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ELEMENTOS SOBRE O FASCISMO1

Frederico Jorge Ferreira Costa2

Especificamente, vemos o fascismo como uma expressão da


decadência e desintegração da economia capitalista e como
um sintoma da dissolução do Estado burguês.
Clara Zetkin

O fascismo tornou-se um tema atual. Não é mais algo do passado. A extrema


direita cresce em vários lugares do mundo. No Brasil, depois do golpe de Estado de 2016
e do governo ilegítimo de Michel Temer, foi eleito fraudulentamente Jair Bolsonaro para
presidente. De fato, há um ano a extrema direita governa o país. Por isso, importância de
entender o fascismo, movimento típico da direita radical, para poder combater e derrotar
todas suas formas que ressurgem das sombras para defender o sistema decadente
capitalista. Nesse sentido, o diálogo com revolucionários que viram os movimentos
fascistas nascerem e se desenvolverem é condição para a vitória luta socialista nos dias
atuais.
Leon Trotsky, em um texto de 1932, apanhou o essencial do fascismo:
No momento que os recursos policiais e militares “normais” da ditadura burguesa, em
conjunto com as suas defesas parlamentares já não são suficientes para manter a
sociedade num estado de equilíbrio – chega a vez dos regimes fascistas. Através da
organização fascista põe em movimento as massas da pequena burguesia
enlouquecida e os bandos desclassificados e desmoralizados do lumpemproletariado
– todos os inúmeros seres humanos que o capital financeiro ele próprio levou ao
desespero e à fúria.
Do fascismo a burguesia exige um trabalho completo; uma vez que ele recorre ao
método da guerra civil, ele insiste em ter paz por um período de anos. E a organização
fascista, através do uso da pequena burguesia como tropa de choque, esmagando todos
os obstáculos no seu caminho, faz um trabalho completo. Após a vitória do fascismo,
o capital financeiro direta e imediatamente concentra nas suas mãos, como que com
tenazes de aço, todos os órgãos e instituições de soberania, a administração executiva,
e os poderes educacionais do estado: todo o aparelho de Estado, juntamente com o
exército, os municípios, as universidades, as escolas, a imprensa, os sindicatos, as
cooperativas. Quando um Estado se torna fascista, isso não significa apenas que a
forma e os métodos do governo mudaram de acordo com o modelo estabelecido por
Mussolini – as mudanças nesta esfera afinal jogam um papel menor – mas significa
acima de tudo que as organizações dos trabalhadores são aniquiladas, que o
proletariado é reduzido a um estado amorfo, e que é criado um sistema de
administração que penetra profundamente nas massas o qual serve para frustrar a

1
Com base no texto: COSTA, Frederico. A pedagogia do sigma. Cadernos da pós-graduação em educação,
v.13, 2000, Universidade Federal do Ceará - UFC.
2
Professor da Faculdade de Educação de Itapipoca da Universidade Estadual do Ceará – FACEDI/UECE.
Diretor da SINDUECE. Coordenador do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário – IMO.
cristalização independente do proletariado. Eis precisamente o fundamental do
fascismo...3

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Baseado na teoria de Trotsky sobre o fascismo, presente em vários textos dos anos
1930, Ernest Mandel (1976) identificou uma unidade de elementos integrados em uma
totalidade histórica. Desses, o momento determinante da ofensiva fascista é o objetivo de
destruir a “democracia operária”, isto é, o movimento operário organizado em sindicatos,
cooperativas e partidos, além de suas conquistas históricas. Eis os seis aspectos do
movimento fascista ocorridos com destaque na Itália e Alemanha.
Primeiro, a ascensão do fascismo foi expressão de uma crise estrutural do
capitalismo que coincidiu, nos anos 1929-1933, com uma crise econômica clássica de
superprodução. De fato, ocorreu a impossibilidade da acumulação normal de capital
dentro das condições existentes do nível de salários reais, da produtividade do trabalho
da disponibilidade de matérias-primas e mercados. Nesse contexto, a tomada do poder
pelo fascismo é a alteração pela força e pela violência, a favor dos grupos decisivos do
capital monopolista, das condições de reprodução do capital.
Segundo, na época do capitalismo monopolista, a burguesia exerce seu domínio
político de maneira mais produtiva por meio da democracia parlamentar burguesa. Por
duas razões: a redução das tensões sociais através da concessão de certas reformas, e por
outro possibilita às diversas frações burguesas disputarem e participarem do exercício do
poder político por meio de instituições como partidos, universidades, organizações
patronais entre outras. Tal domínio, no entanto, exige o equilíbrio estável de forças
históricas e sociais. Quando há uma ruptura neste equilíbrio, devido a uma crise
econômico-social, torna-se necessária a instauração de uma forma mais centralizada do
poder de Estado, mesmo que isto signifique a renúncia do exercício direto dos negócios
públicos por parte da burguesia.
Terceiro, a maior centralização do Estado, para a recomposição do processo de
acumulação capitalista pressupõe a destruição de conquistas do movimento operário, o
que não pode ser realizado por meios meramente técnicos. A simples repressão não tem
capacidade de atomizar e desmoralizar, por um longo período, uma classe social
consciente, impedindo a resistência espontânea dos trabalhadores. Para isso ocorrer é

3
Como Mussolini triunfou? de “Que fazer? questão vital para o proletariado alemão”, 1932, Publicações
VORKUTA.
necessário um movimento de massas que desgaste e reprima os setores mais conscientes
da população trabalhadora, por meio do controle político dos assalariados, da influência
ideológica sobre os setores mais atrasados e da efetivação da colaboração de classes pelo
enaltecimento dos interesses maiores da “nação” ou da “raça”.
Quarto, a base de tal movimento de massas é a pequena burguesia4, vitimada além
do processo de centralização e concentração de capital, pela crise estrutural do
capitalismo, o que provoca falências das pequenas empresas e desemprego de técnicos e
diplomados. Tal situação conduz, fruto do desespero, à constituição de um movimento
político pequeno-burguês, que mistura num caldo de cultura nacionalismo extremo,
demagogia anticapitalista e ódio visceral ao movimento operário organizado. Sob a
bandeira de combate ao “comunismo ateu” e às “doutrinas alienígenas” o movimento
fascista começa atacando fisicamente os operários, suas organizações e manifestações.
Em seu desenvolvimento até a tomada do poder, aumenta a dependência financeira e
política de setores da burguesia monopolista.
Quinto, a ascensão do movimento fascista significa o esmagamento de qualquer
resistência popular. A experiência ítalo-germânica demonstra que, inicialmente, os grupos
fascistas organizam a mais desesperada parcela da pequena burguesia. O grosso das
massas pequeno-burguesas, como os setores mais atrasados e desorganizados dos
assalariados, oscilam entre a reação fascista e o movimento político dos trabalhadores. É
da incapacidade deste de oferecer uma alternativa para a crise, de acordo com seus
interesses, que surge a possibilidade da vitória do fascismo.
Sexto, após a derrota do movimento operário, o movimento fascista é absorvido
pelo Estado burguês, reprimindo o radicalismo das bases pequeno-burguesas e servindo
aos interesses do capital monopolista.
Tais são os elementos aproximativos da racionalidade interna do fenômeno
fascista, onde combinam-se de forma dialética fatores objetivos e subjetivos em uma
mesma totalidade, que se apresentou de forma diferenciada em vários países, conforme
suas especificidades. Nos países imperialistas, como Itália e Alemanha, o fascismo
revelou seus diversos momentos em toda sua rudeza explícita.

Referências Bibliográficas

4
“...a pequena burguesia deve ser conceituada como uma classe social própria e a partir de duas
determinações fundamentais. Primeira, a propriedade dos meios de produção ou de serviço, que a separa
qualitativamente do proletariado. Segundo, o trabalho manual ou intelectual, que a separa qualitativamente
dos capitalistas” (ROCHA, 1989: 73).
MANDEL, E. Sobre o fascismo. Tradução M. Rodrigues. Lisboa: Edições Antídoto,
1976.
ROCHA, Ronald. Teses tardias: capitalismo e revolução social no Brasil moderno. São
Paulo: Editora Interferência, 1989.