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Universidade do Sul de Santa Catarina

Sexualidade
e Orientação
Sexual: Cultura e
Transformação Social

UnisulVirtual
Palhoça, 2014
Créditos

Universidade do Sul de Santa Catarina – Unisul


Reitor
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Tânia Mara Cruz

Sexualidade
e Orientação
Sexual: Cultura e
Transformação Social

Livro didático

Designer instrucional
Isabel Zoldan da Veiga Rambo

UnisulVirtual
Palhoça, 2014
Copyright © Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por
UnisulVirtual 2014 qualquer meio sem a prévia autorização desta instituição.

Livro Didático

Professor conteudista Projeto gráfico e capa


Tânia Mara Cruz Equipe UnisulVirtual

Designer instrucional Diagramador(a)


Isabel Zoldan da Veiga Rambo Oberdan Piantino

Revisor(a)
Diane Dal Mago

306.76
C96 Cruz, Tânia Mara
Sexualidade e orientação sexual : cultura e transformação social
: livro didático / Tânia Mara Cruz ; design instrucional Isabel Zoldan
da Veiga Rambo. – Palhoça: UnisulVirtual, 2014.
104 p. : il. ; 28 cm.

Inclui bibliografia.

1. Educação sexual. 2. Orientação sexual. 3. Sexo – Educação.


I. Rambo, Isabel Zoldan da Veiga. II. Título.

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Universitária da Unisul


Sumário

Introdução | 7

Capítulo 1
Gênero, sexo e sexualidade | 9

Capítulo 2
Sexualidade em debate | 35

Capítulo 3
Identidades de gênero e orientação sexual | 67

Considerações Finais | 93

Referências | 95

Sobre o Professor Conteudista | 103


Introdução

Durante todo século XX e início do século XXI temos acompanhado


transformações, entre avanços e retrocessos, nas relações de gênero e
de sexualidade. Diferentes movimentos sociais imprimem suas marcas e
exigem seus direitos sociais, ocupando as ruas e os espaços cibernéticos.
Conhecimentos têm sido produzidos dentro dessa temática e há uma disputa
sobre esses saberes que os movimentos reivindicam como fundamentação
teórica para suas lutas, a sociedade ora os incorpora tirando deles sua
radicalidade, ora os ignora, ficando tais informações restritas a pequenos
círculos acadêmicos ou profissionais. Mas o que se observa, nesse início do
século XXI, é que, em paralelo à luta por mudanças, ainda predominam atitudes
e convenções sociais discriminatórias na maior parte do planeta, baseadas
em situações econômicas que usufruem da permanência das tradições, ou em
contextos religiosos e culturais que as justificam e até naturalizam.

O espaço escolar participa com a família e a mídia desse contraditório


processo, em parte pressionado por crianças e jovens que se recusam a entrar
para a escola, deixando do lado de fora seu corpo, seus sentimentos, suas
dúvidas e certezas. Preocupados/as com o respeito à diferença e com uma
escola transformadora, professores/as e gestores/as mostram-se abertos
a novos projetos que levem em conta as necessidades trazidas pelos/as
estudantes, mas para isso reivindicam espaços de formação que os prepare
para lidar com essa situação profissional.

No livro Sexualidade e Orientação Sexual: Educação, cultura e transformação


social nosso grande objetivo, com as habilidades que lhe propomos desenvolver
dentro de cada capítulo, é que você compreenda as bases teóricas que
fundamentam as mudanças relativas à sexualidade, gênero e educação e o
papel dos novos sujeitos políticos a elas vinculados. A ideia é que você possa,
não só reorganizar seus saberes com o que aqui trazemos para reflexão, mas
produza, durante o decorrer das leituras, projetos de trabalho individuais e
coletivos sobre a educação sexual.

O livro compõe-se de três capítulos: o que trata de gênero, sexo e sexualidade


como conceitos-chave para operar a discussão, o que trata da sexualidade em
debate, tanto para Freud, Reich e Foucault, como para os movimentos sociais
e, por fim, o último capítulo que trata do processo de construção das
identidades de gênero e de orientação sexual e do papel da escola no
respeito à diversidade sexual.

Certamente, é apenas um início, visto ser um tema altamente complexo


tanto do ponto de vista teórico como por implicar mudanças de concepção
de mundo já arraigadas há muito. Mas contamos com a sua curiosidade e
também com o desejo de conhecer e mudar o mundo!

Bons estudos!

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Capítulo 1

Gênero, sexo e sexualidade

Habilidades Reconhecer as diferenças sociais, posicionando-


se contra quaisquer formas de desigualdade
econômicas ou culturais, bem como compreender
os significados de gênero e sua importância para
a sexualidade contemporânea, são algumas
habilidades que você desenvolverá a partir dos
estudos deste capítulo.

Seções de estudo Seção 1:  Gênero, cultura e natureza.

Seção 2:  Dos primeiros usos de gênero aos


atuais significados.

Seção 3:  Interseções de gênero, raça e classe


na vivência educativa.

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Capítulo 1

Seção 1
Gênero, cultura e natureza

1.1 Mulheres e homens: entre o biológico e o social

A temática da sexualidade ganhou status de ciência sexual no mundo ocidental


a partir do século XIX, sendo tratada por especialistas, médicos e reformadores
morais. Data desse período uma nova distinção entre homens e mulheres,
baseada no sexo biológico.

Você sabia que a sexologia foi criada no final do século XIX e que seus
estudos ancoravam-se em uma base interdisciplinar como a biologia,
psicologia, história, sociologia e antropologia?

De lá para cá algumas coisas mudaram e outras permaneceram. E para


compreender a sexualidade humana em novos termos, torna-se imprescindível a
compreensão do conceito de gênero.

Para Grossi (1998, p.4),

o conceito de gênero está colado, no Ocidente, ao de


sexualidade, o que promove uma imensa dificuldade no senso
comum – que se reflete nas preocupações da teoria feminista
– de separar a problemática da identidade de gênero e a
sexualidade, esta marcada pela escolha do objeto de desejo

O que é ser homem, o que é ser mulher e as respectivas masculinidades e


feminilidades são temas associados à sexualidade e permeiam desde o cotidiano
das pessoas, os espaços educativos, a medicina até as esferas de decisão
política de governos ou organismos institucionais, como a Organização das
Nações Unidas para a educação, ciência e a cultura (UNESCO), a União das
Nações Sul-americanas (UNASUL), entre outras.

De tal modo, a sexualidade ou a orientação sexual ocupam uma centralidade nas


modernas sociedades ocidentais que elas passam a ser não uma das referências,
mas a referência principal dos sujeitos, como se o sexo biológico e tudo o que
se supõe decorrer dele determinasse nossa identidade, nossa personalidade. E a
política não escapa desse olhar escrutinador. Durante muito tempo, os meios de
comunicação estamparam os bastidores do escândalo envolvendo o presidente
da Itália e suas ligações com a rede de prostituição europeia e menores de

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Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

idade, que culminou em sua prisão (UOL, 2014). Em outro caso, diametralmente
oposto, por ser uma expressão de identidade e não um crime social, uma ação
discriminatória marcou a cidade de Quelendorf, na Alemanha. Em 1998, um
movimento de eleitores na cidade alemã alegou que o prefeito não ‘era mais
a mesma pessoa’, solicitando a destituição do cargo de prefeito para Norbert
Michael Lindner, no momento em que ele decidiu tornar-se mulher e feminina.
Nesse exemplo de Quelendorf , trazido por Louro (2000), ela tece uma reflexão
interessante, ao comentar que mudanças de partido ou de posição política não
parecem provocar a mesma ira.

E você, consegue se lembrar de outros exemplos? E mais, em algum


momento já foi instigado/a a responder sobre o que diferencia um homem
de uma mulher?

Com certeza se reconhece nessa questão. O mais provável é ter utilizado em


sua argumentação que essa diferença sexual estava atrelada aos ‘diferentes’
órgãos sexuais ou à ‘diferente’ sexualidade – ambas comumente associadas
aos aspectos biológicos. Em decorrência, ao partir da afirmação de que sexo/
sexualidade deriva apenas da natureza, passou, quase automaticamente,
à dedução de que todas as demais características humanas, entre elas a
masculinidade e a feminilidade como igualmente decorrentes dessa diferença
primordial. Nessa lógica, está presente o padrão humano contemporâneo para
o qual ser homem significa ser macho, masculino e heterossexual, e ser mulher
significa ser fêmea, feminina e igualmente heterossexual.

Para Jeffrey Weeks (2000, p. 37), essa forma de pensar a sexualidade

reflete uma preocupação pós-darwiniana do final do século


XIX em explicar todos os fenômenos humanos em termos
de forças identificáveis , internas, biológicas. Hoje estamos
mais inclinados a falar sobre a importância dos hormônios e
dos genes na moldagem de nosso comportamento, mas a
suposição de que a biologia está na raiz de todas as coisas
persiste (...) Falamos todo o tempo sobre o “instinto ou impulso
do sexo”, vendo-o como a coisa mais natural. Mas é isso
mesmo? Há agora vasta literatura sugerindo, ao contrário,
que a sexualidade é, na verdade “uma construção social”,
uma invenção histórica, a qual, naturalmente, tem base nas
possibilidades do “corpo”: o sentido e o peso que lhe atribuímos
são, entretanto, modelados em situações sociais concretas.

11
Capítulo 1

Parte desse modo de ver busca sua justificativa no fato de que a reprodução
parece ser um processo puramente biológico, e que de modo candente seria a
mulher a figura central desse processo. Utilizamos a expressão parece biológico
porque partilhamos da concepção de que os seres humanos são biopsicossociais
e que não é possível separar exatamente o que é natureza e o que é cultura, por
mais que haja concepções que busquem no biológico uma essência humana
da qual decorrem todas as características. À busca em elementos da natureza
para justificar quaisquer diferenças entre seres humanos, atribuindo aptidões
físicas e psicológicas para diferenças geográficas, étnicas, de sexo, entre outras,
designamos como determinismo biológico. À busca de explicações para um
fenômeno a partir de uma essência comum que independe de fatores externos,
designamos como essencialismo.

Excertos do verbete Essencialismo de Ceia (2014).

[Filosofia] De um ponto de vista filosófico, o essencialismo remete para a crença na


existência das coisas em si mesmas, não exigindo qualquer atenção ao contexto
em que existem. Uma posição essencialista distingue-se facilmente de uma posição
dialética: a primeira pressupõe a reflexão de uma coisa em si mesma, a segunda
privilegia a reflexão de uma coisa em relação com outras; a primeira confia em que
as qualidades de uma coisa  revelam-se a si próprias, a segunda defende que as
qualidades de uma coisa devem ser sempre discutidas em confronto com outras
qualidades e com outras coisas, procurando-se sempre uma explicação lógica para
que uma dada qualidade exista ou predomine. (...)

O construcionismo social, o qual adotamos para pensar as questões de gênero


e sexualidade, contrapõe-se ao essencialismo e ao determinismo biológico,
englobando um rol de concepções (em níveis diversos de articulação) que
afirma ser possível compreender o corpo e a sexualidade (significados e práticas
sociais), em cada contexto histórico específico.

Dentro da concepção essencialista, os sentidos de normalidade e aceitação


inserem-se em um quadro instituído de relações de poder dominantes e que
tiveram seu questionamento a partir dos movimentos sociais, como os feministas
e os movimentos de lésbicas, gays, bissexuais e trans (LGBT).

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Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

1.2 Noções básicas sobre os diferentes significados


de feminismo
O termo feminismo é vítima de uma campanha difamadora sem precedentes
pelos meios de comunicação de massa nas décadas de 80 e que se segue no
século XXI. Inclusive, erroneamente, passa-se a informação de que há apenas
um tipo de feminismo. Os motivos que levaram a isso são históricos e culturais,
mas fogem aos propósitos de nossa reflexão, cujo foco é gênero e sexualidade.
Mas para que o gênero não entre em nossa discussão e o feminismo saia pela
janela, como dizem algumas feministas, vamos pontuar alguns aspectos do(s)
feminismo(s) aqui, porque dele(s) falaremos no decorrer de muitos temas tratados
nos capítulos posteriores.

E você, consegue formular, em poucas palavras, uma definição de


feminismo? Talvez você até seja feminista sem saber! Pense nisso
por alguns momentos e só depois siga a leitura e compare com
sua autorreflexão.

Claro que é possível haver elementos comuns para uma proposição feminista, a
partir do dado básico da igualdade social entre os sexos em todos os sentidos
(econômicos, culturais, afetivos etc.), mas vamos trazer um pouco dessa história
para que você compreenda as diferentes correntes feministas.

Essa luta começou há pouco mais de dois séculos, antes mesmo de ser utilizada
a palavra feminismo. Antes disso havia homens e mulheres que, de modo isolado,
lutavam pela igualdade entre homens e mulheres, mas enquanto manifestação
política, é a participação das mulheres nas revoluções burguesas da França e
Inglaterra, no século XVIII, que tem sido considerado o marco histórico. Naquela
época, as mulheres cobravam do novo ideário burguês os direitos à igualdade de
participação política, de educação e, consequentemente, de acesso às profissões
oriundas da formação escolar. As ações das mulheres foram severamente
reprimidas, como aconteceu com a jovem escritora Olympe de Gouges, que ainda
jovem escreveu a famosa Declaração dos Direitos das Mulheres e das Cidadãs
no ano de 1791, pouco antes de a Revolução Francesa começar e depois
foi guilhotinada.

A Revolução Francesa expressava a concepção, já hegemônica, naquele


momento, dentro da dominação masculina vigente, de que apenas homens
podem fazer política e serem portadores de direitos. A mulher, como deveria
submeter-se aos homens, estaria atrelada aos seus pais ou maridos e não
precisava de representação política como o direito ao voto, ou usufruir de direitos
civis, como o acesso à educação.

13
Capítulo 1

Hegemonia

É preciso, pois, tentar alcançar a compreensão do conceito de hegemonia


proposto por Gramsci, peça-chave para a construção deste processo metódico de
transformação social. A hegemonia seria a capacidade de um grupo social unificar
em torno de seu projeto político um bloco mais amplo, não homogêneo, marcado
por contradições de classe. O grupo ou classe que lidera este bloco é hegemônico
porque consegue ir além de seus interesses econômicos imediatos, para manter
articuladas as forças heterogêneas, numa ação essencialmente política, que impeça
a irrupção dos contrastes existentes entre elas.

Logo, a hegemonia é algo que se conquista por meio da direção política e do


consenso, e não mediante a coerção. Pressupõe, além da ação política, a
constituição de uma determinada moral, de uma concepção de mundo, numa
ação que envolve questões de ordem cultural, na intenção de que seja instaurado
um “acordo coletivo”, por meio da introjeção da mensagem simbólica, produzindo
consciências falantes, sujeitos que sentem a vivência ideológica como sua verdade.
O pensamento político e ideológico, dessa forma, apresenta-se como uma realidade
prática, porque, ao ser compreendido e aceito pelos atores sociais, torna-se
poder material, converte-se em ação prática, ou, mais precisamente, em práxis.
(COSTA, 2012, s.p)

Desde a Revolução Francesa até o início do século XX, as bandeiras desse


feminismo burguês (ou feminismo liberal) se materializaram nas lutas pelo voto,
acesso à escolaridade superior e ao exercício do trabalho fora de casa, em
profissões que se consideravam, na época, compatíveis ao ‘ser mulher’ como
professoras, médicas, jornalistas e escritoras. O feminismo liberal centrava-se
na luta por igualdade de direitos entre homens e mulheres, tanto nas relações
familiares e amorosas, como no mundo do trabalho e da política.

Ocorre que, ao mesmo tempo, as mulheres proletárias, termo da época para


as trabalhadoras, que igualmente lutavam pelo acesso ao trabalho e ao voto,
percebiam que as conquistas jurídicas não bastavam, devido às duras condições
de trabalho em que se encontravam, priorizando as reivindicações de “salário
igual para trabalho igual”, “proteção do trabalho feminino” (no que o trabalho
afetava diferenciadamente a saúde da mulher) e “proteção à maternidade”, mas
enfrentavam forte resistência da sociedade capitalista.

“Existe un contraste repugnante en Inglaterra entre la esclavitud de la mujer


y la superioridad intelectual de las mujeres escritoras.” Flora Tristan

“Na Inglaterra existe um terrível contraste entre a escravidão da mulher e a


superioridade intelectual das mulheres escritoras.” Flora Tristan

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Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Essas bandeiras as distanciavam da ênfase do feminismo burguês nas


reivindicações pelo voto ou acesso às profissões liberais, por considerarem
que estavam longe de seus problemas básicos, corte reivindicatório que as
aproximava novamente dos trabalhadores homens, construindo uma identidade
de classe. Às vezes, enfrentavam fortes contradições, porque tinham que
lutar contra alguns homens de sua própria classe, que as queriam em casa
e no cuidado dos filhos. Todavia, nas greves e manifestações gerais lutavam
por melhores condições de vida e de salário, para o conjunto das classes
trabalhadoras. É construído assim o feminismo, com um corte de classe (também
chamado de socialista, comunista, anarquista), em oposição ao feminismo liberal.

Entre elas se destacaram Flora Tristán e Alexandra Kollontai: a primeira, filha de


mãe francesa e pai peruano, era escritora e militante nas lutas do início do século
XIX, junto a operários e operárias franceses; a segunda, também escritora,
participou do processo revolucionário que culminou com a Revolução Russa,
como Comissária do Povo para a Segurança Social, implementou mudanças
econômicas e sociais para as mulheres e lutou por relações amorosas igualitárias
entre os sexos.

O feminismo comunista tem como eixo a crítica à propriedade dos meios de


produção por uma classe social, a divisão social e sexual do trabalho (entre
homens e mulheres, intelectuais e braçais, entre outras) e a necessidade de
superação da sociedade de classes. Denuncia a contradição do capitalismo
entre a possibilidade histórica da ‘igualdade’ de todos os sexos e a manutenção
das hierarquias entre homens e mulheres, principalmente no tocante à divisão
sexual do trabalho, mantendo as mulheres presas à reprodução da vida no
mundo doméstico, quer em jornada única de trabalho em casa, quer em dupla
jornada. Dentro desta concepção, temos o feminismo socialista e o feminismo
anarquista, com visões diferenciadas sobre o modo pelo qual se daria processo
revolucionário que levaria a essa sociedade sem classes, comunista.

Entre tantas correntes feministas, como o liberal e o comunista, encontramos


também outras divisões, como o feminismo essencialista, que se aproxima do
liberal, enquanto proposta política de sociedade centrada na luta pela igualdade
jurídica, mas enfatiza serem as diferenças de masculinidade e feminilidade
entre homens e mulheres enraizadas na biologia e reforçadas pela cultura.
Nesta concepção,

toma-se a relação mulher/natureza como produto da experiência


adquirida no espaço doméstico, que cria valores baseados na
solidariedade, que são considerados femininos e que devem ser
assumidos como modelares para orientar as relações entre os
seres humanos e a natureza. (SOUZA, 2000, p. 58).

15
Capítulo 1

O feminismo essencialista, mais conhecido como Feminismo da Diferença,


questiona a hierarquia entre masculino e feminino e nega determinados valores da
masculinidade como negativos para o desenvolvimento da humanidade. Para
Garcia (2001), o feminismo essencialista engloba as distintas correntes que
igualam a liberação das mulheres com o desenvolvimento e a preservação de
uma contracultura feminina: viver em um mundo de mulheres para mulheres.

Candiotto (2012, Essa contracultura exalta o princípio feminino e seus


p.1399) acrescenta valores e repudia o masculino. Para essa corrente,
que no feminismo
essencialista “o
os homens representam a cultura; e as mulheres, a
mundo das mulheres natureza. Ser natureza e possuir a capacidade de serem
mostra que elas são mães comporta qualidades positivas que inclinam
mais intuitivas, sensíveis
exclusivamente as mulheres à salvação do planeta, já que
e empáticas; enquanto
o mundo dos homens são moralmente superiores aos homens. A sexualidade
é caracterizado masculina é agressiva e potencialmente letal, a feminina
pela agressividade, difusa, terna e orientada às relações interpessoais. Por
competitividade,
último, a opressão da mulher deriva da supressão da
autoconcentração
e eficiência.” essência feminina. (GARCIA, 2011, p.101).

As três bases feministas apresentadas, como o Feminismo


Essencialista (ou Feminismo da Diferença), defensor da
diferença biológica e sua manutenção sem hierarquias, o Feminismo Liberal, mais
centrado na luta por direitos, e o Feminismo Comunista (socialista e anarquista),
que incorpora a luta por direitos, questionando as bases econômicas e políticas
da organização capitalista que alimenta a desigualdade , seguem existindo em
paralelo a outros feminismos que foram surgindo, de um modo ou outro ligados a
uma dessas vertentes, como o Feminismo Radical, que se inicia marxista e depois
se constitui como uma corrente liberal, ou o Ecofeminismo e o Feminismo Negro,
em diferentes facetas.

1.3 Natureza, cultura e poder


A ideia consolidada de utilizar a diferença biológica como causa da existência de
masculino e feminino, tão comum entre nós que parece ter sempre existido, data,
na verdade, do início do século XVIII. Até esse período predominava a ideia de
sexo único e quaisquer justificativas de diferenças entre homens e mulheres que
justificavam o poder dos homens eram fundamentadas nas concepções religiosas
ou filosóficas e não se utilizava o sexo (ser homem, ser mulher) e suas diferenças
anatômicas para comprovar a hierarquia. (LAQUEUR, 2001). Segundo ele, dizia-
se que “as mulheres, em outras palavras, são homens invertidos, logo, menos
perfeitas. Têm exatamente os mesmos órgãos, mas em lugares exatamente
errados.” (LAQUEUR, 2001, p. 42).

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Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Figura 1.1 – Órgão sexual feminino visto como semelhante ao masculino.

Fonte: Gregoli (2012).

Ainda no século XVII, “parteiras e médicos acreditavam que o orgasmo


feminino era uma das condições para uma concepção de sucesso, e davam
várias sugestões para que a mulher o atingisse”. (LAQUEUR, 2001, p.7). Os
estudos desse autor revelam que as ideias dominantes de haver dois sexos
antagônicos e de mulheres como seres sem acesso ao prazer, em nada devem
aos avanços da ciência, mas foram respostas às demandas históricas e políticas
que marcaram a construção da sociedade liberal moderna e sua nova forma de
dominação masculina.

Localizar o sexo biológico ou o ‘sexo verdadeiro’ dentro do binarismo homem e


mulher tem sido desde então uma necessidade da medicina, que a cada época
e com suas correspondentes tecnologias, situa-o ora na anatomia, ora nos
cromossomos ou, ainda, nos genes e hormônios. Em geral, sem sucesso.

Tais concepções são alimentadas também pelo senso comum ainda presente
nas ciências biológicas: é frequente encontrar, em intervalos de tempo
regulares, extensas matérias em jornais, revistas e programas de televisão que
buscam justificar quaisquer diferenças na anatomia dos órgãos sexuais, nos
cromossomos, hormônios ou, a partir do desenvolvimento da neurociência, na
relação entre hormônios e conexões neuronais.

Uma característica em comum nos textos jornalísticos é que os jornalistas


constroem a matéria utilizando a ciência e a alta tecnologia como forma de
convencimento do leitor, e deixam de lado que os sujeitos pesquisados, em
geral, já estão com os elementos básicos de sua constituição cerebral e de sua
psique já selecionada por sua trajetória de formação biopsicossocial que se dá,

17
Capítulo 1

primordialmente, na primeira infância. Entre as exceções sobre esse ‘equívoco’,


encontramos a matéria jornalística intitulada ‘Mapa cerebral vê diferença entre
os sexos’, a qual, na segunda parte, destaca que as diferenças observadas entre
adultos não foram encontradas entre crianças:

As diferenças mais acentuadas no novo estudo de mapeamento


cerebral, porém, só foram vistas em adultos, afirmam os autores
do trabalho. Meninas e meninos não exibiam, em média, a
disparidade anatômica que foi vista em homens e mulheres. Isso
abre espaço para que a origem das diferenças seja cultural e não
de nascimento. (GARCIA, 2013)

No entanto, o título da matéria é tendencioso, porque induz ao contrário. Por


trás dessa lógica da busca da diferença biológica está também a busca da
normalidade, pois os pesquisadores não mencionam as pessoas que fogem
ao padrão esperado e jornalistas raramente perguntam se houve quem não se
adequou ao padrão.

De acordo com essas concepções, ocupar majoritariamente postos de direção


viria da capacidade inata de liderar dos homens, a presença de mulheres como
educadoras da educação infantil e fundamental seria resultado da sensibilidade
feminina, as carreiras ligadas às engenharias e computação dependeriam da
habilidade masculina com a área de exatas. No entanto, os estudos de gênero
vêm mostrar que essa divisão sexual do trabalho nada tem de natural, como nos
mostra a socióloga Elizabeth Souza-Lobo (1991) em seu livro A classe operária
tem dois sexos.

A partir desses exemplos, convidamos você a pensar: já observou que


as diferenças citadas são permeadas por uma hierarquia em que ao
masculino é atribuído um valor maior, e que, não raro, expressam-se em
desigualdades econômicas?

Ao ocuparem determinados trabalhos, as mulheres recebem determinados


salários compatíveis com o valor atribuído socialmente a esse trabalho. Na média
salarial brasileira, as mulheres recebem cerca de metade ou, no máximo, um terço
dos salários masculinos. Sem contar que o trabalho doméstico, que provoca
dupla jornada para muitas mulheres, é desvalorizado socialmente e visto como
não trabalho. A manutenção da divisão sexual do trabalho é uma das bases que
perpetua a organização econômica da sociedade, ao cuidar da reprodução da
força de trabalho em âmbito familiar e privado, sem custos para o capitalista.
(CRUZ, 2010)

A nossa forma simplificada de pensar as relações de gênero expressa o modo


de a sociedade se organizar em dicotomias e pólos antagônicos e excludentes,

18
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

como homem-mulher, masculino-feminino. E naturalizamos também outras


dicotomias como superior-inferior, que aplicamos não só ao masculino e
feminino, mas a todas as dimensões de nossa vida, como adultos e crianças,
heterossexuais e homossexuais, brancos/as e indígenas e tantas outras,
habituados que estamos em viver de modo alienado em uma sociedade de
classes, que tem por princípio estruturar-se a partir da hierarquia social e da
desigualdade econômica.

Se agregarmos o marcador raça ao de sexo, não só constatamos a hierarquia e


a desigualdade entre brancos/as e negros/as, como também dentro da categoria
mulheres observamos diferenças entre elas, sendo que em sua maioria as negras
ocupam os trabalhos menos remunerados e pouco valorizados socialmente,
como o emprego de trabalhadoras domésticas. Ao mesmo tempo, mulheres
brasileiras brancas e negras podem ter condições de vida semelhantes, se
pensarmos no recorte de classe social e as situarmos no conjunto de mulheres
que trabalham na informalidade e/ou com baixos salários.

1.4 Duas precursoras: Margareth Mead e Simone de Beauvoir


A compreensão do modus operandi de uma determinada configuração cultural ou
do que a gerou tem sido trabalho árduo de antropólogos/as. Em uma pesquisa
sobre povos ainda existentes na Nova Guiné, cujo resultado foi publicado em
livro no ano de 1950,. sob o título Sexo e Temperamento, a antropóloga Margaret
Mead (1988), ao procurar saber se “havia ou não diferença de temperamento
entre os sexos”, terminou por trazer mais contribuições do que imaginava
inicialmente. É o primeiro estudo da antropologia que oferece pistas sobre o que
viria a ser chamado posteriormente de gênero, mas que Mead (1988) designa
como temperamento ao desvincular a diferença de sexo biológico da construção
cultural dos significados de masculino e feminino.

A antropologia cultural ou etnologia, por ser uma ciência que realiza um estudo
comparativo de diferentes formas de organização social, sempre foi um terreno fértil
para se compreender como se dão as relações entre homens e mulheres, abrindo
uma perspectiva crítica sobre a organização atual dessas mesmas relações ou
procurando, ainda, encontrar elementos que expliquem o que levou à divisão sexual
de trabalho entre homens e mulheres e à dominação masculina.

Mead (1988) analisa nessas culturas da Nova Guiné uma predominância da


divisão sexual do trabalho, mas com características variáveis de temperamento
e do que é permitido/proibido a cada sexo.

19
Capítulo 1

Entre os Arapesh há uma divisão sexual geral do trabalho, e o cuidado com as


crianças é considerado tarefa de ambos, desde a concepção. O ‘temperamento’
predominante entre homens e mulheres é amigável, delicado e cuidadoso, sendo
que apenas os meninos selecionados para a chefia e os contatos com o mundo
exterior é que devem aprender a agressividade em um ‘temperamento’ que só é
valorizado nesta função que visa a estabelecer relações com outros povos.

Entre os Tchambuli, as mulheres vivem em grupos, controlando toda a produção


e circulação dos produtos,possibilitando trocas econômicas com outros grupos.
Enquanto as mulheres vivem e trabalham em grupo, realizando também o
trabalho doméstico relativo às crianças e ao alimento cotidiano, os homens vivem
isolados e brigando entre si pelo amor e atenção das mulheres, em suas casas
individuais, fazendo a sua comida, produzindo arte e ornamentos para dançar e
se enfeitar para as mulheres. Apesar de serem os chefes religiosos e políticos, o
controle do trabalho e da economia está nas mãos das mulheres que, segundo
Mead, são alegres, decididas e têm um forte sentido de coletividade e parceria
no cotidiano.

No ritual do casamento, em ambas as culturas, são os homens que escolhem as


esposas para seus filhos, promovendo as alianças dos clãs por meio da saída
da mulher para o clã do marido e com pequenas brechas de recusa para as
mulheres: no caso dos Arapesh, elas podem se separar quando crescerem, caso
o desejem e entre os Tchambuli a “escolha” supõe sempre aceitação prévia pela
esposa indicada.

Pelas informações de Mead, podemos inferir que há assimetrias e jogos de


poder recíprocos nas relações de gênero nessas culturas, e que os significados
de gênero não são universais (iguais em todas as culturas) ou atrelados ao
sexo biológico.

E você, conhece alguma sociedade em que o significado de gênero seja


diferente do que está acostumado/a a pensar? Ou que seja o contrário do
que vivencia no cotidiano?

No mesmo momento histórico, no ano de 1949, a escritora francesa Simone de


Beauvoir publica o livro “O Segundo Sexo”, no qual afirma:

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino


biológico, psíquico, econômico, define a forma que a fêmea
humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização
que elabora esse produto intermediário entre o macho e o
castrado que qualificam de feminino. (BEAUVOIR, 1980, p.9)

20
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Figura 1.2 – Simone de Beauvoir


Publicado em dois volumes, o trecho
acima está no início do volume 2 ,‘A
experiência vivida’. A força dessas
palavras provocará uma das bases
para o questionamento do destino
biológico atribuído às mulheres. Para
Beauvoir, os seres humanos são
capazes de ‘repetir’ a vida, pelo ato
da reprodução biológica e da ‘criação’
da vida por meio da cultura. Segundo
ela, o fato de a mulher reproduzir a
vida, obriga-a a uma camisa de força
biológica que possibilita ao homem
subjugá-la, pois ele fica livre para a
criação cultural, enquanto que ela,
ao ter que cuidar da prole, de certa
maneira, torna-se cúmplice dele. A
grande preocupação de Beauvoir é,
na verdade, que o sujeito biológico
Fonte: Bresson (1946). “mulher” se aperceba do que foi
feito de si enquanto vinculação da
diferença biológica às diferenças culturais e de sua subordinação ao homem.
Nas palavras de Louro, a importância de Beauvoir sobre a crítica do que
significava a mulher estava em afirmar que:

seu modo de ser e estar no mundo não resultava de um ato


único, inaugural, mas que, em vez disso, constituía-se numa
construção. Fazer-se mulher dependia das marcas, dos gestos,
dos comportamentos, das preferências e dos desgostos que lhes
eram ensinados e reiterados, cotidianamente, conforme normas e
valores de uma dada cultura. (LOURO, 2008, p. 17)

Ambas as autoras deram o passo inicial para o questionamento da natureza como


fundamento para um destino inevitável. De lá para cá gênero tomou o lugar de
temperamento, mulheres no plural (negras, indígenas, lésbicas...) tomaram o lugar
da ‘mulher universal’ e, mais recentemente, as dicotomias de homem-mulher e
masculino-feminino têm sido implodidas pelas rupturas provocadas pela
Teoria Queer.

21
Capítulo 1

Seção 2
Dos primeiros usos de gênero aos
novos significados

2.1 As origens
O conceito de gênero apareceu pela primeira vez nos Estados Unidos no início da
década de 60. Haraway (2004) nos traz um pouco desta história inicial:

Em 1958, o Projeto de Pesquisa sobre Identidade de Gênero


foi constituído no Centro Médico para o Estudo de Intersexuais
e Transexuais, na Universidade da Califórnia, em Los Angeles
(UCLA). O trabalho do psicanalista Robert Stoller discutia
e generalizava as descobertas do projeto da UCLA. Stoller
apresentou o termo “identidade de gênero” ao Congresso
Internacional de Psicanálise, em Estocolmo, em 1963. Ele
formulou o conceito de identidade de gênero no quadro da
distinção biologia/cultura, de tal modo que sexo estava vinculado
à biologia (hormônios, genes, sistema nervoso, morfologia) e
gênero à cultura (psicologia, sociologia). O produto do trabalho
da cultura sobre a biologia era o centro, a pessoa produzida pelo
gênero – um homem ou uma mulher.” (HARAWAY, 2004, p.216)

Nos Estados Unidos, o uso tornou-se crescente nas décadas seguintes, mas na
França, por exemplo, durante muito tempo predominou a expressão ‘relações
sociais de sexo’ e que inclusive perdura parcialmente até início do século XXI.
Por um certo tempo, houve no Brasil uma mescla na forma de usar os conceitos,
devido às influências dos dois países, mas no final dos anos noventa passou a
haver um predomínio do uso do conceito ‘relações de gênero’ ou ‘gênero’, às
vezes de modo equivocado, expresso pela simples troca de palavras.

Ao falar do feminismo norte-americano, Nicholson (2000) pontua a necessidade


de pluralizar os sentidos de ‘mulher’, mas ao mesmo tempo propor políticas de
coalizão em contextos específicos:

Se as feministas brancas nos Estados Unidos sentem cada vez


mais a necessidade de considerar seriamente as reivindicações
das mulheres não brancas, e não as das brancas conservadoras,
isso acontece não porque as primeiras possuam vaginas e as
últimas não, mas porque multos de seus ideais estão bem mais
próximos dos ideais de muitas não brancas do que dos ideais das
conservadoras. Talvez seja hora de assumirmos explicitamente
que nossas propostas sobre as “mulheres” não são baseadas
numa realidade dada qualquer, mas que elas surgem de nossos

22
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

lugares na história e na cultura; são atos políticos que refletem os


contextos dos quais nós emergimos e os futuros que gostaríamos
de ver. (NICHOLSON, 2000, p.38)

Por isso, afirmamos que gênero, além da ideia de masculinidades e feminilidades,


expressa relações de poder tanto quanto outros marcadores sociais e com eles
se combina, constituindo grupos sociais com identidades múltiplas, em que cada
grupo se apresenta com necessidades particulares, mas sofrendo experiências
comuns à organização social e econômica em que estão inseridos.

A pouca reflexão dessa temática nos espaços de formação de educadores/as


termina por favorecer que as escolas e universidades sejam ainda difusoras de
concepções naturalizantes, que só reforçam relações baseadas em dominação
e exploração.

2.2 Gênero e sexo

Vamos refletir sobre o conceito de gênero. De que modo ele faz parte de
nossa vida?

Podemos dizer que as diferentes expressões de masculinidades e feminilidades


são personificadas em cada sujeito, independente de seu sexo biológico,
e resultam de um complexo processo cultural e não de diferenças naturais
instaladas em corpos de mulheres e de homens. Não há uma natureza que não
seja informada pelo gênero: desde o momento em que nasce podemos dizer
que o corpo, ao qual se atribui socialmente o atributo de sexo de homem ou de
mulher, já nasce generificado. O conceito de gênero foi criado exatamente para
distinguir a dimensão biológica da dimensão cultural e demonstrar que essas
dimensões não existem em
Figura 1.3 – Teoria Queer: fim da demarcação de
gênero e de sexo separado, cruzam-se, mas não
decorrem uma da outra!

Gêneros não são derivados, em


qualquer circunstância, do modo
de os seres humanos explicarem
a diferença biológica. Como
vimos, a própria ideia de ‘diferença
biológica’ foi construída no século
XIX, como afirma o historiador
Fonte: Desaventurasfemininas, (2014).
Laquer (2001).

23
Capítulo 1

Ao afirmar que é da base biológica de homens e mulheres que decorre as


diferenças construídas culturalmente, o fundacionismo permanece preso à
biologia. Perceba a sutileza desse jogo de palavras, que a título de exemplo
trazemos aqui, na seguinte explicação: gênero são as
Nicholson (2000)
chamará de diferenças culturais estabelecidas a partir das diferenças
fundacionismo biológicas entre homens e mulheres. Como podemos ver,
biológico a concepção o fundacionismo supera apenas em parte o
daqueles/as que afirmam
ser o gênero diferenças
determinismo biológico, já que supõe haver, mesmo
de masculinidade e parcialmente, características humanas comuns ‘dentro’
feminilidade ‘decorrentes’ de cada sexo biológico.
das diferenças
biológicas entre homens Os estudos de gênero contribuem para explicar de
e mulheres.
que modo diferentes culturas constroem diferentes
Gênero se refere à significados de masculino e de feminino e até
construção social
mesmo porque, dentro de cada cultura, também
de significados de
masculinidades e de não encontramos apenas uma masculinidade e uma
feminilidades que feminilidade, visto que há resistências e experiências
compõem, em conjunto sociais diferenciadas do padrão dominante, hegemônico,
com outros marcadores
configurando uma pluralidade de significados que
sociais, os atributos
de cada sujeito, e é permeia cada época e lugar.
resultado do modo
como cada sociedade O conceito de cultura é polissêmico, mas a visão
se organiza e produz trabalhada aqui em nossa reflexão fundamenta-se
sua cultura.
em uma visão marxista, na qual os dois sentidos que
se combinam:

a. o sentido amplo de cultura humana, um conjunto de aspectos


relativos à produção e reprodução da vida, em todas as suas
dimensões econômicas, políticas, artísticas, religiosas e a
consciência social resultante desse amplo processo que é
simultâneo e contraditório;
b. um sentido estrito em que dentro da produção e reprodução da
vida organiza-se a base econômica e a base social e cultural;
dentro dessa segunda base temos o conjunto de aspectos
ligados à produção de significados em todas as dimensões do
fazer humano, incluindo aí a ideologia e a consciência social.
Ressaltamos que as ações decorrentes das relações produtivas
alteram as demais relações as quais, por sua vez, constituem-se
como materialidade e poder e, dialeticamente, agem sobre a base
econômica, desestabilizando-a e ampliando o rol de contradições
que se manifestam socialmente em um processo contínuo de
permanências, conflitos e transformações.

24
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

É importante frisar que, em ambos os sentidos, está presente a noção de conflito


entre concepção hegemônica de mundo das classes dominantes e concepções
contra-hegemônicas pelas classes dominadas, com outras visões de mundo,
conflito que é resultante e provocador, ao mesmo tempo, de mudanças materiais.

Marx, em A ideologia alemã, afirma que: “todas as condições e funções


humanas, independente de como e quando se apresentem, exercem
influência sobre a produção material, agindo sobre ela de maneira mais ou
menos determinante” (MARX, 2007, p.86).

Sobre a multiplicidade de gêneros (pluralidade de masculinidades e feminilidades)


presentes socialmente, ancoramo-nos também em Connell (1995; 1997), o qual
argumenta haver uma masculinidade hegemônica em cada cultura que configura
a sociedade como sendo de dominação masculina, mas ela recebe/sofre a
pressão de outras masculinidades que dialogam com ela, em um processo
dinâmico de incorporação e negação de mão dupla. Por outro lado, todas
as feminilidades são subalternas, mesmo expressando resistências e formas
diferenciadas da feminilidade padrão esperada.

Frisemos que não se pode utilizar gênero como sinônimo de mulheres e homens,
confusão que ainda se faz presente em muitos textos sobre gênero e dificulta
sua compreensão. Os termos homem ou mulher são variáveis necessárias para a
compreensão das relações de gênero no presente momento, e sua explicitação
em censos demográficos e demais pesquisas tem sido uma antiga reivindicação
feminista. Como saber, por exemplo, sobre a diferenciação escolar ou salarial se
não se perguntar quantos são homens e quantos são mulheres? Nesses casos,
a substituição da categoria sexo por gênero só nos tem causado problema. Se
gênero não é sinônimo de sexo, por que a troca? Mais adequado seria para
o avanço acadêmico e político se fosse agregada a pergunta sobre o gênero,
além da pergunta sobre o sexo, pois expressar masculinidades ou feminilidades
descoladas do sexo biológico é, no momento da escrita deste texto, uma
reivindicação já presente no movimento LGBT.

Figura 1.4 – Gênero ou orientação sexual?

Fonte: Becker (2011).

25
Capítulo 1

Reflita conosco: como uma pessoa que é do sexo biológico homem, mas
se considera do ponto de vista do gênero como feminina, responderia a
uma enquete sobre sexo biológico? Em outros termos: se não houver a
pergunta sobre o sexo biológico deduziremos que todos que responderam
à pergunta de gênero, com a resposta ‘feminina’, seriam... mulheres?

A partir dessa problematização, pensamos que a entrada do conceito de gênero


não significa, a nosso ver, o abandono dos sujeitos. Menos ainda do aporte da
luta feminista, responsável por seu surgimento e difusão no meio acadêmico.
Como vimos, não são, entretanto, significados neutros do ponto de vista do
poder, visto expressarem desigualdades sociais entre seres humanos.

Ao estudar as masculinidades, Connell (1995, p.189) argumenta que

(...) diferentes masculinidades são produzidas no mesmo contexto


social; as relações de gênero incluem relações entre homens,
relações de dominação, marginalização e cumplicidade. Uma
determinada forma hegemônica de masculinidade tem outras
masculinidades agrupadas em torno dela que não equacione
gênero simplesmente com uma categoria de pessoas. Se a
‘masculinidade’ significasse simplesmente as características dos
homens, não poderíamos falar da feminilidade nos homens ou da
masculinidade nas mulheres (exceto como desvio) e deixaríamos
de compreender a dinâmica do gênero.

Se há uma masculinidade que é hegemônica, os sujeitos homens ou mulheres


que incorporam novas masculinidades sofrem discriminação, assim como
as feminilidades que são sempre subalternas. Até aqui estamos falando de
delimitações de sexo biológico e de gênero. Tal raciocínio se complexifica quando
se combina a orientação sexual. Ao analisarmos um mesmo sujeito, podemos
ver nele um sexo biológico (macho, fêmea, intersexo), uma identidade de gênero
dentro do rol de masculinidades e feminilidades existentes, uma orientação sexual
dirigida ao mesmo sexo, a outro sexo ou a ambos. (alguns autores utilizam aqui o
conceito de identidade sexual, que optamos por não usar para evitar confusões
conceituais com a categoria de sexo).

Mas há quem questione essas ‘caixinhas’, preferindo práticas sexuais


(e não orientação sexual), por serem tais designações verdadeiras
prisões sociais, não desejando ser enquadrados nessas dicotomias,
preferindo a designação de trans, ancorados na Teoria Queer e no
rompimento das fronteiras ou, quem sabe, considerando a própria fronteira
como o espaço do viver.

26
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Autoras como Butler (2010) estão no extremo do que poderíamos chamar


de construcionismo social ou até em ruptura com ele, visto problematizarem
os próprios termos em que se dá a categorização identitária de encaixes e
definições subsequentes.

Por isso, faremos uma distinção conceitual: manteremos o antigo (mas nem
por isso ultrapassado) conceito de sexo biológico, no sentido descritivo das
diferenças anatômicas básicas dos sujeitos que os dividem em homens e
mulheres, e também no sentido de sujeitos políticos; utilizaremos gênero(s) como
construções simbólicas de feminilidades e masculinidades, vistos em relação
ou separadamente independente do sexo biológico ou da orientação sexual
de quem os expresse; e relações de gênero quando nos referirmos às relações
sociais mediadas pelos significados de gênero, sejam elas relações entre
quaisquer sujeitos.

O conceito de gênero, por ser relativamente novo, interdisciplinar e permitir


articulações com diferentes correntes teóricas, é ainda um conceito em
construção. Esperamos que no decorrer do estudo você produza suas sínteses e
compreenda suas articulações com a temática da sexualidade e educação.

Seção 3
Interseções de gênero, raça e classe na
vivência educativa.

3.1 Articulações entre sociedade e escola


Nas últimas duas décadas, a educação brasileira tem sido fortemente influenciada
pelas discussões sobre gênero, raça e educação, e o volume de pesquisas
sobre a temática tem adquirido consistência e vigor. A partir dos diálogos entre
movimentos sociais, educadores/as e pesquisadores/as, particularmente em
relação às reivindicações dos movimentos étnico-raciais, LGBT e suas interfaces
com os movimentos feministas, diferentes instâncias educacionais têm buscado
articular estas temáticas na compreensão da diversidade dos sujeitos que
compõem o espaço educativo, na análise e formulação da política curricular e da
formação docente.

No início do século XXI, essas demandas aparecem nas lutas de diferentes


coletivos, e que sob o manto da hegemonia capitalista são incorporadas
parcialmente pelas leis, de modo a mudar para permanecer o mesmo, ou seja,
aprovam-se determinados direitos sociais sem que sejam dadas as condições

27
Capítulo 1

para que eles sejam, de fato, implementados em sua plenitude. Em outras


palavras, a reivindicada igualdade de direitos, expressa-se nos aspectos jurídicos,
mas está muito aquém dos interesses de movimentos sociais feministas ligados
às mulheres trabalhadoras (negras, indígenas e brancas) e movimentos de
Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trans (LGBT).

Alguns exemplos são ilustrativos dessa questão. Os direitos das trabalhadoras


domésticas avançam, mas o racismo/sexismo faz que continuem a ser as
mulheres negras a fazê-lo; ou ao contrário, a proibição do aborto se estende
oficialmente a todas as mulheres, mas são as trabalhadoras que enfrentam
dificuldades com os riscos do aborto em condições precárias e maus tratos
médicos quando são atendidas no serviço público. Fala-se do direito à creche,
mas 80% dos bebês estão fora dela, isso é impedimento para as mulheres que
mais necessitam de renda voltar ao mercado de trabalho, assim ficam afastadas
durante um extenso período de tempo. Entre os/as jovens homossexuais, pobreza
e cor transformam suas vidas em alto risco e recorrentes impunidades para os
agressores, a exemplo de casos relatados na imprensa brasileira. (MELO, 2014)

Essa realidade tem sido demonstrada na educação, quando observamos o


recuo da incorporação das lutas LGBT nas escolas, na tímida implementação de
políticas de saúde para as especificidades das mulheres negras, ou na falta de
políticas públicas (em larga escala) de formação de professores/as em gênero,
a despeito das poucas, mas consistentes e positivas, experiências de formação
como a proposta do curso Gênero, Diversidade e Escola (GDE)

O curso Gênero e Diversidade na Escola faz parte da política de formação de


professores/as, desenvolvido em parceria pelas Universidades Federais, Ministério
da Educação (MEC), Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM/PR) e a
Secretaria Especial de Políticas para a Igualdade Racial (SPPIR/PR) e Centro Latino-
Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM/IMS/UERJ).

Foi desenvolvido em vários estados do Brasil, inclusive em Santa Catarina, onde já


houve sua implementação por duas vezes, ambas coordenadas pela Universidade
Federal de Santa Catarina.

Por acreditarmos que a inserção de classe está presente, de forma clara ou


subsumida, nos espaços educativos formais e não formais, pensamos ser
necessário articular as demandas feministas e de classe, em um movimento
contínuo de contra-hegemonia (COUTINHO, 1992; 2008), no sentido de apontar
as contradições dessa sociedade desigual e hierárquica e possibilitar vislumbres/
experiências do que pode ser uma nova ordem não capitalista.

28
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Se os sujeitos, na singularidade, são compostos por um conjunto de marcadores


sociais como gênero, raça, etnia, orientação sexual e que se expressam conforme
o contexto em que estão inseridos, apenas na medida em que esses marcadores
permitem processos coletivos de identidade é que se ampliam as condições
para que o sujeito histórico produza ações políticas desestabilizadoras do status
quo. Por outro lado, a articulação entre vários marcadores e os de classe permite
perceber que há desigualdades e opressões diferenciadas que estão dentro de
uma mesma totalidade, a do sistema capitalista, que as alimenta e fornece as
bases estruturais para sua continuidade.

3.2 Saberes escolares, saberes sociais


Em muitos livros sobre educação se discute a função social da escola, tendo
como pano de fundo os saberes escolares que estudantes devem adquirir ao final
do processo educativo e se desconsidera os saberes sociais que também nela
são aprendidos.

A partir da década de 90, as políticas governamentais instituíram, inclusive,


diferentes mecanismos de avaliação para mensurar esses saberes escolares,
levando ao paroxismo a padronização dos conhecimentos escolares. O que
se supunha necessário até então era apenas uma base comum, considerando
a diversidade cultural brasileira, como se costumava dizer na época do
surgimento dos Parâmetros Curriculares Nacionais, mas depois os ‘parâmetros’
viraram ‘normas’. Mas os conteúdos programáticos (padronizados ou não) são
apenas um dos conjuntos de saberes que percorrem a escola, ainda que seja o
dominante na visão de políticos, gestores/as e educadores/as. Arriscamos a dizer,
e não estamos sozinhos nessa crítica, que na escola mais se aprende sobre a
visão de mundo da sociedade capitalista do que se tem, de fato, acesso aos ditos
conhecimentos universais, haja vista a qualidade da educação pública.

Os saberes escolares incluem o currículo oculto expresso em rituais,


gestos, organização do espaço e tempo, disciplina moral e corporal que
conformam (em um diálogo contraditório com os saberes sociais trazidos
por estudantes) uma determinada visão de mundo dos aprendizes que
passam pela escola.

Necessário dizer que pensamos a escola vista em sua pluralidade e analisada


conforme cada contexto. Mas há elementos comuns na escola tal como se
apresenta no contexto brasileiro. A escola de educação básica, espaço de
contradições, torna possível o aprendizado intelectual (saberes escolares)
e o acesso aos saberes sociais, simultaneamente, reproduz as relações
sociais capitalistas de poder e submissão, o que nos leva a afirmar que um

29
Capítulo 1

dos aprendizados fundamentais na escola, principalmente a pública, é a


obediência e não o respeito. Outro aspecto que revela a preocupação com
poder disciplinar dá-se no fato de a escola ter duas temporalidades, a mais
longa em sala de aula, contraposta a um intervalo (ou recreio) reduzido, por
ser um espaço com reduzida interferência dos adultos. (FREITAS, 2003). Na
organização da escola, alegando-se a falta de conhecimento de estudantes
sobre as questões de conteúdo, insere-se o mecanismo de decisão baseado
na hierarquia etária (adultocêntrica) e profissional, que configura a pouca
preocupação, com as organizações estudantis autônomas.

Mesmo que isso fosse parcialmente verdade, (ninguém consegue imaginar


estudantes selecionando a totalidade dos conhecimentos escolares) o que se
camufla, de fato, é que a vivência escolar não abrange apenas os conteúdos
programáticos e cognitivos: o modus operandi da escola educa, ou molda, corpos
e mentes daqueles que ali passam boa parte de seu dia! As decisões tratam, não
só sobre conteúdos formais e calendários, como de regras, normas e punições,
que são tomadas por professores e direção sem quaisquer mecanismos de
consulta a coletivos infantis ou juvenis. Eventualmente, professoras estabelecem,
em sala de aula, ‘combinados’ que refletem, de fato, um acordo coletivo.

A auto-organização de estudantes, tão cara a Gramsci (2004), segue sendo


um sonho distante para quem estuda na escola pública.

Dentro desse controle escolar temos a normatização do corpo e da sexualidade,


nela vigorando os padrões aceitos de identidade de gênero e orientação sexual,
controle que também é exercido entre colegas, e que pode manifestar-se por
meio de violências cotidianas.

Ocorre que os sujeitos não são passivos e resistem a esse controle. Por isso,
vivenciamos na escola a existência de padrões de normalidade permeada por
todo um universo subterrâneo de transgressões e sociabilidades que escapam da
norma. O longo tempo passado na escola desde a mais tenra infância contribui
para que estudantes tenham um perspicaz conhecimento de seus meandros e da
criação de estratégias de sobrevivência nela, sem se submeterem totalmente.

Apesar de, no início da infância, a família brasileira ocupar um tempo


considerável com a criança, já que o número de unidades de educação infantil
ainda é insuficiente para a necessidade da população trabalhadora, isso
muda nas fases posteriores. Nas etapas seguintes da infância e adolescência,
podemos frequentar até mais tempo o espaço escolar do que o ambiente familiar.
Há contextos em que a criança passa até 10 horas fora de casa e vivenciará
relações familiares apenas no breve período noturno que antecede o sono,
momento esse, não raro, como vítima da pedagogia de uma outra instituição,
a televisão aberta, a que assiste na companhia de seus pais e mães.

30
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Nesse sentido, ainda que o resultado da identidade singular seja fruto das
diferentes instâncias de aprendizagem social ao longo da vida, podemos afirmar a
centralidade da escola na produção de identidades e que suas marcas profundas
nas lembranças embasam determinadas concepções de mundo e formas de
convívio social de modo duradouro. A lembrança de professores/as e de colegas
acompanha as novas vivências profissionais e sociais e terá impacto no modo
desse sujeito conceber e intervir na sociedade à sua volta.

Quem não se lembra das aulas de educação física e dos corpos masculinos e
femininos em evidência e angústias? Aos meninos o compulsório aprendizado do
jogo de futebol, e às meninas o vôlei, a ginástica ou na arquibancada para evitar
o suor dos corpos. No recreio as diferenças corporais nos modos de brincar entre
meninos e meninas, eles donos de quase todo o território em corridas e lutinhas,
e elas na luta para entrar no futebol ‘deles’ ou atraí-los para suas corridas,
perante o silêncio omisso da escola. Na sala de aula, outros aprendizados
físicos: o corpo controlado nos mínimos gestos – considerados excessivamente
femininos ou masculinos, e nunca adequados ao ‘sexo biológico’?

Da sua vida de criança ou jovem estudante que marcas você traz desse
passado? Quais as estratégias utilizadas para driblar a vigilância de adultos
e até de colegas para evitar a punição pelas transgressões?

3.3 Relações de gênero, raça e classe na escola


As relações de gênero binárias e hierárquicas parecem impregnar o conjunto
de ações escolares: a forma de organizar grupos de trabalho, filas e carteiras
pelo critério de sexo; o controle dos corpos femininos na rigidez das posturas
‘delicadas e comportadas’; a heterossexualidade dominante que inferioriza
e expõe a situações de violência física meninos e meninas, ao expressarem
qualquer forma de interesse erótico-afetivo por pessoas de mesmo sexo
biológico, entre outros exemplos.

Os padrões circulam nas relações sociais escolares de tal modo


naturalizados que professores/as e gestores/as pouco interveem para sua
denúncia e transformação.

Para Gomes (1996, p. 68) há uma desatenção de educadores/as no que se refere


aos aspectos da alteridade em que estão imbricadas as relações sociais de
gênero, raça e classe na educação e que esses “fatores interferem nas relações
estabelecidas entre os sujeitos e na maneira como esses veem a si mesmos e ao
outro no cotidiano da escola.”

31
Capítulo 1

De acordo com Zanella (2005), o conceito de alteridade pode nos ajudar a


compreender o papel que o outro tem em nossa constituição, já que “a existência
de um eu só é possível via relações sociais e, ainda que singular, é sempre e
necessariamente marcado pelo encontro permanente com os muitos outros que
caracterizam a cultura.” (p.102). A autora ainda argumenta que:

a assertiva é aparentemente simples e ao mesmo tempo


complexa, pois remete a um todo, a um agregado anônimo que
está visceralmente interligado – as relações sociais – e que ao
mesmo tempo se dissipa em composições múltiplas, em infinitas
possibilidades de vir a ser que se objetivam em cada pessoa, que
encarnam e marcam a carne que se faz gente, que se faz
um(uma), que é indivisível. (ZANELLA, 2005, p. 103)

Figura 1.5 – Alteridade

Fonte: Pacete (2013).

Você já parou para pensar no que o olhar do Outro, de aprovação ou


rejeição, provocou em seu modo de ser e estar no mundo?

Com relação à aprendizagem de raça, (aqui utilizada como categoria social e


histórica, promotora de preconceito e desigualdade e não biológica), Gomes
(1996) analisa que as escolas levam para seu contexto as teorias e concepções
racistas presentes na sociedade e que ao adentrar nelas “sofrem um processo
de retroalimentação, e terminam por legitimar o racismo presente no imaginário
social e na prática social e escolar.” (GOMES, 1996, p.70). Em suas pesquisas,
explicita como presentes na escola:

32
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

•• o discurso de incapacidade intelectual do negro;


•• a defesa da mestiçagem como solução para as
questões raciais no Brasil;
•• a primitividade da cultura negra por meio da folclorização
da cultura afro;
•• e a teoria da democracia racial.
Teorias que terminam por justificar o forte racismo presente na escola, que se dá
na ausência do sujeito negro nos livros escolares, na presença negra lembrada
apenas em festas comemorativas, ou na invisibilidade com que a escola lida com
os frequentes insultos, conflitos e exclusão entre crianças brancas e negras.

“Heterossexismo foi um termo proposto por Stephen Morin em


1977, e refere-se à ideia de que a heterossexualidade é a orientação
sexual “normal” e “natural”. Ao considerar a heterossexualidade
“normal”, contrapõe-se a ideia de que as outras orientações sexuais
(homossexualidade e bissexualidade) são um desvio à norma e reveladoras
de perturbação. Não são encaradas como um dos aspectos possíveis
na diversidade das expressões da sexualidade humana. O considerar a
heterossexualidade como “natural”, aponta para algo inato, instintivo e
que não necessita de ser ensinado ou aprendido. O termo heterossexismo
também é utilizado para designar os preconceitos existentes contra
os homossexuais, bem como os comportamentos deles decorrentes.”
(FERREIRA, 2011, s.p)

De modo semelhante ao racismo e ao sexismo (machismo), a partir dos anos


2000 a denúncia do heterossexismo (perseguição a quem não é heteressexual) e
a reivindicação da expressão pública da homossexualidade na escola tem sido
motivo de intenso debate, forçada por movimentos sociais e, em parte, pelos
próprios sujeitos em cada escola, que relutam à lógica do ocultamento. Todavia,
de acordo com Louro, admite-se e tolera-se a homossexualidade que aparece
disfarçada , pois, “de acordo com a concepção liberal de que a sexualidade
é uma questão absolutamente privada, alguns se permitem aceitar ‘outras’
identidades ou práticas sexuais, desde que permaneçam no segredo e sejam
vividas apenas na intimidade.” (LOURO 2000, p.23)

Quando as diferenças se combinam a contextos identitários, em que há a


convivência de crianças e jovens oriundos das classes trabalhadoras com os
demais, outros conflitos aparecem: meninos negros e pobres em repetências
sucessivas expressam a falta de atenção docente para a aprendizagem
necessária (CARVALHO, 2007); meninas brancas e pobres sofrem a pressão da
estética feminina que envolve altos gastos com cuidado com o corpo, roupas e

33
Capítulo 1

acessórios; meninas negras e pobres enfrentam com mais violência a barreira da


cor da pele e do cabelo crespo (SOUZA, 2006; GOMES, 2002).

Mesmo não sendo uma unidade produtiva que expresse antagonismos de classe
e desigualdade, a escola pública também expressa em si as diferenças
decorrentes dos aspectos econômicos que são convertidas em hierarquias.

Nesse processo No entanto, se fora da escola o fator classe expressa


contraditório, a
uma preponderância em relação aos demais elementos
escola, segundo
Petitat, reproduz e ao de discriminação, na escola, além da submissão exigida
mesmo tempo participa de crianças e jovens como um fato comum e classista
das transformações geral, todos os marcadores sociais produzem, de modo
sociais, “às vezes
relevante, diferenças que configuram a escola como um
intencionalmente,
às vezes contra a celeiro de sofrimento e conflito.
vontade, e, às vezes,
as mudanças se dão Mas esse quadro, que parece sombrio ao tornar visível
apesar da escola.” a necessidade de transformação da cultura escolar
(PETITAT, 1994, p.7).
vivenciada nas relações de gênero, raciais e de classe,
revela práticas contestatórias de resistências de
estudantes e docentes, que terminam por inverter a regra do jogo e produzir
situações de respeito e diversidade.

Até agora buscamos compreender alguns referenciais sobre as relações


entre sociedade, educação, gênero, classe e raça. Vamos refletir na próxima
unidade sobre significados de sexualidade na cultura ocidental e o papel dos
movimentos sociais feministas e LGBT neste debate. Com o cuidado, é claro,
de não se perder de vista a multiplicidade de outras instâncias educativas
(como a família e a mídia), em que se dá a formação do sujeito em nossa
sociedade contemporânea.

34
Capítulo 2

Sexualidade em debate

Habilidades A partir dos estudos deste capítulo, você vai


identificar a educação, formal e não formal, na
sua dimensão sociocultural, problematizando-a e
correlacionando-a aos processos mobilizatórios dos
movimentos sociais feministas. E também conhecer
os aspectos básicos sobre o desenvolvimento da
sexualidade a partir de três autores significativos:
Freud, Reich e Foucault.

Seções de estudo Seção 1:  Seção 1 Freud, Reich e a


sexualidade humana

Seção 2:  Foucault e a noção moderna


de sexualidade

Seção 3:  Movimentos Sociais e a sexualidade

35
Capítulo 2

Seção 1
Freud, Reich e a sexualidade humana

1.1 O desenvolvimento da sexualidade


Você provavelmente já ouviu falar em Complexo de Édipo, Libido, Inconsciente...

A psicanálise, criada por Freud, habita o vocabulário contemporâneo até para


aqueles/aquelas que não o leram. Vamos entender um pouco o significado desses
conceitos dentro da concepção de desenvolvimento da sexualidade.

No momento em que Freud inicia seus estudos, final do século XIX, a medicina
ocidental já se detinha desde o século XVIII sobre a sexualidade e porque não
dizer, de sua regulamentação, nesse caso, em conjunto com outras instituições
como a Igreja e o Estado.

O que há de novo em Freud?

Ao buscar entender a sexualidade e o comportamento sexual adulto, ele chegará


ao que designará como o núcleo central da vida psíquica, produzida a partir de
dois movimentos: o da vivência do prazer infantil, que é ligado aos estímulos
sensoriais e às descargas motoras corporais, e o movimento da linguagem por
meio da qual se desenvolve a psique. Curiosamente, Freud não estudou as
Neurose: distúrbio de
crianças para chegar a essa afirmação, mas observou
personalidade, definido seus pacientes adultos com sintomas neuróticos,
diferencialmente da e tais sintomas revelavam secretas atividades infantis
psicose (loucura) e da
negadas por eles.
perversão, em termos
de que nessa estrutura
Em seus escritos expressou sua discordância com
o conflito entre o
desejo (inconsciente), educadores da época:
cujas manifestações
mais radicais são
(...) torna a criança ineducável, pois perseguem como ‘vícios’
reprimidas, e os valores
todas as suas manifestações sexuais, mesmo que não possam
morais alcançam uma
fazer muita coisa contra elas. Nós, porém, temos todos os
intensidade considerável,
levando à produção motivos para voltar nosso interesse para esses fenômenos
de sintomas histéricos, temidos pela educação, pois deles esperamos o esclarecimento
obsessivos ou fóbicos, da configuração originária da pulsão sexual. (FREUD, 1969,
ou, na sua ausência, a p.168-169)
um pronunciado grau de
ansiedade e/ou culpa.
(GOLDGRUB, 1989, p.85)

36
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Freud chamará a criança de perversa polimorfa, no sentido em que a perversão


significa a busca pela realização máxima de seus desejos, em diferentes partes de
seu corpo e com diferentes objetos. Designar a criança como perversa polimorfa
significa dizer que ela pode, sem barreiras (isso é a perversão) experimentar
várias formas para realizar o seu prazer, em qualquer parte de seu corpo e com
diferentes meios (polimorfismo). Pensamos que esse conceito de perversão
implica, de alguma maneira, uma visão do que é a sexualidade vista como
normal e anormal pensada por Freud. Para ele, a sexualidade infantil ser perversa
polimorfa era ‘normal’, mas o que se apresenta na sequência é mais do que isso,
porque Freud parece indicar que as barreiras culturais sobre a criança serão,
também, ‘normais e necessárias’ para que a sociedade possa se desenvolver.
Pensamos que decorre do pensamento freudiano uma implicação moralizante
sobre o desenvolvimento da sexualidade, aplicada para a sociedade europeia
em que ele vivia. Todavia, o conhecimento de diferentes concepções de família
e de sexualidade, existentes em diferentes culturas ou mesmo dentro de uma
mesma cultura, coloca em xeque ‘qual a moralidade necessária’ para um pleno
desenvolvimento da sexualidade.

As pulsões sexuais, que em muitas traduções de Freud são atreladas ao


significado de instinto, na verdade, diferem desse, porque pulsão está vinculada
à construção da sexualidade humana, a qual o psicanalista atribui uma relação
com a cultura, diferente dos demais animais. As pulsões podem ser realizadas;
sofrerem recalcamento (guardar para dentro) ou sublimação (expressa em algo
externo não visivelmente sexual).

Recalque e sublimação aparecem paralelamente, na maioria


das vezes, porque são os dois polos extremos das vicissitudes
das pulsões. São as mais importantes formas de evitamento
da realização sexual direta. No recalque, o sujeito permanece
preso ao sexual, que é o ponto de referência para ele, no
nível do proibido. Na sublimação, o sujeito deixa a referência
à satisfação sexual direta e lida com ela na sua dimensão
de impossível. Esse impossível da satisfação que está em
jogo na pulsão encontra na sublimação sua possibilidade de
manifestação plena, pois a sublimação revela a estrutura do
desejo humano como tal, ao evidenciar que, para além de todo
e qualquer objeto sexual, esconde-se o vazio da Coisa, do
objeto enquanto radicalmente perdido. (MENDES, 2011, s.p,
grifos nossos)

37
Capítulo 2

Veja o gráfico da mesma autora:


Figura - 2.1 - Recalque e sublimação

Fonte: Mendes (2011, s.p).

A libido seria a energia psíquica específica das pulsões sexuais e que


mobiliza o sujeito em busca do prazer. Esse processo se dá por meio de um
desenvolvimento gradual, em relação a um ‘outro’, que inicialmente é a mãe (ou
seus substitutos) dentro dos padrões culturais aos quais a criança está exposta.

De maneira poética, Chico Buarque retratou sua versão edipiana ao compor uma
letra para a música de Guinga, e afirmou que a fez para sua mãe e as memórias
de infância. (BUARQUE, 2014). Leia trechos da música no quadro abaixo:

Você, Você
(música Guinga – letra Chico Buarque)

Que roupa você veste, que anéis? Pra quem você tem olhos azuis
Por quem você se troca? E com as manhãs remoça
Que bicho feroz são seus cabelos E à noite, pra quem
Que à noite você solta? Você é uma luz
De que é que você brinca? Debaixo da porta?
Que horas você volta?
(...) No sonho de quem
(...) Você vai e vem
Me sopre novamente as canções Com os cabelos
Com que você me engana Que você solta?
Que blusa você, com o seu cheiro Que horas, me diga que horas, me diga
Deixou na minha cama? Que horas você volta?
Você, quando não dorme
Quem é que você chama?

38
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Ainda que Freud pretendesse que sua concepção de desenvolvimento sexual


fosse universal, partilhamos com outros autores que ela se aplica à sociedade
ocidental no século XX (e ao que dela persiste no novo século que se inicia) e
suas formas de organizar o desejo, a reprodução da espécie e, particularmente,
em específicas formas familiares centradas na família nuclear (CHAUÍ, 1984). A
estrutura familiar nuclear é considerada como composta por mãe, pai e filho,
ou um dos genitores e filhos, já que o outro ausente tem seu espaço simbólico
garantido socialmente, como representação da sua permanência no histórico
familiar, mesmo em sua ausência.

Uma das lógicas de funcionamento da psique, proposta por Freud, baseia-se em


um psiquismo formado por três instâncias:

•• Id (Isso, neutro), inconsciente, que contém nossa energia psíquica


básica - a libido, e que se expressa na busca de prazer por meio da
redução da tensão;
•• Ego (Eu), o que seria a instância mediadora consciente e
racional, resultante do equilíbrio entre o Id (desejo) e o Super-ego
(internalização das normas externas);
•• Super-ego (Super-eu) que limita e determina o que é aceito ou não
socialmente (representados não só pelo pai e mãe, mas pelo mundo
adulto e a cultura), internalizado de modo inconsciente, mas que
se expressa em um iceberg consciente – o Ego Ideal, autocontrole
baseado nos comportamentos aceitos socialmente.

Para Freud, quando o Ego é pressionado demais pelo Superego, constitui-


se o contexto de ansiedade.

Vamos analisar as características das três primeiras fases para que você consiga
ter uma visão básica sobre o pensamento freudiano.

A fase oral corresponde aos primeiros meses, por volta do oitavo mês, mais
ou menos, sendo que a libido está associada ao processo de alimentação
em que primeiro surgem “urgências vitais (fome, por exemplo) que aparecem
como estímulos internos, excitação em busca de satisfação. O prazer ligado
à boca, de sugar, e o brincar com o seio materno surgem apenas como ato
secundário.” (DELOUYA, 2011, p.10). A necessidade da nutrição provoca o
choro, o desespero e em seguida a calmaria, resultante da voz e toque humanos
seguidos da satisfação da necessidade infantil: todo o contexto interativo em que
se darão essas sucessivas cenas produzirão um conjunto de representações, ou
construções de figuras psíquicas e que se constituem como a humanização inicial
da criança pela construção e vínculos afetivos.

39
Capítulo 2

Esse momento de apropriação prazerosa é recíproco, afirma Freud, pois o adulto


revive de modo inconsciente a criança escondida nele, ao usufruir da segurança
e afeto presente no contexto do cuidado e do prazer do contato, de falar com
o bebê, tocá-lo e amamentá-lo. Nesse momento, dá-se a erotização do corpo
infantil, decorrente desse conjunto de associações entre as sensações de prazer
com as carícias, cheiros e sons que acompanham essa vivência inicial. A criança,
nessa fase ainda imersa na fusão com outro, em um determinado momento
passará a ver o outro e só então inicia a aprendizagem do autoerotismo, ao se
enxergar de posse de si descobre que o seio (ou mamadeira) pertence a um
adulto, processo de separação que só culminará na adolescência.

Em seguida à fase oral, temos a fase anal, que se situa entre o final do primeiro
ano e o terceiro ano de vida e está ligado ao controle dos esfíncteres, em novas
áreas corporais que geram tensão e gratificação pela estimulação e produção de
fezes, que a criança passa a usufruir conforme a tensão e descarga subsequente.
Em nossa cultura, os adultos, muito preocupados com a higiene, exercem uma
pressão grande sobre a criança, que se submete às restrições e proibições
em troca do amor, antecipando o controle ou deixando de buscar o prazer em
brincadeiras relacionadas a essa fase.

Na sequência, temos então a fase fálica que é a descoberta dos órgãos sexuais
seus e dos outros e a manipulação em busca do novo prazer. É nessa fase que
se dá o Complexo de Édipo, conflito sexual em que a criança deseja um dos
genitores e entra em conflito com o outro (chamada também de fase edípica).

A elaboração do conceito de Édipo foi processual. No início, Freud pensava que


a neurose era resultado de um trauma sexual real, ocorrido na infância e que
voltava depois, no início da adolescência. Depois, ele desconstruiu sua própria
teoria para pensar que os relatos ouvidos de seus/suas pacientes eram no plano
da fantasia e a partir daí ele passaria a atribuir grande valor ao conflito psíquico
que expressará a ambivalência de sentimentos das crianças na relação com
seus pais. Ao desejar um deles e ser interditado pelo outro, essa interdição, ao
ser introjetada, configuraria-se como superego, o que Freud designaria como
resolução bem sucedida do Complexo de Édipo.

Delouya (2011, p.15) nos esclarece essa passagem e sua sequência:

Estamos nos referindo à configuração da trama edípica e a usar


assunção da realidade da castração, quando as pulsões parciais
confluem para os órgãos sexuais- processo concomitante à
instalação da noção de rivalidade com um terceiro, isto é, o outro
desejado, fazendo surgir a proibição do incesto e, portanto, a
ameaça da castração, assim como o encaminhamento para o
universo social. Isso acarreta o recalcamento da sexualidade
infantil e a aceitação das barreiras da cultura (...)

40
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Podemos retomar agora os conceitos de recalque e sublimação apresentados.


A ameaça de castração, que está presente no Complexo de Édipo, dar-se-ia
pelo impedimento do outro, que é o objeto de investimento libidinal da criança
e seu sucesso é o recalcamento e a obediência da criança da autoridade do
adulto, trocando seu desejo pelo cuidado e pela afetividade sem sexo. O ato de
direcionar as pulsões para o inconsciente como proibidas seria o recalcamento.
Por outro lado, desviá-las diretamente para outro objeto, como atividades
intelectuais ou artísticas seriam níveis elevados de sublimação, afirma Freud.
Por isso, podemos dizer que o Complexo de Édipo está vinculado ao sucesso
imposto pelo Superego em todos os níveis da vida humana (cultura, trabalho) e
não só aos limites da sexualidade.

“Freud preferia usar o termo repressão para os processos conscientes e


pré-conscientes, usando o conceito de recalque ou recalcamento para os
processos inconscientes. O recalque se realizaria quando a satisfação de
uma pulsão sexual (que poderia proporcionar prazer) aparece como capaz
de suscitar desprazer e, sobretudo, como ameaçadora para o sujeito. Tanto
pode ser uma censura (repressão) como uma defesa (um ato de desinvestir
uma pulsão, investindo em outras não ameaçadoras). (...) A repressão
(recalque) difere da supressão porque nesta realmente faremos desaparecer
definitivamente alguma coisa.” (CHAUÍ, 1984, p.66-67)

No pensamento freudiano, as fases do desenvolvimento da sexualidade são


sucessivas e incorporam sempre as anteriores e relacionam origem do prazer,
regiões do corpo que promovem o prazer e objetos que proporcionam maior
prazer. Segundo Freud, haveria a fase oral, anal, fálica, seguida por um período de
latência, quando voltaria na fase genital na adolescência.

Alguns autores problematizam a ideia do período da latência, argumentando que


Freud trabalhava com uma afirmação conservadora de que a sublimação sexual
era a base do desenvolvimento da cultura ocidental e que só no principio da
vida adulta o ser humano estaria pronto para conciliar sexualidade e trabalho.
Ainda contemporâneo a Freud, um discípulo dele, Wilhem Reich, questionou
essa afirmação após pesquisar exemplos de brincadeiras sexuais em culturas
infantis dos povos trombriandeses (REICH, 1974), quando argumentou a favor de
um desenvolvimento processual da sexualidade, lento e sem interrupção, que só
seria bloqueado na cultura ocidental devido à repressão sexual.

Reich concordava com as duas fases anteriores (oral e anal), mas em


relação as três fases (fálica, latência e genital) argumentava que deveriam
se converter em apenas uma, a genital, que se desenvolveria a partir
dos quatro anos até a juventude rumo à uma sexualidade saudável, sem
interrupção na infância e retorno na adolescência como afirmava Freud.

41
Capítulo 2

A criança vivencia situações abertas de desvio da sexualidade e está sujeita


a mudar de forma, ao ter sua psique modelada pela cultura. Todo esse
processo de construção da psique se dá de modo processual e inconsciente
durante a infância. Delouya (2011) apresenta, entre as barreiras da cultura, o
estabelecimento do nojo e da vergonha, e a supressão da masturbação, do
incesto e da bissexualidade. Problemas e dificuldades no processo edipiano
gerariam as neuroses e outros problemas psicológicos que a análise, por
associação livre de ideias, método psicanalítico criado por Freud, poderia
contribuir para tornar consciente e, a partir daí, ser elaborado em conjunto com
o terapeuta.

Associação livre de ideias é como ficou conhecida a técnica psicanalítica


(que substituiu a antiga hipnose) de fazer com que o paciente expresse
pensamentos sem censura e de modo consciente a partir de ideias,
imagens e descrições de sonhos ou espontaneamente, e que serão
interpretados pelo terapeuta como caminho para acesso ao inconsciente e
compreensão de si.

Em seus textos, Freud deu margem à ideia de que o ser humano é, inicialmente,
um ser de desejo, e que o objeto do desejo pode ser múltiplo, muito além do
que se atribui no senso comum como sexo oposto. Todavia, atribuía o nome de
invertido (porque direcionava a libido a algo semelhante a si mesmo, invertendo
o direcionamento ‘normal’) àquele/a que tinha práticas sexuais com pessoas do
mesmo sexo, considerando uma inversão do processo natural de sexualidade
entre homens e mulheres. Afirmava ainda que Complexo de Édipo bem resolvido
poderia contribuir, no futuro, para a definição da heterossexualidade.

Você sabia que, ao Para Mark Poster (1979), um estudioso de Freud, houve
tentar aprofundar a na sociedade europeia diferentes formas de família e
ideia do Complexo
de Édipo de modo
de expressão da sexualidade. Poster e outros autores
diferenciado para designam a família estudada pela psicanálise como família
homens e mulheres, nuclear burguesa, pois teve seu surgimento junto com as
Freud criou a alternativa
classes burguesas e depois se expandiu para as demais
feminina com o
Complexo de Electra? classes. Segundo Poster, será na família burguesa,
No entanto, após (em processo que culmina com o Complexo de Édipo),
definir a mulher como que as crianças aprenderão a separar amor e sexo, e a
continente negro
vincular amor e exclusividade, amor e autoridade, amor
e desconhecido,
abandonou essa ideia, e propriedade, essas três últimas devido ao controle
mantendo apenas um adultocêntrico sobre a criança no contexto da família
complexo para ambos. nuclear, o qual se dá entremeado pela construção psíquica
vinculada à sexualidade. Até hoje se discute que parte da
violência e demais problemas nas relações amorosas que têm sido denunciados
pelos/as feministas decorrem desse aprendizado familiar.

42
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

No entanto, o conhecimento sobre a construção da sexualidade ocidental e da


psique não levou Freud a enfatizar aspectos educativos para as neuroses, ele
mesmo um pessimista ao pensar a articulação sexo e sociedade.

“A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós. Proporciona-


nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis.” FREUD

Milliot (2001, p.7) em seu livro Freud antipedagogo afirma:

Não encontraremos na obra de Freud tratado algum sobre


educação. Seria inclusive inútil procurar elementos disso.
É verdade que Freud lança uma crítica severa às práticas
educacionais de sua época, mas não é pródigo em conselhos
sobre esse domínio.

1.2 A teoria do Orgasmo


Reich constrói outra formulação para o trabalho analítico, estabelecendo relações
entre o corpo e a sociedade, articulando natureza, cultura e economia. Partindo
das premissas psicanalíticas da construção da psique e tendo como base o
conceito de pulsão sexual de Freud, Reich buscaria descobrir o que bloqueia
a realização do prazer e chegará à educação como prevenção das neuroses.
Segundo Kignel (2011, p.27),

[Reich] vê a experiência orgástica como inseparável do sistema


global de respostas de uma pessoa e de suas capacidades de
relacionamento.” E complementa que “distúrbios da capacidade
orgástica refletem distúrbios da personalidade e envolvem a
saúde global do organismo no sentido psicossomático.

Em 1923, ainda jovem e com 26 anos, Reich elabora em a Teoria do orgasmo,


conceito que em sua época apenas tinha como foco a capacidade “ejaculativa”
e “eretiva”. No livro Função do Orgasmo, (publicado pela primeira vez só em
1942), traz sua experiência clínica para mostrar que a repressão sexual ocidental
sobre homens e mulheres faz com que esses percam sua capacidade de
experimentar a entrega involuntária durante a relação sexual.

É precisamente essa fase, antes desconhecida, de excitação


final e de solução da tensão que tenho em mente quando falo
de ‘potência orgástica’. Ela constitui a função biológica básica
e primária que o homem tem em comum com todos os outros
organismos vivos. Toda experiência da natureza deriva dessa
função, ou do desejo dela. (REICH, 1990, p. 97).

43
Capítulo 2

Para Reich, qualquer conflito de ordem psíquica vivenciado pela criança pode
desequilibrar e produzir a neurose, que se manifestará no corpo por meio
da estase, (uma interrupção do fluxo energético) e, consequentemente, da
respiração, que tem como resultado final a criação de couraças musculares,
tensionamentos, que transformarão a dificuldade respiratória em permanente e
bloqueadora da capacidade de realização do orgasmo. A questão das couraças
e do bloqueio da potência orgástica ele trabalhará no livro Análise do Caráter
(REICH,1998). Toda a sua obra será destinada à reflexão do que impede o prazer
e da importância da sexualidade no cotidiano das pessoas.
Figura - 2.2 - Sonho de gato

Fonte: BM (2010).

Por potência orgástica define a “capacidade de abandonar-se, livre


de quaisquer inibições, ao fluxo de energia biológica; a capacidade de
descarregar completamente a excitação sexual reprimida, por meio de
involuntárias e agradáveis convulsões do corpo.” (REICH, 1990, p. 92)

Apesar de Reich partir da tese freudiana do Complexo de Édipo e do


recalcamento/sublimação do desejo, não os vê nem como necessários. Afirmará
que a forma como a família e a sociedade produzem a vivência sexual na infância
é que promoverá o estado neurótico e que o grau de interferência da neurose na
descarga da energia sexual poderá ou não tornar a vivência da sexualidade como
patológica, sendo que tal processo se dá de modo alienado.

Os pais reprimem a sexualidade das crianças pequenas e dos


adolescentes, sem saber que o fazem obedecendo às injunções
de uma sociedade mecanizada e autoritária. Com sua expressão
natural bloqueada pelo ascetismo forçado, e em parte pela
falta de uma atividade fecunda, as crianças desenvolvem pelos
pais uma fixação pegajosa, marcada pelo desamparo e por
sentimentos de culpa. Isso, por sua vez, impede que se libertem
da situação de infância, com todas as suas inibições e angústias
sexuais concomitantes. As crianças educadas assim tornam-
se adultos com neuroses de caráter, e depois transmitem suas
neuroses a seus próprios filhos. Assim de geração em geração.
Dessa forma é que se perpetua a tradição conservadora
que teme a vida. Como, apesar disso, podem as pessoas se
tornar — e permanecer — sãs? (REICH, 1990, p. 172).

44
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Para Reich (1990), os fluxos de energia sexual decorrem de processos não


conscientes, porque estão ligados à respiração, fluxo sanguíneo e pressão e do
inconsciente corporal, construção histórica do corpo, mas que é acessada pelo
sistema nervoso autônomo. Nem sempre a terapia corporal para desbloqueio da
estase chegará ao processo consciente, ainda que possa surtir efeito e produzir a
volta da capacidade do corpo vivenciar o prazer.

Daí a proposta de Reich: ao invés do divã e da associação livre de Freud,


serão propostos exercícios de respiração e de desbloqueio muscular,
ao que designará como psicoterapia corporal, criando a técnica da
vegetoterapia de análise de caráter,

Apesar da ênfase de Reich com a Teoria do Orgasmo estar no processo do


prazer genital, sua preocupação abrange o fluxo total de energia, que inclui a
genitalidade e vai além, na busca de aliviar as tensões respiratórias e produzir um
bem-estar geral.

No período entre 1920 e 1934 Reich permaneceu vinculado à Associação


Psicanalítica Internacional (IPA), nesse intervalo, promoveu a junção da
psicanálise com o marxismo não economicista, e construiu as bases para a
compreensão e prevenção das neuroses, promovendo palestras a médicos
e trabalhadores. Esse processo culminou com a criação de um intenso
movimento social, principalmente junto à juventude, relacionando sexualidade
e política – conhecido como SexPol, que articulava a libertação política com a
libertação sexual.

Dois anos são importantes para o trabalho de Reich. Leia um trecho extraído da
Cronologia publicada pelo Instituto de Formação em Pesquisa em Reich, no site de
mesmo nome (IFP, 2014, s.p):

• 1929 – Funda a Sociedade Socialista para Consulta Sexual e Investigação


Sexológica. Abertura do primeiro Dispensário de Higiene Sexual para
Trabalhadores e Empregados, que proporciona informações livres sobre o
controle da natalidade, educação sexual para adolescentes e crianças etc. (...)

• 1931 – Fundação Sexpol-Verlag em Berlim, que se expande por toda


Alemanha, contando com a participação de até 40 mil membros. O sucesso
é tão intenso que repercute como uma onda por toda Alemanha, causando
alarme no Comitê Central do Partido. Procura unir as ideias dos primeiros
escritos de Freud com a práxis revolucionária, em uma tentativa de ampliar a
luta do proletariado na sua emancipação econômica, política e sexual. (...)

45
Capítulo 2

Para Kignel (2011, p.28), o movimento SexPol era uma prática inovadora e
original por ser:

um complexo esforço teórico-prático para, primeiro, ajudar as


massas em suas dificuldades sexuais e, segundo, articular as
necessidades sexuais aos aspectos políticos relevantes dentro do
movimento revolucionário dos trabalhadores. (...) Ele também se
Seguidores da adiantou no tempo, antecipando o movimento de ir ao encontro
linha reicheana, das pessoas, em vez de ficar esperando-as na clínica – prática
na Espanha, ainda utilizada hoje em dia em diversos projetos terapêuticos sociais.
desenvolvem trabalhos
a partir do exemplo
da Sexpol, inclusive Esses exemplos mostram uma diferença substancial
tendo criado uma entre Freud e Reich, no que tange ao tipo de articulação
fundação de mesmo
entre sexualidade e organização social. O primeiro
nome. Produzem
cursos, oficinas, considerava a repressão e o controle da sexualidade
publicações teóricas como necessários: seriam produtores de neurose, mas,
e disponibilizam simultaneamente, de cultura, inclusive apresentando
vídeos em seu
site. (FUNDAÇÃO
a família nuclear como universal. Reich, por sua
SEXPOL, 2014) vez, argumentará em prol de uma educação para a
sexualidade, por considerar a liberdade sexual como
sinônimo de criatividade, equilíbrio e desenvolvimento cultural, criticando a
sociedade capitalista, que mantinha uma determinada forma doentia de relações
amorosas e sexuais, produzindo neuroses e violências.

Figura - 2.3 - Violência & Sexo

Fonte: Dahmer (2011).

Reich, durante sua juventude como psicanalista, tinha também uma


preocupação com a educação formal e acompanhou, em parceria com
Vera Schimdt, muitos trabalhos na Rússia Revolucionária, com as crianças
nos Círculos Infantis; ele considerava o papel da educação fundamental
como prevenção às neuroses. (REICH; SCHIMIDT, 1975).

A denúncia da articulação entre neurose e submissão social será outro dos


pilares da proposta de Reich, como podemos ver neste trecho extraído do livro
Psicologia de Massas do Fascismo,

46
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

A inibição moral da sexualidade natural na infância, cuja última


etapa é o grave dano da sexualidade genital da criança, torna a
criança medrosa, tímida, submissa, obediente, “boa” e “dócil”, no
sentido autoritário das palavras. Ela tem um efeito de paralisação
sobre as forças de rebelião do homem, porque qualquer impulso
vital é associado ao medo; e como sexo é assunto proibido,
há uma paralisação geral do pensamento crítico. Em resumo,
o objetivo da moralidade é a criação do indivíduo submisso
que se adapta à ordem autoritária, apesar do sofrimento e da
humilhação. Assim, a família é o Estado autoritário em miniatura,
ao qual a criança deve aprender a se adaptar, como preparação
para o ajustamento geral que será exigido dela mais tarde. A
estrutura autoritária do homem é basicamente produzida – é
necessário ter isso presente – através da fixação das inibições
e dos medos sexuais na substância viva dos impulsos sexuais.
(REICH, 2001, p.28)

Após o rompimento com a psicanálise, Reich residiu por algum tempo na Europa
e depois de perseguido no contexto da segunda guerra mundial, passa a viver
nos Estados Unidos, onde suas teorias continuavam a incomodar. A figura de
Reich é polêmica: no decorrer de sua trajetória, suas críticas não eram aceitas:
primeiro rompe com a psicanálise, depois com o Partido comunista e, mais tarde,
torna-se também um exilado.

A terceira fase, nos anos 40-50, é considerada o período mais polêmico de Reich,
quando seus estudos passam a focar a energia vital que designa como Orgone.
Ao inventar um equipamento que considera um acumulador de energia, visando à
cura de doenças (inclusive o câncer), sofre acusações e destruição de seus livros
e equipamentos pelo órgão governamental norte-americano Food and Drugs
Association (FDA), instituição que regula remédios, alimentos e equipamentos.

Mais tarde, a essa acusação se agregam outras, derivadas do período


macarthista de perseguição aos comunistas, o que desencadeia a prisão de Reich
em março de 1957. Em novembro do mesmo ano, dias antes de sua liberdade
condicional, teve sua morte registrada como ataque cardíaco, mas suspeita-
se de envenenamento porque, segundo afirmação de sua irmã, a autópsia não
foi permitida. Mas Reich sabia do potencial revolucionário de suas ideias, pois
pensava muito diferente de sua época, tanto que em seu testamento solicitou que
seus textos não publicados só deveriam ser divulgados 50 anos após sua morte.

“O amor, o trabalho e o conhecimento são as fontes de nossa vida.


Deveriam também governá-la.” Wilhem Reich

47
Capítulo 2

Seção 2
Foucault e a noção moderna de sexualidade
As discussões contemporâneas sobre sexualidade e corpo, de algum modo,
necessitam passar pelas reflexões de Foucault (1926-1984), embora esse autor
tenha tratado de muitas temáticas. Para ele não há uma sexualidade, nem mesmo
uma sexualidade que tenha existido em todas as épocas: “não se deve concebê-
la como uma espécie de dado da natureza que o poder tenta pôr em xeque,
ou como um domínio obscuro que o saber tentaria, pouco a pouco, desvelar. A
sexualidade é um dispositivo histórico.” (1993a, p.100)

É necessário entender o que ele quer dizer com esse novo conceito. Para ele,
dispositivo histórico significa

um conjunto decididamente heterogêneo que engloba


discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões
regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados
científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas (...) o dito
e o não-dito são elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede
que se pode estabelecer entre esses elementos. (FOUCAULT,
1993b, p.244)

Foucault questionará a explicação de que há uma vinculação entre repressão


sexual e o advento do capitalismo no século XVII. Para ele as práticas sexuais
nesse período eram dirigidas pelo direito canônico, pela pastoral cristã e pela
lei civil, todas com grande ênfase nas regras para o sexo matrimonial, mas sem
a preocupação com a sexualidade das crianças, da masturbação ou da prática
sexual entre sujeitos do mesmo sexo, que havia em outros momentos anteriores e
que depois voltará posteriormente.

Nessa direção, situa a nova linha de corte para a questão da sexualidade no final
do século XVIII e durante o XIX, exatamente com a multiplicação de profissionais
que criarão quatro estratégias, eixos, de controle sexual:

•• a sexualidade das mulheres, inclusive criando a figura da mulher


nervosa (histérica);
•• a pedagogização do sexo da criança, vendo a sexualidade infantil
como tendência natural, mas com necessidade de controle adulto;
•• as políticas sociais sobre as condutas procriativas, diminuindo ou
aumentando a natalidade, conforme os interesses do Estado;
•• e, por fim, a psiquiatrização do prazer perverso, criando a ideia
de anomalias e desvios entre adultos, que deveriam ser vigiados
e, reconduzidos aos padrões da sociedade, particularmente com
a homossexualidade.

48
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Não significa dizer que todos esses sujeitos e situações não existissem antes,
mas a configuração desse conjunto de dispositivos é que vai construir, modelar
e iluminar esses contextos, passando a produzi-los de maneira sistematizada.
Dentro do que Foucault chama de bio-poder (FOUCAULT, 1993), as tecnologias
direcionadas à sexualidade assumiram, desde então, centralidade na vida social.

Ainda que não recuse totalmente a psicanálise, sua visão de sexualidade é


muito distinta de Freud e Reich. Foucault questiona, inclusive, a tentação da
confidência, originária da Igreja como controle e estimulada pela psicanálise.
Confidência revitalizada, diríamos nós, pelo vício internáutico presente na alta
exposição da vida privada e sexual por meio de blogs, facebooks e twitters, que
impera no início do século XXI.

Foucault considera a psicanálise como uma ruptura com a modernidade,


pois a vê como “um dos novos saberes que afastam definitivamente a visão
de um sujeito uno, conhecedor de si, como o cartesiano” afirmando que
ela criou as bases para a compreensão da dificuldade ou impossibilidade
do conhecimento de si, que Freud induziu, mas não assumiu, e que
foi adotada posteriormente pelo psicanalista francês Jacques Lacan.
(GONÇALVES, 2011, p.21)

Foucault debaterá com os sexólogos, inclusive psicanalistas, afirmando que


ao alegarem a busca pela natureza sexual e o corpo, acabaram por “inventar”
a sexualidade tal como a vemos hoje. Por essa visão, podemos situar Foucault
dentro do construcionismo social mais radical, em que o histórico prevalece sobre
o que outros autores designam como natureza sexual dos seres humanos.

A tese da repressão sexual não será rejeitada totalmente por ele, mas o que
importará, de fato, é que ele considera a repressão apenas um dos mecanismos
pelos quais age o poder e sua ênfase estará no modo pelo qual o poder age
como modelador, produtor, de uma determinada sexualidade.

No entanto, criticará também a ideia de sexualidade como forma de liberação da


sociedade opressiva. Tal concepção estava ancorada, segundo Weeks (2011),
porque Foucault acreditava que a sexualidade

tinha se desenvolvido como parte de uma rede complexa


de regulação social que organizava e modelava (“policiava”)
os corpos e os comportamentos individuais. A sexualidade
não pode agir como uma resistência ao poder, porque está
demasiadamente envolvida nos modos pelos quais o poder atua
na sociedade moderna.” (WEEKS, 2011, p.41-42)

49
Capítulo 2

E de que modo o poder atua sobre os corpos?

Uma das formas dessa positividade do poder se dará, segundo Foucault,


pela “explosão discursiva” sobre o sexo. Nunca se falou tanto sobre o sexo,
afirmou ele. Nas revistas, nas mídias eletrônicas, nos canais de TV, na literatura
especializada... O que não significaria exatamente uma repressão, mas uma
produção da sexualidade: ao invés de liberdade, o que temos seria uma
permanente atitude prescritiva de como deve ser a sexualidade humana.

O dispositivo da sexualidade é positivo: produz, inventa e reiventa, nega


assimilando e reconstruindo em novas formas aceitas socialmente, e efetua
o controle dos sujeitos em todos os níveis e dimensões de suas vidas,
por meio da sociedade disciplinar, descrita por ele em seu livro Vigiar e
Punir (FOUCAULT,1977). O poder, que se entranha em todos os níveis das
relações sociais é positivo, afirma Foucault.

Figura - 2.4 - Positividade do Poder

Fonte: Dahmer (2009).

Diferentemente, Chauí trabalha a ênfase sobre a repressão sexual, sem discordar


de Foucault sobre a positividade do poder na afirmação de como se deve viver a
sexualidade. Para ela, repressão e positividade caminham juntas, e seriam formas
distintas e possíveis de regulação da sexualidade. Acrescenta ainda que

o fenômeno ou o fato da repressão sexual é tão antigo quanto


a vida humana em sociedade, mas que o conceito de repressão
sexual é bastante recente, isto é, que a reflexão sobre as origens,
as formas e os sentidos desse fato, seu estudo explícito, data
do século XIX (...) momento que o sexo passa a ter um sentido
muito alargado, especialmente quando os estudiosos passaram a
distinguir e diferenciar entre necessidade (física, biológica), prazer
(físico, psíquico) e desejo (imaginação, simbolização). (CHAUÍ,
1984, p.11)

50
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

E você, como se insere nesse debate? Quais seriam seus argumentos a


favor ou contra cada uma das ênfases postas pelos autores para a ideia de
“repressão sexual”?

Essa forma de Foucault pensar a sexualidade não está desvinculada do seu modo
de construir a trama histórica:

no que diz respeito ao fato de haver tantas falas sobre sexo, ele
mostra que é preciso perguntar quem está falando, a partir de
que lugar e de que ponto de vista, quais são as instituições que
provocam e pressionam para que se fale e quais as que
acumulam, conservam e propagam o que é dito.(GONÇALVES,
2011, p.18)

Baseados em Foucault, poderíamos fazer essas perguntas ao Programa Global


Big Brother e buscar entender a concepção de sexualidade e de corpo que este
programa produz/dissemina Ou então, ao fenômeno das jovens “rolezeiras”, que
ocorre em algumas regiões do Brasil, em contextos que caminham na fronteira
entre o senso comum da norma heterossexual, da mulher como objeto sexual e
da ruptura de fronteiras que aterroriza os shoppings de classe média.
Figura 2.5 - Outro olhar Compreender as relações de poder
e seus processos de constituição
não é tarefa simples, diria Foucault.
Analisar implica um trabalho árduo
de desconstrução.

Ao adentrar na história da
sexualidade, procurou compreender
os dispositivos de controle
e vigilância que a sociedade
organiza em torno do prazer
(ou desprazer), procurando ver
o que, normalmente, não se
procura encontrar.
Fonte: Esquizofia (2013).

“Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar


diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê,
é indispensável para continuar a olhar ou a refletir”. Foucault

51
Capítulo 2

Entre suas preocupações, Foucault chamará a atenção para um aspecto desses


modos de constituir a sexualidade, a normatividade. Se prestarmos atenção,
perceberemos os padrões normativos: norma está relacionada ao poder de quem
determina o que é e o que não é normal, que em geral não se dá pela coerção,
mas pelas urdiduras sutis quase invisíveis, diluídas em diferentes espaços e
discursos. Foucault vincula a noção de norma à de micropoderes ou poderes
difusos, que Louro (2008, p.22) sintetiza:

A norma não emana de um único lugar, não é enunciada por um


soberano, mas, em vez disso, está em toda a parte. Expressa-
se por meio de recomendações repetidas e observadas
cotidianamente, que servem de referência a todos. Daí porque
a norma se faz penetrante, daí porque ela é capaz de se
“naturalizar”.

Como fugir da norma? Como indagar sobre o que julgamos ser universal e
inevitável? Como criar um outro olhar?

Problematizar o já dado era uma característica desse filósofo, não só no plano da


sexualidade, como em quaisquer outros planos. Para ele, a sociedade constitui
determinados espaços e cria as armadilhas para o conhecimento, fazendo-nos
tecer perguntas semelhantes para encontrar respostas já conhecidas, por isso
Foucault buscará nos estudos da razão – a loucura, nos dispositivos de poder –
os contrapoderes.

Por meio de métodos que ele chamará de genealogia e da arqueologia,


Foucault construirá as ferramentas de indagação sobre a história humana,
sintetizadas nas palavras de Yasbek (2012, p.120-121)

A pergunta essencial da filosofia foucaultiana, nesse sentido,


poderia apresentar-se nos seguintes termos: nestes espaços
nos quais nos movemos, na topografia das posições ocupadas
por nós, e que nos são dadas como universais, necessárias,
obrigatórias, “qual é a parte que é singular, contingente e devida
a constrangimentos arbitrários?” Isto é: como sair do círculo
vicioso da repetição de espaços e lugares informados pelas
estruturas fundamentais – e historicamente arbitrárias – do
campo de pensamento que é o nosso?

“É preciso cavar para mostrar como as coisas foram historicamente


contingentes [possíveis], por tal ou qual razão inteligíveis, mas não
necessárias.” Foucault

52
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Seção 3
Movimentos sociais e a sexualidade

3.1 Movimentos feministas: do direito ao corpo e ao prazer


De uma maneira ou de outra, a questão da sexualidade sempre permeou as
práticas e os estudos feministas, já que qualquer questionamento da dominação
masculina colocava em xeque a sexualidade das ativistas. Podemos citar como
exemplo a história de Olympe de Gouges: pouco antes de a Revolução Francesa
começar, ela figurava no livro Homenagem às mulheres mais bonitas e
virtuosas de Paris e, simultaneamente, na Lista de Prostitutas de Paris!
(GARCIA, 2011)
Figura - 2.6 Olympe de Gouges Mas o que queremos
destacar aqui se trata de
um período do feminismo
a partir da década de
60, em que o direito ao
corpo e ao prazer ganha
destaque, e mulheres (e
alguns homens) ocupam as
ruas produzindo denúncias
contra o uso do corpo
feminino, que transforma a
mulher em objeto sexual,
ao mesmo tempo que nega
a ela o direito ao prazer; ou
Fonte: Ehow (2014). exerce sobre ela o controle
da natalidade, ao mesmo
tempo que a impede da decisão do aborto. O feminismo radical nos EUA teve
papel chave nesse processo de crítica e mobilização.

Para o feminismo radical era tão importante atuar nos espaços públicos
da política institucional e contra a opressão e a exploração capitalista
quanto questionar o que se passava na esfera privada das relações
amorosas e sexuais. Família e sexualidade são chamadas ao centro da
discussão e é criado o slogan, sucessivamente estampado em cartazes
e faixas nas grandes manifestações, que nunca perde a atualidade:
‘O pessoal é político! ’

53
Capítulo 2

Muitas eram as formas de luta dos movimentos feministas nos anos 60 e 70 e


aqui destacamos:

•• Grandes protestos públicos: manifestações de massa com


intervenções em encontros políticos (partidários e governamentais)
e sociais (como desfiles de moda e concursos de misses), em que
chamavam a atenção sobre as bandeiras do movimento;
•• Desenvolvimento de grupos de autoconsciência: também chamados
de grupos de reflexão, eram constituídos somente por mulheres,
sem hierarquia, com até 24 integrantes (quando ultrapassavam
esse número se dividiam) que se reuniam em casa uma das outras,
em bares e em bibliotecas, discutindo temáticas que envolviam
quaisquer formas de opressão e, particularmente, as ligadas às
vivências corporais da menstruação, da maternidade, do desejo
sexual e do prazer.

Você sabia que data desse período a criação, pelos movimentos


feministas, de centros alternativos de ajuda e de autoajuda na área de
saúde e ginecologia, para incentivar as mulheres a conhecerem o seu
próprio corpo? E que essas práticas, também desenvolvidas no Brasil no
final dos anos 70 e 80, serviram para orientar as políticas públicas de
saúde das mulheres?

Se nos anos 60 e 70, como decorrência da invenção da pílula há um passo


substancial para a separação entre prazer e reprodução, sendo responsável
pelo questionamento da virgindade como tabu, principalmente nos meios
universitários. Os anos 80 e 90 assistem a uma liberalização da sexualidade
No Brasil, o
entre jovens solteiros e com maior expressão do
Coletivo Feminista desejo feminino. Em todo o Brasil, grupos políticos e
- sexualidade e organizações não governamentais organizam ações
saúde desenvolve,
e atividades educativas e de atendimento no sentido de
desde 1985, ações
que contribuem com lutar para ampliar o direito ao prazer e à saúde para as
a autoconsciência mulheres, a exemplo do SOS Corpo, de Recife ou do
das mulheres sobre Coletivo Feminista sexualidade e saúde, de São Paulo.
o corpo, saúde e
No entanto, o desconhecimento do corpo feminino pelas
sexualidade e para a
necessária participação mulheres e a falta de uma política de saúde da mulher que
politica que envolve atinja a todas as mulheres trabalhadoras e inclua as negras
essas mudanças. permanecem como tensionamentos.
No Brasil, temos,
entre outros grupos
Nos anos seguintes, o conjunto dessas ações, dentro
feministas negros,
a organização não das políticas feministas, configurou o que passou a
governamental Criola, ser designado como direitos sexuais e reprodutivos.
que atua desde1992.

54
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Muitas foram as denúncias e reivindicações à sociedade e aos poderes públicos,


questionando as biopolíticas relacionadas à contracepção e ao corpo, e que
ocorrem de modo diferenciado entre os países, a exemplo da organização não
governamental WLSA, de Moçambique, que encabeça muitas dessas denúncias
na África Austral.

Se os avanços na área da contracepção nos países do Norte, dos


anos 1980 em diante, proporcionaram novíssimas gerações de
pílulas contraceptivas com baixa dosagem hormonal, cada vez
com menores sequelas para o corpo e a saúde das mulheres,
elas não atingiram a grande maioria das mulheres dos países do
Sul (do terceiro e do quarto mundo). As mulheres do Sul
passaram a utilizar, em larga escala, métodos pesados e
definitivos – como no caso do Brasil, em que a esterilização
feminina, durante décadas, tornou-se o método mais utilizado –
além de serem, frequentemente, cobaias para as pesquisas
científicas de contraceptivos de ponta, como os injetáveis e os
implantes subcutâneos. (SCAVONE, 2010, p.52)

Figura - 2.7 - Direito ao corpo


Podemos ver outros problemas também.
Se a pílula do dia seguinte (vendida sobre
prescrição médica), que está no rol dos
métodos de anticoncepção de emergência
desenvolvidos, traz relativa tranquilidade
para as mulheres no controle de seu próprio
corpo, provoca também efeitos colaterais e
descontinuidades hormonais, se utilizadas
de modo frequente. Além disso, como os
outros métodos citados anteriormente,
responsabilizam e penalizam as mulheres e
não os homens pela anticoncepção. O uso
da camisinha, mesmo com a presença da
AIDS e outras doenças, ainda é reduzido
Fonte: WLSA (2014). entre homens.

“A Gentis Panel, empresa especializada em pesquisa de mercado,


entrevistou mais de 2 mil pessoas de todas as regiões do Brasil e
obteve resultados preocupantes: 52% dos brasileiros [homens] nunca
ou raramente usam preservativos, 10% utilizam às vezes e só 37% se
protegem sempre ou frequentemente.” (ALVES, 2013, s.p) 

Como alternativa mais radical, situamos o aborto, temas dos mais controversos
e difíceis dentro e fora do movimento feminista. Entre os religiosos é assunto

55
Capítulo 2

polêmico, dizem as integrantes do Movimento Feminista Católicas pelo Direito


de Decidir. O aborto, prática feminina que existe desde tempos remotos e que
a sociedade finge não haver, é vivenciado de maneira diferenciada, conforme o
pertencimento a essa ou aquela classe social. Mais uma vez são as mulheres
trabalhadoras, sem condições de pagar por clínicas de luxo (clandestinas),
que sofrem as sequelas de sangramentos e riscos de vida e que, com sorte,
conseguem ser atendidas pelos serviços públicos de saúde.

Por isso, a luta pelo direito ao aborto no Brasil segue já há quase 30 anos, e o
feminismo vem lutando pela sua descriminalização e tem conseguido alguns
avanços. No final dos anos 1980, garantiu o início do atendimento aos casos
previstos por lei – estupro e risco de vida à gestante – em serviços públicos de
saúde. (SCAVONE, 2010, p.54).

A disciplina agia sobre os indivíduos, o biopoder, segundo


Foucault, agia sobre a Espécie (...) E sobre esse corpo-espécie,
o biopoder cuidava de processos como nascimentos e
mortalidades, da saúde da população (doenças e epidemias,
por exemplo), da longevidade etc. O biopoder é a gestão da
vida como um todo, técnicas de poder sobre o biológico, que
vira central nas discussões políticas. Modificá-lo, transformá-lo,
aperfeiçoá-lo eram objetivos do biopoder, e, é claro, produzir
conhecimento, saber sobre ele, para melhor manejá-lo. Assim
como a disciplina foi necessária na docilização do corpo
produtivo fabril, o biopoder foi também muito importante para
o desenvolvimento do capitalismo, ao controlar a população e
adequá-la aos processos econômicos. (TRINDADE, 2008, s.p)

Mas acompanhe conosco essa história, que é de conquistas e retrocessos,


a exemplo da necessidade de um novo Projeto de Lei que deu entrada no
Congresso em 1999 e que previa o atendimento obrigatório e integral
de pessoas em situação de violência sexual. O PLC 3/2013 (como ficou
conhecido) só foi aprovado pela câmara de deputados e senadores no primeiro
semestre de 2013.

Nas manifestações de rua articuladas por diferentes organizações e pelas redes


sociais no ano de 2013, podemos ver faixas e cartazes do movimento feminista,
que tem sabido aproveitar os espaços cibernáuticos e redes sociais para divulgar
suas lutas.

Por iniciativa de Paula V., foi feita uma petição popular para o PLC 3/2013,
por intermédio do site da AVAAZ (2013), com a entrega de um documento
à presidenta Dilma, para que ela sancionasse (não vetasse) o PLC, com a
subscrição de 3.717.000 assinaturas.

56
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Esta lei, embora não traga qualquer alteração nas regras que
hoje regem o atendimento à saúde de mulheres e adolescentes
vítimas de violência, representa um reforço legal precioso para
as orientações que regem este atendimento, traduzidas na
Norma Técnica de Atenção aos Agravos da Violência Sexual
contra Mulheres e Adolescentes, do Ministério da Saúde, fruto
de amplo consenso na área médica e entre os movimentos de
mulheres. Esta Norma Técnica vigora desde 1999 e foi revisada e
aprimorada em 2005. (AVAAZ, 2013)

Por fim, o PLC foi sancionado pela Presidenta da República em 2 de agosto de


2013. Mas em nossa reflexão até aqui você já sabe que o controle da concepção
é apenas um dos aspectos que envolvem a sexualidade. Na fronteira entre o
século XX e o século XXI, as mudanças vêm sendo conquistadas, mas muitos
problemas permanecem. Incorporada pela mídia visual, a sexualidade está em
todos os espaços, como a internet, o cinema, as novelas – principalmente no
Brasil, o que pode aparentar uma grande liberdade, que na realidade esconde, em
muito, o antigo sob as novas vestes.

No cotidiano, adolescentes e jovens convivem dentro de uma sociedade


contraditória, em visões diferenciadas sobre as relações de gênero – desde as
mais tradicionais (inclusive religiosas) às mais inovadoras. Do ‘ficar’ ao ‘namoro’
ou ao ‘casamento experimental’, jovens negociam com a geração anterior.
Meninas convivem muito cedo com a possibilidade da experiência sexual, mas
circunscrita em uma masculinidade hegemônica, que as coloca em risco de
violência por seus parceiros a todo instante; sem falar sobre a vivência do prazer,
que continua algo distante para muitas. As masculinidades juvenis alternativas
enfrentam angústias decorrentes da desconstrução de padrões frente ao
bombardeamento midiático ‘do país do futebol, da cerveja e da mulher gostosa’.
Por um lado, a vitória com os casamentos gays, por outro o sofrimento de
meninos e meninas homossexuais hostilizados dentro e fora da escola e todos em
busca de guetos para se protegerem. No mundo, homens religiosos muçulmanos
condenam e matam pessoas que escapam à heterossexualidade dominante.

Na área da saúde, além da gravidez precoce, as doenças sexualmente


transmissíveis como a AIDS, a hepatite, a herpes rondam as experiências
sexuais e, em alguns casos, fazem retroceder as conquistas das gerações
anteriores. Importante destacar, por fim, que as tecnologias reprodutivas, que
muito têm ajudado na autonomia dos sujeitos na área da reprodução, têm
como contrapartida novas prisões nas tecnologias de modelagem corporal, que
alimentam padrões favoráveis à feminilidade-objeto da indústria da estética e que
atinge, inclusive, às trans e suas novas produções corporais.

57
Capítulo 2

No campo da sexualidade, a Marcha Mundial de Mulheres tem


denunciado a exploração sexual, o tráfico de mulheres e a pedofilia.
Muitas lutas e uma pluralidade de organizações feministas estão
espalhadas pelo Brasil e mundo e são também articuladas na internet,
espaço de divulgação das atividades de rua.

Alguns autores/as têm estudado a pluralidade do feminismo e argumentam sobre


a incorporação das diferentes demandas, conforme as necessidades de cada
grupo em um contexto específico, tornando-se cada vez mais difícil localizar o
feminismo como um movimento unificado. Em entrevista na web, Regina Facchini,
autora do livro Sopa de Letrinhas (2005), afirma que

Quando pensamos na multiplicidade de demandas do movimento


feminista, já estamos pensando num momento posterior, novo,
no qual temos a intersecção entre várias demandas políticas.
O que nós vemos é o que algumas autoras têm chamado de
“feminismos hifenizados”: feminismos que vão fazer a interface
com outras lutas sociais. São ativistas percebendo que “mulher”
enquanto uma categoria única não dá conta das demandas das
mulheres todas que existem na vida real. A partir disso, você
tem uma articulação de feminismos que vão levar em conta a
questão racial, geracional, de classe ou de que certas mulheres
são mulheres do Primeiro Mundo, de países em desenvolvimento,
situadas em grandes centros urbanos ou em comunidades rurais
ou ditas tradicionais. (CANTARINO, 2013, s.p)

Uma bandeira que inicialmente surgiu nos movimentos libertários da década de


60, mas ainda se apresenta ousada, é erguida pelo movimento de Porto Alegre/
RS: Relações Livres (2014). No site do grupo, que se autodesigna como Rli,
consta que o objetivo do grupo é a busca à livre expressão amorosa e do desejo
sexual, em contraposição à monogamia das relações amorosas. Para isso propõe
relações abertas entre parceiros/as e o fim do sofrimento e violências decorrentes
dos sentimentos de ciúme e propriedade presentes nas relações amorosas
contemporâneas.

Pela multiplicidade de grupos e formas de luta, a bandeira do direito à


sexualidade e ao corpo ora aglutina diferentes movimentos sociais por uma
mesma bandeira ora uma determinada organização coordena e recebe (ou
não) o apoio das demais. Se você pesquisar pelo descritor ‘luta feminista’ na
internet vai se deparar com muitos movimentos e possibilidades, provavelmente,
vai se surpreender. Apenas para lhe situar, podemos trazer algumas lutas em
andamento ainda não citadas: pelos direitos à saúde da mulher (anticoncepção

58
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis); contra o abuso sexual


infantil e o tráfico de mulheres; por relações amorosas e sexuais livres; pelo direito
profissional relativo à liberdade do uso do corpo na prostituição; pela liberdade
de orientação sexual; entre outros. Vamos aprofundar um pouco mais sobre
o Movimento LGBT, por estar entre os grandes movimentos pela liberdade de
expressão sexual e suas interfaces com o movimento feminista.

3.2 Movimentos LGBT e a visibilidade de um novo


sujeito político

3.2.1 A emergência do movimento


O Movimento LGBT - de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trans (aqui incluímos
transexuais, transgêneros e travestis) considera como marco histórico a Rebelião
de Stonewall, em Nova York, EUA, em 1969. Era frequentado por gays, onde se
deu o primeiro embate coletivo, em que cerca de 200 jovens se manifestaram
contra a polícia, devido às repressões cotidianas de que eram vítimas. No ano
seguinte, 10 mil homossexuais, lésbicas e trans saíram às ruas de Nova York para
comemorar a luta, depois disso, o dia 28 de junho passou a ser referência para as
lutas emancipatórias, instituindo-se pelas práticas políticas mobilizatórias, como o
dia do Orgulho Gay, e as manifestações espalharam-se pelo mundo desde então.

Procure conhecer sobre esse momento histórico, fazendo uma pesquisa de


imagens na internet, a partir do descritor Stonewall.

Já em meados da década de 60, dentro da luta feminista pelo direito ao corpo e


ao prazer, podemos situar as mulheres lésbicas com uma intensa participação.
Dentro desse processo histórico, as mulheres lésbicas começam a se organizar
e a apresentar pautas (necessidades) ao conjunto das feministas em um
questionamento a ausência de questões ligadas à sexualidade entre mulheres. No
final de 70, surge o conceito heterossexismo, por Stephen Morin, para denunciar
a não aceitação da homossexualidade, e em 1980 a feminista Adrienne Rich
cunha o termo heterossexualidade compulsória, que considerava estar presente
no movimento, porque centrava suas questões a partir das relações econômicas,
amorosas e sexuais apenas entre homens e mulheres (RICH, 2010). Lentamente,
nesse contexto de aliança e crítica, as mulheres lésbicas passam a desenvolver
organizações autônomas e posteriormente a fazer parte dos movimentos LGBT,
sem nunca se distanciarem, efetivamente, da luta feminista, que desse momento
em diante passam a desenvolver em diferentes espaços, mas de modo articulado.

59
Capítulo 2

Heterossexismo

“Heterossexismo foi um termo proposto por Stephen Morin, em 1977, e refere-se


à ideia de que a heterossexualidade é a orientação sexual “normal” e “natural”.
Ao considerar a heterossexualidade “normal”, contrapõe-se à ideia de que as
outras orientações sexuais (homossexualidade e bissexualidade) são um desvio à
norma e reveladoras de perturbação. Não são encaradas como um dos aspectos
possíveis na diversidade das expressões da sexualidade humana. O considerar
a heterossexualidade como “natural”, aponta para algo inato, instintivo e que
não necessita de ser ensinado ou aprendido. O termo heterossexismo também é
utilizado para designar os preconceitos existentes contra os homossexuais, bem
como os comportamentos deles decorrentes”. (FERREIRA, 2011, s.p)

Entre as brasileiras esse debate foi travado, particularmente, na década de


80 durante os encontros feministas nacionais e latino-americanos (dentro e
fora do Brasil), sendo que nesse período já havia um movimento de homens
homossexuais que atuava em conjunto com o movimento feminista, em ações
que vinham desde a luta contra a ditadura brasileira no final dos anos 70. Mas
o embate se deu também contra a hegemonia dos homens homossexuais no
movimento LGBT, o que produziu inclusive a reivindicação das lésbicas para
a letra ‘L’ estar em primeiro lugar (o movimento antes era GLBT), como forma
simbólica de contestar a dominação dos homens gays no movimento e à própria
misoginia presente em muitos grupos de homossexuais.

Aproveite a dúvida e faça uma pequena pesquisa sobre o termo misoginia


e descubra quem pode ser misógino.

A história do movimento homossexual no Brasil, para Facchini (2005), pode ser


dividida em duas ondas: ‘a primeira onda’ no final dos anos 70, com destaque
para o grupo Somos de Afirmação Sexual, de São Paulo e o jornal Lampião
da esquina, editado no Rio de Janeiro com “propostas de transformação para
o conjunto da sociedade, no sentido de abolir hierarquias de gênero e lutar
contra a repressão sexual, fonte do autoritarismo e de produção de violência e
desigualdade.” (BRASIL, 2009, p.135)

A ‘segunda onda’ foi marcada por maior visibilidade pela chegada da epidemia
da Aids na década de 80, e também pela incorporação do ‘sujeito gay’ como
consumidor privilegiado dentro do capitalismo, marca que passa a fraturar o
movimento gay devido às diferenças de classe dentro dele. Apesar de todo o
‘pânico moral’ estabelecido contra a comunidade gay em todos os países, no

60
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Brasil, em particular, o movimento se fortaleceu e se articulou no desenvolvimento


de políticas públicas, inclusive inserindo técnicos dentro do governo brasileiro.

A militância dos movimentos de saúde, inclusive feministas, historicamente


organizados desde 80, somou-se a esses esforços e transformou o Brasil em
referência contra a Aids durante os anos 90. Ao mesmo tempo, permitiu que os
movimentos LGBT se estruturassem e reivindicassem outras bandeiras.

Foi nesse contexto que atuaram os grupos Triângulo Rosa e Atobá, do Rio de
Janeiro, e o Grupo Gay da Bahia. O objetivo destes grupos, além das atividades
comunitárias, era promover mudanças na sociedade e em diferentes níveis do
governo, que servissem para diminuir a discriminação contra os homossexuais.
Interessava incidir nas ações de governo, na política partidária, no âmbito legislativo
e em organizações da sociedade civil. Foi o Grupo Gay da Bahia que coordenou
a campanha pela retirada da homossexualidade do Código de Classificação de
Doenças do Inamps.

Durante a Constituinte de 1988, foi do Grupo Triângulo Rosa a articulação do


movimento homossexual para reivindicar a inclusão da expressão “orientação
sexual” na Constituição Federal, no artigo que proíbe discriminação por “origem,
raça, sexo, cor e idade” e no artigo que versa sobre os direitos do trabalho. Embora
sem sucesso nessa instância, o combate a esse tipo de discriminação passou a ser
incluído nas legislações de vários estados e municípios. (BRASIL, 2009, p. 136)

Nas palavras de Fernandes (2011, p.50), o impacto da AIDS mudou a forma de


fazer política dos movimentos LGBT no mundo:

•• Produziu a agenda anti-homofobia como uma agenda global,


articulando os ativismos locais com as pautas internacionais;
•• Construiu novas formas de fazer política, centradas na solidariedade
e nas respostas comunitárias, com um crescimento de grupos que
passaram a gerir financiamentos e projetos de prevenção à Aids,
muitos deles passando a se configurar como ONGs.

Para Bastos (2002), houve no Brasil, dos anos 90 e 2000, uma especificidade
que facilitou esse processo devido à articulação entre movimentos sociais LGBT
e produtores de conhecimentos (entre eles médicos/as e cientistas sociais) que
passaram a intervir nas políticas públicas de modo decisivo, inclusive em um
trânsito entre acadêmicos e integrantes de ONGs, que passam a atuar como
gestoras governamentais. Esse processo gerou uma contrapartida ‘estatal’ para
o movimento, atrelando-o à agenda estatal, o que gerou (e tem gerado) intensas

61
Capítulo 2

discussões políticas sobre o grau de institucionalização das lutas dentro da


ordem e na perda do caráter libertário que marcou suas origens.

Igualmente, na Europa, movimentos que surgiram na Inglaterra, como o Gay


Liberation Front (Frente de Libertação Gay) e na França, com o Front Homosexuel
d’Action Revolucionaire (FHAR, Frente Homossexual de Ação Revolucionária)
sofreram um processo histórico de institucionalização, semelhante ao que
ocorreu com parcela significativa do movimento LGBT e feminista. Coutinho nos
alerta sobre esse processo:

Se na década de 1970 associavam-se aos movimentos sociais,


a partir dos anos 1990, as ONGs estão submetidas a uma outra
lógica: priorizam trabalhos em “parceria” com o Estado e/ou
empresas; proclamam-se “cidadãs”; exaltam o fato de atuarem
sem fins lucrativos. Desenvolvem um perfil de “filantropia
empresarial”; mantêm relações estreitas com o Banco Mundial
e com agências financiadoras ligadas ao grande capital, como
é o caso das Fundações Ford, Rockfeller, Kellogg, MacArthur,
entre outras. (COUTINHO, 2005, p.58).

A institucionalização se dá quando os movimentos sociais perdem o caráter


contestatório de transformação radical da sociedade e passam a constituir
ONGS, que em um momento inicial são mobilizatórias para em seguida
se tornarem dependentes financeiramente do Estado ou de instituições
internacionais, facilitando o controle do capital e submetendo-se politicamente à
agenda dessas instituições.

No caso das pessoas LGBT, a articulação da orientação sexual com classe e


outros marcadores estão imbricadas, já que a expressão livre da sexualidade é
agravada pelo “desemprego, pela precariedade e pela dependência econômica
em relação à família. Então as convergências de interesse não se situam mais
apenas no seio do movimento homossexual clássico.” (GIRARD; CASTRO, 2012,
s.p). Podemos dizer também que a discriminação contra a população LGBT
aumenta quanto maior a vulnerabilidade social e econômica de quem a expressa
como ser mulher, ser jovem, ser pobre e/ou ser negro/a, basta saber o número de
assassinatos realizados no Brasil em 2012.

É importante saber que, assim como há várias correntes feministas, igualmente há


grupos com posicionamentos diversos nos movimentos sociais LGBT.

Um movimento sediado no México, o Exército Zapatista de Libertação Nacional


(EZLN), expressa essa preocupação da junção das lutas identitárias feministas e
LGBT com a crítica à ordem social e contém em seu movimento setores LGBT.

62
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Ainda em 1994, um de seus líderes, o subcomandante Marcos, ao ser perguntado


por um repórter quem era ele, assim respondeu:

Marcos é gay em San Francisco, negro na África do Sul,


asiático na Europa, um chicano em San Ysidro, um anarquista
na Espanha, um palestino em Israel, um maia nas ruas de San
Cristobal, um judeu na Alemanha, um cigano na Polônia, um
mohawk em Quebec, um pacifista na Bósnia, uma mulher solteira
no metrô às dez da noite, um camponês sem terra, um membro
de gangue nas favelas, um trabalhador desempregado, um
estudante infeliz e, é claro, um zapatista nas montanhas. (KLEIN,
2003, p.88)

Enfim, com todo esse debate, podemos reafirmar: a sexualidade é política!


Ou permanente alvo do biopoder, como diria Foucault.

3.2.2 A luta pelos direitos civis e sexuais


Outras vertentes de lutas, centrada, na busca dos direitos civis, têm forte
expressão No Brasil contemporâneo, o movimento LGBT centra sua luta pelos
direitos sexuais e passa ampliá-la pela conquista dos direitos civis, a exemplo da
Europa, Estados Unidos e alguns países da América do Sul, como a Argentina.
Destacamos aqui duas lutas sobre a liberdade sexual que marcaram os anos
2000, representando conquistas e perdas para o movimento no Brasil:

•• A vitória, com a aprovação das parcerias civis foi noticiada e você


pode ler o texto no EVA, no Tópico 2.
•• A perda, mesmo provisória, que se deu na votação do PLC 122
que visa criminalizar a homofobia e teve forte pressão de setores
evangélicos. Na votação da Comissão de Direitos Humanos
do Senado, em 18 de dezembro de 2013 o Projeto é apensado
(anexado) ao projeto de reforma do Código Penal e sai da pauta
do Legislativo, por 29 votos a favor e 12 contra. A partir de 2014
ele passa a tramitar junto com a reforma do Código Penal e ser
colocado novamente em discussão.

O que chamamos de Movimento LGBT, é uma associação de organizações em


forma de rede, mas que mantêm as suas particularidades, podendo ser grupos de
um ou mais desses segmentos sociais Reúnem-se anualmente para deliberação
de algumas ações conjuntas. E mais, que a Associação inclui também cerca de
62 organizações colaboradoras ligadas às lutas pelos Direitos Humanos e ao
combate à Aids.

63
Capítulo 2

A Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e


Transexuais – ABGLT, foi criada em 31 de janeiro de 1995, com 31 grupos
fundadores. Hoje a ABGLT é uma rede nacional de 286 organizações
afiliadas. É a maior rede LGBT na América Latina.

A missão da ABGLT é promover ações que garantam a cidadania e os


direitos humanos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais,
contribuindo para a construção de uma sociedade democrática, na qual
nenhuma pessoa seja submetida a quaisquer formas de discriminação,
coerção e violência, em razão de suas orientações sexuais e identidades de
gênero. (ABGLT, 2014)

3.2.3 Os novos movimentos Queer


O termo Queer, que por aproximação com a língua portuguesa poderia ser
traduzido como abjeto, tinha um sentido originário negativo a quem o recebia
como perversão, anormalidade, desvio porque rompiam com as normas de
gênero e de sexualidade. O termo foi adotado e assumido pelo movimento
por volta dos anos 90, como crítica social e questionava o próprio sentido das
lutas por ‘identidades sexuais ou de gênero’, pois considerava que estas lutas
O feminismo, a revolta
contribuíam para a continuidade tanto da normalização
LGBT, o combate sexual das identidades como da hegemonia de umas e
da juventude são um subordinação de outras.
patrimônio colossal de
pensamento, conflito e De lá para cá têm obtido grande espaço nas universidades
libertação que tem sido
(de onde surgiram), mas também apresentam alguns
importante para a crítica
e ação radical sobre a grupos espalhados pelo mundo, principalmente na
vida. Fala-nos de desejo, França, Estados Unidos, Canadá e Portugal. (GIRARD,
de amor, de amizade, de CASTRO, 2012). Os grupos vinculados às propostas
homem e mulher e suas
variações, de corpos,
Queer vêm se posicionando de modo diferenciado nos
de barricadas, de movimentos pela liberdade sexual, resgatando elementos
xamanismo, de clínica, do feminismo radical e LGBT da década de 60 e o
de capital e exploração.
Combate Sexual da Juventude com referência a Reich
O seu objetivo é destruir
o PODER, enquanto em suas lutas do início do século XX, a exemplo do grupo
teia biopolítica das português Pink Blok. Enquanto filiação teórica, alguns
relações humanas. grupos se reivindicam do marxismo cultural, mas grande
A razão instrumental
parte sinaliza para a vertente anarquista, que tem como
não o satisfaz, exige
uma sensibilidade ou eixo a crítica do capitalismo e a sua forma política de
poética ou paixão. Exige democracia representativa, que consideram excludente.
bruxaria e histerismo.
Exige revolta. Exige uma As ações produzidas pelos diferentes grupos Queer como
frente do desejo pela os Panthéres Roses (Panteras Rosas) e os Pink Bloks
revolução sexual global.
(PINK BLOK, 2012)
(Blocos Rosa) que atuam em diversos países, inclusive
no Brasil, buscam articular as demandas com a questão

64
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

de classe ao tornar “as questões LGBT visíveis durante as mobilizações para


a defesa e os serviços públicos, contra o racismo ou contra o imperialismo,
destacando o emaranhamento dos combates.” (GIRARD; CASTRO, 2012, s.p)

Na fala de um de seus defensores brasileiros a vertente Queer se apresenta, em


termos políticos

como uma alternativa crítica aos movimentos identitários e seus


objetivos de assimilação à ordem existente. O movimento LGBT
(lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), por exemplo,
opera a partir das identidades sexuais vigentes, e expressa a
demanda por reconhecimento. Isso contrasta com a proposta
queer de apontar as fraturas nos sujeito, seu caráter efêmero e
contextual. (MISKOLCI, 2011, p.35)

Enfim, dependendo da visão teórica, as lutas políticas por direitos e


pela transformação radical da ordem social podem se combinar ou ser
consideradas excludentes. Pense a esse respeito!

Por ora, partilhamos da visão de Girard e Castro (2012) que aponta a necessidade
de conjugar “a luta contra a repressão, a conquista de direitos e a vontade de
transformar uma sociedade desigual (...) evitando a fragmentação crescente e um
fechamento identitário que arruinaria as possibilidades de alianças ” (s.p). Faz-se
necessário, portanto, buscar a articulação de lutas por direitos com a produção
de situações as quais desnudem a realidade econômica e social que as mantém e
não se perca de vista a necessidade de coalizões de diferentes grupos políticos
feministas e LGBT.

Figura - 2.8 - Grupo Queer - Transgender Equality Esperamos que, com esse
Network Ireland (TENI)
breve panorama, você tenha
conseguido se situar, de um
modo básico, nas lutas travadas
pelos movimentos LGBT no
Brasil e no mundo e siga
conosco nos estudos sobre a
construção da identidade de
gênero e orientação sexual e
mais adiante, de como lidar
Fonte: TENI (2014).
com essa temática dentro da
proposta contemporânea de
Educação Sexual.

65
Capítulo 3

Identidades de gênero e
orientação sexual

Habilidades Refletir, criticamente, sobre as discriminações


de gênero, orientação sexual e raça/etnia.
Problematizar o espaço escolar e sua importância
no processo de construção das identidades de
gênero e orientação sexual.

Seções de estudo Seção 1:  A (difícil) presença do corpo e da


sexualidade na escola

Seção 2:  A construção do desejo nos meandros do


gênero e da orientação sexual

Seção 3:  Homofobia e diversidade sexual


na educação

67
Capítulo 3

Seção 1
A (difícil) presença do corpo e da
sexualidade na escola
A corporeidade é foco de inúmeros estudos na contemporaneidade. Neles se
afirma que

nossa corporeidade é definida não apenas por determinantes


biológicos, mas por um conjunto de significados culturalmente
instituídos que vão delimitando muitas de nossas ações, nossas
relações com os outros e com nós mesmos, nossos hábitos,
nossas regras de conduta, nossos movimentos, enfim, nossa
identidade. (ANDRADE; CAMARGO, 2010, p.99)

O texto de Andrade e Camargo, Corpos femininos escolarizados (2010) nos faz


pensar a necessidade de preceder a discussão sobre as identidades de gênero
e orientação sexual, com uma breve reflexão sobre o lugar (ou não lugar) que a
escola dá ao corpo nesse processo.

Importante resgatar que o corpo quieto e imóvel foi definido como necessário em
uma determinada época e lugar, que data do surgimento da escola (com suas
interfaces religiosas) e do capitalismo, período conhecido como Modernidade,
entre os séculos XVII e XIX.

Nela se aprendia a concentração por meio do esforço pessoal e da disciplina.


Tanto que as primeiras escolas tinham a disciplinarização em quase tudo,
semelhante às fábricas, e visavam ao controle máximo da espontaneidade do
corpo, preparando-o para a racionalidade voluntária. (FOUCAULT, 1986). Nessa
aprendizagem. “os movimentos corporais tornavam-se dissociados das emoções
momentâneas, perpetuando-se o controle e a manipulação.” (GONÇALVES, 1997,
p.33) Pensando com Freud, poderíamos dizer que a na sociedade capitalista a
escola ensina que o princípio de realidade antecede (e nunca se combina) ao
principio do prazer: o corpo não é para ser vivido, mas sim submetido.

Como exemplo de racionalidade voluntária e contenção do corpo,


temos os regulamentos de tempo na escola, como hora de comer, de ir ao
banheiro, de brincar, esses tempos curtos. O maior tempo é o de estudar
em sala de aula, de preferência com controle máximo da emoção.

68
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

A visão moderna sobre o corpo na escola ainda é predominante, embora


tenha havido mudanças. A escola ocidental, na contemporaneidade, continua
a considerar o corpo uma ‘tábula rasa’, sobre a qual é possível qualquer
aprendizagem e ainda o pensa de uma maneira particular: processa sua divisão
em base material e imaterial, como se fosse possível fragmentá-lo em corpo-
mente, supondo, na maioria de suas práticas, que seu trabalho essencial se dá
sobre o pensamento descolado da base imaterial.

Por isso, dedica a parte principal da aprendizagem dos/as estudantes à


supervalorização cognitiva de conteúdos lógicos, racionais, abstratos,
fragmentados e não aos vínculos sociais e afetividades que ali são construídos
nas relações entre colegas e professores/as. Em outras palavras, desconsidera
a cultura escolar relacionada “à educação da sensibilidade, dos aspectos
sensoriais, da estética e do prazer” (ANDRADE; CAMARGO 2010, p.101)

Louro (2000) retrata, de modo poético em seu texto quase autobiográfico, o seu
período em uma escola pública, como direcionado à negação do corpo como
prazer e vida, e da construção da criança inquieta e alegre em uma aluna bem
comportada e preocupada com o aprendizado dos ‘conteúdos’, em uma
sociedade classista e competitiva.

Figura 3.1 - Deveres escolares

Fonte: Rosamaria (2012).

Mas o que torna a escola tão diferente dos demais espaços e, ao mesmo
tempo, tão importante para a construção do corpo e da sexualidade,
mesmo havendo outras instâncias que também o fazem?

Podemos afirmar que alguns aspectos amplificam o poder da escola: o aumento


da escolaridade obrigatória desde muito cedo, a criação da escola de tempo
integral e, principalmente, o fato de aglutinar e aproximar grandes grupos de
estudantes por faixa etária semelhante. Esse último quesito, contraditoriamente,
também debilita a escola, que se por um lado tenta estampar seu poder

69
Capítulo 3

altamente disciplinador, enfrenta, ao mesmo tempo, a constituição de subgrupos


de poder e resistência entre adolescentes e jovens estudantes que a transformam
em um barril de pólvora, caso sua eficiência disciplinadora não os convença .

Entre o que permite e interdita no seu cotidiano, a escola molda representações


sobre o corpo a partir do que pode ou não se fazer com ele. Em consequência,
participa, em conjunto com a mídia, a família e a religião, na produção e/ou
reforço das subjetividades sexuais e de gênero. Como controlar o corpo se não
se controla um de seus componentes fundamentais, o desejo? Enquanto uma
das instâncias responsáveis pelo biopoder, a escola tem autorização social tanto
para a coerção como para o convencimento, mas nos tempos contemporâneos,
quanto mais seus métodos se aproximarem da coerção, menos eficiente será,
por isso o jogo da negociação escolar na contemporaneidade está em ceder,
sem perder a lógica dominante da sexualidade restrita e mercantilizada, da
masculinidade hegemônica e da heterossexualidade como norma.

Governar o corpo é condição para governar a sociedade. O controle do


corpo é, portanto, indissociável da esfera política”. (SANT’ANNA, 1996,
p.246). <fecha_destaque>

Em outras palavras, a negociação direcionada ‘para o convencimento’ contempla,


entre outras práticas:

•• o jogo tanto de permitir como negar a aprendizagem da sexualidade


enquanto realização de prazer (em outras palavras: o que se pode
ou não fazer);
•• o direcionamento das identidades no que se refere à orientação
sexual e gênero, tendo como modelo o casal heterossexual;
•• a tolerância praticada junto a outras relações não heterossexuais,
desde que invisíveis (no máximo, discretas) dentro da escola.

Além disso, enquanto materialidade em movimento, o corpo tem um certo lugar


nas brincadeiras no parquinho, durante o recreio ou, eventualmente, a depender
da prática docente, nas aulas de educação física. Todavia, a vigilância se dá em
todos os espaços, tanto quanto as transgressões.

“Assunto dos recreios, banheiros ou corredores e na maioria das salas


de aula, continua sendo fruto proibido e objeto de fiscalização e controle:
são palavras que ficam flutuando no ar, não ditas, (mal)ditas, (des)ditas ou
sacramentadas.” (ANDRADE; CAMARGO, 2010, p.103)

70
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

No entanto, nenhuma vigilância é incontornável e pode ser contestada,


particularmente por adolescentes que compreendem melhor as contradições e
usufruem delas:

Adolescentes, estávamos cada vez mais conscientes de que


podíamos inscrever em nossos corpos indicações do tipo de
mulher que éramos ou desejássemos ser. O cinema, a televisão,
as revistas e a publicidade (que também exerciam sua pedagogia)
nos pareciam guias mais confiáveis para dizer como era uma
mulher desejável e tentávamos, o quanto possível, nos aproximar
dessa representação. A escola, por seu lado, pretendia desviar
nosso interesse para outros assuntos, adiando, a todo o preço, a
atenção sobre a sexualidade. (LOURO, 2000, p.15)

Mas até mesmo as crianças criam espaços de autonomia perante o adulto, como
podemos ver no exemplo abaixo. O autoerotismo infantil, para desespero de
quem as educa, está presente, seja no parquinho ou até mesmo em situações de
punições não relacionadas com a sexualidade.

No parque, também se observava crianças se masturbando ao


sentar em brinquedos como balanças, baldinhos, gira-gira ou,
quando, por terem feito algo errado, eram postas para “pensar”
e colocavam as mãos dentro de suas calcinhas ou cuecas. Se,
por um lado, essas situações exigiam um olhar mais atento de
vigilância dos adultos, por outro, ao se depararem com essas
situações, muitos não sabiam como agir. Será que abrir mão da
vigilância não seria uma boa alternativa para lidar com essas
situações? (ALTMANN; CARVALHO, 2012, p.7)

A instigante conclusão das autoras - em forma de pergunta, demonstra uma


possibilidade oposta à ideia de uma sociedade disciplinar: se não se sabe como
agir, por que não se deixa de vigiar?

A aparente ‘dessexualização’ da arquitetura social dos espaços escolares, ainda


presente no século XXI, entra em contradição com o que crianças e adolescentes
insistem em trazer frente a estarrecidos professores/as, que alegam não estar
preparados para essa ‘quase luta’, porque travar esse debate supõe para eles
e elas um trabalho interno sobre suas próprias convicções e visões de mundo,
também escolarizadas a seu tempo. É provável que os conteúdos sexualizados
que adolescentes trazem à escola nos passem a impressão de que muita coisa
mudou nesse ambiente escolar, em relação à época dos autoritários anos 70,
mas talvez seja uma cortina de fumaça. Percebemos uma via de mão única nesse
universo que adentra a escola, porque educadores/as estão bem distantes,
não só de permitir a livre circulação de ideias e gestos, como de debater com

71
Capítulo 3

estudantes essas mesmas ideias, de forma crítica, sobre o que significam essas
mudanças e as problematizando.

O período que compreende a sexualidade infantil até o início da adolescência


(4-12 anos) é o mais dramático da vivência escolar, já que os processos de
conhecimento do corpo e da sexualidade na infância, apontados por Freud, ainda
deixam atordoados/as educadores e educadoras.

É possível vislumbrar durante experiências de formação em sexualidade os


modos dessa vigilância e as concepções que permeiam a escola. Sobre as séries
iniciais, Ribeiro et al (2004, p. 115, 117) trazem, entre outros exemplos, uma cena
descrita e um diálogo narrado, contendo relatos de duas professoras das séries
iniciais, coletados durante a formação docente.

Nas situações relacionadas às identidades de gênero e sexuais


– quando em brincadeiras os alunos beijavam as meninas
ou baixavam as suas calças, e ainda quando as meninas se
acariciavam –, as professoras utilizaram como estratégias
pedagógicas algumas “micropenalidades”, como, por exemplo,
as transferências de alunos para outros turnos ou para
outras escolas, os encaminhamentos à direção da escola, as
repreensões.
Profª. M.: “Estás parecendo uma bichinha, te agarrando nos
caras. Do que os teus amigos vão te chamar? De bichinha”.
Aluno: “Ah, eu não sou bichinha!” Profª. M.: “Mas está
parecendo!” Aluno: “Mas eu não sou!” Profª. M.: “Tá, então pára
de te agarrar, vai brincar. Não fica de bracinho, de mãozinha”.

As autoras questionam o dispositivo de sexualidade presente nessas práticas


docentes punitivas (micropenalidades), aplicadas com maior rigor para quem
rompe com a norma da heterossexualidade.

Inúmeros estudos demonstram atitudes docentes semelhantes frente às


práticas infantis de pequenos toques, como dar as mãos, aplicar ‘selinhos’
(toque suave dos lábios), pentear cabelos, sentar-se próximos/as em sala
de aula, brincar de papai e mamãe sem ser do ‘sexo
Micropenalidades
significam processos
biológico correspondente’, entre tantas manifestações
sutis de punição, das crianças. Os adultos, moldados sexualmente ou
que “vão do castigo para o medo da liberdade sexual ou para a ênfase na
físico leve a privações
relação sexual genital, não conseguem ver nas crianças o
ligeiras e a pequenas
humilhações” exercício de um erotismo e afeto infantil: logo determinam
(FOUCAULT, 1999, a ‘adultização’ das práticas, como a definição de
p.149) orientação sexual e a relação sexual entre adultos e,
consequentemente, reprimem-as.

72
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

As crianças e jovens têm trazido para a escola compreensões e práticas


sexuais que questionam a ordem sexual vigente e os padrões dominantes
de gênero e de orientação sexual. Possivelmente, e algumas pesquisas o
comprovam, as crianças do século XXI se aproximam do entendimento de que
a sexualidade (aqui não entendida apenas como relação sexual) é algo cotidiano
e prazeroso, ainda que a maioria de seus familiares não converse com elas
sem tensionamentos. Vimos que tal ambiguidade familiar se repete na escola,
presente nos exemplos da pressão adulta, que impede meninas e meninos da
expressão de seu corpo, em consonância com seus desejos e afetos.

Será que as práticas que crianças e jovens trazem para a escola são
sempre críticas à uma sexualidade conservadora? O que você pensa a
esse respeito?

Em resposta a essa pergunta, poderíamos dizer que sim e não, tendo por base
as concepções de Gramsci (2004), um filósofo italiano que pensou muito a
respeito do senso comum e do bom senso. Nesse sentido, crianças não são
diferentes dos adultos: expressam as contradições do mundo exterior à escola.
Podem até vivenciar, no espaço educativo, práticas de gênero e sexualidade
opostas das que vivenciam no bairro ou dentro de sua família.

Pudemos observar, por exemplo, crianças de uma escola pública na zona sul
da cidade de São Paulo que, no início dos anos 2000, expressavam uma forma
particular de relações de gênero (CRUZ, 2004). Foi inventada pelas culturas
infantis ali presentes um tipo de relação social baseado em uma agressividade
recíproca entre os sexos, a qual designamos como sociabilidade baseada no
conflito. Imaginamos terem sido construídas para dar conta de uma ‘guerra
dos sexos’, alimentada por um ambiente escolar que a tudo categoriza por
sexo (nas salas de aula, nas filas de entrada etc.), o que certamente combina-
se com as experiências da masculinidade hegemônica de fora dela. Em
parte, eram brincadeiras para estarem juntos e, muitas vezes, permeadas por
aspectos erotizados, que em alguns momentos ultrapassavam as fronteiras
da aceitação recíproca, quando ocorriam os xingamentos pelos meninos e os
tapas pelas meninas. (CRUZ; CARVALHO, 2006) Tais experiências das relações
sociais de gênero podem, em momentos futuros, voltar-se contra as meninas,
pensando aqui nos altos índices de violência entre casais, principalmente (mas
não só) heterossexuais.

Todavia, se pensarmos nos jovens e nas novas experiências desse período, de


um modo ou de outro, podemos dizer que a primeira relação sexual tem sido
vivenciada de modo contraditório e a escola é ausente nesse processo. Há, em
algumas escolas, programas sobre doenças sexualmente transmissíveis, mas

73
Capítulo 3

salvo exceções felizes de políticas que mesclam as temáticas sobre sexualidade e


prevenção de DSTs, é comum descolarem-se o desejo e afetividade da discussão,
atendo-se apenas aos aspectos fisiológicos. Igual ao que se passa na escola, a
orientação e a aceitação familiar da primeira ‘transa’ não se dá sem percalços.

Enfim, para a maioria dos/as adolescentes e jovens, esse momento é de incerteza


e medo, porque:

•• padrões de sexo e de gênero são cruciais nessa hora, já que


algumas famílias relutantes até aceitam tais vivências, desde que o
encontro não seja na casa da menina; e se for na casa do menino,
por sua vez, espera-se que esse também não tenha uma irmã mais
nova, exemplo que ‘assusta’ mesmo pais e mães ousados/as;
•• os motéis são caros e não aceitam menores, considerando-se aqui
não só a repressão sexual vigente, mas os riscos da prostituição
infantil/juvenil e o tráfico de mulheres;
•• os índices de gravidez precoce e doenças transmissíveis, entre elas
a AIDS, estão presentes como tensões que recaem, em geral, sobre
as garotas, apesar de os dados revelarem que os garotos usam mais
os preservativos que os homens adultos;
•• a situação fica quase impossível se os padrões da
heterossexualidade não forem seguidos, daí a necessidade do sigilo
perante a família entre jovens casais homossexuais;
•• por fim, no que diz respeito ao conhecimento do corpo feminino por
meninas e meninos nas relações heterossexuais, ao contrário do que
demonstra o excesso de discurso sobre sexo, garotas adolescentes
e jovens ainda estão muito longe do direito ao prazer.

A psiquiatra Carmita Abdo, fundadora e coordenadora do Projeto


Sexualidade (ProSex) na USP, onde também é professora, analisa que entre
as mulheres, as jovens até 25 anos apresentam o maior índice de falta de
orgasmo (anorgasmia), cerca de 40% em experiências que ainda podem
ser dolorosas pela indelicadeza ou desconhecimento do parceiro. (ABDO,
2004, p.95)

A angústia sexual que esse contexto provoca entre as jovens passa ao largo da
escola e educadores/as não se sentem preparados para dar suporte a tantas
dificuldades que até podem ultrapassar as possibilidades do ato educativo
escolar, visto tratar-se de aspectos de ordem íntima e familiar. Mas as fronteiras
entre espaços educativos formais e não formais são tênues na sociedade
contemporânea e as pedagogias sexuais, que atuam em paralelo à escola e
permeiam diferentes instâncias, estão presentes e mais fortes que a escola, e

74
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

contribuem para a modelagem do que se entende por concepção de sexualidade


e amor na virada do século XXI. No Brasil, podemos citar, por exemplo:

•• a novela das oito, transmitida cada vez mais tardiamente, mas


igualmente assistida por crianças e familiares, permeada de violência
e erotismo adulto;
•• as revistas femininas (e masculinas) e suas receitas de ‘bom sexo’,
como uma tecnologia acessível a todos/as;
•• a divulgação sistemática de consumo, cujo erotismo e estética são
vinculados a um padrão tradicional de feminilidade e masculinidade.

Em contraposição a essas modelagens, temos outras, talvez mais abrangentes e


múltiplas: o cinema comercial, (expressão da indústria do entretenimento), mas
que trata, em alguns momentos, de outras possibilidades de gênero e orientação
sexual, e o cinema alternativo, de arte, crítico ou libertário, que vai mais além;
a internet com sua infinita gama de redes sociais e vídeos das mais diferentes
correntes de pensamento e movimentos sociais; a literatura virtual com grande
influência entre jovens, presente em blogs e outros textos internáuticos, promove
sociabilidades múltiplas e rupturas. Esse conjunto de práticas de sociabilidade
permite que crianças e jovens encontrem contrapartidas às dificuldades presentes
na escola e na família. Todos esses espaços poderiam ser aproveitados pela
escola na reflexão de novos significados de sexualidade junto à juventude.

No entanto, de modo planejado ou intencional, poucas escolas


participam desse debate e buscam a formação docente, preocupadas
que estão apenas com as aprendizagens cognitivas (necessárias),mas
que não existem descoladas das subjetividades, com desejos,
sentimentos e valores!

Com esse breve panorama, observamos uma


Corpo-máquina, moldado
para largas horas de trabalho diferença no moralismo do século XXI com o
e o prazer ilusório e fugaz das que o antecede: a criança é reprimida em sua
horas noturnas; corpo-que- espontaneidade sexual, mas se depara com
vende exaltado na publicidade
uma sociedade adulta, onde o sexo é permitido,
e o corpo-que-se-vende,
da indústria do sexo e do estimulado e está à venda como mercadoria que
entretenimento. Nada mais se consome. Tudo é sexualizado, e não importa
que corpo-mercadoria, amor- a frustação ou compulsão, pensa-se e/ou fala-se
mercadoria, desejo-mercadoria,
produzindo pessoas que,
em sexo a todo o momento. O apelo sexual está
supondo-se livres, se veem presente nas músicas da moda e suas danças
atônitas frente a esse correspondentes, na alta exposição corporal
emaranhado de informações e
proporcionada pelas roupas femininas, entre outras
(im)possibilidades.

75
Capítulo 3

expressões. O que não significa, necessariamente, felicidade sexual ou amorosa


para jovens e adultos.

A escola, que é espaço de socialização de conhecimento e preparação


intelectual das novas gerações e, contraditória e simultaneamente, de força
de trabalho para o capital, pelo seu silêncio ou pelo dispositivo da sexualidade
que impera no modus operandi da rotina escolar, também alimenta a
dominação masculina e direciona para a futura sexualidade permissiva, mas
não necessariamente ‘livre’ que nela impera. Ao proceder prioritariamente pelo
aprendizado informal da sexualidade, que muitas vezes se dá pelo silêncio em
relação ao que dizem ou fazem os/as estudantes ou reprimindo manifestações
corporais ligadas à sexualidade e afetividade, em nada contribui para a vivência
de uma sexualidade mais livre e na formação das identidades de gênero e de
orientação sexual de crianças e jovens no sentido de suas necessidades e de
respeito às suas concepções.

Seção 2
A construção do desejo nos meandros do
gênero e da orientação sexual
Para falar de sexualidade, dialogamos com a política, a filosofia, a psicanálise,
a história. Nessa trajetória elaboramos a ideia de sexualidade como construção
social (e contextualizada em cada cultura) de corpos, desejos, comportamentos
e identidades. O exercício da sexualidade remete aos sujeitos, objetos de nosso
desejo e configura-se como prática sexual. E damos muitos nomes a isso:
relações sexuais, fazer sexo, transar ou, de modo mais poético, fazer amor.

No embate entre diferentes práticas sociais e poderes constituídos em todos


os níveis, constroem-se, simultaneamente, os sentidos de normalidade e
anormalidade, que tendem na sociedade ocidental contemporânea a serem
justificados, tendo por base a ideia de sexo como natureza, herança moderna
e positivista. Nessa concepção, o desejo deve ser direcionado para aquele/a
que se considera seu ‘sexo oposto’. Tal lógica centra-se em um tripé que unifica
sexo biológico, identidade de gênero e orientação sexual: o homem (macho,
sexo biológico) deve ser masculino (identidade de gênero) e ser atraído por
mulheres, configurando-se como heterossexual; igualmente a mulher (fêmea, sexo
biológico), deve ser feminina (identidade de gênero) e ser atraída por homens,
sendo ela também heterossexual. A identidade de gênero (aqui acoplada ao
sexo biológico de maneira inquestionável) também se vincula a uma orientação
sexual hetero igualmente ‘inata’, construindo-se, desse modo, a base para a
heteronormatividade e o heterossexismo.

76
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

O termo heteronormatividade, que significa mais do que a heterossexualidade


compulsória, foi criado em 1991 por Michael Warner, sendo a norma a palavra
chave dessa ideia, para a qual todas as pessoas devem organizar suas vidas
conforme o modelo social tradicional das relações heterossexuais. Como
ilustração, podemos citar a aceitação dos rituais e formas de relacionamento e
que são vigentes dentro desse modelo tradicional, como ciúmes e monogamia, o
ritual do casamento, a adoção de filhos como realização máxima do casal, entre
outros. Podemos pensar como exemplo extremo um casal em que, mesmo sendo
dois homens ou duas mulheres no sentido biológico, um deles adota elementos
tradicionais do gênero feminino e outro do masculino.

A heteronormatividade expressa as expectativas, as demandas


e as obrigações sociais que derivam do pressuposto da
heterossexualidade como natural e, portanto, fundamento
da sociedade (...) a heteronormatividade é um conjunto de
prescrições que fundamenta processos sociais de regulação
e controle, até mesmo aqueles que não se relacionam com
pessoas do sexo oposto. Assim, ela não se refere apenas aos
sujeitos legítimos e normalizados, mas é uma denominação
contemporânea para o dispositivo histórico da sexualidade que
evidencia seu objetivo: formar todos para serem heterossexuais
ou organizarem suas vidas a partir do modelo supostamente
coerente, superior e “natural” da heterossexualidade.
(MISKOLCI, 2009, p.156-157)
“Historicamente, a prescrição da heterossexualidade como
modelo social pode ser dividida em dois períodos: um em que
vigora a heterossexualidade compulsória pura e simples e
outro em que adentramos no domínio da heteronormatividade.
Entre o terço final do século XIX e meados do século
seguinte, a homossexualidade foi inventada como patologia
e crime, e os saberes e práticas sociais normalizadores
apelavam para medidas de internação, prisão e tratamento
psiquiátrico dos homo-orientados. A partir da segunda
metade do século XX, com a despatologização (1974) e
descriminalização da homossexualidade, é visível o predomínio
da heteronormatividade, como marco de controle e normalização
da vida de gays e lésbicas, não mais para que se “tornem
heterossexuais”, mas com o objetivo de que vivam como eles.
Nesse aspecto, ganha relevância uma reflexão crítica sobre o
casamento gay”. (MIKOLSCI, 2009, p.157)

Triângulo Negro, Triângulo Rosa


Para os nazistas, o Triângulo Negro afixado nos uniformes marcava as
pessoas consideradas ‘antissociais’, entre elas as mulheres homossexuais.
Para os homens homossexuais era utilizado o Triângulo Rosa e para
homens homossexuais judeus eram os dois triângulos superpostos.

77
Capítulo 3

Dentro do pressuposto heteronormativo, todas as pessoas devem organizar suas


vidas conforme o modelo social tradicional das relações heterossexuais, ou seja,
vive-se sob normas que instituem como padrão do desejo e da afetividade os
modos de se relacionar baseados nas tradicionais relações amorosas-sexuais,
entre pessoas de sexo e de gênero antagônicos. Como consequência desse
padrão, temos o heterossexismo, que significa o preconceito ou discriminação
contra todos que não são heterossexuais, como os homossexuais, as lésbicas e
os/as trans (transgêneros, transexuais e travestis).

Como decorrência dessa ‘naturalização’ do afeto e do desejo, podemos citar


outras consequências como:

•• as crianças devem ser criadas a partir de uma escolha prévia dos


adultos sobre seu gênero e seu sexo biológico (mesmo que esteja
indefinido como ocorre com os/as considerados ‘intersexos’
-1% da população); as famílias (e o casamento) só devem ser
constituídas de homens e mulheres; apenas casais hetero podem
adotar crianças.

Homossexualidade
Antes designada como ‘homossexualismo’, em 1990 deixou de ser considerado um
distúrbio psicossocial e foi retirado da Classificação Internacional de Doenças (CID),
sendo substituído o sufixo ‘ismo’ pelo sufixo ‘dade’, que passou a significar ‘modo
de ser’. O prefixo ‘homo’ significa semelhante, igual, ou seja, aquele que deseja
relacionar-se sexual e/ou amorosamente com pessoas do mesmo sexo biológico.

Lesbianidade
Safo, poeta grega, tinha uma vida sexual livre e se relacionava com as mulheres
na ilha grega em que vivia, chamada Lesbos, de onde veio a expressão –
lésbicas, para designar a relação sexual e/ou amorosa entre mulheres. De modo
semelhante ao termo homossexual com o surgimento da sexologia, no final do
século XIX a palavra ‘lesbianismo’ significava doença mental, sendo alterada
posteriormente para ‘lesbianidade’.

Intersexos
São pessoas que podem: expressar uma clara ambiguidade genital; ter uma
genitália com aparência feminina, por exemplo, com aumento do clitóris; ter uma
genitália com aparência masculina, por exemplo, com micropênis; entre outras
possibilidades. Apesar do termo ‘intersexos’ ainda ser bem utilizado, a área

78
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

médica tem revisto essa nomenclatura, que tem sido alvo de polêmica entre
movimentos e a medicina, já que se insiste na ideia de anomalia. Para Damiani,
“Já há vários anos, abolimos o termo intersexo dos diagnósticos, preferindo a
expressão ADS, [Anomalia da Diferenciação Sexual] já que intersexo denota um
sexo intermediário ou um terceiro sexo, o que não é adequado para os pacientes.”
(DAMIANI, 2007, s.p) 

Pense na dificuldade de aceitação social de um casal formado por um


homem e uma mulher, biologicamente falando, em que ambos expressem
uma mesma identidade de gênero feminina. Você consegue imaginar essa
cena? Como seria sua reação?

Para pensar orientação sexual e gênero, partimos da premissa construcionista


de que, independente da natureza, o direcionamento social tem papel relevante
na definição da orientação sexual e que, portanto, não há uma ‘essência’
escondida em algum lugar ainda não encontrado, que ‘determine’ a sexualidade
de uma pessoa. Quaisquer que sejam as possibilidades plásticas (pré-condições
biológicas) do corpo e da construção da psique o ser humano é, de modo
inseparável – biopsicossocial.

Se fosse diferente não haveria tanta necessidade da heterossexualidade, forma


‘normal’ de expressão dominante na cultura ocidental contemporânea, reprimir
sexualidades ‘anormais’, produzindo um discurso tão onipresente para evitar
que crianças tornem-se homossexuais, bi ou trans no futuro! Na verdade,
questionamos a necessidade de definição sobre se o objeto de desejo – de
mesmo sexo ou outro sexo, de mesmo gênero ou outro gênero, nasce com
o sujeito ou é construído socialmente, porque independente da resposta,
defendemos a liberdade de orientação sexual e pensamos que essa é uma
falsa questão.

Aliás, é importante lembrar que o conceito de identidade de gênero surgiu


inicialmente na medicina psiquiátrica para designar o que os médicos
consideravam transtorno: pessoas de um sexo biológico e de um gênero
considerado oposto a ele. Depois, esse conceito passou a ser adotado pelo
movimento LGBT, em um processo de rebeldia e contestação para que tal prática
fosse considerada possível e não desvio, transtorno.

79
Capítulo 3

Sobre esse tópico, Foucault nos traz um belo exemplo com a história de
Herculine Barbin, um hermafrodita francês do século XIX, que nasceu com sexo
indeterminado (um pequeno pênis), mas foi criado/a como uma moça. Ao ser
pressionado/a por médicos e advogados a se definir e tornar-se um homem, a/o
jovem Alexina/Herculine, que antes vivia, nas palavras de Foucault, no “limbo feliz
de uma não identidade” (FOUCAULT, 1982, p.6), termina provocando sua própria
morte. A necessidade da verdade sobre o sexo biológico e de suas amarras com
a identidade de gênero, necessidade ainda de setores médicos em pleno século
XXI, aprisiona não só as pessoas intersexos (nome atual dado aos hermafroditas),
mas a todos os seres humanos, e tem sido uma luta das minorias sexuais em
todo o mundo.

Importante relembrar aqui que sexo biológico refere-se a um conjunto


de informações cromossômicas, anatômicas (órgãos genitais internos e
externos) e características fisiológicas secundárias, como os hormônios.

O direito ao corpo inclui a liberdade de diferenciação com outro corpo e não a


padronização na medida em que corpo

refere-se ao processo de apropriação subjetiva de peculiares


experiências, emoções, sentimentos, sensações de prazer e
dor, acolhimentos, rejeições ou mesmo das transformações
físicas. Isto significa que o conceito de corpo inclui, além das
potencialidades biológicas, todas as dimensões psicológicas,
sociais e culturais pelo qual as pessoas desenvolvem a
percepção da própria vivência. (BRASIL, 2009, p. 120-121)

Dessa forma, torna-se impossível universalizar o significado de corpo, porque


ele traz as marcas de sua construção de classe, de etnia, de raça, de gênero, de
idade e outras.

Nas palavras de Louro (2000, p. 11),

Nossos corpos constituem-se na referência que ancora, por


força, a identidade. E, aparentemente, o corpo é inequívoco,
evidente por si, em consequência, esperamos que o corpo
dite a identidade, sem ambiguidade nem inconstância. (...) Os
corpos são significados pela cultura e, continuamente, por ela
alterados. Talvez devêssemos nos perguntar, antes de tudo,
como determinada característica passou a ser reconhecida
(passou a ser significada) como uma marca definidora de
identidade; perguntar, também, quais os significados que, nesse
momento e nessa cultura, estão sendo atribuídos a tal marca
ou a tal aparência. Pode ocorrer, além disso, que os desejos e

80
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

necessidades que alguém experimenta estejam em discordância


com a aparência de seu corpo. (...) Os corpos não são, pois, tão
evidentes como usualmente pensamos. Nem as identidades são
uma decorrência direta das ‘evidências’ dos corpos.

Nesse significado ampliado, o corpo expressa tanto a identidade de gênero


quanto a sexualidade e orientação sexual. A identidade de gênero está pautada
na autoatribuição seletiva, a partir do que se considera feminilidades ou
masculinidades na cultura de pertencimento (ou ambas) e não determina a
orientação sexual, ou seja, não é possível haver uma relação automática e
complementar entre uma e outra.

O impedimento de uma expressão livre de gênero ou de orientação sexual


faz com que muitas pessoas vivam em contradição, não os expressando
publicamente e condicionando seus corpos aos padrões
aceitos socialmente.

Figura 3.2 - Ué, eu não sou normal?!

Fonte: Bycori (2011).

Por outro lado, a identidade de gênero relaciona-se com a orientação sexual para
aqueles/as a quem direcionamos nosso desejo, porque os significados de gênero
estão imbricados na construção da sexualidade e que é resultante de uma história
própria das vivências prévias familiares e sociais, onde tudo aparece mesclado;
vivências que constituem um modo particular de sentir e agir em relação ao outro
e do que provoca o prazer.

Em outras palavras, o que é considerado erótico e desejante para um, pode não
ser para o outro. Aqui falamos tanto dos estereótipos como de características
gerais associadas aos atributos de feminilidades ou masculinidades disponíveis
socialmente (não raro dicotômicos e antagônicos), expressos por meio da
estética, do comportamento, da linguagem, da imagem, do cheiro, dos códigos
corporais da sedução, entre outros. Podemos dizer, baseados na psicanálise
contemporânea, que na construção da psique os elementos que provocam prazer
tendem a se firmar como características próprias (de si) ou almejadas no outro;

81
Capítulo 3

nesse processo complexo ‘de quem sou e quem eu desejo’ é que se constituem
as identidades de gênero e a orientação sexual.

A orientação sexual é um processo que explicita o sexo das pessoas que


escolhemos como objetos de desejo e afeto. Costuma-se dizer que são
reconhecidos três tipos de orientação sexual: heterossexualidade, atração
sexual por pessoas de outro sexo; homossexualidade, atração sexual por
pessoas de mesmo sexo; e a bissexualidade, atração
Figura 3.3 - Símbolos Gays,
Lésbicas, Bi e Trans sexual por pessoas de ambos os sexos.

É essa complexidade de construção simbólica


humana dentro de uma diversidade cultural
elástica, que permite romper com as expressões
de sexualidade e de gênero hegemônicas a cada
época e produzir novas identidades que serão
taxadas de desviantes: homens afeminados (sexo
biológico homem e identidade de gênero feminina)
que se relacionam com homens (sexo biológico
homem e identidade de gênero masculina), e assim
Fonte: Desconhecida sucessivamente, mulheres masculinizadas com
mulheres femininas; mulheres femininas que se
relacionam entre si. As pessoas intersexuais, de sexo biológico ambíguo, que
podem expressar uma ambiguidade também dos gêneros (ou se definir por um
deles) e direcionarem seu desejo de modo instável.

As pessoas trans (transexuais, transgêneros e travestis) vivenciam de modo


amplificado a dificuldade, com as ‘caixinhas de gênero e de orientação sexual,’
e expressam experiências mais fluidas nesse processo, por isso mesmo com
maior preconceito social, construindo alternativas no cruzamento entre gênero,
orientação sexual e sexo biológico, que inclui até a ingestão de hormônios e a
remodelação de seus corpos.

Mas o que vem a ser um(a) transexual? Seria possível uma definição?

A transexualidade ainda é tratada e compreendida em muitos setores dentro


de padrões heteronormativos, podendo o sujeito trans ser submetido a uma
exaustiva avaliação com testes psicológicos e sessões de terapia que questionam
sobre a possível veracidade de sua masculinidade ou feminilidade, quando
solicita mudanças de nome ou cirurgia. Entre estudioso/as do tema, os conceitos
que descrevem as características do que vem a ser um/a transexual variam muito.
Essas diferenças de conceituação sobre o que vem a ser a transexualidade vêm
sendo construídas em um diálogo constante (não raro conflituoso) entre sujeitos
trans, acadêmicos/as, ativistas e profissionais de saúde ou da mídia.

82
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

É necessário destacar que, antes de 1950, não existiam definições específicas


para transexuais, ou diferenciação entre transexuais, transgêneros, travestis, e
homossexuais, e só a partir desse período é que se iniciou a construção de
Transgêneros e conceito de transexualidade. Inclusive a ideia de troca de
travestis estariam sexo data de 1953, momento em que o endocrinologista
mais vinculadas(os) às alemão radicado nos Estados Unidos, Harry Benjamin,
experiências relativas
apresenta a proposta de cirurgia de transgenitalização,
ao trânsito entre os
gêneros e não ao como possibilidade de terapia para o que ele considera os
sexo biológico. transexuais verdadeiros (palavras dele), argumentando que
essa poderia evitar possíveis mutilações, ou até
mesmo suicídios.

Na área da saúde, a reafirmação de uma única definição de transexualidade


tem gerado problemas para os sujeitos trans. Ao não se distinguir gênero
de orientação sexual, o binarismo continua como modelo referência nos
diagnósticos médicos e psicológicos.

Para muitos profissionais de saúde, responsáveis em elaborar o


relatório com o diagnóstico, é impensável que pessoas façam a
cirurgia de transgenitalização e se considerem lésbicas ou gays.
(...) Ler a sexualidade pela lente do gênero, supor o masculino
e o feminino como expressões da complementaridade do sexo,
ou que as transformações corporais realizadas pelas pessoas
transexuais são os ajustes necessários para se tornarem
heterossexuais, é considerar o binário como modelo único para
expressar as construções das identidades. (BENTO, 2008, p. 46).

Eventualmente, o indivíduo transexual pode ou não sentir desconforto com


seu órgão genital e querer retirá-lo, ou até remodelar um outro sexo biológico
anatômico, mas essa mudança não seria uma condição sine qua non da
transexualidade, a exemplo de um homem transexual feminino que pode,
simbolicamente, feminilizar seu órgão genital e conviver com ele sem desejar
a sua retirada. Se o desejo é construído de maneira imbricada, torna-se uma
pretensão buscar o enquadramento da sexualidade humana nos limites da
convicção ou experiência pessoal de alguns.

Importante relembrar aqui que sexo biológico refere-se a um conjunto


de informações cromossômicas, anatômicas (órgãos genitais internos e
externos) e características fisiológicas secundárias, como os hormônios.

Como afirmou Bento (2008), a convivência satisfatória com seu corpo original não
desqualificaria ou tornaria menos transexual um sujeito que se autodefine como
transexual e, tampouco, obrigaria-o a definir-se em apenas uma das orientações
sexuais, seja ela como heterossexual, homossexual, ou bissexual.

83
Capítulo 3

Como você pôde ver, as pessoas Trans desestabilizam as ‘caixinhas’


costumeiras das identidades de gênero e das orientações sexuais.

Por todas essas questões, uma das defensoras da teoria Queer, Butler
(2003), problematiza o conceito de transexualidade e gênero, e aponta para
a transitoriedade e o questionamento de identidades que pretendem ‘fixar’ e
‘delimitar’ as experiências de gênero e orientação sexual. Podemos elaborar a
partir de toda essa problematização que a cadeia sexo biológico, gênero, desejo
e práticas sexuais não podem ser unificadas, daí a necessidade de resistirmos
criativamente no cotidiano às definições simplistas de sexo e gênero.

Importante resgatar em nossa reflexão outra polêmica que perpassa o


movimento LGBT, a qual talvez você já tenha se dado conta ao ler diferentes
textos sobre o tema de nosso estudo. Falamos dos conceitos ‘opção sexual’ e
‘orientação sexual’.

Apesar de adotar aqui o termo Orientação Sexual por ser ainda o mais utilizado,
cabe lembrar que o termo inicialmente adotado para as preferências sexuais era
‘opção sexual’, e que na década de 80 passou a ser substituído para ‘orientação
sexual’ no Brasil, pelos movimentos sociais e governo. Em concordância com
outros autores, pensamos que o conceito Orientação Sexual é problemático,
na medida em que ele questiona a ideia de que a sexualidade também pode
ser ‘uma escolha’, mesmo que não haja uma escolha descontextualizada das
experiências de vida dos sujeitos, desde a infância e dos limites sociais dados.

Outras visões, particularmente ligadas à psicologia e alguns setores do movimento


LGBT, defendem origens biológicas (genéticas, cerebrais, entre outras) para as
preferências sexuais e protestam veementemente contra a ideia de construção
social da homossexualidade e das demais, concentrando-se na defesa dos direitos
sexuais, como decorrência do respeito à natureza de cada um.

Para os construcionistas, a naturalização que terminou por ser ‘colada’ ao termo


‘orientação sexual’ despolitiza a luta pela liberdade sexual, fixa identidades (pois
não considera a transição entre elas) e ao final ‘normaliza’ as formas novas de
sexualidade, que passaram a ser aceitas (como gays, por exemplo), enquanto
questiona outras já existentes ou que possam surgir. Inclusive devido a esta
preocupação, vem ganhando espaço o conceito de ‘práticas sexuais’, visando a
quebrar a fixidez das preferências sexuais: pode-se viver práticas bissexuais, por
exemplo, sem se ‘tornar’ um/a bissexual...

E você, como se posiciona neste debate?

84
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

De qualquer forma, as preferências sexuais são produzidas em um contexto


de masculinidade hegemônica heterossexual, que se constrói contra outras
masculinidades e feminilidades e produz, em diferentes espaços sociais, a
vigilância para que não se fuja da heteronormatividade. Há toda uma lógica de
violências sutis (ou não) que sinaliza o perigo do desvio e que, constatado de
fato, transforma-se em punições. Busca-se inculcar a identidade heterossexual
e sua contrapartida com a identidade de gênero ‘adequada’ ao sexo biológico.
A escola (que participa de modo contraditório dessa ação) tende a buscar a
‘normalização’ - transformar em normal, e a constituir a ‘normatização’- ao criar
regras muito claras sobre determinados padrões de sexualidade para crianças e
adolescentes escolares.

Nesse processo, a escola tem uma tarefa bastante importante


e difícil. Ela precisa se equilibrar sobre um fio muito tênue:
de um lado, incentivar a sexualidade “normal” e, de outro,
simultaneamente, contê-la. Um homem ou uma mulher “de
verdade” deverão ser, necessariamente, heterossexuais e serão
estimulados para isso. Mas a sexualidade deverá ser adiada para
mais tarde, para depois da escola, para a vida adulta. É preciso
manter a “inocência” e a “pureza” das crianças (e, se possível,
dos adolescentes), ainda que isso implique no silenciamento e
na negação da curiosidade e dos saberes infantis e juvenis sobre
as identidades, as fantasias e as práticas sexuais. (LOURO,
2000, p.28)

Além desse problema, de negação e afirmação da sexualidade infantil e juvenil,


produzindo crianças e adolescentes confusos e adultos angustiados, que Reich
tão bem demonstrou em seus estudos, a escola tende a disseminar a aceitação
apenas de uma das práticas sexuais, a do casal heterossexual. Nesse sentido,
reafirma a norma da relação amorosa e sexual baseada na reprodução biológica,
marginalizando todas as demais possibilidades como homoerotismo, reprodução
independente, experiências trans, entre outras.

Mas essa prática pode ser diferente:

Para além das valorações derivadas de convicções pessoais,


é responsabilidade da comunidade educativa respeitar e
promover o direito de cada pessoa viver, procurar sua felicidade e
manifestar-se de acordo com seu desejo. Essa responsabilidade
implica um trabalho de reflexão e aprendizado individual e
coletivo, a partir de situações e novos conhecimentos que
desafiem marcos consagrados de compreensão da sexualidade e
do gênero. (BRASIL, 2009, p.134)

85
Capítulo 3

Seção 3
Homofobia e diversidade sexual na educação
O direito à liberdade de identidade de gênero e de orientação sexual esbarra em
uma barreira cultural: a homofobia, que intensificou sua manifestação no período
pós-AIDS, circula com frequência em diferentes espaços na contemporaneidade
e faz parte do rol de discriminações cotidianamente presente em meios
profissionais, religiosos, programas de humor e, claro, ambientes escolares.

No entanto, antes mesmo de tal termo existir, Oscar Wilde, um escritor inglês
do século XIX, foi condenado a dois anos de trabalho forçado, morrendo logo
após ser solto, devido às péssimas condições de sua prisão. Foi acusado de
pederastia e sodomia por estabelecer relações afetivas e sexuais com outro
homem mais novo do que ele. Wilde, à época, compôs um poema em que
cunhou a expressão O amor que não ousa dizer seu nome e que deu origem
a filmes e outros textos poéticos.

O Amor Que Não Ousa Dizer Seu Nome


(Oscar Wilde)

O Amor, que não ousa dizer seu nome,


Bateu-lhe à porta, ao acaso, um dia.
E ele, inebriado pela cotovia
(que paira à janela, mas depois some...),
...
Sentiu crescer, súbito, na alma, u’a fome
De algo que, até então, desconhecia.
Desejo... estranheza... culpa... agonia...!
Desce aos umbrais, na angústia que o consome!
...
... Porém, depois das lágrimas enxutas,
Chamou a cotovia, deu-lhe frutas,
E sorveram, um no outro, a própria essência.
...
E ambos, nessa atração de semelhantes,
Num cingir de músculos, os amantes
Ergueram-se aos portais da transcendência.

86
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Após a atuação dos movimentos e reivindicações desde a década de 60, os


contextos têm mudado entre transformações e permanências. O que se vê,
amiúde, é a aceitação de uns e negação de outros, aceitando-se aqueles
homossexuais que se enquadram nos padrões sociais de aceitabilidade, como
afirmam Vicente e Ribeiro (2012, p.12-13):

Compreendendo que a figura do homoafetivo no seio da


sociedade brasileira, via de regra, é vista ou no extremo da
figura efeminada, afetada, debochada, não viris, ou no outro
extremo nas formas em processo de aceitação e normatização
de homoafetividade: gays ricos, bem vestidos, brancos,
televisionados, dentro de padrões heteronormativos, vivendo
relações heteronormativas – ainda que entre pessoas do mesmo
sexo, seguindo uma normatividade neoliberal dentro dos padrões
estabelecidos pelo mercado e pelo capital (...)

Por outro lado, nas ruas, segue-se a violência contra os demais, não raro com
assassinatos, o mesmo se podendo dizer de trans (masculinos ou femininos),
seguidos por assassinatos de lésbicas, como demonstra esta notícia, a partir de
dados de 2009:

(...)
Segundo o antropólogo Luiz Mott, um dos fundadores do Grupo
Gay da Bahia, [professor da Universidade Federal da Bahia],
dentre os homossexuais assassinados no ano passado [2009],
117 eram gays, 72, travestis, e nove, lésbicas.
(...)
“A cada dois dias um homossexual é assassinado no Brasil
e precisamos dar um basta nesta situação”, afirmou Marcelo
Cerqueira, presidente do GGB. (RELATÓRIO, 2009)

Essa discussão tem motivado manifestações pela criminalização da homofobia,


bandeira que é motivo de polêmica entre ativistas do movimento e juristas. Na
visão dos críticos (VICENTE; RIBEIRO, 2012), o detalhamento de leis não promove
mudanças comportamentais e pode até reproduzir vieses de classe, prejudicando
os já prejudicados, pois, segundo eles, no Brasil qualquer condenação passa,
primeiro, pela situação socioeconômica de quem produz o crime, o que vale para
qualquer crime contra a pessoa (leis que já existem), não importa quem seja a
vítima. Nesse argumento, se a vítima pertencer às classes dominantes, haverá
punição, caso contrário, não. Para os defensores da criminalização, essa medida
legal pode gerar punição aos culpados, a exemplo de outras leis, como contra o
racismo ou sexismo e ainda, quem sabe, coibir a homofobia.

87
Capítulo 3

E você, já parou para pensar nas relações entre leis e mudanças culturais?
Como se posiciona em relação a esse debate que se enquadra dentro da
área de direitos sociais e sexuais?

O termo homofobia surgiu na década de 60, pela psiquiatria, com o significado


de expressão de medo irracional e hostilidade perante homossexuais. Difundido
na década de 70, ganhou espaço quando o termo homossexual deixou de ser
considerado doença e a homofobia passou a ser uma categoria analítica social
e psicológica.

A abordagem psicológica refere-se aos sentimentos e às


percepções negativas a respeito da homossexualidade e
às consequências que ambos têm na conduta individual. A
abordagem sociológica analisa os mecanismos de reprodução
da hostilidade contra o desvio da norma heterossexual. (BRASIL,
2009, p.151)

No decorrer de seu uso, a categoria passou a incluir a homofobia social, de


instituições, e não mais estar vinculada apenas a práticas individuais. As pautas
homofóbicas direcionam-se tanto a desvios de gênero em relação ao sexo
biológico de origem quanto a manifestações de orientação sexual a pessoas do
mesmo sexo, independente da identidade de gênero de quem a expresse. Pelo
fato de a homofobia ter uma base geral assentada sobre o sexismo, Fernandes
(2009) argumenta que há autores como Borrillo (2001) que ampliam a ideia de
homofobia para bifobia, quando dirigida a bissexuais, transfobia, quando dirigida
a pessoas trans e lesbofobia, quando dirigida a lésbicas.

Assim, a gayfobia, utilizada especificamente para homens


homossexuais, se diferencia muito da lesbofobia, utilizada para
mulheres lésbicas, já que estas ainda espelham a homofobia e o
heterossexismo. Isso ocorre porque a mulher é vista como objeto
de desejo do homem, contrapondo não apenas os estereótipos,
mas também as funções de gênero, e, quando rompe com esse
pressuposto, instaura um problema de ordem organizacional na
sociedade. (FERNANDES, 2009, p.217)

No caso dessa última, a violência inclui sexismo e homofobia, por serem


mulheres que a recebem. A homofobia está em ligação direta com a construção
da masculinidade hegemônica, para construir-se necessita diferenciar-se de
mulheres e crianças por meio da virilidade e que rechaça os homossexuais
devido à sua semelhança com as mulheres. Nesse sentido, tanto a masculinidade
hegemônica quanto a heterossexualidade masculina, associadas a ela,
sustentam-se nessa dupla negação. Por isso, o horror às mulheres (misoginia e
sexismo) combina-se, frequentemente, a práticas homofóbicas.

88
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

Homofobia e sexismo:
(...) Esse processo de naturalização da homofobia foi sendo construído
historicamente, primeiro evidenciando como o cristianismo, herdeiro da
tradição judaica, delega à heterossexualidade o único comportamento
natural conforme a lei divina, inaugurando assim uma homofobia até
então desconhecida nas populações. A heterossexualidade enquanto
normalidade para Deus e o casamento monogâmico como responsável
pela procriação, expressos na bíblia judaico-cristã, apresentam resquícios
ainda hoje levados a cabo nos discursos político-administrativos. Para
legitimar isso, a monogamia e os “papéis de gênero” são extremamente
marcados, já que cada indivíduo (o homem e a mulher) possui um papel
importante na “formulação da vida”. (...) (FERNANDES, 2009, p.215)

As pessoas trans, por vivenciarem mudanças na expressão de masculinidades


ou feminilidades que dificilmente podem ser escondidas, pois tratam dos
modos de expressão pública, são expostas de modo mais direto à violência
heterossexual, a transfobia. Além do abandono da família, o abandono da escola
é outra faceta da discriminação : “segundo pesquisas do CLAM nas paradas
LGBT brasileiras, 34,4% das pessoas trans entrevistadas sofreram discriminação
e abuso perpetrados na escola por colegas ou professores/as.” (BRASIL, 2009,
p.153). Essa situação, aliada a outros fatores sociais, leva muitas pessoas trans
à prostituição.

Voce já presenciou algum tipo de ação homofóbica no ambiente


escolar? Que tipo de atitude você manifestou? O que ocorreu após o ato
discriminatório com a pessoa que agrediu?

A homofobia não atinge apenas aqueles/as que assumem outras identidades


de gênero ou orientação sexual. Ela é a própria expressão da sociedade
disciplinadora, porque, ao definir fronteiras,

•• define quais contatos físicos , com quem e como devem


ser realizados ;
•• vigia a linguagem corporal e verbal de cada um/a;
•• enquadra esteticamente padronizando a noção de ‘belo’;
•• determina, inclusive, modos de sensibilidade em todas as relações
sociais, de amizade, conjugais, entre pais/mães e filhos/as;
•• por fim, reduz todos os elementos diferenciadores da vida
humana em dicotomias de masculino e feminino e da
heterossexualidade compulsória.

89
Capítulo 3

E, em todos esses elementos, constitui-se como uma hierarquia, na qual o


masculino é sempre dominante, configurando o que já afirmamos anteriormente
como sexismo.

Na Alemanha, em 2013, pais e mães conseguiram o direito de não


especificar o sexo do bebê no momento do nascimento. Essa é uma das
formas de se romper com padrões de gênero e sexo e respeitar os direitos
civis das crianças. (Alemanha, 2014) Veja matéria no Tópico 3 no EVA.

Pesquisas sobre a escola no início dos anos 2000 (em números que ainda
permanecem altos) revelam intensa homofobia entre alunos e professores.

A pesquisa “Perfil dos Professores Brasileiros”, realizada pela


UNESCO, entre abril e maio de 2002, em todas as unidades
da federação brasileira, na qual foram entrevistados 5 mil
professores da rede pública e privada, revelou, entre outras
coisas, que para 59,7% deles é inadmissível que uma pessoa
tenha relações homossexuais e que 21,2% deles tampouco
gostariam de ter vizinhos homossexuais. (JUNQUEIRA, 2009b, p.
17)

E mais, em índices de outra pesquisa da UNESCO, também em todo o Brasil,


foram encontradas variações de 30% a 47% professores que argumentam não
saber como abordar temas relativos à homossexualidade, e igual número de
estudantes que não gostariam de ter colegas de classe homossexuais.

Para a masculinidade hegemônica, tudo que foge à heterossexualidade


deve ficar no âmbito do privado, retirando o direito à expressão pública
do amor e do desejo que só será permitido aos que se enquadram nas
normas.

No processo histórico de discussão da homofobia é que surge a categoria política


da Diversidade Sexual situada no âmbito dos

direitos humanos, apelando para a necessidade de se


reconhecerem como legítimas as múltiplas e dinâmicas
formas de expressão das identidades, dos corpos e das
práticas sexuais. Exige a promoção de politicas e pedagogias
atentas à complexidade, produtoras de posturas flexíveis

90
Sexualidade e Orientação Sexual: Cultura e Transformação Social

voltadas par garantir a igualdade de direitos, as oportunidades


e a interlocução. (...) Pede atenção contínua em relação
às convergências entre representações e mecanismos
heteronormativos, sexistas, heterossexistas, misóginos,
homofóbicos e racistas. (JUNQUEIRA, 2009, p.425)

Assim sendo, educar para a diversidade significa estar atentos/as para a busca
de transformação e emancipação em todas as dimensões da vida humana.

91
Considerações Finais

“Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas conscientes


e engajadas possa mudar o mundo; de fato, sempre foi somente
assim que o mundo mudou.” Margaret Mead

Como você sabe, as políticas educacionais têm buscado chamar a atenção de


educadores e educadoras para a inclusão de temáticas que levem em conta o
sujeito integral e não apenas o aspecto cognitivo. A UNISUL, em consonância
com esse momento político e pedagógico, incluiu no currículo de Pedagogia
a certificação Educação, Relações de Gênero e Sexualidade. A unidade de
aprendizagem que aqui apresentamos está inserida nessa certificação, que
contemplará, em outro livro, as demais temáticas ligadas a gênero, educação e
profissão docente.

Os estudos sobre a sexualidade, gênero e diversidade sexual são muito mais


amplos do que trouxemos aqui, mas pensamos ter permitido a você uma visão
panorâmica sobre aspectos que consideramos cruciais para lhe instrumentalizar
com os recursos básicos que lhe permitam um novo olhar sobre o tema.
Esperamos que, a partir desses primeiros passos, você já consiga saber o que
e como procurar quando necessitar aprofundar seus conhecimentos sobre
sexualidade e gênero.

Sobre sua prática docente, cabe a você definir o tipo de atuação que pretende
realizar enquanto educador/a, que pode ser desde o simples cuidado para
evitar atitudes discriminatórias para com estudantes e colegas (e deles entre si),
como exercitar a escuta compreensiva, ou até mesmo ousar e propor projetos
de educação sexual nos espaços onde já atua ou vai atuar. O que importa é
estar sintonizado/a com as mudanças necessárias e respeitar a diversidade de
identidades de gênero e de orientação sexual.

Professora Tânia Mara Cruz

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Sobre o Professor Conteudista

Tânia Mara Cruz


Possui graduação e licenciatura em História, pela Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (PUC/SP) (1983), especialização em Psicodrama Aplicado, pelo
Instituto Sedes Sapientiae/SP (1991), mestrado em História, pela Universidade
Estadual de Campinas (UNICAMP) (1996) e doutorado em EDUCAÇÃO, pela
Universidade de São Paulo (USP) (2004).

Atualmente, é professora do Programa de Pós-Graduação - Mestrado em


Educação da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), dentro da linha
Relações Culturais e Históricas na Educação, com ênfase em temáticas ligadas a
relações de gênero e raciais-étnicas.

Integra o Grupo de Pesquisa Educação, Cultura e Sociedade - Educs - UNISUL


(Diretório de Pesquisa do CNPQ), do qual é vice-líder, e o Grupo Políticas e gestão
da Educação Unisul (Diretório de Pesquisa do CNPQ). Participa de projetos de
formação presencial e a distância para professores da educação básica sobre
Gênero e Sexualidade. Tem experiência docente e de formação de professores
em Educação, Básica e Superior, Presencial e a Distância. Faz formação em
gênero e feminismo junto aos movimentos sociais.

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