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ORIGINAL EQUOTER APIA COMO TR ATAMENTO

ALTERNATIVO PAR A PACIENTES COM


SEQÜELAS NEUROLÓGICAS

EQUOTHER APY AS AN ALTERNATIVE


TREATMENT FOR PATIENTS WITH
NEUROLOGICAL SEQUELS

Gabriela Faleiros Liporoni1


Ana Paula Rocha de Oliveira2
1
Graduanda do curso de Fisioterapia da
Universidade de Franca. RESUMO: a Equoterapia é o processo de reabilitação de pessoas com necessidades especiais,
2
Fisioterapeuta. Profª Mestranda da
Universidade de Franca.
que utiliza o cavalo como meio terapêutico. Na equoterapia, o cavalo atua como agente
cinesioterapêutico, facilitador do processo ensino-aprendizagem e de inserção ou reinserção
social. Durante a terapia, é exigida a participação do corpo inteiro do paciente, contribuindo,
assim, para seu desenvolvimento global. Quando o cavalo se desloca ao passo, ocorre o
movimento tridimensional de seu dorso, portanto, há deslocamentos segundo os três eixos
de movimento. Tais movimentos são transmitidos ao paciente pelo contato de seu corpo
com o do animal, gerando movimentos mais complexos de rotação e translação. As
conseqüentes informações proprioceptivas, ativadas no corpo do paciente, são interpretadas
por seus órgãos sensoriais de equilíbrio e postura exigindo novos ajustes posturais, para a
sua manutenção sobre o cavalo. Dessa forma, pacientes com seqüelas neurológicas podem
se beneficiar de terapias alternativas como a equoterapia. Esse trabalho tem como objetivo
realizar uma revisão da literatura sobre a utilização da equoterapia em indivíduos com
seqüelas neurológicas, com o intuito de auxiliar na reabilitação desses pacientes. Para isso,
foram utilizados materiais de diversas bibliotecas publicas e privadas, além de artigos
referentes ao tema e materiais disponíveis na Internet.
Palavras-chave: lesão neurológica; equoterapia; controle motor.

ABSTRACT: equotherapy is a process of rehabilitation for people with special needs which
uses a therapeutic horse. In Equotherapy, the horse acts as therapeutic kinesis. It is a
facilitating agent in the teaching-learning process and insertion or social interaction. During
the therapy, the participation of the patient’s entire body is required, thus contributing to its
complete development. When the horse moves, the three-dimensional movement of its
back occurs; therefore, it performs displacements according to three axles of movement.
Such movements are transmitted to the patient through the contact of his body with that of
the animal, which generates more complex rotation and translation movements. The
consequent proprioceptive information activated in the patient’s body is interpreted by its
sensorial agencies of balance and position, thus requiring new postural adjustments for
maintenance on the horse’s back. In this way, patients with neurological sequels can benefit
from alternative therapies such as the equotherapy. This study aimed at reviewing the
literature on the use of the equoterapy in individuals with neurological sequels with the
purpose of assisting in the physical therapy for these patients. To that end, materials from
various libraries, public and private, have been used in addition to reference articles on the
subject and materials available on the Internet.
Key words: neurological injury; equotherapy; motor control.

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INTRODUÇÃO mento nas Olimpíadas de 1952 e 1956. Este feito
Considerando-se que 10% da população hu- despertou profissionais de saúde para este recurso.
mana é portadora de algum tipo de necessidade Em 1954 surgia na Noruega a primeira equipe
especial, é preciso que as pessoas dedicadas à pro- interdisciplinar, formada por uma fisioterapeuta e
fissão terapêutica lancem mão de todos os recursos seu noivo, psicólogo e instrutor de equitação. No
disponíveis ao atendimento desta grande incidên- Brasil, este recurso terapêutico começou a ser va-
cia (FRAZÃO, 2001). lorizado em 1989, na Granja do Torto, em Brasília
(até hoje sede da ANDE – Associação Nacional
A cinesioterapia é essencial a estes pacientes
de Equoterapia) não por coincidência a residência
com seqüelas neurológicas, e associadas a esta, es-
do então presidente João Batista Figueiredo, um
ses pacientes podem se beneficiar de terapias alter-
militar da Cavalaria. Atualmente, a modalidade é
nativas como a equoterapia.
adotada em pelo menos 30 países e já existem pla-
Ao eleger uma forma de tratamento para os nos para a inclusão da equitação terapêutica como
pacientes neurológicos é importante que lembre- uma das modalidades esportivas dos Jogos
mos que a maior parte de sua reabilitação depen- Paraolímpicos de 2004 (ANDE, 2004).
de de sua própria motivação em relação à propos-
Em relação ao cavalo e ao ambiente, é im-
ta terapêutica que lhe será oferecida. A terapia uti-
portante que o terapeuta os conheça e aos estímu-
lizando cavalo pode ser considerada como um con-
los que eles oferecem, os movimentos do cavalo e
junto de técnicas reeducativas, que agem para su-
seus tipos de andaduras, quando se está montado
perar danos sensoriais, motores, cognitivos e
em sela ou em mantas ou estando em decúbitos
comportamentais, através de uma atividade lúdico-
ventral ou dorsal. Devem-se considerar todas estas
desportiva, oferecendo todas as condições julgadas
variantes ao se percorrer os diversos tipos de terre-
importantes ao tratamento destes pacientes
no que podem ser utilizados pela equoterapia,
(FRAZÃO, 2001).
dependendo do que pode ser visto como estímu-
A Equoterapia não é uma descoberta recente los úteis ao praticante (CIRILLO, 1998).
como recurso terapêutico. Nos tempos de
Hipócrates (458-370 AC) já era utilizada para pre-
venção da insônia, entre outros males, e na recu- A EQUOTERAPIA
peração de militares acidentados na guerra. A equoterapia é um método terapêutico e
Asclepíades de Prússia (124-40 a.C.) aconselhava a educacional que utiliza o cavalo dentro de uma
equitação como tratamento para epilepsia em di- abordagem multidisciplinar e interdisciplinar nas
versos casos de paralisia. Novas referências à áreas de Saúde, Educação e Equitação, buscando
equoterapia só voltaram a surgir no século XVI. o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas por-
Goethe a considerava benéfica na distensão da sua tadoras de deficiência física e/ou mental ou que
coluna vertebral, em razão das oscilações a que têm necessidades especiais (GREVE; CASALIS;
era submetido o cavaleiro. Depois de um novo BARROS FILHO, 2001). Ela já é utilizada há mais
período de indiferença e pouca consideração pelo de 30 anos na Europa e Estados Unidos. No Brasil
emprego terapêutico, logo após a I Guerra Mun- vem sendo desenvolvida desde 1989 (BOTELHO,
dial o cavalo voltou a ser lembrado. Os primeiros 1997) e tem sido descrita a sua eficácia e benefícios
a utilizá-los foram os escandinavos e os resultados (ANDE, 2000). A Equoterapia permite ao
obtidos estimularam o nascimento de outros cen- terapeuta interagir em múltiplos sistemas orgâni-
tros na Alemanha, França e Inglaterra (FRAZÃO, cos, oferecendo uma oportunidade ímpar para atin-
2001). gi-los num ambiente que pode enriquecer o mo-
Um exemplo clássico da época moderna é o vimento durante o seu desenvolvimento. No dor-
da amazona Liz Hartel, acometida de poliomieli- so do cavalo consegue-se tratar a musculatura cor-
te na idade infantil e que, não obstante a seqüela, poral global de forma natural, modulando o tônus,
conseguiu ganhar a medalha de prata em adestra- melhorando a postura, o equilíbrio, o ritmo, a co-

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ordenação, realizando alongamentos e possibili- praticante e mais duradouras. Apesar da pouca ten-
tando maior integração em atividades sociais. são muscular solicitada por esta andadura, a quan-
A Equoterapia torna o portador de necessi- tidade de repetições torna o exercício bastante in-
dades especiais menos dependente, traz benefícios tenso (CIRILLO, 1998; WICKERT, 1999). Dessa
para o corpo e para a mente, melhora o equilíbrio forma, não é recomendado que uma sessão dure
estático e dinâmico e aprimora a coordenação mais de 30 minutos.
motora. Os efeitos psicológicos decorrentes desse O cavalo oferece, ainda, movimentos de in-
método engrandecem a terapia (ANDE, 2000). clinações laterais de tronco para a transferência de
O cavalo pode movimentar-se de três modos: peso, rotações para dissociação de cinturas e movi-
ao passo, ao trote e ao galope. Nessas diferentes mentações de báscula anterior e posterior da pelve
andaduras, o cavalo não move os membros da pela movimentação de flexão e extensão do tronco.
mesma maneira, sendo que os movimentos do Simultaneamente, acontecem movimentos de
dorso são diferentes e os do praticante serão adap- aproximadamente 5 cm para cima e para baixo,
tados a qualquer movimento. Na realidade, ain- para frente e para trás, para a direita e para a es-
da parado, um cavalo raramente está totalmente querda, giros de 8º para um lado e para o outro
imóvel. Ele troca a pata de apoio, desloca a cabe- (torções). Todas as combinações destes movimen-
ça para olhar à esquerda ou à direita, abaixa e alon- tos são utilizadas ao longo do tempo da sessão.
ga o pescoço. Todas essas modificações de atitudes Este é o movimento tridimensional e
impõem ao praticante um ajuste no seu compor- multidirecional proporcionado pela andadura do
tamento muscular a fim de responder aos cavalo ao passo, que é transmitido ao praticante a
desequilíbrios provocados por esses movimentos partir de seu contato pela cintura pélvica (DURAN,
(WICKERT, 1999). 1999). Foi verificado através de pesquisas, que es-
O trote e o galope são andaduras saltadas. Isto tas oscilações ocorrem nos mesmos planos de mo-
quer dizer que entre um lance e outro, seja de tro- vimento humano e são interpretados como movi-
te ou galope, o cavalo executa um salto, existindo mentos fisiológicos, similares ao da marcha huma-
um tempo de sustentação em que ele não toca seus na, pelos canais semi-circulares do aparelho vesti-
membros no solo. Em conseqüência disso, seu es- bular.
forço é maior, seus movimentos mais rápidos e mais Além da mecânica descrita, podemos aprovei-
bruscos, e quando ele retorna ao solo, exige do tar as influências para integração sensorial e ao es-
praticante mais força para se segurar e para acom- quema corporal, originados pela sensibilidade su-
panhar os movimentos do animal (CIRILLO, perficial (tato, pressão, temperatura) e pela pro-
1998). Por isso, essas andaduras só podem ser usa- funda (discriminativa e vibratória), além da sensi-
das em equoterapia, com praticantes em estágio bilidade proprioceptiva e a identificação visual e
mais avançado. olfativa que o movimento do animal e o ambien-
te provocam (MARCHIZELI, 2000).
O passo, por suas características, é a andadura
básica da equitação e é com esta andadura que a A equoterapia, por meio do movimento
grande maioria dos trabalhos de equoterapia são tridimensional do dorso do cavalo, da sinérgica
executados. É uma andadura rolada ou marcha- ação da musculatura agonista e antagonista, para-
da; existindo um ou mais membros em contato lelamente aos efeitos neurofisiológicos e da espe-
com o solo; possui ritmo e cadência a quatro tem- cífica avaliação fisioterapêutica e vestibular com-
pos; é simétrica, uma vez que os movimentos pro- pleta, irá resgatar o mecanismo do reflexo postural
duzidos de um lado do animal se reproduzem de global, abolido após a lesão do Sistema Nervoso
forma igual e simétrica do outro lado, em relação (SN), impedindo-o de movimentar e realizar ati-
ao seu eixo longitudinal. É a andadura mais lenta, vidades complexas, mantendo a postura e o equi-
por isso as reações que ela produz são mais lentas líbrio.
e fracas, resultando em menores reações sobre o Tomando como base que o tratamento ofere-

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ce muito alinhamento postural e posicionamento, - ensina a importância de regras como a segu-
o fisioterapeuta busca, basicamente, a estimulação rança e a disciplina;
do equilíbrio e a modulação do tônus muscular, o - promove a sensação de bem-estar, motivan-
ganho sensorial e motor e uma maior indepen- do a continuidade do tratamento.
dência ao praticante, estimulando-o como O cavalo oferece uma diversidade de movi-
participador da terapia (MORELLI et al., 2001). mentos que podem ser aproveitados enquanto se
está sobre o seu dorso. Entretanto deve-se obser-
FISIOTERAPIA APLICADA A EQUOTERAPIA var que há limites relativos à patologia do prati-
cante que devem ser respeitados. Como exemplo,
A atuação da fisioterapia se dá sobre o quadro podemos ressaltar:
clínico da patologia apresentada pelo praticante - quadros inflamatórios e infecciosos;
indicado para o tratamento (BRACCIALLI, 1998). - cifoses graves e escolioses acima de 40 graus
De acordo com Ande (2000), dentre muitos, po- (evitar posturas verticais);
dem ser destacados os seguintes benefícios:
- luxação e subluxação de quadril;
- melhora o equilíbrio e a postura, através da
- extensão cruzada de membros inferiores e
estimulação de reações de endireitamento e de
espasticidade sem mobilidade;
proteção;
- crises convulsivas;
- desenvolve a coordenação de movimentos
entre tronco, membros e visão; - obesidade (risco à segurança, maior quando
associada a hipotonia);
- estimula a sensibilidade tátil, visual, auditiva
e olfativa pelo ambiente e pela atividade com o - alergia ao pêlo do cavalo;
cavalo; - medo excessivo;
- oferece sensações de ritmo; - problemas comportamentais do praticante
que coloquem em risco sua segurança própria ou
- desenvolve a modulação do tônus muscular
a da equipe.
e estimula a força muscular;
- desenvolve a coordenação motora fina; SUGESTÕES DE TRATAMENTO
- promove a organização e a consciência cor- Espasticidade
poral;
Como a lesão ocorre no SNC, há
- aumenta a auto-estima, facilitando a desequilíbrio entre o sistema inibidor dos movi-
integração social; mentos reflexos e o facilitador, a atividade alfa-
- estimula o bom funcionamento dos órgãos motora do fuso muscular fica potencializada e o
internos; sistema gama fica hiperativo (GUYTON, 1993).
- aumenta a capacidade ventilatória e a O praticante apresenta-se com os seus reflexos exa-
conscientização da respiração; cerbados e os seus membros permanecem em
- melhora a memória, concentração e seqüên- flexão ou extensão, e seus movimentos são rígi-
cia de ações; dos. O tratamento deve evitar situações de medo e
frio, por aumentarem o tônus muscular. É impor-
- motiva o aprendizado, encorajando o uso
tante que se ofereça uma base estável (um cavalo
da linguagem;
que propicie esta superfície em sua andadura) e
- ajuda a superar fobias, como a de altura e a que se iniba seus movimentos, associados com
de animais; manipulações em rotações através da dissociação
- estimula a afetividade pelo contato com o de cinturas escapular e pélvica, oferecendo-se uma
animal; boa estabilização na pelve. É importante também
- aumenta a capacidade de independência e que se incentive a execução de movimentos seleti-
de decisões; vos com o máximo de simetria (ANDE, 2000).

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Hipotonia sos e mudança progressiva de terreno. É interes-
Devido à redução da prontidão para a ação sante que se aproveitem os ganhos com o controle
encontrada nos músculos, as alterações posturais do equilíbrio nas sessões de outras formas de tera-
podem ocorrer conforme a ação da gravidade e pia, para que não haja interrupção dos benefícios
também pela possibilidade de o praticante apre- alcançados.
sentar instabilidade articular. Seu programa de tra-
Incoordenação motora
tamento deve incluir atividades com trabalho ati-
vo contra a ação da gravidade, havendo casos em Além de todos os movimentos de ajustes
que já pode ser suficiente o praticante conseguir posturais, alternância de movimentos com os bra-
manter seu tronco em ortostatismo (ANDE, 2000). ços e dissociações de cinturas que são exigidos para
É preferível que o trabalho seja executado em su- se permanecer montado e que devem acontecer
perfície instável, de modo controlado e orientado em seqüência, já estimulando toda a coordenação
pelo fisioterapeuta, dentro do que pode ser bem motora grossa, ainda se pode estimular o pratican-
te de várias outras maneiras, de acordo com a
assimilado pelo praticante.
criatividade. Pode-se tocar no animal, pegar alguns
Plegia ou paresia pêlos com movimentos de pinça com uma mão e
Seu tratamento segue os princípios da teoria passá-los para outra mão; apanhar objetos enquan-
da plasticidade do SN, no qual as células que sobre- to está montado, com ou sem movimentos do ca-
viveram à lesão criem novos engramas para executar valo; estimular sua motricidade fina, trabalhando
com rédeas, por exemplo, ou escovar o cavalo com
as tarefas das células lesadas (ROWLAND, 1997).
movimentos de grandes e pequenas amplitudes
Devido à tendência que este praticante tem (ANDE, 2000).
de utilizar somente o lado sadio, ocorre a dimi-
nuição das sensações e consciência e a conseqüen- Falta de orientação espaço-temporal
te negligência do lado acometido. Deve-se orien- Primeiramente, é importante que o pratican-
tar e estimular o praticante a trabalhar o segmento te perceba que está no ambiente do cavalo, próxi-
lesado a partir da repetição de manobras passivas mo ao animal, tocando-o e, também, montando
e ativas que lhe sejam possíveis de realizar. O tra- nele, parado ou em movimento. Devemos facili-
tamento visa descarregar o peso do praticante so- tar-lhe a compreensão de que o animal é vivo e
bre o lado plégico ou parético, sempre que for que tem movimentos interessantes de serem
montar ou apear, bem como nas demais ativida- aproveitados.
des da sessão. Com o praticante montado, já ocor- Com o praticante montado, pode-se passar
re estimulação bilateral na pelve, pela transferên- com o cavalo “desenhando” trajetos com formas
cia de peso que são causadas pelas inclinações late- conhecidas pelo praticante, como círculos e qua-
rais e rotações provocadas pela andadura do cavalo. drados. Segundo a Ande (2000), pode-se passar em
É comum o praticante apresentar quadro de trajetos sinuosos, desviando de árvores, ir para di-
espasticidade com padrão flexor dos membros su- reita e à esquerda, atingir tal ponto localizado adi-
periores. Podem-se executar as manobras em ante e retornar ao ponto de partida, por exemplo,
diagonal (CHAGAS, 2000) e usar os estribos para avaliando-se o tempo gasto para percorrer tal tra-
se realizar a transferência de peso e também para jeto. Trabalhar lateralidade com os próprios seg-
sensibilizar os membros inferiores e lhes dar no- mentos do corpo do praticante, com objetos, pas-
ção de simetria. sando-os de um lado para outro, aproveitar a pre-
sença de outros cavalos por perto, plantas, em um
Déficit de equilíbrio dos lados. Fazer deslocamentos beirando cercas,
De acordo com Ande (2000) deve-se estimu- sempre aproveitando o ambiente.
lar o sistema vestibular e o cerebelo com diversos
graus de dificuldade a serem vencidos e ultrapas- Alterações posturais
sados pelo praticante, desde trajetos fixos a tortuo- No tratamento das alterações posturais, pode-

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mos ter como objetivo oferecer situações de ter sua face voltada para uma direção que lhe seja
ortostatismo de tronco, para se buscar a estimulação interessante, ou situação que ocupe suas mãos en-
mais correta do equilíbrio, a conscientização e cor- quanto montado, como segurar na alça da sela,
reção postural, ou melhor, funcionamento visceral. provocando-se instabilidade pela retirada dos es-
Pode-se ainda, adotar posturas em decúbitos, com tribos ou pela alternância de andaduras do cavalo,
o objetivo de se estimular a integração sensorial e por exemplo (CHAGAS, 2000).
o relaxamento, enfatizando a conscientização da
ventilação pulmonar assim como do esquema cor- Movimentos coréicos e atetósicos
poral. Para o tratamento da coréia, deve-se oferecer
Outra maneira de se estimular correções de boa base de apoio, fixando o ponto-chave da cin-
posturas pélvicas é a partir da escolha dos cavalos. tura pélvica e proporcionar relaxamento e reco-
Um cavalo com a frente mais alta tende a inclinar nhecimento do corpo.
a pelve do praticante para trás, ele tem que forçá- A atetose requer uma estimulação gradual
la à frente para não cair, enquanto que um cavalo por trabalhos simétricos com movimentos peque-
com a frente mais baixa estimula que o praticante nos e lentos. De acordo com Ande (2000), o prati-
force a pelve em retroversão. Situações semelhan- cante deve receber estabilização no ponto-chave
tes a estas descritas ocorrem com o cavalo em aclive da cintura pélvica e montar em superfície estável
e declive, respectivamente. (conforme estiver o estado do seu tônus muscu-
A mobilização das estruturas pélvicas também lar). Em ambos os casos, a fixação na base da co-
pode ser feita pela aceleração e desaceleração do luna serve para permitir que o praticante se orga-
animal. Ao se diminuir ou parar o movimento do nize a seu tempo e dentro de suas possibilidades a
cavalo, o praticante tenderá a tentar cessar o deslo- partir desta base mais estável.
camento do seu tronco com a retroversão de pelve.
Defensividade tátil
Atitude muscular contrária acontecerá no movi-
mento de início ou aceleração da marcha do cava- É uma alteração sensorial que induz a rea-
lo. Estas mobilizações, mesmo que de forma pas- ções adversas, físicas ou emocionais, a qualquer
siva, diminuem os efeitos da rigidez articular e do tipo de toque. A abordagem ao praticante deve ser
efeito de acomodação dos músculos das regiões precedida de aviso do que se vai fazer, evitando
envolvidas (ANDE, 2000). estímulos desnecessários ou toque sem utilidade
terapêutica. Deve-se estimular o toque em textu-
Relaxamento ras variadas, no pêlo, nos segmentos e nas crinas
O relaxamento é bem indicado para o início do cavalo, por exemplo (ANDE, 2000). O traba-
dos trabalhos de correção postural a partir da lho deve abranger posturas que visem à estimulação
conscientização corporal que ele proporciona. Ele das regiões ventrais do praticante aproximando-lhe
deve ser buscado em grande parte das situações na do animal e tocando-lhe com o corpo.
equoterapia com segurança e conforto. Existem
alguns meios para se facilitar que o praticante atin- Ataxia
ja essa situação. Ele pode ser realizado em decúbito Em seu tratamento, busca-se o trabalho mais
ventral ou dorsal estando sobre a garupa do cava- participativo do praticante em atividades que lhe
lo, sempre em ambiente calmo (CHAGAS, 2000). sejam solicitadas, estando montado em cavalo que
ofereça superfície estável e com um bom apoio de
Estereotipias fixação no ponto-chave de sua cintura pélvica
O que ocorre é um ritualismo motor, há repe- (ANDE, 2000).
tição de movimentos nas mãos e/ou na face do
praticante, como o gesto de “lavar as mãos”, ou Deficiência mental
colocá-las na boca. Nestes momentos, podem-se Há limitações em suas capacidades intelectu-
criar situações que estimulem o praticante a man- ais e possuem outros fatores que estão associados,

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como déficit na habilidade motora, na percepção, hos são acompanhados de modulação do tônus
na linguagem e no seu controle comportamental muscular, melhora da força muscular, do controle
(DIAMENT; CYPEL, 1996). Nestes casos, pode- de tronco, do equilíbrio, da coordenação motora,
se trabalhar a coordenação motora e a integração precisão nos movimentos voluntários e, conseqüen-
sensorial com jogos e brincadeiras sobre o cavalo temente, maior independência funcional dos pra-
com estimulação da comunicação, estabelecimen- ticantes.
to de regras e limites, a partir dos cuidados com o Esses progressos são obtidos através dos mo-
próprio cavalo, seja no picadeiro ou nas baias, en- vimentos tridimensionais e das inflexões laterais
tre outras criatividades a serem empregadas. provocadas pelo cavalo que potencializa a
circuitaria sináptica envolvida na motricidade vo-
DISCUSSÃO luntária, evocando maior controle motor e que são
retidos pelo processo de aprendizado motor que é
Segundo Sá (1999) as dificuldades nas aquisi- dependente da própria execução do movimento,
ções em decorrência da lesão podem ser ameniza- através de pistas sensoriais e do repertório reflexo
das, pois, o SN mesmo lesado é uma estrutura plás- postural básico, da repetição e da plasticidade ce-
tica e responsiva à estimulação ambiental. Portan- rebral que está presente no indivíduo. Este último
to, devemos buscar a estimulação apropriada para baseado na plasticidade do homúnculo sensorial e
melhor proporcionar a reorganização deste sistema. das hipóteses da existência de células nervosas
Diversos estudos realizados mostram os be- quiescentes que podem assumir a função quando
nefícios da equoterapia em diferentes patologias esta é perdida ou ineficaz (KANDEL;
neurológicas. Robacher et al. (2003) analisaram os SCHWARTZ; JESSELL, 1997).
benefícios da equoterapia na marcha de pacientes
portadores de Paralisia Cerebral. Estes autores ob-
CONCLUSÃO
servaram melhora no comprimento dos passos e
menor tempo para percorrer distâncias Está comprovado que a equoterapia é uma
estabelecidas após tratamento equoterápico. proposta alternativa eficaz, uma vez que auxilia
Estudos realizados com autistas (FREIRE, na aquisição de padrões essenciais do desenvolvi-
1999) e suas alterações afetivo-comportamentais, mento, preparando o paciente para uma atividade
com deficientes visuais (TEIXEIRA, 1999; SILVA, motora subseqüente mais complexa, ampliando a
1999), com crianças com distúrbios da aprendiza- sua socialização dando condições para que pos-
gem e do comportamento (ZENKER, 1999), e com sam desenvolver simultaneamente outras habili-
lesados medulares (ROSA, 1999) mostraram os dades que estão internamente relacionadas com o
benefícios da equoterapia nas aquisições sensório- desenvolvimento da capacidade motora global.
motoras, na flexibilidade e controle de tronco, no
aprendizado, na conscientização corporal e na REFERÊNCIAS
melhora comportamental. Pacchiele (1999) de-
monstrou a eficácia da equoterapia em pacientes ALVES, C. N.; PETTENUZZO, T. S. A.;
com Acidente Vascular Cerebral (AVC) no equilí- KLIMIUK, B. R.; SANTOS, R. V. Equoterapia e
brio e na marcha, na adequação da postura, na o alinhamento do tronco na postura sentada do
conscientização do membro lesado e na modula- paralisado cerebral. Revista Equoterapia, v. 7, p. 5-
ção do tônus muscular. Em outro estudo, Alves et 10, 2003.
al., (2003) verificaram a influência da equoterapia
ANDE – Associação Nacional de Equoterapia.
no alinhamento do tronco na postura sentada de
História da equoterapia no mundo. Brasília: ANDE,
pacientes com paralisia cerebral.
2000.
Podemos, através desses estudos, mostrar que
a equoterapia incrementa o controle motor nas ANDE – Associação Nacional de Equoterapia. His-
atividades funcionais estáticas e dinâmicas e os gan- tória da equoterapia no mundo. Brasília: ANDE, 2004.

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ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA


Setor de Neurologia – Universidade de Franca
(UNIFRAN).
Endereço para correspondência: Av. Armando
Salles de Oliveira, 201, Parque Universitário –
Franca – SP. Telefone: (16) 3711-8720
e-mail: anaproliveira@aol.com

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