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O pássaro que ruge

O locutor esportivo mais conhecido do Brasil foi alvo da


campanha "Cala boca Galvão" no Twitter, que mostrou até
onde a rede de 140 caracteres pode levar um assunto: o mundo

Jadyr Pavão Júnior e Rafael Sbarai

Joel Silva/Folhapress

"SALVEM O GALVÃO"
Imagem do vídeo que se seguiu à frase do Twitter: grandes jornais e sites de notícias se
interessaram pelo assunto

VEJA TAMBÉM Ferir com palavras, pondo para circular histórias falsas
• Twitter: 'Quem se deu bem' e 'encontros com o objetivo de irritar ou destruir alguém, é uma prática
inusitados' tão antiga quanto a história humana. A humanidade viajava
• Gráfido: Cronologia do 'Cala boca Galvão' ainda à velocidade de 16 quilômetros por hora das
• Quadro: E só se fala nisso carroças, mas as notícias ruins e fofocas já pareciam ter
asas. As línguas de trapo mal esperavam o conquistador romano Júlio César, talvez o mais celebrado
general e estadista de todos os tempos, sair de Roma para começar seu trabalho de intriga e destruição.
Conforme registrou o historiador Gaius Suetonius Tranquillus, morto por volta do ano 122 da era cristã, o
patriciado "punha para circular histórias" dando conta de que César arrancava todos os pelos do corpo com
pinças e era chamado de "marido de todas as esposas e esposa de todos os maridos". Foi assim antes com
gregos, macedônios e egípcios. As maledicências continuaram viajando mais rápido na Idade Média,
durante e depois da Revolução Industrial. O que há de novo nesse campo? A internet. Se já voavam de
ouvido em ouvido, as fofocas e falsidades ganharam o dom da instantaneidade com os milhões de
computadores, celulares e tablets de todo o planeta interconectados por uma rede em que, pela primeira
vez na história, todas as máquinas se comunicam na mesma linguagem, sem incompatibilidades nem
fronteiras.

A fofoca digital pode criar verdadeiros tsunamis que chicoteiam o globo jogando as opiniões de milhões
de pessoas de um lado para o outro. Antes que alguém possa verificar a verdade de um fato, sua versão ou
versões já se tornaram o fenômeno. O caso que engolfou o locutor Galvão Bueno, a voz oficial das Copas
do Mundo e das Olimpíadas nas transmissões da Rede Globo, é uma amostra do poder dessas novas
correntes de pensamento criadas na internet. "Cala a boca, Galvão" era uma tirada que já circulava por aí
fazia anos. Há pouco mais de uma semana, contudo, ela ganhou o mundo. Postada por usuários no Twitter,
a rede social de troca de mensagens de até 140 caracteres, a frase CALA BOCA GALVAO - assim mesmo,
em letras maiúsculas, sem vírgula e sem acento - virou hit e se manteve entre os dez assuntos mais
comentados do serviço da internet durante toda a semana. Os brasileiros aumentaram a fervura, atribuindo
sentidos absurdos à frase: segundo uma das versões, em português, cala boca significaria salve, e galvão, o
nome de um pássaro em extinção. Alguns dos maiores sites e jornais do mundo, como o The New York
Times, tentaram decifrar a brincadeira, e assim a difundiram ainda mais.

Justin Sullivan/Getty Images

O CONCORRENTE
Mark Zuckerberg, do Facebook: empate com o Twitter no Brasil em
número de visitantes únicos

Nascido em 2006 como ferramenta para facilitar a troca de mensagens de trabalho via celular, o Twitter
teve uma vida discreta por aproximadamente um ano, até que, durante um festival de música americano,
percebeu-se que ele não precisava ficar restrito às empresas. Durante o evento, o número de posts diários
saltou de 20 000, em média, para 60 000. Uma luz se acendeu na cabeça de seus criadores - jovens
empreendedores do Vale do Silício, na Califórnia, com o programador Biz Stone à frente. A ideia das
mensagens curtas não era propriamente uma novidade: os torpedos de celular (SMS) já permitiam apenas
160 caracteres. Mas ao adotar o slogan "O que você está fazendo?" o Twitter se apresentou como uma
ferramenta que oferecia algo diferente: um canal para as pessoas dizerem ao mundo o que sentem, pensam
ou fazem no exato momento em que teclam. A outra característica crucial do Twitter era permitir que
aqueles que de outra forma jamais se aproximariam se ligassem numa rede de seguidos e seguidores.
Inicialmente, o esforço para acumular seguidores tinha ares de brincadeira. Ostentar um grande número de
fãs era um galardão vazio. Mas, no começo de 2009, quando o ator Ashton Kutcher e a rede de TV CNN
disputaram tweet a tweet quem atingiria antes a marca de 1 milhão de seguidores (ele venceu), já estava
claro que o Twitter não precisava ser apenas um amplificador de vaidades e irrelevâncias.

Atualmente, há 105 milhões de usuários do Twitter espalhados pelo mundo. Todos os dias, 600 milhões de
buscas e 65 milhões de mensagens movimentam a rede. Por mês, são 190 milhões de visitas únicas. Esses
números fazem do Twitter a segunda maior rede social do planeta, atrás do Facebook, com mais de 400
milhões de pessoas (a rede Qzone tem 310 milhões de usuários, mas só na China, em mandarim). No
Brasil, a ferramenta é vice-campeã em número de acessos, ao lado do Facebook, com 10,7 milhões de
visitantes únicos ao mês, atrás do Orkut, com 26,9 milhões.

A sede do Twitter, em São Francisco, reúne um pequeno corpo de funcionários: 175. Como tantas
iniciativas revolucionárias da internet, o modelo de negócio da empresa ainda não está claro. Gigantes da
web já tentaram "abocanhar o passarinho", símbolo do Twitter. Em 2008, o Facebook teria posto sobre a
mesa de seus donos uma oferta de meio bilhão de dólares. Um ano depois, foi a vez do Google. Biz Stone
explicou por que as ofertas foram recusadas: "O Twitter está focado em desenvolver novas
funcionalidades e em permanecer independente". Em 2009, a empresa fechou as contas no azul graças a
uma parceria com Microsoft e Google. Pelo acordo, avaliado em 25 milhões de dólares, as gigantes
passaram a incluir tweets nos seus resultados de buscas na web.

AFP

DESAFIO AOS AIATOLÁS


A iraniana Neda Agha-Soltan é baleada durante protesto em Teerã: o
Twitter ajudou os manifestantes a expor a repressão
Em quatro anos, o Twitter já provocou impactos na política, nos negócios, na cultura do entretenimento. O
exemplo mais extraordinário de suas potencialidades deu-se há um ano, nas eleições iranianas. Em
repúdio à reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, alinhado com o regime ditatorial dos aiatolás,
uma fatia da população recorreu à rede para denunciar fraudes na apuração, organizar protestos nas ruas
de Teerã e divulgar imagens da repressão policial. O movimento chegou a ser saudado como "revolução
do Twitter". "Numa rede como essa, a voz das pessoas comuns ganha enfim dimensão pública", diz Tim
Hwang, do Web Ecology Project, centro de estudos sobre a internet da Universidade Harvard.

O Twitter também se mostrou eficaz num contexto político democrático. Nas eleições americanas de 2008,
o então candidato democrata Barack Obama fez uso da ferramenta para mobilizar a militância, arrecadar
fundos e conquistar novos eleitores. No Brasil, os três principais candidados à Presidência - José Serra,
Dilma Rousseff e Marina Silva - tuítam. "Todos os políticos brasileiros vão querer ser o Obama da eleição
deste ano", vaticina Alex Primo, pesquisador de redes sociais da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul. Com base nos dados do IBGE e do Comitê Gestor da Internet no Brasil, o consultor em marketing
digital Cláudio Torres calcula que 18% do eleitorado é formado por jovens entre 18 e 24 anos com acesso
à internet - e, portanto, expostos às campanhas on-line.

O mundo empresarial já abraça o Twitter, uma ferramenta poderosa para anunciar e interagir com os
consumidores. Uma pesquisa realizada em fevereiro com companhias americanas reflete a tendência.
Segundo a Society for New Communications Research, mais de um terço das 500 maiores empresas
listadas pela revista Fortune usa o Twitter de forma consistente. Companhias de diversos segmentos
utilizam a rede para se relacionar com o seu público de forma mais íntima e instantânea, além de oferecer
promoções exclusivas aos seus seguidores. O ator Ashton Kutcher, que, antes de bater a CNN, era mais
conhecido como o namorado bonitão da atriz Demi Moore, foi outro que aprendeu a fazer negócios no
Twitter. Ele dominou tão bem a arte de falar com seguidores em 140 caracteres que se tornou uma espécie
de guru. Abriu uma consultoria, a Katalyst, voltada às novas mídias.

No campo do entretenimento, o Twitter transforma anônimos em famosos e abre novos horizontes para os
célebres. No Brasil, quem despontou graças aos microposts foi Tessália Serighelli de Castro, que até
adotou o apelido Twittess em homenagem à mãozinha recebida do Twitter. Colecionadora de 60 000 fãs
quando ainda era anônima, ela foi convidada pela Globo para participar do Big Brother Brasil 10. O
âncora do Jornal Nacional, William Bonner, está no segundo time, dos usuários que, já célebres, abriram
uma nova seara na rede. Ele aumentou sua claque de seguidores à base de comentários fortuitos sobre o
noticiário, recados para a mulher, Fátima Bernardes, e consultas como: "Que gravata usar na próxima
edição do Jornal Nacional?". As mensagens curtas se mostraram propícias a bate-bocas inusitados. Na
semana passada, em um de seus monólogos radiofônicos, o ditador venezuelano Hugo Chávez jurou que
Ricky Martin era um chavista. O cantor acionou imediatamente seu 1,2 milhão de seguidores para
desmentir o coronel. O ex-menudo ainda emendou, usando uma hashtag, marcação típica do Twitter: "#
free Venezuela". ("Libertem a Venezuela").

Em boa parte do tempo, o Twitter é uma espécie de vuvuzela da internet, que apenas amplifica o nada.
Mas, por sua velocidade, mobilidade e alcance, é uma plataforma que, em certas circunstâncias, parece
"dar poder ao homem comum", como gostam de dizer alguns teóricos. "É como se cada indivíduo tivesse
seu próprio meio de comunicação", diz o sociólogo francês Michel Maffesoli. Empresas e celebridades já
se viram em apuros por causa do Twitter. Formou-se um certo conhecimento sobre como agir nessas
situações. No episódio do CALA BOCA, a Globo mobilizou artistas de seu elenco acostumados a usar a
rede para que defendessem Galvão Bueno. Na terça-feira, dia da estreia do Brasil na Copa, a emissora fez
com que Galvão falasse do episódio numa entrevista. Ele disse aceitar tudo como brincadeira, e isso
minimizou os danos à sua imagem. Mas o passarinho do Twitter deixou sua marca no ombro do locutor.
Bem, amigos... Divulgação

Desde 1978, quase todas as glórias e tristezas do


esporte brasileiro chegaram aos olhos, ouvidos e
corações dos telespectadores pela narração
rascante, emocionada e ufanista do locutor carioca
Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno, que está
às vésperas de completar 60 anos. Fosse a
conquista do pentacampeonato mundial de futebol
de 2002 - quando transmitia os gols de Ronaldo,
Ronaldinho e Rivaldo multiplicando os erres até
não poder mais, uma de suas marcas registradas -,
a morte na pista, em 1994, de seu amigo Ayrton
Senna, cujos 41 triunfos ele anunciava ao som do
Tema da Vitória, ou as medalhas olímpicas do
vôlei, lá estava no ar a voz mais ouvida do país.

Dono de uma audiência cativa, Galvão Bueno é tão


admirado que em qualquer estádio em que esteja
presente são desfraldadas faixas nas arquibancadas A VOZ DO BRASIL
com seu nome. E ao mesmo tempo tão Com façanhas marcantes e gafes
achincalhado - nos jogos, na imprensa, nos inesquecíveis, Galvão Bueno é, há mais de
programas humorísticos, na internet - que teria trinta anos, o narrador esportivo número 1
todos os motivos do mundo para andar de mau do país
humor. Ele acha graça de tudo, sempre sorridente,
falando sem parar, cheio de si, dono da verdade, a começar pelo episódio da campanha "Cala
boca Galvão".

Capaz de narrar com precisão qualquer esporte, dono de timbre impecável e raciocínio rápido,
Galvão é autor de façanhas como a de pedir aos telespectadores que piscassem as luzes de casa
durante os jogos que passavam de madrugada na Copa de 2002, realizada na Coreia do Sul e no
Japão. O país inteiro virava um vaga-lume. Só um personagem com seu poder, em uma emissora
como a Globo, poderia provocar uma reação desse tamanho. Mas, da mesma forma que se
orgulha disso, ele lamenta alguns momentos constrangedores que protagonizou. Dois ficaram
para a história. Um foi seu grito esganiçado, quase histérico, "é tetra, é tetra!" em 1994, ao lado
de Pelé e do comentarista de arbitragem Arnaldo Cézar Coelho. O outro aconteceu na Copa de
1974, quando narrou por um pool de três emissoras paulistas, diretamente de um estúdio
brasileiro, a partida entre Alemanha Oriental e Austrália pensando que estivessem jogando
Bulgária e Sué-cia. Só percebeu o desastre depois que as imagens transmitidas da Alemanha
mostraram no placar do estádio quais seleções de fato estavam em campo. Apreciador de vinhos
de qualidade, lançará em agosto um tinto e um espumante gaúchos com seu nome. Com um
salário estimado em 1 milhão de reais por mês, Galvão mora a maior parte do tempo em
Mônaco, mas tem também endereços no Rio de Janeiro e em Londrina (PR), cidade de sua
segunda mulher. Acusado de ufanismo, tira a referência de letra, como fez no caso do Twitter.
"Sou um torcedor-narrador, e daí?", responde. "Meu trabalho é passar emoção a quem está em
casa." Bem, amigos, o homem é mesmo um prodígio.
Chapéu

Ordem para espionar


Delegado da Polícia Federal depõe no Congresso e confirma
que foi convidado por pessoas contratadas pelo PT para
montar
um grupo de espionagem ilegal contra adversários e inimigos
internos

Sofia Krause e Gustavo Ribeiro

Fotos Dida Sampaio/AE e Lúcio Távora/Folha Imagem

TIRO CERTO
O delegado Onézimo Sousa e o tucano Eduardo Jorge (à dir.), que teve os sigilos fiscal e
bancário
quebrados clandestinamente

Não houve os tradicionais embates entre representantes do governo e da oposição, não houve tentativas de
desqualificar a testemunha nem a criação de teorias conspiratórias extravagantes. O delegado aposentado
da Polícia Federal Onézimo Sousa compareceu na semana passada ao Senado, onde prestou depoimento
sereno à Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso Nacional. Ele contou
aos parlamentares detalhes da reunião com integrantes da pré-campanha presidencial da ex-ministra Dilma
Rousseff na qual ele foi convidado a participar de um grupo que tinha o objetivo de espionar o candidato
tucano José Serra, como revelou VEJA no início do mês. Deputados petistas que estavam no plenário
elogiaram o delegado, principalmente depois que ele confirmou que no encontro não havia ninguém
filiado ao PT. Além disso, ao tomar conhecimento do caso, a própria candidata do partido já havia dito que
desconhecia e desautorizava investidas desse nível contra adversários. O jornalista Luiz Lanzetta, que era
o responsável pela área de comunicação da campanha e articulou a reunião com o grupo de arapongas, foi
afastado de suas funções. No final, os petistas consideraram o caso encerrado – reduzindo tudo a uma
atrapalhada tentativa de espionagem patrocinada por pessoas contratadas pelo partido, mas sem ligações
oficiais com o PT. Caso liquidado?

Não fosse por alguns buracos surgidos no campo de força da versão petista que preserva a cúpula da
campanha, seria mesmo um caso para arquivo. Um desses buracos se deve à reportagem do jornal Folha
de S.Paulo segundo a qual a campanha do PT reuniu clandestinamente dados protegidos por sigilo fiscal e
bancário do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pereira. Ex-secretário-geral da Presidência
no governo Fernando Henrique Cardoso, Eduardo Jorge sempre esteve na mira dos petistas. A reportagem
narra que a "equipe de inteligência" da campanha de Dilma Rousseff tem em seu poder cópias de
depósitos bancários e das últimas declarações de imposto de renda do ex-secretário. VEJA apurou que as
declarações em questão cobrem de 2005 a 2009, inclusive uma retificação feita na última delas, por causa
de um erro de digitação na declaração do ano anterior. A suspeita é que os documentos teriam sido obtidos
dentro da própria Receita Federal. Há ainda guardado no comitê petista, de acordo com o jornal, um
conjunto de papéis sobre as investigações do caso Banestado – um gigantesco esquema de lavagem de
dinheiro que foi investigado por uma CPI do Congresso, em 2003, e que envolveria partidos políticos.

Os inquéritos do caso Banestado morreram de desidratação, mas existe a suspeita de que os petistas
queiram ressuscitá-lo, como uma forma de criar um clima de desconfiança em relação ao principal
adversário de Dilma Rousseff – na crença de que não basta a um político ser honesto, ele também tem de
parecer honesto. VEJA apurou que, em março passado, o delegado da Polícia Federal José Castilho Neto
procurou o senador Alvaro Dias (PSDB-PR) para lhe contar que havia sido sondado por colegas do
Ministério da Justiça sobre a possibilidade de ele voltar a Brasília e retomar as investigações do caso
Banestado. "Recebi um telefonema perguntando se eu tinha disponibilidade para retomar essa
investigação", conta o policial. "Quando me sondaram, eu não falei nem que sim nem que não. Fiquei
aguardando um convite formal da Polícia Federal, mas não houve retorno", conta. No início do mês, logo
depois de VEJA ter revelado a existência do grupo de espionagem, o delegado voltou a ligar para o
senador: "Lembra quando eu te procurei?... Era isso que eles estavam querendo que eu fizesse!", disse,
referindo-se ao conteúdo da reportagem que mostrava a tentativa do comitê petista de formar um grupo
para espionar o candidato José Serra. O delegado, que até dias atrás ocupava o cargo de assessor de
segurança do governo do Paraná, não quis revelar a identidade de quem fez a sondagem, mas confirmou
que é uma pessoa "bem colocada no Ministério da Justiça".

O que ajuda a dar credibilidade a esse conjunto de informações é que os precedentes são negativos para o
PT. A formação de equipes encarregadas de bisbilhotar a vida de adversários foi testada com sucesso pelo
partido em 2002 e reeditada em 2006, quando o grupo, que ficou conhecido como "aloprados", foi preso
em flagrante tentando comprar um dossiê fajuto contra Serra, candidato ao governo de São Paulo. A turma
que se reuniu agora no comitê de Dilma também teve uma passagem nebulosa na última campanha
municipal. Em 2008, na disputa pela prefeitura de Belo Horizonte, o jornalista Luiz Lanzetta assessorava
o candidato Marcio Lacerda, que concorria à sucessão com o apoio do então prefeito, Fernando Pimentel.
O ex-jornalista Amaury Ribeiro, apontado como parceiro de Lanzetta no caso da espionagem contra Serra,
trabalhava como repórter do jornal Estado de Minas. Dois dias antes do segundo turno das eleições,
quando Marcio Lacerda e o peemedebista Leonardo Quintão se enfrentariam nas urnas, Amaury Ribeiro
publicou uma notícia destruidora sobre o adversário do cliente de Lanzetta. Baseada em documentos da
CPI do mesmo Banestado, a reportagem denunciava que Quintão e familiares haviam enviado ilegalmente
dinheiro ao exterior.

A revelação acabou com as pretensões eleitorais do candidato. O peemedebista foi obrigado a desmarcar
compromissos de campanha e passou as 48 horas anteriores à eleição tentando se explicar. Com a ajuda da
reportagem de Amaury, Quintão perdeu a disputa para Lacerda, o cliente de Lanzetta. Tempos depois, em
conversas reservadas com amigos, Quintão afirmou ter descoberto que a denúncia fazia parte de um dossiê
produzido pela equipe comandada por Lanzetta – num roteiro em que aparecem os mesmos personagens
de agora. Procurado, Quintão se negou a falar sobre o assunto. Informou, por meio de sua assessoria, que
as denúncias abalaram sua família e que não gostaria de falar a respeito. Ele acrescentou que só descobriu
que a história era produto de um dossiê eleitoral muito tempo depois de ter sua candidatura fulminada.

Fotos José Cruz/Ag. Senado e Joedson Alves /AE

Alexandre Schneider
TIRO ERRADO
Luiz Lanzetta, que idealizou o grupo de arapongas,
e o delegado José Castilho, que também
foi sondado para participar: "Era isso que eles
estavam querendo que eu fizesse!"

Carta ao Leitor

A maioria ruidosa
Políticos, celebridades, marqueteiros e publicitários
conhecem bem o conceito de "maioria silenciosa", termo
criado em 1969 pelo então presidente dos Estados Unidos
Richard Nixon (1913-1994) e que definia um contingente
majoritário de pessoas incapazes ou desinteressadas de
revelar suas opiniões publicamente. Uma reportagem
desta edição de VEJA mostra que a internet deu voz a
esses contingentes, que se tornaram não apenas ruidosos,
mas global e espantosamente ávidos por expressar suas
opiniões.

O editor de mídias sociais de veja.com,


Rafael Sbarai
Verdadeiras batalhas são travadas pela internet através de mensagens instantâneas, blogs, chats e dos
programas que permitem criar comunidades planetárias de usuários, como o Facebook (400 milhões), o
Orkut (26 milhões) e o Twitter (105 milhões). Saber o que está sendo falado nessas redes é uma obsessão.
Será que minha marca de sabão em pó caiu no gosto das pessoas? Como foi recebida minha nova música?
Ou, simplesmente, mas não menos importante, as pessoas do meu universo virtual gostam de mim?

Entre todas as ferramentas que deram voz às maiorias, o Twitter é, pela simplicidade de uso e por provocar
reações em cadeia, a mais efetiva para criar ondas na superfície da internet. Um "tweet" pode dar origem a
dezenas, centenas, milhares e até milhões de "retweets" – ou seja, mensagens a favor ou contra
determinado assunto.

O locutor de esportes da Rede Globo Galvão Bueno, que narra a Copa 2010 na África do Sul, viu-se na
semana passada no epicentro de um desses furiosos tornados. Galvão é um profissional prodigioso, capaz,
por exemplo, de manter a audiência cativa durante horas enquanto se espera a chuva passar para que se dê
a largada em um Grande Prêmio de Fórmula 1. Como todo rosto e voz onipresentes, Galvão produziu sua
legião de descontentes. Alguém dessa turma criou no Twitter a corrente "Cala boca Galvão", que,
impulsionada pelo truque de que "cala boca" significava "salve" e Galvão era um "pássaro brasileiro raro
em extinção", ganhou milhões de adesões em todo o mundo. O locutor levou a coisa na brincadeira. A
propagação selvagem do fenômeno, porém, mostrou o poder devastador do Twitter para o bem ou para o
mal.

O jornalista Rafael Sbarai, de 23 anos, é os olhos, os ouvidos e a voz de VEJA na cacofonia da internet.
Rafael tem um desses cargos que simplesmente não existiam há poucos anos. Ele é editor de "mídias
sociais", assunto que é também tema de sua dissertação de mestrado em uma universidade de São Paulo.
Com 200 000 seguidores, VEJA é o site de notícias com maior presença no Twitter no Brasil. Diz Rafael:
"O sucesso se deve à qualidade do conteúdo do nosso site, mas claro que nossos seguidores gostam de
saber que há uma pessoa conversando com eles no Twitter, não um robô digital disparando respostas
prontas".

Entrevista: José Serra

"Ouvir, argumentar, decidir"


O candidato do PSDB à Presidência da República diz que
o loteamento de cargos no governo do PT turbinou a
corrupção
e dá sua receita de governabilidade sem clientelismo

Eurípedes Alcântara e Fábio Portela

"A manutenção da estabilidade Paulo Vitalle


é inegociável. Isso significa
manter a inflação baixa"

Nenhum outro político brasileiro tem no currículo uma vida pública como a de José Serra, 68 anos,
candidato do PSDB à sucessão de Lula. Jovem, presidia a União Nacional dos Estudantes (UNE) quando
veio o golpe de 64, que o levou ao exílio, expatriação que duraria até 1978. De volta ao Brasil com
diploma de economia no bolso, foi secretário do Planejamento, deputado constituinte, senador, ministro do
Planejamento e da Saúde, prefeito e governador. Sobre Dilma Rousseff, ele diz: "Hoje me choca ver gente
que sofreu sob a ditadura no Brasil cortejando ditadores que querem a bomba atômica, que encarceram,
torturam e matam adversários políticos, fraudam eleições, perseguem a imprensa livre, manipulam e
intervêm no Legislativo e no Judiciário. Isso é incompatível com a crença na democracia e o respeito aos
direitos humanos".

O senhor já enfrentou todo tipo de adversário em eleições, mas, desta vez, a se fiar nas palavras do
presidente Lula, vai concorrer com um "vazio na cédula", preenchido com o nome de Dilma
Rousseff. Afinal, quem é seu adversário nesta eleição?
Só tenho a certeza de que não vai ser Lula, cujo mandato termina no próximo dia 31 de dezembro.
Adversários são todos os demais candidatos à Presidência da República. Por trás dos nomes na tela da
urna eletrônica há a história, as propostas e a credibilidade de cada um. Minha obrigação é me apresentar
aos brasileiros sem subestimar nem superestimar os demais. Deixemos que os eleitores julguem. É muito
bom que os candidatos sejam diferentes entre si
e também em relação aos presidentes que já deram sua contribuição ao Brasil. A beleza da vida está
justamente em cada um ter seus próprios atributos.
Depois que os repórteres da sucursal de VEJA em Brasília desvendaram uma tentativa de aloprados
do PT de, uma vez mais, montar uma central de bisbilhotagem de adversários, as operações foram
desautorizadas pela cúpula da campanha. O senhor responsabiliza a candidata Dilma Rousseff
diretamente pelas malfeitorias ali planejadas?
Só cabe lamentar e repudiar as tentativas de difusão de mentiras, de espionagem, às vezes usando dinheiro
público, às vezes usando dinheiro de origem desconhecida, como em 2006. São ofensas graves e crimes
que ferem até mesmo direitos básicos assegurados pela Constituição brasileira. Isso não é honesto com o
eleitor. É coisa de gente que rejeita a democracia. A candidata disse que não aprova esse tipo de atitude,
mas não a repudiou, não pediu desculpas públicas nem afastou exemplarmente os responsáveis. Essa
reação tímida e a tentativa de culpar as vítimas fazem dela, a meu ver, responsável pelos episódios.

Por que para a democracia brasileira é positivo experimentar uma alternância de poder depois de
oito anos de governo Lula?
Querer se pendurar no passado é um erro, não de campanha, mas em relação ao país. Eleição diz respeito
ao futuro. Por isso, a questão que se coloca agora aos eleitores é escolher o melhor candidato, aquele que
tem mais condições de presidir o Brasil até 2014. Eu ofereço aos brasileiros a minha história de vida e as
minhas realizações como político e administrador público. Ofereço as minhas ideias e propostas. Espero
que os demais candidatos façam o mesmo, para que os brasileiros possam comparar.

Como o senhor conseguiu governar a cidade e o estado de São Paulo sem nunca ter tido uma única
derrota importante nas casas legislativas e sem que se tenha ouvido falar que lançou mão de
"mensalões" ou outras formas de coerção sobre vereadores e deputados estaduais?
Em primeiro lugar, é preciso ter princípios firmes, não substituir a ética permanente pela conveniência de
momento. É vital ter e manifestar respeito à oposição, ao Judiciário, à imprensa e aos órgãos
controladores. Exerci mandatos de deputado e senador durante onze anos. Todos os que conviveram
comigo no Congresso sabem que minhas moedas de troca são o trabalho, a defesa de ideias e propostas, o
empenho em persuadir os colegas de todos os partidos e regiões. O segredo está em três palavras: ouvir,
argumentar, decidir. Há o mito de que emendas de deputado são sempre ruins. Não são. Na maioria das
vezes, elas visam a resolver ou aliviar problemas reais que afligem as pessoas de sua região. Portanto,
atender os deputados segundo critérios técnicos é atender seus eleitores. Outra coisa fundamentalmente
diferente é distribuir verbas ou cargos em troca de votos. Isso eu nunca fiz e nunca farei.

O PT fez?
Fez. Cito como exemplo as agências que criei quando fui ministro da Saúde, a Anvisa e a ANS. Sabendo
como eu atuo, nenhum parlamentar, nem mesmo os do meu partido, sequer me procurou em busca de
alguma indicação. Eles sabiam que não teriam êxito. E qual é a situação agora? O atual governo loteou
totalmente as agências entre partidos, fatiando-as entre grupos de parlamentares e facções de um mesmo
partido. A mesma partilha se abateu sobre os Correios e sobre a maioria – se não todos – dos órgãos
públicos. O loteamento foi liberado e se generalizou. Essa prática é uma praga que destrói a capacidade de
gestão governamental e turbinou como nunca a corrupção. Mais ainda, a justificativa oferecida foi a de
que se tratava de "um mal necessário" para garantir a governabilidade. Se eleito, vou acabar com isso à
base de um tratamento de choque.

Por que criar um Ministério da Segurança Pública e como ele atuaria exatamente no combate ao
crime, que, no atual regime federativo, é uma atribuição estadual?
A segurança é um problema em todos os estados. Portanto, é um problema nacional. O governo federal e o
presidente, que é o chefe do governo, não podem mais fingir que o problema da segurança está
equacionado. Não está. Segurança é um dos três grandes problemas do Brasil. Temos de enfrentá-lo. O
Brasil não pode continuar a ter 50 000 homicídios por ano. É um número escandaloso. Apenas o
crescimento econômico não arrefece os criminosos. O Nordeste é um exemplo disso. A região
experimentou um crescimento expressivo, mas a população sofre com a explosão da criminalidade. Só a
Presidência da República reúne as condições para coordenar uma ação nacional da magnitude que o
problema exige. Precisamos criar um SUS da segurança. O Ministério da Segurança será o símbolo e a
ferramenta dessa prioridade. Com ele, estou dizendo o seguinte: brasileiros, vamos encarar o desafio para
valer, vamos resolver essa situação. Esse será meu compromisso como presidente.

Falando em federação, como concertar com os governadores uma reforma tributária em que
ninguém se sinta lesado ou pagando a conta?
É menos complicado do que parece, e nem é necessário mexer na Constituição. Para começar, é preciso
aprovar uma lei que preveja que os impostos sejam explicitados nos preços das mercadorias. Isso
aumentará a consciência das pessoas a respeito da carga tributária. Em São Paulo, fizemos uma lei para
criar a Nota Fiscal Paulista, um instrumento de grande sucesso através do qual 30% do imposto estadual
sobre o varejo é devolvido aos contribuintes, com crédito direto na conta bancária. Vamos criar a Nota
Fiscal Brasileira, para devolver parte dos tributos federais. A reforma que farei vai aliviar a carga tributária
incidente sobre os indivíduos, desonerar os investimentos, simplificar a formidavelmente complexa
estrutura de tributos atuais. Além disso, restabeleceremos a neutralidade em relação à distribuição de
recursos. É uma proposta coerente.

Segundo o folclore, o senhor seria seu próprio ministro da Fazenda, seu ministro do Planejamento,
seu presidente do Banco Central e seu ministro da Saúde...
Nossa! É folclore mesmo. Quem trabalha ou trabalhou comigo sabe que não centralizo a administração,
que dou grande autonomia às diferentes áreas. Fixo metas, objetivos, acompanho, cobro, mas nunca
imponho nada exótico ou irrealista. E mais: tenho grande capacidade de ouvir.

Como seria a política econômica em um eventual governo Serra? Qual é o perfil ideal para o cargo
de ministro da Fazenda?
A manutenção da estabilidade é inegociável. Isso significa manter a inflação baixa. Com a combinação
dos regimes fiscal, monetário e cambial, caminharíamos sem rupturas para um ambiente macroeconômico
cujo resultado inevitável seria a trajetória descendente dos juros. Uma taxa de juros menor é, aliás,
condição para atrair mais investimentos privados destinados à infraestrutura, sem ter de dar os subsídios
que hoje distorcem o processo. Quanto mais alta a taxa real de juros, maior é a taxa interna de retorno
exigida pelos investidores privados em infraestrutura. Para compensar o juro alto, o governo é obrigado a
dar subsídios.

E o perfil do seu ministro da Fazenda?


É preciso ganhar a eleição primeiro. Mas sempre cuidei de reunir à minha volta, na administração e no
Congresso, pessoas preparadas, prudentes, com reconhecido espírito público. Escolho gente experiente,
com senso prático e desapegada de doutrinas – ou que, pelo menos, prefere acertar abandonando suas
convicções acadêmicas a errar por fidelidade a elas. No governo federal, será desse mesmo jeito.
Precisarei ter comigo auxiliares que entendam que a política econômica é um processo político também.
Na política, para fazer com que as
coisas aconteçam, você tem de se equilibrar sobre o fio da navalha. É uma eterna balança entre paralisar-
se por se aferrar a certas concepções ou abandoná-las de vez e se perder no caminho. Isso fica claro na
negociação política. É menos evidente mas tão válido quanto na condução da política econômica.

Dê o exemplo de um economista que preencha os requisitos acima, a quem o senhor admire e com
quem ainda não trabalhou.
Olhe lá! Não estou fazendo nenhuma nomeação antecipada. Mas teria muitos exemplos. Um deles? O
Arminio Fraga, como perfil. Sabe economia, é pragmático, não doutrinário. Soube navegar em mar revolto
e deu enorme contribuição à estabilidade econômica do país ao instituir o regime de metas de inflação.
Por que no Brasil, apesar do enorme destaque atual no cenário da economia mundial, a discussão de
política econômica é sempre revestida de ansiedade, como se vivêssemos em um estado permanente
de emergência?
O instantâneo da economia brasileira é realmente bastante satisfatório. Não diria o mesmo sobre o filme.
Ou seja, se não forem corrigidas a tempo, as distorções atuais podem se desenvolver de maneira
desfavorável. Essa é uma questão complexa que, infelizmente, talvez não possa ser tratada da maneira que
merece em um clima de campanha, muito menos no escopo de uma entrevista. Mas, a título de fazer
refletir, sugiro que se comece por responder a certas questões. A saber, por que razão o Brasil tem a maior
taxa real de juros do mundo, a maior carga tributária do mundo em desenvolvimento e é lanterninha nas
taxas de investimento governamental do planeta? Por que o suado dinheiro dos contribuintes brasileiros
não está sendo bem aplicado em investimentos na infraestrutura econômica e social que garantam o
crescimento sustentado da economia? É evidente que há um problema com esse modelo. É essa a
discussão que precisa ser feita no Brasil.

O que o senhor faria para consertar esse modelo?


Tenho experiência para equacionar as principais questões, a partir do primeiro dia de trabalho, caso eleito.
Não existe uma bala mágica, um golpe que bem aplicado resolva todos os problemas. Isso exige um leque
de ações coordenadas e bem planejadas, muitas das quais citei aqui e tenho exposto em fóruns e
seminários. Minhas passagens pelo Executivo federal, estadual e municipal me permitem afirmar que,
para começar, na saúde, mesmo sem gastar muito mais do que é gasto hoje, seria possível fazer uma
revolução com resultados positivos a curto prazo. Na educação, logo no início do governo, trabalharia
para atingir a meta de abrir 1 milhão de novas vagas em escolas técnicas de nível médio em todo o país,
com cursos de duração variada e vinculados à vocação econômica de cada região e localidade. O Brasil
tem pressa e precisa aproveitar o ciclo da economia mundial altamente favorável aos países emergentes.
Temos de aproveitar o empuxo desse ciclo e emergir dele com uma economia moderna, exportadora de
produtos de alto valor agregado, produzidos aqui por uma mão de obra sadia, preparada e consciente de
que para ela o futuro chegou.

Lya Luft

Separação, o drama de todos


"Se a separação dos pais pode resultar em crescimento
e multiplicação de afetos, com boas lições de vida,
pode também causar muita desagregação e infelicidade,
muita solidão"

Sempre fui favorável a não se curtir sofrimento inútil em longos casamentos nos quais em lugar de carinho
e parceria imperam frieza e hostilidade – e se acumula o rancor que envenena sobretudo os filhos. Nem
em nome deles, pensei muitas vezes, casais assim deveriam ficar juntos, pelo mal que causam. De certa
forma continuo pensando isso, tanto tempo depois de minhas primeiras e precoces reflexões sobre o
assunto, eu que vivi numa família de cuidados, afeto e alegria, apesar das naturais diferenças. Porém, a
realidade da vida, numa sociedade em que as separações se banalizaram como se as emoções humanas
tivessem deixado de vigorar, me ensinou que toda separação abre em pais e filhos feridas que podem não
se fechar nunca mais, e que não precisaria ser assim.

Já disse e escrevi que, quando é uma solução inevitável e melhor em conflitos graves, a separação dos pais
– com todas as mudanças impostas na vida dos filhos, que não estão se separando, não querem se separar
de nenhum dos pais nem mudar de casa, quem sabe de cidade – pode não ser unicamente um mal. Propicia
um exercício de novos afetos, de compreensão e tolerância,
também de parte dos filhos de qualquer idade com relação aos Ilustração Atômica Studio
adultos. Costumamos bater na tecla de cuidar dos filhos, mas
raramente nos lembramos de que há uma parte nessa relação, nem
sempre fácil, que cabe aos filhos diante de seus pais. Já na pré-
adolescência podemos exercitar nosso amor, respeito e tentativa
de entender alguns dramas adultos, se não formos criados como
pequenos príncipes mimados e birrentos, que batem pé diante do
sofrimento alheio e não se importam com os outros.

É verdade que aceitar que os pais já não moram juntos, que temos
de nos separar de um deles, a quem veremos, talvez, em dias
marcados e enfrentando, cara a cara ou de maneira surda e
insidiosa, a raiva e os rancores do casal que se separa, há de ser muito duro. Há de ser triste, e marcante na
alma dos filhos, sobretudo se a separação for acompanhada de violência, perseguição, desejo de vingança.
Existem os casos brandos, eu sei, e conheço vários, esses em que apesar das dificuldades o casal procura
se separar com civilidade e compreensão, não fechando para os filhos, pequenos ou adolescentes, a porta
do amor ao pai ou à mãe. Ensinando a aceitar e respeitar o novo parceiro ou parceira deles: essa parte
talvez mais difícil de todas em qualquer separação. Pois as escolhas são sempre dos pais, não dos filhos:
separar-se, assumir novo parceiro ou parceira, que possivelmente trazem seus próprios filhos, tentando
criar um novo tipo de relacionamento e forçado convívio, há de ser uma difícil e dolorosa gangorra
emocional. Se pode resultar em crescimento e multiplicação de afetos, com boas lições de vida, pode
também causar muita desagregação e infelicidade, muita solidão.

Como agir para não prejudicar os mais importantes laços de qualquer pessoa, no caso de separação e
novos casamentos? Não há receita nem espaço para julgamento. Mas lembro a velha fórmula das estradas
de ferro: parar, olhar, escutar... a alma do outro também. Novas pessoas estarão envolvidas, novos feixes
de emoção, novas tendências genéticas e conflitos psíquicos por vezes antigos, velhos costumes que agora
se envolvem ou enfrentam estreitamente. É preciso conviver, e não machucar pessoas amadas. Culpas
infundadas crescem como cogumelos, buracos traiçoeiros podem se abrir no chão fundamental sobre o
qual caminhamos: o convívio natural, a família. As responsabilidades são enormes, e as tempestades do
momento podem nos fazer esquecer isso, em casos que envolvem tantos problemas e dilemas. Tudo é um
tatear no escuro da floresta das humanas necessidades e aflições. Num contexto de convívio e ruptura, no
meio dessa tempestade por vezes longa, esperam-se posturas evidentes, mas nada fáceis: bom senso,
bondade, capacidade de entender e observar, e desejo real de, apesar dos fatais desacertos, buscar para si e
para os outros envolvidos o sofrimento menor.

Leitor
Assuntos mais comentados
Dilma Rousseff (Entrevista)
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Sucessão presidencial (capa)
Artigo de Claudio de Moura Castro
Cofre dos aloprados petistas

Sucessão presidencial

"Esperamos que o próximo presidente seja forte, corajoso, que acabe com a
impunidade e que fortaleça a democracia. Chega de populismo. Não queremos
ser a Venezuela de amanhã."
Priscila Scatena
São Paulo, SP

Montagem sobre fotos de Pedro Rubens, Paulo Vitale e AE

Corrida presidencial
Os presidenciáveis têm tudo
para fazer uma campanha
de alto nível em 2010

Temos as opções de suco: de chuchu, José Serra; de jiló, Dilma Rousseff; e de agrião, Marina Silva. O
Brasil merece um saboroso suco, um presidente de verdade, que sacie a sede e mantenha o país saudável,
que mostre força, que conduza, que represente, que seja jovem e alegre como a juventude que faz o país.
Queremos votar para presidente, e não para político que traz na testa a sigla do partido e faz aliança para
ajudar a dividir o butim. A palavra não convence mais. É preciso trabalho, responsabilidade, honestidade e
comprometimento (“Empatados — Um junho como nunca se viu”, 16 de junho).
Carlos Alberto Lima
Florianópolis, SC

Independentemente de ser vitorioso ou não, o governo Lula foi uma importante etapa para a experiência
democrática no país. O fato de um partido formalmente considerado de esquerda ascender ao poder nos
insere em uma nova fase do jogo democrático. Porém, além de dar continuidade ao Plano Real, o PT
apropriou-se dos programas sociais lançados pelo governo FHC e criou o programa Bolsa Família,
ampliando o seu atendimento. O Brasil clama por mudança na eleição presidencial que se aproxima, uma
vez que a candidata Dilma Rousseff, caso eleita, permanecerá em consonância com seu criador e ficará
atrelada ao passado, entre outras razões pela total inexperiência para comandar a nação. Aliás,
parafraseando o próprio Lula: “O Brasil precisa de um presidente que faça mais e melhor”.
Valdomiro Nenevê
São José dos Pinhais, PR

Dilma Rousseff

Depois de ler a entrevista de Dilma Rousseff a VEJA (Amarelas, 16 de junho), fiquei pensando: será que
ela realmente tem algum plano para governar o Brasil ou, se eleita, vai fazer tudo o que o atual presidente
mandar?
João Resende Junior
Cuiabá, MT

Gostei das respostas de Dilma Rousseff. Por seu passado e seu trabalho, eu até votaria nela. Acontece que
nenhum presidente administra sozinho seu país. E, como diz o ditado, “dize-me com quem andas e te direi
quem és”. Lula não é modelo para ser seguido. Como administrador, é esbanjador com o que lhe interessa
pessoalmente e unha de fome com o que não lhe dá projeção — haja vista o preocupante endividamento
interno e os trocados para investimentos em infraestrutura. No cenário internacional (e nacional), cerca-se
dos piores elementos. “Nunca antes neste país” a tributação cresceu tanto. Como todo mau político, pensa
que o estado lhe pertence e passa por cima da lei eleitoral com a maior sem-cerimônia. Como
“democrata”, várias vezes já tentou dar jeitinhos para limitar a liberdade de imprensa. Mas, se eleita,
Dilma pretende seguir seu mestre. Diante da promessa da candidata, minha dúvida se encerra, e voto em
Serra.
José Ricardo
Rio de Janeiro, RJ

Candidata Dilma, a senhora se declara “de retaguarda”, tem “muito orgulho de ter combatido a ditadura do
primeiro ao último dia” e ainda afirma que o governo do presidente Lula é realizado a quatro mãos: as
suas e as dele. Considera uma grande contradição o seu governo apoiar ditadores, criminosos e opressores
como Chávez e Ahmadinejad? Minha família conta mortos brasileiros com a política terrorista apoiada
pelo Irã. Declaro que sua postura como mulher e “democrática” envergonha todos os brasileiros que
defendem a liberdade e a verdadeira democracia. Não nos parece que “nosso modelo esteja influenciando
positivamente nossos vizinhos”. Muito pelo contrário. O Brasil não pode continuar apoiando países que
assassinam, oprimem e desrespeitam. O Brasil precisa se reconciliar com a paz e com o bem.
Silvia Blumberg
Rio de Janeiro, RJ

Dilma Rousseff continua com a ideia equivocada de que o Brasil foi “descoberto” em 2002, com a posse
do presidente Lula. A insistência da candidata em desprezar os feitos positivos dos governos anteriores
não faz bem ao país nem a ela mesma. Sem os ajustes fiscais, monetários e cambiais que foram feitos pelo
governo de Fernando Henrique Cardoso, as reservas nacionais e a estabilidade tão comemorada não
poderiam ter sido concretizadas. Em outubro, o povo brasileiro será ingrato com Dilma assim como ela
está sendo com aqueles que construíram os alicerces políticos, econômicos e sociais para o crescimento
equilibrado da nação.
Luís Henrique Neves Gonzaga Marques
Brasília, DF
Carta ao Leitor

Inteligentíssima a ideia de VEJA de entrevistar, nas Páginas Amarelas, os mais destacados candidatos ao
pleito presidencial (“Corações e mentes”, Carta ao Leitor, 16 de junho). Iniciativa de valor inestimável,
altamente esclarecedora àquela parcela do eleitorado que se sente confusa diante de respostas “pré-
elaboradas” — e mesmo assim desastrosas — de candidatos(as) que só visam ao poder e aos interesses
eleitoreiros.
Edison Navarro Messias
Ponta Grossa, PR

PIB superaquecido

Parabéns aos autores da reportagem “O Brasil não pode (ainda) crescer em ritmo chinês” (16 de junho),
que conseguiram explicar de maneira brilhante como funciona esse processo de crescimento do país e
quais os problemas escondidos atrás de tanta propaganda.
Débora Ferraz
Por e-mail

Maílson da Nóbrega

Mesmo ansioso por receber mais 7,7% na minha aposentadoria, não posso deixar de admirar a lúcida e
objetiva argumentação de Maílson da Nóbrega ao criticar o populismo eleitoreiro do Congresso, que quer
privilegiar as aposentadorias em detrimento de quem mais precisa, mas não vota — as crianças carentes.
Parabéns pelo artigo “A prioridade invertida” (16 de junho).
Carlos Carrion Torres
Vitória, ES

Esqueceu o ilustre articulista de mencionar que, desde 2003, a Previdência Social desembolsou 2,8 bilhões
de reais com o pagamento de pensões e indenizações aos “anistiados”. Em 2010 já atingimos mais de 120
milhões de reais.
Murillo César Caetano
Santos, SP

Senhor Maílson da Nóbrega, os idosos que se prepararam e os que se preparam para a aposentadoria,
aqueles que religiosamente contribuem para a seguridade social até o limite máximo, aqueles da iniciativa
privada, não precisam de prioridade do governo — mas sim da obrigação deste em devolver-lhes aquilo
que lhes é de direito. Cabe ao governo procurar os recursos para bancar tais aposentadorias, assim como as
crianças que o senhor menciona em sua coluna, com o dinheiro dos impostos que ele arrecada. Pagamos a
vida inteira por isso que os senhores insistem em dizer que é benefício.
Mario Amorim Ventura
Belo Horizonte, MG

A sociedade deve respeitar todos os seus cidadãos, sem distinção. Porém, o ex-ministro optou por atribuir
aos idosos e aposentados o rombo da Previdência. Pobres são os de espírito, que desrespeitam aqueles que
contribuíram durante toda a vida profissional e, quando esperam desfrutar uma velhice ao menos digna,
têm de aturar os argumentos daqueles que não passam pela mesma situação de penúria. Os ministros da
Fazenda dos últimos seis governos não sobrevivem da aposentadoria do INSS.
Alberto Cleiman
Rio de Janeiro, RJ

Claudio de Moura Castro

Muito eloquente o artigo “O judeu de Bethesda” (16 de junho), no qual Claudio de Moura Castro nos faz
pensar sobre os valores educacionais que as famílias ensinam aos seus filhos. Enquanto não considerarmos
a leitura como necessidade vital, continuaremos um país de leitores fracos e incompetentes.
Edjôfre Coelho de Oliveira
Teresina, PI

Como judeu e mirando-me nas palavras do bibliófilo José Mindlin, de que “o livro é o sorvete que não
derrete”, possuo quase mil de “diversos sabores” — estímulo recebido de meus pais. Proponho que, assim
como os prontos-socorros de saúde, as bibliotecas não fechem, propiciando a todos, e em qualquer
horário, a possibilidade de socorro intelectual. A Dilma, Marina, Serra e outros, fica a sugestão para o
primeiro ato de quem for eleito(a). Isso pode fazer a diferença.
Isaac Gil
Araraquara, SP

Sou professora e mãe. Estou duplamente preocupada. Muitas vezes não recebi bem as críticas ao ensino,
aos professores e à educação. Mas a verdade é que, enquanto os pais não deixarem o seu “entretenimento”
de lado, seus fúteis e ridículos programas de TV em prol da decisão de acompanhar de perto a
aprendizagem de seus filhos, como o judeu de Bethesda, pouco mudará o quadro da educação brasileira.
Edna Soares Bosenbecker
São Lourenço do Sul, RS

Cofre dos aloprados petistas

VEJA tira a máscara de mais um escândalo — o que virou rotina de uns tempos para cá (“Três homens e
alguns segredos”, 16 de junho). Querer vender uma xícara de cafezinho pela bagatela de 352 reais é achar
que, apesar da roubalheira crescer a cada dia, nada é fiscalizado. Escuta-se tanto que o Ministério Público
apresentou denúncias contra partidos e políticos, mas esses, por estarem convictos de que não pagarão
pelos seus malfeitos, continuam a zombar das nossas leis e do Poder Judiciário.
Pedro Araújo
Afogados da Ingazeira, PE

É impressionante como em todas as falcatruas que a imprensa denuncia o PT sempre está envolvido. Até
quando o Brasil vai aceitar a existência desse partido, que abriga tantos estelionatários do dinheiro
público? Fora, PT, deixe o Brasil em paz.
Iramar Benigno Albert Júnior
Recife, PE
Cafezinho 13000% mais caro

Sobre a reportagem "Três homens e alguns segredos" (16 de junho), esclarecemos que o referido edital foi
cancelado pelo Ministério da Pesca e Aquicultura. Os valores divulgados na reportagem (sobre o preço do
cafezinho) referem-se ao aluguel de uma máquina de café no valor de R$ 352,22 que seria usada para
preparar mil cafés por dia – uma média de R$ 0,35 por xícara.
Assessoria de Comunicação do Ministério da Pesca e Aquicultura
Brasília, DF

Nota da Redação: segundo informou o Tribunal de Contas da União (TCU), a proposta da Dialog para
fornecer "café de máquina a R$ 352,33 cada" apresentava "sobrepreço de 13.000%", valor levado em
conta pelo ministro Benjamin Zymler, relator do processo no TCU.

Crime no Maranhão

A reportagem "Horror no Maranhão" (16 de junho) não foi feliz ao afirmar que "a pedofilia é quase
endêmica em regiões do Norte e Nordeste" e que é até "costume" que pais desvirginem suas filhas. A
pedofilia é endêmica em todo o país, e pais desvirginarem filhas só é costume em caso de transtorno
sexual.
Maurício Lopes
Imperatriz, MA

Violência no Ceará

Muito oportuna a reportagem "À procura do mandante" (16 de junho), sobre o sequestro, tortura e
tentativa de assassinato do jornalista Gilvan Luiz. Juazeiro vive tempos sombrios: ameaças, processos,
intimidações, agressões físicas e morais da administração municipal petista contra populares,
principalmente contra jornalistas de oposição. Para completar, o secretário de Infraestrutura desse
governo, o senhor Rafael Apolinário, foi preso recentemente por porte ilegal de arma.
Fábio Souza Tavares
Juazeiro do Norte, CE

Marcos Valério

Em mais de trinta anos de advocacia criminal, jamais fiz ato ou pedido processual algum que pudesse ser
tido como "chicana" ("Chicanas de Valério", Radar, 16 de junho). No processo do mensalão, o pedido de
desmembramento do processo foi formulado desde 2006 e tem apoio na jurisprudência uniforme, reiterada
e unânime do pleno do STF. O ministro Joaquim Barbosa proferiu voto favorável ao desmembramento,
em questão de ordem, que o tribunal, em isolada e injustificável exceção, não acolheu. Porém, no caso do
"mensalinho mineiro", meu pedido em idêntico sentido foi deferido pelo mesmo ministro, em decisão
individual, mantendo-se no STF apenas a ação contra o senador Eduardo Azeredo.
Marcelo Leonardo
Advogado criminalista
Por e-mail
Arte

Importante o trabalho feito por instituições como o Projeto Portinari ("O preferido dos falsários", 16 de
junho). Presido a Fundação Inimá de Paula, criada em 1998 para proteger a obra desse grande artista
mineiro. Em doze anos, catalogamos e emitimos certificados para 1 853 obras de Inimá, e editamos dois
volumes de seu catálogo raisonné. Identificamos mais de cinquenta obras falsas. Em 2008, inauguramos o
Museu Inimá de Paula, em Belo Horizonte. Realizamos tudo isso sem usar dinheiro público nem leis de
incentivo.
Mauro Tunes Junior
Presidente da Fundação Inimá de Paula
Belo Horizonte, MG

Israel e a flotilha

Sou judeu, cresci em Israel, onde servi em uma unidade de elite do Exército, e hoje sou casado com uma
brasileira. Gustavo Ioschpe tem uma visão limitada de militante juvenil, parece que nunca viveu em Israel
nem lutou como soldado pela liberdade de seu povo ou pelo direito de sua existência. Israel já interceptou
vários navios de "ajuda humanitária" carregados de armamentos e explosivos. Na sua lista de coisas que
devem acabar para garantir a paz, o senhor se esqueceu de incluir o fim do terrorismo ("O maior inimigo
de Israel", 9 de junho).
Eran Spira
Por e-mail

Imagem da Semana

Pecado explícito
O primeiro-ministro inglês pede perdão por massacre de 1972.
A reação: elogios. A pergunta: e os outros erros?

Lizia Bydlowski

Peter Muhly/AFP
• Segunda maior cidade da Irlanda do Norte, uma das frentes mais violentas da batalha entre
católicos e protestantes que dilacerou esse pedaço da Grã-Bretanha até as duas partes
chegarem a um acordo histórico em 1998, Londonderry não é lugar onde um
primeiro-ministro britânico costume ser aplaudido em praça pública. Pois David
Cameron, que além de conservador está só há um mês no cargo, foi, e muito, ao usar
da palavra para subverter um dos preceitos básicos da pacificação de regiões
conflagradas: o de pôr uma pedra no passado. Não foi Cameron quem revirou a
pedra, propriamente, mas foi ele quem confessou e, ao fim, pediu perdão. Sobrou
para ele o pepino de divulgar um portentoso relatório que estava pronto desde março,
mas foi guardado a sete chaves para não interferir nas eleições, sobre os
acontecimentos em Londonderry no dia 30 de janeiro de 1972, o "domingo
sangrento" (Sunday Bloody Sunday, na música do U2) em que soldados abriram
fogo contra uma manifestação, matando catorze e ferindo treze. Legítima defesa,
justificou uma investigação na época. Massacre de jovens desarmados, rebate o
relatório de 5 000 páginas, resultado de doze anos de trabalho a um custo equivalente
a 500 milhões de reais. Em telões na praça da prefeitura, Cameron leu os trechos
mais marcantes e concluiu que os tiros foram "injustificados e injustificáveis" e que
"o que aconteceu nunca deveria ter acontecido". No fim, pediu desculpas às famílias
das vítimas "em nome do governo, em nome do país". Passada a euforia da muito
louvável atitude, começaram as cobranças. Cameron se desculpará por outros erros
do passado? Jean Charles de Menezes, o brasileiro morto por engano pela polícia
londrina, foi muito citado no contexto.
Panorama

Datas
SEG|14|JUN|2010
Andre Dusek/AE

Exonerado
• do cargo de secretário nacional de Justiça
Romeu Tuma Júnior, acusado de envolvimento
com o chinês Paulo Li, chefe de uma quadrilha
de contrabandistas em São Paulo. Escutas da
Polícia Federal sugerem que Tuma usou o cargo
para beneficiar Li e também negociou a compra
de bens contrabandeados.

TER|15|JUN|2010
Robyn Beck/AFP Casaram-se

• o ator Harrison Ford, de 67 anos, e a atriz Calista


Flockhart, de 45. A cerimônia teve lugar na casa do
governador do Novo México, Bill Richardson, que
celebrou a união. É o terceiro casamento de Ford, que
teve quatro filhos nos anteriores. Companheiro de
Calista desde 2002, o ator tem com ela um filho
adotivo, Liam, de 9 anos.
No papel
Há oito anos juntos, Harrison Ford
e Calista Flockhart se casaram

Albun/AKG-Images/Latinstock

Excluído

• da Copa do Mundo de 2014 o Estádio do


Morumbi. A CBF descartou o campo porque
seu dono, o São Paulo Futebol Clube, não
apresentou garantias financeiras para arcar
com as reformas exigidas para o torneio. A
decisão deixa a cidade de São Paulo sem
estádio para a Copa. A prefeitura paulistana
coteja duas soluções. A primeira é encontrar
empresas dispostas a construir um estádio
inteiramente novo, no padrão Fifa, no bairro de
Pirituba, na Zona Norte da cidade. A outra é
reformar o do Palmeiras, que abrigaria jogos
de menor relevância. São Paulo, assim, não
sediaria a abertura nem as semifinais do
torneio.
Davi e Golias
A cabeça do gigante é um autorretrato
de Caravaggio: DNA de ossada foi
examinado
QUI|17|JUN|2010
Decidido

• pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que políticos condenados pelos crimes previstos na Lei Ficha
Limpa, em decisões de quaisquer tribunais, poderão ter o registro de sua candidatura negado nas
eleições de 2010, mesmo que tenham sido sentenciados antes da promulgação da lei, em 7 de junho. O
TSE respondeu a uma consulta do deputado Ilderlei Cordeiro (PPS-AC). O parlamentar perguntou
também se penas atribuídas antes da mudança da lei seriam agravadas, já que as novas regras elevaram o
prazo de inelegibilidade dos condenados de três para oito anos. A corte afirmou que sim, mas deu aos
candidatos cujo registro for negado o direito de recorrer dessas decisões e de ter seus processos julgados
com celeridade. Entre os que podem ter seus planos eleitorais frustrados pelo entendimento do TSE estão
Joaquim Roriz (PSC-DF), Anthony Garotinho (PR-RJ), Jackson Lago (PDT-MA), Cássio Cunha Lima
(PSDB-PB) e Marcelo Miranda (PMDB-TO). Os três primeiros concorrem ao cargo de governador. Os
demais, ao Senado.

Panorama

Holofote
Felipe Patury Lula Marques/
Com reportagem de André Vargas Folhapress

Os dois PPs

Uma pesquisa feita pelo PP junto aos seus diretórios estaduais mostrou como a eleição
presidencial dividiu o partido. Em quinze estados, a agremiação aderiu a Dilma Rousseff,
do PT. Mas esse apoio é instável em, pelo menos, três diretórios, que podem virar a casaca até o fim do
mês. Outros dez defendem o tucano José Serra. Dois – Santa Catarina e São Paulo – estão indefinidos. A
cisão deve levar a sigla a se declarar neutra na eleição federal. Essa perspectiva só seria alterada por uma
manobra que convertesse o presidente do PP, Francisco Dornelles, em vice de Serra. Há um mês, uma
articulação idêntica a essa fracassou. As conversas foram retomadas na semana passada, mas suas chances
de êxito são remotas.
Sergio
Castro/AE

A loira e o pagodeiro

A petista Marta Suplicy tem reclamado do sambista Netinho de Paula (PCdoB), seu
companheiro de chapa na disputa pelo Senado em São Paulo. Marta anda aborrecida com
um refrão que Netinho passou a usar em reuniões políticas. Nelas, o cantor se despede
dizendo: "Ajudem a levar a loira para Brasília, mas não esqueçam de votar também no ‘negão’ aqui".
"Negão", no caso, é como ele se refere a si próprio. Marta pediu-lhe para parar de usar a frase. Mas o
comunista é teimoso...
Andre
Dusek/AE

120 000 ricos

O secretário da Receita Federal, Otacílio Cartaxo, selecionou os ricos que passarão a ser
acompanhados pela nova Delegacia Especial de Maiores Contribuintes Pessoa Física. A
repartição monitorará todas as informações fiscais relativas a 120000 CPFs. Tanto as
declarações anuais quanto os recolhimentos desses cidadãos serão lançados em uma base de dados que
alertará para comportamentos atípicos. O órgão contará com uma equipe de sessenta fiscais, terá sede em
Belo Horizonte e deve ser inaugurado
em setembro.

Boca de jacaré

O empresário Sérgio Alambert está decidido a se tornar o maior exportador de couro de Romero Cruz
jacaré. Comprou uma fazendaem Mato Grosso, construiu lá galpões para abrigar os
répteis da luz e obteve autorização do governo federal para criar e abater 40 000 deles.
Alambert paga aos pantaneiros 1 real por filhote capturado e pretende vender a pele de
cada animal adulto por 500 dólares. Ele acredita que, em 2015, negociará 600 000 peles
por ano. Se conseguir, alcançará um faturamento nada rasteiro de 300 milhões de
dólares.
Evaristo
SA/AFP

Companheiro no tribunal

Deve-se à candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, a


nomeação do desembargador José Marcos Lunardelli para o Tribunal Regional Federal
de São Paulo, ocorrida no início deste mês. A defesa que a candidata fez do nome do
jurista foi fundamental para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva o indicasse para o cargo.
Simpatizante do PT, Lunardelli é amigo do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. Foi a primeira vez que
Dilma interferiu em uma nomeação para um cargo no Judiciário.

O Ceará dispensou um estaleiro

Jarbas Oliveira/AE Até a semana passada, estava tudo certo para que o
estaleiro Promar fincasse suas estacas nas imediações do
porto de Fortaleza. A operação foi abortada porque a
prefeita da capital, Luizianne Lins, do PT, convenceu o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva a transferir a obra
para outro local. Luizianne alegou que a área que seria
ocupada pelo estaleiro abriga 5 000 pessoas de renda
média e baixa e pode, no futuro, ser usada para o turismo.
O empreendimento de 300 milhões de reais será
deslocado para outro porto nordestino – provavelmente, o
pernambucano Suape. Lá, empregará a princípio 1 200
pessoas na construção de oito navios gaseiros, que a
Transpetro encomendou por 540 milhões de dólares. Se
continuar assim, Luizianne acabará recebendo o título de
cidadã pernambucana.

Sobe Desce
Conversa com Monique Evans

"Tenho depressão desde os 14 anos"


Na semana passada, os muros da faculdade paulistana
Anhembi Morumbi foram pichados com frases grosseiras
a respeito de Bárbara Evans, a filha de 19 anos da atriz
Monique Evans. Aos 53 anos, a atriz, que se recuperava
de uma depressão, sofreu um novo baque

Marcelo Sperandio

Sergio Barzaghi/Diario SP
Monique: "Estou sozinha"

Desde quando você sofre de depressão?


Desde os 14 anos. Tomei antidepressivo por vinte anos. Agora, só faço terapia. Comecei há um mês. Antes
do que aconteceu com Bárbara, eu até estava bem.

A quem você costuma recorrer nos momentos de depressão?


No ano passado, foi uma amiga de 21 anos.

Seu namorado não a ampara?


Estou sozinha. Há algum tempo, até entrei em um site para ver se conseguia um cara mais velho. Tenho 53
anos, mas são os de 40 que combinam comigo. Homem da minha idade não tem condição. A conversa
deles é igual à do meu avô. A minha cabeça é de 16 anos.

Você não gosta mais de sair com garotões?


Não vou atrás deles. São os meninos que se interessam por mim. Eles se apaixonam mesmo. Algumas
meninas ficam com raiva, porque os namorados delas me acham gata. Ficam danadas e falam: "Aquela
velha?". Mas, agora, nem estou saindo de casa.

Números
Radar
Lauro Jardim
ljardim@abril.com.br

Eleições

Andre Dusek/AE
Puro-sangue
Tasso e Guerra: o fim da novela do vice

O vice do Serra
No início da semana, José Serra bate o martelo sobre o seu companheiro de chapa. É quase certo que seja
mesmo Sérgio Guerra, presidente do PSDB, com uma pequena chance de que a escolha recaia sobre
Tasso Jereissati. Mas, a exemplo do futebol, em política sempre pode ocorrer uma surpresa.

E o DEM?
O DEM vai chiar, é do jogo, mas acatará a decisão do PSDB.

Divórcio nas bodas de prata


Acabou de fato um dos mais longevos casamentos da política brasileira, o que unia há 25 anos Tasso
Jereissati e Ciro Gomes.

Estilo trator
O PT está jogando pesado para obter o apoio formal do PP à candidatura Dilma Rousseff. À frente da
operação, José Eduardo Dutra e Alexandre Padilha, ministro das Relações Institucionais.

Guilherme Lara Campos

De volta
Duda: negociando com Hélio Costa e
fechado com Pimentel

Duda em Minas
Hélio Costa negocia com Duda Mendonça para que ele seja o marqueteiro de sua candidatura ao governo
de Minas Gerais. O marketing da campanha custará a Costa cerca de 15 milhões de reais. Em Minas, Duda
fará também a campanha de Fernando Pimentel ao Senado.

Dilema para Patrus


Apesar da pressão do PMDB para que o PT indique Patrus Ananias para ser candidato a vice-governador
na chapa de Hélio Costa, o grupo mais próximo ao petista reluta em aderir. Essa turma acha que Costa é
vulnerável e o resultado de eventuais denúncias poderá respingar em Patrus. E, em segundo lugar, acredita
que, se Patrus se resguardar e candidatar-se a deputado federal, será um campeão de votos e, a partir de
2011, o grande nome do partido no estado.

O braço direito
O fortalecimento de Antonio Palocci dentro da estrutura de campanha de Dilma Rousseff preocupa o
próprio fortalecido. Como se sabe, Palocci evita como pode aparentar para o público externo o poder que
possui internamente - e, a exemplo de Tancredo Neves, acredita que Deus quis ensinar alguma coisa
quando deu aos homens dois ouvidos e apenas uma boca.

Quando 2011 chegar... Celso Junior/AE

Começa a tomar forma o Instituto Lula, de onde o futuro ex-


presidente despachará a partir de 2011. Já foram escolhidos dez
patronos-conselheiros para auxiliar Lula - entre eles estão dois
ex-ministros do seu governo, Márcio Thomaz Bastos e Luiz
Fernando Furlan. A sede ficará num pequeno prédio situado na
região central de São Paulo. Os patrocinadores do instituto
ainda não são conhecidos, mas não faltarão empresários
dispostos a fazer doações, assim como não faltaram a FHC
quando criou o seu instituto.

De saída
Lula: a exemplo de FHC, vai
criar um instituto

Brasil

Onde está Royal?


O advogado americano Royal Daniel está sumido há mais de um ano, revelou um programa do Discovery
Channel transmitido há duas semanas. O programa especulou que ele poderia estar morando no Brasil. E
quem é esse tal Royal? Um ilustre desconhecido, não fosse o fato de ser advogado da falida TransBrasil
nos EUA e fazer análises jurídicas para Celso Cipriani, ex-presidente da companhia aérea. Royal era
próximo de Cipriani, inclusive geograficamente: eram quase vizinhos nos EUA. Também voava com
frequência para o Brasil, hospedando-se na casa do ex-policial que fez fortuna com a aviação civil.

Escutas no parlatório
Há três anos, atendendo a um pedido do MP da Itália, o juiz federal Odilon de Oliveira autorizou um
amplo monitoramento dos italianos Giuseppe Ammirabile e Salvatore Borelli dentro do presídio federal de
Campo Grande (MS). A dupla era acusada de participar de uma rede de tráfico internacional de drogas. O
juiz permitiu gram-pear e filmar suas conversas com todas as visitas. Para a OAB, mesmo autorizadas, as
gravações ferem o direito constitucional à privacidade. Em outros despachos, o juiz liberou a gravação de
imagens e áudios no parlatório, onde advogados e presos podem se comunicar livremente e que, por lei, é
inviolável. A OAB levará todos esses casos ao CNJ.

Economia

Para inglês ver


Na sexta-feira, Lula inaugurou no Rio de Janeiro a siderúrgica CSA, uma parceria da alemã Thyssen
Krupp com a Vale. Beleza. Só que foi uma inauguração de mentirinha. Não há nada funcionando ainda na
siderúrgica. Aliás, a Vale, que detém 25% da empresa, bancou 75% da festança de sexta-feira.

Tecnologia

Só no fim do ano
A Apple já deu indicações às operadoras de celulares de que o iPad só deve começar a ser vendido por
aqui no início do quarto trimestre.

A briga pelo tablet


Aliás, há uma negociação delicada em curso envolvendo a Apple e as operadoras. A empresa de Steve
Jobs quer vender o iPad não só nas lojas das operadoras mas também no varejo em geral.

Para o iPhone 4 falta pouco


O recém-lançado iPhone 4 deve chegar bem antes ao Brasil: entre agosto e setembro estará nas lojas.

Copa do Mundo

Ronaldinho? Só pagando André Penner/AP


Ronaldinho Gaúcho não tem dado entrevista nas últimas semanas, mesmo sendo
alguém cuja opinião sobre a Copa da África é de óbvio e grande interesse para o
público brasileiro. Assis Moreira, seu irmão e assessor, passou a cobrar por
entrevistas exclusivas do jogador.

Os tuiteiros criticam Dunga,...


Os torcedores-tuiteiros desceram a borduna em Dunga durante o jogo de estreia
do Brasil. De acordo com um monitoramento feito pela Predicta, consultoria
especializada no comportamento do consumidor nos meios digitais, 71% dos
posts tinham conotação negativa (17% eram positivos e 12% neutros). Boa parte
das críticas, aliás, foi mais estética do que futebolística: os tuiteiros não livraram Sob críticas
a cara do casaco que Dunga trajava (leia mais na reportagem de capa e na seção Dunga: na mira dos
Gente). tuiteiros, seja pelo
futebol, seja pelas
roupas que veste
...dividem-se quanto a Kaká...
A atuação de Kaká dividiu a opinião dos tuiteiros: 47% falaram mal de sua atuação. Os demais gostaram
ou acharam normal a bolinha jogada pelo craque brasileiro.

...e levantam a bola de Robinho


Já Robinho recebeu comentários positivos de 59% dos tuiteiros. O levantamento da Predicta foi feito no
dia do jogo, entre 2 e 5 da tarde.

Veja Essa
Editado por Julio Cesar de Barros
jbarros@abril.com.br

Ilustração Gustavo Duarte

"Fiquei sabendo mais uma


vez que ele lembrou o meu
nome. Acho que o Maradona
deve me amar."
Pelé, respondendo a Maradona,
que o acusou de não ter acreditado
na Copa da África do Sul

"O presidente nos autorizou a fazer um novo corte,


inclusive com custeio e em emendas parlamentares."
Do ministro Guido Mantega, prometendo que o aumento de 7,7% para os aposentados
pesará também nas costas de deputados e senadores que o aprovaram

"O setor público desaprendeu a investir, e nós viramos


um estado transferidor de renda."
Raul Velloso, especialista em contas públicas,
comentando o aumento acima da inflação dado aos aposentados

"É a festa dos últimos dias de Pompeia."


Arnaldo Madeira, deputado federal (PSDB-SP),
sobre o aumento de gastos do governo federal em fim de mandato
"Greve é guerra, e não férias. Se o cara faz greve e recebe
os dias parados, os domingos e ainda vai reivindicar hora extra,
que diabo de greve é essa?"
Do presidente Lula, indignado com a greve dos funcionários da Caixa Econômica Federal

"Estejam prontos para dias difíceis. Forças negras


da Idade Média estão se revoltando contra nós."
Do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu

Pablo Valadares/AE

"Se o PT não voltar atrás, vamos à Justiça."


Domingos Dutra, deputado federal (PT-MA), em
greve de fome contra o apoio do PT a Roseana
Sarney, no Maranhão

"Que ninguém ponha palavras na minha boca."


Ricky Martin, cantor porto-riquenho, negando apoiar Hugo Chávez e Fidel Castro,
como divulgou o presidente venezuelano em seu programa Alô, Presidente

"Estamos desesperados, ninguém nos informa sobre nada.


Como faremos? Esta ditadura só vai acabar se Chávez sair do poder."
Oscar Vera, um produtor de eventos e correntista do Banco Federal, que sofreu intervenção
do governo Chávez porque um de seus donos é sócio da rede Globovisión, também perseguida
pelo ditador venezuelano

"Quando se trata da liderança geopolítica, o presidente brasileiro


se esforça muito para manter a imagem de um país ressentido,
um cachorrinho impertinente do Terceiro Mundo."
Mary Anastasia O’Grady, analista do Wall Street Journal, criticando a política externa brasileira

Fabrice Cofrini/AFP "Apanho dia e noite,


e quem me bate é alegre,
feliz. Aí dou uma resposta
e sou rancoroso."
Dunga, técnico da seleção,
reclamando dos chatos dos
repórteres

"Se o Brasil teve um PIBão de 9% no trimestre,


Minas pode comemorar um PIBaço de 12,2%."
Do ex-governador Aécio Neves, celebrando o crescimento chinês do seu estado

"Já vi coisas mais assustadoras aqui mesmo


na São Paulo Fashion Week."
Robert Estevão, cabeleireiro e maquiador de desfiles de moda,
comentando o novo visual barba e cabelo de Maradona

"Cala boca Galvão"


Frase de sucesso estrondoso no Twitter, replicada em todo o mundo depois
que brasileiros gozadores disseram que "cala boca" em português significava
"salve" e "Galvão", "um pássaro raro ameaçado de extinção"

"Se eu tiver uma relação sexual com Jon Kopaloff/Getty


uma mulher,não significa que sou lésbica." Images
Cameron Diaz, atriz, em entrevista à edição americana da revista
Playboy de julho
Quanto valem 54 reais?
No bolso de cada aposentado, esse dinheiro é bem-vindo,
mas muda pouca coisa. Nas contas da Previdência,
o estrago será imenso

Daniel Pereira e Marcelo Sakate

VEJA TAMBÉM Na terça-feira passada, dia da estreia do Brasil na Copa, o


• Quadro: Como 54 reais viram presidente Lula deu uma boa notícia a 8,3 milhões de
4,5 bilhões de reais aposentados. Sancionou o reajuste de 7,72% para os
beneficiários do INSS que recebem mais de um salário mínimo por mês. O índice é o dobro da inflação
acumulada desde o aumento anterior e ficou acima do recomendado pela equipe econômica. Esse grupo
recebe hoje, em média, 1 273 reais. Se o valor fosse reajustado pela inflação, como prevê a lei, essas
pessoas passariam a receber 44 reais a mais por mês. Com o novo índice, os aposentados e pensionistas
ganharão um aumento médio de 98 reais – ou 54 reais a mais do que teriam direito de fato. Os
aposentados certamente farão troça quando receberem o "presentão" de 54 reais, quantia com a qual não
se compra muito mais que uma pizza. Para as contas da Previdência, no entanto, o afago de Lula a esses
eleitores representará um custo adicional de 4,5 bilhões de reais apenas neste ano. "Esse é um
compromisso que impactará as contas públicas de maneira permanente, sem que o governo apresente uma
fonte de receita adicional para financiar essa despesa", afirma o economista Raul Velloso, especialista em
contas públicas.

Antes da sanção de Lula, os ministros Guido Mantega (Fazenda) e Paulo Bernardo (Planejamento) diziam
que o índice de 7,72% era uma "afronta" à Lei de Responsabilidade Fiscal. O acordo que o governo havia
fechado com as centrais sindicais no início do ano previa reajuste de 6,14% nos benefícios, índice já bem
superior à inflação. Quando o projeto chegou ao Congresso, o valor subiu. Oposição e situação, em rara
harmonia, alinharam-se em defesa dos 7,72%. De início, Lula reagiu e foi contra. Chegou a falar em vetar
esse índice. O presidente, no fim das contas, só fez fita. Não iria se indispor com 8,3 milhões de eleitores
(6% do total nacional). Especialista em tirar proveito para si dos projetos de terceiros, Lula deixou para
sancionar o reajuste no fim do prazo legal. Buscou, assim, assumir sozinho a paternidade da bondade,
aprovada semanas antes pelos congressistas. Provoca o ministro de Relações Institucionais, Alexandre
Padilha: "É bom para eles aprenderem. Qualquer coisa que a oposição quiser capitalizar, no fim quem vai
ganhar seremos nós do governo".

O presidente, ao menos, teve o bom senso de vetar o fim do fator previdenciário, medida que também
havia sido aprovada pelo Congresso. Sem esse mecanismo, essencial para evitar o aprofundamento no
déficit do INSS, haveria um gasto adicional de outros 4 bilhões de reais apenas neste ano. De qualquer
maneira, o governo precisará agora enxugar gastos para compensar a despesa extra que recairá sobre o
Orçamento por causa do aumento das aposentadorias. Como invariavelmente ocorre em situações
semelhantes, os investimentos públicos deverão ser a vítima. Bilhões valiosos, que poderiam ser usados na
reforma de estradas e aeroportos, ampliando o potencial de crescimento do país, serão transformados em
54 reais a mais no bolso dos aposentados.

A crise do outro golfo


Para salvar-se da catástrofe no Golfo do México, Obama visita
a região de novo, fala à nação do Salão Oval e, em lance
melancolicamente populista, demoniza a empresa petrolífera

André Petry, de Nova York

Fotos Ted Jackson/AP e Petesouza/Corbis/Latin Stock

"MENTALIDADE DE MANADA"
Obama, com o vazamento de óleo ao fundo: a opinião pública
americana
não fala de outra coisa, sinal de que Nietzsche tinha razão

VEJA TAMBÉM
• Infográfico: Como a mancha de petróleo se Desde o começo, o vazamento de petróleo do poço aberto
alastrou pelo Golfo do México desde o dia no fundo do mar do Golfo do México mesmerizou os
22 de abril americanos. Diariamente, de manhã à noite, todos os
• Em vídeo: O vazamento de petróleo em noticiários, das rádios aos blogs, falam do vazamento, que
tempo real chega neste domingo ao seu 62º dia. O volume do óleo
jogado no mar, dizia-se no início, era de 1 000 barris por dia, mas logo a estimativa passou para 5 000,
depois para 12 000, 25 000, 30 000, 40 000, até que, na semana passada, bateu em 60 000 barris por dia,
com alguns especialistas dizendo que talvez chegue a 100 000. É coisa para Exxon Valdez nenhum botar
defeito. Com as imagens dramáticas de fogo no mar e pelicanos recobertos de óleo, a opinião pública
americana tornou-se a mais acabada definição do fenômeno social que o filósofo Friedrich Nietzsche
(1844-1900) chamou, pioneiramente, de "mentalidade de manada": não se fala em outra coisa e não se
discute outro assunto – até o momento em que só se falará de outra coisa e só se discutirá outro assunto.
Com a obsessão pública, o vazamento passou a dominar a política e, na semana passada, cinco meses
antes da eleição legislativa, atingiu o auge.

Fustigado pela oposição e até por aliados incomodados com seu ar de alheamento, o presidente Barack
Obama montou seu programa de ataque. Na segunda-feira, voltou a visitar os estados do sul, onde o óleo
já chegou às praias, devastando aves, peixes, empregos e o turismo. Na terça, fez seu primeiro
pronunciamento à nação no Salão Oval, durante o qual convocou os americanos a cumprir a "missão
nacional" de superar a dependência do petróleo, aproveitando a catástrofe para lubrificar sua proposta de
"energia limpa". Na quarta, teve um encontro fechado com a cúpula da BP, o gigante petrolífero dono do
poço no Golfo do México, para quem sobrou o pior subproduto da politização. A BP foi tratada pelo
governo americano como forasteira intrusa, incompetente e insensível.

Na demonização da empresa, Obama chegou a pedir a demissão do executivo Tony Hayward – que, ao
depor no Congresso na quinta-feira, declarou, candidamente, que não tomou parte das decisões sobre o
poço que vazou. Além da cabeça de Hayward, Obama disse que a BP não podia pagar dividendos e tinha
de reservar dinheiro para indenizar todo mundo, incluindo até os petroleiros prejudicados pela decisão da
Casa Branca de decretar moratória na exploração de petróleo no mar. A coisa ganhou um ar tão hostil que
irritou até os ingleses do outro lado do Atlântico – a sigla da BP vem de British Petroleum e sua sede é em
Londres. Um dos mais exaltados, o conservador Norman Tebbit, ex-ministro de Margaret Thatcher,
chamou a reação americana de uma "exibição grosseira, fanática e xenofóbica" da "petulância presidencial
contra uma multinacional".

Os ataques à BP procuram ocultar a responsabilidade do próprio governo no acidente, mas Obama, em sua
estratégia, fez cabelo, barba e bigode. Depois do encontro na Casa Branca, a BP saiu pedindo desculpas
públicas pelo vazamento e anunciou três medidas: não pagará os dividendos de 10,5 bilhões até o fim do
ano, separou 20 bilhões de dólares para indenizar as vítimas e deu uma contribuição "voluntária" de 100
milhões para compensar os petroleiros desempregados pela moratória. E Tony Hayward já começou a ser
desidratado, deixando de responder pela BP no caso do desastre. É claro que nenhuma companhia no
mundo conseguiria enfrentar o poder de fogo da Casa Branca, mas a questão central está na confusão dos
interesses políticos com a vida de uma empresa. A Casa Branca apertou o torniquete contra a BP, que, sem
dúvida, cometeu um erro, ou um conjunto de erros, fatal, provocando a catástrofe. Mas, até onde se sabe, e
até onde a própria Casa Branca diz saber, a empresa fez tudo legalmente e sob fiscalização das
autoridades. Demonizar a BP, excedendo em muito a devida responsabilização da companhia por seus
erros, é um lance melancolicamente populista de Washington. Não fará bem nem aos pelicanos.

A Força Expedicionária Brasileira


Trancada, isolada e muda, a seleção parece uma tropa
que foi à guerra e esquece que a nação toda quer saber
o que ela faz e está pensando

Carlos Maranhão, de Johannesburgo

André Chaco/Fotoarena/AE

SOLDADOS DE DUNGA
Os jogadores no seu campo de batalha, antes de enfrentar a Coreia do Norte.
"Manda quem pode, obedece quem tem juízo", diz o goleiro Júlio César

Eles parecem uma tropa. Vestem reluzentes uniformes, cada um ocupa sua posição determinada na
unidade de infantaria, cumprem com rigor as ordens do comandante em chefe e quase não falam.
Protegidos em seu QG ou entrincheirados, comportam-se como se estivessem em campanha – não
futebolística, na disputa de um campeonato mundial, mas numa operação militar. Além de enfrentarem os
adversários encarados como inimigos – primeiro a Coreia do Norte, batida na estreia de terça-feira
passada pelo magro e preocupante placar de 2 a 1, neste domingo a Costa do Marfim e na próxima sexta
Portugal –, eles foram longamente instruídos sobre como defrontar o que seu superior hierárquico
considera outro tipo de obstáculo: a imprensa.

Nada de ficar dando entrevistas ou aparecer na TV. Só podem abrir a boca, sem nenhuma crítica ao
batalhão, dentro de um código rígido. A cada dia, como num rodízio de sentinelas, dois deles são
designados para a missão de participar de uma coletiva de imprensa, em que cerca de 200 jornalistas,
mantidos a distância em suas cadeiras, disputam o direito de formular perguntas durante meia hora. Na
véspera e depois das partidas, cumprindo uma determinação da Fifa, todos passam por uma espécie de
corredor polonês em zigue-zague, entre o vestiário e o ônibus, a chamada zona mista, e os que
concordarem param diante dos repórteres que se acotovelam. Alguns seguem marchando, como fez o
lateral Maicon após a estreia, com a justificativa de que estivera na coletiva anterior. O atacante Robinho
"ouve" a primeira indagação sem tirar do ouvido o fone do iPod. O comandante, esse, atravessa o corredor
de nariz erguido, passos cadenciados, um, dois, feijão com arroz. Suas únicas aparições são nas tais
coletivas obrigatórias, quando dá espetadas com sua baioneta e afirma que essa "é uma forma nova de
trabalhar". Na hora dos treinamentos, ninguém chega perto da soldadesca nem da intendência – roupeiro,
massagista, auxiliares, igualmente proibidos de se pronunciar. Com frequência, são manobras secretas.
Ou, ainda na definição do comandante, privadas. "Manda quem pode, obedece quem tem juízo", comentou
o goleiro Júlio César na coletiva de sexta passada.

É assim que vem sendo a vida dos pentacampeões mundiais em seu teatro de operações na África do Sul.
Aqui o que menos importa são as dificuldades de trabalho dos jornalistas. A questão é que, ao trancar os
jogadores, impedir o acesso aos treinamentos e limitar ao máximo as entrevistas, o comandante Dunga,
radicalizando seu maquiavelismo, transmite a seguinte mensagem: assistam aos nossos jogos, torçam pela
nossa vitória, mas por favor não nos importunem com críticas e pedidos. Faz com isso uma inversão de
papéis, pois não são os jornalistas que ele afasta, mas todos os brasileiros que acompanham
apaixonadamente a seleção a distância e ficam privados de informações. Entre uma Copa e outra, o
futebol é alvo de interesse exclusivo dos torcedores de clube. Durante os trinta dias do Mundial, porém, é
a nação de 193 milhões de habitantes que veste a camisa amarela.

Jamais ocorreu nada semelhante na história dos canarinhos. "Na Copa de 70, três vezes por semana, dois
jornalistas almoçavam com a delegação e falavam com quem queriam", lembra o ex-lateral Carlos Alberto
Torres. "É preciso manter essa boa relação, porque o país inteiro está interessado em acompanhar o que
acontece com nossa seleção." Em competições passadas, o técnico e os jogadores davam entrevistas
diariamente, antes e depois dos treinos. Havia exagero, é claro, com a publicação de uma avalanche de
notícias e uma batelada de irrelevâncias, embora nesse período leitores, telespectadores, ouvintes e
internautas fiquem curiosos para saber se a dor nas costas de Júlio César poderia impedi-lo de atuar, se o
meia Kaká comentou com a mulher sua falta de ritmo de jogo ou se o atacante Luis Fabiano estaria
preparando uma nova coreografia para comemorar os gols. Durante a semana passada, foi impossível
apurar coisas banais como essas. No período mais duro do regime militar, com a vigência da censura e do
AI-5, os ditadores não davam entrevista. Dentro da seleção brasileira, chefiada na Copa de 70 por um
brigadeiro e presidida em 1978 por um almirante, chegaram a trabalhar na comissão técnica o capitão
Cláudio Coutinho, que seria o treinador "campeão moral" na Argentina, o major Raul Carlesso e mais três
militares. "Mesmo assim, em plena ditadura, a liberdade era maior do que hoje", compara o experiente
comentarista esportivo Orlando Duarte. "Os jornalistas passeavam pelo hotel da seleção à vontade e
entrevistavam quem bem entendiam. Nas catorze Copas que cobri, nunca vi nada parecido com o que
acontece agora."

Vuvuzela, não!
É hora de gritar bem alto para impedir a proliferação
no Brasil dessa praga insuportável que virou a marca
registrada do Mundial da África do Sul

Fábio Altman, de Johannesburgo

Paulo Vitale

SÍMBOLO
Culturalmente interessante, mas muito chata e perigosa para a
audição

VEJA TAMBÉM A vuvuzela, o símbolo da Copa da África do Sul, cujo


• Vida em rede: Como silenciar a vuvuzela ruído multiplicado lembra o barrir de uma manada de
elefantes, incomoda muita gente e faz mal à saúde. Especialistas da Universidade de Pretória
comprovaram o risco de perda da audição em exposições prolongadas. Em estudo recente, na véspera do
Mundial, eles examinaram onze voluntários antes e depois de uma partida de futebol com público de 30
000 pessoas. O grupo esteve sujeito a um pico máximo de 140 decibéis e mínimo de 100 decibéis –
patamar maior que 125 decibéis é danoso aos tímpanos. A investigação detectou, em todos os testados,
"significativa redução da capacidade auditiva".

Nos estádios, é péssimo. Pela televisão, pior. Na semana passada, a empresa contratada pela Fifa para
gravar os jogos decidiu filtrar parcialmente o som. Mas dura é a vida de quem não pode controlar o áudio.
Para Júlio César, goleiro do Brasil, ficar parado debaixo das traves é ingrato. "Os jogadores de linha ao
menos se movimentam, e esquecem a zoeira ao redor", disse a VEJA.

O estrondo internacional produz entusiasmo em Neil van Shalkwyk, dono do registro da marca vuvuzela.
Ele diz ter vendido 1,5 milhão de unidades na Europa neste ano. Esperto, já conversa com importadores
do Brasil. Vai esbarrar em um problema: o cornetão brasileiro, muito comum, produz o mesmo som e é
igualmente irritante. O modelo vendido no país é menor (seu comprimento varia entre 50 e 60
centímetros, contra 1 metro da vuvuzela africana). Melhor seria importar outro produto que se espalhou
em Johannesburgo: protetores auriculares que, há quinze dias, custavam meros 10 rands (2,5 reais) e agora
são vendidos a 15 rands. E, melhor ainda, banir o maldito monstro sonoro dos nossos estádios.

A Jabulani desvendada
Pesquisador japonês submete a bola do Mundial a testes
de aerodinâmica e explica por que ela surpreende os jogadores

Alexandre Salvador

VEJA TAMBÉM Após as primeiras disputas, alguns jogadores elegeram o


• Quadro: As revelações do túnel do vento adversário mais traiçoeiro da Copa do Mundo: a bola usada
em campo, batizada pelo fabricante, a Adidas, de Jabulani. Os goleiros Chaouchi, da Argélia, e Green, da
Inglaterra, levaram frangos vergonhosos. Suas equipes culparam a bola oficial da Copa, cujo
comportamento imprevisível estaria fazendo com que os jogadores errem seus passes por longa margem e
dificultando o trabalho dos goleiros. Júlio César, o goleiro do Brasil, foi impiedoso – comparou a Jabulani
com uma bola de plástico daquelas vendidas em supermercados. A Universidade Loughborough, na
Inglaterra, parceira da Adidas na criação da Jabulani, diz que ela tem apenas uma diferença relevante em
relação à bola do último Mundial: é 5% mais veloz. Faltou dizer qual característica da Jabulani a torna
mais rápida.

Para esclarecer essa questão, VEJA procurou o engenheiro japonês Takeshi Asai, da Universidade de
Tsukuba. Ele foi o único, além da Adidas, a realizar testes comparativos entre a Jabulani e a Teamgeist, a
bola da Copa de 2006. Para isso, Asai mediu o comportamento das bolas no túnel de vento. "Os testes
revelam que as duas sofrem de maneira distinta a ação do atrito com o ar. Por essa razão, as trajetórias e as
distâncias atingidas no campo de jogo são diferentes", explica Asai. Segundo o engenheiro, o que faz a
diferença é a camada externa de cada uma delas. A superfície da Teamgeist é completamente lisa. A
Jabulani tem ranhuras nos gomos e textura crespa. Um leigo pode pensar que a bola de superfície lisa
ofereceria menos resistência ao ar e, portanto, viajaria mais rápido. Sob as leis da física não é o que
acontece. A superfície texturizada é mais eficiente do ponto de vista aerodinâmico do que a lisa. Por isso a
Jabulani é mais rápida e seus voos podem ser mais altos e mais longos que os da bola usada na Copa de
2006. "A Jabulani segue o mesmo princípio das bolas de golfe, que possuem pequenas depressões na
superfície para atingir as distâncias exigidas nas partidas", disse a VEJA o engenheiro Ken Bray, da
Universidade de Bath, na Inglaterra, especialista em tecnologia de equipamentos esportivos. Resta aos
jogadores se habituar à nova bola antes de ser eliminados.
Europa Futebol Clube
Ter jogadores em clubes das principais ligas é meio
caminho andado para o sucesso internacional

Carlos Maranhão e Fábio Altman, de Johannesburgo

Fotos Paulo Vitale e Gero Breloer/AP


Messi e Cacau (à dir.): o argentino e o brasileiro naturalizado alemão hoje são legítimos
europeus

A que atribuir o mau desempenho da seleção da África do Sul nas duas primeiras partidas da Copa,
empate em 1 a 1 com o México e derrota de 3 a 0 para o Uruguai? O treinador Carlos Alberto Parreira
encontrou a resposta: falta de jogadores atuando em equipes da Europa. "Lá eles aprendem a ter malícia e
senso de colocação, a ser profissionais, a adquirir hábitos de uma nova vida", disse Parreira a VEJA. Entre
os 23 atletas dos Bafana Bafana, não mais que sete (três titulares) têm contrato com clubes do exterior. Na
seleção de Dunga, há vinte na Europa. A Argentina de Maradona reúne dezesseis.

Tentou-se vender a Copa de 2010 como um torneio africano capaz de aproximar da taça, pela primeira
vez, times alegres e "peladeiros", segundo um batido jargão. "É preconceito imaginar os jogadores
africanos dessa maneira, divertidos e exóticos", afirma o historiador Peter Alegi, professor de história da
África na Universidade do Estado de Michigan. Virou imagem desgastada. O futebol, hoje, é sinônimo de
Europa. Apenas o Chelsea, da Inglaterra, está representado por doze jogadores na Copa. Das seis seleções
do continente na disputa, só a da Argélia é dirigida por um nativo. Nas outras há dois suecos, um francês,
um sérvio e um brasileiro, admirador da escola italiana.

O fenômeno da europeização tem origem econômica. Em 2009, o faturamento dos torneios europeus
chegou a 15,7 bilhões de euros. Metade desse total vem dos campeonatos da Inglaterra, Espanha, Itália,
Alemanha e França. Os jogadores procuram o exílio dourado porque ele pode lhes dar celebridade e
fortuna às vezes desde a adolescência (o argentino Messi foi para o Barcelona com 13 anos). O brasileiro
Cacau, naturalizado alemão, autor de um dos gols nos 4 a 0 contra a Austrália, emigrou com 18 anos e
teve duplo sucesso: além de assinar bons contratos, conseguiu ir ao Mundial, sonho que seria remoto caso
ainda jogasse no Brasil. As histórias de Messi e Cacau – tão distantes na fama e na habilidade – traduzem
o futebol atual, feito de expatriados milionários.

Com reportagem de Alexandre Salvador


Senhor polêmica
O escritor e Nobel português José Saramago morre aos 87,
em sua casa nas Ilhas Canárias
Alessandro Albert/Contours by Getty Images
ESTILO E EQUÍVOCO
José Saramago: provocações à Igreja e amizade com Cuba

VEJA TAMBÉM Único prêmio Nobel de Literatura da língua portuguesa,


• Vida em rede: A vida e a carreira de José José Saramago morreu em Lanzarote, nas Ilhas Canárias,
Saramago na sexta-feira 18, aos 87 anos. Foi cronista, poeta, contista,
dramaturgo, jornalista – mas consagrou-se no romance, gênero que exerceu com fôlego enciclopédico.
Seus temas incluíram a revisão histórica (Memorial do Convento, História do Cerco de Lisboa), tributos a
personalidades literárias (O Ano da Morte de Ricardo Reis) e alegorias críticas da condição moderna
(Ensaio sobre a Cegueira). A carreira do escritor português foi marcada pela polêmica, sobretudo com a
Igreja – ateu e comunista militante, ele fez provocações com a religião em O Evangelho segundo Jesus
Cristo e em Caim, seu último livro.

Nascido na aldeia de Azinhaga, em 1922, Saramago teve uma infância pobre e nunca frequentou uma
universidade. Estreou com o romance Terra do Pecado, em 1947, mas depois passou quase vinte anos sem
publicar. Sua consagração, tardia, deu-se sobretudo a partir de Levantado do Chão, de 1980. Agraciado
com o Nobel em 1998, Saramago é dos poucos autores contemporâneos em língua portuguesa que
conseguiram cristalizar um estilo particular e inconfundível. Ao lado da criação literária, manteve-se
sempre ativo, e equivocado, na política. Embora tenha feito críticas insignificantes a execuções de
opositores em Cuba, declarava-se um "amigo" da ditadura dos irmãos Castro. Saramago morreu
tranquilamente, em sua casa, na Espanha, vítima de complicações pulmonares. Nos países cujos regimes
ele defendia, nenhum escritor que ousou discordar teve o luxo de uma morte tranquila.

Gente
Editado por Lizia Bydlowski Colaboraram Bel Moherdaui, Cristiane Sinatura e Suzana Villaverdede

Rodrigo Zorzi

Programas de índio
O visual de gueixa (muito) moderna adotado pela atriz
DANIELE SUZUKI, 32, para uma campanha –
"Nunca tinha visto laquê tão bom", comentou sobre o
produto que segurou três apliques num coque
escultural – é só um ensaio do que ela verá no Japão,
para onde embarca em setembro. A experiência será
mostrada em seu programa de viagens, para o qual já
passou temporada com índios no Xingu, com ciganos e
com bruxas. "Gostei da tenda cigana, coloridíssima.
Dormir na casa de uma bruxa, com aranhas na parede e
vidrinhos de sangue na prateleira, foi bem estranho.
Mas o mais difícil foi ficar sem banheiro na aldeia",
conta ela, que viaja em breve para o Alasca, onde
ficará hospedada em um iglu com esquimós.

O retorno de Valentim Divulgação Tv Globo


É assim, vestido de toureiro, que o famoso estilista espanhol
Victor Valentim, invenção do pilantra brasileiro Ariclenes
Almeida, se apresenta às clientes em seu ateliê. Nos dois papéis
na reedição de Tititi, a novela global dos anos 80 que volta ao ar
em julho, está MURILO BENÍCIO, 37 anos e muito nervosismo
pré-estreia. "Sinto uma expectativa horrorosa, por causa do
sucesso da primeira Tititi", confessa ele, que a título de
preparação não fez nada: "Não revi a novela, não entendo de
moda e não sei falar espanhol. Mas acho que, quanto menos
souber, mais engraçado vai ficar". Nove quilos mais magro, conta
que levou um tempo para se acostumar com a fantasia. "Não
punha muita fé. Mas até que ficou bom, né?", brinca.

Uma questão de figurino

Matt Dunham/AP
Únicos autorizados a usar o que bem entenderem à beira do gramado, espera-se do técnico de futebol e
auxiliares certo apuro visual. Ciente disso, o brasileiro DUNGA, 46 anos, optou por espantar o frio
intenso de Johannesburgo num casacão Alexandre Herchcovitch que ele mesmo comprou há quatro anos.
Feliz com a escolha, e educado, Herchcovitch achou-o "bem vestido e contemporâneo" – em que pese o
folgado da peça, certamente para acomodar o volumoso suéter de gola rulê. Muito mais bem ajustado é o
vestidinho de jérsei laranja com que a modelo SYLVIE, 32 anos, mulher de Rafael Van Der Vaart, meio-
campista da seleção da Holanda, ajudou a divulgar a promoção de uma cerveja holandesa: quem
comprasse um pacote de latinhas levava um de presente. Por pura coincidência, segundo a cervejaria, no
jogo contra a Dinamarca 36 loiras modelos apareceram com o tal vestido – apesar dos 17 graus no estádio.
Acusadas de propaganda encoberta, acabaram expulsas do recinto. Ponto em comum entre o casaco e o
vestidinho: estão indisponíveis. "Demoraria no mínimo sessenta dias para fazer de novo", explica
Herchcovitch. "As 200 000 peças encomendadas estão esgotadas", diz Kim Harmsen, assessora
da grife Supertrash.

Medicina

Uma vitória da vida


Como os avanços notáveis nos tratamentos estão
derrotando o câncer e fazendo com que ele perca
a imagem sombria de predador. Para a sua desmitificação,
contribuem – e muito – os depoimentos de gente famosa,
como José Alencar, Hebe Camargo, Christina Applegate e
Lance Armstrong, que resiste à doença com bravura e
otimismo

Adriana Dias Lopes

Istockphoto

VEJA TAMBÉM O câncer é aquele ônibus que


• Quadro: Vive-se mais e melhor ninguém quer mas com que
se conta; não se corre atrás
dele, mas quando ele passa se toma

Os versos acima são de João Cabral de Melo Neto, morto em 1999 – não de câncer, mas de causas
associadas a uma doença degenerativa. Poeta virtuoso, um dos maiores da língua portuguesa, João Cabral
conseguiu condensar seu tema numa imagem cotidiana, de alcance universal: para além do alto grau de
incidência da doença, a fatalidade com que o diagnóstico de câncer costuma ser recebido. De fato, está
longe de ser uma banalidade ouvir que se é hóspede de um tumor maligno. Mas também é verdade que
isso deixou de significar, necessariamente, a emissão de um atestado de óbito. Pegue-se, a título de
exemplo, o caso do vice-presidente José Alencar. Em setembro do ano passado, em entrevista a VEJA, ele
disse: "Estou preparado para morrer". Naquela ocasião, Alencar iniciava sua 11ª batalha contra um câncer
na região abdominal, detectado em 2006. Com um prognóstico sombrio, a declaração à revista soou como
a rendição de um homem até então otimista. De lá para cá, no entanto, Alencar apareceu mais 28 vezes nas
páginas de VEJA – em meio, principalmente, a notícias políticas e econômicas. A quimioterapia a que ele
vem sendo submetido tem dado resultados positivos. Os médicos não falam em cura, mas Alencar tem
levado uma vida praticamente normal. Foi padrinho de casamento do irmão e chegou até a cogitar
candidatar-se ao Senado nas eleições de outubro. O quadro clínico do vice-presidente ilustra não só a sua
resistência física e emocional, como a evolução impressionante da medicina diante do câncer nos últimos
dez anos.

Lailson Santos

Sobrevida (muito) maior


Em janeiro, a apresentadora Hebe Camargo, de 81 anos, foi
diagnosticada com um câncer no peritônio, a membrana que reveste
os órgãos da região pélvica e abdominal. A doença está controlada
graças ao tratamento quimioterápico ao qual ela foi submetida. Dos
anos 90 para cá, com o surgimento de medicações mais precisas
contra esse tipo de tumor, as chances de sobrevida aumentaram 50%
"O câncer moldou a sua própria mitologia de um predador obsceno e demoníaco, um caçador sombrio e
invencível", definiu o biólogo inglês Mel Greaves. A aura de obsceno, demoníaco e sombrio é difícil de
cancelar, em que pese o comportamento de pessoas corajosas como Alencar. Invencível, contudo, o câncer
não é mesmo, enfatize-se. Hoje, 75% dos casos flagrados em estágio inicial podem ser curados. Quarenta
por cento a mais em relação ao que ocorria na década de 70. Isso, na média. O índice de remissão total no
tratamento de um tumor como o de fígado, antes altamente letal, hoje é de 85% – contra 35% na década
passada. Resultados tão exuberantes estão fazendo com que os pacientes comecem a falar abertamente da
doença, com uma esperança que aviva em si próprios e em seus semelhantes a disposição para enfrentar o
câncer – melhorando, assim, o grau de adesão às terapias, num círculo virtuoso que ajuda a elevar as
estatísticas de cura. Nesse sentido, as celebridades atingidas pela doença têm dado um bom exemplo ao
expor sua luta. "A batalha contra o tumor trouxe um novo sentido à minha vida", disse, em 2008, a atriz
americana Christina Applegate, então com 36 anos, à rede de televisão ABC. Na entrevista que emocionou
milhões de americanos, ela contou que havia sido submetida à extirpação total das duas mamas em
decorrência de um câncer de origem hereditária. No ano seguinte, ela recebeu uma homenagem da revista
americana People: foi capa da publicação na condição de "a mulher mais bonita do mundo".
Recentemente, foi a vez de a apresentadora brasileira Hebe Camargo, de 81 anos, dar seu testemunho,
relatando, "toda serelepe", como enfrentou a quimioterapia a que foi submetida para eliminar um câncer
no peritônio, a membrana que reveste os órgãos da região abdominal. "Descobri que a doença não é o
monstro de que tanto falam. É preciso acabar com essas besteiras", disse Hebe a VEJA.

Chris Floyd/Camera Press/Other Images

Genética contra os tumores


Aos 36 anos, em 2008, a atriz americana
Christina Applegate anunciou ter passado
por uma mastectomia bilateral – a retirada
da mama onde o tumor foi encontrado e a
extração preventiva da outra, sadia.
Christina tomou essa decisão radical por
ser portadora de uma alteração genética que
funciona como uma condenação ao câncer
de mama. Hoje, graças à profilaxia
genética, a probabilidade de ela ter uma
recidiva da doença gira em torno de 1%
(sempre sobram células mamárias depois
da mastectomia).

As notícias estão melhores também para os pacientes sem chance de cura. Hoje, no Brasil, há cerca de 170
000 homens e mulheres nessa condição. "Pelo menos a metade deles consegue manter uma rotina
razoavelmente normal, por causa das novas medicações desenvolvidas pela oncologia", diz Sergio Simon,
oncologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Ou seja, podem tocar o dia a dia livres de dor e
com mais autonomia. Um dos tumores mais agressivos e resistentes a tratamentos é o de pulmão em fase
de metástase, quando já se alastrou para pelo menos outro órgão. Mesmo assim, a média de sobrevida de
um paciente nessas condições pulou para dois anos. Na década de 90, era de apenas sete meses."Qualquer
tempo a mais é essencial para que o doente tenha a oportunidade de apaziguar-se, pondo em ordem a vida
prática, familiar e emocional", diz o oncologista Bernardo Garicochea, da Pontifícia Universidade
Católica (PUC) do Rio Grande do Sul. Pode parecer pouco, mas a possibilidade de antever o fim da
própria existência com tranquilidade é algo belo – desde que se adote a perspectiva do pensador romano
Cícero, ecoada pelo francês Montaigne, segundo a qual "filosofar não é outra coisa que preparar-se para a
morte".

Um dos caminhos de tratamento contra o câncer mais investigados pela medicina refere-se à criação de
vacinas terapêuticas – medicamentos que estimulam o sistema imunológico no combate às células
cancerosas. Há dois meses, a FDA, a agência americana de controle de remédios, aprovou a primeira
dessas vacinas. Desenvolvida pelo laboratório Dendreon, a Provenge é destinada a pacientes com câncer
de próstata. Nos testes, doentes com tumor em estágios avançados ganharam, em média, cinco meses a
mais de uma vida relativamente boa. O entusiasmo dos médicos com a Provenge não se explica apenas
pelo aumento da sobrevida dos pacientes. "Só de se revelar eficaz, essa vacina simboliza um marco nas
terapias anticâncer", diz o oncologista Gustavo Guimarães, do Hospital A.C. Camargo, em São Paulo. O
maior feito dos inventores da Provenge foi ter vencido um grande obstáculo no desenvolvimento das
vacinas terapêuticas: o de levar o organismo a identificar apenas as células cancerosas como agentes
nocivos e, assim, passar a tentar destruí-las. "O corpo tem extrema dificuldade em reconhecer o câncer
como um ser estranho, já que ele surge de células sadias", explica o médico Marcello Fanelli, também do
Hospital A.C. Camargo.

A frente imunológica de combate ao câncer foi inaugurada nos anos 70, com a chegada ao mercado do
interferon. Lançado originalmente para o combate de viroses respiratórias, o remédio logo teve seu uso
ampliado para pacientes com tumores malignos, por ter se mostrado um potente estimulador do sistema de
defesa do organismo. Mas, apesar de todas as esperanças depositadas no interferon, ele não se revelou
eficaz. Ao contrário das novas vacinas, desenhadas para facilitar o reconhecimento das células cancerosas,
ele não conseguia deter a proliferação dos tumores, porque sua ação era muito difusa. O interferon só é
usado hoje como ultimíssima cartada contra tipos raros de câncer. Entre esses tumores estão alguns
linfomas e o melanoma. O seu efeito, no entanto, é muito limitado.
Bravura e uma dezena de tratamentos
Desde 2006, quando recebeu o diagnóstico para o câncer na região
abdominal, o vice-presidente José Alencar, de 78 anos, vem resistindo
bravamente à doença. Está no seu 11º tratamento. Ele já foi submetido
a cirurgias agressivas, sessões de radioterapia e até a um medicamento
ainda em fase experimental. Os médicos não falam em cura, mas
Alencar tem conseguido levar uma vida praticamente normal. Dez
anos atrás, mesmo um paciente com tanta coragem como ele não teria
como enfrentar a doença

Para desenvolverem a vacina Provenge, seus idealizadores escolheram trabalhar com a célula CD54, uma
proteína do linfócito responsável por disparar o alarme do sistema imunológico contra a presença de um
corpo estranho no organismo. Eles a marcaram com uma proteína criada em laboratório muito semelhante
à PAP, encontrada em 95% dos tumores de próstata. Ao ser injetada no paciente, a CD54 modificada
ensina as outras células de defesa a identificar como agente agressor aquelas que contêm a proteína PAP. A
Provenge representa uma conquista e tanto, mas ela demorará a se tornar um tratamento de rotina. Suas
três doses custam 98 000 dólares. Isso porque seu processo de fabricação é complicado, visto que as CD54
a ser modificadas precisam ser retiradas de cada paciente.

Estudam-se vacinas terapêuticas para glioma, o tipo mais comum e letal de tumor de cérebro (que vitimou
o senador americano Ted Kennedy), melanoma e cânceres de pulmão e mama. Elas foram um dos assuntos
de maior destaque durante o 46º Congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco),
realizado há três semanas em Chicago, nos Estados Unidos. Um dos trabalhos que alvoroçaram os
participantes foi o da vacina ipilimumabe, contra o melanoma, do laboratório Bristol-Myers Squibb. Os
últimos resultados mostraram que a ipilimumabe pode dobrar a expectativa de vida de pacientes vítimas
da doença em estágios avançados. Isso significa dois anos a mais, em média, em comparação com os
doentes submetidos a tratamentos convencionais. A vacina contra o glioma, batizada pelo laboratório
Pfizer de CDX-110, impediu a progressão da doença por, em média, cinco meses. Vale repetir: por
enquanto, o grande mérito de tais vacinas, muito mais do que o aumento da sobrevida em si, é a
comprovação de que a imunoterapia é um caminho viável na luta contra o câncer.

Além das vacinas, existem 295 novos medicamentos em estudo contra os mais diversos tipos de câncer –
o triplo em relação há dez anos. Eles são quimioterápicos e, em grande parte, pertencem ao grupo das
terapias-alvo – que impedem a proliferação das células tumorais, sem afetar as células saudáveis. Com
esse mecanismo, reduzem-se enormemente os efeitos colaterais. Os primeiros remédios dessa classe
surgiram no início dos anos 2000. Entre os mais utilizados estão o Avastin (contra os tumores de intestino,
mama e rim), o Erbitux (intestino), o MabThera (linfoma), o Herceptin (mama), o Nexavar (fígado e rim)
e o Sutent (rim).

Com o aprimoramento da análise genética dos tumores, tais medicamentos da terapia-alvo são o primeiro
passo rumo ao tratamento individualizado – um sonho dos oncologistas, visto que, não bastasse haver 802
tipos de neoplasia, tumores idênticos podem responder de formas diferentes a um mesmo procedimento.
Veja-se o caso do Erbitux. Em 2007, um ano depois de ter sido lançado, descobriu-se que os pacientes
com câncer de intestino em fase avançada portadores de uma mutação no gene KRAS, específica de
alguns tumores no órgão, não respondem ao medicamento. Quatro em cada dez doentes apresentam essa
alteração genética. Ou seja, ao abandonarem um tratamento ineficaz, eles não perdem tempo para tentar
buscar armas mais efetivas contra o seu problema. Na conferência em Chicago, foram apresentados
resultados de um estudo com o remédio crizotinib, contra câncer de pulmão. Fabricado pelo laboratório
Pfizer, ele está na fase dois de pesquisa, aquela que atesta a eficácia e a segurança do produto. O novo
medicamento destina-se a pacientes cujo tumor possui uma mutação no gene ALK. Diz o oncologista
Paulo Hoff, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo: "A personalização dos tratamentos pode ser a peça
que faltava para entender esse quebra-cabeça complexo chamado câncer".

Jeff Ridel/Contourphotos.com/Getty A cura possível


Images Aos 25 anos, o ciclista Lance Armstrong era um dos
maiores campeões do seu esporte, quando foi
diagnosticado com câncer nos testículos A doença já
estava em fase avançada e havia atingido o cérebro, os
pulmões e a região abdominal. Armstrong, então,
passou por duas cirurgias: uma para a retirada de
tumores nos testículos e uma no cérebro. Além disso,
foi submetido a quatro meses de quimioterapia.
Pacientes como Armstrong, dez anos antes, não
sobreviveriam a esse quadro. A cura do ciclista se deve
em grande parte ao aperfeiçoamento das técnicas
cirúrgicas e à ação mais específica dos medicamentos
modernos – que, catorze anos depois, estão ainda mais
eficientes.
Curvas à vista
Em duas décadas, o corpo da mulher brasileira aumentou
em todas as direções: na média, ela tem mais busto,
mais quadril, mais cintura, mais altura e, sim, mais peso

Bel Moherdaui e Cristiane Sinatura

Fotos Roberto Loffel e Nana Moraes/Boa Forma


EM EXPANSÃO
Na década de 80, Luciana Vendramini, pequena, magrinha
e com medidas exíguas, era musa. Hoje, Juliana Paes é a tal

Quando se pensa num padrão de beleza nos dias de hoje, pensa-se em Juliana Paes. A atriz fluminense de
31 anos (atualmente grávida de três meses), morena e curvilínea, mede a altura certa (1,70 metro), pesa os
quilos desejáveis (57) e registra a centimetragem perfeita (87 de busto, 67 de cintura, 98 de quadril) para
se encaixar na preferência nacional. Pois há vinte anos o padrão era bem outro – naquele tempo, Juliana
seria enorme. Na virada dos anos 80 para os 90, musa que era musa tinha corpinho de Luciana
Vendramini, o que se traduz em tudo menor: Luciana, hoje com 39 anos, lembra que nos seus áureos anos
tinha a menos que Juliana exatos 12 quilos, 10 centímetros de altura, 3 de busto, 7 de cintura e 11 de
quadril. E ainda se achava acima do ideal: "Quando eu era bailarina, enfaixava o peito para não aparecer
no colante. Até pensei em fazer plástica para reduzir um pouco, mas não tive coragem". As duas, ambas
lindas, retratam um avanço geral das medidas do corpo das brasileiras nas últimas duas décadas: pesquisa
do Instituto Gesser & Gesser, de Santa Catarina, especializado em estudos antropométricos, feita
inicialmente com 28 000 mulheres de todas as capitais e repetida a cada seis anos com 10% desse total,
aponta que de 1982 a 2006 a brasileira adulta ganhou, em média, 3 centímetros de altura, 4 de busto, 9 de
cintura, 4 de quadril e 6 quilos.

Quem trabalha no ramo de cobrir (agora, com mais tecido) o corpo feminino tem acompanhado de perto a
ampliação. "Quando pego um modelo de biquíni antigo no nosso acervo, fico surpresa. Como aquilo
servia em alguém?", pergunta Suede Batista Silva, há mais de vinte anos modelista da linha praia da marca
Rosa Chá. "O que mais mudou foi o sutiã do biquíni: o P de hoje é o M antigo", acrescenta. A constatação
se repete na linha de lingeries da Valisère. "Começamos a receber comentários de que os sutiãs estavam
apertando nas costas e, há três anos, resolvemos aumentá-los em um centímetro. O mesmo foi feito com as
calcinhas, por um aumento sutil do quadril", confirma Michele Liu, gerente de marketing da empresa. Nos
24 anos que a pesquisa cobre, o busto médio passou de 90 para 94 centímetros, o quadril, de 98 para 102
centímetros, e a cintura, de 69 para surpreendentes 78 centímetros. "Sempre trabalhamos com uma tabela
padrão de tamanhos de cinto, mas nos últimos anos recebemos tantos pedidos de aumento no
comprimento que parte da produção ganhou cinco centímetros a mais", diz Claudete Syhva, da área de
pesquisa e desenvolvimento da Arezzo. Neste caso, o alargamento se explica, em parte, pela cintura menos
fina, e em parte pelo reposicionamento dela: nas roupas, foi ficando cada vez mais baixa.

"O aumento de medidas é consequência do aumento de peso da população, especialmente no caso da


cintura, que é onde a mulher tende a acumular mais gordura", explica João Carlos Bouzas Marins,
professor de educação física e fisiologia do exercício da Universidade Federal de Viçosa (UFV). "Temos
dois componentes para explicar o crescimento: uma redução da atividade física e um aumento da ingestão
calórica. Mas eu acredito que seja muito mais uma questão do aumento da oferta de alimentos muito ricos
em energia", analisa o professor Luiz Antonio dos Anjos, coordenador do laboratório de avaliação
nutricional e funcional da Universidade Federal Fluminense. Nem tudo, porém, é questão de comer mais e
se exercitar menos. No caso da expansão mamária, o maior responsável é o silicone. "Por muitos anos, a
segunda cirurgia plástica realizada com mais frequência no Brasil, depois da lipoaspiração, foi a de mama
– muito mais para reduzir do que para aumentar. Agora, isso mudou: o primeiro lugar entre todas as
cirurgias plásticas passou a ser a de colocação de próteses", relata o mastologista e cirurgião plástico João
Carlos Sampaio Góes. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, das 629 000 cirurgias
plásticas realizadas em 2008, 151 000 foram de mama, das quais 74% para colocação de próteses de
silicone. "Há vinte anos, 20% das plásticas de mama que eu fazia eram para colocação de prótese. Hoje,
são 80%. Naquela época, só colocava prótese quem precisava de uma reconstrução ou tinha uma
necessidade imperativa. As indicações eram extremas. Agora são muito mais elásticas, até porque a
técnica está muito mais desenvolvida", diz Sampaio Góes. Também o tamanho das próteses se ampliou,
dos 180 mililitros comuns há dez anos, para cerca de 280 hoje, um desenvolvimento que enche os olhos de
todos na praia, na casa do Big Brother Brasil e, sobretudo, no Carnaval. "Aumentaram o volume da coxa,
do bumbum, do peito, da panturrilha. Temos mais espaço para trabalhar", comemora Carlos Barzellai,
estilista responsável por muitas das elaboradas fantasias das madrinhas de bateria na Sapucaí.

Lailson Santos
Fonte: Instituto Gesser & Gesser
Você quer envelhecer ...
Quem pode e gosta de cuidar da aparência consegue
cruzar os 60 muito bem – desde que respeite seus limites

Silvia Rogar

...assim

... assim ...ou assim?

MAIS OU MENOS LISO


Variações sobre o bisturi: Brigitte, que nunca usou, Ursula, que usou demais,
e Helen, que fez a coisa certa

Fotos Thierry Orban/Abaga Press, Dominique Charriau/Getty Images e Enzo


Fornino/LFI

Cada vez mais precisa, sutil e natural, a cirurgia plástica anti-envelhecimento tornou-se recurso
indispensável para quem vive da boa aparência ou simplesmente gosta de esconder a idade que tem e
dispõe dos recursos para isso. Aliada a cremes e procedimentos estéticos cada vez mais sofisticados, a
mulher que já passou dos 60 pode muito bem continuar bonita, viçosa e elegante – com certo empenho,
claro, mas pode. O mais difícil mesmo, a essa altura da vida, é achar o perfeito equilíbrio entre, de um
lado, não fazer nada e ficar velha – opção de Brigitte Bardot, a beldade francesa que hoje, aos 75 anos,
expõe todas as rugas e manchas de quem não passou pelo bisturi – e, de outro, fazer tudo e virar outra
pessoa – a triste escolha de Ursula Andress, beleza fulgurante que embasbacou James Bond e que agora,
aos 74 anos, causa espanto por motivos bem diversos. Encontrar um meio-termo, ou seja, recorrer às
providências disponíveis sem mudar de expressão, é fato raro e louvável; palmas, portanto, para a inglesa
Helen Mirren, que aos 64 anos muito bem vividos não mostra a idade que tem, nem pretende mostrar uma
idade que há muito tempo não tem. "Da mesma forma que a maneira de se vestir fica mais discreta com a
idade, as intervenções na face têm de ser mais sutis. Senão, podem ser tão perigosas quanto sair de
minissaia ou barriga de fora aos 70 anos", compara a chefe da equipe de cirurgia plástica da Clínica Ivo
Pitanguy, Bárbara Machado.

O maior risco, para a mulher que acumula plástica em cima de plástica e procedimento atrás de
procedimento, é aos poucos ir se concentrando nos detalhes, perdendo a visão do conjunto (veja o quadro
abaixo. "Quando as maçãs estão murchas, ela só presta atenção naquela parte e exagera no volume. Ou,
tipicamente, extrapola no tamanho dos lábios. Se o médico sugere alguma alteração, porque o conjunto
fica grotesco, ela resiste", diz o cirurgião plástico Volney Pitombo. Na opinião dos médicos, existe uma
cota máxima para o estica e puxa ao longo da vida. Em nome de certa naturalidade, eles não recomendam
mais do que três liftings, com intervalos de dez anos entre cada um. Quem começou aos 40 e repetiu a
dose aos 50 terá, no máximo, uma única chance nas décadas seguintes. Nas pálpebras, alvo preferencial
das fãs da plástica ("Só uma puxadinha de nada"), recomenda-se mexer com cautela. "Em casos extremos,
quando se tira pele demais, a mulher dorme com os olhos praticamente abertos", adverte Bárbara.
Especialistas apresentados a fotos de Helen Mirren são unânimes em elogiar seu lifting (sim, ela
evidentemente fez um, ou mais de um), que resultou num
pescoço rejuvenescido e na linha da mandíbula bem definida Chris Pizzello/AP
– coisa que nem genética privilegiada, nem terapias com laser
e cremes poderosos proporcionariam na idade que tem.
"Apesar de ter um pouco de rugas na região dos olhos, as
bolsas em torno deles foram muito bem retiradas. E o melhor:
existe harmonia entre colo e face. Os dois estão com a pele
num estado muito similar", analisa o cirurgião Paulo Müller,
do Rio de Janeiro. Além disso, Helen sabe realçar o que tem
de melhor, valorizando com cores fortes os lábios – cheios na
medida certa – e não usando tons escuros nos olhos, o que
pode deixar a expressão mais pesada.

Outro aviso dos especialistas a quem já cruzou a linha dos 60:


Botox e preenchimentos deixam de fazer milagres. A toxina
botulínica tem efeitos limitados numa musculatura sujeita a
décadas de estresse, e a injeção em excesso do produto resulta
em uma aparência artificial, paralisada, sem expressão. Um
rosto assim de Ursula Andress, com sua testa lisa como a de
um bebê e ainda por cima gigantesca, sinal da tração de
plásticas consecutivas, e seus lábios na medida de Angelina
Jolie – nada que lembre a primeira e inimitável Bond Girl
saindo do mar, de biquíni, em 007 Contra o Satânico Dr. No.

BARBIE AOS 69
Raquel: postura de quem gosta
do que vê no espelho
"O preenchimento a que Ursula se submeteu é incompatível com sua faixa etária, principalmente porque
ela tem papada e um contorno feio da mandíbula", diz Paulo Müller. Bárbara acrescenta: "Uma testa como
essa deveria passar por um implante de cabelos. Tiraria um pouco do estigma das plásticas". Em faixa
semelhante de idade, Raquel Welch, 70 anos em setembro, também se reformulou ao longo dos anos, mas
com muito mais critério e atenção às proporções. Jura de pezinhos juntos que nunca fez plástica. "Cirurgia
não funciona. Indispensável é um programa de exercícios. Faço ginástica todo dia", informa aos
descrentes. Rosto lisinho, pele sedosa, cabelo bem cuidado, dentes revestidos de porcelana, ela parece uma
mocinha, e se mostra muito satisfeita com essa improvável condição. "Raquel se comporta como a maioria
das mulheres que está satisfeita com o próprio visual: eleva o queixo e o nariz e tem uma postura mais
atrevida. Postura, aliás, é fundamental. As que não toleram o envelhecimento adotam uma atitude mais
acanhada e evitam muitas expressões faciais", aponta Paulo Müller. Solenemente indiferente a toda essa
movimentação, Brigitte Bardot, bem resolvida e irreconhecível ativista na defesa dos animais, mostra a
idade a quem quiser ver. Ainda bem, porque, se um dia acordasse mais preocupada com as rugas do que
com a pele de raposas e chinchilas, o bisturi não conseguiria fazer muito. "O resultado nunca seria tão
bom quanto o de uma plástica feita aos 50 anos. Na idade dela, não é possível remover tanta flacidez, e
certas características não podem mais ser recuperadas", diz a cirurgiã Bárbara.
Educação

Aula cronometrada
Com um método já aplicado em países de bom ensino,
o Brasil começa a investigar o dia a dia nas escolas

Roberta de Abreu Lima

Fotos Eduardo Martino/Documentography e Istockphoto/RF

Controle do tempo
Escola municipal no Rio de Janeiro: os cronômetros vão ajudar a entender as causas da
evidente ineficácia na sala de aula

As avaliações oficiais para medir o nível do ensino no Brasil têm se prestado bem ao propósito de lançar
luz sobre os grandes problemas da educação – mas não fornecem resposta a uma questão básica, que se
faz necessária diante da sucessão de resultados tão ruins: por que, afinal, as aulas não funcionam? Muito já
se fala disso com base em impressões e teoria, mas só agora o dia a dia de escolas brasileiras começa a ser
descortinado por meio de um rigoroso método científico, tal como ocorre em países de melhor ensino.
Munidos de cronômetros, os especialistas se plantam no fundo da sala não apenas para observar, mas
também para registrar, sistematicamente, como o tempo de aula é despendido. Tais profissionais, em geral
das próprias redes de ensino, já percorreram 400 escolas públicas no país, entre Minas Gerais,
Pernambuco e Rio de Janeiro. Em Minas, primeiro estado a adotar o método, em 2009, os cronômetros
expuseram um fato espantoso: com aulas monótonas baseadas na velha lousa, um terço do tempo se esvai
com a indisciplina e a desatenção dos alunos. Equivale a 56 dias inteiros perdidos num só ano letivo.

Já está provado que a investigação contínua sobre o que acontece na sala de aula guarda relação direta
com o progresso acadêmico. Ocorre, antes de tudo, porque tal acompanhamento permite mapear as boas
práticas, nas quais os professores devem se mirar – e ainda escancara os problemas sob uma ótica bastante
realista. Resume a especialista Maria Helena Guimarães: "Monitorar a sala de aula é um avanço, à medida
que ajuda a entender, na minúcia, as razões para a ineficácia". Não é de hoje que países da OCDE
(organização que reúne os mais ricos) investem nessas incursões à escola. Os americanos chegam a filmar
as aulas. O material é até submetido aos professores, que são confrontados com suas falhas e insucessos.
Das visitas que fez a escolas nos Estados Unidos, o pedagogo Doug Lemov depreendeu algo que a breve
experiência brasileira já sinaliza: "Os professores perdem tempo demais com assuntos irrelevantes e se
revelam incapazes de atrair a atenção de alunos repletos de estímulos e inseridos na era digital".

Numa manifestação de flagrante corporativismo, os professores brasileiros chegaram a se insurgir contra a


presença dos avaliadores dentro da sala de aula. Em Pernambuco, o sindicato rotulou a prática de
"patrulhamento" e "repressão". Note-se que são os próprios professores que preferem passar ao largo
daquilo que a experiência – e agora as pesquisas – prova ser crucial: conhecer a fundo a sala de aula.
Treinados pelo Banco Mundial, os técnicos já se puseram a colher informações valiosas. Afirma a
secretária de educação do Rio de Janeiro, Claudia Costin: "Pode-se dizer que o cruzamento das avaliações
oficiais com um panorama tão detalhado da sala de aula revelará nossas fragilidades como nunca antes".
Nesse sentido, os cronômetros são um necessário passo para o Brasil deixar a zona do mau ensino.

Negócios

Ouro express
Empresa alemã lança as primeiras máquinas
de vender barras de ouro do mundo, tirando
proveito da onda de valorização do metal

Larissa Tsuboi

Fotos Mosab Omar/Reuters e divulgação

É SÓ PASSAR O CARTÃO
A máquina das barras de ouro, para presentear ou investir

Uma empresa alemã pôs em operação as primeiras máquinas de vender ouro do planeta. Elas são similares
às tradicionais máquinas de bebidas, doces e salgadinhos. Em vez de latas de refrigerante, no entanto, é
possível comprar barrinhas de ouro puro. A ideia, que a princípio parece absurda, foi posta em prática no
luxuoso hotel Emirates Palace, em Abu Dhabi, e no aeroporto de Frankfurt, os dois primeiros pontos a
ganhar máquinas GOLD to Go. Há dez opções de barras e moedas, que vão de 1 grama até 1 onça troy
(medida equivalente a 31,1g). Pode-se pagar com dinheiro ou cartão de crédito, e o valor é ajustado a cada
dez minutos, de acordo com as oscilações da cotação do metal nos mercados internacionais. Nas
máquinas, há um ágio de 30% nos preços. A barra maior, de 1 onça troy, custa aproximadamente 2 900
reais. "Queremos popularizar o comércio legal do ouro", afirmou Thomas Geissler, presidente da Ex
Oriente Lux, dona da GOLD to Go. A empresa alemã pretende instalar as máquinas em outras 500
localidades até o fim deste ano, incluindo estações de trem, shopping centers e aeroportos da Alemanha,
Suíça, Áustria e Inglaterra.

Desde o estouro da crise financeira global, em 2008, as cotações do ouro têm batido recordes em todo o
mundo. Sempre que existe um clima de incerteza e desconfiança com relação ao poder de compra de uma
moeda, os investidores procuram ativos que sirvam de reserva de valor. O ouro, historicamente, cumpre
esse papel. André Luiz Nunes, presidente do Grupo Fitta, empresa que negocia moedas e ouro no Brasil,
acredita que os europeus e os americanos estejam passando por um momento de descrença nas instituições
financeiras de seus países, semelhante ao que ocorreu no Brasil nos anos 80. Com a inflação alta e a
rentabilidade ínfima da poupança, os brasileiros correram para comprar dólares, imóveis e ouro, tentando
manter o poder de compra de suas reservas pessoais. "Ao verem instituições financeiras ir à lona, como o
Lehman Brothers, é natural que os poupadores tenham receio em depositar todas as suas economias nos
bancos", afirma Nunes. Deixar o dinheiro guardado embaixo do colchão também não é uma alternativa
das mais sensatas. Com o tempo, a inflação corrói o poder de compra da moeda.

O ouro, assim, tende a atrair compradores pela segurança que ele oferece em momentos de turbulências
econômicas, políticas e bélicas. Por isso é chamado de ativo contracíclico: enquanto tudo vai bem, seu
preço recua, mas, quando o mundo está à beira de um colapso, os olhos do mercado se voltam para ele.
Porém, para os pequenos investidores, não é tão fácil comprar ouro com certificado de procedência e em
pequenas quantidades. Daí a ideia da empresa alemã de lançar as máquinas GOLD to Go. Não se imagina
que uma dessas máquinas seja instalada no Brasil. Aqui, os pequenos investidores interessados em aplicar
no metal devem procurar instituições financeiras credenciadas, que vendem ouro certificado. As barrinhas
podem ser usadas para presentear pessoas queridas, além de servir como alternativa para diversificar os
investimentos. Mas o professor de finanças Liao Yu Chieh, do Insper, adverte que a valorização recente do
metal não deve iludir os investidores: "Ainda há pouca liquidez nos negócios com o ouro. Quando tentar
revender as barras, o investidor poderá ter dificuldades para comercializar o metal ou conseguirá um preço
aquém do que seria justo".

Investir em ouro pode até não ser ótimo negócio. Mas namorada nenhuma no mundo vai reclamar se
ganhar uma dessas barrinhas de presente.
A cidade dos espíritos
Uberaba tem mais centros kardecistas do que igrejas católicas.
Eles atraem multidões de visitantes em busca da comunicação
com entes queridos que estão no além

Alexandre Salvador, de Uberaba

Fotos Manoel Marques

Turismo das almas


O médium Celso de Almeida Afonso (à esq.) psicografa uma mensagem por meio
de garranchos (abaixo). Ele é um dos sucessores de Chico Xavier, cuja imagem ilustra
um outdoor (à dir.) que saúda os visitantes na entrada da cidade
O Brasil é a nação com o maior número de seguidores do espiritismo, a doutrina criada no século XIX por
Allan Kardec, pseudônimo do francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, e cuja característica mais
divulgada é a possibilidade de comunicação direta entre vivos e mortos. O país tem 2,2 milhões de
espíritas declarados, segundo o último censo do IBGE, e outros 18 milhões de simpatizantes, de acordo
com a Federação Espírita Brasileira (FEB). Nesse contexto, Uberaba, no interior de Minas Gerais,
localizada a 480 quilômetros de Belo Horizonte, pode ser considerada a capital mundial do espiritismo. A
cidade, com 290 000 habitantes, conta com mais de 100 centros kardecistas, contra apenas 54 igrejas
católicas. A razão pela qual o espiritismo criou raízes tão profundas em Uberaba é o legado do médium
Francisco de Paula Cândido Xavier. Chico Xavier se mudou para Uberaba em 1959 e viveu na cidade até
morrer, em junho de 2002. Antes de ele se instalar ali, o número de centros kardecistas não chegava a dez.

Ao longo de sua doutrinação, Chico Xavier "escreveu" 412 livros ditados, segundo ele, por espíritos do
além. No jargão espírita, são obras "psicografadas". Os primeiros deles eram de poesia, assinados, entre
outros, pelo poeta parnasiano Olavo Bilac e pelo naturalista Augusto dos Anjos. Depois, suas obras
passaram a divulgar a doutrina kardecista. Chico Xavier afirmava receber vários espíritos. Um dos que
mais impressionavam suas plateias era o do médico cearense Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti, que
viveu no Rio de Janeiro no século XIX. Dizendo incorporá-lo, Chico receitava medicamentos – sempre
fitoterápicos, para não ser enquadrado em crime de charlatanismo – aos fiéis que o procuravam. Juntos, os
volumes escritos pelo médium venderam até hoje mais de 30 milhões de cópias. Sua biografia, As Vidas
de Chico Xavier, foi transformada em filme. Um novo longa será lançado em setembro e retratará a
história do livro Nosso Lar – seu maior best-seller, com 2 milhões de cópias vendidas. Mesmo após oito
anos de sua morte, a influência de Chico Xavier em Uberaba ainda é fortíssima e desperta a curiosidade de
milhares de turistas espirituais que visitam a cidade.

Enquanto o médium era vivo, as caravanas chegavam quase que diariamente à cidade. "Não menos de 1 
000 pessoas, todas as sextas e sábados", diz o filho adotivo de Chico, Eurípedes Higino dos Reis, que é
dentista, mas não exerce a profissão. Hoje, o movimento de fiéis é menor. Mesmo assim, Uberaba é
referência para aqueles que buscam pelos discípulos de Chico Xavier para estabelecer uma ponte com a
vida após a morte. Nos fins de semana, ônibus de visitantes circulam pela cidade à procura das sessões
públicas de psicografia. Quem vai aos centros espíritas quase sempre passou por grande trauma
envolvendo a morte. Perdeu de forma trágica ou inesperada um filho, os pais ou um irmão. No ritual, o
médium se comunica com esses parentes falecidos, recebe deles uma mensagem e a transcreve no papel.

Os procedimentos são bem parecidos em todos os centros. Os interessados em receber mensagens do


plano espiritual devem preencher uma ficha com dados básicos (nome, parentesco, data de nascimento e
de morte) da pessoa com quem desejam se comunicar. Em seguida, o médium se fecha numa sala, onde
analisa as fichas e tenta estabelecer contato com os espíritos dos mortos. Depois dessa seleção, senta-se
em frente à mesa, concentra-se e começa a psicografar. Em média, de cinco a seis cartas são escritas por
sessão. Enquanto ele preenche as páginas em branco – trabalho que demora uma hora e meia, para todas
as mensagens –, outros membros do centro discursam aos presentes sobre assuntos da fé e da
espiritualidade, com base em passagens dos livros kardecistas. Ao final da psicografia, o médium faz a
leitura pública das mensagens. Como os garranchos são incompreensíveis, a leitura é gravada.

O momento da leitura das cartas é, de longe, o mais emocionante da sessão. Em quase todas as
mensagens, os mortos se referem aos parentes vivos pelo nome. Em algumas, é descrita a causa ou a
situação em que o "remetente" morreu ou fornecida alguma informação que, supostamente, seria de
conhecimento apenas dos parentes. Esse é um ponto controverso. Nas sessões testemunhadas pela
reportagem de VEJA, o médium fez previamente uma pequena entrevista com o interessado em receber a
carta. "É um encontro muito rápido, não mais de um ou dois minutos. É um elemento de sintonia",
assegura o médium Carlos Antônio Baccelli, do Lar Espírita Pedro e Paulo, um dos mais visitados pelos
turistas. Baccelli afirma que Chico também tinha esse tipo de conversa preliminar.

Fé e assistencialismo
O médium Carlos Baccelli no Lar Espírita Pedro e Paulo, que serve
de asilo a idosos: mais de 100 livros publicados

Carlos Antônio Baccelli é considerado pelos fiéis que o procuram um dos principais sucessores de Chico
Xavier, inclusive nas atividades assistenciais. Ele administra um asilo com trinta idosos abandonados pela
família. Baccelli tem mais de 100 livros publicados. Segundo o médium, alguns foram escritos por
espíritos e psicografados por ele. Em outros, ele se assume como autor. Mais do que fornecer testemunhos
verossímeis de espíritos que se comunicam do além, as cartas têm a função de confortar os parentes dos
mortos. "É preciso que as pessoas leiam a mensagem com carinho e não tentem buscar aquilo que elas
desejam saber, mas sim ouvir o que a pessoa que está do outro lado pode dizer", comenta o paulista João
Roberto Rui dos Santos, que, logo na primeira visita a Uberaba, recebeu uma carta do filho morto em um
acidente automobilístico aos 18 anos. Santos já havia perdido outro filho, com apenas 3 meses de idade.
Ele admite que forneceu informações ao médium Celso de Almeida Afonso, do Centro Espírita Aurélio
Agostinho, mas não tem dúvida de que é seu filho que está se comunicando. "Antes mesmo de dizer
qualquer coisa, ele falou que meu avô Luiz está cuidando do meu filho. Eu não havia revelado esse
detalhe a ninguém", conta Santos.
Mensagens que confortam
João Roberto Rui dos Santos, a esposa, Carmen, e a filha Marina no Centro Aurélio
Agostinho
(à esq): emoção de receber uma carta do filho morto aos 18 anos. O ritual espírita inclui
passes
de energização (à dir.)

O Grupo Espírita da Prece, centro fundado por Chico Xavier em 1975 e onde o médium trabalhou até o
fim da vida, não realiza mais sessões de psicografia. A decisão de encerrar a comunicação escrita com o
além foi de Eurípedes Higino, que agora administra o centro espírita e as obras assistenciais criadas por
seu pai adotivo. "Ele me transmitiu essa missão. Ele me
chamava de ‘último dos moicanos’", diz Eurípedes. É ele
quem detém os direitos sobre a memória e o nome de
Chico Xavier. A exceção são as obras literárias: o médium
cedeu sua parte nos lucros às editoras que publicam seus
livros. Às quintas-feiras, a Casa Assistencial Chico
Xavier oferece um jantar a mais de 1 000 pessoas, além
de doar pão, leite, enxoval para crianças e fornecer
orientação médica e odontológica gratuita.

Para as obras assistenciais, Eurípedes conta


essencialmente com donativos, a maior parte vinda de um
grande empresário do ramo de borracha e plástico do Rio
Grande do Sul. Vale-se também da renda de uma pequena
livraria montada em frente à casa onde morava o médium.
O principal produto à venda são suvenires com a imagem
de Chico. Eurípedes atendeu a outro pedido do médium:
que abrisse as portas da casa onde morava e a
transformasse em um museu. O gesto quase causou o
tombamento do único imóvel herdado pelo filho adotivo.
Por isso, Eurípedes fez questão de pintar uma mensagem
bem terrena na fachada da casa: Casa de Memórias e
Saudade Chico Xavier – imóvel de minha propriedade. O herdeiro e o mentor
O filho adotivo de Chico Xavier, Eurípedes
Higino dos Reis, na casa em que viveu o
médium: controvérsia ao desmentir que
o espírito do pai já tenha se manifestado.
O médico cearense do século XIX Bezerra
de Menezes (ao lado) receitava remédios
por intermédio de Chico
Eurípedes é uma figura controversa em Uberaba. Nos últimos anos de vida de seu pai, atuava como uma
espécie de empresário do médium. Controlava o acesso a ele e escolhia quem podia vê-lo. Depois da
morte de Chico, envolveu-se em polêmicas a respeito da autoria de mensagens e até livros atribuídos ao
espírito de Chico Xavier. Essas mensagens foram recebidas por vários médiuns do país, inclusive Celso de
Almeida e Carlos Baccelli, ambos de Uberaba. Eurípedes nega que seu pai tenha se comunicado com o
mundo dos vivos após a morte. "Há mais de 200 mensagens atribuídas a ele, todas falsas", diz.

O que faz o filho adotivo de Chico ter tanta certeza de que as mensagens são apócrifas é o pacto que
celebrou com o pai antes de ele morrer. O médium determinou que qualquer mensagem que enviasse ao
mundo terreno conteria determinado código. O médico particular de Chico, que coincidentemente tem o
mesmo nome do filho, Eurípedes Tahan, e uma amiga, Kátia Maria, são testemunhas desse pacto. Como
nenhuma das mensagens carrega o tal código, o filho de Chico as rechaça. A questão do código é posta em
dúvida por muitos seguidores do espiritismo. Segundo eles, citando os escritos de Allan Kardec, espíritos
superiores, como seria o caso de Chico Xavier, não emitem sinais em códigos. O autor francês, na obra O
Livro dos Médiuns, diz que eles se fazem reconhecer apenas pela superioridade de suas ideias. A principal
atividade econômica de Uberaba é a pecuária. A cidade abriga uma exposição permanente de gado, a
Expozebu. Fora isso, é pacata e não apresenta grandes atrativos turísticos. Por isso mesmo, a prefeitura e o
comércio local incentivam o espiritismo. Out-doors com a imagem de Chico Xavier saúdam os visitantes
que chegam em busca de conforto espiritual por meio do contato com o além. Para esses forasteiros,
Uberaba é a cidade dos espíritos.

Arquitetura

O criador dos prédios espetaculares


Ninguém passa incólume pelos edifícios do espanhol
Santiago Calatrava. Sua mais recente criação é um
museu no Rio de Janeiro

Marcelo Bortoloti e Silvia Rogar

Fotos Massimo Borchi/Corbis/Latin Stock e David Brabyn/Latin Stock


O arquiteto e sua obra
Calatrava (à dir.) e o complexo cultural que ergueu em Valência, sua cidade natal:
transformação da paisagem

Expoente da chamada arquitetura-espetáculo com seus prédios de vidro e aço que lembram verdadeiras
esculturas gigantes, o espanhol Santiago Calatrava, 58 anos, isolou-se dois meses atrás num chalé
encravado nos Alpes suíços para debruçar-se sobre seu mais novo e ambicioso projeto: o edifício que, em
2012, abrigará um museu dedicado à ciência e à tecnologia, no Rio de Janeiro. Depois de duas visitas à
cidade, mais de 200 desenhos e um disciplinado estudo sobre o movimento das plantas, Calatrava chegou
à forma estilizada de um caule recoberto por painéis de aço, que se abrem e fecham como pétalas. Pode-se
dizer que o prédio – cujo projeto será apresentado pelo próprio arquiteto na próxima segunda-feira, no Rio
(veja foto abaixo) – é uma boa síntese de sua obra. Ali, veem-se as grandes dimensões típicas de seus
edifícios, os traços inspirados na natureza e a estrutura em movimento, um efeito produzido com base em
cálculos milimétricos conduzidos pelo próprio Calatrava. No museu carioca, caberá a um sistema
hidráulico, controlado por um sofisticado programa de computador, fazer com que tais placas se
movimentem de modo que permaneçam mais tempo na direção do sol e em 90 graus. A ideia é que, assim,
elas absorvam a maior quantidade possível de energia para mover a engrenagem. Também engenheiro de
formação, Calatrava resume a VEJA: "Para mim, é justamente o rigor da engenharia que alça a arquitetura
a um patamar mais elevado".

Os edifícios que levam a assinatura do arquiteto espanhol têm em comum o fato de jamais se integrarem
harmonicamente à paisagem – ao contrário, eles sempre chocam. Sua obra está espalhada pela Europa,
Estados Unidos, Canadá e Argentina, onde Calatrava ergueu uma das mais engenhosas de suas quarenta
pontes. Debruçada sobre o Rio da Prata, em Buenos Aires, a estrutura foi projetada para girar em torno de
um único eixo fincado sob as águas, de maneira a abrir passagem para navios de grande porte. Entre seus
mais ousados trabalhos, figura o Museu de Arte de Milwaukee, nos Estados Unidos, que atrai atenção
pelos tubos de aço formando a silhueta de um pássaro cujas asas atingem 66 metros de comprimento. Num
discreto movimento, elas se posicionam ora para cima, ora para baixo. O mais impressionante conjunto de
autoria de Calatrava, no entanto, fica em Valência, sua cidade natal. Ali, ele ergueu um planetário em
formato de olho humano adornado com gigantescas pálpebras de aço em constante abre e fecha e ainda
uma ópera que lembra a cabeça de uma serpente (nem todo mundo gosta, mas não há como não parar para
ver). Diz-se na Espanha que Calatrava representa para Valência o mesmo que o catalão Antonio Gaudí
significou para Barcelona, no princípio do século XX. Diz Paulo Fonseca, professor da Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo: "Ambos deixaram marcas que hoje são
indissociáveis dessas cidades".
Obcecado pela arquitetura – a ponto de um de seus quatro filhos, Gabriel, um engenheiro de 27 anos com
quem ele trabalha, dizer que "meu pai não tem outro hobby na vida" –, Calatrava é dono de um processo
criativo singular. A começar pelo fato de seu ponto de partida não serem apenas desenhos, mas também
aquarelas, que ele produz às centenas com verdadeira ambição artística, até chegar à forma final. Para se
ter uma ideia, a cada projeto Calatrava chega a publicar um novo livro com seus esboços. Outra de suas
particularidades diz respeito a um apreço fora do comum por maquetes – tanto que ele mantém uma
fábrica na Suíça, onde um grupo de engenheiros especializados desenvolve modelos de até 2 metros de
altura que simulam em miniatura todas as engrenagens concebidas para os edifícios. Ao referir-se ao
próprio processo de criação, Calatrava gosta de citar o escultor francês Auguste Rodin (1840-1917):
"Inspiração é algo que não existe". Vaidoso, ele guarda seus 100 000 desenhos (até os esboços mais
rudimentares) e 500 maquetes em suas três residências – em Valência, Zurique e Nova York, onde passa
mais tempo. Ali, ocupa com os filhos e a mulher, a advogada sueca Tina Marangoni, 57 anos, três casas
geminadas na elegante Park Avenue. À frente de uma equipe de 100 funcionários, é Calatrava quem dá a
palavra final sobre tudo. "Meu marido é um centralizador", define Tina.

A arquitetura-espetáculo representada por ele não compõe exatamente uma nova corrente – tais são as
diferenças de estilo entre seus mais proeminentes nomes, como o americano Frank Gehry (autor do Museu
de Bilbao) e o holandês Rem Koolhaas (do Museu Gug-genheim de Las Vegas). Suas obras, no entanto,
guardam uma notável semelhança: amparadas por programas de computador e técnicas de construção que
permitem edificar prédios em formatos tão ousados que parecem desafiar as leis da física, elas sempre
provocam uma transformação radical no cenário. "Pela liberdade extrema dos traços, é uma arquitetura
que se aproxima muito do design", diz Mônica Junqueira, doutora em história da arquitetura. Caso
exemplar desse conceito é o edifício Turning Torso, na cidade sueca de Malmö, assinado por Calatrava.
Trata-se de um espigão residencial de 54 andares que imita um tronco humano retorcido até 90 graus
(ideia que surgiu a partir de uma escultura feita pelo arquiteto dez anos antes). Não raro, Calatrava é alvo
de críticos que o acusam de repetir-se nas fórmulas – só de prédios com estruturas em formato de asa,
criou três. Ele e seus colegas também são frequentemente atacados com argumentos como o do crítico
americano Kenneth Frampton, professor da Universidade Colúmbia. Em seus artigos, Frampton afirma
que o exagero gratuito nas formas por vezes compromete a funcionalidade, quando não o bom gosto.

Apreciem-se ou não, os prédios-esculturas têm se prestado à função de lançar luz sobre áreas decadentes e
abandonadas – sendo às vezes decisivos na sua revitalização. Foi com o Museu Guggenheim, por
exemplo, que a cinzenta e sem graça cidade de Bilbao, na Espanha, se tornou um fervilhante polo
turístico. Em Lisboa, Calatrava deixou como legado a monumental Estação do Oriente, cuja cobertura está
equilibrada sobre curiosas colunas que se assemelham a palmeiras. Quando surgiu, em 1998, a construção
chamou atenção para uma área industrial até então degradada, ajudando a atrair para lá novos prédios
residenciais e hotéis. Outro terminal concebido por Calatrava, este para a região onde ficava o World
Trade Center, em Nova York, inclui um teto que tem a pretensão de imitar, por meio de enormes estruturas
de aço, as mãos de uma criança segurando uma pomba – projeto que deve ser inaugurado em 2014 e que o
espanhol apresentou tal como um show, fazendo vários rabiscos diante de uma plateia espantada. Seu
museu para o Rio de Janeiro, uma parceria entre a prefeitura e a Fundação Roberto Marinho, surgiu como
peça-chave de um ambicioso projeto de revitalização da empobrecida região do porto, prometida até a
Olimpíada de 2016. A expectativa é que o gigantesco caule de vidro e aço debruçado sobre a Baía de
Guanabara, de autoria de Calatrava, ajude a resgatar uma área que, antes próspera, é hoje um símbolo de
decadência.

Fernando Alda/Corbis/Latin Stock


Edifício em movimento
O projeto do Museu do Amanhã (abaixo), que será erguido no Rio de Janeiro até 2012, é uma
boa síntese da obra de Calatrava. Ali, veem-se as grandes dimensões típicas de seus prédios,
estruturas em constante movimento e o desenho inspirado em formas da natureza – neste
caso, o caule de uma planta, segundo ele. lá funcionará um museu dedicado à ciência e à
tecnologia, orçado em 130 milhões de reais, em que o visitante terá experiências como um
passeio virtual pelo universo e até pelas estruturas de uma célula.

Fotos Joseph Sohm/Corbis/Latin Stock e Divulgação

Gigantes de aço
O museu de Milwaukee, nos Estados Unidos (à esq.), e a ponte Alamillo,
em Sevilha (à dir.): junção da engenharia com a arquitetura.

Para não perder a calma


Aeroportos congestionados, filas intermináveis
no check-in e voos superlotados.

Anna Paula Buchalla


abuchalla@abril.com.br

Essa é a realidade dos brasileiros que vão viajar nas férias de julho – e, em particular, da maioria que voa
na classe econômica. Mas há algumas medidas que agilizam o embarque (elas são especialmente úteis
para quem viaja aos Estados Unidos), minimizam o transtorno das filas e até evitam prejuízos. VEJA
ouviu comissários de bordo e especialistas em viagens sobre a melhor forma de garantir um embarque
tranquilo.

Shutterstock

Problema: o passageiro acha que tem só um item de bagagem de mão – mas


desconsidera a bolsa, o casaco, as sacolinhas de compras feitas no duty free...

recomendação: compacte ao máximo a bagagem de mão em um volume apenas e


deixe espaço livre nela para acomodar uma ou outra sacolinha. Embarcar com
muitos itens é complicado e ainda incomoda os outros passageiros. Os voos andam
com lotação de 100% – e os maleiros da cabine, por consequência, também. Nos
voos domésticos, a soma das dimensões (altura, largura e comprimento) não deve
ser superior a 115 centímetros e o peso não pode exceder 5 quilos. Nos voos internacionais, cada
companhia aérea possui uma norma para bagagem de mão – pode variar de 5 (TAM) a 18 quilos
(American Airlines). Pese as malas em casa. Isso evitará gastos com excesso de bagagem ou o
constrangimento de ter de passar itens de uma mala para outra no saguão do aeroporto

Divulgação

Problema: como acondicionar laptop e outros eletrônicos que precisam


ser removidos da bagagem de mão para passar pelo aparelho de raio X –
nos aeroportos americanos, a segurança manda para um "chiqueirinho" e
submete a revista quem desobedece à regra

Recomendação: reserve, na maleta, um espaço do qual o laptop possa ser


tirado e então reacomodado sem rearranjos nem obstruções. Ainda mais
fácil: hoje existem maletas especiais, autorizadas pelas polícias federais
estrangeiras, que dispensam a remoção do laptop. Em geral, esses modelos
não têm nenhum zíper, botão, fivela de metal ou bolso. Nenhum outro
objeto, além do notebook, deve ser guardado na maleta

Andy Caulfield/Getty
Images
Problema: o passageiro chega ao aeroporto e descobre que seu voo está
superlotado, atrasado ou foi cancelado pela companhia aérea
Recomendação: reclame e não deixe barato. Desde o dia 13, uma resolução da Agência Nacional de
Aviação Civil (Anac) determina que, quando o cliente solicitar, as empresas deverão reembolsar
imediatamente o valor da passagem e da taxa de embarque. A regra vale para overbooking, cancelamento
ou atraso superior a quatro horas. Antes, as companhias tinham até trinta dias para efetuar o pagamento.
Após duas horas de espera, o passageiro também passa a ter direito a alimentação adequada e proporcional
ao tempo de espera até o embarque

Problema: o passageiro chega ao


Simon aeroporto e descobre que seu voo
Marcus/Corbis/Latinstock está superlotado, atrasado ou foi
cancelado pela companhia aérea Alan Shein/Corbis/Latinstock

Recomendação: reclame e não


deixe barato. Desde o dia 13, uma
resolução da Agência Nacional de
Aviação Civil (Anac) determina
que, quando o cliente solicitar, as
empresas deverão reembolsar
imediatamente o valor da
passagem e da taxa de embarque.
A regra vale para overbooking,
cancelamento ou atraso superior a
quatro horas. Antes, as
companhias tinham até trinta dias
para efetuar o pagamento. Após
duas horas de espera, o passageiro
também passa a ter direito a
alimentação adequada e
proporcional ao tempo de espera
até o embarque

Problema: a mala é aberta pelos fiscais depois de passar pelo raio X e, embora não tenha sido
apreendida, viaja praticamente aberta até seu destino

Recomendação: para viagens aos Estados Unidos, onde a mala despachada pode ser inspecionada por
agentes federais, prefira cadeados com segredo TSA (sigla para transportation security administration, ou
administração de segurança nos transportes). Eles podem ser abertos com uma chave mestra e travados
novamente pelos agentes sem ser danificados. Os modelos que não estão de acordo com as normas da
TSA correm o risco de ser destruídos e inutilizados pelos seguranças que farão a inspeção
Alan Shein/Corbis/Latinstock

Problema: ainda que se chegue ao aeroporto com três


horas de antecedência, a fila do check-in é extensa e há
sempre o risco de perder o horário do embarque

Recomendação: é possível fazer um embarque mais


rápido. Há, por exemplo, o check-in antecipado: ele pode
ser feito via internet, celular ou totens de autoatendimento
espalhados pelos aeroportos. Ainda que seja preciso ficar
na fila para despachar a bagagem, o processo no balcão de
atendimento é bem mais rápido. Outra opção: algumas
companhias, como a TAM, retiram as malas em casa e as
entregam no destino. Por enquanto, o serviço vale somente para voos nacionais e custa entre
50 e 100 reais, de acordo com o peso da mala

O corpo reclama
Os voos de longa duração afetam vários aspectos da saúde.
Especialistas ensinam aqui como evitar os contratempos mais
comuns.

Pele ressecada

O que acontece: o ar frio e seco faz com que as


glândulas sebáceas diminuam a produção de óleo na
superfície da pele, deixando-a ressecada

O que fazer: para o rosto, use cremes ou loções cremosas


à base de óleos naturais (como o de maracujá), glicerina e
vitaminas, como C e E. "Evite o uso de batons. Em geral, eles têm substâncias que retiram um pouco da
umidade da pele", explica a dermatologista Denise Steiner. A água termal é indicada para equilibrar o pH
da pele

O que evitar: suspenda o uso de cremes com ácidos quatro dias antes da viagem. Eles deixam a pele mais
sensível
Cabelos arrepiados

O que acontece: com a pressurização da cabine do avião, os cabelos apresentam maior reação
eletrostática, o que acentua o arrepiado

O que fazer: lave os fios antes de viajar e aplique um leave in ou Stockbyte/Getty Images
hidratante noturno sem enxágue

O que evitar: na semana da viagem, não use colorações, que


ressecam ainda mais os fios

Olhos vermelhos

O que acontece: a baixa umidade do ar faz com que a lágrima,


que tem o papel de lubrificar os olhos, evapore mais rapidamente.
O resultado é uma sensação de ardência e vermelhidão

O que fazer: pingar colírio a cada duas horas. A recomendação para quem usa lentes de contato é retirá-
las antes do embarque. "Prefira os colírios com função lubrificante, que são levemente mais viscosos que a
água, contendo metilcelulose ou hipromelose na fórmula", diz Mário
Dorling Kindersley/Getty
Motta, presidente da Sociedade Brasileira de Oftalmologia
Images

Ardência no nariz

O que acontece: o ar seco da cabine provoca ardência nas narinas por


ressecar a mucosa nasal

O que fazer: umedecer as narinas com soro fisiológico. Duas borrifadas


de spray ou um medidor de conta-gotas para cada narina ajudam a diminuir o desconforto

Má circulação nas pernas

O que acontece: manter os joelhos dobrados por muito tempo prejudica o retorno do sangue venoso nos
membros inferiores. Inchaço, coceira, dores e sensação de peso nas pernas são as principais queixas

O que fazer: o ideal é levantar-se e andar por cinco minutos a cada hora para melhorar a circulação.
Quando não for possível se levantar, recorra a alguns exercícios simples. Com os pés apoiados no solo,
levante o calcanhar e volte a apoiá-lo no chão algumas vezes. Movimentos circulares com os pés também
amenizam o problema. Sapatos confortáveis e meias elásticas de média compressão até os joelhos são
essenciais em viagens longas. Elas são contraindicadas para portadores de insuficiência cardíaca ou
problemas arteriais e para quem tem infecções de pele, feridas, eczemas ou micoses
Os pequenos passageiros Ariel
Skelley/Corbis/Latinstock

É o drama dos pais de filhos pequenos: o que fazer para entretê-los


durante as longas horas de voo? A consultora Cecília Aflalo, da
Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq),
selecionou algumas atividades que costumam funcionar para a
maioria das crianças:

• de 1 a 4 anos
Revistas para desenhar e pintar, boneco ou boneca preferida da
criança, livros de histórias – tradicionais ou audiobooks – e DVD
portátil com desenhos animados

• de 4 a 7 anos
Além de se divertir com os itens acima, a criança pode se distrair
com revistas de passatempos e games portáteis

• a partir de 7 anos
Nessa fase, podem-se incluir sudoku, caça-palavras, forca, jogos de cartas, como trunfo, e
brincadeiras interativas que estimulam o vocabulário. Um exemplo: citar animais que começam
com a letra A. Mas baixinho, para que os passageiros à volta possam dormir...

J. R. Guzzo

Esse é o hino
"A letra do Hino Nacional talvez nem seja pior que a média
das letras dos hinos de outros países, em geral obcecadas
por sangue, morte, canhões, tiranias e outros horrores"
Se quatro em quatro anos, por ocasião das Copas do Mundo de futebol, milhões de pessoas pelo planeta
afora têm a oportunidade de entrar em contato com uma das melhores realizações que o Brasil já foi capaz
de pôr em pé – o Hino Nacional Brasileiro, tocado e transmitido globalmente antes do começo de cada
jogo. É sempre um momento de sucesso garantido junto ao público. O time, no campo, pode ir melhor ou
pior, mas o hino não falha nunca. Seus primeiros acordes já deixam claro para a plateia presente aos
estádios que ela vai ouvir, nos instantes que se seguem, música de primeira qualidade no gênero; dali para
a frente as coisas só melhoram. Ao se executar a última nota, todos os que prestaram atenção ao que
estavam ouvindo ficam com a impressão de ter recebido um brinde inesperado antes do jogo: em vez da
monotonia habitual dos hinos nacionais, em geral áridas arrumações de movimentos marciais que têm
como característica mais notável o fato de parecerem todas iguais umas às outras, o que se ouve é uma das
melodias mais vibrantes, calorosas e inspiradas que se podem escutar numa cerimônia oficial.

Não há um momento sequer de tédio no Hino Nacional; tudo ali é energia, emoção e vigor. Com quase
200 anos de vida, a peça composta por Francisco Manuel da Silva em 1822 mantém intactas até hoje todas
as qualidades que fizeram dela uma das composições mais bem-sucedidas na história da música brasileira.
Escrita originalmente em homenagem à Independência, e oficializada como Hino Nacional Brasileiro
após a proclamação da República, a obra de Francisco Manuel tem um longo histórico de aplausos. Louis
Gottschalk, o grande compositor americano do século XIX, que morreu no Brasil em 1869 e tinha entre
seus admiradores Chopin, Liszt e Berlioz, considerava-a um dos melhores momentos da criação musical
de sua época; em sua homenagem, escreveu a celebrada Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional
Brasileiro. É bom notar, também, que nas Copas do Mundo o Hino Nacional costuma ter competidores de
primeiríssima linha, como agora – a começar, por exemplo, pelo extraordinário Deutschland Über Alles, o
hino nacional da Alemanha, composto por ninguém menos que Joseph Haydn. Concorre, também, com
grandes clássicos como o God Save the Queen, o hino não oficial da Inglaterra, e outros sucessos habituais
como os hinos da Itália e dos Estados Unidos – isso sem falar na Marselhesa, da França, provavelmente o
hino nacional mais conhecido do mundo. Não é fácil brilhar nessa companhia.

Mas e a letra? Já se falou mal o suficiente da letra do Hino Nacional para que se ganhe alguma coisa
insistindo no assunto. Sua linguagem, provavelmente, já era antiquada na época em que foi escrita, 101
anos atrás; é confusa, às vezes absurda, e muito pouca gente consegue decorá-la direito, mesmo porque
muito pouca gente entende o que ela está dizendo. Mas isso não afeta a melodia nem embaça o gênio de
Francisco Manuel – que, por sinal, já estava morto quase meio século antes de colocarem palavras em sua
música. Além do mais, a letra do Hino Nacional nunca causou prejuízo a ninguém – e, francamente, talvez
nem seja pior que a média das letras presentes em hinos de outros países, em geral obcecadas por sangue,
morte, canhões, tiranias e outros horrores. O mais prático, portanto, é deixar tudo como está, antes que
venha a ideia de adotar uma nova letra através de concurso público. Com certeza teríamos muita saudade,
aí, do lábaro estrelado e dos raios fúlgidos.

O que seria do futebol, principalmente em momentos de Copa do Mundo, se fosse proibido falar mal do
técnico? Ou dos jogadores? E dos cartolas, então? O técnico Dunga acha injusto o tratamento que ele e sua
equipe vêm recebendo da imprensa em geral; julga que tem sido visado porque acabou com entrevistas
exclusivas, favoritismos em relação a este ou aquele veículo, "panelinhas" etc. Pode haver muito de
verdadeiro nisso tudo, mas o problema é outro. Futebol é paixão, e a imprensa reflete a paixão da torcida –
se ela aplica vaias selvagens aos seus próprios times, por que seria diferente com a seleção e seu técnico?
Torcidas não são imparciais, e não esperam imparcialidade da cobertura esportiva. Não é justo, mas é o
preço que Dunga e seus jogadores têm de pagar pela remuneração que recebem. Se vencerem, levam as
batatas; se perderem, não levam. É a vida. Ao que parece, eles querem levar as batatas mesmo em caso de
perda, por achar que têm "raça" e são "guerreiros". Aí já fica difícil.

Fotografia

Galáxias subterrâneas
O fotógrafo americano Kevin Downey – que comenta
as imagens destas páginas – tem uma paixão: revelar
as paisagens estelares ocultas na escuridão das cavernas

Bruno Meier

Fotos Kevin Downey


CRISTAIS GIGANTES
"Esta foto foi feita na caverna de Naica, no México, logo após a descoberta desta sala por
homens que trabalhavam em uma mina de prata. Várias áreas como esta, com cristais de
gipsita gigantes, foram encontradas quando a perfuração da mina atingiu a caverna natural,
que estava sob a água. A água foi bombeada para fora. Foi muito desafiador fazer esta foto, já
que a temperatura na caverna variava de 64 a 72 graus. Construí uma roupa especial com
refrigeração, e cada tomada foi realizada com um modelo diferente, pois eles suportavam no
máximo três minutos nas zonas quentes. Hoje, a caverna é protegida por uma porta de aço e a
temperatura é mais baixa – cerca de 57 graus –, devido ao ar refrigerado da mina"

VEJA TAMBÉM O fotógrafo americano Kevin Downey teve de produzir


uma roupa especial, com refrigeração, para desbravar a
Galeria Caverna dos Cristais, em Naica, remota região do norte do
Confira as fotos México. No interior da caverna, descoberta há dez anos por
dois irmãos que faziam perfurações em uma das minas de
prata mais produtivas do país, a temperatura variava de 64 a 72 graus. Devido a esse calor sufocante, os
exploradores e espeleólogos – como são chamados os estudiosos de cavernas – que posaram para as fotos
não podiam permanecer mais do que três minutos no ambiente. Como se vê abaixo, o resultado é
espantoso: um homem, aparentemente diminuto, rodeado de cristais imensos. Formado em geologia e
fotografia pela Universidade de Massachusetts, Downey possui o maior banco de imagens do mundo
sobre cavernas, com cerca de 200.000 fotos subterrâneas. Foi por causa das expedições de exploração e
mapeamento, em que ele se empenha desde 1971, que o interesse por fotografia surgiu. "Vi que ninguém
fazia boas fotos desses lugares. Queria ter belas imagens das nossas descobertas, e pensei que isso seria
fácil, rápido e simples. Pensei errado", disse a VEJA o espeleólogo, que visita o Brasil pela primeira vez a
partir desta sexta-feira, para uma série de palestras e cursos em São Paulo e Belo Horizonte, promovidos
pelo Instituto do Carste, dedicado à espeleologia. Downey trará sua vasta experiência em mais de 2.400
excursões em cavernas de 44 países, cada uma delas com suas maravilhas visuais e suas dificuldades
técnicas (nas legendas das fotos destas páginas, o especialista comenta os desafios de cinco das cavernas
que desbravou).

Recomenda-se que todo explorador de cavernas carregue pelo menos três fontes de luz, uma delas
acoplada ao capacete. Os fotógrafos, porém, precisam de mais. Para registrarem imagens em ambientes de
quase total escuridão, carregam um poderoso arsenal de flashes e baterias. Nos Estados Unidos e na
Europa, costumam usar bulbos descartáveis de magnésio, que explodem quando acionados e produzem
uma luz muito intensa. A ausência de iluminação nos subterrâneos é a principal, mas não a única,
dificuldade. A umidade também pode atrapalhar: Downey desceu oito vezes o abismo de 180 metros de
profundidade de uma caverna no estado da Geórgia, nos Estados Unidos, até conseguir a condição mais
seca possível. Existem, ainda, ambientes delicados, em que um movimento descuidado pode destruir
formações de rocha que levaram séculos para surgir. Em alguns casos, são agentes biológicos que
oferecem riscos – em cavernas da Amazônia habitadas por morcegos, só é possível entrar de máscara, pois
as fezes dos animais, além de insuportavelmente malcheirosas, contêm microrganismos nocivos.

"As cavernas hoje são a única área de exploração do mundo em que ainda temos a sensação do
desconhecido. O prazer de não saber o que se vai encontrar pela frente é o que mais nos atrai", diz o
geólogo Augusto Auler, do Instituto Carste. Os fotógrafos desses vastos sistemas subterrâneos revelam
florestas pétreas, cogumelos gigantes, cristais magníficos – paisagens estelares ocultas na escuridão
subterrânea.

COMO EM UM SALÃO DE BAILE


"Esta é uma formação de cristais de selenita
– gesso, basicamente – na caverna
Lechuguilla, no estado do Novo México.
Esta sala possui dezenas desses
‘candelabros’, e eles são as maiores e mais
perfeitas formações desse tipo conhecidas
no mundo. Lechuguilla é, talvez, a caverna
mais ornamentada encontrada até hoje. O
acesso a ela é permitido apenas para fins de
exploração e pesquisa. Atualmente, por
exemplo, ela tem cerca de 200 quilômetros
‘desenvolvidos’, como dizemos, e a cada
expedição esse número aumenta"
UM POÇO SEM FUNDO
"Este abismo na caverna Ellison, no estado
americano da Geórgia, tem cerca de 180
metros em queda livre e está situado abaixo
de dois outros abismos menores. A
iluminação foi feita por um único
espeleólogo: à medida que descia pela
corda, ele ia disparando flashes potentes,
com uma exposição longa. Em geral, uma
cachoeira cai por este abismo, e o ambiente
fica repleto de gotículas de água em
suspensão. Fiz oito viagens ao local no
período de um ano até encontrá-lo assim,
quase seco. Ainda havia um pouco de
névoa, mas ela ajuda a dimensionar a
profundidade do poço. Muitas das técnicas
usadas na exploração de grandes abismos
no mundo inteiro foram desenvolvidas
aqui"
COGUMELOS EXÓTICOS
"Esta estalagmite gigante em forma de
cogumelo é feita de calcita e dolomita e fica
em um sistema de cavernas batizado de
Jarrito, no norte de Cuba. Essas cavernas
sofreram uma longa série de inundações e
secas, e em várias ocasiões estiveram no
nível da haloclina, onde água salgada e
água doce se misturam – ou seja,
praticamente no nível do mar. Tais formas
exóticas são muito raras e contêm um
registro perfeito das condições da caverna
ao longo do tempo. Isso é essencial para
compreender as variações climáticas que
ocorreram nessa região no passado.
Dezenas de quilômetros de galerias já
foram mapeadas em Jarrito, mas o potencial
para novas descobertas ainda é grande"
UMA FLORESTA SECRETA
"Chamo esta formação de ‘floresta secreta
de canudos’. Ela fica no interior de uma
caverna do sul da França cuja localização
exata é mantida em sigilo, a fim de proteger
esses canudos extremamente delicados.
Tratam-se de tubos ocos de calcita
cristalina, e um único toque é suficiente
para destruí-los. Fazer esta foto envolveu
uma considerável equipe de apoio, além de
grande cuidado, para garantir que tudo
permanecesse intacto"

Cinema

Dores da maturidade
Mais uma obra-prima da Pixar, Toy Story 3 desenvolve de modo
comovente (e às vezes assustador) uma dúvida dos primeiros
filmes:
que destino têm os brinquedos quando seus donos crescem?

Jerônimo Teixeira

Fotos Divulgação
IDADE DA RAZÃO
Os brinquedos chegam à creche: pureza que o dono, próximo da idade adulta, não tem mais

Nove brinquedos extraviados em um imenso depósito de lixo – tão tétrico que chega a parecer o inferno
das pinturas de Brueghel ou Bosch – veem-se apanhados por uma torrente de detritos que desce em
direção a um incinerador. Não há escapatória: o caubói Woody, o astronauta Buzz Lightyear e seus
companheiros vão morrer (pois nesse desenho animado os brinquedos têm vida). Conformados, serenos,
eles dão as mãos (em alguns casos, patas) uns aos outros: se o fim é inapelável, pelo menos vão todos
juntos, como os grandes amigos que sempre foram. Essa sequência de Toy Story 3 (Estados Unidos,
2010), em cartaz desde sexta-feira no país, reforça um tema forte dos dois filmes anteriores da série: a
lealdade. Com sua rápida e intensa sucessão de emoções, do franco terror ao mais lacrimejante
sentimentalismo (e em seguida ao alívio humorístico provido pelo curioso deus ex machina que vem
remediar a situação), é também uma prova de que a Pixar, estúdio que criou Woody e sua turma, mantém-
se magistral não só nos aspectos técnicos da animação digital, da qual foi pioneira, mas também nos
fundamentos do bom cinema: um excelente roteiro com grandes personagens.

A turma da Pixar não tem pressa. Em quinze anos, o estúdio, hoje pertencente à Disney, fez apenas onze
longas-metragens (embora agora se prepare para lançar três filmes nos próximos dois anos, incluindo
sequências para Carros e Monstros S.A.). Esse conjunto extraordinário colecionou cinco Oscar de longa de
animação e rendeu 5,6 bilhões de dólares no mundo todo. Dirigido por John Lasseter, fundador e gênio
criativo da Pixar, Toy Story, de 1995, foi o primeiro longa do estúdio. Apresentava uma visão encantadora
da infância, a partir da história de Woody, o caubói de brinquedo, que se vê preterido na afeição do
menino Andy quando este ganha o astronauta Buzz de aniversário. No segundo filme, de 1999, Buzz e
outros brinquedos formavam um time para resgatar Woody, raptado por um inescrupuloso colecionador –
e já se levantava ali a preocupação que está no centro do terceiro filme: o que será dos brinquedos quando
Andy chegar à idade adulta?

Em entrevista à Time, Lasseter observou que "muitos fazem sequências como quem imprime dinheiro, e
recauchutam as mesmas ideias". Mas Toy Story 3 não repisa ideias dos filmes anteriores – ele as
desenvolve até suas consequências extremas, aquelas que levarão à paisagem de pesadelo do lixão. Andy
agora tem 17 anos e está para deixar a casa da mãe para fazer faculdade. Já não tem idade para brincar –
mas, detalhe significativo, resiste às propostas da mãe para que seus velhos brinquedos sejam doados. É
por acidente que eles acabam em uma creche que, de início, parece acolhedora.
Dirigido por Lee Unkrich – codiretor, ao lado de Lasseter e
Ash Brannon, de Toy Story 2 – e roteirizado por Michael
Arndt (autor de outro filme terno com personagens um tanto
bizarros, Pequena Miss Sunshine), essa nova animação
começa com uma fantasia deslumbrante e luminosa, uma
sequência de ação espetacular – bem realçada pelo 3D – que
levou mais de quatro meses para ser aperfeiçoada por 27
artistas técnicos. Com raios, explosões, um trem que
despenca de um abismo e uma nave espacial em forma de
porco, a cena representa o modo como a prodigiosa
imaginação de Andy, na infância, via seus brinquedos. A ação
continuará acelerada até o fim, mas haverá uma mudança
radical de tom: governada com férreo autoritarismo por
Lotso, um urso de pelúcia cor-de-rosa só na aparência
amigável, a creche onde os brinquedos de Andy vão parar se
revela uma prisão. Relegados à sala das crianças menores, os
brinquedos são surrados e desmembrados com brutal
inocência pelos pequeninos. O complicado plano que Woody
e seus amigos armam para escapar lembra filmes como
Fugindo do Inferno. A fuga se dá à noite, por salas e pátios O METROSSEXUAL E A FEMINISTA
sinistros – vale advertir: são cenas assustadoras para as Ken e Barbie: alívio cômico nos momentos
crianças menores (a filha de 3 anos deste redator o
acompanhou na exibição de Toy Story 3 e deu gostosas mais sombrios da história
gargalhadas – mas, nesses momentos sombrios, chorou e chamou pela mãe).

O alívio cômico do filme é garantido por um novo elenco de brinquedos, alguns quase inócuos para a ação
(o polvo que na versão original tem a voz de Whoopi Goldberg mal diz a que veio), outros absolutamente
hilários – como o ouriço que se comporta como um pedante ator shakespeariano. A boneca Barbie da irmã
de Andy, que em Toy Story 2 é uma figurante, torna-se aqui uma espécie de heroína feminista. E ainda
ganha um parceiro sexual e moralmente ambíguo – o aprumadinho Ken, que adora desfilar roupas novas,
mas fica enfezado quando dizem que ele é um brinquedo de menina. Lotso, o vilão da história, é ainda
mais ambíguo. Descobre-se, afinal, que seu cinismo tem suas raízes em uma experiência traumática:
esquecido por sua dona em um passeio no campo, acabou substituído por um urso idêntico.

A muito custo, os brinquedos escapam da zona cinzenta representada por Lotso. Os dois protagonistas,
afinal, são figuras prístinas das matinês infantis – um caubói e um astronauta (e o primeiro tem a voz de
Tom Hanks, talvez o ator americano mais talhado para representar heróis tão puros). A beleza da série Toy
Story reside em grande parte nessa visão nostálgica, ingênua talvez, mas muito sensível da infância. Andy,
já marmanjo, não pertence mais a esse mundo belo e simples. O animadíssimo Toy Story 3 acaba com um
certo travo tristonho. Esta é, sobretudo, a comovente história de uma despedida.
AMBIGUIDADE MORAL
O urso Lotso e sua turma: vilão cor-de-rosa

Educação amorosa
Em Brilho de uma Paixão, um poeta e uma moça se desafiam
na arte da conversa – e assim aprendem a entender um ao
outro

Isabela Boscov

Everett Collection/Grupo Keystone


QUESTÃO DE ESTILO
Abbie e Whishaw, como Fanny, a aficionada da moda, e o poeta inglês John Keats:
duas pessoas criativas, interessadas na beleza e desejosas de ser compreendidas

De uma maneira ou de outra, todos os filmes da cineasta neozelandesa Jane Campion tratam de um
mesmo tema: a dificuldade de uma personagem em se fazer compreendida. Em sua surpreendente estreia
na direção, Um Anjo em Minha Mesa, ela investigava o caso real da escritora Janet Frame, que durante
boa parte da vida foi submetida a excruciantes internações psiquiátricas por ter sua timidez e tendência à
depressão confundidas com esquizofrenia; em seu trabalho mais famoso, O Piano, de 1993 (que fez dela a
única mulher a levar a Palma de Ouro em Cannes), a protagonista havia já desistido de tentar se
comunicar: simplesmente emudecera. De lá para cá, Jane não conseguira repetir os êxitos desse início de
carreira. Foi, por exemplo, injustamente atacada por Retrato de uma Mulher – e merecidamente criticada
pelo em tudo errado Em Carne Viva. Não obstante esses reveses, manteve-se leal ao seu tema e evoluiu de
maneira admirável no tratamento dele, como atesta Brilho de uma Paixão (Bright Star,
Inglaterra/Austrália/França, 2009), que estreia no país na sexta-feira.

Talvez não seja coincidência esse ser o melhor filme da diretora desde Um Anjo em Minha Mesa: como
naquele primeiro trabalho, ela aqui parte da recriação biográfica fiel de personagens verídicos – e, de
novo, a palavra tem função essencial. John Keats (Ben Whishaw, de Perfume), um dos mais arrebatadores
poetas românticos ingleses, tem 22 anos, em 1818, quando conhece Fanny Brawne (Abbie Cornish). Ele é
pobre, frágil e luta com um talento que ainda não se definiu nem é reconhecido por completo. Ela é a filha
mais velha de uma viúva, respeitável mas sem fortuna, e é vista como uma moça fútil em razão de sua
paixão por roupas intrincadas, que ela própria desenha e costura. Keats e Fanny não compartilham
interesses – exceto pela arte da conversa e um pelo outro. Tratam, assim, de estabelecer um território
comum por meio da linguagem: ele sabe exprimir sentimentos, ela tem o dom de ser espirituosa; e, à
medida que ensinam um ao outro essas novas habilidades, eles expandem seu universo e aprofundam sua
ligação. Seria supérfluo dizer que Keats e Fanny se apaixonam. A diretora, assim, mostra algo mais
interessante – como eles decidem se apaixonar, ao reconhecerem um no outro uma rara disposição de
acolher singularidades.

Brilho de uma Paixão é suntuosamente fotografado e muito embevecido com a beleza de suas casas,
jardins e figurinos (sem falar na beleza limpa e fresca de sua atriz, uma espécie de versão alimentada a
leite integral da também australiana Nicole Kidman). Para o espectador distraído, pode assim passar como
mais uma história "de mulherzinha" sobre uma paixão impossível e de fim trágico. Quando Keats morreu
de tuberculose longe dela, na Itália, aos 25 anos, Fanny se entregou a paroxismos de sofrimento, o que
poderia ser visto como confirmação dessa hipótese. Mas, prestando-se atenção ao desenvolvimento
perspicaz que Jane Campion dá ao romance, entende-se o que Fanny de fato perdeu: não só seu primeiro
amor, como a possibilidade de uma conexão verdadeira e sem reservas. O que não é só muito – é quase
tudo.

Música

O maior figuraço do rock


Sobrevivente de décadas de consumo industrial de drogas,
Ozzy Osbourne lança mais uma vez o disco de sempre,
e narra suas esquisitices em um livro

Sérgio Martins

Fotos John Reardon/Corbis Outline/Latinstock e Dan


Macmedian/Contour by Getty Images
FAMÍLIA ENDIABRADA
Ozzy Osbourne em pose de doidão (à esq.) e com a mulher, Sharon,
e os filhos Kelly e Jack, em The Osbournes: apesar de detestar
o reality show da MTV, ele não se importou de exibir a decadência
física e mental. "Consigo fazer as pessoas se divertirem", diz

VEJA TAMBÉM Seis anos atrás, o roqueiro inglês Ozzy Osbourne foi a uma
clínica em Los Angeles para tratar-se do vício em drogas.
Galeria Questionado pelo médico, listou os itens que mais
Confira as fotos consumiu em 34 anos de carreira: maconha, anfetaminas,
heroína e montanhas de cocaína. Bebida? Quatro garrafas
de conhaque por dia e piscinas de cerveja. Calculou fumar uns trinta charutos diariamente – e perdeu a
conta dos cigarros. "Só farei mais uma pergunta", disse o atônito médico. "Como você ainda está vivo?" A
fantasia mística poderia atribuir a inexplicável sobrevivência do ex-vocalista do Black Sabbath a um pacto
demoníaco, se a recém-lançada autobiografia de Osbourne – Eu Sou Ozzy (Benvirá; tradução de Marcelo
Barbão; 384 páginas; 39,90 reais) – não pusesse uma pedra sobre o assunto: a banda nunca foi satanista,
embora fizesse letras inspiradas em filmes de terror. Com 61 anos, Osbourne está não somente vivo, mas
ativo. Além da autobiografia, acaba de lançar Scream, o 11º CD de estúdio em sua carreira-solo. Trata-se,
porém, do mesmo disco que ele faz há anos: melodias simples, letras que investem com revolta pueril
contra a religião e a política, e muitos solos de um guitarrista ágil (desta vez, o grego Gus G.). Depois de
décadas de bizarrias na vida e nos shows – não, não é lenda: ele realmente mordeu a cabeça de um
morcego que um fã atirou no palco, supondo que o bicho fosse de borracha –, Ozzy Osbourne hoje é mais
folclore do que música, um desses figuraços que só o rock consegue produzir.
Apesar de algumas notas dramáticas, em especial nas páginas que falam da infância
pobre, Eu Sou Ozzy é engraçadíssimo. Documenta, entre outras esquisitices, as
desavenças do artista com o reino animal. Além do morcego, Osbourne já decapitou
pombos a dentadas. Abateu a tiros toda uma família de gatos que gostava de dormir no
capô de seu carro. Atirou também nas galinhas da granja que teve por um breve período,
irritado com o cacarejar constante das esfaimadas penosas. E o mais incrível capítulo
desse bestiário: Osbourne aspirou uma fileira de formigas que, não se sabe como,
confundiu com uma carreira de cocaína.

Musicalmente, o auge de sua carreira foi nos anos 70, com o Black Sabbath, banda que criou com o
guitarrista Tony Iommi, seu colega de escola. Embora nunca tenha sido bem-aceito pela crítica, o Sabbath
foi um grupo pioneiro: criou o heavy metal. Osbourne foi demitido da banda em 1979, pelo excesso de
drogas e álcool. Sua carreira-solo decolou graças à segunda mulher, a empresária Sharon, com quem se
casou no início dos anos 80. Foi ela quem criou para Osbourne uma persona mais caricata, próxima de um
personagem em quadrinhos (basta ver os dentes de monstro e as fantasias que ele passou a usar ao longo
das décadas de 80 e 90). Meses atrás, o casal entrou com uma ação na Justiça contra Iommi, para proibi-lo
de usar o nome Black Sabbath. "É coisa da Sharon, não sei nada a respeito", desconversou Osbourne em
entrevista a VEJA. Sharon foi também a mentora de The Osbournes, seriado da MTV que mostrava o
cotidiano de sua família. Exibido entre 2002 e 2005, o reality show apresentou Ozzy às novas gerações.
Os fãs antigos assustaram-se ao ver o cantor sendo tratado a pontapés pelo casal de filhos – aos quais
responde com aquela lentidão apatetada própria de um cérebro erodido pelas drogas. "Sei dos meus
problemas e de tudo o que aprontei. Mas ainda consigo fazer as pessoas se divertirem", diz Osbourne.
Scream e Eu Sou Ozzy oferecem exatamente isso: mais um pouco da mesma velha diversão.

"Vou me doar à ciência"

Em entrevista a VEJA, Ozzy Osbourne diz que não sabe explicar sua sobrevivência – e admite
que é sua mulher quem hoje administra sua vida.

O senhor é alcoólatra e já consumiu quase todas as drogas existentes no planeta. Como


ainda está vivo?
Um médico já me fez a mesma pergunta. Não sei. Quando eu morrer, vou doar meu corpo ao
Museu de História Natural. Aliás, sei como será a minha morte: um pombo vai defecar na minha
cabeça e derreterei no asfalto.

Scream é o 11º álbum de sua carreira-solo. Traz alguma novidade?


Para ser sincero, gravo sempre o mesmo disco. As músicas têm o mesmo estilo e as letras tratam
dos mesmos assuntos. Mas estou com um guitarrista novo, o grego Gus G.

Um de seus temas recorrentes é o ataque à fé. Por que o senhor é contra a religião?
Na verdade, sou uma pessoa religiosa. Só não aceito os crimes feitos em nome da religião.
Tenho também um trauma pessoal. Minha infância foi miserável. Às vezes, não havia o que
comer em casa, mas o pessoal da igreja sempre convencia minha mãe de que ela iria para o
inferno se não pagasse os dízimos.

É verdade que a família Osbourne vai estrelar outro reality show?


Não sei. Por mim, jamais teria feito The Osbournes. Odeio a MTV e odeio que invadam a minha
privacidade. Mas é minha mulher, Sharon, quem decide essas coisas. Aqui em casa, a última
palavra é sempre minha: "Pergunte a Sharon – ela é quem manda".
Fotos Divulgação/Tv Globo

Televisão

As vovozinhas malvadas
Na novela Passione, duas octogenárias têm
a força.
E o comportamento delas está longe de
ser politicamente correto

Marcelo Marthe

Dias atrás, a atriz Daisy Lúcidi foi abordada por um anônimo em um


café no centro do Rio de Janeiro. "Mas como a senhora é ruim, hein,
dona Valentina?", disparou o sujeito. Desde que Daisy, de 80 anos,
assumiu tal papel na novela Passione, a confusão entre intérprete e
personagem a persegue nas ruas – como sempre ocorre quando se
corporifica com competência uma vilã da laia de Valentina. Por baixo
da casca de avó boazinha há uma criatura horrorosa, que obriga a BRÍGIDA (Cleyde Yáconis)
neta de 15 anos, Kelly (a novata Carol Macedo), a se prostituir. A Idade da atriz: 86 anos
vovó maldosa remete, com realismo, ao noticiário sobre exploração
sexual de crianças e adolescentes. E é também ilustrativa da visão Safadezas da personagem: a
peculiar que o atual folhetim das 8 da Globo tem a oferecer sobre a paulistana quatrocentona tem
propalada "terceira idade". alergia àqueles que não vêm de sua
classe social, maltrata o marido
Em uma trama que chama atenção pelo fato já por si incomum de (que considera senil) e tem
trazer quatro octogenários em papéis de realce, ela não é a única encontros furtivos com o chofer
velhinha safada. Encontra sua contraparte, digamos, "do bem" na Diógenes (Elias Gleiser) – com
ricaça Brígida, representada por Cleyde Yáconis, de 86 anos. A quem mantém diálogos cheios de
matriarca – sogra de Bete (Fernanda Montenegro) e vinte anos mais sugestões sexuais
velha do que esta, embora as duas atrizes tenham só seis anos de
diferença – é esnobe e preconceituosa. Além disso, dá suas escapadas Frase típica: "Chegou a viciada
com o chofer da família, Diógenes (Elias Gleiser, de 76) tão logo o perdida. Nunca pensei que ia ter
marido, Antero (Leonardo Villar, de 86), cai no cochilo. A misteriosa esse tipo de gente dentro de casa"
atividade a que patroa e chofer se dedicam é provavelmente inocente, (sobre a noiva do neto)
mas as falas de duplo sentido carregam as cenas de libido. "Quero
que o público imagine que os dois velhos podem, sim, estar fazendo sexo", diz o noveleiro Silvio de
Abreu.

Brígida e Valentina destoam do padrão de velhice decantado nas novelas. Normalmente, atores na faixa
etária de Daisy Lúcidi e Cleyde Yáconis ou são relegados a papéis de vovôs e vovós simpáticos ou
mostrados como coitadinhos. O ápice dessa tendência foi o casal nonagenário (formado por Oswaldo
Louzada e Carmem Silva, ambos mortos em 2008) que padecia nas mãos de uma neta sádica em Mulheres
Apaixonadas (2003), de Manoel Carlos. Mas, como lembra o especialista Mauro Alencar, é possível
pescar, na história do gênero, exemplos eventuais de velhinhos transviados. "Em tramas dos anos 70 como
Os Ossos do Barão, de Jorge Andrade, ou O Casarão, de Lauro César Muniz, havia idosos com vida
sexual bem apimentada", diz o estudioso. O próprio Silvio de Abreu tem tradição nessa matéria: em seu
sucesso Sassaricando (1987), Paulo Autran (1922-2007) fazia um senhor que não resistia a um rabo de
saia. Na novela atual, o autor avança ainda mais, tanto na idade dos atores quanto na voltagem de seus
personagens.

Embora Passione venha ostentando uma audiência capenga para o horário das 8 desde sua estreia, há um
mês, a Globo já detectou que a personagem de Cleyde Yáconis cativa o público. Veterana do teatro e dos
folhetins, a atriz tempera a incorreção política com certa fleuma de dama quatrocentona (como são
conhecidos os clãs tradicionais paulistanos). Brígida não poupa nem os idosos de discriminação: chama o
próprio marido de "caduco". Apesar disso, trata-se de um registro ameno. Já a personagem de Daisy
Lúcidi revolta os espectadores (e se soma ao arsenal de "temas-denúncia" explorados por Abreu, que
inclui ainda o aborto e as drogas). Ex-deputada estadual no Rio, com quatro mandatos, e radialista há mais
de sessenta anos (foi atriz de radionovelas e até hoje comanda um programa assistencialista), Daisy está
debutando como vilã. "O maior desafio foi me despir da vaidade. Tive de engordar 5 quilos e venho me
sujeitando aos vestidos sem manga e à maquiagem borrada para fazer aquela desqualificada", diz.
Desqualificada é pouco. Para convencer Kelly a se prostituir, Valentina apela para a chantagem emocional:
finge acessos de tosse e se faz de idosa vitimizada. No passado, ela fazia o mesmo com a neta mais velha,
a golpista Clara. Vivida por Mariana Ximenes, essa última é a vilã "oficial" de Passione. Até agora,
porém, a vovozinha vem lhe passando a perna.

VALENTINA (Daisy Lúcidi)


Idade da atriz: 80 anos

Safadezas da personagem: cafetina asquerosa disfarçada de vovó


boazinha, ela obriga Kelly (Carol Macedo), a neta de 15 anos, a
prostituir-se com clientes de sua pensão. Também gosta de invocar sua
condição de idosa para levar vantagens indevidas e manipular os
incautos
Frase típica: "Tomara que eu tenha logo um infarto, para você se roer
de remorso. Ai, Deus, explode logo esse coração, me ajuda a castigar
essa neta ingrata"

VEJA Recomenda
DISCOS

THIS IS HAPPENING, LCD Soundsystem (EMI)

Divulgação

DISCO
James Murphy, do LCD Soundsystem: despedida gloriosa

• Em Hey Hey Ma Ma, uma de suas mais famosas composições, o canadense Neil Young pregava que era
melhor "queimar do que esvanecer". Embora nunca tenha se declarado fã de Young, o americano James
Murphy seguiu esse conselho na condução de seu grupo, o LCD Soundsystem. Este é o terceiro e último
disco do LCD – depois, Murphy partirá para outros projetos. É uma bela despedida. Surgida em 2002, a
banda buscou uma mistura original para compor sua sonoridade: música eletrônica e rock alternativo,
temperados pela influência da parceria entre Brian Eno e David Bowie nos anos 70. O toque pessoal está
nas letras do músico e produtor, que falam tanto de baladas – ele é um farrista notório – quanto da angústia
de sua geração, que está ultrapassando a juventude (Murphy acaba de chegar aos 40). Podem-se perceber
essas atitudes distintas no primeiro single, Drunk Girls, sobre personagens da noite de uma cidade
qualquer, e em I Can Change, uma derramada canção de amor. Murphy ainda reverencia Bowie e Eno no
rock All I Want e revela ironia em You Wanted a Hit, sobre sua incapacidade de produzir uma canção de
sucesso.
LAS VÊNUS RESORT PALACE HOTEL, Cibelle (ST2)

Divulgação

DISCO
Cibelle: juntando o melhor de dois mundos

• Cantora paulistana radicada em Londres, Cibelle reflete o que há de mais interessante nesses dois
mundos. Tem a bossa e o balanço brasileiros, além de um sotaque gostoso quando interpreta letras em
inglês. E tem a chance de trabalhar com bons produtores europeus de música eletrônica. Neste seu terceiro
disco ela assume um alter ego, Sonja Khalecallon, e apresenta canções que vão do trip hop ao rock, do pop
com cores brasileiras a um tema que parece saído do teatro musical. Por vezes, pode soar um tanto kitsch.
Mas Cibelle – perdão, Sonja – canta com tanto charme e delicadeza que é praticamente impossível não se
maravilhar com baladas como Sad Piano, ou com as releituras de Underneath the Mango Tree (de um dos
filmes de James Bond) e It’s Not Easy Being Green (do infantil Muppet Show). Mas é em Escute Bem e
Sapato Azul, ambas cantadas em português, que ela mostra a que veio. Ali, acompanhada por nomes
importantes de sua geração como o guitarrista Fernando Catatau, o baterista Pupilo e o produtor Apollo
Nove, Cibelle mostra uma voz afinada, que vai além das brincadeiras juvenis.

DVD

TESTEMUNHAS DE UMA GUERRA (Triage, Irlanda/Espanha, 2009. Flashstar)

Everett Collection/Grupo Keystone


DVD
Testemunhas de uma Guerra: as coisas tenebrosas que se passam em um
conflito

• Há oito anos, o diretor bósnio Danis Tanovic causou sensação com seu filme de estreia: Terra de
Ninguém, em que usava sua experiência como documentarista na Guerra da Bósnia em uma história
mordaz sobre um soldado bósnio e um sérvio obrigados a dividir uma mesma trincheira na "terra de
ninguém", a zona entre as duas frentes inimigas. Depois de fazer um belo drama familiar, Inferno, o
cineasta retorna agora ao tema. Colin Farrell é Mark, um repórter que, em 1988, vai ao Curdistão
fotografar os choques entre curdos e iraquianos e registrar o trabalho de um médico que tenta atender os
feridos e, quando não é possível salvá-los, os executa. David (Jamie Sives), o colega de Mark, não suporta
mais esses horrores. Quer voltar para a Irlanda e para a mulher grávida. Em dado momento, os dois se
separam. Mark é ferido, retorna para casa, e diz não estar preocupado com o sumiço do amigo – logo ele
vai reaparecer, explica. Não é verdade. Embora inferior aos trabalhos anteriores de Tanovic, Testemunhas
oferece algo incomum: uma visão crua, quase casual, e sem diluição das coisas tenebrosas que podem se
passar com os homens durante uma guerra.

LIVROS

ESTRANHA PRESENÇA, de Sarah Waters (tradução de Ana Luiza Dantas Borges; Record; 448
páginas; 57,90 reais)

• Ambientado no fim dos anos 40, quando a Inglaterra vivia as duras restrições econômicas do pós-guerra,
Estranha Presença, da inglesa Sarah Waters, combina a crônica realista de conflitos de classe com os
elementos mais sinistros da literatura gótica. O narrador da história é o doutor Faraday, médico de origem
humilde que tenta se estabelecer como clínico geral na sua cidade natal. Ele pensa ter encontrado sua
chance de ascensão social quando é chamado a Hundreds Mill, a mansão da família Ayres, que, apesar de
estar se aproximando da insolvência, ainda se mantém como o clã mais rico e poderoso da região. A
doente que precisa de seus serviços é a empregada adolescente que faz, sozinha, todo o serviço da casa –
mas Faraday aproveita a oportunidade para criar laços com a senhora Ayres, rígida matriarca, e seu casal
de filhos um tanto problemáticos. É pelos olhos céticos de Faraday que o leitor vai tomando conhecimento
da "estranha presença" de que fala o título – um fantasma que parece a emanação malévola dos
ressentimentos de classe daquela casa decadente.
A GUIMBA, de Will Self (tradução de Cássio de Arantes Leite; Alfaguara; 336 páginas; 48,90 reais)

Guillen Lopez/Camera Press/Other Images

LIVRO
Will Self: sátira inspirada em Joseph Conrad

• De férias em um país tropical indeterminado, o americano Tom Brodzinski relaxa na varanda de seu
quarto de hotel, fumando aquele que será (assim ele promete a si mesmo) seu último cigarro. Ele joga fora
a guimba acesa – e ela vai aterrissar, abaixo, na careca de outro americano. Deveria ser um acidente banal,
mas Brodzinski infringiu as draconianas normas antitabagistas do lugar. Para reparar seu erro, ele deverá
adentrar o inóspito interior do país, na companhia de outro americano acusado de um crime
provavelmente mais grave (Brodzinski suspeita que ele é um pedófilo). Esse entrecho absurdo é pontuado
de referências à Guerra do Iraque e de alusões a Coração das Trevas, clássico de Joseph Conrad sobre o
pesadelo colonialista na África. Autor de Grandes Símios e de Como Vivem os Mortos, Will Self tende a
pesar a mão nos elementos mais caricaturais da narrativa, o que resulta em uma prosa algo grosseira. Mas
ele é sem dúvida um dos mais vitriólicos satiristas da literatura contemporânea, como o leitor de A
Guimba poderá comprovar.

OS MAIS VENDIDOS