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Nietzsche em Lima Barreto e cultura pop

Nas férias conferi um café filosófico, este apresentado por Daniel Lins, de modo que os mesmo
tratava de Nietzsche e de pensadores como Deleuze, Foucault e Freud, além de mostrar que no Brasil
Nietzsche é um fenômeno bem mais antigo, mas de um pensador que era pessoa não bem tratada, ou seja,
Lima Barreto, que por ser negro não conseguia espaço nas universidades de sua época, segundo o
palestrante. Mas Nietzsche ganhou mais fama na literatura e cinema de últimos tempos, além de ser já
admirado de temp0o na área de estética. No Brasil, contudo ele disse que Nietzsche não entra em
universidades, mas não foi o que conferi em meu curso de filosofia, talvez por ser mais recente.

De começo, se não me engano, foi Lima Barreto que disse que o Brasil não tem cabeça filosófica.
Esse pensador nacional fazia grupos de estudo onde discutia temas filosóficos com estudo de Nietzsche,
segundo o palestrante. Já um amigo de Lima Barreto, outro pensador nacional, Sílvio Romero, teria dito a
medalhões da intelectualidade, algo que chocou em seu tempo: a metafísica está morta. Assim perguntado
se foi ele que matou a metafísica, este teria respondido: não fui eu, mas sim o espírito positivo, a ciência e
o progresso. Claro que aí notamos um fenômeno intelectual brasileiro anterior, que se fixava em Auguste
Comte. Mas Nietzsche invadiu a intelectualidade nacional, tendo agora inclusive revista de estudos,
trabalhos acadêmicos e um bom material de produção acadêmica e nacional. Teorias como a do super
homem, que em alemão se refere a além do homem, Zaratustra, vontade de potência, eterno retorno,
dentre outros termos, já são da compreensão da intelectualidade nacional, ao menos em termos. Os
intelectuais antes de Recife, na chamada Escola de Recife, na Faculdade de Direito de Recife, com o além
de Lima Barreto, também em Joaquim Nabuco, Clarice Linspector, Oswald de Andrade, dentre outros,
chegando até Gilberto Freyre. Isso influenciou movimentos nos anos de revolução militar, em
manifestações musicais como de Caetano Veloso, em música “É Proibido Proibir”, bem como em Chico
Buarque, em Cálice, onde a letra ao menos se inspira em influência do existencialista alemão. A escola de
Recife queria deixar um pouco a escola francesa de filosofia e buscar a escola alemã. Tanto que Lima
Barreto sabia bem o alemão e teria lido as obras de Nietzsche em alemão. Também Charles Feitosa, em seu
doutorado de 8 anos na Alemanha, o teria lido na língua original. Mas mais recentemente Nietzsche ganha
capas de livros, camisetas, expressões artísticas, músicas, filmes etc, fazendo parte da cultura pop. A
filosofia não é apenas para filósofos, este entenderia. Sentir ficou mais necessário, que entender.

Via Nietzche o sofrimento como algo não para reparar uma culpa original ou de Adão, mas sim
como algo positivo, uma expressão de um ato de sacrifício e de saúde. Algo nem religioso, nem místico,
mas sim de saúde, de vontade de potência. A cultura popular faz de Nietzsche algo que ganha fama e
notoriedade, mas possivelmente não chega ao profundo pensamento do pensador alemão. Lima Barreto
era muito inteligente para tratar ele como algo popular, mas o buscava para demonstrar que era melhor
que todos, não importando sua raça, e do mundo acadêmico de seu tempo. Já a cultura pop fez de
expressões psicanalíticas de Freud algo corriqueiro, de termos como maquiavélico, platônico, inconsciente,
reprimido etc, que tem outro sentido para a filosofia e psicanálise. Nietzsche pode estar em camisetas e
capas de livros de romance, mas dificilmente é compreendido pela cultura pop e filosofia pop.

Mariano Soltys, filósofo e advogado