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Amom Rodrigues de Morais

A Subjetividade na filosofia e psicanálise de Slavoj Žižek: perspectivas para


a psicologia social crítica

Pré-Projeto de Pesquisa apresentado ao Programa de


Estudos Pós-graduados em Psicologia: Psicologia
Social, da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo (PUC-SP), como um dos requisitos da seleção
para ingresso no Mestrado em Psicologia: Psicologia
Social, Núcleo: NUPS – Psicologia e Sociedade.

São Paulo, 2013.


INTRODUÇÃO

O presente texto se propõe a ter como objeto de investigação as noções


da categoria de subjetividade recorrentes na vasta obra do filósofo e psicanalista
Slavoj Žižek. A obra desse autor apresenta, de modo geral, uma reflexão sobre a
lógica cultural do capitalismo globalizante e ela desse modo, tem se constituindo
como referência na contemporaneidade para o pensamento da filosofia política,
da crítica cultural e de vários aspectos que perpassam hoje as ciências humanas.
Sendo assim, o presente trabalho pretende indagar quais as possíveis
contribuições advindas da filosofia e da psicanálise lacaniana para o conceito de
sujeito e de subjetividade presentes em vários momentos na obra de Žižek.

Tendo em vista que a categoria de subjetividade faz parte das bases


epistemológicas da psicologia e de modo mais específico da psicologia social,
propor uma reflexão das possíveis contribuições da filosofia e da psicanálise
para o pensamento social crítico é ao mesmo tempo problematizar a definição
conceitual de subjetividade e abrir perspectivas teóricas que auxiliem nos
impasses que a psicologia enfrenta na compreensão dessa dimensão subjetiva do
sujeito na atualidade.

É pertinente aqui expor sucintamente a contextualização da definição do


objeto de estudo do presente texto. A ciência psicológica como sabemos, ao
longo da história tem tentado buscar delimitar seu objeto de estudo. Entretanto, o
que se observou, foi que no decorrer de cada investigação em busca do tal
objeto, apoiada por uma dada orientação epistemológica e influenciada por
outros saberes e práticas, surgia uma nova abordagem em psicologia, de tal
modo que atualmente ensina-se nas formações acadêmicas várias psicologias.
Em toda essa busca pelo objeto de estudo a psicologia, nas suas diversas ênfases,
partiu do pressuposto de uma ontologia positiva, ou melhor, substancial, o que
significa: qualquer que fosse o fenômeno prioritário a ser estudado, este seria
portador de uma substancialidade de qualquer natureza, seja ela fosse material
ou imaterial.
Nesse sentido, poderia emergir dois tipos de conhecimentos, um de
base concreta, logo, conhecimento objetivo; e um outro, que seria de ordem
subjetiva pois seu acesso implicaria o sentir ou pensar. Por conseguinte, desse
tipo de ontologia resultou várias dicotomias como: material/imaterial,
interno/externo, objetivo/subjetivo, etc. (Oliveira, s/d). Em função desses
impasses de dicotomias, determinadas psicologias ora eram condenadas por
externalismo, objetivismo ou mecanicismo, ora eram ao contrário, condenadas
por subjetivismo ou internalismo.

Por sua vez, a subjetividade se tornou também refém de uma


ontologia substancial, de forma que mesmo sendo considerada de natureza
objetiva ou subjetiva ela deveria ser encontrada no espaço, num lugar que
obviamente seria no interior do sujeito. Ademais, além de substancial a
subjetividade ainda era concebida por muitas abordagens como estática. E por
mais que houveram tentativas de superação desses limites epistemológicos, ao
exemplo da metodologia materialista dialética utilizada através da psicologia
social latina americana, ainda se observa em algumas teorias a herança do
positivismo objetivista que pode ser ilustrado pela psicologia quantitativa
incorporada nos testes psicométricos ou na mensuração de “aspectos” dessa
subjetividade como inteligência, personalidade ou comportamento (Oliveira,
s/d).

Como podemos observar, ao refletirmos de modo sintético os


pressupostos ontológicos e epistemológicos que estruturaram as psicologias no
estudo da subjetividade historicamente, encontramos a presença de muitas
lacunas através das dicotomias e das limitações teóricas de modo geral, algo que
implicará é claro, na reduzida possibilidade de intervenção da prática
profissional diante dos muitos desafios impostos pelo sujeito moderno. Talvez
nossa ciência aqui necessite de uma certa “moratória”, ou seja, como bem
adverte Dunker (2002): “um espaço e um tempo para dialogar consigo mesma,
para se interrogar e, assim, encontrar saídas na grande transitoriedade que
caracteriza o fluxo das demandas humanas”.

Além do mais, é uma reflexão das bases teóricas (onde se coloca em


xeque seus dispositivos conceituais) da categoria de subjetividade tão utilizada
no discurso psicológico que possibilitará a emergência de propostas mais
amplas, aprofundadas e que dê conta dos desafios das transformações nos modos
de subjetivação pelo qual passa o sujeito do capitalismo na contemporaneidade,
no sentido de proporcionar um maior diálogo com a filosofia, com a psicanálise,
com os estudos culturais e as questões atuais no plano da política, da economia e
da sociedade, diálogo, o qual, Žižek nos oferece em seus escritos.

É desse modo, que na sequência será exposta uma proposta no


intuito de contribuir (conceitualmente e ontologicamente) para um maior e mais
amplo entendimento da subjetividade. Para tanto, se faz relevante uma maior
descrição a respeito da necessidade e justificativa de uma proposta de reflexão
da categoria subjetividade, através de uma explanação da atual conjuntura de
nosso tempo histórico-social, ao lado de um sucinto esboço dos principais
aspectos a serem explorados na teoria filosófica e psicanalítica contidos no
pensamento de Žižek.

Antes de mais nada, é imprescindível versar a respeito dos


pressupostos teóricos na obra de Slavoj Žižek, uma breve apresentação do autor
é de suma importância para nos situarmos perante o seus pressupostos teóricos e
seu contexto intelectual. Nascido na Eslovênia, Slavoj Žižek tem se destacado
nos últimos anos no cenário intelectual como uma grande referência nas
reflexões críticas do nosso tempo atual, abordando diversos temas, muitos
aparentemente distantes, no entanto o filósofo esloveno transita por temas
ligados desde à ontologia, filosofia da ciência, filosofia política, crítica da
ideologia, ética, globalização, espaço cibernético, estudos sobre cinema, música,
literatura, cognitivismo, teologia, dentre outros. Tudo isso é possível em apenas
um pensador, pois o mesmo tem como base fundamental de referência a filosofia
idealista e a dialética especulativa de Hegel no qual o “o espírito é um osso”, e
um diálogo constante com outros idealistas alemães, além da psicanálise
lacaniana e o marxismo. Este último que lhe oferece bases para uma “paixão”
por um certo heterodoxo materialismo (talvez uma combinação de um
estruturalismo formalista aplicado à concretude das práticas sociais).

Por essas vias o filósofo consegue articular vários temas com uma ampla
gama de recursos teóricos e conceituais. Essas são as três principais fontes
teóricas da qual o filósofo esloveno parte na sua elaboração conceitual e crítica,
sempre em diálogo com outros pensadores de peso como Heidegger, Derrida,
Deleuze, Foucault, Agamben, Alain Badiou e outros. No que concerne ao seu
estilo literário, Žižek se destaca por aproximar temas da filosofia, psicanálise e
marxismo da cultura popular, tornando seu pensamento atraente e um pouco
mais claro e dinâmico do que os muitos textos herméticos sistemáticos da
academia.

Considerando a extensa obra e a diversidade de temas abordados em


seus livros, investigar as noções e perspectivas da subjetividade em Žižek se
torna um desafio, que exige priorizar o ponto de partida da qual ele concebe o
sujeito e a subjetividade, qual seja o pensamento lacaniano e a filosofia de
Hegel. Essas duas referências oferecem dois conceitos básicos. Do hegelianismo
a ideia de negatividade absoluta referida a ela mesma, da psicanálise a noção de
pulsão de morte. Nas palavras do próprio Žižek:

Isso está bem no centro do que faço em linhas


gerais. Minha tese básica é que o traço central
da subjetividade no idealismo alemão – essa
ideia dessubstanciada da subjetividade como
uma lacuna na ordem do ser – é compatível
com a ideia do “objeto pequeno a”, que todos
sabemos, é uma falta para Lacan ( Žižek e
Daly, p. 79. 2004).

Focar no nosso “objeto” de estudo, requer saber que a subjetividade


irá aparecer como tema não só quando vier à tona seu significante, mas também
quando a temática de reflexão estiver em interface com outros aspectos, seja do
campo da filosofia abstrata, seja da ordem das práticas sociais ou políticas, isto
é, a atenção deve estar voltada para a totalidade abrangente das análises
filosóficas ou de conjuntura, em que podemos encontrar a possibilidade das
implicações teóricas de seus conceitos para o pensamento psicológico crítico.

Ainda sobre os pressupostos teóricos de Žižek, é interessante


destacar o porquê da sua opção por Lacan, ou pela sua escola de psicanálise.
Segundo o autor, a teoria de Lacan torna-se interessante e chamativa por seu teor
filosófico. Nesse sentido a psicanálise não seria considerada uma técnica de
tratamento de distúrbios psíquicos, mas uma teoria e prática que põe os
indivíduos confrontados com a dimensão mais radical da existência (Žižek,
2006,). Longe de ser uma atividade que procura ajustar o sujeito às demandas da
“realidade” social, a psicanálise procuraria mostra ao sujeito como essa realidade
se constitui. Daí podemos já observar as interrogações do estatuto ontológico
que a psicanálise nos proporciona, se constituindo, ao meu ver, uma prática que
pode ser muito subversiva, do ponto de vista individual ou mesmo social.

Talvez seja por aí uma das motivações que nos lançam a um


possível retorno do diálogo constante e permanente das ciências humanas, de
modo especial da psicologia interessada nas questões sociais, com a filosofia, de
forma a expandir cada vez mais os conceitos, afim de, alcançarmos uma maior
compreensão da nossa realidade humana e social na contemporaneidade.

Abre-se, portanto na sequência um espaço para propormos uma


articulação sucinta dos processos de desenvolvimento das forças de produção no
capitalismo atual, de modo a abarcar as configurações da atual lógica de
dominação do capital, e as formas de organização do trabalho nesse novo
cenário com os modos e normas de socialização e portanto, de “subjetivação”.
Essa tentativa nos serviria como exemplo para compararmos uma tradicional
análise da subjetividade, no caso relacionado ao trabalho, com uma possível
ampliação do conceito a partir da filosofia de Žižek, e por conseguinte, poder
verificar as possiblidades de diálogo, interface ou implicações entre uma
subjetividade psicológica, tradicionalmente concebida e a subjetividade
compreendida pela psicanálise lacaniana.

Nessa tentativa de aproximar a análise psicológica da subjetividade


e a análise do sistema econômico, observa-se que nas relações entre
sociabilidade, trabalho e linguagem, mais um elemento de mediação necessita
ser incluído, a saber, a ideologia, a qual, articula contraditoriamente a lógica
necessária de expansão do Capital ( que é uma relação social) e os modos do ser
subjetivo na vida, expressos nos hábitos, comportamentos, valores e padrões de
relações afetivas.
Seguindo tal abordagem, é pertinente, primeiro desenvolver uma
tentativa de descrever sinteticamente e bem a grosso modo, o cenário
contemporâneo do mundo do trabalho. Segundo Harvey (1992, p. 138) vivemos
no atual contexto àquilo que foi denominado como reestruturação produtiva,
iniciado por volta da década de 70, com as revoluções técnico informacionais
instaurando um novo modo de acumulação produtiva, a acumulação flexível.

Esse regime de acumulação flexível tem um impulso enorme a


debilitar o mundo do trabalho, promovendo alterações importantes na
objetividade (e subjetividade) da classe de trabalhadores assalariados. (Alves,
2011, p.12). As novas condições do novo complexo de reestruturação produtiva
são as inovações tecnológicas e sociometabólicas e as inovações
organizacionais. As estas inovações organizacionais atribui a influência da
emergência do toyotismo que permeia o novo complexo de reestruturação
produtiva do capital. E essas inovações organizacionais possuem um nexo
essencial com a subjetividade do novo trabalhador moldado pelo toyotismo.

Por essa sucinta descrição em relação às transformações no mundo


organizacional, constata-se que a ideia de um capitalismo frio, industrial,
taylorista e indiferente à “interioridade” humana foi ao longo do tempo sendo
contrariada. Hoje os sentimentos, os afetos e todos os outros aspectos que
supostamente compõem a subjetividade se infiltraram no mercado e nos meios
corporativos. Essa é uma ideia compartilhada por Eva Illouz(2011, p.11) a qual
defende a tese de que a “criação do capitalismo caminhou de mãos dadas com a
criação de uma cultura afetiva intensamente especializada”. Dessa forma, a
psicologia não caiu apenas de “paraquedas” nesse novo modo de produção dito
de “capitalismo afetivo” atendendo suas demandas, mas ao contrário, fez parte
ativamente da construção desse novo modelo de sociabilidade através do
discurso terapêutico, das psicometrias, da gestão de pessoas, etc. onde a
subjetividade entrava como protagonista em todas as esferas da totalidade social.

Portanto, constituiu-se assim uma cultura de intensa valorização dos


afetos, dos sentimentos, das emoções, do comportamento, das habilidades
sociais, da inteligência emocional, da autogestão, etc. Vários outros valores
fetiche poderiam ser citados no novo discurso onde as injunções pró-neoliberais
bombardeiam a singularidade de cada sujeito. Será apenas essa então, a
subjetividade psicológica que foi de fato capturada pelo capital? A impressão
que se tem é que essa “riqueza” interior do sujeito, a experiência fenomenal de
si, constitui então a subjetividade posta em xeque anteriormente pela crítica do
capitalismo? O que pode ser negado nesta concepção clássica de subjetividade
e/ou que pode ser acrescentado a ela? Vejamos as implicações de Slavoj Žižek.

Primeiramente deve se referir à ideia de sujeito concebida por Žižek


como foi por Lacan, pois é o sujeito desprovido de substância que pré-existe
como fundamento da subjetividade (Bazzanella, p.24. 2009). Então para
falarmos da subjetividade é necessário antes tentar conceituar o sujeito e como
dissemos, este não é concebido como uma ordem positiva ou consciente, ou
inconsciente, não se trata de associá-lo ao eu pensante do qual se interessa a
psicologia do ego. O sujeito em Lacan é “barrado” e está marcado por uma
divisão e sua principal característica é estar situado entre o eu e o inconsciente. É
seguindo nessa definição negativa que Žižek conceberá o sujeito: desprovido de
algo substancial precedente, ou de qualquer outro fundamento que o determine,
assim, nessa perspectiva há uma indeterminação pretérita e futura em relação ao
sujeito em sua natureza e ao seu vir a ser. Ele, o sujeito, está totalmente sem
garantias, vinculado radicalmente na contingência e por isso mesmo pode ser
responsável pelo o que pode se tornar.

No processo de subjetivação, o sujeito na condição de vazio


primordial constitutivo é a sua pré-condição e a impulsiona. Mas ao mesmo
tempo, o sujeito não é complementado pela subjetivação, ele resiste a ela, pois é
falta e excesso simultaneamente em todas as formas de subjetivação.
(Bazzanella, p.26,2009).

Nessa perspectiva a distinção entre o sujeito (agente não psicológico


“barrado”) e a “pessoa” tem de ser feita. “O que está por trás da tela da riqueza
da ‘vida interior’ de uma pessoa não é a ‘realidade objetiva’, mas o próprio
sujeito...” (Žižek, p.123,2012). Esse vazio ou o nada “é” o sujeito e a nossa
tarefa segundo Žižek (p.422, 2012), é não preencher esse vazio com nada
evitando a projetar nele o lodo repugnante chamado “riqueza da personalidade”,
nenhuma riqueza de experiência pode preencher esse vazio. Assim, obtemos
uma formulação que subverte a noção clássica e comum do sujeito como lugar
da experiência fenomenal de si.

A sensação que nós temos é a da experiência de uma riqueza de nossa


“vida interior”, de uma profunda intimidade; em contraste com a nossa
identidade pública ou simbólica ( pai, professor, etc.). A primeira lição da
psicanálise diante disso, portanto, seria recusar a aceitar essa suposta “riqueza de
nossa vida interior”. Ela seria falsa, porque implicaria um distanciamento
mentiroso, “cuja função seria salvar as aparências, tornar palpável (acessível a
meu narcisismo imaginário) minha identidade sociossimbólica (Žižek, p.31,
2011). Para o filósofo, a ideologia agiria ao lado dessa suposta falsa intimidade e
uma das maneiras de fazer a crítica da ideologia é desmascarar essa hipocrisia da
“vida interior”( ou a separação de minhas crenças particulares da minha prática
pública objetiva). Portanto, a pseudoprofundidade de uma pessoa denunciada
aqui é colada em evidência e o eu psicológico pode ter sérias implicações diante
dessas colocações. Esta constatação nos coloca diante da necessidade de
investigar os desdobramentos teóricos e por conseguinte práticos em psicologia
ao se levar até as últimas consequências as formulações e revisões conceituais
anteriores.

Ademais, para Žižek uma ideia fundamental se segue após a


conclusão do descentramento do sujeito, a saber, a noção fundamental de
substituição primordial e a interpassividade. Ao afirmar a noção lacaniana de
descentramento do sujeito, significa dizer, que os meus sentimentos mais íntimos
podem ser externalizados, ou seja, podem ser deslocados para o outro, eu posso
sentir, experimentar e agir através do outro. Essa noção de interpassividade
representa segundo Žižek ( 2006), a condição necessária e mais fundamental
para a constituição da subjetividade. Para se tornar um sujeito ativo a única
maneira é se desvencilhar da passividade inerte característica da condição
primordial da própria substância ontológica. Para min ser ativo tenho de sê-lo,
através de um puro devir esvaziado de qualquer positividade ontológica
colocando minha passividade em um outro.

Portanto, de acordo com o funcionamento da interpassividade, pode-


se afirmar que diante da polêmica envolvendo o sujeito nas ciências humanas ele
não é nem caracterizado como passividade nem por atividade autônoma, como
pensam várias abordagens teóricas. Aqui se abre um espaço para a possibilidade
de uma terceira via, característica muito presente da argumentação de Žižek,
qual seja, a da interpassividade, que não caracteriza o sujeito nem como passivo
diante das superestruturas, muito menos como ativamente autônomo. É
necessário pensar para além dessa oposição. Logo a baixo um exemplo de como
a ideologia nos coloca diante de uma dualidade perigosa:

Esta análise permite assim propor a ideia de falsa


atividade, que não é alias, desprovida de interesse: eu
penso que sou ativo, quando minha verdadeira posição
encarnado no fetiche é passiva. E não encontramos algo
de inteiramente equivalente a esta “falsa atividade” no
paradoxo da predestinação? – as coisas estão
previamente decididas, a minha posição subjetiva em
relação ao destino é a de uma vítima passiva, o que me
incita quanto à dimensão ativa do meu ser, a lançar-me
numa atividade frenética incessante. Este foi o grande
paradoxo da ideologia espontânea do capitalismo nos
seus primórdios: em vez de imobilizar, essa teoria da
predestinação, isto é, essa consciência de que tudo está
perdido, leva-me a trabalhar freneticamente ( Žižek,
p.33, 2006).

Como podemos observar, ao articular a crítica da subjetividade com a


crítica da ideologia, Žižek nos permite ampliar a compreensão de certos
fenômenos e desse modo, criar possibilidades de escapar das armadilhar teóricas
ou mesmo ideológicas. A afirmação da terceira via que quebra com a lógica dual
e as falsas oposições é um exemplo fundamental na medida em que contribui até
mesmo para elaboração de intervenções práticas, inclusive no campo da
psicologia social comunitária.

Em um artigo intitulado “intervenções psicossociais em comunidade,


contribuições da psicanálise” os autores trazem uma proposta praxiológica de
intervenção em comunidades a partir da contribuição de conceitos da psicanálise
lacaniana. E uma dessas contribuições se referia exatamente à noção de terceira
via, aplicada à leitura política de um determinado grupo ou comunidade.
Segundo os autores é preciso traçar outro caminho alternativo para além das
alternativas marcadas, é construir a terceira via, “aquela na qual eu não escolho
apenas entre duas ou mais opções no interior de um conjunto prévio de
coordenadas, mas escolho mudar o próprio conjunto de coordenadas (Žižek
citado por Junior e Ribeiro, 2009). Ou seja, a única possibilidade de
transformação efetiva de todo ou qualquer grupo ou comunidade passa pela
quebra da lógica dual, o que leva a priorizar em uma comunidade a construção
conjunta de uma terceira via.

Esse exemplo posto a cima, das possíveis contribuições advindas de


conceitos da “teoria social da psicanálise” para intervenções psicossociais, nos
mostra a viabilidade teórica e também prática da aproximação conceitual que
podemos fazer da análise do pensamento de Žižek com a teoria psicossocial,
bem como, sua relevância para o avanço dos estudos da subjetividade na atual
conjuntura social e política.

REFERÊNCIAS

ALVES, Giovanni. Trabalho e subjetividade; o espírito do toyotismo na era do


capitalismo manipulatório. São Paulo: Boitempo, 2011.

BAZZANELLA, S. Os pressupostos da filosofia política de Slavoj Žižek. In:


GUERRA, E. e TELES, I. (orgs). Lacunas do Real: Leituras de Slavoj Žižek.
Florianópolis. Ed. NEFIPO. 2009. p.24, 26.

HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola, 1992.

ILLOUZ, Eva. O amor nos tempos do capitalismo. Rio De Janeiro, Ed.


Zahar, 2011. P.11.
JUNIOR, N. L.; RIBEIRO. C.T. Intervenções psicossociais em comunidades:
contribuições da psicanálise. Psicologia e Sociedade. São Paulo. v.21 n.1 p.91-
99. 2009.

OLIVEIRA, W. Subjetividade sob uma perspectiva histórico-cultural. ITECH-


instituto de terapia e estudo do comportamento humano. Campinas. Sem Data.

ŽIŽEK, S. DALY, G. Arriscar o impossível: conversas com Žižek. Martins


Fontes. São Paulo. p. 79. 2004

ŽIŽEK, Slavoj. A subjetividade por vir. Lisboa. Relógio D´água. 2006 p.35, 36.

ŽIŽEK, Slavoj. Como ler Lacan. Rio de Janeiro. Zahar, 2006.p.10.

ŽIŽEK, Slavoj. Em defesas das causas perdidas. São Paulo. Boitempo, 2011.
P.31.

ŽIŽEK, Slavoj. Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético.


São Paulo. Boitempo, 2012 p.123, 422.

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