Você está na página 1de 16

RAE-CLÁSSICOS • NA HORA DA CRÍTICA:

VALÉRIE
CONDIÇÕES
FOURNIER
E PERSPECTIVAS
• CHRIS GREYPARA ESTUDOS CRÍTICOS DE GESTÃO

NA HORA DA CRÍTICA: CONDIÇÕES


E PERSPECTIVAS PARA ESTUDOS
CRÍTICOS DE GESTÃO
RESUMO
Testemunhamos recentemente um crescente interesse pelos Critical Management Studies (CMS) [Estudos
Críticos de Gestão (ECGs)]. Nosso objetivo, neste artigo, é refletir sobre a popularização do ECG; mais
especificamente, nos propomos examinar os vários fatores que contribuíram para sua emersão, e rever o
significado do seu projeto. Começamos pela exploração das condições de possibilidade do ECG, destacando
uma combinação de tendências políticas, institucionais e epistemológicas. Na segunda parte do artigo,
consideramos o que constitui o ECG e sugerimos que, embora inspirado numa pluralidade de tradições
intelectuais, o ECG foi unificado numa instância antiperformativa,* e por um comprometimento com
alguma forma de desnaturalização e reflexividade. Finalmente, articulamos as polêmicas em torno das
quais as políticas do ECG têm sido contestadas, especialmente ao rever os debates entre neomarxistas e
pós-estruturalistas, e discutimos o tópico do engajamento na prática da gestão.

Valérie Fournier
University of Leicester

Chris Grey
Cambridge University

ABSTRACT We have recently witnessed a growing, if still arguably marginal, interest in “Critical Management Studies” (CMS). Our aim in this
paper is to reflect upon the popularization of CMS; more specifically, we propose to examine the various factors that have contributed to its
emergence, and to review the significance of its project. We start by exploring the conditions of possibility for CMS and point to a combination of
political, institutional and epistemological trends. In the second part of the paper, we consider what constitutes “CMS” and suggest that whilst it
draws upon a plurality of intellectual traditions, CMS is unified by an anti-performative stance, and a commitment to (some form of) denaturalization
and reflexivity. Finally, we articulate the polemics around which CMS politics have been contested, in particular we review the debates between
neo-Marxism and post-structuralism, and discuss the issue of engagement with management practice.

PALAVRAS-CHAVE Gestão crítica, desconstrução, gerencialização, performatividade.


KEYWORDS Critical management, deconstruction, managerialization, performativity.

JAN./MAR. 2006 • RAE • 71

071-086 71 23.01.06, 12:17


RAE-CLÁSSICOS • NA HORA DA CRÍTICA: CONDIÇÕES E PERSPECTIVAS PARA ESTUDOS CRÍTICOS DE GESTÃO

INTRODUÇÃO neomarxistas e pós-estruturalistas, e também à idéia


de o ECG engajar-se ou não nas práticas da gestão, e
A década de 1990 presenciou o surgimento de uma como fazê-lo.
nova conjunção dos termos “crítica” e “gestão”, e até
mesmo o nascimento de uma nova subdisciplina
cognominada CMS – Critical Management Studies SURGIMENTO DOS ESTUDOS
[“Estudos Críticos de Gestão” (ECG)]. Alvesson e CRÍTICOS DE GESTÃO
Willmott (1992a) adotaram esse termo como título
de sua coleção muito citada e da qual foram editores, Desde que a gestão surgiu como uma prática social no
e desde então houve uma proliferação de publicações, final do século XVIII e início do XIX (Pollard, 1968),
séries de conferências e redes acadêmicas devotadas tem sido sujeita de várias espécies de crítica. Por exem-
a discussões sobre “gestão crítica”. 1 Até mesmo ou- plo, nos idos de 1776, numa famosa passagem da Ri-
vimos o termo “critters” usado para denotar o pessoal queza das nações, Adam Smith escreveu:
envolvido em gestão crítica – implicando pelo me-
nos a tentativa de construir uma identidade baseada Dos diretores de sociedades anônimas [joint-stock
nessa área. companies], que são gestores do dinheiro alheio mais
Muito embora, como veremos mais tarde, exista um que do seu próprio, não se pode bem esperar que ve-
leque considerável de maneiras pelas quais é nomea- lem sobre esse dinheiro com a mesma vigilância ansio-
da e entendida a ligação entre “gestão” e “crítica”, pa- sa com a qual os sócios de uma sociedade privada
rece, de fato, que sua proliferação evidente merece [private copartnery] freqüentemente vigiam o seu pró-
análise. E devemos declarar aqui nosso interesse par- prio. (SMITH, 1776 [1904], p. 233).
ticular: estivemos envolvidos, de forma relativamente
menor, sem dúvida, nas tentativas de articular os es- A evidência histórica de sociedades anônimas no iní-
tudos críticos sobre gestão. Mas nosso propósito nes- cio do século XVIII (Pollard, 1968, p. 25-26) confir-
te artigo não é, pelo menos não originalmente, avan- ma que a fraude deliberada e a incompetência respon-
çar essa causa. Ao contrário, queremos dar um passo diam por parcela significativa dos fracassos.
atrás, e tentar entender de que modo a gestão crítica Mant (1977, p. 9) argumenta que, no início do sé-
ocorreu. De fato, temos alguma apreensão e inquietude culo XIX, o termo gestor era usado freqüentemente
acerca desse assunto, sendo esta uma ocasião para cri- no sentido pejorativo, e, no melhor dos casos, a ges-
ticarmos um pouco a gestão crítica. tão era vista como uma ocupação servil. Escrevendo
Temos em mente três grandes temas neste artigo. acerca desse período uma pesquisa, conclui que:
Primeiramente, discutimos o surgimento dos estudos
críticos sobre gestão. Após salientar brevemente que A julgar pela literatura dos primórdios, os gestores
certo criticismo sempre tem acompanhado a prática assalariados, isto é, aqueles pertencentes ao nível ad-
da gestão, desde seus primórdios, esta discussão toma ministrativo abaixo do empreendedor, eram usualmen-
a forma de um delineamento das condições da possi- te trabalhadores analfabetos, promovidos de suas fi-
bilidade da gestão crítica. Essas condições incluem a leiras porque mostravam competência técnica ou por-
Nova Direita e o Novo Trabalhismo (New Labour), a que tinham habilidade de manter a disciplina. Em ge-
gerencialização,** da crise interna da gestão, os deslo- ral recebiam apenas pouco mais do que os trabalha-
camentos na natureza da ciência social, bem como nos dores comuns e mais freqüentemente eram atraídos
fatores específicos concernentes às escolas de admi- pela posição administrativa porque isso lhes dava o
nistração do Reino Unido. A segunda parte do artigo poder de contratar suas esposas e filhos para traba-
considera mais detalhadamente o que queremos dizer lharem na fábrica. (WREN, 1994, p. 45).
com a palavra “crítica”. Destacamos a pluralidade dos
estudos críticos sobre gestão, identificando também Obviamente, do ponto de vista dos proprietários ou
certos caracteres unificadores. Estes últimos incluem dos defensores do capital, a desonestidade e a ineficiên-
um ponto de vista antiperformativo e um comprometi- cia eram vistas como problemas. Mas não se poupa-
mento com alguma versão da desnaturalização. Na ter- ram críticas à gestão, com respeito ao seu aspecto dis-
ceira seção deste artigo, consideramos as políticas do ciplinar e controlador do trabalho. De fato, muitos
ECG, dando especial atenção aos debates entre escritos acerca do processo do trabalho eram explici-

72 • RAE • VOL. 46 • Nº1

071-086 72 23.01.06, 12:18


VALÉRIE FOURNIER • CHRIS GREY

tamente relacionados com isso (por exemplo, Marglin, balho educacional e social, a gerencialização pareceu
1974, 1980). E, durante todo o século XX, houve mui- ser tanto um projeto de reestruturação ideológica como
tas tentativas de explorar e problematizar o crescente um controle de custos.
poder social da gestão como prática e como grupo ou A gestão foi tratada como uma celebridade, foi até
estamento social (por exemplo, Burnham, 1945; Mills, mesmo glamourizada. Os gestores eram vistos como
1956; Enteman, 1993). detentores de um esclarecimento especial que os qua-
Dado que a gestão está emaranhada com o poder lificava a se pronunciar acerca de um grande número
social e político, não surpreende que tenha sido sem- de assuntos. Em educação, os administradores seniores
pre sujeita a alguma análise crítica. Porém, foi apenas industriais foram convocados para ajudar a construir
na década de 1990 que se fez realmente alguma tenta- o Currículo Nacional, uma vez que estavam no servi-
tiva para unificar essa análise, ao delineá-la em con- ço de saúde participando dos comitês gestores dos
junto sob um nome: Estudos Críticos de Gestão hospitais, recentemente criados. Muito embora tais
(ECGs). Obviamente, esse sinal pode significar nada desenvolvimentos fossem freqüentemente vistos como
mais do que um exercício no empreendimento acadê- “parcialmente políticos”, no sentido de conquistar sim-
mico, explicável parte em termos de marketing de idéias, patizantes conservadores, foram talvez ontologicamen-
parte em termos dos esforços para construir a carreira te mais importantes no sentido de que os gestores eram
dos indivíduos. Não obstante, isso raramente explica vistos como tendo um conhecimento privilegiado do
a avidez óbvia de alguns indivíduos e instituições em mundo real. A gerencialização, inscrita nas técnicas de
abraçar a gestão crítica e negligenciar o assunto mais responsabilidade final e simulação de mercado, era
interessante das condições sob as quais a conjunção orientada a trazer o setor público para a realidade do
de crítica e gestão tornou-se possível. São esses assun- mercado, ao traduzir o problema do fornecimento de
tos que agora exploramos. Antes de fazê-lo, devería- serviços públicos para questões de cálculo e eficiência
mos deixar claro que não enxergamos essas condições trocando-se valor por dinheiro.
como tendo “causado” ou determinado o surgimento Essas práticas não ficaram confinadas às administra-
dos estudos críticos de gestão. Nem vemos os diferen- ções conservadoras. O Novo Trabalhismo (New Labour)
tes assuntos que identificamos funcionando indepen- tinha a mesma fé na competência administrativa. E con-
dentemente uns dos outros. tinuaram os processos de gerencialização, no setor pú-
blico, em termos de uma preocupação continua com
ECG, a Nova Direita e a gerencialização “qualidade” e mensurações ou a convocação para a
Muito embora o ECG tenha surgido no Reino Unido “modernização”, equacionada como a gerencialização
na década de 1990, precisamos regredir um pouco para do governo local. Também tendem a considerar os as-
entendê-lo, certamente até os anos 1980. Nessa déca- suntos políticos como tratáveis por soluções “técnicas”,
da, sob a influência de políticas da Nova Direita (New por meio da gestão de especialistas. Isso ficou claro com
Right), a gestão tornou-se um tópico quente, e, de acor- a tendência a usar executivos empresariais pra presidir
do com alguns comentaristas, ocorreu uma “segunda comissões de revisões políticas, como as relacionadas
revolução administrativa” (Clarke e Newman, 1993). com pensões, envolvendo a designação de David
Uma das razões para o surgimento da legislação anti- Sainsbury ao status de ministro. Temos ainda o encanto
sindicato foi que ela restauraria o direito administra- com Richard Branson; a delegação para decidir as taxas
tivo de gerir. A eliminação de “restrições” abriria ca- de juros no Banco da Inglaterra e assim por diante. En-
minho para uma gestão eficiente e inovadora. Mas a tão a Nova Direita e o Novo Trabalhismo juntaram for-
preocupação da Nova Direita com a gestão era mais ças para construir o status icônico da gestão, legitima-
profunda que isso. O setor público foi objeto de um do sobre fundamentos ontológicos, epistemológicos e
esforço maciço da gerencialização (Pollitt, 1993; Clake éticos. Assim, os gestores eram os sustentáculos do
e Newman, 1997). Conduzida em nome da eficiência mundo real. Epistemologicamente, a gestão era consi-
e da responsabilidade final, a gerencialização do setor derada como a aplicação do conhecimento técnico.
público também pode ser compreendida como um as- Moralmente, ela se justificaria por propiciar mais justi-
salto sustentado, muito embora nem sempre bem-su- ça, responsabilidade pública, democracia e melhoria na
cedido, às arenas do poder profissional, que para mui- qualidade dos serviços públicos.
tos neoliberais não passava de um dogma socialista. O uso crescente da gestão como um “valor” 2 no
Particularmente com relação ao governo local, ao tra- domínio político, e o poder administrativo cada vez

JAN./MAR. 2006 • RAE • 73

071-086 73 23.01.06, 12:18


RAE-CLÁSSICOS • NA HORA DA CRÍTICA: CONDIÇÕES E PERSPECTIVAS PARA ESTUDOS CRÍTICOS DE GESTÃO

mais irrestrito nos setores público e privado, constitui japonização é bem conhecida (Oliver e Wilkinson,
a primeira parte dos fundamentos do ECG. À medida 1992), e pode-se dizer que, em vez de identificar uma
que a gestão foi sendo elevada a uma posição mais vi- crise de gestão, mostra como a gestão foi reconstituída.
sível, também se tornou objeto de crescente atenção Dessa forma, conseguiu realçar seu prestigio e poder:
por parte daqueles ligados à análise do trabalho e das a denúncia de que a gestão ocidental fracassou ao com-
organizações. Obviamente, nem todo, nem mesmo a petir com as organizações japonesas habilitou o
maior parte, desse crescente interesse era de “nature- desacoplamento entre gestão e administração/burocra-
za crítica”, e grande parte da análise da gestão realiza- cia. Assim, enquanto o “administrador burocrático”
da nas décadas de 1980 e 1990 simplesmente repro- era demonizado, o gestor [manager] era pintado como
duziu o status icônico da gestão. Por definição, carac- uma figura mítica, rara mistura de brilho carismático
terizar a gestão como estando em ascendência é colo- que não poderia ser rotinizada nem codificada em re-
car uma apreensão grandemente não crítica em seu gras, para depois ser transferida por meio de treina-
valor. Mas, ao mesmo tempo, a mescla da gestão com mento científico. Essa aura de mistificação e glória com
mudanças grandemente contestadas (como a estrutu- a qual os gestores (da espécie correta) são canoniza-
ração do setor público, diminuição de escala, reenge- dos pela literatura popular serviu para aumentar o
nharia cultural) ofereceu um campo fértil para uma poder e o status potenciais da gestão, e forneceu um
apreciação mais crítica da gestão. Certamente, a ges- campo fértil para o estudo crítico (por exemplo,
tão sempre poderia ter sido percebida como uma prá- Willmott, 1993; Du Gay et al., 1996). Entretanto, a
tica política, e não simplesmente como um conjunto japonização também anunciou o começo de uma espi-
neutro de técnicas administrativas, mas o status da ral permanente e mais rápida de modismos (Kieser,
gestão no universo da Nova Direita tornou isso muito 1997). Longe de emergir como um conjunto estável
mais visível. de técnicas confiáveis e estabelecidas, o conhecimen-
Entretanto, o relacionamento entre a gestão e a Nova to e a ciência gerencial mostraram-se fragmentados e
Direita foi mais complexo do que uma simples eleva- instáveis. Para colocar de maneira diferente, se o so-
ção de status da primeira em virtude da influência da nho da gestão no pós-guerra era o estabelecimento de
segunda. Pois, enquanto a gestão ia se constituindo uma ciência gerencial reconhecida nos anos 1980 e
na solução de um conjunto de problemas e assuntos 1990, esse sonho não somente não se realizou, como
discrepantes, tornou-se um problema. Primeiramen- se revelou, com crescente clareza, irrealizável.
te, ficou óbvio que a erosão dos direitos dos sindica- Para os próprios gestores, isso talvez não seja um
tos trabalhistas não acompanhou a nova era de eficiên- assunto palpitante. Entretanto, os modismos das déca-
cia administrativa. Realmente, pode muito bem ter eli- das recentes têm sido uma excelente arma para os acio-
minado apenas uma das desculpas que antes existiam nistas, gestores de fundos e consultores usarem contra
para a incompetência administrativa. Segundo, como os gestores. Os gestores sempre podem ser criticados
exploraremos na próxima seção, a gestão pareceu ca- por serem insuficientemente versados na última técni-
minhar para uma espécie de crise interna, ao mesmo ca, e, sem a legitimação de uma base de conhecimento
tempo em que ganhava proeminência. científico, são vulneráveis aos ataques. Porém, sua falta
de status científico tem sido provavelmente mais pro-
Crise interna da gestão blemática para os acadêmicos do que para os próprios
O livro The Collapse of the American Management gestores. Mas como o ECG é primariamente um fenô-
Mystique [O colapso da mística da gestão americana], meno acadêmico, é razoável afirmar que essa crise in-
de Locke (1996), ilustra bem essa crise. Enquanto as terna da gestão é como que uma das condições para a
práticas da gestão americana (que foram e são a pedra possibilidade da existência do ECG. Embora ainda exis-
angular das práticas administrativas no Ocidente em tam os que afirmem que o surgimento de uma verda-
geral) têm sido consideradas responsáveis pela deira ciência da gestão está logo ali adiante (Koontz,
dominância dos Estados Unidos no pós-guerra, Locke 1980; Kay, 1994), é o clamor de uma minoria, e não
argumenta que tem se tornando cada vez mais claro uma esperança compartilhada por muitos. Uma visão
que não é esse o caso. Especificamente, sugere que, a mais cética sugere que, “[...] o objetivo de uma ‘ciência
partir de 1970, a gestão americana foi considerada da gestão’ integrada, coerente e relevante parece mais
ineficiente em face da competição internacional e in- distante, se assim podemos dizer, do que nos prósperos
ferior às da Alemanha e do Japão. A influência da anos 1950” (Whitley, 1984, p.331).

74 • RAE • VOL. 46 • Nº1

071-086 74 23.01.06, 12:18


VALÉRIE FOURNIER • CHRIS GREY

É o colapso da certeza e da autoconfiança que tor- evidencia sua contingência e a possibilidade de sua
na os gestores e os pesquisadores da gestão, se não reconstrução, segundo diferentes linhas.
receptivos à crítica, pelo menos conscientes das defi-
ciências de sua própria base de conhecimento. Como Reino Unido como um sítio dos ECGs
sugerirmos adiante, isso conduziu a alguns bizarros O engajamento com o não positivismo e com outros
engajamentos em idéias críticas, entre os acadêmicos movimentos relacionados em direção aos ECGs foram
da gestão. mais fortemente percebidos no Reino Unido (e em al-
guns outros países europeus) do que nos Estados Uni-
Positivismo, funcionalismo e ciência social dos, embora muitas condições do neoliberalismo esti-
A maneira como o sonho gerencial de uma ciência fra- vessem presentes em ambos os países. É necessário,
cassou é parte de um assunto maior, relacionado ao então, considerar algumas das condições específicas
enfraquecimento da posição do positivismo e do fun- do trabalho intelectual no Reino Unido. Primeiramente
cionalismo na ciência social. Simplesmente, esse é um não é apenas que os estudos sobre gestão sejam menos
assunto vasto e complexo, que tem implicações maio- positivistas no Reino Unido, mas as ciências sociais em
res do que o estudo da gestão. Pelo menos desde os geral estiveram muito mais abertas aos debates anti-
anos 1950, a noção de que a ciência social poderia ou positivistas. Contudo, é sabido que a sociologia ame-
deveria replicar as ciências naturais (em termos de ricana ainda é dominada por métodos positivistas e
metodologia, provendo leis e previsões) foi posta em que a publicação em periódicos de nomeada requer
questão (por exemplo, Winch, 1958). A posição conformidade a essa filosofia. Dado o rigor dos siste-
positivista sofreu mais um golpe desferido pelo desen- mas de estabilidade nas universidades, a capacidade
volvimento da filosofia da ciência, mais obviamente para o desenvolvimento da sociologia crítica fica li-
daquele associado a Kuhn (1962), que problematizou mitada. Os mesmos argumentos se aplicam, talvez ain-
o suposto objetivismo das próprias ciências naturais. da mais fortemente, ao campo da gestão.
Isso prognosticou a “virada lingüística”, com um re- Além do mais, nos Estados Unidos relativamente
novado interesse na fenomenologia, especialmente pouco se percorreu do caminho da tradição intelectual
depois da publicação de A construção social da realida- radical baseada no marxismo, em contraste com o Rei-
de, de Berger e Luckmann, em 1966. De maneira ge- no Unido e a ciência social européia. Em parte por
ral, essa obra pavimentou o caminho para a fragmen- razões políticas e culturais gerais, em parte por causa
tação das ciências sociais numa série de perspectivas do impacto da guerra fria e do macarthismo, a Acade-
concorrentes (Bernstein, 1976) e, finalmente, para o mia Americana , embora abrigue dissidentes, não lhes
aparecimento da influência, grandemente difundida, exibiu a mesma espécie de acesso aos recursos críti-
do pós-modernismo. cos, facilmente disponíveis aos acadêmicos da gestão,
Esses temas, que delineamos de forma bem colo- quando começaram a desenvolver os ECG. Uma amos-
quial, pois seguramente são muito familiares, afeta- tra disso é a maneira como a tradição weberiana foi
ram as ciências sociais de forma geral, e a sociologia utilizada na teoria americana da organização. Princi-
em particular. Em geral, o estudo da gestão e das orga- palmente em termos de planejamento normativo or-
nizações inspirou-se nas tradições das ciências soci- ganizacional, e não em termos da crítica da racionali-
ais, mas de maneira bastante defasada. Assim, os mé- zação, com a qual está freqüentemente associada no
todos qualitativos apenas recentemente ganharam um Reino Unido.
ponto de apoio para sua legitimidade (Morgan e Portanto, a questão é que as escolas de gestão do
Smircich, 1980), mas houve um crescimento firme no Reino Unido tinham uma tradição crítica pronta em
engajamento com a ciência social não positivista e, um que podiam se inspirar, o que não era tão verdadeiro
tanto quanto retardatariamente, com o pós-modernis- nos Estados Unidos. O ímpeto de se inspirar nessas
mo (por exemplo, Hassard e Parker, 1993). Muito tradições é também parcialmente explicável em termos
embora uma rejeição do positivismo não seja automa- das condições específicas que prevaleciam no Reino
ticamente um movimento em direção à crítica (da Unido. Um dos impactos da Nova Direita nas univer-
mesma forma que ser positivista não é automaticamen- sidades britânicas foi o corte radical no financiamen-
te estar desprovido de senso crítico), existe certa liga- to das ciências sociais. Tal qual no assunto da geren-
ção entre essas coisas. Pelo menos, o reconhecimento cialização, isso ocorreu em parte por causa do corte
da natureza socialmente construída dos arranjos sociais de custos, mas também em função de uma percepção

JAN./MAR. 2006 • RAE • 75

071-086 75 23.01.06, 12:18


RAE-CLÁSSICOS • NA HORA DA CRÍTICA: CONDIÇÕES E PERSPECTIVAS PARA ESTUDOS CRÍTICOS DE GESTÃO

de que os departamentos de sociologia eram locais de ciências sociais, de tal forma que houve uma razão
militância do esquerdismo. Nessas circunstâncias, muito maior para inspirar-se naquelas tradições das
muitos daqueles que seguiriam a carreira das ciências ciências sociais.3 O que talvez tenha sido crucial é que
sociais nos anos 1980 encontraram mais oportunida- a demora na expansão das escolas de administração no
des de financiamento e de trabalho nas escolas de ges- Reúno Unido significou que a ortodoxia positivista dos
tão. Contudo, ao seguirem por esse rumo, levaram anos 1950, que informou o crescimento das escolas de
consigo um comprometimento com as tradições de sua administração norte-americanas, foi questionada, de
primeira escolha, complementando assim a fertiliza- forma que as escolas de administração do Reino Unido
ção cruzada já existente entre os estudos sobre gestão provavelmente tornaram-se mais aptas a se nutrir da
e a ciência social criticamente orientada. Poder-se-ia ciência social não positivista.
dizer que isso é mais evidente em disciplinas organi- É claro que não tencionamos desenhar um quadro
zacionais (por exemplo, Clegg e Dunkerley, 1977) do das escolas de Administração do Reino Unido como sen-
que em outras, embora tenha havido, por outro lado, do incubadoras do fervor revolucionário, nem como
um vigoroso florescimento de contabilidade crítica a sendo, em geral, inclinadas à ciência social não positi-
partir dos anos 1970 pelas mesmas razões. Além dis- vista. Ao contrário, a maioria do trabalho de pesquisa
so, muitos acadêmicos críticos da gestão estão entre empreendido por essas escolas se inspirou nas versões
os pesquisadores mais produtivos, em termos de pu- positivistas da economia ou da psicologia, muitas ve-
blicações em periódicos acadêmicos tradicionais, e isso zes na sua forma mais crua (Anthony, 1986). Os méto-
conferiu um impulso considerável à sua legitimidade, dos quantitativos tornaram-se dominantes, e, ideologi-
quando essa medida de produção se tornou fundamen- camente, pouca dúvida existe de que a orientação ge-
tal, a partir dos anos 1990. rencial prevaleça. Em nossa opinião, assim como exis-
Houve outras circunstâncias específicas particular- tiam algumas condições que indicavam um rumo dife-
mente auspiciosas para os ECGs, no Reino Unido, ao rente, também as práticas de gestão, nos anos 1980,
lado de um clima em que as tradições críticas eram assumiram como que um caráter de Jano,*** entre a pa-
mais disponíveis. Nos Estados Unidos, havia escolas nacéia e a crise. Houve então acadêmicos que tiveram
de administração desde os fins do século XIX. Entre (em parte por escolha própria, em parte por necessida-
as conseqüências da Segunda Guerra Mundial, houve de) interesse em gestão e (em função de treinamento
uma tentativa de recriar essas escolas com um funda- ou predisposição) se inclinaram à análise crítica.
mento científico rigoroso e tornar o nível da pesquisa
em gestão mais alto, isto é, mais científico (Locke,
1989, 1996; Thomas, 1997). Muitas escolas de negó- O QUE É ESSA COISA CHAMADA CRÍTICA
cios americanas tinham um contato limitado com as
faculdades de ciências sociais. No Reino Unido, ao Até agora estivemos falando como se o significado de
contrário, não havia escolas de administração até os crítica fosse auto-evidente. De certa maneira, ao nível
anos 1960, e a partir daí, apenas duas (Whitley et al., mais básico, estar engajado nos estudos críticos de ges-
1981). Nos anos 1980, porém, a maior parte das uni- tão significa dizer que existe algo de errado com a gestão,
versidades desenvolveu uma escola de administração enquanto prática e corpo de conhecimento, e que isso
ou gestão. A administração se tornou o curso de gra- deve ser mudado. O que nos leva muito longe, porque
duação mais popular, e as providências para o MBA muito do trabalho realizado sobre gestão se encaixa
cresceram rapidamente. Esse desenvolvimento refle- nessa definição4 sem ser crítico, na maneira definida por
tiu o cenário e a visão ideológica mutante do que as aqueles que se subscrevem nos ECGs. Parece que na
universidades deveriam ser, e também forneceu às prática não temos dificuldade de distinguir, no campo
universidades uma fonte de renda em face do congela- da gestão, um trabalho crítico de um não crítico. Mas
mento das despesas e dos cortes. como? Que gramática ou que identificadores nos per-
Um efeito dessa expansão foi criar demanda para mitem fazer essa distinção?
docentes de inclinação acadêmica, abrindo a possibi- Uma resposta óbvia encontra-se na natureza e na
lidade de cientistas sociais encontrarem um novo em- pluralidade das tradições intelectuais da ciência social,
prego nessas escolas. Mas a outra questão era que es- invocadas pelos acadêmicos críticos da gestão. Ela
sas novas escolas de administração foram muitas ve- envolve uma grande amplitude de posições, incluindo
zes configuradas como parte dos departamentos de o neomarxismo (teoria do processo de trabalho; teo-

76 • RAE • VOL. 46 • Nº1

071-086 76 23.01.06, 12:19


VALÉRIE FOURNIER • CHRIS GREY

ria crítica da Escola de Frankfurt; “teoria da hegemo- tenção performativa (Lyotard, 1984), aqui, significa a
nia” de Gramsci), o pós-estruturalismo, o descons- intenção de desenvolver e celebrar o conhecimento que
trucionismo, a crítica literária, o feminismo, a psica- contribui para a produção do máximo output [saída]
nálise, os estudos culturais, o ambientalismo. Mais com o mínimo input [entrada], envolvendo o registro
recentemente, abordagens como o pós-colonialismo e do conhecimento dentro dos cálculos meios-fins. O
a queer theory**** tiveram algum impacto, embora li- estudo de gestão não crítica é governado pelo princí-
mitado, sobre os estudos de gestão. Portanto, os ECGs pio da performatividade que serve para subordinar
são em parte constituídos por um processo de inscri- conhecimento e verdade à produção de eficiência. No
ção dentro de uma rede de outras inscrições que ser- estudo de gestão não crítica, a performatividade é to-
vem para criar pontos de passagem obrigatórios em mada como um imperativo, em direção ao qual todo o
termos de trabalho referenciado e vocabulário, ou con- conhecimento e prática deve ser guiado e não exige
ceitos usados em análises. questionamento. Em outras palavras, o objetivo é con-
Porém, o pluralismo teórico dos ECGs e o fato de tribuir para a eficiência da prática de gestão, ou cons-
que não há posição “crítica” unitária significa que não truir um modelo melhor, ou entender acerca dele. A
existe uma única maneira de separar o crítico do não gestão é entendida como um dado, e um dado desejá-
crítico. Por exemplo, alguns teóricos do processo de vel, e não é interrogada, exceto quando isso possa con-
trabalho consideram várias formas do pós-modernis- tribuir para a melhoria de sua eficiência. O trabalho
mo incapazes de gerar crítica real (por exemplo, crítico não é performativo nesse sentido, muito em-
Thompson, 1993). O trabalho psicanalítico, e huma- bora possa ter alguma intenção de desempenho, como
nista em geral, pode considerar-se apto a oferecer uma conquistar um mundo melhor ou terminar a explora-
base para a crítica e a reforma que os pós-estruturalis- ção. Os ECGs questionam o alinhamento entre conhe-
tas rejeitam como disciplinar (Rose, 1989). Por essas cimento, verdade e eficiência (um ponto ao qual re-
e por outras razões, muitos dos que poderiam ser iden- tornaremos em breve), e está interessado na perfor-
tificados com os ECGs rejeitariam esse rótulo. Além matividade apenas enquanto ela procura descobrir o
disso, o termo “crítica” é desenvolvido para articular que está sendo feito em seu nome.
diferentes divisões. Para alguns o termo crítica é re- Uma maneira pela qual a demarcação entre não
servado para o trabalho inspirado na Escola de Frank- performatividade e performatividade, crítica e não crí-
furt e contrasta com a análise pós-moderna (Alvesson tica é mediada e pode ser reconhecida baseia-se no lé-
e Deetz, 1996), enquanto, para outros, os estudos crí- xico dos conceitos desenvolvidos nos diferentes esti-
ticos de gestão são usados (de uma maneira afrontosa) los de trabalho. Por exemplo, a invocação de noções
para referir-se à análise pós-moderna (Anthony, 1998). como poder, controle e desigualdade exprime tipica-
No meio dessa confusão ao distinguir diferentes tra- mente alguma forma de abordagem crítica, enquanto
balhos sob vários rótulos, deveríamos deixar claro que eficiência, efetividade e lucratividade não o fazem.
usamos o termo ECG num sentido amplo para abarcar Claro, muito depende de como os termos são usados.
mesmo uma pluralidade de tradições intelectuais Por exemplo, o recurso a um conceito como gênero
conflitantes, inclusive alguns autores que rejeitariam pode ocorrer tanto num trabalho crítico como num
o rótulo ECG. Embora o pluralismo dos ECGs e a ex- não crítico. Num trabalho não crítico, o assunto po-
tensão dos dissidentes acerca da inclusão sejam fatos deria ser o de aproveitar a diversidade na busca da efe-
que sugerem que não existe uma maneira definitiva tividade; aqui, tópicos de desigualdade de gênero são
de traçar limites entre o trabalho crítico e o não críti- traduzidos em problemas de recursos desperdiçados;
co, os limites são, a despeito de tudo, traçados e reco- e a oportunidade igualitária é promovida sobre o fun-
nhecidos pelos tipos de trabalhos referidos pelos au- damento performativo (por exemplo, Davidson e
tores. Sugerimos que os limites sejam definidos em Cooper, 1992). O trabalho não crítico considera o gê-
torno de assuntos relacionados a performatividade, nero como um repositório “dado” de diferenças. As
desnaturalização e reflexividade. perspectivas críticas podem concentrar-se na feitura
de diferenças de gênero e no modo como as práticas
Intenção (não) performativa organizacionais, inclusive as práticas de igual oportu-
O limite mais óbvio pareceria estar situado entre o tra- nidade, estão implicados na reprodução das relações
balho sobre gestão que possui uma intenção ou pre- de poder baseadas no gênero (por exemplo, Acker,
missa performativa e aquele que não o tem. Uma in- 1992; Halfourd et al., 1997).

JAN./MAR. 2006 • RAE • 77

071-086 77 23.01.06, 12:19


RAE-CLÁSSICOS • NA HORA DA CRÍTICA: CONDIÇÕES E PERSPECTIVAS PARA ESTUDOS CRÍTICOS DE GESTÃO

O exemplo do gênero introduz outro marco na fron- classe. Em segundo lugar, alguns críticos (notavelmen-
teira entre o trabalho crítico e o não crítico. Este últi- te, mas não exclusivamente, os marxistas) argumentam
mo se relaciona com o comprometimento de que o que é escrito é realidade, enquanto outros (muito
desnaturalização que, na nossa visão, distingue os obviamente pós-estruturalistas) se contentam em des-
ECGs. Sugerimos que o que talvez una as disparata- tacar a possibilidade de perceber a gestão e as organiza-
das contribuições dos ECGs seja a tentativa de expor ções de maneiras alternativas, sem conferir prioridade
e reverter o trabalho da teoria de gestão da corrente ontológica a essas percepções. Contudo, sem querer
majoritária. suavizar as diferenças teóricas substantivas (e retor-
naremos a esses assuntos num momento futuro), pare-
Desnaturalização ce que tais projetos têm mais em comum entre si do
Se concebermos a teoria de gestão do século XX como que com relatórios sobre gestão, que supõem ou procu-
envolvida num duplo movimento de construção da ram justificar as relações sociais e organizacionais exis-
realidade e da racionalidade organizacional, enquanto tentes como naturais e/ou inevitáveis.
oculta o processo de construção sob uma máscara de Esse comprometimento com a desnaturalização su-
ciência e “naturalidade”, podemos conceber os ECGs gere que os ECGs não são estáticos. Estão sujeitos a
como engajados num projeto de desfazer esse traba- deslocamentos e revisões, tanto em relação à amplitu-
lho, de desconstruir a “realidade” da vida organiza- de das tradições e teorizações que invocam quanto em
cional, ou a “verdade” do conhecimento organizacio- relação aos deslocamentos na natureza das práticas e
nal ao expor sua “não naturalidade” ou irracionalidade. do conhecimento administrativo. O comprometimen-
Os ECGs dizem respeito à “desnaturalização” (Alvesson to dos ECGs com a crítica por meio da desnaturalização
e Willmott, 1996). os coloca em movimento contínuo, pois a crítica tem
Enquanto nas teorias de gestão da corrente majori- que seguir as práticas que constituem seus alvos e hau-
tária se invocam vários “imperativos” (como a globali- rir-se promiscuamente de uma pluralidade de tradi-
zação, a concorrência) para legitimar um curso de ação ções intelectuais, para lançar e aperfeiçoar seus ata-
e sugerir (implícita ou explicitamente) que “não há al- ques. Os ECGs envolvem perpétua crítica (Deetz e
ternativas”, os ECGs estão comprometidos com o des- Mumby, 1990), inclusive a crítica de si mesmo,
cobrimento das alternativas que têm sido eliminadas implicada por sua ênfase sobre reflexibilidade.
pelo conhecimento e pela prática administrativa. Seja
concebido em termos de uma ideologia que reproduz Reflexibilidade
certas ilusões de direção (Skillen, 1977), seja em ter- Isso nos conduz a uma linha final de demarcação entre
mos de discursos historicamente contingentes, os ECGs o trabalho crítico e o não crítico: os ECGs talvez pos-
estão interessados com a proposição de que as coisas sam ser diferenciados em termos da extensão de sua
podem não ser como parecem, mesmo que as razões reflexibilidade filosófica e metodológica. Não que os
dadas para isso difiram tanto ontológica quanto politi- estudos de gestão, na corrente majoritária, sejam
camente. Nos anos 1970, quando Stewart Clegg e ou- positivistas enquanto os ECGs não o seriam. Mas o
tros começaram a articular uma agenda crítica para a positivismo da corrente majoritária raramente é discu-
teoria da organização, destacaram que, “nossos ‘assun- tido e defendido explicitamente (veja Donaldson, 1996,
tos’ – sexismo, poder, desenvolvimento capitalista [...] como uma rara exceção). Em geral, alguma versão (um
ainda não constam dos índices da maioria dos textos tanto quanto fraca) do positivismo é simplesmente su-
sobre organizações. Esperamos remediar esse estado de posta, não existindo nenhuma reflexão explícita sobre
coisas ao colocar essa ausência como problemática” epistemologia e ontologia, e a discussão sobre metodo-
(Clegg e Duncaerley, 1977, p. 2). logia acaba limitada a assuntos restritos a assuntos de
É esse interesse em registrar o que tinha sido escrito método e de técnica estatística (Ackroyd, 1996).
por extenso que parece ligar muitos textos críticos so-
bre gestão que de outra forma pareceriam diversos. Se-
guramente, esse interesse pode ser percebido de formas AS POLÍTICAS DOS ECGS
diferentes. Em primeiro lugar, as críticas podem não
concordar sobre o significado relativo daquilo que é Num nível básico, os ECGs são um projeto político,
escrito. Para uns, a degeneração da gestão pode parecer no sentido de almejar o desmascaramento das relações
o mais importante; para outros, o desaparecimento da de poder em torno das quais a vida social e organiza-

78 • RAE • VOL. 46 • Nº1

071-086 78 23.01.06, 12:19


VALÉRIE FOURNIER • CHRIS GREY

cional está tecida. Além disso, a noção de emancipa- poder. Parker (1992) sumariza esse criticismo ao su-
ção (Alvesson e Willmott, 1992b), embora imaginada, gerir que no texto pós-moderno “os problemas de in-
figura proeminentemente nas várias tradições intelec- divíduos (fictícios) em organizações (míticas) são co-
tuais que dão forma aos ECGs (sejam elas o feminis- locados em segurança, atrás de uma cobertura filosó-
mo, as teorias neomarxistas, o pós-estruturalismo). fica (duplamente envidraçada), e seus gritos são tra-
Existe um comprometimento para libertar sujeitos in- tados como exemplos interessantes de discurso”
dividuais das relações de poder em que estão inseri- (Parker, 1992, p. 11).
dos, inclusive sua própria subjetividade (Knights e Autores mais condescendentes com o “pós-moder-
Willmott, 1989). Porém, o modo como essas relações nismo” (por exemplo, Knights, 1995) têm-se defendi-
de poder devem ser concebidas, desembaraçadas e sub- do desses ataques. As refutações-chave são, primeiro,
vertidas têm sido assunto de muita controvérsia den- que o dualismo entre o material e o discursivo, invo-
tro dos ECGs, controvérsias que espelham a fragmen- cado na crítica marxista, é inválido porque reduz a
tação geral das ciências sociais. noção pós-moderna de discurso à linguagem (isso se-
Os ECGs estão dilacerados pelas diferentes posições ria uma má interpretação). O discurso refere-se tanto
ontológicas e epistemológicas das diversas tradições às práticas lingüísticas quanto às materiais, como foi
intelectuais nas quais se inspiram. Mas é talvez ao ní- ilustrado no trabalho de Foucault (1979), por exem-
vel político que essas diferenças são expressas mais plo. Em segundo lugar, para alguns escritores, o
ferozmente (não que a política possa ser separada da relativismo epistemológico e ontológico do pós-mo-
epistemologia ou da ontologia). Em vez de tentar de- dernismo oferece um amistoso refúgio às grandes nar-
linear um projeto político comum vago, articulamos rativas totalizantes do modernismo crítico, sejam a
os tópicos em torno dos quais as políticas dos ECGs teoria crítica ou a teoria do processo de trabalho, que
têm sido contestadas, sobretudo a contestação sobre propõem substituir um tipo de absolutismo
realismo/relativismo, e aquela acerca do engajamento (performatividade) por outro. E os “discursos aparen-
com a prática administrativa. temente emancipatórios podem ser, ou vir a ser, uma
fórmula de dominação normalizadora e disciplinante”
Realismo/relativismo (Willmott, 1996a, p.115).
Talvez os argumentos mais clamorosos coloquem em Porém, o debate tem ido cada vez mais além dessas
antagonismo o entendimento materialista de poder, polarizações, de forma que alguns escritores críticos
baseado na análise marxista, com o entendimento têm procurado construir ou reconstruir uma forma de
discursivo das relações de poder, inspirado no pós-mo- crítica que nem reafirma dogmaticamente a primazia
dernismo. Ambas as vertentes da discussão foram bem do realismo neomarxista nem abraça a ironia estética
ensaiadas (confira Thompson, 1993; Knights e e o niilismo moral de algumas versões do pós-moder-
Vurdubakis, 1994; Thompson e Ackroyd, 1995 versus. nismo. A tentativa de separar a ligação lógica entre o
Knights, 1995), e aqui fornecemos apenas uma breve relativismo epistemológico e o relativismo moral ou
descrição da polêmica para examinar suas implicações político tem sido um motivo central para certos escri-
políticas. De acordo com a linha neomarxista, a análise tores que buscam reintroduzir a crítica com algum grau
pós-moderna5 é politicamente inepta, irresponsável e de engajamento político (Willmott, 1994a; Parker,
perigosa; seu relativismo epistemológico e ontológico 1985; Grey, 1996a). Aqui, o interminável “lutar con-
inevitavelmente conduz ao niilismo moral (Thompson, tra”, implicado pela crítica permanente, é considera-
1993). Argumenta-se que, ao considerar a linguagem do insuficiente e deveria ser acrescido de algum com-
como construtora, e não como refletora da realidade, prometimento com uma ordem “melhor” e com algu-
o pós-modernismo reduz todas as experiências sociais ma “microemancipação” (Alvesson e Willmott, 1992b;
– inclusive experiências de exploração, exclusão e Parker, 1995), embora essas visões possam ser locais,
dominação – a efeitos lingüísticos que podem ser vo- pequenas e modestas. O desafio é encontrar “um local
luntariamente descartados recambiando os recursos provisório e contingente para uma crítica radical eti-
discursivos sobre os quais nos inspiramos. A análise camente fundamentada” (Grey, 1996a, p. 593). Poder-
pós-moderna é acusada de não possuir nenhuma mar- se-ia dizer, entretanto, que outros argumentam que
gem crítica ou política na qual negue que as histórias qualquer tentativa de reconciliar o relativismo episte-
de exploração são mais verdadeiras, válidas ou reais mológico com algumas visões morais é fútil e hipócri-
do que as histórias construídas pelos que abusam do ta (Carter, 1995; Jackson, 1995). A crítica permanen-

JAN./MAR. 2006 • RAE • 79

071-086 79 23.01.06, 12:19


RAE-CLÁSSICOS • NA HORA DA CRÍTICA: CONDIÇÕES E PERSPECTIVAS PARA ESTUDOS CRÍTICOS DE GESTÃO

te, inclusive a crítica de uma promesse de bonheur [pro- pantes dessas conferências não estivessem a par dos
messa de felicidade], é tudo o que poderíamos fazer, assuntos ali tratados. (ANTHONY, 1998, p. 270).
em face do pós-modernismo, muito embora essa limi-
tação possa ser dolorosa. Há também uma preocupação de que, enquanto os es-
Essas várias polêmicas, entre neomarxistas e pós- critores estejam a torturar-se sobre os termos de suas
modernistas, entre aqueles que buscam reconciliar o críticas e sobre sua própria posição dentro da crítica, se
relativismo epistemológico com alguma forma de com- elimine do texto o gestor ou o membro organizacional
prometimento ético e aqueles que argumentam em fa- como sujeito de interesse. O problema da posição do
vor de uma crítica permanente, tiveram algumas im- autor no texto e os interesses com a reflexibilidade ten-
plicações importantes. Não apenas por articularem as dem a privilegiar a voz do autor, enquanto os sujeitos
diferentes políticas que os ECGs podem engajar, mas da vida organizacional são eliminados ou mantidos à
também ao encorajarem um grau maior de reflexivi- distância pelo jargão esotérico adrede preparado (Clegg
dade nos textos de ECG. Esses debates levaram os e Hardy, 1996). Assim, para alguns, os ECGs estão em
autores dos ECGs a questionarem os fundamentos da perigo de se desengajar da gestão e das práticas organi-
crítica, os direitos e habilidade de criticar, e os aler- zacionais, em perigo de tornar-se um fórum para o exer-
taram sobre a natureza paradoxal e ridícula de suas cício da indulgência acadêmica.
posições chegando a confiscar a voz daqueles em nome Porém, em nossa visão, seria injusto e inverídico
de quem falavam. Esses debates certamente foram pro- reduzir os ECGs a algum intelectualismo obscuro que
vocadores e serviram como um “esmeril para afiar a recuse engajar-se em qualquer coisa que não seja o
crítica” (Parker, 1995, p. 562). intercâmbio hermético consigo mesmo.6 Uma coisa é
certa: pode muito bem ser necessário haver um perío-
Engajamento versus desengajamento do inicial de “debate interno” entre acadêmicos, como
Porém, há alguma impaciência com esse debate, e exis- prelúdio para o desenvolvimento de formas mais
tem inquietudes no sentido de que essa preocupação engajadas na prática. Além disso, e contrariamente ao
com os fundamentos e a “retidão” de nossa crítica está que disse Anthony (1998), houve um debate aberto e
nos desviando do engajamento com práticas organi- rigoroso sobre como o ECG poderia e deveria infor-
zacionais e participantes (por exemplo, Anthony, mar a educação sobre gestão (ex. Willmott, 1994b;
1998). Isso nos conduz a uma segunda linha de ten- Grey e Mitev, 1995; French e Grey, 1996; Grey, 1996b;
são nos ECGs que separa os que gostariam de ver a Reynolds, 1997; Thomas, 1997). A educação da ges-
crítica sendo orientada pragmaticamente dos que são tão, apesar de tudo, é a arena mais imediata onde os
acusados de serem indulgentes com o elitismo inte- ECGs talvez possam influenciar a prática administra-
lectual. Os ECGs, especialmente sua versão pós-mo- tiva. E não há dúvida, a partir dessa literatura, de que
derna, são acusados de reduzir a crítica a alguns inter- muitos acadêmicos críticos da gestão estejam ativa-
câmbios obscuros entre intelectuais, conduzidos atrás mente desenvolvendo pedagogias congruentes com o
das portas fechadas das conferências acadêmicas onde projeto crítico. Certamente, existem cismas aqui, veja-
os pesquisadores podem expor, em préstito, a sua crí- se Gray e Mitev (1995) argumentando em favor de um
tica e ponderar acerca de sua verossimilhança: desacoplamento entre educação de gestão e gestores.
Porém, como enfatiza Thomas (1997), é improvável
Que forma essa educação necessária sobre gestão deve- realizar isso a curto prazo, e a maior parte da literatu-
ria tomar e qual deveria ser o seu propósito? Essas per- ra procura identificar uma aproximação entre “prag-
guntas, onde quer que sejam debatidas, são levantadas matismo” e “purismo”. A esse respeito, os debates acer-
fora das agendas oficiais das escolas de negócios e de ca de educação para a gestão são um subconjunto das
gestão, fora da pista, em conferências e seminários pe- questões mais amplas que afetam os ECGs. Aqui, pin-
quenos, mas de elite, os quais provavelmente não serão tamos um quadro polarizado e caricatural de duas
notados pelos diretores e seus planejadores de progra- posições conflitantes, reconhecendo que poucos sin-
mas. A natureza um tanto sombria das discussões con- ceramente abraçariam qualquer uma delas, antes fariam
tribui para uma excitação perigosa. Isso porque há um um malabarismo desconfortável com ambas.
consenso de que a educação para a gestão não deve de A primeira posição é de que os ECGs deveriam con-
forma alguma ser concebida como algo útil, e que, por- tribuir para a promoção e o desenvolvimento de for-
tanto, melhor seria que os empregadores dos partici- mas mais humanas de gestão. Dessa perspectiva, os

80 • RAE • VOL. 46 • Nº1

071-086 80 23.01.06, 12:19


VALÉRIE FOURNIER • CHRIS GREY

ECGs não são “antigestão”, mas almejam transformar ser ofensivo, ou “urinar em público” (Burrell, 1993).
a gestão, para promover formas menos irracionais e Essa relutância em se engajar num diálogo com gesto-
socialmente desagregadoras de teorias e práticas de res ou pesquisadores de gestão pertencentes à corrente
gestão (por exemplo, Watson, 1994; Alvesson e majoritária não é um distintivo de esnobismo intelec-
Willmott, 1996; Grey, 1996b; Anthony, 1998): tual, mas um ato político: “o diálogo é a arma do pode-
roso” (Burrell, 1996, p. 650), e um intercâmbio com
A teoria crítica (TC) não é inerentemente ou infatiga- praticantes e teóricos de gestão traz o risco de corrom-
velmente “antigestão”. O intento da TC não é ser in- per a crítica, porque os conceitos e os interesses do ECG
dulgente com o projeto utópico de eliminar a hierar- são apropriados pelo esgazeado olhar performativo da-
quia, de remover divisões especializadas de trabalho quilo que Burrell (1996) chama NATO (North American
ou até mesmo de abolir a separação da gestão e de theory of organization). Teme-se que o engajamento, lon-
outras formas de trabalho. Ao contrário, sua aspiração ge de deslocar a ortodoxia, vá transformar os ECGs
é incentivar o desenvolvimento de organizações em que noutro “kit de ferramentas” para os gestores, que, equi-
as comunicações e o potencial produtivo sejam progres- pados com um melhor entendimento das relações de
sivamente menos distorcidos por relações de poder so- poder nas organizações, possam organizar recursos
cialmente opressivas e assimétricas. (ALVESSON e discursivos para avançar a sua dominação com uma le-
WILLMOTT, 1996, p. 18). gitimidade adicional e credos intelectuais fornecidos
pela referência aos altos teóricos de Frankfurt ou Paris:
Embora exista uma controvérsia quanto ao fato de a
gestão poder ou dever ser transformada, existe também Os gestores geralmente responsáveis pelas organiza-
uma ênfase compartilhada acerca do engajamento no ções têm o interesse de preservar as relações hierár-
diálogo com os que praticam a gestão e os teóricos da quicas correntes. Quanto mais aprendem que o discur-
corrente majoritária (Watson, 1994; Anthony, 1998). so atua como uma fonte de controle, mais aumentam
De acordo com essa linha de discussão, a gestão está sua habilidade de distorcer a comunicação com o obje-
mesclada com relações morais, decisões e atividades, e tivo de legitimar e avançar suas próprias vantagens nas
os gestores deveriam ser moralmente educados. Porém, organizações. De fato, a CSS [critical social science –
pelo menos para alguns (por exemplo, Anthony, 1998), ciência social crítica] pode ser especialmente útil para
essa educação moral deveria suspender a crítica, ou a essa finalidade. (NORD e JERMIER, 1992, p. 214).
pregação de valores emancipatórios, e começar por um
entendimento indulgente da prática administrativa. Embora a posição “antiengajamento” identifique cor-
Porque se as relações morais estão incrustadas no pro- retamente os perigos da colonização, parece supor que
cesso administrativo devemos aprender com aqueles que a “gestão” está unida numa conspiração contra “o que
o praticam. Isso sugere um engajamento num intercâm- é gerido”. Tal pressuposto desconsidera as várias divi-
bio [...] esse intercâmbio depende tanto da sanção do sões (organizacionais e sociais) que fragmentam a
discípulo quanto da autoridade do douto (Anthony, “gestão” (Parker, 1997), e que podem aproximar al-
1998, p. 279). guns gestores, mais do que outros, das alegações
A segunda posição adotada pelos ECGs é de um de- emancipatórias dos ECGs. Certamente seria incorre-
sengajamento mais ou menos completo da prática ad- to considerar os gestores como um grupo homogê-
ministrativa. Aqui, uma recusa em engajar-se em con- neo. E há aqui o perigo de os ECGs, ao considerarem
versações lenientes ou em propor “melhores modelos os gestores dessa forma, meramente projetem todo o
de gestão” constitui a verdadeira força e integridade da “mal” sobre eles. Não obstante, assim fazendo igno-
política dos ECGs. O argumento é de que a gestão é ram não somente a heterogeneidade dos gestores, mas
irredimivelmente corrupta, já que sua atividade está também o fato de os próprios gestores serem geren-
inscrita nos princípios performativos que os ECGs pro- ciados (Watson, 1997), e a capacidade dos gestores
curam desafiar. Assim, os ECGs são expressamente para a atuação moral (Watson, 1994).
“antigestão”: sua tarefa não é reformar a gestão em di- Ainda que os últimos comentários possam sugerir
reção a alguma atividade mais humana ou eticamente que o engajamento deve ser preferido ao desengaja-
concebida, mas solapá-la (e talvez finalmente, e inge- mento, continua sendo verdade que o engajamento
nuamente, destroná-la) por meio da crítica. Talvez o coloca alguns dilemas reais. Prontamente se presta ao
principal ponto da crítica aqui seja chocar, provocar e comprometimento dos recursos dos ECGs na busca de

JAN./MAR. 2006 • RAE • 81

071-086 81 23.01.06, 12:20


RAE-CLÁSSICOS • NA HORA DA CRÍTICA: CONDIÇÕES E PERSPECTIVAS PARA ESTUDOS CRÍTICOS DE GESTÃO

“melhor gestão”, muito embora de forma modesta. O sua vez, é provável que isso conduza, pelo menos até
ECG, ou simplesmente o termo crítico, está sendo cada certo ponto, à suavização dos conceitos críticos e dos
vez mais invocado como uma espécie de nova aborda- projetos emancipatórios, como já é evidente, por exem-
gem aos estudos da gestão, e utilizado com pouca aten- plo, nas tentativas de reivindicar uma reaproximação
ção às complexidades ou intenções de seus fundamen- entre o marxismo e estilos pós-burocráticos de gestão
tos teóricos. Podemos ser acusados, talvez com algu- (Aktouff, 1992), ou nos livros-textos sobre pós-mo-
ma justiça, de criar uma linha entre o que é “realmen- dernismo e gestão (por exemplo, Boje et al., 1996).
te” crítico e o que é “pretensamente” crítico. Muito Enquanto a questão da desejabilidade e da possibi-
embora existam alguns fundamentos para isso, tal se- lidade de engajamento com a prática administrativa
paração é secundária para a nossa intenção mais ana- continuar a ser uma das principais clivagens nos ECGs,
lítica: não é interessante e significativo que a crítica talvez valha a pena concluir que boa parte do debate
deva ser invocada dessa maneira? tem sido peculiarmente parcial. Isso porque o engaja-
Para se ter uma idéia da “infiltração” do conceito de mento é apresentado como sendo com a gestão (daí os
“crítica” na corrente majoritária, considere-se a confe- temores de corrupção, etc.). Contudo, os ECGs ape-
rência de 1996 da Britich Academy of Management nas começaram a considerar os engajamentos com o
(BAM). Esta alardeou, pela primeira vez, uma corrente gerenciado, 7 com os sindicatos, com os grupos de
de “pensamento crítico” que incluía, entre outras coi- mulheres e, por assim dizer, com quem possa, discuti-
sas, vários artigos que examinavam a eficiência do de- velmente talvez, ser uma clientela mais óbvia para esse
senvolvimento da gestão baseada em competências e empreendimento. Quebrar a ligação entre os estudos
nas NVQs (National Vocational Qualifications). Um de gestão e a necessidade da gestão não implica o tipo
artigo almejava esclarecer a academia sobre a maneira de lacre hermético, intelectualismo auto-referido, que
como “as qualificações vocacionais da gestão podem Peter Anthony e outros têm criticado.
encorajar o desenvolvimento de habilidades transferí-
veis por meio de aprendizado empírico” (Bedward e
Rexworthy, 1996). Outro artigo propunha “disseminar CONCLUSÃO
a melhor prática na educação de graduação” com base
nas descobertas do exercício da Teaching Quality Audit Descrevemos os ECGs como uma área fragmentada, fra-
(TQA) [Auditoria sobre a Qualidade do Ensino] turada por múltiplas linhas divisórias que de maneira
(Gennard e McKiernan, 1996). geral reproduzem as divisões das ciências sociais. É
Em termos dos tópicos de performatividade, importante enfatizar que não vemos essas divisões como
desnaturalização e reflexividade que identificamos an- demarcações claras de “campos” ou de posições fixas
teriormente como indicadores dos ECGs, é difícil ver dentro dos ECGs. São apenas linhas definidoras de mo-
muita coisa crítica nesses artigos. Além do mais, é no- vimentos, discussões e alianças cambiantes que consti-
tável como se tornou lugar-comum invocar a aura do tuem o verdadeiro ângulo crítico dos ECGs, pois são
pós-modernismo de maneira a manter escassa semelhan- essas polêmicas que permitem a dúvida, o questiona-
ça com o trabalho de, digamos, Baudrillard, Lyotard ou mento e a reflexão que alimentam e sustentam a crítica.
Kristeva. Por exemplo, um dos artigos da BAM de 1996 Também sugerimos que, assim como há questões subs-
afirmava que Mintzberg, Peters e Ohmae representam tantivas em suspenso entre as diferentes posições dos
“posições teóricas pós-modernas” que servem para ECGs, também é possível ver essas diferenças como
reconceitualizar a gestão estratégica como uma mescla coisas menos importantes do que aquelas entre os ECGs
ardilosa de ações espontâneas e caóticas (Joyce e Woods, e a gestão não crítica. Seguramente, se é que vai haver
1996). Outro artigo inspira-se numa análise pós-estru- algum futuro para os ECGs como “movimento” – qual-
turalista da linguagem para sugerir que os gestores de- quer que seja –, então seria mais importante criar
veriam aperfeiçoar sua prontidão e uso da linguagem alianças entre marxistas e pós-estruturalistas (para ci-
para desenvolver seu entendimento cultural. tar a principal divisão) do que degenerar em escaramu-
Podemos esperar que esse desenvolvimento ainda ças recônditas acerca de diferenças.
modesto dos conceitos e recursos teóricos dos ECGs Terminamos a seção prévia com o exame do signifi-
se torne mais difundido como a pressão para publica- cado político dos ECGs, e é a esse tópico que retorna-
ção, e que a reputação acadêmica atraia mais pesqui- mos aqui. Nossa análise pintou os ECGs numa situa-
sadores para explorar recursos ainda inexplorados. Por ção difícil. Para resumir: será que devemos conservar

82 • RAE • VOL. 46 • Nº1

071-086 82 23.01.06, 12:20


VALÉRIE FOURNIER • CHRIS GREY

nossa crítica para nós mesmos e simplesmente sabo- fundamentam. Testemunhando a apropriação da “críti-
rear o prazer estético com que o ato de escrever criti- ca” por formas tão extensivas que o seu sentido se torna
camente pode nos regalar (ou sofrer em silêncio pela indistinguível daquele que era antigamente o alvo da crí-
nossa inaptidão em fazer a diferença)? Ou devemos tica, fica-se tentado a considerar morto o rótulo Estudo
advogar a causa dos oprimidos com o risco de fazer Críticos de Gestão. Porém, deixando os rótulos de lado,
maiores contribuições à sua dominação ao deixarmos apesar de todas as dificuldades que a acompanham, não
que nossa crítica seja apropriada e traduzida em “co- gostaríamos de desistir da crítica, como uma diligência
nhecimento performativo”? proveitosa para a gestão.
Nenhuma dessas alternativas parece particularmente
atraente, nem compatível com o projeto emancipatório
dos ECGs. Mas, até certo ponto, pode ser necessário
para os ECGs simplesmente aceitar sua tensão irre-
conciliável, que, num certo sentido, é uma feição ine-
NOTAS
vitável de todas as diligências políticas. Além disso, 1
Em 1996, a British Academy of Management Conference continha
essa não é uma escolha que nós (escritores acadêmi- uma trilha crítica de gestão, repetida em 1999. Em 1998, a American
cos) temos o poder de fazer. Porque enquanto somos Academy of Management Conference continha uma comissão de es-
tudos críticos de gestão e um simpósio sobre educação crítica de ges-
indulgentes ao debater essas questões, outras pessoas
tão, também a ser repetido. Desde 1995, tem havido, por e-mail,
“lá fora” estão ocupadas em medir o gênero, as inova- uma rede de estudos críticos de gestão. Tem havido uma série de
ções, o poder, a cultura, etc., e articular essas novas seminários do ESRC [Conselho de Pesquisa Econômica e Social], de
contingências para a produção de maior lucro. E, pelo dois anos, sobre educação crítica de gestão. Há pós-graduação em
estudos críticos de gestão na Universidade de Lancaster, um curso de
mesmo indício, há também muitas pessoas “lá fora”
estudos críticos de gestão na Universidade Derby e outros programas
que se interessaram pelas condições de opressão, ex- com conteúdo crítico, se não o título. Temos conhecimento de pelo
clusão e dominação por muito mais tempo do que nós, menos uma graduação de MPhil [Master of Philosophy] em vias de
e que expressaram suas inquietudes de forma mais realização, sobre o fenômeno dos estudos críticos de gestão. Em 1999,
a 1ª Conferencia de Estudos Críticos de Gestão realizou-se na Uni-
incisiva. Aqui encontramos desde membros de sindi-
versidade de Manchester.
catos a feministas, movimentos de homossexuais,
ativistas negros, e até gestores. Talvez tudo o que pos- 2
A elevação da gestão do status de uma técnica ao de um valor tem
samos fazer é nos assegurarmos de que essa dissonân- tido, há muito, um interesse central nos textos críticos, inspirados na
cia, que a teoria de gestão na corrente majoritária tra- tradição weberiana (como em Ritzer, 1996). Aí foi vista como um
dos mecanismos por meio dos quais a racionalidade formal e a busca
tou como irrelevante à analise das organizações ou de soluções vieram a deslocar a racionalidade substantiva.
como um conjunto de recursos e de restrições na bus-
ca da performatividade, seja ouvida pelos estudantes 3
Como foi destacado por um dos avaliadores anônimos deste arti-
de gestão “não distorcida” pelo intento performativo go, também é digno de nota que as escolas de Administração e de
gestão no Reino Unido não somente foram integradas (fracamente)
(daí a importância particular da educação da gestão
com as ciências sociais como também estiveram menos dependen-
para os ECGs). Assim, para retornar a um ponto que tes de patrocínios comerciais do que suas correlatas norte-america-
antes já esclarecemos, devemos libertar a noção de nas. Além disso, não houve o mesmo nível de intercâmbio entre
engajamento da camisa-de-força na qual se enredou acadêmicos de Administração, practitioners e elaboradores de polí-
ticas no Reino Unido como em outros países europeus.
em debates que promoviam ou recusavam o diálogo
com os gestores, e imaginar novamente o engajamento 4
Grande parte da literatura recente sobre Administração é extremamen-
em termos de uma clientela organizacional maior. te “crítica” sobre a gestão; os gestores apressam-se a transformar-se, e
Mas uma questão permanece em aberto: se esse proje- dizem que nada menos do que uma revolução ocorrerá se eles quiserem
to requer ou é compatível com a promulgação estudos estar em “organizações vencedoras” ou permanecerem na corrida pela
excelência. Embora a declaração de uma crise na gestão e a defesa de
críticos de gestão como um espaço ou um “lar” de onde uma “revolução” fosse parte de um negócio lucrativo para esses escrito-
as críticas possam ser formuladas e lançadas. Se a crítica res/consultores, continua sendo verdade que simplesmente oferecer uma
está sempre em movimento, pode muito bem ser que te- crítica da gestão em si não conquista um lugar no “campo” dos ECGs.
nha chegado a hora de partir do lar temporário que os
5
ECGs lhe forneceram. Como já foi sugerido, o rótulo de Dentro dessa espécie de debate, aqueles que assumem preliminar-
mente uma posição realista tendem a usar o termo pós-modernismo
“crítica”, agora, parece ser usado ecleticamente para in- num sentido bastante amplo quando comparado com seus oponentes,
cluir o trabalho orientado tanto performativamente como que freqüentemente traçam uma distinção entre pós-modernista
desatentamente à teoria social sobre a qual os ECGs se (Baudrillard, Lyotard, Kristeva) e pós-estruturalista (Foucault, Derrida).

JAN./MAR. 2006 • RAE • 83

071-086 83 23.01.06, 12:20


RAE-CLÁSSICOS • NA HORA DA CRÍTICA: CONDIÇÕES E PERSPECTIVAS PARA ESTUDOS CRÍTICOS DE GESTÃO

6
Vale a pena ressaltar também que não são somente os ECGs, com seu ALVESSON, M.; DEETZ, S. Critical theory and postmodern
engajamento no pós-modernismo, que induzem essas acusações. Até approaches to organizational studies. In: CLEGG, S.; HARDY, C.;
mesmo o realismo politicamente mais robusto da análise do processo NORD, W. (Eds.). Handbook of Organization Studies. London: Sage,
de trabalho tem sido repetidamente criticado como obscuro e elitista, 1996. p. 191-217.
e um fracasso quanto a “fazer a diferença” (por exemplo, Jones, 1994).
ALVESSON, M.; WILLMOTT, H. (Eds.). Critical Management Studies.
7
Reconhecemos que traçar uma fronteira entre “gestores” e “geren- London: Sage, 1992a.
ciados” é problemático não apenas porque os gestores também são
gerenciados, e na última década estiveram cada vez mais sujeitos às ALVESSON, M.; WILLMOTT, H. On the idea of emancipation in
mesmas formas de “gerenciamento do trabalho” que os “trabalhado- management and organization studies. Academy of Management Review,
res braçais” (redundância, intensificação do trabalho, etc.). Porém, v. 17, n. 3, p. 432-64, 1992b.
queremos chamar a atenção para o fato de que o debate foi conduzi-
do principalmente em termos de engajamento com “gestão” e tem ALVESSON, M.; WILLMOTT, H. Making Sense of Management: A
obscurecido as formas de engajamento com outros grupos de inte- Critical Introduction. London: Sage, 1996.
resse representados nas organizações.
ANTHONY, P. The Foundations of Management. London: Tavistock,
1986.

Notas da Redação ANTHONY, P. Management education: ethics versus morality. In:


PARKER, M. (Eds.). Ethics and Organization. London: Sage, 1998. p.
*
Anti-performative stance: trata-se de uma postura contrária à idéia 269-81.
de que a melhoria do desempenho é uma idéia-chave da gestão.
BEDWARD, D.; REXWORTHY, C. Assessing managerial competence.
**
“Managerialization” tem a conotação de se estenderem práticas da Proceedings of British Academy of Management Annual Conference, Aston,
administração privada ou de empresas à gestão do setor público. No p. 9.5-9.6, 1996.
Brasil, tais práticas foram designadas como a adoção de práticas ge-
renciais do setor privado para a administração pública, em oposição BERGER, P.; LUCKMANN, T. The Social Construction of Reality. London:
ao sistema funcional burocrático que predomina na nossa adminis- Penguin, 1966.
tração direta.
BERNSTEIN, R. The Restructuring of Social and Political Theory. Oxford:
***
O deus romano Jano tinha duas faces: uma voltada para a frente e Blackwell, 1976.
outra para trás.
BOJE, D.; GEPHART, B.; THATCHENKERY, T. (Eds.). Postmodern
Management and Organization Theory. London: Sage, 1996.
****
“Queer theory”. A palavra inglesa “queer” traz à mente a idéia
de homossexualidade. Dessa forma o termo “queer theory” surgiu BURNHAM, J. The Managerial Revolution. London: Penguin, 1945.
como derivado de estudos sobre gênero, que por sua vez tiveram
origem no pensamento feminista da segunda metade do século XX.
BURRELL, G. Eco and the Bunnymen. In: HASSARD, J.; PARKER, M. (Eds.).
Mais amplamente, “queer” significa “coxo”, “torto”, “fora das re-
Post-Modernism and Organizations. London: Sage, 1993. p. 71-82.
gras” ou simplesmente “desviante”. Neste texto, pode significar
uma das bases dos ECGs que, juntamente com as demais, se afas-
BURRELL, G. Normal science, paradigms, metaphors, discourses and
tam das teorias predominantes no campo das chamadas também
genealogies of analysis. In: CLEGG, S.; HARDY, C.; NORD, W. (Eds.).
de mainstream.
Handbook of Organization Studies. London: Sage, 1996. p. 642-658.

CARTER, P. Writing the wrongs. Organization Studies, v. 16, n. 4, p.


573-5, 1995.

CLARKE, J.; NEWMAN, J. The right to manage: a second managerial


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS revolution. Cultural Studies, v. 7, p. 427-41, 1993.
ACKER, J. Gendering organizational theory. In: MILLS, A.; Tancred,
CLARKE, J.; NEWMAN, J. The Managerial State. London: Sage, 1997.
P. (Eds.). Gendering Organizational Analysis. London: Sage, 1992. p.
248-60.
CLEGG, S.; DUNKERLEY, D. Critical Issues in Organizations. London:
Roudedge, 1977.
ACKROYD, S. The quality of qualitative methods: qualitative or
quality methodology for organization studies? Organization, v. 3, n. CLEGG, S.; HARDY, C. Representations. In: CLEGG, S.; HARDY, C.;
3, p. 439-51, 1996. NORD, W. (Eds.). Handbook of Organization Studies. London: Sage,
1996. p. 676-708.
AKTOUFF, O. Management and theories of organizations in the 1990s:
toward a critical radical humanism. Academy of Management Review, DAVIDSON, M.; COOPER, G. Shattering the Glass Ceiling – The Woman
v. 17, n. 3, p. 407-31, 1992. Manager. London: Chapman, 1992.

84 • RAE • VOL. 46 • Nº1

071-086 84 23.01.06, 12:20


VALÉRIE FOURNIER • CHRIS GREY

DEETZ, S.; MUMBY, D. Power, discourse, and the workplace: KNIGHTS, D.; VURDUBAKIS, T. Foucault, power, resistance and all
reclaiming the critical tradition. Communication Yearbook, v. 13, p. that. In: JERMIER, J.; KNIGHTS, D.; NORD, W. (Eds.). Resistance
18-47, 1990. and power in organizations. London: Roudedge, 1994. p. 167-98.

DONALDSON, L. For Positivist Organization Theory. London: Sage, KNIGHTS, D.; WILLMOTT, H. Power and subjectivity at work: from
1996. degradation to subjugation. Sociology, v. 23, n. 4, p. 535-58, 1989.

GAY, P. du; SALAMAN, G.; REES, B. The conduct of management KOONTZ, H. The management theory jungle revisited. Academy of
and the management of conduct: contemporary managerial discourse Management Review, v. 5, n. 2, p. 175-88, 1980.
and the constitution of the ‘competent’ manager. Journal of
Management Studies, v. 33, n. 3, p. 263-82, 1996. KUHN, T. The Structure of Scientific Revolutions. Chicago: University
of Chicago Press, 1962.
ENTEMAN, W. Managerialism: The Emergence of a New Ideology.
Madison, WI: University of Wisconsin Press, 1993. LOCKE, R. Management and Higher Education since 1940. Cambridge:
Cambridge University Press, 1989.
FOUCAULT, M. Discipline and Punish. Harmondsworth: Penguin,
LOCKE, R. The Collapse of the American Management Mystique. Oxford:
1979.
Oxford University Press, 1996.
FRENCH, R.; GREY, C. (Eds.). Rethinking Management Education.
LYOTARD, J. F. The Postmodern Condition. Manchester: Manchester
London: Sage, 1996.
University Press, 1984.

GENNARD, J.; MCKIERNAN, P. Scottish undergraduate management MANT, A. The Rise and Fall of the British Manager. London: Macmillan,
education: a critical appraisal. Proceedings of British Academy of 1977.
Management Annual Conference, Aston, p. 9.9, 1996.
MARGLIN, S. The origins and functions of hierarchy in capitalist
GREY, C. Towards a critique of managerialism: the contribution of Si- production. In: NICHOLS, T. (Eds.). Capital and Labour: Studies in the
mone Weil. Journal of Management Studies, v. 33, n. 5, p. 590-611, 1996a. Capitalist Labour Process. London: Fontana, 1974/1980. p. 237-54.

GREY, C. Critique and renewal in management education. Management MILLS, C. W. The Power Elite. New York: Oxford University Press,
Learning, v. 27, n. 1, p. 5-20, 1996b. 1956.

GREY, C.; MITEV, N. Management education: a polemic. Management MORGAN, G.; SMIRCICH, L. The case for qualitative research.
Learning, v. 26, n. 1, p. 73-90, 1995. Academy of Management Review, v. 5, n. 3, p. 491-500, 1980

HALFORD, S.; SAVAGE, M.; WITZ, A. Gender, Careers and NORD, W.; JERMIER, J. Critical social sciences for managers?
Organizations. Basing stoke: Macmillan, 1997. P ro m i s i n g a n d p e r v e r s e p o s s i b i l i t i e s . I n : A LV E S S O N , M . ;
WILLMOTT, H. (Eds.). Critical Management Studies. London: Sage,
HASSARD, J.; PARKER, M. (Eds.). Postmodernism and Organizations. 1992. p. 202-22.
London: Sage, 1993.
OLIVER, N.; WILKINSON, B. The Japanization of British industry. New
JACKSON, N. To write, or not to write? Organization Studies, v. 16, n. developments in the 1990s. Oxford: Blackwell, 1992.
4, p. 571-3, 1995.
PARKER, M. Postmodern organizations or postmodern organization
theory. Organization Studies, v. 13, n. 1, p. 1-17, 1992.
JONES, O. Subjectivity and the labour process: a critical examination
of critical theory. University of Leicester Discussion Papers in Management
PARKER, M. Critique in the name of what? Postmodernism and critical
Studies, v. 94, n. 1, 1994.
approaches to organization. Organization Studies, v. 16, n. 4, p. 553-
64, 1995.
JOYCE, P.; WOODS, A. The arrival of postmodernist strategic thought.
Proceedings of British Academy of Management Annual Conference, Aston, PARKER, M. Dividing organizations and multiplying identities. In:
p. 9.43-9.45, 1996. HETHERINGTON, K.; MUNRO, R. (Eds.). Ideas of Difference. Oxford:
Blackwell, 1997. p. 114-38.
KAY, J. Plenary address to the British Academy of Management
Conference, Lancaster University, 1994. POLLARD, S. The genesis of Modern Management. London: Penguin,
1968.
KIESER, A. Rhetoric and myth in management fashion. Organization,
v. 4, n. 1, p. 49-74, 1997. POLLITT, C. Managerialism and the Public Services. Oxford: Blackwell,
1993.
KNIGHTS, D. Hanging out the dirty washing: labour process theory
in the age of deconstruction. Paper presented at the 13 th Labour REYNOLDS, M. Reflection and critical reflection in management
Process Conference, Blackpool, 1995. learning. Management Learning, v. 29, n. 2, p. 183-200, 1997.

JAN./MAR. 2006 • RAE • 85

071-086 85 23.01.06, 12:21


RAE-CLÁSSICOS • NA HORA DA CRÍTICA: CONDIÇÕES E PERSPECTIVAS PARA ESTUDOS CRÍTICOS DE GESTÃO

RITZER, G. The McDonaldization of Society. Thousand Oaks, CA: Pine WHITLEY, R.; THOMAS, A.; MARCEAU, J. Masters of Business: The
Forge Press, 1996. Making of a New Elite. New York: Tavistock, 1981.

ROSE, N. Governing the Soul. London: Roudedge, 1989. WILLMOTT, H. Strength is ignorance, freedom is slavery: managing
culture in modern organizations. Journal of Management Studies, v.
SKILLEN, A. Ruling Illusions: Philosophy and the Social Order. Hassocks: 30, n. 4, p. 515-52, 1993.
Harvester, 1977.

SMITH, A. The Wealth of Nations. London: Methuen, 1776/1904. WILLMOTT, H. Bringing agency (back) into organizational analysis:
responding to the crisis of (post)modernity. In: HASSARD, J.; PARKER,
THOMAS, A. The coming crisis of western management education. M. (Eds.). Towards a New Theory of Organizations. London: Roudedge,
Systems Practice, v. 10, n. 4, p. 681-702, 1997. 1994a. p. 87-130.

THOMPSON, P. Postmodernism – fatal distraction. In: HASSARD, J.; WILLMOTT, H. Management education: provocations to a debate.
PARKER, M. (Eds.). Postmodernism and Organizations. London: Sage, Management Learning, v. 25, n. 1, p. 105-36, 1994b.
1993. p. 183-203.

THOMPSON, P.; ACKROYD, S. All quiet on the workplace front? A WILLMOTT, H. From bravermania to schizophrenia: the d(is/ec)eased
critique of recent trends in British Industrial Sociology. Sociology, v. condition of subjectivity in labour process theory. Paper presented at
29, n. 4, p. 615-33, 1995. the 13th Labour Process Conference, Blackpool, 1995.

TIETZE, S. Languages and management: a case of mutual neglect. WINCH, P. The Idea of a Social Science. London: RKP, 1958.
Proceedings of British Academy of Management Annual Conference, Aston,
p. 9.79-9.81, 1996.
WREN, D. The Evolution of Management Thought. New York: John
Wiley, 1994.
WATSON, T. In Search of Management. London: Routledge, 1994.

WATSON, T. The labour of division: the manager as ‘self’ and other. Artigo originalmente publicado com o título “At the critical
In: HETHERINGTON, K.; MUNRO, R. (Eds.), Ideas of Difference. moment: Conditions and prospects for critical management
Oxford: Blackwell, 1997. p. 139-52. studies”, de Valérie Fournier e Chris Grey, na Human Relations, v.
53, n. 1, p. 7-32, 2000. Publicado com autorização da Sage
WHITLEY, R. The fragmented state of management studies: reasons Publications Ltd. Copyright The Tavistock Institute, 2006 &
and consequences. Journal of Management Studies, v. 21, n. 3, p. 331- SAGE Publications, 2006. www.sagepublications.com
48, 1984.

Artigo convidado. Aprovado em 03.02.2005.

Valérie Fournier
Professora da área de estudos organizacionais na Management Centre – University of Leicester.
Interesses de pesquisa nas áreas de economia e organizações alternativas que incluem:
economia rural e desenvolvimento sustentável, formas alternativas de trocas e mercados,
cooperativas e pedagogia crítica.
E-mail: vf18@le.ac.uk
Endereço: Management Centre, Ken Edwards Building, University of Leicester, University Road,
Leicester – UK, LE1 7RH.

Chris Grey
Professor de teoria das organizações na Judge Institute of Management Studies – Cambridge
University.
Interesses de pesquisa nas áreas de estudos críticos de gestão – especialmente pós-estrutura-
lismo e pesquisa qualitativa –, aprendizagem e conhecimento em gestão, história da adminis-
tração, gestão e política.
Email: c.grey@jbs.cam.ac.uk
Endereço: Judge Business School, University of Cambridge, Trumpington Street, Cambridge –
UK, CB2 1AG.

86 • RAE • VOL. 46 • Nº1

071-086 86 23.01.06, 12:21

Você também pode gostar