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bi oética

MEDICINA BASEADA EM NARRATIVAS:

O tecer
da cura
18
SET/DEZ 2013

//Rejane Medeiros
foto: Shutterstock.com
A medicina busca o bem estar do paciente
aliando-se à ciência para procurar a razão
exata das doenças e a melhor forma de
enfrentá-las. Mas, entre a enfermidade e o
médico, há um ser humano, que precisa ser
ouvido e respeitado. O avanço da tecnologia
está tornando os médicos propensos a
esquecer o ser humano que há entre a 19

doença e seu possível antídoto? Para


desafiar essa tendência, a médica
norteamericana Rita Charon propôs a
metodologia Narrativas Médicas, em que
os profissionais de saúde são instados a
ler obras literárias, escrever o que sentem
e buscar conhecer as histórias de seus
pacientes. Afinal, como a arte pode atuar
como um instrumento de humanização e
fortalecimento de vínculos?
bi oética
“O Senhor ECS era diabético e hiper-
tenso. Sofreu um AVCI e teve uma
O CURSO QUE DESUMANIZA
excelente evolução. Não apresentou
Pesquisa do professor da universidade americana Thomas Jefferson Mo-
depressão e retornava sempre muito
hammadreza Hojat mostra que o nível de empatia dos estudantes de
animado, querendo continuar com as
medicina decai no decorrer no curso. No artigo The devil is in the third year:
sessões de fisioterapia. No entanto,
a longitudinal study of erosion of empathy in medical school, publicado, em
não aderia ao tratamento de diabetes.
2009, na revista Academic Medicine, o psicólogo afirma que o terceiro ano
Após algumas consultas e percebendo
se configura como o período em que os níveis de empatia dos estudantes
minha disposição em ajudá-lo, confes-
começam a decrescer. Para chegar a essa conclusão, o pesquisador norte-
sou: ‘prefiro morrer a parar de tomar
-americano usou a Escala Jefferson de Empatia Médica, que ele ajudou a
cerveja diariamente com meus amigos
formatar nos anos 1990.
do dominó.’ Sem criticar sua crença,
negociei com o paciente afirmando
A vivência de sala de aula do conselheiro do CFM, Henrique Silva, confirma
que ele até poderia continuar com
o que os americanos mensuraram em números. “Os estudantes entram no
sua cerveja, desde que não deixasse
curso com uma visão humanitária e holística do paciente, a qual vai sendo
de tomar a metformina. Assim, ele
suplantada pelas aulas em que predominam o racionalismo cartesiano e o
acabou aderindo ao tratamento e teve
avanço tecnológico. No início predomina a vontade de ajudar quem está
sua glicemia regularizada”.
sofrendo, sendo a medicina uma vocação e uma espécie de sacerdócio.”
Essa é uma das várias histórias con-
Nas aulas de anatomia há o primeiro impacto pois o homem passa a ser
tadas pela médica Maria Auxiliadora
visto unicamente como corpo, com seus músculos, tendões, vasos e sangue.
de Benedetto, no artigo “Entre dois
Em fisiopatologia, o deslumbramento com o belo intrincado das funções
continentes: literatura e narrativas
corporais muda de tom. É quando o estudante aprende que esse corpo tem
humanizando médicos e pacientes”,
partes doentes a serem tratadas e passa a perder a visão holística, dando
em que ela relata experiências vivi-
lugar a outra, fragmentada e biométrica.
das por ela ou pelos participantes do
estágio supervisionado oferecido pela
20 “Começa aí o fascínio pela tecnologia. Ele [o estudante] descobre que pode
Sociedade Brasileira de Medicina de
curar um corpo doente usando os equipamentos e a farmacopeia correta.
Família (Sobramfa).
Ele passa a se afastar dos dogmas que tinha até então, inclusive os éticos e
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religiosos. É um poder muito forte e o estudante passa a confiar mais nos


Com seus exemplos, ela mostra que
aparelhos e exames diagnósticos do que na anamnese”, conta Henrique
ouvir o paciente é o melhor cami-
Silva, que enfatiza: “O racionalismo cartesiano se sobrepõe à concepção
nho a ser usado pelo médico na sua
humanitária e holística inicial”.
missão de cuidar. Assim como vários
profissionais, Dora Benedetto defende
Para a presidente da Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), Jadete
a humanização da prática médica, a
Lampert, um dos problemas dos currículos das escolas médicas é a pouca carga
medicina centrada na pessoa e uma
horária dedicada à semiologia, disciplina na qual o aluno aprende a interagir
relação mais próxima entre médico
com o paciente, a fazer o diagnóstico e o encaminhamento. “Há um excesso
e paciente.
de carga horária, por exemplo, em cirurgia, quando a semiologia médica é
vista uma vez, no meio do curso, e depois é quase abandonada”, critica.

Jadete defende uma mudança nos currículos de medicina, que seriam mais
centrados na construção do conhecimento e não na memorização. O excesso
de cursos de medicina, que passaram de 83, em 1990, para 202, em 2013, é um
empecilho para que haja essa mudança. “Temos um problema de capacitação,
pois não há como formar tantos professores dentro dessa perspectiva mais
contemporânea, de humanização e construção do saber”, argumenta.

Dora Benedetto também concorda que há uma desumanização do estudante


de medicina no decorrer do curso. “Pesquisas mostram que os estudantes
da área de saúde começam o curso com um nível de empatia bom, mas no
último ano, esse nível é menor”, explica.

Ela defende que os formandos sejam incentivados a expressarem seus


sentimentos, mas destaca que o distanciamento em relação ao paciente
tem sido preponderante no decorrer do curso. “Soube de alunos do terceiro
ano que faziam apostas para ver quem atendia os pacientes com menos
palavras”, critica. Na avaliação da médica, os jovens médicos, como forma
de proteção, tentam se distanciar dos pacientes. “Mas a nossa profissão
trata com emoções e não podemos fugir delas”, avalia.
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EXPERIÊNCIAS BRASILEIRAS

No Brasil, algumas universidades têm oferecido disciplinas eletivas com o


objetivo de debater textos literários e o contexto em que eles se inserem
na relação médico-paciente. Na Escola Paulista de Medicina da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp), o Laboratório de Humanidades (LabHum),
do Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde (CeHFi), oferece há
nove anos uma disciplina em que essa discussão é feita. São duas turmas,
elas se tornaram uma de graduação e outra, de pós. No segundo semestre
de 2013, um dos livros debatidos foi Os irmãos Karamazov, de Fiodor
Dostoiésvski, que deu a linha para a discussão do tema Mergulhando nas
profundezas do humano.

Outro autor russo que é muito usado nesses cursos é Leon Tolstoi, prin-
cipalmente o texto A morte de Ivan Ilitch, que relata o sofrimento de um
juiz russo à beira da morte. “Esses são dois autores que trabalham bem as
histórias de caos, de desespero; elas se tornam histórias de busca, em que
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os sofrimentos ou doenças podem ser uma oportunidade de aprendizado,


daí porque são muito usados nos cursos”, resume Dora Benedetto.

Para o diretor do CeHFi e coordenador do LabHum, Dante Gallian, só é


possível humanizar a partir da experiência estética, que pode ser literária
ou outra forma de arte. “Não será um treinamento que tornará o médico
mais humano, só a partir da arrebentação provocada pela arte é que alguém,
anestesiado por uma formação tecnicista e desumana, pode começar a se
sentir no lugar do outro”, argumenta Gallian.
“ Mas a nossa
profissão trata Além de lerem e debaterem os textos, os participantes dos cursos são levados
a escrever sobre o que sentiram. “Através de contos que aparentemente
com emoções e não não têm nada a ver conosco, descobrimos a nós mesmos por entre as
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podemos fugir delas” linhas, letras e páginas”, avalia Miriam Xavier, que participou do LabHum
no primeiro semestre de 2012.

A atividade do LabHum foi tema de pesquisa realizada por Yuri Bittar e rendeu
o artigo “A experiência estética da literatura como meio de humanização
em saúde: o laboratório de Humanidades da Escola Paulista de Medicina,
A mesma defesa é feita por Rita Cha-
Universidade Federal de São Paulo”. Nele, são relatados depoimentos de
ron, no artigo “Medicina Narrativa:
um modelo de empatia, reflexão, participantes que se sentiram transformados com a experiência.
profissionalismo e confiança”. “Apesar
do progresso tecnológico, os médicos “A ciência te dá muitas informações, mas te consome, exige uma dedicação
não têm a capacidade de reconhecer quase exclusiva, e há uma supervalorização desse lado técnico-científico,
os males de seus pacientes”, critica a mas foram as humanidades que me salvaram de um naufrágio”, admitiu um
médica norte-americana. Ela defende dos entrevistados citados na pesquisa de Bittar.
que junto com o conhecimento cientí-
fico, os médicos precisam desenvolver “O médico está inserido em um trabalho perverso, desumanizador, no qual
a capacidade de ouvir e entender os ele tem de atender centenas de pacientes em pouco tempo, com consultas
pacientes. cronometradas, mas a melhoria das condições de trabalho, por si só, não
vai torná-lo mais humano, é preciso investir na formação humanística desse
O coordenador do Laboratório de profissional”, argumenta Gallian.
Humanidades (LabHum) e diretor do
Centro de História e Filosofia das Ciên- Aluno do LabHum, o estudante Thiago Gomes, que no dia 20 de dezembro
cias da Saúde (CeHFi) da Universidade recebeu o diploma de médico formado pela Unifesp, é um entusiasta da
Federal de São Paulo, Dante Gallian, metodologia aplicada. “A maior discussão que é feita hoje na nossa profissão
também defende que os médicos é que ficamos reféns das habilidades técnicas. É possível sair dessa armadilha
voltem a ouvir seus pacientes. “O a partir do momento em que estabelecemos uma relação mais humana com
médico não consegue tirar uma his- nossos pacientes”, raciocina.
tória do paciente. O resultado é uma
medicina hiperespecializada, cada As Narrativas Médicas também são incluídas no ementário de disciplinas
vez mais cara, baseada em exames como História da Medicina, ou oferecidas de forma eletiva. Faculdades de
complementares, quando 80% dos medicina do Espírito Santo e de alguns estados do Nordeste têm provocado
problemas poderiam ser resolvidos essa discussão. A Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Estado
com uma boa anamnese e um bom do Rio de Janeiro (Unirio) também está buscando introduzir no currículo a
exame físico”, argumenta. disciplina Literatura e Medicina (saiba mais na página 24).
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“O ideal é que o médico use os avanços
científicos, sem esquecer os valores
ESCREVER SOBRE OS SENTIMENTOS humanos do paciente. Una a tecnologia
com uma ação humanitária e humanista”,
O curso prático oferecido pela Sociedade Brasileira de ensina o conselheiro do CFM de Ser-
Medicina de Família (Sobramfa) procura aplicar a metodologia gipe, Henrique Batista e Silva, que foi
denominada Medicina Baseada em Narrativas, na qual os professor da Universidade Federal de
estudantes são levados a escrever sobre o que sentiram Sergipe de 1972 a 2004. Nesses mais de
durante os atendimentos e incentivados a ler obras lite- 30 anos em sala de aula, ele percebeu
rárias, cujos enredos sejam de alguma forma relacionados uma mudança no perfil dos formandos.
a temas médicos. “Hoje os alunos estão mais interessados
em diagnósticos baseados em evidências
Nesses cursos, os estudantes acompanham profissionais de científicas, deixando em segundo plano o
medicina da família em ambulatórios, visitas domiciliares, exame físico, as narrativas e as histórias
locais de cuidados paliativos e abrigos de idosos. Após o do paciente”, constata.
atendimento, são realizadas discussões em grupos, em que
tanto o médico experiente, quanto os formados, falam sobre Henrique Silva reconhece que a atração
as histórias contadas pelos pacientes e suas próprias exercida pela tecnologia é arrebatado-
impressões. É realizada uma correlação entre os temas ra. “É como se fosse algo impactante,
abordados nas obras literárias indicadas e os estudantes grandioso e belo, pelo qual você fica
são incentivados a escrever o que sentiram. fascinado. Eu mesmo passei a ter uma
preocupação mais humanista quando
Ao levar os estudantes a escreverem o que sentem, Dora comecei a dar disciplinas de conteúdo
Benedetto, que é a tutora de muitos dos cursos da Sobramfa, humanístico, como história e ética
revela que há uma ojeriza inicial por parte deles. "Isto de da medicina e tive de me debruçar
ouvir os pacientes parece ser mais adequado a psicólogos sobre os valores estruturantes do ser
e psiquiatras do que a médicos generalistas", dizem alguns humano, culminando com a dignidade
22 alunos. "Com o escasso tempo para a realização das atividades médica” exemplifica.
requeridas para o aprendizado da prática da medicina, a
orientação para se prestar atenção aos pacientes e ouvi-los Mas, como promover essa humanização?
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com atenção e empatia não seria uma perda de tempo e uma A empatia pode ser ensinada? Diversos
tarefa a mais a nos sobrecarregar? Como as narrativas médicos já se concentraram nessa ques-
podem contribuir com a prática clínica?", questionam outros. tão e dão algumas pistas. O Programa de
Medicinas Narrativas, na Universidade
Esse receio inicial vai sendo diluído no decorrer do curso. de Columbia, criado por Rita Charon em
"As histórias dos pacientes me permitem tratar, de forma 2000, leva os participantes a refletirem
especial, cada diabético ou hipertenso e não simplesmente sobre textos previamente definidos. O
tratar diabetes ou hipertensão", escreveu um dos parti- curso também estimula estudantes a
cipantes do curso no encerramento do módulo. "Aplicar as escreverem sobre o que sentem nos
narrativas como metodologia nos faz refletir sempre. Com momentos de atendimento. Rita Charon
reflexão, cada encontro com o paciente se transforma em um admite que o profissional de medicina
aprendizado. Compartilhar histórias nos ajuda a construir procura se proteger das dores daqueles
nossa profissão e nossas próprias vidas", afirmam outros. que são tratados. O antídoto, no entanto,
é o contrário da fuga e da frieza.
Há até quem sugira que o curso se torne obrigatório.
Nas escolas médicas se começou a falar bastante sobre o “O pouco envolvimento dos médicos
humanismo, mas ainda não se estabeleceu uma conexão com com seus pacientes é uma estratégia
a prática. "A utilização das narrativas e dos recursos defensiva. Pensam: se eu for frio, obje-
literários pode fazer tal conexão", recomendou um dos tivo e distante não terei de sofrer. Isso
participantes do curso da Sociedade. é verdade, mas o que eles não sabem é
que não recebem nenhuma alegria e é por
isso que sentem burnout (caracterizado
por exaustão emocional, esvaziamento
afetivo, despersonalização etc.) e um vazio
por dentro. Isto porque não têm a ligação
necessária para saber que a sua presença
tem significado na vida de um doente e
que são uma presença estável e muscular”,
argumentou Rita Charon, em entrevista ao
jornal português Notícias Médicas.
HUMANIZAR A MEDICINA
BASEADA EM EVIDÊNCIAS

O pneumologista escocês Archie Cochrane atuou em


hospitais de campanha na Guerra Civil Espanhola e na
Segunda Guerra Mundial. A sua experiência no campo de
batalha o levou a concluir que muitos dos tratamentos
utilizados no tratamento de doenças respiratórias
não tinham comprovação científica. A partir dessa
constatação, Archie Cochrane passou a mobilizar a
Foto: Márcio Arruda
comunidade médica a adotar métodos científicos para o
tratamento de doenças, lançando os fundamentos para
a Medicina Baseada em Evidências (MEB). Os principais
difusores dos preceitos do médico são os The Cochrane
Collaboration, existentes em todo o mundo, inclusive
O MÉDICO COMO MEDICAMENTO no Brasil.
A preocupação com a humanização da medicina não
é um tema novo. Em 1957, o médico inglês Michael A MEB defende que o médico, ao prescrever um trata-
Balint defendeu, no livro “O médico, seu paciente e mento, tome a decisão baseado no maior número de
a doença”, o conceito “médico como medicamento” e informações disponíveis em artigos científicos sobre
defendeu a medicina centrada na pessoa. Para o inglês, a doença. Também propõe linhas de condutas clínicas,
o médico às vezes é apenas um placebo, alguém a quem o que resulta em uma padronização dos tratamen-
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o doente narra sua história, o que já auxilia no processo tos. Para Dora Benedetto, é importante que além do
de cura. A presença do médico, a sua dedicação sobre conhecimento científico, o médico interprete o que
o enfermo, funciona como bálsamo, que alivia dores o paciente tem a dizer. Ela destaca que é certo que a
reais e imaginárias. MEB oferece incontáveis vantagens e foi a responsável
pela supressão de grande parte do sofrimento humano
Na França e na Inglaterra, no final da Idade Média, os decorrente de enfermidades e traumatismos. Mas não
súditos acreditavam que o toque das mãos reais os deixa- podemos nos esquecer – diz – que as dimensões sutis
riam curados, o que de fato era percebido. Na análise de e imponderáveis do ser humano influenciam a forma
alguns estudiosos, essas curas talvez ocorressem princi- como ele adoece e interfere nos processos de cura.
palmente nos casos menos graves. “Era bem provável que
a excitação causada pela visita à corte e pela cerimônia “É preciso contemplar não apenas a doença (que seria
do toque afetasse o organismo, fazendo o sangue correr algo igual para todos os pacientes), mas também a
mais depressa e favorecendo uma cura”, analisou em enfermidade (que é a forma como o indivíduo vivencia
1732 o médico William Beckett, citado por Moacyr Scliar a doença),” defende Dora. Ela deixa claro não existir
no livro “A paixão transformada: história da medicina na uma contestação ao MEB, mas sim a reafirmação da
literatura”. Para Scliar, o toque transmite calor e afeto, e necessidade de se adequar as evidências científicas “ao
exerce por si só um efeito terapêutico não desprezível. paciente único que o médico tem diante de si”.

A presidente da Associação Brasileira de Educação


Médica (Abem), Jadete Lampert, tem o mesmo raciocínio.
“É possível uma complementaridade entre a MEB e uma
“É preciso contemplar não medicina centrada no paciente. O médico pode usar
apenas a doença (que seria algo todo o conhecimento científico disponível no processo
de diagnóstico da doença e, observando e respeitando
igual para todos os pacientes), as peculiaridades do paciente, prescrever o melhor
mas também a enfermidade tratamento”, argumenta.

(que é a forma como o


indivíduo vivencia a doença).”
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Foto: Frédéric Bazille (1841-1870) - The Improvised Field Hospital


O caminho do cuidado
por Molière, Tolstói e Nava
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Você já parou para pensar como uma “A literatura permite uma visão mais geral do contexto social, além de
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peça parisiense levada ao palco em dar acesso a diversos perfis psicológicos do paciente. O profissional passa
1673, um livro russo de 1886 e uma a conhecer melhor o doente”, argumenta o professor emérito de clínica
obra brasileira da década de 70 podem médica Mário Barreto, que defende a inclusão da disciplina Medicina
enriquecer o trabalho médico? Cresce e Literatura no currículo das faculdades de medicina. “Os estudantes
o número de docentes brasileiros que ganharão, pois terão uma formação mais humana e, principalmente, o
desafiam essa indagação, defendendo paciente, que terá um atendimento mais humano”, enfatiza.
o poder da interface entre literatura
e medicina. Para eles, sim, Molière, Uma iniciativa com esse objetivo vem da faculdade de medicina da
Leon Tolstói e Pedro Nava – e muitos Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), que promoveu
outros autores – podem ensinar muito seminários nos quais usou as obras desses autores. A experiência deu
sobre a prática médica. A leitura de origem ao livro “Disciplina Literatura e Medicina: a pesquisa do contexto
bons livros e a aproximação de outros médico em textos literários: uma leitura transdiscursiva”, de autoria de
discursos não-científicos pode ser um Mário Barreto e do professor de literatura Paulo César dos Santos Leal.
caminho transformador. Confira a seguir:

“A literatura permite uma visão mais geral do contexto social,


além de dar acesso a diversos perfis psicológicos do paciente.
O profissional passa a conhecer melhor o doente.”
Foto: Ricardo Chaves
Foto: Shutterstock.com

Foto: Shutterstock.com
O DOENTE IMAGINÁRIO A MORTE DE IVAN ILITCH BAÚ DE OSSOS

Composto em forma de farsa burlesca, “A morte de Ivan Ilitch”, de Leon O escritor mineiro Pedro Nava viu
“O doente imaginário”, de Molière, es- Tolstói, também permite reflexões a morte chegar muito cedo em sua
crito no século XVII, retrata a situação produtivas. Relata os momentos vida, quando seu pai, com pouco
de Argan que, achando-se enfermo, finais de um juiz russo, em que ele mais de 30 anos, morreu em de-
usava quase toda a sua renda para faz um balanço da sua vida e pon- corrência de broncopneumonia,
pagar o médico e o farmacêutico dera sobre o tratamento recebido da adquirida em uma visita médica
família e dos médicos, os quais não domiciliar que fizera em uma casa
e, como forma de economizar,
do subúrbio carioca. A saúde fragi-
pretendia casar a filha com o filho entenderam a sua dor. O único que o
lizada do pai foi um dispositivo que
do primeiro. Molière, por meio de compreendia e que procurava ame-
transferiu ao filho a solidariedade
Beralde, irmão de Argan, aponta as nizar seu sofrimento era um criado,
pelo doente.
mazelas da medicina da época, como Guerássim. A evolução da morte de
o caráter mercantilista e a pouca Ivan foi delineada pelo autor com A obra “Baú de ossos” se trata de
efetividade. enorme intensidade humana através um denso texto autobiográfico,
de um crescendo de imagens. Des- sendo o próprio Nava o narrador
“Eles (os médicos) sabem falar em creve os sintomas iniciais, além de em primeira pessoa. Aborda temas
belo latim, sabem nomear em grego seus próprios sentimentos íntimos como o tempo, a memória, a expe-
todas as doenças, defini-las; mas e o pavor pela morte. riência existencial do autor como
quanto a curar, eles não sabem médico e escritor, o erro médico,
mesmo é nada”, critica Beralde. Entre as linhas de leitura propostas e a vocação médica.
Por fim, o irmão convence o do- ao final do texto, estimula-se os
ente imaginário a ser ele próprio o alunos a refletir sobre a busca da O autor tinha uma memória pro-
médico, sem que para isso tenha de boa reciprocidade, abordando o pa- digiosa. Essa memória – uma das
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fazer o curso. É a carnavalização da ciente e não a doença como centro qualidades de um bom médico,
medicina devido à falta de ética do de estudo. O tema da morte também segundo Mário Barreto – pode
médico e do farmacêutico, que até é abordado. Esta é encarada como ser cultivada com a leitura de
fracasso, desafiando a pretensão da bons livros e a aproximação de
então se aproveitavam da fragili-
outros discursos não-científicos.
dade do paciente. medicina de tudo controlar através
Para Barreto, os bons médicos, em
dos progressos científicos e técni-
geral, são apreciadores de outros
No final da análise, Barreto e Santos cos. O próprio Ivan Ilitch, no início
saberes aparentemente dissociados
Leal propõem diversas linhas de lei- de sua doença, se coloca como um
do discurso científico. Isso permite
tura e debate, como a hipocondria, a ser imortal. Aos poucos, no entanto, que experimentem “várias sensa-
história da medicina, a psicanálise, compreende que “veio do nada e, ções humanas que enriquecem e
a prática médica, a ética médica e a dentro em breve, voltará ao nada”. estimulam a sua memória social e
mercantilização da medicina. coletiva. Fortalecem os laços com
os outros seres humanos e ajudam
a compreendê-los melhor”.

*A apresentação das obras teve como base o livro “Disciplina Literatura e Medicina: a pesquisa do contexto médico em textos literários: uma leitura
transdiscursiva”, de Mário Barreto e Paulo César dos Santos Leal.

A PAIXÃO TRANSFORMADA
A interface entre literatura e medicina O principal desafio, cada vez mais urgente “Os alunos das escolas médicas e dos
também era defendida pelo médico em uma época onde os usos que se faz da demais centros de saúde são saturados
e escritor Moacyr Scliar. “São duas tecnologia podem acentuar ainda mais a de ensinamentos técnico-científicos, até
atividades que têm em comum o assimetria entre o médico e o paciente, é mesmo de boa qualidade, mas a formação
interesse pela condição humana. A contrapor ao ensino meramente tecnicista, de caráter humanístico, importantíssima
experiência médica pode dar muito inserindo, no currículo do ensino médico e para todos os profissionais que lidarão com
para a atividade literária e esta, por de carreiras afins o que se convencionou o ser humano, fica muito a dever e, pode-se
sua vez, desenvolve uma sensibilidade chamar “humanidades médicas”, que se- dizer, é negligenciada. É exatamente este
que a medicina tende a perder por seu riam capazes de forjar no aluno um perfil saber que proporcionará ao futuro médico
aspecto tecnológico”, afirma Scliar no de profissional e de ser humano habilitado a compreensão e o respeito pelo outro”,
livro “A paixão transformada”. no trato com os outros. argumentam Barreto e Santos Leal. //RM

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