊNCIA X IMAGEM: IMAGEM
Mesmo ambiente SOM: início em tomada lateral.
02:58 / 03:06 Idem, sequência anterior. Clown maquiando o rosto,
Idem, sequência anterior. Lentamente ela vira-se e
Mesmo ambiente SOM: agora delineando os olhos
encara a câmera. Expressão
Idem, sequência anterior. com lápis preto. Close,
serena. Densa. Cores frias.
tomada lateral, altura dos
Cinza predominante.
olhos. A personagem olha
SOM:
fixo à frente, sugerindo um
Trilha Corporeme
espelho que não se vê.
SOM
Trilha Corporeme

Book 1.indb 42 25/9/2012 13:19:11


IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO – O que é a honestidade?
SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE – Qual é a nossa
SEQUÊNCIA XVI IMAGEM: IMAGEM: responsabilidade mesmo
05:28 / 06:19 Idem, sequência anterior. Mulher só, em pé, imóvel, quando dançamos?
Mesmo ambiente SOM: em palco quase vazio – Pina nos ensinou a
Idem, sequência anterior. com poucas cadeiras ao defender aquilo que fazemos,
fundo. Vestido rosa pálido, em cada gesto, cada passo e
transparente. Homens de cada movimento.
terno preto entram aos Ao final da fala a trilha entra
poucos e manipulam o corpo num crescendo.
da mulher de várias maneiras, IMAGEM: CORTE SECO
IMAGEM: CONTINUIDADE
por todos os lados. São SOM (TRILHA):
SOM: CONTINUIDADE
muitos. Ela permanece inerte, CONTINUIDADE
olhos fechados.
SEQUÊNCIA XV IMAGEM: IMAGEM:
SOM:
07:45 / 08:30 Idem, sequência anterior. Espaço interno de construção
Trilha Corporeme
Mesmo ambiente SOM: de cimento aparente, amplo,
IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO Idem, sequência anterior. claro, janelas de vidro
SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE permitindo ver um exterior
SEQUÊNCIA XVII IMAGEM: IMAGEM: indefinido e pálido. O teto
06:20 / 06:34 Idem sequência anterior Close lateral da Personagem é vazado. Não há móveis
Mesmo ambiente SOM: Clown, já com o rosto todo ou qualquer objeto. Aridez.
Idem sequência anterior maquiado: faces brancas, Linhas retas e ângulos.
olhos negros, boca vermelha. Casal caminha em direção à
Segue olhando na mesma câmera, que lentamente se
direção do suposto espelho, afasta abrindo o quadro. Esse
feições expressando tensão caminhar é marcado pelo
com o que vê. Borra a tombar constante da mulher,
maquiagem em movimento ora para um lado, ora para
nervoso e angustiado. o outro, sempre amparada
SOM: e reequilibrada pelo par
Trilha Corporeme masculino. Ela de vestido
comprido, leve, amarelo. Ele
IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO
de calça e camisa pretas.
SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE
SOM:
SEQUÊNCIA XVIII IMAGEM: IMAGEM: Trilha Corporeme
06:35 / 07:30 Idem, sequência anterior. Continuação sequência
IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO
Mesmo ambiente SOM: XVI (manipulação mulher).
SOM: CONTINUIDADE SOM: CONTINUIDADE
Idem, sequência anterior. A câmera agora está
distante, atrás da platéia SEQUÊNCIA XVI IMAGEM: IMAGEM:
que aparece em perfil no 08:31 / 08:42 Idem sequência, anterior. Plano médio. Mulher velha,
primeiro plano. Ao final, Mesmo ambiente SOM: cabelos negros, longos,
plano médio permitindo a Idem sequência, anterior. soltos. Figurino preto, fundo
visão de detalhes das feições preto.
contraídas da mulher. Inicialmente com expressão
SOM: circunspecta, olha para
Trilha Corporeme baixo. Lentamente levanta
o olhar e encara a câmera.
IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO Ao fim esboça um leve e 43
SOM: CONTINUIDADE SOM: CORTE SECO sutil sorriso.
SEQUÊNCIA XIV IMAGEM: IMAGEM: SOM:
07:31 / 07:44 Idem, sequência anterior. Plano médio de homem Trilha Corporeme
Mesmo ambiente SOM: jovem, camiseta preta. Fundo
Idem, sequência anterior. preto. Olha para a câmera
sereno.
SOM:
Voz em off:

Book 1.indb 43 25/9/2012 13:19:13


IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE EM FUSÃO
SOM: CONTINUIDADE SOM: CORTE SECO SOM: CONTINUIDADE SOM: CORTE SECO
SEQUÊNCIA XVII IMAGEM: IMAGEM: SEQUÊNCIA XIX IMAGEM: IMAGEM:
08:43 / 10:17 Idem, sequência anterior. Close da Personagem 10:32 / 19:00 Personagem Apresentador, Personagem Clown parado
Mesmo ambiente SOM: Clown, agora encarando Mesmo ambiente voltando-se lentamente ao e olhando a câmera em
Idem, sequência anterior. a câmera, a maquiagem público, dá continuidade à silêncio, funde-se lentamente
totalmente borrada, como fala já iniciada. em tela preta (que assim
que explodindo sua anterior SOM: permanecerá até o fim
angústia. Começa a discursar Essa fala, ainda que a da fala do Personagem
afastando-se lentamente da partir de agora traga Apresentador).
câmera que, por sua vez, vai argumentações reflexivas SOM:
abrindo o quadro. O cenário mais explícitas, não deve Sem som
é um espaço de pilotis deixar o tom emotivo.
grafitados, pé direito alto, ao Apresentador diz:
fundo parede envidraçada. – Não sei, talvez ...
A personagem está sem – O que digo quando digo
camisa, descalça, vestindo ‘sou’ ou enuncio a expressão
calça clara de algodão cru. ‘meu corpo’?
SOM: – Trago, através desses
Personagem deslizando termos, uma experiência. Falo
ao longo da fala da então como um testemunho
explosão angustiada ao de uma experiência.
questionamento reflexivo, diz: – O que estaria implicado
– Corpo. nesse singular ato de
– Palavra corpo, imagem testemunhar? O que estaria
corpo. sendo suposto nesse
– Digo ‘meu corpo’, imagino testemunho enquanto
‘meu corpo’. experiência?
– A expressão ‘meu corpo’. – Testemunhar – a mim,
A imagem ‘meu corpo’. aos outros – o que digo
– Eu. A palavra ‘eu’. como ‘eu’ ou ‘meu corpo’
IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CONTINUIDADE é, antes de tudo, estranhar
SOM: CORTE SECO SOM: CONTINUIDADE esses dizeres, estranhá-los,
primeiro, pela ontologia de
SEQUÊNCIA XVIII IMAGEM: IMAGEM:
que se travestem essas falas,
10:18 / 10:31 Mesmo ambiente. Personagem Clown,
mas também pela alteridade
Mesmo ambiente Personagem Apresentador, terminado seu deslocamento
implícita entre um suposto eu
voltado à tela. para trás, está em pé, tomado
e a externalidade nomeada
SOM: em plano geral, de frente
‘meu corpo’, alteridade
Em tom indagativo, para a câmera.
marcada como relação de
Apresentador sobrepõe SOM:
posse. Posse unilateral: eu
sua fala à fala idêntica da Questionando-se, fala:
possuo meu corpo.
Personagem Clown. – Eu sou ‘meu corpo’?
– Essa posse seria de
Diz: – A oração auto-evidente
que caráter? Capitalista?
– Eu sou ‘meu corpo’? ‘meu corpo’.
Aquilo que digo ‘meu corpo’
– A oração auto-evidente – A imagem especular ‘meu
estaria sendo dito como
44 ‘meu corpo’. corpo’.
mercadoria? Como algo
– A imagem especular ‘meu – Sou? sem corpopalavra,
detentor de valores de uso
corpo’. sem corpoimagem, sem
e troca?
– Sou? sem corpopalavra, órgãos, sem dor, sem
– E o que estaria sendo
sem corpoimagem, sem inventados outros eus
dito como ‘eu’ em minha
órgãos, sem dor, sem de mim, sem outros
fala? Além de coisa capaz
inventados outros eus de corposimagens de mim?
de possuir.
mim, sem – Sou?
– Quando digo ‘eu’, denoto
outros corposimagens
a distinção com outros eus e
de mim?
também com o dito ‘meu
– Sou?

Book 1.indb 44 25/9/2012 13:19:15


corpo’ (e com outros corpos). constituição por interpelação
Mas, essa última distinção de diferenças tensas, não
se evidencia nitidamente pacíficas, de espaço e tempo
estratégica. Lembro que em com outros eus e outros
certos entardeceres, me digo corpos. Esse é o modo como
eu enquanto meu corpo. E, me constituo (self e corpo) e
assim, me invento como dor ao meu mundo formado de
e prazer, indivíduo, cidade, outros eus e outros corpos
cosmos, finitude. O uso da distintos do meu.
palavra corpo desse modo, – Mas isso permite o dizer
é o que decide naquilo que ‘sou’?
é dito pela palavra eu, a – Positivando uma visão
finitude. A expressão meu sobre todas essas questões
corpo institui o relógio de imbricadas: entendo que a
mim. Ou seja, invento essa possibilidade do dizer eu e
expressão pra me jogar meu corpo, só se dá através
naquilo que instituo como da constituição por interpela-
mundo e como estratégia a ção de diferenças tensas, não
me constituir finito e escapar pacíficas, de espaço e tempo
da insuportável perversidade com outros eus e outros
de me supor eterno. corpos. Esse é o modo como
– Todas essas coisas me constituo (self e corpo) e
implicam tipos de questões ao meu mundo formado de
e suposições relativas a: outros eus e outros corpos
individuação (eu não sou distintos do meu.
outro, meu corpo é único); – Mas isso permite o dizer
tempo (eu e meu corpo ‘sou’?
somos duráveis, ainda que – Enquanto corpo e mente,
finitos); espaço (eu sou algo finitos e limitados, é possível
diferido [espaçado] de todo e apenas dizer que estou, na
qualquer outro); composição ligeireza desse dizer, enquan-
(eu e meu corpo somos to esse próprio dizer. Qualifico
totalidades orgânicas ou o dito por esse dizer ‘estou’
não-organismos objetivados como agenciamento, como
enquanto sínteses disjuntivas, trama inextricável de conte-
corpos sem órgãos?); intensi- údo e expressão, de corpo e
dade (eu e meu corpo acon- outros corpos e palavra, de
tecemos a mim apenas como materialidades e significados.
intensidades desconexas, de Não enquanto duas ordens
modo a constituir conjuntos de estar apartadas que se
enquanto corpo sem órgãos, relacionam como externa-
como modo estratégico de lidades. Mas sim enquanto
presença a mim e aos outros dois regimes de signos: um
de mim?); linguagem (qual que diz matéria, outro que
a condição de possibilidade significa esse regime que
de dizer eu e meu corpo? Só diz matéria.
posso dizer essas expressões – O que digo que estou, 45
ontologicamente, indicando assim,
seres, ou assumo a palavra na ligeireza desse dizer ago-
que me diz, como proble- ra, pura invenção estratégica
mática significação de efeito à vida e ao procurar me fazer
presente?). aqui presente, constitui-se
– Positivando uma visão sobre num agenciar que assim
todas essas questões imbrica- enuncio: imbricação de dese
das: entendo que a possibili- jo (o desejo de me expressar
dade do dizer eu e meu sobre o tema da mesa, aqui,
corpo, só se dá através da agora) e limitações da possi

Book 1.indb 45 25/9/2012 13:19:17


bilidade de experimentação – Não obstante, esse
desse desejo (esse ‘aqui’ testemunho, ato presente,
é um evento acadêmico somente se positiva enquanto
no qual suponho certas diferença / relação com
expectativas às possibilidades outros corpos-agenciamento
dessa fala). testemunhados. – Enfim, pra
– Assumindo a mim como ficar dentro do tempo: o que
essa estidade aqui e agora, digo que estou é relação de
deslizo por um campo que mim. O que digo meu corpo,
me é confortável e nele sou nesse estar, é trama de afetos
tentado, como que por um dessa relação. Essa trama,
canto de sereia, a teste- em certos dias chuvosos,
munhar o que digo como chamo cidade. Nos dias ím-
meu corpo enquanto um pares de sol a pino, nomeio
organismo. fúria. Em dias santos, em
– Mas será que, nesta estida- segredo chamo amor.
de em que me faço aqui, ou IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE SECO
mesmo em alguma estidade SOM: CONTINUIDADE SOM: CORTE SECO
que me faço memória, ex-
SEQUÊNCIA XX IMAGEM: IMAGEM:
periencio efetivamente o que
19:00 / 19:45 O Personagem Apresentador Cartelas de créditos:
digo como meu corpo como
Mesmo ambiente volta-se à tela e permanece CORPOREME
um organismo presente?
assim até o final da projeção Realização
– O que posso testemunhar
/ final da apresentação. GPMC
sobre isso? Confesso que
SOM: Flávia Araújo
as funções desse suposto
Apresentador, lendo as Frederico Araujo
organismo me são obscuras,
cartelas: Giovani Barros
ainda que as tenha precisa-
– CORPOREME Marianna Teixeira
das por estranhas ciências
– Realização Ricardo Paris
que professam saber sobre
GPMC Ator convidado
o que dizem ser meu corpo,
Flávia Araújo Miguel Araujo
supostos saberes que, assim,
Frederico Araujo Trilha sonora Rasuras de
incidem nesse testemunhar
Giovani Barros Soledad e La Camorra I
como heteronomias.
Marianna Teixeira (Astor Piazolla)
– Mas, para além dessa obs-
Ricardo Paris Pedro Albuquerque
curidade, o que se evidencia
– Ator convidado Trechos do filme “Pina”
como memória do que digo
Miguel Araujo (Wim Wenders – 2011)
meu corpo, em mim, pra
– Trilha sonora Rasuras de libertariamente apropriados
mim, como memória da
Soledad e La Camorra I pelos realizadores.
palavra memória tomada
(Astor Piazolla) FIM
como enredamento de
Pedro Albuquerque Som:
dizeres agenciamento, é um
– Trechos do filme “Pina” Trilha Corporeme (num
inventário intrincado de afetos
(Wim Wenders , 2011) crescendo)
em intensidades distintas,
libertariamente apropriados
vibrações, reverberações, do-
pelos realizadores.
res, desvios de olhar, clarões,
– Fim
dois ou três entardeceres em
46 que me fiz a tarde e o olhar IMAGEM: CONTINUIDADE IMAGEM: CORTE EM FUSÃO
a tarde, a textura de certas SOM: CONTINUIDADE SOM: CORTE EM FUSÃO
mãos que farei minhas, a po- SEQUÊNCIA XXI IMAGEM: IMAGEM:
tência agonística que imputei 19:46 / 19:49 Personagem Apresentador Tela preta
aos lábios de uma mulher, e... Mesmo ambiente volta-se ao Coordenador SOM:
– Digo, desse modo, meu da mesa e “devolve-lhe” Trilha Corporeme (diminuindo
corpo como memória de a palavra. até cessar)
meu corpo enquanto caos SOM:
movente de intensidades Personagem Apresentador
passadas, vibrações presen- diz:
tes e cores imaginadas. – Obrigado.

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CONTRAPONTO

A primeira vez que caí no chão de uma grande


cidade desejava investigar, na pele, a vulnerabilidade
desconcertante dos corpos que se entregam à
gravidade a revelia da marcha habitual e urgente
que marca a vida produtiva de uma cidade. Caí na
Avenida Copacabana, e alguém se debruçou:
Andrea Maciel* – “Está passando mal?”
O Chão nas cidades – “Não, só quero experimentar a cidade por
outro ângulo.”
Para minha grata surpresa, a condição
indecifrável do meu corpo em queda, foi capaz de
47
mudar igualmente o centro gravitacional dos olhares
dos passantes e disparar narrativas e criações de
* performer, bailarina, professora do curso de Artes Cênicas
da PUC-RIO e do Centro Universitário da Cidade significados sobre a vulnerabilidade daquele que cai.
Nas inúmeras vezes que caí nos chãos de diferentes
cidades brasileiras, pude registrar nos diários de
pesquisa como um corpo em queda é capaz de
catalisar aspectos intrínsecos à cultura local.
São inúmeras as histórias pra contar: muito
assédio sexual; manifestações religiosas; há os
catastróficos que associam o corpo caído à droga,
depressão profunda, angústia, tentativa de suicídio;
muitas associações com um truque pra ganhar
dinheiro ou “pegadinha” e há os que agridem,

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dirigindo seu escárnio ao corpo que contraria a um enorme tecido entrelaçado de forma tosca sobre
regra da verticalidade, acusando-o de preguiça, o calçamento. Eu havia marcado a performance
procrastinação, prostituição ou ociosidade malévola. para as 9h da manhã, mas, observando aqueles
A performance O Chão nas Cidades foi objeto de corpos deitados nas mesmas calçadas, que daqui a
minha dissertação de mestrado defendida em 2007 algumas horas seriam ocupadas pelo nosso grupo de
no Programa de Pós-Graduação de Artes Cênicas da performers, saquei minha câmera da bolsa e comecei
UNI-RIO. Embora, sempre estivesse tangenciando a filmar. Assim que um dos moradores me avistou,
e discutindo a realidade de exclusão da população começou a gritar enfurecido na minha direção: “Saia
de rua, nunca realizei um enfrentamento direto; daí, vá! Vou meter porrada em você se me filmar.
crítica social partidária, discurso panfletário ou Não me filme não viu, sua vaca!!” Tentei falar com
qualquer ação nesse sentido. O desejo de instaurar ele mas, o homem continuava a gritar e começou a
uma porosidade entre o meu gesto de cair, o atirar objetos na minha direção. Saí apressada, com
cotidiano e a população de rua, sempre me deixou o corpo gelado e o coração batendo forte.
distante de qualquer contato mais intenso com os Tentei me aproximar de outra família do outro
próprios habitantes dessas margens. Porém, o acaso, lado da praça. Um senhora começou o seu ritual de
personagem inseparável da vida em performance, me acordar, arrumar seus pertences. Sorri para ela, e
levou a ver e a viver o chão do espaço urbano por ela retribuiu o sorriso. Imaginei que ali seria melhor
outro ângulo. acolhida.
Em outubro de 2008, O Chão nas Cidades foi – Posso filmar a senhora? (perguntei)
um dos projetos selecionados para participar do – Se me der um café, pode filmar. Tem
CORPOCIDADE 1, congresso promovido pelo R$ 10,00 aí?
Programa de Pós-Graduação em Dança, Faculdade
de Arquitetura (UFBA) e a Bauhaus-Universiät – Te dou um café, claro. Mas, não tenho
Weimar. Durante o trabalho, um dos performers nenhum interesse em explorar sua imagem ou
aconselhou que eu chegasse mais cedo para um vender...
reconhecimento estratégico da área, pois o local Tentei explicar o que estava fazendo. Disse que
48 onde iríamos atuar – Praça da Piedade – Centro estava realizando um trabalho para um congresso
de Salvador, BA – costumava ser palco de muitos na UFBA mas, percebi que ela não me entendia, ou
roubos e assaltos. O relato a seguir descreve a não queria me escutar. Dei-lhe os R$ 10,00 e ela
interação específica com a população de rua que esta se acalmou. Mas, assim que comecei a entrevistá-
performance de Salvador nos proporcionou. la, outras mulheres que estavam dormindo ao seu
lado começaram a acordar, e ao me verem filmando
“O CHÃO NAS CIDADES”, EM entraram numa crise de histeria. Começaram a
SALVADOR: DIÁRIO DE BORDO gritar feito loucas: “Não me filme, não me filme!”
Salvador, 27 de outubro de 2008. Perecia que eu as estava violentando ou violando, e
talvez estivesse mesmo. Nesse mesmo instante, fui
Cheguei à Praça da Piedade – Centro de
rodeada por um grupo de pivetes que agarravam
Salvador – às 05h40min da manhã. Dezenas de
minha roupa e também pediam dinheiro. A situação
pessoas ainda dormiam sobre os papelões, jornais e
ficou caótica. Outros moradores que ainda dormiam
cobertas, que colocados lado a lado pareciam formar
ao acordar também gritavam assim que olhavam

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para mim. “Não me filme não! Não me filme não!” – Não quero filmar você. Estou fazendo uma
Pra completar a confusão um menino resolveu performance, com um grupo de estudantes. Vamos
puxar minha câmera. E antes que eu saísse de lá nos deitar no chão da rua, e observar como as
depenada, corri em direção à estação de ônibus. pessoas reagem em relação a isso. Quero que você
Levei um tempo para me recuperar daquele me ajude, nos dando proteção durante a performance.
choque. Enquanto respirava e me refrescava num Surpreso e já completamente desarmado ele
bar da estação, pensava em maneiras de voltar e comentou:
tentar me comunicar com os moradores de rua. A – Quer dizer que vocês querem se colocar no
câmera foi, sem dúvida, uma escolha infeliz para a lugar da gente?
realidade de Salvador. Já cansei de filmar moradores – É, mais ou menos isso..., expliquei.
de rua no Rio de Janeiro e nunca tive problemas,
Éramos doze performers, a maioria jovens e com
mas em Salvador a câmera era vista como um objeto
aparência de estudantes, trajando roupas simples
invasivo, exploratório e delator.
como camiseta e calça jeans: quatro mulheres
Tive a ideia de procurar um centro comunitário jovens e brancas, cinco mulatos, uma negra e um
ou algo assim e então saber mais sobre a população professor norte-americano louro de olhos azuis. Nos
local. Depois de uma hora batendo de porta em espalhamos pela praça e começamos a cair. Lázaro
porta, localizei um centro e fui atendida por um de a essa altura já estava com mais um ajudante. Seus
seus funcionários. Disse que precisava falar com os olhos atônitos apreciavam com muito interesse os
moradores de rua sobre um projeto de performance desdobramentos das reações dos transeuntes. “Olha
que estava desenvolvendo: “Acabei de ter uma aquela ali está dando um cafezinho para o menino
experiência traumática. Vocês podem me ajudar a que caiu! Tão dizendo que está ali por dinheiro.”
falar com alguém? O rapaz disse que conhecia um Fiquei impressionada com sua rapidez e entusiasmo
morador de rua que poderia me ajudar. em relatar o que o público dizia. Tentava me manter
É um morador de rua trabalhador e ele exerce uma ao seu lado, mas às vezes ficava difícil, pois se movia
liderança sobre o pessoal de rua daqui”. Ele disse que rapidamente em todas as direções sem perder a
iria chamá-lo para me apresentar. atenção sobre a câmera.
49
Quando me aproximei para cumprimentá-lo A presença da câmera em performances
percebi que era o mesmo homem que tinha me que atuam nessa zona de intersecção entre arte
agredido com paus, pedras e palavrões, assim que e cotidiano é uma questão difícil de resolver. É
cheguei à praça, às 5h40min da manhã. muito importante filmar, pois o registro filmado
– Oi sou Andréa, te vi hoje cedo aqui na praça. é fonte de reflexão e documento capaz de captar
– Sou Lázaro. Lembra de mim?! Disse, ao acontecimentos que muitas vezes escapam à nossa
mesmo tempo em que me encarava com um tom de percepção dentro da multiplicidade de estímulos
enfrentamento. da performance. No entanto, a visibilidade da
câmera pelos passantes enquadra o acontecimento
– Claro! Respondi com firmeza e dessa vez
dentro de um significado ou finalidade, o que
consegui começar a falar sobre a performance que iria
acaba comprometendo a instalação de uma área de
fazer. Ainda em uma atitude de ataque, ele falou:
suspensão entre arte e realidade. Portanto, sempre
– Pra me filmar, tem que pagar. oculto a câmera dentro de bolsas ou casacos ou,

Book 1.indb 49 25/9/2012 13:19:19


como no caso de Salvador, realizo a filmagem do Houve um momento em que eu, Lázaro e
outro lado da rua, muitas vezes entre os carros “Bob Marley” (como era chamado um mendigo
estacionados usando o máximo possível do recurso rastafári, que era uma espécie de vice-líder da área),
do zoom eletrônico. olhávamos do outro lado da rua, um estudante
Nesta performance, a câmera teve um papel deitado ao lado de um mendigo realmente caído.
especial. Os moradores de rua foram inicialmente “Espia como ninguém repara no neguinho, e faz um
convidados para estarem em torno dela, ou seja, alvoroço danado para o garoto bacana ali. O cara fica
olhando a performance por um ângulo mais distante. invisível, meu irmão!” Fiquei tocada pela percepção
Muitas vezes, o próprio Lázaro operou a câmera. Nos de Lázaro. A performance estava, de certa maneira,
primeiros cinco minutos haviam dois moradores por permitindo que os moradores de rua olhassem de
trás dela. Em menos de meia hora já havia um grupo forma distanciada para a sua própria realidade. De
de cinco e aos poucos eles foram se deslocando desse alguma forma, sua invisibilidade estava em evidência
espaço atrás da câmera e se misturando por entre os para eles próprios.
acontecimentos da performance. “O pessoal fica dizendo que se tá no chão, é
Cinco performers caíram em pontos diferentes, por dinheiro. Pra que ficar no chão pra conseguir
e uma série de reações inesperadas começaram a dinheiro? Num tô aqui por dinheiro não... não sou
aparecer. Uma menina foi cercada por um grupo homem de ficar amarrado, sacou. Tô aqui por opção
de crentes da Igreja Universal do Reino de Deus, prefiro pedir a me humilhar!” Este foi o depoimento
que proferiu um ritual para arrancar-lhe o diabo de “Marley”, ao comentar sobre uma outra roda em
do corpo. Numa outra esquina, uma atriz teve torno de um performer, em que todos diziam: “ele
dificuldade em desmentir, o que um grupo a sua está aí no chão por dinheiro. Isso é um golpe para
volta afirmava como verdade. “A menina está arrancar dinheiro das pessoas.”
passando mal. Acode aqui.” Ela tentou negar A polifonia das reações dos transeuntes
no início, mas, sucumbiu diante do ímpeto dos diante da performance, reverberava na escuta
passantes. Inesperadamente, a atriz, que era daqueles moradores de rua, como sentenças sobre
mineira, resolveu reverter o jogo e saiu dos braços a sua própria condição de vida. De alguma forma
50 da mulher que a socorria, voltando para o chão e aquelas frases ecoavam como uma percepção
afirmando que estava ali porque queria. As mulheres extraordinária sobre a realidade das ruas. Notei
que lhe prestaram ajuda, passaram a xingá-la e a que muitos enunciados claramente destinados à
agredi-la. Uma senhora chegou a lhe cuspir na cara, nós eram absorvidos por alguns moradores como
chamando-a de puta. Em questão de segundos, se fossem diretamente destinados a eles. Falas que
Lázaro lá estava, para dar proteção. nos julgavam como preguiçosos, ociosos, safados
Notei que o número de moradores de rua e oportunistas, eram imediatamente retrucadas
que acompanhavam Lázaro havia crescido, eram por eles, que se defendiam de qualquer associação
pelo menos seis ou sete. E o mais intrigante, é dentro dessa ordem. O fio de indefinição entre a
que mesmo acompanhando de perto todos os ação performática e a vida cotidiana, também estava
movimentos da performance, eles permaneciam presente na percepção daqueles que já constituíam
invisíveis para o público que se manifestava de verdadeiros agentes da performance.
forma tão ativa e desassossegada em relação à nossa A essa altura, já era mais numeroso o grupo de
presença no chão. moradores de rua que acompanhavam a performance.

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Nos deslocamos para uma escadaria que dava Em função da reação exaltada desse homem,
acesso a um terminal de ônibus situado na Lapa. a segurança da área foi atraída para o local.
A área anterior a esta escadaria se assemelhava aos Um homem sem farda ou uniforme, chegou
corredores do comércio do SAARA (Centro da cidade apresentando-se como “pré-posto” da prefeitura.
do Rio de Janeiro). A longa e íngreme escadaria A maioria dos performers achou a expressão muito
da Lapa e as estreitas ruas que lhe davam acesso – engraçada, mas o suposto oficial ficou ainda
repletas de barracas com mercadorias expostas fora mais mal humorado com essa reação. Com um ar
das lojas – disputavam espaço com os corpos dos severo e nitidamente contrariado, atacou: “Cadê
transeuntes, e foi o cenário do segundo momento a autorização de vocês? Se vocês não saírem já
da performance. Éramos mais de 20 agora, contando daí, vou ter que retirar vocês à força”. Eu poderia
com os moradores de rua, que já localizavam os ter contido o seu ataque mostrando o folder do
espaços para a gente cair. “É melhor cair ali, ói, o sol CORPOCIDADE 1, explicando-lhe que se tratava
não racha na cara, e é mais limpinho.” de uma das performances dentro da programação
Quando caímos pela escadaria, vários do evento, mas diante de um conflito tão profícuo,
passantes disseram: “É uma manifestação a favor decidi não mostrar o papel e continuar no jogo. Ou
da preguiça e contra o trabalho. Vamos aderir”. melhor, deixar o jogo correr solto, pois os performers
Alguns ambulantes, aproveitavam a movimentação já se encontravam num estado de certa embriaguês,
em torno dos corpos dos performers para venderem devido ao êxtase que a adrenalina de estar nas ruas
seus produtos. Um fazia propaganda de chumbinho desse modo proporciona.
(veneno de rato) tirando proveito da nossa condição. O jogo consistia em explorar com toda ironia,
“Compre o chumbinho na minha mão, deixa o a forma autoritária e “coronelista” com que este
rato no chão!” O professor norte-americano que suposto oficial se pronunciava. Ele nos atacava
integrava nosso grupo, provocou grande alvoroço como se fosse dono daquele espaço público.
nessa escadaria. Além de ter uma aparência de Enquanto não vi nenhum oficial fardado vindo
estrangeiro, ele usava uma camisa social. Ao cair, em minha direção fiquei quieta, mas notei que
deixou um homem completamente indignado: “Sai Lázaro e seus companheiros pela primeira vez se
daí pelo amor de Deus, homem! Isso não é lugar para mostraram tensos e inquietos. Lázaro subiu para o 51
o senhor. Que desgraça!” alto da escada e começou a dar ordens aos outros
David, professor de dança da UFBA com cerca moradores de rua. Marley aproximou-se de mim
de 40 anos, respondia com sotaque americano: “... e disse que era melhor que saíssemos dali, pois
mas, eu quero ficar aqui... me deixa ficar um pouco”. aquele homem costumava dar verdadeiras surras
O homem foi entrando em desespero e ficou nos mendigos e meninos de rua. Disse a ele. “Vamos
totalmente exaltado. Seu corpo, voz e expressão sair daqui a pouco, eu só quero ver até onde vai
facial eram de extrema revolta: “Não pode, não esse conflito”. Marley me olhou meio desconfiado
pode.... saia! O que é que você vai fazer aí no chão e se afastou de nós. Foi para o alto da escada e
de uma escada dessas... pelo amor de Deus... que permaneceu lá atento ao que estava acontecendo
desgraça... tenha decência homem, saia daí”. Como entre os performers e o oficial.
David não o obedecia, ele o pegou pelo braço e Os estudantes da pós-graduação de Dança
puxou-o com força para que se levantasse. Mas, da UFBA levaram aquele pobre homem à loucura.
David se soltou e voltou para o chão. Fizeram uso de trocadilhos, expressões cultas, se

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apegavam à lógica, enquanto, o suposto “pré-posto” Voltamos todos juntos para a Praça da
cada vez mais demonstrava que se não fosse pelas Piedade, e durante o trajeto, os moradores de
roupas e pelo vocabulário, já teria partido pra cima rua nos contavam o quanto apanhavam desses
de todos ali. Do alto da escada, a população formava homens, quantos crimes eram cometidos
um bloco separado de nós e continuava a nos e silenciados. Quase em coro, suas vozes
observar com um pouco menos de tensão. competiam entre si para que fossem ouvidas por
Ao pé da escada, o clima era outro, uma nós. “Polícia daqui é carniceira, mata mesmo, não
verdadeira “roda de capoeira” cheia de mandinga tem dó. Se a gente não se levanta às 6 horas, eles já
e malícia. “Mas, ‘seu pré-posto’, quer dizer então, descem o cassetete”.
que sendo o senhor o dono do local, não dá pra Ouvimos muitos relatos de violência e
deixar ninguém deitar? E quando alguém desmaia, brutalidade radicais. Pude notar que em Salvador
sucumbe ou morre, o que é que o senhor faz?” a relação dos moradores de rua com as forças
“Eu jogo pra fora.” “Então o senhor vai jogar a oficiais era pautada numa dinâmica de vida ou
gente fora?” Durou uns dez ou quinze minutos morte, o que tornava as atitudes dos moradores
o enfrentamento direto com esse senhor que era de rua mais intensas e radicais. Esta dinâmica de
um verdadeiro capataz da área. Enquanto isso, intensidades também estava presente na forma
dividia minha atenção entre gravar as falas dos com que os transeuntes se manifestavam em
participantes do conflito e observar os moradores de relação aos nossos corpos no chão. Quase não
rua no alto da escada. havia, ou pelo menos não consegui observar
Uma crise reveladora havia se instalado ali muitas reações de indiferença, placidez. A
naquela cena. No alto da escada, estava um líder da fisionomia da recepção diante do gesto de cair, era
população de rua, na base um líder da segurança de indignação, estranheza, pena, comoção.
local e no meio do tumulto, como grande responsável Quem parava, ou era capturado pela
pela catalisação do conflito estava o corpo no chão presença dos corpos no chão sentia-se impelido
do professor americano. O homem branco de a tomar uma posição diante do acontecimento
olhos azuis e camisa branca social largado sobre e a deixar claro qual era a sua opinião diante de
52 os degraus da escadaria da Lapa era imagem de todos. “Isso aí são estudantes ricos, se fazendo
profunda perplexidade e indignação. Como um corpo de indigente pra sensibilizar os outros. Nunca
com características pertencentes à elite, sobretudo vi tanta besteira! Quero ver, é neguinho (sic)
em Salvador, pode estar atirado a um espaço tão passando fome pra ver se guenta (sic). Ninguém
significativo da exclusão? Quase ninguém que tenha ali sabe o que é miséria. Hipocrisia isso aí, véio”.
passado por ali ficou indiferente a ele. Falas como essas, geravam, muitas vezes, um
A polícia militar não demorou muito a chegar. debate espontâneo: a vendedora de frutas ao seu
Assim que os policiais se aproximaram, mostrei o lado respondia: “Nada... isso aí é droga... crack. A
folder do evento e expliquei que se tratava de um juventude de hoje não se aguenta de pé.”
dos trabalhos do CORPOCIDADE 1. Com isso Nosso grau de relação com a população de
o clima de tensão se dissipou. O “pré-posto” se rua transitou de uma extrema agressividade para
mostrou desconcertado e Lázaro, Marley e seus uma experiência de cumplicidade. No final do dia
companheiros deixavam transparecer um certo éramos um bando misturado na praça trocando
prazer por trás de seus rostos ainda tensos. impressões e, ao mesmo tempo, mutuamente

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invadidos pelo estado de êxtase que a performance elementos virtualmente inativos num determinado
nos proporcionou. ambiente reagirem rapidamente quando expostos
A narrativa dos moradores de rua tomou conta à determinadas condições. Com isso, a performance
da conversa. Suas estórias entrelaçavam-se com revela tanto os comportamentos políticos de
acontecimentos do seu cotidiano e episódios que castração e controle intrínsecos à organização dos
tinham acabado de se passar durante a performance. poderes locais, como as potências inventivas da
A morte era uma questão viva e coletiva em vida capazes de engendrar saídas singulares: forças
todas as narrativas. Viver, morrer, sobreviver, ou paradoxais dentro do mesmo ambiente.
melhor, como escapar da morte era o que mais os Em O Chão nas Cidades, as falas do agente de
mobilizava. Nos relatos sobre a violência policial segurança privada em meio a discussão com os
sofrida habitualmente revelavam-se como sujeitos de estudantes da pós-graduação da UFBA denunciaram
uma resistência cotidiana e notava-se nos discursos não só os maus tratos como uma atitude de
um tom implícito de orgulho diante dessa tarefa. normalidade diante deles. A condição de vida
“O homem pra viver na rua tem que ter mil vidas.” daqueles moradores exposta ali na performance
(Lázaro). “Aqui se dorme com um olho na terra e evidenciou perspectivas da existência além dos
outro no céu.” (D. Maria), “Eles (os policiais) pensam direitos morais constituídos.
que podem com a gente, mas no final são (sic) tudo Ao instalar crises e processos de confronto de
(sic) escravo. Eu não sou escravo” (Marley). forças e potências subjetivas da vida nas cidades,
a performance catalisa feridas históricas e aponta
A “PERFORMANCE - CATÁLISES” E A CONDIÇÃO
saídas reparadoras. No conflito criado no chão da
POLÍTICA PARADOXAL DO CORPO DO EXCLUÍDO
escadaria da Lapa estava em curso um processo em
O Chão nas Cidades é uma performance-catálises, que todos os agentes envolvidos tinham de alguma
pois não concentra-se no ato em si, mas no que essa forma seus poderes suspensos ou interditados. O
ação faz mover. “Os catalisadores agem provocando segurança particular na pele de “pré-posto” não
um novo caminho reacional, ou acelerando podia bater e chutar como faz habitualmente; os
reações com uma energia mínima de ativação”.1 moradores de rua que normalmente escapariam
De maneira análoga, os corpos em queda nesta eram os únicos que assistiam ou assumiam o papel 53

performance despojam-se ao máximo de narrativas, de público; nós (performers) também não podíamos
enunciados, significações para ativar, acelerar nos dedicar exclusivamente à dinâmica usual da
respostas relacionais. O performer-catalisador vê os performance que é se deitar no chão e deixar vir
impactos gerados por seu gestos serem desdobrados à superfície do espaço as reações espontâneas
espontaneamente como manifestação do espaço. Em desencadeadas pelos passantes, pois grande parte
performances-catálises não há público convencional, de nossa energia estava empregada no embate com
quem de alguma forma se aproxima da performance o agente de segurança privada sobre podermos ou
renuncia ao papel passivo do espectador para se não permanecer no local. Todas as forças políticas
tornar um agente simultaneamente catalisado e ali viviam em torno da turbulência dessa crise. E o
catalisador da ação. folder oficial do evento em meu bolso, que serviria
A performance-catálises também revela como uma prerrogativa de poder para a realização
possibilidades de ativação que se dão nos da performance dentro da “normalidade” estava
deslocamentos, ou seja, a catálise é capaz de fazer sendo ocultado.

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Penso que ao abrir mão do poder que desconhecidas. Pude perceber que, no auge daquelas
tinha (mostrar o papel oficial), para que as ações vidas despidas de qualquer garantia social se instala
da performance se movessem num curso de um “tudo ou nada” que abre caminho para uma
“normalidade” preferi a condição “anômala”, desigual, dimensão política em extrema relação com a vida. O
rugosa, fora da “regra”, o que instalou uma zona em “tudo ou nada” é terreno fértil de lutas acirradas pela
que os agentes presentes do poder (estudantes da existência que se manifestam em maneiras de viver
pós-graduação, seguranças particulares, moradores repletas de sutilezas e saídas criativas.
de rua) puderam se manifestar também de formas Essas organizações se manifestam das mais
singulares sobre um terreno agora fantasmático diversas maneiras: nas inúmeras mercadorias
do abandono dos direitos e garantias sociais. escondidas em paredes falsas, caixas de luz e esgoto;
Nesse sentido, diante das forças políticas da ação nos esquemas internos de segurança baseados na
performática optei pela ativação de crises em alternância de turnos para dormir; na divisão de
territórios não de suspensão de regras, mas de estados trabalho interno; colaboração com comerciantes
em que o deslocamento de regras “normalizadas” se do entorno com pequenos trabalhos. Tudo isso
tornavam evidentes para todos os participantes. baseado, no entanto, em um equilíbrio precário que
Dentre todos os deslocamentos produzidos, alterna essas saídas inventivas a uma instabilidade e
o que mobilizava mais camadas de intensidade era risco devastador.
o dos moradores de rua que assistiam uma cena A dimensão política desse corpo das margens
intrínseca a sua realidade cotidiana distanciados catalisado pela performance O Chão nas Cidades
de todos os efeitos nocivos que ela habitualmente revelou na sua precariedade potências vitais. De
lhes causa. A existência daqueles moradores que é fato, eles se revelaram como artérias responsáveis
sistematicamente tornada invisível e ilegítima pelos por irrigar um frágil tecido social com práticas
poderes oficiais estava sendo discutida publicamente de sobrevivência e pactos de confiança frente aos
naquele espaço. Nós (performers) contribuíamos medos e fantasmas de violência do cotidiano.
de alguma maneira para dar visibilidade aos seus
As novas perspectivas de significação da vida
conflitos e legitimar a existência deles numa troca
desses moradores de rua da Praça da Piedade –
54 cotidiana com a cidade.
Salvador renovou meu olhar para a cidade e para
Voltando à performance-catálises, o corpo esses habitantes das margens que até então estavam
do performer foi um agente catalisador por ter relegados a um território banido e obscuro. Os
criado relações com o espaço capazes de suspender perfomers com que partilhei a experiência também
a normalidade dos mecanismos de controle saíram de lá energizados e nutridos por novas
vigentes no cotidiano. E eu diria que a condição camadas de significação da cidade. O contato com
essencial para esta profícua relação com o espaço essas existências precárias deflagrou processos
estava especialmente localizada na sua capacidade paradoxalmente preciosos que são frutos dessa
de escuta, conexão e entrega às forças, afetos e precariedade.
potências do espaço.
O precário fala de capturar a vida exatamente
Absorver as potências de vida e morte na sua delicadeza e sua dispersão, e se afasta,
dos moradores de rua da Praça da Piedade em portanto, de estéticas e políticas que sustentam
Salvador foi uma ação reveladora de subjetividades a ilusão de totalidade. A vida é uma explosão de

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fragmentos em conjunturas, e não conjuntos
simbólicos fechados e bem sucedidos que se
preservam ou atingem o sucesso diante da
vulnerabilidade da vida. A vida está sempre a se
desfazer e sua inegável precariedade exige para si
muita delicadeza. Delicadeza nos modos de percebê-
la nas suas localizações e manifestações agudas que
vão sendo reveladas por dentro da dimensão de
morte e vida dos corpos da cidade, dos objetos, das
pessoas, do mundo.

Notas
1
LEVENSPIEL, Octave. Engenharia das reações químicas.
São Paulo: Edgard Blücher, 1974.

55

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CONTRAPONTO

Havia em mim alguém que sabia mais ou menos


olhar, mas era uma personagem intermitente, só
animada pelo contato de alguma essência geral,
manifestando-se em muitas coisas. [...] Então via
e ouvia, mas só a determinada profundidade, de
nada valendo, assim, para observação. Como um
geômetra que, despojando os corpos das qualidades
sensíveis, só lhes visse o substrato linear, escapava-
me o que as pessoas contavam, pois não me
Deriva parada interessava o que diziam, e sim o modo pelo qual
Janaína Bechler* diziam, e tanto quanto lhes revelava o caráter ou
os ridículos. [...] meu espírito, até então sonolento,
mesmo sob a aparente vivacidade das palavras cuja
animação, na conversa, mascarava para outrem um
completo torpor espiritual, lançava-se , de súbito
à caça, mas o que perseguia [...] situava-se a certa
profundidade, para além da aparência, em uma
zona um pouco recuada. (PROUST, 1998,
p. 27-28)
56
Desde junho de 2011, mantenho o exercício
de ficar parada contra uma parede branca, anônima,
durante uma hora, uma vez por semana, na rua
dos Andradas, centro de Porto Alegre. Tenho
nominado de “Deriva Parada” pois essa experiência
está impregnada de um tipo de sensibilidade que
aparece como marco nos movimentos artísticos
Dadá, Surrealismo, Situacionismo (do qual eu cunho
essa palavra, deriva), além de outros dentro da arte
* psicóloga, doutoranda PPG Psicologia Social
e Institucional da UFRGS contemporânea que agem na cidade e no cotidiano
como espaço potente, inventivo, maravilhoso.

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Na esteira dessas tantas experiências, a atendo ao telefone público, localizado próximo a
escolha desse lugar obedeceu a um único princípio: mim, quando ele toca; outras vezes, respondo a uma
a atração. Foi como derivação de uma série de enquete, e também sinto a vertigem da passagem,
caminhadas, primeiro por qualquer lugar na cidade, identifico personagens e às vezes sinto medo dos
depois por muitas ruas do centro e depois pela personagens que identifico. Às vezes, eu não estou
rua dos Andradas, que almejei ficar parada. Mas lá quando estou. Às vezes me divirto, às vezes eu
ainda caminhei durante algum tempo por falta de esqueço que estou, mas sempre sinto intensamente
coragem. Ficar parada me desestabilizava de uma o percurso dessa hora, atravesso-a com alguma
forma diferente do movimento, e me dispunha a um resistência. Talvez com a mesma densidade do
estado de atenção próximo ao de alerta. tempo na infância, da espera pela chegada ao
Nas primeiras vezes, fiquei menos ou mais destino em uma viagem; ou a chegada do próximo
tempo, em dias variados da semana, em diferentes aniversário; ou à festa junina do dia seguinte: o
horários. Até que fixei um dia, um horário e uma tempo é infinito e lento como uma bruma.
duração. Essa eleição, como todas as demais dessa Experimento o paradoxo entre um lugar muito
aventura, se deu por atração: no dia da semana e no específico, aquele pedaço da rua dos Andradas,
horário escolhidos, encontrava um tipo de aglomero e um lugar qualquer, com as características
que me interessava. A sistematização também se descontextualizadas que essa percepção me permite
deveu por entender que a repetição era um elemento acessar. Penso nisso como um certo efeito de
importante do trabalho, ela daria condições para suspensão dos sentidos preconcebidos para aquela
que o território acontecesse e, também, para que rua, inspirada pela leitura de Deleuze (1983)1 sobre
o território se desfizesse, visibilizando, nesse um tipo de imagem cinematográfica, chamada por
movimento, as camadas que o compõem, nesse ele de “imagem-afecção”. Nesse tipo de imagem
caso, que compõem essa rua. Meu objetivo ao estar (quase sempre um primeiro plano, e quase sempre
lá é colocar-me disponível diante do fluxo, sem de rosto), a aproximação da câmera produz um
compromisso ou intenção de conhecer pessoas, efeito de descontextualização, acabando com a
de fazer anotações ou de ser conhecida; mas, sim, relação de contiguidade entre os corpos, os espaços,
de disponibilizar-me a reagir aos estímulos da rua, apresentando o rosto (ou outra matéria rostificada) 57

quando/quanto possível. Depois (imediatamente como uma superfície de expressão de afeto, certa
depois) sento-me em algum café do centro e medida de rastro de uma ausência, de uma fenda de
escrevo o que aconteceu durante aquela hora em comum, informe, ou antes da forma.2
que permaneci parada na esquina, com alguma Uma rua já não é mais uma rua, mas uma
objetividade, seguindo um fluxo de memória. neblina onde ela é rarefeita, quase como a pele
Minha rotina foi sendo pontuada por algumas de Jacques Demy, na imagem feita Agnès Varda,3
atividades, algumas provocadas por mim outras em testemunho de seu amor que estava prestes
resposta a algum estímulo. Comecei a fotografar a a morrer: a câmera extremamente próxima,
passagem do tempo e da multidão, fixada a partir visibilizava os poros, pequenas manchas, traços
do mesmo ponto, um determinado quadrado da e rugas, pelos, que jamais fariam a imagem de
laje da rua, no momento em que chego ao local. uma face comunicante do indivíduo Jacques, mas
Às vezes, também fotografo durante o tempo em apresentavam a imagem parcial de uma fusão, a
que fico encostada na parede, assim como, às vezes, criação de uma zona de indeterminação.

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Um espaço qualquer não é um universal abstrato, também estava encostado. Lembrei que
estar encostado é a condição para quem
em qualquer tempo, em qualquer lugar. É um não trabalha, vive à custa de alguém.
espaço perfeitamente singular que apenas perdeu
sua homogeneidade, isto é, o princípio de suas Formamos uma estranha série que
começava por ele e terminava nos
relações métricas ou a conexão de suas próprias três amigos. Talvez por não querer
partes, tanto que as junções podem se dar de uma participar dela, ele se afastou e
parou ainda um tempo antes de ir-se
infinidade de modos. É um espaço de conjunção definitivamente.
virtual, apreendido como puro lugar do possível.
(DELEUZE, 1983, p. 128) Um garoto vinha rente à parede. Uma
mão riscava invisível com a ponta do
dedo e a outra mão enlaçava a mãe.
A repetição da ação de encostada e a escrita dos
relatos de deriva me fazem identificar personagens Quando cheguei, busquei identificar os
na rua e, mais recentemente, ser identificada mesmos personagens. Senti falta da
estátua, do homem de boné, dos três
também como personagem. Minha proximidade amigos.
com eles é imaginada no texto, que me deixa com a
sensação de ausência, saudade, espera, reencontro, Continuei um tempo ainda desviando de
seu olhar que, ao longe, insistia.
alegria, mesmo em relação àqueles com quem Logo em seguida, uma repórter da Rádio
nunca troquei palavra ou olhar, muitos talvez nunca Guaíba pediu que respondesse a uma
enquete. Aceitei. Era sobre o dia dos
tenham me visto. Há uma eminência de relação, namorados. Eu respondi “não sei” a
um quase, e até mesmo uma aproximação que não todas as perguntas, sem a intenção de
ser antipática.
fizeram diluir o anonimato. É uma aproximação de
personagens. Fiquei com vontade de escrever
Até hoje ninguém me perguntou o que eu faço manchetes.

na rua, nem mesmo a estátua quando formulou essa


Foi quando um beijo na esquina segurou
questão sem nenhum interesse pela resposta. Minha meu olhar, quase como descanso, para
resposta foi evasiva, eu não sei exatamente o que não sucumbir à tontura do espaço
que caiu, do abismo que se fez. Um
58
estou fazendo lá. Mas essa não é uma experiência demorado beijo, outro demorado beijo
exata, é uma aventura,4 dentro e fora da vida, e a separação, cada um para um lado
da rua. Pensei que eu esperava sem
uma ilha de indeterminações num espaço banal, encontrar.
cotidiano, central, que se materializa em pequenos
textos dos quais extraí alguns fragmentos colocados Hoje não encontrei os mesmos
personagens da rua. Talvez pela chuva,
a seguir. parecia não haver ninguém vendendo
nada, também não havia ninguém
DERIVA PARADA NA ANDRADAS encostado ao meu lado. Na parede da
frente da cortina de ferro, senti
Imaginava ficar parada na Andradas, falta dos senhores de encontro. Aquela
olhando os passantes. Imaginava também vertigem de não encontrar onde fixar o
que sentiria certo incômodo de estar olhar novamente.
parada onde tudo sugere andar. Então
vi a estátua de anjo e senti certa Me atropelou um senhor com as duas
coragem. pernas enfaixadas e me pareceu
que tinha também os braços também
Eu, então, me encostei na parede em enfaixados. Seus olhos pareciam
frente, ao lado de um homem que fincados em uma tela abstrata, como se

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o rosto fosse um mapa, uma inscrição, de estar no lugar errado, encostada em
um sótão de Beckett. Atropelada, uma anônima e branca parede.
minhas pernas falsearam, quiseram
deixá-lo passar, mas ele, tão próximo,
Uma mulher ia passando e foi possuída
não sei se me via, vinha na minha
de ternura, depois de paixão, acelerou
direção, passaria pelo meu chão.
o passo, parecia falar com ninguém
Fiquei parada, ele seguiu, olhei para
quando abraçou demoradamente o rapaz
ele, que dobrou a esquina da Borges.
moreno que ia logo adiante. Eu e a
mulher Guarani acompanhamos os dois
Do outro lado vinha um homem segurando até sumirem na multidão.
um troféu embaixo do braço. Pude ler,
quando ele já me dava as costas: IND.
Me perdi no passeio e encontrei: um
Vencedor.
homem carregando uma mala; uma mulher
com o casaco suspenso nas costas,
O telefone tocou e dessa vez resolvi com braços e mangas balançando de
atender. Saí da minha parede e cada lado; um casal de cegos; o homem
caminhei até lá. Peguei-o do gancho enfaixado, que hoje estava parado
e disse: “Olá!” A pessoa respondeu: no meio da passagem. Fiquei feliz
“Quem fala?” “Aqui é da Rua dos por encontrá-lo lá. Me assustei pela
Andradas, você ligou para cá.” presença dele, no meio do passeio,
parado como eu, sem nada fazer.
O passo acelerado me fez ver o
descompasso de alguns, lentos para Passaram por mim:
o dia: um homem de suéter amarelo, - dois senhores de chapéu, elegantes;
uma criança que pulava a cada dois - uma senhora de casaco verde-alface;
passos, o homem elegante do outro dia, uma mulher negra com esvoaçante
que evoluía na passagem com graça de flor no cabelo;
bailarino, um casal que corria, uma - uma senhora curvada, segurando-se
criança guarani que segurava no ar seu em uma bengala, torcida para o lado
arco e lançava flechas para o alto. esquerdo, com a mão nas costas;
- um casal de chapéu e óculos escuros.
O mesmo homem enfaixado andava
novamente em minha direção e mais uma A estátua de anjo chegava. Fiquei
vez eu não soube se ficava ou se saía, feliz em vê-la. O moço da Tim a
se olhava ou se baixava os olhos. cumprimentou feliz, perguntou se
Dessa vez, ele me olhou profundamente estava viajando. Ela respondeu que
e pareceu ver em mim o estranho que vi sim. Senti que o tempo que fiquei fora
nele, mais uma vez hoje, menos hoje do pode ter sido o mesmo da estátua senti 59
que no outro dia. aliviado o sentimento de perda.

Um homem vestiu um casaco verde, Hoje o homem enfaixado passou do outro


uma gravata vermelha de cetim e, na lado da rua. Mais uma vez, senti que
lapela do casaco, um lenço floreado de talvez não fosse ele, que, em outro,
vermelho. Agenda na mão, parecia que houvesse alguma semelhança enganadora,
vendia imóveis, a gravata e os cabelos uma certa diferença no modo de andar,
pareciam de bailarino. na postura.

Passou por mim uma mulher negra com Passou por mim uma mulher usando
passo também vacilante. Próxima, nos botas de salto tão alto que faziam o
olhamos nos olhos. Ela deixou cair uma corpo se dividir ao meio, como se o
luva preta e eu fiz menção de avisar tronco não se ligasse às pernas, que
quando um homem o fez, antes de mim. estavam excessivamente autônomas,
Ela respondeu como quem se esconde, andando sozinhas. A outra metade
isto não é meu. E me olhou, testemunha estava também dividida por uma
desse ato de se livrar do objeto cintura excessivamente apertada,
incômodo, na anônima calçada onde a que fazia o tronco ser dois e, o
testemunha vale menos, suspeita que é conjunto, uma escala de figuras

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desencontradas, órgãos avulsos, Hoje a rua estava diferente. O fluxo
montados aleatoriamente. A impressão difícil, desordenado.
de unidade quem lhe dava era o moço ao
lado, com a mão em seus ombros, que
Hoje vi o homem enfaixado atrás de um
aí sim juntava tudo aquilo em um só
aglomero, nunca mais vou esquecer seu
corpo: quase um títere.
rosto.

Um homem fumando cachimbo e usando uma


Um homem gritava com uma bíblia aberta
boina parou ao lado da estátua. Tive
nas mãos. Atrás dele, um profeta de
a impressão de já tê-lo visto antes
ocasião sugeria o próximo texto. Eram
ali na Andradas. Ficou assim por um
as coisas da rua que entravam no texto
tempo, olhando para ela, até ganhou
sagrado: a maconha do menino, o jogo
sua sorte sem contribuir com moedas. A
clandestino, o patrão endinheirado.
estátua chupou uma bala, um momento de
Além deles, outros da rua que não
intervalo.
vejo: a pomba-gira, o capeta. O homem
que era profeta-ventríloco parou ao
A estátua hoje estava menos atraente, meu lado, estava feliz por ouvir seu
ao menos para mim, mas a senti texto gritado rua afora. Nem ao menos
particularmente bonita. Quando cheguei se mostrava, feliz, ele dizia: esse
ao ponto de fotografá-la, a vi imensa, aí é maluco, ele repete tudo que eu
fincada no horizonte, quase voando. digo. Ria do outro, gritando as suas
palavras com a bíblia aberta.
O homem que estava ao meu lado quis
limpar o campo de visão da câmera. Eu lembrei que não conheço nada da
Saiam da frente, não vêem que a moça rua, ela me escapa toda vez que me
quer fotografar, gritou para um grupo aproximo.
que conversava rente aos meus pés. Eu
agradeci, mas disse que não precisavam
Me encanta olhar a estátua, acompanhar
sair dali, eles, é claro, saíram um
seus olhos fisionomistas. Hoje o homem
pouco constrangidos.
enfaixado me olhou.

Logo que cheguei, a estátua sentou-se


Hoje eu não consegui estar só. Ao
para descansar. Atendeu o celular.
meu lado o senhor cantor de tango,
Uruguaio, conversava comigo. Contava
Minha parede estava cheia. Ao meu sua vida de artista e também seu
lado, um grupo de senhores animados, hábito da rua Praia. Está lá para se
um deles cantava Dolores Duran com distrair. Os outros conversavam entre
60 sotaque castelhano. Cantava muito si, ele me achava simpática. Eu não
bem. Outro senhor chamava todos os consegui olhar a rua como queria.
mais velhos que andavam na passagem. Me despedi dele, fui cumprimentar a
Conhecia muita gente. Eles faziam estátua, que me respondeu:
aquilo que eu fazia, olhavam os
passantes, e conversavam uma conversa
Estás conhecendo os personagens do
à toa, brincando com a própria
centro? Bem vinda aos personagens do
velhice, com a velhice dos outros, com
centro!
uns que nem estavam ali, com uns que
nem eles sabiam.
Ela falou do alto do seu pedestal e me
deu a seguinte mensagem:
Hoje a estátua me chamou. Cheguei na “todos os dias Deus nos dá um momento
Andradas e fui fotografar. Dessa vez em que é possível mudar tudo o que nos
espacei mais o ato fotográfico, olhei. deixa infelizes. O instante mágico é
Ela me olhou e me chamou. Disse que o momento em que um “sim” ou um “não”
faz tempo que me vê, fica intrigada pode mudar toda a nossa existência.”
sobre o que eu faço. (anônimo)

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61
Anônimo era a palavra-chave. a materialidade da fumaça, sua
espacialidade. Passaram por mim os
fumantes:
Senti o vazio da rua. Mais uma vez.
- uma senhora com blusa rosa-antigo,
Seus buracos. Fiquei tonta.
fumava com a mão carregada de sacolas,
Vertigem de estar sem foco.
o braço pesado segurava o cigarro na
extremidade do dedo e fazia o corpo
Dois meninos guaranis brincavam nos pender por cima dele;
meus pés e pareciam não me ver. - um homem de camisa vermelha e chapéu
Simulavam uma cama, cada um dormindo preto, fumava uma fumaça densa,
virado para um lado e cada um charmosa, impetuosa;
abraçando amorosamente uma lata de - ao meu lado, uma moça conversava e
refrigerante. Pensei que o amor não é fumava com um homem também fumante,
o mesmo. A lata derramava um pouco do não escutei o que diziam.
resto do refrigerante na laje, como
tinta.
A estátua hoje me chamou logo depois
da fotografia. Me perguntou sobre a
Eu estava doente, sentia a fumaça da minha semana, contou a sua em um
rua cortando a garganta e o peito, ato. Aconteceu, na semana passada. É

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impossível esquecer a antiguidade da passei por aqui antes, te olhei e
ação do Anjo, há 16 anos parado na pensei: que moça romântica! Eu sorri
mesma rua, todos os dias da semana. – romântica! Depois de feita a imagem,
Olho a Andradas por seus olhos quando me perguntou de onde eu era, e depois
estou ao seu lado, é difícil prestar disso, qual era a minha profissão.
atenção ao que ele diz. Ficou surpreso duas vezes e, mais uma
vez, me parabenizou pela simpatia.
E mais uma vez, não perguntou o que
Hoje encontrei duas pessoas de Santo
eu fazia ali, apesar do seu rosto
Ângelo enquanto falava com a estátua.
denunciar uma hesitação, uma latência.
Senti uma estranha lentidão nas minhas
Eu pensei, ele pensou. Se despediu
respostas, senti que não tinha o que
deixando seu cartão de visitas, para
dizer. Há um esvaziamento do que sou
qualquer coisa que eu precisasse.
eu quando estou ali.
Caburé Seguros, Eduardo.

Pensei que levar a minha cama para a


Passou por mim o homem elegante do
rua não seria de todo estranho. Ali,
outro dia, vestia branco-linho, do
de alguma forma, tudo é natural. Tudo
chapéu ao sapato. Roupa impecável,
é artificial, tudo é natural.
passada, engomada. Depois dele, um
papeleiro e eu pensei na moda: estilo
Vi a rua particularmente carnavalesca. feito com o que há disponível. Vestia
Os pés andando em ritmo harmônico, duas calças, três blusas, cada uma
levantando e pisando com exata deixando aparente as outras camadas em
precisão. É incrível como, por alguns locais estratégicos, como histórias
minutos, a rua parece ensaiada, como que se contam através das cortinas
se todos ouvissem a mesma música. das casas desconhecidas. Na orelha, um
pêndulo equilibrado.
Eu fui para a parede depois disso,
imaginando que aquele homem poderia Senti o vazio da rua. Mais uma vez.
me perguntar o que eu estava fazendo Seus buracos. Fiquei tonta.
ali. Mas logo depois tive a impressão
de que isso não aconteceria. E não
Vertigem de estar sem foco.
aconteceu. Ele esqueceu, eu esqueci.

As crianças guaranis não foram.


Vi o homem enfaixado na multidão,
Sinto falta delas, sinto falta de não
passando o cruzamento. Caminhava um
entender a sua língua e olhar os seus
passo lento, parava muitas vezes,
gestos. E entender pouco seus gestos
olhava para os lados. Tenho a
62 impressão de que me olhava. Ele me
olhava. Veio até a minha frente, no O que fazer com tanto lugar
centro da passagem. Parou, olhou para desabitado?
os lados. Fotografei-o assim. Olhei
para trás e ele se foi. Perdi-o de
A Andradas nunca mais foi a mesma
saída.
desde que o sol se moveu e lavou
a rua toda com sua luz. Ela ficou
Olhei para a passagem interessada em grande, muito maior. Meu olhar quase
encontrar alguém que me fotografasse. não encontra apoio. Os vendedores
Dessa vez, resolvi chamar o primeiro se aglomeram nas pequenas faixas de
passante: não era nem homem, nem sombra, as pessoas fogem do centro,
mulher, nem jovem, nem velho, nem buscam também caminhar na sombra das
bonito, nem feio. Era o primeiro. marquises. Hoje eu fiquei feliz por que
Pareceu feliz quando parei seu tive onde me encostar, minha parede
movimento. Falei o que precisava, voltou a ter uma pequena faixa de
e ele ficou mais uma vez feliz e sombra. Lá estavam a mulher guarani e
me chamou de querida. Depois disse seu filho além de um rapaz encostado,
que sou muito simpática. Parabéns, que parecia descansar. Parei ao seu
querida, você é muito simpática, lado.

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Um homem deitou-se próximo dos A mulher fumava um mesmo cigarro,
meus pés, exalava um cheiro forte, em etapas. A cada vez que queria
quase insuportável. Tira do bolso reacendê-lo, chamava alguém na
uma pequena garrafa de cachaça e, passagem para lhe emprestar a brasa.
ao contrário do que imaginei, ele Acompanhei seu gesto, ela não trocava
não bebeu, mas passou o líquido nos nenhuma palavra: levantava o braço
cabelos, no rosto, vagarosamente, mostrando o cigarro apagado e o outro
como quem se lava. Ele ria, eu ria. lhe cedia o aceso. Uma vez o homem
O cheiro do álcool intensificava o lhe estendeu o cigarro sem lhe olhar,
outro, da falta de banho, ele não ela também não olhava. Dessa vez, já
parecia sentir. A mulher vendedora da estava perto do filtro, pouco havia
Tim também parecia não sentir. Logo para tragar.
ela foi ao encontro de alguém. Logo
eu também atravessei a passagem indo
Sento falta do homem enfaixado, não
embora e lhe acenei com a mão. Eu não
o vi mais. Hoje o procurei algumas
sou mais anônima. Eu continuo sendo
vezes. Tenho a sensação de que não o
anônima.
estou reconhecendo.

Passaram por mim duas crianças guarani


caminhando abraçadas. Era um desafio
caminharem assim, ela riam muito.
Seguravam-se uma na outra além de Notas
segurarem uma cinta. Acompanhei os
dois até virarem a esquina.
1
“O primeiro plano não duplica um indivíduo, assim como não
reúne dois indivíduos – ele suspende a individuação. Então o rosto
Um grupo de guaranis ocupava um pedaço único e devastado une uma parte de um a uma parte de outro.
da minha parede. Sorri ao ver aquela [...] Ele absorve dois seres e os absorve no vazio. [...] primeiro
fila de encostados, uns sentados, plano-rosto é ao mesmo tempo a face e seu apagar.” (DELEUZE,
outros em pé, as crianças em torno 1983, p. 177)
dali. Era um espaço de apresentação e
eu parei ao lado deles, na sequência 2
Essa imagem pode ser vista no documentário Janela da Alma, de
da fila. Logo começaram a tocar, João Jardim e Walter Carvalho, de 2001.
cantar, dançar. Por algum tempo
deixei de ouvir aquela música e logo 3
No sentido de G. Simmel (1989).
entendi que ela se cola facilmente
àquele lugar. A repetição hipnótica
é necessária para olhar esse lugar.
Também é necessária para estar ali,
uma companhia perfeita. Ganhei um 63
sorriso de um dos meninos, logo que me DELEUZE, G. Cinéma 1 – L’Image Mouvement. Paris:
encostei lá. Será que já o vi antes? Les Éditions de Minuit, 1983.
PROUST, Marcel. Em busca do tempo perdido, o tempo
Hoje passaram por mim:
- um homem hesitante; redescoberto. São Paulo: Ed. Globo, 1998.
- um homem lento;
SIMMEL, Georg. A Aventura. In: Philosophie de la
- uma mulher ausente;
- um homem recolhendo seu guarda- modernité. L´aventure. Éditions Payot, 1989.
chuvas;
- um homem olhando para trás, como
quem sabe o que aconteceu;
- um homem que não conseguiu acender o
cigarro e guardou o maço no bolso.

O Anjo me disse que aprendeu com os


meninos da rua que a rua maltrata quem
está na rua.

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Devemos, portanto, – em recuo do reino e da
glória, na brecha aberta entre o passado e o futuro
– nos tornar vaga-lumes e, dessa forma, formar
novamente uma comunidade do desejo, uma
comunidade de lampejos emitidos, de danças apesar
de tudo, de pensamentos a transmitir. Dizer sim na
noite atravessada de lampejos e não se contentar
CONTRAPONTO

em descrever o não da luz que nos ofusca.


(Georges Didi-Huberman, 2011)

I.
É bem sabido que o carnaval de Salvador
tem passado por mudanças radicais ao longo
das últimas duas décadas. Trocando as ruas por
ambientes exclusivos, a participação pela anestesia
contemplativa, o anonimato pelo vedetismo,
o corpo-a-corpo pela distância, a mistura pela

Breve relatório apartação, a alteridade pela indiferença, a


diversidade pela homogeneização – espelhando,
sobre a primeira portanto, o que observamos no dia-a-dia das nossas
de uma série de cidades. Dos três “circuitos” onde oficialmente
64 opacificações acontece a festa,1 o “Barra-Ondina” é aquele mais
disputado pela mídia, pelos blocos das “estrelas”
urbanas1 da chamada “axé music”, pelas “celebridades” e
pelos empresários da indústria do entretenimento,
responsáveis por transformá-lo – com o apoio
Silvana Olivieri* dos órgãos públicos municipais e estaduais – num
corredor extenso e monótono, cada vez mais
estreitado por camarotes gigantescos e sofisticados.
Afinal, assim como a cidade, o carnaval-espetáculo se
mostrou um rendoso negócio.
Em fevereiro de 2012, realizei uma ação
artística em Salvador, neste contexto específico do
* aquiteta e urbanista, mestre PPG carnaval – intitulada “Opacificação#1”, pretendida
Arquitetura e Urbanismo UFBA como a primeira de uma série de “Opacificações

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Urbanas”. A ideia surgiu, principalmente, da (1994): um modo “outro” – desviante, imprevisível,
vontade de fazer uma crítica – através de “tático” – de usar, de se apropriar, de ocupar um
acontecimentos poéticos, lúdicos e irreverentes – espaço urbano qualquer. Uma “operação” ao mesmo
aos esquemas de poder que atualmente procuram tempo disjuntiva – como um “jogo”, “construindo
ditar as regras da vida nas cidades, impostas dos situações”2 inesperadas e desastrosas aos esquemas
fatos mais ordinários de seu cotidiano aos eventos de poder vigentes, e conjuntiva – como um “rito”,
extraordinários como o carnaval. catalisadora de cooperação na diferença, pelo
Esquemas que operam tanto ao nível macro compartilhamento de uma experiência sensível.
(molar) do urbano, ou seja, pelas “formas” sobre
as quais se projetam representações, como
II.
ao micro (molecular), por “forças” que afetam “Cotidianidade não é evidência, mas
sensivelmente subjetividades e corpos, investidas opacidade”. Esta “constatação elementar” do
sobre os agenciamentos de desejo, mobilizando – escritor e ensaísta Georges Perec (2000) – que já
para captura – a energia libidinal, motriz de toda há algum tempo me instigava3 – foi o ponto de
experiência. Assim como faz o poder contra o qual partida para compreender a opacidade como uma
se destinam, é também sobre esses dois níveis qualidade inerente, intrínseca e intermitente dos
ou escalas do urbano, conjugadamente, que as espaços urbanos, que se manifesta até mesmo
Opacificações se dispõem a operar. naqueles mais espetacularizados e “luminosos”, pois
o que conta para essa manifestação é sobretudo o
Críticas desde o nome – um trocadilho com
regime temporal da experiência no espaço, através
o termo “pacificação”, a mais recente novidade
do espaço – não o espaço em si.4
nos discursos que acompanham e sustentam tais
esquemas, as Opacificações podem ser consideradas Nesse sentido, opacidade e luminosidade
“intervenções urbanas”; mais especificamente, coexistiriam num mesmo espaço urbano, uma
“intervenções contra-hegemônicas”, denominação interferindo na outra, uma se insinuando na outra.
de Chantal Mouffe para a ação política própria Faço, assim, uma utilização um pouco diferente
ao campo da arte. (JACQUES, 2009) No entanto, dessas noções àquela de Milton Santos, conforme
como em urbanismo a palavra “intervenção” carrega Souza (2003). Para o geógrafo, a cidade se dividiria 65

inevitavelmente um ranço autoritário e impositivo, em “espaços luminosos” – aqueles “obedientes


prefiro concebê-las mais pelo viés de Hélio Oiticica, aos interesses das empresas”, regidos pela lógica
para quem o artista – longe de um “interventor” – mercantil-midiática, os ambientes dos “acelerados”;
deveria ser um “propositor de práticas”, suscitando, e “espaços opacos” – espaços “do aproximativo e da
no participador, “estados de invenção”; e que fossem criatividade”, produzidos pelos “homens lentos”
proposições abertas, “simples e gerais”, na forma de em suas práticas cotidianas. (SANTOS, 1997,
“situações a serem vividas” (CARDOSO, 1979) – p. 261) Em vez da divisão dual, vejo combates e
aquilo que Mário Pedrosa definiu como o “exercício jogos, passagens e trocas mútuas entre opacidade
experimental da liberdade”. e luminosidade na cidade – sem consenso ou
conciliação possíveis.
As Opacificações consistiriam, portanto,
em proposições de práticas urbanas contra- E são justamente estas inter-relações entre
hegemônicas – ou, simplesmente, em “práticas de opacidade e luminosidade nos espaços urbanos que
espaço”, aqui já nos termos de Michel de Certeau pretendo provocar, testar, desestabilizar através das

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Opacificações, movida por um prazer muito parecido CAUWENBERGE, 2002, p. 87) já disse que “não há
com aquele descrito por Certeau (1994, p. 79) Aquele chaves para Paris, todas foram jogadas no Sena.”6
de “driblar” ou “alterar” as regras e convenções Sendo uma experiência de tempo, a opacidade
de um espaço opressor; de trapacear os sistemas também vai escapar à nossa percepção objetiva,
66 impostos, engendrando incessantemente opacidade e aquela que só apreende o campo extensivo das
ambiguidade – “cantos de sombras e astúcias” – nos formas. Para experiênciá-la, é preciso mobilizar a
diversos reinos da “transparência”, reinos gloriosos da outra capacidade dos nossos sentidos, a “percepção
luminosidade. subjetiva” ou o “microsensorial”, ligada ao campo
Opacidade não é uma ausência de luz, um intensivo das forças. Essa capacidade corresponderia
breu. Inclusive, ela precisa de alguma luz para se ao que Hubert Godard (2006, p. 73-80) chamou
manifestar. Seria, antes, uma resistência à luz, uma “olhar cego”, aquele que nos permite ver (ou
tensão que dificulta a penetração luminosa, uma sentir) no aquém das formas, e assim “participar
“sombra” que impede a formação de uma imagem completamente das coisas do mundo”, sem “engessá-
plenamente visível, nítida, legível. É pela presença de las numa interpretação”. Experienciar a opacidade na
opacidade que, numa cidade, sempre vai restar algo cidade seria, assim, praticar uma “espécie de cegueira”,
de indeterminado, de indecifrável, de inacessível, tal como entende Certeau: “jogar” com um espaço
algo “que não se deixa apanhar”.5 Corroborando que, como não se pode ver, não se pode interpretar
este sentido, o cineasta Chris Marker (apud VAN

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imagens: Amine Portugal

ou ler, exigindo um “conhecimento tão cego como no efeito da aglomeração de corpos num espaço densa e
corpo-a-corpo amoroso”. (GODARD, 2006, p. 171) intensamente compartilhado, sob um céu comum –
o manto de Oxalá que pairava sobre nossas cabeças.
III.
A “Opacificação#1” faz uma “transcriação”, ou
A concepção desta primeira Opacificação seja, uma “transposição criativa”7 – sem literalidade 67

Urbana se deu no entrecruzamento desse universo ou representação – dessa experiência vivida


de referências e cogitações teóricas com minhas numa festa “sagrada” para uma festa “profana”, o
vivências pessoais, seja no próprio carnaval de carnaval de Salvador. Seria a tentativa de encravar,
Salvador, seja nos terreiros de candomblé baianos. dentro de um imenso espaço espetacularizado e
No final das festas de Oxalá, tradicionalmente é demasiadamente “luminoso” (o circuito Barra-
aberto um grande pano branco, o “Alá” (céu, em Ondina), sob a “ofuscante claridade do poder”, (DIDI-
Iorubá), no meio do salão (o “barracão”). Neste HUBERMAN, 2011, p. 91). uma pequena “zona
momento, todas as pessoas presentes – mesmo opaca”, efêmera, movediça e cambiante, propícia a
as que estão ali como meras espectadoras – são todo tipo de traquinagem a céu aberto – o que, aliás,
convidadas a irem para debaixo do Alá, dando voltas sempre fez a diferença desse carnaval. Para que isso
no barracão, dançando ao som dos atabaques, junto acontecesse, minha aposta seria oferecer, à multidão
aos orixás. Quando experienciei esse ritual pela das ruas, um outro céu.
primeira vez, fui atravessada por uma forte vibração,

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A proposta consistia, basicamente, em carregar Etimologicamente, a palavra “fantasia” vem do
um manto – o “outro céu” – sobre a “pipoca” de um grego phantázein, “fazer aparecer”, que por sua vez
trio elétrico “independente”,8 durante o seu percurso deriva de phānós, “luminoso”, e phós, “luz”. Enquanto
no circuito. Para tanto, seria preciso contar com a “micro-resistência”(JACQUES, 2009) à “grande luz”,
colaboração voluntária de pessoas da multidão, em a “feroz luz do poder” (DIDI-HUBERMAN, 2011,
sua maioria desconhecidas – ou seja, a participação p. 91), artificial e transcendente, a nossa fantasia
aqui seria não uma mera proposição, mas a condição revelou o brilho de outras luzes, emanadas dos
da experiência. Diferentemente do manto “sagrado” corpos que a experimentavam – que inevitavelmente
do candomblé – de um único tecido, de uma única me remetem aos “lampejos de contra-poder”
cor, este manto “profano” seria um patchwork descritos por Georges Didi-Huberman (2011,
formado por lençóis usados (amarrados uns aos p. 160), “eróticos, alegres e inventivos”, emitidos
outros), de diversos tipos, cores e tamanhos.9 Um por alguma comunidade “vaga-lume” de desejo
conjunto aberto, amorfo e, pela apropriação, também partilhado.
metamórfico, cujos “pedaços” seriam paulatina Certamente, o manto serviu para muito mais,
e aleatoriamente justapostos, num processo, a um “mais” que nunca saberemos – esbarramos
princípio, sem previsão de fim10 – exatamente o que aqui na opacidade do Outro. Provavelmente, nunca
Gilles Deleuze e Félix Guattari (1997) chamaram de saberemos também qual foi seu fim. Um pouco
“crazy patchwork”. antes de acabar o percurso, numa distração desta
Embora já fosse prevista a ocorrência de que vos escreve, os lençóis – neste momento já mais
formas não-previstas de apropriação – afinal, tudo chão que céu – desapareceram sem vestígios. Talvez
deveria acontecer sob regência da espontaneidade tenham sido varridos como lixo, roubados para
e do improviso, o manto de lençóis, como elemento cobrir outros corpos, ou apenas guardados como
“opacificador”, deveria cumprir, pelo menos, duas recordação do vivido. Circula ainda a versão de que
funções básicas: tanto barrar a luminosidade foram devorados pelos deuses da rua, prova de sua
excessiva vinda dos holofotes do show business, aceitação pelas entidades “encantadoras” da vida
como atrapalhar a visibilidade panóptica – a dos urbana. O relato desta primeira Opacificação termina
68 camarotes, da mídia e da polícia.11 Serviria, portanto, assim, rendido à opacidade da cidade, onde tudo é
para perturbar, além da estética, o voyerismo, o rumor ou lenda.
exibicionismo e a vigilância hoje predominantes na
festa; ou seja, para “profanar” a lógica do espetáculo.12
Para a multidão, ao final, fiquei com a impressão Notas
de que o manto serviu como “céu”, e como algo mais. 1
Entre as alternativas que começam a surgir a este carnaval
Como participante da experiência, posso atestar que oficial - cujo modelo já se encontra nitidamente saturado, destaca-
se a retomada do “carnaval de bairro”, a exemplo dos recém-
serviu também como uma “fantasia” coletiva, aqui
criados blocos “de Hoje a Oito” e “Rodantes”, no bairro Santo
tanto no sentido da paramentação tradicionalmente Antônio Além do Carmo.
carnavalesca que disfarça e transfigura existências, 2
A referência aqui são os situacionistas e sua proposta de
devolvendo-lhes a face misteriosa e opaca retirada “construção de situações”, a organização coletiva de uma unidade
pela transparência identitária, como do misto de de comportamento espaço-temporal (ambiência) como um jogo de
imaginação e desejo indispensável à criação de novos acontecimentos. Ver Jacques (2003).
possíveis.

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3
Com essa citação de Perec abri a minha dissertação de mestrado, 10
Levei comigo dois lençóis e pedi, pelo boca a boca e através das
intitulada “Quando o cinema vira urbanismo: O documentário redes sociais, que outras pessoas também o fizessem. O manto,
como ferramenta de abordagem da cidade”, defendida em 2007 que começou com um único lençol, terminou com doze.
e publicada em 2011 pela Edufba/Anpur. E a minha provocação
no Corpocidade 2, em 2010, consistia em pedir sugestões para
11
Os lençóis nos protegiam da visibilidade do poder ao não deixar
concepção de um “opaciômetro” - um dispositivo destinado a que fôssemos vistos, mas também ao não nos deixar vê-los. Vale
apreender a opacidade dos espaços urbanos. aqui lembrar Foucault (1987, p. 179) “Quem está submetido a
um campo de visibilidade, e sabe disso, retoma por sua conta
4
Numa palestra que assisti recentemente, o físico Luiz Alberto as limitações do poder; fá-las funcionar espontaneamente sobre
Oliveira diferenciou os três deuses gregos associados ao tempo: si mesmos; inscreve em si a relação de poder na qual ele
Aion, o tempo da eterna presença (exclusivo dos deuses); Kronos, desempenha simultaneamente os dois papéis: torna-se o princípio
o tempo da sucessão das épocas; e Kairós, o tempo do “momento da sua própria sujeição.”
oportuno”, o deus das encruzilhadas, das estradas que se bifurcam,
dos desvios, fazendo com que, a cada momento, muitos futuros
12
Nesse sentido, esta Opacificação atualiza o espírito dos
se abram, muitas possibilidades de universos diferentes estejam à “entrudos”, com suas brincadeiras e jogos “selvagens” que são a
frente de cada um de nós e os caminhos sendo traçados, sendo origem do carnaval no Brasil.
entretecidos não ao longo de uma linha única, mas ao longo de
uma rede, de um verdadeiro tecido de linhas de universo, de linhas
de possibilidades.” A experiência da opacidade seria regida por
esse tempo kairótico, o tempo não-linear, descontínuo e fugidio, a
temporalidade dos devaneios, das fabulações criadoras, dos devires.
BLANCHOT, Maurice. A fala cotidiana. In: ___.
A conversa infinita: a experiência limite 2. São Paulo:
5
Maurice Blanchot (2007, p. 237) vai dizer que “Cotidiano: o Escuta. 2007.
que há de mais difícil a descobrir. [...] O cotidiano tem esse traço
essencial: não se deixa apanhar.”
CARDOSO, Ivan. “H.O.” (13’,1979), documentário
experimental.
6
Vale aproveitar aproveitar essa menção a Marker para falar de
um aspecto da relação do cinema com a cidade, tema do meu
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes
mestrado. O crítico e cineasta Jean Louis Comolli (1998), que diz
de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.
que o trabalho do cinema (em particular do documentário) ao filmar COMOLI, Jean Louis. La ville suspendue dans le temps.
a cidade seria justamente reter o que esta tem “de desconhecido, 1998. Disponível em: <http://www.diplomatie.gouv.
de fugidio, de opaco até nas suas aparências mais luminosas.” fr/fr/actions-france_830/documentaire_1045/
7
Segundo Haroldo de Campos (apud SCHNAIDERMAN, 2003),
diffusion-non-commerciale_5378/collections-
no processo de transcriação o texto original funciona não como um
video5374/societe_8874/ville_10302/par-jean-
modelo a ser reproduzido num texto que se quer idêntico ou similar,
louis-comolli_ 10326/index.html> 69
mas como uma “matriz” que fornece informações para a criação DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs. Rio
de um novo texto, propositadamente diferente do original. Traduzir, de Janeiro: Editora 34, 1997. v. 5.
para Campos, deveria ser sempre criar, “sob pena de esterilização e
petrificação”, o que, acreditava, seria “pior do que a alternativa de trair”. DIDI-HUBERMAN, Georges. A sobrevivência dos
vagalumes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
8
No carnaval de Salvador, circulam trios elétricos de blocos
privados, com cordas separando os pagantes dos não-pagantes (a FOUCAULT. Michel. Vigiar e punir: história da
“pipoca”), e os trios “independentes”, sem cordas, geralmente com violência nas prisões. São Paulo: Vozes, 1987.
patrocínio estatal. A Opacificação#1 aconteceu no meio da pipoca
GODARD, Hubert. Olhar cego. Entrevista com
do trio Armandinho Dodô e Osmar, na última noite de carnaval.
Hubert Godard. Entrevistador: Suely Rolnik In:
9
Cabe ressaltar que, ao deslocar um elemento da esfera da ROLNIK, Suely. (Org.). Lygia Clark, da obra ao
intimidade para a esfera pública, borraram-se as fronteiras entre acontecimento. Somos o molde. A você cabe o sopro.
público e privado, entre rua e casa, entre individual e coletivo, mas São Paulo: Pinacoteca do Estado, 2006.
não só preservando como agregando, para a experiência, as cargas
JACQUES, Paola Berenstein. Notas sobre espaço
de afetividade, de erotismo e de opacidade que lhe são inerentes.
público e imagens da cidade. 2009. Disponível em:

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<http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/
arquitextos/10.110/41>.
JACQUES, Paola Berenstein (Org.). Apologia da deriva:
escritos situacionistas sobrea cidade. Rio de Janeiro:
Casa da Palavra, 2003.
SOUZA, Maria Adélia Aparecida de (Org.).
Introdução. In: ______. Território brasileiro: usos e
abusos. Campinas, SP: Edições Territorial, 2003.
OITICICA, Hélio. Um breve relatório sobre o primeiro
de uma série de acontecimentos poético-urbanos no Rio
de Janeiro: Kleemania. 1979. Disponível em: <http://
www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopédia/
ho/index.cfm?fuseaction=documentos&cd_
verbete=4523&cod=45&tipo=2>.
PEREC, Georges. Espèces d’espaces”. Paris: Galilée,
2000.
SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo: Globalização
e meio técnico-científico informacional. São Paulo:
Hucitec, 1997.
SCHNAIDERMAN, Boris. Haroldo de Campos,
poesia russa moderna, transcriação. Revista USP,  
São Paulo, n. 59, nov. 2003.
VAN CAUWENBERGE, Geneviève. Le point de vue
documentaire dans Le joli Mai. In: DUBOIS, Philippe
(Org.). Théorème: Recherches sur Chris Marker. Paris:
Presses Sourbonne Nouvelle, 2002.

70

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ferramentaria

Oficinas e Seminário Como parte das atividades previstas no projeto


de Articulação: de pesquisa PRONEM do Laboratório Urbano,
os Trabalhos de Campo cumprem a função de
experiências do corpo em um campo de provas: uma instância da pesquisa
campo na cidade em que testamos, avaliamos e problematizamos
metodologias de apreensão da cidade, sejam elas
consolidadas ou ainda não experimentadas.
Fabiana Dultra Britto* Ao decidir realizar esta atividade no âmbito do
Francisco de Assis da Costa** Corpocidade 3, pensávamos em ampliar o escopo
Thais de Bhanthumchinda Portela*** das nossas referências, abrindo inscrições para
outros grupos de pesquisa e coletivos de artistas
dedicados ao confronto com o espaço público
apresentarem propostas de modos de apreensão
da cidade que pudessem ser experimentadas
por participantes interessados, sob o formato de
oficinas, com duração de 2 dias.
Além das 7 oficinas propostas por integrantes 71
dos grupos de pesquisa, parceiros no projeto
PRONEM, outras 11 propostas foram selecionadas
por uma comissão formada pelos docentes: Fabiana
Britto, Francisco Costa e Thais Portela, tomando por
critério a adequação das propostas aos propósito da
pesquisa e às condições logísticas disponibilizadas
* licenciada em Dança, professora PPG Dança UFBA
e coordenadora do Laboratório Coadaptativo Labzat pelo Corpocidade 3.

** arquiteto e urbanista, coordenador PPG Arquitetura


Destas 18, apenas 2 foram canceladas: uma,
e Urbanismo UFBA e do Grupo de Pesquisa Atlas proposta pela pesquisadora Alessia de Biase do
Histórico de Cidades Brasileiras Laboratoire Architecture Antropologie (LAA), de
Paris, que não pôde viajar por problemas de saúde
*** arquiteta e urbanista, professora PPG Arquitetura e
Urbanismo UFBA e vice-coordenadora do Laboratório na família; e outra, pelo coletivo Construções
Urbano Compartilhadas, de Salvador, que considerou

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insuficiente a quantidade de participantes inscritos de partidas a partir do conjunto de propostas
e não participou do Encontro. das oficinas. Neste contexto, os trabalhos que se
A constatação de recorrências procedimentais, apresentaram à seleção evidenciaram uma clara
verificadas nas oficinas, não significou uma surpresa tipificação de propostas em formatos que sugeriram
para a coordenação responsável pela seleção das manifestações metodológicas claramente distintas, ao
propostas que fizeram parte do Corpocidade 3. ponto de serem representáveis iconicamente por três
Neste sentido, é preciso reconhecer o significado que tipos de imagens: um retângulo regular dividido em
tem os procedimentos de idealização, preparação três partes iguais, uma Fita de Moebius e uma estrela.
e organização como partes inseparáveis daquilo
que consideramos o objeto mesmo das ações
exploratórias, investigativas, experimentais e
discursivas do Evento propriamente dito, ou
seja, aquele que acontece no intervalo de tempo
convocado para a realização de oficinas e seminários
propriamente ditos.
Esta visão se aplica igualmente ao contexto Os ícones
mais amplo e inseparável, no qual se assentam as
propostas das oficinas e que reúnem atividades
regulares ou não de laboratórios, atividades Relacionadas ao retângulo, estavam aquelas
performáticas integradas ou não a vida acadêmica proposições claramente ortodoxas em seus
e que ocorrem com anterioridade ao evento. Sendo planteamentos metodológicos, vinculadas a uma
assim, olhar as Oficinas do Corpocidade 3 significa organização estratégica de ações formada por um
olhar também este contexto, mas principalmente conjunto de etapas, ordenadamente dispostas e
sua estrutura propositiva, seja conceitual ou dita de destinadas a alcançar determinado fim. Nesse caso,
organização, como uma ação criadora e definidora a experimentação em espaço público da oficina
daquilo que mais tarde veremos se estabelecer como se apresenta como resultado de uma formulação
72 evento propriamente dito. prévia e teórica, cujos resultados possibilitariam
uma terceira e última fase de análises e conclusões.
A coordenação de Oficinas e Seminário de O investigador se constitui assim como um
Articulação, já estabelecida dentro desta lógica, indivíduo que aponta para o objeto numa condição
desenhou e configurou, portanto, uma expectativa de formulador de certas hipóteses, de observador
ou um projeto através da seleção das propostas de relativamente cômodo, distanciado e, finalmente,
ação, e convocou discursos, através das mesas do como proprietário de um discurso que se caracteriza
seminário de articulação, que pudessem estreitar a pelo esforço de intelectualização dos sentidos da
distância entre práticas e pensamentos. Ou seja, o ação. Tudo apoiado firmemente numa concepção
evento se apresenta como um corpo. positivista de que o correto funcionamento das
A seleção teve, assim, um caráter criativo, etapas processuais é uma espécie de garantia
definidor e até destruidor, com as vantagens e funcional da experiência.
desvantagens que isso supõe, mas principalmente Diante desta lógica funcional que pretende
pela necessidade de estabelecer referências e pontos tornar, a partir de um conjunto de etapas, a

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experiência sensível em conhecimento intelectual, arrogante ou subordinada a valores eminentemente
aquelas propostas associadas à Fita de Moebius estéticos, alinhando-se de forma quase isolada aos
se apresentam como uma alternativa ricamente valores poéticos e plásticos, sem que estes sejam
instigante, mas também, metodolologicamente instrumentos para novas aproximações exploratórias
consistentes. Diferenciando-se de uma prática no campo disciplinar da Arquitetura e do Urbanismo.
estruturada por etapas, eliminam a priori as Afinal, com o que nos debatemos? O
condicionantes estabelecidas pelos papeis, Laboratório Urbano é um grupo de pesquisa
previamente determinados, e estabelece uma lógica que investiga e propõe diferentes experiências
onde não é possível diferenciar onde começa, como metodológicas e propositivas para/na cidade
se posiciona e onde acaba o papel do investigador contemporânea, articulando três linhas de
e nem mesmo é possível, claramente, posiciona- pesquisa: uma sobre historiografia e pensamento
lo diferentemente daquilo que poderia ser o urbanístico, outra de apreensão crítica da cidade
indivíduo mesmo do objeto da ação. Enquanto contemporânea e uma terceira sobre estética,
formulador, observador e narrador, se mescla de corpo e cidade. Essa separação é formal porque no
forma irreconhecível com o conjunto de indivíduos campo de investigações dos membros participantes
e circunstâncias, permitindo que o contexto deste laboratório essas fronteiras praticamente
mesmo onde se realiza a experiência defina não existem. Dialogar com o urbano, com o
caminhos e etapas, somente reconhecíveis após a conhecimento do urbano é, para nós, conectar
ação experimental. Como numa Fita de Moebius, teoria, prática e proposição; é fazer do urbanismo
a condição de estimulador da experiência não se um campo ampliado entre muitas outras áreas de
separa daquela de ser parte da experiência. A todo o conhecimento como arte, filosofia, antropologia,
momento, e em todas circunstâncias o investigador vida cotidiana etc. Nosso trabalho é, portanto,
está presente como investigador mas também como marcado pela busca em romper fronteiras
investigado; o objeto da ação não está lá, em algum disciplinares e, consequentemente, metodológicas
lugar, mas é constituído pela ação proposta. já estabelecidas como os diagnósticos, por exemplo.
A imagem da estrela remete àquele grupo de O Corpocidade 3 nos permitiu encontrar e debater
proposições que se caracterizaram por incluir ações com outros grupos que buscam [re]construir/ 73
performáticas isoladas como indutores de situações destruir essas fronteiras – de uma forma ou de
de estranhamento e revelação. São ações articuladas outra. A todos, fica aqui o nosso agradecimento.
por indivíduos ou grupos que se colocam como
dispositivos provocadores e transformadores, como ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
forma de estabelecer condições de desestabilização
nos meios em que se incorporam. Sugerem um Thais de Bhanthumchinda Portela
interesse maior pelo próprio desempenho e pelas Em cada evento acadêmico, seja em que área
reações que este provoca no contexto da experiência. for, desafios são lançados para seus participantes.
Acena ao mundo como quem quer estabelecer O Corpocidade, enquanto tal, faz o mesmo.
contato, ajuda a conhecer-se e a transformar; Entretanto, desde o primeiro encontro os protocolos
abre perspectivas ricas e inusitadas próprias dos usuais dos eventos da academia – apresentar ou
valores que a arte nos permite. Mas certas ações ouvir um trabalho e depois realizar um pequeno
correm o perigo de levarem um tom de postura debate – foram quebrados pela constante

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preocupação com os processos colaborativos na nossos grupos de pesquisa parceiros, mas queríamos
produção do conhecimento e pela vontade de conhecer outros tantos que estão a volta com
interagir com a cidade, rompendo a fronteira, física e pesquisas que buscam apreender as cidades e sua[s]
imaginada, entre academia e vida urbana. cultura[s] através de experiências que não negam o
No Corpocidade 1, paralela a apresentação dos corpo como modo fundamental de apreensão dos
trabalhos nas sessões temáticas que tratavam das espaços e dos territórios urbanos. E mais, queríamos
cidades imateriais[1], da cidade enquanto campo que esses grupos se conhecessem, por isso, o
ampliado da arte[2], das corpografias urbanas[3] e encontro foi divido entre as oficinas e o seminário
dos modos de subjetivação na cidade[4], tivemos as de articulação. Nas oficinas os pesquisadores
provocações das ações artísticas que confrontavam estariam experienciando com os participantes
a estetização acrítica e segregadora produzida inscritos, seus modos [métodos?] de apreensão da
pelos processos de espetacularização urbana. Os cidade. No seminário de articulação esses grupos
participantes do evento “perderam-se” pela cidade teriam um grande encontro, cada qual contando sua
do Salvador ao seguir essas ações e pudemos experiência de praticar seus modos [de novo, seriam
refletir sobre o papel da arte contemporânea na esses métodos ou não?] de apreensão pela cidade do
constituição da esfera pública compartilhada entre Salvador.
acadêmicos, artistas e praticantes de cada um dos O exercício de reflexão crítica realizado pelo
espaços intervencionados. trabalho colaborativo de cada grupo, neste encontro,
No Corpocidade 2 esses mesmos processos chegou a ser emocionante. Como a anfitriã que não
espetacularizados foram questionados pelo debate aproveita da festa que está oferecendo, não consegui
sobre o conflito e dissenso no espaço público. E participar das Oficinas, mas momentaneamente
dali saia uma hipótese: a experiência corporal da penetrei em várias e fui fazendo uma colagem
cidade pode ser um desvio, micro, dessa produção de impressões sobre cada grupo e seu modo de
espetacularizada das cidades e uma possibilidade apreensão: um era muito sério e cheio de conceitos,
74
de participação ativa dos sujeitos já que o corpo, outro tinha um modo brincante de apreender a
necessariamente, implica e é implicado pelo lugar em cidade, outro propunha um modo desafiador ao
que está. Para testar essa hipótese em um trabalho manter seus corpos nos espaços “perigosos”, outro
colaborativo foram realizados encontros na Maré, grupo buscava apreender o tempo lento e boêmio
no Rio de Janeiro e em Alagados em Salvador, entre [confesso que essa era o que eu mais queria seguir]
os grupos de trabalho de pesquisadores parceiros da vida urbana, outros tantos muito performáticos.
e de participantes previamente inscritos e cada Todos, cada qual ao seu modo provocaram essa
qual testou, a sua maneira, as articulações possíveis cidade do Salvador, que como tantas outras, está
entre arcabouços teóricos e prática de pesquisa cada vez mais espetacularizada e destituída de vida
tensionando as ideias da participação cidadã, do urbana em seus espaços públicos.
corpo e da cidade. E, no Seminário de Articulação, em um
Neste Corpocidade 3, a promoção de exercício de síntese e de produção de narrativas
trabalhos colaborativos continuou sendo o modo urbanas – desculpem, mas de novo a mesma palavra
de organização do encontro. Chamamos de volta me vem, emocionante – pudemos conhecer os

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percursos realizados pelos grupos por essa cidade. epistemológicas e técnicas implicadas na experiência
E enxerguei ali as afinidades e os estranhamentos de espaço público que o Corpocidade buscava
entre os modos [que afinal, não são apenas tematizar. Desde a escolha dos locais para realização
métodos] de apreensão e entre os grupos, descobri das oficinas, até o foco de ação privilegiado (o
possibilidades novas para minha própria reflexão processo da experiência ou seu produto resultante),
sobre a vida urbana e encaminhei algumas questões passando pelo estatuto conferido aos equipamentos,
que até hoje estão reverberando nesta minha pelas posturas adotadas como conduta de
subjetividade corporificada na Bahia. convívio coletivo e pelo modo de engajamento dos
Uma entre tantas reflexões: um dos grupos participantes inscritos, todos os aspectos envolvidos
propôs experimentar a cidade, mais do que nesta atividade indicaram pontos cruciais para
apreendê-la, mas na hora de narrar esta experiência, a reflexão crítica sobre os modos de apreender a
que os participantes descreveram como riquíssima, cidade, praticados por artistas, pesquisadores e
não compareceu ao Seminário de Articulação. habitantes.
Narrar a experiência é impossível? A vivência é tão Para colocar esses pontos em discussão,
maior que não pode ser compartilhada? Ou apenas o Corpocidade articulou às oficinas, como um
compartilhar a experiência é um exercício de menor desdobramento delas, uma outra atividade da
valor, ou mesmo inválido? pesquisa PRONEM: o Seminário de Articulação,
Mas outros grupos vieram, um trouxe a em que os proponentes e participantes das oficinas
cidade em um monólogo à três, falas simultâneas apresentaram a síntese das experiências realizadas
que expressavam o tempo cotidiano das ruas; nos dois dias anteriores, para serem debatidas com
outro trouxe uma proposição: a construção os integrantes dos demais grupos de trabalho.
do tempo lento nas cidades e sua narrativa da Concentradas em um único dia, as
experiência, no Seminário de Articulação tornou a apresentações careceriam de mais tempo para
nós, participantes do Seminário, cúmplices dessa serem discutidas de modo mais condizente com
75
lentidão; outro trouxe um debate sobre o que viveu a intensidade das experiências vividas e mais
pelas ruas levantando a questão da opressão; um correspondente às expectativas de participação
outro nos fez sentir o intragável... e, mesmo com tão debatedora dos participantes presentes. Apesar disso,
pouco tempo, pude encontrar as cidades que moram as apresentações conseguiram explicitar (às vezes
dentro da cidade, apontando que compartilhar o mais nos comportamentos do que nos discursos)
vivido também é praticar a cidade. dificuldades e problemas na articulação entre a
experiência vivida e as formas de compartilhamento
Fabiana Dultra Britto delas, trazendo à tona, a já clássica – embora ainda
As diferentes sistemáticas de preparação e mal resolvida – separação entre as práticas teórica
execução descritas nas propostas de cada oficina e empírica, juntamente com todo o seu corolário de
nos permitiram identificar correspondentes subtemas ainda recorrentes: a noção de sujeito, a
enfoques de abordagem sobre a cidade que, por noção de autonomia e de independência, a noção de
sua vez, evidenciavam diferentes preocupações hierarquia (seja ela de situação, de função, de poder
acerca dos problemas e questões éticas, políticas,

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ou outra), a noção de experiência e de participação, a que venham a acontecer. O motivo desta atração
noção de público e de coletivo, entre outras… merece um estudo cuidadoso, mas podemos arriscar
Também se explicitaram nestas apresentações algumas reflexões sobre isso. A primeira é a de
as discrepâncias de função e valor atribuídos à que a cidade, ela mesma, enquanto resultado das
arte, especialmente performance e dança, nos ações de quem nela vive ou de quem dela vive, sabe
processos de apreensão da cidade propostos pelas mais sobre ela mesma do que supomos, enquanto
oficinas. Muitas vezes privilegiada em detrimento investigadores de cidades. Ou seja, sabe mais sobre o
do processo de convívio de que resultou, as que queremos do que imaginamos que sabem o que
ações performativas mostraram dificuldade queremos. Digo isto pensando numa das oficinas,
de deslocar o foco de si para o outro, deixando classificada com a imagem daquele retângulo
prevalecer interesses individuais de autoexpressão regular dividido em três partes iguais, em que tive a
independente de interesses coletivos de partilha oportunidade de participar durante o evento.
das experiências – o que levantou importante Organizada segundo a lógica processual
questionamento acerca dos limites éticos da das etapas a serem vencidas para a obtenção do
intervenção artística que se faz como imposição resultado final, a oficina se instalava em áreas do
de um querer que reduz a participação do outro a centro tradicional de Salvador registrando com
espectador (indignado ou aliado), sem espaço pra câmeras de vídeo aquilo que ocorria dentro de uma
negociação nem qualquer tipo de interação coletiva – angulação que definia estrategicamente um polígono
como era o Seminário e como é a própria cidade. de ação e observação. Respeitando os limites deste
Mas, talvez, a explicitação mais difícil de polígono, o grupo foi convocado a proceder com
aceitar entre nós, preocupados que somos com aquilo que se havia disposto, para aquela etapa,
a consolidação de hegemonias, está relacionada como ação protocolar da oficina e que poderíamos
com as recorrências procedimentais constatadas sintetizar como: estar no polígono-cidade, viver
entre as oficinas que, em sua maioria, partiam o polígono-cidade e fazer o polígono-cidade. Ou
de caminhadas para depois compor cartografias seja, estamos diante de uma daquelas propostas
e, então, registrá-las ou perfomá-las, repetindo de oficinas onde os procedimentos metodológicos
76 certa prática já quase tornada modelo – o que nos estão constituídos enquanto roteiros rigidamente
aponta uma importante pista sobre os processos definidos e não enquanto plataformas abertas e a
de subjetivação a que todos estamos submetidos partir das quais se estimulam contaminações.
neste ambiente que compartilhamos mesmo sem O resultado desta visão compartimentada,
cohabitá-lo: baseiam-se no mesmo princípio de a meu ver, é aquela de negação de uma lógica
todos os sistemas vivos – a tendência à inércia e que é, paradoxalmente, aquela que pretende
estabilidade de padrões. Temos muito que fazer para conhecer melhor. Neste sentido, o aceno que de
sairmos das nossas zonas de conforto… forma aparentemente espontâneo recebíamos da
cidade que ficou fora do polígono não poderia ser
Francisco de Assis da Costa simplesmente negado por estar fora da cidade-
A aglomeração de propostas de oficinas nas polígono. Ao contrário, distanciadas do ambiente
áreas centrais tradicionais de Salvador seguramente sedutor das áreas centrais, algumas oficinas
será motivo de reflexão nas próximas edições do caracterizadas pela Fita de Moebius colocavam
Corpocidade, independentemente das cidades em em evidência o valor desta contaminação positiva.

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Imerso nesta experiência, era praticamente
impossível identificar etapas processuais, início ou
fim e diferenciar investigadores de investigados.
A riqueza destas experiências tem um caráter de
inspiração ressonante e se propaga, naturalmente,
em harmonia com o espírito do Corpocidade.
Estas claras diferenças, evidenciadas na seleção
das oficinas e nas experiências de campo, aparecem,
por fim, confirmadas nas narrativas presentes, no
Seminário de Articulação. Os retângulos, as Fitas de
Moebius e as estrelas se apresentaram como tais.
Os primeiros explicando suas etapas processuais, os
segundos fortalecidos pela ressonância do trabalho
compartilhado e os terceiros absorvidos no esforço
de constituição de novos eventos onde o auditório,
ou Seminário de Articulação, passava a constituir
uma nova oportunidade de ação performática.
Finalmente, em alguns poucos casos, foi notável o
distanciamento, quase completo, do compromisso
de compartilhamento da experiência da respectiva
oficina, transformando o auditório em audiência
oportuna para discursos de interesses distanciados
daqueles do evento.
Visto em seu conjunto, é inegável que estas
particulares maneiras de ver e experimentar a
cidade, estejamos ou não de acordo com elas,
constituem o valor maior que nos proporciona 77

Corpocidade. Por isso creio que Corpocidade


se consolida como um espaço necessário e
imprescindível para vermos e pensarmos a cidade
a partir de uma concepção ampla e complexa dos
procedimentos metodológicos que se apresentam
e que esta riqueza não está no brilhantismo que
possam ter, individualmente, as propostas e sim
porque o evento se constitui enquanto corpo.

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ferramentaria
Frederico Guilherme Bandeira de Araujo*
Talvez Salvador:
rastros de uma oficina feita de
imagem, som e movimento

Sempre que algo é feito uma primeira vez,


Oficina liberta um pequeno demônio.
“Cidadeando: Emily Dickinson1
uma aventura poiética com
som, imagem e movimento”
A afirmação benjaminiana de que “método é
desvio” (BENJAMIN, 2007) antes de mostrar-se
nova definição a substituir modelos e sentidos
anteriores, ecoa como provocação a se experimentar
outros percursos para além, ou aquém, daqueles
que nos conduzem a reencontros com o aquilo
mesmo que se objetivava alcançar a partir da
GPMC – Grupo de Pesquisa Modernidade e Cultura –
Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano IPPUR/UFRJ problemática de um trabalho, de uma pesquisa.
Coordenação: Frederico Guilherme Barbosa de Araujo Desvio é palavra riscada, arisca, arriscada, nas
Coordenação da oficina: disputas por dizer método. Nestas disputas, desvio
Ana Cabral Rodrigues – psicóloga, doutoranda IPPUR/ é, não raro, contrasenso, perda de rigor e até mesmo
UFRJ e membro GPMC
de pertinência, mas é igualmente – e aqui o
Flávia de Sousa Araújo – arquiteta e urbanista,
doutoranda IPPUR/UFRJ e membro GPMC afirmamos – signo de uma leveza. Que, aos moldes
Frederico Guilherme Bandeira de Araujo – engenheiro, do que afirma Italo Calvino (2004) a partir de Paul
78 professor associado IPPUR/UFRJ e coordenador GPMC Valèry, deveria ser tomada pela imagem do pássaro,
Giovani Zenatti de Barros – graduando em Cinema e
Audiovisual UFF e membro GPMC e não da pluma. Ou seja, em nada se confunde com
Marina Cavalcanti Tedesco – cineasta, doutoranda o vago ou aleatório – ou ainda, poderíamos
PPGCOM/UFF e membro GPMC acrescentar – em nada diz respeito à despretensão
Natalia Velloso Santos - socióloga, mestre IPPUR/UFRJ
ou frivolidade de um “passante mimado no jardim
e membro GPMC
Rafaela Alcântara da Silva – graduanda em Geografia do saber”. (NIETZSCHE, 2003, p. 13) A leveza que
UFRJ e membro GPMC dizemos é, antes, aposta precisa, ainda que sem
Ricardo Gellert Paris Jr. – arquiteto, especializando garantias. Aposta ética, sem dúvida, que se faz não
IPPUR/UFRJ e membro GPMC
a despeito desta ausência de garantias, mas a
Acompanhante: Priscila Erthal Risi – arquiteta e
urbanista, mestranda PPG Arquitetura e
Urbanismo UFBA,
e membro Laboratório Urbano *
engenheiro, professor PPG Planejamento Urbano e
Regional UFRJ e coordenador GPMC

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Priscila Erthal Risi* Salvador, manda descer todo tipo de hostilidade e
Cidadeando: de generosidade que há da porta pra lá.
uma aventura poética com som,
imagem e movimento Cena 01 Mastaba. Um grupo de pessoas aprumado
sem cadeiras organizadas em círculo conversa,
animadamente, na parte da frente do auditório, onde
* arquiteta e urbanista, mestranda PPG Arquitetura e usualmente se posiciona a mesa dos palestrantes. As
Urbanismo UFBA e membro Laboratório Urbano cadeiras estão quase todas ocupadas pelo grupo do
Rio de Janeiro que enquanto espera a chegada dos
participantes da oficina termina seus últimos arranjos e
combinações. A conversa e as falas do grupo já são um
fato naquele auditório frio por causa do ar condicionado.
Aos poucos, vão chegando aqueles que irão compor a
propósito dela, a propósito de um terreno cena, estudantes de graduação e de pós-graduação,
movediço, movente do qual não se recolhe a eficácia basicamente. Encher de papo, oficinas canceladas –
do rigor da trajetória que nos permita debruçar de novos participantes, a oficina vai se compondo. O grupo
maneira mais ou menos adequada sobre um objeto proponente se organiza numa estrutura dinâmica e sem
de que se quer apoderar. E sim um terreno no qual hierarquia, vai crescendo. O grupo tem um corpo forte.
somos convocados, de momento a momento,
contágio a contágio, de recomeço em recomeço a PRIMEIRO ATO
implicarmos o nosso próprio dizer nas invenções,
nas construções incompletas, sempre por se fazer, .as palavras
do objeto que não se encontra nem na origem, nem A simplicidade do começo, foi um começo. E assim, um
em um telos de nosso discurso, mas nos embates, formalismo não acabou com a simplicidade. Foi quando
nas perlengas que com ele se inscrevem. É, então, uma conversa que vira um começo e um começo
talvez, esta leveza que permita a Benjamin arriscar- que coleciona palavras, que vieram de muitas outras
se em uma escrita fragmentária, balbuciante, que palavras, de coisas que brotavam sobre o valor que se
não se arvora dizer-se tão completamente quanto faz da “cidade”; miram-se mutuamente olhando de 79

as narrativas oficiais que possuem o peso das fora pra dentro, da oficina.
verdades que se dizem inelutáveis. É, talvez, Agora a .cidade. .salvador. .desútil. .objeto.
também por esta leveza que Michel Foucault (1994, .construir. .conhecer. .criar. .miolo. .cotidiano.
p. 13) tenha se enredado ao indagar: “Se você .verde. .viver. .carro. .pedestre. .incompletude.
soubesse ao começar um livro o que se ia dizer no .edição. .audiovisual. .aventura. .processo. .discurso.
final, você crê que teria coragem de escrevê-lo? Isso .afeto. .linguagem. .outro. .imagem. .alteridade.
.experiência. .sensação. .vida. .grande.
que vale para a escrita [...], vale também para a vida.
O jogo vale a pena na medida em que não se sabe E foram tantas palavras e muitas vozes, sons vindos
como vai terminar”. Esta leveza – estes de tantos lugares, outras águas; a partir de vários
descaminhos que rasuram (DERRIDA, 2004)2 e a oficinantes e vários participantes. Com uma magreza
em comum de cidade brasileira, que alguém daria um
palavra método – é convite a um jogo. É convite a
nome melhor. Então começamos a buscar Salvador
uma aventura poiética que tem a chance de nos
no instante, naquele que precede a rua. Como falar de
Salvador. Quem vai ouvir. >

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surpreender a cada jogada. Uma aventura a qual começamos – sem começar de um ponto preciso
>
damos o nome de CIDADEANDO. – um jogo que, de fato, não saberíamos como iria
terminar.
Sabíamos àquela altura, no entanto, que as
“jogadas” que fazíamos tinham como estratégia
operar tensões. Não exatamente nas compreensões
de cidade marcadas por diferentes olhares e
perspectivas sobre um mesmo objeto (fosse ele uno
ou múltiplo) que tinha cada um dos participantes
daquela experiência – na qual estávamos,
indubitavelmente, inseridos –, mas inscrever
tensões na própria palavra cidade. Acionávamos,
assim, o entendimento de que a palavra cidade é
expressão cujo significado é historicamente variado
e cujo sentido se especifica na relação interdiscursiva
em que se faz presente, relação sempre constituída
O convite feito ao Grupo de Pesquisa entre agentes heterogêneos em disputa. Isto
Modernidade e Cultura (GPMC/IPPUR/UFRJ) é, tensionávamos com a linguagem, entendida
a propor uma oficina no CORPOCIDADE 3 que enquanto possuidora de caráter ontológico,
realizasse uma experiência metodológica de enquanto modo de pensamento representacional,
apreensão da cidade inspirou de imediato uma marcado por dicotômicas distinções entre
cautela. Esta própria demanda já apontava pontos totalidade/parte, aparência/essência.
de uma problemática cara a nossos percursos e Esta tensão pretendida com a linguagem,
que nos parecia ser justamente as ferramentas decidiu-se que ela seria operada pelo recurso à
disparadoras da experiência em Salvador entre nós linguagem audiovisual, precisamente na medida
e os oficinantes. O que estaria em jogo no termo em que, constituindo-se esta como um suporte
80 “apreensão” e naquilo que se constituiria objeto privilegiado para a dimensão da imagem, constituía-
de tal apreensão – a cidade? Apreender seria uma se, igualmente, um suporte discursivo privilegiado
indicação daquilo que se espera como tarefa ou para encenar uma tensão entre a dicotomia
função de uma metodologia? Encontraria esse aparência/essência e o movimento interdiscursivo
termo seu sentido em outros verbos como assimilar de dizeres (cidade), que não se enveredasse pela
ou conhecer? O que significaria conhecer uma/a/ senda da mera “derrogação da derrogação da
as cidade/s? Haveria uma cidade, então, enquanto imagem”, numa espécie de denúncia da tradição
um dado, que precede os discursos que a dizem, filosófica platônica. Suporte pelo qual se pudesse
as práticas que as querem conhecer? Foi em uma tratar as questões pertinentes de maneira a produzir
roda de conversa, deslizada de falas daqueles que efeitos inscritíveis num campo discursivo, desfiável
chegavam à sala da oficina e narravam de onde em inúmeros vetores que tecem e se entretecem
vinham, como lá tinham chegado, ao redor de um constituindo objetos, visibilidades e sensibilidades.
mapa aéreo da cidade de Salvador sacado sorrateira Ou seja, ali onde se privilegia a imagem,
e espontaneamente por um dos oficinantes, que tradicionalmente oposta à essência, dar-se-ia um

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> Salvador, não quer falar nada ruim, mas acaba minutos de imagens coletadas – nesse espaço de uma
falando. Recusa ao inexpressivo. impossível. Salvador. Imagens que fariam uma narração, montariam
Mas você gosta do que você detesta. Também um discurso. Sobre Salvador, ou também Salvador. E no
impossível. meio disso haveria um ¨jogo¨, já entendi menos.

Aliás, as palavras explicam pouco, são arbustos que ainda Eram perguntas e respostas de coisas que não são vistas.
precisam crescer. E voltando a Salvador, algumas vezes Essa tal cidade que estamos procurando. Mas a gente
você desbota, noutras você queima. Depois de conversas nunca sabe o que se está procurando, na verdade. Parece
e desconversas entendemos que o produto fílmico estava que as sensibilidades atuam mais dentro da ação de
inserido numa proposta de experiência de tempo – buscar areia do que de uma de encontro com o mar. E na
coletividade de uma oficina, são dois dias de buscas que
se inclinam para muitos lados.

SEGUNDO ATO

tratamento distinto à questão da imagem. Um .cidadear


tratamento que escapasse das indagações se aquilo
Então vamos formar grupos de quatro pessoas e sair
que se tem em imagem é ou não é a cidade. Ou
por ai. Capturando imagens, afeto, observando e sendo
ainda, um tratamento onde esta indagação não tem observados. Serão imagens fragmentadas daquilo
lugar, a não ser enquanto fio discursivo – portanto que conseguimos ver, em poucas horas, uma prática
não como critério ou pergunta a ser respondida. representacional sem todo.

Vou te levar na praça, despreocupada.

cena 02 Tampinha.Por onde? Vamos almoçar e daí


a gente resolve. Escondidinho, P.F., camarão, cerveja,
a gente desce essa escadinha aqui ó, vai dar naquele
Hiper, no Vale do Canela. Podemos fazer capturas de
comunicações, palavras que falam de qualquer cidade
outra, que não Salvador. Vamos descer, por aqui. Somos
seis pessoas, instauramos nossa ZAT1 nesse lugar, é
81
como se ele já nos conhecesse. Hoje é o dia da graça.

Qualquer lugar. Sair de casa já é se aventurar.

Aqui está tudo vivo e talvez silencioso demais. Mas


o silêncio é disfarçado. Vamos descendo procurando
brechas e caminhos, entre as casas. Fazendo nossas
imagens, pouca comunicação, vamos filmando tudo. Tudo
O que filma, então, uma câmera? O desafio muito perto. As ruelas levam para casas, portas e janelas,
proposto a todo o grupo – dividido em outros nem sempre levam para uma rede de circulação. Não há
pequenos grupos – foi o de experimentar a muito distanciamento, é como se os olhos estivessem no
possibilidade de fazer da câmera filmadora algo escuro. Vemos homens, vários. Parados. Arrastados. Olhos
outro do que uma ferramenta que registrasse, grandes. O sol estava forte e secante.
que capturasse imagens de uma cidade que se
dava a ver através de suas lentes. Seria antes uma
>>

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experimentação da câmera como um operador
PRIMEIRO ATO
destes tensionamentos, de modo a, de alguma
.o resgate daquilo que não lhe pertence forma, provocar rasuras na palavra cidade que ali
se dizia e que dizíamos nós também, sem dúvida,
Conseguimos poucas imagens de comunicação, então
na feitura daquelas imagens. O que, por certo,
abolimos os critérios. Era tudo tão administrado como
curiosidade que a experiência entrou em vigília. Talvez
é algo radicalmente distinto de contemplar e
numa tentativa de assumir nossa incapacidade de apresentar variados sentidos que se tem d´a cidade
conhecer as coisas mesmo. Tudo. Fácil se perder nesse justapondo-os ou antagonizando-os a um nosso.
caminhar, vamos criar uma regra de deriva. Na dúvida, O ensejo que nos levou a este desafio durante
a esquerda.
a oficina foi particularmente próximo àquele que
Por aqui desce pro Hiper? Não, tem que dar a volta levou ao GPMC a empenhar-se na criação do
por ali, ó. Passa aquele bar e continua descendo. documentário curta-metragem Perlenga Cangaço.
É tranquilo? É, é tranquilo. Vocês querem que eu (GPMC, 2012)3 Se aquilo a que o GPMC chegou
acompanhe? Não sei, é tranquilo? É, é tranquilo. neste processo de trabalho não foi um filme sobre
Vamos seguindo. Andando como se estivéssemos Cangaço, também – afirmamos – não foi um filme
em outro lugar, noutros centímetros. Onde está o que sobre as perlengas, sobre as disputas que existem
estamos procurando? Passou alguém de bicicleta. em torno de um pretendido fato Cangaço. O filme
Atenção! Você está lidando com pessoas de alto nível mostrou-se – ele próprio –, enquanto narrativa,
abstrativo. captação de imagem, constituição de personagens
e montagem, operador de disputas pelo poder de
Passa a filmadora. Passa a filmadora. Calma.a FIL.
poder dizer cangaço; ou ainda, operador de jogos
MA.DO.RA.
com/pela/a partir/a propósito/a despeito da palavra
cena 03 Cantina. Agora sem imagens e sem verdades,
há algo de liberdade preservada, enquanto conversamos
sobre o ocorrido e nos empanturramos de um
sentimento esvaziado. Ficamos tomados mais ou menos PRIMEIRO ATO
por uma zona de opacidade ofensiva,2 numa postura
82 sem sentido e sem finalidade. Os corpos se sentindo .o jogo
impotentes, uma lassidão. Chamados a participar
da continuidade da oficina, nos reunimos em grupo Começa uma negociação entre os grupos a respeito das
novamente para selecionar trechos, recortes e minutos imagens selecionadas, qual, em que ordem, qual som,
dos vídeos que, no caso, os outros grupos fizeram, repete, tira essa. Imaginar a vida naquele momento
vamos para um novo contexto de afetação. da imagem. O processo de montagem apresenta uma
nova experienciação daquelas imagens todas assistidas
cena 04 Mastaba. A valorização das imagens. Um no dia anterior, qual será o nome do jogo. Fragmentos,
grande papel pardo no chão e nos sentamos ao redor. interrupções. As imagens acionam pensamentos e
Papeletas e anotações. A gente se apega muito a necessidades individuais, sincronicidade com o caráter
imagens também. Após uma explicação daquilo que do trabalho coletivo. O uso das imagens capturadas
é proposto como procedimento, para a construção do não forma um resultado final, esse uso matiza todo
produto audiovisual, entramos no jogo-método pensado o processo iniciado no dia anterior de discussões
pelo grupo. e políticas a respeito do estar na cidade. Se alguns
conflitos foram inibidos pela presença da câmera,
>>>

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cangaço. A realização deste documentário, na momento de recortes e justificativas – que eram
qualidade de experimentação de linguagens outras escritas nas peças – inicia-se uma disputa.
que não nos permitiam, a partir de nossas questões, Mas essa disputa não tem por lógica ou
dizer as mesmas coisas, chegar aos mesmos lugares funcionamento uma dialética de pares antagônicos
daqueles que chegaríamos através da escrita, por em vista de uma superação ou resolução de
exemplo, tomou forma – sobretudo o processo de um impasse. Ou seja, não se tem um norte
montagem que teve de ser realizado, por seus nove de apaziguamento das tensões mesmas que
diretores – de um tabuleiro de jogo. Jogo este que constituem tal disputa. Precisamente por isso os
permeou todo o processo de realização da oficina, desenhos que se configuravam a cada jogada sobre
mas em especial, o momento em que propomos fazer a superfície do tabuleiro, inicialmente em branco,
das imagens de cada grupo convite a remetimentos permitiam infiltrações múltiplas que convidavam a
insuspeitados por cada um deles, primeiramente na novas jogadas por tramas rizomáticas (DELEUZE,
confecção de peças para o jogo e, posteriormente, em 1995), na medida em que iam rasurando
um tabuleiro que se criava a cada jogada. perspectivas de articulações temáticas, funcionais,
Para a constituição destas peças, cada grupo causais, eficazes, totalizantes, finitas.
assistiu ao material audiovisual bruto captado O que se tem quando as jogadas se esgotam
por todos os grupos, fazendo uma seleção inicial é a imagem sobre o tabuleiro – cheio de peças,
de trechos que gostaria de levar para o jogo. rabiscos e, por que não, da memória da performance
Essas escolhas orientavam-se pelos afectos que de cada peça jogada – de uma cartografia de afectos.
as imagens e sons selecionados provocavam, e (GUATARRI, 1987)
que já produziam remetimentos uns aos outros.
A proposta era de que essa cartografia,
O modo como estas afecções se davam, como se
em desdobramento, operasse como base aos
cortava o material bruto, e a que remetiam podia
remetimentos/afectos que dariam norte a uma
ser radicalmente distinto daquilo que motivou o
montagem linear de um discurso-cidade, em
grupo no processo de captação. Portanto, aí neste
audiovisual, que encerraria o processo. A montagem
linear, por mais alheia que pareça a tudo o que foi
83
apresentado até então, é um imperativo quando se
opta por mobilizar a lógica da espectatorialidade
tradicional, a saber, o público diante de uma tela
sem o poder de interromper, voltar ou adiantar
a projeção. Tal projeção, composta por um plano
seguido do outro, seguido do outro, etc., apresenta
necessariamente uma linearidade – por mais que,
no nível narrativo, permita todas as articulações de
tempo possíveis e imagináveis.
Tratava-se, portanto, de um dos pontos
mais críticos do jogo (não do ponto de vista de
eventuais erros, o qual não se aplica a presente
proposta, mas de fragilidade interessante, de
>>>

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escolhas delicadas): a passagem do pensamento ainda que não houvesse produto final algum, o jogo
rizomático para o suporte linear – que também se não teria sido “perdido” – não há como perder tal
pretendia rizomático – com o qual se faz o filme. jogo. Cada acontecimento pode ser uma abertura.
Uma passagem que, mesmo se assim se quisesse,
Notas
nunca poderia ser uma simples transposição de
uma etapa para a outra. Mas, então, por que fazer 1
Whenever a thing is done for the first time, it releases a little
uma cartografia de afectos? Por que propor um demon. (tradução nossa ).
discurso tridimensional, simultâneo, com múltiplas 2
Rasura assumida aqui em termos derridianos, como borrar
entradas e saídas? A cartografia tem um lugar fronteiras, tachar palavras, abalar estruturas, desdobrar
e riscar essências, reescrever naturezas, devir sem fim,
especial, no percurso do grupo, durante a realização
instaurar errâncias, esvanecer origens, tornar destinos
do Perlenga Cangaço como um passo necessário brumosos, arguir verdades, multiplicar interpelações, desviar
para conseguirmos chegar a uma montagem linear; de rota, fazer espaço do tempo, fazer tempo do espaço etc.
sendo considerada por todos do GPMC uma das “A rasura instaura uma economia vocabular. O entre-aspas, o
tipo gráfico da impressão, as letras riscadas e as expressões
etapas mais interessantes de todo o processo. E foi irônicas devem ser entendidas como manifestações da
somente a partir da transformação das imagens e/ estratégia desconstrutora em Derrida. Usando termos de
ou sons em peças, e da explicitação das mesmas e uma linguagem que quer desconstruir, Derrida abala esta
das interações que elas constituíam para cada um, linguagem e inscreve um sentido outro além dela... Sendo a
rasura uma modalidade de solicitação e estratégia, funciona
que vislumbramos a possibilidade da linearidade como elemento regulador da polissemia e estabelece uma
coletiva, condição necessária à montagem do filme.4 lógica de suplementaridade na própria sintaxe em que se
inscreve”. (SANTIAGO, 1976, p. 71)
O que aconteceu em Salvador foi algo
diferente daquilo que se havia planejado e mesmo
3
O filme “Perlenga Cangaço” foi realizado com apoio do
Ministério da Cultura - Secretaria do Audiovisual - Edital de
experienciado anteriormente. A montagem linear
concurso nº 01, de 29 de janeiro de 2010: Concurso de Apoio
dialogou muito menos com a cartografia do que à Produção de Obras Cinematográficas Inéditas, de curta
esperávamos – embora, claro, tenha impactado seu metragem, de ficção ou documentário.
resultado. Tal desvio, surpreendente, gerou em nós 4
Nem todo filme precisa operar na lógica da
uma série de questões que não nos aproximaram espectatorialidade tradicional ou apenas com uma linearidade.
84 de respostas que não estamos procurando, mas No nosso caso, estas condições foram dadas pelo edital do
Ministério da Cultura, e o GPMC as aceitou no momento em
que proporcionaram reflexões em torno do próprio
que submeteu uma proposta e, posteriormente, assinou um
método e de sua potência. contrato.
Não se pode dizer que “Talvez Salvador”
(nome que ganhou a montagem linear editada
em audiovisual) se constituiu no fim último
BENJAMIN, W. Passagens. Belo Horizonte:
desta experiência, e menos ainda, que a captação Ed. UFMG, 2007.
audiovisual e a cartografia se configuraram
CALVINO, I. Seis propostas para o próximo milênio.
como um meio, ou ferramenta para realizá-lo. A São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
experiência de CIDADEANDO expressa que o
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs -
processo, marcado pelo caráter de jogo, se mostra
capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora
muito mais profícuo que qualquer produto final. E, 34, 1995. (v. 1)

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outros surgiram justamente a partir dela. Outros individuais, crises, lugares e pensamentos. Mas está
conflitos marcaram um percurso entre o dito e o sentido. principalmente marcado pela sociabilidade.

Qualquer coincidência com a semelhança é meta-


realidade. Notas

Seguimos até uma certa exaustão, ao final do dia temos 1


Zona Autônoma Temporária, proposta por Hakim Bey, em
um vídeo. O vídeo é como um sujeito do Cidadeando, 2001
montado em composição associativa de experiências 2
Peter Pal Pelbart referencia o termo à Cia. Ueinzz em seu
livro Vida Capital. 2003

DERRIDA, J. Gramatologia. São Paulo: Perspectiva,


2004.
FOUCAULT, M, História da Sexualidade. Uso dos
prazeres. Graal: Rio de Janeiro, 1994.
GPMC. Perlenga Cangaço. Documentário de Curta
Metragem. Rio de Janeiro: IPPUR/UFPR, 2012.
GUATARRI, F.; ROLNIK, S. Micropolítica –
Cartografia do desejo. Petrópolis-RJ: Vozes, 1987.
NIETZSCHE, F. Segunda considcação intempestiva: da
utilidade e desvantagem da história para a vida. Rio
de Janeiro: Relume Dumará, 2003.
SANTIAGO, S. (Org.). Glossário de Derrida. Rio de
Janeiro: Francisco Alves, 1976.

85

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ferramentaria

Oficina “Fazer corpo, Rachel Thomas*

tomar corpo, dar


corpo às ambiências *
socióloga, coordenadora do Laboratório CRESSON/CNRS-
urbanas” – Cresson Grenoble/França
tradução: Clara Passaro

Propomos ressaltar dois aspectos da pes-


quisa MUSE – ASSEPSIA DAS MOBILIDADES
URBANAS NO SÉCULO XXI em andamento pelo
CRESSON e da sua experimentação, para interrogar
e cruzar durante estes três dias. Um deles se trata do
teste da metodologia Faire corps, prendre corps, donner
corps na experiência videográfica. O outro consiste
em conduzir uma reflexão sobre o interesse em re-
86
Centre de Recherche sur L’Espace Sonore et L’Environnement
unir gestos do cotidiano (sobre a forma de regras, de
Urbain – projeto MUSE (Grenoble-França) ritos de parada, de ajustes etc.) para qualificar quais
Coordenação: Rachel Thomas formas de vida nestes(as) ambientes/ambiências
Coordenação da Oficina: colocam a asseptização em questão.
Aurore Bonnet – arquiteta, doutoranda CRESSON
Gabriel Bérubé – arquiteto-paisagista, doutorando CRESSON Faire corps ou realizar uma imersão nos ambi-
Rachel Thomas – socióloga, pesquisadora Centre National de la entes urbanos que colocam em jogo a asseptização.
Recherche Scientifique CRESSON Do ponto de vista videográfico, trata-se de inter-
Suzel Balez – arquiteta, professora ENSA Paris La Villette e
membro CRESSON
rogar, ao se realizar um filme, as maneiras de fazer
Acompanhantes:
um filme. Em outras palavras, fazer a experiência
Maria Isabel Costa Menezes da Rocha – arquiteta e urbanista, atento à movimentação que ela provoca no espaço
doutoranda PPG Arquitetura e Urbanismo UFBA e membro público e conseguir se adaptar ao contexto que
Laboratório Urbano se deseja filmar. Esta introduz/levanta também a
Osnildo Adão Wan-Dall Junior – arquiteto e urbanista, mestrando
PPG Arquitetura e Urbanismo UFBA e membro questão da accessoirisation e désaccessoirisation no
Laboratório Urbano campo da pesquisa.

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Maria Isabel Costa Menezes da Rocha* * arquiteta e urbanista, doutoranda PPG Arquitetura
Osnildo Adão Wan-Dall Junior** e Urbanismo UFBA
** arquiteto e urbanista, mestrando PPG Arquitetura
Cadres de uma e Urbanismo UFBA
experiência
metodológica: [Oficina]
Fazer corpo, tomar corpo e dar
corpo às ambiências urbanas

Maria do Porto
Chegou/ Deu um abraço de reencontro/ Se olharam/ Se
Prendre corps ou a incorporação de uma as-
instalaram/ Conversaram/ Sobre tudo o que viveram/
septização de um ambiente/ambiência urbano(a).
Sobre onde se tocaram/ Não se tocaram, então.
Trata-se aqui de experimentar meios e formas de
envolver a câmera na experiência, para ler e deci- Adão da Piedade
frar certas formas de apaziguamento dos espaços Chegou lá, bem no centro/ Sem abraços, mais um canto/
de mobilidade. Se banharam/ Se benzeram/ Conversaram/ Sobre tudo
Donner corps ou traduzir as ambiências/ o que ainda viveriam/ Sobre onde não mais estavam/
ambientes asseptizados(as). É uma reflexão que se Se calaram, em vão.
encontra em todas as etapas do trabalho de vídeo.
A que dissonâncias, a que deslocamentos, em
relação à tradução dos elementos de asseptização, Nosso trait d’union1 aqui é a escrita de um texto sobre
levam os trabalhos a partir dos fluxos? a Oficina proposta pelo grupo de pesquisa CRESSON
(Grenoble - França) no âmbito da última edição do
Um período do dia será destinado a cada um Corpocidade, em Salvador. Uma narrativa sobre a
dos terrenos estudados, repetindo-se o mesmo apreensão da cidade, possibilitada por uma experiência 87
protocolo experimental nos dois locais escolhidos: metodológica bastante precisa em dois pontos da
Piedade e Porto da Barra. Avenida Sete de Setembro: o Porto da Barra e a Praça
da Piedade, respectivamente. O corpo é o nosso
– Primeira etapa: A partir do dispositivo elab- aliado nessa experiência. Um corpo também bastante
orado pela pesquisa MUSE (Eixo “Asseptização das específico; aquele que nos torna intermediadores,
mobilidades urbanas no século XXI”) e dos diferen- acompanhantes “oficiais” da equipe francesa
tes recortes determinados, os participantes desta nesse processo. Nosso papel: era necessário que
oficina serão convidados a fazer a experiência da compreendêssemos muito bem a metodologia proposta
observação. O dispositivo videográfico prevê uma para traduzi-la e transmiti-la aos demais participantes
captação em duas câmeras continuamente durante da atividade.
10 minutos. As duas câmeras captam imagens em O dispositivo videográfico, que testava a metodologia
pontos de vistas opostos, mas de tal forma que os empregada, nos permitirá — estando dentro e fora
dois ângulos de vista se recortem. Cada câmera não de foco — expor aqui as nossas impressões daquela
experiência. É a partir da presença da câmera filmadora >

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>
que traduziremos alguns flashes possíveis; que “CADRE UN”: A EXPERIÊNCIA NAS
narraremos algumas aberturas processadas durante AMBIÊNCIAS URBANAS
a experiência. Uma sucessão de cadres (do francês;
Como desdobramento da Oficina anterior,2 dois
quadros, molduras; encadrement, enquadramento):
locais foram pré-determinados para a realização da
fragmentos da imagem em movimento, sejam eles
experiência: Porto da Barra (23/04), a praia urbana mais
textuais ou fotográficos. Compor uma possibilidade de
frequentada da Baía de Todos os Santos; e Praça da
quebra-cabeças — enquanto as câmeras-método
Piedade (24/04), ponto comercial de referência no centro
sincronizavam o seu próprio registro.
antigo da Cidade. O objetivo principal desta Oficina

88

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era testar a metodologia faire corps, prendre corps, dispositivos de apreensão, como fotografia, anotações,
donner corps – desenvolvida pelo CRESSON a partir dos poesia, croquis etc. Mais do que um espaço físico
resultados da pesquisa internacional “A assepsia dos genérico ou estéreo, o objeto dessa apreensão era
ambientes pedestres no século XXI”3 – pelo dispositivo a ambiência urbana5 encontrada naquele momento
videográfico, instalado em dois pontos de visão fixos, (período da manhã), a qual deveria ser apreendida
escolhidos ao início de cada atividade. sensivelmente.

Em contrapartida, a própria experiência no espaço


“CADRE DEUX”: A METODOLOGIA
público possibilitava às participantes (em número
de cinco, todas mulheres) 4 a utilização de outros
DA EXPERIÊNCIA
A metodologia em questão pressupõe três etapas pré-
definidas,6 dentre as quais a primeira, “fazer corpo”,
trata do reconhecimento e da imersão no lugar; a
segunda, “tomar corpo”, trata da “incorporação”, fruto
da imersão no lugar; e a terceira, “dar corpo”, trata da
enquadra a mesma altura: Campo – plano médio,
construção de linguagens e instrumentos narrativos
os passantes estão em sua maioria de frente; Contra acerca da experiência, ou seja, da “tradução” do lugar.
campo – plano meio definido em leve mergulho, Entretanto, cada etapa é permeada e contaminada
os passantes estão de costas em sua maioria. Cada pelas demais, sendo a divisão em etapas, sabe-se,
participante será então convidado a navegar entre meramente um protocolo metodológico.
as duas câmeras e a se colocar em um tempo de
observação na presença deste dispositivo, se inter- “+ DU CADRE DEUX”:
rogando sobre os limites da asseptização e do Faire O DISPOSITIVO VIDEOGRÁFICO
corps, prendre corps, donner corps. Esta etapa será Apesar dessa permeabilidade, a experiência era
seguida de um tempo de troca sobre as observações fundamentada em tempos muito precisos: dez minutos
de cada um. para cada etapa, e mais dez minutos para a troca
verbal da experiência entre os participantes – aqui, nos
– Segunda etapa: Em seguida a este tempo de
incluímos – após as duas primeiras etapas. Este corte
observação, haverá um tempo de intervenção. Trata temporal possibilitou uma série de questionamentos
de se colocar fisicamente no espaço e jogar com sobre, en particulier, les événements qui pourraient 89
a dinâmica do lugar (andar, sentar, trocar com os se passer pendant la période non - filmée, o que
passantes, tomar um café, etc.) para melhor revelá- aconteceria por trás das câmeras. Era claro, no
la. Mais uma vez, nós reservaremos um tempo de entanto, que cada indivíduo tinha seu tempo e uma
discussão ao fim desta etapa. disponibilidade própria para (re) conhecer, incorporar e
traduzir um ambiente ou ambiência.
– Terceira etapa: Provar a dinâmica do lugar
com uma câmera na mão (de preferência máquina Outra delimitação, talvez aquela que tenha gerado maior
desconforto aos participantes, foi o enquadramento
fotográfica). Ou seja, os participantes da oficina
das câmeras, que definia um perímetro específico, ou
explorarão, através da câmera, a possibilidade de
seja, um “dentro”, enquanto muita coisa acontecia em
filmar as caligrafias possíveis destas dinâmicas. um “fora” possível. A escolha dos ângulos de visão era
A tarde do dia 24 de abril de 2012 será desti- feita pela equipe francesa, e nos eram apresentados
nada a visualização e às trocas a partir dos fluxos como forma de definir o espaço a ser experimentado:
coletados na véspera. A partir das imagens filmadas deveríamos, portanto, observar – à travers la lentille et à
l’extérieur – o que acontecia no espaço filmado.
simultaneamente pelas duas câmeras (em cada uma >>

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>>
Visava-se, ainda, observar a movimentação que o das três etapas detalhadas anteriormente), nós fare-
próprio dispositivo videográfico provocava no espaço mos o exercício de assistir de maneiras diferentes as
público, e procurar então um modo de adaptar-se ao sequências de um mesmo recorte (sequências em
contexto que se desejava filmar. Muitas expressões sucessão, em paralelo, mais lentas, aceleradas etc.)
desta movimentação não foram captadas pelo
Esta fase pode ser a ocasião de interrogar coletiva-
dispositivo fixo que, de certa forma, pelo fato de estar
mente a questão do apaziguamento e sua exposição.
fiximóvel, permitia aos transeuntes a escolha entre
aparecer ou não na filmagem; estar fora ou dentro do Ou seja, aquela da representação e da comunicação
enquadramento. Os termos “fora” e “dentro” podem de um trabalho de pesquisa videográfica sobre as
ser, portanto, utilizados tanto em relação ao tempo formas de vida qualificadas do ponto de vista das
filmado quanto em relação ao espaço delimitado pelo ambiências/ambientes asseptizados(as).
enquadramento (encadrement; cadre).
Em seguida, ainda na base da visualização, mas
desta vez das imagens realizadas pelos participantes
“CADRE TROIS”: A APREENSÃO DAS
durante a terceira etapa do trabalho no terreno, a
AMBIÊNCIAS/AMBIANCES
discussão focará o Faire corps, prendre corps, donner
Com relação aos proponentes da Oficina, vale corps do ponto de vista desta experiência de captação
ressaltar que todos são pesquisadores francófonos,
e de visualização. (Como será abordado o caminhar
o que implica, necessariamente, em uma questão de
em relação às duas primeiras etapas? Como será
tradução linguística de todo o trabalho. Tal tradução
vem problematizada pela tradução cultural, refletida na incorporada a câmera? O que está na ordem da
apreensão do lugar, que é pessoal e diferente para cada percepção na experiência através destes fluxos?)
um. Ou seja, as duas atividades de campo teriam tantas CRESSON: Os trabalhos de investigação do
mais possibilidades de narrativas quantas fossem as
Laboratório concentram-se no entorno sensível e
disponibilidades corporais e culturais dos integrantes da
Oficina. Qual seria, portanto, a implicação da tradução
linguística no processo de tradução (dar corpo) do
próprio lugar? Esse é um aspecto importante no que
tange ao nosso trabalho enquanto intermediadores,
Já a Praça da Piedade parecia reinventar-se a todo o
sobretudo no tempo destinado à troca de experiências,
momento, mostrando-se outra e, portanto, facilitando
90 ao cumprimento do protocolo metodológico e à
a experiência da alteridade, da apreensão do outro,
discussão sobre a oficina – que aconteceu no turno da
do novo. Além disto, a ambiência parecia estender-se
tarde nos dois dias de Oficina.
ao entorno da Praça, convidando os participantes a ir
Esta tradução envolvia muitos significados e além do enquadramento videográfico. A apreensão, ali,
significâncias, das duas partes – francesa e brasileira parecia exigir um tempo maior.
–, que estavam intimamente relacionados à vivência
anterior do lugar. A grande maioria dos participantes “CADRE QUATRE”: POTENCIAL CRIATIVO
já conheciam tanto o Porto da Barra quanto a Praça / O PAPEL DOS PARTICIPANTES
da Piedade, e alguns relatos demonstravam que a
Todos os participantes ou eram artistas ou tinham
memória do local permanecia durante a experiência,
alguma ligação com arte. Havia, portanto, uma vontade
que inicialmente era proposta como uma experiência
criadora, performática, que se tornou evidente desde
de alteridade. Esquecer o vivido mostrou-se uma
a apresentação da metodologia, quando foi dito que o
tarefa difícil, sobretudo no Porto, onde a tradução da
donner corps se trataria de uma tradução do ambiente
ambiência muitas vezes remetia a outras ambiências
— a ser expressa livremente por cada participante
similares anteriormente experimentadas.

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através da fotografia, de um desenho, de um texto, de “PAUSE STRATÉGIQUE”
uma dança, ou de uma performance... As posições das câmeras também eram motivos de 91

Algo transparecia que as etapas anteriores, faire corps indagações, sobretudo da parte dos usuários presentes
e prendre corps, eram a base para uma consequente no lugar: no Porto da Barra, por que não filmar o mar?
intervenção artística naquele espaço. Isso se tornou Na Praça da Piedade, filmar por que; filmar o quê?
ainda mais claro no segundo dia, na Piedade, quando Consideramos, então, que o verdadeiro foco das atenções
houve até mesmo um ensaio de intervenção, uma éramos nós, como grupo, justamente por sermos, pelo
espécie de teste de uma ideia durante a etapa menos momentaneamente, estrangeiros naquele lugar
de “incorporação”. Tamanha era a quantidade de e termos trazido as câmeras ali: éramos como flashes
informação, de gente que passava pra lá e pra cá, que desviavam e atraiam a atenção, influenciando na
que algumas participantes, tentando causar certa naturalidade dos corpos naquela situação.
“desestabilização”, zig-zaguearam transversalmente
aos passantes. Era uma vontade tão grande de
“CADRE-FLASH 1”: CONVERSA
performar, que chegava a colocar em cheque os
SOB O TOLDO NO PORTO
pressupostos metodológicos.
Enquanto a câmera enquadrava a rua, por trás da
>>>

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>>>
câmera a vida se manifestava, chamava a nossa livre de enquadramentos. – Tem uma música, também,
atenção e a dos professores que nos acompanhavam de uma escola de samba do Rio de Janeiro que eu...
naquele dia – Xico Costa e Paola Jacques – e mostrava me inspiro nela: [...] “Eu quero, quero, quero que.../ Eu
como ambiências se criam, assim, de uma hora para quero que meu amanhã/ Meu amanhã/ Seja um hoje
outra; escapam a um enquadramento. – É uma forma bem melhor/ Bem melhor/ Uma juventude sã/ Com ar
de resistência – disse Xico. E nós também acabamos puro ao redor/ Quero nosso povo bem nutrido/ Um país
resistindo ao protocolo naquele momento, entregando- desenvolvido/ Quero paz e moradia/ Chega de ganhar
nos às conversas e às cantigas de um personagem tão pouco/ Chega de sufoco/ E de covardia...” [...].

nos ambientes arquitetônicos urbanos. O CRES-


SON defende as abordagens qualitativas capazes
de ajudar e, inclusive, influir nas estratégias e
processos de concepção desses ambientes. O tema
do espaço sonoro representou o ponto de partida
do Laboratório, que estendeu posteriormente seu
domínio de estudo (a partir dos anos 1990) às mui-
tas dimensões da percepção sensível in situ.
Nos diferentes trabalhos de investigação, abor-
damos fenômenos luminosos, térmicos, olfativos,
táteis e cinestésicos. Estes trabalhos se apoiam
em um conjunto de métodos pluridisciplinares
92 originais, resultantes do cruzamento das Ciências
Sociais e das Humanidades, da Arquitetura e da
Engenharia.

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“CADRE-FLASH 2”: PERFORMANCE entender porque experimentou, e saber que tudo muda. E
NA BALAUSTRADA DO PORTO que é preciso experimentar para entender tudo de novo...
Observando a balaustrada – considerada pelos
participantes como a “espinha dorsal” do Porto da Barra; Notas
o equilíbrio entre as ambiências do concreto e da praia, 1
Utilizaremos aqui algumas expressões e frases em francês
do asfalto e da areia –, os participantes logo perceberam como forma de demonstrar como o idioma fez parte desta
sua importância, pela apropriação diversa que as experiência metodológica (proposta por uma equipe francesa),
pessoas fazem dela, tornando-a um apoio, um suporte. tornando às vezes difícil (pas évident) sua tradução, e
Ao mesmo tempo, havia um fluxo considerável de permitindo (donc) a sua “incorporação” nas discussões
pessoas na calçada: enquanto umas passavam, outras durante a Oficina. No entanto, tais expressões e frases,
ficavam; era o lado do movimento e o lado do repouso. se não compreendidas literalmente, não comprometem o
entendimento do texto; pelo contrário, ajudam a traduzir aquela
A ideia de nossas participantes-artistas foi, então,
situação.
de “quebrar” o repouso da balaustrada, conferindo
movimento àquele lugar específico... 2
Trata-se da oficina “Partilha e conflito no espaço público”,
atividade que aconteceu no âmbito da disciplina Atelier 5 da
Faculdade de Arquitetura da UFBA, em julho do último ano.
“CADRE-FLASH 3”: PERFORMANCE
Ver: PENA, João; WAN-DALL JUNIOR, Osnildo Adão. Partilha e
NA ÁRVORE DA PIEDADE conflito no espaço público: experiências urbanas na cidade de
– Tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo! – Salvador. ReDobra, Salvador, n. 9, 2012. Disponível em: http://
atelier5ufba.blogspot.com.br.
disse uma participante.
3
Ibidem (citado em). Mais detalhes e links no site: <http://
Depois dos zig-zagues do “tomar corpo”, de www.caminharnacidade.ufba.br>.
observarem o movimento frenético de passantes,
vendedores, moradores, medidores de pressão, carrinhos
4
Dandara Novato, Danielle Greco, Giovana Dantas, Rosa
de som, de café, etc., etc., as participantes decidiram Bunchaft e Amine Portugal Barbuda.
que a melhor forma de “desestabilizar” era ficar parado. 5
Para duas distintas compreensões sobre ambiência, ver:
Aliás, observaram também que havia lugares específicos PENA, João; WAN-DALL JUNIOR, Osnildo Adão. Partilha e
para o repouso, para o descanso, para sentar, enquanto conflito no espaço público: experiências urbanas na cidade de
um engraxate lustra os sapatos ou enquanto se toma Salvador. ReDobra, Salvador, n. 9. 2012.
um cafezinho. Mas, visto que não seria fácil chamar 6
A metodologia é um dos resultados da pesquisa internacional
a atenção para uma performance em meio aquela L’aseptisation dês ambiances pietonnes au XXIe siecle: entre 93
“muvuca”, elas escolheram outro lugar e outra atividade: passivité et plasticité dês corps en marche (2009-2010).
ler um livro em cima de uma árvore... (THOMAS, 2009). Ver em: <http://www.marcheenville.ufba.
br> (francês) e/ou <http://www.caminharnacidade.ufba.br>
(português).
“CADRE-FIN”
6
As imagens apresentadas nos cadres-flashes são quadros
Éramos uma vez em une ville, em uma de suas
extraídos de vídeos produzidos durante a experiência pelos
principais avenidas. Por um momento, sentimos essa autores (cadre-flashes 1 e 2) e pela participante Giovana Dantas
vida, avenida vivida cotidianamente, de perto, de dentro, (cadre-flash 3) que nos cedeu gentilmente o material.
desde o centro, e pudemos ser também essa vida,
essa avenida, cidade. Ser uma parte de uma parte é
ser do todo – Porto da Barra e Praça da Piedade são
fragmentos, cadres da Avenida Sete, um fragmento
de Salvador. É poder passar, ficar, subir, descer; é
transformar une ambiance aqui, é criar une autre ali.
É ter um plano de experimentar, é planejar entender, é

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ferramentaria

Oficina Francesco Careri*


Giorgio Talocci**
“Selva-quintal Maria Rocco***
comum” A Parábola
do São Cosme
na Vila Paraíso

APREENSÃO URBANA
Apreensão (1): ansiedade ou medo que
algo ruim ou desagradável aconteça.
Apreensão (2): entender, compreender.

Ao jogar nossos corpos no ambiente urbano


de Salvador, o Laboratorio Arti Civiche pretendia
94 declinar o termo apreensão em seu duplo
significado, combinando-os com a experiência
do ambiente urbano através do corpo: apreensão
urbana é então a sensação de perigo que nos faz
LAC – Laboratorio Arti Civiche (Roma – Itália) entender o espaço com maior intensidade e rapidez
Coordenação: Francesco Careri de percepção.
Coordenação da oficina:
Francesco Careri – arquiteto, professor DIPSU/ *
arquiteto, professor da DIPSU/Universidade de Roma
Universidade de Roma III e membro-fundador LAC e
III e coordenador do LAC.
Stalker/Observatório Nômade
Giorgio Talocci – arquiteto, professor Bartlett/University **
arquiteto, professor da Bartlett/University College
College London e membro-fundador LAC London
Maria Rocco – arquiteta e membro-fundadora LAC
***
arquiteta
Acompanhante: Gabriel Schvarsberg – arquiteto e
urbanista, mestre PPG Arquitetura e Urbanismo/ UFBA, tradução: Thais de Bhanthumchinda Portela
e membro Laboratório Urbano

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*
Gabriel Schvarsberg* arquiteto e urbanista, mestre PPG Arquitetura e
Janaína Bechler** Urbanismo/ UFBA

Fragmentos da **
psicóloga, doutoranda PPG Psicologia Social e
Institucional UFRGS
Oficina LAC/Vila
Paraíso

- Aqui Pedrinha cozinhou durante um dia inteiro, na


cozinha muito bem montada na laje de sua casa. Ela
precisou de uma grande panela e outras menores para
auxiliarem o cozimento principal: fazer os refogados,
fritar as carnes. Uma mesa serviu para aparar as tábuas
Nos dias atuais, a apreensão urbana traduz de corte dos temperos: cebolas, alhos, tomates. O feijão
simplesmente em medo: espaços públicos não descansava ao lado, em água desde a noite anterior.
são mais lugares de encontro com o outro e sim, Somente mais tarde, depois da comilança, ela pode nos
cada vez mais, um espaço do medo do outro - um mostrar suas caturritas. As duas só dormem quando
diferente ou um estranho do qual precisamos nos ela coloca um pano ao redor da gaiola: é para fazer um
defender e proteger. escurinho, dizia ela. Também cuida de um cachorro,
adora os bichos. Dona Pedrinha teve medo quando
A nova mitologia do medo urbano1 e, chegou à Vila Paraíso. Foi no mesmo dia de um tiroteio,
consequentemente, da segurança urbana tem e sua filha dormiu por cima de suas netas para não
sido construída: o outro é algo que ameaça nosso correr o risco de acordar sem uma delas. Logo depois
modo de vida com sua presença, e do qual nós a vida mudou por lá e ela também mudou, não sai mais
temos que nos defender. Tecnologias de controle, da vila Paraíso, mesmo que ofereçam um bom lugar “na
políticas e regulações sobre o uso dos espaços cidade”, “lá em cima”.
públicos se espalham, constrangendo o corpo e Conheci as crianças no momento em que descíamos
seus comportamentos num conjunto de regras a rua principal. Estavam encostadas junto à parede
95
que eventualmente limitam o direito do uso e de uma casa à beira da praça que ao mesmo tempo
transformam o espaço público para todo um une e separa as duas vilas, São Cosme e Paraíso. Sua
espectro de cidadãos. inércia foi quebrada por aquele grupo de estrangeiros
que imediatamente os atraiu. Inicialmente alguns
O Laboratório Arti Civiche quer criar vieram pedir money, enquanto outros os repreendiam
uma renovada (contra-)mitologia do espaço por isso. Depois, o interesse nas câmeras fotográficas.
público como um lugar do encontro e do mútuo Começaram a fazer poses de gangsta-rappers,
aprendizado com o outro, começando exatamente desafiadoras e confiantes, pedindo fotos. Segundos de
pela apreensão do que o outro atualmente significa seriedade, seguidos de risos e dedos pra ver o resultado
e buscando superar o medo que há contra ele – da foto. Aqui a câmera foi o mote da interlocução.
Muitas perguntas sobre a razão de nossa presença ali.
acreditando que o conhecimento de e a presença no
Por que tantas câmeras e pra quê as fotos? Digo que é
espaço público produz um senso de pertencimento,
a vontade de registrar e depois compartilhar com outras
de uma vigilância espontânea, de desejo de cuidado pessoas que não estiveram lá.
com o outro.
>

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>
QUEM PERDE TEMPO, GANHA ESPAÇO
A preparação da oficina começou através
de uma deriva, uma das modalidades usuais de
ação do LAC: o termo “deriva” (passeio, volta)
carrega duplo significado do termo um andar
desviado do que é hegemônico e a possibilidade
de maior diversão na própria “deriva”: pode ser
definida como uma forma de projeto aberto e
indeterminado, que procura obter – e depois deixa
seguir – uma ação espontânea para o território em
que atravessa, ao invés de impor um projeto fixo e
predeterminado sobre ele.
Nós derivamos por Salvador buscando por O medo obviamente relaciona-se com vários
esse território, imaginando que este seria um fatores que produzem a fragmentação urbana e a
espaço de sobra entre um conjunto de casas, segregação dos ambientes da cidade de acordo com
um jardim onde poderia ser recriado o senso de as diferenças de classe, status, etnia, religião, política
espaço público e que esse pudesse mudar os dois e orientações sexuais: o trabalho do Laboratório
significados da palavra apreensão junto com os Arti Civiche na Vila Paraíso e na Vila São Cosme
habitantes do lugar. procurou desativar essas dinâmicas de segregação
Entretanto, durante a “deriva”, tropeçamos trabalhando com suas fronteiras visíveis e invisíveis,
com um espaço bem maior e sua comunidade: profanando-as por dentro.
o labirinto de ruas, os becos e as pessoas da Vila Com este objetivo – de entender a dinâmica
Paraíso e da Vila São Cosme, dois assentamentos do território para ser capaz de questioná-lo a
informais localizados bem no meio do bairro partir de dentro – havia a necessidade do “insistir”,
Engenho Velho de Brotas. Nenhuma das pessoas para construir uma relação com a comunidade ali
que nos acompanhava sugerira que passássemos habitante e criar uma conexão com a realidade
96
por ali, embora fosse evidente que este era o circundante. Este modo de ação pode ser resumido
caminho mais rápido para descermos para uma rua em um mote “quem perde tempo, ganha espaço”:
que passava em um nível mais abaixo. na Vila Paraíso e na Vila São Cosme nós perdemos
Assentamentos informais são geralmente tempo, acreditando na necessidade de gastar muito
associados à figura do labirinto, já que a tempo para ganhar o conhecimento do espaço e
complexidade e a contínua mutabilidade de seus da comunidade que ali habita, antes de começar
espaços levam ao medo de atravessá-los. O medo qualquer tipo de atuação.
é relativo à questões de segurança (o labirinto A Oficina foi precedida pelo período
dificilmente pode ser controlado e enquadrado preparatório no qual LAC visitou e explorou
por paradigmas gerais de proteção nos espaços sistematicamente o espaço, conversando
públicos) e isso ocorre geralmente pelo pouco com os habitantes, tentando estimular uma
conhecimento que muitas pessoas têm sobre participação coletiva na oficina e compartilhando
esses espaços e pelas imagens de crime e violência uma imaginação sobre as possíveis ações que
usualmente associadas à estes espaços pela mídia. ali poderiam ser realizadas. A ideia de entregar

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>
- Aqui Alice caiu. Escorregou na pequena rampa do questionamento daquelas crianças, espontâneas e
enlameada. Seus grandes olhos me olharam do chão: disponíveis à interação. Estávamos lá para estar lá, ou
muita ginga para levantar-se como se não houvesse o para registrar que estivemos lá? Com essa inquietação,
buraco, como se não fosse um erro do seu passo, como guardei a câmera e me incomodei com as outras,
se ela fosse sempre da terra. que permaneceram fotografando com algum tipo de
urgência o território que acabávamos de adentrar.
A partir daí esses meninos colaram no grupo. Mais
à frente, na fonte, uma menina me pergunta de - Aqui um homem se banhou. Trouxe o xampu, abriu
novo: – por que vocês tiram tanta foto? O que me a ducha e ensaboou-se. Ensaiou uma canção debaixo
parecia tão natural, tornou-se algo incômodo diante d’água enquanto, ao seu lado, um outro homem via o
programa da hora na TV. Um bando de crianças passou
correndo ao seu lado.

Fiquei mais próximo de Daniel que, em algum ponto


do percurso, me arrastou até sua casa pra mostrar
panfletos para mostrar a presença do nosso grupo as medalhas de caratê. Foi na frente me guiando. Em
e noticiar as atividades que aconteceriam durante a um ponto da rua principal virou num beco que subia
Oficina veio dos próprios habitantes e serviu como em forma de escadaria. A sua casa era a terceira
modo de novas interações com a comunidade e com à esquerda. Foi entrando, a porta estava aberta.
Na pequena sala, com janela aberta para o beco
os habitantes em volta, que ficou mais interessada.
mal iluminado, a irmã mais velha via TV, deitada no
Quando nós propusemos fazer algo sofá. Daniel foi entrando num dos quartos, gritando
coletivamente com a comunidade, a primeira lá de dentro que trouxe um amigo. Eu fico na sala
sugestão deles foi fazer uma feijoada: o panfleto esperando. Noutro quarto, o primo mais velho mexia
noticiava exatamente esse primeiro momento de no computador. Daniel chega de mão cheia e despeja
convivência da interação que tomou uma forma, as medalhas emboladas no sofá, ao lado da irmã. Vai
desembolando e me explicando o contexto de cada
afinal, de trocas entre a cozinha brasileira e italiana.
uma. Ele resolve ficar por lá. Já ia sair o almoço e, pela
tarde, escola.
“PROFANATION AS NEGLIGENCE”
Da conversa com o Sr. Altamirando escutei:
“Sagradas ou religiosas eram as coisas que de 97
algum modo pertenciam aos deuses. Como tais, – Uma casa solarenga.
elas eram subtraídas ao livre uso e ao comércio dos
– Terminações, minações.
homens [...] E se consagrar (sacrare) era o termo não tem nada de verdade no que eu falo

– Obrigação de estudante é mapear.

– Me sentia “areado” – sabe? o norte vira pra leste...


areado é o norte virado.

– Lia almanaque, folhetim e rumanço, não tinha nada de


“literatura de cordel”, era rumanço mesmo. “Literatura
de cordel” é nome pra intelectual.

– Nome original da Vila Paraíso é Rocinha de


São Cosme.
>>

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>>
Numa curva do caminho, três deles me falaram que que designava a saída das coisas da esfera do
tinham uma banda de percussão: a banda “Moleque do direito humano, profanar, por sua vez, significava
Gueto”. Eles propuseram fazer uma apresentação para restituí-las ao livre uso dos homens. [...] A passage
o grupo. Fizemos uma combinação para a feijoada, de do sagrado ao profane pode acontecer também
procurá-los no fim da tarde, depois de alguns terem
por meio de um uso (ou melhor, de um reuso)
voltado da escola. Após os outros acontecimentos da
totalmente incongruente do sagrado. Trata-se do
tarde, desci em direção à praça que une e divide as
vilas. Encontro os meninos em um canto, organizando jogo. Sabe-se que as esferas do sagrado e do jogo
os instrumentos: latas de tinta, baldes de cimentcola, estão estreitamente vinculadas. A maioria dos jogos
chapas de metal, garrafas pet com tampinhas, ripas de que conhecemos “deriva” de antigas cerimônias
madeira e varetas de aço enferrujado para baquetas. sacras, de rituais e de práticas divinatórias que
Me disseram que era tudo reciclável, e que a gente outrora pertenciam à esfera religiosa em sentido
podia juntar um dinheiro pra ajudá-los a comprar amplo. [...] A potência do ato sagrado – escreve ele
instrumentos de verdade. Incentivei-os dizendo que – reside na conjunção do mito que narra a história
achava os instrumentos deles mais criativos e que
com o rito que a reproduz e a põe em cena. O jogo
faziam um som bom (o som era mesmo bom).
quebra essa unidade: como ludus, ou jogo de ação,
-Aqui anoiteceu. Sob a laje, um homem sentou em faz desaparecer o mito e conserva o rito; como
uma cadeira de praia. Tinha nos braços um bebê jocus, ou jogo de palavras, ele cancela o rito e deixa
sorridente. Uma menina, como contou a avó, que
sobreviver o mito.”
esticava a outra cadeira para sentar ao lado deles.
Atrás e acima, o céu azul, amarelo, e quase preto. Ao O ato de profanar, de acordo com Agamben2,
lado, a porta aberta e a luz incandescente da casa: uma é uma particular forma de negligência, alcançada
mulher cozinhava. exatamente através do “jogar”: O jogo torna-se a
Baixou a noite, lá em cima a feijoada foi servida. Os mais poderosa ferramenta tanto para decifrar a
moleques do gueto se aprumaram. Lorena e Wellington, mitologia do medo como para mudar o modo como
os líderes e puxadores, deram o ritmo e a banda então usualmente os espaços informais é percebido, o que
subiu a ladeira com a batucada. Os moradores saiam permite o retorno do uso comum a esses espaços.
às portas e janelas para ver a molecada fazer barulho. A potência do ato do jogo acontece porque este não
98
Orgulhosos e ritmados, foram angariando agregados mina a sacralidade contida no objeto, desde que este
entusiasmados. Chegaram de surpresa lá em cima e jogo alterne ou uma ou as duas esferas do sagrado –
deram seu show.
tanto o mito como o rito. A criatividade do ato de
– Aqui vivem Cosme e Damião. jogo é exercida junto com a comunidade e traduz-se
Do encontro de Dona Isabel com Dona Pedrinha, as
em uma operação dupla que, ao mesmo tempo,
anciãs de cada vila, na fonte: reconstrói o mito e o legitima através do rito.

–Lá tinha um Candomblé.


Em um jogo de palavras coletivo (iocus) –
através da coleção de histórias e contos dos
– Menina curou a epilepsia na fonte. Tiraram suas moradores antigos, de trabalhos criativos com as
roupas rápido, queimou e atirou as cinzas na fonte.
crianças pequenas, no reconhecimento conjunto
Nunca mais teve ataque.
dos marcos e monumentos importantes nas
duas vilas – a mitologia do lugar é resgatada do

>>> esquecimento, encontrada arqueologicamente, por

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traços que testemunham a evolução da comunidade Iniciação: um banho coletivo na fonte da Vila
e do ambiente por ela criado. São Cosme, construída como canal da fonte de
Através dos moradores antigos nós água natural, aqui aconteceu a primeira imersão dos
descobrimos sobre os mitos e lendas do lugar, sobre nossos corpos no espaço dos dois assentamentos,
as fontes de água natural e o pomar que ali havia marcando nossa participação nos ritos diários de
antes da invasão, sobre o surgimento das duas banho na fonte – provavelmente o mais importante
Vilas inicialmente separadas por um muro e depois espaço coletivo do assentamento, cenário de um
momento chave na vida cotidiana da comunidade. 99
reunidas em uma única comunidade; também
ouvimos sobre os gêmeos Cosme e Damião – os Comunhão: uma troca de cozinhas, com uma
dois santos “médicos” na religião Católica e as preparação coletiva da feijoada brasileira e do
crianças Ibéje no Candomblé – que deram o nome macarrão italiano, mas também um momento
ao lugar e às legendárias forças da fonte de água, de encontro entre os participantes do workshop,
onde a escultura dos dois está plantada... das duas comunidades de Vila Paraíso e Vila
Esta fonte foi o primeiro monumento que São Cosme e alguns vizinhos. Comendo junto
encontramos e perguntamos sobre ele começando em um espaço público como a rua, facilitou-
pelas duas moradoras mais antigas das duas se a horizontalidade entre os participantes e
comunidades: nosso primeiro rito (jogo físico, ludus), a colaboração de toda a comunidade para a
a iniciação nas Vilas São Cosme e Paraíso, se deu ali. organização do espaço.
E foi seguida por uma comunhão e duas procissões. Procissão: dois momentos cruzando o espaço.
Um movimento de dentro para fora, seguindo

Book 1.indb 99 25/9/2012 13:19:53


>>>
– Fonte não seca nunca. as crianças carregando uma linha vermelha para
nos levar para fora do labirinto, traçando uma
No outro dia me perguntaram se voltaríamos amanhã.
conexão ideal entre o assentamento e o centro da
- Não, não voltaremos. Quais as minhas desculpas? – comunidade no topo do morro. E um movimento
apenas uma oficina; seminário na Universidade; blá, blá, de volta, uma procissão em forma de um desfile
blá. Afeto se cria, é coisa muito séria. Com criança então...
de tambores liderada pelas próprias crianças, até a
- Mas depois vocês vão voltar aqui, né? fonte onde tudo nasceu.
Não pude deixar promessas. Sei da possibilidade de isso Esses rituais profanaram o senso de medo
não acontecer. O homem que diz dou, não dá. Porque relativo ao espaço dos dois assentamentos e às
quem dá mesmo, não diz. O homem que diz vou, não vai. bordas que esse próprio medo criou, liberando uma
Porque quando vai, vai quando quer. Penso com Vinicius: grande energia criativa e faíscas de desejo coletivo.
Se voltar,volto e pronto. Melhor ainda, de surpresa. Redecretando e reescrevendo seus “mitos” o espaço
e sua importância foi ressignificado para nós, para
os habitantes e para toda a cidade, colocando,
apesar de ser em um curto período de tempo, a Vila
Paraíso e a Vila São Cosme no centro de Salvador.

Notas
1
DE CAUTER, L. Geology of the New Fear. In:The Capsular
Civilization - On the City in the Age of Fear. Rotterdam: NAi
Publishers, 2004.
2
AGAMBEN, G. Praise of Profanation. In: Profanations. New
York: Zone Books. Edição brasileira utilizada na tradução.
Profanações. Tradução e apresentação de Selvino José
Assmann. São Paulo: Boitempo, 2007.
100

me

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ferramentaria

Cristiane Knijnik*
Iazana Guizzo**

Oficina “Oficinar Estamos escrevendo para todos aqueles que

ao habitar” inscreveram-se em nossa oficina no Corpocidade


para dar as boas vindas e já começar a aquecer o
encontro. Nossa proposta envolve alguns trabalhos
corporais e por isso sugerimos que vocês escolham
uma roupa bem confortável. Para aqueles que
sentem mais frio é bom levar um casaquinho para
momentos que estaremos deitados no chão. Outra
coisa, levem uma canga ou tecido que possam deitar
em cima. Estaremos esperando vocês na segunda as
9h na UFBA. É importante cuidar o horário para
que possamos estar juntos e trabalhar sem correria.
A sala da oficina ainda não foi definida. Assim que
soubermos, avisaremos vocês por email.
Olá Iazana, olá Cristiane! Tudo Bem? Por aqui a
correria já começou. Foi bom escreverem, porque 101
tivemos uma reunião na semana passada e já temos
LEU – Laboratório de Estudos Urbanos – Programa de algumas coisas para ir pensando juntas mesmo.
Pós-Graduação em Urbanismo PROURB/UFRJ
Coordenação: Margareth da Silva Pereira – arquiteta e
urbanista, historiadora, professora PROURB/UFRJ
Coordenação da oficina: Ainda quando cada um estava em sua cidade,
Cristiane Knijnik – psicóloga, doutoranda PPG ainda quando sem nos conhecer cada um preparava-
Psicologia UFF se para o Corpocidade. E ainda quando o Corpocidade
Iazana Guizzo – arquiteta, doutoranda PROURB/UFRJ
preparava-se para entre nós acontecer. Uma
Acompanhante: Marina Cunha – designer de moda,
experiência realizada ao longo do segundo semestre
mestranda PPGAU/UFBA e membro Laboratório Urbano

*
psicóloga, doutoranda PPG Psicologia UFF
**
arquiteta, doutoranda PPG Urbanismo UFRJ

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Marina Carmello Cunha* de 2011, no Rio de Janeiro, constituía memória
como matéria prima para elaboração da oficina
A cidade mora proposta em Salvador.1 Oficinar tece um modo

em mim – narrativa de fazer que deseje o acontecer com sua miríade


de imprevistos e que, paradoxalmente, requer
da Oficina LEU preparação. Os primeiros e-mails trocados com o
grupo pretendem disparar uma atmosfera de atenção
e cuidado com o nosso encontro ainda porvir.
* designer de moda, mestranda PPG Arquitetura e As mensagens de nossa acompanhante-
urbanismo UFBA
participante2 marcavam a disponibilidade dos
Narrar uma experiência é narrar o que foi apreendido, anfitriões atentos aos detalhes que muitas vezes
recortar do momento já acontecido o que interessa ficam soterrados na “organização de um evento”.
passar a diante, sob os desejos do próprio narrador. É Aqui não vai nenhuma apologia a eficiência,
outra experiência: a do compartilhamento. Compartilho suposta garantia do “sucesso” dos megaeventos
aqui a narrativa de uma narrativa. que têm pautado a grande mídia brasileira
Ao tentar trazer à tona as discussões e percepções atualmente. Narramos este trecho dos preparativos
trabalhadas na oficina LEU, durante o Corpocidade 3, do Corpocidade no sentido de mostrar pequenos
trago o momento registrado no corpo, nas sensações cuidados que nesta experiência foram lentamente
e no mapa construído a partir das memórias das instalando um processo coletivo, uma confiança
práticas no habitar, resultado das dinâmicas e exercícios para estar com o outro testemunhando fragilidades
propostos dentro de uma sala no prédio da Faculdade
e habitando o risco da experimentação que todo
de Dança da UFBA. Esta é uma narrativa corpográfica1
encontro supõem. Narramos, na busca de mostrar
estruturada em formato vídeo.

A questão recorrente era sobre a oficina ter acontecido


o tempo todo dentro de uma sala, sem contato direto
com a cidade. Depois das dinâmicas corporais e
sensoriais a resposta era clara: através de nosso próprio
102
corpo e do contato com o corpo do outro2 estamos
ligados à cidade, ela está inscrita em nossa pele. A
cidade habita em nossos corpos. Assim, as práticas do
habitar estão o tempo todo influenciadas pela cidade
onde se vive e pela cidade que se acumula em nós, as
muitas cidades de nossas experiências se sobrepõe e
se dinamizam em nossos corpos.

Mas como narrar uma experiência sensorial tão


particular? Ao fazer escolhas, decidir materiais e A princípio meu corpo pede uma narrativa têxtil
formatos, percebo que narrar não é apenas sobre o (resultado de antigas e recorrentes lembranças de
recorte que se faz, é de alguma forma criar um espaço minha formação pessoal), que acredito ter grande
de interação entre o que trago de outras experiências e potencial visual, poético e narrativo. Sobre fitas de
a que me debruço agora. algodão se inscrevem sensações, impressões e

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o como foi se tecendo um encontro disposto Entendendo o método como performativo3
a compartilhar experiências metodológicas. e não como conjunto de técnicas e instrumentos
Narramos, por fim, com os participantes da Oficina neutros que permitem acessar as verdades de
que disponibilizaram suas impressões-reflexões uma cidade, é preciso dizer que as reflexões que
presentes nas epígrafes deste texto inscrevendo sua ora apresentamos são efeito também do “método
política narrativa em um plano comum e polifônico. corpocidade”. Não pretendemos, no quadro deste
texto tratar disto, mas apontar que a proposta de
MODO OFICINEIRO compartilhar experiências metodológicas a partir
da experimentação coletiva, em oficinas, parece-
Na sala da Faculdade de Dança, foi configurada nos guardar uma aposta política cara a todos nós:
uma atmosfera com a memória e a cidade que deslocar o método do lugar de um modelo a ser
existe em cada corpo presente. Lá, tanto como aplicado privilegiando sua dimensão experiencial.
na cidade, foram acessados lugares de bastante Isso quer dizer implicar a todos ativamente,
tensão, do desconhecido e de fragilidades propositores e participantes das oficinas na feitura
Clara Passaro de uma experiência metodológica que não coincide
Esse corpo agora começava a mudar, eu ocupava com a mera aplicação de um modelo.
outro tipo de espaço e, com isso, ganhava novas Como propositoras de uma das 18 oficinas,
habilidades: eu podia boiar, podia deixar a coube a nós preparar e propor experiências
correnteza me levar ou me esforçar para nadar corporais e reflexivas que possibilitassem
contra ela, tinha a possibilidade de ampliar os problematizar práticas e sentidos que constituem
meus movimentos tão rígidos em terra firme. nosso habitar tanto na dimensão residencial
Meu corpo se tornara um pouco água. quanto urbana, entendidas como distintas
Jurema Moreira

103

registros da vivência na cidade. Mas ao tecer a narrativa, dessas reflexões que se faz enquanto se tricota, salta ao
o tricô que vai engolindo as sensações e palavras pensamento a verdade: o vaievem das agulhas, levadas
símbolo do peso da cidade em mim, percebo que devo por minhas mãos, está sob meu domínio e ao mesmo
vesti-la. Vestir a narrativa é então narrar com o corpo. E tempo é limitado pelo próprio instrumento.

>

Book 1.indb 103 25/9/2012 13:19:54


porém indissociáveis. Quais são as práticas e – a metodologia, isto é o como se faz – é o que
problematizações que compõe o nosso modo de chamamos de oficineiro e não um fazer prático
habitar expresso tanto na casa como na cidade? feito pelo corpo físico que se distingue do ato de
É, contudo, um modo de habitar a própria pensar. Com a afirmação do modo oficina não se
oficina, um modo oficineiro, que performa aquilo partilha do binômio prático ou teórico. A diferença
mesmo que está sendo problematizado em ato, em que queremos apontar do modo oficineiro para o
gestos, ritmos, silêncios e palavras, aproximações e modelo está justamente na experiência que se tem
distâncias que nenhuma técnica, instrumento ou ao fazer, o que pode ser comparado, para um efeito
modelo pode garantir. É nesse sentido que a oficina, de imagem, a uma travessia marítima.
ao mesmo tempo em que contava com exercícios Dentro de um transatlântico muitas
preparados envolvendo as práticas do habitar, ondas e ventos do mundo marítimo tornam-se
guardava uma atenção especial ao modo como imperceptíveis. Protegidos pelo vultoso casco, a
na singularidade desta experiência os princípios experiência de estar no mar ganha estabilidade e
metodológicos podiam ser operados. Ou seja, afasta-se dos riscos e do desconhecido. O sal pouco
104
diferente de aplicar um modelo que visa confirmar entranha na pele e a maresia não passa a compor
sua preparação e pressupostos homogeneizando nosso olfato. No entanto, em um barquinho de
a experiência; buscava-se fazer operar um modo madeira, qualquer marola faz o corpo balançar,
que os coloca em risco. Sem supostas garantias vulnerável às forças que compõem o encontro com
encerradas em uma forma de fazer a priori o mar. A pele é tocada pelos respingos salgados,
interessava-nos instaurar o “estar oficina”, um modo colorida pelo sol e refrescada pelos ventos que
oficineiro entre nós, que não se pretende natural, também nos fazem virar. É esse barquinho,
verdadeiro, correto e sim criativo, inventado em chamado experimentação, que convidamos a
conjunto com o resguardo de um cuidado ético. “Habitar” quando evocamos o modo oficineiro.
Sendo assim, é importante destacar que se Posicionar-se na experimentação requer
por um lado isto que estamos chamando “modo então disponibilidade para uma aventura
oficineiro” requer engajamento prático, por marítima quando, ao ser afetado, nosso corpo
outro, nem todo fazer é oficineiro na acepção ganha novas possibilidades ao mesmo tempo
que gostaríamos de privilegiar. O modo de fazer em que os “elementos do mundo” podem ser

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Tudo o que é tecido, o que se trança a cada laçada está
além das palavras. É o corpo falando, levando a diante
o que se inscreve sobre ele. A narrativa se concretiza
então, assumindo-se o tempo todo corpográfica.

O modo como se habita – as práticas do habitar –


passa pelo outro, a cidade e se concretiza em si, o
próprio sujeito que habita. Território pessoal, privado,
que é influenciado o tempo todo pelos modos de estar
e se relacionar com o outro na vida urbana. As práticas
do habitar não podem ser tecidas em trama e urdume,
como um tecido plano, sem maleabilidade. Os fios se
enroscam em malha3, tramadas em estrutura dançante,
que se adapta, toma a forma do corpo e do espaço.
Assim como as agulhas, a malha prende o corpo,
percebidos de outras maneiras. Aventura que não mas lhe dá um limite de maleabilidade possível para
pode ser regulada por instrumentos insensíveis concretizar seus movimentos.
a temporalidade da experiência. Ou seja, grandes
reguladores morais que distinguem e permitem
avaliar nossas navegações a partir dos binômios
como certo e errado, permitido e proibido são
substituídos. Em nosso barquinho, lançamos
mão de princípios éticos que possam, no lugar
dos grandes instrumentos reguladores, favorecer
uma atmosfera onde aquilo que conta deixa de ser
acertar ou errar, mas sobretudo, se deixar levar pela
experiência.

O PERCURSO
105
Saber os trajetos, caminhos e escolhas feitas por
pessoas que assim como eu transitam em seus
espaços e carregam com si suas vivências. Receber
suas histórias de vida me ajudaram a entender um
pouco mais a minha própria história e me
identificar com os seus relatos.
Francielle Souza
A problematização da questão – A pele que habito
– traz junto com ela outro questionamento –
O que estamos fazendo de nós mesmos – de nossos
corpos, em amplos sentidos, e, sobretudo, das
nossas práticas e dos nossos hábitos cotidianos.
Luis Guilherme Pires >>

Book 1.indb 105 25/9/2012 13:19:55


>>
Visto a narrativa têxtil para dizer que visto a cidade.
Cumpro minhas funções diárias e quase literalmente
exclamo: a cidade delimita minha ação! A cidade onde
vivo agora e as que trago em mim. Fujo pela janela,
e através dela sou invadida e influenciada. Tudo
concentra-se sobre minha pele e meus gestos.

Para a experiência realizada em Salvador nos plásticas não são entendidos como atos milagrosos
dias 23 e 24 de abril de 2012, foram criados três capazes de criar um corpo para quem supostamente
dispositivos que deram suporte ao desenrolar não o tinha. Esses exercícios são entendidos apenas
da questão do habitar ao mesmo tempo em que como uma possibilidade, dentre muitas, de disparar
possibilitaram a emergência de um modo oficineiro. uma experiência.
Arranjados de forma entrelaçada os dispositivos Como dispositivos de experiências, de
foram: os exercícios corporais, as reflexões travessias marítimas, tais exercícios podem disparar
cartográficas e a tessitura do coletivo. uma abertura das formas cristalizadas de si
Deitar no chão e ali demorar-se. Sentir o peso mesmo. Abertura impulsionada por um não saber
do corpo, dilatar o tempo, recuperar memórias e que força uma suspensão das ações conhecidas
experimentar o contato da pele com um saco plástico podendo até mesmo desestabilizar os modos de ser
cheio de água ou com uma bola cheia de ar. Levantar, vigentes ao colocá-los em movimento. No entanto
andar e conquistar uma atenção aos diferentes ritmos é importante dizer que a experiência entendida
percebendo o desequilíbrio necessário a cada passo. como transformação não acontece com frequência
106
Ao andarmos todos juntos foi disparada a busca de e, tampouco, pode ser garantida em uma oficina.
encontrar um ritmo comum que acelera e desacelera. Ela depende de um agenciamento do dispositivo
Fechar os olhos e deixar pequenos movimentos com muitas outras variáveis incontroláveis que são
do corpo recém-criados ganharem espaço. Gestos produzidas ao longo do percurso de cada um. Sem
simples que possibilitaram a experimentação do fórmulas, mas com disponibilidade ética, pode-se
próprio corpo visando uma abertura de si para o novo nesta Oficina, apenas disparar questões e contribuir
sem deixar de atentar-se ao outro. com parte dos percursos ao apostar nos efeitos
Desestabilização do corpo que não visa suscitar desse encontro.
uma dicotomia entre corpo e espírito provocando Seguindo com os dispositivos, aliados aos
uma espécie de apologia à matéria. Sem agenciar-se exercícios corporais, também foram feitas as
a um materialismo, mas tampouco a um idealismo, a reflexões cartográficas. Diversas texturas de papéis,
busca foi do movimento que podia ser instaurado em canetas distintas, lápis coloridos deram suporte aos
cada um a partir do encontro proposto. Os exercícios mapas das práticas de cada habitar. Uma reflexão
corporais,4 inspirados em práticas da dança e das artes feita por cada participante de sua própria morada

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Frames do vídeo “A cidade mora em mim”, disponível em
www.acidademoraemim.blogspot.com

começava a ganhar corpo no desenho do mapa e O que narro aqui com meu próprio corpo não é só o que
fora dele. Uma reflexão de si que se distingue de uma ficou da oficina, é além disso, o que a cidade projeta em
apologia ao eu para aproximar esse si do outro.5 mim, o que condiciona meu corpo, meus movimentos,
meus pensamentos. Narro a corpografia com corpografia.
Refletir sobre as suas ações e conquistar a Não há como separar tudo isso, não há como separar o
possibilidade de tê-las a mão em um dispositivo que vivo na rua do que vivo dentro de casa. Não há como
ético que se vale da experiência foi o horizonte de deixar essa cartografia escrita no corpo para fora de
trabalho proposto para a Oficina. A autonomia de onde se habita. A cidade invade minha janela. Ultrapassa
uma conduta de si não estava ligada ao controle minhas paredes. Ela mora em mim.
dos bons costumes, não preocupava-se em prevenir
supostas ofensas a Deus e tampouco considerava a Notas
razão superior a paixão. A atenção as suas próprias 1
Segundo Britto e Jacques (2003, p. 79), “a corpografia
práticas cotidianas tornam-se importantes a urbana seria um tipo de cartografia realizada pelo e no corpo,
medida que as condutas de uns têm efeitos sobre ou seja, a memória urbana inscrita no corpo, o registro de
os outros. Ao olhar para si, busca-se uma liberdade sua experiência da cidade, uma espécie de grafia urbana,
da própria cidade vivida, que configura o corpo de quem a 107
de conjunto, da cidade, que passa por práticas experimenta. [...] A corpografia é uma cartografia corporal (ou
de si, o que se distingue de práticas do eu muitas corpo-cartografia, daí corpografia), ou seja, parte da hipótese
vezes justificadas no livre-arbítrio ou em uma de que a experiência urbana fica inscrita, em diversas
escalas de temporalidade, no próprio corpo daquele que a
naturalidade do individualismo.
experimenta, e dessa forma também o define, mesmo que
Quais são as práticas e reflexões que me involuntariamente”.
constituem? Quais são os modos das moradas? E 2
O “outro” dentro da sala fazia referência o tempo todo ao
como os modos de uns reverberam nos outros, na “outro” na cidade. Como conviver, preencher o espaço sem
cidade, na vida pública? Sem que todos se tornem o grandes conflitos, respeitar seu corpo e o de quem está ao
seu lado. Intensos exercícios de alteridade.
mesmo, o que é estar com o outro? Tendo como cara
a diferença, propomos que estar com o outro é ser 3
O tecido plano é o que não possui elasticidade a não ser
que se use fios elásticos. É basicamente feito em técnica de
posto em movimento feito alguém que se deixa levar
tear, ou seja, alguns fios na vertical que são tramados com
pelo efeito gerado ao olhar um equilibrista. outros na horizontal, possui trama e urdume. Enquanto a
malha é baseada em técnica de tricô, onde um único fio vai
tramando por enlace, formando “ondas” que se unem no topo
>>>
Book 1.indb 107 25/9/2012 13:19:55
>>> Na corda bamba está o equilibrista enquanto
e na base, o que possibilita a elasticidade estrutural, sem uso eu aqui embaixo estou em terra firme. Em terra
de fios elásticos.
firme estou com ele. Lá no alto está ele comigo.
Como sua bamba experiência me move? Para onde
seus pés me fazem caminhar? Acompanho atenta
seus movimentos que me deslocam dos instantes
BRITTO, Fabiana; JACQUES, Paola. Cenografias e
corpografias urbanas – um diálogo sobre as relações anteriores. E ele trepidando na sua travessia
entre corpo e cidade. Cadernos PPG-AU/FAUFBA – sustenta seu continuar - talvez contagiado pelo
Paisagens do Corpo, Salvador, v. 1, n. 1, 2003. Número movimento em mim causado. O exercício de estar
Especial.
com o outro é diferente de colocar-se no lugar do
JACQUES, Paola Berenstein. Corpografias Urbanas. outro. Não subo na corda bamba e tampouco tenho
Arquitextos, n. 93. São Paulo: Portal Vitruvius, 2008. a mesma sensação do equilibrista, no entanto,
Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/
revistas/read/arquitextos/08.093/165. ambos nos deslocamos movidos pelo encontro.

PRECIOSA, Rosane. Produção estética: notas sobre Quando evocamos a experiência, estar com o
roupas, sujeitos e modos de vida. São Paulo: Anhembi outro não é apenas um encontro de partículas – um
Morumbi, 2005. encontro físico entre os corpos – mas um contágio.
SALTZMAN, Andrea. El cuerpo diseñado – Sobre la Isto é, quando o outro6 – material ou imaterial;
forma em el proyecto de la vestimenta. Buenos Aires: uma outra pessoa ou o mar, uma obra de arte ou
Paidós, 2007. uma paisagem – provoca ou alia-se a questões que
possam disparar movimentos no próprio modo
de ser de si mesmo. Estar com o outro seria um
pouco ser tomado pela diferença, pelo ritmo, pelas
questões do outro.
Na busca desse contágio, a tessitura do coletivo
apareceu como um dispositivo contínuo desde o
primeiro e-mail trocado. Tessitura que foi se dando
108 aos poucos, em cada cuidado, risco compartilhado,
mapa desenhado, escrito, exposto. O coletivo
facilita a experiência em duplo sentido: ao mesmo
tempo em que dá suporte para enfrentar o risco em
conjunto sustentando-se em uma ética, aproxima o
outro dando mais chance para o contágio acontecer.
De modo contínuo entre exercícios corporais e
mapas reflexivos foi sendo criado um cuidado, uma
atenção, um espaço para o outro e para si.
Com tal atmosfera, nos momentos
finais da oficina, construiu-se um espaço de
compartilhamento das reflexões dos mapas de cada
participante. Longe de um confessionário, ou de um
coletivo de autoajuda, exercitamos nossa atenção

Book 1.indb 108 25/9/2012 13:19:55


a nós mesmos e ao outro inspirados na imagem- 2
Gostaríamos de aproveitar para agradecer nossa
experiência do equilibrista. Para onde sou levado acompanhante/participante Marina Cunha, por sua generosidade,
prontidão e entrega. Aproveitamos para disponibilizar o link de
ao ser tocado pelo mapa do outro? Que caminhos
uma narrativa realizada por ela sobre os desdobramentos dessa
se abrem e que desvios se fazem? E o que eu posso oficina. http://acidademoraemim.blogspot.com.br/
oferecer a partir deste encontro?7 Um barco de 3
Dizemos que o método é performativo uma vez que a realidade
papel, um desenho colorido, palavras, histórias, urbana não precede as práticas que dispomos para com ela
nada, uma frase em um papel rasgado, um gesto, interagir, seja na pesquisa ou mesmo no cotidiano. A realidade
talvez, uma troca de segredos! urbana antes de ser descrita, descoberta ou explicada por nossas
práticas metodológicas será por elas modelada. (MOL, 2007)
Oferecer a sua experiência ao outro, a fim 4
Os exercícios corporais foram inspirados nos Objetos
de multiplicá-la, afastá-la do pessoal e tecer o
Relacionais de Lygia Clarck e também em exercícios
coletivo. Arriscar-se na experimentação abrindo experimentados ao longo do curso técnico de bailarino
espaço para o não saber advindo do desmanche das contemporâneo na Angel Vianna, nomeados por conscientização
linhas binárias que classificam e diagnosticam a corporal e/ou conscientização do movimento, entre outros.
existência. Apostar no encontro como provocador 5
Inspiradas em Michel Foucault, na ética colocada em Uso dos
de movimentos de si/outro sem abrir mão de uma Prazeres, o olhar para si não se distingue da criação de uma
atenção ao outro.
orientação ética. Sustentar sem oferecer respostas
já sabidas. Tatear para que lentamente sentidos 6
O outro está colocado aqui como dimensão coletiva.
comuns possam emergir. Disponibilizar a presença A subjetividade é entendida como um plano coletivo de
composição e não uma interioridade. Um sujeito que é o
para um exercício de si com o outro. Modular a motivo, o propositor, de tudo que é e faz é muito diferente de
atenção de maneira a escutar sutis transformações. uma singularidade composta por inúmeros acontecimentos da
Apostar na experiência ao invés do modelo. As vida que vão moldando um modo de ser. Nesse caso, cada um
de nós, é um modo de expressão de múltiplos acontecimentos
imagens do barco de madeira e do equilibrista
que são muito maiores do que as escolhas aparentemente
indicam-nos princípios metodológicos para operar individuais que podem ser proprietárias de um modo, ou
um modo oficineiro de habitar a cidade. mesmo, de um grande feito.
7
Modo de interrogação da prática do Movimento Autêntico
apresentado para as proponentes da oficina nas aulas de
Soraya Jorge, no Rio de Janeiro. 109
Notas
1
A metodologia experimentada no Corpocidade 3 pelo LEU
– UFRJ foi desenvolvida ao longo de 2011 em uma disciplina-
oficina oferecida no Rio de Janeiro para alunos da psicologia
(UFF), arquitetura (UFRJ) e dança (Angel Vianna), em uma FOUCAULT, Michel. História da sexualidade II: o uso
parceria interinstitucional, contando com a orientação das dos prazeres. 9. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal,
professoras Margareth Pereira (UFRJ), Marcia Moraes (UFF) e 2001.
Soraya Jorge (AV). Com formação em psicologia, arquitetura LATOUR, Bruno. Como falar do corpo? A
e dança, as pesquisadoras-proponentes desse trabalho, dimensão normativa dos estudos sobre a ciência. In:
buscaram construir um dispositivo coletivo de pesquisa NUNES, J. A. E ROQUE, R. (Org.). Objetos impuros.
teórico-prático acerca dos modos de habitar, de perceber e Experiências em estudos sociais da ciência. Porto:
intervir na casa e na cidade. Exercitamos a disponibilidade Edições Afrontamento, 2007.
de nossos corpos afetarem e serem afetados acompanhados
das seguintes questões: de que práticas o nosso habitar MOL, Annemarie. Política ontológica. Algumas ideias
se constitui? Quais os sentidos comumente atribuídos à e várias questões. In: NUNES, J. A; ROQUE, R. (Org.).
constituição do território? Criamos hábitos estéticos ou Objetos Impuros. Experiências em estudos sociais da
preenchemos nosso habitar de movimentos funcionais? ciência. Porto: Edições Afrontamento, 2007.

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ferramentaria

Fabiana Dultra Britto*


Tiago Nogueira Ribeiro**

Oficina “Composição Composição do


do comum” Comum – uma
experiência de
LabZat – Laboratório Coadaptativo PPG Dança UFBA agenciamentos
Coordenação: Fabiana Dultra Britto entre corpografias
Coordenação da oficina: Tiago Nogueira Ribeiro
Colaboradores:
Adriana Bittencourt Machado – licenciada em Dança,
professora PPG Dança UFBA e membro LabZat O desafio de propor uma oficina de
Jussara Sobreira Setenta – licenciada em Dança, professora experiência metodológica de apreensão da cidade,
PPG Dança UFBA e vice-coordenadora LabZat no Corpocidade 3, caiu como uma luva no atual
Maíra Spanguero Ferreira – graduada em Psicologia,
professora PPG Dança UFBA e membro LabZat contexto de trabalho do nosso grupo de pesquisa
Aline Vallim – graduada em Dança, performer, mestranda Laboratório Coadaptativo – LabZat,1 que já traz
PPG Dança UFBA e membro LabZat no nome, tanto o paradoxo que tematiza: o da
Ana Sheldon – graduada em Artes do corpo, performer,
institucionalização da pesquisa em arte, quanto
mestranda PPG Dança UFBA e membro LabZat
Isaura Tupiniquim – licenciada em dança, performer, sua opção metodológica: atuar como uma zat -
110 mestranda PPG Dança UFBA e membro LabZat zona autônoma temporária, constituindo-se num
Thiago Sampaio – graduado em Artes Cênicas, performer, ambiente de experiências de convívio coadaptativo.
mestrando PPG Dança UFBA e membro LabZat
Renata Roel – graduada em Dança, performer, mestranda Desde a sua criação, em 2006, o LabZat
PPG Dança UFBA e membro LabZat dedica-se a investigar modos de articulação entre
Ricardo Alvarenga – graduado em Ciências Biológicas,
as pesquisas artística e teórica, pensadas como
performer, mestrando PPG Dança UFBA e membro LabZat
Verusya Correia – licenciada em Dança, performer, instâncias coimplicadas num mesmo e único
mestranda PPG Dança UFBA e membro LabZat processo cultural – de cognição corporal humana
Aline Lucena – graduanda em Dança, – mas, cujas configurações formulam-se sob
performer e membro LabZat
Paula Carneiro – graduanda em Dança,
performer e membro LabZat * licenciada em Dança, professora PPG Dança UFBA,
Thulio Guzman – graduando em Dança, coordenadora do Laboratório Coadaptativo LabZat e
performer e membro LabZat membro do Laboratório Urbano
**
licenciado em Dança, performer e mestrando PPG
Dança UFBA

Book 1.indb 110 25/9/2012 13:19:56


Ana Rizek Sheldon* Ana Rizek Sheldon
Renata Roel** “No início, havia fronteiras bem traçadas, elas foram
Thiago Sampaio*** questionadas, redimensionadas e depois voltamos a
Isaura Tupiniquim**** elas. O retorno fez sentido, talvez porque a fronteira
Cinira d’Alva***** enquanto convenção não seja necessariamente um
problema, mas um componente operacional para
Composição do mobilizar o foco em outras instâncias, camadas de
complexidade. [...] Ficou claro para mim que para
Comum por alguns composição do comum acontecer é imprescindível
participantes se propor a uma idéia de comum que não está dada
a priori (apesar do modelo proposto pelo coreógrafo
João Fiadeiro). É imprescindível se propor. Ao mesmo
tempo em que o comum emerge de uma ação coletiva,
em cuja atuação individual é restrita, se não há um
acordo entre todos os sujeitos em questão, essa ação
diferentes lógicas organizativas que são próprias
coletiva se torna impossível. Então, o que chamamos
aos regimes de funcionamento dos seus respectivos de comum? Muitas vezes alguns sentidos deixavam de
ambientes – o artístico e o acadêmico. ser claros para todos, demonstrando que determinadas
Agora, em 2012, finalizando sua terceira coerências atuavam e vinham de certas camadas do
fase bianual, a pesquisa do grupo vinha conjunto total de pessoas ali. Desse modo, comum não
é sinônimo de unanimidade.
focalizando as condições contextuais (históricas,
A oficina trouxe inúmeras questões: como agir de
políticas, institucionais) e epistemológicas para acordo com a lógica de uma ética de composição
a ocorrência desta articulação entre as duas do comum? O que desse exercício compositivo pode
práticas investigativas em dança – acadêmica e servir para apreensão do espaço urbano? Há espaço
artística – no âmbito universitário de graduação para esse entendimento de comum no espaço urbano?
e pós-graduação. Começávamos a testar um Qual a diferença entre composição do comum e
procedimento coadaptativo de condutas, baseado construção hegemônica? O que permanecerá dessa
nos princípios compositivos da Composição em experiência no Labzat?”
Tempo Real (CTR), formulada pelo coreógrafo
Renata Roel 111
português João Fiadeiro e apresentada ao grupo
por Tiago Ribeiro – artista de dança, mestrando O tempo. A coerência. A construção dela. A incoerência
para mim. Eu ali com pondo com outros. O passado
do PPGDAN e integrante do LabZat, que já
o presente o futuro. A construção da coerência. A
há bastante tempo acompanha os workshops
ministrados por Fiadeiro.

* graduada em Comunicações e Artes do Corpo,
Partíamos da compreensão de que qualquer performer e mestranda PPG Dança UFBA.
prática explicita um tipo de conduta sempre ** licenciada em Dança, performer e mestranda
derivada de processos interativos instaurados PPG Dança UFBA.
pelas condições do seu ambiente de ocorrência, *** graduado em Artes Cênicas, performer e mestrando
cujas sínteses constituem corpografias (BRITTO; PPG Dança UFBA.
JACQUES, 2008), e reconhecíamos uma correlação **** licenciada em Dança, performer e mestranda
tácita entre os processos e suas configurações PPG Dança UFBA.
***** arquiteta e urbanista, mestranda PPG Arquitetura
resultantes – sejam obras artísticas e teses
e Urbanismo UFBA. >

Book 1.indb 111 25/9/2012 13:19:56


>
temporalidade de construir. A ética de conviver. A ética acadêmicas ou ambiências e corporalidades. Os
de aceitar para poder conviver. O exercício constante de exercícios de CTR, pelos princípios coadaptativos
convivência. De conter o impulso ou inibir. Será? em que se baseia, pelo seu regime de temporalidade
Os desejos individuais. O exercício de presença, não linear e pela sua lógica sistêmica de
presente, tempo, de novo. Temporalidade. O organização, nos permitiam, então, testar nossa
deslocamento do passado. A atenção para o passado hipótese de que a profícua articulação entre
e ‘reconstruí-lo’ a partir do presente. Deslocamento, diferentes condutas – como são as práticas de
mesmo que parados. As direções (não linear) de tempo. pesquisa artística e acadêmica – dependia de um
Frente é passado e Trás é futuro. A favor de uma ambiente favorável à configuração do que chamei
composição. Os sujeitos desaparecem? E quando o
anteriormente de zona de transitividade (BRITTO,
movimento do corpo entra?”
2008): um campo de atuação cooperativa que se
Thiago Sampaio baseia na fricção entre as especificidades próprias
de cada conduta para mobilizar a reorganização
A experiência em si foi muito bacana. Entender
dos seus regimes de funcionamento produzindo
aquele espaço como uma experiência de estúdio para
apreender a cidade foi bem instigante e me exigiu uma a instabilidade necessária à produção de novas
atenção redobrada, pois às vezes me senti forçando a coerências ao sistema.
barra para estabelecer no meu pensar a apreensão da A oportunidade de estender nossas
cidade a partir dos “tiros” (sessões do jogo). Foi ótimo nos experimentações ao campo do urbanismo,
darmos conta de que a atenção deveria se voltar para
pensando a cidade como uma escala ampliada
as relações que se davam ali, os acordos, os impulsos
(controlados ou não), as conversas, os olhares... Nesse
do que testávamos em estúdio, nos pareceu
momento, a cidade se desenhou com mais clareza imperdível, ainda mais, porque a relação entre
para mim. Lamentei a não inscrição de pessoas fora do dança e ambiente urbano é justamente o tema da
âmbito acadêmico ou ao menos distantes dos campos
da dança e arquitetura.

Isaura Tupiniquim
112
[...] Percebo que o que se torna delicioso na
experiência é principalmente e basicamente olhar
para si, olhar mais uma vez, olhar em volta, olhar
mais uma vez e pensar que as vezes não agir pode
ser uma grande contribuição para o coletivo. Assim,
algumas questões foram levantas por mim e por outros
durante o processo, como: seria possível deslocar
esse procedimento para o espaço público, ou pensar
ele como composição urbana? Se possível, essa
proposição implicaria numa perspectiva hegemônica
na relação com a cidade? Como a ideia de composição
em tempo real pode ser pensada como composição
do comum? Sob quais parâmetros de coerência

Book 1.indb 112 25/9/2012 13:19:58


maior parte dos projetos de Mestrado e Iniciação conduzidas por encadeamentos das coerências
Científica dos integrantes do LabZat. alcançadas pelas sínteses transitórias desse
Pensando a cidade como um ambiente que processo coletivo de composição. Um exercício
tanto promove quanto resulta de processos que se de gestão da história do sistema, cuja estrutura
instauram pelas dinâmicas de negociação cotidiana muda para assegurar sua continuidade como
dos seus habitantes nos espaços públicos, a oficina processo, pela articulação entre a força indutora
Composição do Comum propôs aos participantes uma do seu passado (repertório), a prudência crítica
experiência de apreensão da cidade pela prática de do seu presente (impulsos) e a sua potência de
percepção das suas próprias condutas de convívio, continuidade futura (coerência).
num exercício coletivo de composição coreográfica
COMPOSIÇÃO EM TEMPO REAL
com objetos e pessoas, para testar, em estúdio,
modos de elaboração de um sistema organizado a Tiago Ribeiro
partir da contínua negociação entre os propósitos O coreógrafo português João Fiadeiro dedica-
individuais das ações dos participantes e os se a um procedimento metodológico intitulado
propósitos coletivos de uma composição do comum Composição em Tempo Real, cujos pressupostos
– como é a própria vida pública. com os quais realiza uma composição estética
Desenvolvida como um jogo que simula compartilhada foram, inicialmente, desenvolvidos
situações cotidianas de negociação dos repertórios em uma esfera artística. Na atualidade, seu método
particulares pela elaboração de um plano colabora com pesquisas na área da neurociência
de coerência coletivo, a oficina baseou-se no assim como complexifica-se em parceria com a
procedimento coreográfico de Composição em Tempo antropóloga brasileira Fernanda Eugênio, com
Real (CTR), em que as ações de composição são quem tem trabalhado em perspectivas que não se
limitam a um contexto predominantemente cênico.
Um dos pressupostos básicos desta prática é o
de que se joga um jogo que não se sabe jogar, já que
os princípios desta composição não são ferramentas
113
a serem aplicadas. De cada situação/composição
emergem condições e regras específicas; portanto, à
medida em que se joga, percebe-se quais as direções
a serem tomadas, as necessidades que o jogo sugere
e as negociações que devem ser estabelecidas entre
os participantes que, por sua vez, não assumem um
lugar de espectadores nem almejam uma posição de
destaque.
No seu fazer, João estabeleceu um padrão
que é a utilização de um quadrado delineado no
chão com fita crepe cujo “dentro” é a zona de
visibilidade da composição, o que não implica que
é neste “dentro” que acontece a CTR. Esta ocorre
>> em uma espécie de curva, no momento em que

Book 1.indb 113 25/9/2012 13:20:00


>>

João e Fernanda identificam como “reparagem”; possível para ser afetado, gerir ao invés de gerar.
terminologia que, neste caso, quer dizer observar, A reparagem, no entanto, é uma atitude corporal
perceber, metaforicamente parar outra vez; e não no que deve permanecer na duração do jogo. Este
sentido de pôr em funcionamento algo que havia estado de corpo é o da prontidão, da “aparência” da
estragado, quebrado, que necessita de conserto. atitude, é acionar um tipo de vitalidade do corpo
Para dar início ao jogo, é importante que amplia as zonas sensíveis, perceptivas. Não
é correspondente ao corpo ordinário com o qual
identificar este suposto start como algo fictício, pois
tendemos a fazer nossas tarefas domésticas ou com
o que é primeiramente partilhado não é de fato
o qual caminhamos automaticamente rumo aos
um início, mas a continuidade de um mapeamento
nossos serviços habituais. Isso não quer dizer que
anterior; uma espécie de cartografia que não é
aquele corpo seja impossível no cotidiano; mas ele
somente espacial no que diz respeito à concretude
é oposto ao corpo que, fatidicamente, é direcionado
do espaço e das coisas dispostas nele, mas também
e controlado por todos os regimes complexos que
um mapeamento sensível dos demais jogadores e
nos envolvem e nos fazem automatizar nossas
da maneira como eles se colocam disponíveis.
114 ações, sem que reparemos nelas. Desta maneira,
Neste momento “inicial”, quando algum estar pronto para agir é, para esta prática, mais
jogador coloca um objeto dentro do quadrado, por importante do que interferir. Estar pronto para agir
exemplo, ainda não há nenhum indício claro de que é, inclusive, uma forma de ação.
rumos deve-se tomar, mas é na segunda posição,
Para dar continuidade à composição, outro
na próxima interferência – que deve ser realizada
princípio do trabalho é o de ter como intenção
após longa reparagem – que começa a se clarificar
prolongar os acontecimentos; para tanto, as ações
um caminho que sugere um entendimento coletivo
devem ser simples e em direção à complexidade e
comum. Mas é só a partir da terceira ação que se
não complexas em direção à complicação. Adiar o
estabelece algum percurso em que o coletivo deve fim é um trabalho de permanência e de elasticidade
investir para fazê-lo permanecer. da composição que deve ser composta apenas de
A reparagem distingue-se de ver e olhar. coisas suficientes.
Reparar é implicar-se com, não é constatar, é Um dos fatores que envolvem a capacidade
sair do lugar, deslocar-se, ter-se com, abrir-se ao do corpo para estabelecer este estado de prontidão

Book 1.indb 114 25/9/2012 13:20:02


Imagens: Maíra Spanguero Ferreira

e de disponibilidade é a sensibilidade que deve ser estamos trabalhando nessa composição? Ela pode ser
gerida para que as vizinhanças da coisa reparada – ditadora, ou ela imprime um sentido de reflexão para
suas sombras, aquilo que não é evidente – possam uma composição que não destrua algo que preexiste e
ser notados; perceber não o que a coisa é, o que tende a permanecer? Como é possível nesse sistema
instaurar desvios, ou nos termos do João criar tubos
encontra-se através da interpretação, que está na
que possibilitem a criação de outros? Essa lógica
superfície, mas aquilo que a coisa tem. Para isto,
de composição em tempo real pode ser vista como
é fundamental abandonar a certeza e acolher a eurocêntrica? [...] No meu entendimento é quase a
confiança, especialmente nos demais integrantes configuração de um espaço utópico e aí estaria o
do jogo que, obviamente, reparam coisas distintas. perigo de entendê-lo como um ideal de “limpeza”, já
Embora a busca seja por uma coerência coletiva, que as repetições de qualidades, bem como, a simetria,
a intenção deste trabalho não pressupõe uma aparecem muitas vezes, podendo ser compreendidas
tentativa de homogeneizar as percepções; e sim, na enquanto um padrão cognitivo, ou como inerente a
diferença, trabalhar o comum. própria condição criativa.”

O ideal é que não haja mudanças de


paradigmas no microssistema instaurado – com Cinira d’Alva 115

o qual podemos fazer analogia de uma partida. [...] Trazemos em nossos corpos a cidade que vivemos
Haja visto que trata-se de um coletivo de pessoas, e se estivermos dispostos a estar junto a outros corpos,
este “problema” é, portanto, iminente. A palavra estaremos dispostos a estar na cidade: esta foi ao
mesmo tempo nossa conclusão e nosso argumento
problema está entre aspas para evidenciar que não
para resistir à tentação de realizarmos a oficina de
há nenhuma conotação negativa nesta expressão, composição do comum fora do isolamento de uma
ele é simplesmente algo a ser trabalhado. Caso este sala de dança. Ao longo da vivência de compor
“problema” venha a ocorrer, o ideal é não tentar situações coletivas durante três dias – situações que
resolvê-lo no sentido de apaziguá-lo ou adaptá-lo nos esforçávamos por manter através da negociação
à coerência anteriormente estabelecida. Repara-se contínua entre os propósitos individuais e os coletivos
o problema e trabalha-se com ele e não contra ele, – ficou claro que o que experimentávamos ali, em
com seus desvios que, provavelmente, sugerem laboratório, não era mais do que uma explicitação
do que experimentamos cotidianamente na cidade:
novas curvas, novas composições, novas lógicas e
o convívio. Um laboratório de relações, exercício de
novas regras.

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O modo como operamos frente à uma com-viver e de com-por continuamente o ambiente
composição deste tipo envolve uma exploração comum. Exercício do dissensual, em que o estar junto
da cognição que diz respeito à recepção, seleção susten­ta-se na aceitação das diferenças e não na
e organização daquilo que carregamos conosco, imposição do que sou. Exercício de invenção de um
modo de existir pautado no desejo de perpetuar a
que nos forma, em relação com aquilo que
relação com o outro. Exercício também ético e político,
temos contato. Caso não haja afetação, este é um
onde alargamos a consciência de que nosso modo
motivo evidente para não interferirmos, o que de viver junto e nosso modo de viver a cidade estão
não corresponde a não agir, já que este estado implicados.
permanente de reparagem é ativo, é ação. Mas
este tipo de recolhimento só é possível – diante
de um jogo que não tem como pressuposto “não
poder fazer” e cujo intuito dos participantes é
jogar – se houver contenção dos impulsos, para
que a atitude a ser tomada não seja resultado de
uma espontaneidade, de um automatismo. Esta
é a singularidade do estado de corpo do jogador/
compositor da CTR, um jogo onde não há time,
não há vencedor ou perdedor, onde não se cria
condições para si de forma a efetuar uma jogada,
onde não há protagonista, onde joga-se para e pelo
outro e onde pretende-se, a cada jogada, adiar o fim.

Notas
1
A equipe atual do LabZat é formada pelas docentes: Adriana
Bittencourt Machado, Fabiana Dultra Britto (coordenadora),
Jussara Sobreira Setenta (vice coordenadora) e Maíra
116 Spanguero Ferreira; pelos mestrandos: Aline Vallim, Ana
Sheldon, Isaura Tupiniquim, Luzia Marques, Thiago Sampaio,
Tiago Ribeiro, Reginaldo Oliveira, Renata Roel, Ricardo
Alvarenga, Verusya Correia e pelos graduandos de Iniciação
Científica Aline Lucena, Gláucia Rebouças, Paula Carneiro,
Jorge Gomes, Thulio Guzman. www.labzat.dan.ufba.br

BRITTO, Fabiana Dultra. Corpo e ambiente:


codeterminações em processo. Cadernos PPGAU-
FAUFBA, v. 6, Salvador, 2008.
BRITTO, Fabiana Dultra; JACQUES, Paola
Bertenstein. Cenografias e corpografias urbanas:
um diálogo sobre as relações entre corpo e cidade.
Cadernos PPGAU-FAUFBA, 2008.

Book 1.indb 116 25/9/2012 13:20:05


ferramentaria Ivy Schipper*

Cartografia da
Ação Social e
Teatro do Oprimido:
complementaridade na
pesquisa qualitativa através
do Teatro Jornal na rua
INTRODUÇÃO
Oficina “Teatro A oficina de Teatro Jornal oferecida pelo
do jornal” Laboratório da Conjuntura Social: tecnologia
e território – LASTRO-IPPUR/UFRJ – em
Salvador durante o Seminário Corpocidade 3
em abril de 2012, foi o primeiro passo na direção
da consolidação da intervenção urbana como
linguagem de diálogo entre o saber dos acadêmicos
e os homens e mulheres comuns no espaço banal,
aquele em que todos transitam, cada um com o seu
afazer de qualidade diferente, nas movimentadas
ruas da grande metrópole capitalista. Este
intuito, direcionado à concepção da intervenção
urbana como técnica qualitativa de pesquisa
social vinculada à metodologia da Cartografia
da Ação Social, devido ao grande interesse que 117
despertou nos integrantes do LASTRO, acabou
trazendo à coordenação dos pesquisadores por Ivy
LASTRO Laboratório da Conjuntura Social: Schipper auxiliado por Felipe Araújo Fernandes,
Tecnologia e Território – IPPUR UFRJ a oportunidade de homenagear coletiva, interna
Coordenação: Ana Clara Torres Ribeiro (in memorian) e abertamente no evento a nossa brilhante e
Coordenação da oficina: inquietíssima doutora e orientadora Ana Clara
Ivy Shipper – geógrafo, doutorando IPPUR/UFRJ
e membro LASTRO
Torres Ribeiro (in memorian) e agradecer à doutora
Acompanhante: Ida Matilde Pela – arquiteta e
Cátia Antônia da Silva e os pesquisadores Luís
urbanista, doutoranda PPG Arquitetura e Urbanismo UFBA, Peruci do Amaral, Vinícius Carvalho de Lima,
professora Faculdade de Arquitetura UFBA Raquel de Pádua e Carmen Beatriz Silveira, além de

*
geógrafo, doutorando da IPPUR/UFRJ

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Ida Matilde Pela* Débora Santana de Oliveira e o Coringa do Centro
do Teatro do Oprimido/RJ Alessandro Conceição,
Notas de uma que contribuíram decisivamente na preparação da
acompanhante Oficina e deste texto.
– moradora A CARTOGRAFIA DA AÇÃO E O
TEATRO DO OPRIMIDO
Acompanhar a oficina do grupo LASTRO em Salvador Nós somos um grupo que pesquisa o
se deu, pela oportunidade de participar do Corpocidade campo da ação social, tece análises apontando
3 e, sem muitas pretensões, compartilhar outras características das microconjunturas (na escala
experiências de apreensão da cidade de Salvador e, do lugar e no tempo presente e cotidiano) e de
também, vivenciá-la como moradora. Assim, este experimentação nos campos do protagonismo na
texto é apenas o registro, não mais do que isso, dessa área cultural através da apropriação temporária de
vivência de dois dias junto ao grupo. Quero só salientar
espaços públicos como contribuição às tentativas de
algo que perpassou as conversas antes e durante
as oficinas: havia boatos e, não só boatos, sobre os
desocultação dos movimentos de mudança social.
pequenos furtos que estavam acontecendo na cidade Fazemos uma pesquisa-ação (THIOLLENT,
(eu inclusive havia sido vítima). Esta insegurança que 1985) experimental e acreditamos que junto
eu estava sentindo de algum modo me acompanhou com a crise atual de valores, tempo de extinção
naqueles dias, e que acabou de certa maneira refletindo
de instituições que no passado recente foram
naqueles que estavam buscando vivenciar a cidade.
marco do avanço de conquistas sociais do povo
O receio de perder algum material de valor (máquina
fotográfica, filmadora, celular), ao meu ver, influenciou brasileiro, tempo de crise societária e escassez de
de alguma maneira nas experiências da cidade. “mecanismos de inclusão econômica e simbólica

*
arquiteta e urbanista, doutoranda PPG Arquitetura e
Urbanismo UFBA

118

Exercícios de “destravamento” do corpo. Fotos: Ivy Shipper

>
Book 1.indb 118 25/9/2012 13:20:09
que sustentam a generalização de direitos” é se o teatro pode ser considerado como uma
(RIBEIRO, 2005), principalmente nas grandes técnica do corpo. Milton Santos (1996, p. 64)
cidades, é necessário apoiar iniciativas que criem em sua pesquisa e avaliação sobre a literatura a
vínculos sociais com processos de enfrentamento respeito da ação social, ao considerar que toda ação
da crise urbana. Há que se preparar o saber está sujeita às normas escritas ou não, formais
científico para aprofundar a capacidade de ou informais, cita Max Pagés – em L’e emprise
conhecimento dialogado com a vida cotidiana – de l’organisation. Paris: Presses Universitaires de
representado pelo cuidado com a escuta do Outro, France,1979 – para quem esta subordinação às
e sua problemática centrada no protagonismo dos normas já existe “desde a fase inicial das técnicas
homens comuns enfrentando as dificuldades da do corpo, à fase atual das técnicas da inteligência”.
vida coletiva na cidade. Neste sentido, entendemos que o que
Na prática, aplicamos recentemente a diferencia e singulariza o Teatro do Oprimido
passagem da metodologia principal centrada no é a opção pelo Teatro Político, centrado na
uso do Banco de Ações e Processos Sociais (BAPS), participação do Outro e na socialização dos meios
para, mediante o ingresso na Rede Pública de de produção das cenas com os grupos e sujeitos
Ensino Estadual em São Gonçalo (RJ) (SCHIPPER, oprimidos. Um importante discernimento é a
2010), fazer a leitura da ação social e a construção compreensão de que o oprimido é aquele que
de mapas com alunos do primeiro ciclo do ensino é capaz de não se conformar com a situação
fundamental (quarto e quinto ano), e também adversa à qual está submetido e partir para o seu
através de grupos focais integrados por jovens enfrentamento. Já aquele que não se reposiciona e
estudantes, trabalhadores ambulantes e jovens permanece submisso é considerado deprimido.
mulheres cooperativadas do bairro popular do Com este sentido de aproximação do
Salgueiro. (RIBEIRO; SILVA, 2009) movimento social, passamos a estudar e praticar em
Estamos construindo as primeiras experiências oficinas de formação de multiplicadores de algumas
tentativas da “abordagem corporal” no espaço modalidades de teatro que compõe, o Teatro do
público pela intervenção urbana, procurando um Oprimido de Augusto Boal, de antemão bastante
contato direto, efêmero e de troca com o povo nas identificadas com os anseios da Cartografia da Ação 119
ruas, que será provocado a ser participante dos Social na direção da corporificação do sujeito de
debates publicizados pela equipe de pesquisadores direitos. (RIBEIRO, 2000)
e participantes da Oficina de Montagem de Teatro
Jornal proposto pelo LASTRO. A CARTOGRAFIA DA AÇÃO SOCIAL
Para nós, a experiência artística com os A Cartografia da Ação Social, de acordo com
jogos dramáticos de preparação e encenação a direção apontada por Ana Clara Torres Ribeiro
teatral favorece o contato sensibilizado consigo junto à equipe do LASTRO, vem se caracterizando
mesmo, com o grupo (Oficina de dentro) e com o como metodologia de compreensão da realidade
público (Oficina de fora) na construção da ação, presente e de seus sinais tentativos de mudança
e abre caminho para a possibilidade criativa de social, através da leitura de ações protagonizadas
protagonismo cultural, cidadão. pelos homens e mulheres comuns que dão
visibilidade e colocam pressão sobre as situações de
Dentro de uma perspectiva crítica da
dificuldade enfrentadas em sua vida cotidiana nas
Geografia, uma questão propriamente em destaque
ruas, nos bairros e na cidade.
>
Book 1.indb 119 25/9/2012 13:20:11
De uma forma relativamente simples, Uma primeira observação a ser feita a partir
a coleta de notícias de jornal a respeito de do relacionamento do Banco de Ações e Processos
manifestações, protestos e processos sociais em Sociais(BAPS) com o Teatro do Oprimido é a do
curso; e sua organização em um banco de dados tratamento temporal que a Ação recebe no que se
especializado permite a desconstrução definitiva refere à atuação do sujeito do ponto de vista do
do texto jornalístico e a releitura da ação através corpo e o modo de sua intervenção na realidade.
de seu reposicionamento dentro de categorias da Inclusive, no BAPS a ação social coletada em jornais
sociologia, tais como: sujeito da ação, mediadores, de grande circulação pode aparecer sob a forma
opositores, lugares e sentido da ação e dos cumulativa no tempo.
problemas enfrentados, além da forma da ação, seus
É interessante notar na Árvore do Teatro do
motivadores, seus meios e seus desdobramentos.
Oprimido – espécie de representação visual das bases
A organização criteriosa deste banco de dados teóricas, científicas e éticas, dos veículos corporais do
permite que após algum período significativo trabalho, das técnicas de dramaturgia, sua tipologia,
de coletas, estejam dispostos não apenas seus objetivos gerais e estéticos e sua temporalidade
acontecimentos originais, repletos de urgência, – as circunstâncias do surgimento de cada tipo de
insatisfação popular, vontade de mudança e técnica, e a continuidade das ações socioculturais.
criatividade, mas também estruturadas as bases
empíricas de análises mais generalizantes que
acabam revelando tendências da ação no espaço,
no tempo e em suas formas de socialização e
apropriação da esfera pública. A partir deste
patamar de pesquisa, alguns fenômenos
observados estão suficientemente registrados para
transformarem-se em mapeamentos, tipologias,
identificação de problemáticas e das respectivas
táticas de grupo e estratégias sociais em uso no
presente, de acordo, portanto, com os fins da
120
metodologia da Cartografia da Ação Social.

CARTOGRAFIA DA AÇÃO SOCIAL E TEATRO


DO OPRIMIDO: UMA APROXIMAÇÃO ENTRE
LEITURAS COMPLEMENTARES DE SOCIEDADE
O Teatro do Oprimido é desde já muito
identificado com a Cartografia da Ação Social
porque a construção da ação dramática nesta O Teatro do Oprimido
estética se dá a partir da identificação de um sujeito Inicialmente é interessante destacar que o
oprimido e um opositor opressor. Identificamos aí Teatro de Augusto Boal surge para a sociedade
um princípio de compreensão sociológica - de que brasileira totalmente envolvido com causas políticas
a ação é sempre dirigida de um sujeito a outro ator e de mudança social, atravessa períodos pré e pós
dentro de um contexto, como disse Weber (1994), ditadura militar no país, tendo sido desenvolvido em
ou a um opositor.

Book 1.indb 120 25/9/2012 13:20:11


>
grande parte também no exílio de Boal (a partir de
1971), tanto em países da América Latina quanto da
Europa durante o período pesado e arrefecido que
se implantou no Brasil a partir 1964, mas também
através da permanência e contato sistemático entre
curingas espalhados por vários continentes.
No Teatro do Oprimido, em sua fase Estética
(atual), verdadeiras categorias de dramaturgia são
discerníveis e desenvolvidas nas seguintes direções:
a) o Teatro-Fórum – aquele em que a estrutura
da cena se adequa à posterior participação dos
“expect – atores” (a partir de uma exposição
dramatizada e clara de uma relação opressor –
oprimido, os antigos espectadores, agora vistos
como possíveis protagonistas ou aliados do
protagonista, podem, ao final da apresentação,
substituir o oprimido em algum trecho da cena e
propor um novo desfecho que se caracterize pela
tentativa de confrontar e desestruturar a ação
opressiva); (BOAL, 2005)
b) a técnica de preparação de cena chamada
Arco-Íris do Desejo, onde o opressor é identificado
e ‘mapeado’ em suas diferentes expressões na
Escolha da notícia a partir dos jornais da cidade. Fotos: Ivy Shipper.
dinâmica subjetiva do protagonista oprimido;
(BOAL, 2002)
c) a técnica de se encontrar a partir da 121
notícia de jornal um argumento para a cena
(BOAL, 1979) numa leitura ágil da realidade A tensão do corpo e das palavras – este foi o
cotidiana, especialmente pela urgência da situação primeiro momento da minha experiência – pude
de opressão apontada pelo sujeito da ação, que participar das atividades do “destravamento” do
concretiza esta aproximação da técnica de pesquisa corpo – e como era um grupo pequeno, todos os
social com o Teatro. No Teatro Jornal, o trabalho olhares sempre atentos aos movimentos e aos
com a diversidade de notícia se dá a partir da “sentimentos” que cada um trazia e que buscava,
através da expressão corporal, se soltar.
simultaneidade entre diferentes fatos e matérias –
todos reunidos no mesmo momento pelo jornal. Num segundo momento nós fizemos uma busca
pelas notícias que haviam sido divulgadas pela mídia
Sob a perspectiva da Estética do Oprimido,
impressa sobre a cidade para depois buscar sua
a relação entre o teatro, o corpo e a cidade é que
interpretação. O entender as várias possibilidades que
através da desmecanização do corpo de seus trazem uma notícia, o interpretar e entender o jogo
afazeres, obrigações e compromissos cotidianos, que ali acontece. >>

Book 1.indb 121 25/9/2012 13:20:12


Map

>>
Do momento de construção da interpretação da notícia a sensibilidade do sujeito está mais apta a
eu não participei. Chegou então o momento de irmos escutar, perceber e se implicar com a cidade e
para a rua, levar a notícia, a interpretação para o seus habitantes, ao invés de apenas consumir a
cotidiano da cidade. Neste momento a minha função paisagem espetacularizada e se submeter às rotinas,
era levá-los a algum lugar da cidade, que lugar seria
horários, direções e posições cristalizadas pela
esse? Voltava a minha sensação de insegurança de
ordem urbana (Alessandro Conceição, curinga
experienciar a verdadeira cidade – a dos jornais ou
a do meu cotidiano enquanto moradora de Salvador. do CTO, responsável pela oficina preparatória
Quais lugares seriam “seguros”? Estava eu restringindo para montagem do Teatro Jornal apresentada no
a experiência da cidade de Salvador? As possibilidades Corpocidade 3, abril 2012).
de lugares se deram em relação ao tempo disponível
que tínhamos, mas sem dúvida também ao meu O Teatro Jornal
“receio” de levar o grupo para um lugar que eu não O Teatro do Oprimido faz a leitura de jornal
considerava “seguro”. Isso pra mim foi limitador.
através da técnica de teatro jornal, uma das técnicas
Fomos então para a Avenida Sete de Setembro, até a
Praça da Piedade – lugar vivo, dinâmico do centro de
populares de Teatro Latino Americano, trabalhado
Salvador. Ali percebemos o “fora” da praça – pessoas por Boal a partir da década de 1950. O Teatro
caminhando rapidamente, outras trabalhando, outras Jornal é considerado a primeira técnica do Teatro
sentadas nos bancos que possibilitam ver/ouvir o do Oprimido. E tem como objetivo devolver o
barulho do trânsito. Nós escolhemos o “dentro” da teatro ao povo e ao mesmo tempo, desmistificar a
praça, pois era outro som, uma outra ambiência. A pretendida objetividade do jornalismo por entender
música estava presente com um carrinho de som que que toda notícia publicada em um diário é uma
frequentemente está ali e, o melhor, um casal de idosos
obra de ficção a serviço da classe dominante.
dançando – pareciam estar num baile, pareciam ser
frequentadores assíduos. Atualmente, uma oficina de preparação
de Teatro Jornal é composta por jogos de
Ali o grupo procurou construir a situação da experiência.
Tínhamos que primeiro “guardar” todo o material
desmecanização corporal e estética e exposições
(bolsas, mochilas, máquina fotográfica, filmadora). Eu sobre a história e a teoria do Teatro do Oprimido,
fiquei responsável por “vigiar” tudo a minha volta, junto além da escolha entre várias técnicas de leitura
122 à fonte da praça e, em parte, registrar a experiência. As dramática da notícia: leitura simples, leitura
pessoas que estavam no entorno ficaram observando cruzada, leitura complementada, ação paralela,
a movimentação do grupo. Uma senhora entrou e leitura com ritmo, leitura com improviso, leitura
interagiu. Num outro momento a proposta de discutir o com histórico, entrevista de campo, concreção
tema: falado, lido, ensaiado, com a expressão através
da abstração, texto fora do contexto e leitura
dos movimentos. Para mim foi um momento de
complementada. Este arsenal de técnicas aplica-
perceber essa vivência de outra forma, não somente de
passar, de observar, mas de atuar no espaço da cidade, se a leitura de uma notícia, que ao ganhar este
daquele lugar. tratamento, ganha na verdade observações da
experiência, do intelecto e da criatividade dos
Dali fomos para o Largo Dois de Julho. O Largo me deu
artistas quebrando, assim, a dita objetividade do
a sensação de proteção, mais sombra, uma ambiência
texto puramente jornalístico. Apenas a leitura
mais “fechada”, essa foi a minha impressão. Tinha
moradores e pessoas sentadas nos bancos, mulheres simples em público e voz alta, ao dissociar a notícia
do resto da edição (BOAL, 1979, p. 43) paginada e
>>> diagramada do jornal, já é considerada uma ruptura
com os artifícios da ficção jornalística.

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Mapa de Todos Nós

OUTROS PARÂMETROS ATUAIS


DE APROXIMAÇÃO
Em laboratório, fazemos leituras da
realidade urbana a partir de notícias de jornal para
gerarmos além de banco de dados, mapeamentos,
agrupamentos de atores sociais, instituições,
periodizações, etc. Isto nos abre diversas
possibilidades de análise social com posterior
aprofundamento (por meio de técnicas qualitativas de
pesquisa), conceituações, construção de hipóteses etc. 123

Um exemplo concreto desta abertura é a


já praticada experimentalmente Cartografia da
Ação na Escola Estadual Carlos Maia, no bairro
do Salgueiro, em São Gonçalo (SCHIPPER, 2010)
com alunos do ensino fundamental, a partir da
Faculdade de Formação de Professores (UERJ/
SG). Com estes jovens estudantes, fizemos a coleta
e leitura de notícias de jornal e a desconstrução
do texto jornalístico, bem como, trabalhamos o
desenho para a simbolização das categorias da ação
e também com recortes e colagem de figuras, que
além de possibilitarem a criação de imagens da ação
social, enriqueceram nossas discussões, vínculos Experiência da Cartografia da Ação Social na Escola Estadual
Carlos Maia, 2009

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>>>
e crianças e, em outros bancos, taxistas – o cotidiano e compuseram graficamente o mapeamento que
de uma terça-feira. A necessidade de novamente preparamos coletivamente (vide figuras ao lado).
guardar as mochilas e todos ali do grupo já estavam
A partir deste patamar, a consolidação
mais a vontade, mais “naturais”, como se fossem já
desta Cartografia da Ação deve se dar pelo
de Salvador. Ali, a experiência foi mais próxima aos
que estavam no Largo, o depoimento de uma pessoa desenvolvimento de linguagens e utilização de
mostrou sua consciência com o que estava ocorrendo ferramentas qualitativas de aprofundamento da
com a cidade naquele momento: o descuido por parte pesquisa, no sentido de tornar-se ação (pesquisa
dos poderes municipais. – ação) e através desta abrir a escuta e procurar o
sentido que pelo Outro – o protagonista da ação –
Depois fomos buscar outros lugares para além da
oficina. Naquele final de tarde de terça, andamos pelo é dado ao acontecer que assim tenta deslocar uma
“centro” que acontecia na sua normalidade, no seu condição de dificuldade e com isso transmitir de
cotidiano, e nós, que éramos poucos, andando em modo autônomo, o movimento de desocultamento
grupo, somávamos aos muitos que ali passavam. Não de sua condição desigual para a sociedade.
causávamos nenhum outro acontecimento. Estávamos
sim, agora, mais do que nunca (re)conhecendo, BANCO DE DADOS DE NOTÍCIAS DE JORNAL
experienciando Salvador ao entardecer. Queríamos SOBRE A AÇÃO SOCIAL E TEATRO
encontrar lugares de encontros, pra mim (re)encontros.
Fomos ao Museu de Arte Moderna (MAM), de lá
A relação entre o conteúdo de notícias de
subimos a íngreme Ladeira dos Aflitos. Fomos em jornal sobre determinado processo social na
direção ao Passeio Público até chegarmos ao Quintal. cidade categorizado dentro do banco de dados e
Ponto de encontro. Eu, afinal, ainda atenta, mas agora relacionado a uma expressão dramática já aparecia
mais moradora do que acompanhante de um grupo. nos registros de jornal datados do início da década
de 1990 e foram tratados na dissertação Metrópole
do Rio de Janeiro: os arrastões e a cena pública.
(SCHIPPER, 1998).
Nesse trabalho, orientado pela professora Ana
Clara Torres Ribeiro, aponta-se a noção de cena
124 pública indicando que nesta, a realidade – (que
verdadeiramente se dá na “cena metropolitana”)
– é uma reinterpretação elaborada segundo os
interesses das corporações de comunicações de
massa cuja a construção é impregnada de um
“institucionalismo” que nos acomete por via
impressa ou eletrônico, dotado da capacidade de
reunir os mais diversos setores sociais, atuantes
em variadas escalas espaciais, sendo enunciados
por personas e autoridades de alto escalão do
poder político, econômico, acadêmico, utilizando
técnicas de mapeamento e estereotipificação de
vocabulários, formas de vestir, consumo cultural,

Book 1.indb 124 25/9/2012 13:20:15


etc, criminalizando a já (economicamente) a) uma exposição à respeito dos princípios
marginalizada parcela popular jovem da população básicos e da aplicação da metodologia da
da periferia da cidade. Cartografia da Ação Social e a apresentação dos
O trunfo desta orientação foi elucidar a mapas construídos na experiência Cartografia da
relação associativa a partir do banco de dados Ação na Escola;
e do conteúdo da ação. O termo arrastão, por b) a apresentação do Teatro Jornal, sua
exemplo, indica uma “forma” de ação viabilizada aparição dentro de um contexto histórico específico,
por diferentes apropriações: tanto pelas “galeras e as bases teóricas de sua aplicação, além da árvore
funk”, quanto por ações repressivas empreendidas representativa da estrutura do Teatro do Oprimido;
pela prefeitura da cidade do Rio de Janeiro na c) a aplicação dos jogos de desmecanização do
época chamado de “arrastão do bem”; como corpo e estimulação da sensibilidade compreendida
através da música levada à orla por um bloco, em 4 categorias principais da percepção do Teatro
num “arrastão musical”, usado como meio de do Oprimido;
divulgação de espetáculo teatral. E especialmente
d) jogo arauto da Notícia: exercício de escolha
as relações entre a cênica e a circulação: o corpo
da notícia a ser trabalhada, com a subdivisão do
servindo para a tensão limite na forma de
grupo em três e escolha da notícia: Show de Zelito
viajar perigosamente pendurado no transporte
Miranda é marcado por protestos. (Correio da Bahia
coletivo (no surf rodoviário, ferroviário), ou a
segunda-feira 23 de abril de 2012);
encenação da briga para gerar pânico e correria
para que se recolha objetos abandonados no e) estruturaçao coletiva da cena e preparação
tumulto (expressões chave para as leituras do material: figurinos, objetos cênicos, equipo de
criminalizadoras). registro;
f) preparação e aquecimento de rua,
OFICINA DE MONTAGEM DA
encenação e ajustes, participação.
CENA DE TEATRO JORNAL
Trabalhar uma Oficina de Montagem de A intervenção no espaço público: a prática de rua
Cena de Teatro Jornal em três momentos e A encenação propriamente foi estruturada nos 125

apresentá-la em duas oportunidades numa tarde seguintes momentos:


de dia útil (terça-feira ) foi uma oportunidade
1) o curinga anunciando a apresentação
de homenagearmos a professora Ana Clara
e distribuindo cópias do texto da notícia a ser
Torres Ribeiro e aprofundarmos a possibilidade
encenada, para ser acompanhado durante a leitura
de articulação entre as duas metodologias: a
simples; 2) uma breve apresentação do grupo, da
da Cartografia da Ação Social e a do Teatro do
proposta do evento e da cena; 3) a representação
Oprimido, e darmos este primeiro passo nas
da ação propriamente dita envolvendo texto,
intervenções dramático-abertas nas ruas da cidade,
palavra, imagem, música e dança; 4) a personagem
na ocasião, no Centro Histórico de Salvador.
que passa para o papel de curinga questionando
O decorrer preparatório da intervenção foi a ação da peça e convocando o público a dar
composto na prática por : suas impressões a respeito da intervenção
apresentada.

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Resultados Na área da cidade onde mora existe o
amedrontamento, pela presença de comerciantes
O resultado obtido foi, na primeira
ilegais em certas áreas e, em outras, em que as
encenação, na Praça da Piedade na Avenida Sete
pessoas desfrutam dos fins de semana, ocorrem
de Setembro, a participação de dona Conceição,
várias rodas de pagode nas ruas. Chamou a
uma animada senhora que passava pela Praça e
atenção para o fato de que existe um teatro na
parou para participar e gargalhar conosco nos
vizinhança, que era usado pelos moradores, mas
jogos de aquecimento. Um momento anterior
está sem aproveitamento; nem apresentações, nem
ao aquecimento foi a nossa chegança e o
frequentadores.
reconhecimento da praça, salientando a presença de
uma espécie de banca cultural expondo livros e cds
CONSIDERAÇÕES EM EVIDÊNCIA
e equipada com amplificador, microfone e caixas
de som, “pilotada” pelo artista de rua Bob Baiano Segundo Ana Clara Torres Ribeiro (2005), para
que declamou Castro Alves, enquanto isto éramos uma sociologia preocupada em captar os vínculos
rodeados por alguns casais de “coroas” praticando que atravessam muros, barreiras e a indiferença social
na praça a dança de salão. reinante, torna-se indispensável escutar e conversar
com aqueles que habitam as ruas das grandes cidades
A segunda encenação desembocou nas
e iluminam a sociabilidade.
impressões de uma moradora de Plataforma,
bairro conhecido como “subúrbio ferroviário”’, Em contraste com a ordem e a racionalização
que estava sentada aguardando passar o horário fragmentadora em curso, o ato tentativo, a “viração”
de pico do transporte de saída do trabalho na sustenta-se em saberes pretéritos, abrindo-se
área de proximidade do Largo Dois de Julho, por sua natureza incerta e tentativa, para a
onde estão associadas as funções comercial e adesão do Outro. A expectativa apontada para o
residencial. A jovem se disse apreciadora de Zelito compartilhamento de valores e o enredamento
Miranda, o artista que dava show no Parque da identitário, valoriza as teorias que são capazes de
Cidade em Salvador onde ocorreu a manifestação andar de mãos dadas com o senso comum, com
dos ambientalistas pela não aprovação do código o cotidiano e o lugar. A ação espontânea possui a
126
florestal como desejava a bancada ruralista no capacidade de ir além do já previsto donde podem
Congresso Nacional, que virou notícia de jornal e “advir descobertas radicalmente novas e vínculos
foi escolhida para nossa cena de Teatro Jornal. imprevisíveis”. (RIBEIRO, 2005, p. 421) E como
afirma Cátia Antônia da Silva (2011, p. 168 ) em
A trabalhadora/moradora afirmou que
suas reflexões sobre a ação social e os conflitos
é nestas ocasiões, de aglomeração por alguma
advindos do uso do território, a proposta da
atividade ligada a cultura ou lazer por exemplo,
Cartografia da Ação é poder dar conta “[...] do
que se deve manifestar algo em público, “tem que
desenvolvimento de metodologias promissoras de
incomodar mesmo”. Diante desta constatação, ela
novas compreensões sobre os saberes e as ações
reclamou: das más condições de calçamento das
produzidas pelas racionalidades alternativas” .
ruas, dos engarrafamentos, da falta de transporte
coletivo, da violência na rua e da clausura nas casas Para nós, o Teatro Jornal é uma metodologia
como solução possível. Disse que a publicização de irmã, forma de levar uma problemática urbana ao
vícios está muito difundida na cidade. debate, e através da estética escutar o que diz o
sujeito comum. Assim, nos valemos da estética e do

Book 1.indb 126 25/9/2012 13:20:15


corpo como meio de sensibilização para a pesquisa, SANTOS, MILTON. A Natureza do espaço: técnica e
e o processo de construção dramática como campo tempo, razão e emoção. São Paulo: HUCITEC, 1996.
formador dos sentidos do estar com si próprio e SCHIPPER, Ivy. A Cartografia da Ação e a Pesca em
com o outro participando. São Gonçalo. In: SEMANA DE PLANEJAMENTO
URBANO E REGIONAL, 14, 2010, Rio de Janeiro.
Nesta direção, de aprofundar qualitativamente Anais... Rio de Janeiro: IPPUR/UFRJ, 2010.
a participação do sujeito coletivo, potencial, de
___________. Metrópole do Rio de Janeiro: os
fomentar o protagonismo do Outro como parte arrastões e a cena pública. Dissertação. (Mestrado
integrante de nossa pesquisa ação, se alinha a em Planejamento Urbano, Instituto de Pesquisa e
proposta de Ana Clara Torres Ribeiro de trabalhar Planejamento Urbano IPPUR UFRJ, 1998.
com teatro interativo na Cartografia da Ação SILVA, Cátia Antônia da. Território e ação social:
Social, teatro de participação do Outro nos sentidos da apropriação urbana. Rio de Janeiro:
Lamparina, 2011.
nossos procedimentos de pesquisa, assim como
o seu parecer, a partir de sua experiência e de sua THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-ação.
interação com nossas linguagens e ferramentas São Paulo: Cortez, 1985.
preocupadas em lhe abrir a escuta. WEBER, Max. Ação social e relação social.. In:
FORACCHI, Marialce M.; MARTINS, José de
Souza Sociologia e sociedade. Leituras de introdução
à sociologia. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e
BOAL, Augusto. Jogos para atores e não atores. Rio Científicos Editora, 1994. p. 117-121.
de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2005.
Sites pesquisados
___________. O arco iris do desejo. Rio de Janeiro:
Editora Civilização Brasileira, 2002. http://ctorio.org.br/novosite/arvore-do-to/teatro-jornal/
___________. Técnicas latino americanas de teatro http://www.corpocidade.dan.ufba.br/2012/
popular. São Paulo: HUCITEC, 1979.
RIBEIRO, Ana Clara Torres; et al.. Pensamento
vivo de Ana Clara Torres Ribeiro. Revista ReDobra,
Salvador,ano 3, n. 9, ano 3, 2012.
127
RIBEIRO Ana Clara Torres; SILVA, Cátia Antônia
da. Territórios da Juventude. Experiências em
Cartografia da Ação. Projeto FAPERJ 2009.
RIBEIRO, Ana Clara Torres. Vínculo social:
cartografia da ação em contextos metropolitanos.
Projeto CNPq, 2007.
___________. Sociabilidade hoje: leitura da
experiência urbana. Cadernos CRH, Salvador, v. 18
n. 45 p. 411-422, set./dez., 2005.
___________. Sujeito corporificado e bioética:
caminhos da democracia. Revista Brasileira de
Educação Médica, v. 24, n.1, jan. /abr. 2000.
SANCTUM, Flávio. A estética de Boal. Odisséa pelos
sentidos. Rio de Janeiro: Editora Multifoco, 2012.

Book 1.indb 127 25/9/2012 13:20:15


ferramentaria

Jamile Lima*

Os usuários
do Dois de Julho
Encarando o uso de crack
no espaço urbano1
Ao me deparar com a necessidade de escolher
um tema para o trabalho final de graduação da
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFBA,
não tive dúvidas sobre qual caminho seguir. Optei
por um assunto que sempre me despertou grande
interesse: a relação entre o uso de substâncias
psicoativas (conhecidas como drogas) e a cidade.
Em especial, me interessava estudar a complexa
relação que existe entre o abuso de crack e o espaço
público. Estava disposta a demorar os olhos e
sentidos sobre os lu­gares que alguns chamam hoje
128 de cracolândias e, de forma mais cuidadosa, canalizar
a atenção a esses espaços e pessoas que os habitam
e como seus corpos são uma espécie de resistência
no espaço urbano contemporâneo, como observou
Milton Santos.
No decorrer do processo de trabalho, ficava
claro que havia uma grande necessidade e urgência
em se discutir a postura dos projetos urbanísticos
frente a esses espaços. Reproduzindo-se o
discurso da guerra às drogas, os projetos urbanos
brasileiros – mu­nidos de imagens modernas
e luminosas – atualmente se limitam a varrer
* arquiteta-urbanista, graduada Faculdade de as cracolândias para a escuridão mais próxima,
Arquitetura UFBA como se a expulsão das pessoas fosse a solução

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dos problemas. A forma violenta de lidar com
os usuários de drogas (especialmente no espaço
público) é frequente em várias cidades do Brasil.
O poder público normalmente corrobora com
essa postura, abandonando esses espaços de uso,
omitindo-se de criar novas políticas públicas para
lidar com o uso problemático de drogas na cidade
ou ainda disseminando campanhas publicitárias
aterrorizantes e determinis­tas acerca do uso. Ações
repressivas da polícia são, hoje, os principais meios
que o Estado utiliza para intervir e agir sobre
usuários de drogas (principalmente os que fazem
uso problemático de crack), visando um suposto
banimento do uso dessas substâncias. É possível
ver na figura a seguir o produto de uma campanha
amplamente difundida contra o crack financiada Campanha crack

pelo Governo do estado da Bahia:


Toda essa violência é pouco questionada por
grande parte dos urbanistas, que enxergam como mesmo era estar ali a observar e perceber as relações e
única alternativa o extermínio das cracolândias e os usos que as pessoas faziam daquele lugar. Buscava
dos seus usuários. Assim ficava cada vez mais clara (re)­conhecer os movimentos a partir da minha
pra mim a importância desse trabalho no sentido percepção e de outros com quem conversava.
de compreender, discutir e propor intervenções
urbanas onde o uso problemático de drogas que Tive longas conversas em todas as minhas
se faz no espaço urbano seja encarado de forma idas ao Dois de Julho através de entrevistas abertas
crítica, de modo que tais questões e sujeitos não e gravadas para posterior transcrição e análise.
se tornem parte invisível no processo de pensar a Foram entrevistados comerciantes, frequentadores,
129
cidade e seu desenvolvimento urbano, uma vez que moradores do bairro, ex-moradores, moradores de
a questão do abuso drogas é evidente no contexto rua, usuários e ex-usuários de crack. Dentre todas
social vigente. as entrevistas, selecionei algumas para analisar seus
discursos e percursos mais de perto. As impressões e
Para que a questão pudesse ser problematizada expressões dessas pessoas foram o guia utilizado por
de forma mais aprofun­dada, decidi fazer um mim para fazer mapeamentos do bairro e utilizá-los
recorte na cidade. Escolhi me aproximar da área como base de estudo do lugar. Geraldo, Carline, Severo,
que compreende o bairro do Dois de Julho e regiões Lara, Lana, Edmilson, Tom, Leandro e Selma.2 Todos
contíguas, como a Avenida Carlos Gomes, Avenida são ou já foram habitantes do Dois de Julho. Dentre
Sete de Setembro, Avenida Contorno e a Praça da eles, ao menos três são ou já foram dependentes de
Piedade, no chamado Centro Antigo de Salvador. crack. Dois deles estão em situação de rua.
Meu processo de aproximação do Dois de Julho Pude verificar, durante as diversas incursões
foi discreto e sutil. Não ti­nha pretensão de fazer a campo, que há uma grande sobrepo­sição de usos
parte daquele lugar, de me sentir “de dentro”. Queria

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Cruzamento entre a Rua do Sodré, à esquerda, e a Rua do Cabeça, à direita, com a Avenida Carlos Gomes ao fundo

e usuários no bairro: as barraqui­nhas de frutas; o Esses movimentos estão relacionados entre


comércio nos açougues, mercadinhos, sebos, lojas si e compõem a dinâmica do bairro. Assim como
de artesanato, lanchonetes; os idosos do Largo; os o abuso de drogas é danoso ao corpo físico dos
programas da noite; a boemia de bares como o Bar usuários, alguns dos usos gerados por esses
do Líder, o Mocambinho e o Beco da Lama; pessoas movimentos são danosos à cidade, em especial
utilizando drogas líci­tas; pessoas utilizando drogas usos como o do movimento das drogas e do
ilícitas; a feira das flores; as frutas se desmanchando urbanismo corporativo, que afetam diretamente
no chão; os moradores das casas observando a permeabilidade e potência dos espaços públicos.
o movimento das janelas; os moradores de rua Com base nos estudos desses movimentos,
planejando sua “correria”; e muitos outros usos e categorizei tais danos em: danos à permeabilidade
usuários que não fui capaz de identificar. e danos físicos. Os danos à permeabilidade são cau­
Partindo das entrevistas abertas, distingui e sados basicamente pelos movimentos das drogas
classifiquei três formas de movimentos no Dois e do urbanismo corporativo. Os danos físicos
130 de Julho, sobrepondo mapeamentos e trajetos estão relacionados aos processos de abandono
realizados pelos usuários do bairro, os quais me por parte do Estado e também têm relação direta
permitiram realizar uma análise mais aprofundada com os movimentos das drogas e do urbanismo
acerca das questões do bairro. São eles: corporativo.
1) o movimento das drogas, que compreende a Nesse sentido, tomei como base o conceito
venda, a compra e o uso de substâncias ilícitas; de Redução de Danos, utilizado normalmente em
2) os movimentos realizados pelos entrevistados contextos de abuso de substâncias psicoativas,
que compreendem seus percursos e permanências; transpondo-o para o campo urbanístico, buscando
3) e, por último, o movimento do urbanismo então problematizar tais espaços e usos de forma
coorporativo, formado por empreendimentos a identificar e minimizar os danos causados
privados que estão sendo implantados no local sob ao espaço público e ao corpo de seus usuários
forte processo de especulação imobiliária, a exemplo sem necessariamente agir de forma extremista
do projeto urbano proposto para o bairro por e autoritária, pressupondo o bani­mento de
empresas privadas denominado Cluster Santa Tereza. determinados usos da cidade.

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A mistura de usos e usuários é uma das que intitulei de CAPS4-RUA. Tais propostas não
características mais importantes do Dois de Julho têm como objetivo “revitalizar” e “pa­cificar” a região,
e suas proximidades. Uma maneira de reduzir os homogeneizando-a e retirando-lhe as tensões que a
danos causados à permeabilidade de certos espaços fazem cheia de vida. A ideia é diminuir a violência e
é reforçar nas áreas menos permeáveis (como, por marginalização com que os usuários de drogas são
exemplo, as ruas onde é intenso o movimento das tratados e instigar naquela área seu caráter público,
drogas) a forte mistura de usuários que existe em com toda a potência, tensão e multiplicidade de usos
outras partes do bairro, dando suporte aos usos e que lhe cabe.
usuários atuais e atraindo outros. Deste modo, o CAPS-RUA funcionaria
Já de partida, essa postura inicial se distingue como um ponto-âncora de Redução de Danos
essencialmente das propostas urbanas atuais que para usu­ários de drogas. Um espaço aberto, onde
preten­dem “uma revitalização imediata e radical muitas atividades podem ser realizadas na rua
na área”,3 que muitas vezes também resultam em pelos usuários, distinguindo-se essencialmente da
sérios danos ao espaço público e que, em muitos lógica manicomial. Além de serviços específicos
casos como no bairro da Nova Luz, em São Paulo, dos CAPS-AD, o CAPS-RUA ora proposto abrigaria
utiliza-se de violentos e inócuos métodos de lidar uma escola, onde podem também ser ministrados
com os problemas causados pelo abuso de drogas cursos profissionalizantes para os usuários do
no espaço urbano. CAPS e outros usu­ários da cidade, áreas reservada
No sentido de reduzir danos ao espaço para comércios diversos e também camelôs que
público do Dois de Julho e ao corpo dos usuários se espalhariam por toda a extensão da rua. Nesse
(de drogas ou não) daquele bairro, propus algumas sentido, o CAPS-RUA promoveria a convivência de
intervenções urbanas, destacando-se as quais usos na região, na tentativa de misturar usuários
denominei de boias urbanas e a intervenção fixa variados da cidade.

131

Esquema boias

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O local proposto para a edificação do soteropolitanos para vender café, funcionariam
CAPS-RUA também se configuraria como uma como suporte ao trabalho dos re­dutores de danos
importante interligação de pedestres entre nas ruas, uma espécie de CAPS-móvel e que tem o
a Avenida Carlos Gomes e a Rua do Sodré, intuito principal de reduzir danos físicos e sociais
estimulando a circulação de mais pessoas nas áreas causados pelo abuso de drogas. Os redutores de
que hoje são menos permeáveis. Algumas boias danos têm a possibilidade de acoplar as Boias
urbanas seriam locadas próximas ao CAPS-RUA móveis às Bóias fixas, com o objetivo de aumentar
para servir a todas as pessoas que habitam, ou sua gama de atividades com usuários de drogas ou
simplesmente, permeiam o lugar. ainda alimentar a bateria que os carrinhos utilizam
através dos pontos de energia elétrica disponíveis.
As boias urbanas foram propostas como
balizas urbanas, pontos que sinalizam apoio, Tais intervenções propostas são exercícios
no sentido de sustentação da vida dos usuários e experimentações em tratar o contexto urbano
da cidade (dentre eles, os usuários de drogas) e de forma ampla, buscando fugir dos modelos de
consequentemente a vida dos espaços públicos da intervenções autoritárias dos projetos urbanos
cidade. As boias urbanas são propostas de estímulo espetaculares e aproximar-me de uma parcela
ao espaço público e para a redução dos danos físicos da população que padece com o estigma e o
que hoje são causados pelo movimento das drogas e preconceito, sendo-lhes negados muitos dos seus
da especulação imobiliária vinda do movimento do direitos como cidadãos. Percebi que é preciso
urbanismo corporativo. encarar o uso de drogas no espaço público não
apenas como um problema de saúde ou como uma
Boias urbanas fixas funcionariam durante
questão de polícia, mas buscando compreender
todo o dia e noite, promovendo redução de danos
a complexidade das situações vivenciadas nesse
para toda a população e os espaços que as cercam.
contexto urbano. A lógica atual de lidar com as
A seguir, projeções das bóias urbanas no bairro
questões trazidas pelo uso problemático de drogas
Dois de Julho.
como o crack apenas agrava a impermeabilidade e
Boias móveis, que se assemelham a carrinhos guetificação de certas áreas urbanas.
tradicionalmente fabricados por ambulantes
132

Boia urbana fixa de conformação mínima na esquina da Rua do Sodré e a Rua do Cabeça

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Boias fixas na Ladeira da Preguiça – dia e noite,
respectivamente

133

Boia móvel na Ladeira da Preguiça – noite

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Boia fixa + boia móvel no CAPS-Rua na Carlos Gomes

134

As reflexões e intervenções propostas nesse urbanístico como uma nova forma de pensar a
estudo são contrárias ao afastamento e omissão cidade e os danos que a ela são causados, aliado ao
hoje promovidos pelo poder público. Penso que é esforço e atenção do Estado, certamente produziria
preciso haver a aproximação e atenção a essas pes­ melhorias nas condições de vida das pessoas que
soas que, em muitos casos, estão sob grave situação habitam lugares como o bairro do Dois de Julho. ­
de exclusão e miséria, para então ir dissolvendo-se Esse trabalho buscou também lançar uma
o estigma que segrega ainda mais essas pessoas e nova luz ao modo como muitos arquitetos pensam
os espaços da cidade em que esses corpos resistem. (ou não pensam) a vida urbana em seus projetos,
O planejamento urbano atento e responsável, que negligenciando uma complexa rede de relações
aplica o conceito de redução de danos no campo sociais permeadas por influências e culturas

Book 1.indb 134 25/9/2012 13:20:27


CAPS - Rua interligação entre Av. Carlos Gomes e Rua do Sodré

135

distintas, sem es­tabelecer qualquer diálogo com a Notas


totalidade e multiplicidade de contextos urbanos 1
Trabalho final de graduação defendido na Faculdade de Arquitetura
diversos que lhes são apresentados. Assim, a cidade da UFBA. Banca: Akemi Tahara, Francisco de Assis da Costa, Paola
tem sido bombardeada, sistematicamente, com Berenstein Jacques (orientadora) e Silvana Olivieri.
projetos insólitos e descontextualizados, no qual as 2
Os nomes utilizados são fictícios.
pessoas estão sempre subjugadas às edificações, aos 3
Proposta do plano urbanístico previsto para o bairro dois de
automóveis e aos interesses do capital. Julho intitulado Cluster Santa Tereza. Disponível no site www.
skyscrapercity.com/showthread.php?t=615255. Acesso em: 15 de
Hoje, apesar de já concluída a etapa final do
setembro de 2011.
meu trabalho final de graduação, estou certa de que
apenas cheguei ao começo desse estudo.
4
CAPS são Centros de atenção psicossocial. Existe também o
CAPS-AD, que ó o Centro de Atenção Psicossocial para álcool e
outras drogas.

Book 1.indb 135 25/9/2012 13:20:29


ANDRADE, Tarcísio Mattos. Redução de danos: de crack no Centro Histórico de Salvador. 2010.
um novo paradigma? In: TAVARES, Luiz Alberto. Monografia. (Graduação em Antropologia) –
Drogas: tempos, lugares e olhares sobre o consumo. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas,
Salvador: EDUFBA, 2004. Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2010.
BERENSTEIN, Paola. Corpografias Urbanas, o MINISTÉRIO DA SAÚDE. Saúde mental no SUS:
corpo enquanto resistência. Cadernos PPGAU- os centros de atenção psicossocial. Secretaria
FAUFBA, Salvador, 2007. de Atenção à Saúde, Departamento de Ações
136 Programáticas Estratégicas, Brasil, 2004.
COLETIVO POLÍTICA DO IMPOSSÍVEL. Uma
investigação-ação no centro de São Paulo. São MOURAD, Laila. O processo de gentrificação do
Paulo, 2008. centro antigo de Salvador 2000 a 2010. 2010
Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo), –
DE BOISCULLÉ, Chilpéric. Balise urbaine:
Faculdade de Arquitetura, Universidade Federal da
nomades dans la ville, Besançon, Les Editions de
Bahia., 2010.
L’Imprimeur, 1999.
NERY, Antonio; LEITE, Andréa. Módulo para
DEPARTAMENTO DA POLÍCIA FEDERAL –
capacitação dos profissionais do pro­jeto consultório de
Superintendência Regional de Pernam­buco em
rua. Salvador, 2010.
NOTA À IMPRENSA 054/2011.
RODRIGUES, Thiago. Política de drogas e a lógica
LOPES, Jana. O transbordar da rua: a apropriação
dos danos. Revista Verve, São Paulo, n. 03, 2003.
do espaço público pelos mora­dores de rua. 2010.
Monografia (Graduação em Arquitetura) – SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e
FAUFBA, Salvador, 2010. tempo, razão e emoção. São Paulo, Edusp, 2006.
MALHEIRO, Luana. Entre sacizeiro, usuário e VIDAL, Sérgio. Cannabis Medicinal: introdução ao
patrão: um estudo etnográfico sobre consumidores cultivo indoor. Salvador: Edição do autor, 2010.

Book 1.indb 136 25/9/2012 13:20:32


ferramentaria

Ícaro Vilaça* No imaginário dos soteropolitanos, Alagados


remete à memória das palafitas, nome pelo qual
Cine-Teatro-Rua conhecemos os barracos de madeira apoiados em
estacas sobre a Enseada dos Tainheiros. Até hoje, os
Possibilidades para o moradores mais antigos do bairro frequentemente
fim-de-linha do Uruguai1 relatam, apontando para o chão: “aqui era tudo
maré”. As primeiras palafitas surgiram no final da
década de 1940 e permanecem até os dias atuais,
em paralelo aos aterros e inúmeras intervenções
realizadas pelo Estado.
Minha aproximação com Alagados se deu por
conta do Atelier2 coordenado por Paola Berenstein
Jacques e Eduardo Carvalho, que elegeu o bairro
como laboratório. O processo de pesquisa e de
interlocução com os moradores evidenciou, a relativa
estabilidade de determinados limites internos,
137
que apesar de não estarem fisicamente colocados,
se operam com força surpreendente, reduzindo a
permeabilidade e a possibilidade do encontro
(e, portanto, da troca) entre os que moram no miolo
do bairro e os que moram na borda, sobretudo na
área conhecida como “Maré”, próxima ao Fim-
de-linha do Uruguai. Engendradas a partir dos
processos de subjetivação dos moradores, essas
territorialidades (apesar de vivas e transitórias)
condicionam a permanência, a ausência, os
percursos e os desvios.
Naquele momento, o trabalho acabou
arquiteto-urbanista, graduado Faculdade de Arquitetura
*
apontando para uma atuação micropolítica capaz
UFBA

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urbanística capaz de pensar a cidade a partir do
campo, tendo como base a noção de experiência,
a relação com o outro e o engajamento direto do
arquiteto-urbanista no processo.
Depois de um ano trabalhando no bairro,
imaginei que o Trabalho Final de Graduação seria
uma oportunidade interessante para estruturar um
desdobramento daquela experiência. Desafiei-me a
pensar um projeto urbano “processual”, concebido a
partir do agenciamento dos desejos coletivos, para
contrapor os projetos espetaculares com os quais
estamos acostumados. Para tanto, elegi como foco
do trabalho a reestruturação urbanística do Fim-de-
Palafitas em Alagados. linha do Uruguai (um dos únicos espaços livres do
bairro, que permanece subutilizado durante quase
todo o dia) e a reativação do Cine-Teatro Alagados,
em ruínas há pelo menos 20 anos.
de desestabilizar estes limites internos, a partir da
Uma intervenção como essa, além de reforçar
percepção de que interferir em espaços vividos,
uma necessária política de descentralização no
através da construção de determinadas situações,
acesso a áreas urbanas bem infraestruturadas,
poderia ser tão potente quanto o desenho de
poderia ser capaz de criar as condições de
espaços físicos.3 Este processo, que culminou com
possibilidade necessárias para o reforço das relações
a “ação piscina” (ver imagem), apontava para a
de permeabilidade entre o próprio bairro e a cidade
possibilidade de construção de uma metodologia
de Salvador.

138

Cartografia realizada a partir da


sobreposição dos relatos dos moradores
do miolo e da borda de Alagados.
As regiões de cor quente são mais
permeáveis que as de cor fria.

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“Ação Piscina”: montagem de piscinas de plástico, com a ajuda dos moradores, para estimular o uso público de espaços
que não são frequentados, abrindo caminho para o desejo de novas configurações físicas e simbólicas para esses espaços

O objetivo seria então repensar o Fim-de- que opera o desejo. Dos jogos que lidam com a
linha do Uruguai e o Cine-Teatro Alagados para construção de imagens, talvez o quebra-cabeça seja
que eles se convertam em espaços capazes de o mais comum. Seria o jogo perfeito, mas com uma
oferecer as condições necessárias para dar suporte diferença fundamental: o quebra-cabeça articula a
a um uso público intenso e diverso, permanecendo construção de uma imagem já planejada, o que o
abertos para a explicitação dos dissensos e jogador faz é tão somente a reconstituição desta
configurando-se não como vazios, mas como cheios imagem. A partir daí, comecei a pensar um quebra-
de possibilidades. Para tanto, era fundamental levar cabeça que possibilitasse a construção de várias
em conta o desejo das pessoas que configuram e imagens e não da imagem. Um quebra-cabeça em 139

reconfiguram cotidianamente estes espaços como aberto, capaz de cartografar o desejo, de indicar
ponto de partida para o trabalho. Era preciso, vários caminhos, cenários possíveis para o Fim-de-
portanto pensar numa tática para enfrentar linha do Uruguai.
o problema de como projetar a partir da Mas nesse caso, o que as peças do quebra-
interlocução com o outro. cabeça poderiam ser? Comecei a pensar no pixel.
A experiência em Alagados já apontava Com o advento do computador, as imagens
para a potência do jogo como um instrumento passaram a ser compostas por infinitos pontos
capaz de instaurar uma situação de troca entre os de cor que, agrupados desta ou daquela maneira,
pesquisadores e os moradores do bairro. Mas e acabam definindo contornos e sugestões de volume.
agora, que jogo seria? Teria que ser um exercício de Quanto mais nítida for a imagem (quanto maior
imaginação, um jogo que possibilitasse “imaginar a resolução), mais pixels ela tem. Hoje em dia, as
junto”. Pensando um pouco, essa ação de “imaginar” imagens publicitárias costumam ter muitos pixels.
me fez pensar na imagem como dispositivo É compreensível. Querem apresentar nossos futuros

Book 1.indb 139 25/9/2012 13:20:33


Canteiro central do Fim-de-linha do Uruguai, espaço importante Cine-teatro Alagados em ruínas
que permanece subutilizado ao longo de todo o dia

objetos de desejo com a maior nitidez possível, começavam a se formar. Havia alguns dados em
para que saibamos diferenciar bem um iphone branco para registrar desejos que não haviam sido
de um celular comum. Mas no caso de Alagados previstos.
é bem diferente. Aqui não estamos falando de Foram 12 jogos no total, e os resultados foram
desejos enlatados, mas de desejos a ser construídos. surpreendentemente parecidos. O jogo se revelou
Estamos falando de imagens imprecisas, hesitantes, um dispositivo interessante porque permitia
borradas, pixeladas. Imagens em processo. estabelecer uma linguagem comum. Apesar de em
Portanto, que pixels seriam esses? Luz, sombra? geral as imagens terem sido compostas de forma
140 Silêncio, ruído? Cimento, terra, grama, madeira, abstrata, apenas como “composições” dos signos
água? Espaço livre, comércio, cine-teatro? Planta, nos dados, alguns jogadores foram mais cuidadosos
bicho, criança, adulto, velho? Lixeira, banco, mesa, com as relações entre as peças do quebra-cabeça.
brinquedo, poste? E polícia, será que precisa? Uma senhora me surpreendeu ao mudar de lugar
Fui buscar as respostas em campo, com o um dado que retratava um banco de praça, achando
quebra-cabeça em mãos. Apesar de já saber que que ele ficaria melhor ao lado da área gramada, para
os resultados seriam fragmentários e imprecisos, que ela pudesse “ficar olhando as crianças”.
eles seriam importantes para indicar alguns Em geral todos os jogos enfatizaram o desejo
caminhos e cenários possíveis para o Fim-de-linha por grandes áreas verdes ensolaradas, presença de
do Uruguai. Caminhando uma pouco com o jogo, árvores, equipamentos como banheiros públicos,
fui encontrando pessoas dispostas a conversar. Os lixeira, ponto de ônibus e policiamento. Grande
moradores eram convidados a “imaginar como o parte dos jogadores também relatou que o novo
Fim-de-linha do Uruguai poderia ser”. Depois eu Fim-de-linha deveria ser ruidoso ao invés de
mostrava os dados do quebra-cabeça e as imagens silencioso e deveria contar com camelôs ou pelo

Book 1.indb 140 25/9/2012 13:20:36


Jogo dos Desejos em Alagados

Possibilidades para o Fim-de-linha do Uruguai:


área verde bastante ensolarada, cheia de
gente, calçadas, bastante iluminação natural e
artificial, piscina, crianças, policiamento, feira,
“delicatessen de qualidade”, barzinho “de
família”, sorveteria, creche, quadra de esportes

141

Book 1.indb 141 25/9/2012 13:20:38


Reestruturação viária proposta a partir da retirada do Fim-de-linha Consolidaç

menos com vendedores ambulantes. Os jogadores


foram unânimes em relação ao desejo de reabrir o
Cine-teatro Alagados.
Pensando na possibilidade de planejar um
processo ao invés de uma intervenção fechada
numa lógica antes/depois, comecei a definir uma
primeira configuração que estrutura a intervenção
142 e pelo menos mais dois momentos posteriores
que seriam na verdade possíveis desdobramentos
desta primeira configuração. Os intervalos entre os
diferentes momentos da intervenção efetuariam a
possibilidade de que os usos e a própria percepção
dos moradores em relação ao espaço promovam
desvios neste planejamento.
Portanto, as configurações subsequentes à
primeira seriam apenas propostas preliminares
de projeto, uma vez que não é apenas possível,
mas desejado que haja modificações à medida
que os usos “atualizem” a intervenção proposta
inicialmente. Possibilidades de uso do Cine-teatro-rua, por Amine Portugal.

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-de-linha Consolidação estrutural da casca do Cine-teatro Alagados

143

Possibilidades de uso do Cine-teatro-rua, por Fábio Steque

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Nessa perspectiva, as interferências mais um, de forma a estimular uma grande diversidade
importantes a serem realizadas num primeiro de usos. Crianças poderiam utilizar os MCS para
momento dizem respeito à reestruturação viária tomar banho de mangueira ou encher piscinas
do Fim-de-linha, visando estabelecer uma grande de plástico, vendedores ambulantes e camelôs
área verde no bairro (desejo quase unânime dos poderiam “plugar” suas barracas e carrinhos na
moradores) e a retomada imediata do Cine-teatro rede elétrica, artistas de rua teriam possibilidade de
Alagados, fazendo com que ele passasse a abrigar fazer performances que demandam equipamentos
atividades culturais sem negá-las em seu caráter eletrônicos, os moradores poderiam instalar
público e aberto para o bairro. O objetivo seria equipamentos de som ou mesmo televisões no
então promover uma ocupação imediata deste final de semana. Com o passar do tempo, alguns
espaço, promovendo então sua requalificação destes usos acabarão se consagrando, podendo ser
gradual a partir dos usos que serão experimentados consolidados nas etapas posteriores.
aí. Para tanto, a intervenção deverá se pautar pela Conforme dito pela arquiteta Silvana Olivieri,
consolidação estrutural da “casca” do Cine-Teatro que acompanhou o desenvolvimento do trabalho,
Alagados, onde ao mesmo tempo seriam criados este projeto aponta para a ideia de um “urbanismo
alguns vazios de forma a promover uma grande pouco a pouco”. Nessa perspectiva metodológica,
permeabilidade com o ambiente externo, criando o lugar é pensado a partir de sua potência de uso.
um espaço que se comporte ao mesmo tempo como Ao contrário dos projetos espetaculares, cheios de
dentro e fora, cine-teatro e praça. Com isso, a “casca” falsas certezas e determinações, neste urbanismo
do Cine-Teatro poderá então ser utilizada interna “em processo” os espaços se configuram pouco a
e externamente, abrigando espetáculos dos grupos pouco, comportando-se como campo aberto de
artísticos da comunidade, exibições de filmes e o possibilidades.
que mais for possível.
Notas
Naturalmente, também é extremamente
importante que as intervenções no Fim-de-linha do 1
Trabalho final de graduação defendido na Faculdade de
Uruguai sejam acompanhadas por investimentos Arquitetura da UFBA. Banca: Eduardo Teixeira de Carvalho, Naia
Alban, Paola Berenstein Jacques (orientadora) e Silvana Olivieri.
144 em infraestrutura (macrodrenagem, redes de água
e esgoto), além da pavimentação de calçadas e
2
Disciplina de projeto da graduação em Arquitetura e Urbanismo
na FAU-UFBA.
arborização dos mais diversos espaços, visando
superar precariedades que já perduram por décadas. 3
Segundo Daniela Brasil, “se pensarmos que as cidades são
materiais e imateriais, que são feitas de situações, encontros e
Além disso, nos novos espaços projetados, práticas, atuar e interferir em ‘espaços vividos’ pode ser mais
seriam instalados em diversos lugares dispositivos efetivo do que desenhar e planejar ‘espaços físicos”. Dessa forma,
provisoriamente chamados de Módulos de ela propõe “uma apologia ao microurbanismo e aos pequenos
gestos cotidianos: urbanismo pode ser aqui e agora”. (FESSLER
Construção de Situações (MCS), que na verdade VAZ, Lilian; ANDRADE, Luciana; GUERRA, Max Welch. Os espaços
consistem tão simplesmente em pontos de água e públicos nas políticas urbanas: estudos sobre o Rio de Janeiro e
eletricidade que poderão ser utilizados por qualquer Berlim. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008.)

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ferramentaria

Diego Mauro*

Morar na
Carlos Gomes
Possibilidades e limites para
a habitação de interesse Este texto foi fruto de um Trabalho Final de
social no Centro1 Graduação (TFG) defendido no final de 2011 na
Faculdade de Arquitetura da UFBA, com o objetivo de
investigar as diversas formas de habitar que o centro
da cidade de Salvador acolhe e oferece. A escolha do
recorte da Carlos Gomes e seu entorno se deu por
dois motivos que serão apresentados a seguir.
Primeiramente, a escolha está relacionada
a coexistência de diversas formas de habitar,
numa relação extremamente embrincada e em
permanente tensão, que encontra rebatimentos no
145
espaço público. Estão presentes a classe média, por
meio de proprietários e inquilinos; os ocupantes
de edifícios ociosos, em parte associados a algum
movimento social de luta pela moradia; a população
em situação de rua e mesmo as pessoas que dormem
de sublocação ou nas ruas durante a semana, para só
então voltarem para sua casas nos finais de semana.
O outro motivo é a vitalidade do comércio
popular presente na região do Largo Dois de Julho,
na Rua Carlos Gomes e, sobretudo, na Av. Sete de
Setembro – no trecho compreendido entre a Praça
Castro Alves e o Campo Grande. Esse intenso
fluxo de pessoas e trocas – da odem dos afetos
* arquiteto-urbanista, graduado Faculdade de Arquitetura às mercadorias – oferecem a possibilidade de
UFBA

Book 1.indb 145 25/9/2012 13:20:43


Ed. Lord Cochrane

emprego e de locais de compra para grande parte de insegurança, que apareceu na maior parte
da população de baixa renda que mora nessa região. das conversas com moradores do local. Uma
Esse é o caso da ocupação do Edifício Lord, que possibilidade de solução para essa diferença tão
146 é um dos objetos deste trabalho. Some-se a isso expressiva entre dia e noite é intensificar o uso
o fato do Centro ser extremamente bemdotado habitacional de forma a balancear a proporção entre
de infraestrutura e de diversos equipamentos comércio, serviços e residências.
públicos. Portanto, aí se constitui um contexto É importante lembrar que a unidade
urbano altamente favorável à habitação, sobretudo habitacional constitui apenas uma parte da
à habitação popular. questão da habitação. Na realidade, este trabalho
Mesmo que existam essas variadas formas vem justamente no sentido de reforçar a ideia do
de morar no Centro, essa região ainda apresenta habitar como um campo expandido da unidade
o seu dinamismo eminentemente relacionado ao habitacional, como uma teia de relações que se
comércio e serviços, o que causa um descompasso espalha e necessita da cidade. Uma casa com boa
entre a vitalidade ao longo do dia e a sensação de infraestrutura mas desprovida de um contexto
abandono quando chega a noite. O resultado da favorável é uma séria candidata a ser mais um
“morte” do Centro nesses horários é a sensação problema que uma solução.

Book 1.indb 146 25/9/2012 13:20:44


Ed. Lord Cochrane com a região dos Aflitos ao fundo

LORD outras famílias foram encaminhadas para os


O Ed. Lord Cochrane foi abandonado ainda conjuntos Bromélias, relativamente próximos do
na sua fase de construção – quando cerca de 80% conjunto anterior, porém em um contexto ainda
da obra já estava finalizada – e permaneceu sem menos consolidado, no que resulta ainda hoje em 147

uso por cerca de 40 anos. Em 2007, ele foi ocupado dificuldades para as famílias acessarem serviços
por cerca de 97 famílias integrantes do Movimento públicos básicos, dentre outros muitos problemas.
Nacional de Luta pela Moradia (MNLM). Por meio Diante dessa desocupação tão acelerada, a
de uma ação de reintegração de posse movida por possibilidade de iniciar um processo participativo
um dos herdeiros do imóvel, os ocupantes se viram com os moradores do Lord para elaborar um projeto
obrigados a deixar a ocupação, e a grande maioria no próprio edifício, estruturando os apartamentos
das famílias que ali vivia foi relocada para conjuntos de acordo com a necessidade de cada família, se
do Programa Minha Casa Minha Vida(MCMV) na tornou inviável. Mesmo assim, o fato do Lord estar
periferia. sendo devolvido aos seus proprietários que nunca o
No início de 2011, as primeiras famílias utilizaram não parece ser uma resposta pertinente
estavam deixando o Lord para ir para o Recanto a tantos anos de luta dessas pessoas por uma
das Margaridas, um conjunto do MCMV nas moradia digna e bem-localizada no contexto urbano.
proximidades do Aeroporto. Alguns meses depois,

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O jogo consistia em 24 cartas que iam sendo desviradas pelo
interlocutor-jogador

Portanto, o Lord é pensado, neste trabalho, como


edifício destinado à habitação de interesse social. Mapeamento de Líria

DESDOBRAMENTOS
Aqui serão apresentados dois dos quatro
mapeamentos desenvolvidos a partir dos jogos-
conversa feitos com moradores do Centro.
O primeiro mapeamento é de Líria (inquilina do
Largo Dois de Julho), e o segundo, de um grupo de
moradores de rua que se encontrava nas imediações
148 da Praça da Piedade. A primeira conversa foi
mediada por perguntas pré-estabelecidas e
um mapa do Centro. Entretanto, essa tática de
interlocução logo foi modificada para o formato de
um jogo simples, que consistia em cartas contendo
elementos que se pretendia investigar com relação
ao Centro e que iam sendo desviradas pelo
interlocutor à medida que o jogo se desenrolava.
O objetivo destes mapeamentos era entender
como se dava a relação dos jogadores com o
Centro, isto é, o habitar expandido de cada um dos
interlocutores, indicando os percursos e lugares
mais comumente frequentados. Com isso, era Mapeamento dos moradores de rua
possível ainda entender um pouco das tensões

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149

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presentes nesses espaços, através dos lugares ou Av. Contorno. Na realidade, os moradores de rua são
percursos evitados em algum horário ou mesmo hostilizados, sobretudo pelos policiais, em lugares
onde não se podia ir, em nenhum horário. que são frequentados pelos outros interlocutores.
150
Na maior parte das conversas, a sensação de O Campo Grande, por exemplo, que aparece como
insegurança apareceu durante a noite, resultado do uma referência de lazer para a maioria das pessoas, é
fechamento do comércio e esvaziamento das ruas. intransponível para os moradores de rua. Já a Praça
É interessante notar que os lugares mais evitados da Piedade aparece como um verdadeiro campo de
para a maioria dos interlocutores não correspondem tensões: mesmo sendo vítimas de hostilidade pelos
às áreas que os moradores de rua não podem policiais, os moradores de rua não abrem mão dessa
percorrer. Como exemplo, podemos citar a Rua do região, por ser um lugar importante para realizarem
Sodré, que a partir do Convento de Santa Tereza trabalhos rápidos, receberem trocados e mesmo
se torna um ponto de venda e consumo de drogas, alimento de grupos beneficentes. O Largo Dois
sobretudo do crack. Esse trecho é praticamente de Julho foi um dos poucos lugares considerados
instransponível para a maioria dos interocutores, seguros à noite por todos os interlocutores, devido à
enquanto que os moradores de rua fazem esse intensa vida noturna.
percurso para tomar banho na fonte da Preguiça, na

Book 1.indb 150 25/9/2012 13:21:02


Proposta para o Lord e edifício anexo,
Galeria interna do Lord e edifício anexo,
Terraço do edifício anexo interligado com o Lord,
respectivamente

DIRETRIZES famílias residentes pagariam um aluguel social


As conversas e as minhas próprias percepções ao Estado. Essas medidas visam assegurar a
como usuário da Carlos Gomes e seu entorno permanência das classes mais pobres no Centro,
151
foram o ponto de partida para estabelecer algumas visto que esses imóveis não poderão ser vendidos
diretrizes de acordo com esse habitar expandido. diante da sua valorização.
É preciso destacar que grande parte das questões É fundamental prever equipamentos
indicadas pelos mapeamentos seria contemplada específicos voltados aos grupos social e
com o incremento de moradias no Centro, servindo economicamente mais frágeis: a população
para intensificar essa utilização da região durante as em situação de rua, os ocupantes de edifícios
noites e domingos. abandonados e ainda os estudantes que
necessitam de residências universitárias.
A proposta, dessa forma, é a destinação pelo
poder público dos seus imóveis e a aquisição de Com relação ao caráter de “fundo” que a Carlos
outros imóveis sem utilização para a habitação de Gomes apresenta em relação à Av. Sete, a proposta
interesse social integrada com usos compatíveis é de utilizar uma faixa de veículos para alargar a
(uso misto). Assim, seria possível tratar a questão calçada do lado do Dois de Julho e do Lord, lado
habitacional como um serviço social,2 onde as de maior fluxo e onde se encontram os pontos
de ônibus. Com isso, garante-se espaço para uma

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arborização adequada, com uma calçada confortável duas áreas da Carlos Gomes, no intuito de explorar
que ofereça maior possibilidade para qualquer tipo algumas possibilidades de tratar a questão da
de apropriação por parte dos moradores, passantes habitação de interesse social no Centro.
e comerciantes.
LORD E ANEXO
Essas diretrizes se articulam diretamente
com outras propostas levantadas por Jamile Lima3 O projeto para o Lord se desenvolve a partir da
para a região do Dois de Julho, Carlos Gomes e Av. desapropriação de dois terrenos: um terreno vazio
Contorno. Estão previstos o incremento do uso que serve de estacionamento e uma loja que fica entre
habitacional na Ladeira do Sodré; a Construção o Lord e esse estacionamento (a loja foi construída
de um CAPS-Rua na Carlos Gomes; um centro de sobre uma das rampas de veículos do prédio). A
reciclagem e uma faculdade de gestão ambiental proposta mantém a mesma relação do Lord e dos
no Dois de Julho; um parque-sucata; um mirante e edifícios vizinhos com a rua, isto é, de construções
bares no Dois de Julho e sua área de encosta; além coladas umas às outras e sem recuo frontal. O edifício
da reconversão de um píer para banho na Praia da anexo atua, ainda, reforçando as características
Preguiça. A seguir, serão apresentados projetos para modernas do Lord, uma vez que este parece

152

Corte esquemático do Lord


e do edifício anexo

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deslocado diante desse trecho da rua constituído por habitacional no Centro. A proposta é a desapropriação
uma tipologia de casas e pequenos prédios. de uma área nas proximidades do Largo dos Aflitos,
O Lord será recuperado para receber as que atualmente funciona como posto de gasolina e
famílias que o ocuparam e os apartamentos serão que ocupa uma parte reduzida do lote.
adaptados às especificidades de cada família. Na A casa de acolhimento é dividida em duas
realidade, as possibilidades de configuração dos partes. A primeira delas se localiza no 1º andar e é
apartamentos são inúmeras, como os próprios uma área mais restrita, destinada a quem deseja uma
ocupantes do Lord já mostraram, por meio das cama para passar a noite. A outra parte, mais pública,
adaptações que eles mesmos fizeram para adequar se desenvolve no térreo e são oferecidos serviços
o edifício às suas necessidades. como guarda-volumes e uma lavanderia com um
quintal onde se encontram varais e um canil.
CASA DE ACOLHIMENTO
No subsolo se encontra um estacionamento
O segundo projeto é uma casa de acolhimento para carrinhos de camelôs, catadores de lixo e
para a população em situação de rua, bem como automóveis. O sanitário público, juntamente
uma série de equipamentos que dão suporte ao uso com o restaurante popular, no térreo, são dois

153

Vista da praça da casa de acolhimento

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equipamentos fundamentais para toda a população
do entorno.
Este conjunto de projetos busca suprir as
necessidades básicas dos usuários e moradores da
Carlos Gomes, dotando de um mínimo de qualidade
de vida milhares de pessoas que habitam e circulam
pelo Centro diariamente.

Notas
1
Trabalho final de graduação defendido na Faculdade de
Arquitetura da UFBA. Banca: Clara Passaro, Laila Mourad, Naia
Alban e Paola Berenstein Jacques (orientadora).
2
CERVELLATI, Pier Luigi; SCANNAVINI, Roberto. BOLONHA: Por
que o centro histórico? In: FORTI, Reginaldo (Org.). Marxismo e
urbanismo capitalista. São Paulo: Lech, 1979.
3
Ver o TFG de Jamile Lima Os usuários do Dois de Julho: Vista interna da casa de acolhimento.
encarando o uso de crack no espaço urbano, defendido também Acesso para a área mais restrita
em 2011. N.E. artigo publicado neste mesmo número 10 da
revista ReDobRa.

154

Esquema da casa de acolhimento

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155

Vista do quintal da casa de acolhimento

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ferramentaria

Clara Passaro*

Dos espaços de Onde é aqui? (pesquisadora-antropóloga)


Aqui é o Conjunto Mendes de Moraes. (passante-
apropriação morador)
O Minhocão de São Cristóvão1 Ah, sim. Aqui é o Pedregulho. (pesquisadora-
arquiteta)
Não, não. Pedregulho é aquele largo ali mais pra
frente, tá vendo? Você sai pela saída de baixo e vira
à direita... (passante)
Tá, entendi. Então, quando eu chego pro taxista e
peço pra ele me trazer no Pedregulho ele me leva
pro lugar errado, se eu peço pra ele me trazer no
Conjunto Mendes de Moraes ele não vai saber...
(pesquisadora)
Ah! Não. Mas você tem que falar pro taxista que
156 está indo pro Minhocão. Olha lá de longe e aponta.
Ele te traz direto aqui. Aí todo mundo conhece.
(morador-passante)
Minhocão, então? (pesquisadora)
Isso, mas fala pra ele que é no Minhocão de São
Cristóvão, perto da CADEG, porque senão ele
te leva lá bem longe na Gávea, que tem outro
Minhocão. (morador)
Você conhece esse outro minhocão? (pesquisadora-
curiosa)

* arquiteta e urbanista, mestre PPG Arquitetura e (Conversas de corredor durante a experiência de


Urbanismo UFBA campo em janeiro de 2010).

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Corredor do Minhocão. À esquerda, os novos “cobogós” financiados pelos moradores,
no lugar do modelo antigo. Foto da autora.

MINHOCÃO DE SÃO CRISTÓVÃO certas vezes, para poder realizar e tentar abarcar a
E MAIS OUTROS NOMES complexidade dos encontros.
O conjunto habitacional em estudo nesta Pedregulho é o nome próprio utilizado pelos
pesquisa apresenta três nomes: Pedregulho, estudiosos do movimento moderno para identificar
Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes esta obra de arquitetura. Foi escolhido porque o
e Minhocão de São Cristóvão. Os nomes são conjunto localiza-se nas proximidades do Largo do
alcunhas, apelidos, rótulos. São como disfarces ou Pedregulho. É o primeiro nome. Veste-se. Affonso
máscaras que podem esconder uma “verdadeira Eduardo Reidy (1909-1964) foi o arquiteto autor
identificação”.2 Esconder ou duvidar dela? da obra arquitetônica e grande personalidade do
Questioná-la. Afinal, estes três nomes coexistem. Movimento Moderno no Rio de Janeiro. “Participou
Por vezes, um se destaca e outro se esconde, em ativamente das duras lutas do período heróico
outros momentos é necessário dizer dois deles para, de 1930”. (BRUAND, 1997, p. 223) O projeto do
mais claramente, identificar o conjunto, outros Conjunto Habitacional Pedregulho nasce como
casos não se usa nenhum e parte-se para uma ícone mundial da arquitetura moderna, sendo 157
expressão “lá onde eu moro”. a realização da utopia do movimento moderno,
Nomear é separar. Dar um nome a algo/alguém guarda para si esta “alcunha” e este reconhecimento
é um “rito” de escolha e todo nome carrega em si para o resto de seus dias, mesmo antes de ser
este processo de separação. Assim, respeitando seus construído efetivamente, e mesmo depois de
respectivos nomes, cada nome/capítulo3 colocou ter seu aspecto (des)configurado pelo uso, em
seu traje, costume, fantasia e direcionou-se para aproximadamente cinquenta anos de existência.
o sentido de uma separação. Cada nome/capítulo O Conjunto Residencial Prefeito Mendes
vestiu-se de acordo com as exigências de seu de Moraes (CRPMM) rememora o general Ângelo
título e “eu só quero mesmo é saber de mim”. Bela Mendes de Moraes,4 prefeito da cidade do Rio
tentativa. Porém, seu êxito maior, e que corresponde de Janeiro nos anos de 1947 a 1951. Ele foi o
ao investimento desta pesquisa, é perceber que as administrador que mais investiu financeiramente
coisas não são lá bem assim: isoladas, imediatas, na construção deste conjunto habitacional que leva
essenciais. Mas precisamos dessa simplificação, o seu nome. O CRPMM existe principalmente no

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papel, entre contratos, regulamentações e folhas todo o restante, tudo o que não respeita esse filtro
de pagamento. Ele consta nas atas dos órgãos de separação). Pode-se afirmar que lembrar é
públicos e seu processo é determinado pelas esquecer. Logo, o que foi preciso esquecer para que
gestões municipais, estaduais e federais através, Pedregulho fosse lembrado?
principalmente, de decretos-lei. O terceiro nome, Minhocão de São
CRPMM recorda a atuação do Estado Cristóvão, é uma expansão. Para ela acontecer,
dentro da produção de habitação para população onde normalmente há pouco espaço para isso,
de baixa renda que constrói o conjunto através infiltra-se; os codinomes desdobram-se. Mas, antes,
do DHP,5 caracterizado pela adoção do aluguel multiplicam-se, para então fixar Minhocão, e focar
social e pela presença dos assistentes sociais seus espaços de habitação - quando encarna um
como intermediadores entre o poder público e estudo do espaço a partir de um movimento: a
os moradores. Sua construção foi finalizada treze APROPRIAÇÃO.
anos depois do projeto de 1947, durante o governo
Lacerda,6 e é ocupado. Seus moradores se colocam APROPRIAÇÃO COMO INFILTRAÇÃO:
à espera de um retorno por parte do governo: trocando máscaras de arquiteta, curiosa,
o responsável pela gestão7 do conjunto, pela pesquisadora, artista e antropóloga
manutenção8 dos seus espaços e administração dos A cineasta e documentarista Agnès Vardá
seus equipamentos (escola, lavanderia e posto de delicadamente exibe-se em seus vídeos. Um corpo
saúde). Que pouco acontece. O Conjunto Mendes entre o objeto da cena filmada e os espectadores,
de Moraes e se deixa gerenciar “às sombras”. com preferencias estéticas e sensibilidade poética,
Se nomear é separar, Pedregulho só é um corpo maduro que tem caminhos a percorrer –
Pedregulho9 a partir de uma escolha (para por isso os caminhões. Sua voz não se enche com
quando olhar? Dar a luz a que momento de seu a verdade certeira, mas alcança o que suas mãos
percurso?), uma separação (de que forma olhar? encontram.
Utilizando quais lentes? Quais documentos?) e, O nome “Minhocão de São Cristóvão”
assim, um esquecimento fundamental (esquecer é legitimizado a partir do momento em que
158

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o pesquisador decide se colocar em campo e de críticos de arte como colaboradores, para
para pesquisa empírica. Por contaminações da “lançar foco para a recuperação simbólica
postura de alguns antropólogos,10 em estudos e estrutural do edifício”.17 A partir dele, fui
etnográficos11 ou na “observação participante”12 convidada, através de Paola Jacques, para
(que investem na análise e apreensão de seus participar em parceria como arquiteta
objetos de pesquisa a partir de uma vivência direta colaboradora de uma das residências.
e uma convivência mais dedicada no ambiente em O pesquisador, aqui, assumiu uma postura
que a investigação se insere), espera-se, com esta híbrida. Com o consentimento do grupo de artistas
imersão, um olhar para o seu tempo lento e um da Frente 3 de fevereiro, fez do apartamento 613
longo período de contato. a moradia dos artistas e também a sua, durante
A partir de 2002, novas movimentações os 20 dias da ocupação. Optou por um método
passam a agitar a vida do Minhocão dentro de de infiltração. Assumiu sua postura dúbia, tanto
uma outra configuração. Foi criado o Conselho para ela quanto para terceiros. Trocou e destrocou
Pró-Restauração do Conjunto Residencial Mendes suas máscaras de arquiteta, moradora, artista,
de Moraes13 com o objetivo de conseguir apoio pesquisadora, antropóloga, curiosa pessoa Clara
e patrocínio para a preservação do conjunto. Passaro que tem receios e desejos, assim como
Três documentários14 foram produzidos a partir hábitos e necessidades diárias. Misturou seus
de fomentos do Estado à cultura. Entretanto, a hábitos matinais durante os cafés da manhã nos
iluminação é, com um tom nostálgico,15 sobre corredores e conversas com vizinhos com uma
Pedregulho. atenção de pesquisadora que busca devorar os
Nesta dinâmica de atravessamentos, foi sinais insistentes.
selecionado pelo Edital Arte e Patrimônio 200916
HABITAR COMO tomar posse/ tornar
o projeto “Pedregulho Residência Artística”, que
público, como (de)morar, como
consiste na realização de quatro residências
esquecer, como opacidade, como
artísticas no conjunto, acompanhada de
mofo, como arquitetura biológica
profissionais da área de arquitetura/urbanismo
O texto abaixo, em itálico, foi escrito em 159

fevereiro de 2010 e consta no catálogo do projeto


de residência artística.

O desejo deste texto é tratar das apropriações que


os moradores fazem nos espaços do Minhocão –
com o simples cuidado de não mapear fisicamente
as alterações, exatamente para não congelá-las.
O que interessa é a ação, o verbo “apropriar-se”:
tornar próprio, tomar para si, apossar-se, adaptar.
Logo a pergunta: de quem é o Pedregulho?

Cenas do documentário de Agnès Varda “Os Catadores e Eu”


(Les Glaneurs et La Glaneuse)

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A inovação do projeto arquitetônico de Reidy Passados aproximadamente cinquenta anos, o
– além dos aspectos formais e construtivos poder público foi gradualmente se afastando de
– foi sua gestão idealizada pela engenheira suas responsabilidades. O Pedregulho, às sombras
Carmen Portinho, mulher de Reidy e diretora do do Estado e do mercado, foi recebendo outra
Departamento de Habitação Popular do então iluminação: a dada pelos moradores. As regras
Distrito Federal. Ela propôs dar ao Estado a contratuais foram sendo desrespeitadas e um novo
propriedade do Conjunto Mendes de Moraes e código de leis foi se criando por cima do contrato
a responsabilidade pelo fornecimento de água, comportadamente escrito. Uma cadeira que se
manutenção dos equipamentos e dos espaços esquece de noite na varanda, uma plantinha na
comuns. Enquanto os moradores – servidores janela, um cão de estimação. Os moradores foram
municipais – teriam a concessão de uso dos se dando uma liberdade com o espaço, encontrando
160
apartamentos: sua posse,18 mas não sua outra concepção de “morar” mais compatível com
propriedade. Por esse motivo, Carmen Portinho foi seus desejos menos óbvios, menos captados pela
acusada, por muitos jornalistas, de comunista. macrolente dos profissionais de habitação. Regras
invisíveis, leis de convivialidade. Um “bem-estar”
Estaria então instalada a vida moderna e acessível.
comedido, codificado, consensual foi dando espaço
Educação, saúde, esporte para todos. Como
a um “estar bem” com esta situação que foge de
garantia de manutenção da ordem, os futuros
um conceito de beleza universal de organização e
moradores deveriam respeitar o Regulamento para
limpeza visual, na direção de uma beleza tímida,
o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes,
individualizada, minuciosa, descompromissada,
no qual é vetado colocar qualquer objeto de uso
ativa (criativa).
pessoal ou doméstico nas paredes externas, peitoris,
galerias de acesso, gradis ou lugares de uso comum, Finalmente, “apropriar-se” como participação e não
lavar roupas nas unidades habitacionais, manter como propriedade.
animais de estimação dentro do apartamento.

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Deve ser pensada com muita delicadeza, portanto, 4
O prefeito Ângelo Mendes de Moraes Investiu o equivalente a
qualquer intervenção no “Minhocão de São 22 milhões de reais na construção de CRPMM, 44% dos gastos
realizados para construção. (COSTA, 2004, p. 90)
Cristóvão”. Um projeto de restauro19 é simplista
e desrespeitoso com questões históricas se não 5
O Departamento de Habitação Popular (DHP) foi um órgão
dentro da Secretaria de Viação e Obras da Prefeitura do Distrito
abarcar a questão da gestão e propriedade
Federal, na época era o Rio de Janeiro.
estatal. Assim como um projeto de reforma que
se inicie com a regularização fundiária (conceber
6
CRPMM vai receber investimentos de um Estado descrente
na construção do homem-novo e bastante dedicado à grande
a propriedade dos apartamentos) resultará num produção de unidades residenciais (sejam conjuntos unifamiliares
processo de gentrificação e expulsão dos atuais ou multifamiliares) e na distribuição das “chaves” (uma forma
moradores – ironicamente, dentro do projeto de propaganda eleitoreira era dar unidades residenciais para
seus simpatizantes políticos). Ficou conhecida como a “Era da
moderno mais conhecido de inserção social.
Massificação”, caracterizada por uma atuação da COHAB de
produção habitacional de menor qualidade, todavia em larga escala.
Uma última visita ao conjunto em agosto
de 2011 já o encontrou em obras20 e Mariana
7
O órgão do governo responsável pela gestão dos conjuntos
habitacionais construídos pelo DHP foi a Fundação Leão XIII, até
Baptista, moradora do 612, explica: “agora teremos 1978, quando passou para a CEHAB.
um valor mensal para o condomínio, a companhia 8
Através do Montepio dos Empregados do Estado da Guanabara,
de gás já está cobrando mensalmente pelo gás o Estado seria responsável pela manutenção e conservação dos
encanado... é pouco, mas nem todo mundo pode, espaços de uso comum.
quem mora na quitinete fica 4 meses com o 9
O conjunto é identificado por este nome por arquitetos e
mesmo botijão”. Esta pesquisa jamais dará conta historiadores, estudantes de arquitetura, turistas.
de resgatar o Minhocão e a vida mofo criativo21 10
A exemplo de Carlos Nelson Ferreira dos Santos (1981, 1985).
que o envolveu em tantos anos de opacidade.
Não se prende a isso. Mas joga para o alto esta 11
Alguns etnógrafos exploram a sua condição de “estrangeiro” e
desconhecedor de um saber local e único.
arquitetura da vida.22 A quem pegar.
12
Licia Valladares (2007) conceitua “dez mandamentos da
observação participante”, através da leitura de William Foote
Whyte (seu livro Street corner society, escrito em 1930).
Notas
13
O conselho é formado pela CEHAB (Companhia Estadual de 161
1
Dissertação de mestrado defendida no PPG Arquitetura e Habitação), IPHAN (órgão federal), INEPAC (órgão estadual),
Urbanismo UFBA. Banca: Ana Fernandes, Cibele Risek, Paola DGPC (Documento Geral de Patrimônio Cultural), SPU (Secretaria
Berenstein Jacques (orientadora). de Patrimônio da União), Fundação Leão XIII, o grupo AMA
2
A proposta de multiplicar os nomes de um único objeto de Pedregulho e o arquiteto Alfredo Britto.
estudos é uma apropriação da leitura da tese de doutorado de 14
“Lembranças do Futuro”, de Ana Maria Magalhães e
Drummond (2009) sobre a escrita historiográfica através de Pedregulho, O Sonho é Possível”, de Ivana Mendes.
Benjamin (1994a), principalmente no seu texto “Sobre o conceito
de História”, Foucault (2008) em “Nietzsche, a genealogia e a 15
Para Henri Pierre Jeudy (2005), esse excesso de conservação,
história” Michel de Certeau (2010). Questiona-se o estudo de um esse poder infernal das raízes pode anular a vida presente,
objeto através da identificação com sua “origem” e, a partir desta, destituindo-a de seus encantos, de como a excessiva exibição
desvendar uma identidade única e universal. patrimonial imobiliza a própria nostalgia e anula a aventura da
transmissão.
3
Nesta pesquisa, cada capítulo da dissertação final desenvolveu
um nome: Pedregulho, CRPMM e Minhocão de São Cristóvão. 16
O Edital Arte e Patrimônio teve sua primeira edição lançada em
2007 no programa Brasil Arte Contemporânea do Ministério da
Cultura em conjunto com o IPHAN, por meio do Paço Imperial,
com patrocínio da Petrobras.

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17
Trecho do projeto que foi selecionado pelo Edital.
18
Diferente do aluguel, o pagamento seria uma porcentagem do
salário descontada na folha de pagamento.
19
O Conjunto Habitacional Prefeito Mendes de Moraes é tombado
pela Secretaria de Patrimônio do Município do Rio de Janeiro
(Sedrepah) e é tema de um processo em tramitação no Iphan.
20
A obra foi dividida em duas etapas: a primeira é financiada pela
Secretaria de Habitação do Estado e consiste em obras estruturais
(reforma do telhado, conserto das infiltrações, instalações elétricas
e hidráulicas) e a segunda será obras de restauro. A regularização
fundiária só irá acontecer depois da reforma, pois não se
justificarão os investimentos do Estado para uma obra privada.
21
Ver “Manifesto do Mofo contra o racionalismo na arquitetura”,
escrito por Hundertwasser.
22
Arquitetura biológica é uma das criações artísticas de Lygia Clark.

BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil.


São Paulo: Perspectiva, 1997.
CERTEAU, Michel de. Invenção do Cotidiano. Artes
de Fazer. Petrópolis: Editora Vozes, 2008.
COSTA, Marcos de Oliveira. 2004. O Departamento
de Habitação Popular: política e habitação
entre 1946 e 1962. Dissertação (Mestrado
em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São
Paulo, São Paulo, 2004.
162
HUNDERTWASSER, Friedensreich. O Manifesto
do Mofo. In: Hundertwasser Architecture, Londres:
Taschen, 1997.
JEUDY, Henri-Pierre. Espelho das cidades. Rio de
Janeiro: Casa da Palavra, 2005.
SANTOS, Carlos Nelson Ferreira dos. Quando a rua
vira casa: apropriação de espaços de uso coletivo em
um centro de bairro. São Paulo: Projeto, 1985.
VALLADARES, Licia. Os dez mandamentos da
observação participante. Revista Brasileira de
Ciências Sociais v. 22, n. 63. São Paulo, fev.2007.
MINHOCÃO. THE BIG WORM. Direção: Raphael
Grisay. Financiado por CAPACETE e pelo Consulado
Francês. Video. Rio de Janeiro, 2011. (21 min.)

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ferramentaria

Carolina de Castro Anselmo

Experiências urbanas
conclusões de um processo no
Aglomerado da Serra1 PONTO DE PARTIDA
Esse texto se construiu a partir de
experiências realizadas no Aglomerado da Serra,
favela situada em Belo Horizonte. Tais experiências
buscaram possibilidades de abordagem e
problematização do processo de reurbanização ali
implantado, embasadas pelo discurso de Rancière
(2010), numa tentativa de aceitar os dissensos
como parte da cidade de forma que possamos
considerá-la um lugar político, onde um mundo
sensível se opõe a outro. (JACQUES, 2010).
Durante o processo de construção de metodologias 163

de intervenção para esses espaços, identificados


como opacos (SANTOS, 2009), foram propostas
ações sensíveis e observações do cotidiano local
(CERTEAU, 2008; LEFEBVRE, 1991), revelaram
tensões existentes e algumas resistências ao projeto
implantado pela prefeitura.
Políticas urbanas de caráter reparador e
uniformizador como essa são comuns. Isso faz
com que a metodologia desenvolvida para o caso
citado acima não se feche apenas nesse contexto.
Considerar a arte como expansão do campo do
* arquiteta e urbanista, mestre Faculdade de Belas Artes/ urbanismo (ANSELMO, 2011) como um caminho
UP - Universidade do Porto de trabalho para abordar as cidades pode ser uma

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possibilidade para contestar iniciativas com viés sensível (RANCIÈRE, 2010) e da possibilidade de se
asséptico, que tentam anular ou esconder conflitos ter uma cidade como um lugar político.
e diferenças das conformações urbanas tentando Fica claro então que as experiências,
impor uma padronização de linguagens. as relações que acontecem nos espaços, as
Essa tendência homogeneização dos espaços territorializações neles criadas nos permitem
se relaciona com o já constatado empobrecimento apreender as cidades, seja através das “travessias
da experiência, tratado por diferentes autores, como dos perigos” ou mesmo através de práticas
Benjamin (1986) ou Bondía (2002). Esse último cotidianas. São essas práticas das cidades que me
autor, em seu texto Notas sobre a experiência e o pareceram pertinentes abordar e relacionar com
saber da experiência, coloca que a experiência é algo algumas teorias não só do urbanismo, mas também
que nos acontece e sua significação primeira está das artes, e de outras disciplinas que tocamem
relacionada a ideia de travessia do perigo. pontos comuns relativos aos espaços urbanos e
sua organização, para chegar a uma metodologia
O sujeito da experiência tem algo desse ser possível de problematização e questionamento das
fascinante que se expõe atravessando um espaço políticas de urbanização de favelas.
indeterminado e perigoso, pondo-se nele à prova
e buscando nele sua oportunidade, sua ocasião. EXPERIÊNCIA 1
[…] O sujeito da experiência está, portanto, Diante da relocação de moradores do
aberto à sua própria transformação. (BONDÍA, aglomerado para edifícios que reproduzem uma
2002, p. 25-26) maneira de morar das “cidades formais”, a primeira
experiência no Aglomerado da Serra se construiu.
Levando esse conceito para a experimentação
A rigidez formal dos edifícios e do sistema viário
da cidade, e retomando uma colocação de Certeau
implantado negam completamente a organização
(2008) que fala dos espaços como lugares praticados,
caótica e dinâmica característica das favelas. Na
chegamos ao ponto que interessa ao urbanismo.
tentativa de perceber como aconteceu a apropriação
Quando consideramos que somos tanto agentes,
desses novos espaços, me aproximei das rotinas
quanto pacientes das nossas cidades (RYKWERT,
164 de moradores de dois prédios, participando de
2004), chegamos a um ponto importante dessa
reuniões de condomínio, acompanhando alguns
discussão que passa pela relação dos corpos com os
moradores em suas caminhadas diárias até o
espaços. Se os espaços que nos são oferecidos são
trabalho, até o supermercado, até as escolas
sempre semelhantes, teremos experiências mais
dos filhos ou mesmo passando algumas horas
homogêneas. Da mesma forma que se usamos
conversando sobre assuntos triviais. Aos poucos
as cidades de maneiras pouco criativas, também
pude perceber que muitos dos comportamentos
estaremos produzindo espaços mais iguais, embora
dos becos se repetem nos prédios, embora haja
as vivências e os processos de subjetivação e
um esforço por parte do governo de educar as
significação da cada um seja particular.
pessoas para ocuparem as tipologias de habitação
Logo, pensar a cidade como um padrão único, verticais e uma imposição de diversas regras. Um
além de negar conflitos inerentes e dinâmicas de dos pontos evidentes que já mostram a ineficiência
transformações econômicas, socias e espaciais, de algumas dessas imposições é a forma de
anula também as possibilidades de partilhas do apropriação dos edifícios. À noite as escadas do

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prédio que frequentei se transformam num espaço EXPERIÊNCIA 2
análogo ao beco. Vira ponto de encontro dos A apreensão e compreensão dos espaços
vizinhos que saem dos apartamentos, deixam as feitas a partir da experiência corporal é importante
portas abertas, sentam nas escadas para conversar para o processo de subjetivação e significação
com os filhos, amigos, entram nas casas uns dos dos territórios e torna-se ponto crucial para
outros, tudo exatamente como acontecia nos becos. chegar a um urbanismo sensível. Pensando então
As crianças continuam indo para as ruas brincar, nesse processo de sensibilização e aguçamentos
mesmo porque nos prédios não há áreas para eles dos sentidos, buscamos inspiração em práticas
desenvolverem as mesmas brincadeiras que tinham artísticas para nossa prática urbana. Comparando
antes. Mas há o agravante que o asfalto permite trabalhos feitos tanto por artistas quanto por
uma maior velocidade dos carros e acaba por gerar urbanistas que consideram as situações e o
alguns acidentes e atropelamentos. cotidiano como campo de trabalho, foi possível
O problema das drogas também se repete perceber uma contaminação das disciplinas que
nos edifícios da mesma forma como acontecia nos resultou na proposição da arte como expansão
becos. Durante o período da pesquisa percebemos do campo de urbanismo. Dessa forma, ações
que uma moradora se apropriou do sótão do prédio sensíveis pareceram pertinente para proposição de
para esconder os objetos que roubava e também cidades metafóricas, criadas a partir do processo
para se esconder e se drogar. Portanto, fica claro de subjetivação disputado pelas experiências. Foi
que as ações cotidianas e a forma de apropriação buscando camadas e “cidades invisíveis”, percebidas
dos espaços funcionam como desvios, como táticas de maneiras individuais e sensíveis que outras
como coloca Certeau (2008), como resistências às experiências se desenvolveram. Experimentamos
imposições formais do projeto Vila Viva. a favela a partir de mapas mentais que foram

165

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desenhados ou narrados. Percorrer os caminhos, moradores. Embora os adesivos fossem pequenos,
tentando chegar de um ponto a outro seguindo foram retirados de um dia para o outro, revelando o
orientações sonoras gravadas, com a descrição do incomodo gerado pelas palavras no lugar. Notou-
caminho feita por outra pessoa, nos despertou se portanto, que mesmo intervenções sutis são
sensações e mudou nosso olhar sobre o trajeto em capazes de chamar atenção e questionar relações
questão. Voltamos a atenção para aquilo que era existentes nos espaços.
importante para outra pessoa, ou ficamos perdidos
a procura daquilo que já não existia mais, a não EXPERIÊNCIA 3
ser na memória de quem fez a descrição. Dessa Ainda construindo uma metodologia de
forma, vivenciamos o espaço de outra maneira e encontrar outros caminhos para o urbanismo através
percebemos os diferentes mapas mentais de cada do sensível, outra experiência se construiu e revelou
um. Outra atividade sensível que fez parte dessa algumas das camadas das cidades existentes naquele
etapa foi colar frases que tensionavam certos lugar. Algumas crianças desenharam uma cidade
contextos do lugar. Tais frases foram recortadas de no asfalto. O desenho mostrou que no imaginário
conversas anteriores ou elaboradas pelos próprios dessas crianças, já estão incorporados às suas cidades

166

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os prédios de habitação bem como hospital, escola, governo que mostrava uma porcentagem de aceitação
biblioteca, igreja. Coexistindo com esses elementos alta referentes às mudanças da reurbanização.
também estavam desenhos de casa de choque, de Entretanto, minha experiência no local se mostrou
agressão, de homicídio, mostrando a naturalidade contrária aos dados estatísticos. Foi por isso que
com que essas crianças tratam de assuntos tão passamos as mesmas perguntas para o muro 167
violentos, revelando mais uma tensão do lugar. pintado, incluindo umas outras, e pedimos que os
A partir da observação desses desenhos, moradores colassem adesivos vermelhos ou azuis que
surgiu a ideia de pintar um muro dos prédios com indicavam aprovação ou reprovação das afirmações.
tinta de quadro negro para chamar atenção da Também foram feitas algumas projeções de imagens,
falta de espaço de lazer para essas crianças além palavras e desenhos e as manifestações positivas
de dar destaque para o que elas tem a dizer com ou negativas dos moradores em relação a elas
seus desenhos, que parecem bastante expressivos e aconteceu com o preenchimento de uma folha em
significativos para abordar o contexto em questão. branco com riscos vermelhos ou azuis que indicavam
aprovação ou reprovação. Dessa forma, percebemos
Posteriormente esse muro foi usado para outra
que essas estratégias mais lúdicas, além de envolver
atividade lúdica, envolvendo dessa vez os adultos.
mais a população permite a abertura de diálogos
Tal experiência se constituiu numa avaliação lúdica
espontâneos que nos ajudam a entender melhor as
sobre o Vila Viva, tendo como referência algumas
aspirações, o cotidiano e as necessidades do lugar.
perguntas do formulário de avaliação oficial do

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168

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CONSIDERAÇÕES FINAIS A contaminação entre práticas e reflexões
teoricas se fazem necessárias para a construção de
A experiência, a possibilidade de que algo nos um urbanismo mais coerente com as dinâmicas
aconteça ou nos toque, requer um gesto de fluidas contemporâneas. No caso desse trabalho
interrupção, um gesto que é quase impossível nos desenvolvido no Aglomerado da Serra, os
tempos que correm: requer parar para pensar, problemas levantados tentaram ser respondidos
parar para olhar, parar para escutar, pensar tanto através da teoria quanto da prática, sendo 169
mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais que ambas as vertentes se construíram de
devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, forma autônoma sem o compromisso de ilustrar
demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, ou descrever uma a outra. Foram caminhos
suspender o juízo, suspender a vontade, suspender independentes que se contaminaram e se
o automatismo da ação, cultivar a atenção. inspiraram e resultaram em ações e reflexões que se
(BONDÍA, 2002, p. 24) completam sem o compromisso de estarem sempre
coerentes. Foi possível então, revelar camadas,
Esse outro ritmo e outra relação com o espaço
instigar olhar, criar possibilidade de diálogos
que a experiência nos proporciona me parece um
problematizando a situação através de ações lúdicas,
ponto fundamental para pensarmos na unidade
sensíveis, cotidianas que ajudaram a perceber
de uma cidade onde é possível partilhar o sensível,
caminhos de agenciamento de inconstâncias e
coexistir as diferenças e assumir as tensões e
diversidades para chegar a um comum que não
contradições que lhe são inerentes e a torna tão
precisa ser entendido como uniformizador e sim
instigante.

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como dispositivo de construção de uma cidade
política, menos espetacular e mais vivenciada e
experimentada.

Notas
1
Dissertação defendida no Mestrado em Arte e Design para o
Espaço Público, da Universidade do Porto, sob orientação de
Gabriela Pinheiro e coorientacão Paola Berenstein Jacques.

ANSELMO, Carolina. Arte como campo expandido do


urbanismo: um estudo de caso no Aglomerado da
Serra. Porto: FBAUP, 2011
BENJAMIN, Walter. O autor como produtor. In:
___________. Magia e técnica, arte e política: ensaio
sobre literatura e história da cultura. 7. ed. São Paulo:
Brasiliense, 1994.
___________. Documentos de cultura documentos de
barbarie. São Paulo: EDUSP, 1986.
BONDIA, Jorge. Notas sobre a experiência e o
saber de experiência. Disponível em <http://www.
anped.org.br/rbe/rbedigital/RBDE19/RBDE19_04_
JORGE_LARROSA_BONDIA.pdf>. Acesso em: 15
jul 2012.
BRITTO, Fabiana; Jacques, Paola. Corpocidade:
debates, ações e articulações. Salvador: EDUFBA,
2010. 396 p.
170 CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. artes
de fazer. 15 ed. Petrópolis: Vozes, 2008.
KRAUSS, Rosalind. A escultura no campo ampliado.
Gávea, Revista do Curso de Especialização em
História da Arte e Arquitetura, Rio de Janeiro v. 1,
1984 p. 129-137.
LEFEBVRE, Henri. A vida cotidiana no mundo
moderno. São Paulo: Atica1991.
RANCIÈRE, Jacques. Estética e Política. A partilha do
sensível. Porto: Dafne Editora, 2010.
RYKWERT, Joseph. A sedução do lugar: a história e o
futuro da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e
tempo, razão e emoção. 4. ed. São Paulo: Hucitec,
2009.

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TUMULTO
Urpi Montoya Uriarte* É louvável o entusiasmo que a etnografia vem
suscitando, nos últimos anos, em diversas áreas de
Podemos todos ser conhecimento: fala-se muito em “fazer etnografia”,
etnógrafos? adotar a “perspectiva etnográfica”, “etnografar”
isto ou aquilo. Parece que todo mundo pode fazer
Etnografia e narrativas
etnografia. Até uma antropóloga, Barbara Tedlock
etnográficas urbanas1 (apud CLIFFORD, 1995), afirma isso ao dizer que,
“no mundo multicultural e rapidamente mutante
de hoje, todos temos nos tornado etnógrafos”. Em
artigo recente, Mariza Peirano (2008, p. 3) conta
como se surpreendeu, num congresso reunindo
geógrafos, educadores, filósofos, sociólogos, ao
perceber o quanto a etnografia estava na moda e
quão difundida estava a ideia segundo a qual “todos 171
podem ‘fazer etnografia’, e a todos é desejável uma
* antropóloga, professora do PPG Antropologia UFBA ‘perspectiva etnográfica’” .
Com efeito, entendida apenas como método,
ela estaria acessível a qualquer pesquisador em
busca de algum. Mas, precisamente o que Peirano
(2008, p. 3) defende é que ela não é apenas uma
metodologia ou uma prática de pesquisa, “mas
a própria teoria vivida [...]. No fazer etnográfico,
a teoria está, assim, de maneira óbvia, em ação,
emaranhada nas evidências empíricas e nos nossos
dados”. A teoria e a prática são inseparáveis: o fazer
etnográfico é perpassado o tempo todo pela teoria.
Antes de ir a campo, para nos informarmos de

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todo o conhecimento produzido sobre a temática Examinar dragões; não domesticá-los ou abominá-
e o grupo a ser pesquisado; no campo, ao ser o los, nem afogá-los em barris de teoria, é tudo em
nosso olhar e nosso escutar guiados, moldados e que consiste a antropologia [...]. Temos procurado,
disciplinados pela teoria; ao voltar e escrever, pondo com sucesso nada desprezível, manter o mundo
em ordem os fatos, isto é, traduzindo os fatos e em desequilíbrio, puxando tapetes, virando mesas
emoldurando-os numa teoria interpretativa. e soltando rojões. Tranquilizar é tarefa de outros;
Entretanto, afirmar que o campo é perpassado a nossa é inquietar. Australopitecus, Malandros,
pela teoria não significa dizer que ele está submetido Cliques Fonéticos, Megalitos: apregoamos o anômalo,
a ela. Por definição, a realidade superará sempre mascateamos o que é estranho, mercadores que somos
a teoria. Em outras palavras, o campo irá sempre do espanto. (GEERTZ, 2001, p. 65)
surpreender o pesquisador. Sem cair em contradição,
Em segundo lugar, nem todos podem ser
podemos afirmar que se um campo não nos
etnógrafos porque para mergulhar é preciso não
surpreender é porque não fomos o suficientemente
apenas saber mergulhar como também gostar
bem formados! Justamente porque a formação
de mergulhar. Em palavras de Peirano (2008,
antropológica consiste em nos abrirmos para a
p. 3-4), “a personalidade do investigador e sua
desestabilização:
experiência pessoal não podem ser eliminadas
Os discursos e práticas nativos devem servir, do trabalho etnográfico. Na verdade, elas estão
fundamentalmente, para desestabilizar nosso engastadas, plantadas nos fatos etnográficos que
pensamento (e, eventualmente, também nossos são selecionados e interpretados”. O prestígio da
sentimentos). Desestabilização que incide sobre etnografia é tal que, até entre os antropólogos,
nossas formas dominantes de pensar, permitindo, ela se tornou a forma mais simples de definir a
ao mesmo tempo, novas conexões com as forças nossa disciplina. Ou seja, o método se tornou
minoritárias que pululam em nós mesmos. mais conhecido do que a própria disciplina que o
(GOLDMAN, 2008, p. 7) engendrou! Esse método marcou tanto a disciplina
que até para os próprios antropólogos é mais fácil se
Ou, em palavras de Favret-Saada (apud definir por ele. Quando perguntados que diferença
172
GOLDMAN, 2008), o que caracterizaria o há entre a Antropologia e outras ciências, como a
antropólogo é essa formação para “ser afetado” por sociologia, a resposta imediata é o método. Como
outras experiências. Por isso é que vamos a campo bem disse Geertz (2001), nos definimos em termos
munidos de teorias e voltamos retroalimentando-as, de um estilo de pesquisa, não em termos daquilo
transformando-as: “Agitar, fazer pulsar as teorias que estudamos.2
reconhecidas por meio de dados novos, essa é a Todavia, acredito, por definição, que temos
tradição da antropologia”. (PEIRANO, 2008, p. 4) de desconfiar de tudo, principalmente das modas.
Então, nem todos podem ser etnógrafos. Há Enquanto, fora da Antropologia, a etnografia está
de haver uma formação teórica em Antropologia, na moda, dentro da disciplina que a engendrou – a
essa ciência que se dedica a “testemunhar outras Antropologia – ela passa, há certo tempo, por uma
humanidades” (DA MATTA, 1992, p. 58) e “apregoar série de revisões críticas, reflexões epistemológicas
o anômalo”: e hermenêuticas. A etnografia é o método da
Antropologia e é conhecendo o que é esta disciplina

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e pelo que tem passado que podemos efetivamente em seus gabinetes, lendo relatos e informes,
entender em que ela consiste. O que estou dizendo deduzindo e especulando, que eram os dois
é que as propostas metodológicas estão sempre procedimentos cognitivos próprios dessa fase da
inseridas numa disciplina (por mais indisciplinados Antropologia. Falavam, portanto, dos “hotentotes”
que possamos ser), isto é, na forma como uma da África do Sul, do “índio americano”, dos “índios
disciplina se desenvolveu. O método etnográfico canadenses”, sem nunca ter visto um “índio” de
– suas virtudes e vicissitudes – só se entende “carne e osso”. Perguntado certa vez se tinha visto
conhecendo como ele se desenvolveu no interior um, James Frazer, o especialista em religião e magia
da Antropologia. O método cartográfico, dentro da dos ditos povos primitivos, respondeu: “Deus que
Geografia. Assim como a proposta do “urbanista me livre!”. Nessas condições, não era de se estranhar
errante” somente se entende dentro das limitações que os textos antropológicos fossem um acúmulo de
das formas tradicionais de enxergar a cidade por afirmações e teorias etnocêntricas.
parte do Urbanismo.3 O panorama começa a mudar quando os
Então, para entender como a etnografia tem antropólogos passam a participar das expedições
apreendido e narrado a cidade – que são coisas científicas no final do século XIX. Pela primeira vez,
bem diferentes –, vou começar falando sobre o que veem os “índios”, ainda que por pouco tempo, nas
é a etnografia, como e quando nasce, o que tem paradas rápidas das expedições, e nem que seja sem
postulado inicialmente, o que se postula hoje. Vou poder falar com eles, devido ao desconhecimento
fazer um exercício extremo de síntese porque o das línguas nativas. Numa dessas expedições, em
que há a se dizer sobre ela corresponde, na matriz 1914, Bronislaw Malinowski, um jovem polonês
curricular da grande maioria dos departamentos de fazendo o seu doutorado em Antropologia na
Antropologia, ao conteúdo inteiro de uma disciplina London School of Economics, foi parar nas ilhas
obrigatória. Trobriand, na Melanésia, onde ficou mais de três
anos, aprendeu a língua nativa, colocou sua tenda no
A ETNOGRAFIA É UM MÉTODO PRÓPRIO meio da aldeia deles e conviveu dia após dia entre os
DA ANTROPOLOGIA DO SÉCULO XX trobriandeses. Dessa experiência nasceu, em 1922, o
A Antropologia do século XX é uma resposta livro Argonautas do Pacífico Ocidental e, com ele, a 173

crítica à Antropologia do século anterior: uma primeira formulação do que é o método etnográfico,
ciência que se pretendia histórica, que queria devidamente apresentado em sua Introdução.4
reconstituir a história dos povos humanos para O que o levou a romper com a forma de conhecer
explicar como alguns deles tinham chegado própria da Antropologia anterior? Na verdade, um
ao “estado de civilização” e muitos outros não, acaso; para nós, um feliz acaso: enquanto súdito
ficando em “estágios” anteriores de “selvageria” ou austríaco, na Primeira Guerra Mundial, ele não
“barbárie”. Para reconstituir os diversos estágios, a poderia integrar a tripulação de um navio inglês,
Antropologia do século XIX se tornou a especialista vendo-se obrigado a ficar quatro anos, até 1918,
em “povos primitivos”, que imaginava e analisava entre os territórios das ilhas Tulon, Trobriand e
mediante a leitura de relatos de viajantes, expedições Austrália.
científicas, missionários ou informes das oficinas Essa longa estadia fez Malinowski refletir sobre
coloniais, material que, naquele século, se tornou o método que vinha sendo usado pela Antropologia.
bastante volumoso. Esses antropólogos trabalhavam Tratava-se agora, ele propunha, do antropólogo

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conviver um longo período entre os “primitivos” queremos ser atingidos pelo Outro; em vez que nos
que queria entender até passar despercebido (ele enraizarmos num território de certezas, buscamos
acreditava que isso fosse possível). Somente essa o desenraizamento crônico que nos leva à busca
experiência de trabalho de campo lhe permitiria pelo Outro. Somos como os Tupinambás descritos
captar o que ele chamou de “o ponto de vista do por Eduardo Viveiros de Castro (2002b): de uma
nativo”, essencial para conseguir uma visão completa “radical incompletude”, que nos deixa absolutamente
do universo nativo. Com efeito, Malinowski propôs atraídos pela alteridade, com um “impulso
que tal universo poderia ser compreendido captando centrífugo”, que nos faz enxergar a alteridade não
três tipos de informação: a numérica e genealógica, o como problema, antes como solução. O método
cotidiano e as interpretações nativas, denominando etnográfico, assim, se torna inseparável da própria
estes tipos de o esqueleto, o corpo e a alma, sendo as Antropologia, definida por Márcio Goldman (2006,
três fontes igualmente fundamentais. p. 167) como “o estudo das experiências humanas a
Podemos deduzir facilmente que, ao conviver partir de uma experiência pessoal”.
com os nativos e lhes conceder a palavra sobre si
O MÉTODO ETNOGRÁFICO
mesmos, a Antropologia do século XX se tornasse
cada vez menos etnocêntrica, ou seja, o discurso O que é exatamente um método? É uma
sobre o Outro – que é a Antropologia – deixou de forma de nos aproximarmos da realidade que
ser centrado na sociedade do pesquisador e passou nos propomos estudar e entender. Se quisermos
a ser relativizado com a vivência entre os nativos e entender a vida urbana na cidade de Salvador,
sua visão deles mesmos. A Antropologia do século por exemplo, as possibilidades metodológicas são
passado é, pois, o fruto de seu método, um método várias. Podemos selecionar um grupo particular de
que surgiu de forma não planejada, que não foi nativos urbanos e estudá-los (e estaremos usando
o resultado de uma crítica teórica, mas de um o método de estudo de caso), escolher a trajetória
descobrimento fortuito da importância de conviver de uma família e contar a sua história na cidade
e ouvir aqueles que pretendemos entender. Com (método biográfico), trabalhar com vários estudos
o novo método, o seu objeto mudou: de “tribos”, de caso (método comparativo) ou percorrer a cidade
174 “índios”, “aborígenes”, “bosquímanos”, “silvícolas”, de forma lenta, corporificada e à deriva (método do
“esquimós”, “primitivos”, passamos a nos interessar “urbanismo errante”). Ou então podemos nos “jogar
nas sociedades humanas, todas e qualquer uma de cabeça” na vida de uma rua, e estaremos usando o
delas (“atrasada” ou “adiantada”, ocidental ou método etnográfico. O método etnográfico consiste
oriental, “moderna” ou “tradicional”, o bairro vizinho, num mergulho profundo e prolongado na vida
a comunidade tal, a favela tal, as torres tais). O que cotidiana desses Outros que queremos apreender e
nos interessa dessas sociedades? Sua alteridade, compreender:
sua singularidade, sua outredade, o que faz essas
O método etnográfico não se confunde nem se reduz a
sociedades serem o que são.
uma técnica; pode usar ou servir-se de várias, conforme
A Antropologia é o lugar, dentro do espaço as circunstâncias de cada pesquisa; ele é antes um
das ciências ocidentais, para pensar a diferença modo de acercamento e apreensão do que um conjunto
e o antropólogo é aquele que se interessa pelo de procedimentos. (MAGNANI, 2002, p. 17)
Outro: um sujeito bastante raro, é verdade, porque,
em lugar de querer defender uma identidade,

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Esse “modo de acercamento” ou “mergulho” A essas pessoas damos voz não por caridade
tem suas fases. A primeira delas é um mergulho mas por convicção de que têm coisas a dizer. E essa
na teoria, informações e interpretações já feitas voz não é monológica, é dialógica. O pesquisador
sobre a temática e a população específica que e o nativo conversam, falam, dialogam. É nisso
queremos estudar. A segunda consiste num longo que consiste o cerne do método etnográfico: em
tempo vivendo entre os “nativos” (rurais, urbanos, trabalhar com pessoas, dialogando pacientemente
modernos ou tradicionais); esta fase se conhece com elas:
como “trabalho de campo”. A terceira reside na
escrita, que se faz quando se volta para a casa. Nas Entendo a etnografia antes de tudo como maneira
páginas seguintes falaremos sobre cada uma destas específica de conhecer a vida social. Sua peculiaridade:
três fases, iniciando pela segunda, em virtude de sua fundamentação existencial numa impregnação
requerer uma exposição mais detalhada. profunda, no pesquisador (em seu corpo e sua alma, em
sua inteligência e sensibilidade), da imprescindibilidade
Na linguagem corriqueira confunde-se
da busca por aquilo que Eduardo Viveiros de Castro
“trabalho de campo” com etnografia. Na verdade, o
denominou ‘diálogo para valer” com o Outro, sendo
trabalho de campo não é invenção da Antropologia
o conhecimento forjado justamente a partir dos
nem muito menos monopólio dela. Os geógrafos
resultados desse diálogo. (FREHSE, 2011, p. 35)
fazem trabalho de campo, assim como os geólogos e
os psicólogos. Vão “a campo” muitos pesquisadores,
desde finais do século XIX, para testar as teorias com AS FASES DO TRABALHO DE CAMPO
materiais empíricos. Porém, o “campo” antropológico Para o antropólogo, o campo é, durante um
supõe não apenas ir e ver ou ir e pegar amostras, bom tempo, uma incógnita, pelo simples fato de os
mas algo mais complexo: uma co-residência extensa, fatos não existirem:
uma observação sistemática, uma interlocução
efetiva (língua nativa), uma mistura de aliança, O trabalho de campo é sobretudo uma atividade
cumplicidade, amizade, respeito, coerção e tolerância construtiva ou criativa, pois os fatos etnográficos ‘não
irônica. (CLIFFORD, 1999, p. 94) Em uma palavra, existem’ e é preciso ‘um método para a descoberta de
o trabalho de campo antropológico consiste em fatos invisíveis por meio da inferência construtiva’. 175
estabelecer relações com pessoas. Então, o quesito (MALINOWSKI, apud GOLDMAN, 2003, p. 456)
“pessoas” se torna central. O nativo do antropólogo
são pessoas e não indivíduos abstratos, gente Como os fatos não existem para serem
concreta, sujeitos nada genéricos: colhidos, fazer etnografia é uma tarefa difícil, densa,
pois tudo aparece aos nossos olhos como confuso,
O que costumamos denominar “ponto de vista do sem sentido:
nativo” não deve jamais ser pensado como atributo de
um nativo genérico qualquer, negro, de classe popular, A etnografia é uma descrição densa. O que o
ilheense, baiano, brasileiro ou uma mistura judiciosa de etnógrafo enfrenta, de fato – a não ser quando
tudo isso. Trata-se sempre de pessoas muito concretas, (como deve fazer, naturalmente) está seguindo
cada uma dotada de suas particularidades e, sobretudo, as rotinas mais automatizadas de coletar dados –,
agência e criatividade. (GOLDMAN, 2003, p. 456) é uma multiplicidade de estruturas conceituais
complexas, muitas delas sobrepostas ou amarradas
umas às outras, que são simultaneamente

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estranhas, irregulares, inexplícitas, e que ele tem Após um longo período de confusão e muitas
que, de alguma forma, primeiro apreender e depois anotações, vem a segunda fase do trabalho de
apresentar [...]. Fazer etnografia é como tentar campo, o da “sacada”, isto é, quando começamos
ler (no sentido de ‘construir uma leitura de’) um a enxergar certa ordem nas coisas, quando
manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, certas informações se transformam em material
incoerências, emendas suspeitas e comentários significativo para a pesquisa:
tendenciosos [...]. (GEERTZ, 1989, p. 20)
Também, a “sacada” na pesquisa etnográfica, quando
O campo não fornece dados mas informações ocorre – em virtude de algum acontecimento trivial ou
que costumamos chamar de dados. As informações não – só se produz porque precedida e preparada por
se transformam em dados no processo reflexivo, uma presença continuada em campo e uma atitude
posterior à sua coleta (GUBER, 2005). Então, de atenção viva. Não é a obsessão pelo acúmulo de
estamos falando de dois momentos em campo. detalhes que caracteriza a etnografia, mas a atenção
No primeiro, o antropólogo registra informações que se lhes dá: em algum momento os fragmentos
mediante o ver e o ouvir, tão bem apontados por podem arranjar-se num todo que oferece a pista para
Roberto Cardoso de Oliveira (1998, p. 21) como as um novo entendimento, voltando à citação de Lévi-
“duas muletas que lhe permitem trafegar”. Porém, Strauss. (MAGNANI, 2009, p. 136)
não se trata de um ouvir qualquer. É um ouvir
que dá a palavra, não para ouvir o que queremos, Conforme bem salientado na citação acima, a
mas para ouvir o que os nossos interlocutores têm “sacada” só pode advir depois de um “certo” tempo.
a dizer. E falamos aqui em interlocutores – não O trabalho de campo antropológico não pode ser
informantes ou entrevistados – porque a palavra de umas horas, alguns dias, umas semanas ou finais
cedida se dá num contexto de diálogo, numa relação de semana, quando sobra tempo dos compromissos
dialógica, e é nesse diálogo que os dados “se fazem” da universidade. A “sacada” advém do tempo em
para o pesquisador. A relação dialógica só é possível campo, pois só o tempo é capaz de provocar um
de ser estabelecida no meio de uma posição do duplo processo no pesquisador: por um lado,
antropólogo entre os nativos: a de observador- conseguir relativizar sua sociedade e, por outro,
176 conseguir perceber a coerência da cultura do Outro.
participante, que cria familiaridade e possibilita a
“fusão de horizontes”, da qual falam os hermeneutas, Em palavras de Roberto Da Matta (1981, p. 144), o
condição indispensável para um verdadeiro diálogo. tempo possibilita que o antropólogo torne exótico
(distante, estranho) o que é familiar e familiar
Dessa maneira, no primeiro momento, o
(conhecido, próximo) o que é exótico.
que fazemos é coletar em forma de descrições.
Descrevemos tudo, em detalhes. Transcrevemos É conveniente admitir que este tempo – este
longos depoimentos. Ficamos “perseguindo pessoas contato direto e prolongado com o Outro – é um
sutis com perguntas obtusas”, anotando tudo processo bastante sofrido. Por um lado, porque o
porque não sabemos o que vai ser importante pesquisador, longe de casa, no meio de outro mundo,
mesmo. Se os arqueólogos estão sempre com uma sente na pele a marginalidade, a solidão, a saudade.
corda e o urbanista sempre desenhando croquis, Mas, principalmente, porque não se estranha
o antropólogo está sempre com um caderno de apenas o Outro: o processo de estranhamento afeta
campo, tomando nota de tudo. o próprio Eu. Tornamo-nos seres desenraizados –
condição essencial do antropólogo, segundo Claude

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Lévi-Strauss – e que acaba se expressando no que ordem para possibilitar a leitura por parte de um
Da Matta chamou de anthropological blues: uma público que não esteve lá5 e que nos lerá esperando
mistura de sofrimento e paixão. que façamos um correto casamento entre teoria e
prática.
A FORMAÇÃO TEÓRICA
Se tivermos de dizer qual das três fases
Dissemos que a etnografia tem três momentos: etnográficas é a mais difícil, diríamos certamente
a formação, o trabalho de campo e a escrita. A que é a da escrita, pois como converter tantos dados
formação teórica é a bagagem indispensável para ir num texto? Em quantos capítulos? De que será cada
a campo. Não adianta iniciar um trabalho de campo um? A teoria irá em um e os dados em outro? Por
sem ela, pois a capacidade de levantar problemas no onde começar? São perguntas que ansiosamente
campo advém da familiaridade com a bibliografia todos nos perguntamos quando nos vemos diante
do tema. A “sacada” etnográfica só virá do tempo de uma escrivaninha abarrotada de depoimentos,
em campo e de nossa formação. A nossa formação transcrições, fitas, cadernos de campo, fotos, diário
nos familiariza com as “sacadas” que tiveram todas de campo, lembranças, sensações etc. A dificuldade
as outras gerações de antropólogos prévias à nossa, decorre do fato de a etnografia e a escrita serem
com o qual aprendemos a ver. Ao cabo da formação duas coisas radicalmente diferentes: a etnografia é
do antropólogo o nosso olhar se torna um “olhar uma experiência, uma experiência do Outro para
devidamente sensibilizado pela teoria disponível” e captar e compreender, depois interpretar, a sua
o nosso ouvido um ouvido “preparado para eliminar alteridade; a narrativa etnográfica é a transformação
todos os ruídos”. (CARDOSO DE OLIVEIRA, 1998: dessas experiências totais em escrita, o que,
p. 19; 21) necessariamente exige um mínimo de coerência e
Essa formação também consiste em, mediante linearidade que não são próprias da vivência. É essa
a leitura de textos etnográficos múltiplos, aprender diferença ou distância entre experiência e texto
a ver pessoas, não indivíduos, pessoas com nomes, que nos ajuda a entender o fundo da pergunta que
com posições, detentores de palavra, de saber. Renato Rosaldo (2000, p. 61) reproduz em seu texto
Somos igualmente ensinados a diferenciar a coisa Cultura y verdad: “como pessoas tão interessantes,
do significado, o feito do dito, o emic (categorias que fazem coisas tão interessantes, podem escrever 177

do pesquisador) do etic (categorias do nativo). coisas tão chatas?”


Enfim, aprendemos que “o mundo não se divide Do mesmo modo que a etnografia está ligada
em devotos e supersticiosos; que há esculturas nas ao nome de Malinowski, a reflexão sobre diferença/
selvas e pinturas nos desertos; que a ordem política distância entre experiência e texto está igualmente
é possível sem o poder centralizado [...], que vemos a ligada a este nome. Por iniciativa da viúva e com
vida dos outros através das lentes que nós próprios uma introdução do antigo discípulo Raymond
polimos e que os outros nos vêem através das deles”. Firth, foi publicado em 1967 Um diário no sentido
(GEERTZ, 2001, p. 66) estrito do termo (1997), diário de Malinowski nas
ilhas Trobriand, no qual ele fala de seu sofrimento,
A ESCRITA mal-humor, sua vontade de “dar o fora dali”, em que
A terceira fase do fazer etnográfico advém após revela sua hipocondria, seu ódio dos mosquitos e
ter encontrado uma ordem das coisas (em diálogo pulgas, seu desconforto em conviver com porcos e
com o nativo) e consiste em pormos as coisas em crianças barulhentas, as chantagens dos nativos para

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falar, seus desejos sexuais, o descompromisso dos suficientemente honesto para apresentar tanto as
informantes (chamados de estúpidos, insolentes, peças soltas quanto as peças montadas. Nas palavras
atrevidos), a saudade da Europa, das duas mulheres de Sahlins (2003), a realidade etnográfica não pode
que amava etc. ser substituída pela compreensão dela. As peças
No mesmo ano, Clifford Geertz escreve soltas são a descrição densa, as peças montadas a
uma resenha devastadora deste diário, chamada interpretação proposta. Muitas vezes, o que resta
Under the mosquito net, em que vai se perguntar destes trabalhos é muito mais a capacidade de
como Malinowski convenceu todo mundo sem apreender e descrever os dados do que a ordem que
ter conseguido empatia alguma com os nativos? A construímos. Conforme salienta Mariza Peirano
resposta seria: pela forma de narrar; o que importa (2008, p. 5), “Darcy Ribeiro também confessou,
é o modo como se narra a experiência etnográfica, um dia, que seus trabalhos teóricos pouco valiam,
isto é, a narrativa, a escrita, o estilo. Na década estavam inclusive ‘errados’. O conjunto de seus
de 1980 alguns discípulos de Geertz retomaram diários de campo era, sim, o que de mais importante
a reflexão inicial do mestre e se reuniram num havia produzido”. Mas, como “montar uma ordem”
seminário em Santa Fé (EUA), cujas apresentações sem mexer nas “peças soltas”? A rigor, essas “peças
foram publicadas em 1984 no livro Writing Culture, soltas” não são também uma “montagem”, na
editado por James Clifford e George Marcus. medida em que se transformaram de informações
Este movimento – chamado de pós-moderno em em dados? Podemos dizer que, por mais que não
Antropologia – vai refletir seriamente sobre como queiramos interferir nas informações, a montagem
temos escrito sobre os Outros desde os tempos de é feita e, de novo, voltamos à questão da formação
Malinowski até agora. teórica: se o campo se iniciou com um trabalho de
formação teórica, ele culmina, novamente, na teoria,
Além da distância entre experiência e escrita,
pois é ela que ajuda a pôr as coisas em ordem, por
outra dificuldade do terceiro momento do fazer
mais mínima que essa ordem seja:
etnográfico radica no fato de não sermos apenas
registradores de falas, tradutores da palavra nativa, Quem realmente estudou a obra de Nimuendajú sabe
transcritores do Outro. Somos autores, pois pôr as como a monografia The Apinayé (publicada em 1939)
178 coisas em ordem – montar o quebra-cabeça – é um apresenta uma narrativa com severos problemas
exercício criativo autoral. A criação faz dos textos descritivos, onde se observa uma evidente ausência
antropológicos, ficções: de “ordem”, sinal de que Nimuendajú escreveu esse
texto sem nenhuma teoria da sociedade a guiar seu
Os textos antropológicos são eles mesmos
trabalho de campo. Que contraste, porém, quando
interpretações e, na verdade, de segunda e terceira mão.
cotejamos esse livro com o volume sobre a sociedade
Trata-se, portanto, de ficções; ficções no sentido de
Canela, publicado dez anos depois, sob a égide de
que são “algo construído”, “algo modelado” – o sentido
Lowie, que editou o texto original de Nimuendajú. (cf.
original de fictio – não que sejam falsas, não-factuais
NIMUENDAJÚ, 1946) Nele temos uma narrativa –
ou apenas experimentos de pensamento. (GEERTZ,
um texto no melhor sentido de Ricoeur (1971) –, onde,
1989, p. 25-26)
em que pese os inúmeros problemas etnográficos que o
especialista é capaz de descobrir, o conjunto tem uma
Entretanto, o quebra-cabeça montado pelo
certa concisão e unidade, a meu ver, dois dos elementos
antropólogo (a ordem proposta) tem de ser o

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críticos das modernas etnografias. (DA MATTA, advém de uma relação, o que significa dizer que há
1992, p. 61) autoridade, mas esta convive com a fragilidade, e
seria esta combinação, precisamente, a característica
A escrita é perpassada também pela questão do discurso antropológico:
do lugar de onde fala o antropólogo. Há um certo
tempo já, existe um consenso: a fala do antropólogo É precisamente esta mistura de autoridade e
não se confunde com a do nativo porque ele, por fragilidade que tipifica o discurso antropológico.
mais perto que tenha chegado deste, simplesmente A autoridade decorre de ser você quem testemunha
não é um nativo. O Eu não é o Outro. Mas o Eu e produz o relato. Mas a fragilidade advém da
do antropólogo, sua voz, a posição desde a qual consciência aguda e dolorida de que o “presente
fala, não é mais daquele pesquisador que iniciou o etnográfico” é uma ilusão que dentro de alguns anos
trabalho de campo: será corrigida por outro etnólogo que, numa outra
pesquisa, fará outras perguntas [...]. Daí a relação
A natureza da explicação pela via etnográfica tem íntima entre boa etnografia e confissão (percebida por
como base um insigth que permite reorganizar dados Lévi-Strauss) e entre boa etnografia e romance.
percebidos como fragmentários, informações ainda (DA MATTA, 1992, p. 59)
dispersas, indícios soltos, num novo arranjo que não é
mais o arranjo nativo (mas que parte dele, leva-o em Finalmente, o estilo. A narrativa etnográfica
conta, foi suscitado por ele) nem aquele com o qual o tem se caracterizado, segundo Marcus e Cushman
pesquisador iniciou a pesquisa (MAGNANI, 2002, p. 17) (1998, p. 175), pelo realismo etnográfico, isto é, pelo
“modo de escrita que busca representar a realidade
Esse novo lugar é, diríamos, um entre-lugar, de todo um mundo ou de uma forma de vida”. É o
nem cá nem lá: realismo etnográfico que explica essa importância
da descrição nos textos etnográficos, dos detalhes,
É preciso pensar em que espaço se move o etnólogo que
do cotidiano e, principalmente, das alusões ao “eu
está engajado numa pesquisa de campo e refletir sobre
estive lá”: é a forma que temos de fazer aparecer,
as ambivalências de um estado existencial onde não se
de certa maneira, a totalidade, uma totalidade
está nem numa sociedade nem na outra, e no entanto, 179
experimentada e partilhada pelo pesquisador.
está-se enfiado até o pescoço em uma e outra.
O resultado desta estratégia narrativa é a criação
(DA MATTA, 1981, p. 153-154)
de um mundo “que parece total e real para o leitor”.
(CUSHMAN, 1998, p. 176) Contudo, estes autores
Viveiros de Castro (2002a) deu uma brilhante
distinguem entre o realismo etnográfico “clássico” e
resposta à pergunta que aqui nos ocupa: a voz do
o “experimental”. Dentre outras características, no
antropólogo não é a voz do nativo porque uma coisa
primeiro encontra-se um abuso da terceira pessoa
é o que o nativo pensa e outra o que o antropólogo
(“eles fazem, eles pensam”), uma ausência de pessoas
pensa que o nativo pensa. O ponto de vista do
concretas e um tratamento marginal das condições
antropólogo é, pois, o da sua relação com o ponto de
do trabalho de campo; já no segundo, mais recente,
vista do nativo. O seu é um discurso que advém de
o personagem do etnógrafo é introduzido no texto,
uma relação: mais uma vez, a experiência de diálogo
é dada uma voz direta aos nativos, são diferenciados
“para valer” é o que marca a narrativa etnográfica.
os pontos de vista do nativo e do pesquisador, as
Então, é o antropólogo que fala, mas esta fala
condições do trabalho de campo são amplamente

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informadas e as descrições são contextualizadas No Brasil, são Magnani, Rocha e Eckert,
e não generalizadas como ocorre no realismo portanto, os autores que têm contribuído de
“clássico”. maneira mais significativa ao esforço – ainda em
andamento – de esclarecer o que são as etnografias
ETNOGRAFIAS URBANAS urbanas e as características que as distinguem de
No Brasil, existem dois grandes centros de outras aproximações metodológicas.6 De uma forma
produção de etnografias urbanas. Na Universidade geral, podemos dizer que o antropólogo que estuda
de São Paulo, encontra-se o Núcleo de Antropologia espaços urbanos o faz usando o método próprio
Urbana (NAU), coordenado por José Guilherme da Antropologia, a etnografia, o que significa dizer,
Magnani, que, a partir de uma pesquisa sobre lazer conforme vimos em detalhe nas páginas anteriores,
na cidade, funda o Núcleo. O NAU iniciou seus que segue os três momentos descritos até agora: a
trabalhos em finais dos anos 1980, analisando formação teórica que supõe o descentramento, o
equipamentos, frequência de uso, horários de trabalho de campo com gente e a escrita a partir
funcionamento e depoimentos de usuários do bairro de uma relação com o nativo. Como qualquer
do Bexiga. De lá pra cá, o NAU tem se consolidado outro antropólogo, os antropólogos urbanos
como um espaço de importante contribuição para trabalham com informações diretas, de caráter
a Antropologia Urbana ao analisar grupos urbanos pessoal, recolhidas em campo, o que determina
e o espaço urbano, ao mesmo tempo. Em 2007, uma escala específica, própria da Antropologia.
ele passou a publicar semestralmente a revista Porém, na cidade, o nosso campo adquire algumas
eletrônica Ponto Urbe. O Núcleo tem duas grandes significativas peculiaridades. Primeiro, já que os
publicações: Na metrópole. Textos de Antropologia conhecimentos do etnólogo estão ancorados no
(1996), que já se encontra na terceira edição, e Jovens nível micro-social, na cidade nossos conhecimentos
na metrópole. Etnografias de circuitos de lazer, encontro são inevitavelmente parciais e não abraçam jamais a
e sociabilidade (2007). As pesquisas perpassam os totalidade urbana. (AGIER, 1999, p. 11)
temas de juventude, lazer e sociabilidade na cidade Em segundo lugar, o trabalho de campo na
de São Paulo, mas também cidade e religião e cidade cidade não se confunde mais com um “ir lá longe e
180
e futebol. ficar três meses”, ou seja, viajar, sair de casa, instalar
Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul a tenda no meio de uma aldeia. O campo, na cidade,
(UFRGS), no interior do Núcleo de Estudos sobre é “concebido agora menos como um lugar diferente
Culturas Contemporâneas (NUPECS), temos o Banco e separado do que como um conjunto de práticas
de Imagens e Efeitos Visuais (BIEV), coordenado de pesquisa corporizadas” (CLIFFORD, 1999,
pelas professoras Ana Luiza de Carvalho Rocha e p. 118), uma relação não necessariamente com
Cornélia Eckert, que trabalham juntas desde finais delimitação geográfica: é possível estar no telefone
dos anos 1990 e têm conseguido incentivar, desde e estar fazendo trabalho de campo, é possível morar
então, um importante volume de trabalhos na área na mesma cidade e fazer visitas repetidas, o que
de Antropologia Urbana, mais especificamente no Rosaldo (2000) chama de “freqüentação profunda”.
que elas chamam de etnografia de rua. Publicaram, em Na cidade, “o trabalho de campo ‘tem lugar’
2005, o livro O tempo e a cidade, que condensa uma em relações mundanas e contingentes de viagem,
série de reflexões e propostas das autoras. não em lugares controlados de investigação”.
(CLIFFORD, 1999, p. 90) É importante frisar que

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a característica básica do trabalho de campo se Além do olhar “de perto e de dentro”,
mantém: fazer trabalho de campo é estabelecer a etnografia urbana se distingue de outras
relações, interações com pessoas concretas, de perspectivas por características da própria
forma profunda. Aqui radicaria a diferença com a etnografia, já apontadas antes. Dentre elas, a
perspectiva não-etnográfica que Magnani (2002, importância da formação teórica prévia ao trabalho
p. 14) chama “de fora e de cima”, nas quais de campo e o tempo prolongado. Não vamos a
campo sem um mapeamento anterior, sem um
[...] observa-se a ausência de atores sociais. Tem- estudo de todos os estudos sobre a área, vamos com
se a cidade como uma entidade à parte de seus todas as informações possíveis, com a preparação
moradores: pensada como resultado de forças teórica sobre o assunto, tendo lido o que de mais
econômicas transnacionais, das elites locais, de importante já se escreveu sobre o tema. Nesse
lobbies políticos, variáveis demográficas, interesse sentido, trata-se de uma proposta diferente daquela
imobiliário e outros fatores de ordem macro; parece apregoada pelas “marchas urbanas coletivas”
um cenário desprovido de ações, atividades, pontos (THOMAS, 2010), realizadas com duração limitada
de encontro, redes de sociabilidade. (uma hora e meia em cada lugar), não mediadas por
nenhuma informação, para que os pesquisadores
A etnografia urbana olha, assim, ‘de perto e de dentro’, possam se “impregnar” dos ambientes e, assim,
tentando captar, mediante a experiência do trabalho aproximar-se o mais perto possível da experiência
de campo prolongado ou da ‘freqüentação profunda’, a ordinária do pedestre. Errar, deslizar-se e flanar
perspectiva dos próprios nativos urbanos (transeuntes, são as atitudes defendidas por Rachel Thomas para
moradores, usuários, sujeitos políticos como associações poder se impregnar dos ambientes, seguindo as
de bairro etc.) em relação a como transitam, como atitudes que Simmel, Kracauer e Benjamin tiveram.
usufruem, como utilizam, como estabelecem relações. Acreditamos que não se trata de ir ao “campo”
Então, os resultados da etnografia urbana (e suas aberto, como uma página em branco, absolutamente
narrativas) são muito diferentes das realizadas a partir desinformado para “ali” poder se informar, porque
apenas da observação (mesmo que se trate de uma somente quem conhece uma temática, um espaço,
“observação encarnada”), porque usar tão somente a pode levantar questões pertinentes sobre ela ou ele. 181
observação gera um discurso subjetivo, enquanto que Levantar questões e saber o que procuramos não
fazê-lo através da observação-participante produz significa saber a resposta. Segundo Robert Cresswell
intersubjetividade. O que a etnografia urbana reflete é (apud GUBER, 2005, p. 90), “temos de saber o que
esta intersubjetividade, este discurso a partir de uma procuramos, mas temos de procurar mais do que
relação, como bem expressou Viveiros de Castro, e não encontramos”. É claro que “marchar na cidade”,
a subjetividade do pesquisador, isto é, as revelações caminhar nela, se perder, é parte do processo de
intimistas do autor, suas próprias sensações, seu trabalho de campo etnográfico. Contudo, para nós, a
Eu. O trabalho de campo é concebido como uma apreensão da vida urbana não pode se limitar a isso.
experiência de imersão subjetiva, produtora de uma Mediante as caminhadas o pesquisador mergulha
intersubjetividade. (GUBER, 2005) nos espaços urbanos, isto é, funde-se com o lugar

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e as pessoas que escolhe pesquisar, familiariza-se a finalizar sua pesquisa, enquanto o interlocutor
com o seu cotidiano, ouve e participa de conversas. fica longe, esperando o ‘produto terminado’”.8 As
É o ver, ouvir e descrever que já mencionamos em filmagens podem efetivamente inovar a terceira
páginas anteriores: etapa da pesquisa etnográfica, que consiste em
escrever, um momento de solidão e silêncio do
A etnografia “na” rua consiste no desenvolvimento da pesquisador.
observação sistemática de uma rua e/ou das ruas de
De fato, desde Margareth Mead, em meados
um bairro e da descrição etnográfica dos cenários, dos
dos anos 1920, a fotografia vem sendo usada como
personagens que conformam a rotina da rua e bairro,
um recurso fundamental do fazer etnográfico. No
dos imprevistos, das situações de constrangimento,
entanto, a Antropologia Visual retoma seriamente
de tensão e conflito, de entrevistas com habitués e
as implicações do uso de imagens na pesquisa
moradores, buscando as significações sobre o viver o
antropológica. Daí porque Rocha e Eckert, que
dia-a-dia na cidade. (ROCHA; ECKERT, 2003, p. 5)
trabalham com Antropologia Urbana e Antropologia
Além do campo pré-informado, o tempo em Visual, têm dedicado tamanha importância a este
campo é fundamental para quem faz etnografia recurso:
urbana. Fazer trabalho de campo não é passear,
O uso sistemático da câmera fotográfica ou da câmara
não é andar, não é flanar. Não é ir umas horas e
de vídeo nas caminhadas por estas ruas objetiva a
alguns dias: é uma convivência diária prolongada,
reconstrução de uma narrativa a partir da própria
no caso de lugares distantes, ou uma “visitação
temporalidade do registro da imagem no instante em
freqüente”, quando se trata de lugares próximos
que o acontecimento se desenrola sob nossos olhos,
que não implicam numa mudança do pesquisador.
o que desencadeia a presença de todas as outras
(ROSALDO, 2000) Já falamos sobre esta questão,
imagens que nos habitaram em momentos e situações
mas vale a pena repetir que o tempo é vital porque
anteriores, quando o olho que registrava não era o
é mediante ele (e a formação) que o entendimento
da câmera, mas o olho humano repleto de pequenas
pode substituir as perplexidades iniciais.
impressões mnésicas, experiências sensoriais, evocações
O fato de usarmos um método secular não de imagens de outras cenas urbanas, em outros bairros,
182
significa que nada tenhamos a aprimorar nele ou cidades e países. (ROCHA; ECKERT, 2003, p. 21)
a aperfeiçoar de outros métodos de apreensão
da cidade.7 Em particular, me parece bastante Finalmente, trabalhos recentes têm
instigante a incorporação do audiovisual nas incorporado formas diversas de cartografar, usando
diferentes etapas da pesquisa etnográfica. Na croquis, por exemplo. Ou seja, estamos aprendendo
apresentação da linha de pesquisa “Nouvelles a colocar informações no papel de outra forma que
méthodes pour les territoires contemporains” não necessariamente a descrição ou a escrita linear.
do Laboratório de Arquitetura e Antropologia, A seguir, apresentamos dois exemplos destas outras
em Paris, Cristina Rossi fala da necessidade de formas de escrita. O primeiro, extraído do trabalho
“descompartimentalizar as temporalidades da de Thais Cunegatto (2009, p. 50) sobre a Rua da
pesquisa que induzem sempre um longo momento Praia, em Porto Alegre, e, o segundo, do trabalho
de silêncio no qual o pesquisador ‘fica só’, de maneira de Marluci Menezes (2009, p. 314) sobre a Praça
Martim Moniz, em Lisboa:

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Cenários comportamentais na praça Martin Moniz (Menezes, 2009: 314)

183

NARRATIVAS ETNOGRÁFICAS URBANAS A sociologia, historicamente, lida com situações


Vimos numa seção anterior que colocar o que estáveis, com estruturas de referência, com o que
é vivido, sentido e experimentado no papel, isto permanece como ossatura da dinâmica das relações
é, escrever o campo, nos coloca diversos desafios, sociais. Sempre abominou e temeu as situações
entre os quais o de transformar sons em escrita, instáveis, os momentos, as temporalidades curtas,
experiências multissensoriais em narrativa linear, o indefinido, a ausência de estruturas visíveis e
intersubjetividade em objetividade-mínima etc. identificáveis. Refugiou-se nos lugares fechados
Nesta seção, gostaríamos de falar sobre os desafios das relações estáveis, nos redutos das instituições,
particulares da escrita etnográfica urbana. O campo nos nichos das permanências, nos recantos das
urbano nos coloca alguns desafios como o de narrar mudanças sociais reguladas e controladas [...]. É
objetos em movimento: preciso inovar metodologicamente. É preciso criar

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Experiências com o tempo e o espaço em uma caminhada pela Rua da Praia (cunegatto, 2009, p. 50)

184

instrumentos de reconstituição e de interpretação ser, é uma condição na qual os urbanitas estamos


que superem as limitações do enraizado e constantemente envolvidos e precisamos conhecer
estável para enfrentar os desafios do emergente suas implicações. Além dos objetos móveis, o campo
e até fugaz, dos relacionamentos sabidamente na cidade se torna, ele mesmo, móvel, porque as
passageiros, mesmo na sua cotidiana repetição. pessoas com as quais estabelecemos relações são
(FREHSE, 2011, p. 12) móveis. Na cidade, nosso campo não pode ser mais
um espaço geograficamente delimitado: o campo está
O passageiro, o emergente, o fugaz, são ali onde se encontram as pessoas que pesquisamos,
características de fenômenos urbanos que as relações que queremos entender. Eis porque
precisamos aprender a considerar objetos, além de Akhil Gupta e James Ferguson (apud CLIFFORD,
aprender a narrar. A condição de transeunte, por 1999, p. 112) clamam por uma Antropologia
exemplo, por mais efêmera ou banal que pareça concentrada em “localizações cambiantes mais do

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que em campos delimitados”. A pesquisa não pode objetivos de disciplina consistia em analisar
se ver restringida espacialmente. Mas, como narrar algumas das diversas formas de escrita etnográfica,
localizações múltiplas, conjunturais, atravessadas? levando a sério a provocação de Rosaldo (2000,
(CLIFFORD, 1999, p. 113) p. 61), já citada em páginas anteriores, de “como
Apesar dos novos desafios, a narrativa pessoas tão interessantes, que fazem coisas tão
etnográfica urbana continua partilhando dos interessantes, podem escrever coisas tão chatas?”.
velhos desafios, dentre os quais eu destacaria os Tratava-se de discutir as narrativas de diversos
seguintes: como incorporar a voz do nativo de uma textos antropológicos e não-antropológicos para
forma justa, isto é, não apenas para corroborar detectarmos as características diferenciadas de uns e
uma leitura proposta por nós? O que fazer com os outros. Dentre os textos selecionados encontravam-
longos depoimentos que não se “encaixam” na nova se os Argonautas do Pacífico Ocidental (1978), por se
ordem da escrita? Devemos entender as longas tratar de um clássico da literatura etnográfica do
citações e transcrições de entrevistas ou diálogos início da década de 1920; outro clássico, desta vez
como necessariamente entediantes? E se deixarmos da etnografia urbana do início da década de 1940,
os nossos interlocutores falarem o tempo todo a Sociedade de esquina, de William Foote-Whyte
porque o que dizem é interessante, a autoridade do (2005); A vida, de Oscar Lewis (1969), outro clássico
antropólogo ficaria necessariamente comprometida? da etnografia urbana do início da década de 1960
Como a experiência do trabalho de campo na cidade e, finalmente, um trabalho brasileiro bastante
tem se colocado no papel? representativo da escrita etnográfica urbana da
década de 1980, escrito por Teresa Caldeira (1984) e
Tentei responder esta última pergunta
intitulado A política dos outros.
na disciplina “Projetos Integradores 4 e 6” que
ministrei aos alunos do Instituto de Ciências O quadro (a seguir), que resume a análise
Sociais da Universidade Federal de Alagoas dessas quatro obras, mostra que, quanto mais as
(UFAL), no segundo semestre de 2009. Um dos nossas narrativas trabalharem com personagens

MALINOWSKI FOOTE-WHITE LEWIS CALDEIRA


185
O cotidiano e a imagem do
A organização social num Uma família num bairro
O que se narra O kula poder e dos poderosos num
bairro pobre em Boston pobre em Porto Rico
bairro pobre de São Paulo
Num Anexo (de 50 páginas)
Na Introdução (em 25 Na Introdução (em 5
à segunda edição, o autor Na Introdução (em 50
páginas), o autor diz como páginas), a autora conta
Como os autores tratam a se apresenta, conta como páginas), o autor descreve
fazer trabalho de campo de como passou do interesse
questão da forma como os se desenvolveu a pesquisa, a equipe, os questionários,
uma forma geral, não como pela periferia para o
dados foram obtidos como chegou ao bairro, os inventários, as história
foi o seu trabalho de campo interesse nos moradores
como escolheu o tema, as de vida
em particular da periferia
dificuldades
Em forma descritiva:
a região, o nativo, o kula Em forma de descrição-
Em forma de personagens:
Em forma de casos: Em forma de personagens: análise:
histórias de Doc, Chick, Tony
Como se apresentam um naufrágio, uma parada, histórias de Fernanda, a urbanização, a história
Em forma teórica:
os dados uma viagem Soledad, Felícita, Simplicio dos bairros, as imagens
as gangues, gângsteres, a
Em forma teórica: e Júnior do poder por parte dos
organização social
o kula como instituição, sua moradores da periferia
relação com a magia

Autor: 98% Autor: 65% Autor: 90%


Quando e como aparece a Autor: 5% (Introdução)
Nativo: 2% (nos capítulos Nativos: 35% (nos capítulos Nativos: 10% (no capítulo
voz dos pesquisados Nativos: 95%
Descrição e avaliação teóricos) de personagens) sobre imagens do poder)
de 4 etnografias Avaliação dos Alunos “Chato” “Legal” “Ótimo” “Chato”

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e quanto mais a voz dos nativos aparecer nos quais Oscar Lewis conviveu. Não conheço trabalho
textos, mais a sua leitura se torna interessante semelhante de etnografia urbana. E lamento como
para os alunos. Os textos “bons de se ler” foram, os antropólogos, falando de uma maneira muito
por unanimidade, os de Foote-Whyte e Lewis. O geral, não temos capacidade para narrar a riqueza
cânon antropológico estabelece que as citações das vidas com as quais trabalhamos em campo, dia
dos nativos são muito importantes, porém, não após dia, em diversas situações.
devem ser excessivas: a “voz do antropólogo, autor
A meu ver, o fato da voz do autor ser
do discurso próprio da disciplina, [que] não pode
minoritária no interior do texto não deve ser
ficar obscurecida ou substituída pelas transcrições
interpretado como ausência de autor ou autoria
das falas dos entrevistados”, nos disse claramente
ou simples trabalho de transcrição por parte do
Cardoso de Oliveira (1998, p. 30). No entanto, a
antropólogo, pois “é o antropólogo que, em suas
etnografia que eu mais desfrutei de ler até agora foi
etnografias, mesmo dialógicas, tem o controle final
La vida. Una familia puertorriqueña en la cultura de la
sobre a palavra. Ele decide selecionar, editar, publicar,
pobreza: San Juan y Nueva York, o livro que os alunos
fornecer o contexto apropriado e a orientação
também mais gostaram, no qual o autor aparece
teórica” (GOMES, 2008, p. 4). Temos, pois, o grande
apenas em 5% do texto!
desafio de dominar a arte de trabalhar as falas dos
Essa obra de Lewis, de mais de 600 páginas, narra
interlocutores. De fato, “um bom repórter pode usar
a vida de Fernanda, uma prostituta num bairro
tais transcrições com muito mais arte”. (CARDOSO
pobre de San Juan, e sua família. Cada seção é
DE OLIVEIRA, 1998, p. 30)
dedicada à narrativa de um membro da família, e,
nos subcapítulos, autor apresenta um dia típico em Os jornalistas, especialmente no gênero livro-
suas vidas, suas infâncias, os cônjuges, a visão sobre reportagem, têm sabido capturar um público leitor
a mãe, a relação com os próprios filhos etc. O livro se cada vez maior e ávido por informações de modos
estrutura, assim, a partir de personagens e situações de vida diferentes. Refiro-me aqui, em particular, ao
descritos e narrados por eles mesmos e com o seu livro O livreiro de Cabul, escrito por Asne Seierstad
próprio linguajar; o autor aparece apenas para (2006), um sucesso de vendas no mundo inteiro.
contextualizar algumas questões como o local onde O tempo que a jornalista ficou na casa de um
186 livreiro da cidade de Cabul (poucos meses), a forma
transcorre a cena, os gestos que cada personagem
faz ou o tom de voz. Ele é o narrador de personagens como descreveu o processo do “campo” (“cheguei,
que adquirem vida própria e cujas falas aparecem no conheci o livreiro e morei na casa dele”), a maneira
texto o tempo todo, principalmente em forma de como conviveu com a sua família (sem gostar de
diálogos. ninguém), o que escreveu sobre esta (uma série de
comentários etnocêntricos) denotam as imensas
Seu autor, Lewis, só aparece plenamente na
diferenças entre fazer etnografia e fazer um livro-
longa introdução de 50 páginas, na qual ele explica
reportagem.
como foi feito o trabalho de campo, os métodos
e técnicas empregados na pesquisa, assim como Mas a questão é: as pessoas leem os jornalistas
algumas conclusões sobre cultura da pobreza. Quem falando sobre cultura, não os antropólogos. Não
acaba de ler o texto sabe exatamente o que é ser vou entrar no mérito de uma análise do que o
mulher, pobre e prostituta em San Juan, assim como grande público quer ler e por que o fazem, apenas
o que é ser filho de uma mulher assim, tudo isso me interessa ressaltar a ideia segundo a qual
dito nas próprias palavras e vida dos nativos com os poderíamos escrever de forma diferente e, com

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isso, sermos mais lidos. Sustento a hipótese de que Paola Berenstein Jacques no PPG-AU/UFBA, em abril de 2012.
quanto mais os nossos interlocutores aparecem nos 2
“O que fazemos que os outros não fazem, ou só fazem
textos como personagens mais interessante se torna ocasionalmente, e não tão bem feito, é (segundo essa visão)
a narrativa. É claro que se aprecia e aprende com os conversar com o homem do arrozal ou a mulher do bazar, quase
outros textos, mas estamos falando aqui apenas do sempre em termos não convencionais, no estilo ‘uma coisa leva a
prazer de ler. Um prazer que advém da proximidade outra e tudo leva a tudo o mais’ em língua vernácula e por longos
períodos de tempo, sempre observando muito de perto como eles
com a realidade narrada em forma de personagens. se comportam”. (GEERTZ, 2001, p. 89, 90) “A antropologia não
Se a etnografia tem como característica o trabalho se define por um objeto determinado: mais do que uma disciplina
com “gente”, com “nativos de carne e osso”, cujos voltada para o estudo dos povos primitivos, ela é, como afirma
Merleau-Ponty, ‘a maneira de pensar quando o objeto é outro e
relatos, narrativas, comentários e entrevistas foram
que exige nossa própria transformação”. (MAGNANI, 2002, p. 16)
realizados mediante a observação-participante,
faz sentido que estes nativos e esta observação-
3
O “urbanista errante” constitui uma proposta crítica que responde
ao método – planejado e de cima – predominante no Urbanismo.
participante apareçam plenamente no texto. O que Jacques (2006) propõe é uma postura de apreensão da
Após este longo percurso que nos levou da cidade menos distante da experiência urbana, uma que retome as
formas de apreender própria dos diversos errantes que existiram
Antropologia do século XIX à questão da narrativa ao longo da história (andarilhos, flâneurs, surrealistas, situacionistas,
etnográfica urbana atual gostaria de voltar à artistas como João do Rio e Oiticica, entre outros). Três seriam
pergunta que deu título a este trabalho: podemos as características deste urbanista errante: se perder, ser lento e
todos ser etnógrafos? A rigor, fazer etnografia não corporizar. Após ser ensinado a se orientar, o urbanista deveria
aprender a se desorientar, se perder, para se reintegrar de outra
consiste apenas em “ir a campo”, “ceder a palavra forma, não-ensinada previamente; após viver mergulhado na
aos nativos” ou ter um “espírito etnográfico”. Fazer velocidade do mundo moderno, ele teria de aprender o ritmo da
etnografia supõe uma vocação de desenraizamento, lentidão; finalmente, no mundo da virtualidade ou num mundo
asseptizado, onde tudo se descorporiza, ele teria de aprender
uma formação para ver o mundo de maneira
a corporizar novamente as coisas e as pessoas, isto é, usar,
descentrada, uma preparação teórica para entender percorrer, experimentar, tocar, sentir, cheirar.
o “campo” que queremos pesquisar, um “se jogar de 4
Antes dele, nos Estados Unidos, o antropólogo Lewis Morgan já
cabeça” no mundo que pretendemos desvendar, um “visitara” os iroqueses nos anos de 1844 e 1846, e o antropólogo
tempo prolongado dialogando com as pessoas que Franz Boas, entre 1883 e 1884, já convivera entre os nativos
almejamos entender, um “levar a sério” sua palavra, da Terra de Baffin, e, logo depois, entre os Kwakiutl da ilha de
187
Vancouver. Entretanto, o primeiro a formular a etnografia como
um encontrar uma ordem nas coisas e, depois,
método foi Malinowski.
um colocar as coisas em ordem mediante uma
escrita realista, polifônica e intersubjetiva. Gostaria
5
Retomo aqui expressões de Marian Smith para se referir às
antropologias de Malinowski e Boas. Segundo Sahlins, o empirismo
de frisar que explicitar o que é fazer etnografia de Boas, em contraposição à teoria funcionalista de Malinowski, o
para um antropólogo não significa dizer que ela levava a “um compromisso em encontrar ordem nos fatos, e não
é “propriedade” nossa; significa, apenas, afirmar em colocar os fatos em ordem”. (SAHLINS, 2003, p. 80)
o quanto ela é complexa para nós. Como outras 6
No Rio de Janeiro, o Núcleo de Pesquisa sobre Sujeito, Interação
disciplinas podem se apropriar dela é outra questão, e Mudança, inserido no Programa de Pós-Graduação em
cuja reflexão deixo para outro trabalho. Antropologia Social (PPGAS) do Museu Nacional, foi coordenado
até alguns meses atrás por Gilberto Velho. O interesse do Núcleo
se centra nas interações nas sociedades complexas e os temas
abordados são família, violência, religião, sexualidade e estilos de
Notas vida metropolitanos. Gilberto Velho foi, no Brasil, o antropólogo
que, desde a década de 1970, primeiro se interessou por uma
1
Uma versão preliminar deste artigo foi apresentado na disciplina Antropologia das Sociedades Complexas. Ruben Oliven (UFRGS)
“Apreensão da cidade contemporânea” ministrada pela professora

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______. Relativizando o interpretativismo. In:
é outro antropólogo que pesquisa numa perspectiva semelhante.
CORREA, Mariza; LARAIA, Roque (Org.). Roberto
No entanto, tal linha não é a dominante do PPGAS do Museu,
Cardoso de Oliveira: homenagem. Campinas:
mais centrada em Etnologia Indígena e Antropologia Política. Por
Unicamp, 1992.
outro lado, esses trabalhos poderiam ser situados na chamada
Antropologia na cidade, mais do que numa Antropologia Urbana, FOOTE-WHYTE, William. Sociedade de esquina. Rio
entendida como Antropologia da cidade. Para esta discussão, de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
remeto o leitor ao texto “Antropologia Urbana: problemas e
contribuições”. (MONTOYA URIARTE, 2003) FREHSE, Fraya. Ô da rua: o transeunte e o advento
da modernidade em São Paulo. São Paulo: Edusp,
7
No artigo “Olhar a cidade: contribuições para a etnografia 2011.
dos espaços urbanos” (MONTOYA URIARTE, 2012), faço uma
proposta metodológica para os antropólogos urbanos que, mesmo GEERTZ, Clifford. Uma descrição densa: por uma
tendo um olhar disciplinado pela sua formação, sentem ainda teoria interpretativa da cultura. In: A interpretação
dificuldades para ver espaços urbanos, isto é, saber o que e como das culturas. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989.
olhar na cidade.
______. Nova luz sobre a Antropologia. Rio de
8
No original: “Décloisonner les temporalités de recherche qui Janeiro: Zahar, 2001.
induisent toujours un long moment de silence où le chercheur
GOLDMAN, Márcio. Os tambores dos mortos e
‘reste seul’ pour finaliser sa recherche pendant que l’interlocuteur
os tambores dos vivos. Etnografia, antropologia e
le perd de vue en attendant ‘le produit terminé’” (tradução nossa).
política em Ilheús, Bahia. Revista de Antropologia,
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TUMULTO

Alessia de Biase*

Por uma postura


antropológica de
apreensão da cidade Duas disciplinas, uma em que o espaço está no
contemporânea centro das preocupações e a outra em que o espaço
é o contexto das interações. Esta foi desde sempre
De uma antropologia do a definição da relação com o espaço da Arquitetura
espaço à uma antropologia da e da Antropologia. Esta foi também a base das
transformação da cidade relações que poderiam se estabelecer entre ambas as
disciplinas.
Formada em Arquitetura e Urbanismo
190
na Itália, defendi uma tese de doutorado em
Antropologia Social e Etnologia, na França, na
EHESS.1 “Trabalhar com quem habita as casas
e as cidades”, eu dizia à Franco La Cecla meu
orientador de mestrado em arquitetura durante
o meu primeiro trabalho etnográfico no bairro da
Goutte d’Or em Paris, “é bem mais interessante e
ativo para ‘fazer a cidade’ do que conceber, sozinha,
essas casas e essas cidades… !” Vários anos se
* arquiteta, antropóloga, coordenadora do Laboratório passaram e eu continuo a pensar que trabalhar com
Arquitetura/Antropologia – LAA/LAVUE/CNRS -
os habitantes é fundamentalmente uma maneira
ENSAPLV/ Paris-França
de trabalhar ativamente sobre a cidade, sobre
tradução: Paola Berenstein Jacques
“fazer a cidade”. “Bem naturalmente”, por causa

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dos meus estudos em Arquitetura e Urbanismo, férteis e formalizados mas sem chegar a fundar um
eu cheguei à Antropologia: na verdade tive a sorte verdadeiro campo disciplinar próprio. A partir dos
de encontrar no meu caminho vários personagens, anos 1980, houve na França uma necessidade de
arquitetos, urbanistas, como Giancarlo de Carlo,2 fundar uma Antropologia do espaço para “reagir”
que me formaram a um certo tipo de olhar que principalmente à produção modernista da cidade
não se restringe aos limites disciplinares e que se que ocorreu desde o final da Segunda Guerra
constrói a partir de uma abordagem sensível da Mundial e nos anos 1960 através dos estudos das
cidade. Minha chegada na Antropologia não é de arquiteturas ditas tradicionais.6
forma alguma ligada a uma impossibilidade de fazer Arquitetos, sociólogos, psicólogos e
teoria em Arquitetura e Urbanismo,3 mas sim a antropólogos (em grande minoria), começaram
uma vontade de me formar a uma escuta do Outro, então a organizar seminários, colóquios, fundar
a uma compreensão da ideia que este se faz de laboratórios de pesquisa,7 cursos nas escolas de
outros e finalmente à apreensão de outras formas arquitetura,8 para se confrontar e organizar um
de olhar o mundo. Esta busca ao longo dos anos e pensamento crítico e suas ferramentas operacionais.
das pesquisas de campo se transformou naquilo A leitura do estudo do vilarejo Bororó de Claude
que, no Laboratoire Architecture/Anthropologie,4 nós Lévi-Strauss (1958), La dimension cachée de Edward
chamamos de uma abordagem antropológica que, T. Hall (1971), Anthropologiques de Georges
como veremos, vai bem além dos limites da própria Balandier (1976) e as primeiras reflexões de Georges
disciplina. Condominas sobre o conceito antropológico do
Por estranhos desvios de heranças,5 foi a espaço social (1977), formam as primeiras bases
partir de minha formação como antropóloga teóricas deste grupo cujo perímetro continua bem
que eu redescobri uma grande afeição por alguns circunscrito até hoje. Em 1983 torna-se o ano de
urbanistas humanistas, como Patrick Geddes no “fundação” da Antropologia do espaço uma vez que
começo do século XX, e foi a partir do Urbanismo, duas ocasiões se apresentam para tornar pública
consequentemente, que eu alimentei a minha essa abordagem: a publicação de Anthropologie de
necessidade de tranformar os discursos, as narrações l’espace de Françoise Paul-Levy e Marion Segaud
individuais em narrativas coletivas, e a me questionar na nova coleção do Centre Georges Pompidou 191
infatigavelmente sob quais formas (gráficas ou não) e o colóquio “Espace Habitat Société” no Musée
estas últimas podem ser traduzidas para participar de l’Homme, organizado por aqueles e aquelas
ativamente do “fazer a cidade”. Todo meu trabalho é que fundaram o atual Laboratoire Architecture/
no sentido de fazer dialogarem as duas abordagens, Anthropologie.
antropológica e urbanística, de buscar formas de as As bases dessa abordagem, que se pretendem
fazer trabalharem juntas para se pensar a cidade e necessariamente interdisciplinares, são fundadas
para pensar que os limites colocados muitas vezes sobre o princípio:
entre as disciplinas seriam apenas uma distância
entre diferentes formas de olhar. […] de um lado tratar do espaço como categoria
explicativa assim como as organizações sociais, os
ENCONTROS NO PASSADO sistemas político-econômicos, os sistemas de valores,
A Antropologia e a Arquitetura já tentaram e de outro lado elaborar os conceitos e métodos,
no passado alguns encontros mais ou menos as problemáticas necessárias para a existência de

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uma antropologia que tenha o espaço como objeto. mas se observamos atentamente essa abordagem e
(PAUL-LEVY; SEGAUD, 1983, p. 26) os tipos de objeto que esta Antropologia do espaço
queria analisar nos encontramos continuamente
Estas propostas compartilhadas pela e sistematicamente com os topoi. E na verdade
necessidade de mostrar a questão espacial como as classificações, os catálogos tipológicos, muito
uma chave para a compreensão de culturas outras, “estáticos” (ABELES, 1984, p. 111) devem ser
tornaram-se muito menos interessantes a partir testados de maneira comparativa nas arquiteturas e
do momento em que olhamos os resultados nos lugares tradicionais, a partir de quatro universais
produzidos por esta Antropologia do espaço (habitar, fundar, distribuir e transformar) definidos
onde infelizmente esta necessidade científica foi como “marcadores significativos das relações dos
traduzida pela completa exclusão de outros dados homens ao espaço” (SEGAUD, 2007, p. 12) Estes
(econômicos, políticos, sociológicos etc.) necessários trabalhos de classificações (chamados de “etno-
em contrapartida para a compreensão dos lugares de arquitetura”) se mostram bastante “operacionais”
forma mais complexa. para os arquitetos lhes dando os elementos
E aqui achamos nosso primeiro simbólicos e técnicos imediatamente utilizáveis:
questionamento, o que é esse espaço de que fala situações estáveis e estáticas que poderiam
a Antropologia do espaço? O espaço é dado, seguramente se tornar fáceis pontos de apoio para
na definição que eles nos propõem, como “o dar mais sentido a projetos arquitetônicos.12
significado do termo utilizado pelos arquitetos e “Essa classificação é tão operatória para as
urbanistas.” (SEGAUD, 2007, p. 12) Mas, qual é sociedades de ontem quanto para aquelas de hoje
este significado, não sabemos exatamente e, por em mutação acelerada.” (SEGAUD, 2007, p. 12), e é
tomar como testemunhas arquitetos e urbanistas, então utilizada para trabalhar tanto nas arquiteturas
eles se sentem isentos de afirmar uma posição tradicionais do mundo todo quanto para estudar o
científica e se esquivam de enunciar, dentro dos segundo tipo de espaço privilegiado de estudo desta
dois campos disciplinares, a definição do que seria antropologia: a habitação a princípio de massa e
um espaço, o que pode ser encontrado em muitas depois as experimentações dos arquitetos.
192
páginas de literatura científica.9 Do que podemos
Por um lado, as arquiteturas tradicionais
compreender de sua forma de considerar o espaço,
levam a descobrir o Outro longíncuo ao trabalhar
eles se referem mais a uma questão geométrica
principalmente com os levantamentos dessas
regida pelas medidas (escala e dimensão) e pela
arquiteturas e suas práticas associadas, reduzindo
distância (FARINELLI, 2003): uma realidade
assim por vezes a complexidade das situações
absoluta, atemporal, topológica10 do que a
estudadas pelos pesquisadores.13
uma questão, ao contrário, dos lugares que são
caracterizados pela presença humana, impregnados Por outro lado, esta “ação crítica contra o
de história, relacionais, imprecisos geograficamente, modernismo” se desenvolve em torno do estudo
espaços praticados, chôrologiques.11 O que pode de práticas de habitar e de desvios espaciais
parecer contraditório com relação aos seus objetos desenvolvidos pelos habitantes nos grandes
privilegiados de pesquisa, a arquitetura vernácula e conjuntos habitacionais, lugar por excelência da
seus usuários, e à afirmação de sua posição crítica ao expressão dos dogmas modernistas. A questão
Movimento Moderno em Arquitetura e Urbanismo, da habitação se torna então o campo ideal para
trabalhar esta “operacionalidade”, necessária entre

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arquitetos e pesquisadores em Ciências Humanas florescentes cruzamentos disciplinares em torno do
e Sociais, cujo objetivo era de encontrar princípios espaço experimentado em outros campos e, mais
para uma melhor produção de habitação. Este tipo particularmente, um enfraquecedor distanciamento
de trabalho produziu um nicho muito importante da Antropologia urbana muitas vezes considerada
ligado à recepção e avaliação das arquiteturas pelos como uma “outra Antropologia”, uma outra
habitantes.14 especialização, como se o espaço da cidade não
As posturas científicas e críticas louváveis, pudesse ser o tema de um diálogo comum. Este
tanto na França produtiva e construtiva das Trente distanciamento é causado, pelos autores da
Glorieuses15 quanto da pesquisa nas escolas de Anthropologie de l’espace, pelos objetos de pesquisa
arquitetura que viram nas suas experiências seu da antropologia urbana (a minorias, os efeitos da
primeiro impulso, sofrem de uma fraqueza de grande cidade sobre a organização social, as redes
origem: uma espacialização extrema e cega que levou etc.) que se concentram em “compreender a exceção
a não se desejar colocar estas experiências dentro mais do que a regra” (SEGAUD, 2007, p. 26), os
de uma tradição científica que começou bem antes e lugares mais do que os espaços, eu diria, no lugar
fora da França. de pesquisar os topoi da relação homem/espaço em
todos os contextos e culturas.
SE ESPECIALIZAR … Assim as experimentações metodológicas tais
Inicialmente a especialização científica efetuada como a “observação flutuante” que Colette Petonnet
ao longo dos últmos séculos, pelos modernos,16 (1979), nesses mesmos anos, inicia nas periferias
levou e leva ainda hoje à uma impermeabilidade de Paris em plena transformação dialogam muito
disciplinar cada vez mais forte (sobretudo pela pouco com os estudos sobre esses mesmos lugares,
linguagem, que se tornou um jargão enigmático os conjuntos habitacionais, feitos por arquitetos e
para a maioria dos leitores) e a pesquisadores sociólogos deste grupo (Anthropologie de l’espace).
cada vez mais fechados em sua especialidade sem Também estão ausentes os importantes
ter mais qualquer tipo de “visão do conjunto”e posicionamentos dos antropólogos franceses tais
a horizontes científicos cada vez menores. como Gerard Althabe ou Marc Augé, que, nestes
Paradoxalmente, a Antropologia do espaço sofreu mesmos anos, fundam uma anthropologie des 193

desta especialização, desde seu início pela escolha mondes contemporains (Antropologia dos mundos
deste termo – espaço – usado para descrevê-la, contemporâneos) que faz da cidade um dos
decliná-la com relação às outras antropologias, lugares privilegiados para observar as mudanças
tinha-se, por seu valor fora da escala (e do tempo) e experimentar uma etnografia do presente.
dada ao termo, tanto a possibilidade de se incluir (ALTHABE, 1984, 1992; AUGE, 1992, 1994)
todas as tradições e experiências espaciais outras
E finalmente, é curioso o esquecimento da
(criando-se assim um verdadeiro “campo” como
reflexão sobre o espaço feita por Michel de Certeau
nos studies norte-americanos), quanto ao mesmo
em 1980 no primeiro volume do livro L’Invention du
tempo e em completa contradição, a impossibilidade,
quotidien, relido e redescoberto na França somente
por sua amplitude, de construir e de identificar
depois de sua passagem pelos EUA.17
claramente o seu objeto de estudo. E, então,
neste desejo de especialização reencontramos A linha de separação se concretiza,
uma forma de cegueira com relação a todos os evidentemente, tanto em torno dos objetos e

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a sua escala, quanto em torno das abordagens Piano. Um momento muito exclusivo, onde são
epistemológicas utilizadas: a Antropologia requisitadas altas competências técnicas que
do espaço só pode ser profundamente e apenas o arquiteto teria acesso. Mas dentro desta
categoricamente estruturalista e dificilmente economia temporal do projeto, nós sabemos que
poderia dialogar com todos aqueles que, na mesma esta parte dita “técnica” corresponde somente uma
época, não procuravam nem leis nem regularidades parte ínfima, e que não é fundamental ao próprio
para explicar a relação entre o espaço e a sociedade, projeto. Giancarlo de Carlo, em magistral artigo
procurando ultrapassar, na antropologia ou em de 1973, expressa a necessidade de voltarmos a
outras disciplinas, esta visão do mundo. pensar a Arquitetura e o Urbanismo como parte
A Antropologia do espaço, como acabamos de das Ciências Humanas e de nos desligar desta
ver, decide se “isolar” com relação ao importante visão romântica da arquitetura como “criação”,
debate intelectual, sobretudo pós-estruturalista que a liga progressivamente ao mundo da arte
desses mesmos anos, que toma a questão espacial e, contemporânea. A arquitetura são as pessoas e
mais precisamente, a cidade como objeto científico nada mais, ele dizia. As derrapagens desta “mágica
privilegiado. projetual”nós podemos encontrar de forma
espetacular nos archistar que produzem “esculturas”
Mas esse isolamento está indiretamente
mundo afora (LA CECLA, 2010; DE BIASE, 2007,
relacionado a uma outra especialização, tipicamente
2008)20 mas também, e em grande quantidade,
francesa, dos objetos destas antropologias: a
nos projetos bem mais modestos elaborados em
separação entre arquitetura e urbanismo. Trata-se
algumas escolas de arquitetura onde o ensino do
de uma triste fratura acadêmica francesa entre
projeto se reduz a uma questão de forma, de função
as duas disciplinas, já que nos outros países
e de técnica, sem nunca levar em consideração
europeus, o Urbanismo é estudado nas faculdades
a dimensão social e o complexo jogo de atores
de Arquitetura.18 Assim, na Itália por exemplo,19
subjacente.
uma apreensão da cidade na grande escala do
planejamento urbano e de desenvolvimento (do INSERIR-SE EM UMA HISTÓRIA
ponto de vista histórico, teórico e técnico), e uma
194
O segundo ponto fraco da Antropologia do
apreensão do objeto arquitetônico são ensinados
espaço é uma certa negação histórica com relação
no mesmo curso universitário, “Arquitetura”. O que
a outras experiências similares em outros lugares
forma o olhar com mais ferramentas sem nunca se
do mundo e também em outras épocas. “Esta
dividir, como infelizmente é feito aqui na França,
ausência de consideração ao contexto, o princípio
de maneira muito violenta, ao dividir as escalas
mesmo da tabula rasa”, eram justamente as críticas
de ação e de reflexão, e sobretudo as Ciências
que a Antropologia do espaço fazia ao Movimento
Sociais e Humanas do projeto arquitetônico e
Moderno em Arquitetura e Urbanismo (SEGAUD,
urbano. Esta separação, entre Ciências Sociais e
2007, p. 25) mas essas críticas retornaram de forma
Humanas e o projeto arquitetônico e urbanístico,
surpreedente, como um boomerang, contra ela.
muda completamente o horizonte dentro do
qual trabalhamos: neste corte, de fato, o projeto Na verdade as necessidades
passa a ser algo mágico, Alban Bensa (2006, “transdisciplinares” como poderíamos chamá-las
p. 334) fala de uma “alquimia” do arquiteto, a hoje, levantadas pela questão do espaço nos anos
partir de sua experiência colaborativa com Renzo 1980, nós as herdamos de muito longe apesar

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da linhagem mais corrente e reconhecida por novos prédios que antes nos antigos, e isto com
diferentes autores passar sempre por três arquitetos custos mais caros para os aluguéis e os impostos.22
que trabalharam com a arquitetura vernácula:
Bernard Rudofsky, Paul Oliver e Amos Rapoport Mas quem é Patrick Geddes? Ele é um biólogo
(cf. VIARO; ZIEGLER, 2007, p. 22-23). O primeiro e botânico anárquico do final do século XIX que
com a célebre exposição fotográfica no MoMa revolucionou, no início do século XX, a maneira
em New York, “Architecture without architects” de apreender, olhar, pensar a cidade ao inventar
em 1965, o segundo, que escreveu em 1967 The metodologias transdisciplinares, dentre as quais,
need for the New Approach, que se tornou um dos algumas hoje se tornaram rotinas, por vezes tidas
textos fundadores sobre o habitat vernáculo e a como dadas, para todo plano urbano: o diagnóstico
inspiração que este deve ser para os arquitetos; e (survey) antes do plano, por exemplo.23
por fim o terceiro com o livro Pour une anthropologie
de la maison, lançado na França em 1972, com um Geddes introduziu um tipo de planejamento
primeiro esboço de uma teoria da casa. fundado sobre o tempo, a paciência, o cuidado
amoroso do detalhe, a interrelação atenta entre
Esta curta genealogia proclamada nos passado e futuro, a insistência sobre a escala
explica muito deste estreitamento, à Arquitetura humana e sobre as aspirações humanas […] e
sozinha, da problemática inicial talvez muito finalmente a disponibilidade de deixar uma parte
abrangente. Com relação às questões de uma essencial do processo para aqueles que estão
transdiciplinaridade e das experimentações intimamente implicados: os cidadãos.24
metodológicas (além das escolas de pensamento e
das correntes de referência) para se aproximar das Esta atenção ao cotidiano, e às formas de
problemáticas espaciais e sociais que trabalham em habitar das pessoas, pode ser encontrada depois
todas as escalas, nos parece importante hoje – no no próprio Congresso Internacional de Arquitetura
sentido de, talvez, reconstruir nossa filiação e nossa Moderna (CIAM) a partir de 1953, quando um
herança – não esquecer das experiências começadas grupo de jovens arquitetos, o Team Ten25 começou
na Europa no final do século XIX. Me refiro a perceber os limites dos princípios definidos
particularmente ao urbanismo humanista nascido pela Carta de Atenas e as derrapagens que eles 195
na Inglaterra em reação às violentas operações poderiam criar ao aplicá-la. Em suas ações, eles se
urbanas efetuadas nas grandes capitais européias e inscrevem claramente na genealogia começada por
à falta de cuidado com o cotidiano dos habitantes. Patrick Geddes e outros anarquistas humanistas do
Vão neste sentido, e com uma impressionante século XIX e o começo do século XX.26 A partir da
contemporaneidade, as críticas que Patrick Geddes deconstrução da complexa relação entre espaço e
(1854-1932) formula, em 1904, sobretudo com sociedade, motivo de luta do Movimento Moderno,
relação ao Barão Haussmann e à Joseph Stübben.21 tratado a partir de um pensamento dual de
causa/efeito, eles se opunham violentamente aos
Atrás dos grandiosos bastidores da modernidade processos binários e lineares que buscam, por um
um conhecimento mais íntimo da cidade e lado, simplificar as situações e, por outro, pensam
dos habitantes revela o fato de que, apesar do resolver e encontrar soluções a partir de regras
crescimento moderno da riqueza, a família média universais. A necessidade de um trabalho de projeto
parisiense tem menos espaço hoje para viver nos com os habitantes ganha então importância tanto

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nas experimentações de participações27 quanto lugar de debate nos cruzamentos disciplinares.
no nascimento de uma necessidade declarada por Na França, à exemplo da Itália, é criada a revista
arquitetos como Giancarlo De Carlo de solicitar Espace et société seguindo um pouco a mesma linha,
uma avaliação das arquiteturas pelos habitantes. mas se tornou depois uma revista com vocação
A mesma inquietude fundará, alguns anos depois, interdisciplinar mas identificada, ao contrário da
o nicho da antropologia do espaço que tem como italiana, exclusivamente de Ciências Humanas.
eixo a recepção das arquiteturas e a avaliação pós- Este pequeno exemplo anódino, nos mostra mais
ocupação. uma vez a complexidade da relação entre Ciências
Humanas e Sociais, Arquitetura e Urbanismo.
Nunca falamos de como os destinatários usam
A escolha de não inserir-se numa grande
ou podem usar o prédio que os foi destinado:
tradição internacional do século XX é sem dúvida
se eles correspondem bem, de forma medíocre
um ponto fraco desta antropologia do espaço que
ou mal a suas necessidades. O julgamento da
ao invés de se reconhecer nesta ilustre genealogia
obra arquitetônica é sempre feito de forma
decide se isolar ao fechar cada vez mais seu
completamente independente do seu uso. A obra é
perímetro de ação a partir do momento que seus
julgada boa, medíocre ou ruim segundo valores que
objetos privilegiados perdem importância com
realmente são figurativos […] Sempre evitamos
relação à evolução da sociedade.29
o discurso daqueles que usam como se fosse um
argumento banal ou grosseiro: em realidade nós POR UMA POSTURA ANTROPOLÓGICA
pensamos que a arquitetura, considerada como
Mas porque fazer essa crítica? Qual o seu
arte, não pode ser, por definição, contaminada com
sentido?
aspectos concretos da realidade cotidiana. (DE
CARLO, 1973, p. 90-91) Eu coordeno um dos laboratórios que
fundaram esta anthropologie de l’espace, o Laboratoire
A busca por interlocutores de outras Architecture/Anthropologie, e esta crítica me
disciplinas28 para reunir todas as competências interessa para compreender o que hoje quer dizer
necessárias para elaborar melhores projetos se fazer pesquisa com objetos espaciais misturando
196 torna um fato real. Retomando completamente o disciplinas, como a Arquitetura ou o Urbanismo,
ensino geddesiano, o projeto, em qualquer escala, com a Antropologia.30
da arquitetônica à urbanística, é proposto como um
Me parece importante, para compreender
processo onde o habitante como todos os outros
os diferentes caminhos que se abrem para nós e
atores implicados, inclusive o arquiteto urbanista,
talvez chegar a escolher e propor um caminho, se
trabalham juntos.
deter um instante sobre a ideia de “arquitetura”:
A antropologia começa então a aparecer se por arquitetura consideramos o objeto
como uma referência e números inteiros da acabado e estático, projetado e contruído (prédio
revista criada por Giancarlo de Carlo em 1977, tradicional ou não, ou habitação), nós estamos e
Spazio e Società, foram dedicados à etnografias nos encontramos face a pesquisas que defendiam
e à arquitetura tradicional e experimentando uma abordagem transdisciplinar entre arquitetura
comparações entre estas e as arquiteturas e antropologia, hoje escolhendo como objetos o
modernas. Os ensaios de antropólogos, geógrafos, que Christelle Robin tinha com muita propriedade
urbanistas ou arquitetos criaram um grande chamado de “exportação de modelos ” (1992): de

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um lado nós temos a arquitetura neo-tradicional, mesmo atores que são considerados “secundários”
profundamente nostálgica, produzida pelas com relação ao projeto final. A questão da
grandes potências imobiliárias e que hoje abrange responsabilidade, que considero fundadora de
as periferias do mundo todo como uma cenografia uma abordagem do projeto, deveria ao contrário
de um passado idílico, mas que nunca existiu. (DE ser compartilhada desde o início por todos os
BIASE, 2007, p. 45; LOUBES, 2008) E por outro atores envolvidos, partindo do exemplo de uma
lado, na mesma lógica, temos as produções dos “desinfantilização” do habitante que poderia
archistar que inserem no mundo todo objetos que assumir em todo o processo um estatuto de
desafiam a cada concurso as leis estáticas propondo, planner tanto quanto os arquitetos, urbanistas,
ainda, uma cega confiança na idéia de que o pesquisadores em ciências humanas e sociais, e
avanço tecnológico determinará inelutavelmente demais atores implicados.
nosso futuro. (BIASE, 2007, p. 45; LOUBES, A responsabilização, tipicamente geddesiana,
2008) Devemos atentar ao risco de cairmos numa de todos os atores produz um prendersi cura (tomar
semiótica do espaço mais ligada à forma do que ao cuidado) que muda completamente as perspectivas
sentido e ao uso. e os horizontes de ação.
Mas se consideramos – reenvindicando uma
filiação e a herança escolhida – a “arquitetura”, não O problema que os prédios nos colocam é
somente como um objeto31 mas também como um exatamente o oposto do célebre estudo de Étienne
processo de produção espacial coletiva em contínua Jules Marey sobre a fisiologia do movimento. Ao
negociação, encontraremos campos que se abrem criar o seu ‘fuzil fotográfico’, Marey queria fixar
para uma antropologia de novos e interessantes numa sequência de imagens o fluxo contínuo
objetos. do vôo de uma gaivota para compreender o
mecanismo, o que nenhum observador tinha
Nesta compreensão não estática da
conseguido até então. Nós temos a necessidade
arquitetura, é preciso que julguemos que está
do contrário, pois nosso problema é que os prédios
resolvida a distinção entre a elaboração do
sempre parecem terrivelmente estáticos. Parece
problema (e a análise premilinar ou diagnóstico),
impossível compreendê-los pelo movimento, 197
a concepção e execução e os usos (DE CARLO,
como ‘vôo’, como uma série de transformações.
1973, p. 128; CALLON, 1996): todos estes
Como nós sabemos todos – e particularmente
componentes são o projeto e fazem parte dele ao
os arquitetos, bem entendido – um prédio não é
mesmo tempo, e um não é mais importante do que
um objeto estático, mas sobretudo um projeto em
os outros. Na separação tradicional, ao contrário,
movimento, e que mesmo já contruído, ele continua
par cada fase correspondem atores que tem um
sendo transformado por seus usuários, continua
tipo de intervenção muito “especializada”32 sem
sendo modificado pelo que acontece dentro e fora,
que nenhum deles, somente o arquiteto, tenha
que ele vai ser demolido ou renovado, muitas vezes
um visão de conjunto do processo todo. Esta
alterado e transformado até ficar irreconhecível.
visão bem tristemente especializada, de um lado
Nós o sabemos, mas nosso problema é que não
impede efetivamente de considerar os atores de
temos um equivalente do fuzil fotográfico de
todas as disciplinas como planners, como Geddes
Marey, já que, quando nós reproduzimos um
os chamava, e de outro lado, por consequência,
prédio, ele tem sempre a forma de uma estrutura
favorece a uma desresponsabilização desses
fixa, impassível, impressa em quatro cores nas

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revistas de luxo folheadas pelos clientes nas salas os arquitetos? Nós tínhamos entendido, ao nos
de espera dos escritório de arquitetura. Se Marey obrigar a fazer o trabalho de campo em conjunto33,
tinha se frustrado por não poder representar o que a Antropologia não era somente uma disciplina,
vôo de um passaro numa sequência de imagens mas seria uma postura, uma forma de apreender,
fixas, quanto não estaríamos contrariados de não de abordar e de olhar de dentro, intimamente, criar
poder representar o fluxo do projeto que forma um ferramentas, toda uma maneira de fazer, de pensar
prédio sob a forma de um movimento contínuo. e de estar frente ao outro que merecia uma atenção
(LATOUR;YANEVA, 2008, p. 80) constante aos detalhes e a sua necessária articulação
com as grandes escalas (espaciais ou narrativas)
Esta ideia de arquitetura que não se reduz – este famoso “estrabismo metodológico” de que
somente ao objeto mas que convoca também o Marc Augé havia me falado. (DE BIASE; ROSSI,
tempo, e as diferente práticas envolvidas pode 2006) Esta antropologia é também um tipo de
se tornar um objet scientifique a ser estudado ou produção científica que defende e quer traduzir
praticado na ação. Seguir esse “fazer arquitetura “ e tornar legíveis os processos, compreender os
ou o “fazer cidade”, quer dizer buscar entender mecanismos e pensar as suas maneiras de mostrá-
como apreender, analisar e restituir a mudança e los. (TAUSSIG, 2005) Uma antropologia que, como
a transformação. No lugar de persistir analisando a arquitetura34, revendicaria além de sua fliliação a
o objeto arquitetônico como uma coisa pronta, uma disciplina, uma ligação com uma postura e um
estática e acabada, a ideia do movimento nos tipo de “produção”: uma antropologia que poderia
abre a possibilidade de ver o projeto, como nos ser defendida, praticada e reenvindicada pelos
mostrou Geddes no início do século XX, como um arquitetos, urbanistas e atores de outras disciplinas.
jogo contínuo, onde todos os atores continuam
a negociar, ninguém ganha ou perde, mas todos POR UMA ANTROPOLOGIA DA TRANSFORMAÇÃO
aprendem de maneira responsável formas de Diante de um mundo que se quer quase
negociar juntos. totalmente urbanizado como diria Marc Augé em
O que fazer então? Quais objetos trabalhar 1992, nós estamos invitavelmente confrontados
198
neste laboratório de pesquisa? Como “reconstruir”, com a questão da cidade.35 Um jogo de escalas
sem trair, o projeto científico deste laboratório, era necessário e uma articulação entre escala
procurando produzir uma pesquisa que possa ser arquitetônica e escala urbana que nos pareceu
inscrita no mundo que nos rodeia? Os objetos finalmente clara na pesquisa sobre a questão do
estudados no passado, além das críticas aqui morar em prédios altos hoje em Paris (“LAA”, 2009).
formuladas, deveriam nos levar a compreender Para compreender as questões reais colocadas,
que eles poderiam ser suas possíveis e necessárias tivemos que rapidamente sair da escala do prédio,
transformações para fazer uma “Antropologia” que do habitat, para trabalhar a escala do olhar, do
deveria levar em conta a profunda transformação do horizonte e da paisagem : as torres dos prédios
mundo nas últimas décadas. só tinham sentido, e só poderiam levar a projetos
Um primeiro passo foi o de compreender futuros, se trabalhássemos com a escala urbana e
o que poderia ser esta “Antropologia”. Era paisagística. O salto de escala, que poderia passar
uma “obrigação acadêmica”ou como dizia Pierre desapercebido, mudou completamente o olhar
Clément uma “iniciação a mundo longincuo”para dos habitantes sobre sua forma de habitar, dos

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administradores que nos contrataram para essa comum. Esta implementação constante de uma
pesquisa sobre seu próprio objeto e finalmente abordagem transdisciplinar se tornou uma de
do nosso próprio olhar o que nos ajudou a fazer nossas necessidades científicas que foi traduzida
um salto heurístico na definição de nosso objeto na construção contínua de ferramentas conceituais
científico. e metodológicas que permitissem apreender a
A cidade vista como algo profundamente transformação na articulação de escalas e horizontes
material, em contínuo movimento e negociação, espaciais e temporais.
se tornou então o contexto adequado para nossa Dentro desta Antropologia da transformação,
antropologia. Do nosso passado e de nossa três tempos e três escalas de análise se cruzam
estimulante ancoragem dentro de uma escola de sem parar: a cidade herdada, a cidade habitada,
arquitetura, nós escolhemos herdar o savoir-faire ou a cidade do presente que se faz e desfaz
com esta “materialidade”, o saber trabalhar com o continuamente; e por fim a cidade projetada, que se
“concreto” que, como se sabe, deriva de cum + crescere, confronta constantemente com seu horizonte futuro.
crescer junto. (BERQUE, 2010, p. 66) Entendemos logo que estudar o “fazer a cidade”,
Explorar as questões de uma antropologia da queria dizer nos impedir de escolher um desses três
transformação da cidade se tornou então o nosso tempos, e também de prever, ao contrário, como
objeto: uma cidade que não é um simples cenário os manter constantemente juntos, de os recompor
das interações do grupo estudado, uma cenografia, constantemente, mesmo anacronicamente, para
mas é um processo material e simbólico de espaços compreender a profundidade das ações.
e tempos que são continuamente imaginados, E assim nós começamos a procurar trabalhos
narrados, negociados e projetados pelas pessoas de campo que poderiam nos colocar a prova, e que
que o habitam, por aqueles que os controem e os poderiam transformar nossas formas de olhar o
administram e por todas as restrições (materiais, mundo. Primeiro, frente ao espetáculo da demolição
políticas, econômicas etc.) que vão surgindo dos grandes conjuntos habitacionais modernistas
paulatinamente. Os processos materiais, que – destes modelos de habitar que foram um dos
transformam a cidade, os discursos que participam objetos privilegiados da anthropologie de l’espace – e
destas trasnformações, são tão entrelaçados que é as novas propostas de ideias de cidade e de habitar 199

necessários analisá-los de forma conjunta para poder juntos, nós escolhemos o caso dos 4000 sud de La
entender suas complexida