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Neurofisiologi~

da Música

capítulo 12 C.R. Douglas

Conceitos preliminares posiciona e cria uma resposta defini~amente emq-


. tiva - de aceitação ou de repulsão - que, por sua vez,
, Contemplando as atividades !1Um~nas,observa- com freqüência dá lugar a respostas motoras,
se que a mú&ic~ esteve sempre dentro, ou mais como o demonstram o mesmo baile ou danças
ainda, no íntimo de qualquer função que o homem ritUais leves de contorção, por exemplo,ou a mais
desempenhasse, independente de sua cultUra ou sólita das resposta, a cantada que, muitas vezes,
grall evolutivo da mesma, cOmOtambém, seja por passa arepresentar um fenômeno que pode cheg~r
motivo de alegria - pessoal ou coletiva - seja por a ser mais conspícuo que a, me,sma música que a
tristez~ e aflição ou, mesmo consternação social. propulsara, mas na qual, a sua inçerpretação sonora
Desde tempos muitos primitivos, até na atUalida- trata de imitar a mesma música, embora sem neces-
de, uma festa motivada por qualquer razão, é acom- sariamente exigir a sua presença in loco, como no
panhada de música, e 'que muitas vezes, passa a coro a capela ou no canto gregoriano, nos q uais o
constituir o centro do 'mesmo festejo, mais ainda, instrumento musical passa a ser a mesma voz, ou
habitUalmente também se traduz por dança. Não canto, que então constituiria o meio único de
'haveria dança sem música que a conduza; aliás, indução do som musical. Dai, poder-se-ia discutir
movida por motivações muitos diferentes, embora se foi a música instrumental que levou ao canto, ou
como ritl,lais, no transfundo da motivação da ex- viceversa, se este como expressão primária fizesse
pressão rítmica. Motivos religiosos, acompanham- a criação instrumental, para substitUi-Io ou acom-
se de música, seja qual for esta, independe da panha-Io. Biologicamente, a segunda alternativa.
religião ou sistema interpretativo da deidade ou de seria a mais plausível, ou seja, que do homem
seu relacionamento com o homem. Em estudos surgisse a música como função criativa, como parte
arqllealógicos diversos demonstra-se a presença de integrante dele mesmo, como algo que vale intrin-
instrumentos mllsicais, rústicós, relacionados mais secamente, que está em si mesmo, a voz cantada,
com a boca e lábios, como a flauta ou flautim, ou já no qual a melodia passa a exercer a função primária,
mais acabados, como pífano ou quena e samponha independizando-se de 1.lminstrumento vocal emis-
para a civilização andina; mais ainda, espécies pró- sor, e constitUindo em si mesma a fonte da música,
ximas à humana e, que talvez fundidas com o Homo agora com a matUridade de uma expressão estética
sapiens, como o Homo neandertalensis, revelam junto própria. Resulta assim,. enfocada desta maneira,
a seus restos mortais, instrumentos musicais, sim- que a música estaria no mesmo homem, e não
ples, mas sem dúvida com o objetivo de produzir como um elemento alheio, mas tratar-se-ia de um
sons com caráter musical. fenômeno natural, acrescentado pelo ambiente e
por outro lado, a música tem representado algo incorporada à biologia. Contudo, seja qual for a sua
diferente de um simples som ou conglomerado de origem e mecanismo primordial, a música faria
sons, porque traduz um estado afetivo. O homem parte da fisiologia do homem, sendo impossível
não reage frente à música com indiferença, mas se deixa-Ia fora de seu afazer habitUal.
Tratado de Fisiologia Aplicada à Fonoaudiologia

As grandes expressões musicais dos maiores com- sob a influência da Música, bem como também
positores são agentes que deixam atônitos a qual- usando MEG ou magnetoencefalografia e obvia-
quer humano, embora varie seu nível educacional ou mente a mesma eletroencefalografia (EEG), pro-
cultural, ou seja estimado primitivo. Pergunta-se cedimentos nos quais, por exemplo, havendo sofri-
assim, um Requiem de Mozart passaria desapercebi- do destruição parcial ou total do córtex temporal
do perante quaisquer ouvidos?, ou outro tanto, a ma- direito, ou ressecção por fins terapêuticas poder-
jestosidade de uma Non'a Sinfonia de Beethoven? se-ia determinar o papel do córtex acústico no
Por outro lado, como assinalado ut supra, o as- processo neurofisiológico da Música.
pecto emotivo próprio da música parece um ele-
mento relevante, de modo que muitas manifesta- Fases da percepção musical
ções estéticas exigem da música como elemento
condutor; o cinema por exemplo. O cinema, consi- Na elaboração do conhecimento da música exis-
derado por muitos como uma síntese estética de tem etapas, através das quais o sistema nervoso
diversas artes confluentes, precisa da música até central, maneja as informações acústicas recebidas
como meio condutor ou de expressão. Assim, por até transformá-Ias no conceito integral da música;
exemplo, o filme "Platoon" (patrulha) de Oliver adicionalmente, constrói um conjunto de respos-
Stone expressaria sua mensagem de paz sem conter tas decorrentes diretamente da música, mas já
um fundo musical básico como o Adagio para cordas dentro de um contexto mais amplo, e determinado
de Samuel Barber? Ou, por outra parte, "Cinema pelo mesmo cérebro que procedera ao acúmulo
Paradiso" de Tornatore seria o mesmo sem a músi- informativo da Música, especialmente através da
ca de Ennio Morricone?, ou semelhantemehte, memória e da culturização obtida através de expe-
"The Mission" sem a música envolvente do mesmo riências repetidas e reunidas. No Quadro 12-1 sih"
Morricone? Julga-se que um filme cativante como tetizam-se as fases da percepção musical pro{:>ria-
"Charriots offire", seria o mesmo sem a prodigiosa mente dita e, logo após, no Quadró 12-II o mesmo;
música de Vangelis? Assim mesmo, as aberturas ou mas relacionado especificamente com às respostás
fechamentos de grandes eventos esportivos, como surgidas frente à informação músical.
os Jogos Olímpicos - em que assistem milhares e
milhões assistem na televisão -centram seu interes-
se numa música decisiva, com canto e danças, de-
terminando um conjunto que expressa algo muito - Recepção e processamento de sons isolados, cons"
tituintes básicos da música j.
além de simples palavras ou atos sem música, ou
- Integração de sons em blocos maiores. .
- Interpretação de blocos de notas, infégrando-as
I
até, de atuações prodigiosas.
Tudo tende a indicar que a música representaria como músicapropriamentedita '
para o homem algo muito especial, algosuigeneris, - Memorização parcial e, logo integral dos processos
que dificilmente pod'er-se-ia compreender racio- anteriores '

nalmente, mas que a experiência indica constituiria


algo especial e diferente que a fisiologia não estaria
capacitada para compreender ainda, contudo que Fase auditiva da percepção musical'
mais recentemente apresenta certos importantes
subsídios científicos que já permitem. uma com- O ouvido, de modo similar ao tratado nb Càpítulb
preensão desse algo tão transcendente ,e funda- precedente 11, é capaz de captar sons dentro de Umà
mental para o ser humano. faixa aUditiva referente à intensidade e freqÜência'
das ondas sonoras recebidas provenienteS de uma
Métodos de estudo da ação da Música fonte emissora de vibrações periódicas, cuja ori"
no sistema nervoso central gem pode ser também estipulada pelo sistema au"
ditivo. Assim as denominadas notas musicais (do
Particularmente, na espécie humana tem sido pentagrama) podem ser tratadas e convertidas em
possível estudar os efeitos da Música no cérebro conjunto de sensações auditivas ou sons musicais,
graças a novas técnicas de análise fisiológica, como porém isoladamente. No que diz respeito à origem'
PET ou tomografia por emissão de posítrons e dos sons musicais, obviamente se refere a córpos
o estudo de imagem funcional por ressonância suscetíveis de vibrar, de modo que aplicando uma
magnética, nas quais é possível localizar as áreas força sobre eles, graças fundamentalmente às suas
cerebrais envolvidas num determinado momento propriedades físicas relativas à elasticidade, inflexi-

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Neuroftsiologia da Música

bilidade e inércia, originam-se sons, com períodos - Você tem um problema


típicos segundo a qualidade da fonte emissora, mas
que agora mudando a tonalidade e, obvia-
das quais, o ouvido poderá discriminar sua intensi-
mente o sentido, quando fica:
dadç Ou prof~mdidade, sua freqüência e a situação
espacial da origem emissora do som. Isto ocorre - Você, tem um problema?
gr~ças à Fisiologia da audição em que, além do
aparelho auditivo representado por ambos os ouvi- Segundo Peretz, a amusia congênita seria con-
dos (ou orelhas), especifica vias e processamento seqüência devida à desconexão das vias informa-
sináptico em diversas áreas das vias auditivas. tivas que chegam ao córtex auditivo.
. .Dentro das pesquisas atUais, têm particular im- De fato, para a recepção da informação musical,
'portânci~ as efemadas por Isabelle Peretz quem as aferências musicais atUariam chegando os im-
estuda pacientes com .amusia, ou seja a incapacida- pulsos auditivos de modo inicial ao tálamo, sinap-
de para experimentar a sensação musical e reconhe- tando em diversos núcleos relativos à sensibilida-
cer as correspondentes implicâncias, condição pa- de, como os núcleos projetados difusamente, que
tológica, pela que os pacientes amúsicos são ram- incluem o núcleo intralaminar e o da linha média
bém conhecidos como surdos de tono (fone deu/- (como o paraventricular, paratenial e reuniens).
ness), entre os quais, foram afetados personalidades
como o ex-presidente de Estados Unidos, Theodo- Papel do córtex auditivo
re Roosevelt ou o líder da revolução cubana, Ché
Guevara, pacientes incapazes de perceber diferen- Dos neurônios talámicos,as aferências se orien-
ças de um semitono por exemplo, ou não se agitar tam preferentemente para o córtex auditivo, onde
por dissonâncias gritantes ou por combinação de continua mais complexamente a manipulação neu-
notas que produzem um efeito desagradável em ral da informação musical. O córtex audirivo locali-
quaisquer indivíduos normais, ou incluso, sem po- zado em relação ao sulco lateral apenas do hemis-
der perceber pequenas variações de torro que ado- fério direito, hemisfério caracterizado pelo proces-
tam sentido diverso, como: samento de informações espaciais e emocionais de

0)

@
área matara
secundária

córtex
auditivo

hemisfério
cerebral direito

lobo
Fig. 12-1 - A - Áreas corticais
e subcorticais envolvidas na córtex temporal
auditivo
sensação musical.
8 - Visnalização das áreas do
primário
secundário
córtex auditivo em relação a
outras estruturas participantes
da reação cerebral perante o
estímulo musical.

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Tratado de Fisiologia Aplicada à Fonoaudiologia

modo muito particular, sendo justamente elemen- dos no Quadro 12-11, como respostas decorrentes
tos inclusos na musicalidade. do reconhecimento da música.
No córtex auditivo se podem detectar a pre-
sença de três áreas auditivas no lobo correspon-
dente ao córtex temporal, reconhecidas, como
área auditiva primári3; (a mais afastada do sul- - Reação emótica perante a música (integral oU
co lateral ea mais ampla); secundária, imediata- parcial)
mente próxima e superior à anterior e a terciária, .. Reação neuro-endócrína : oxítocina

de menor massa neural e em contato mais íntimo - Reação condutual


e direto com o mesmo sulco. Esta distribuição - Reação motora específica decorrente
do estímulo musical
anatômica pode ser advertida na Fig. 12-1, mais à
esquerda, sendo que à direita, podem ser reconhe-
- Execução instrumental: mãos, dedos,
lábios, pés
cidas as áreas corticais principais referentes ao - Execução vocal: canto
seguimento do processo auditivo que inicia o pro- - Realização motora rítmica: dança,
cesso nervoso da música. marcha militar
No referente à funcionalidade das áreas auditi- - Dramatização
vas especificadas, a área auditiva primária seria
aquela que estabelece o reconhecimento indivi- As tespostas nervosas diversas promovidas pelo
dual dos sons, enquanto às características já co- sistema nervoso central em decorrência do reco-
mentadas: intensidade (lolldI1CSS),freqüência (agu- nhecimento da música são complexas, e depen-
deza/gravidade) e localização da fonte produtora da dem da interpretação outorgada à informação musi-
vibração; deste modo, há análise dos sons isola- cal, subordinada esta, em grande parte, à bagagem
damente, mas de modo seqüente no tempo. Esta pessoal (genética e adquirida) e cultural. ContUdo,
operação processual experimenta seqüentemente seja qual for a característica individual, a resposta
um armazenamentopelo córtex temporal, de- sempre presente - embora, em grau variável, maior
terminando-se memorização das notas e sua se- ou menor - é emocional ou afetiva, em que o
qüência no tempo. A área auditiva secundária do sistema nervoso central oUtorga um valor global,
córtex auditivo, excitada pela primária, segue o através do qual, passa a gostar ou experimehtar
curso seqüenciai"do tratamento n)usical, inte- prazer, ou inversamente, sofrer desagrado e repul-
grando os sons individuais em grupos maiores, ou são; contUdo, a música como tal e em termos gerais,
blocos de notas, através do qual pode-se' gerar é caracterizada por induzir uma resposta prazero-
harmonia, melodia e ritmicidade, fenômenos sa e, muito circunstancialmente provocar uma res-
que também sofrem acúmulo ou armazenamento' posta afetiva de rejeição, como ocorre com certas
informativo na memór,ia temporal. Finalmente, a músicas que, em determinados trechos perde, a sua
área terciária (vide Fig. 12-l), procede a integrar qualidade inerente de harmonia e melodia, para
os blocos de notas musicais em temas maiores, passar a ser dissonante ou estridente, sitUação então
mecanismo que já poderia ser estimado como con- que pode motivar uma resposta diferente, de des-
ceito musical, ao mesmo tempo que os vai inter- gosto e rechaço. Por outro lado, a reação afetiva se
pretando, ou seja, outorgando hierquização, pon- vai apresentando a medida que a mesma música vai
deração, organização temporal, de modo que na se desenvolvendo, se aguardar atingir a finalização
última ,incorporar-se-ia a ritmicidade, caracterís- total da obra musical para determinar um balanço
tica importante na música. Nesta área as notas afetivo, porque este vai efetuando-se por estágios'
musicais perdem sua individualidade para dar lugar' evolUtivos, mas também sendo submetida no fim
a uma composição musical; ou seja, já existe o a uma avaliação derradeira, integral da obra, qúe
conhecimento de música como tal. então é resumida, ponderada e classificada. A aná-
lise afetiva da música é efetuada uma vez finalizada
Reações promovidas pela Música a manipulação neural na área auditiva terciária,
retomando a informação ao tálamo -
grande con-
NatUralmente, o curso assinalado seria funda- trolador do processamento musical - para excitar o
. mental na elaboração do conhecimento musical, sistema límbico, ou cortico-límbico, a partir do
mas.não seria único porque outras estruturas cere- núcleo intralaminar - talvez, mais iIriportantemen-
brais vão colaborar de modo decisivo para conferir te o corpo amigdalóide, mas recorrendo perma-
os atributos próprios da música que são considera- nentemente às informações memorizadas através

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Neuroftsiologia da Música

da participação constante do hipocampo, que ago- logo após o orgasmo experimentado no parceiro.
ra pode extrair os depósitos nmenômicos sendo, Curiosamente, em ambas as circunstâncias a elno-
logo após, julgadas e novamente ponderadas pelo ção, além de ser muito intensa, é de caráter muito
córtex pré-frontal, estrutura responsável, em gran- prazenteiro, mas suave e com profunda ternura,
de parte, pela seqüência condurual determinada fenômeno característico da música, cuja enorme
pela música. Como especificado ut supra, a resposta emoção pode levar atéexpressões-aparentemen-
afetiva promovida pela música é, por definição, te paradoxais - como choro ou pranto, mas com a
agradável, incitando graus varáveis de prazer, mas tonalidade de profunda felicidade e ternura. Aliás;
este praticamente, de uma forma ou outra, sempre deve-se recordar que há também liberação súbita
e~tá presente. Na determinação do prazer pela. de altas concentrações de oxirocina na amamen-
música, todo o sistema cortico-límbico tem res- tação, condição em que a mãe experimenta pro~
ponsabilidadade, graças à mesma excitação nervosa funda em.oção de amor e entrega; similarmente no
dos diversos núcleos subcorticais, mas a resposta parto, a oxitocina está presente e a emoção mater~
neuro-hormonal representaria um mecanismo nal chega a ser intensa e profunda. Deste modo;
importante, como pode ser avaliado na Fig. 12-2, estima-se que a raiz fisiológica interposta pela
onde se trata de integrar as estruturas nervosas e sua música - enquanto ao estado emocional - seria
seqüência enquanto à sua participação na integra- devido importantemente à resposta endócrina do
ção da experiência musical. hipotálamo, secretando oxitocina.
A partir do mesmo sistema límbico, talvez, da Obviamente, a reação condutual decorrente
amígdala Jímbica, passa a ser excitado o hipo- . da emoção determinada nas estruturas meso e
tálamo, particularmente os núcleos paraventri- cortico-límbicas - como o mesmo choro, lacrime-
cular~ supra-óptico que, uma vez sensibilizados jo, modificação cardio-vascular, respiratória -
procedem a liberar e secretar oxitocina, através de seriam fenômenos d~terminados pelo hipotálamo
fibras nervosas que a transferem - através do trans- no concerto incitado pela emoção profunda pro-
portador, neurofisina - à neuro-hipófise, a partir movida pela música, mas que poderia exagerar-se
da qual passa ao torrente sangüíneo para excitar as e com tendência à manutenção pela formação de
estruturas nervosas ligadas com a emoção, espe- circuitos de retroalimentação positiva, em que
cialmente o septum meso-límbico, estrutura que, a secreção de oxitocina levando a excitação ao
qu~ndo excitada pela oxitocina dá lugar a um esta- septum límbico, exageraria ainda mais a emoção
do afetivo, interpretado obviamente como sui gene- prazerosa e facilitaria uma nova e mantida secreção
ris, porque seu grau de 'intensidade sói ser muito de oxitocina. Vide Fig. 12-3, a qual poderia ser
elevado, conferindo, em certas circunstâncias; a mantida por certo tempo graças à interposição da
qualidade de "orgasmo" musical, de modo simi- memória de mesma música, que facilitaria um
lar como o provoca a mesma oxitocina no sexo efeito mais prolongado da responsividadc em ótica
feminino durante do ato sexual, especialmente frente à música.

ouvido .. córtex auditivo .. córtex' .


temporal
t
núçleos
córtex auditivo primário
paraventricular ~
supra-óptico ~
eórtex auditivo secundário

t sistema ' + ' '


eo rtex au dIJVO
".
t tereJano
neuro-hipófise / límbieo ~

.!/,nh'!lobo prefrontal
oxitocina
1
córtex motor
-
Fig. 12-2 Esquema tentativo que explicaria como é processada a sensação musical no SNC determinando
sensibilidade musical, interpretação, memorização, motivação e resposta neuro-endócrina-motora desencadeada
pelo estimulo musical.

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Tt'atado de Fisiologia Aplicada à Fonoaudiologia

Córtex

~ t
temporal ~ t' l

.
~ estimulo
musical

Fig. 12-3 - Esquema ~p~~ ~M ~ '~p


das interrelaçõesnervosas sistema~ .
e endócrinas tendentes a manter límbico
I ~
ou até exagerar o estado emótico
induzido pela música.
Assinalam-se - dentro de
moldura - os elementos mais
para~~~~~ular '"
\
núcleo
~ emoção
orgásmica
~ septum I
líquor

relevantes que fundamentariam


a persistência do feedback positivo.
supra-óptico
\ ~
' ,

, I oxitocina I J sangue

~;fiSina

~ transporte
até
neuro-hipófise
)
Responsividade motora induzida de controle dos dedos de modo especial, que são
pela Música os que tocam o violino.
Outra resposta motora, intimamente ligada e
A capacidade do cérebro de reagir face a música dependente da música é a dança, caso em que
é conseqüência, em grande parte, do estado emó- recebendo o estímulo musical, a resposta não seria
tico induzido por esta, de maneira que esta pode- nem a voz nem outra interpretação instrumental,
ria traduzir-se de modos muito diversos como mas um conjunto de processos motores comple-
expostos no Quadro 12-1I, como a interpretação xos, intimamente coordenados com a música, que
instrumental promovida pela mesma música, de exige a participação primordial das extremidades
modo similar ao diálogo promovido pela audição inferiores, que modificam a marcha, determinan-
da voz, em que ouvindo e entendendo o ouvido, o do seqüência de forma rápida e rítmica; mas além
cérebro estaria habilitado para responder emitin- . de exigir uma subordinação coordenada estrita
do outra voz, como resposta frente à estimulação com a música, contando com a participação de
auditiva. No caso da música, ela mesma induziria posturas corporais adequadas, movimentos coor-
outra resposta também musical, como clara- denados subsidiários da cabeça e extremidades
mente se identifica na ópera, em que tanto o superiores, geralmente que exageram ou criam
canto leva a outro canto-resposta, ou a música ins- novas condições afetivas.
trumental induz oUtra música-resposta, determi- Por oUtro lado, a marcha ou passo cadencia-
nando um conjunto instrumental de seqüências do de uma tropa ou conjunto militar exige tam-
dialogadas, como se observa num concerto ins- bém a interpretação musical' ritmada de música.
trumental de uma orquestra polifônica, em que, marcial ad hoc.
um conjunto de instrumentos objetivado por uma Finalmente, a dramatização incluiria, um cbn-
interpretação de orquestra (sinfônica, por exem- junto de todas ou parte das resposta motoras aludi-
plo) induz a resposta de um instrumento, piano, das, especialmente, a expressão corporal, que
no caso, determinando um concerto para piano e não precisa ser exatamente de dançar, mas de mar-
orquestra. Por outro lado, Altemüller tem deter- char ou andar, ou perlustrar, obviamente, além do
minado que se o instrumentalista for um violinis- concurso do canto e da fala.
ta, por exemplo, o seu córtex soma to-sensorial
estaria perfeitamente habilitado para rápidas e Neurofisiologia da conduta matora
eficientes respostas tendentes a desenvolver um
programa motor executor pelos dedos das mãos Como demonstrado na Fig. 12-1, o córtex mo-
especificamente, com exagero das áreas mataras tor pré-central guarda estrita relação dom o córtex

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Neuroftsiologia da Música

\ Broca

Fi9. 12-4 - Esquematização dos


mecanismos nervosos inclusos laro
respiração / Àsi~ema,
no processo de expressão matara, I extra-
como canto, dança, marcha, f piramidal
decorrentes da estimu/ação
m.u.sica/ ~a
canto
. !I
dança
maréha

temporal, particularmente a área auditiva, criando- da; possui ou exerce uma função diferente. Como
se uma côndição favorável à andada, marcha, ou inicialmente, fosse discutido, a Música aparenta
baile, este último dependente de forl11aestrita da determinar uma função distinta e complexa que
zçma auditiva terciária. por outro lado, o córtex influi fortemente na conduta do humano. Existem
:lU(H!ivo terciário - embora também o secundário trabalhos diversos indicando a influência da música
e o primário, em menor grau - estabelecem sinapses no trabalho, na capacidade criativa, e até na
amplas corp a áreg interpretativa da audição ou . inteligência; por outra parte, Lenice determinou
área, çle Wernicke, a qual através da área motora que a música do tipo new age promove aumento do
verbal de Broca do lobo frontal, permitiria e ini- limiar nociceptivo em doentes com dor crônica que,
ciaria a formulação da fala ou do canto, mas seguin- agora sob o efeito da música, tornam-se mais cola:-
do, em forma especial esta última, das informações boradores para tratamento de enfermagem; no en-
geradas no córtex auditivo terciário. tanto certos tipos de jazz - mais ríspido e agressivo
Estima-se, por oUtro lado, que a resposta motora - exerciam uma função inversa.
instrumental, isto é, a execução de instruméntos Estimou-se assim, que a Música seria uma ex-
musicais, por meio da qual, criar-se-ia outra fonte . periência exclusivamente humana, tanto quanto a
musical, seria um processo assaz complexo que própria comunicação verbal através da fala. Mas, as
exigiria, além da íntima,relação com o córtex mo- experiências empíricas e científicas acerca do sig-
tor' pré-central, especialmente área 4 ou motora, a nificado da Música nos animais pareceria contradi-
intervenção prévia da área de Wernicke, destinada zer esta tradução simplista do papel biológico da
à interpretação da música e sua tradução motora Música. No Quadro 12-III expõe-se uma experiên-
subseqüente - córtex pré-central e estriato - mas cia pessoal que ilustra a transcendência da influên'-
experimentando constantes interrelações com o cia musical nos animais.
córtex auditivo, com o intUito de correções ou Diversos trabalhos estritamente realizados se-
conduções adequadas à modalidade dessa expres- guindo a metodologia científica em diversos ani-
são musical. Daí a grande complexidade de úma mais, incluindo, além dos mamíferos, aves, repteis .
interpretação musical de uma orquestra sinfônica e anfíbios, determina-se que todos estes expe-
que inclui ampla diversidade de instrumentos com rimentam de alguma maneira a influência da Músi-
modalidades musicais muito distintas, mas atingin- ca, especialmente, quando esta é mais harmônica
do ,,!hacoordenação. Agora, pensar na habilidade e melódica, mais ainda enquanto mais emoção
criadora de um compositor l11usical, mas ainda se houvesse na mesma interpretação dessa música,
este for surdo, como a genialidade de Beethoven incluindo de modo particular, a música emitida
desafiaria a Neurofisiologia da Música. A Fig. 12-4 pelo canto humano, como também o seria para o
pretende sintetizar a resposta motora decorrente mesmo ser humano o Qanto dos pássaros, não
da excitação musical. havendo homem que permaneça impertérrito após
o canto de um bem-te-vi ou mais, de um uirapurú.
Interpretação ou sentido do papel O que então, cabe perguntar, está dizendo ou trans-
exercido pela Música mitindo a Música para todos os animais? Poder-se-
ia dizer que talvez representaria uma linguagem
A Mqsica, sem dúvida, é algo muito diverso da básica comum, a voz universal da natureza, a
simples audição, como originalmente for explana- proto-linguagem natUral, sem alfabeto, nem gra-

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Tratado de Fisiologia Aplicada à Fonoaudiologia

Experiência anedótica acerca da influência da Música nos animais


Quando criança e morando numa ladeira de montanha rochosa, no jardim muitos pequenos lagartos tinham
o seu habitat. Minha mãe interpretava no piano obras românticas de Chopin, Líszt ou Debussy, seus autores
prediletos; então, ao começar os primeiros acordes, o alfeizar da janela era subitamente preenchido pelos
lagartos que - chegavam em tropel, dando exíguos saltos - então, se acomodavam com as patas anteriores
estícadas, e atentamente ouviam estáticos - quase espásticos - a música, mas sem se mexer, dirigindo apenas
sua cabeça altiva no sentido do piano. Terminada a execução, desapareciam ipso facto. A janela antes
abarrotada ficava vazia e silenciosa.
Isto se repetia sempre que ela tocasse o piano; curiosamente, nunca os lagartos eram atraídos pela música
do rádio ou de outra fonte.

mática, mas aquela que todos a entenderiam de lar ao do sono, como apresentando modificações
modo similar. Alguns autores, acrescentam que a s~melhantes e paralelas dos neurotransmissbres,
Música representaria especificamente a lingua- como serotonina e noradrenalina. Aliás, Panskeep
gem da Natureza, a voz do mundo. Baseiam-se no demonstra que aves apresentam excelente afini-
fato que os sons emitidos pela natureza são dade por Pink Floyd, situação que afeta a taxa de
efetivamente harmoniosos por definição, o natu- oxitocina, condição emque melhoraria a afinidade
ral não é dissonante, é o equilíbrio musical per- entre indivíduos, reforçando o estabelecimento
feito. Acaso a sexta sinfonia (Pastoral) de Beetho- de novas memórias. Por outro lado, filogenetica-
ven não representaria uma melodia da Natureza? mente, a evolução do nervo hipoglosso, que mane-
Ou bem,a SinfoniaAlpina de Richard Strauss? Não ja o controle muscular da língua, segue definida-
existe barulho na natureza, nem o trovão pode ser mente a capacidade de imitar cantos atingindo
disforme acusticamente, porque representa uma aparelhos vocais mais sofisticados, baseados na
seqüência perfeitamente sincronizaDa, bem como imitação desses cantos, cria-se uma situação dis-
as ondas do mar, o bater das folhas pelo vento, ou a tinta, tanto que até seria incorporada às atividades
simples variação sinfÔnica de um amanhecer. rituais, pelo que poderiam ser consideradas como
Há alguns autores que justificadamente insis- formas proto-musicais de comunicação. Des-
tem que a Música seria um elemento propulsor te modo, as idéias ou fragmentos musicais que
da evolução, promovendo mecanismos de apro- atingissem sucesso tenderiam a ser replicados
ximação tendentes à facilitar associações e persis- como linguagem musical, e como tal poderiam
tência da espécie. Assim, no livro de Benzon).' evoluir. Tratar-se-ia dos denominados meJnes ou
Beethoven's Anvi/: Music in mind and Cu/ture, argu- fenÔmenos meméticos, com comportamento equi-
menta que a evoluçã'ô doshominídeos ocorreu valente aos mesmos genes, segundo a conceptua-
seguindo um plano progressivo da fala e do canto, lização de Dawkins e Blackmore.
estabelecendo que o cérebro agiria de modo simi- A vida reconhecea própria vida e ela é a Música.

1. A música, como fenÔmeno auditivo, é vos no córtex temporal nas áreas primária (çrn
processada diferentemente pel-o Sistema Ner- . que avalia o mesmo som e suas características);
voso Central, motivo pelo qual asua interpreta- secundária (estabelece blocos de sons em que é
ção.e significado seriam também distintos que o valorado um novo significado, como o ritmo, em
som ou conjunto de sons. especial); terciátia que integra ditos blocos, até
2. A música,. tanto para a espécie humana, obter uma imagem completa, integral e diversa,
como aparentemente para os animais, tem uma mas de toda a música.
especial significância, acompanhando em todos 4. O tálamo torna-se centro das intercone-
os tempos e culturas, os atos e atividades mais xões centrais (núcleo intralaminar), jJorque à par-
relevantes do homem. tir dele, geram-se as respostas afetivas pra-
3. O Sistema Nervoso Central processa a zenteiras (sistema límbico), neuro-endócrinas
música diversamente de outros. estímulos al.lditi- (hipotálamo e secreção de oxitocinà), motoras

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Neurofisiologia da Música

(áreas corticais da fala, córtex somato-motor - área uma função de destaque na resposta perante o
4 - em particular, e o estriatO) gerando-se o canto, estímulo musical.
a instrumentação e execução musical, a dança 7. A música pelo eu impactO, constituiria
e a marcha militar. A dramatização (ópera) um mecanismo de comunicação e de evolu-
seria a resposta global frente ao estímulo musical. ção das espécies, porque o seu efeito poderia
5. A oxitocina possivelmente desempenhe experimentar-se não só no homem, mas nas ou-
um papel importante, produzindo ou amplificando tras espécies animais.
a resposta afetiva, influindo no septum límbico; 8. A música, pelo que pode modificar no
além disso, pode contribuir em promover um fe- sistema nervoso central, poderia constituir me-
nômeno sustentado por retroalimentação positiva. . canismo ou agente de desenvolvimento, bem
6. Estima-se que os neurotransmissores se- de modificação de oUtras funções (como dor) e
rotonina e noradrenalina desempenhariam até da.própria inteligência.

Referências Bibliográficas

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