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O Ethos do Desespero e o

Desespero do Ethos

Introdução
A reflexão aqui colocada tentará lidar com a tese oitava
de Walter Benjamin sobre o Conceito de História,
principalmente a sua guinada Marxista nestas teses em
crítica ao progressismo ingênuo e a verdadeira norma da
história não mais a partir deste, mas uma espécie de
anti-norma a partir da noção de Estado de Exceção.

Walter Benjamin(1892-1940) inicia sua oitava tese sobre


o conceito de história da seguinte forma: ''A tradição dos
oprimidos nos ensina que o "estado de exceção" em que vivemos é na
verdade a regra geral. Precisamos construir um conceito de história que
corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que nossa
tarefa é originar um verdadeiro estado de exceção; com isso, nossa
posição ficará mais forte na luta contra o fascismo. Este se beneficia da
circunstância de que seus adversários o enfrentam em nome do
progresso, considerado como uma norma histórica. '' (Benjamin, Walter,

1940, tese 8). Anunciando em claro e bom tom a verdadeira


norma histórica para os oprimidos enquanto uma
espécie de anti-norma em relação a norma já
estabelecida. Para os oprimidos, não se trata do
progresso, não se trata de uma libertação progressiva
que se observa de tempos em tempos, Benjamin neste
caso aponta o contrário. O novo conceito de história que
passa por aí envolve levar em consideração esta anti-
norma posta por Benjamin e leva-la em consideração
significa entender certos tipos de tendências em
algumas sociedades que teoricamente marcham ao
fatal[1] progresso. Benjamin, sob o ensurdecedor som
da Segunda Guerra Mundial põe de uma vez por todas a
baixo a suposta marcha do progresso na qual a
Revolução Francesa trouxe consigo a partir da releitura
de Marx(1818-1883). A desmistificação do progresso que
o tempo inteiro já está desmistificado na dura vida dos
oprimidos uma vez desvelada, recobra mais atenção do
que anteriormente requeriria, pois agora, trata-se de um
entendimento de como isto procede para que o Conceito
de História remonte tal realidade dos oprimidos. Uma
vez postos de lado da marcha do progresso e vivendo
na pele as agruras e as contradições que a suposta
sociedade que ''só tem a melhorar'' os oferece, nasce
uma tendência na qual irremediavelmente se põe diante
da resistência, de um lado em forma de cegueira desta
ao acreditar no encantador mas enganador progresso e
se perder enquanto tal e por faze-lo, abandonar de vez o
ponto de vista dos oprimidos, deste caso, do negativo[2]
e do outro, engendrando o desespero, seja dos
oprimidos, mas agora não mais como uma instância
especial, mas de vez como uma regra, como um Ethos
necessário diante do Estado de Exceção que vos é a
norma. E se de um lado está um Ethos que irá se
desenhar diante do desespero em posturas cada vez
menos emancipadoras e mais amedrontadas,
literalmente desesperadas para ao menos se manter
vivo, para ao menos seguir em frente, do outro lado
surge o desespero do Ethos e neste momento, trata-se
também de uma postura desesperada, mas do lado dos
dominantes, dos opressores que irá se desenhar em um
conservadorismo diante dos atos de desespero de toda
ordem dos oprimidos, agora como uma espécie de
recobrar cego da Ética, que do seu desdobramento
Kantiano, é o avesso [3], se pondo numa disciplina rígida
para conter o desespero de todas as formas e suas
possíveis figuras, sejam eles de uma negação cega e
irrefletida ou de uma adesão a tal em nome de um ideal
que se desenha na forma da abstração.

O Desespero dos oprimidos.

As promessas da Revolução Francesa foram de


Liberdade, Igualdade e Fraternidade enquanto uma
espécie de pacto universal que iria suprimir de vez o
antigo regime e fundar a nova sociedade, a verdadeira
sociedade humana que iria se pautar não mais pelo
dogmatismo da fé e pela obscuridade dos tempos
medievais, mas pela luz inabalável da Racionalidade
que além de garantir tal emancipação e libertação dos
homens, garantiria também o progresso das ciências e
por consequência, o desenvolvimento dos homens. Do
ponto de vista do progresso, de fato, a sociedade que
brotou da Revolução Francesa, uma sociedade liberal,
ao menos, com valores tais se distingue qualitativamente
da sociedade medieval, mas não enquanto uma
comparação entre ambas as conjunturas e histórias, por
assim dizer. É necessário dizer que de fato, a situação
do trabalhador em relação a situação de um servo que
vivia preso aos senhores é menos sofrida e
desesperadora, porém não eliminando de vez tais
predicados, mas sim reencontrando-os em outro
Sujeito[4]. Este reencontro em outro Sujeito que aqui
está referido nada mais é do que uma outra forma de
colocar o problema da pré-história do homem mais ou
menos a luz dos escritos de Ruy Fausto(1935) em seu
clássico ''Marx, Lógica e Política'' a respeito de um
funcionamento interno do pensamento Marxista a luz de
uma reaproximação de Hegel((1770-1831)[5]. O
problema da pré-história dos homens acaba por assumir
uma posição determinante nesta altura pois é
justamente isso que irá diferir e marcar o não-progresso
linear entre o que foi a conjuntura medieval e a
sociedade que brota das Revoluções de cunho burguês,
se em uma leitura mais aproximada dos modernos em
geral, percebemos que o consenso destes em relação
ao modelo de sociedade que brotaria daqui, é um
modelo que prima pelo progresso e pela razão, não
demora muito para que esta norma se vire contra estes.
Para a modernidade, o que aparece de fato não é a
Vontade de Deus com um peso teológico específico por
trás, mas a vontade do Indivíduo, do homem como
direcionamento, sendo como a perspectiva, seja como a
própria efetivação. Esta posição dá a entender mais ou
menos uma noção de autonomia que só um Sujeito pode
ter. Se Deus o tinha para os medievais, para os
modernos, este é o homem, o homem que faz, o homem
que tudo pode e a partir da racionalidade, atinge a sua
maioridade, o seu esclarecimento [6] e se este homem é
quem é passível de posição diante do mundo, ele é
quem decide o seu destino, mesmo que sob
determinadas condições, como diria Marx. O homem a
partir disso erige sua própria ordem, deposta de todos
pressupostos místicos e religiosos da antiguidade,
secularizada e ''humanizado'' diante deste está o mundo,
a natureza que era objeto de culto ou de uma aura na
qual remeteria ao seu criador, agora é um objeto diante
do homem no qual este produz e reproduz suas
condições de vida(é necessário frisar tal descoberta) e
como não há mais leis divinas que acorrentam a vontade
do homem, trata-se deste traçar regras a quase toda sua
existência e aqui, a produção e reprodução ganha um
destaque cada vez maior, pois não se trata mais do culto
do homem ao divino na sua atividade, mas na sua
reprodução e produção como já fora citado, isto vem
junto com o que a sociedade burguesa oferece, uma vez
que a burguesia toma o forte. E se o Burguês quer
vender o seu produto e a nova sociedade está a sua
mercê, esta irá reproduzir esta dinâmica e aqui mais ou
menos tem a gênese da nossa contemporânea
sociedade e a sua lógica, o Capital. A burguesia usa de
setores da classe camponesa, de servos para
revolucionar de baixo para cima o antigo regime e
instaurar a nova sociedade, porém em 1848, o feitiço se
volta contra o feiticeiro [7] de uma vez por todas. A
burguesia libertou os servos e também os camponeses e
com seus discursos de liberdade, igualdade e
fraternidade conseguiu o seu maciço apoio para
revolucionar e de fato, a situação destes era uma
situação que já remontava ao desespero e o discurso
burguês era a saída contra o próprio, porém após estas
revoluções que ocorriam na chamada infra-estrutura e
na super-estrutura, servos e camponeses em sua
grande maioria acabavam constituindo uma classe de
trabalhadores, seja por serem expropriados por
senhores feudais que tentaram competir com a
burguesia no mercado ou então pelas leis que proibiam
a condição de servo e os camponeses que não tinham
condições de competir ou perdiam seus títulos de
propriedade como bem narra Marx em ''O Capital''. A
situação destes indivíduos era desesperadora diante dos
abusos do antigo regime que o reduziam a condições
desumanas e o discurso de liberdade do burguês surte
efeito. A liberdade começa a existir para estes
desesperados pelos abusos da aristocracia, a sua
aliança com a burguesia institui uma nova sociedade e
estes homens livres estão verdadeiramente livres,
ilimitadamente e limitadamente livres, pois se encontram
livres dos grilhões dos senhores feudais e da
aristocracia, mas também livres do seu sustento e de
tudo, completamente libertos e novamente
desesperados.
Com o Capitalismo e por necessidade, o surgimento da
classe trabalhadora, os antigos desesperados, se
desesperam novamente diante de uma nova situação,
primeiro por se verem libertos de tudo e depois por se
verem presos ao Capital. Se a sua vida era reduzida a
miséria ou a uma relação de constante abuso da
aristocracia e senhores feudais e a pobreza dos campos,
agora se resume a miséria e a exaustão do corpo para a
produtividade do capital, a burguesia que sobe com sua
gana revolucionária ao poder e se valendo do desespero
destes para isto, não começa a escrever a história dos
homens, o burguês quis a liberdade, quis a igualdade, a
fraternidade mas o quis não necessariamente por um
desejo genuíno de libertação e progresso e de
verdadeira humanidade e sim com o imperativo de
vender suas mercadorias e expandir seus mercados,
que cedo ou tarde acabavam censurados pela igreja.
Encontramos nesta gana do burguês o verdadeiro
Sujeito que erigiu da modernidade pela sua apropriação
da burguesia, este que se travestiu de interesse
humano, na verdade é o próprio Capital. E com seus
imperativos que se mostravam cada vez mais intensos e
impiedosos aos trabalhadores, instaura uma nova era de
desespero, esta nova era de desespero na história não é
mais auto-flagelo e nem a união com outra classe, é um
desespero tão grande que vos tira a própria razão e o
possível senso do certo e errado, tal qual o animal
inconsciente do peso moral das ações. A situação na
qual se relega o trabalhador diante deste novo Sujeito (O
Capital) é a de uma situação miserável em seu todo,
seja ela corporal pela exaustão, seja ela mental pelo
simples tédio e a loucura das rotinas ou o
estranhamento pelo trabalho a contra-gosto e uma não-
reconciliação deste com o produto do seu trabalho. Este
novo Sujeito que daí surgiu que desmoronou a
Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade só se configura
assim pois acaba por se dotar de uma estrutura que
remonta a um Sujeito, que impõe imperativos, que
possui uma lógica, que tem vida própria. Os homens se
vendo impotentes diante disto somente resta o
desespero. Tal desespero se encarna no apelo a
marginalidade ou então na crença cega em qualquer
saída. A maçante jornada de trabalho, a barbárie do dia
a dia os força a depositar suas esperanças na
transcendência ou viver a margem do próprio mundo e
com o avanço do Jugernaut [8] se veem cada vez mais
extremados, o Estado de Exceção acaba sendo sua
realidade já que não lhes resta nada a não ser uma
distopia em forma de vida e a violência desmedida como
padrão repressor. A sua Ética que era para fazer o bem
se reduz ao desespero para se manter vivo e se sentir
vivo e se sentir verdadeiramente indivíduo, já que esta
fora vilipendiada para a marcha incessante da produção
capitalista.
Este cenário remonta de um lado a uma posição de
negação desta ordem, mas que não se colocou
enquanto tal e tenta de todas as formas se encaixar
diante do Sujeito, tal qual as desventuras da consciência
diante da Fenomenologia do Espírito de Hegel[9]. O
desespero, portanto, envolve situações extremadas e
soluções cada vez mais extremada para uma situação
que se puxa cada vez mais ao seu limite por negar o seu
fundamento. Movidos tão somente pelo desespero, os
oprimidos vivem diante de uma temência pela constante
exceção que vos assola e por se configurarem como um
tipo de negação, esta negação muitas vezes é
descontrolada ou então colocada de forma não-
determinada como subversores isolados da ordem ou
então esculhambados e completamente anônimos diante
disto. O desespero que fez com que os oprimidos
fossem a força motriz da revolução os coloca agora
como desesperados novamente e numa situação mais
extremada e necessariamente na mesma dosagem,
extremados, seja como pensara Adorno(1903-1969) a
respeito da adesão da propaganda fascista para afirmar
uma individualidade que lhe é negada graças a
automatização das relações do Capitalismo que põe
essa individualidade de lado e somente afirma a sua
abstração do ponto de vista jurídico, que posta dentro do
limite, se configura uma dupla negação pois se trata de
uma espécie de ficção jurídica que não traduz
concretamente o indivíduo e ao mesmo tempo o ilude
como esta sendo sua verdade, causando uma espécie
de ''contentamento descontente'' [10] com sua situação,
pois apesar dos pesares, sente na pele os efeitos de sua
diária exploração. Com isto posto, não resta nada aos
oprimidos abraçarem de vez o desespero como Ética e o
Estado de Exceção como sua verdadeira realidade,
tomados pela ilusão do progresso, mas com a dor do
desespero que mostra toda e qualquer alternativa como
válida, do marginalismo ao fascismo incorporado como
uma necessidade de controle, neste caso, aderido pelos
oprimidos como uma espécie de mecanismo ''paterno'' e
rígido para fazer valer ao menos uma proteção diante
das dores do mundo[11], que de imediato parecem
condições ingratas---- e o são, mas do outro lado
expressam possíveis dores do parto de uma nova
sociedade ou da possibilidade de uma nova sociedade
que ali está gestando. Como a mãe que se desespera
com a dor, mas se alegra com o nascer de nova criatura.

O Desespero do Ethos.

Se para os oprimidos o seu ethos se reduz a ação do


desespero, para os opressores também, mas como o
desespero do próprio ethos. Para estes, não se trata de
um desespero posto, mas deste em termos
''pressupostos'' no que diz respeito ao próprio
desespero, pois o movimento que ocorre aqui, é o
movimento de conservação e não da superação
necessariamente da ordem ou da situação que fora
colocada. Os oprimidos se desesperam pois não veem
saída e apelam para soluções extremadas, desde que
solucionem seus problemas, os opressores extremam a
conservação neste caso, esta conservação nada mais é
do que o ''ethos'' vigente ganhando força nestes
momentos de crise. Se nos tempos de ditadura militar,
os militares diziam ''Brasil, ame ou deixe-o'', para os dias
de hoje, o Slogan é o da moral e dos bons costumes
como uma espécie de salvação e um Estado completo
de vigilância contra possíveis contraventores. O real
motivo para tal mobilização dos opressores não é um
amor a este dever[12] ou algo do tipo, mas um senso
desesperado de conservação, pois o mundo que vos
contemplaria está sempre no limite de estar de cabeça
para baixo. A saída não é a inclusão, mas a exclusão e
radicalização da ordem para conservar. Isto envolve
atitudes cada vez mais severas, uma disciplina quase
bélica e a constante vigilância contra a subversão, que
da intensidade da própria crise, aumenta-se a ponto de
transformar-se num fascismo. Os oprimidos que se
valem de ações desesperadas para poder sair da sua
situação tem de um lado o Estado de Exceção como
ordem de vida e do outro, o Estado de Exceção como
sua realidade para reprimir ou então como a própria
saída para isto. A adesão de oprimidos na retórica
dominante se dá portanto por um efeito contraditório
análogo ao que ocorre na lógica da essência em Hegel:
Uma sociedade aparece como uma existência de
aparência X, esta essência é sua contradição, a sua
negação pura, que neste momento está fora da
aparência pelo motivo supracitado, quase como um
além. As sociedades de classes aparecem assim, a sua
aparência é a de um progresso linear, uma boa vida a
todos, porém, para além da sua aparência, ela está em
completa negação desta mesma, mas como uma
espécie de fundamento verdadeiro desta aparência que
ainda está dissociada de sua essência. Do ponto de
vista dialético, a sociedade de classes mantém essa
contradição porque o Sujeito que a põe necessita desta
enquanto seu momento. Do ponto de vista da ''prática''
concreta, por assim dizer, isto recorre enquanto distopia,
enquanto desumanidade, enquanto desespero,
enquanto uma sociedade que aparenta ser algo, mas é
efetivamente outro. A resistência concreta não denota
esses problemas de maneira externa meramente,
apontando isoladamente os incidentes e os tomando
como verdade um-fora-do-outro. Para quem interessa o
real conceito de história para além do progressismo
ingênuo, da marcha da razão inabalável rumo ao
progresso, não deve se contentar com prognósticos
deste tipo e muito menos com este slogan abstrato, é
necessário proceder como Sócrates no meio da guerra e
pensar enquanto a luta ocorre por sua volta. Este
pensamento irá envolver um remontar deste objeto à sua
concretude e esta concretude nada mais é do que aliar
esta essência que parece dissonante com sua
aparência, retomando-a agora de forma concreto ou
análogo ao Conceito em Hegel.
Se o Desespero do Ethos e o Ethos do Desespero
denotam esta contradição e o caminho para sua
resolução, Benjamin aponta este caminho já mais ou
menos trilhado.
O Verdadeiro papel da
Resistência e alguns esclarecimentos.

Benjamin diz também na tese 8: '' A tradição dos oprimidos nos


ensina que o "estado de exceção" em que vivemos é na verdade a regra
geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a
essa verdade.'' (Teses Sobre o Conceito de História, Tese 8, 1940,

Benjamin, Walter)Este conceito de História de passa na


correspondência deste Estado de Exceção caminha
mais ou menos próximo até onde a última seção nos
levou: Resolver esta contradição entre essência e
aparência que a sociedade de classes põe e ao mesmo
tempo retoma-lo como seu verdadeiro fundamento sem
negar a aparência. Para isto, é necessário entender
certos procedimentos. Entende-se aqui, a realidade
social não mais como um conjunto de indivíduos
justapostos ou então um conjunto de intuições empíricas
subsumidas em um juízo [13], mas mais ou menos a
algo análogo ao Espírito Hegeliano. Esta sociedade tem
uma espécie de ''Lógica'' por trás que revela-se como
um verdadeiro Sujeito e aqui, sujeito não é o indivíduo,
mas aquele que se efetiva não mais como contraditório,
mas tomando a contradição como seu momento. Por
exemplo, Sujeito e Objeto são dois momentos
contraditórios, a efetividade do real seria subsumir estes
dois momentos e coloca-los enquanto momentos deste
processo que ocorre. A grande diferença aqui, é que na
pré-história do homem, o Sujeito é tudo, menos o próprio
homem. Análogo à pré-história do Espírito, onde o
Espírito apareceria na sua negação, ora na certeza
sensível, ora na percepção, ora no entendimento e em
todas suas figuras, a pré-história do homem o coloca
nesta posição, ora o homem é o burguês, ora o homem
é o escravo, ora o homem é o proletariado. Ao contrário
do Espírito, do Absoluto ser este emanar-se do real pela
racionalidade já pressuposta no mundo em suas figuras,
trata-se do homem como o pressuposto e negado na
sua pré-história. A sua pré-história constitui sua
negação. Só que ao contrário do que diria Hegel, não há
só um sujeito, mas vários que aparecem por aqui. Deus,
A Unidade, O Capital, estes sujeitos põe certas
determinações, certas ''figuras'' da vida social que são
seus momentos, que encarnam-o e ao mesmo tempo,
negam-o enquanto sua totalidade. O homem aqui neste
momento é reduzido a este momento ou um suporte
deste Sujeito. Na sociedade capitalista, tendo O Capital
como Sujeito. Esse Sujeito que está na pré-história do
homem é o que Robert Kurz(1943-2012) chamaria de
relações de fetiche, pois trata-se de dar vida, autonomia
a algo que não o tem por si próprio, mas aparenta sê-lo.
Do ponto de vista do fetichismo em Marx, esta categoria
ganha um enorme peso pra pensar esta pré-história
nestes termos e o Capital sendo um destes, só que em
sua forma secularizada. Estes supostos Sujeitos ou
Espíritos, por assim dizer são relações de fetiche no seu
limite pois trata-se de expressões humanas que
voltaram-se contra o próprio homem. É o homem quem
institui a religião, um Deus, é o homem que vê a
Natureza de forma mística, ora, é o homem que põe a
economia e deixa esta enquanto centro da sua
existência como no Capitalismo. Por isso que Marx diz
que o homem faz a sua história segundo condições
determinadas, isto é: Sobre algo que não é ele
imediatamente, mas ao mesmo tempo, critica o
materialismo na sua concepção contemplativa do
mundo, onde de um lado há o Sujeito e do outro o
Objeto, ora, não basta. Para Marx, apesar de condições
que o homem supostamente não controla, estas
condições são mediatizadas pelo homem e reproduzidas
por este, concretizando portanto um mundo que se
humaniza e este toma o papel do ''absoluto'' em termos
Hegelianos, pois é o homem que se acaba por se fazer
diante do seu outro, mesmo diante daquilo que não é o
homem. Esta efetivação do homem no seu outro
primeiro pela atividade produtiva e depois por toda sua
vida social, cultural e etc é a sua liberdade sendo posta
diante do mundo e o mediatizando não como um puro
objeto, mas como algo no qual este passa sua Vontade
diante de algo que está diante de si. Para a pré-história
do homem, porém, isto não está tão claro, já que o que
há é outro Sujeito posto, no nosso caso, O Capital. É
dos seus imperativos e supostas vontades é que nos
dobramos e realizamos nossa vida e isto implica
diretamente na luta de classes que nos remonta à
reflexão até aqui desenvolvida. Se a luta de classes
nessa releitura Benjaminiana acaba sendo portanto a
contradição entre o Ethos do Desespero e o Desespero
do Ethos, onde para um lado há o Estado de Exceção
como regra e do outro a visão do progresso sem fim,
mesmo enquanto pura aparência. A tarefa do novo
conceito de história envolve entender e nos desviciar do
progresso como regra geral da história, este desviciar
envolve a radicalização dessa exceção na forma de uma
revolução ou de uma resistência que entende seu lugar
na luta, que entende que a aparência da sociedade
capitalista é a sua essência encarnada como uma ordem
que é necessária para se ter o social, mesmo que este
social se negue seguindo um outro ponto de visa mais
radical, como o da visão da pré-história, se não há
homens efetivamente postos, o social também torna-se
pressuposto. Mas aqui, para o bem do argumento,
tomemos esta via aqui do social ao menos por enquanto
como posição. Esta ordem que aí está tem seu
fundamento na contradição entre as classes para que o
Capitalismo possa erigir e este ser o verdadeiro sujeito.
Entender o Estado de Exceção como regra, significa
entender a dominação que as classes mais baixas
sofrem e ao mesmo tempo, como o texto aponta, o
desespero que se permeia como fundamento do ethos
em todos os lados desta ''sociedade''(para fazer valer a
pressuposição), a verdadeira resistência entende isto e
ao entender propõe sua ruptura e não a inserção
institucional e assentar-se nesta para se ter um lugar na
esfera do Direito. Trata-se de entender em que viés vai a
luta e direciona-la à superação e a radicalização efetiva,
esta radicalização efetiva, significa construir um conceito
de história que abarque esta exceção. E abarcar
significa aqui, tomar essa exceção que nos leva ao
rompimento desta ordem pois suas contradições uma
vez nuas diante dos olhos de quem quiser ver, nos leva
à própria exceção radicalizada que é a sua superação
neste contexto, já que se trata de uma resistência
concreta que entende os fundamentos desta e não
perpassa como uma atitude desesperada.
Conclusões

Do ponto de vista da reflexão do texto, trata-se de


colocar o Ethos do Desespero e o Desespero do Ethos
como uma espécie de desdobramento do Estado de
Exceção que Benjamin enxerga na tradição dos
oprimidos, mas como uma via de mão dupla, para os
oprimidos como o Estado de Desespero de suas ações,
dos dominantes, como o apelo à violência descabida
como realidade.

Notas:

[1]Menção ao fatalismo análogo ao fatalismo


revolucionário, este fatalismo aqui, diz respeito à
maneira como a tradição iluminista entendia o progresso
como a ordem a partir da racionalidade, tal qual os
sociais-democratas acreditavam numa espécie de
determinismo revolucionário que surgiria no Capitalismo
e de suas contradições insolúveis.

[2]Menção a uma possível posição da dialética no


campo social, onde o lado oprimido faria o lado da
contradição. Noção vulgarizada, é claro do
funcionamento da dialética, mas útil para
esclarecimentos no nível da exposição.

[3] Menção ao desdobramento do Imperativo Categórico


Kantiano; Se para o autor de Konnigsberg, o I.C. Só é
cumprido segundo o dever e amor ao tal, este dever que
ali fora colocado é o avesso porque se coloca de forma
externa, como uma norma que castra a liberdade,
contraditória com esta auto-determinação da Vontade.

[4]Sujeito aqui é análogo ao conceito, como mais na


frente do texto será aludido.

[5]Releitura de Marx a partir de Hegel para reaproximar


a dialética de Marx e afasta-lo do determinismo histórico.

[6]Menção ao texto Kantiano e a temática do iluminismo:


Aufklerung.

[7]Passagem do Manifesto Comunista no qual Marx faz


uma analogia em relação à burguesia tal quam um
feiticeiro que evoca poderes que não pode controlar e
estes poderes voltam-se contra ele, a passagem diz o
seguinte: ''[...]assemelha-se ao feiticeiro que já não consegue
dominar as forças subterrâneas que invocara.''(Marx, Karl, Engels,
Friedrich. Manifesto Comunista, pg.45, Boitempo)

[8]Expressão que do alemão significa: Tanque de Guerra


ou algo parecido, que Marx usara para se referir à
maneira na qual o Capitalismo opera, tal qual um rolo
compressor ou algo do tipo, passando por cima de tudo
e todos.

[9]A maneira como a Fenomenologia do Espírito é


escrita, no formato de uma negação entre as figuras que
não conseguem por elas mesmas, pôr o Espírito.
[10] Referência a um verso do Poema de Luis de
Camões(?-1580) ''O amor é fogo que arde sem se ver''.

[11]Referência à obra de Arthur Schopenhauer(1788-


1860) ''As dores do Mundo'

[12]Idem a nota 2.

[13]Maneira na qual Immanuel Kant(1724-1804)


entendia como se dava o processo do conhecimento no
intelecto.

Referências Bibliográficas.
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