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Já fizemos tudo com o Natal. Vamos voltar ao princípio.

Madalena Fontoura

Parece que já está tudo dito sobre o Natal. Mesmo do ponto de vista do consumismo
instalado, é como se existisse um cansaço em relação aos elementos tradicionalmente alusivos
ao Natal e houvesse uma espécie de febre de inovar e reinventar. Cansa também a
solidariedade, porque esta desobriga filantrópica de dar dinheiro para uma campanha e ´já
está!’ não preenche o coração. Até o tema da festa de família é difícil de sustentar, porque as
fracturas e tentativas de reconstrução que ferem hoje tantas famílias fazem muitas vezes dos
festejos de Natal um momento de convivência forçada de estranhos ou ocasião de novas e
dramáticas solidões. Em resumo, esvaziámos o Natal da sua origem e razão de ser e sobra um
esbracejar atordoado de festas e comezainas e um amontoar doentio e enjoativo de coisas
dadas e recebidas que geram mais tédio do que alegria.

Já fizemos tudo com o Natal. Vamos voltar ao princípio. “Como pode um homem nascer sendo
velho?” perguntava o velho Nicodemos a Jesus. Poderemos nós, velhos e gastos por tudo o
que já vimos e julgamos saber, voltar a ser como crianças diante de uma novidade? É o desafio
deste texto. Proponho revisitar o Natal, que se aproxima, a partir da Fé, da Esperança e da
Caridade.

Fé - "Um homem culto, um europeu dos nossos dias, pode acreditar, crer de verdade, na
divindade do Filho de Deus, Jesus Cristo?" Esta pergunta retirada da obra de Dostoievski “Os
Irmãos Karamazov” é a pergunta deste Advento. Não se trata de saber se somos capazes de
entrar numa igreja vazia e ter a impressão de sossegar o coração naquele silêncio; se no fundo
não temos objecção intelectual à ideia de que exista um ser superior ou se nos sentimos fiéis
aos valores católicos porque tentamos ser boas pessoas.

O que está em causa é este Nazareno chamado Jesus, conhecido como filho do carpinteiro. O
que está em causa é Ele, pequenino e frágil, a berrar, a mamar, a bolçar, a sujar os paninhos
que lhe serviam de fraldas, como todas as crianças. O que está em causa é Ele, durante 30
anos silenciosos de trabalho braçal, unhas pretas, calos e cortes nos dedos, músculos doridos,
muitas cadeiras, muitos bancos, muitas mesas, muitas arcas, muito serrar, lixar, aplainar. O
que está em causa é o que Ele, ao fim desses 30 anos, disse de Si próprio. Disse aos amigos,
mas também àqueles que curou e converteu; disse durante os três anos de arrasadora
popularidade, mas também nas 12 horas da Sua Paixão; disse antes de morrer e depois de
ressuscitar; disse de viva voz, mas continuou a dizer ao longo de 2000 anos pela palavra e pela
vida entregue dos Seus na Igreja que Ele fundou. O que está em causa é que este Homem
tenha a ousadia de Se dizer Deus e que isso implique uma tomada de posição por parte de
todos aqueles que d’Ele se aproximam.

Jesus é verdade mesmo. Não é um filme, de que retemos só a parte de que mais gostamos.
Não é uma ideologia, a que aderimos parcialmente. É um Homem em Quem nos embatemos.
Um encontro humano é sempre o acontecimento de duas liberdades, uma diante da outra.
Jesus de Nazaré diz que é Deus e oferece uma relação fiel e totalizante para a vida e para a

1 Já fizemos tudo com o Natal. Vamos voltar ao princípio (Advento 2010)


morte. Mais concretamente ainda, apresenta-Se como resposta para a nossa procura de
felicidade. Mostra saber como é o nosso coração e poder preenchê-lo. Dá tudo e pede de nós
uma dádiva também total, porque é nessa confiança incondicional, nesse abandono, que está
o segredo da vida feliz e realizada. Neste Advento, o desafio da Fé é este. Diante do Presépio,
na Missa do Galo, em qualquer momento onde o Nome de Jesus se cruze com a nossa
azáfama, saberemos que não é sério reduzir ou disfarçar. O Menino Jesus é a proposta mais
radical que já nos foi feita na vida. Cabe a cada um de nós a decisão de aderir.

Esperança – A Igreja educa-nos na espera. E isso é precioso, porque já quase não há mais
quem nos ajude a viver a espera. Aliás, são cada vez menos as coisas na vida que implicam
uma espera. Os transportes são bons e rápidos e por isso já não se caminha durante horas ou
dias para chegar ao destino. A comida é congelada e aquece-se no micro-ondas, por isso já
quase ninguém cozinha durante horas num forno de lenha. As televisões têm dezenas de
canais e comandos à distância, por isso já não se espera por um programa nem pelo fim da
publicidade, é só carregar num botão e outra coisa nos diverte. E o crédito é fácil, mesmo com
a crise, por isso cada vez menos se espera até juntar dinheiro para um bem desejado, compra-
se já e vai-se pagando depois. Quase tudo é imediato. E isso ajudou a tornar-nos mimados e
impacientes, e, nas relações, egoístas e prepotentes. O outro é descartável: ou me satisfaz
agora ou é uma decepção, o que me dá direito a seduzi-lo sem olhar a meios ou a desistir dele.
Também na religião somos imediatistas, só queremos o que nos conforta agora e é cada vez
mais remota para nós a certeza de um bem ausente.

A Igreja educa-nos na espera. Porque nos lembra, em tudo o que é e faz, que a realidade que
tocamos agora é um sinal e uma promessa. Sinal e promessa de um bem pleno que a nossa
natureza pressente e persegue, sem alcançar totalmente. E a Igreja diz mais: que desfrutamos
melhor das coisas presentes se não pusermos nelas toda a nossa esperança, mas sim se as
encararmos como princípio e antecipação imperfeita dessa felicidade total que desejamos e
nos espera. Porque assim tratamo-las segundo o que são e não nos exasperamos por não nos
darem o que não podem dar-nos. E isso é ainda mais verdade com as pessoas. A misericórdia e
o perdão vêm juntos com a esperança. Perdoamos não porque temos poder de encaixe mas
porque sabemos que também o outro é uma promessa e está a caminho com passos
imperfeitos. Suportamos a decepção não porque somos estóicos, mas porque o melhor está
para vir. E escolhemos Jesus, mesmo quando a porta é estreita e o caminho doloroso, porque
não há pior negócio do que trocar o que dura pelo que passa, o Eterno pelo instante.

O Advento é o tempo da espera. E o valor de cada dia está na certeza do tesouro imenso que
vem aí. Cada gesto de agora, cada palavra, cada escolha tem peso e gravidade, porque é parte
da eternidade que é o nosso horizonte. O Advento ajuda-nos a perceber que os nossos dias
são como uma gravidez. Estamos “de esperanças” de uma Presença que dá sentido a tudo.

Caridade – Depois da primeira encíclica do Papa Bento XVI, é mais atrevido desprezar ou
aligeirar a palavra ‘caridade’. Somos filhos de uma cultura que ridicularizou a caridade, porque
reduziu o amor a uma medida rasteira e auto-suficiente de capacidade de bem-fazer. Mas a
caridade, horizonte amplo de todo o amor, parte de uma certeza sem reservas do outro como
um dom, de uma decisão de querer o seu bem e de um juízo claro sobre o que é esse bem.

2 Já fizemos tudo com o Natal. Vamos voltar ao princípio (Advento 2010)


A certeza do outro como um dom é iluminada pela fé. Se o outro é filho de Deus e, por isso,
meu irmão, não posso ter sossego nem alegria completa se lhe falta o essencial. O meu bem é
indissociável do bem do meu irmão, porque ele é meu e eu sou seu, não posso arrancá-lo de
mim, não posso ignorar ou fazer de conta.

Mas o próximo passo, o da decisão, não está incluído no primeiro. Esse é um engano comum
de quem não se apercebe com realismo do que é o drama da liberdade humana. Também a fé
ilumina esta questão. Sabemos que fomos criados inteligentes e livres, à imagem de Deus. E
sabemos também que a nossa natureza ficou indelevelmente ferida pelo pecado original. Isso
quer dizer que, como diz tão claramente S. Paulo, “não é o bem que eu quero que faço, mas o
mal que eu não quero, isso é que pratico”. A caridade é também uma decisão de me mover
pelo bem do outro, vencendo resistências e objecções, egoísmos e preguiças.

Por fim, o juízo sobre o que é o bem. Em tempos de um relativismo imperante, importa
assegurar onde é que radica a nossa certeza. De olhos postos em Jesus, somos defendidos da
tentação da subjectividade e chamaremos bem ao que é bem.

Assim, a caridade a que o Advento nos chama é esta purificação do amor. E talvez este ano
demos o passo de uma desobriga vaga e sem rosto para um gesto pessoal que permita que nos
faça bem o bem que fazemos.

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