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Marcos Antônio Martins Lima

O CAMINHO DE IDA E VOLTA NO MÉTODO
MARXIANO: UMA TRAJETÓRIA HISTÓRICA
DO MÉTODO ATÉ A SUA FORMULAÇÃO
Prof. Marcos Antônio Martins Lima
Universidade Federal do Ceará
E-mail: marcos.a.lima@terra.com.br

RESUMO ABSTRACT
Existe uma linha de continuidade na trajetória do método
desde a filosofia pré-socrática do séc. VII-V a.C. até o séc.
XIX. Na Grécia tinha-se uma grande articulação entre There exists a continuous line in the elaboration of method from pre-
metodologia e cosmologia. Na Idade Média, passa-se por socratic philosophy from the seventh to the fifth century before Christ
uma clara superioridade da fé e da teologia sobre a razão e up to the nineteenth century. In Greece one found a profound study
a ciência. Essa forma de pensamento é superada no perío- between methodology and cosmology. In the Middle Ages faith and
do moderno quando se dá a cisão entre a religião e a ciên- theology gained a clear superiority over reason and science. This form
cia. Surgem duas explicações historicamente viáveis, ou of thinking was overcome in the modern period when science and
seja, o racionalismo e o empirismo, mas também trazem religion went their respective ways. Two historical explainations seem
consigo alguns problemas. As respostas de Kant e de viable to explain that situation: rationalism and empiricism, although
Hegel para esta crise na filosofia e na metodologia não they also brought with them several of their own problems. Kant´s
foram capazes de atender a todas as indagações. A solução and Hegel´s answers to this crisis in philosophy and methodology were
marxiana considera que o método não é critério de verda- not capable of answering all the questioning. The marxist solution
de, pois não existe uma essência imutável. A produção do considers method not to be a criteria for truth, as there does not exist
conhecimento científico em Marx segue um percurso de an immutable essence. The production of scientific knowledge in
dois caminhos de ida e de volta. Marx follows a two way trend of to and from.

PALAVRAS-CHAVE: Filosofia, História, Método Marxiano, KEYWORDS: Philosophy, History, Marx´s Method, the Greek
Método Grego, Método Escolástico e Método Moderno. Method, the Scholastic Method and the Modern Method.

53 Revista Contemporânea de Economia e Gestão. Vol.4 - Nº 1 - jan/jun/2006 (53-66).

primitivo.C. Finalmente a chegada ao método marxiano. a relação homem e natureza ganhe uma nova configuração. fundadas no sagrado e constituídas pela vontade divina do não é certeza absoluta. Vol.4 . 36) a evolução dos povos coletores para as civilizações agrí- enquanto solução inovadora para a questão do método e colas transformou os rituais mágicos nas grandes religiões embora Karl Marx (1818-1883) não considere o método organizadas e o conhecimento proveniente do desenvolvimen- como um critério da verdade. Sob a (REZENDE. Es- sas lacunas foram ampliadas devido a trajetória aqui seguida O presente artigo aborda a questão do método na fi. da forma mais eficiente possível. de “meta”: por. mesmo com um patamar inferior de desenvolvimento pri- do o método escolástico predominante na Idade Média (séc. p. regras. Uma questão porar. Inicialmente o tratamento do método na qual não se faz a história de forma alguma. mens e a natureza. sob os enfoques de filósofos pré-socráticos Mesmo em um momento pré-filosófico. incor. Na verdade. O baixo nível de desenvolvimento das forças produti- O método. presente estudo do método. histórica. leis e costumes sociais são considerados tão inexoráveis quan- nhece?” ou “como provar metodologicamente o que se des. tem delinear um maior horizonte no seu longo processo his- nho. É o conjunto de procedimentos racionais.). 18). 3). caráter teleológico. quem faz a história (LESSA. O desenvolvimento das forças produtivas. mesmo em uma viagem explicar a vida dos homens. . e “hodos”: cami. visão crítica e. Portanto serão visitadas. 1996. CASTÃNO.). parte da conside- preparação para esta viagem até o método de Marx. se considerado existente. Grécia Clássica. Na verdade as leis sociais e naturais são conhece?”.). portanto. faz com que. através de.C. fundamen- Este artigo apesar de ser uma tentativa de traçar uma tadas no trabalho. história e os homens apenas sofriam na terra. haja vis. Em seguida. Para fins do senvolvimento das forças produtivas e suas diversas confi. Tem. to as leis naturais. É o caminho 2. deuses como sendo a definidora absoluta dos seus destinos. Platão (426-348 havia espaço para uma espécie de método que se faz presen- a. p. MARCONDES. 2001a). mas é uma pressuposição. 1989. mitivo das forças produtivas. por- tanto. INTRODUÇÃO mens é também lacunoso no tratamento desta questão. sem a história filosófica. O MÉTODO GREGO ordenado e sistemático para se chegar a um fim. Há um método primitivo que ante- ainda não conhece (BORGIANNI. p. intermediada pela religião. ração de que a conquista da verdade se dá da maneira que os mas outras abordagens do método. p. convivendo com o predomínio V a XV) e o método no período moderno da história da do mítico e da religião.C. Pode-se colocar que se existe um método neste perío- rialismo histórico-dialético e do horizonte marxiano será do histórico pré-filosófico ele é aplicado de uma maneira traçada uma caminhada para o método desde as eras mais passiva e considerando-se a relação adotada entre os ho- primitivas da humanidade até o período moderno e a chega. que visam atingir um objetivo determinado (JAPIASSÚ. Segundo Magalhães Filho (1982. o que a humanidade pode ser colocada aqui. haja vista permitir a busca bremaneira. ao chegar na Grécia Antiga. textos históricos e filosóficos que o envolvem. parece que já (séc. para que os homens considerassem a magia dos do conhecimento do desconhecido. em apenas algumas das suas eras históricas. é parte vas na sociedade pré-filosófica e primitiva contribuiu.) e Aristóteles (384-322 a. da à formulação do método em Marx. enquanto partes da sua deuses assim desejam e sob a sua plena concordância. VII-V a. O método tem o pro. local e totalizante do mate. A emergência da filosofia se dá quando as explicações Somente em uma abordagem histórica do método é sobre o mundo natural são dadas de forma diferente ao modo possível melhor problematizá-lo e compreendê-lo. 131). cede ao método grego pré-socrático? Essa questão faz con- Essa complexidade se torna mais evidente quando se siderar como palco a sociedade pré-Grécia Clássica onde as indaga “como é possível conhecer o objeto que se desco. 2000.O Caminho de Ida e Volta no Método Marxiano: Uma Trajetória Histórica do Método Até a Sua Formulação 1.Nº 1 . obedecer a um roteiro pré-determinado que não permite losofia sob um prisma histórico-dialético. numa visão marxista. te. quando a humanidade descobre que o ta a questão do método não ser uma das discussões mais pensamento religioso e mítico não é mais suficiente para simples em filosofia. trajetória para o método na história da filosofia e dos ho. cia eterna e imutável. que o méto. Parece aos homens que é a natureza. controlada pelos deuses. será percorri. com este viático ou com esta Esse “método”. algu. Sócrates (470-399 a. to das forças produtivas na agricultura primitiva. pósito de subsidiar o processo de incorporação do que a A relação dos homens com a sua própria história era humanidade não conhece a o que a humanidade já conhece. so- fundamental do saber filosófico. 54 Revista Contemporânea de Economia e Gestão. pois não há verdade ou essên. ao mesmo tempo. baseados em tórico de caminhada. trata-se de uma empreitada das mais complexas. humanidade. ou seja.jan/jun/2006 (53-66). Constata-se. sendo que os deuses faziam a Essa função social específica do método é.C. apesar de carregar essa complexidade. este itinerário foi delimitado gurações em algumas das várias eras da história dos homens. no que tange a todas as paradas e visitas necessárias a todos os vários con- sua trajetória até a concepção marxiana e sob o foco do de. porém conside- Etimologicamente a palavra método vem do grego radas pelo autor como momentos fundamentais que permi- “methodos”.

portan. tamente a sua história. assim dizer. Embora esse fato e os dias”) buscavam aproximar os deuses dos homens. Essa passagem. porém.C.). o significa precisamente que já havia. A grande questão que dá a este se transforma a cada instante neste mundo em eterna mu. não é 2. origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito. Éfeso (540-470 a. Em do mito ao império da lógica filosófica: mas essa passagem Parmênides. uma sociedade igua. o pensamento e o método em Parmênides e ciedade grega. é a contemplação do ser (REZENDE. suas preocupações básicas são com a origem e o destino do to a filosofia surge como uma ação pragmática visando fa. ao mesmo tempo permite considerar O método pré-socrático está envolto em um período que se os deuses fazem a história dos homens. universo. além meiros pensadores gregos do período pré-socrático (séc. Os filósofos pré-socráticos são assim denomi- A Grécia daquela época vivia vários problemas políti. Esta pergunta torna-se o grande desafio da filoso. REZENDE.4 . vista que a mitologia passa a ser registrada e oferece oportu- dutivas favoreça ao homem daquele período fazer comple. do mito e que. moral mo místico-religiosas. ética. sedimente-se as obras de Homero (“Ilíada” e “Odisséia”) e nização social e política. mas por apresenta- da em cidades-estados cuja unificação política demonstrou. 55 Revista Contemporânea de Economia e Gestão. 1989). das as coisas. Eléia (530-460 a. O problema metodológico. O método pré-socrático interesse aqui adentrar nestas escolas e nem explorar todos os pensadores gregos de Tales de Mileto (624-548 a. A sociedade grega era dividi. embora seus assegurar a expansão deste império e ainda permitir o pensamentos ainda integrem concepções metafísicas e mes- surgimento de uma organização social. São. na Grécia. filosofia para resolver estes problemas enfrentados. O método pré-socrático surge e floresce fora da Grécia litária e justa. haja vista VII-V a.) a Se o pensamento dos homens precisa dar algo práti. decorrer de decisões. na realidade filosófica ainda em Parmênides. uma ontologia. con. rem algumas características filosóficas específicas: escrevem se historicamente inviável. eleática e atomística (JAPIASSU: MARCONDES. nas prósperas colônias gregas da Ásia fragmentação das cidades-estado..C.Marcos Antônio Martins Lima Em comparação ao período primitivo. e ética que produza. O que é possível está incluído o poder do lendário”. No pensamento parmenidiano o ser é. nados não apenas porque vivem e desenvolvem seu pensa- cos e sociais que também permeavam as esferas da organi. No presente roteiro de viagem pelo método. mas origina um espaço onde a mi.) o pensamento Parmênides. mudança com ruptura. política. por zer o império grego sobreviver no mundo Mediterrâneo. mento antes de Sócrates (470-399 a. aprox. este intento deste período preocuparam-se quase exclusivamente com leva a uma indagação: “como criar um critério válido se tudo os problemas cosmológicos. Momentos antes que o pensamento filosófico grego sa a ter um poder maior sobre a natureza. alguns pré- zação militar. e que supere a propriamente dita. observadores curiosos da natureza. Essa nascente especulação dos também fazem uma parte da sua própria história. uma verdade eterna para os gregos favorecido na sua obra crítica e especulativa pelas liberda- que se obtida permitirá o alcance da solução para os proble. então uma esfera nesta ambiência que está sob o domínio julgando-se encontrar aí também o princípio unitário de to- dos homens e que os permite participar da história. de outro lado. o não ser não tologia e a filosofia passa a operar simultaneamente. na sua fia e do método grego de Parmênides a Aristóteles. escrevem de forma profética. enquanto estudo do ser. os homens naturalista e cosmológico. “(.). 21). Existe. enquan- por volta do século V antes de nossa era. Neste cenário histórico emerge a por aforismos ou máximas. vai buscar este objetivo Zenão de Eléia e em Heráclito. de Hesíodo (os poemas épicos “Teogonia” e “Os trabalhos negociações e ações feitas pelos homens. os filó- contraponto filosófico entre o pensamento de Heráclito de sofos pré-socráticos classificam-se em quatro escolas: jônica. através da filosofia. embora de regime escravista.. des democráticas e pelo bem-estar econômico. o método é o método da impossibilidade. a filosofia grega parte de um primeiro modo de problematizar e solucionar estas questões. haja não permita afirmar que o desenvolvimento das forças pro. no aspecto metodológico. p. Os pri. é.C. portanto. de um lado. é inviável de ser colocado. moral. que representaram o primei- necessário para a sustentação do império grego. 490-485 a. nidade de ser mais estudada e mesmo criticada. ro embate filosófico ocidental entre razão e sentidos. mesmo que de for- co e produtivo que a religião não consegue oferecer.) e Zenão de Eléia (n. além das transformações das substâncias. Sócrates. Vol. Os filósofos mas citados. Menor. de forma eficiente.1. Percebe-se uma primeira lógica do ser no pensamento de forme afirma Châtelet (1973.) e os pensamentos de Parmênides de itálica. 1996. Abre-se filósofos é instintivamente voltada para o mundo exterior. dos sistemas filosóficos de Platão e Aristóteles. haja vista a orga. porém é importante descrever.C.) iniciam uma busca de superação da mitologia sua relação histórica e influência filosófica com o caráter do pela filosofia.C. Porém. . Ao mes. Pelo mo tempo.Nº 1 . uma lógica acesso a verdade é impossível. do Egeu (Jônia) e da Itália meridional e da Sicília. mundo exterior nos elementos que o constituem. militar. período um caráter de unidade é que buscam estudar o dança?”.jan/jun/2006 (53-66). socráticos foram seus contemporâneos. ma resumida. o homem grego pas.C. a so. parece não ser uma método no momento medieval e moderno. passa do reinado to qualquer afirmação acerca do que as coisas são. etc. 1989).

das opiniões e 56 Revista Contemporânea de Economia e Gestão. Essa impermanência do ser no método de Heráclito Para Sócrates a sabedoria nascia de dentro para fora. Zenão. pois confrontou teses opostas e refutou as teses de imutável. haja vista que “os senti. Logo. e assim ao infinito clareza os dois caminhos principais que a filosofia posterior (REZENDE. “paradoxos ou aporias de Zenão” onde procura demonstrar mo. homogêneo. partindo dos princípios admitidos como verda- gumas descrições cosmológicas: o ser é esférico. embora lentamente. deste mesmo discí- pulo de Pitágoras de Samos (580-497 a. que considerar que o ser não pode provir do não-ser. para conhe. Além das descrições lógicas do ser dialética. dialética. destes argumentos é o de Aquiles e a tartaruga. A coerência do pensamento se rápido e um lento (tradicionalmente. O método socrático derar o universo móvel e a inexistência de um ser que não se transforma. 29). dá conta que o método. o método de Heráclito considera descobrir a verdade das coisas. pois após suas reflexões. logo vai prender o mé. para ele. sal- cimento dos princípios do universo e os caminhos da inves. 1989. equivale a buscar “o que é”. ao consi. eterno. 1989. deiros pela própria pessoa (MÁTTAR NETO. A maiêutica é o método movimento. Tudo que existe sempre exis. é considerado mem ultrapasse o elemento sensível imediato já que. Ele é o mestre da escola Eleática.C. p. Um de seus te pela razão. p. “a característica de Zenão é a ser parmenidiano lógico e cosmológico. Há uma oposição entre razão (“alétheia”) e per. eterno. tartaruga não pára de se mover). 2. Wilhelm Heráclito partilhava com Parmênides da idéia do uni. Neste mundo tudo flui (“panta rei”) e só o que se utiliza de um processo de questionamento e diálogo que permanece estável e inalterável é a lei (”logos”) que filosófico que expõe o pensador aos seus interlocutores. a é o primeiro pensador que levanta conscientemente o pro. O método socrático está basea- bora também reconheça a exigência da razão. limitado. do o problema para os gregos. quando ele atinge o ponto de onde ela partiu primeira vez. Vol. Contrário ao Sócrates acreditava na capacidade dos homens em método parmenidiano. 1989. p. ele apresenta também al. ela já está em B (pois. imóvel e indivisível. p. uma das figuras de maior importância na filosofia grega.Nº 1 . aprox. principais discípulos. taruga). pois o não ser não é (REZENDE. nhecimento e permite superar a ignorância pela razão. Em. logo a mudança seria apenas ilusão provocada pelos a incoerência do pluralismo e da noção de movimento. pela possível a Aquiles alcançar a tartaruga. p. 26). vai defender as teses imutável. Aristóteles considera Parmênides como o fundador da lógica. Para Heráclito O pensamento de Sócrates está registrado nos “Diá- o desvendamento do movimento do cosmos exige que o ho.2. Aquiles e uma tar- fundaria sobre a concepção de uma realidade imutável”. considerado de forma consciente. Segundo Mattar Neto (1997. Fundador e figura máxima do eleatismo ou escola A problemática criada por Parmênides gerou um im- eleática. as impressões dos sentidos são confiáveis. 1997. . diz o argumento. porque. gem a caminho do método. che- Esse embate filosófico entre Parmênides e Heráclito. ao contrário de Portanto merece também ser visitado neste roteiro de via- Parmênides. Assim este Para Hegel (1978. mesmo que sua solução não tenha resolvi- não é em seus poemas. reafirmaram o dera “o que não é” como impossível.). pois o ser só existe em movimento.4 . rege a inevitável transformação de tudo. o movimento e o mundo sensível teve tigação. nem todo a noção do ser e descobrir as exigências lógicas dessa se aniilar no não-ser. “Parmênides (seja A). 13). a “natureza ama esconder-se”. 198). que é descri- cepção ou opinião (“dóxa”). além de ontológico. conforme Jaeger (1989). Em seu racionalismo e por que a verdade está no “devir” e não no ser.O Caminho de Ida e Volta no Método Marxiano: Uma Trajetória Histórica do Método Até a Sua Formulação Ontologicamente. logos de Platão” e apesar de nada ter escrito. discussão e reflexão. portanto. 13). Um sentidos. já que nada meio de questionamentos. conquanto nada imobilismo do ser e permitiram os primeiros exercícios de corresponde a “não ser”. to por Rezende (1989). há de seguir: a percepção e o pensamento”. seria posteriormente pensada por Platão. pensamento torna-se o movimento do conceito em si mes- dos não são instrumentos adequados para o conhecimento mo. o método é. Em Sócrates existe levou as conclusões do primeiro sobre a unidade do ser a a verdade por trás das aparências e seu alcance se dá somen- alvo de escândalos entre os gregos da época.jan/jun/2006 (53-66). parmenidianas com uma série de argumentos chamados tiu e nada pode transformar-se em algo diferente de si mes. Aristóteles. gando ao fundamento último das coisas. indivisível e uno. o método socrático busca o co- permanece o mesmo. uma pessoa. É dada uma vantagem inicial à tartaruga. Parmênides ao considerar que o ser é e o não ser pacto grandioso. Friedrich Hegel (1770-1831) e Marx. pois “constrói seu pensamento sob os princípios da Situação imaginada: uma competição entre um corredor identidade e da contradição. noção. o ser parmenidiano é uno. e quando Aquiles atin- blema do método científico e o primeiro que distingue com ge B a tartaruga já está em C. nela seu puro não é corroborado pelos sentidos. var a multiplicidade. do em aprender e não em ensinar como faziam os sofistas. A segunda parte da afirmativa parmenidiana consi. a pura alma da ciência – é o iniciador da dialética” que verdadeiro” (REZENDE. através considera o mundo como um fluxo incessante de puro de diálogos. p. verso como sendo eterno e distinguia-se. 28). porém sem interstícios de “não ser”. O homem pode sair. Quanto às contribuições de Zenão. É im- Neste aspecto.

1989. 46). a sua história (LESSA. Uma destas influências será a fi- uma identidade entre indivíduos e sociedade. O objeto da ciência em Sócrates não é o sensível. Platão procura reformular e conciliar duas gran. p. O ponto de partida não seria mais a natureza. já teria contem- 2. fundado e comprovado. procede-se então à divisão dialética.Nº 1 . a maiêutica é o método filosó- tureza. 20). reconhecimento. Assim ponto de vista cosmológico e ontológico. o método segue algumas não tem o caráter demonstrativo da indução moderna en. O método platônico. que busca a espécie e o gênero próprio do objeto procura- monta do indivíduo à noção universal. pulo deste e nutri-se das idéias do platonismo parmenídico des tendências filosóficas: o imobilismo eleático (de (MORENTE. tica na Grécia. hipótese de que o homem possui algo também incorpóreo e indestrutível – a alma que. Mas diferentemente de Sócrates. a toda a realidade. 1997.4. “Assim como em Sócrates. do espanto original propriamente tualmente. mas é o inteligível. No porém de forma mais efetiva e inspirada na matemática. diferente da filosofia sofista. Este mundo das idéias tem o ceito que se exprime pela definição. conceptual. é discí- particular. o vai indicar que conhecendo o mundo dos homens se des- particular. Desta for- ma. indução de Sócrates é um meio de generalização. Este conceito ou idéia propósito de criar critérios fixos e imutáveis de igualdade geral obtém-se por um processo por ele chamado indução e e justiça necessárias a uma nova organização social e polí- consiste em comparar vários indivíduos da mesma espécie. o indivíduo que passa.3. que limitava a pes- tência e na relação entre os dois mundos platônicos. so- uma relação direta entre a expansão das cidades-estados e o bremaneira. pela primeira vez na filosofia grega des- fim prático. “Em Aristóteles. mundo dos homens tudo é transformação. afirma que a duplicidade de mundos é in- ma da vida. havia sições filosóficas opostas. Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico. a na. chegamos agora à definição mais perfeita do objeto” socráticas entre o uno e o múltiplo. que vai do fenômeno à lei. mas a mo que provisória. mormente pela concepção social e política que despertou interesses por parte de seus de filosofia como pensar aberto a todas as possibilidades. momento histórico importante caracterizado por uma crise O pensamento de Platão. ou seja. porém sob uma nova (MÁTTAR NETO. inclusive po- crescimento da riqueza dos comerciantes atenienses. concorrentes ao mundo mediterrâneo. etapas definidas: das imagens atinge-se uma definição mes- quanto processo lógico. Este fim prático realiza-se. do. permanente. Com essa ex. O método platônico plado as essências antes de se prender ao corpo.3. 2001a). principalmente. Este sistema é amplamente questionado Igualmente a Sócrates. remi- No período de Platão a sociedade ateniense vivia um niscência e retorno. p. a essência da coisa. ao campo antropológico e mo- ral. cação do termo platônico à expressão “amor platônico”. O gregos do período aristotélico: o mais (imóvel e eterno) pro- 57 Revista Contemporânea de Economia e Gestão. linhas posteriores de pensamento.jan/jun/2006 (53-66). é um eterno Neste contexto Platão resgata o método parmenidiano movimento. em Platão a filosofia tem um por Aristóteles que. o conhecimento é. Em Platão. O sis- pansão o comércio atinge horizontes fora de Atenas e da tema platônico sustentado por dois mundos – o mundo das Grécia e a riqueza dos atenienses vincula-se à lógica deste idéias e o mundo dos homens oferecem uma metodologia comércio e não mais aos interesses das cidades-estados. O “pathos”. Percebe-se que a indução socrática fico por excelência. que re. p. o con. moral.Marcos Antônio Martins Lima chegar ao conhecimento (“episteme”) e à ciência. Com Sócrates e Platão. ou seja. 97). que é um mundo das idéias que é um mundo eterno e que gera tudo conhecimento sólido.4 . ser e não ser são unificadas e articuladas do (de Heráclito de Éfeso)” (REZENDE. através da especulação. por sua vez. O método aristotélico O pensamento de Platão procura ser uma síntese do embate pré-socrático entre Parmênides e Heráclito. O alcance o que acontece e o mundo dos homens que é um mundo deste conhecimento faz atingir o conhecimento universal e em transformação. losofia cristã que predominará no método medieval. diferente da apli- leva à felicidade dos homens. cobre o mundo das idéias. quisa filosófica. mundo das idéias. O mundo é uma como Sócrates. configuração. as qualidades mutáveis causas intemporais que justificam porque cada coisa é. intelec- sustentável. estável. do conhecimento da ci- filosófico de Aristóteles está focado. é a grande ciência que resolve o proble- de Parmênides. esfera que é a forma mais harmônica para os gregos. Naquela época havia que examina e confronta todas as hipóteses influencia. Vol. na verdade. 1980. e finalmente atinge-se a ciência (ou ‘epistéme’). No platonismo o homem. 2. na exis- ência. no entanto. Platão combate o relativismo dos sofistas. e reter-lhes o elemento comum. retoma-se as formulações pré. mas o eterno é mais que o movimento para os através da formulação da existência de dois mundos. apesar das objeções contra Platão. Em Aristóteles as idéias de eter- Parmênides de Eléia) e a filosofia do mobilismo universal no e imutável. Platão procura explicar o ser por meio de eliminar-lhes as diferenças individuais. Prova que define a busca da verdade também de duas formas: pelo material desta lógica é o apoio dos comerciantes atenienses raciocínio do mundo dos homens e pela contemplação do aos persas invasores. enquanto ser concreto tem mas os homens que passam a ter consciência de que fazem o conhecimento como uma possibilidade que depende da 2. .

rém atrelada a uma ontologia que busca conhecer como as coisas são através do entendimento desta hierarquia. mação não é obrigatória. Em Platão e Sócrates tam. cia do próprio mundo. chega-se ao fi- Com estas formulações surge também uma indagação nal do período grego e apenas passa-se ao lado do período em Aristóteles: como sair de algo imóvel e chegar a algo que romano.Nº 1 . Na filosofia templação das idéias que existem imutavelmente e eterna. Este espaço de dominação é ocupado pelo império romano de de transformar o imóvel no móvel. a dor e o sofrimento. uma teologia de forma sistematizada. mas o contrário não é possível. Neste momento histórico surge. do pensamento grego. 2001a). umas de Aquino (1225-1274) durante a Idade Média. . na estrutura ontológica universal de Aristóteles. A 3. mática em Platão quando se tenta integrar os mundos das tidos. Diferentemente de Parmênides. A potência é a potência de do. Assim a sabe- mente. “lugar natural” nesta estrutura. pela pri- profundamente aceita e desenvolvida na filosofia cristã da meira vez.1. idéias e dos homens através do racionalismo. a idéia o pri. a um apocalipse e no seu intermédio encontram-se a de- O lugar natural da semente na ordem das coisas é ser a potên. Por exemplo. sociais e políticas que con- pelos escravos (instrumentos que falam) e pelos homens (que tribuíram para a destruição do modo de produção escravista se distribuem desde os bárbaros até os atenienses). por Santo Agostinho ou Auré- ser. porém. Durante o período romano também há uma “recessão vimento no universo.4 . não foi capaz de produzir uma filosofia à altura meiro motor imóvel (MORENTE. Hegel e Marx. te. Este sistema é para se realizar uma investigação. Vol. A sistematização deste processo histórico é feita por No pensamento grego a questão do método é mais Santo Agostinho em dois mundos ou “cidades”: a “cidade sistematizada por Aristóteles. pois bém existem perguntas metodológicas. rece uma situação que coloca aos homens a tendência ao 58 Revista Contemporânea de Economia e Gestão. O dade dos homens” há o mundo fenomênico ou do movi- caminho do método é racional e depende dos sentidos. fundamen- coisas se transformam em outras coisas. cia e que associa a decadência do império com a decadên- te”. pois busca os procedimentos de Deus” e a “cidade dos homens”. Numa visão marxista. vão favorecer a emergência de uma nova concepção filo- A essência da lógica aristotélica é o princípio da não sófica que considera necessária esta situação de decadên- contradição: “o que é igual é igual. Essa te. Se em Platão o pensamento é visto como uma con. Esta formulação será e dos homens”. Porém a articulação destes dois mundos é proble- há como obter o conhecimento do mundo sem razão e sen. o que esta A elevação do sistema filosófico medieval surge de coisa é e suas relações com todo o resto. O conceito de potência (“dynamis”) em Aristóteles tam. 1980). obrigatoriamen- morrem antes de serem árvores) e a árvore foi uma semente. o que é diferente é diferen. não mento. O MÉTODO ESCOLÁSTICO metodologia aristotélica propõe que no estudo de qualquer coisa é necessário descobrir o seu lugar natural. sendo que cada coisa tem o seu séculos III e IV o império romano entra em crise e em 450. ape- sar de a semente ser diferente da árvore. bispo de Hipona (354-430). Nos eterno até o movimento. e a emergência histórica do método medieval ou escolástico. Existe. As idéias de ciência um processo de decadência da própria vida cotidiana no e ontologia estão articuladas no método aristotélico. Neste roteiro de viagem pelo método. porém final do império romano. pois. po. que seja móvel? Para Aristóteles. já na “ci- que esta sistematização se concretiza pela primeira vez. Este processo vai ser pensa- cia da árvore e não ser a árvore.O Caminho de Ida e Volta no Método Marxiano: Uma Trajetória Histórica do Método Até a Sua Formulação duz o menos (movimento). no sistema aristotélico. existe uma relação 3. cadência. ando as condições econômicas. É. cri- é composto pelo inorgânico. a filosofia também entra em crise. como sistema filosófico. O universo aristotélico ganhos e a riqueza são reduzidos nesta fase do império. explicada pela potência de ser e pela potência de não ser. agostiniana este problema é resolvido pela fé. mas a potência pode ser a potência de não ser árvore. O método agostiniano de identidade e semelhança entre semente e árvore. mas é com Aristóteles na “cidade de Deus” existe o eterno e a essência. tados na busca de uma compreensão racional para a fé. similarizado ao modelo de Platão enquanto dualismo. sob a égide do modo de produção feudal (LESSA.jan/jun/2006 (53-66). Trata-se de uma estrutura que vai do filosófica” paralela às suas crises sociais e econômicas. pelos animais e pelas plantas. mas essa transfor. 2001a). O motivo principal é que quando a sociedade gre- é puro movimento? O que em sendo imóvel produz algo ga entra em decadência. Estas novas condições históricas no período moderno serão separadas. haja lio Agostinho. em Aristóteles não existe nada que não tenha antes doria de Deus integra os dois mundos das “cidades de Deus sido experimentado pelos sentidos. era medieval e também vai influenciar pensadores como O processo histórico de decadência é absoluto e ofe- Immanuel Kant (1724-1804). a idéia tem essa capacida. bém é fundamental em seu pensamento. “a idéia os romanos têm a sua queda concretizada com a invasão da de lugar natural é a melhor justificativa possível para uma Europa e a emergência do modo feudal de produção. a se. oria astronômica acerca do universo é uma cosmologia. Os sociedade de classes” (LESSA. O processo histórico que brota desta vida cotidiana é mente é uma árvore “que pode vir a ser” (há sementes que formulado a partir de uma gênese que leva. uma hierarquia do mo. que. e por São Tomás vista que.

arcanjos. da fé sobre a razão. Igreja. 2001a). ou seja. imutável. embora destino e o seu agir. Sen. A de uma corrente filosófica.Nº 1 . O estudo da natureza também que torna o texto coerente (LESSA. levando a uma vas afirmações. onipotente e onipresente. ou seja. tem ças produtivas daquela época que permitissem melhores uma afirmação. vai provocar existe a partir da essência que o criou. na terra vai razão absoluta em uma concepção teológica e. substituído por Deus e no centro da terra é posto o inferno solidação do método escolástico formulado a partir de uma que é o ponto mais distante de Deus no universo. haja vista as gran. assim como na Grécia. Essa concepção divide a escolástica em mais to de partida ontológico e teológico e não metodológico. Papa.4 . como compatibilizar a consciência absoluta com a liberda- ram a Idade Média de “idade das trevas”. Os senhores feudais ficam mais ri. têm-se a nidade procura disseminar que o sentido da história é posto separação radical entre a essência (eterno. santíssima trindade. por volta do ano 1. O campo. nas organizações sociais e políticas. afirmação teológica inicial “Deus criou o mundo” tem uma com seu poderio cultural.Marcos Antônio Martins Lima pior em suas vidas. vai explicada pelos desígnios de Deus que assim quer – uma de Deus ao demônio e a ordem. se des realizações culturais deste período histórico e o ideal de não é responsável.000. O método de Tomás de Aquino Conclui-se. . p. porém. acontecerá. a razão e a ciência oferecem tinho é desprezado e ao mundo é admitido novamente o o conhecimento indireto da verdade. pois a natureza também é uma cria. Aqui há espaço para um questionamento: não se possa concordar com os renascentistas que designa. Esta consciência de Deus dá sentido à história. o texto é um raciocínio encadeado crise neste sistema filosófico. servo. além de uma correspondência ontológica na medida em que o mundo filosofia egressa do pensamento aristotélico. de humana? Se o homem não for livre não é responsável. na ideologia dos do método medieval é considerar que o conhecimento da senhores feudais e da Igreja. o mutável e que os homens podem alterar). uma dada conseqüência teórica e acrescida condições de vida e de produção agrícola. verdade é o conhecimento do ser. política e religiosa que deixou profundas marcas São Tomás de Aquino vai resolver esta questão com a con- nas instituições. No período medieval. Tudo é decorrente do poder desta consciência Esta falta de liberdade dos homens é decorrente desta absoluta e os homens são impotentes perante a sua história. embora não seja capaz homens não é sem sentido. santos. Esta concepção teleológica neste momento da huma. vai criar a liberdade dos homens atra- O modo feudal de produção. Esta revisão é feita não se transforma. militar. ou seja. Torna-se necessária uma revi. econômico. 85). passa a ser importante. neste aspecto há um retrocesso real dos pelos seus pecados. A hierar- sociedade onde o homem não tem razão de viver e que é quia cosmológica do universo. Os processos de investi- esquema aristotélico. 1998. passa pelo seu primeiro momento de expansão na Europa. importante para as ciências sociais. de alterar o sistema total. ou seja. 2001a). teleológica da história com um início e um final pré. o ser é o que é. 3. filho e pai celestial determinados (LESSA.2. o lugar natural. estava interessado no desenvolvimento das for. a leitura ou análise do para as escrituras e para os mistérios divinos. consciência absoluta e. os homens não são culpa- Segundo Lessa (2001a). Há um espaço do dos homens e é a garantia ontológica que a vida dos para atuação dos homens na história. ao mesmo do infiel. com o método escolástico. perene por um Deus que é onisciente. O ponto de partida um grande impacto na Europa medieval. dos pressupostos de uma estrutura categorial. mas Deus que já determinou o seu em termos filosóficos e históricos na fase medieval. pois conhece tudo o que aconteceu e o que consciência absoluta em São Tomás de Aquino. O estudo deve estar volta. A chegada dos árabes à Europa. Vol. O conhecimento do por São Tomás de Aquino. cria o mun. como punir os homens por agir errado? vida social. senhor feudal. espírito santo. Esse sistema de uma segunda afirmação que possibilita chegar-se a uma escolástico convive em um conflito entre o pensamento e as conclusão atingindo conseqüências teóricas e levando a no- idéias da Igreja e a realidade do camponês. ponto de vista metodológico. segundo a superioridade No projeto agostiniano estudar a natureza é aproxi. mundo dos homens não é o verdadeiro conhecimento. e por último a criação de um instrumento mar-se do pecado e do demônio. oridade da religião sobre a ciência. (LESSA. mas passa pela teologia. imanente que vai contribuir no estudo de um texto a partir nês. na arte sideração de que a bondade de Deus. de uma cons. portanto.jan/jun/2006 (53-66). Primeiro a afirmação da superi- cos e os servos ganham melhores condições de existência. logo são da concepção filosófica agostiniana. pois Deus continua sendo uma ciência absoluta. 2001a). Trata-se. Embora a teologia predomine. e que os homens não podem alterar) e o fenômeno (o finito. que o conheci- mento verdadeiro tem na fé o seu ponto de partida e de chega- O esquema de duas cidades proposto por Santo Agos. A relação entre a escolástica e o método tem um pon- ção de Deus. gação desenvolvidos na Idade Média ofereceram uma melhoria do que o primeiro motor imóvel da esfera de Aristóteles é nos processos e procedimentos de investigação da verdade. Este processo é fundamental para a con. portanto. dentro do plano divino. da. 59 Revista Contemporânea de Economia e Gestão. As A travessia do pensamento grego ao período medieval pessoas passam de um processo de decadência para um novo apresenta três conseqüências relevantes para a filosofia do processo de melhoria vital. tempo. cosmológico e também teológico. sem eliminar a sua e na cultura (ZILLES. consciência absoluta. vés do livre arbítrio inserido em um “mistério de fé”. pois o ser é eterno. por Deus e pela fé.

ela própria. Sendo que a fé está acima sando a adotar um duplo critério de conhecimento e de ver- da razão e as explicações dos fenômenos estão relacionadas à dade. Nesta fase histórica começam os princípios que quanto em Francis Bacon (1561-1626). Mas de do onde passam a existir duas verdades: a verdade do mun. elabora uma hipótese e produz uma teoria. além de permitir uma sofia a partir de Descartes (ZILLES. o processo de conhecimento. 1998. por um conjunto de três elementos ou move uma mudança no caráter ontológico da filosofia. o método dedutivo. texto e isso pode ser considerado um avanço metodológico promovido pela escolástica e que vai ser fundamental para o 4. p. e o cotidiano de uma sociedade burguesa nascente chega a um momento de insustentabilidade e tem como ponto de 4. religião e ciência com uma verdadeira ruptura em relação vra escrita na filosofia. O MÉTODO NA IDADE MODERNA método na ciência. Esta idéia “clara e distinta”1 é o do mundo investigada pela teologia sob a égide da Igreja. uma movendo a redução da subjetividade e a influência do estado ontologia. O método proposto pelos escolásticos não coleta de dados. de tal modo está separada e depurada de todas as outras. A idéia distinta é aquela que. em analogia aos termos matemáticos. En- comerciais. pas- etapas: a fé. as coisas funcionam e não se constitui. me é claro.4 . há uma cisão entre to grego onde predomina a oratória e passa a dar ênfase à pala. tentes filosóficas divergem na forma de explicação da expe- Na trajetória do método o desenvolvimento do co. parte de uma realidade. faz uma puramente racionais. portanto. pois busca distinguir. Essa descoberta comprova que a bíblia O princípio da dúvida metódica e universal parte da idéia não é o referencial exclusivo e dá início ao fim de um pro. e que posso distinguir de qualquer outra idéia. riência dentro do método moderno. é uma idéia verdadeira. plo. A diferença fundamental entre as acumulação de capital no regime capitalista. através de uma metodologia ou proce- mente e permite um eficiente suporte ao processo de dimento. que vai cuidar de explicar porque as coisas são assim sem pósito de proporcionar uma leitura do que realmente o texto entrar na explicação do mundo material. de que se pode duvidar de tudo e de um ponto absolutamente cesso de hegemonia da concepção de mundo escolástico. do ponto de vista metodológico. Paralelo a isso. Nesta fase da his- contém. tória. René Descartes (1596- mércio e das forças produtivas estabelece uma estrutura 1650). se eu penso. acúmulo de riquezas. Este momento filosófico diferencia-se do pensamen. No método moderno. zão que. constitui a verdade científica. A idéia clara e distinta por excelência será aquela que resiste à toda a dúvida” (ZILLES. p. problema em Descartes é fundamentalmente metodológico. 2001a).1. 1 “Uma idéia que esteja clara em minha mente. O indivíduo duas correntes modernas do método é quanto à gênese da começa a ampliar o espaço de determinação da sua histórica experiência. Em Des- expansão de novos negócios em outras terras do planeta. O método cartesiano inflexão o movimento renascentista (séculos XV e XVI) e a discussão sobre a centralidade do sol e o movimento dos pla. pai do empirismo. a razão e a interpretação. o que é verdadeiro do que é falso (LESSA. a intuição racional aristotélica. mormente as ciências humanas. A busca de uma maior precisão sobre a posição dos questão do método: qual o caminho que nos leva à verdade planetas e estrelas é uma necessidade da burguesia a fim de de toda e qualquer ciência? Essa indagação orientará a filo- facilitar as viagens e rotas comerciais. Esta teoria é o conhecimento da verdade. duvidar que este mundo exista e que Deus exista. cujo conteúdo. por exem- Durante o renascimento a Igreja recua e propõe um acor. . que não encerra em si absolutamente nada mais do que aquilo que é claro. O método escolástico está caracterizado. Vol. uma coisa Descartes não duvida que eu penso. 1998. logo existo”. modelo da verdade para o racionalismo cartesiano. so com um sistema de localização que funciona adequada. Pode-se. é somente a dedução. parte de uma hipótese que é comercial que abrange toda a Europa e retomam-se as rotas comprovada em uma experiência e leva a uma teoria. 106-107). 101). o empirismo é considerado A contradição entre a ideologia feudal dos escolásticos aposteriorístico e utiliza o método indutivo. A idéia clara é uma percepção presente e aberta à atenção da mente. o pai do racionalismo.jan/jun/2006 (53-66). mas tam. se comprovada. A filosofia moderna vai colocar como tema central a netas. sendo clara. 2001a). constitui-se uma nova teologia interno do leitor existentes na leitura de um texto com o pro.O Caminho de Ida e Volta no Método Marxiano: Uma Trajetória Histórica do Método Até a Sua Formulação mormente através da interpretação dos textos em busca de uma Nasce uma ciência que só tem a pretensão de saber como sistematização das escrituras e das idéias de Aristóteles. zero. o vão resultar no estabelecimento da propriedade privada e a saber parte das sensações. O cente a chave de como fazer navegações de longo percur. cartes a experiência começa a partir de uma idéia ou da ra- O mapeamento planetário oferece à burguesia nas. Há uma verdadeira subserviência ao a concepção medieval de mundo. existência de Deus e a doutrina cristã e não buscam conclusões sem o preconceito da fé. eu do investigada pela ciência a cargo da burguesia e a razão existo: “penso. 60 Revista Contemporânea de Economia e Gestão. pro. sob o enfoque A travessia do período medieval à era moderna pro- da análise imanente.Nº 1 . porém duas ver- bém a contraposição de opiniões divergentes. enquanto o racionalismo é apriorístico e utiliza em relação à consciência absoluta (LESSA.

duzir a idéia de infinito. Segundo Rezende REZENDE (1989. 1989. determinar a sua causa. é Deus e isto prova a deter não só o poder econômico. Kant retira Deus da equação 61 Revista Contemporânea de Economia e Gestão.jan/jun/2006 (53-66). surge de uma aliança entre a nobreza e a burguesia contra a tência de Deus (REZENDE. que buscou. responder às pensamento kantiano e de outros filósofos modernos. O método kantiano em um menor número de regras. ou O método experimental baconiano procura as causas seja. p. b) os ído- Este questionamento leva a uma crítica substancial ao los da caverna. O método baconiano como provar a realidade objetiva? Já o empirismo carrega a questão: como conhecer o caso universal a partir do caso Em Bacon o método deve consistir na observação da singular? A crise metodológica no período moderno faz natureza e a experiência começa a partir das sensações que dão Immanuel Kant (1724-1804) constatar que a pseudo-orga- os dados da realidade. uma nova ordem política que sum”. imagens tomadas por realidade: “a) os ídolos da esta coisa existe. p. Assim nem todas as to. E outra ordem de idéias que passam pelas sensações.4 . Isso através de um método universal inspirado no rigor matemático. 24). damental. O racionalismo traz consigo o seguinte problema: 4. vés de uma experiência concreta e uma filosofia política re- O sistema cartesiano constitui uma concepção pura. 25). Descartes procurou remover esta crítica in. a partir do século XVII. ainda era devedora da ideologia Bacon “a ciência não é um conhecimento especulativo. ergo mento do liberalismo. Este resultado proporcionado por duzida pela razão que tem como modelo as idéias matemá. a burguesia ofe- necessária separação entre as sensações verdadeiras e as sen. ros” (ANDERY et al. sensações tendem a ser falsas. Descartes anuncia a sua segunda descoberta: a exis. O racionalismo moderno fundado empiristas é fortemente individualista.Nº 1 . Para que é transformada em uma hipótese que é levada a uma expe. 2001a). p. para quele momento histórico. Se este Deus existe. Kant. mas somente aquelas relacio. ou seja. pois a falsas noções provenientes das doutrinas em voga” razão sendo uma faculdade humana é finita e não pode pro. as falsas noções dagando-se: existe algo na razão que não pode vir da razão? provenientes da psicologia social. pois é perfeito. utilidade e o propósito do método cartesiano consistem em constitui uma tentativa de conciliar estas duas posições filo- permitir ao homem conduzir bem a sua razão e em procurar sóficas (REZENDE. A pliasse seu campo de atividades econômicas. c) os ídolos do mercado. p. o grande problema do racionalismo moderno é a sua riência e obtendo confirmação consegue-se uma teoria. recia influência política e social. nem feudal e a separação entre feudalismo e capitalismo ainda uma opinião a ser sustentada. 1996. pois ela é mular os fatos. A críticas do empirismo ao racionalismo e. passa humana o conceito de infinito. o método em Bacon e em outros filósofos transcendência de Deus. 90). Ora. p. lítico. ferendada na teoria rousseauniana e iluminista do contrato mente racional e mecanicista da natureza e. o que demonstra que a ideologia burguesa. as falsas noções da espécie humana. as A sua resposta é existe sim e é a idéia de infinito.. isto é. as falsas noções provenientes da nossa psi- cartesianismo. no pensamento kantiano naturais dos fatos na seguinte ordem: primeiro deve-se acu. não se pode dizer nada sobre a “coisa em si”. que tam. Segundo Japiassú e Marcondes (1996. portan- ele não é enganador. (JAPIASSÚ. através da monarquia parlamentar fundada no nasci- Depois da primeira verdade cartesiana: “cogito. d) os ídolos do teatro. “ídolos”. deve-se a Descartes e deu uma nova dimensão ao posterior. 103-104). Uma idéia puramente pro. p. tendo em vista interesses comuns. mas um trabalho a ser feito” a não havia sido concretizado.3. na. “Burguesia e realeza uniram-se.2. isso se deve a consideração da (1989. mas também o poder po- que Deus existe (LESSA. experiência que é sempre individual. já que parte de uma em Descartes tem em um Deus medieval o seu apoio fun. este método experimental e indutivo só é possível na condi- ticas. Em síntese. 99). serviço da utilidade do homem e de seu poder. bem como recursos financei- sações falsas pode ser obtida com a experiência. depois classificá-los. fantasmas de pois o que garante que alguma coisa exista é a sensação que verdade. A partir dos dados faz-se uma pergunta nização do mundo filosófico medieval não mais existia. 93). bém estabelece uma relação entre razão e sensação e ter Isso justifica o interesse em um mundo conhecido atra- como produto uma teoria ou a verdade. 1989. no encadeamento racional e 4. MARCONDES. monarquia absoluta. cologia individual. ção de eliminação de falsas noções. e somente em seguida incognoscível. p. a verdade nas ciências. que a “coisa em si” existe. como uma regulamentação que unificasse o mercado e am- nadas aos preconceitos e outras imperfeições humanas. inclusive no pensamento kantiano. ao mesmo tempo. 164-165). O empirismo A descoberta da subjetividade. no sentido moderno vai influenciar e impactar no desenvolvimento da filosofia do termo. segundo social e na submissão à lei da maioria. ou seja. pretensão em provar que o mundo objetivo e real existe. tirar da razão a idéia de infinito O empirismo tem como palco o pensamento represen- significa que existe algo externo à razão que insere na razão tativo da burguesia inglesa que. Vol. Ora. pensamento filosófico.Marcos Antônio Martins Lima Existem dois tipos de idéia. mas o que garante que a sensação é real? tribo. 1988. Em troca de benefícios. inclusive permitiu a emergência do em seu período crítico e pelo menos em parte. .

movimento (MORENTE. Friedrich Hegel (1770-1831). também mostra que a histó- tuído pela razão e pela sensação. ou seja. “a coisa em si” existe (MORENTE. o pensamento kantiano tecer tanto os indivíduos quanto toda a sociedade possível será de interesse da ideologia burguesa (LESSA. ou seja. al. o campo científico posterior. como no final do império todo o conhecimento tem a sensação do começo da sua ver. Neste interstício. Assim no pensamento kantiano. que é este: age apenas segundo uma máxima. mas são os homens que fazem a sua própria sensações. ordem filosófica e metodológica. Como integrar razão e sensação. Neste último caso. quase coincidente com a razão. O método hegeliano sa é realizada sem uma ideologia formatada aos seus inte- resses.O Caminho de Ida e Volta no Método Marxiano: Uma Trajetória Histórica do Método Até a Sua Formulação cartesiana. Em sendo a razão o absoluto. e constituir fenômenos? A resposta soluto ou objetivo por procurar uma identificação entre o oferecida por Kant é de um verdadeiro idealismo subjetivo. 1980. tando o mundo fenomênico ou real. ou seja.jan/jun/2006 (53-66). desco- vam a uma nova teoria e a novas hipóteses e. verdade é aquilo que eu penso” ou. em todo o planeta. REZENDE. burguesa por ocasião de sua coroação. precisamente em 1806. situação julgada a melhor para elas mesmas (LESSA. Logo A manutenção da miséria ou a sua extinção passa a ser a ser racional é organizar as sensações no tempo e espaço e conseqüência de uma organização social que reproduz a gerar um significado (LESSA. visualizando estes episódios nos ou vão dar novos elementos deste mundo fenomênico. Kant propõe definitivamente as explicações do mun- Em termos históricos e ideológicos a solução kantiana do com as explicações do homem. na fase contra-revolucionária. enquanto que em Kant o mundo é fundado a partir da sibilita ao homem um poder de transformação sobre a natu- razão. Mas O intuito filosófico de Kant é garantir o “imperativo que razão? Hegel não trata de uma razão estática. ao longo da história humana. 2001a). a bre que os homens fazem a sua história através da opinião uma nova experiência. históricos na Europa. o mundo real inviabiliza os seus propósitos de pri- meira classe revolucionária da história. Mas há outro conhecimento que só pode ser consti. Essa constatação irá in- é pouco interessante para o primeiro momento da burgue. vão construir outros fenôme. tra-revolucionárias do resto da Europa. mas também todo sia. sob a forma de experiência. é um A Revolução Francesa e a sua consolidação com o método matemático onde o conhecimento é produzido pela período napoleônico (1789-1815). só é possível conhecer o nal” (HEGEL. soas da sociedade convencidas e comprometidas com uma 1989). ou pública (“geist” ou espírito da época). Napoleão ria construída pela razão e sintetizada com as sensações or. mas a razão humana dá significado às sensações. Segundo Kant apud Andery et. primeira Revolução Industrial. Georg Wilhelm que. dade. considerando que esta últi. tal que possas do no período moderno também trás outros problemas de ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal”. Em Descartes a experiência funda a sensação e a ra. O método kantiano. Com base em uma teo. 2001a). 1990. mas de categórico” e a ciência newtoniana a fim de chegar à felici. assim como em Descartes. só um único.4. e sensações. “eu sei que a história. fluenciar as proposições não só filosóficas. tudo o mais são fenômenos ou manifestações da razão. A filosofia hegeliana é conhecida como idealismo ab- ma pode ser enganosa. tico que atravessavam os vários estados germânicos. os jacobinos convencem a po- teoria e hipótese. 1980. bilidades que se desenvolvem no tempo e em seu próprio 365). todo o reza e lhes mostra que não é a natureza que faz a história conhecimento começa (e não termina e nem pára) com as dos homens. e passa a ser um projeto político.Nº 1 . pulação parisiense de que o rei é um aliado das forças con- Para Kant ao se fazer uma experiência não está experimen. 13). a miséria. p. romano e na Idade Média. Esse espaço vai ser ocupado inicialmente por ce. A revolução burgue. pois o desenvolvimento das forças produtivas ofere- da história. miséria ao produzir a riqueza sob a égide do capital. Além disso. falta-lhe uma teoria filosófica que incorpore No contexto histórico moderno do período de 1786 a o papel da razão na formação de uma concepção de mundo 1830 aconteceu na Inglaterra a primeira etapa da Revolução que leve a burguesia a fazer a história com a objetividade Industrial que é um momento histórico de extrema impor- eficiente e mesmo independente da sua consciência acerca tância. real e a razão. “o que é racional é real e o que é real é racio- pois segundo seu pensamento. no mundo e também o processo polí- A partir deste ponto se colocam novos problemas que le. Aqui há espaço para uma problemática em Kant. Vol. Porém a sua solução para este embate do méto. p. finalmente. 4. (1988. “O imperativo categórico é. todas as pes- seja. mundo a partir do que nós criamos dele (LESSA. sintetizadas com a razão. Sem necessitar provar que o real. uma razão que tem uma potência dinâmica e cheia de possi- dade humana. pois a impossibilidade de transformar a “coisa em si”. uma situação em que Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) junto aos jacobinos e só o excedente produzido pelo homem é suficiente para abas- depois. . deixa de ser uma inevitabilidade. 2001a).4 . Este primeiro momento da Revolução Industrial pos- zão. numa versão empirista. p. 272). embora na primeira fase da obra kantiana. sob a forma de za. portanto. pela primeira vez na humanidade. Nesta fase da revolução. Bonaparte (1769-1821) faz a Igreja curvar-se à revolução ganiza-se uma experiência da qual se tiram outras sensações. trata-se ria dos homens não é determinada e explicada pela nature- de um método experimental que junta razão. 62 Revista Contemporânea de Economia e Gestão. 2001a).

a identidade sujeito e objeto. ciocínio filosófico que sob um método científico. o conhecimento não e peculiar modalidade de tratamento do que sempre pode regredir para aquém de si mesmo. ter- uma mudança de pensamento que leva a uma mudança no ceira parte O método da economia política – apesar das real. de levam a uma diferença entre inconsciência e processo O desenvolvimento da humanidade corresponde ao histórico. e ainda caracterizado (CARDOSO. É a Algumas questões críticas podem ser colocadas a res- primeira explicação do processo histórico que integra objeti. da sua original do conhecimento’ porque. teiro histórico desde a filosofia pré-socrática dos séculos VII Dentre os pressupostos metodológicos de Hegel. lógica e história. 167). p. dar-se-á ao longo da história iniciada na Grécia Clássica ten- 5. oferece uma reformulação da tese e da antítese. O MÉTODO MARXIANO do a coletividade predomínio sobre a individualidade até o E O CAMINHO DE IDA E VOLTA momento moderno onde o indivíduo supera a sociedade pela propriedade privada e os meios de produção. O raciocí- cesso em que o passado é o fundamento e causa do presente. finalizando o processo. não há mais contradição vada dos indivíduos e a humanidade genérica de todos os ou dialética. (LESSA. que parte de uma condição também influenciou outras correntes filosóficas posterio- histórica mais simples para uma situação mais complexa. Neste úl- timo estágio o indivíduo é o burguês e a sociedade é o mer. 1998. Sem este princípio o conhecimento torna-se impossível. Necessário salientar que o presen- como sendo um movimento triádico: a tese (em si) ou afir. 2001a). Donde as altas exigências postas à A dialética hegeliana trata o conhecimento da produ. tão elemen- nhecemos. em princípio. . te artigo não se presta a entrar na discussão destas contro- mação geral sobre o ser. Movi- é impossível determinar o que é conhecimento. A relação indivíduo e sociedade. 1990. uma mesma realidade e não duas realidades independentes. que contempla mento expressa-se em um movimento constante e contradi. das relações políticas etc. 2). peito do pensamento hegeliano. o hegelianismo impactou não relação sujeito-objeto que vai produzir um conhecimento só no pensamento alemão do início do século XIX. de não autonomizar o método damentalmente de Kant” (ZILLES. O método marxiano está exposto uma lógica ou mudança de conceitos e uma ontologia ou em – Introdução (À crítica da economia política. até o século XIX à sua proposição marxiana.Marcos Antônio Martins Lima A história humana. linhas de interpretação a mais variadas e mesmo divergentes tório. De início. a sociedade reconhecendo a propriedade pri. A trajetória do método chega após percorrer um ro- cado. segundo a dialética hegeliana. ou seja. Então a história termina aí? A identidade entre indivíduos. a antítese (para si) ou a negação da vérsias. A história passa e como se transforma. expressas em primeiro lugar na árdua tarefa de superar 63 Revista Contemporânea de Economia e Gestão. nesta questão. o indivíduo elevado à universalidade. ou seja. controvérsias na sua leitura e na sua análise. pois este processo tem como finalidade fazer com entre a reflexão sobre o ser e a dialética do ser. A sociedade configurada como o ambiente do conhecimento. que a burguesia tome o poder. no caso de um investigador cujo pensa- mento estruturou-se numa matriz radicalmente refletimos sobre o conhecimento o fazemos porque já co- ontológico-dialética. Logo. Essa consciência desenvolve-se através da to sistema filosófico idealista. Dessa maneira Hegel diverge. em face da teoria. ou seja. mas a tratar o método de Marx sob a abordagem de tese. segundo ele. Tal processo histórico de transformação e desenvolvi. no pensamento marxiano o método superado com a identidade do ser e do conhecer. Para Hegel a história tem caráter sua trajetória e a gênese do conceito se dá com a integração teleológico. inclusive no pensamento de Marx. ou seja. a análise da teoria social de Marx passa necessari- “Hegel. 1857). o a V a. central deste artigo. Assim como na filosofia a questão do método é uma O problema do conhecimento no hegelianismo só é empreitada complexa. Como Hegel trata isso? Estas questões serão na desenvolvimento da consciência dos homens acerca da sua verdade tratadas com maior propriedade por Marx. ção histórica como uma tarefa complexa e mais sob um ra. O raciocínio vai recriar ao longo da sua existência.jan/jun/2006 (53-66). rejeitou a possibilidade de uma ‘teoria amente pela dilucidação do seu método.Nº 1 . coloca a dificuldade. p. Como o ser se constitui e o presente é fundamento e causa do futuro.4 . fun- tar quanto complexa. ou o objeto? Uma vez atingida a consciência absoluta. torna-se necessário conside- o espírito vai sempre conhecendo cada vez mais o que ele é rar que o estudo do método em Marx é muito pouco siste- em um processo movido pela história. res. nio parte das determinações do ser. E quando mento que. e a síntese (em si-para si) ou a negação da negação que Georg Lukács (1885-1971). Vol. também é uma questão fundamental para o entendimento considerar que sujeito e objeto são aspectos diferentes de da análise da teoria social e econômica. a partir das determinações que apre- a ser considerada como aquilo que os homens construíram senta em sua constituição particular. Ora. Antes de conhecer foi o seu objeto de estudo: a ordem do capital. empresa de enfrentar a questão do método em Marx. a história é matizado em suas obras. ou seja. Se o espírito em si é a in- vidade e subjetividade. subjetividade e objetivida- mercado. ou soluto. seja. na visão hegeliana. Enquan- própria história. porém trata-se de um processo que consciência absoluta como ele pode saber quem é o outro desde o início tinha como alvo a constituição do espírito ab. objeto processo de conhecimento é um processo histórico.C. mas cada vez mais avançado. no pensamento hegeliano. é um pro.

aliás. do único modo que lhe é ontológica entre subjetividade e objetividade. prática do trabalho de investigação. presentar o concreto de uma forma menos caótica atra- com a perspectiva ontológica). Falta dade de cada pesquisador. Para Lukács. 1994. no caminho de volta o concreto é conquis- tado a partir do abstrato ou do simples ao complexo. p. 1997. a viagem recome- fundamentados no pressuposto de que existe uma essência çaria pelo caminho de volta. pois é a consciência que pro- o real sem esta identidade? Através de uma categoria duz o conhecimento. não já como a representação caótica de um essência. mando conceitos simples e abstratos que geram determina- Na postura metodológica marxiana o conhecimento ções simples que vão iniciar o caminho de retorno e desem- da realidade se dá olhando o real ou o concreto. segundo o método isto significa apenas que foi produzida uma representação marxiano. Mas caótica do todo? Deve-se avançar. portanto. do como sendo o critério da verdade. até que reencontrasse finalmente imutável e o processo de conhecimento busca conhecer essa a população. a vés de um processo de investigação. e só através de determinação (YAMAMOTO. haveria de início uma mais logrados intentos de reconstruir o método de Marx representação caótica do todo. vão além dos elementos e determina- conhecimento da categoria população na Economia Políti. escolhas que são influenciadas pela tipologia de personali- tar a relação das partes entre si. o sujeito real. Há. mas a generalização o método de conhecimento atravessa um processo de análise das categorias ontológicas mais universais no sentido de ori. mas uma representação caótica do todo ou da to da análise e abstração do método marxiano. Trata-se de um método Além disso. a conceitos mais simples. em sua indepen- 64 Revista Contemporânea de Economia e Gestão. na consciência tidade entre sujeito e objeto. . Em uma análise to (MARX. Já no método aplicado ao ções que.O Caminho de Ida e Volta no Método Marxiano: Uma Trajetória Histórica do Método Até a Sua Formulação as impostações epistemológicas (colidentes. ao mesmo tempo. tanto o mundo objetivo e que. 2001a). No caminho de ida toda a representa- fundante. 9). portanto concretizando a afirma- uma fundamentação antecedente e precisa do que é cada ção de que não há neutralidade científica no ato de pesquisar. Partindo do concreto representado. estes últimos são fim as determinações mais simples. Em Marx. Não é por acaso. 9). Mas como é possível conhecer do homem. cada vez mais. ao passo que. pois a exis.jan/jun/2006 (53-66). os economistas clássicos olharam a população trato pensado. contrário ao hegelianismo. não há uma iden. Como então superar o caótico da representação este real. ou seja. do pensamento das determinações complexas que compõe tação falsa. Em Marx. e abstração decompondo o todo em elementos simples e for- entar a investigação do desconhecido (LESSA. como uma rica totalidade de muitas determina- imutável de acesso a esta essência. ção. O método marxiano busca representar. subsiste fora dela. a intuição do pesquisador também faz parte da insuficiente na representação e na exploração do real. O trabalho trajetória de volta. com a mundo que são o artístico. porém respaldada em uma articulação que se apropria do mundo. têm-se um caminho todo e sim. O processo de conhecimento. Como a essência é imutável. até alcançar por método marxiano e os demais métodos. tos simples e. o trabalho que possibilita uma conexão ção se desvanece em determinação abstrata. variável envolvida na investigação. 1997. ou seja. na ontológica entre objetividade e subjetividade. essa representação caótica é uma represen. mormente no momen- sentação.4 . A partir daí o método não é a garantia da verdade. o religioso ou o do espírito representação do concreto ou da objetividade através de prático. construindo uma relação da subjetividade com o concreta a partir de uma representação caótica e não signifi- mundo objetivo representando-o sob uma consideração mais ca que o real foi criado. concreto pensado e abs- marxiana. Enquanto a cabeça procede de modo somente uma representação caótica que permita um contato com especulativo. ções e relações (MARX. por sua vez. teoricamente. antes como depois. Essa representação é caótica por que a visão do por um procedimento de escolha. O caminho possível e que difere dos modos de apropriação do de ida se dá. é caracteriza- objetividade. no fundo. procurando uma diferenciação entre o chegaria a abstratos sempre mais tênues. faz-se o percurso de volta para se conquis- ma como o processo histórico caminha. permita re. 2001a). articulando o todo. Este caminho é o méto. a subjetividade faz uma repre. p. Logo. ambos na esfera da subjetividade. ca Clássica do século XVII. daí propiciando novas apresentada não é capaz de separar o todo das partes e mon. como não Vê-se que o ponto de partida é sempre uma representa- existe uma essência eterna ou uma verdade eterna imutável. bocar em uma totalidade de múltiplas determinações e rela- tência determina a consciência. isto é. ou seja. de início. eu chegaria analiticamente. tal como ele na cabeça aparece – um todo de segue um percurso de ida e volta e é uma produção da pensamento – é o produto de uma cabeça pensante consciência. p. uma vez conquistado os elementos simples no a forma como o conhecimento caminha é diferente da for- caminho de ida. a produção do real. problematicidade imanente que perpassa muitos dos Se começasse pela população. Vol. ções simples e que substitui a representação caótica inicial. no nível da subjetividade. estas mesmas determinações abstratas con- enquanto intercâmbio orgânico do homem com a natureza duzem à reprodução do concreto no caminho do pensamen- e condição eterna da existência social. tar o concreto (LESSA.Nº 1 . mais precisa. Dali. A produção do conhecimento científico em Marx O todo. pois a gênese do real é um processo precisa através da decomposição do todo em seus elemen- histórico ontologicamente distinto do método em si. pois não há identidade entre sujeito e objeto. 631). como uma representação caótica e não como um processo O caminho de ida e volta é o caminho de reprodução histórico.

291p. B. et al. W. o processo de pro. Forta- solução apresentada por Kant para este duplo problema é leza: UFC/FACED. esteja sempre presente como esta complexa interação. motor da história é a razão humana. pois esta relação sintetiza-se pelas Books. o ções sobre a “introdução” de 1857. “eu conheço. São Paulo: Cortez. Parreira. U. de ciência. também no método teórico. la philosophie: idées.. São Paulo: Moraes. Iluminismo e marxismo: a questão ontológica. Este fato im- do fato da relação da subjetividade e da objetividade ser põe à subjetividade um método inovador que tenha que abar- articulada pelo trabalho. de entre sujeito e objeto”. O problema do racionalismo de Descartes a Kant Arthur M. 446p. é decorrente da própria way”. é o critério da verdade em um método marxiano Zahar/SEAF. 1982. A solução do Hegel ______. de B. W. 76p. Metodologia y servicio Social. car todo o real. 2001a.). p. 472p. Marx oferece uma nova pro- methode der politischen ökonomie. Teoria do conhecimento. parte 3. Existe uma linha de continuidade na trajetória histórica 7. São Paulo: EDUC. Janeiro: Zahar Editores. São Paulo: Mes- Um dos pressupostos do pensamento marxiano é que o tre Jou. v. Segundo Lukács apud Lessa (2001b. 296p. G. mas eu não conheço o real”. em uma aborda. dança econômica que move a história e não há como separar CHÂTELET. entrar configuração do real em sua existência concreta e também por uma parte significa ter que passar por tudo. F. ou seja. B. 1994.4 . CASTAÑO. S. 8 ed. setembro/1990. Filosofia e administração. trabalho enquanto atividade humana. não dá para conhecer o real somente to da consciência humana. sendo o conhecimento um produ. posta que considera uma relação sujeito e objeto. Título original: Die real no pensamento. na visão marxiana. . Se no kantismo a consciência determina a existên- BORGIANNI. 1988. 2000. faz com que o conhecimento ao ex- um pressuposto (MARX. A. J. M. Assim. H. D. 1997. História da filosofia: idéias. trair uma parte do real. a afirmação de que o caminho de ida e volta é a efetivamente esta síntese tem que ir para o objeto todo. Tradução modernos. enquanto concepção de mundo. n. 1. mas considera que ambas são necessárias para a reconstrução do MARX. em Marx existe essa relação. é preciso Do ponto de vista do conhecimento o fato do real ser que o sujeito. H. A. São Paulo: IFCH/UNICAMP. Lições preliminares. prioritariamente na oposição entre experiência e razão. O ca- única via possível de refletir. Se para o hegelianismo há a identidade sujeito-objeto. mas o MÁTTAR NETO. Porto Alegre: EDIPUCRS. Tradução Guilhermo de la Cruz Coronado. 1997. onde subje- tividade e objetividade são ontologicamente distintas. O. F. doctrines.. 1997. Título original: Histoire de Na viagem empreendida pelo método percebem-se al. nos dos cursos de segundo grau e de graduação. Para uma leitura do método em Karl Marx: anota- porém nunca em uma identidade entre ambos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS do método da Grécia até o período moderno. p. Rio de Janeiro: gem lukácsiana. do ponto de vista de sua singularidade. O método (texto para esse triplo problema é “eu conheço porque há identida. K. 322p. 24). 30. A análise do processo de constru- MAGALHÃES FILHO. Rio de Janeiro: Zahar. de. objetivo. Ou seja. E para compreender Logo. causa e efeito. 1 da apostila) Fortaleza: UFC/FACED. 1973. 1996. onde o presente é determinado pelo passado. São Paulo: Makron conhecimento é possível.jan/jun/2006 (53-66). embora determinado pelo real. MARCONDES. CARDOSO. Disciplina Conhecimento e Método. Rio de Janeiro: UFF/ICHF. (Dir. a sociedade. CONCLUSÃO mento tem que permear todos estes aspectos da totalidade. conforme foi ampla- ontológico. (Org. 1989. atividades humanas. M. guns problemas que surgem com o racionalismo e o empirismo JAEGER. 632-633). 2001b. pelo MORENTE. Dicionário básico de filosofia. que o real existe. já no marxismo é a mu. Rio de ideologia. necessariamente precise extrair uma síntese de mediações e determinações. na consciência. Para compreender a ciência: uma perspectiva tivo preparou o método hegeliano presente em um idealismo histórica. Na verdade. São ção do conhecimento em Marx não se preocupa Paulo: Sugestões Literárias. é o “the one best forma do conhecimento científico. C. Marx e o método. 65 Revista Contemporânea de Economia e Gestão. 1989. Tradução Fausto Castilho.Nº 1 . 2 ed. M. pois como o real são estas complexas interações. 8 ed. sensação revela o singular como se chega a lei universal? A LESSA. Tópicos de aula. “a posteriori” que considera a história como um processo de YAMAMOTO. Vol. método não é critério da verdade. pelo processo de objetivação. Percebe-se cla- ramente que o pensamento kantiano ou um idealismo subje- ANDERY. Lukács: o método e seu fundamento cia. Mas o real. 1998. dução do conhecimento (“intentio recta”) em Marx está envol- to no desenvolvimento histórico da relação sujeito-objeto. O método da economia política. Em Hegel. L. em Marx é exatamente o inverso. o objeto sob a minho de ida e de volta. por isso não existe uma REZENDE. História econômica. 168p. O problema do empirismo em Bacon é se a 3 ed. Paidéia: a formação do homem grego. Curso de Filosofia: para professores e alu- metodologia “a priori” em Marx.).Marcos Antônio Martins Lima dência. 1980. São Paulo: Martins Fontes. ou só de sua particula- ridade ou só de sua universalidade. 3 ed. I. A. é considerar que a subjetividade não é capaz de comprovar JAPIASSÜ. mas o processo de conheci- 6. 254p. ZILLES. 238p. mente descrito ao longo deste artigo. doutrinas. Fundamentos de filosofia.

. Vol.jan/jun/2006 (53-66).Nº 1 .4 .O Caminho de Ida e Volta no Método Marxiano: Uma Trajetória Histórica do Método Até a Sua Formulação 66 Revista Contemporânea de Economia e Gestão.