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Erik Porge

FREUD/FLIESS
Mito e quimera da auto-análise

Tradução:
Vera Ribeiro

Jorge Zohar Editor


Rio de Janeiro
INTRODUÇÃO

A noção de au10-11nálisc, da qual Freud falou inicialmente com seu amigo


Fliess. veio mais 1arde II se impor como uma versão das origens da
psicanálise. Ela se assemo num ceno mlmero de distorções que preten­
demos evidenciar, não apenas para sennos mais fiéis à história, tal como
os iextos a transmilCm, mas 1ambém para avaliarmos a maneira como um
mito não criticado sobre as origens e a noção de aulo-análise continuam a
imprimir sua marca na prática alUal da psicanálise.
É cm nome da au10-análise de Freud que a auto-análise é hoje reco­
nhecida por alguns como uma prálica completa. Num livro recente, um
autor alemão, Karl Kõnig, escreveu: "Freud fez a primeira aulo-análise
( 1900). Quando de sua auio-análise, Freud dirigiu-se a um parceiro, Fliess,
e talvez o tenha imaginado durante a auto-análise; pelo menos, sempre o
trouxe em seus pensamentos."• O autor expôs em seguida a técnica da
auUranálisc: a análise dos próprios sonhos e o que ele denominou de
"micro-sinJomas": esquecimentos momentâneos, dores de cabeça, dores
de barriga. estados depressivos e, acima de tudo, coincidências temporais
que criam um vínculo causal. Veremos que a alenção dado a esJe último
aspeclO foi um dos pilares do método de interpretação de Fliess.
A auto-anátise, por outro lado, é uma certa maneira de tornar a análise
interminável. Quando se diz que a análise pode prolongar-se numa auto-­
análise. isso equivale a apagar o caráter incisivo do ato de seu término,
instaurando uma continuidade que toma frouxa u descontinuidade do fim.
Paradoxalmente, essa aul0-an41isc que prolonga a análise pode ser consi­
derada, por uma curiosa inversão, como o começo do análise. Isso é o que
ressalla da leílura de um artigo de H. Sochs, poro quem o tarefo do análise
didática se encerra quando o canditlulo "reconhece cspontoneamcnle ( ... )