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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

MARLUCE WALL DE CARVALHO VENANCIO

URBANIZAÇÃO DISPERSA EM SÃO LUÍS: tensões entre expansão e centro

RIO DE JANEIRO

2011
DINTER UFRJ/UEMA

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO


UNIVERSIDADE ESTADUAL DO MARANHÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM URBANISMO
DOUTORADO EM URBANISMO
PROURB-FAU/UFRJ

URBANIZAÇÃO DISPERSA EM SÃO LUÍS: tensões entre expansão e centro

Marluce Wall de Carvalho Venancio

Orientadora: Denise Barcellos Pinheiro Machado

Rio de Janeiro

2011
MARLUCE WALL DE CARVALHO VENANCIO

URBANIZAÇÃO DISPERSA EM SÃO LUÍS: tensões entre expansão e centro

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de


Pós-Graduação em Urbanismo da Universidade
Federal do Rio de Janeiro como requisito parcial à
obtenção do título de Doutora em Urbanismo.

Orientadora: Denise Barcellos Pinheiro Machado

Rio de Janeiro
2011
Venancio, Marluce Wall de Carvalho,
Urbanização dispersa em São Luís: tensões entre
expansão e centro/ Marluce Wall de Carvalho Venancio. –
Rio de Janeiro: UFRJ/FAU, 2011.
282f. Il.; 30 cm.

Orientador: Denise Barcellos Pinheiro Machado.


Tese (Doutorado) – UFRJ/PROURB/Programa de Pós-
Graduação em Urbanismo, 2011.
Referências bibliográficas: p.257-266.

1. Urbanismo – São Luís (MA). 2. Espaço urbano. 3.


Plano Diretor – São Luís (MA). I. Machado, Denise
Barcellos Pinheiro. II. Universidade Federal do Rio de
Janeiro, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo,
Programa de Pós-Graduação em Urbanismo. III. Título.

CDD 711.4098121
MARLUCE WALL DE CARVALHO VENANCIO

URBANIZAÇÃO DISPERSA EM SÃO LUÍS: tensões entre expansão e centro

Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação


em Urbanismo da Universidade Federal do Rio de
Janeiro para a obtenção do título de Doutora em
Urbanismo

__________________________________________________
Profª. Dra. Denise Barcellos Pinheiro Machado (Orientadora)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

__________________________________________________
Prof. Ph.D. Rachel Coutinho Marques da Silva
Universidade Federal do Rio de Janeiro

__________________________________________________
Prof. Dra. Rosângela Lunardelli Cavallazzi
Universidade Federal do Rio de Janeiro

__________________________________________________
Prof. Dra. Marlice Nazareth Soares de Azevedo
Universidade Federal Fluminense

__________________________________________________
Prof. Dr. Claúdio Rezende Ribeiro
Universidade Federal do Rio de Janeiro

__________________________________________________
Prof. Dr. Alex Oliveira de Souza
Universidade Estadual do Maranhão
A Pedro, Luisa e Francisco, meus filhos
A meus alunos
AGRADECIMENTOS

À Universidade Estadual do Maranhão, sempre presente na qualificação dos


professores do Curso de Arquitetura e Urbanismo, por ter tornado possível a
realização deste Dinter e à Universidade Federal do Rio de Janeiro pelo acolhimento
da proposta.
À CAPES pela aprovação do projeto do Dinter e pelo apoio financeiro
concedido. À FAPEMA, pelo suporte nos diversos editais de apoio à pesquisa e de
participação em eventos científicos, pela concessão de bolsas de iniciação científica,
todos fundamentais para a realização deste trabalho.
Ao Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da Universidade Federal do
Rio de Janeiro pela generosidade em acolher a proposta do Dinter e pela
competência em sua execução. Agradeço a todos os seus professores,
especialmente àqueles dos quais tive o privilégio de ser aluna ou que contribuíram
mais diretamente com a realização deste trabalho: Rachel Coutinho, Rosângela
Cavallazzi, Margareth da Silva Pereira, Lilian Fessler Vaz, Lúcia Costa, Cristovão
Duarte, Pablo Benetti, Sonia Le Cocq, Roberto Segre.
A todos os alunos do Prourb, o meu agradecimento na pessoa de Vera
Hazan. Agradeço todos os funcionários do PROURB nas pessoas de Keila Maria de
Araújo Silva e Marluce Francisca Assunção, D. Francisca.
Agradeço em especial à Profa Dra. Denise Barcellos Pinheiro Machado, por
ter acreditado na parceria, pela generosidade do acolhimento, pelo incentivo sempre
constante, pela orientação desta tese.
À Marlice Nazareth Soares de Azevedo e a Claúdio Rezende Ribeiro pela
disponibilidade.
Aos professores do curso de Arquitetura e Urbanismo da UEMA: Bárbara
Prado, Célia Regina Santos, Érico Araújo, Gustavo Marques, Hermes da Fonseca
Neto, José Bello Salgado Neto, Márcia Marques, Maria Teresinha de M. Coelho,
Sanadja de Medeiros Souza, Thaís Zenkner.
Agradeço especialmente a Grete Pflueger, que sem ela todo este projeto não
seria possível. Pelo Dinter, pelo carinho, pela competência na condução dos
processos na UEMA.
A Alex Oliveira, coordenador do Dinter na UEMA, pelo apoio competente e o
incentivo firme.
Meus agradecimentos à Ingrid Braga e à Fabíola Aguiar, do Curso de
Arquitetura e Urbanismo pelo carinho e incentivo.
Aos alunos do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual
do Maranhão.
À Dilza, da Biblioteca da FAU-UFRJ, na pessoa de quem quero agradecer a
todos que direta ou indiretamente ajudaram na realização deste trabalho.
À Cristiane Figueiredo, pela impressão, pelo carinho e disponibilidade.
À minha família, minha mãe e irmãos pela paciência e carinho durante toda
esta trajetória.
A Luís Carlos, companheiro das horas certas e incertas, pelo incentivo
constante, por dividir alegrias e tristezas, certezas e dúvidas, sem nunca vacilar.
A meus filhos, Pedro, Luisa e Francisco, minha força e inspiração.
Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar,
mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto
de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha
utopia, mas participar de práticas com ela coerentes.

Paulo Freire
RESUMO

VENANCIO, Marluce Wall de Carvalho. Urbanização Dispersa em São Luís:


tensões entre expansão e centro. Rio de Janeiro, 2011. Tese (Doutorado em
Urbanismo)- Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro,
2011.

Esta tese analisa as tensões na urbanização de São Luís criadas entre a


expansão urbana e o centro antigo como consequência das propostas expressas no
Plano Diretor de 1974 que orientaram o processo da expansão modernizadora ao
mesmo tempo em que se propôs a preservação e a valorização da cidade colonial.
Caracteriza-se a inserção do plano no contexto político e econômico local e
nacional, bem como os aspectos culturais que contribuíram para sua elaboração. A
partir da perspectiva da produção do espaço identificam-se, mediante a análise dos
planos diretores, e dos planos, programas e projetos para o centro histórico, as
representações do espaço que orientaram a produção da nova cidade e a
conservação da cidade colonial. Identificam-se as tensões entre uma nova condição
urbana da cidade dispersa que se produziu e a cidade existente. As tensões entre o
centro dividido em sua condição de centro urbano e sua condição de sítio histórico e
as tensões entre os interesses econômicos e a conservação deste centro vivo e
vibrante, integrado à vida cotidiana. Finalmente, as tensões entre a conservação dos
dois centros e a opção de continuar a construção da cidade contemporânea dirigida
pela articulação político-econômica que privilegia os interesses dos mercados
fundiário e imobiliário.

Palavras-Chave: Urbanização. Espaço urbano. Plano Diretor


ABSTRACT
VENANCIO, Marluce Wall de Carvalho. Urbanização dispersa em São Luís:
tensões entre expansão e centro. Rio de Janeiro, 2011. Tese (Doutorado em
Urbanismo)- Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro,
2011.

This thesis examines the tensions between the urban expansion and the old
city center in the urbanization process of São Luís do Maranhão, created as a result
of the proposals expressed in the 1974 master plan that have guided the process of
urban expansion while proposing the preservation of the colonial city center. It is
characterized the insertion of the plan in both local and national political and
economic context, as well as the cultural aspects that have influenced the master
plan. From the perspective of the production of space, it was identified, through the
analysis of master plans and other plans, programs and projects for the historic city
center, the representations of space that have guided the production of the new
modern city, as well as the conservation of the historic city. The tensions between the
dispersed city - the new city urban condition produced in the urban expansion
process - and the existing city were identified. Also, the tensions between the old city
center divided into being the Center of the entire city and its status as historic site
were characterize, as well as the tensions between economic interests and the
conservation of this Center alive and vibrant, integrated into everyday life. Finally, it
was discussed the tensions between the two centers and the option to continue the
construction of the contemporary city, which currently has been directed by
economic-political articulation that favors the interests of land and real estate
markets.

Keywords: Urbanization. Urban space. Master Plan.


LISTA DE FIGURAS

Figura 1 São Luís, traçado original 22


Figura 2 Traçado original sobreposto ao atual 22
Figura 3 Mapa com a localização das zonas tombadas no Centro de 23
São Luís
Figura 4 O Centro Histórico como definido pela prefeitura: divisão de 24
bairros e zonas tombadas
Figura 5 Mapa da Ilha de São Luís em 1950 77
Figura 6 Cidade Nova Proposta no Plano de Expansão de São 78
Luís,1958
Figura 7 Plano Rodoviário de Mesquita (1958) 79
Figura 8 Cidade Moderna emoldurando a Cidade Histórica 83
Figura 9 Mapa da estrutura fundiária de São Luís 89
Figura 10 Ocupação Gleba Rio-Anil e Projeto de Urbanização da Ponta 92
d’Areia no Plano Diretor 1974
Figura 11 Zoneamento proposto pelo Plano Diretor de 1974 99
Figura 12 Detalhe Zonas Residenciais e Centros de Bairros 100
Figura 13 Zonas Residenciais e Especiais do Centro 101
Figura 14 Zoneamento do Centro 113
Figura 15 Ilha do Maranhão ou Ilha de São Luís. Mapa de 1980 121
Figura 16 Proposta de Urbanização: Gleba Rio Anil 122
Figura 17 Extensão da Urbanização Dispersa 122
Figura 18 Construção da Urbanização Dispersa – 1966-2006 122
Figura 19 Proposta de Malha Viária, Plano Diretor de 1974 124
Figura 20 Percurso Olho d’Água-Centro pelo caminho original, pela 125
Estrada Velha do Turu, hoje Avenida São Luís Rei de França –
18 km
Figura 21 Percurso pela Estrada Nova do Olho d’Água, hoje Avenida 125
Daniel de La Touche e Ponte do Caratatiua– 14 km
Figura 22 Mapa da Malha Viária Atual em São Luís 126
Figura 23 Mancha Urbana, São Luís, 1984 127
Figura 24 Gráfico Crescimento Demográfico São Luís 128
Figura 25 Mapa da Segregação Espacial 128
Figura 26 Conjuntos Residenciais São Francisco, Renascença e Basa 129
Figura 27 Vista dos Conjuntos Residenciais na proximidade da Lagoa da 130
Jansen em São Luís do Maranhão
Figura 28 Vista Aérea de Conjuntos Residenciais ao longo da Avenida 130
Jerônimo de Albuquerque em São Luís, do Maranhão
Figura 29 Divisão Morfológica dos Espaços Urbanos da Cidade de São 131
Luís
Figura 30 Mapa do Rendimento Mensal do Responsável pelo domicilio 131
Figura 31 - Mapas esquemáticos de implantação de conjuntos 132
36 habitacionais ao longo das vias estruturantes Daniel de La
Touche e Jerônimo de Albuquerque
Figura 37 Localização de conjuntos habitacionais – Mapa esquemático 133
Figura 38 Mapa de localização de equipamentos urbanos 135
Figura 39 Mapa de equipamentos urbanos incluindo a localização de 136
áreas comerciais.
Figura 40 Percurso Ponta d’Areia-Centro 136
Figura 41 Percurso Avenida Getúlio Vargas Monte Castelo – Centro 136
Figura 42 Percurso Avenida Getúlio Vargas Apeadouro – Centro 136
Figura 43 Caminhos para a Ponta d’Areia 137
Figura 44 Caminhos para o Olho d’Água 139
Figura 45 Mapa Abastecimento de água 140
Figura 46 Mapa Tipos de Esgotamento Sanitário em São Luís 141
Figura 47 Localização do Edifício Solar das Palmeiras no Olho d’Água 141
Figura 48 Vista área do Olho d’Água. Entrada do Bairro 142
Figura 49 Vista Aérea da Praia do Olho d’Água 143
Figura 50 Mapa Plano Diretor de 1974 evidenciando o projeto da Ponta 146
d’Areia e a Igarapé da Jansen, antes da formação da Lagoa da
Jansen
Figura 51 Vista da Ponta d’Areia em 2004 146
Figura 52 Vista Aérea Atual da Ponta d’Areia 147
Figura 53 Localização do Filipinho. Entre o centro e o Anil 152
Figura 54 Modos de morar em São Luís de 1966-1992 157
Figura 55 Delimitação da área do projeto de Renovação Urbana da Praia 163
Grande, de John Gisiger
Figura 56 Localização das edificações muito importantes na Praia 165
Grande
Figura 57 Localização das Edificações muito importantes e significativas 165
na Praia Grande
Figura 58 Localização das Edificações muito importantes, significativas, 165
compatíveis e conflitantes, na Praia Grande
Figura 59 Praça Benedito Leite 166
Figura 60 Proposta para a Praça Benedito Leite 166
Figura 61 Centro Histórico: a delimitação da Praia Grande 168
Figura 62 Largo do Comércio, 1979 173
Figura 63 Proposta para o Largo do Comércio 173
Figura 64 Praça do Comércio, 1979 174
Figura 65 Proposta para a Praça do Comércio 174
Figura 66 Localização das intervenções da Prefeitura Municipal no 182
Centro de São Luís
Figura 67 Zoneamento de acordo com o Plano Diretor 1992 187
Figura 68 Centro Histórico de São Luís - Mapa de Usos em 1998 191
Figura 69 Centro Histórico de São Luís - Mapa Estado de Conservação 192
em 1998
Figura 70 Novos Gabaritos e sua localização 194
Figura 71 Operações Urbanas PD/92 194
Figura 72 Vista das Novas Avenidas: dos Holandeses e Litorânea 198
Figura 73 Mapa dos Novos Modos de Morar depois de 1992 202
Figura 74 Condomínio Buritis 203
Figura 75 Desterro 226
Figura 76 Quadro Resumo 1 252
Figura 77 Quadro Resumo 2 253
Figura 78 Quadro Resumo 3 254
LISTA DE FOTOS

Foto 1 Casas no Centro 87


Foto 2 Casarão no Centro 87
Foto 3 Casa no Maranhão Novo 87
Foto 4 Estrada Asfaltada São Luís-Anil em 1950 125
Foto 5 Western Telegraph Company Limited – o Cabo Submarino 138
Foto 6 Estrada Asfaltada São Luís 2 – Anil, 1950 138
Foto 7 Vila do Anil na década de 1950 138
Foto 8 Casas na Cidade Balneária do Olho d’Água 139
Foto 9 Solar das Palmeiras 141
Foto 10 Entrada para o bairro do Olho d’Água 142
Foto 11 Igreja do Olho d’Água 143
Foto 12 Casas à beira-mar 143
Foto 13 Praia do Olho d’Água 143
Foto 14 Vista da Praia 143
Foto 15, a 17 Vistas aéreas do bairro do Olho d’Água 144
Foto 18 Verticalização da Avenida dos Holandeses, depois do Plano 145
Diretor de 1992
Foto 19 Ponta d’Areia 148
Foto 20 Fronteira com a Ilhinha 148
Foto 21 Ilhinha 148
Foto 22 Conjunto Habitacional Cohab – Vinhais. Em Construção 150
Fotos 23 e Festa de Nossa Senhora de Nazaré, da COHAB ao Cohatrac 155
24
Fotos 25 a COHAMA 155
30
Foto 31 Ceprama antes da Reabilitação 175
Foto 32 Ceprama depois da Reabilitação 175
Foto 37 Vista aérea do Tropical Shopping Center 184
Foto 38 Vista do início do Renascença da Avenida dos Holandeses, na 196
altura do Calhau
Foto 39 Vista do Renascença na mesma Avenida dos Holandeses na 196
altura da Ponta do Farol
Foto 40 Condomínio Jardim dos Faraós – Olho D’Água 203
Foto 41 a 43 Condomínios Fechados em São Luís 204
Foto 44 Avenida dos Holandeses e Avenida Euclides da Cunha 204
Foto 45 Avenida Holandeses e Avenida Colares Moreira 205
Fotos 46 e Programa de Habitação no Centro Histórico de São Luís 215
47
Foto 48 Imóvel habitação antes da recuperação 215
Foto 49 Imóvel depois da recuperação 215
Foto 50 e 51 Ruas do Desterro 228

LISTA DE QUADROS

Quadro 1 Áreas Sociais dos Conjuntos Construídos através do 134


Financiamento do BNH
Quadro 2 Objetivos do Programa de Preservação e Revitalização do 208
Centro Histórico de São Luís
LISTA DE SIGLAS

ACC American Chambers of Commerce


Alumar Consórcio de Alumínio do Maranhão
Arena Aliança Renovadora Nacional
BASA Banco da Amazônia
BNH Banco Nacional de Habitação
Ceprama Centro Produtor de Artesanato do Maranhão.
COHAB Cooperativa Habitacional
Cohafuma Conjunto Habitacional dos Funcionários da Universidade Federal do
Maranhão
Cohajap Conjunto Habitacional Jardim Primavera
Cohajoli Conjunto Habitacional Jardim das Oliveiras
COHAMA Conjunto da Cooperativa Habitacional do Maranhão – Bairro de São
Luís.
Cohatrac Conjunto Habitacional dos Trabalhadores do Comércio
DER Departamento de Estradas de Rodagem
Dinter Doutorado Interinstitucional
DPHAP Departamento do Patrimônio Histórico, Artístico e Paisagístico
Embratur Empresa Brasileira de Turismo
ESG Escola Superior de Guerra
Fapema Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e
Tecnológico do Maranhão.
FAU Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
FCM Fundação Cultural do Maranhão
FMC Fundação Municipal de Cultura
IBAD Instituto Brasileiro de Ação Democrática
IFMA Instituto Federal do Maranhão
Ipase Instituto de Previdência dos Servidores Estaduais
IPEM Instituto da Previdência do Estado do Maranhão
IPES Instituto de Pesquisa Sociais
Iphan Instituto do Patrimônio Histórico Nacional
IPTU Imposto Predial e Territorial Urbano
MA Maranhão
MDU Mestrado em Desenvolvimento Urbano
Minter Mestrado Interinstitucional
NE Nordeste
Novacap Nova Capital
OTN Obrigação do Tesouro Nacional
PD Plano Diretor
PD/74 Plano Diretor de São Luís de 1974
PDP Plano Diretor Participativo
PDS Partido Democrático Social
PDT Partido Democrático Trabalhista
PFL Partido da Frente Liberal
PMDB Partido do Movimento Democrático Brasileiro
PNCCPM Programa Nacional de Capitais e Cidades de Porte Médio.
PND Plano Nacional de Desenvolvimento
PNDU Política Nacional de Desenvolvimento Urbano
PPRCH Programa de Preservação e Revitalização do Centro Histórico
PPRCHSL Programa de Preservação e Revitalização do Centro Histórico de São
Luís
Prourb Programa de Pós-Graduação em Urbanismo
PSD Partido Social Democrático
PSDB Partido da Social Democracia Brasileira
PST Partido Social Trabalhista
PST Partido Social Trabalhista
PT Partido dos Trabalhadores
PTB Partido Trabalhista Brasileiro
SFH Sistema Financeiro de Habitação
Sudema Superintendência de Desenvolvimento do Maranhão
Sudene Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste
Surcap Sociedade de Melhoramento e Urbanismo da Capital
UDN União Democrática Nacional
UEMA Universidade Estadual do Maranhão
UFMA Universidade Federal do Maranhão
UFPE Universidade Federal de Pernambuco
UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro
Unesco United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization -
Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a
cultura
USAID United States Agency for International Development
Usimar Usina Siderúrgica do Maranhão
ZBM Zona do Baixo Meretrício
ZC Zona Comercial
ZE Zona Especial
ZIS Zona de Interesse Social
ZPH Zona de Proteção Histórica
ZR Zona Residencial
ZT Zona Tombada
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO 17
1.1 UM CENTRO HISTÓRICO E UM CENTRO-QUE-NÃO-É-HISTÓRICO 21
1.2 CONSTRUINDO A TESE 24
1.3 ESTRUTURA DA TESE 30
2 SOBRE CONCEITOS E REFERENCIAIS TEÓRICOS 33
2.1 CONDIÇÃO URBANA E EXPERIÊNCIA URBANA 33
2.2 A PRODUÇÃO DO ESPAÇO 35
3 A URBANIZAÇÃO MODERNIZADORA 55
3.1 PARA MODERNIZAR: CONSTRUIR UMA NOVA CIDADE. O QUE 55
FAZER COM A CIDADE EXISTENTE?
3.1.1 Modernizar é Preciso... 56
3.1.2 A Política Nacional de Desenvolvimento Urbano 61
3.1.3 Modernizar para Recuperar a Economia 66
3.1.4 O Patrimônio Histórico no Quadro da Modernização 70
3.1.5 Modernizar é construir uma nova cidade: o plano de Mesquita 74
3. 2 O PLANO DIRETOR DE 1974 81
3.2.1 A Modernização é Necessária para a Valorização da Cidade 81
Histórica
3.2.2 A Estratégia de Ocupação 88
3.2.3 A Cidade Histórica é Considerada Inadequada para os Modos de 92
Viver Modernos
3.2.4 Concebendo a Nova e Moderna Cidade 97
3.2.5 A Cidade Histórica 104
3.2.5.1 O Centro 104
3.2.5.2 Valorizar e Preservar a Cidade Colonial 106
3.2.5.3 A Cidade Histórica no Plano Diretor de 1974 111
4 A CONSTRUÇÃO DA CIDADE DISPERSA E A CRIAÇÃO DO 119
CENTRO HISTÓRICO
4.1 A CIDADE DISPERSA 120
4.1.2 Modos de Morar na Cidade Dispersa 137
4.1.2.1 A Praia como Atração 137
4.1.2.2 A Casa Própria como Atração 150
4.2 O CENTRO HISTÓRICO 157
4.2.1 O Programa de Preservação e Revitalização do Centro Histórico 158
de São Luís
4.2.1.1 O Plano de Renovação Urbana da Praia Grande – São Luís, 161
Maranhão
4.2.1.2 O Projeto Reviver 169
5 ENTRE DUAS CONDIÇÕES URBANAS: A CIDADE DISPERSA E O 177
CENTRO DIVIDIDO
5.1 O PLANO DIRETOR DE 1992 187
5.2 NOVOS MODOS DE MORAR: DO ALTO DAS TORRES OU ATRÁS
DOS MUROS
5.3 O NOVO TEMPO DE ROSEANA SARNEY 199
5.4 O CENTRO DIVIDIDO 207
5.4.1 A Habitação no Centro Histórico 212
5.5 PROGRAMAS DO MINISTÉRIO DA CIDADE: PLANO DIRETOR 217
PARTICIPATIVO E REABILITAÇÃO DE CENTROS URBANOS
5.5.1 O Plano Diretor Participativo, em 2006 217
5.5.2 A Reabilitação de Centros Urbanos 219
5.5.2.1 Plano de Revitalização do Centro Histórico de São Luís: o Desterro 226
5.5.2.2 O Plano de Gestão do Centro Histórico 232
5.6 A Representação do Centro Histórico 235
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS 239
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 257
ANEXOS 267
17

1 INTRODUÇÃO

Esta tese analisa as tensões na urbanização de São Luís entre a expansão


urbana e o centro criadas a partir das propostas, expressas no Plano Diretor de
1974, que orientaram o processo da expansão modernizadora ao tempo que
propunham a preservação e a valorização do patrimônio histórico. Trata-se de
caracterizar esta urbanização, dividida entre construir uma nova cidade e valorizar o
centro antigo como cidade histórica.
Em São Luís, as duas cidades parecem testemunhar que a cidade do
passado se incorporou definitivamente à prática da urbanização. Que o fazer urbano
incorporou o respeito à cidade existente. Respeito que parecia estar presente no
próprio PD/74 e que o título de Patrimônio da Humanidade parece reafirmar. A
inclusão na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco sugerindo, ainda, que se
conseguiu construir uma cidade contemporânea, mantendo, ao mesmo tempo, a
cidade histórica. Entretanto, a trajetória da cidade classificada como histórica coloca
a necessidade de questionar de que maneira e em que medida o respeito às
estruturas existentes está, de fato, incorporado no fazer urbano de São Luís.
O desenvolvimento paradoxal do centro de São Luís onde, de um lado se
consolidou um centro histórico – ao qual se deve a representação de São Luís,
Cidade Patrimônio da Humanidade – e do outro, um centro urbano, também
patrimonializado, também protegido pelas normas da legislação da conservação do
patrimônio histórico, mas que apresenta importantes sinais de abandono e
degradação é o que leva a questionar, em primeiro lugar, o respeito às
preexistências e, em segundo lugar, o papel destinado à cidade existente na nova
cidade que se propunha construir no processo de modernização. Que relações se
queriam ver estabelecidas entre esta nova cidade e a cidade existente e que
representações acerca do espaço existente, transformado em histórico, guiaram os
planos e projetos para as duas cidades.
Parte-se do princípio de que o processo de urbanização de São Luís teve
como objetivo mais que a própria expansão. Que, por trás do discurso da
necessidade de expansão, encontrava-se a intenção de promover e controlar a
organização de uma nova configuração da cidade, a intenção de organizar e
controlar a localização das atividades e das pessoas, controlar e organizar os fluxos,
a circulação, nesta nova cidade que seria criada.
18

A intenção era construir uma nova sociedade, moderna e industrial, uma nova
cidade para esta nova sociedade que se inseria no Maranhão Novo segundo José
Sarney, governador eleito em 1965 quando este processo começou. Tratava-se de
construir outra cidade, outro espaço urbano, outras formas de habitar, outros modos
de morar. Tudo isto de forma a contribuir para a expansão e consolidação do
capitalismo no Maranhão, o governo local como administrador das políticas do
governo militar.
Trabalha-se com a convicção de que o Plano Diretor de 1974 era a expressão
da concepção do espaço que se queria produzir. Neste sentido, a inclusão das
propostas de preservação e valorização do patrimônio histórico neste plano sugere a
intenção de controlar o que deveria ser feito da cidade existente. Uma questão que
se colocava por duas situações especiais: a primeira, a questão de que tendo
permanecido quase intacta ao longo do tempo, a cidade colonial era a cidade em
que se vivia e trabalhava. A segunda era a situação da Praia Grande, bairro
tradicional, que vivia um processo de falência econômica das empresas ali
localizadas que trazia como consequência o abandono dos casarões do século XIX.
Desta forma, se de um lado a transformação em histórico poderia ser uma
oportunidade para a recuperação de estruturas atingidas pela falência econômica,
de outro, ao contrário de muitas cidades onde a proteção e a valorização do
patrimônio histórico se colocam no sentido de recuperação de estruturas destruídas
pelas concepções do urbanismo dos modernos, pela renovação urbana, pela
destruição criativa, em São Luís a conservação da cidade histórica dizia respeito à
conservação de uma cidade viva. Uma cidade onde se vivia, onde se trabalhava, se
estudava, fazia compras e se divertia. Tudo isto nos mesmos casarões que foram
classificados como históricos.
Uma situação que atualmente tem sido a mais amplamente desejada por
grande parte dos programas, planos e projetos para centros e cidades históricas: a
integração com a vida cotidiana de modo que através do uso se torne possível evitar
a degradação e manter as atividades e a diversidade. Pelo menos no discurso, no
qual, não raro, está presente um sentimento de que, se se pudesse ter afastado as
concepções modernistas, se se pudesse ter reconhecido o quanto estavam erradas
e compreendido a importância da história e da conservação da cidade existente, os
centros antigos ainda existiriam, plenos de significado social e cultural.
19

Ao se colocar a expansão da cidade para terras ainda não urbanizadas e


distantes desta cidade viva, colocava-se a tensão entre adotar um novo estilo de
vida, adotar um novo modo de morar e abandonar os antigos. Neste sentido, parte-
se do princípio de que o processo de construção do novo espaço urbano precisava
incluir a desconstrução do centro como espaço residencial. Tratava-se de promover,
como modos de morar adequados e modernos, a separação das áreas residenciais
das áreas centrais, a separação entre o espaço da moradia e o espaço do trabalho.
Nesta perspectiva, o centro deveria se manter como centro da cidade nova
que se queria construir, como centro de negócios, como centro comercial e de
serviços. A transformação deste centro em histórico deveria contemplar esta
questão. Desta forma, o centro poderia se manter como lugar de consumo e como
espaço a ser consumido, nos termos de Henri Lefebvre (1991).
Neste ponto, questiona-se o quanto as tensões entre as exigências da
conservação e os interesses econômicos, especialmente do comércio, uma das
grandes forças econômicas em São Luís, acabaram por levar à divisão do sítio
histórico. De um lado, a Praia Grande, a parte que se considerava perdida e não
desejada para qualquer outro uso. Esta parte se transformou em Centro Histórico.
Do outro, a outra parte, a parte que ainda estava viva e em pleno uso que foi
destinada ao comércio, o qual aproveitou a oportunidade para se expandir. Acabou
por se transformar no centro-que-não-é-histórico.
A intenção é caracterizar de que maneira a urbanização modernizadora, ao se
basear na criação de novos espaços residenciais em terras não urbanizadas
produziu uma cidade dispersa que é também uma nova condição urbana; produziu
novos modos de morar e criou uma tensão entre estes novos modos de morar e os
modos de morar existentes que passaram a ser representados como obsoletos e
ultrapassados, identificando-se a cidade existente, transformada em histórica, com
esta representação.
Trata-se então de identificar, mediante a análise do Plano Diretor de 1974 e o
estudo dos novos modos de morar defendidos e implementados pelas políticas de
urbanização ligadas ao plano, o quanto, já na concepção do espaço que orientou
esta urbanização, estava contida a representação da cidade existente como
inadequada para os novos tempos modernos, para a vida contemporânea. E
identificar de que maneira e em que medida, esta representação de cidade histórica
obsoleta e inadequada influenciou os planos e projetos para a própria cidade
20

histórica, criando a contradição entre a valorização do histórico e a integração na


vida contemporânea revelada na divisão do centro em centro histórico e centro-que-
não-é-histórico. Identificar ainda que representações de centro histórico, incluindo
aqui a sua integração na vida contemporânea, estavam presentes nestes planos.
Como objetos privilegiados de análise tem-se, de um lado, o processo de
produção da cidade dispersa e os modos de morar criados e do outro, as
transformações sofridas pelo centro urbano. Como instrumentos, os planos e
projetos são estudados como a expressão da concepção do espaço. Neste sentido,
estuda-se o Plano Diretor Municipal de 1974 procurando compreender a construção
da cidade moderna e a transformação da cidade existente em histórica, focando de
maneira particular nos aspectos, ou nos capítulos do plano, que estudam e
determinam os usos, as atividades, a localização das pessoas no território (o plano
de zoneamento) e as propostas de proteção e valorização do patrimônio histórico.
Analisa-se também a propaganda do Plano, isto é, o discurso sobre o plano, assim
como sua principal estratégia de implementação. Estudam-se, ainda, nos planos a
seguir, isto é, no Plano Diretor de 1992 e no de 2006, a maneira como foram
tratadas as duas condições urbanas criadas a partir do processo iniciado em 1974.
Com o objetivo de compreender as transformações do centro urbano e o
papel de histórico que lhe foi conferido estudam-se os planos e projetos voltados
para a conservação do centro histórico: o próprio Plano Diretor de 1974, o Plano de
Renovação da Praia Grande – São Luís, Maranhão; o Programa de Preservação e
Revitalização do Centro Histórico de São Luís, sob a responsabilidade do Governo
de Estado do Maranhão, no período 1979/2005; e, finalmente, o Plano de
Revitalização do Centro Histórico de São Luís, de 2005, sob o comando da
Prefeitura Municipal de São Luís.
O estudo dos planos é complementado com o estudo das práticas espaciais,
isto é, o espaço produzido e a vida que nele se desenvolve (LEFEBVRE, 2000).
Procura-se caracterizar as práticas espaciais na nova cidade e os novos modos de
morar, compreendendo-se “modos de morar” como a relação, quer individual, quer
coletiva, com a cidade, com a vizinhança, com os espaços públicos e com o seu
espaço individual de moradia, em seu cotidiano. Relaciona-se com a experiência
urbana (MOGIN, 2009) e com a produção do espaço (LEFEBVRE, 2000). Neste
trabalho, busca-se compreender estes modos de morar em duas dimensões: a
dimensão da convivência em seu espaço de vizinhança, o estar entre-si e a
21

dimensão de experiência urbana, o estudo de ambas referenciado no trabalho de


Olivier Mogin (2009). Deste modo, trata-se também da vivência deste espaço, do
espaço como ele é vivido.
Compreendendo que estas concepções de espaço não surgem do nada, e
que, assim como as práticas espaciais e a vivência do espaço elas são fortemente
influenciadas pelo contexto político, econômico e cultural em que se desenvolvem,
apresentam-se os principais aspectos deste contexto no período 1966-2006.
Parte-se do princípio, também, que a decisão de valorizar e preservar a
cidade histórica, ao tempo que se promovia a sua modernização contribuiu para a
manutenção das estruturas históricas e para a vida ali presente. Com todas as
adversidades, o centro permanece como um espaço urbano vivo e vibrante.
Apresenta ainda uma grande diversidade social e cultural, principalmente devido aos
nichos residenciais que se mantiveram e que vivem uma vida, como eles mesmos
dizem, em comunidade. O centro, parafraseando Lefebvre (1991), está rachando e,
no entanto, consegue permanecer; está até muitas vezes deteriorado, mas resiste e
não desaparece.
Tem-se a convicção de que a recuperação do Centro Histórico e sua
condição de Patrimônio da Humanidade colocaram na ordem do dia a discussão da
permanência e da necessidade da conservação da cidade existente. E que, durante
este tempo todo, do início do processo em meados de 1960 até os dias de hoje, o
urbanismo, ou melhor, a prática da urbanização em São Luís dividiu-se entre a
construção da cidade contemporânea e a conservação da cidade histórica.
Entretanto, dividir pode significar tanto separar quanto trabalhar conjuntamente. É
este o sentido de tratar as tensões entre a expansão e o centro antigo.

1.1 UM CENTRO HISTÓRICO E UM CENTRO-QUE-NÃO-É-HISTÓRICO

Neste ponto é importante compreender de que centro ou centros se está


falando. Denominado cidade histórica na década de 1970, o centro histórico, de
direito porquanto na legislação, engloba toda a área central considerada de
interesse histórico e cultural, protegida por tombamento estadual, sendo delimitada
pelo plano diretor, ou melhor, pela Lei de Uso Ocupação e Parcelamento do Solo
(1992) vigente como Zona de Preservação Histórica (ZPH). Dentro deste limite, uma
área menor e alguns conjuntos isolados são classificados como tombamento federal.
22

Parte do patrimônio da humanidade se encontra na área de tombamento


federal e parte na área de tombamento estadual, indo até o Seminário de Santo
Antônio, antigo Convento de São Francisco. Na verdade, como é exigência da
própria Unesco que a zona patrimônio da humanidade seja área de proteção federal,
existe, desde 1997, a intenção de ampliar este tombamento federal de modo a fazê-
lo coincidir com o perímetro do patrimônio mundial, exatamente porque foi a
permanência do traçado urbano, evidenciada por mapas do século XVII, o maior
argumento para o título.

Figura 1: São Luís, traçado original. Figura 2: Traçado original sobreposto ao atual.
Figura 1- Fonte: Detalhe da gravura que ilustra o livro de Gaspar Barleus, 1647. Autor não
identificado apud Reis, 2000.
Figura 2 – Fonte: Estudo de Olavo Pereira da Silva Filho, 1998.

De direito, a área toda é considerada digna de ter o seu patrimônio cultural


protegido e de estar submetida às normas da conservação, ainda que diferentes
organismos tenham seus limites de atuação bem definidos. De fato, a distinção não
se restringe a questões administrativas, sobre quem é responsável por este ou
aquele pedaço do centro histórico, quem regulamenta e fiscaliza as intervenções.
Ela se manifesta, principalmente, no significado e na dinâmica de cada uma delas.
A zona inclusa na Lista do Patrimônio Mundial é um indicador de que, ainda
que submetidas a responsabilidades diferentes, tanto a área de tombamento federal
quanto a de tombamento estadual possuem valores históricos e culturais similares.
Entretanto, um local específico, que não é nem a totalidade da área federal e nem
mesmo a área da Lista do Patrimônio Mundial da Unesco, mas o local que foi objeto
do projeto urbano de reabilitação, o Projeto Reviver, é a área reconhecida como o
centro histórico de São Luís. É a São Luís, Patrimônio Cultural da Humanidade. Este
é o centro histórico.
23

Figura 3: Mapa com a localização das zonas tombadas no Centro de São Luís.
Fonte: Andrés, 1998, p. 37.
13 – Fonte do Ribeirão
16 – Convento do Carmo na Praça João Lisboa (ou Largo do Carmo)
20 – Igreja de São João
22 – Seminário Santo Antônio
A delimitação da zona classificada como patrimônio mundial é a área contida até o número 22 na
ilustração, que é o Convento de São Francisco (dos franceses), atual Seminário de Santo Antônio
(dos portugueses). Este é o limite da área inscrita na lista do Patrimônio Mundial da Unesco.

O outro centro, de mais a mais, não consegue encontrar a sua denominação.


Os moradores, os mais antigos, de maneira muito simples, continuam a chamar os
lugares pelos nomes de outrora: Praia Grande, Desterro, Madre Deus, Santo
Antônio, Alecrim, São Pantaleão e por aí vai. Alguns constituindo pequenos polos,
regiões bairros, outros se referindo a apenas uma rua, seguindo um antigo costume
de nomear a rua em vez do bairro como lugar de moradia. Os jovens muitas vezes
resolvem a questão identificando um centro histórico e um centro-que-não-é-
histórico. Esta é a inspiração da denominação adotada neste trabalho.
É preciso esclarecer que este centro-que-não-é-histórico é, na verdade, tão
histórico quanto o outro, porque submetido às mesmas normas, à mesma legislação.
O caráter de histórico, mesmo se desvanecendo frente à diferença de tratamento
entre as duas áreas provoca inclusive, questões mal resolvidas frente à Unesco que
vem se manifestando veementemente pelo tratamento de conservação mais global
(O Estado do Maranhão, 27/08/2008).
24

Figura 4: O Centro Histórico como definido pela prefeitura: divisão de bairros e zonas tombadas.
Fonte: Autora, a partir de imagem do Google Earth (2008).

Legenda
Limite de Tombamento Federal
Área inscrita na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco
Tombamento Estadual

1.2 CONSTRUINDO A TESE

Esta reflexão começou a se construir a partir dos estudos desenvolvidos para


a dissertação defendida no Mestrado Interinstitucional (Minter) entre a Universidade
Estadual do Maranhão (UEMA) e o Mestrado em Desenvolvimento Urbano na
Universidade Federal de Pernambuco (MDU/UFPE) em 2002.
As questões norteadoras daquela investigação giravam em torno da
preocupação com o impacto do tombamento do sítio histórico na vida das pessoas
moradoras do centro. Neste sentido, procurava-se compreender o habitar
contemporâneo no patrimônio cultural urbano sob o ponto de vista de seus
moradores, mediante a apreensão das representações sobre o morar em área de
interesse histórico e cultural. Como referencial teórico e metodológico a teoria das
representações sociais de Serge Moscovici (1997, apud VENANCIO, 2002) que
privilegia a lógica própria do senso comum.
O centro se revelou como um lugar de morar, muito embora este morar não
fosse (e não seja) homogêneo, identificando-se, de um lado, os problemas que os
moradores enfrentam com o abandono dos casarões que vão do medo do próprio
desabamento à sua ocupação ilegal, o mais das vezes por marginais, passando pela
quebra das relações de vizinhança. Identificando-se também, por outro lado, a
presença de nichos residenciais, denominação dada pelos próprios moradores, que
25

permitem a permanência de um estilo de vida onde o viver urbano solidário e em


comunidade ainda pode ser compartilhado (VENANCIO, 2002).
Ao mesmo tempo, se tornou evidente a tensão entre o Patrimônio Histórico e
os moradores que pode ser resumida na representação (dominante por parte dos
moradores) “a casa é minha, o patrimônio é deles”. Por outro lado, revelou-se que
estes atribuíam (atribuem ainda) ao progresso ou ao modernismo a responsabilidade
pelas transformações, pelos novos modos de morar, pelos novos espaços que foram
criados na cidade e pela mudança das áreas residenciais do centro em áreas
comerciais. Por sua vez, os novos espaços, os novos modos de morar e a contínua
substituição do uso residencial pelo uso comercial, são considerados responsáveis
pela quebra nas relações de vizinhança, pela insegurança, pelo esvaziamento do
centro e abandono dos casarões.
Identificaram-se, ainda, as representações negativas sobre o centro que eles,
os moradores, reconhecem existir e com as quais admitem conviver, como por
exemplo, a do “centro lugar que ninguém quer”, ou a do “centro inadequado para
morar”, por motivos que vão da ausência de garagem nas moradias coloniais à
perda do prestígio social, passando pela representação do centro como lugar para
“velhos”, ou lugar no qual permanece “quem não tem condições de sair”, passando
também pelo centro como o lugar de marginais de todos os tipos e de “invasores”
dos espaços abandonados (VENANCIO, 2002).
É preciso acrescentar que a preocupação que orientou a dissertação se
colocava no contexto de que, enquanto o Governo do Estado do Maranhão realizava
com sucesso o Programa de Preservação e Revitalização do Centro Histórico de
São Luís (PPRCHSL), levando à sua inclusão na lista do Patrimônio Mundial da
Unesco, na área delimitada como Centro Histórico, a Praia Grande e seus arredores,
a área de tombamento estadual que permanecia viva, com um uso residencial ainda
intenso, contava apenas com as normas da conservação para evitar o abandono e a
degradação dos imóveis, o que por si só ameaçava o próprio uso residencial, já que
as restrições destas normas são elementos que não facilitavam e não facilitam a
permanência das moradias, sendo, pelo contrário, “complicadores” em potencial. O
que em si constitui um paradoxo porquanto se identificou também na investigação
para a dissertação de mestrado, que os modos de morar ali presentes se apoiam,
em grande medida, na conservação do sítio antigo.
26

Por outro lado, identificava-se naquela dissertação que a construção da nova


cidade, baseada na criação de novas áreas residenciais, constituiu um novo tipo de
urbanização, de funcionamento da cidade, que precisava (precisa ainda) da
aprovação dos próprios habitantes que vão comprar e usufruir os novos espaços.
Assim, os conflitos entre conservar o histórico e desenvolver o moderno,
subordinados aos interesses dos setores promotores da expansão da cidade, como
por exemplo, os setores ligados aos mercados fundiário e imobiliário, deviam
(devem) aparecer como conflitos entre a necessidade de modernização da cidade e
a conservação, ou como rejeição da população ao antigo centro.
Naquele momento se vislumbrou, ainda em nível de questionamento, se ao
tratar de construir a cidade nova não teria sido necessário desconstruir a cidade
existente como espaço residencial. E tratar de convencer a todos que a saída do
centro se relacionava com o desejo da população de novas formas e espaços de
morar. Que eram amplamente ofertados, para todos os gostos e bolsos, desde que
estes bolsos tivessem capacidade de comprá-los. Deste modo, àquela época,
tratávamos, em teoria, baseando este raciocínio no conceito de poder simbólico de
Bourdieu (1989), da necessidade de todo um mecanismo de valorização das novas
áreas, incluindo-se aqui a negação das características do espaço anterior, do
espaço da cidade antiga.

Trocando em miúdos: a cidade moderna há que negar a antiga cidade.


Nasce a cidade histórica carregando desde o início essa contradição: ao
mesmo tempo em que se propõe a sua valorização, ser histórico passa a
significar ser velho, inadequado e obsoleto. (VENANCIO, 2002, p.22).

Começou a se configurar o questionamento de que, se as representações


sociais emergem, em parte, como resultado do processo de apropriação pelo próprio
senso comum de teorias e práticas do universo da ciência, do universo reificado,
estas representações sobre o centro, são representações construídas também a
partir do universo reificado e foram criadas com algum sentido e finalidade iniciais
(VENANCIO, 2002).
É neste sentido que refletir sobre as representações dos moradores acerca do
centro como lugar de morar levou a refletir sobre o universo das teorias e práticas do
urbanismo que dizem respeito à cidade existente.
As reflexões teóricas, já a partir do doutorado no Programa de Pós-graduação
em Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (PROURB-FAU/UFRJ), aproximaram esta questão da teoria da
27

produção do espaço de Henri Lefebvre (2000), do que ele chama de momentos de


produção do espaço, especialmente do momento do espaço concebido. Invertia-se o
foco da investigação, colocando-se no centro dela a representação do espaço no
sentido que Lefebvre (2000) utiliza.
Esta tese se constrói, portanto, tendo como ponto inicial esta inquietação:
compreender que representações do espaço estavam presentes nos planos e
projetos que dirigiram a construção da nova cidade e a transformação da cidade
existente em histórica. Planos que foram, a expressão do pensamento das pessoas
que dirigiam o processo de urbanização, que como assinalou Secchi (2006),
utilizaram argumentos que aspiravam ser indiscutíveis.
O urbanismo aqui, estendendo-se este conceito para a urbanização, é
entendido no sentido que entende Secchi (2006, p. 9 -10) como testemunho de um
vasto conjunto de prática de contínua e consciente modificação do estado do
território e da cidade. Um urbanismo cuja história não é apenas uma história de
fatos, de projetos, de políticas, ou de suas realizações e de suas consequências,
mas é também uma história de ideias e imaginários.
Em um sentido mais amplo, trata-se de compreender a relação da
urbanização de São Luís com este sítio histórico que, tendo sido a cidade durante
muito tempo, ainda guarda desta cidade a diversidade, não podendo ser visto tão
somente como uma coleção de monumentos históricos, que, na verdade são as
casas onde moram, trabalham, vivem, pessoas.
À preocupação inicial em relação ao impacto do tombamento sobre os
moradores, acrescentava-se outra inquietação: a situação paradoxal de um centro
urbano tornado histórico em uma situação privilegiada de centro ativo e integrado à
vida cotidiana que vem assistindo, paulatinamente, à inversão desta situação,
seguindo o destino de abandono e degradação de boa parte dos centros de outras
cidades brasileiras.
É o urbanista Flávio Villaça (2000) quem aponta, em seu já clássico trabalho,
que a chamada decadência dos centros está ligada ao abandono destes centros
pelas elites. Abandono que não aconteceu por deficiências internas, ou
envelhecimento, porque neste caso, a decisão teria sido pela renovação. Abandono
relacionado a outros fatores, como a articulação entre os interesses da elite e
interesses imobiliários desejosos de abrir novas frentes para seus empreendimentos
e continuamente renovar o estoque construído. Para Villaça (2000), não apenas a
28

maioria dos centros urbanos sofreram processos de abandono e degradação, mas


este é um dos traços mais marcantes da urbanização brasileira.
Olhando desse ponto de vista a situação do centro de São Luís já não parece
tão paradoxal assim, mas passa a ser apenas a repetição do lugar comum. Nem por
isso, nem por ser repetição ou lugar comum, nem por esta condição de lugar comum
ser de certa maneira previsível, este se torna um processo natural.
Uma estratégia de classe aponta Lefebvre (1991). Tudo para reservar os
melhores espaços para os mercados consumidores de alta e média renda e para
impedir o acesso da população de menor renda a estes espaços. Estratégia de uma
classe que, usando o argumento da boa organização e do bom funcionamento da
cidade, promove a segregação espacial reservando os melhores espaços para si,
enquanto expulsa as classes populares dos locais mais bem estruturados da cidade.
Ou enquanto desconstrói estes locais, em nome da construção daqueles que lhes
interessam. O que vem a dar rigorosamente no mesmo. Realidade que não deixa
de fora a cidade histórica.
Adotando os novos modos de morar nos novos espaços que se criaram em
São Luís,

As classes altas abandonam o centro. Suas casas, magníficas, são


vendidas para o Estado para abrigar repartições públicas e museus. São
transformadas em bancos, em grandes lojas, escolas, hospitais e clínicas.
As portas-e-janelas, em lojinhas, consultórios, escritórios. Menos por
vontade de seus moradores, mais porque os proprietários, os mesmos das
casas magníficas, substituíram com vantagens o aluguel da casa pelo
aluguel comercial. (VENANCIO, 2002, p.21).

A elite abandonava o centro como local de sua moradia, partindo para os


novos espaços de maior prestígio social levando, muitas vezes, também os
inquilinos a procurarem outros espaços ao preferirem alugar seus imóveis para o
uso comercial. Ao mesmo tempo, a propaganda dos novos modos de morar e a
oferta da casa própria, atraía esta população de inquilinos que trocava o aluguel pela
prestação desta casa própria.
Neste sentido, passou a ser importante, para entender o que acontecia no
centro, deixar de pensar sua conservação e a instituição de parte do centro urbano
como centro histórico como um fato isolado e olhar para o espaço urbano produzido
à sua volta e mais especificamente, tentar desvelar, de um lado, o impacto que os
novos modos de morar tiveram sobre o centro urbano e, ainda mais importante,
relacionado com a primeira questão, que papel era destinado à cidade existente na
29

nova cidade que se propunha construir, que relações se queriam ver estabelecidas.
Afinal, qual teria sido a intenção de, ao promover a construção da nova cidade,
propor-se ao mesmo tempo a conservação, ou nos termos do plano diretor, a
preservação e a valorização da cidade antiga, ou do centro antigo?
As histórias das duas cidades se entrelaçam, uma interferindo na outra,
dialeticamente. Se a construção da cidade moderna, ou a decisão de romper o eixo
de crescimento e criar novos núcleos residenciais para além da cidade é
responsável pela evasão dos moradores do centro, por outro lado, ela é também
celebrada como um dos fatores que permitiu a conservação da cidade colonial com
o argumento de que este fato retirou a pressão do mercado imobiliário da cidade
histórica permitindo que o ambiente construído permanecesse (GOVERNO DO
ESTADO DO MARANHÃO, 1997, p.25), criando assim a dualidade cidade-histórica,
cidade-moderna. Para contar a história de uma é preciso contar a história das duas.
Neste ponto, o que começara como uma investigação da representação do
espaço contida nos planos se ampliava para tentar compreender a produção do
espaço urbano de São Luís a partir do Plano Diretor de 1974. A transformação da
cidade existente em cidade histórica em São Luís é ato que se insere na produção
do seu espaço urbano.
Não se trata, portanto, de uma discussão da cidade histórica sob o ponto de
vista das normas conservacionistas, muito embora se reconheça esta discussão
como extremamente importante, mas sob o ponto de vista da produção do espaço,
considerando o centro como parte da cidade ao qual foram destinadas funções
específicas no processo de modernização. É neste sentido que se propõe refletir
sobre a dualidade construir a cidade nova e conservar como histórica a cidade
existente em São Luís.
Lembrando Marc Bloch (197-) quando dizia que a história não deve apenas
permitir compreender o presente pelo passado, que é a atitude tradicional, mas
compreender o passado pelo presente, foi a partir de uma situação atual que se
propôs discutir a história deste processo onde nasceram as duas cidades.
Assim, esta tese dá continuidade aos estudos do mestrado, incorporando
outras preocupações e reflexões teóricas. Contribuíram para este trabalho as
pesquisas desenvolvidas após o mestrado sobre os modos de morar em São Luís
30

(VENANCIO, 2010)1 com o auxílio de bolsistas de iniciação científica (FAPEMA e


UEMA) como é o caso das pesquisas de Tayana Figueiredo (2006); Denise
Assunção (2006); Shenna Araújo (2007); Giovanna Freire (2008, 2009); Christiana
Santos (2008); Renata Targino (2008, 2009); Felipe Brito (2010); Laura Pessoa
(2010) e Paulo Rodrigues (2010). Houve, ainda, importantes contribuições de
trabalhos de graduação, como os de Paulo Vasconcelos (2007).

1.3 ESTRUTURA DA TESE

No capítulo Sobre Conceitos e Teorias trata-se de construir o quadro teórico


que orientou a reflexão neste trabalho. Ressalta-se o suporte teórico de Henri
Lefebvre (1991, 1999a, 1999b, 2000, 2008) para a compreensão do processo. São
especialmente caros, primeiro, o conceito de espaço social como um espaço vivido e
como um espaço produzido socialmente. Segundo, o entendimento da produção do
espaço em duas acepções: a mais ampla, no sentido da produção pelos seres
humanos de sua vida e a segunda acepção a produção que tem como resultado um
produto, o espaço como uma mercadoria que se compra e vende. Ainda, o conceito
de espaço abstrato, o espaço produzido dentro da lógica dos diferentes mercados
capitalistas, o financeiro, o imobiliário, o fundiário, o da indústria do turismo. E o
conceito de espaço como instrumento de ação e ferramenta de dominação.
Lefebvre (2000) foi também o suporte teórico fundamental para o
entendimento das representações que orientaram a expansão modernizadora a
partir de sua visão da produção do espaço. Além disso, procurou-se articular o
conceito de espaço social de Lefebvre com o de experiência urbana como coloca
Mogin (2009) para uma maior compreensão entre as tensões entre a expansão e o
centro e os novos modos de morar criados.
Destaca-se a visão de Harvey (1996, 2008) a respeito do papel da
urbanização como instrumento do desenvolvimento capitalista, buscando uma maior
compreensão tanto da intenção da modernização de São Luís (e do Maranhão) do
governo de José Sarney articulada com as propostas desenvolvimentistas do
governo da ditadura militar, quanto da produção do espaço segundo a visão
neoliberal, depois da segunda metade da década de 1990.

1
Esta pesquisa iniciou-se em 2004, desenvolvendo-se com o apoio de bolsistas de iniciação científica
da UEMA e da Fapema e finalmente, em seu período final, recebeu suporte financeiro da Fapema
através do Edital Universal de Apoio a Pesquisa em 2009.
31

A visão de Zygmunt Bauman (2001) sobre o que ele chama de “modernidade


líquida” articulada com a teoria da produção de espaço e o conceito de experiência
urbana e alimentada pela visão de Harvey (2008) em relação à transformação em
mercadoria do espaço, da cidade e mesmo de estilos de vida, permitiu uma maior
compreensão da tensão entre as duas condições urbanas nos anos mais recentes.
Para uma maior compreensão da concepção do espaço presente na
urbanização modernizadora, recorre-se à sistematização de Secchi (2006, 2009)
sobre a divisão do urbanismo entre o que ele chama de figuras, da concentração e
da dispersão. Articulada com a visão da produção do espaço de Lefebvre (2000) e
com o conceito de experiência urbana de Mogin (2009), este é o suporte para a
discussão da produção da cidade dispersa e sua oposição à cidade concentrada.
A seguir, estrutura-se a tese a partir de três períodos do processo de
urbanização: o primeiro, o ponto de partida onde são desenhadas as propostas de
construção da nova cidade e onde se define a cidade colonial existente como cidade
histórica. Este período é tratado no capítulo intitulado A Urbanização Modernizadora
onde se analisam as representações do espaço que tomaram forma no Plano Diretor
de 1974. Apresentam-se, em primeiro lugar, os aspectos políticos, econômicos e
culturais que criaram o contexto de elaboração deste Plano, entendendo-se que esta
proposta de urbanização tem origem na década anterior quando da eleição de José
Sarney como governador do Maranhão. Destaca-se o papel do grupo político de
Sarney como articulador das políticas do governo da ditadura militar no Maranhão,
incluindo o papel pensado para São Luís como polo de desenvolvimento no
Nordeste através de projetos especiais como o Projeto Grande Carajás e a resposta
local do Maranhão Novo. Destaca-se a proposta do governo federal de valorização
do patrimônio histórico e a visita do consultor da Unesco, Michel Parent.
A seguir, caracteriza-se a intenção de construção da expansão como uma
nova cidade, identificando-se a cidade colonial existente como uma cidade histórica.
Caracteriza-se a representação do espaço que trata o centro como inadequado aos
modos de morar modernos. Identifica-se a tensão que passa a ser vivida pelo centro
dividido entre a sua condição de cidade histórica e sua condição de centro da nova
cidade.
O segundo período corresponde ao momento da urbanização dispersa e da
criação não mais de uma cidade histórica, mas de um centro histórico. Constitui o
capítulo A Construção da Cidade Dispersa e a Criação do Centro Histórico. Divide-
32

se em duas partes. A primeira trata da cidade dispersa que se produziu e dos modos
de morar que foram criados neste processo. Caracteriza-se a cidade dispersa como
a descontinuidade do ambiente construído e como uma nova condição urbana
(MOGIN, 2009), decorrente da individualização dos modos de viver, da multiplicação
dos deslocamentos dos automóveis e das distâncias percorridas cotidianamente.
Trata-se de evidenciar as práticas espaciais, os espaços produzidos e a vivência
propiciada por eles (LEFEBVRE, 2000) buscando identificar o papel da cidade
existente, especialmente do centro urbano, nesta nova condição. A segunda parte
busca compreender as representações que orientaram a criação do centro histórico,
a sua consolidação, os planos e projetos que tornaram São Luís, Cidade Patrimônio
da Humanidade.
O terceiro período é tratado no capítulo intitulado Uma Nova Condição
Urbana: a Cidade Dispersa e o Centro Dividido, onde se discutem as transformações
na cidade e no centro em particular, a partir da segunda metade da década de 1990
em especial a inclusão do Centro Histórico na Lista do Patrimônio Mundial em
relação à sua integração na vida contemporânea. Em contrapartida, analisa-se o
impacto de um novo Plano Diretor, em 1992, na cidade dispersa e no centro como
um todo. A intenção é evidenciar o momento de inflexão, no qual a dispersão da
cidade incomodava e a reabilitação do centro histórico se tornara uma possibilidade
concreta, colocando-o como parte da condição da cidade contemporânea. Em outras
palavras a tensão entre a condição de histórica e a condição de cidade antiga, a
integração da primeira e a desintegração da segunda.
Finalmente apresentam-se as Considerações Finais onde se busca fazer uma
síntese da reflexão empreendida.
33

2 SOBRE CONCEITOS E REFERENCIAIS TEÓRICOS

2.1 CONDIÇÃO URBANA E EXPERIÊNCIA URBANA

A expressão condição urbana tem o sentido de colocar em evidência uma


circunstância, uma situação urbana determinada, com características especiais.
Olivier Mogin (2009) a usa para falar de duas condições urbanas, de uma situação,
como ele diz, entre dois mundos. O mundo da cidade concebida como uma
aglomeração que reúne e integra, a cidade que se pode chamar de compacta e o
mundo de um urbano que se estende sem limites, de territórios fragmentados.
A primeira condição diz respeito à cidade “multiplicadora de relações,
aceleradora de trocas” (MOGIN, 2009, p.29). É a cidade que acompanha a gênese
de valores qualificados como urbanos. O urbano se definindo em relação à cidade,
como relativo ou pertencente à cidade.
Na perspectiva da primeira condição, Mogin (2009) situa a cidade como
condição de possibilidade de relações diversas, que vão de uma relação individual
com o espaço, a uma relação com os outros neste espaço. É uma condição urbana
que designa tanto um território quanto um tipo de experiência da qual a cidade é,
com mais ou menos intensidade, a condição de possibilidade: a experiência urbana.
A experiência urbana é primeiramente um espaço de habitação e de
vizinhança, de relações pessoais (MOGIN, 2009). Uma primeira dimensão da
experiência urbana é, portanto a experiência corporal dentro de um espaço, a
interação com este espaço pelo contato do corpo individualmente, a experiência com
o espaço através do deslocamento individual neste espaço, como por exemplo, a
apreensão do espaço através do caminhar. No espaço da cidade, através desta
experiência corporal, o individual se enlaça com o público de um modo bem simples,
uma vez que a possibilidade de caminhar pela cidade permite o compartilhar dos
espaços pelos mais diferentes tipos de pessoas e com isto a convivência com a
diferença que reforça o exercício da urbanidade.
Por sua vez, o exercício da urbanidade encontra-se com uma segunda
dimensão da experiência urbana: uma experiência pública, onde o individual se
expõe para uma vida com os outros, para uma vida pública. É preciso ressaltar,
porém, que a experiência urbana tem uma dimensão pública não porque lugares são
definidos como públicos (embora em geral, espaços públicos estejam mais
presentes na cidade compacta relacionada com a primeira condição urbana), mas
34

porque ela cria as condições de uma experiência pública, ao facilitar as trocas, os


encontros, os contatos e a convivência com a diferença.
Deste modo, por que é experiência individual e é experiência do indivíduo
com os outros, a cidade, nesta primeira condição, é um ambiente com zonas de
fricção, que, no entanto, não significam oposição, uma vez que o privado e o público
nunca estão radicalmente separados, embora cada um tenha o seu espaço.
São Luís, até a década de 1970 era uma cidade compacta, concentrada. A
expansão de São Luís, ao tratar de ocupar terras não urbanizadas, distantes da
cidade existente, deu início à construção de uma nova cidade que se caracterizou
pela descontinuidade do construído, uma cidade dispersa. Esta é a nova condição
urbana. É importante caracterizar que a cidade dispersa, como será visto mais
adiante, foi consequência das escolhas do processo de urbanização, mais
especificamente as que se expressaram no Plano Diretor de 1974.
A cidade dispersa se assenta sobre a prevalência dos espaços homogêneos,
distantes entre si, acompanhados dos espaços de ligação e de circulação entre
estes espaços homogêneos, em detrimento dos espaços de convivência. Privilegia o
retraimento em oposição ao se expor à experiência pública. Nesta condição, os
espaços privados se impõem aos espaços públicos. É neste sentido que, para
Lefebvre (1991) a lógica da dispersão destrói a urbanidade. Uma urbanidade que é
construída pelo uso dos espaços da cidade de forma democrática, pela convivência
dos contrastes, que embora não elimine os conflitos, é absolutamente necessária
para o exercício da cidadania plena de todos os seus habitantes.
Deste modo, a dispersão da cidade vai repercutir sobre a experiência urbana
na sua dimensão pública e vai também ter um impacto sobre a experiência mais
básica do indivíduo na cidade, a experiência urbana individual, a experiência do
corpo na cidade que tem como primeiro movimento a apreensão da cidade pelo
caminhar. É esta possibilidade que a condição da cidade dispersa dificulta ao se
caracterizar pela descontinuidade, pela interrupção dos espaços construídos.
Neste ponto é preciso ressaltar que enquanto para Mogin, e para toda uma
discussão sobre a morte da cidade e o reino do urbano (CHOAY, 2004) ou o reino
da pós-cidade (WEBBER, 2004) ou da cidade genérica (KOOLHAAS, 2010) a
cidade, querendo dizer o modelo de cidade europeia, cede lugar ao urbano pela sua
generalização, pelo urbano em toda a parte, sendo esta a segunda condição, em
São Luís a cidade dispersa se produziu neste movimento de construção de núcleos
35

de ambientes construídos, de pedaços de cidade afastados uns dos outros, ligados


por uma extensa malha viária.
A nova condição de cidade dispersa vai gerar modos de morar diferentes,
práticas espaciais diferentes, formas diferentes de relacionamento com o centro da
cidade. Modos de morar que negavam (negam), em maior ou menor intensidade, os
modos de morar da cidade compacta, que se contrapunham à concentração e à
diversidade funcional e, principalmente, à diversidade socioeconômica e cultural.
O centro de São Luís, por sua vez, pertencente à primeira condição urbana se
relaciona também com a nova condição de cidade dispersa na medida em que
permanece, na divisão funcional estabelecida, como centro comercial, como centro
de negócios, como centro de serviços. Também aqui esta relação não é livre de
tensões, na medida em que outras centralidades se afirmam na nova cidade.
O centro tornado histórico é também o centro espaço cívico, centro espaço
cultural, de lazer e de turismo. Neste sentido, o centro passou a desempenhar o
duplo papel de lugar de consumo e consumo do lugar (LEFEBVRE, 1991).
Deste modo, para a cidade dispersa, entendendo a cidade como o espaço
material e as pessoas que vivem nela, o centro é uma parte desta condição, da
condição de cidade dispersa. O centro é parte do cotidiano das pessoas que nela
moram, como lugar de trabalho, estudo, compras, serviços, centro de lazer ou
cultura. O centro também participa da vida de todos, como parte da identidade
construída em cima da propaganda de São Luís, Cidade Patrimônio Cultural da
Humanidade.
Por outro lado, a experiência urbana no sentido primeiro permanece presente
no imaginário coletivo, a cidade ela mesma uma construção mental. É neste sentido
que as tensões entre a expansão e o centro se definem em grande medida pelas
tensões entre estas duas condições urbanas.

2.2 A PRODUÇÃO DO ESPAÇO

Ao tratar de produção do espaço a intenção é tratar da cidade como espaço


urbano, como espaço social no sentido em que Lefebvre (2000) coloca. Espaço
social como a ligação entre o urbano e o cotidiano, os dois “o cotidiano e o urbano,
indissoluvelmente ligados, ao mesmo tempo produtos e produção”, ocupando “um
espaço social gerado através deles” (LEFEBVRE, 2008, p.18). O que quer dizer, um
espaço gerado através do urbano e do cotidiano, espaço que, uma vez criado, gera
36

o cotidiano e o urbano em uma relação dialética. Aproximando-se da perspectiva da


experiência urbana.
O cotidiano é um conceito que se identifica com a vida de todos e de cada
um. Como ensina a filósofa Agnes Heller (1990), a vida cotidiana é a vida de todo
homem, a vida na qual o ser humano participa com todos os aspectos de sua
individualidade, de sua personalidade. O urbano é um conceito mais fluido. Tanto
está associado à cidade quanto ao mundo do pós-cidade, uma concepção que leva
Françoise Choay (2004) a falar de “reino do urbano” e “morte da cidade”. Sem
querer entrar na longa discussão entre cidade e urbano, retém-se aqui o conceito de
cidade por compreender que a cidade é um espaço físico e é uma construção
mental e como tal, é representado (e isto para um imenso número de pessoas) como
o lugar que se habita. Por isso, trata-se de cidade e de condição urbana. E da
cidade como espaço urbano e como espaço social.
Neste contexto, é importante destacar o próprio conceito de cidade que
permeia a nossa reflexão. Compreende-se aqui a cidade no sentido mais amplo de
habitat do ser humano, o habitar que os seres humanos, que homens e mulheres
construíram para si. E busca-se aproximar a cidade do conceito de espaço colocado
por Doreen Massey (2008, p.31): um espaço sempre em processo, nunca como um
sistema fechado, permitindo uma genuína abertura para o futuro.
Assim, se o urbano e o cotidiano estão ligados como produtos e produção, a
produção do espaço pode ser entendida em uma acepção mais ampla, no mesmo
sentido que se entende a produção, pelos seres humanos, de sua vida, de sua
história, do seu mundo e mesmo de sua consciência, como já a entendiam Marx e
Engels (LEFEBVRE, 2000). Uma produção do espaço que implica na participação
das pessoas ou grupos de pessoas através do cotidiano.
Esta primeira acepção é importante para compreender de que maneira a
população se apropria dos seus próprios espaços. Que reflete o fato de que, como
Mogin (2009) pontua, a cidade existe também quando indivíduos conseguem criar
vínculos em um espaço singular e se consideram como citadinos. O que significa
que, em São Luís, também na cidade dispersa, a tensão entre o voltar-se para o
interior e o ato de se expor, de buscar os vínculos com o outro vão acarretar, em
certos espaços residenciais criados na nova cidade, a busca por uma experiência
urbana em seu primeiro sentido.
37

Por outro lado, esta produção é submetida à técnica e ao contexto político.


Deste modo, em sua segunda acepção, o espaço é um espaço produzido, ou seja, é
criado por um motivo determinado, para cumprir um determinado propósito. Este é o
espaço conceituado, idealizado pela ciência, pelos arquitetos e urbanistas, os
tecnocráticos, os planejadores. O espaço do universo reificado. O espaço dos
planos e projetos. Segundo Lefebvre, este momento de concepção do espaço é uma
etapa da produção do espaço. O momento da representação do espaço. O momento
do espaço concebido.
Importante notar que Lefebvre entende representação como um misto de
conhecimento e ideologia. Esta é uma contribuição muito específica de Lefebvre
para a teoria das representações, assunto que também despertou seu interesse e
que vai ser incorporado na teoria da produção do espaço. Para Lefebvre (2000), de
acordo com uma formulação marxista conhecida, o conhecimento se torna uma
força produtiva no momento em que o capitalismo se torna o modo de produção
dominante. Se isso é verdade o conhecimento passa a substituir a ideologia. A área
na qual a ideologia e o conhecimento não são facilmente distinguíveis, se
misturando, é assumida sob a noção mais ampla de representação. A representação
suplanta o conceito original de ideologia e se torna uma ferramenta operacional.
Deste modo, é possível dizer que o espaço não é neutro e que a sua produção é
carregada de ideologia.
A este ponto, é bom notar que estudar a produção do espaço segundo a
teoria lefebvriana requer observar o que ele diz sobre um tipo de influência exercido
sobre esta produção, decisivo, mas frequentemente esquecido; a influência da
hegemonia de uma classe. Lefebvre (2000) lembra o conceito de hegemonia que foi
introduzido por Gramsci para prever o papel da classe operária na construção de
outra sociedade. Um conceito que diz respeito ao poder de uma classe dominante
exercido sobre as outras, o mais frequentemente por pessoas intermediárias: o
poder instituído do Estado, os políticos, as personalidades e os partidos, mas
também pelos intelectuais e sábios. Poder exercido sobre as instituições e sobre
suas representações. Do seu ponto de vista, a hegemonia da classe dominante não
poderia deixar de fora o espaço, fazendo com que a produção do espaço na
sociedade capitalista se dê dentro dessa lógica de dominação.
O conceito de hegemonia permite entender, por exemplo, como certos modos
de morar que são convenientes para o mercado imobiliário, muitas vezes se afirmam
38

como o único modo desejável, aquele que deve ser almejado por todos, acabando
por ser tomado como verdade, de tal modo que, de fato, este modo de morar
determinado pela força econômica de um mercado imobiliário acaba por se
espalhar, adaptando-se aos diferentes níveis de renda. Permite também entender as
representações do espaço que orientaram o Plano Diretor de 1974.
Porque o exercício da hegemonia conta com a ajuda do conhecimento e da
técnica especializada. Isto representa o uso político do conhecimento e implica no
“altamente interessado emprego de um supostamente desinteressado
conhecimento” (LEFEBVRE, 2000, p.15). Para fazer parecer que o espaço é neutro,
concebido segundo critérios absolutamente científicos do que é uma boa cidade.
Desta forma, é possível dizer que nem o processo de produção do espaço
urbano é natural, nem o espaço é neutro. O espaço tem existência como
mercadoria, mas também serve como ferramenta de pensamento e ação. Usada em
muitas ocasiões para separar os grupos sociais, para criar barreiras ao acesso de
determinadas regiões. Para criar uma segregação socioespacial em benefício de
interesses político-econômicos. Que, no entanto, aparece disfarçada pelo uso da
representação como instrumento operacional como sendo uma necessidade, ou um
imperativo cultural. Ou uma consequência natural do processo de modernização.
São Luís não escapa deste processo.
A representação do espaço, vai se constituir como a ferramenta operacional
da produção do espaço em seu primeiro momento. As representações, misto de
conhecimento e ideologia são, no mais das vezes, a transposição dos paradigmas
dominantes neste campo específico de conhecimento, naquele determinado
momento histórico. Para a sociedade capitalista industrial, Lefebvre defende que a
representação dominante é o espaço abstrato, onde o valor de troca é muito mais
importante do que o valor de uso. Ou seja, a representação dominante da sociedade
capitalista industrial é a transposição da lógica da produção industrial para o
processo de urbanização.
Segundo Lefebvre (1991), esta transposição acontece, não como uma
consequência da própria industrialização, mas da condução do processo de
urbanização por uma classe dominante que ao trazer para a cidade a lógica da
produção industrial, acaba por levá-la a ser considerada como produto, como
mercadoria, colocando em primeiro plano o valor de troca, relegando assim a um
segundo plano, o valor de uso.
39

Esta é a segunda acepção da produção do espaço: um processo que tem


como resultado um produto, o espaço como uma mercadoria que se compra e
vende. Como produto, este espaço é, então, um espaço abstrato, mas é também
concreto no sentido em que abstrações concretas como commodities e dinheiro são
concretas, diz Lefebvre (2000). O que implica em criar estratégias de produção do
espaço como mercadoria a ser vendida.
Neste sentido, se o espaço é ferramenta de dominação, a produção do
espaço, a urbanização está em íntima conexão com o desenvolvimento do
capitalismo, como aponta David Harvey (2008). Para ele o que dá corpo e forma às
politicas do capitalismo é a necessidade perpétua de achar setores lucrativos para a
produção e a absorção de excedente de capital, necessidade que se não puder ser
satisfeita pode acabar desencadeando crises desastrosas. E é esta necessidade de
expansão da atividade lucrativa que vem dirigindo a urbanização capitalista
(HARVEY, 2008).
Desta forma, ele oferece o argumento de que no desenvolvimento do
capitalismo, “a urbanização desempenhou um papel particularmente ativo, ao lado
de fenômenos como gastos e estratégias militares, absorvendo o produto excedente
que os capitalistas perpetuamente produzem em sua busca de lucros” (HARVEY,
2008, p.25).
Nesta perspectiva, o uso da urbanização em benefício do capitalismo é bem
demonstrado com a análise do que se convencionou chamar de fordismo. A data de
início, simbólica, como coloca Harvey (1996, p.121), é 1914. Momento no qual Henry
Ford introduziu seu dia de 8 horas e cinco dólares para os seus trabalhadores em
Dearborn, no Estado de Michigan, nos Estados Unidos.
A primeira questão que tem que ficar clara é que fordismo se diferencia do
taylorismo por

sua visão, seu reconhecimento explícito de que produção de massa


significava consumo de massa, um novo sistema de reprodução da força de
trabalho, uma nova política de controle e gerência de trabalho, uma nova
estética e uma nova psicologia. Um novo tipo de sociedade democrática,
racionalizada modernista e populista. (HARVEY, 1996, p.121)

Gramsci, diz Harvey (1996, p. 121), extraiu exatamente essa implicação: o


americanismo e o fordismo “equivaliam ao maior esforço coletivo para criar, com
velocidade sem precedentes e com a consciência do propósito sem igual na história,
um novo tipo de trabalhador e um novo tipo de homem”.
40

E isto exige o que Harvey chama de controle do trabalho. Envolve mistura de


repressão, familiarização, cooptação e cooperação, elementos que têm de ser
organizados não somente no local de trabalho como na sociedade como um todo.

A educação, o treinamento, a persuasão, a mobilização de certos


sentimentos sociais (a ética do trabalho, a lealdade aos companheiros, o
orgulho local ou nacional) e propensões psicológicas (a busca da identidade
através do trabalho, a iniciativa individual ou a solidariedade social)
desempenham um papel e estão claramente presentes na formação de
ideologias dominantes cultivadas pelos meios de comunicação de massa,
pelas instituições religiosas e educacionais, pelos vários setores do
aparelho de Estado, e afirmadas pela simples articulação de sua
experiência por parte dos que fazem o trabalho (HARVEY, 1996, p.119).

Assim se dá o controle do trabalho e também, para usar os termos de


Lefebvre (2000), o controle da reprodução do modo de produção. Certamente, o
espaço como elemento importante, tanto do controle como da reprodução do modo
de produção, não pode ser negligenciado.
É importante observar as características que Harvey (1996) aponta como
próprias da urbanização neste período. Ford tinha se antecipado aos
acontecimentos dos anos 30 fazendo os trabalhadores proverem a maior parte de
suas próprias necessidades de subsistência, cultivando legumes nos jardins de suas
casas, como uma forma de combater a depressão econômica.
Isto, segundo Harvey (1996) teria reforçado o tipo de utopia controlada de
volta à terra que caracterizou Broadacre City de Frank Lloyd Wright. De fato, o tipo
de vida idealizado de casas isoladas e jardins se cristalizou na suburbanização e na
desconcentração da população.
O modelo foi depois consagrado e se tornou um dos principais elementos de
estímulo da demanda efetiva de consumo dos mais diversos produtos, incluindo a
casa própria e o próprio estilo de vida, o american way of life, que acabou sendo
também devidamente exportado, junto com o fordismo.
Porque, se a grande depressão interrompeu a experiência de Ford, depois da
segunda guerra, o New Deal fez amadurecer e consolidar o fordismo, com a
intervenção do Estado e as políticas de bem estar social. Sob a hegemonia do poder
econômico dos Estados Unidos obviamente resguardado pelo poderio militar, o
fordismo foi “exportado” para o mundo. Entretanto, esta disseminação do fordismo
foi desigual, assim como os benefícios que se esperava dele. Como ressalta Lipietz
(1989, p.312), “o modelo e as normas fordistas não "pegaram" na América Latina,
apesar da ajuda norte-americana”.
41

De qualquer maneira, uma variação do modelo fordista que Lipietz chama de


fordismo periférico vai chegar ao Brasil via governo militar, com a ajuda dos Estados
Unidos. Importante notar, no entanto, que

A intervenção militar ou oculta dos Estados Unidos não se fez contra o


sucesso ameaçador da industrialização na periferia (para manter a
dependência), mas sim, contra as tentativas desta última de se colocar
politicamente afastada, senão em oposição, ao modelo. (LIPIETZ, 1989,
p.312).

Lipietz (1989, p. 317), defende que se trata de “um autêntico fordismo, com
uma verdadeira mecanização e uma associação da acumulação intensiva e do
crescimento de mercados em termos dos bens de consumo duráveis”. É periférico,
no sentido de que boa parte dos processos produtivos permanece exterior ao país.
Na prática, houve certo aumento do poder de consumo local no Brasil, mas “quando
se é 120 milhões, basta que 20% da população se aproprie de dois terços da
riqueza para que se constitua um mercado, para os bens de consumo duráveis e
mesmo de luxo, equivalente ao de um país médio da Europa do norte !” (LIPIETZ,
1989, p.323).
Ou seja, o fordismo periférico não trouxe mais que um desenvolvimento
extremamente desigual para o Brasil. No entanto, dentro desta perspectiva se
desenvolveram os projetos de industrialização e modernização de São Luís nas
décadas de 1960 e 1970. O Maranhão Novo, a hegemonia política do grupo de
Sarney ligada a este projeto.
Além disto, este modelo foi também a inspiração para a produção da
habitação, tanto como uma estratégia de formação da classe média, de um mercado
consumidor interno, quanto como um modelo de vida, servindo de inspiração para os
modos de morar em São Luís, onde a vida privada e a individualização como estilo
de vida vão orientar a produção dos grandes conjuntos habitacionais e mesmo os
novos e prestigiosos modos de morar.
Ainda é preciso ressaltar duas questões sobre o fordismo que vão ser
importantes para esta investigação: no seu lastro, como aponta Harvey (2008), o
novo internacionalismo trouxe atividades como o turismo, que vai ser peça
fundamental como proposta de desenvolvimento para o Nordeste e para São Luís. A
outra questão é que o fordismo se apoiou fortemente no planejamento e na
tecnologia, de tal forma que este período consolidou também uma tecnocracia em
vários campos, inclusive no campo do planejamento do espaço urbano. No Brasil, os
42

PNDs e a PNDU seguem esta tendência. O Plano Diretor e a proposta de


preservação e valorização do patrimônio histórico em São Luís seguem tanto os
PNDs como as recomendações do órgão responsável pelo patrimônio em nível
nacional com direta orientação da Unesco, através de consultores especializados,
cujos relatórios vão influenciar as propostas de preservação no Plano Diretor de
1974 e nos planos seguintes.
Garcia Canclini (1998), lembrando Aracy Amaral, vai fazer notar que se a
cultura moderna se construiu negando as tradições e os territórios na Europa, para a
América Latina e neste caso para o Brasil, o moderno se conjuga com o interesse
por conhecer e definir o brasileiro. Este o motor da intenção de proteção ao
patrimônio, aliada, não poderia deixar de estar, com a inserção deste patrimônio no
desenvolvimento, mediante o turismo.
Deste modo é possível reconhecer o papel da urbanização como
impulsionadora do surgimento da indústria da construção civil como força econômica
importante assim como no fortalecimento dos mercados imobiliário e fundiário.
Mesmo a proposta de preservação do patrimônio histórico trazia em si a intenção de
integração no desenvolvimento econômico através do turismo. Mais que isto, é
possível compreender as propostas frequentemente restritas, em se tratando da
conservação de todo o centro, exatamente pela dificuldade de superar uma limitação
ainda maior, a de desafiar “a hegemonia da lógica de mercado liberal e neoliberal ou
os modos dominantes da ação estatal legal” como diz Harvey (2008, p.23).
Harvey (2008) faz esta afirmação no mesmo texto no qual o argumento
central é a questão do direito à cidade que ele coloca nos seguintes termos: o direito
à cidade se constitui um dos mais preciosos e ainda assim mais negligenciados de
nossos direitos humanos. E isto em uma época na qual os ideais dos direitos
humanos têm sido colocados no centro da política e da ética.
Por isso, o direito à cidade tem sido negligenciado. Porque afinal, diz ele,
“vivemos em um mundo no qual os direitos da propriedade privada e da taxa de
lucro superam todas as outras noções de direito” (Harvey, 2008, p.23). Fica claro
que a argumentação da urbanização como suporte do capitalismo é o pano de fundo
também nesta argumentação.
O fordismo permaneceu firme até a segunda metade da década de 1970
quando começou a apresentar problemas do ponto de vista dos capitalistas,
problemas que acabaram levando a sua substituição pelo regime de acumulação
43

flexível. Marcado por um confronto direto com a rigidez do fordismo, este regime
baseia-se fundamentalmente na flexibilidade dos processos de trabalho, dos
mercados de trabalho, dos produtos e dos padrões de consumo.
O Estado, segundo Harvey (2008), ficou numa posição muito mais
problemática. As políticas do bem-estar social passaram a ser duramente criticadas
pelos setores dominantes. Construiu-se uma resposta neoliberal para “os problemas
de perpetuar o poder de classe e de ressuscitar a capacidade para absorver os
excedentes que o capitalismo deve produzir para sobreviver” (Harvey, 2008, p.32).
Ressaltam-se aqui as características que influenciam diretamente a produção
do espaço. Neste sentido é importante observar a mudança intencional de escala da
urbanização. Em muitos sentidos. Por um lado, o mundo é muito mais urbano, por
outro o processo de financiamento desta urbanização também se globalizou. Além
disto, se consolida a ideia da cidade como mercadoria, alimentada pela indústria do
turismo, ideia organizada como empreendedorismo urbano. E mais:

O neoliberalismo também criou novos sistemas de governança que


integram o Estado e os interesses corporativos, e através da aplicação do
poder do dinheiro, ele assegurou que o desembolso do excedente através
do aparelho de Estado favorece capital corporativo e as classes superiores
na modelação do processo urbano. (HARVEY, 2008, p.38)

Neste quadro, a vida comunitária e a própria qualidade de vida se transforma


em mercadoria, produzida e vendida para quem tiver dinheiro, incluindo aqui, todos
os serviços que antes eram fornecidos pelo Estado e todas as intervenções ou
propostas, ou mesmo o que se pode chamar de boas ideias, como é o caso dos
condomínios ou bairros ecológicos. Tudo isso aliado a uma privatização galopante
dos espaços públicos.
Foi neste contexto que, frente a uma cidade dispersa que incomodava por
conta dos seus espaços vazios e um centro histórico que recuperava o seu prestígio,
a decisão do segundo plano diretor, o Plano Diretor de 1992 foi de aprofundar a
distância entre a nova cidade e a antiga. Assim, embora tentasse resolver o
problema dos vazios urbanos construindo espaços que buscavam re-construir uma
condição urbana em seu primeiro sentido, manteve a representação da cidade
existente transformada em histórica como inadequada à vida contemporânea.
Neste mesmo contexto, tenta-se incorporar definitivamente a cidade histórica
à cidade contemporânea, consolidando um centro histórico, atração do turismo
44

internacional com direito a grife do Patrimônio Mundial da Humanidade. O que


coloca a tensão já existente entre as duas condições em outro patamar.
Finalmente, é importante ressaltar que a absorção do excedente por meio da
transformação urbana tem um aspecto sombrio, como aponta Harvey (2008): as
vagas sucessivas de reestruturação urbana através de "destruição criativa", que
quase sempre tem uma dimensão de classe uma vez que são os pobres, os
desfavorecidos e os marginalizados do poder político que sofrem, em primeiro lugar,
esse processo. Se for difícil ver o aspecto da “destruição criativa” em um processo
que propõe a conservação da cidade existente como histórica, é só pensar no
impacto da produção dos novos espaços na cidade antiga e no seu abandono para
poder entender esta colocação.
Assim, a urbanização a serviço do capitalismo vai resvalar para uma
crescente e contínua privatização dos espaços. A nossa modernidade é uma versão
individualizada e privatizada da modernidade, analisa Zygmunt Bauman (2001).
Individualismo e a individualização sobrepõem-se ao coletivo em todos os campos.
Saímos do padrão de grupos sociais ou classes sociais em luta, para o padrão da
ação privada e individualizada.
Bauman (2001) defende a ideia de que vivemos uma “modernidade líquida”.
Evidentemente ele não poderia deixar de pontuar que esse conceito pode, como ele
diz, “fazer vacilar quem transita à vontade no discurso da modernidade. Ou poderia
provocar o questionamento: a modernidade não seria desde o início o ‘derretimento
dos sólidos’”? (BAUMAN, 2001, p.9). Lembrando as famosas palavras de Marx, tudo
que é sólido desmancha no ar, não teria sido a modernidade, uma modernidade
líquida desde o início? Para Bauman, o derretimento dos sólidos na modernidade
tinha o objetivo de dissolver o que existia, exterminar tudo que estivesse arraigado à
antiga ordem, ao passado, à tradição. Derreter os sólidos portanto. Mas, naquele
momento, diz o autor, a intenção era colocar outros sólidos no lugar, num processo
de solidificação de novos valores, esses sim mais adequados aos novos tempos e
ao novo espírito moderno que se afirmava: para abrir caminho para a permanência
de apenas um valor: o dinheiro.
O autor defende que este efeito foi alcançado não pela ditadura, mas
exatamente pelo derretimento dos grilhões, que, certo ou errado, era o que impunha
limites às ações individuais, limites éticos, políticos ou culturais.
45

O processo de soltar as amarras, no entanto, radicalizou-se de tal forma que


o ‘derretimento dos sólidos’ que Bauman afirma ser um traço permanente da
modernidade, adquiriu um novo sentido e, mais importante, foi direcionado para um
novo alvo. O resultado disso foi a dissolução das forças que poderiam ter mantido a
ordem, compreendendo-se aqui a nova ordem moderna, resultado da dissolução da
ordem e da tradição do passado pelo impulso modernizador. Deste modo, os sólidos
que hoje estão sendo, ou estão para ser, derretidos, são os “elos que entrelaçam as
escolhas individuais em projetos ou ações coletivas – os padrões de comunicação e
coordenação entre as políticas de vida conduzidas individualmente, de um lado e as
ações políticas de coletividade humanas, de outro” (BAUMAN, 2001, p.12).
Este padrão se repete na cidade. Nas comunidades fechadas dos
condomínios fortificados que são o reflexo da exacerbação da segregação espacial,
promovida na modernidade. Um espaço que é o contrário do espaço urbano, pois
não permite o encontro de estranhos e o exercício da civilidade. Os bons espaços,
segundo a lógica do espaço como mercadoria, é o espaço dos iguais, que isola, que
demarca uma fronteira fechada e fortificada contra os estranhos.
A revisão do Plano Diretor de 1992, o Plano Diretor Participativo de 2006,
acontece neste contexto. Assim, o resultado, ao contrário das intenções iniciais,
deixou em aberto a direção da urbanização da cidade inteira para o mercado
imobiliário, para as forças econômicas dominantes que vêm consolidando a
privatização do espaço.
Ao privilegiar o espaço-mercadoria e os interesses econômicos dominantes, a
produção da cidade nestes últimos anos, tem acontecido no rastro de construção de
novos espaços, quase sempre condomínios fechados, sempre anunciados e
vendidos como melhores dos que os anteriores. Alimentando-se principalmente da
relocalização das residências, ao sabor dos investimentos imobiliários. Na dança
das localizações, ao compasso do movimento de desvalorização de uma,
valorização de outra, vão-se trocando as antigas residências nos bairros e conjuntos
habitacionais, principalmente os localizados no centro e na cidade antiga, pela
imagem de segurança dos condomínios fechados, os guetos de ricos (PAQUOT,
2009) da cidade de muros, para usar a expressão de Caldeira (2003), que vão
sendo implantados.
Neste ponto, nunca é demais lembrar o desperdício das casas vazias em uma
cidade onde uma grande parte da população vive ainda em habitações e
46

assentamentos subnormais, nas palafitas e ocupações irregulares. Ou a ocupação


dessas casas vazias (e não apenas no centro histórico) por apartamentos individuais
e diferenciais, para usar uma expressão da moda, os cortiços contemporâneos.
Afinal, a outra face de uma urbanização que prioriza a privatização da cidade não
poderia deixar de estar presente, uma vez que “aos guetos voluntários
correspondem os guetos forçados, territórios onde os excluídos e segregados do
espaço formal da cidade vivem” (SILVA, 2006, p.32). O território da exclusão
também se faz presente. E é para este território que as políticas urbanas atuais
parecem querer empurrar o centro da cidade.
Compreender estas questões é essencial para entender que o processo de
degradação da área central não é uma determinação natural e inevitável, mas
resultado de escolhas no processo de urbanização.
Não poderia faltar uma reflexão sobre a questão do centro, da centralidade
urbana. Diz Lefebvre (1999, 2008) que a cidade centraliza e o urbano é a
simultaneidade e que não existe realidade urbana sem um centro, sem uma reunião
de tudo o que pode nascer no espaço e nele ser produzido.
De fato, de qualquer ângulo que se examine, o conceito de centro se constitui
a partir da sua relação com outros pontos. Se do ponto de vista material, na
geometria, é o ponto equidistante dos outros pontos que compõem um objeto, ao se
tratar da cidade, pode designar o centro geográfico, mas mais que isso, o centro se
define a partir da sua relação com as outras áreas. Desse modo, não existe centro
sem o não-centro. Villaça (2001, p.238) vai afirmar que nenhuma área é ou não é
centro, ela torna-se centro. E o faz por sua importância e significado na vida
comunitária de cada aglomeração humana.
Os diferentes conteúdos, significados e funções que esse local (ou locais)
tornado centro vai assumir vão depender do processo social de organização do
espaço urbano, sua constituição exprimindo as forças sociais em ação e a estrutura
de sua dinâmica interna.
Daí que, como afirma Castells (2000) o centro urbano não é uma entidade
espacial definida, mas a ligação de certas funções ou atividades que preenchem um
papel de comunicação entre os elementos de uma estrutura urbana. E como ele
mesmo aponta: o termo centro urbano designa um local geográfico, mas também
designa um conteúdo social, e nessa perspectiva o conteúdo social pode estar
47

presente em múltiplos pontos, por inteiro ou fragmentado, cada ponto do território


assumindo um conteúdo.
A cidade contemporânea pode ser caracterizada exatamente por essa
multiplicidade. Nela, ao centro único que agrupava a autoridade política, os locais de
comércio, os símbolos da religião e da reunião social, se contrapõem o centro
múltiplo, o centro formado pela soma dos centros complementares. Ou o centro
dividido em centros concorrentes. Ou ainda, os centros correspondentes aos
diferentes tipos de uso, ou aos diferentes grupos sociais.
De fato, o centro de São Luís, na década de 1970 transformado em cidade
histórica era, a um só tempo o local de fundação da cidade, o centro simbólico, o
centro político e administrativo, o centro econômico, o local de encontro e da vida
social. Um centro que se relacionava com a experiência urbana, multiplicadora de
relações, de contatos.
A centralidade tem seu movimento dialético específico, ela se impõe, diz
Lefebvre. Se não existe realidade urbana sem centro, que pode ser comercial,
simbólico, todo centro destrói-se a si próprio. Por saturação, porque remete a outra
centralidade. Destrói-se porque suscita a ação daqueles que ele exclui e expulsa
para as periferias (LEFEBVRE, 2008, p.85).
O centro antigo, no entanto, não desaparece. Continua a ser centro de
intensa vida urbana (1991). Sobrevive graças a um duplo papel: lugar de consumo e
consumo do lugar. “Assim os antigos centros entram de modo mais completo na
troca e no valor de troca, não sem continuar a ser valor de uso em razão dos
espaços oferecidos para atividades específicas”. (LEFEBVRE, 1999, p.12).
Não foi de outro modo que o centro de São Luís permaneceu. Dividido,
porém, entre o centro lugar de consumo, que se liga à cidade dispersa como centro
desta e o centro como consumo do lugar, como mercadoria a ser consumida, que é
o centro histórico. O centro histórico e o centro-que-não-é-histórico. No entanto, não
se pode ver, esta configuração como definitiva, estando, como se vem colocando,
muito mais situado como um campo de tensão entre as duas condições.
Esta discussão não se completa, portanto, sem que se trate da condição de
abandono dos centros urbanos e sua condição de histórico. Não são poucas as
vezes que os centros de nossas cidades se apresentam acompanhados da
constatação, ou da explicação de como a evolução da cidade os deixou vazios e
degradados. Várias as narrativas que explicam como estes espaços deixaram de
48

interessar aos homens e mulheres que nele moravam, trabalhavam, estudavam, se


divertiam.
As histórias contam de que maneira com o avanço da civilização e da
sociedade a cidade que foi construída para atender às necessidades de outra época,
deixa de atender as necessidades da vida aqui e agora. Naturalmente deve ter suas
estruturas substituídas ou adaptadas para as novas atividades. Ao mesmo tempo, as
estruturas urbanas antigas se destacam não apenas pela sua beleza, pelo seu valor
como obra de arte, mas se identificam com a história, com a memória. No processo
de construção de uma cidade apropriada para cada época, estas estruturas que
carregam em si valores que os fazem merecedores de respeito, admiração e culto
ficavam na mira da destruição, ou da descaracterização. E eis a chave para o outro
movimento: estas estruturas urbanas metamorfoseadas em monumentos históricos e
artísticos precisam ser salvas, ser conservadas e por isso a instituição das políticas
de conservação, que ao serem estabelecidas salvam os monumentos de um destino
certo que é a morte.
Porém, para a história ser contada desta maneira, a consciência do valor das
estruturas antigas precisa ter sido formada. Como obra de arte e como portadoras
de valores ligados à memória, à história.
Na verdade, a história das cidades é repleta de registros de mudanças de
usos, ou de transformações de edificações de uma época para servir a outras. De
uso de materiais de um edifício na construção de novos, ou mesmo de acréscimos
para o que se pode chamar de atualização de um gosto do passado. O
envelhecimento de um sítio e sua degradação na maioria das vezes era
consequência de guerras, ou de desastres naturais, ou de grandes catástrofes como
incêndios, ou epidemias. Este era o sítio que estava morto. E que dependendo do
valor que lhe era atribuído se tornava merecedor do investimento em sua
recuperação e re-integração na vida presente.
Os outros e não apenas os sítios, mas também as edificações mudavam
conforme a necessidade se apresentava. A conservação da edificação tal qual ela
foi construída e todas as questões sobre descaracterização e autenticidade surgem
como preocupação no momento em que estas edificações, ou sítios passaram a ser
vistas como monumento histórico antes e patrimônio histórico depois.
Para ser considerado patrimônio histórico, segundo este raciocínio, o sítio ou
a edificação deve ser vista como uma herança do passado. Isto é pouco, no entanto.
49

Porque a não ser que a pessoa em questão tenha nascido ou se encontre em algum
lugar completamente livre da intervenção do ser humano, ela sempre estará em um
meio construído anteriormente a ela, por seus antepassados, portanto.
Então, o tornar-se patrimônio não é a descoberta de que o ambiente
construído veio do passado, que foi herdado, mas o resultado de duas outras
descobertas. A primeira e mais importante a descoberta de que do ponto de vista do
homem, “o tempo não é um contínuo, um fluxo de ininterrupta sucessão; é partido ao
meio, no ponto em que ele está” (ARENDT, 1997, p.37). Uma descoberta que
permite que se passe a fazer a história, a construir a própria história mediante a sua
ação no mundo. É ao descobrir (ou acreditar) que pode construir a própria história,
ou como dizem os modernistas, construir a arte de seu tempo e a cidade do seu
tempo, que se torna possível se falar de uma cidade ou parte dela como legado do
passado. Exatamente porque a tarefa do presente é construir a cidade do seu
próprio tempo.
A segunda descoberta é que este legado é valioso e que, por um motivo ou
por outro deve ser bem aproveitado. Ainda assim, este aproveitamento não implica
em sua conservação. É possível se imaginar muitas situações de um bom
aproveitamento de uma herança sem que necessariamente ela seja conservada
intacta, mesmo se considerada um bem muito valioso. A chave da questão deve
estar exatamente na descoberta de que o melhor aproveitamento daquele
patrimônio específico é a sua conservação tal e qual ele foi recebido. Isto vai
depender naturalmente do valor que lhe vai ser atribuído e do uso que é possível
fazer do objeto conservando ele este valor.
O patrimônio deve, portanto, primeiro ter seu valor reconhecido. Como último
requisito deve ser submetido a um processo de proteção. Que o resguarda e torna
disponível para usufruto de todos. O último requisito apontando o patrimônio como
um bem coletivo.
Até aqui, fica claro que nem toda edificação ou sítio do passado tem direito a
permanecer, só os de importância reconhecida. Reconhecida por uma localidade,
região, país ou por um organismo que fale pela humanidade. Certamente está
implícito que se trata aqui do reconhecimento oficial, como no caso do tombamento
ou a inserção em uma lista oficial, como é o caso do patrimônio mundial. Protegida
de forma oficial, portanto, pela coletividade.
50

Desta forma, o patrimônio histórico está ligado ao papel que se quer que este
passado tenha no presente, às finalidades que ele vai ter que cumprir na vida
presente. É neste sentido que se coloca a necessidade de compreender que papel
foi destinado ao centro transformado em histórico a partir da construção da nova
cidade. Os dois centros.
Para completar o quadro teórico é necessária uma breve incursão no
pensamento do campo do urbanismo, identificando a maneira como foi tratado o
crescimento das cidades, o crescimento que levou à concentração de uma maior
quantidade de pessoas no seu espaço. Para Secchi (2009) o século XX parece ter
dividido a cidade entre a concentração e a dispersão, entre a continuidade e a
descontinuidade. Entre a cidade compacta e concentrada que pode ser ao mesmo
tempo o lugar mágico que reúne as diferenças, que abraça a possibilidade da
diversidade sociocultural e o lugar que cresce em tão grande proporção, que o
crescimento incontrolável traz poluição, congestionamento de tráfego, criminalidade
e violência ameaçando a cidade de perder as qualidades que a tornavam atraente e
desejável como lugar de viver.
Secchi (2006) analisa que o medo de perder estas qualidades por causa do
crescimento incontrolável tem sido um dos principais motos do urbanismo no século
XX. Segundo ele, o medo das multidões, das imensas conurbações e o medo da
concentração têm guiado as teorias urbanas por quase dois séculos, desde as
propostas higienistas às utopias do século XX, das cidades-jardins ao des-
urbanismo dos modernos, só para citar apenas alguns exemplos.
Isto é importante para entender o quanto esta representação influenciou o
Plano Diretor de 1974. Por outro lado, a dispersão, diz Secchi (2006), é, em parte,
uma resposta a concentração, ou melhor, ao que ela representa.

Grande parte da angústia e do medo na cidade e na sociedade exprime-se


através da figura da concentração: pesadelo da concentração e tudo que a
ela está relacionado e dela resulta como consequência inevitável: multidões,
congestionamento, falta de higiene, desmoralização e degeneração da
população urbana. (Secchi, 2006, p.30)

Embora haja outros fatores condicionantes da dispersão de São Luís como a


extensão de terras que se queria urbanizar e a própria estratégia geral da
urbanização, não se pode negar que, em parte, a dispersão e em especial os modos
de morar gerados no processo constituem uma resposta à concentração da cidade
antiga, que passa a ser representada como inadequada à vida moderna. Uma
51

representação, aliás, que já se podia observar deste o Plano de Expansão de São


Luís (MESQUITA, 1958) que influenciado pelos paradigmas do urbanismo de
Brasília, influenciava, por sua vez, as propostas do urbanismo em São Luís.
Assim, quando Secchi (2006, p.33) afirma que “uma parte do urbanismo
moderno se constrói como hipótese e alternativa à concentração”, guardadas as
devidas proporções, é uma afirmação que pode ser associada ao urbanismo em São
Luís. Isto se deu, diz Secchi (2006) usando a estratégia de separar e distanciar,
nomear e distinguir os diversos materiais urbanos, um paradigma ao qual se deve o
zoneamento, que nada mais é que a consolidação de um sistema de valores das
diferentes localizações.
Com isto a cidade passa por transformações importantes como, por exemplo,
a substituição de funções e papéis consolidados no tempo por novos papéis e
funções. Um das maiores, a perda da função residencial no centro. A versão desta
posição em São Luís foi o congelamento do uso residencial, a recomendação do uso
residencial zero, no centro.
Outra consequência foi que a imagem física da cidade mudou. Consolidou-se
uma divisão de trabalho ainda mais minuciosa e uma definição mais rígida da função
de cada parte da sociedade e da cidade. Acentuaram-se as demolições, em grande
parte das cidades ao redor do mundo. Ou se construiu do zero, em terras ainda não
ocupadas, que foi a opção de São Luís.
Na perspectiva das propostas para a cidade do século XX, aumenta a
tendência a uma maior individualização. Busca-se a privacidade e o isolamento.
Busca-se, gradual e progressivamente, certa coerência entre a forma urbana, o
papel das diversas partes, a disposição das diversas atividades em seu interior e a
distribuição dos valores posicionais. O zoneamento definindo a pirâmide dos valores
posicionais e estéticos e esta pirâmide espelhando a social. (SECCHI, 2009)
De forma diferente, se na Europa ou nos Estados Unidos e em suas
respectivas áreas de influência, as áreas residenciais das classes mais abastadas
se localizam no centro (na Europa) ou no subúrbio (nos Estados Unidos). Em
ambas, há um centro destinado a ser o local concentrador do comércio, das
atividades institucionais e administrativas. As residências populares ficam nos
centros, nas cidades de influência americana. Nas que seguem a influência europeia
são expulsas para o subúrbio.
52

Para São Luís, a solução adotada foi uma solução híbrida, em que se
produziram tanto os espaços para as classes de maior poder aquisitivo distantes do
centro urbanizado, mas próximos da orla litorânea, quanto os subúrbios para as
classes de renda mais baixa, longe do centro urbanizado e das praias.
Estas reconfigurações espaciais não tardaram a minar os espaços da cidade
existente, observa Secchi (2009). O uso e a presença multiforme de muitos espaços
importantes da sociabilidade se perderam ou foram modificados de maneira
irreversível. Em São Luís, a solução de construir uma cidade sem renovar a antiga e
ao mesmo tempo propor a preservação e a valorização do seu patrimônio histórico,
impediu a destruição de muitos destes espaços diretamente e permitiu a
permanência da cidade histórica. No entanto, de muitas maneiras esta situação não
é uma situação de harmonia, situando-se mais, como se tem colocado, no campo da
tensão.
Deste modo, a contribuição de Secchi é fundamental para entender não
somente o movimento de construção da nova cidade, mas também a tensão ainda
existente entre as duas condições.
Determinar a localização das diversas atividades já é um processo
consagrado no urbanismo com o instrumento do zoneamento de tal forma que passa
por natural. No entanto, entendendo o zoneamento como estratégia de atribuição de
valores aos espaços, ele é subordinado aos interesses econômicos e políticos, é o
resultado de ações conjuntas do poder público e de forças sociais que, como diz
Gottdiener (1997) detendo a hegemonia política e econômica influenciam a
ocupação do território e determinam a conformação espacial da própria cidade.
Passa a ser importante que se discutam os aspectos políticos econômicos e
culturais, que se discuta a influência exercida direta ou indiretamente pelos
diferentes atores, a maneira como os diversos tipos de capital e de capitalistas, com
seus diversos mercados como o mercado dos capitais, o mercado do solo, e o
imobiliário entre outros, se posicionam nesta disputa pelo espaço. Esta influência vai
repercutir nas estratégias para controlar e dispor do espaço, inclusive materializada
nos planos e projetos urbanos. Especialmente, compreendendo-se que todo este
mecanismo de modernização teve início e está diretamente ligado com o Maranhão
Novo de José Sarney, que por sua vez, trazia e fazia implementar em São Luís e no
Maranhão as políticas desenvolvimentistas do Governo Militar.
53

Até este ponto se tratou de um momento da produção do espaço: o momento


da concepção, o momento do espaço concebido, o momento da representação do
espaço como denomina Lefebvre. É importante, agora, assinalar que a teoria de
Lefebvre (2000) considera três momentos no processo de produção do espaço.
O segundo momento é o da prática espacial. Um momento que incorpora uma
associação entre a realidade cotidiana, a rotina diária e a realidade urbana. A prática
espacial é ao mesmo tempo os lugares para a vida privada, para o lazer, para o
trabalho, as vias, os caminhos, que ligam esses espaços, mais as ações, as
atividades que as pessoas realizam nesses espaços (LEFEBVRE, 2000). Relaciona-
se, desta forma com a experiência urbana e é a partir desta articulação que se vai
estudar a cidade dispersa que se produziu em São Luís, os modos de morar criados
e sua relação com a cidade existente tornada histórica.
Os espaços representacionais ou de representação, são os espaços como
diretamente vividos através de suas imagens associadas e símbolos. É o espaço de
alguns artistas, mas é também o espaço dos habitantes e usuários, o espaço da
vivência. E é neste sentido que será tratado nesta tese.
Estes momentos formam uma tríade conceitual: o espaço concebido, o
espaço percebido e o espaço vivido que se relacionam dialeticamente. É também
uma necessidade lógica que eles interajam, que os sujeitos possam se mover de um
para o outro (LEFEBVRE, 2000). No entanto, alerta: não é possível, nem desejável
tomar estes três momentos como modelo, sob pena de perder toda a sua força,
afirma o próprio Lefebvre (2000, p.50).
Na verdade, estas relações não são nem simples nem estáveis. Não são
também simples relação de causa e efeito. A prática espacial, por exemplo, que
Lefebvre claramente assume como o momento do percebido é, não pode deixar de
ser, o momento dos usuários, da vivência, da experiência, a partir mesmo da própria
definição. Por outro lado, o momento do vivido, da representação, pelo mesmo
motivo não pode deixar de ser o momento do percebido, que elaborado de forma
sensível se relaciona com interpretações, representações acerca do espaço,
momentos carregados de simbolismo. Finalmente a prática espacial se dá em um
espaço tornado material e físico segundo uma determinada concepção do espaço,
estando, portanto inteiramente imbricados os três momentos.
A partir deste referencial teórico procurou-se analisar os planos e projetos
urbanos para a cidade de São Luís, caracterizando as representações de espaço
54

que orientaram estes planos, as estratégias de localização das atividades no


espaço, os critérios usados para determinar a localização das pessoas na nova
cidade que se produzia.
Compreender de que maneira e com que intensidade estas estratégias
construíram a segregação socioespacial que impacto tiveram na desconstrução da
cidade existente, identificar os aspectos políticos, econômicos e culturais que
influenciaram a urbanização dispersa. Apreender a transformação da cidade colonial
existente em cidade histórica primeiro, e depois a consolidação de parte desta
cidade em centro histórico e a tensão de estar colocado entre duas condições
urbanas a partir do duplo papel atribuído a ele de lugar do consumo e consumo do
lugar. Caracterizar, portanto, a urbanização dispersa em São Luís, as tensões entre
a expansão e o centro.
55

3 A URBANIZAÇÃO MODERNIZADORA

3.1 PARA MODERNIZAR: CONSTRUIR UMA NOVA CIDADE. O QUE FAZER COM
A CIDADE EXISTENTE?

Onde se apresenta a proposta de construção de uma cidade nova e moderna,


longe da cidade existente, capaz de proporcionar a qualidade de vida esperada em
uma sociedade também moderna e onde se decide o que fazer com a cidade antiga.

Dotar a cidade de instrumentos que, preparando-a para seu


desenvolvimento, preservam e revitalizam, porém seus valores
tradicionais e históricos, entre os quais o mais característico é sua
arquitetura colonial (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1975).

Estas palavras apresentam para a população de São Luís o Plano Diretor de


19743. O texto, com o título São Luís, ontem, hoje e amanhã, com mapas e
fotografias coloridas, traz as principais propostas contidas no plano elaborado por
equipe técnica chefiada pelo arquiteto Wit-Olaf Prochinik, do Rio de Janeiro.
Urbanizar para o desenvolvimento se colocava lado a lado com a intenção de
preservar e revitalizar os valores tradicionais e históricos, a arquitetura colonial de
São Luís. O desenvolvimento que, na verdade, queria dizer recuperação econômica,
era prioridade que vinha sendo colocada já desde a década de 1960. Preservar e
revitalizar, preocupação que vinha sendo discutida em nível nacional, também há
mais ou menos uma década, no sentido de aproveitar o potencial turístico das
cidades brasileiras que conservavam suas estruturas antigas ainda intactas.
O Plano Diretor de 1974 foi elaborado no contexto do segundo Plano Nacional
de Desenvolvimento (PND) que continha em seu interior a Política Nacional de
Desenvolvimento Urbano (PNDU)4. São Luís se enquadrava na proposta de criar
novos polos de desenvolvimento no país, especialmente no Norte e Nordeste,
visando desconcentrar a população e as atividades econômicas, mediante a criação
de novos empregos, buscando reduzir as disparidades de renda, caracterizada
como área de promoção da urbanização e como uma das cidades que receberiam
3
O Plano Diretor de São Luís foi aprovado em 1975. Foi elaborado, no entanto, na administração de
Haroldo Tavares (1971-1974). Por isso adota-se nesta tese, a denominação de Plano Diretor de
1974, como o faz também a Prefeitura de São Luís no documento Leitura da Cidade (2006).
4
O 2º Plano Nacional de Desenvolvimento formulou, em 1973, diretrizes para uma Política Nacional
de Desenvolvimento Urbano, cuja implementação ficava a cargo da Secretaria de Articulação entre
Estados e Municípios – administradora do Fundo de Participação dos Municípios –, e o Serviço
Federal de Habitação e Urbanismo, que administrava o Fundo de Financiamento ao Planejamento.
Esses órgãos foram sucedidos pela Comissão Nacional de Política Urbana e Regiões Metropolitanas,
(MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2004).
56

projetos especiais, justamente o Projeto Grande Carajás, que se tornaria possível


pela construção do Porto de Itaqui (SOUZA, M.A., 1999; SERRA, 1991)
Esta história, portanto, não começa na elaboração do Plano Diretor de 1974.
A bandeira de modernização já havia sido levantada na década anterior, quase dez
anos antes. A do aproveitamento do patrimônio histórico para o turismo também. A
primeira se estruturava em torno do projeto desenvolvimentista do governo ditatorial
brasileiro instalado no poder em 1964 e no projeto de “Maranhão Novo” do
governador José Sarney. A segunda se relacionava com as visitas das missões
técnicas da Unesco, especialmente as de Michel Parent, (1966 e 1967) e Viana de
Lima (1972) e nos encontros de Salvador e Brasília organizados pelo governo
federal em parceria com o órgão de proteção ao patrimônio nacional, também com
uma versão local, o Projeto Praia Grande, com o qual se apresentou o governo
estadual na Reunião de Salvador em 1972 (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1977).
A proposta parecia uma solução “natural”, capaz de agradar a todos. Era a
conquista de um novo território, que se tornara possível depois da construção da
ponte sobre o rio Anil, que ligava o centro da cidade à Ponta do São Francisco,
construída no governo José Sarney e inaugurada em 1970. Natural, porque, afinal a
cidade “tinha que crescer”. Ainda mais em um contexto de grande crescimento
econômico ao qual corresponderia também um enorme crescimento populacional.
Parecia agradar a todos porque, se a proposta era “desafogar” a cidade existente e
abrir novas frentes de ocupação, fazia isto sem que fosse preciso destruir a riqueza
da arquitetura colonial, valorizando-a como objeto do turismo.
No entanto, isto significou não apenas a transferência do eixo de crescimento
da cidade para as terras não urbanizadas, ou a abertura de novas frentes de
ocupação. Significou mais que a construção de novas infraestruturas, mais que a
organização espacial por funções. Significou uma transformação radical na vida
urbana em São Luís. Criou novos tipos de espaço, gerou novas práticas espaciais e
novos modos de morar. Gerou duas condições urbanas em constante e permanente
tensão. Não teve nada de natural, entretanto.

3.1.1 Modernizar é preciso...

“Não há nada inevitável no que se refere aos padrões de crescimento –


apesar do ímpeto conservador da teoria convencional que procura convencer-nos
dessa inexorabilidade” diz Gottdiener (1997, p.27) para quem este processo é o
57

resultado de ações conjuntas do poder público e de forças sociais que, detendo a


hegemonia política e econômica, influenciam a ocupação do território e determinam
a conformação espacial da própria cidade. Concordando com o autor, propõe-se
voltar à década de 1960 e buscar os aspectos políticos, econômicos e culturais que
influenciaram a produção do espaço urbano de São Luís.
Neste sentido, em primeiro lugar, é bom lembrar que 1964 foi o ano do golpe
militar. Um golpe que, como o historiador Nelson Sodré (1984, p.33) analisa

Não se tratava mais do clássico golpe militar que consistia na tomada do


poder e posterior restabelecimento das condições de normalidade política.
Tratava-se agora [...] pelo massacre dos oponentes, pela destruição física
de pessoas e de organizações, de estabelecer uma nova normalidade, de
forjar a marteladas um novo regime (grifos nossos).

O historiador e cientista político René Dreifuss (2008) coloca em primeiro


plano a participação da burguesia brasileira na articulação do processo que
culminou no golpe militar, em especial a participação dos empresários, enfatizando
sua organização e ação. Segundo ele, “esta elite, ligada organicamente ao bloco
multinacional acabaria com as incoerências e indecisões do Estado populista,
indicando claramente ao capitalismo brasileiro o caminho a seguir” (DREIFUSS,
2008, p.158) ao apoiar o golpe. E cita o empresário do Instituto de Pesquisa Sociais
(IPES), Antônio Carlos do Amaral Osório:

Antes de 31 de março de 1964, as classes empresariais lutavam pela


criação de condições indispensáveis ao desenvolvimento econômico, que
havia até então dependido de um Estado preso à demagogia e vícios
originários do passado. Somente uma revolução poderia enfrentar a tarefa
múltipla de modernizar o Estado brasileiro que envolvia dimensões da mais
variada natureza ... [era] ... não somente uma questão de reformular a
administração pública, mas...[era]... necessário agir em campos de maior
profundidade, na realidade aqueles da organização política, modificando
aspectos das estruturas econômicas e sociais.

“Condições indispensáveis para o desenvolvimento do capitalismo”,


“modernização” e “dimensões da mais variada natureza” são as palavras-chaves.
Não se tratava de reformular a administração pública, mas de interferir em todos os
setores, na economia e nas questões sociais e culturais através de agências
nacionais, como por exemplo, o próprio IPES e o Instituto de Brasileiro de Ação
Democrática (IBAD); ou agências estrangeiras como a United States Agency for
International Development (USAID), entre outras. Sobretudo, a superpoderosa
Escola Superior de Guerra (ESG) que treinava quadros da sociedade civil para atuar
em todos os campos, sempre em nome da defesa da nação.
58

As eleições de 1965 para governadores do Estado aconteceram, dentro deste


quadro, com a intenção de afastar os antigos chefes políticos ligados aos partidos
dominantes no período anterior (PSD e PTB) e fortalecer os setores confiáveis da
ala civil do golpe, a UDN, que era o partido de Sarney5.
José Sarney era o candidato do general-presidente Castello Branco, muito
devido à sua participação no cenário político nacional. Nesta condição, o governo
militar não poupou esforços para elegê-lo especialmente desbaratando os esquemas
de fraude montados pelo grupo com o controle político do Estado do Maranhão, o
grupo de Victorino Freire6. Em 1965, Sarney, mesmo antes de ser candidato da
ditadura, era o candidato das Oposições Coligadas 7, frente que reunia um amplo
espectro de opositores de Victorino Freire.
As Oposições Coligadas tinham uma história como representantes da “Ilha
Rebelde”8 (COSTA, 2004, p.265-297) apresentando-se como um movimento de
autênticos maranhenses, portadores de valores tradicionais, como representantes
da “Atenas Brasileira”. Consideravam-se uma oposição que se opunha à Ocupação

5
Sarney ingressou na política com o apoio de Victorino Freire na eleição para deputado federal em
1954. A partir daí oscilou entre governo e oposição. Em 1965, estava no campo das oposições, mas
na eleição anterior, para governador, era aliado de Victorino que se considerou traído pela mudança.
6
Victorino Freire chegou ao Maranhão como Secretário de Segurança do governo do interventor
Capitão Martins de Almeida com a função de criar o Partido Social Democrático no Maranhão.
Conquistou o domínio político do Estado, mas sua hegemonia no PSD foi cheia de crises. Em 1947
estava no Partido Proletário Brasileiro (PPB). Em 1950, foi para o PST (Partido Social Trabalhista).
Em 1954, Victorino e seus aliados retomaram o controle do PSD maranhense.
7
Sarney era um candidato com um perfil mais moderado fato que agradava mais ao conjunto dos
coligados e havia, nas eleições de 1962, suplantado em votos a Neiva Moreira que era considerado
o grande líder das Oposições e que havia sido cassado pela ditadura. Seu primeiro comício estava
marcado antes mesmo do golpe e anunciava-se a presença de Neiva Moreira e de Epitácio Cafeteira,
que disputava a liderança política da Ilha com Sarney.
8
O episódio que consagrou as Oposições Coligadas foi conhecido como Balaiada Urbana. As
Oposições alegaram fraude na eleição de 1950 para governador que elegeu Eugênio Barros
(vitorinista). O candidato das Oposições Coligadas era Saturnino (Satú) Bello, que rompera com
Victorino por ter perdido a indicação ao governo. Enquanto se julgava o processo, Satú Bello morreu,
vítima de ataque do coração. A justiça eleitoral se pronunciou a favor de Eugênio Barros com o
argumento que sem candidato (que havia morrido), não poderia haver eleições suplementares. Foi o
que bastou para a Ilha se levantar em protesto e ser, a partir daí, denominada de Ilha Rebelde. Foram
dois momentos de greve geral: 15 dias entre fevereiro e março e 20 dias em setembro e outubro com
significativa participação popular, manifestações diárias na “Praça da Liberdade” (Praça João Lisboa),
violentos confrontos, mortes e muitos feridos. Em setembro, por unanimidade, o TSE reconheceu a
legitimidade da diplomação de Eugênio Barros pelo TRE-MA. No entanto, às vésperas, as Oposições
haviam convocado a população para festejar a vitória na “Praça da Liberdade”. O resultado: outra
greve mais conflitos violentos, incêndios em bairros populares e prisão de líderes da oposição.
Embora a Oposição buscasse a intervenção federal, esta não aconteceu. Vitorino se aproximou de
Vargas e Eugênio Barros se comprometeu com o governo central levando consigo todos os
municípios do Estado e a bancada do PST. Cargos eram distribuídos para os opositores e lideranças
sindicais, enquanto ajuda financeira era distribuída para as vítimas dos incêndios. No começo de
outubro de 1951, Eugênio Barros estava no governo, a cidade devidamente pacificada (COSTA,
2004).
59

usurpadora, maligna, corrupta e alienígena de Victorino Freire. Dirigiam uma


“Campanha de Libertação” do Maranhão. O “Dia da Libertação”, como era visto
pelas Oposições, foi, então, o dia 31 de janeiro de 1966. O dia em que começaria
um “Maranhão Novo” segundo José Sarney.
É neste sentido que Sarney representa o que o historiador Wagner Cabral
Costa (2004, p.292) chama de “singular e paradoxal combinação entre populismo e
autoritarismo”. Para ele, esta eleição “representou o referendo da sociedade civil aos
objetivos do governo central” (COSTA, 2004, p.292).
A eleição de Sarney foi comemorada por uma parcela significativa da
população maranhense, em palanque mandado construir do lado de fora do Palácio
dos Leões. A comemoração incluiu a filmagem, por Glauber Rocha, do documentário
“Maranhão 66”, a eleição de Sarney servindo ainda de inspiração para o filme “Terra
em Transe”, também de Glauber Rocha. No documentário, Glauber apresenta o
Maranhão da fome e da miséria. Uma audácia para aqueles tempos onde denunciar
a situação do povo tinha o cheiro de atividade subversiva. Em vez de censurar,
habilmente, Sarney transformou a denúncia em propaganda de seu Maranhão Novo,
aceitando-a e prometendo resolver as mazelas do povo.
Deste modo, sua eleição representou o encontro entre o desejo de superação
das muitas dificuldades vividas pelo povo maranhense (desejo do povo, bem
entendido) e o desejo do poder militar de estabelecer bases populares para sua
atitude truculenta e autoritária. Se houve a identificação com as representações
acerca do “Maranhão Livre”, e isto foi um processo fundamental para sua afirmação
e consolidação como líder político, por outro, sem a articulação com o centro político
nacional não teria sido possível a sua ascensão ao poder e o controle político do
Estado (COSTA, 2004, p. 293). Desde então, o poder do grupo liderado por Sarney
se apoia tanto na penetração política no contexto local, como em sua posição no
cenário nacional.
As duas características podem ser observadas em seus discursos.

Chegamos ao poder sem compromissos inconfessáveis, mas apenas com o


claro, o manifesto compromisso de servir o Povo, de trabalhar pelo Povo,
com o Povo, por um Maranhão de dignidade, de liberdade e progresso e de
grandeza, que, sob a imagem de um passado glorioso, há de projetar-se
ainda mais num futuro magnífico. (SARNEY, 1970, p.15) 9

9
Este era o seu discurso de posse, que ao ser publicado ganhou o título de “Um bom governo é
aquele que melhora a sorte do povo”. (SARNEY, 1970, p. 9-19)
60

O discurso seguinte, proferido na solenidade de recepção do cargo, mantendo


o mesmo tom de governo para o povo, ele vincula a derrota da oligarquia do
Maranhão (a de Victorino, certamente) ao Governo Federal. “Foi preciso que o
Governo Federal iniciasse novos métodos”, diz ele, não sem antes colocar que todos
“os governos federais anteriores foram, disto que hoje acaba, sustentáculos e
cúmplices”. Para concluir: “O Brasil, portanto, tem responsabilidade para o
soerguimento do Maranhão” (SARNEY, 1970, p. 27). O Maranhão Novo como
projeto estava ligado à expansão do capitalismo no Brasil, projeto da elite dominante
representada na época pelo regime militar. Wagner Cabral da Costa (1997, p.2)
reconhece o papel do projeto político do grupo liderado por Sarney no processo de
expansão do capitalismo no Maranhão. Menos como promotor, mais como gestor e
administrador, do processo de modernização econômica do espaço regional.
Além disso, Cabral busca caracterizar a liderança política de José Sarney
apoiando-se em Bobbio (1992, 2º vol. p. 837-8 apud COSTA, 1997, p.3), como uma
“oligarquia que governa em um sistema democrático”. Não apenas porque convive
em um sistema democrático, em que se reconhece a importância do poder, mas
porque busca legitimidade no voto popular.
Não se pode deixar de notar, diz ainda este autor, (1997, p. 3), que a “ideia de
uma oligarquia modernizante de certa forma combate e relativiza as posições
simplistas que identificam a oligarquia com o “atraso” do Maranhão”. Um atraso que:

só pode ser devidamente entendido e equacionado se o relacionarmos com


o processo de construção do “moderno”, de modernização do Maranhão,
isto é, a integração da economia maranhense à economia nacional sob a
égide do capital monopolista, processo que (re)constrói relações sociais
autoritárias, aprofunda desigualdades sociais, [...] estabelece para a região
um determinado papel na divisão nacional do trabalho... (COSTA, 1997, p.3)

Desta forma, “a crítica da oligarquia política não pode ser dissociada da crítica
do capitalismo, nas formas em que este se apresenta no contexto regional” (COSTA,
1997, p.3). Interessa, portanto, caracterizar que foi este projeto político, que era
ligado ao projeto de expansão do capitalismo no Brasil, que seguia os caminhos
indicados pela elite ligada organicamente ao bloco multinacional, o projeto que
influenciou o processo de produção do espaço urbano de São Luís.
Deste contexto, busca-se extrair aqui as implicações para a produção do
espaço de São Luís. A primeira consequência é que o Maranhão e São Luís são
61

incluídos no âmbito do projeto desenvolvimentista do governo militar. O Maranhão


Novo se fez nas pegadas do projeto do regime militar, em sólida simbiose.
Na verdade, nos discursos do interventor Paulo Ramos já se propagandeava
um Maranhão Novo como observou Antônio Barros (2007, p.4): “[...] durante o
Estado Novo, o binômio representacional decadência-prosperidade [...] foi
maximizado por uma política oficial na qual discursos e práticas anunciavam e
propagavam um ‘Maranhão Novo’”.
Novo ou não, o discurso do “Maranhão Novo” se consolidou com a eleição de
Sarney. Consolidou-se porque, naquele momento ganhou fôlego, foi alimentado pela
política nacional, recebendo recursos do regime militar. Porque enquanto se
embalava o sonho das possibilidades do crescimento econômico por conta do Porto
de Itaqui com qualidades excepcionais, por conta do petróleo que seria explorado
em Barreirinhas10, por conta do parque industrial que seria criado, por conta de uma
usina siderúrgica que nunca aconteceu (ou ainda vai acontecer quase 50 anos
depois)11, se construíram as infraestruturas viárias e uma nova cidade. Ou melhor,
duas cidades, na medida em que a cidade existente, identificada com o passado se
tornava histórica, enquanto se construía uma nova.
Sarney abriu caminho. No governo seguinte, de Pedro Neiva de Santana
(1971-1974), governador já indicado por Sarney, foi elaborado, pela prefeitura
municipal sob o comando do prefeito Haroldo Tavares, o Plano Diretor Municipal de
1974, este que é tratado aqui e firmados convênios com vistas a receber os
chamados projetos especiais, sob a orientação do PND de 1973.

3.1.2 A urbanização modernizadora no contexto da Política Nacional de


Desenvolvimento Urbano

Como pontuam Rolnik e Botler (2003), este período foi marcado por um
processo de urbanização acelerada que promoveu a transferência populacional da
área rural para a urbana, concentrando boa parte desses fluxos migratórios em
poucos territórios. Nas regiões metropolitanas este padrão de urbanização foi
calcado na reprodução permanente de eixos de expansão horizontal da fronteira

10
Barreirinhas é município maranhense, distante 280 km de São Luís, onde estão localizados os
Lençóis Maranhenses e onde, na época, se acreditava haver petróleo em sua proximidade.
Atualmente, pesquisa-se novamente esta possibilidade enquanto se explora o gás natural.
11
Atualmente, nos projetos de desenvolvimento para São Luís inclui-se novamente uma siderúrgica
que se soma à refinaria Premium na Petrobrás, no município vizinho de Bacabeira.
62

urbana e impulsionado pelo planejamento econômico e territorial, particularmente,


pelas políticas de financiamento e produção habitacional e de infraestruturas, em
especial sistemas de circulação e de saneamento.
Em 1973, no II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) incluiu-se a Política
Nacional de Desenvolvimento Urbano (PNDU) constituindo o capítulo IX (páginas 85
a 94), com o objetivo de orientar estratégias de atuação do governo do General
Ernesto Geisel. Coordenada por Jorge Guilherme Francisconi e por Maria Adélia
Aparecida de Souza, com a colaboração de inúmeros profissionais e instituições
brasileiros (SOUZA, M.A., 1999, p. 113).
Para Maria Adélia Aparecida de Souza, a PNDU apresenta uma contradição
evidente com o II PND. Porque a política urbana deveria estar respaldada em uma
visão da economia, mas também em uma compreensão sobre o espaço geográfico
brasileiro que pudesse compreender as características das diferentes regiões. Era
preciso “ter uma visão estratégica do território brasileiro”. (SOUZA, M.A., 1999 p.
113-143).
Havia, entretanto, dificuldades de fazer esta visão prevalecer, embora a maior
liderança política e intelectual do governo, o General Golbery do Couto e Silva, fosse
um estrategista renomado12. Esta visão estratégica de Golbery, explicitada no PND é
que vai evidenciar uma das maiores contradições daquele plano, diz Souza. Porque
se se anunciava a intenção de “consolidar até o fim da década, uma sociedade
industrial moderna e um modelo de economia competitiva”, também se deixava claro
que essa economia moderna teria seu núcleo básico no centro-sul (PND, 1974, p.16
apud SOUZA, 1999, p.117)
As contradições se apresentavam, portanto, entre as diretrizes econômicas
que propunham um modelo de economia com um núcleo básico no centro-sul e uma
política urbana que propunha a descentralização dos investimentos para promoção
do desenvolvimento. Embora comandada de maneira altamente centralizada e
pensada em forma de programas estratégicos, a política urbana acabou por se
revelar uma política de caráter setorial em vez de focalizar a totalidade do território
urbano brasileiro, favorecendo, por isso, os setores econômicos hegemônicos, as
regiões metropolitanas, especialmente as do Sul e Sudeste.

12
General Golbery do Couto e Silva foi o autor de “Geopolítica do Brasil” que fundamentou as
estratégias territoriais brasileiras durante todo o período militar (SOUZA, M.A. 1999, p.117) .
63

Maria Adélia de Souza (1999, p.122) aponta que a PNDU buscava tirar
proveito das orientações do I PND, que estava em vigor e que propunha um
processo de integração entre as regiões desenvolvidas e as regiões em
desenvolvimento. Neste sentido classificava as diferentes regiões por suas
características e traçava políticas específicas para cada uma delas. Para Serra
(1991, p.23) tratava-se de determinar polos de desenvolvimento, o que aproximava a
política proposta de uma visão que tratasse o polo como “uma mancha de óleo de
onde fosse possível irradiar a modernização”.
Construiu-se, para isto, um sistema de classificação que apontava para a
diversidade no tratamento da urbanização e respaldava as decisões dos programas
estratégicos. Desta forma, as áreas de urbanização foram classificadas como áreas
de contenção, de controle e disciplina, de dinamização e de promoção da
urbanização (SOUZA, M.A., 1999, p 135-138).
As “áreas de contenção” se constituíam do núcleo central do sistema urbano
brasileiro, o eixo Rio-São Paulo. Estas áreas cresciam em ritmo acelerado, mas
repleto de problemas. Por isso, o critério de intervenção era seletividade, ou seja, as
possíveis atividades futuras deveriam ser submetidas a um rigoroso critério de
localização, especialmente industrial, e formulados mecanismos que pudessem
restringir o uso do solo e reduzir alguns investimentos de infraestrutura.
As “áreas ou subsistemas de disciplina e controle” eram áreas com boa
infraestrutura industrial, elevados níveis de renda e uma base econômica em final de
consolidação. Propunha-se o acompanhamento do crescimento para que estas não
alcançassem o nível das áreas problemáticas. Com este critério foram identificados
dois grupos: o primeiro compreendia Porto Alegre, Curitiba, Santos, Campinas, Belo
Horizonte e Brasília que deveriam manter suas funções de importantes metrópoles
regionais. O segundo compreendia as regiões metropolitanas do Norte e Nordeste,
as regiões de Recife, Salvador, Fortaleza e Belém.
A terceira é a “área ou subsistema de dinamização”. Composta de áreas
“estrategicamente consideradas mais importantes para viabilizar a política urbana,
pois implicava em uma série de enfrentamentos dos mais agudos problemas da
urbanização brasileira”, também com o objetivo de dissipar a concentração nas
áreas já congestionadas, ditas de contenção. Constituía-se de cidades próximas ao
núcleo central principal do sul e do sudeste e das regiões metropolitanas
nordestinas.
64

Por fim, as “áreas ou subsistemas de promoção”, que se dividiam em: 1) áreas


periféricas - onde a urbanização seria decorrente de problemas especiais de
desenvolvimento; 2) áreas com fraca urbanização em fase de ocupação recente –
vinculadas aos grandes projetos rodoviários como a transamazônica, a Belém-
Brasília, ou a Perimetral Norte; 3) áreas vinculadas aos grandes investimentos
públicos: Itaipu, Ilha Solteira, Itaqui, etc; 4) áreas turísticas, carentes de uma melhor
infraestrutura urbana para o desempenho de suas funções – cidades barrocas de
Minas Gerais, Rodovia Rio-Santos, cidades antigas e litoral do Nordeste brasileiro e
5) áreas estagnadas e/ou decadentes, onde urbanização e nível de desenvolvimento
eram extremamente frágeis.
Ainda é preciso notar que no primeiro momento do impulso
desenvolvimentista a questão urbana fora vista como carência manifesta de
habitações nas cidades. Como solução criou-se o sistema de financiamentos de
prazo longo e juros baixos aos adquirentes da casa própria no muito conhecido
mecanismo do Sistema Financeiro de Habitação (SFH) que tinha o Banco Nacional
de Habitação como seu instrumento mais importante. Na sua esteira foram criadas
as sociedades de crédito imobiliário e o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo
(Serfhau). Além do BNH, eram fontes de recursos, a Caixa Econômica Federal
(CEF) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDS).
Se a preocupação com a urbanização tivera início com a habitação, no nível
federal, rapidamente passou a ser o próprio desenvolvimento urbano, o
planejamento urbano. Esta preocupação foi exatamente o que levou à elaboração da
PNDU. No entanto, sem resolver a contradição de considerar de forma global o
território brasileiro, na PNDU a cidade era vista como objeto de um consumo coletivo
necessitando de equipamentos e de instituições que coordenasse e otimizasse suas
funções (FRANCISCONI E SOUZA, 1975, p.5 apud SOUZA, M.A., 1999, p.119 ).
O crescimento urbano era compreendido como o desenvolvimento das
funções industriais, terciárias, pela atração das ofertas de emprego e demandas
crescentes por habitação, equipamentos e emprego. O planejamento urbano
organizaria este crescimento. A inspiração, (SOUZA, M.A., 1999, p.120) era uma
combinação entre a política francesa de aménagement de territoire e os planos
diretores, os plans d’urbanisme.
A primeira inspirava o tratamento das questões do planejamento regional e as
políticas de descentralização (urbana e industrial). Os planos diretores tratavam dos
65

processos de gestão da cidade e da implantação dos programas federais em nível


dos municípios. Serra (1991, p. 23) também menciona Lloyd Rodwin e sua teoria de
desconcentração centralizadora, que se apresentava como proposta para cidades
do terceiro mundo, especialmente a América Latina, que era exatamente isto: criar
polos de desenvolvimento localizados estrategicamente de forma a provocar a
criação de outras centralidades econômicas. Segundo Serra (1991, p. 77) os
municípios foram verdadeiramente coagidos a elaborar seus planos diretores, que
ainda podiam ser denominados de Plano Integrado ou Plano Diretor de
Desenvolvimento Integrado, revelando a intenção da metodologia de integração que
era proposta na PNDU. Tanto financiamento como assistência técnica eram providos
pelo sistema federal.
Os planos foram feitos. No entanto, a contradição já mencionada entre uma
política que propunha o desenvolvimento integrado e a aplicação centralizada dos
recursos, resultou em muitos planos não implementados, especialmente nas regiões
onde à primeira somava-se a contradição entre os interesses públicos e os
interesses econômicos privados, dos setores imobiliário e fundiário, por exemplo.
Porque, com o argumento de que não haveria recursos públicos para todas as
intervenções necessárias, o desenvolvimento assumia o conceito de indução que
implicava o direcionamento do investimento privado por meio do investimento
público bem colocado e bem escolhido (SERRA, 1991, p.85). Assim, rapidamente
criou-se a ideia de que planos não adiantam, que ficam na gaveta.
Por outro lado, para algumas cidades, estes planos e os recursos advindos
dos projetos especiais e da PNDU foram o suporte e o impulso da expansão urbana,
da implantação de um sistema de planejamento e gestão. Serra (1991,79-82)
destaca alguns casos como os das cidades de Rio Branco e de Cuibá, além de São
Luís, cujos planos diretores foram elaborados no início dos anos 1970. Para ele, são
planos bem sucedidos porque orientaram a expansão destas cidades e com eles se
tornou possível consolidar informações sobre elas e orientar o crescimento e o
desenvolvimento econômico. Ainda, diz ele, “deve-se recordar que o mercado
imobiliário ainda era incipiente e não havia grandes interesses ligados ao espaço-
mercadoria se opondo à aplicação do plano”. (SERRA, 1991, p.80)
Uma observação que leva a pensar que a implementação ou não dos planos
diretores dependia (depende) muito de quanto este plano respondia (responde) ou
66

não aos interesses do mercado imobiliário e que são estes que defendem ou que
trazem em si a representação do espaço-mercadoria.
Ao discutir o plano de São Luís vai se notar que a partir dele e de sua
implementação se fortalecem os mercados fundiário e imobiliário que também eram
incipientes. O que poderia levantar a questão de se os planos que “deram certo”
foram aqueles que de uma maneira ou de outra não se colocaram no campo
contrário aos interesses econômicos dominantes. Ou aqueles que, como o de São
Luís, favoreciam estes interesses. Entretanto, por outro lado, é possível questionar
se no contexto de promoção do fordismo periférico, como aponta Lipietz (1989),
havia espaço para planos que não contemplassem prioritariamente os interesses
econômicos dominantes. Não é à toa que para Souza (1999, p.117), este foi um
“aprendizado profundo sobre a impossibilidade de, nos campos governamentais, a
competência técnica e a visão do mundo passarem ao largo uma da outra”. O que,
no mínimo é uma boa pista para entender porque, com tantos recursos alocados,
tantos técnicos pensantes, não se conseguiu construir “boas cidades” no sentido de
uma cidade capaz de proporcionar a qualidade de vida desejável para a grande
maioria da população.
De qualquer maneira, na prática a PNDU significou a alocação de recursos
para obras urbanas que buscassem melhorar a qualidade de vida nas cidades.
Desde que os investimentos privados pudessem participar do processo. Nas cidades
de porte médio, os investimentos eram feitos esperando-se que as atividades
econômicas privadas dessem preferência a essas localidades.
São Luís teve seu plano diretor influenciado pela PNDU, enquadrando-se
como uma “área de promoção” que receberia o projeto especial do Porto de Itaqui.
Depois, nos primeiros anos de implementação do PD/74, enquadra-se no Programa
Nacional de Capitais e Cidades de Porte Médio (PNCCPM), (SERRA, 1991, p.99-
104). Nesta condição recebeu recursos significativos (1,9 milhão de OTNS) por
intermédio de dois convênios: o primeiro, em 1972, ainda em fase de elaboração do
PD/74 tratou da recuperação e ampliação dos eixos viários, da conclusão do anel de
contorno; da Avenida Presidente Médici, do plano de ação imediata de transporte e
trânsito; da melhoria do trânsito urbano e do transporte coletivo. Em 1978, tratava-se
de praticamente as mesmas obras, dando continuidade à implementação do Plano
Diretor. O Plano Diretor de 1974, então, vai ser a expressão da intenção de
modernização manifesta nos PNDs e, seguindo a PNDU, vai acabar apoiando-se
67

nos diferentes programas disponíveis, de tal forma que ele também vai ser a reunião
de planos quase individualizados de uso do solo (com prioridade para a habitação),
de transporte, de preservação do meio ambiente e do patrimônio histórico.

3.1.3 Modernizar para recuperar a economia

No âmbito local, Ribeiro Júnior (1999, p.111) analisando aquele momento diz:
“Uma esperança surge. O sonho de uma São Luís industrial seria uma vez mais
embalado”. O clima era de entusiasmo. Repetindo o sentimento ufanista do governo
da ditadura militar.

Sem embargo, no decênio setentista, surgiu o discurso industrializante. A


sociedade ludovicense, como ouvinte, pôs-se na expectativa de que dias
melhores viriam. Este quadro foi criado em decorrência das ricas jazidas
minerais que tinham sido descobertas nos anos sessenta na região
amazônica próxima. Assim, surge toda uma prática, tanto discursiva como
realizadora, no sentido de dotar a capital maranhense com uma feição nova
e moderna, preparada para a industrialização anunciada. Monta-se um
cenário, ou melhor, um ambiente que tentava confirmar São Luís como
cidade industrial. (RIBEIRO JÚNIOR, 1999, p.111)

No cenário de crescimento que se construía, era fundamental um novo porto


que substituiria o antigo, próximo à Praia Grande, que apresentava, já de há muito,
problemas de assoreamento. O Porto de Itaqui se apresentava como alternativa
desde o período colonial, em 1723. Fora novamente considerado seriamente em
1910, mas nunca se realizara. Mesmo em 1950,

sua construção dar-se-ia tropegamente. Somente em 1956 seriam iniciadas


as obras do porto. Logo ficariam paralisadas: de 1957 a 1963. Neste último
ano seriam reiniciadas e novamente ficariam estacionadas, o que, por dois
anos, continuariam. Nenhuma atividade econômica desenvolvida no Estado
do Maranhão fora capaz de alentar governantes a edificar o novo porto...
Até que, efetivamente, em maio de 1966, as obras foram reiniciadas e, em
março de 1971, seria o Porto do Itaqui, oficialmente, inaugurado” (RIBEIRO
JUNIOR,1999, p.113).

Com o Porto construído, esperava-se poder escoar o minério de Carajás, que


deveria atrair um polo industrial capitaneado por uma siderúrgica. Esperava-se,
portanto, um desenvolvimento, impulsionado pela industrialização, capaz de reverter
a estagnação econômica na qual São Luís estava mergulhada. Esperava-se a
criação de uma classe média que pudesse servir de sustentação para a sociedade
industrial moderna preconizada. Vinculava-se São Luís ao movimento
desenvolvimentista do governo federal, no que se pode chamar, como Lipietz (1989,
p.303-335) de fordismo periférico.
68

O entusiasmo era tanto que a Usimar, a tal usina siderúrgica, foi criada como
pessoa jurídica, “com terra e sem maquinário, uma firma no papel, à espera eterna
de sócio” (RIBEIRO JÚNIOR, 1999, p.119). Com terra, sem maquinário, mas com
um endereço em sala comercial e um presidente. Acabou sendo fechada na década
de 1990. Na realidade, aquele desenvolvimento esperado ainda não aconteceu,
muito embora, nos últimos anos tenha crescido em ritmo mais acelerado, com a
perspectiva de novos empreendimentos industriais.
Se este era o teor do discurso do Maranhão Novo não era o cenário no final
da década de 1970, passados mais de dez anos, mesmo com a infraestrutura
construída. Bandeira Tribuzi13, (1981) é esclarecedor a este respeito. Para ele, a
economia maranhense nos últimos dez anos (ou seja, do início do Maranhão Novo
até a data do seu trabalho, publicado pela primeira vez em 1977) não apresentava
um bom desempenho. O reforço da infraestrutura não induzira um processo
autônomo de industrialização, como se pensara e não tivera o poder de alterar a
estrutura econômico-social notadamente no meio rural: “sem um setor industrial
dinamicamente expansivo, capaz de ampliar a massa urbana de consumidores
efetivos de bens e serviços, o setor terciário só encontra condições de inflar-se no
paternalismo público e nas formas de subemprego urbano” (TRIBUZI, 1981, p.68).
Este, segundo ele, era o primeiro impasse para o desenvolvimento econômico do
Maranhão.

13
Bandeira Tribuzi era assessor de planejamento do governo de Sarney. Rossini Correa (1982) que
delineou a biografia do intelectual, jornalista, economista e ativista político que era Tribuzi, coloca que
com a vitória de José Sarney começaria um capítulo inusitado para o poeta, que seria exatamente
pertencer à máquina do Estado, liderando equipes de planejadores, no programa de construção do
Maranhão Novo. Ele que tanto combatera em benefício do povo e contra a oligarquia de Victorino.
Sua ligação com José Sarney remonta ao grupo de intelectuais que discutiam o movimento
modernista em São Luís, grupo do qual participavam entre outros, Lago Burnett e Ferreira Gullar.
Tribuzi dirigia o Jornal do Povo, que na década de 1960 era a “trincheira da resistência” ao
capitalismo e ao imperialismo defendendo a autodeterminação de Cuba, a liberdade de organização
operário-camponesa. Apoiava e divulgava as lutas sindicais, as iniciativas de mobilização e luta de
diferentes segmentos da sociedade maranhense. Além disso, ele era o presidente da Frente de
Mobilização Popular. Depois do golpe militar Tribuzi foi preso, demitido do seu emprego no
Departamento de Estradas de Rodagem e teve seus direitos políticos cassados. Foi chamado para
assessorar o governo Sarney. Esta história serve para demonstrar a força política do governador
frente ao regime militar, afinal é de se imaginar que um governador eleito de forma espetacular pelo
povo e que ao mesmo tempo defendesse o novo regime, dando-lhe a legitimidade pretendida,
merecesse este respeito. Serve também para ilustrar o modo personalizado de governo que estava
se implantando. Ou, lembrando o dito de Cabral no início deste texto, um modo de governo entre o
populismo e o autoritarismo. Tribuzi se mantivera intelectualmente fiel às propostas de promoção de
desenvolvimento do Maranhão que resolvesse os problemas cruciais do Estado e é dentro desta
perspectiva que ele escreve este trabalho, publicado em livro depois de sua morte em 1977.
69

O historiador Mário Meireles (1990) se apoia em Bandeira Tribuzi buscando


pontuar as causas da decadência econômica. Uma delas, o fato de ter havido um
corte na formação do empresariado local que se explica ao se recordar que no
imediato pós-guerra houve um breve ciclo de crescimento econômico, baseado no
babaçu e no algodão, com uma aparente recuperação do parque têxtil. A questão é
que este parque, que segundo Tribuzi já teria sido hiperdimensionado desde o início,
desapareceria já na década de 1960. Ao mesmo tempo, o empresariado
maranhense era extremamente dependente do Estado, “a única entidade rica numa
pobreza generalizada” (TRIBUZI apud MEIRELES,1990, p.215), constituindo-se, ao
mesmo tempo, como o grande comprador e como grande empregador:
Sem indústria, a solução era o funcionalismo público. Este era o setor onde se
haviam se refugiado os atingidos pela falência do parque têxtil. Porém, mesmo como
única entidade rica numa pobreza generalizada, esta riqueza dependia da
capacidade, que não era também muito grande, de investimento do setor público.
Reforçando esta visão, Ribeiro Júnior (1999, p.83) citando CALDEIRA (1980,
p.711-715), coloca que a análise sobre a constituição das classes médias no
Maranhão, tendo São Luís como lócus privilegiado deste fenômeno socioeconômico,
apontava que entre “1950-1970, parte delas originou-se de antigos setores
dominantes da economia local que, com a débâcle, tiveram no emprego público seu
fulcro de sobrevivência”. Completa a análise com os seguintes dados: em 1967, da
população que exercia atividade remunerada, 40% dedicavam-se ao setor governo,
17,5% ao setor secundário e 23,5% ao comércio (BNB, 1968, p.30 apud RIBEIRO
JÚNIOR, 1999, p.83).
Havia o impasse criado pela reconfiguração rodoviária. Este quadro havia
trazido a perda da hegemonia econômica da capital no Estado. Para Meireles (1990,
p.209-220) São Luís, a capital, era vista como uma cidade marginal dentro do
Estado. O Maranhão parecia dividido ao meio em duas porções, a norte e a sul. Na
metade do Norte trabalhavam-se as lavouras (especialmente do arroz) e a coleta do
babaçu. A metade do sul desenvolvera a nova cultura da soja e explorava uma nova
indústria, a da madeira, que eram, ambas mais bem servidas pelas rodovias que,
acopladas ao Plano Nacional (dos anos 1950) que incluía a Belém-Brasília, levavam
e traziam do nordeste, sudeste e sul do país, os produtos exportados e as
mercadorias importadas. E assim São Luís ficava à margem, ou no fim da linha.
70

O Plano Diretor de 1974 se mantinha na linha de desenvolvimento anterior


criticada por Bandeira Tribuzi (1981). Ou melhor, era feito no contexto de promessas
renovadas de trazer finalmente a industrialização via Projeto Grande Carajás, de
construção de mais infraestruturas. Incluía neste projeto, ou radicalizava a proposta
já apresentada, a abertura de novas frentes para o capital como o fortalecimento de
indústria da construção civil e dos mercados fundiário e imobiliário.
Atuava em duas frentes: construção de infraestrutura e operações imobiliárias
de venda de lotes para produção de novos bairros residenciais. Logo em 1969,
ainda no Governo de Sarney, com Cafeteira na prefeitura, foi criada, pelo poder
público, a Sociedade de Melhoramento e Urbanismo da Capital (Surcap) para
organizar e planejar o espaço urbano, mas também resolver questões como receber
e comprar terras da União para comercialização.
Uma terceira frente era a produção de conjuntos habitacionais. Grandes
oportunidades de captação de recursos contando com recursos federais tanto em
forma do repasse de terras da União para o Estado e para o município, como com
financiamento da construção da infraestrutura, ou mesmo com ajuda internacional
como era o caso da construção dos conjuntos via Cohab-MA que eram capazes de
receber ajuda de organismos como a USAID ou a ONU que, de fato, financiou a
construção do maior conjunto, já na década de 1980, a Cidade Operária.
A construção dos conjuntos habitacionais, que foi de longe muito acima da
média brasileira em São Luís, a presença dos incentivos e dos financiamentos, o
surgimento de um novo mercado como o da construção civil, o já mencionado
refúgio da classe média nos quadros do estado e o Estado pagador fazendo
funcionar toda esta máquina, geraram uma classe média que, embora pequena,
começou a pensar modos de morar e de ver a cidade existente de outra maneira.

3.1.4 O Patrimônio Histórico no quadro da modernização

O projeto de aproveitamento do patrimônio histórico para o turismo e para


consolidar (ou criar) o sentimento de orgulho nacional também vinha “de cima”, do
próprio governo ditatorial, mas encaixava-se perfeitamente no projeto de construção
do Maranhão Novo, reforçando tanto o sentimento de pertencimento e identidade
maranhense quanto a imagem do intelectual, de amante da cultura, e das tradições
maranhenses do político José Sarney.
71

O consultor da Unesco, Michel Parent veio ao Brasil como resultado de


articulações, (que incluiu negociações do então embaixador Carlos Chagas) entre o
Patrimônio14 e a Unesco, o primeiro solicitando, a segundo concordando, em enviar
um perito a fim de estudar a conservação do patrimônio com vistas ao turismo
cultural (LEAL, 2008). Visitou em duas etapas, de 24 de novembro de 1966 a 8 de
janeiro de 1967 e de 19 de abril a 1º de junho de 1967, trinta e cinco cidades de
norte a sul do Brasil (LEAL,2008). São Luís foi incluída no itinerário.
Depois de sua visita a alternativa de proteção do patrimônio se torna presente
no discurso oficial. E de certa maneira, na prática. Que pode ser exemplificada pela
compra de casarões para abrigar repartições públicas, pela criação do Museu
Histórico de São Luís, e outras medidas de valorização do patrimônio, como
propostas da Superintendência de Desenvolvimento do Maranhão (Sudema) criada
em 1969, que apresenta no relatório “Medidas Urgentes de Proteção ao Patrimônio
de São Luís” a proposta de tombamento do centro, até as ruas do Passeio e Rio
Branco, com isenção do imposto predial para todos os prédios, criando-se, assim,
uma taxa para conservação do patrimônio (ANDRÉS, 1998, p. 104).
Ou, como atesta a narrativa de Carlos Alberto Santos (MONTENEGRO, 2001,
p. 129), sobre a iniciativa de criação de uma Comissão do Patrimônio Histórico e
Artístico do Maranhão em 1968, antecipando o que depois seria o Departamento de
Patrimônio Histórico e Artístico e Paisagístico do Maranhão (DPHAP-MA).
A coluna de Bandeira Tribuzi no Jornal do Dia não podia ser mais clara.
Sonhar é barato. Vocês já viram que o Maranhão está voltando aos dias
dourados da velha Athenas [...]
Do lado de lá, pelo caminho que margeia o grande lago do Bacanga, vai-se
a nossa Novacap, do Distrito Industrial, do porto extraordinário, da cidade
administrativa, dos modernos núcleos residenciais, enquanto na velha
margem da cidade, esta se preserva em seus tesouros de arquitetura
histórica e os velhos sobradões regurgitam de juventude estudiosa na
Universidade da Praia Grande repetindo o belo contraste das grandes
escolas europeias: o passado convivendo com o futuro.
Do Brasil inteiro se vem aqui fazer turismo na busca da visão histórica do
contato com um centro cultural ativo. O povo orgulha-se de seu conceito
cultural reconquistado e nos salões da FMC como pelas madrugadas
magnificas de luar, jovens talentos se reúnem para debater seu vasto
mundo de criação. E quantos aqui aportam não se contém que não
exclame: Que Terra! Que Gente !
Sonho de uma noite de verão?.
Tomara que não seja.
(TRIBUZI, Jornal do Dia 31/05/1967 p1. apud CORREA, 1993, p, 338).

14
Para simplificar, neste trabalho o órgão responsável pelo patrimônio histórico em nível federal será
denominado simplesmente Patrimônio.
72

É interessante fazer aqui algumas observações: mesmo neste texto em que


se coloca a valorização do patrimônio para o turismo, em primeiro lugar vem a
menção à construção do progresso, do desenvolvimento e dos modernos núcleos
residenciais da cidade nova que se queria construir. Interessante o uso do termo
Novacap que nos remete a uma cidade planejada no meio do nada como fora
Brasília. A valorização do patrimônio se enquadra no contexto da modernização.
Em segundo lugar, a universidade de que fala Tribuzi é uma das propostas de
Parent para São Luís, como se verá mais adiante, para que a cidade continuasse
viva e integrada. Imediatamente Tribuzi abraçou a proposta, transformou-a em
projeto. Não foi aceita naquele momento pela Universidade Federal, mas não vai
deixar de ser perseguida em diferentes momentos, planos e projetos 15.
Cidade ainda pequena, o centro de São Luís, que na verdade se confundia
com a própria cidade, foi definido como cidade histórica, como patrimônio de grande
valor. Verdade que este parece ser um paradoxo, que mais que explicar complica:
modernizar e ao mesmo tempo conservar. Ainda mais que ambas as direções
partiam do próprio governo autoritário, faziam eco às políticas do governo federal.
Para compreender este paradoxo de ter no mesmo plano diretor as duas
diretrizes de modernizar e conservar, é preciso compreender em primeiro lugar a
relação que o urbanismo modernista, o que já havia criado Brasília, estabelecia com
o patrimônio histórico. Em segundo lugar o pensamento que se vinha criando no
campo internacional com relação ao patrimônio histórico expresso em dois
documentos, a Carta de Veneza (1964) e a Carta de Quito, de 1967 (IPHAN, 2004).
Certamente o movimento modernista brasileiro no urbanismo seguia as
tendências do movimento internacional. Não se pode esquecer, no entanto, que este
mesmo movimento modernista brasileiro, desta vez em todos os campos, no
urbanismo, na arte e na arquitetura, como explica Fonseca (1997, p.96) apoiando-se
em Eduardo Jardim de Moraes, percebeu que o rompimento radical com o passado
só fazia sentido em locais nos quais este passado estava internalizado, o que não
era o caso do Brasil. Aqui, tratava-se de construir uma identidade própria. A imediata
adesão ao novo tinha o sentido de incorporação de ideias europeias. Neste sentido,
Lúcio Costa ao ingressar no movimento modernista incorporou a brasilianidade que

15
O centro histórico atualmente conta com prédios onde funcionam cursos da Universidade Federal
do Maranhão, da Universidade Estadual, do Instituto Federal do Maranhão e outros cursos, como a
Escola de Música ou a Casa França-Maranhão.
73

ele havia descoberto na arquitetura colonial16 e estendeu a sua admiração por esta
arquitetura engajando-se no movimento de conservação do patrimônio.
A cultura moderna se construiu negando as tradições e os territórios diz
também Garcia Canclini recorrendo a Aracy Amaral (1985, apud GARCIA
CANCLINI) ele faz notar que:

a partir de 1922 ser culto não é mais imitar como no século XIX, os
comportamentos europeus e ‘rechaçar complexadamente’ nossas
características próprias, diz Amaral, o moderno se conjuga com o interesse
por conhecer e definir o brasileiro. Os modernismos beberam em fontes
duplas e antagônicas: de um lado, a informação internacional, sobretudo
francesa, de outro: ‘um nativismo que se evidenciaria na inspiração e busca
de nossas raízes’ (GARCIA CANCLINI, 1998, p. 79).

Ao mesmo tempo, em 1964 aconteceu uma mudança fundamental nas


diretrizes internacionais com a ampliação do conceito de monumento histórico para
o sítio urbano ou rural, que se expressa na Carta de Veneza: a cidade ou partes dela
passam a ser considerados como monumentos históricos a serem preservados.
Então, se o poder público tinha nos PNDs os instrumentos para buscar construir e
consolidar uma sociedade industrial moderna, a proposta de conservação do
patrimônio tinha como respaldo a colaboração de missões da Unesco, articuladas
com o órgão responsável pelo patrimônio histórico nacional que tinham o objetivo de
tentar evitar um dano irreparável devido exatamente ao grande impulso de
modernização proposto (LEAL, 2008).
Além disso, outra discussão começava a se afirmar no cenário internacional
da conservação, já desde o ano de 1962, com a Recomendação de Paris que
levantava a questão do patrimônio cultural como objeto do turismo. Debatia-se a
necessidade de conciliar as exigências do progresso urbano com a salvaguarda dos
centros ou complexos históricos de interesse ambiental. Uma discussão que
culminou na publicação da Carta de Quito, resultado da Reunião sobre Conservação
e Utilização de Monumentos e Lugares de Interesse Histórico e Artístico, da
Organização dos Estados Americanos, em 1967 (IPHAN, 2004).
Na Carta, destaca-se a necessidade para os países da América, em
particular os da América Ibérica, de defender e valorizar o patrimônio monumental e
artístico. Mais importante, acrescenta-se que não há contradições nem teóricas nem
práticas, com uma política de ordenação urbanística cientificamente desenvolvida.
16
Lucio Costa desde o princípio havia aderido ao neocolonial numa postura um pouco diferenciada
que buscava não recriar seus elementos, mas identificar os seus valores e incorporá-los na prática do
fazer arquitetônico em busca de uma arquitetura brasileira.
74

Longe disso, a defesa e valorização do patrimônio deveria constituir o complemento


do desenvolvimento. Não é outro o objetivo da visita de Parent.
Ao mesmo tempo, havia à época, o esforço para operacionalizar a formação
de um sistema nacional de preservação. Ao tratar da conservação do patrimônio
histórico no plano diretor, o poder público participava e cumpria também tanto o
Compromisso de Brasília quanto o Compromisso de Salvador, o I (1970) e o II
(1971) Encontro de Governadores, Secretários do Estado da Área Cultural, Prefeitos
de Municípios Interessados e Técnicos da Conservação respectivamente (IPHAN,
2008). Como parte deste processo são iniciados estudos para a recuperação da
Praia Grande “ameaçada de decomposição pelas mudanças de uso que se
processavam devido à transferência das atividades portuárias para o Itaqui”
(PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1977, p.35). O Projeto Praia Grande, como era
chamado, levando em consideração a tendência de concentração espacial das
funções administrativas de todos os níveis de governo naquele local, empenhava-se
na aquisição de prédios da área pelos governos estadual e municipal. A ideia era
consolidar a Praia Grande como um centro administrativo e institucional abrangendo
os três níveis de governo (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1977, p. 35).
Foi assim que modernizar e conservar se tornaram ao mesmo tempo
objetivos do Plano Diretor de 1974. A iniciativa do Plano Diretor fazia par com as
iniciativas do Governo do Estado que, naquele momento, pode-se dizer, retomava o
processo de modernização da cidade que já havia sido tentada algumas vezes, com
diferentes graus de sucesso como atestam os trabalhos de Valdenira Barros17, de
Ribeiro Júnior (1999), Burnett (2008) Lopes (2008), Pflueger e Lopes (2008), das
iniciativas modernizadoras anteriores. No entanto, até então as modernizações não
haviam mudado substancialmente, nem a fisionomia da cidade colonial nem a lógica
de produção do seu espaço. A década de 1960 chegou com a intenção e com os
recursos para colocar definitivamente em movimento a modernização sonhada.
Ainda assim, dos projetos de modernização merecem destaque os assinados
pelo engenheiro Ruy Mesquita. O primeiro, o Plano Rodoviário de 1950. O segundo,
que complementava o primeiro, o Plano de Expansão da Cidade de São Luís de

17
Valdenira Barros (2001), em seu livro “Imagens do Moderno em São Luís” aponta com muita
pertinência o momento das exposições, que seguiam o modelo das exposições universais, em
especial a exposição comemorativa dos trezentos anos de fundação de São Luís em 1912, como
momentos em que expressam uma realidade onde estavam sendo plantadas as sementes do sonho
de uma modernização local.
75

1958, no qual é apresentada formalmente a proposta de romper com a velha cidade


transferindo o eixo de desenvolvimento e crescimento para as áreas desocupadas,
do outro lado dos rios que a circundam. Vale um parêntese para examinar o plano
de Mesquita mais de perto.

3.1.5 Modernizar é construir uma nova cidade: o plano de Mesquita

O Plano de Expansão da Cidade de São Luís partia da premissa que a parte


central da cidade estava limitada em seu crescimento. Limitada pelos rios que
circundam a cidade, limitada pela topografia acidentada, pelas ruas estreitas que
eram inadequadas para o uso de veículos modernos. Segundo este documento, a
cidade existente não poderia acompanhar os novos tempos.

A cidade de São Luís desenvolve-se, de acordo com a sua topografia,


sempre das partes altas para as partes baixas. No sentido do maior
crescimento segue o divisor de águas dos rios Anil e Bacanga. Nos
espigões formam-se geralmente os bairros.
Nas partes baixas das margens dos rios Anil e Bacanga e nas depressões
situadas entre os espigões, desenvolvem-se inúmeros mangais. Nestas
áreas insalubres, especialmente nas mais próximas dos centros de trabalho,
desenvolvem-se os mocambos, abrigando homens, geralmente
depauperados, vencidos pelo trabalho e sem a educação necessária para
melhorar as condições de vida. Este fenômeno tem como principal causa o
crescimento da cidade em um só sentido, através de uma faixa estreita,
devido à limitação da área pelos rios Anil e Bacanga. ( MESQUITA, 1958,
p.2)

A cidade estava limitada e permanecia inalterada dizia Mesquita. Inalterada


porque se desenvolvia “caótica e desorganizadamente sem a orientação de um
plano básico para o seu desenvolvimento” . A fórmula do não tem planejamento, não
foi planejada, parece ser uma fórmula que, se não garante o sucesso do plano, o
justifica e o eleva a “plano salvador”. Em geral salvador do caos urbano, que vai ser
resolvido por intermédio de um planejamento racional que é apresentado no plano
que reclama da falta de planos. Apresentando-se desta maneira, muito
frequentemente garante que seja visto como científico, na medida em que todos os
outros não o foram. O Plano de Expansão advogava para si esta racionalidade.
Neste quadro caótico, afirmava Mesquita, ou a cidade crescia no sentido
vertical ou se expandia no sentido de ocupar as faixas de terra entre o Rio Anil e o
mar e o Rio Bacanga e a Baía de São Marcos. Explícita a representação que se
queria começar a formar na população de que a cidade colonial não era mais
adequada para os tempos modernos. O problema é que ali estava tanto o tradicional
76

comércio de São Luís como as famílias mais tradicionais, em seus casarões


coloniais. Era preciso convencer esta população das vantagens das mudanças.
Subliminarmente, sugere-se que a limitação da cidade que leva ao
desenvolvimento em um só sentido é a causa da ocupação por mocambos das
faixas próximas aos rios. Sugere-se também que rompendo a cidade com esta
limitação, o fenômeno não estaria presente. Se por conta de um planejamento
racional, ou simplesmente por que a cidade estaria distante do fenômeno não fica
muito claro, pois não se coloca a perspectiva de resolver o problema das palafitas
que, ademais acontecia por conta da incapacidade dos moradores, dizia Mesquita.
Fica colocada a questão: do outro lado da cidade não se vai ter as palafitas,
porque tudo será determinado para que seja ocupado de forma organizada,
planejada, sem os “problemas indesejados”. A segregação socioespacial
explicitamente assumida. Porém, camuflada, sob o manto da racionalidade do
planejamento, no sentido em que Lefebvre (2000, p.15) coloca do “altamente
interessado emprego de um supostamente desinteressado conhecimento”.
O que se enfatizava era o fato de que a parte central de São Luís estava
limitada e que sua infraestrutura viária era inadequada para os novos tempos. Esta
visão que se tentava afirmar como dominante escamoteava os problemas
verdadeiros, como por exemplo, o déficit habitacional que alimentava as palafitas.
Seguindo o raciocínio, Mesquita (1958, p.3) avaliava que deveria ser evitado o
crescimento em altura para não provocar “congestionamentos, confusões,
insegurança e, consequentemente, a desvalorização dos imóveis”. Neste caso, o
mais recomendado era o que ele chamava de “crescimento em expansão”, que tinha
a finalidade de descentralizar a cidade e, por conseguinte a circulação de veículos.
Com a “descentralização da cidade haveria maior concentração de atividades com o
aumento de velocidade dos veículos” dando, ao mesmo tempo, a São Luís,
proporções de uma grande metrópole. Aqui está claramente exposta a inspiração da
urbanização que vai acontecer nas décadas seguintes, materializada no PD/74.
Este texto parece estar completamente destoante do que se via acontecer
com os centros de outras cidades brasileiras. O discurso não era de abrir ou alargar
as ruas ou de refazer as edificações, como já havia sido feito no período do Estado
Novo em São Luís. O discurso, que trazia nas entrelinhas o sentido de abandonar a
cidade com seus caos e palafitas e partir para a construção de outra cidade
radicalizava a “destruição criativa” dominante no pensamento do urbanismo à época.
77

O que não era dito era exatamente o quanto se beneficiariam deste processo
o capital fundiário com toda aquela terra disponível sendo comercializada, a indústria
da construção civil com toda construção que seria necessária ser viabilizada e o
mercado imobiliário. Tudo organizado e tutelado pelo Estado.
Junto ao plano de expansão destacava-se a importância da implantação do
plano rodoviário, que já havia sido proposto e enfrentava dificuldades para se
completar. Neste, enfatizava-se a necessidade de construir uma ligação entre a
cidade de São Luís e o Porto de Itaqui (ainda como proposta também), com o
objetivo de proporcionar a ocupação de uma nova área e a construção de um distrito
industrial próximo ao porto. Necessariamente esta proposta incluía uma ponte sobre
o rio Bacanga. Propunha a construção de pontes sobre o Rio Anil, não apenas a
ligação da parte central à Ponta do São Francisco, mas outras ligações ao longo do
rio. Finalmente, a proposta de construção de uma extensa malha viária que
possibilitaria a ocupação das áreas ainda não urbanizadas ao tempo em que
facilitaria o acesso às praias, sendo em última instância o que tornaria possível a
São Luís tomar a forma de uma grande metrópole.

Figura 5: Mapa da Ilha de São Luís em 1950.


Fonte: JORGE, 1950.
Neste mapa podem ser vistas as estradas ligando São Luís aos povoados e às aldeias dos índios ou
dos jesuítas. Ao Turu (Toroeupe ou Tooroup), ao povoado na Praia de Jaguarema (entre Olho d’Água
e Araçagi) e a de Araçagi, entre outras. Cesar Marques (1970) , por exemplo, faz notar que um dos
pontos altos do prefeito Jayme Tavares (1926-1930) foi ter feito as melhorias feitas nas estradas que
levavam de São Luís ao Anil, do Anil ao Olho d’Água, do Anil a São José de Ribamar e do Anil à
Maioba, além da construção de novas estradas ligando o Anil à Estiva, e o Anil e o Vinhais.
78

As avenidas do plano de Mesquita cortariam a cidade existente, deixando de


fora o núcleo central. Apresentam o germe da proposta do Anel Viário materializada
por outro engenheiro, Haroldo Tavares, que foi secretário de Sarney e o prefeito
responsável pelo Plano Diretor de 1974. Demonstram, além disso, o compromisso
com o meio de transporte rodoviário e, principalmente o automóvel.
Como projeto, a construção de uma nova cidade na margem direita do Anil,
em frente à cidade antiga, se enquadrava perfeitamente no movimento
entusiasmado de construção de novas cidades, projetadas desde o primeiro traço na
prancheta do seu autor, traçadas no terreno em branco, identificando-se, como
Barros (2001) aponta, com o urbanismo funcionalista, com as propostas de Le
Corbusier. Apresentado em poucas páginas, nem por isso deixava de ser audacioso:
no território desocupado nascia uma nova cidade.
O zoneamento funcional demonstrava a influência dos projetos da nova
capital brasileira. A cidade moderna é desenhada com direito a Praça dos Três
poderes e a um centro social e administrativo; com direito a áreas de lazer, área
verde, praça para realização de feiras, festivais e instalação de circos, hotéis,
cinemas e teatros e até estádio e hipódromo. Além disso, assumia claramente a
segregação socioespacial definindo as áreas residenciais como zona residencial de
luxo, de primeira, segunda e terceiras classes.

Figura 6: Cidade Nova Proposta no Plano de Expansão de São Luís,1958.


Fonte: Mesquita (1958) adaptada por Santos, 2010.
79

4
9
2 8 6
7

1 3

10

Figura 7: Plano Rodoviário de Mesquita


Fonte: Plano de Expansão – (Mesquita)1958
1 Porto de Itaqui
2 Cidade de São Luís
3 Ponte sobre o Rio Bacanga
4 Ponte sobre o Anil - São Francisco
5 Ponta d’Areia – Cidade proposta por Mesquita
6 Ponte sobre o Anil - Caratatiua
7 Proposta inicial do Anel Viário
8 Palafitas
9 Estrada Velha do Turu – ligando o Anil ao Olho d’Água
10 Entrada da Cidade de São Luís
80

Curiosamente, no entanto, embora Mesquita colocasse como a principal


vantagem o que ele chamava de “crescimento em expansão”, a cidade desenhada
apresentava pequenas proporções, quando comparada com a extensão ilimitada de
terras disponíveis. Pode-se pensar, mais uma vez, na influência do desenho de
Brasília? A cidade projetada seria o plano piloto, enquanto o crescimento em
expansão seria a repetição deste plano piloto. Ou seria a influência direta da lógica
de construção do espaço contínuo da cidade existente que ainda predominava no
imaginário coletivo, influenciando desta maneira o pensamento técnico?
Barros (2001), que analisou o projeto de Mesquita, faz notar o desejo de que
esta parte da cidade fosse autossuficiente em relação às demais. Entretanto, a falta
de previsão para áreas de serviços e equipamentos urbanos em desenho tão
minucioso, que trazia a indicação de taxa de ocupação, de altura dos edifícios e
definição de testadas, de afastamentos, largura de ruas e especificação das áreas
de circulação de pedestre, das calçadas e passeios, sugere que a nova cidade
contava com a existente para seu abastecimento e para a localização das indústrias.
No plano racionalista de Mesquita a área do Bacanga seria destinada às
indústrias, à construção de depósitos de combustíveis e outros. Por ali seria a
entrada de São Luís, tanto por via rodoviária como por uma nova estrada de ferro,
substituindo a antiga e deixando de alcançar o centro de São Luís, o seu antigo leito
servindo para a construção de outra estrada rodoviária. Estes equipamentos, assim
como as escolas e os hospitais deveriam ser objeto de estudo futuro.
A expressão de autossuficiência é, no entanto, mais que apropriada, no
sentido de uma parte da cidade que não precisa ir até o centro que está saturado
para viver a vida de todo dia. Mais que isso, havia a proposta de instalação dos três
poderes na cidade nova, indicando a construção de uma nova centralidade, o que
também é muito condizente com a proposta de descentralização que ele colocava.
Outro ponto a ser considerado é a horizontalidade da cidade proposta. Nas
áreas residenciais de luxo, de primeira e segunda classe as edificações podiam ter
de um a dois pavimentos. A de terceira classe, um pavimento apenas. Um pouco
mais de altura, quatro andares eram permitidos às edificações das áreas mistas
comercial/residencial e no centro social e administrativo onde estariam o comércio,
os bancos, os hotéis, e edifícios de apartamentos. Definitivamente verticais, mais do
dobro da maior altura dos outros edifícios, seriam as sedes dos três poderes que
81

poderiam ter 10 andares. Mais uma vez, mesmo falando de crescimento ilimitado, de
metrópole, de grande capital, o projeto apresentava a escala da cidade existente.
O plano não foi executado. Foi motivo de crítica, motivo de crônica. Barros
(2001, p.64) destaca o registro de José Chagas intitulado “O caso da ponte do São
Francisco”. O poeta ironizava a não construção da ponte:

Falo aqui do caso da ponte.


Mas há só o caso; a ponte não.
E exatamente porque não existe a ponte é que existe o caso.
O caso da ponte.

O ímpeto modernizador do Maranhão Novo retomou estas propostas,


especialmente a construção da ponte, ou melhor, das pontes. A primeira terminada,
a do Caratatiua, encurtou o caminho para a praia do Olho d’Água. Permitiu os
primeiros conjuntos residenciais do outro lado do Rio Anil, mais próximos da cidade
antiga, o conjunto Residencial do Instituto de Previdência dos Servidores Estaduais
(Ipase) e o Conjunto Residencial significativamente chamado de Maranhão Novo,
marcando a época do governo do Maranhão Novo de José Sarney.
A ponte do São Francisco foi construída no lugar proposto por Mesquita. Do
outro lado a cidade nova estaria em condições de aproveitar a visão da cidade
antiga em frente a ela. Afinal, além das condições topográficas e geológicas, a
escolha do lugar também levava em conta o máximo aproveitamento da beleza
estética da cidade. Esta é, entretanto, a única pista que pode levar a pensar em uma
futura valorização da cidade existente, porque a proposta de mudar a cidade para o
outro lado do Anil não colocava em nenhum momento, como contraponto, a
conservação da cidade colonial. Mesquita não usa nem mesmo a denominação de
cidade colonial, não usa cidade histórica, nem centro histórico. O que é uma boa
indicação de que a intenção era tão somente uma nova frente de ocupação urbana.

3. 2 O PLANO DIRETOR DE 1974

3.2.1 A modernização é necessária para a valorização da cidade histórica.

Preparar a cidade para o seu desenvolvimento era o grande objetivo, o


primeiro objetivo do Plano Diretor de São Luís de 1974. Dizer preparar a cidade para
seu desenvolvimento apresenta um primeiro sentido: o de uma cidade existente, ou
um espaço existente que deveria receber o desenvolvimento que se previa fosse
acontecer. Neste sentido, o Plano Diretor constituía, em suas próprias palavras, “um
82

esforço para fornecer à cidade os elementos básicos para iniciar um processo de


planejamento coerente com as perspectivas que ora se lhe apresentam”
(PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1977, p. 3).
A implantação do Projeto Grande Carajás e do parque industrial que viria
como acréscimo, exigia, evidentemente, espaço. Porém, não eram essas apenas as
perspectivas que se apresentavam. O desenvolvimento, como sinônimo da
recuperação econômica que seguia a trilha do Maranhão Novo de José Sarney,
significava a vinda de investimentos, de empreendimentos e pessoas que teriam que
se instalar no espaço urbano.
A cidade como espaço existente deveria ser preparada para ser ocupada.
Preparar o espaço para o consumo, no sentido do espaço como lugar do consumo
que fala Lefebvre (2008). No segundo sentido, preparar para seu desenvolvimento
significava aproveitar a urbanização como um instrumento de crescimento
econômico em si, mediante o crescimento dos mercados fundiário e imobiliário, da
indústria da construção civil e do próprio turismo. A urbanização como estratégia e
instrumento de desenvolvimento do capitalismo como coloca David Harvey (2008).
O Plano Diretor tinha o objetivo de determinar onde seriam localizados os
espaços para abrigar as novas atividades. Dividido, como mandava o figurino do
PNDU e como ensinava a tecnocracia dominante (SERRA, 1991), em capítulos
distintos que contemplavam quatro pontos: uso da terra, organização do tráfego;
proteção do meio-ambiente e valorização do patrimônio histórico, configurando
planos quase individualizados em si.
Não se pretende aqui, a análise detalhada dos quatro capítulos, mas sim
destacar os pontos específicos relacionados com os modos de morar e com a
cidade histórica. Neste sentido trata-se em primeiro lugar do plano de zoneamento
do uso da terra que propunha:

Implementar uma estratégia de desenvolvimento urbano compatível com as


tendências de crescimento demográfico e urbano em geral e que permita
orientar a organização espacial de maneira a obter melhoria da qualidade
de vida e aumento da eficiência na provisão de serviços urbanos.
(PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO LUÍS, 1977, p. 7)

No próprio documento-plano melhorar a qualidade de vida queria dizer:


melhoria dos padrões de ocupação residencial; aumento de quantidade e qualidade
do equipamento infraestrutural da cidade e finalmente a aquisição de casa ou lote
83

próprio. A casa própria possibilitada através da construção dos conjuntos


habitacionais. A aquisição do lote próprio, através dos loteamentos residenciais.
Isto não define, porém, a forma da cidade. Não define onde as casas
deveriam ser construídas, nem como estas novas áreas residenciais se
relacionariam com a cidade existente. A prefeitura apresenta a questão da seguinte
maneira:

Como pode ser observado, não só as obras executadas, como também as


projeções para o futuro estabelecidos no Plano Diretor, possibilitam uma
expansão da cidade dentro de suas características próprias e do espírito do
seu povo, revelado no folclore, na cultura e no seu estilo de vida.
(PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1975)

Por um lado, a referência ao estilo de vida e cultura é importante para


justificar a apreciação das tradições. Serve, ao mesmo tempo para legitimar os
projetos. Prepara-se, desta forma, o caminho para que sejam entendidas como
dentro do espírito do seu povo, todas as transformações, todas as inovações
propostas. Por outro lado, obras já tinham sido executadas: as grandes avenidas, as
pontes, alguns conjuntos habitacionais. Este era o caminho: ocupar as novas terras.
Assumir um novo estilo de vida nos novos conjuntos residenciais que se construíam,
diferentes em localização e em forma, proporcionando novos modos de morar.
Entretanto, a prefeitura anuncia que o respeito ao valor das estruturas do
passado estava presente no plano, “de tal forma que as concepções modernas de
urbanização emolduram a intocada respeitabilidade desta cidade histórica”
(PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1975).

Figura 8: Cidade moderna emoldurando a cidade histórica.


Fonte: Prefeitura de São Luís, 1975. Mapa de São Luís do Plano Diretor de 1974. Adaptado pela
autora.
Cidade histórica emoldurada pela cidade moderna.
Cidade Moderna Porto de Itaqui
84

Falar de concepções modernas revela que preparar para o desenvolvimento


significa, também, modernizar. O Plano Diretor de São Luís tratava, portanto, de
preparar a cidade para o desenvolvimento e para a modernidade. Como o Maranhão
Novo de José Sarney anunciara e indicara o caminho construindo a infraestrutura.
O uso do verbo emoldurar sugere o enquadramento e o arremate da cidade
histórica com o sentido de valorizá-la, na medida em que moldura é objeto que dá o
acabamento necessário à beleza do outro objeto, aquele que está enquadrado.
Moldura, ao mesmo tempo, é ela mesma um ornato, um enfeite, valorizando-se a
modernização ao tempo que se valoriza a cidade histórica.
O enquadramento remete à proposta da modernização em volta, além e ao
largo da cidade histórica, imagem favorecida por especiais circunstâncias
geográficas. E pela infraestrutura já construída. A cidade existente, entre os dois rios
seria emoldurada pela cidade moderna construída para além deles, em volta da
cidade histórica. A urbanização modernizadora, portanto, é tida como essencial
também para a valorização da cidade histórica. Sem ela a própria cidade histórica
passaria despercebida e ficaria abandonada. A São Luís, cidade histórica, se insere
no processo de produção do espaço urbano através da modernização.
Implícito, no enunciado, o reconhecimento por parte do poder público do valor
do conjunto de sua arquitetura:

Como as pessoas, as cidades adquirem, ao longo do tempo, fisionomia e


caráter, que as distinguem das outras. São Luís é uma cidade admirada em
todo o país pelo conjunto de sua arquitetura de grandes sobrados e
vivendas coloniais. (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1975).

Todo o país admirava o conjunto da arquitetura de São Luís, menos seu povo,
sugeria o texto, para logo depois afirmar com todas as letras este descaso.

Também como as pessoas, as cidades podem sofrer algumas decepções. E


São Luís estava sofrendo. Seu povo, herdeiro de tradições culturais que
honram e orgulham a qualquer um, impunha-lhe inconscientemente, uma
certa indiferença, seduzido pelo fascínio das modernas concepções de viver
e morar. Como se se pudesse desfrutar o presente sem as lições do
passado. (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1975).

Com esta pequena história São Luís é personificada. A personificação tem


sido um recurso frequentemente usado para naturalizar os processos através dos
quais acontecem as transformações das e nas cidades. Não raro, estas histórias se
apresentam acompanhadas da constatação ou da explicação de como a evolução
da vida e da sociedade fez com que estes espaços deixassem de interessar aos
85

homens e mulheres que nele moravam, trabalhavam, estudavam, se divertiam.


Naturalmente, ou seja, de forma natural. O termo evolução favorecendo a
naturalização destes processos, aproximando-os da própria evolução da vida. Assim
como se nasce, cresce e morre, assim nascem e crescem as cidades. A morte
caracterizada exatamente pelos processos de abandono ou de destruição, ou
simplesmente de desvalorização de suas edificações.
Não se pode negar. De fato, a atração pelo novo passou a fazer parte da
sociedade ocidental. Esta é, segundo Heller (1999) a própria dinâmica da
modernidade, onde o novo passou a ser o mais adequado, o desejável, o
respeitável. No caso da cidade, este novo aparece de muitas formas: é o automóvel,
os aparelhos elétricos que facilitam a vida doméstica, a televisão, as novas casas,
com suas novas divisões, com sua nova estética, os novos modos de morar.
Bom notar que se apresenta no texto, não a justificativa do abandono da
cidade colonial, mas a sua crítica. Havia um inconsciente abandono que não deveria
haver, porque as tradições culturais deveriam ser motivo de honra e orgulho” dizia a
Prefeitura de São Luís (1975).
No entanto, a contraposição se coloca não entre as modernas concepções de
viver e as possibilidades de bem viver que a cidade histórica poderia oferecer, ou
que ainda oferecia e oferece ainda, mas são levantados outros valores, outras
atrações e outras funções para a cidade histórica. Ou melhor, implica em realizar o
que está dito literalmente: aproveitar as estruturas para ensinar as lições do
passado. Posição que vai encontrar o seu referencial na visão da cidade-museu e
nas propostas de aproveitamento do turismo.
As mencionadas modernas concepções de urbanização não incluem
modernizar a cidade existente, distanciando-se das propostas de renovação urbana
e destruição criativa no sentido que Harvey (1996) coloca, o que, sem dúvida, é
motivo para comemoração. Sequer se propunha uma adequação da cidade
(discurso atual) às modernas concepções de viver. Aproveitar as lições do passado
tinha o sentido de admirar, contemplar e aprender com o passado. Como objeto de
turismo, que, além disso, poderia recuperar os investimentos feitos na preservação
deste patrimônio.
A população deveria ser educada neste sentido. Ou seja, o poder público
conhecia o valor das estruturas históricas e propunha a sua valorização. Era o povo
86

que, seduzido pelas novas concepções de viver e morar dava as costas, ainda que
inconscientemente, às tradições culturais.
O texto sugere que este movimento é natural porque faz parte da natureza
mesmo das pessoas. São elas que são indiferentes às tradições da cidade, por
estarem sempre em busca de novidade. Por isso saem em busca de novos modos
de morar. Por isso mesmo, as medidas de incentivo deveriam ser, como foram,
voltadas para o morador. Assim se explicam as ações de conscientização da
importância do patrimônio histórico de São Luís.
Primeiro, foi criado o Projeto Mirante (1974) para despertar a consciência da
população. Uma ação que respondia ao desejo do governo federal de fomentar o
sentimento de identidade com o patrimônio construído, transformá-lo em símbolo
nacional, em aliança com o próprio Patrimônio que, com isso, aumentava as
chances de conservação dos monumentos tombados.
O Projeto Mirante, de fato, instituiu concursos os mais variados sob o tema “O
Patrimônio Arquitetônico de São Luís”. Incluía medidas mais pragmáticas como a
isenção de 60% do IPTU para quem fizesse a recuperação da fachada e do telhado
do seu imóvel. Por último, ainda neste projeto, como “exemplo de revalorização de
nossa herança cultural, as velhas e históricas ruas de São Luís voltaram a receber
seus nomes tradicionais” (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1975), lembrando que estes
haviam sido trocados quando no Estado Novo.
Foram adotadas outras medidas de valorização do patrimônio. Uma das mais
significativas, a que a própria prefeitura incentivou os moradores, com isenção de
impostos, a colocarem azulejos nas fachadas por toda São Luís, apelo que, diga-se
de passagem, foi atendido não apenas no centro, mas por toda a cidade, a
população aderindo orgulhosa à consolidação de São Luís como a cidade dos
azulejos. Os efeitos desta medida são ainda hoje visíveis. Os azulejos que eram
usados para o interior foram colocados no exterior levando a que os defensores da
autenticidade do patrimônio denominassem os edifícios que aderiam a esta medida
de “banheirões”18.

18
Guardadas as devidas proporções, a tentativa de fazer igual ao antigo, sempre foi uma das
primeiras atitudes denotativas do respeito e admiração pelas obras do passado, os exemplos indo
dos renascentistas passando pelo ecletismo e o próprio movimento neocolonial. Mas nos anos 1980
se resolveu que a medida estava na contramão da história e da política conservacionista. Os
“banheirões” não puderam continuar a se reproduzir (pelo menos oficialmente), mas ainda podem ser
vistos em muitos lugares da cidade e não apenas no centro.
87

Foto 1, 2, 3. Azulejos nas Fachadas


Foto 1 Casas no Centro Foto 2: Casarão no Centro. Foto 5: Casa no Maranhão Novo
Fonte: Autora, 2002

Por um lado, a prefeitura parecia ter todo o interesse e mesmo a intenção de


promover a valorização do passado, e por outro, defendia que: “sem o interesse e
participação da coletividade seria impossível uma intervenção direta do Poder
Público tal como ocorreu em Salvador, Ouro Preto, etc.” (PREFEITURA DE SÃO
LUÍS, 1975). Enfatizava-se, de outra maneira, a intenção de aproveitamento para o
turismo. Preparar a cidade para o desenvolvimento era também aproveitar o seu
patrimônio histórico para incentivar o turismo. A cidade se preparando para o
consumo do espaço no sentido que Lefebvre (2000) coloca, da cidade como
mercadoria.
De certa forma é curioso o uso da denominação de cidade histórica usada
pela prefeitura. De fato, São Luís se apresentava de forma compacta em volta do
seu núcleo inicial de fundação. A expansão que acontecera a partir da década de
1930 seguia o eixo que, saindo do centro, do núcleo inicial, ia até a Vila do Anil e
seguia em direção à saída da Ilha. Mantinha, portanto, uma continuidade espacial
física com a cidade antiga. Por outro lado, olhando para a ilha do Maranhão
(denominada também de Ilha de São Luís), a ocupação era incipiente. Assim, a
cidade de São Luís se confundia com o seu centro atual. Então, embora não fosse
este o termo usado pelo plano diretor, que usava a expressão centro histórico, o uso
de cidade histórica parecia colocar São Luís no mesmo patamar que as outras
cidades, como Olinda e Ouro Preto principalmente, que recebiam naquele momento
o incentivo para a conservação do patrimônio. Além disto, esta questão despertava
no imaginário popular a importância de São Luís no cenário nacional, re-ligava São
Luís com o espaço exterior, rompia a condição de final de linha.
Carregava, por outro lado, de forma subliminar a ideia de duas cidades, a
cidade moderna que seria construída para a vivência cotidiana de seus habitantes e
a cidade histórica, que seria admirada, respeitada pelo mundo exterior e aproveitada
88

pelo turismo. Insinuava também que a proposta de criar uma cidade histórica,
conservada, vivendo o seu ritmo e sendo aproveitada pelo turismo nos moldes que
haviam sido criadas Ouro Preto ou Olinda, não entrava em contradição com a
proposta de modernização. Note-se que o próprio texto levantava esta aproximação.
Esta era uma perspectiva que se apresentava como a solução do problema
de respeitar o passado e construir a modernidade. Enquanto a cidade existente era
a herança redescoberta, a cidade moderna que estava nascendo era a
concretização das modernas concepções de viver, na qual se pretendia instalar o
grande contingente populacional previsto, dentro dos moldes pensados para o
desenvolvimento do país como um todo.
Desta forma, todo o texto que trata da aparente indiferença do seu povo soa
como um oximoro. Ao mesmo tempo em que se lamenta o abandono da cidade
antiga em nome dos novos modos de morar, apresenta-se à população estes novos
modos de morar, devidamente organizados em seu plano diretor. Se a população de
São Luís estava seduzida por estas novas concepções é porque havia um sedutor: o
próprio poder público, Estado e Prefeitura unidos.
Todo o processo era apresentado como natural no texto da prefeitura. Novos
bairros surgiam no novo território depois que a ponte e as novas estradas para as
praias haviam sido construídas. O que não se diz é que estes acessos foram
construídos com esta intenção, a de levar pessoas para lá, não fosse isso não teria
nenhum sentido se abrir estradas no meio do nada. Não se diz, também que havia
uma estratégia traçada para a ocupação da orla litorânea.

3.2.2 A Estratégia de Ocupação

A Prefeitura de São Luís contava com a Surcap:


o governo municipal organizou uma empresa de economia mista com o fito
de executar obras e serviços para dotar a cidade de São Luís de um padrão
urbanístico melhor arranjado. Através da Lei Municipal n° 1.848, de 16 de
dezembro de 1969, foi criada a Sociedade de Melhoramento e Urbanismo
da Capital- Surcap (RIBEIRO JÚNIOR, 1999, p. 93)

As terras foram transferidas do domínio da União para o Governo de Estado


que havia pleiteado, “junto ao Governo Federal, a transferência destas terras para o
patrimônio do Estado, sob regime de aforamento e com finalidades específicas de
ser utilizadas para expansão urbanística da cidade de São Luís”.(PREFEITURA DE
SÃO LUÍS, 1975). Apresentava-se a Surcap como uma “imobiliária que recuperando
89

progressivamente as glebas de expansão urbana, fosse racionalizando a ocupação


física do Município” (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1975). Com isto, a ocupação da
orla se transformou em uma estratégia que envolvia operações imobiliárias
lucrativas sob o comando do poder público.
Ribeiro Júnior (1999, p.92) oferece a seguinte descrição:
Através do Decreto Federal n° 66.227, de 18 de fevereiro de 1970, a União
cederia ao Estado, sob o regime de aforamento, as terras compreendidas
na área do Itaqui-Bacanga, com 7.120 ha., cuja destinação era servir como
zona para execução do plano de desenvolvimento urbanístico da área
metropolitana. Nesse mesmo diploma legal, nas mesmas condições, é
cedida uma área de 3.690 ha. na área Rio-Anil. Ficaram excluídas dessa
cessão uma parte que caberia ao Banco Nacional de Habitação (BNH) e
outra ao Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis. Demais, por
força do Decreto Federal n° 78.129, também sob o instituto do aforamento,
as terras compreendidas na área do Tibiri-Pedrinhas, com
aproximadamente 25.644,13 ha, ficariam destinadas à implantação de obras
de infraestrutura e à execução de projetos de urbanização da região.
Por Rio Anil deve-se entender a longa faixa que se estende margeando à
esquerda a via fluvial de mesmo nome, que vai do assentamento
embrionário da cidade até próxima da sua nascente, compreendendo os
bairros da Camboa, Liberdade, Fé em Deus, parte do Monte Castelo, parte
da Alemanha, Caratatiua, Vila Palmeira, Barreto, Outeiro da Cruz, Cohab-
Radional, Santa Cruz/Bom Clima e Cutim.

2
3

Figura 9: Mapa da estrutura fundiária de São Luís.


Fonte: Prefeitura de São Luís, 2006. Adaptado pela autora.
1. A área da Sesmaria corresponde à cidade existente na década de 1970.
2. A divisão de municípios que está representada no mapa é a atual divisão. À época, o
município de Raposa estava contido no munícipio de Paço do Lumiar.
3. Gleba Rio-Anil

Por outro lado, a aquisição de terras pelo Estado foi realizada também
por outros mecanismos, como conta o próprio José Sarney (2010, p. 174-176) ao
falar da construção da ponte do São Francisco.
90

ainda na fase de concepção, a obra causou séria preocupação relacionada


com as terras do outro lado que iriam registrar imensa valorização. A um
governo sério competia imperiosamente evitar negociatas, especulações,
enriquecimento ilícito com as terras (SARNEY, 2010, p.174).

Resolvera, conta ele, comprar as terras antes de realizar a obra. E narra o


caso da fábrica de tecidos da Camboa que inaugurada em 1890, para alimentar as
máquinas movidas a turbinas a vapor, adquira grandes extensões de terras do outro
lado do Rio Anil para tirar lenha. Em 1966 a fábrica falira. “Sabia que aquelas terras
iriam ter uma valorização fantástica com a ponte”, diz Sarney (2010, p.176). Conta,
então, que propôs ao proprietário que entregasse as terras para o Estado em
pagamento dos impostos que deviam. Assim as terras passaram para o Instituto de
Previdência do Estado do Maranhão (IPEM). Foram loteadas em 1974 (O
IMPARCIAL, 01/08/1974 ) e deram origem ao moderno bairro residencial do Calhau.
Para a Prefeitura de São Luís (1975):

Para a execução dos planos concebidos e aprovados, foi necessário criar


um sistema de geração de recursos, cujo primeiro passo consistiu no
ajustamento da máquina arrecadadora do Município, tornando-a ágil, mas
justa. Isto foi conseguido com a reforma de toda a estrutura administrativa.
Criou-se uma empresa imobiliária, a Surcap, com a tarefa específica de
ampliar legalmente o espaço físico da cidade, ora recuperando áreas
alagadas, ora pleiteando áreas à União e ao Estado, para revendê-las. Com
o resultado desta operação, pode-se partir para a extinção das palafitas, a
construção de vias expressas, pontes, viadutos e o asfaltamento de ruas.

A ideia, resumida nas palavras do Prefeito Haroldo Tavares ao fazer a


avaliação da atuação da prefeitura ao término do seu mandato (O IMPARCIAL,
09/02/ 1975) é que esta solução de vender os terrenos (sempre de forma pública em
licitação ou leilão) era uma forma de arrecadação de recursos para a prefeitura. Uma
arrecadação de recursos que permitiria a realização de projetos como a urbanização
das palafitas, a urbanização das áreas carentes e, ao mesmo tempo, a recuperação
dos investimentos feitos, ainda com certo lucro para a prefeitura.
Ressaltando que era uma solução imaginada para São Luís que estava
fazendo muito sucesso em outros estados, Haroldo Tavares ainda anunciava, na
mesma entrevista, que se a Prefeitura de São Luís “fosse uma empresa, diria ao
meu melhor amigo: essa empresa tem liquidez. Compra esta empresa”. (O
IMPARCIAL, 09/02/1975). O movimento imobiliário deixava um saldo positivo.
Assim, parafraseando Lefebvre (2008) o espaço tornou-se instrumental. por
ser o lugar onde se desenvolvem estratégias. Uma questão se coloca: criou-se a
estratégia para garantir a ocupação das praias ou promoviam-se as praias para
91

garantir o sucesso da operação imobiliária? O mais provável é que a resposta esteja


no meio destas duas situações, uma solução típica do pensamento do urbanismo
modernista que buscava aliar uma maneira de proporcionar o conforto e o bem-estar
de todos na cidade, dentro do quadro do capitalismo.
A situação remete ao que Lefebvre (2000) fala do espaço tratado como
mercadoria e do zoneamento como instrumento desta operação. A estratégia
concebida transformava o espaço em uma mercadoria lucrativa que, ao ser
adquirida pelo setor privado, proporcionaria não apenas o lucro imediato, mas o
lucro constante e regular dos impostos recolhidos sobre ela. Tudo isto garantido pelo
zoneamento, que dá a estes produtos o valor acordado.
Burnett (2006, p.11), se posiciona da seguinte maneira.

A propriedade das terras conquistadas é transferida da União para o


Município, através de gestões diretas do próprio Prefeito (Tavares, 2006)
para posterior venda e financiamento dos serviços de urbanização, das
quais parte significativa (cerca de 4000 hectares) foi repassada às futuras
administrações o que, se coloca a questão do controle efetivo do imenso
solo urbano pela municipalidade, demonstra a impossibilidade de, em uma
única gestão, levar a cabo uma empreitada com tal dimensão. O destino e
as formas de comercialização deste patrimônio público é ainda nebuloso na
história recente da urbanização da cidade.

A prefeitura ainda alegava a inovação da operação que, é bom que se diga,


não estava no fato da venda dos terrenos, mas na perspectiva, assumida pelo
Prefeito Haroldo Tavares de usar os recursos desta atividade imobiliária e dos
impostos que seriam recolhidos, na urbanização de áreas carentes. Na verdade,
Tavares fez isso ainda na sua gestão. Usou os recursos para o projeto Kennedy-
Barés, próximo ao centro da cidade. Porém, as palafitas não sumiram da cidade, o
sonho acabou neste projeto.
Por isto e por ter defendido a proteção e valorização do patrimônio cultural foi
chamado em editorial do jornal o Estado do Maranhão (ESTADO DO MARANHÃO,
03/02/1975) de “prefeito sonhador”. O Prefeito, segundo o editorial, tratara São Luís
como Brasília e como França ao mesmo tempo, em uma clara referência às duas
condições que o PD/74 trouxera para São Luís: a conservação da cidade antiga e
uma nova cidade, construída nos moldes modernistas.
Divulgava-se como ponta de lança desta iniciativa o projeto de urbanização
da Ponta d’Areia, que, lembrando o projeto de Mesquita, tratava de organizar a
ocupação da região, em superquadras. Demandou a desapropriação das terras e
indenizações aos proprietários.
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3
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Figura 10: Ocupação Gleba Rio-Anil e Projeto de Urbanização da Ponta d’Areia no Plano Diretor 1974
Fonte: Prefeitura de São Luís, 1975. Mapa Plano Diretor de 1974, modificado pela autora.
1. O loteamento previsto para a urbanização da Ponta d’Areia.
2. O Igarapé da Jansen e as áreas de mangue antes da formação da Lagoa da Jansen.
3. A avenida proposta terá outra conformação depois da formação da Lagoa da Jansen. Será
construída em volta da Lagoa não existindo também a rotatória que aparece neste mapa.
4. Avenida Colares Moreira- construída como no mapa
5. Loteamento IPEM –Calhau
6. Avenida Tupinambás – prolongamento da Estrada MA 53, que era a Estrada Olho d’Água-
Calhau – São Francisco, depois renomeada Avenida dos Holandeses.
7. Ligação São Francisco-Ponta d’Areia.
8. Área do Sítio Santa Eulália - terceira ponte sobre o Rio Anil – Ponte Bandeira Tribuzi.
9. Conjunto Residencial São Francisco
10. Conjunto Residencial Renascença
11. Conjunto Residencial BASA
12. Centro de Bairro do São Francisco.
13. Terras do Estado – compradas da Fábrica Camboa.

O projeto era detalhado pela Prefeitura da seguinte maneira:


Basicamente, a área foi fracionada em três zonas paralelas à praia. A
primeira, ligada diretamente à praia, podendo aí se localizar apenas
restaurantes e bares em regime de arrendamento, devendo cada uma
dessas unidades ocupar-se da manutenção dos jardins e da conservação
da área. Ainda nesta zona estarão situadas as grandes áreas de
estacionamento de automóveis.
93

A zona seguinte é uma faixa de 120 m de largura, situada entre a primeira e


a avenida de acesso à área. É composta de vias de acesso, de
estacionamentos, de grandes quadras destinadas à construção de blocos
de edifícios residenciais sobre pilotis, em regime de condomínio e com
gabarito limitado, permitindo-se a utilização de apenas 20% do terreno.
Assim, assegura-se suficiente espaço livre para o lazer, o sol e a ventilação.
A última prevê a construção de residências com até dois pavimentos e a
instalação dos equipamentos indispensáveis à sua autonomia.
(PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1975).

Esta estratégia tira do campo do natural o surgimento dos novos bairros como
era colocado no discurso da Prefeitura. Nem a extensa malha viária fora construída
sem uma intenção precisa e determinada.

3.2.3 A Cidade Histórica é Considerada Inadequada para os Modos de Viver


Modernos

Ao lado deste projeto, o centro de São Luís, ou melhor, a cidade existente era
apresentada no texto de propaganda (e no plano diretor) como inadequada para os
novos tempos. Em primeiro lugar, a representação construída ao longo do texto é
que uma cidade moderna preparada para o desenvolvimento deve ser dotada de
uma infraestrutura viária que permita a circulação livre e rápida.
Este discurso tem uma repercussão que ultrapassa o problema da circulação.
Resgata, no imaginário popular a conexão com o mundo exterior que havia sido
perdida. Não haveria desenvolvimento possível sem que se rompesse o isolamento
de São Luís, sem que se tirasse São Luís do fim da linha, do sono letárgico. Dentro
da Ilha, transpondo este discurso para o espaço urbano, uma boa cidade devia ter
vias expressas, pontes, viadutos, para permitir a comunicação livre, fácil entre seus
bairros. Que permitia, além disso, duas coisas fundamentais: o crescimento ilimitado,
como dizia Mesquita (1958) e o investimento de capital, mantendo sempre acesa a
chama de uma indústria da construção civil. Um terceiro aspecto ainda deve ser
salientado: fazer obras, em geral, promove o seu autor, o Estado ou a prefeitura,
lembrando que na época, os dois estavam sempre necessariamente politicamente
alinhados. Não se pode esquecer que mesmo nos momentos mais “duros”, o
governo buscava a aprovação da população para suas ações, as eleições para o
legislativo buscando o referendo popular para as ações autoritárias.
Então, não bastava apenas construir a malha viária, ela tinha que ser
construída de uma maneira específica, que pudesse permitir o mais avançado meio
94

de transporte vencer rapidamente todas as distâncias. O automóvel como objeto de


desejo de consumo e símbolo de uma sociedade moderna.
A cidade existente foi apresentada como inadequada em primeiro lugar por
não ter uma supostamente adequada malha viária.

Edificado em obediência à arquitetura portuguesa cuja preocupação maior


era a defesa, o núcleo central de São Luís, eminentemente dessa fase
colonial, - século XVIII – conserva as suas ruas mais estreitas de casas e
sobrados geminados, inadaptadas aos meios de transporte de hoje.
(PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1975).

Note-se que ainda não é centro histórico, mas núcleo central. São
inadequadas as ruas estreitas para os meios de transporte atuais, o automóvel e
obviamente os transportes coletivos adotados dentro da mesma perspectiva: os
ônibus. Fica a questão, a menção às casas e sobrados geminados tinha apenas o
sentido de caracterização da tipologia do centro ou já aqui tem o sentido de
apresentar também como inadequadas as casas sem ventilação e insalubres?
Na verdade, as casas poderiam ser adaptadas para o uso moderno, este
poderia ser o discurso. Além disso, muitas delas eram verdadeiras mansões que
dificilmente poderiam ser condenadas ao abandono ou à demolição pelo simples
fato de que seus donos, ligados ao bloco hegemônico no poder, não permitiriam. A
malha viária não. Esta representação é definitiva para a cidade existente. E se foi
usada conscientemente ou não, não tem nenhuma relevância maior.
Não adiantaria a simples reforma das edificações. Não seria possível construir
em altura porque não seria possível o uso de automóveis porque, simplesmente, ou
os automóveis não caberiam nas ruas ou uma maior quantidade deles geraria
congestionamentos inevitáveis. É um argumento muito forte para que os chamados
novos modos de viver, materializados nos novos modos de morar fora da cidade
antiga sejam muito mais valorizados.
Não foi outra a preocupação de Giovannoni (1995) quando apresentava
como proposta a manutenção dos núcleos antigos com função residencial. Já na
primeira metade do século XX, era possível prever que o automóvel seria usado e a
maneira de minimizar os problemas seria colocar menos automóveis nestes núcleos
antigos de forma a manter o seu ritmo tranquilo.
Por outro lado, o automóvel, ou o transporte viário coletivo, como os ônibus,
eram o máximo de modernidade e os meios coletivos desejáveis de locomoção.
95

Estes deveriam ser usados e todas as propostas que diziam facilitar este uso eram
muito bem recebidas.
A solução se apresentava cuidadosamente junto com a perspectiva de
proteção do patrimônio histórico. O anel viário resolveria o problema.

Para atender ao tráfego crescente, sem perder de vista a proteção desse


núcleo colonial que é o mais importante do Brasil pela sua extensão e
homogeneidade, projetou-se um sistema viário com sucessivos anéis para
escoamento rápido e penetração em todos os bairros da cidade.
(PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1975).

Todos os bairros eram na verdade os novos bairros que nasciam depois de


inaugurada a ponte do São Francisco e os sítios ocupados além da Barragem do
Bacanga, incluindo aqui a universidade e o pretendido distrito industrial.

Um anel de contorno do núcleo central emoldura por completo essa área


histórica, e dá vazão ao tráfego para os outros anéis que dela partem. Com
isso torna-se possível um acesso rápido ao porto de Itaqui e sua
interligação com a área onde se implanta o 1º Distrito Industrial de São Luís,
através de uma via expressa, a Presidente Médici. O ramal ferroviário que
agora penetra na área urbana, será desviado para um terminal a ser
construído no Distrito Industrial, aproveitando-se o antigo leito da estrada de
ferro para integrá-lo nesse sistema. (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1975).

O anel viário enclausura a cidade histórica, assumindo desta maneira todo o


simbolismo da própria modernização ao personificar a moldura da cidade histórica.
Por outro lado, o sistema foi desenhado para garantir o acesso rápido,
especialmente a ligação da área industrial, do Porto de Itaqui, da área Itaqui-
Bacanga e da recém-criada Universidade Federal do Maranhão (UFMA), um
percurso que apresentava um alto potencial de utilização pela classe média que se
instalaria nos bairros residenciais de alta renda.
Deste modo, a iniciativa de proteção do acervo histórico continha, não apenas
como consequência, mas como intenção, propiciar o acesso interno entre as
diversas partes da cidade nova sem a necessidade de passar pelo centro.
A proposta do anel protetor acompanha de perto a bem conhecida solução
para harmonizar a modernização de Viena com a cidade tradicional ainda no século
XIX. Usada em Amsterdã e em Paris já no século XX, apenas para citar alguns
exemplos. Desta maneira, foi uma solução aceita plenamente, também sob o ponto
de vista da conservação e valorização do patrimônio histórico.
Por outro lado, não é novidade nem prerrogativa do urbano a opção pelo
isolamento do diferente, do frágil, do que apresenta necessidades de cuidados
especiais, com o sentido de protegê-lo. O debate sobre esta opção é igualmente
96

acirrado em várias disciplinas que, como aqui, questionam a decisão de promover o


isolamento com o intuito de proteção, exatamente porque o isolamento dificulta a
integração entre o protegido e o mundo que o rodeia.
Especialmente no momento em que aconteciam mudanças profundas, como
muito bem já pontuou Souza (1999), na lógica de produção do espaço urbano. Para
a ruptura pretendida, ou para a dualidade cidade histórica/cidade moderna proposta
pelo plano, o isolamento do centro era apresentado e defendido como natural. Tanto
do ponto de vista do urbanismo que resolveu o problema de transitar entre as duas
novas áreas urbanas criadas, de um lado e do outro do centro, como também do
ponto de vista da proteção do patrimônio que via a oportunidade de não ter que lidar
com o desgaste do tráfego pesado gerado pelo transporte público coletivo ou pelo
abastecimento do comércio, na proximidade da área tombada.
Justamente porque se sabia que o isolamento radical do transporte golpearia
o centro em suas funções (neste momento é bom lembrar a extensão do centro
enclausurado pelo anel viário), o plano oferecia solução alternativa de transporte
para dentro do anel que o cercava:

O sistema viário oferece um suporte ao futuro transporte de massa que terá


seus terminais na periferia do núcleo central, o qual será atingido em micro-
ônibus. E grandes áreas para estacionamento serão delimitadas na
periferia, procurando devolver-se o máximo possível a rua ao pedestre.
(PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1975).

No entanto, a prioridade dos novos acessos se impôs com força. Na prática,


estacionamentos e sistema de micro-ônibus nunca foram implantados. No próprio
texto volta-se a reafirmar não o acesso ao centro em si, mas a facilidade do acesso
às praias, aos novos bairros, ou seja a facilidade de ligação entre eles. O parágrafo
seguinte que explica como vai se consolidar o acesso ao “miolo” do centro
esclarece:

Para isso, uma nova ponte está em fase de execução – ligando o anel viário
às praias, por uma nova via estrutural. Assim, muitos novos bairros
começam a surgir em locais mais distantes do centro, graças às facilidades
de acesso já existentes. Com efeito, o início dos trabalhos de abertura das
novas avenidas e ruas que compõem o sistema viário implica numa serie de
providências paralelas e complementares de infra-estrutura (sic), o que
possibilita essa expansão da cidade (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1975).

A ênfase continua exatamente no quanto a expansão da cidade e as novas


formas de viver se beneficiariam da construção desse sistema viário, particularmente
do anel viário em torno do centro. A cidade histórica estava imersa em uma lógica
97

que, desde o primeiro momento, em nome de “devolver o centro aos pedestres”,


revelava a sua opção para o uso do transporte individual, para que se vendessem os
automóveis e para que, definitivamente, as pessoas se instalassem no novo habitat,
nas novas áreas residenciais, alcançáveis pelas modernas vias expressas.
Retirado o transporte coletivo das ruas estreitas o centro foi entregue não aos
pedestres, mas aos automóveis, como seria de se esperar justamente por ter se
ampliado o uso coletivo do centro com o incentivo da substituição do uso residencial
pelo comercial. Com isto, os pedestres passam a disputar o espaço das calçadas
que foram muitas vezes destruídas para facilitar o estacionamento e a passagem de
veículos, medidas que significavam a pretendida adaptação da cidade de outra
época aos tempos modernos e aos carros que aumentam em profusão. Os
moradores enfrentam mais dissabores ainda, pois além do movimento mais intenso
debaixo de suas janelas, as ruas ficam repletas de veículos, impedindo os seus
próprios de estacionarem na proximidade de suas casas.
Ao mesmo tempo, a ênfase na facilidade do acesso às praias, faz com que
esta proximidade com a praia seja apresentada como uma das maiores vantagens,
se não a maior, que as mudanças propostas poderiam trazer para a população.
Construía-se a representação de que, nas capitais litorâneas, os bairros próximos às
praias constituíam os bairros de maior prestígio.
O movimento de “conquista das praias”, ou sua urbanização era proposto
para as cidades nordestinas que ainda não tinham a sua beira-mar residencial, ou
ainda não a exploravam como turismo. Assim, também como objeto de turismo, o
núcleo histórico dividia a atenção com as praias, as paisagens paradisíacas do
nosso país tropical. Situação de divisão de interesses que sempre vai se colocar na
hora da decisão dos investimentos para o centro histórico.
Na propaganda oficial, ufanista na década de 1970, “as praias do Brasil
ensolaradas que a mão de Deus abençoou” 19 de nosso país tropical, haviam se
tornado a principal atração, juntamente com o carnaval, da política de incentivo ao
turismo nacional, que se abria ao estrangeiro.

Abrangente, o Plano Diretor tem também o cuidado de atentar para o


desenvolvimento da florescente indústria do turismo valorizando as áreas de
atração natural, como é o caso das praias e estimulando o surgimento de
outras formas de entretenimento e lazer. Nesse aspecto, é importante

19
Música “hino” da ditadura militar com apelo junto à juventude: “Eu Te Amo, Meu Brasil” de autoria
de Don e Ravel gravada pelos “Os Incríveis”.
98

destacar a preservação e conservação do acervo histórico e colonial de São


Luís, patrimônio que se incorpora definitivamente à tradição de cultura do
seu povo. (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1975).

Para o turismo acenava-se com incentivos como a construção de grandes


hotéis ou complexos hoteleiros na beira-mar, como o Tambaú em João Pessoa.
Para São Luís, a promessa da construção de um hotel, parceria Varig/Quatro-Rodas
na Ponta d’Areia que vai se concretizar anos mais tarde como o Hotel Quatro Rodas,
já em 1976, na Praia do Calhau e não na Ponta d’Areia como originalmente previsto.

3.2.4 A Cidade Moderna

Enquanto se associava o histórico ao velho, obsoleto e inadequado, se


apresentavam os novos modos de morar com grande destaque:

A divisão da cidade em zonas definidas estabeleceu normas de


disciplinamento quanto à ocupação dos respectivos espaços, identificando
as tendências de crescimento urbano, corrigindo essas tendências quando
comprometedoras do interesse paisagístico ou público tornando possível
enfim o ordenamento integrado do crescimento do município. De tal modo
que o espectro da poluição, afastado das áreas residenciais, foi reduzido às
mínimas proporções. (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1975).

Assim, preparar a cidade para o desenvolvimento para a modernidade, de


forma racional é também construir áreas residenciais isoladas do centro
congestionado e da poluição.
É preciso fazer um parêntese para lembrar que a tipologia específica da
arquitetura colonial presente no centro de São Luís, a porta-e-janela funcionando
como um módulo direcionando os outros tipos, esta tipologia proporcionou não
apenas uma diversidade formal, mas também a diversidade social, as portas-e-
janelas ao lado dos casarões, das moradas inteiras, dos sobrados e dos solares.
Tanto a tipologia física como também a constituição social estavam presentes na
década de 1970, como, aliás, até hoje embora agora bastante debilitada.
Esta era a configuração negada ao se propor construir áreas residenciais
isoladas do centro e não apenas isoladas, mas separadas por faixas de renda
específica. Esta divisão era a essência da estratégia do plano. Havia que se dividir
em áreas homogêneas para se resguardar o valor das terras da orla litorânea.
O plano, fiel ao padrão tecnocrático baseia-se em estudos estatísticos e
projeções. A síntese disto é uma divisão territorial em duas categorias: residencial e
centros de emprego. Estes últimos divididos em centros de emprego orientados para
99

serviços (centros de bairro, zona central e turismo) e orientados para a indústria.


Mora-se, trabalha-se, circula-se. Em zonas separadas a princípio, mas seguindo o
princípio da descentralização, a cada zona residencial ou grupos de zona, deveria
corresponder um centro de emprego. Alguns já existiam e estavam consolidados,
outros deveriam se estruturar.
Os centros de emprego eram os da cidade existente: o centro da cidade
propriamente dito e os bairros próximos a ele, o Monte Castelo, o João Paulo, o
Bairro de Fátima e o Anil. Estes bairros apresentavam na época uma ainda grande
diversidade sendo, ao mesmo tempo, centros de emprego e áreas residenciais.
Acrescentavam-se os centros próximos ao Porto de Itaqui e do aeroporto do
Tirirical, as duas zonas que configuravam o distrito industrial de São Luís. Estas
seriam as áreas destinadas à construção de conjuntos populares. O primeiro, o Anjo
da Guarda, do outro lado da Barragem do Bacanga, construído para abrigar os
moradores da periferia do próprio centro, para dar lugar à construção do Anel Viário.
Dois centros de bairro eram propostos para o turismo: a Ponta d’Areia e o
Olho d’Água. Onde se recomendava o crescimento nos próximos anos e esperava-
se a migração da população de renda mais alta. Deveriam ser fortalecidos os
centros já existentes, com exceção da área central, os centros destinados ao turismo
e centros próximos aos distritos industriais.

Figura 11: Zoneamento proposto pelo Plano Diretor de 1974.


Fonte: Prefeitura de São Luís, 1975. Modificado pela autora.
100

1
5

3 2

4
Figura 12: Detalhe Zonas Residenciais e Centros de Bairros.
Fonte: Mapa do Plano Diretor de 1974, Prefeitura de São Luís, 1975. Modificado pela autora
Centros de Bairro:
1. Monte Castelo
2. João Paulo
3. Bairro de Fátima
4. Anil
5. Zona Residencial ZR6
Havia uma questão, porém, que deveria ser levada em consideração: o nível
de renda da população. O Plano Diretor se guiava pelos dados de 1969 nos quais a
população se dividia predominantemente em classe baixa (67%) e classe média
(29,1%) a classe alta constituindo apenas 3,9%. A ideia era promover o
adensamento das áreas residenciais que constituíam os bairros próximos aos
centros de emprego, visando minimizar as distâncias de viagem de trabalho e os
custos de transporte, porém os lotes deveriam ser pequenos para poder se adequar
aos níveis de renda existente. Os níveis de renda dos consumidores, bem
entendido, palavra usada pelo Plano Diretor. Não são moradores, não são
habitantes, são consumidores e aqui se explicita mais uma vez a concepção do
plano no qual a cidade é local de consumo no sentido que Lefebvre coloca (2008).
A intenção é o planejamento espacial no sentido de fazer aumentar e de
facilitar o consumo, para promoção do desenvolvimento. Com isto apresentava-se
uma prioridade de ocupação de zonas residenciais baseada em:
a) Fácil acesso a um ou mais centros de emprego, já que a localização
dos empregos influencia a localização das populações de renda média e
baixa.
b) Disponibilidade de espaços facilmente urbanizáveis, ou seja,
existência de áreas cuja ocupação não envolva obras de terraplanagem e
controle de marés
c) Presença de densidades brutas e residenciais que indiquem a
viabilidade e a intensidade provável do crescimento futuro.
(PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1977, p. 15)
101

São as áreas urbanizáveis e de densidades bastante baixas, assim como a


grande acessibilidade (fácil acesso à siderúrgica, à zona industrial e ao centro) que
tornam o crescimento habitacional na zona residencial ZR 5 o mais indicado.
A outra zona prioritária era a ZR6, exatamente a área que a prefeitura
reservara para a solução dos problemas das palafitas, que, apesar de apresentar
poucas áreas urbanizáveis e densidades altas possuía:

características adequadas à localização de certo tipo de populações


(acessibilidade máxima ao centro, proximidade de serviços) que tenham
necessidade de espaço menor do que as de famílias numerosas. Estes
fatores, aliados a uma certa disponibilidade de terras (8.3 ha) e ao seu
caráter transicional justificam a intensificação do uso residencial nesta área.
(PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1977, p.15).

Como resultado são áreas residenciais prioritárias as ZR5 e ZR-6.


A oferta da terra para futura expansão não constitui problema nessas zonas,
em virtude da existência de diversas áreas vazias principalmente nas
proximidades do bairro do Anil, cuja ocupação não apresenta problemas.
Além disso, as áreas periodicamente inundáveis na margem direita do
Bacanga tornaram-se passíveis de urbanização com a construção da
barragem neste rio. (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1977, p. 15).

1
4

Figura13: Zonas Residenciais e Especiais do Centro.


Fonte: Prefeitura de São Luís, 1975. Adaptado pela autora
1 Zona Residencial 3
2 Zona Especial 2 – Zona de interesse paisagístico contígua ao Rio Anil
3 Zona Especial 3 – Zona de interesse histórico com uso residencial predominante
4 Zona Especial 4 – Zona de interesse histórico com uso comercial predominante
102

Nas demais zonas residenciais da cidade a presença de um ou mais dos


seguintes fatores tornaria seu crescimento oneroso, tanto do ponto de vista
econômico como social:
a) Densidades altas: ZR3 e ZE 2
b) Malha urbana inadequada: ZR 3 e ZE 2
c) Problemas de conservação do meio ambiente: ZE 1 e ZR2
d) Distância: ZR 1 e ZE-1
e) Problema de conservação do patrimônio histórico: ZE2 ZR 3

Estas diretrizes atestam que, embora se coloque no mesmo plano a


conservação do patrimônio histórico, esta conservação é considerada um problema
para o uso residencial, porque tornaria o crescimento deste uso oneroso, tanto do
ponto de vista econômico como social. Não se explica o porquê, no entanto.
Poder-se-ia dizer que o que está sendo colocado é a questão do “aumento”
da população residente que o centro não tinha capacidade de absorver por não ter
imóveis disponíveis. No entanto, se reconhece a existência de imóveis vazios
abandonados, mais propriamente localizados na Praia Grande, que, diga-se de
passagem, ainda conservava o uso residencial, ainda apresentando certa
diversidade e não apenas na área do Desterro. Mais que isto, o capítulo do PD/74
dedicado à proteção do patrimônio histórico considerava o uso residencial muito
menos prejudicial à conservação das suas características históricas.
Sendo assim, colocar como inadequado o uso residencial no centro não
poderia ter como justificativa a questão do prejuízo ao patrimônio. Recomendar o
não crescimento do uso residencial por conta do problema da conservação só
ratifica a visão que nega a capacidade da cidade histórica de ser capaz de funcionar
como cidade moderna. E a saída do uso residencial do centro para as novas áreas.
Outra questão que se revela é a própria duplicidade (e neste caso
duplicidade significa separação) dos diferentes “planos” que compõem o Plano
Diretor e se apresentam como capítulos. Entre conservação e uso da terra, entre o
plano que trata do zoneamento e o que trata da conservação. Neste sentido
específico, esta é uma prática que não é nem exclusividade nem vai se acabar no
próprio plano e continua na maneira como se trata a cidade e a conservação na
prática do planejamento, do projeto e da gestão urbana em São Luís.
Porém, não são apenas os temas da conservação e do zoneamento que
entram em contradição. Quando se trata das zonas distantes, a contradição é com o
103

plano de transportes, que contradiz as diretrizes de crescimento principalmente ao


proclamar que:

as recentes modificações nas condições físicas da cidade, com a abertura


da ponte do Anil e da Barragem do Bacanga, assim como o impacto
econômico esperado em função do terminal de minérios e da implantação
de novas indústrias, invalidam as tendências históricas observadas até aqui
na área urbana de São Luís (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1977,p.16).

Afirmava-se que os Bairros de Monte Castelo, João Paulo, Anil e São


Francisco, já bastante povoados, provavelmente cresceriam mais lentamente. E
anunciava-se um grande desenvolvimento nos próximos anos em áreas
“praticamente desabitadas tais como Ponta d’Areia, Calhau, Tirirical, Olho d’Água”.
Pode-se pensar que, neste caso, a previsão seria o desejo disfarçado. O desejo de
ocupação da orla disfarçado de previsão também é uma tentativa de naturalização
do processo.
Portanto, se o plano racionalmente, como dizia o texto, apresentava
propostas de ocupação das áreas próximas à cidade existente, das áreas já
urbanizadas, que contavam com serviços e infraestrutura urbana, ele também
incentivava a ocupação de áreas praticamente desabitadas. O que faz todo sentido
do ponto de vista do estímulo de ocupação das praias e da operação de aplicação
dos lucros das vendas dos terrenos nas áreas nobres nas zonas populares.
Havia ainda o incentivo concreto do estímulo à construção das avenidas de
trânsito rápido como foram chamados os eixos viários estruturantes do
desenvolvimento tanto no plano como nos convênios assinados. A denominação não
apenas indicando a intenção da forma, mas trazendo um significado que
ultrapassava o simbolismo da modernidade fazendo acreditar que a distância não
seria um problema por conta da rapidez com que se poderia circular pela cidade.
O zoneamento e principalmente, a construção das novas avenidas e das
infraestruturas, orientaram, canalizaram, a urbanização da cidade moderna para as
novas áreas. A produção dos conjuntos habitacionais fez o resto.
A cidade se dispersou pelo novo território, parecendo cumprir o que previra
Mesquita, (1958) quando afirmava que a combinação da extensa malha viária que
se construía (ou se apresentava como proposta) em São Luís e a ocupação das
faixas de terra entre o rio e o mar tinha a propriedade de tornar este modelo de
ocupação ilimitado. A imagem é perfeita para exemplificar a cidade sem fim, a
cidade esgarçada e espalhada, a cidade dispersa que se produziu.
104

E ainda parece ser justificada no texto intitulado “Os cuidados com o plano”:

O Objetivo do Plano Diretor de uma cidade é racionalizar a ocupação de


seu espaço físico. No caso de São Luís isso não somente foi feito
respeitando a técnica mais atualizada como se avançou criativamente na
sua elaboração.
Por outro lado, levou-se em consideração a necessidade de tornar o plano
suficientemente flexível, a ponto de permitir as correções e modificações
impostas ao correr do tempo pelo dinamismo da vida moderna. O Plano
diretor de São Luís, portanto, não é estático, mas vivo e organicamente
saudável. É uma estratégia da qual decorrem as táticas de implantação do
sistema viário – transporte futuro de massas – equipamento comunitário –
educação – saúde, segurança, lazer, em função dos grandes projetos e da
vocação econômica do Estado e da Cidade. (PREFEITURA DE SÃO LUÍS,
1975).

Se atentarmos que os textos são de uma publicação de propaganda do plano,


estes parágrafos se inserem como antecipação de respostas aos possíveis
questionamentos de uma sociedade que, acostumada com uma organização de
cidade com uma estrutura espacial definida segunda a lógica de continuidade, se
deparava então com uma lógica inteiramente diferente, de produção de pedaços de
cidade, da urbanização dispersa que se implantaria daí por diante.

3.2.5 A Cidade Histórica

3.2.5.1 O Centro

Neste quadro o centro, ou melhor, a área central era analisada de forma


especial. Em primeiro lugar era a cidade colonial. Por isso era tratada como cidade
histórica. O Centro era mais, porém. O Centro era ainda a maior concentração de
empregos: 10.529 de 12.872, o que implicava em 82% do total de toda a cidade. O
comércio era a grande força econômica, concentrada no centro da cidade. Além
disso, os números apresentados apontavam para aproximadamente um quarto da
população residindo no centro. O centro era o centro de empregos, o centro de
negócios, o centro administrativo. E a maior e ainda a mais prestigiosa área
residencial.
No entanto, por estas características, em vez de adensamento, propunha-se o
congelamento. O crescimento zero nas décadas seguintes. A intenção não pode ser
mais clara: retirar o uso residencial da cidade antiga, que se transformava em
histórica, enquanto se promovia o desenvolvimento das novas áreas residenciais.
Ao mesmo tempo, na leitura apresentada pelo plano, o centro, mesmo como
centro comercial, estava totalmente ocupado, sem terrenos vazios. Se tivesse que
105

ocorrer o crescimento, este teria que ser mediante a “reconstrução” e a “expansão


vertical”, resultando “valores para densidades brutas e fluxos de veículos superiores
aos atualmente existentes” (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1977, p.10).
Desaconselhava-se seu adensamento, quase nos mesmos termos que
Mesquita (1958) o fizera: a densidade alta e o fluxo de veículos, que gerava muitos
congestionamentos e número grande de acidentes eram considerados não
adequados à malha urbana colonial. Mais uma vez coloca-se como questão central
a inadequação da malha urbana.

A alternativa de adaptar a malha urbana a maiores densidades implica a


adaptação da infraestrutura, relocações, intensificação temporária dos
congestionamentos e destruição de edificações históricas.
Consequentemente, os custos econômicos e sociais associados com esta
alternativa excedem, em muito, os benefícios das possíveis economias de
aglomeração implícitas nesta abordagem (PREFEITURA DE SÃO LUÍS,
1977, p.11).

Tampouco a descentralização era recomendada porque se considerava que:


d) O caráter das relações comerciais e profissionais é ainda informal,
exigindo contatos pessoais e frequentes.
e) A maior parte das firmas de São Luís atua segundo escala pequena e
média, sendo, portanto, vulnerável à redução de afluxo implícita em políticas
de descentralização (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1977, p11).

Em primeiro lugar é preciso ler nestas entrelinhas. Para o comércio,


localização é fundamental. A tradição da localização é fundamental. Descentralizar,
do jeito que era proposto como estratégia para as áreas residenciais implicava em
desconstruir esta tradição. E isto, a maior força econômica da cidade (depois do
Estado, bem entendido) não poderia aceitar. Na verdade, não havia concentração
nem de pessoas, nem de riquezas em outras partes da cidade que justificassem, ou
mesmo permitissem, a mudança das atividades comerciais tradicionais já
plenamente conhecidas e estruturadas, no centro.
Deste modo, para a expansão do comércio duas soluções foram
apresentadas. A primeira foi a criação de “uma nova área central” que era
simplesmente a expansão da área comercial existente para a proximidade imediata.
Esta era uma área onde ainda, segundo o Plano Diretor, “podia ser observado algum
poder de expansão e características históricas menos acentuadas”.
A segunda solução foi a adoção de controles flexíveis em relação ao uso
comercial em praticamente todas as zonas da cidade, deixando abertas as
possibilidades de uma descentralização futura.
106

Certamente, não estava descartada a possibilidade de crescimento do setor


comercial nos tempos que viriam. O crescimento econômico atrairia novos
empreendimentos para outras áreas. Os controles são estabelecidos seguindo
critérios de flexibilidade inversamente proporcionais aos níveis de renda dos futuros
moradores: quanto mais alta a renda mais rígido o controle dos usos, quanto mais
baixa, mais flexível. Deste modo o zoneamento cumpre a função de proteger e
induzir o valor da terra. E com isto induzir também o uso desejado. O centro não
foge desta regra.
Na verdade, a descentralização era a proposta central e mais geral do
Plano Diretor. A exceção era admitir a não descentralização do comércio da área
central, do comércio existente. Que não surpreende do ponto de vista da
representação dominante do centro como centro comercial, administrativo e de
serviços. O centro onde a classe com maior poder aquisitivo não tem interesse em
permanecer, mas que tem interesse em manter a seu serviço.
No imaginário da provinciana São Luís, tratando-se aqui da cidade como sua
população, se fazia troça da ausência, ao tempo que se ansiava pela presença, dos
grandes magazines do sul do país, que ainda não haviam chegado. Imaginava-se
que, com a retomada econômica esta situação se modificaria. As grandes lojas
teriam que se instalar na Rua Grande, a tradicional rua do comércio. E se
instalaram. Uma terceira solução, embora não expressa no PD/74 funcionou muito
bem: avançar com o uso comercial sobre o uso residencial congelado. A
identificação de uma área com uso predominantemente residencial não se fazia
acompanhar da recomendação de não permitir naquela zona outro uso que não
fosse residencial. Pelo contrário. Durante anos, mesmo até hoje, o valor da
propriedade do centro é alto, justamente nas áreas que interessam ao comércio.
Na prática, a cidade que se desenhava a partir do PD/74 era uma cidade com
suas áreas residenciais afastadas do centro, localizadas no novo território
conquistado.
A descentralização, ou melhor, a desconcentração era das áreas residenciais,
beneficiando o mercado imobiliário, fazendo crescer uma nova força econômica que
era a indústria da construção civil. O centro congestionado seria transformado em
centro comercial e em centro cívico. A cidade existente colonial como cidade
histórica poderia ser aproveitada para o turismo e complementada com as funções
administrativas e culturais.
107

3.2.5.2 Valorizar e Preservar a Cidade Colonial

A representação de São Luís como cidade histórica e atração turística vinha


sendo construída desde a visita da missão da Unesco na década de 1960. São Luís
não tem uma arquitetura monumental religiosa como a Bahia ou as cidades
mineiras. Não tem uma arquitetura monumental de palácios. Não tem a assinatura
de grandes mestres. A força do seu patrimônio cultural está no conjunto, no seu
traçado urbano e na arquitetura vernácula. Deste modo, a missão de Parent
primeiro, em 1966, e a de Viana de Lima depois, em 1972, foram de importância
fundamental porque reconheceram justamente este valor, o valor do sítio histórico.
Parent reconhecera não apenas o valor, mas a permanência deste patrimônio
em seu relatório Protection et mise en valeur du patrimoine culturel brésilien dans le
cadre du développement touristique et économique – Proteção e valorização do
patrimônio cultural brasileiro no âmbito do desenvolvimento turístico e econômico
(LEAL, 2008, p. 108-113). Bom ressaltar que o tom do relatório, nem precisava ir
além do título para entender, era abordar o patrimônio cultural brasileiro no contexto
da promoção do desenvolvimento nacional. À preocupação inicial de que o ímpeto
desenvolvimentista destruísse o patrimônio cultural acrescentou-se a visão da
oportunidade, que o turismo representava para o aproveitamento do patrimônio no
desenvolvimento. Seria o turismo com foco nas cidades de arte, o turismo de arte.
Para São Luís isto significava ser reconhecida como uma cidade de arte, que
devia desenvolver o turismo de arte. A concepção do espaço como lugar de
consumo, no sentido que Lefebvre (1991) coloca, começava a se construir.
Como o turismo teria que se apoiar na qualidade e na multiplicidade dos bens
culturais e naturais, este fato por si só já ditava as linhas de ação que interessavam
à conservação do patrimônio. Se o turismo se aproveitava do patrimônio, a
conservação se aproveitava do turismo para fazer implantar as medidas necessárias
à sua proteção, tais como inventários, medidas administrativas, dotação de recursos
financeiros para manutenção, restauração e mesmo animação desse patrimônio
construído. A contrapartida deveria ser a construção da infraestrutura necessária
para que este patrimônio pudesse ser visitado, pudesse ser conhecido pelos
visitantes, que se esperava fossem ser cada vez mais numerosos. Ou seja: as
estradas e a construção da infraestrutura das cidades históricas e artísticas, que
pertencia ao campo do desejado desenvolvimento em movimento no País.
108

Deste modo tratava-se a dualidade modernização e conservação. O relatório


de Parent reconhecia o desgaste no patrimônio cultural, que deveria ser contido.
principalmente porque ele reconhecia na permanência do patrimônio a relação com
as culturas tradicionais e a contradição entre esta permanência e a aspiração às
inovações, a uma cultura do século XX, como ele chamava. Por isso, recomendava
cuidados. Para que tarefa da conservação fosse significativa devia estar inserida em
obra mais ampla de revelação do Brasil para si próprio, na qual

Pelo mesmo movimento que geraria seu desenvolvimento econômico, ele


poderia descobrir sua verdade específica poderia ser chamado, graças à
vitalidade de sua cultura e à exuberância de sua natureza, a propor ao
mundo novos modos, novos caminhos de vida. (PARENT, 2008, p.45).

Com esta colocação Parent trata poeticamente da dualidade conservar e


modernizar, mas também contempla o aspecto que o governo federal tratava com
prioridade: o desenvolvimento econômico, descobrindo e mostrando para o mundo,
os seus valores culturais, mediante o turismo. Como consequência desta posição é
possível ver crescer uma representação de que a salvaguarda do patrimônio cultural
brasileiro passava obrigatoriamente pela transformação econômica do país inteiro.
Deste ponto de vista o turismo e o patrimônio eram convidados a interagir. O
turismo, como uma das fontes do futuro desenvolvimento da renda nacional, era
também um álibi econômico para os esforços de salvaguarda do próprio patrimônio.
Entretanto, o turismo, advertia Parent, não poderia sozinho dar conta da
proteção do patrimônio, podendo, inclusive, ao criar efeitos de fachada, agravar a
destruição dos interiores. Desta forma era fundamental fazer com que o patrimônio
mantivesse, na cidade contemporânea, um uso diferente do turismo, mais cotidiano.
Nesta discussão levanta-se um ponto fundamental: as normas e diretrizes
daquele momento, pós Carta de Veneza já colocavam que a noção de proteção
podia se referir tanto ao espaço amplo de um sítio, quanto ao de um monumento em
particular. Na prática, a noção de sítio se referia essencialmente a áreas naturais. A
própria salvaguarda dos monumentos conservou durante muito tempo um caráter
pontual, tratando-se principalmente dos monumentos isolados. Parent (2008)
destacava a necessidade de um tombamento mais amplo, um tombamento global,
extensivo, como resposta a esta defasagem nas políticas de conservação e fazia
notar que o Patrimônio parecia hesitar em adotar este instrumento. Este ponto vai
ser uma questão que vai incidir diretamente sobre São Luís, especialmente porque
109

sendo o patrimônio composto de arquitetura vernácula, seria fundamental tratá-lo de


forma mais ampla, como cidade e não como grupos de monumentos isolados.
Parecia a Parent (2008, p.64) que o Patrimônio nacional tinha medo (e esta
parece ser uma questão ainda não totalmente resolvida) de submergir frente às
tarefas decorrentes de uma política mais extensiva de tombamento. Por exemplo, o
medo da possibilidade de inclusão de elementos medíocres, como por exemplo,
casas sem as características de monumentos que, ao serem modificadas, pudessem
ser usadas como álibis e precedentes para as modificações indesejadas daqueles
imóveis considerados verdadeiramente patrimônio. Isto só confirma a representação
de que o sítio histórico era (é ainda, sob muitos aspectos) visto como a soma dos
muitos edifícios presentes, ou seja, uma visão centrada no monumento individual.
Parent avaliava que o problema fundamental é que era preciso tombar amplos
conjuntos, sobretudo, com vistas à sua restauração integral. Argumentava ainda,
que em muitos casos e cita especificamente Salvador, “a degradação dá-se por si
mesma em bairros históricos com grande rapidez”.

É necessário tombar para permitir grandes operações de renovação urbana


de caráter social e cultural. Para atingir este objetivo o patrimônio não pode
agir sozinho. É preciso unir esforços aos do BNH, da Embratur, dos
estados, dos serviços de Planejamento Federal e enfim aos da cooperação
internacional (PARENT, 2008,p.64) .

O uso do termo renovação aqui não significava a “destruição criativa”, mas


trazia a intenção (e as recomendações em seu relatório comprovam), da realização
de projetos urbanos que alteravam, no mínimo, a composição social dos sítios
renovados.
De qualquer maneira, com um roteiro no qual eram tombados 70% dos
conjuntos, edificações e sítios que deveria visitar, o estudo de Parent não estava
voltado para a indicação de novos tombamentos. Mesmo assim, defendeu
tombamentos globais e extensivos, para Salvador, Olinda e São Luís.
Dentro desta perspectiva, em cada uma das cidades visitadas o patrimônio
cultural era estudado no quadro do desenvolvimento específico local. Deste modo a
salvaguarda de São Luís integrava-se aos projetos de construção do Porto, da zona
industrial, das pontes e das infraestruturas necessárias que incluíam naturalmente
os acessos à cidade, o aeroporto e a malha viária que eram propostos pelo poder
público, pelo Maranhão Novo de Sarney. A tudo isto Parent se refere no relatório.
Considerava que, desta forma, a função cultural e turística da velha São Luís
110

poderia se afirmar. O turismo era necessariamente a forma de incluir o patrimônio


histórico no desenvolvimento previsto e proposto.
Coerente com sua visão de integração com a vida cotidiana contemporânea,
Parent sugeria a implantação da Universidade do Maranhão cuja criação acontecia
em paralelo, no processo de desenvolvimento de São Luís, para “dar uma aparência
viva, permanente e moderna, à cidade antiga estritamente conservada”. (PARENT,
2008, p.108-113). A esta conversão de uso se associariam os usos administrativo,
comercial e turístico.
Prevista como elemento importante para o desenvolvimento do Estado, a
universidade, porém, já tinha outra área reservada para si, mais próxima da zona
industrial, do outro lado do centro, atravessando o rio Bacanga. O argumento era
que a cidade antiga não tinha condições de receber os laboratórios científicos mais
sofisticados. Como solução: separar as diversas funções universitárias, deixando no
centro as que não entrassem em contradição com as edificações antigas, como
algumas faculdades, especialmente as que já estavam instaladas no centro e as
residências estudantis. A Universidade Federal do Maranhão, criada em 1966,
realmente se instalou do outro lado do Bacanga. Manteve, no entanto, até
recentemente, a Reitoria, funções administrativas, instalações das Faculdades de
Farmácia e Odontologia, além de centros culturais na cidade antiga. Muito devido ao
esforço do escritor Josué Montelo, quando reitor da Universidade.
Em 1972, provavelmente baseado neste relatório, Bandeira Tribuzi
apresentou novamente a mesma proposta de instalação do campus da UFMA, no
Centro Histórico. Em 1976, foi a vez do governo Nunes Freire apresentar a proposta
para instalação da Universidade Estadual do Maranhão. Em 1983, a UFMA
apresentou proposta (não realizada) envolvendo edificações no centro todo,
extrapolando a área da Praia Grande, já depois da primeira etapa do PPRCH.
Os centros culturais permanecem até hoje, mesmo quando na primeira
década do século XXI, a Universidade Federal transferiu a reitoria, a maioria dos
seus cursos e a maioria de seus órgãos administrativos para o Campus do Bacanga.
Por outro lado, depois do ano 2000 instalaram-se o Curso de Arquitetura e
Urbanismo da Universidade Estadual e a Escola de Música do Estado. Estão em
processo de recuperação um prédio do Estado para o Curso de História da UEMA e
o prédio da Fábrica Santa Amélia de propriedade da UFMA, para o Curso de
111

Turismo da Universidade Federal, que vai contar inclusive com um hotel escola.
Desta forma a recomendação do relatório de Parent vai se cumprindo.
Mais que um registro histórico a intenção, ao destacar esta específica
proposta é fazer o contraponto com a cidade viva que era São Luís. Parent
reconhecia, mesmo na Praia Grande, a presença de atividades comerciais e
administrativas e das residências. Sugeria, entretanto, para a conservação, a
mudança dos usos. O que é uma indicação que já naquele momento, a prioridade
era a destinação dos espaços para usos mais aceitos pela articulação político-
econômica que conduzia o processo. A prioridade para a valorização do patrimônio
não contradizia a proposta de turismo, nem a de centro cultural em todas as suas
formas, mas não funcionava muito bem com a presença do uso residencial.
Em 1972 atuou como consultor o arquiteto português Viana de Lima.
Produziu outro relatório, tratando de forma mais completa a preservação do
patrimônio histórico, mas principalmente tratando ainda mais radicalmente da
integração da sua preservação ao desenvolvimento, à expansão da cidade e
tratando da proposta do tombamento extensivo.
Como Parent, Viana de Lima (1973, p.3) reafirmou o valor do conjunto
urbanístico.

São Luís não possui monumentos com a riqueza dos da Bahia, Recife ou
Ouro Preto, mas o seu tecido urbano confere-lhe hoje, lugar destacado na
história e na cultura do Brasil. Se Brasília é um marco no urbanismo
contemporâneo a cidade de São Luís do Maranhão representa papel
importante no estudo da formação de cidades do Brasil Colonial. Deve ser
preservada, amada e integrada corretacmente (sic) no plano previsto de
expansão.

Para ele, o centro antigo como um todo, que chama de núcleo velho, incluindo
as zonas do século XIX e início do século XX, deveria ser “imediatamente tombado”,
pois somente desta forma seria “possível salvaguardar a unidade ainda existente”.
Seria uma “grande oportunidade para o Brasil afirmar mais uma vez o seu poder
criativo, dentro de um contexto que só agora começava a desenvolver-se, o
Tourisme d’Art.” (LIMA, 1973, p.7). A intenção de modernização e a de conservação
se encontravam novamente no aproveitamento da cidade histórica pelo turismo.
A proposta do tombamento era extensiva ao centro como um todo e não mais
apenas à área do Projeto Praia Grande que havia sido a área escolhida, depois da
visita de Parent para instalação de um centro cultural, da própria universidade, ou do
centro administrativo e cívico. Projeto que fora apresentado no Encontro de Salvador
112

em 1971. Esta discussão, já levantada por Parent, ainda estava presente, mas
agora se estendia para o centro como um todo. No entanto, nem por um momento
se falou em manter a população que se reconhecia ainda presente na região. Nem
foram traçadas estratégias para sua permanência. Deste modo, a cidade se tornava
histórica em uma perspectiva moderna.

3.2.5.3 A Cidade Histórica no Plano Diretor de 1974

União tomba centro de São Luís.


Importante parcela urbanística, arquitetônica e paisagística integrante da
cidade de São Luís, capital do estado do Maranhão acaba de ser inscrita no
Livro do Tombo das Belas Artes do Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional. (O Imparcial 09/02/1974).

No jornal, comemorava-se o fato. O governo de Pedro Neiva de Santana


estivera discutindo projeto de autoria do Dr. Joaquim Itapary para tombamento do
centro de São Luís. O tombamento federal era uma resposta. Reunia diversos
tombamentos isolados, prédios ou conjuntos arquitetônicos e delimitava um sítio
urbano20. Não foi o tombamento extensivo, mas se afirmou uma posição que
indicava o valor histórico das duas áreas, acompanhando o raciocínio de Viana de
Lima.
A dificuldade de aceitar o tombamento extensivo tem outro componente que
pode ser visto neste trecho:
A análise da arquitetura existente foi orientada para a identificação dos
conjuntos de maior interesse nos quais a unidade arquitetônica isolada
adquire maior importância em função da ambiência apresentada pela
presença de outras unidades que contribuem para a valorização do conjunto
(PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1977, p.18).

O sitio histórico se apresentava como a soma dos monumentos históricos.


Isto colocava uma dificuldade maior exatamente pela dimensão do centro e suas
múltiplas atividades, ainda mais frente à perspectiva do crescimento econômico. O
Plano Diretor reconhece a necessidade de estudos mais detalhados que são
delegados aos órgãos responsáveis pela conservação do patrimônio histórico.
Novamente, o que vai prevalecer é a visão de inadequação e obsolescência do
centro antigo, na medida em que os estudos deveriam focalizar exatamente a
mudança de usos.

20
Embora não incluísse todos, como por exemplo, a Praça Gonçalves Dias, que era tombamento
federal como conjunto urbanístico e arquitetônico.
113

No PD/74, a cidade histórica se dividia em duas zonas: a Zona Tombada e a


Zona de Proteção à Zona Tombada. Na visão dos técnicos do PD/74, entre eles um
representante do IPHAN, a zona tombada era a que apresentava, maior grau de
unidade e os melhores exemplares da arquitetura civil colonial. O restante do centro,
definido como zona de proteção se constitui de 160 quadras com um total de 3200
imóveis.

A análise da arquitetura nesta zona revelou a existência de quadras inteiras


com o mesmo grau de unidade encontrado na área mais antiga, sem
entretanto fazerem parte dos tombamentos realizados. Constatou-se
também a presença de numerosos conjuntos e trechos de ruas cuja
preservação deveria ser assegurada, como também prédios isolados que
merecem maior destaque, de acordo com suas particularidades históricas e
arquitetônicas (PREFEITURA DE SÃO LUÍS,1977, p 28-30).

Dividem-se em ZE3 que é a zona especial de interesse histórico com uso


residencial predominante e a ZE4, zona especial de interesse histórico com uso
comercial predominante.

Figura 14: Zoneamento do Centro Fonte: Prefeitura de São Luís, 1975


Legenda
ZT - Zona Tombada
ZR 3 - Zona Residencial
ZE-2 - Zona Especial 2 – Zona de interesse paisagístico contígua ao Rio Anil
ZE3 - Zona Especial 3 – Zona de interesse histórico com uso residencial predominante
ZE 4 - Zona Especial 4 – Zona de interesse histórico com uso comercial predominante
114

Por outro lado, o PD/1974 apresenta uma visão bem abrangente do que
deveria ser conservado incluindo a iluminação, a ambientação, a pavimentação do
centro de São Luís como um todo. Além disso, incluía indicação de projetos para a
valorização de áreas importantes, seguindo de perto a avaliação de Viana de Lima
que abrangia os conjuntos tombados em nível federal: o Largo do Ribeirão, a Praça
do Carmo, a Praia Grande, o Largo do Desterro, incluindo o Convento das Mercês, a
Praça Benedito Leite e a Avenida Pedro II com o Palácio dos Leões e a Igreja da Sé.
Esta indicação demonstra que mesmo sem o tombamento extensivo a
proposta era a valorização do centro como um todo. Seria a indicação de outro tipo
de receio, desta vez por parte dos planejadores urbanos de que o tombamento
poderia fazer o que se chama informalmente de “engessamento” da cidade? Este
receio completa o primeiro que já levantava a questão do que fazer com um centro
de tal extensão se ele não serve para os novos tempos modernos?
Repete-se a mesma representação de centro histórico inadequado e obsoleto
para a vida moderna mesmo ainda em plena atividade. Esta questão vai ser um sinal
da tensão entre a condição histórica e a condição de cidade contemporânea do
centro urbano. Daí uma ambiguidade no que diz respeito à extensão do
tombamento.
O Plano Diretor incorporou técnicos do patrimônio na sua elaboração.
Delegou, como era e é de praxe, aos órgãos da conservação do patrimônio, no nível
federal, o IPHAN e no nível estadual, o Departamento de Patrimônio Histórico,
Artístico e Paisagístico (DPHAP-MA) recém-criado em 1973, a responsabilidade de
fiscalizar as intervenções e de elaborar planos e projetos específicos. Propôs
incorporar a cidade histórica no processo de desenvolvimento econômico com um
papel bem definido: o turismo.
Ao mesmo tempo, a Praia Grande recebeu um tratamento especial na medida
em que o PD/74 incorporou o Projeto Praia Grande. Com uma área de 60.000
metros quadrados e 266 edificações a Praia Grande se inseria na Zona Tombada
pelo Iphan, apresentando a maior concentração de imóveis importantes e o melhor
conjunto de sobrados azulejados da cidade, situado na Rua Portugal.
Era na Praia Grande que havia uma

tendência de localização e concentração espacial das funções


administrativas dos níveis federal, estadual e municipal. A instalação
progressiva de atividades públicas nesta área havia chegado ao número
significativo de 34 entidades, abrigando uma população de
115

aproximadamente 6435 servidores (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1977,


p.35).

Assim, era natural que, dando continuidade ao Projeto Praia Grande, aquele
que fora apresentado no Encontro de Salvador, os governos estadual e municipal
prosseguissem à aquisição de prédios para instalação de repartições e empresas
públicas. O mesmo projeto Praia Grande já previa a valorização paisagística da área
que margeia o estuário do Bacanga – ocupada por grandes depósitos sem nenhum
valor arquitetônico e da Casa das Tulhas ( Feira da Praia Grande) que foi, anos
mais tarde, o primeiro projeto realizado no Programa de Preservação e Revitalização
do Centro Histórico de São Luís.
No mais, as proposições para o centro histórico seguem o padrão restritivo,
de controles particularmente rígidos argumentando-se a intenção de manter a escala
arquitetônica. Afinal, na zona central existente pretendia-se não somente evitar o
crescimento indiscriminado, mas também preservar as áreas de interesse histórico.
É fundamental assinalar que, mesmo tendo o plano sido feito pela Prefeitura,
reafirmava-se que a tarefa de desenvolver as normas de conservação para a Zona
Tombada estava fora da competência municipal com a exceção de dois casos: a
concessão de alvará de localização e a utilização de áreas livres originadas pelo
desabamento de prédios históricos. Mesmo assim, nestas decisões deveria
acontecer o assessoramento do Patrimônio e da Fundação Cultural do Maranhão,
que abrangia o Departamento de Patrimônio Histórico e Artístico e Paisagístico do
Maranhão criado, como foi visto, em 1973, também como resposta ao Encontro de
Salvador.
Em relação ao uso:

A atual ocupação da zona tombada compreende os usos institucionais,


residencial e comercial. Os dois primeiros são adequados, devendo ser
encorajados. De modo geral as atividades comerciais são adequadas,
excetuando-se, porém, aquelas que prejudiquem o perfil visual ou a
conservação dos prédios ou ainda, que envolvam perigo quanto à sua
estabilidade (PREFEITURA DE SÃO LUÍS,1977, 45).

Esta posição é a expressão de muitas contradições. Fica clara a oposição


entre a preferência pelo uso residencial e o institucional, na medida em que estes
são os usos considerados mais apropriados e a afirmação de que a área central é
uma zona residencial que não deveria crescer. Que deveria ter crescimento zero.
Fica claro também o exato inverso, o conhecimento de que o uso comercial
não é o mais adequado, declaração suavizada pela ressalva de que geralmente até
116

é, desde que seja observado que não seja prejudicado o perfil visual e a estabilidade
da construção. Contradição ainda maior é manter com prioridade o uso comercial.
Opção que só se explica pelo interesse do setor econômico forte e poderoso, o setor
comercial, em manter-se intacto na região, na mesma localização. Decisão coerente
com a outra decisão no mesmo plano no capítulo dedicado ao uso do solo e ao
zoneamento, a de não desconcentrar o uso comercial. As duas questões se referem
essencialmente ao edifício em si. Tem por trás a convicção de que o uso residencial
não modifica essencialmente o edifício, enquanto que o uso comercial o faz, com a
destruição dos interiores, com os artefatos nas fachadas para chamar a atenção.
A advertência não tarda:

Deve ser lembrado, entretanto, que as restrições quanto ao uso, não devem
ser excessivamente severas, já que a preservação de área tão extensa
dependerá não somente de verbas especiais, mas também da vitalidade
econômica aí existente (PREFEITURA DE SÃO LUÍS,1977, p.45).

Técnicos experientes, os responsáveis pelo PD/1974 sabiam exatamente a


reação em relação à restrição que se colocava:

ainda o fato de haver na cidade outras áreas sobre as quais pesem menos
ou nenhuma restrição quanto à localização residencial coloca a zona
tombada em posição desvantajosa diante dessas. (PREFEITURA DE SÃO
LUÍS,1977, p.45).

O uso comercial valorizado, o uso residencial congelado não podia dar outro
resultado senão a troca do uso residencial pelo comercial por todo o centro. Como
nem todas as residências são exatamente adequadas para o comércio, ou pela sua
localização ou pelas suas características físicas, uma boa parte fica apenas com a
parte da desvalorização, o que dá outro sentido ao conceito de centro abandonado,
ou ao conceito de ficou quem não conseguiu sair, ou ao dito de fica quem se
acostuma com o abandono, representações mais comuns acerca da área central.
Assim como havia todo um processo de sedução para a aquisição dos lotes
da orla litorânea, todas estas recomendações sugerem um processo no sentido
contrário, embora com a mesma força, que continha em si a tarefa de dificultar a
permanência do uso residencial no centro, mesmo que não tenha sido elaborado
com esta intenção.
A última questão, também contraditória, é a recomendação em relação à
utilização dos terrenos vazios deixados pelo desabamento de prédios: transformá-
los em praças ou áreas de lazer, se “os proprietários não estiverem dispostos a
117

reconstruírem seus prédios” (PREFEITURA DE SÃO LUÍS,1977, p.45). A intenção


de abrir os espaços, criar áreas verdes em lugares considerados populosos ou
“congestionados” é uma proposta típica do urbanismo moderno, da Carta de Atenas.
Era também uma proposta presente no relatório de Parent. E um sintoma de uma
questão até hoje não resolvida: que características de um sítio urbano histórico
devem ser conservadas?
E outra: como se prevê a inserção de novas edificações nestes centros
patrimonializados? Se, corretamente, não se pretende demolir ou transformar
radicalmente as edificações, se os vazios provocados pelo arruinamento espontâneo
(os que não conseguiram ser prevenidos pela conservação) não podem abrigar
novas edificações, na prática (e na teoria) o sítio histórico perde a sua capacidade
de transformação. A cidade histórica perde a sua historicidade.
O PD/1974, e não se trata aqui unicamente do objeto intelectual em si, mas
das ações, do processo que é deflagrado por ele, foi recebido com entusiasmo pela
população. Esta era a ação que vinha finalmente apresentar uma saída para o
esquecimento que a cidade se acreditava mergulhada. Este foi o instrumento
apresentado como não só como aquilo que iria por um fim ao inexorável processo de
agravamento das condições da cidade, mas daria início a um virtuoso processo de
sua própria melhoria, tomando emprestado palavras de Secchi (2006).
Ainda nas pegadas de Secchi, o PD 1974 era o plano São Jorge, contra o
dragão do esquecimento, da estagnação econômica, do provincianismo de cidade
pequena. A questão é que o dragão tomava forma na cidade antiga, na cidade que
fora um dia próspera, mas que não era mais. Que um dia fora importante, mas que
não era mais. Que um dia, quando colônia, se comunicava diretamente com a matriz
e mandava seus filhos estudarem diretamente em Coimbra, mas que naquele
momento encarava a falência e degradação física dos seus casarões. Uma situação
que teria despertado, na elite da cidade, um sentimento de desgosto e de
animosidade, mesmo de rejeição por aquela parte da cidade ligada a esta falência.
Ao mesmo tempo, a cura era a conservação da cidade histórica. Ou melhor, a
sua valorização, a escolha do termo deixando claro desde o início a filiação: o
patrimônio histórico urbano merecedor de sobrevivência era aquele que, valorizado
poderia produzir, literalmente, recursos para a cidade. São Luís era uma cidade de
arte. O patrimônio é, então, tratado como atração do turismo de arte. Deste modo, o
118

espaço histórico como concebido no Plano Diretor vai conter em si o germe da


tensão entre ser histórico e ser contemporâneo.
Finalmente, neste movimento de ocupação da orla litorânea e de segregação
espacial, se criou uma nova condição urbana, criou-se a cidade dispersa. É o que se
vai discutir no próximo capítulo.
119

4 A CONSTRUÇÃO DA CIDADE DISPERSA E A CRIAÇÃO DO CENTRO


HISTÓRICO

Onde se apresentam os novos espaços produzidos, os novos modos de


morar na cidade dispersa, sua relação com a cidade existente e o processo de
criação e consolidação do Centro Histórico.

O economista Felipe Holanda (2008, p.12) chama esta fase da economia (de
1970 até os dias atuais) de “fase da integração produtiva à economia nacional”. Tem
início a partir da segunda metade da década de 1970 e se relaciona com os
grandes projetos desenhados a partir do II PND (Governo Geisel, 1974-1978), sob a
bandeira do Projeto Grande Carajás. Esta é a fase de instalação da Companhia Vale
do Rio Doce na Ilha do Maranhão, do aproveitamento da estrada de ferro existente e
da instalação da Alumar (consórcio multinacional voltado à produção e exportação
de alumínio em lingotes), além da expansão, com incentivos e subsídios federais e
estaduais, de projetos agroindustriais tais como eucalipto e bambu para celulose,
pecuária bovina, cana de açúcar e álcool no interior do Estado.
Holanda (2008, p.14) analisa este momento como o primeiro do que ele
chama de “pontos de descolamento da economia nacional”. Porque, ao contrário do
que ocorreu na região nordeste e no país, na década de 1980, a economia
maranhense exibiu um forte crescimento econômico refletindo a também forte
concentração de investimentos públicos e privados envolvidos na instalação dos
grandes projetos. Enquanto a economia brasileira:

enfrentava um período de estagnação, em decorrência dos efeitos da


desorganização inflacionária sobre o horizonte de planejamento das
empresas e sobre os investimentos públicos”, o “Maranhão apresentava
ainda os desdobramentos dos grandes blocos de investimentos mínero-
metalúrgicos e logísticos da década de 1980. (HOLANDA, 2008, p.14)

As indústrias se instalaram. No seu rastro, o comércio cresceu com a vinda de


grandes lojas do sul do país, como as Lojas Americanas e a Mesbla. Cresceram
também a indústria da construção civil e o mercado imobiliário.
No campo político, importante notar a influência de Sarney durante todo este
tempo. No período dos governadores “biônicos” (os governadores indicados), ele
conseguiu influenciar todas as indicações, com a exceção de uma, perdendo para
um candidato de Victorino Freire. Com o retorno das eleições diretas, elegeu o seu
candidato em 1982.
120

Por outro lado, depois do bipartidarismo implantado pelo governo militar,


Sarney, já compondo com o governo na Aliança Renovadora Nacional (Arena),
continuou crescendo em prestígio, constituindo um quadro importante no partido do
governo até sua adesão à Aliança Democrática (PFL/PMDB), que levou à vitória da
chapa Tancredo-Sarney, no Colégio Eleitoral, ocasião que acabou, pela tragédia da
morte de Tancredo Neves, colocando-o na Presidência da República.
Em 1986, José Sarney presidente do Brasil, a eleição de governador contava
com dois candidatos importantes e que já haviam cruzado sua história: João Castelo
e Epitácio Cafeteira. Ambos eram seus opositores, uma vez que, ao final do seu
mandato, Castelo se manifestara contra Sarney tendo inclusive apoiado Paulo Maluf,
candidato do regime militar contra Tancredo Neves, candidato das oposições.
Cafeteira, por sua vez, desde o tempo em que fora prefeito na década de 1960, no
governo de Sarney, disputava a liderança na Ilha Rebelde.
Sarney apoiou Cafeteira, que foi eleito com 80% dos votos. Era, de fato, o
primeiro governador eleito depois do fim do regime militar. Este fato, por si, já teria
um enorme peso. Naquele momento, acrescentava-se ainda a condição de José
Sarney, um maranhense, como Presidente da República. Mais importante, os dois
inimigos pareciam ter se reconciliado. A perspectiva de prosperidade e o entusiasmo
pelo retorno à democracia foram componentes importantes para a continuidade do
Programa de Preservação e Revitalização do Centro Histórico iniciado no governo
de João Castelo em 1979. No Governo de Cafeteira, o centro histórico se
consolidou. Foi o momento do Projeto Reviver. A consolidação do Centro Histórico
de São Luís.
Este capítulo busca compreender a delimitação e consolidação deste centro
histórico a partir do processo desencadeado pelas propostas do Plano Diretor de
1974. Ao mesmo tempo, caracteriza-se a cidade dispersa e trata-se de evidenciar as
práticas espaciais, isto é, os espaços produzidos e a vivência propiciada por eles
(LEFEBVRE, 2000) buscando identificar o papel da cidade existente, especialmente
do centro urbano, nesta nova condição.

4.1 A CIDADE DISPERSA

A cidade dispersa se caracteriza como a descontinuidade do ambiente


construído e como uma nova condição urbana (MOGIN, 2009) que propicia uma
nova experiência urbana, decorrente da individualização dos modos de viver, da
121

multiplicação dos deslocamentos dos automóveis e das distâncias percorridas


cotidianamente.
Em São Luís, esta dispersão da cidade é consequência da estratégia de
ocupação das praias, das operações imobiliárias conduzidas pela Surcap. Ou seja, é
produto direto das propostas do Plano Diretor de 1974 e da atuação dos mercados
fundiário e imobiliário, das atividades imobiliárias conduzidas pelo poder público que
orientaram o processo de urbanização com prioridade para a ocupação da orla.
Entretanto, a dispersão é também fruto de características específicas do
espaço a ser ocupado. A primeira característica é a distância das praias à cidade
existente. A segunda é a extensão das terras a serem ocupadas, as terras entre o
Rio Anil e o mar, até o limite dos municípios vizinhos.

Figura 15: Ilha do Maranhão ou Ilha de São Luís. Mapa de 1980.


Fonte: <http://www.zee.ma.gov.br>
Acessado em 20 de agosto de 2010.
No mapa acima é possível identificar a cidade de São Luís na Ilha do Maranhão ou Ilha de São Luís.
As zonas urbanizadas são as zonas em vermelho. No círculo vermelho a cidade compacta. No
retângulo verde a cidade de São José de Ribamar.
122

Figura 16: Proposta de Urbanização.Gleba Rio Anil Figura 17: Extensão da Urbanização Dispersa
Fonte Figura 16: Prefeitura de São Luís, 2006.
Fonte Figura 17: Mapa Plano Diretor, 1974. Prefeitura de São Luís, 1975. Modificado pela autora.
Na Figura 16, a Gleba Rio Anil se identifica pela cor amarela. Na Figura 17, as setas indicam o limite
da urbanização proposta.

Apresenta-se, a seguir, o mapa da urbanização de São Luís, onde se pode evidenciar o seu
caráter de dispersão.

Figura18: Construção da Urbanização Dispersa.


Mapa construído pela autora.
No mapa é possível evidenciar a urbanização dispersa. Fica clara a estratégia de urbanização de
ocupar em primeiro lugar a orla litorânea e a proximidade dos limites do município. Evidencia-se a
descontinuidade do ambiente construído.

Foi neste movimento de ocupação da orla litorânea e de segregação espacial,


que se criou a cidade dispersa. A dispersão, como Secchi (2006, 2009) pontua, foi
também em São Luís, um novo modo de produção de espaço onde novos interesses
123

estavam presentes notadamente os interesses dos mercados imobiliário e fundiário


que se criaram no processo de transferência de terras da União para o Estado, do
Estado para o município e daí para os capitalistas dos mercados fundiário e
imobiliário. Interesses também de outra força econômica que se criou no mesmo
processo: a indústria da construção civil. Revelou, portanto, a urbanização também
como instrumento de desenvolvimento do capitalismo como apontava Harvey
(2008).
A não ocupação imediata não constituía problema aos olhos de seus
planejadores. A terra vendida, os acessos consolidados, a urbanização era só uma
questão de tempo. A própria construção da infraestrutura servia como uma nova
frente de utilização do capital, no sentido apontado por Harvey (2008). As terras que
ficaram, que “sobravam” entre as áreas urbanizadas, podem então, ser mais bem
entendidas como terras que a seu tempo se valorizaram (ou esperam a valorização),
a urbanização patrocinada pelo governo deixando como consequência, ou se
propondo a deixar, o acesso a estes novos espaços já construídos.
Tudo justificado de modo racional no Plano Diretor de 1974 como preparação
do cenário para o desenvolvimento industrial. Afinal, a construção dos novos polos
de ocupação e de desenvolvimento definidos no PD/74, o Itaqui Bacanga e as
praias, exigia a construção de novos acessos. Mais que isto, a proposta de
ocupação das praias como áreas residenciais, exigia que se resolvesse a questão
da distância que transformava atividades cotidianas em desgastantes viagens, pela
necessidade de percorrer as estradas que as separavam do centro urbano.
Mesmo considerando o prestígio social dos bairros na orla marítima, há que
se considerar, como Lefebvre (2008), que espaço envolve o tempo. Que ao se
comprar um espaço, compra-se também um tempo. Ou seja, uma distância que
vincula a sua habitação aos lugares da cidade que ele vivencia em seu cotidiano.
A intenção de ocupar toda aquela área só se tornava possível se combinada
com a construção da ligação dos novos espaços com os espaços antigos, com os
lugares de trabalho e de comércio. A extensão a ser ocupada, combinada com a
possibilidade de construção das residências, fosse individual ou coletivamente, em
qualquer ponto da área disponibilizada, favoreceu a descontinuidade do construído.
A cidade se dispersou. Desta forma, a construção da malha viária é o outro
componente da dispersão. Esta malha viária pode ser observada no mapa a seguir.
124

Figura 19: Proposta de malha viária – Plano Diretor 1974


125

Em São Luís, a elite abriu mão da proximidade do comércio e dos locais de


trabalho ao mudar-se para a proximidade da praia em nome de um conforto, de uma
privacidade e de uma individualidade maior. Mesmo assim, alguma coisa a mais
deveria ser feita para que se pudesse ver com outros olhos a antiga cidade balneária
do Olho d’Água como bairro nobre de São Luís.
As novas avenidas fizeram o truque. Elas avisavam que era possível morar
nas praias distantes, ou em outros lugares igualmente distantes, com toda a
segurança de que se poderia trabalhar, levar os filhos para a escola e realizar todas
as tarefas do cotidiano sem perder tempo. Ou pelo menos sem perder muito tempo.

Foto 4: Estrada Asfaltada São Luís – Anil em 1950.Fonte: Jorge, 1950 p.164.

O antigo caminho para as praias atravessava a cidade inteira, passava por


todos os bairros, até o Anil, em um percurso de em média 40 minutos.

Comparação dos percursos entre o Olho d’Água e o Centro.

Figura 20 Figura 21
Fonte: Google Maps – Acessado em 12/10/2010. Simulação de Percursos
Figura 20: Percurso Olho d’Água-Centro pelo caminho original, pela Estrada Velha do Turu, hoje
Avenida São Luís Rei de França – 18 km
Figura 21: Percurso pela Estrada Nova do Olho d’Água, hoje Avenida Daniel de La Touche e Ponte
do Caratatiua– 14 km.
126

A distância diminuiu em mais ou menos quatro quilômetros, a serem


percorridos em uma pista de alta velocidade, ou seja, com menos obstáculos como
sinais de trânsito, cruzamentos, pedestres, situação que descrevia muito bem o
percurso anterior que passava pelo Anil.
A cidade dispersa que se produziu, por ter formação diferente da cidade
compacta gerou práticas espaciais diferentes e o que se pode chamar de
diferenciação territorial da vida cotidiana (BARATTUCCI, 2006).
A dispersão é um novo modo de produção de espaço, mas é também um
novo modo de morar. Um modo de morar individualizado e separado da cidade, dos
centros concentradores das atividades de trabalho. O que equivale a dizer, em São
Luís, o uso obrigatório dos meios rodoviários de locomoção, pelas avenidas
modernas que compõem a extensa malha viária que dá suporte ao funcionamento
da cidade dispersa. São Luís, cidade dispersa, é formada de pedaços de cidade, na
beira das estradas.

1
2
2 Av. Litorânea
1 Av.dos Holandeses 3
4
3Av. Daniel de La Touche
1 5
4
Av. São Luís Rei de França

3 4
5Av. Jerônimo de Albuquerque
5

Figura 22: Mapa da malha viária atual em São Luís.


Fonte: Prefeitura de São Luís (2006). Modificado pela autora para destacar as avenidas estruturantes
do Plano Diretor de 1974, incluindo a Avenida Litorânea construída nos anos 1990.

Ao mesmo tempo, é observando a mancha urbana de São Luís, já em 1984,


como se pode ver na Figura 25, a seguir, que não se pode deixar de notar que os
conjuntos habitacionais desempenharam um papel importante na nova configuração
espacial da cidade. Pelo volume da construção e pela localização estratégica. Só
127

para ter uma ideia, em março de 1979, a COHAB-MA abrigava cerca de 50 mil
pessoas, um total de 12% da população da capital, um índice nunca antes
alcançado por nenhuma COHAB, no Brasil. (VASCONCELOS, 2007). Foram
construídos 55 conjuntos no período de 1967 a 1990.

M
Figura 23: Mancha Urbana, São Luís, 1984.
Fonte: Vista Aérea Imagem Land Sat Governo do Estado do Maranhão, 1984; NUGEO, 2010.
A imagem de satélite de 1984, dez anos depois de iniciada a ocupação das praias evidencia a
dispersão da cidade. Ao mesmo tempo, é possível identificar nesta dispersão áreas de maior
concentração na própria cidade moderna. O número 1 é o bairro do São Francisco; o número 2, uma
sequência de conjuntos habitacionais.

Resolvido o problema da ocupação da orla marítima havia que se preocupar


com alojar todo o contingente populacional que acorrera para São Luís, por
diferentes motivos. A produção dos conjuntos habitacionais responde, também a
esta questão. Ao mesmo tempo, eles representavam a possibilidade de aquisição da
128

casa própria, a formação da classe média consumidora, objetivo do fordismo


periférico como Lipietz (1989) assinalava.

Figura 24: Gráfico Crescimento Demográfico São Luís


Fonte: Prefeitura Municipal de São Luís, 2006.

Estes conjuntos ocuparam faixas de terra específicas. Bom notar que a


estratégia de ocupação, ou do sistema imaginado de “ordenação do território” era a
expressão do “espaço instrumental”, usando a denominação que Lefebvre (2008)
utiliza ao criticar o uso do espaço como produto, como mercadoria a ser vendida.
Para conseguir um bom resultado, na perspectiva desta urbanização, os espaços
deviam ser homogêneos, para que se pudesse atribuir preços equivalentes a
determinadas e específicas características, uma das mais importantes a localização.

Figura 25 : Mapa da Segregação Espacial


Fonte: Prefeitura de São Luís, 1975. Modificado pela autora
129

O zoneamento determinou que os loteamentos e os conjuntos residenciais


fossem distribuídos cuidadosamente agrupados em faixas distintas segundo estes
valores. Os “jardins” como eram chamados os loteamentos residenciais mais
valiosos, para a elite, ficavam nas áreas próximas à orla marítima, do Olho d’Água à
Ponta da Areia, passando pelo Calhau. Ocupando quase toda a extensão da gleba
Rio Anil. Para os segmentos de renda média, polos de habitação na faixa de terra
interna próxima ao Rio Anil. Para os setores populares, as áreas periféricas,
próximas do distrito industrial.
Foi construído um número enorme de conjuntos residenciais. Para as classes
trabalhadoras, os conjuntos da COHAB, criada em 1965. Para as classes médias os
conjuntos residenciais construídos e financiados por associações ou cooperativas
privadas, ou mesmo pela iniciativa do mercado imobiliário, com financiamento do
sistema financeiro de habitação.
Como aponta Ribeiro Júnior (1999, p.94):

Na recente zona nobre, houve também edificação de conjuntos residenciais


(Basa, Renascença e Conj. São Francisco, por exemplo), estes logicamente
em atendimento à procura do segmento social de renda média,
exclusivamente.

3
1

Figura 26: Conjuntos Residenciais São Francisco, Renascença e Basa.


Fonte: Mapa do Plano Diretor de 1974. Prefeitura de São Luís, 1975. Adaptado pela autora.
1. Conjunto Residencial São Francisco
2. Conjunto Residencial Renascença
3. Conjunto Residencial BASA
130

Estes foram os primeiros, mas não foram os únicos. Entre 1975 e 1980 foram
construídos o Cohafuma, pela cooperativa dos funcionários da Universidade Federal
do Maranhão, o Conjunto da Ponta do Farol, os Conjuntos Jardim Primavera
(Cohajap) e o Jardim das Oliveiras (Cohajoli) na proximidade da Cohama. Na
década seguinte, o Residencial Vinhais, o Altos do Calhau e outros. Incluíam-se
loteamentos ou conjuntos residenciais vendidos pelo Instituto de Previdência do
Estado do Maranhão, tanto para a classe trabalhadora como para a classe média.

Figura 27: Vista dos Conjuntos Residenciais na proximidade da Lagoa da Jansen em São Luís do
Maranhão
Fonte: Google Earth. Acessado em 03/01/2011. Modificado pela autora.
Conjunto Ponta do Farol – construído antes da urbanização da Lagoa da Jansen
Conjunto Renascença II

Figura 28: Vista Aérea de Conjuntos Residenciais ao longo da Avenida Jerônimo de Albuquerque
Fonte: Google Earth. Acessado em 03/01/2011. Modificado pela autora.
Residencial Vinhais
Cohafuma
131

O mapa a seguir ajuda a compreender a divisão do Plano Diretor de 1974.

Figura 29: Divisão Morfológica dos Espaços Urbanos da Cidade de São Luís.
Fonte: Burnett, 2003
1. Centro Histórico
2. Expansão Centro Histórico
3. Áreas Periféricas – segmentos populares
4. Faixa Litorânea – Zonas residenciais nobres
5. Áreas Centrais – segmentos médios da população
O que Burnett denomina de extensão do centro histórico é a cidade criada entre as décadas de 1940
e 1960. As áreas periféricas são as áreas destinadas às moradias populares, que correspondem no
PD/74 à ZR 5. A faixa litorânea corresponde à ZR 1 no PD/74 e a ZR2 do PD/74 corresponde às
áreas centrais. Note-se que no PD/74 a área São Francisco é também ZR2.

Figura 30: Mapa do Rendimento Mensal do Responsável pelo domicilio


Fonte: Prefeitura de São Luís, 2010.
Observe-se a atual distribuição da população por renda mensal, evidenciando a segregação
socioespacial que se consolidou dentro dos padrões traçados pelo PD/74.
132

Ao mesmo tempo, os conjuntos foram sendo construídos também de maneira


esparsa como pode ser visto nos mapas esquemáticos a seguir.

MAPAS ESQUEMÁTICOS: CONJUNTOS HABITACIONAIS EM SÃO LUÍS 1967-1987.

Figura 31 a 36- Mapas esquemáticos de implantação de conjuntos habitacionais ao longo das vias
estruturantes Avenida Daniel de La Touche e Jerônimo de Albuquerque.
Fonte: Pessoa, 2010
Observam-se dois polos: um dos Conjuntos COHAB Anil-Cohatrac na Jerônimo de Albuquerque e
outro concentrado na Daniel de La Touche e Jerônimo de Albuquerque.
133

JARDIM
OLHO D'ÁGUA

O
ATLANTIC
TURU

JARDIM
JARDIM
ELDORADO

COHAFUMA COHAMA

VINHAIS

VINHAIS LEGENDA:
RECANTO
Conjuntos construídos
VINHAIS até 1975 - COHAB'S
Conjuntos construídos
até 1980 - COHAB'S
Conjuntos construídos
até 1975 - COOPERATIVAS
Conjuntos construídos
até 1978 - COOPERATIVAS
BEQUIMÃO
MARANHÃO CONJUNTO
PARA O NOVO IPEM
CENTRO ANGELIM

ANIL ANIL
RIO ANIL QUATRO
UM
ANIL
DOIS
PARA O
ANIL
STA
VILA CRUZ
PALMEIRA
RADIONAL ANIL
TRÊS ANIL
QUATRO

PARA À
MAIOBA

SACAVÉM
PARA O
AEROPORTO
PARA O
TIRIRICAL
SEM ESCALA
Figura 37: Localização de conjuntos habitacionais – Mapa esquemático
Fonte: Vasconcelos, 2007.

O esquema acima mostra que os conjuntos foram implantados ao longo dos


eixos estruturantes, especialmente da Avenida Daniel de La Touche e da Avenida
Jerônimo de Albuquerque, mas já avançando na Zona Residencial 1, com o
Habitacional Turu ao longo da Avenida São Luís Rei de França. Mostra também que
os conjuntos do Cohafuma e do Recanto do Vinhais, que foram explicitamente
destinados aos funcionários da Universidade Federal do Maranhão, o primeiro e a
profissionais liberais de classe média o segundo, estão localizados nesta mesma
faixa central. São, porém isolados o suficiente para constituírem espaços separados
dos conjuntos da COHAB, como o Vinhais COHAB do outro lado da avenida no caso
do Recanto do Vinhais. O mesmo acontecendo com o Jardim Eldorado, com o
Jardim Atlântico e o Jardim Olho d’Água.
Como foi dito, é observar o espaço da nova cidade para compreender a
importância e o peso dos conjuntos habitacionais construídos para os segmentos
médios da população na configuração espacial que a cidade assumiu. Não apenas
por conta da quantidade deles, e consequentemente da extensão de terra ocupada,
134

mas também porque os equipamentos urbanos que vão sustentar a nova cidade se
instalaram na sua proximidade. Em áreas apropriadas pelos moradores, a maioria
em suas avenidas de acesso, nas avenidas dos conjuntos ou nas avenidas
principais em sua proximidade. Isto quando estes equipamentos não foram
projetados como parte deles já com a intenção explícita de servir a outras áreas
residenciais.
Quadro 1: Áreas Sociais dos Conjuntos Construídos através do Financiamento do BNH.
Fonte: Ribeiro Júnior 1999 e Maranhão 1980 apud Vasconcelos 2007. Modificado pela Autora
Conjunto Ano Unidades Equipamentos Projetados
COHAB-Anil I 1967 505 05 Praças; 01 Escola.
COHAB-Anil II 1968 516 05 Praças; 01 Escola.
COHAB-Anil SI 1969 1.417 01-centro comercial; 01-caixa d'água; 01-
delegacia; 01-casa administrador; 01 escola.
Sacavém 1970 476 01-igreja, 01-centro comercial; 01-mercado; 01-
área reservada
Radional 1972 366 01-centro comercial; 01-colégio 01-centro
comunitário; 01-igreja católica
COHAB-Anil IV 1975 1.111 01-centro comercial; 01-grupo escolar; 01-centro
social urbano;
Vinhais 1979 1627 18-praças; 01-centro de abastecimento; 01-
creche; 02-colégios; 01-delegacia; 01-centro
social urbano; 02-quadras de futebol; 07-áreas
verdes; 04-avenidas; 03-áreas p/ igrejas; 01-
terminal urbano; 01-ambulatório; 02-quadras de
futebol.
Bequimão 1979 1190 02-praças; 01-centro de abastecimento; 01-
creche; 02-colégios; 01-delegacia;
01-centro comunitário; 06 áreas verdes; 01-
ambulatório; 01-administração;
01-avenidas; 58-ruas.
Turu 1979 767 01-centro de abastecimento; 01-centro
comunitário; 01-unidade escolar; 01-creche; 01
administração; 01-delegacia; 01-ambulatório; 03-
praças; 28-ruas; 01-áreas verdes; 09-avenidas;
Rio Anil 1979 345 01-praça; 12-áreas verdes; 01-área institucional;
.01-área comunitária.
Angelim 1980 654 02-praça; 02-quadras; 03-áreas verdes; 01-área
institucional; 04-avenidas; 26-ruas.
Cidade Operária 1987 7.500 02-praça; 02-quadras; 03-áreas verdes; 01-área
institucional; 04-avenidas; 26-ruas.

Os centros de bairros previstos para dinamizarem a ocupação na nova cidade


não conseguiram alcançar a importância pretendida nos bairros de classe alta como
o Olho d’Água ou o Calhau. O estilo de vida e os modos de morar que se
desenvolveram naquela região não permitiam, ou melhor, excluíam, ou negavam a
cidade e, consequentemente, não facilitaram o surgimento destes equipamentos em
sua proximidade permanecendo estritamente residencial.
Os chamados centros de bairro, propostos no PD/74 que, tanto na Ponta
d’Areia quanto no Olho d’Água seriam basicamente sustentados pelo turismo, não
135

se desenvolveram como esperado. No Olho d’Água, já na década de 1980 o único


hotel ali instalado, o Olho d’Água Palace Hotel era vendido para a Associação dos
Professores da Universidade Federal do Maranhão (APRUMA)21. Mesmo os hotéis
que se instalaram na Ponta d’Areia e no Calhau não proporcionaram o
desenvolvimento que se pudesse caracterizar nos termos de centro de bairro como
estipulava o plano diretor. Nos mapas a seguir, construídos a partir dos dados de
Censo de 2000 é possível ver esta distribuição dos equipamentos urbanos e das
áreas comerciais.

Figura 38: Mapa de localização de equipamentos urbanos.


Fonte Prefeitura de São Luís, 2006.
Nota-se a concentração de equipamentos urbanos no centro e na região adjacente a ele e a pouca
presença destes nas áreas do Olho d’Água e do Calhau. Observa-se também a presença destes
equipamentos nos eixos viários com a exceção da Avenida dos Holandeses. Esta situação está se
modificando nos últimos anos, mas a Holandeses é, sem dúvida, a avenida mais desprovida de
equipamentos entre as vias estruturantes, espelhando a situação dos bairros que atravessa.

21
O proprietário aproveitava para inaugurar outro hotel no Centro Histórico que iniciara o seu
movimento de recuperação, o São Luís Palace Hotel, ao lado da Igreja da Sé. Atualmente, o Olho
d’Água conta com um pequeno número de pousadas modestas.
136

Figura 39: Mapa de equipamentos urbanos incluindo a localização de áreas comerciais.


Fonte: Prefeitura de São Luís, 2006. Modificado pela autora.
Shopping center Comércio ao longo das avenidas
Centros comerciais de bairros
Rua Grande

Por outro lado, os espaços produzidos eram diferentes. Até porque as


distâncias entre estes espaços e o centro da cidade eram diferentes. Da Ponta
d’Areia para a cidade existente, por exemplo, a distância e o tempo eram bem
menores do que do Olho d’Água ou do Calhau.

Distância Ponta d’Areia- Centro Comparada com Distância Monte Castelo-Centro

Figura 40 Figura 41 Figura 42


Figura 40: Percurso Ponta d’Areia-Centro – 5,1 km;
Figura 41: Percurso Avenida Getúlio Vargas Monte Castelo- Centro 3,3 km
Figura 42: Percurso Avenida Getúlio Vargas – Apeadouro – Centro, 5,0 km.
Fonte: Autora utilizando simulação de percurso no Google Maps. Acessado em 12/10/2010
137

Espaços diferentes, práticas espaciais diferentes. Isto nos remete diretamente


a uma questão: a ocupação das praias exigiu mais que a construção de acessos.
Exigiu a produção de um novo estilo de vida e de um novo modo de morar, ou de
novos modos de morar. Modos de morar onde as práticas cotidianas são diferentes
das práticas urbanas da cidade concentrada. É o que será abordado a seguir.

4.1.2 Modos de Morar na Cidade Dispersa

4.1.2.1 A Praia como Atração

O Plano Diretor de 1974 tratava de duas áreas na orla litorânea de maneira


muito especial, propondo a construção de centros de bairro e apostando em seu
desenvolvimento. A Ponta d’Areia e o Olho d’Água. Os extremos que garantiam a
ocupação das praias.
Se não se pode dizer que eram extremos em suas características, certamente
pode se apontar que eram bem diferentes. A Ponta d’Areia, mais perto da cidade,
sempre fora de mais difícil acesso. Para se chegar lá ou dava-se uma volta enorme
por terra, ou havia que se pegar um barco o que, por sua vez, não era tarefa muito
simples, porque dependia do movimento da maré. Era uma praia perto-longe e nesta
condição sempre cobiçada como lócus privilegiado de uma praia urbana.

Ponta d’Areia

Figura 43:Caminhos para a Ponta d’Areia. Mapa de São Luís em 1950


Fonte: Jorge, 1950. Modificado pela autora
138

O Olho d’Água, por sua vez, era lugar de veraneio da sociedade de São Luís,
cidade balneária fundada oficialmente em 1945. Contava com certa urbanização
desde esta época, reforçada pela construção, na década de 1940, da sede do
chamado Cabo Submarino.

Foto 5: Western Telegraph Company Limited – o Cabo Submarino. Fonte: Jorge, 1950

Era a praia mais frequentada, ainda antes das pontes, quando o acesso
acontecia pela Estrada Velha do Turu, que ligava o Anil ao Olho d’Água.

Foto 6: Estrada Asfaltada São Luís-Anil 2. Fonte: Jorge, 1950.

Foto 7: Vila do Anil na década de 1950. Fonte: Jorge, 1950.


139

Não tendo sido bem sucedido como centro turístico no sentido que se
imaginava no plano diretor, o Olho d’Água se tornou, no entanto, o lugar da moradia
de elite. Tão logo a Estrada Nova do Olho d’Água (depois Avenida Daniel de La
Touche) ficou pronta, como prolongamento da Ponte do Caratatiua sobre o Rio Anil,
se intensificou o movimento de mudança. Intensificava-se igualmente a renovação
das casas de veraneio que perdiam os ares de casas de cidade balneária e
ganhavam ares renovados, de casas urbanas.

Foto 8: Casas na Cidade Balneária do Olho d’Água Fonte: Jorge, 1950.

Estrada Nova do -Olho d’Água

Estrada Anil-Olho d’Água

1
Figura 44: Caminhos para o Olho d’Água. Fonte: Mapa Prefeitura de São Luís, 1975.
Modificado pela autora
1-1 Estrada Anil-Olho d’Água – depois Avenida Daniel de La Touche – ligeiramente modificada
2-1 Estrada Nova do Olho d’Água – depois Avenida São Luís Rei de França

Com efeito, em 1970, era possível ler, ao lado das notas nas colunas sociais
que falavam a respeito da temporada de férias na praia do Olho d’Água, os
comentários sobre como importantes personalidades estavam passando temporadas
na praia enquanto suas casas no centro da cidade estavam sendo reformadas, já
demonstrando que a opção de morar ali não era estranha à alta sociedade. Ou
140

ainda, e principalmente, publicavam-se nestas mesmas colunas sociais, notícias de


famílias, ou de casais ilustres, já residindo na Praia do Olho d’Água, ou construindo
sua residência lá, ou preparando a sua mudança (O IMPARCIAL, 28/02/1970).
O Olho d’Água deixava a sua condição de lugar de veraneio e assumia-se
como um novo bairro da cidade carregado de prestígio social. No mesmo jornal,
anúncios de venda de casas com “riacho no quintal”, na praia do Olho d’Água, dá
uma boa ideia do modo de morar que se afirmaria a partir daí: o morar na
tranquilidade do afastamento da cidade, longe do barulho, da poluição, da
concentração, dos problemas associados à cidade existente.
A elite não fez questão de se manter perto da área urbanizada, recolhendo-se
para uma área ainda mais afastada do que era a Vila do Anil, considerada o
subúrbio mais distante do centro da cidade. Ficava na mesma distância dos novos
conjuntos habitacionais mais populosos como a COHAB Anil e mais tarde o
Cohatrac (cerca de 16 quilômetros).
Em uma área que poderia, inclusive, ser considerada “desurbanizada” pela
falta de serviços e de infraestrutura como água e saneamento, o que não era um
grande problema na medida em que a falta de esgotos se resolvia com sistemas de
fossas e a de energia elétrica, com geradores, até a consolidação como bairro ao
final da década de 1970.

Figura 45: Mapa Abastecimento de água. Fonte: Prefeitura de São Luís, 2006.
141

Figura 46: Mapa Tipos de Esgotamento Sanitário em São Luís.


Fonte: Prefeitura de São Luís, 2006.
Os dois mapas demonstram que pelo menos até o ano 2000 a infraestrutura de água e de
saneamento do Olho d’Água e do Calhau é uma estrutura resolvida de modo particular, pelos próprios
moradores com poços artesianos e fossas sépticas. No Olho d’Água o sistema de esgotos foi
construído em 2003 com recursos do Prodetur NE.

Houve, por certo, uma tentativa de modernizar, ou urbanizar o balneário.


Construiu-se um novo acesso, diferente do acesso da linha de ônibus, distante do
seu ponto final. Construiu-se um edifício, de seis andares, um símbolo inequívoco da
modernidade. Não passou deste. Mais tarde foram permitidos no que a legislação
chama de “corredores primários” que são as avenidas de alta velocidade.

Foto 9: Solar das Palmeiras, construído na década de 1970. Fonte: autora


Figura 47:Localização do Edifício Solar das Palmeiras no Olho d’Água.
Fonte: Autora a partir de mapa do Goggle Earth. Acessado em 03/01/2011
142

A elite, como muitas vezes o faz, resolvia os problemas de responsabilidade


pública de modo individual. O que reforçava o próprio modo de morar escolhido.
A busca de prestígio ou da proximidade da praia se encontram no desejo de
uma qualidade de vida, uma qualidade de morar que se colocava em oposição ao
morar na cidade existente. Que significava em larga medida, a fuga da cidade, aqui
representada como um lugar congestionado, com todos os inconvenientes de um
local muito populoso, com os inconvenientes da proximidade com uma vizinhança
indesejável, com os inconvenientes de uma menor possibilidade de privacidade.
A vida cotidiana que se buscava era idealizada como uma vida privada, como
um estar entre si como nomeia Mogin (2009) voltado para o mundo privado, o
mundo familiar. Este foi o motor que alimentou a produção destes bairros. Porque, é
preciso notar, a ocupação do Calhau seguiu de perto a transformação do Olho
d’Água em bairro. Se o urbano, como diz Mogin (2009) propicia a relação público-
privado, propicia o contato e a convivência com o estranho e com a diferença, o
morar afastado desta experiência urbana privilegia o retraimento, a vida
individualizada. Esta representação da vida cotidiana aproxima São Luís, cidade
dispersa, da representação da dispersão como uma alternativa à concentração
como Secchi (2006, 2009) coloca.

Av. Litorânea

Figura 48: Mapa do Olho d’Água, entrada do Bairro. Fonte: Autora a partir de mapa do Goggle Earth.
Acessado em 03/01/2011
Foto 10: Entrada para o bairro do Olho d’Água. Fonte: autora, 2010

Neste caso, a distância do centro é desejável e almejada. A separação entre


os locais de moradia e de trabalho se configurava como essencial e implicava na
existência de um centro urbano necessariamente distante para poder dar a
tranquilidade e a privacidade ansiada, mas de fácil acesso para garantir toda a
infraestrutura necessária. Trabalhava-se, portanto com o centro urbano que se
conhecia, com o centro urbano existente, aquele que havia sido declarado histórico.
As áreas residenciais ficavam no Olho D’Água e no Calhau e em sua proximidade. O
143

trabalho, o estudo, as compras, ficavam no centro antigo, que era, nesta estrutura, o
centro comercial e de serviços, o centro administrativo e político e ainda o centro ao
qual se podia ir para o lazer cultural, o cinema e o teatro.

Foto 11: Igreja do Olho d’Água Foto 12: Casas à Beira-Mar

13

12

11
14

Figura 49: Vista Aérea da Praia do Olho d’Água. Localização no mapa do bairro das fotos como
indicado. Fonte: Autora, a partir de mapa do Google Earth. Acessado em 03/01/2011.

Foto 13: Praia do Olho d’Água Foto 14: Vista da Praia


Fotos 11 a 14: Fonte: Autora, 2010.
144

Fotos 15, 16 e 17.


Vistas aéreas do bairro do Olho d’Água.
Fonte: autora, 2010
145

Deste modo, o Olho d’Água e a orla litorânea foram sendo ocupados,


confirmando o “morar na praia” como o morar ideal, adequado, desejado em São
Luís do Maranhão. Vai permanecer nesta situação até a década de 1990 quando
mudanças na urbanização constroem outra espacialidade, outra urbanidade.

Foto 18: A verticalização da Avenida dos Holandeses, depois do Plano Diretor de 1992.
Fonte: Autora, 2010.

Enquanto o Olho d’Água se transforma em bairro de elite, a importância que a


Ponta d’Areia tinha no Plano Diretor de 1974 pode ser medida pelo projeto urbano
elaborado para dirigir a sua ocupação.
Com clara inspiração modernista, o projeto definira superquadras que
anunciavam um tipo de morar caracterizado pela proximidade com a praia, mas
também pela proximidade com o centro, o que por si já o diferencia do modo de
morar que se estabelecia no Olho d’Água e no Calhau. Também, a verticalização era
incentivada, seis andares era o gabarito permitido. Era o sonho da praia urbana.
No entanto, não aconteceu como se esperava. Os terrenos vendidos não se
transformaram imediatamente em prédios, ou superquadras. Nem mesmo foram
ocupados plenamente até agora. Verdade que várias circunstâncias desfavoráveis
conspiraram contra. Problemas com o saneamento da Lagoa da Jansen que
permaneceu anos, por esta razão, “escondida” nos quintais, as casas, os edifícios
todos de costas para ela. Outros problemas como a proximidade com uma grande
ocupação popular, a Ilhinha entre outras.
146

Ou pode ser que, muito simplesmente, não tenha acontecido a urbanização


por conta do movimento de espera do mercado imobiliário que, tendo garantido a
posse do terreno na beira-mar, esperava uma maior valorização e aproveitava para
comercializar o “miolo”, as terras que, enquanto detivessem o poder de avistar a
praia ao longe valeriam (porque não havia ocupação entre este miolo e o mar) muito
mais do que depois de toda a orla ocupada.
O fato é que a ocupação foi tímida, frente ao projeto existente embora
algumas residências e edifícios tenham se instalado ali.

Figura 50: Mapa Plano Diretor de 1974 evidenciando o projeto da Ponta d’Areia e o Igarapé da
Jansen, antes da formação da Lagoa da Jansen.
Fonte: Prefeitura de São Luís, 1975.

Figura 51: Vista Aérea da Ponta d’Areia em 2004


Fonte: Imagens históricas do Google Earth. Acessado em 03/01/2011
147

Fonte : autora sobre imagem do Google Earth, acessado em 03/01/2011.


Figura 52:Vista aérea atual da Ponta d’Areia
Holandeses

Conjunto
Renascença II

Renascença I
Conjunto
Ponta do
Farol
Ocupação
Renascença I
Informal

Ocupação São
Informal Francisco

Conjunto
do BASA
Ilhinha Ocupação
Informal
148

Foto 19: Ponta d’Areia Foto 20: Fronteira com a Ilhinha Foto 21: Ilhinha
Fonte: Autora, 2010.
149

De qualquer maneira, a proximidade do centro e principalmente, do contíguo


bairro do São Francisco, torna o morar na Ponta d’Areia mais próximo de uma
urbanidade que se conhecia das grandes cidades brasileiras, da zona sul do Rio de
Janeiro, sempre um modelo presente.
Ou tornaria. Se os problemas apontados não trouxessem a descontinuidade
do construído entre o São Francisco e a Ponta d’Areia, aproximando este modo de
morar, ao morar no Olho d’Água. Similar na medida da privacidade, na proximidade
com a natureza e na medida em que a distância do urbano e mesmo de transportes
coletivos, torna o uso do automóvel individual obrigatório.
Ali perto, diferentemente da Ponta d’Areia, o São Francisco e o Renascença
(o primeiro conjunto) acolhem um novo modo de morar com as características de
uma vida privada e individualizada, mas toma emprestado a urbanidade da cidade
existente. Com a construção da ponte, a distância entre o São Francisco e o centro
é percorrida facilmente, mesmo a pé. A ponte é comemorada como uma conquista
da praia e imediatamente apropriada pela população.

Com a ponte e com as estradas abertas, a gente pegava o carro e ia passar


o dia na Ponta d’Areia, levava tudo, que lá não tinha nada, barzinho, nada.
Tinha que abastecer aqui e levar. [...] De noite, a gente pegava o carro,
gasolina era barata... e ia passear. Só para passear, às vezes até só para
botar os meninos para dormir. Cansei de ir só ver o pôr-do-sol na Ponta
d’Areia. Hoje não dá mais para fazer isso. A gente anda com medo de andar
de carro à noite... e a gasolina... não é? (VENANCIO, 2004).

Com o centro a poucos minutos de distância, o modo de morar que se


desenvolve ali se caracteriza pelo conforto da ausência de movimento da cidade,
pela privacidade por conta das casas individuais, pela possibilidade de um modo de
morar que trouxesse as facilidades do carro na garagem (que não era possível nas
ruas do centro). Entretanto, carrega para si características da urbanidade da cidade
existente. No traçado regular, nas calçadas, nas praças, nas ruas comerciais
próximas. Como vantagens, era mais próxima da praia do que os bairros da cidade
existente e podia contar com um centro de bairro (como proposto no Plano Diretor
de 1974) que vinha atraindo (e prometia atrair muito mais) comércio e serviços.
Por outro lado, podia-se morar confortavelmente e levar os filhos à escola,
fazer compras ou chegar ao trabalho, todos ainda localizados prioritariamente no
centro, sem que isso significasse um grande sacrifício. Estabelecia relações com a
urbanidade da cidade como a conhecemos, com a experiência urbana de cidade em
seu primeiro sentido (MOGIN, 2009). Porque permitia a apropriação do espaço pelo
150

caminhar e porque se abria para o convívio com pessoas diferentes de sua própria
vizinhança através da diversidade funcional.
O São Francisco, identificando-se desde o início como um prolongamento do
centro, já no Plano Diretor de 1974 aparece como um bairro muito povoado que
deveria ter o uso residencial desestimulado. Atualmente, sofre o impacto do
abandono e da substituição do uso residencial pelo comercial, seguindo, (por
coincidência?) o destino do centro antigo.

4.1.2.2 A Casa Própria como Atração.

Morar na casa própria era a atração maior, a que deu suporte aos modos de
morar nos conjuntos habitacionais em São Luís.
Meu filho, quando dava a noite, eu olhava as luzes da cidade lá longe, me
dava uma tristeza... ...eu pensava, meu Deus, o que eu estou fazendo
aqui...mas a felicidade de morar com a minha família em uma casa finalmente
minha me consolava. Um morador do Vinhais 22

Foto 22: Conjunto Habitacional Cohab – Vinhais. Em Construção.


Fonte: Maranhão 1978 apud Vasconcelos, 2007.
A escolha, a decisão, não era, no entanto, livre de tensão, como pode se ver
na fala do morador. O personagem da história fala da cidade que avista ao longe.
Não fala de outros bairros, outras casas, outros locais. O que provocava saudade e
dúvidas (meu Deus, o que eu estou fazendo aqui?) era a cidade. Traduzida na sua
fala a percepção de que ele deixara a cidade, que de alguma maneira seu espaço
agora era outro. Consolava-se, ao lembrar a felicidade que sentia por morar com a
família, na sua casa, uma casa finalmente sua.

22
Esta entrevista foi concedida a Paulo Vasconcelos por ocasião da realização do seu Trabalho Final
de Graduação em 2007.
151

Nesta fala se encontram as duas condições urbanas. De forma simples, da


forma como é apreendida pelo morador, pelo citadino comum se encontram a cidade
como a conhecera e o seu espaço, o espaço da cidade dispersa.
A representação de cidade, formada na experiência direta, na vivência, é a
primeira condição: a cidade compacta, que era como se apresentava São Luís, à
época. Uma cidade caracterizada pela concentração de pessoas em um espaço
circunscrito, marcado pela diferença e pela diversidade.
A cidade que representava um espaço de inúmeras possibilidades de trocas e
de encontros, um espaço como definido por Doreen Massey (2008), espaço como
esfera da possibilidade da existência da multiplicidade. Cidade como espaço da
convivência, que não exclui o conflito, como definida por Lefebvre (1991,1999).
A raiz da nostalgia, da tristeza do nosso narrador, era ligada à consciência da
distância, mas não apenas da distância física de um centro urbano. Sua casa era
distante fisicamente da cidade e era distante de sua representação de cidade, da
cidade mental. O que evidencia o fato de que a cidade não se resume a uma
experiência territorial, material, física, ela é também uma criação mental, vinculada a
comportamentos individuais e coletivos que se manifestam na prática espacial e que
transparecem nas suas representações, dialeticamente.
A segunda condição urbana era a cidade dispersa. Caracterizada pela
descontinuidade, pela desconcentração do espaço construído. No sentido exato de
dispersão como separação (de pessoas ou coisas) por diferentes lugares ou
direções (HOUAISS, 2010). Era das pessoas ou coisas, antes agrupadas de forma
mais aproximada que o morador sentia falta.
Na verdade, não era novidade, em São Luís, nem o modo de morar em
conjunto habitacional, nem a organização dos espaços residenciais, nem a presença
de vazios urbanos deixados em função da opção da construção de um subúrbio
mais distante. A produção de conjuntos habitacionais pelos Institutos de Previdência
já era uma realidade desde a década de 1930. É o caso, por exemplo, do Filipinho,
construído em 1949, contando com 326 unidades habitacionais e mais estruturas de
serviço, social e comercial. Localizado a cinco quilômetros do centro da cidade, no
momento de sua implantação foi um espaço vendido como “cidade residencial”.
Causou a mesma impressão de ter sido construído no meio de nada, no meio da
mata, o que reforçava o seu caráter de cidade residencial.
152

Eu adorava o conjunto, mesmo antes de morar aqui, quando chegava em São


Luís, adorava passar perto do conjunto, principalmente quando viajava de
avião, olhar aquele monte de casinhas no meio da mata, todas bonitinhas,
parecia um presépio, era lindo! (Moradora do Bairro em Vasconcelos, 2007)

O Filipinho ficava a meio caminho, entre o centro e o Anil. O padrão de


ocupação esparsa já estava, portanto, esboçado. Pode-se imaginar que se esperava
que a cidade fosse, ao crescer, preencher os vazios. O que de fato aconteceu,
tomando a forma da cidade tradicional, com suas avenidas ladeadas de calçada,
compartilhando a convivência e a diversidade e mantendo uma relação estreita com
o centro.

2
3
Figura 53: Localização do Filipinho (2) entre o centro (1) e o Anil (3).
Fonte: Prefeitura de São Luís, Mapa do Plano Diretor de 1974, modificado pela autora.

Já na década de 1960, a cidade compacta se estendia até o Filipinho. E se


ainda havia espaços vazios no caminho do Anil, estes pareciam em vias de serem
preenchidos inclusive por loteamentos residenciais destinados a segmentos da
população de alta renda. A diferença era a escala em que acontecia a nova
urbanização. A extensão de território que se buscava urbanizar era imensamente
maior. Os conjuntos mudaram a face da cidade e introduziram novos modos de
morar.
Os que se constroem segundo o modelo de casa com jardim e quintal, longe
da cidade, em áreas exclusivamente residenciais, seguiram o modo de morar similar
ao do Olho d’Água mesmo um pouco mais distante da praia. Especialmente os que
foram produzidos para os segmentos médios da população. Por outro lado, os
conjuntos habitacionais mais populosos produziram um modo de morar que se
define pela conjunção de três características: estabilidade, vizinhança e diversidade.
153

A estabilidade foi o que levou as pessoas a procurarem aquele específico


modo de morar. Comprar a casa própria foi, para a grande maioria daquelas
pessoas que escolheram os conjuntos para morar, a opção de se livrar do aluguel e
conseguir a segurança da casa própria, fossem eles funcionários públicos, ou
trabalhadores vinculados a alguma cooperativa.
A segunda condição é a vizinhança. O urbanismo conhece de perto a
expressão unidade de vizinhança: uma área residencial autônoma, contando com
bens e serviços para atender o cotidiano dos seus moradores. Desde sua origem, a
unidade de vizinhança era baseada na baixa densidade e se organizava em torno da
residência unifamiliar. Deveria contar com um sistema especial de vias, destinadas a
facilitar a circulação unicamente no interior e ser delimitada por todos os lados por
vias suficientemente largas, para permitir ao trânsito externo passar por ela sem
atravessá-la (LAMAS, 2000, p. 317). Além disso, deveria incluir áreas de lazer e
serviços básicos, tais como escolas e creches. Na dimensão social deveria encorajar
o convívio entre moradores, o que seria feito basicamente em torno dos
equipamentos e serviços ofertados.
Os conjuntos destinados para a classe trabalhadora traziam esta concepção
Sob a ditadura militar previam um trabalho de “formação” de cidadãos através de
centros comunitários. Com uma diferença: os equipamentos não eram exatamente
uma prioridade, pois as casas eram vendidas por si só. De qualquer maneira, a
construção de uma praça aqui, um centro social urbano ali, um centro de
abastecimento aqui e ali, uma sede para a associação dos moradores, ou um campo
de futebol foram espaços que trouxeram à tona o outro sentido da palavra
vizinhança: qualidade ou estado de estar próximo de algo ou alguém, a proximidade,
o que por derivação significa também o conjunto das relações estabelecidas entre
pessoas vizinhas; comportamento de vizinhos (HOUAISS, 2010).
Por certo, a proximidade não é nenhuma garantia de relacionamentos e muito
menos de relacionamentos solidários, de comportamentos de convivência. Entra em
cena um dos momentos característicos do comportamento e do pensamento que
atuam na construção do cotidiano segundo Heller (1990): a analogia.
Analogia com o que era conhecido, com a experiência urbana de cada um,
com a vida na cidade como se conhecia, que em geral, era de convivência.
Comportamentos como se arrumar no final da tarde e colocar as cadeiras na porta
para uma conversa agradável. Ou as brincadeiras das crianças na rua. Ou no fim de
154

semana, os encontros dos vizinhos, para um jogo de futebol. Jogar juntos se havia
um campinho por menor que fosse; ver o jogo na televisão, em conjunto, se não.
No isolamento dos espaços tão separados da cidade e construídos no meio
do nada, a solidariedade dos vizinhos resolveu muitas vezes situações como não
ficar sem o sal, ou o açúcar para completar o prato, ou a sobremesa de uma
refeição. Os depoimentos dos moradores são plenos de exemplos.
O homem do espaço privado que escolheu aquele espaço como seu, que
priorizou a casa própria e deixou a cidade, o indivíduo, como diz Mogin (2008) “da
casa e da interioridade tenta assim se exteriorizar numa vida pública”. Ele sai de sua
casa e se “abre ao espaço público e à experiência da pluralidade humana”.
Tomando emprestada a expressão de Mogin, o estar entre-si, a vizinhança adquire o
sentido de estar com os outros, de se expor para a vida pública. Vizinhança se
definindo como relações entre vizinhos no sentido de construção da convivência
solidária.
Pode-se de novo argumentar que a vida solidária entre os iguais não significa
exatamente a urbanidade da cidade, a urbanidade que permite a troca entre as
diferenças. O espaço dos conjuntos sitiado entre as grandes avenidas, parecia
destinado a conter dentro deles os moradores e evitar a entrada de estranhos.
Neste sentido, o próprio isolamento atuou no sentido inverso: se não havia
onde se abastecer para o cotidiano, rapidamente esta situação se tornou uma
oportunidade de negócios. Cedendo espaços de sua própria casa, a casa própria tão
desejada para construir a estabilidade de cada um, as pessoas instalaram pequenos
comércios, ou não tão pequenos assim.
Por outro lado, o número de pessoas concentradas nos conjuntos atraiu para
lá rapidamente o comércio. Na verdade, também isto fazia parte da estratégia da
Surcap, que vendia lotes exclusivamente para comércio e serviços. Rapidamente, já
na década de 1980, as avenidas que rodeavam o conjunto sem por eles passar,
começam a se “urbanizar” também no sentido de abrigar uma variedade de
comércio e serviços destinados para a população dos conjuntos.
Com pouco tempo, as avenidas principais do próprio conjunto também se
transformam em ruas de comércio e de serviço. Por vezes, comércio e residência na
mesma casa, por vezes substituindo completamente o uso residencial pelo
comercial, pela instalação de consultórios médicos, escritórios de advocacia e de
155

outros profissionais liberais. Com este processo, os conjuntos se abrem para fora,
para os não moradores.
Deste modo, a terceira característica se faz presente: a diversidade. O
conjunto, transformado em bairro acolhe o estranho, o que vem de fora, seja no seu
comércio, frequentando os serviços oferecidos, seja nas escolas, seja nos seus
espaços de sociabilidade, como na devoção à Nossa Senhora de Nazaré na
Paróquia do Cohatrac que envolve também o bairro da Cohab e se abre para a
sociedade inteira.

Fotos 25, 26, 27, 28, 29, 30 - . COHAMA


Fonte: Alunos Curso de Arquitetura e Urbanismo, 2008.

Além das festas, há as feiras, os bares, frequentados por pessoas de todas as


partes. A concentração de um grande número de pessoas; um projeto que incluía a
previsão do uso diversificado, a permissão para a instalação de comércio e de
serviços de todos os tipos, exatamente porque se pretendia (e isto está explícito no
plano diretor de 1974), a conformação daquele espaço como um espaço
desconcentrado, mas centralizador; mais o desenho que previa espaços para
sociabilidade, espaços para atendimento de pequenas necessidades e
conveniências, tais como posto médico e escolas e o que foi chamado de Centro
Social Urbano ou uma sede para associação dos moradores; tudo isto contribuiu
para que estes maiores conjuntos (ou o agrupamento destes) se transformassem em
bairros autossuficientes.
156

O habitat construído nos conjuntos habitacionais era um habitat homogêneo,


uniforme, projetado como o resto da cidade, naquele processo de urbanização
comandado pelo Plano Diretor de 1974, segundo os cânones de uma urbanização
que sugeria exatamente o que Lefebvre pontua como a lógica do processo de
produção industrial (LEFEBVRE,2000, 2008). O espaço abstrato.
Entretanto, para as pessoas participantes deste processo, o valor de uso tem
uma enorme importância. O fato de seu projeto, sua existência, ser condicionada
pela lógica da mercadoria não implica que o valor de troca elimine o valor de uso. A
apropriação do espaço pelos moradores transformou o espaço abstrato em um
espaço que seria caracterizado por Lefebvre (2000) como um espaço social, tornado
espaço social pela prática socioespacial. Isto não quer dizer que a intenção de
conter a conflitualidade social e política não tenha existido e que não tenha
influenciado a vida pública daquela comunidade. Por outro lado, a prática espacial
transformou estes conjuntos habitacionais que, considerados como desenhados sem
qualidade arquitetônica, “exilados” do convívio com a cidade existente, deram a volta
por cima, aproximando-se da experiência urbana em seu primeiro sentido.
A tensão entre as duas condições urbanas não permitiu que se afirmasse um
único modo de morar na cidade dispersa. Assim como não desapareceram os
modos de morar consolidados na cidade existente. Não desapareceram os modos
de morar citadinos no centro da cidade, ou na sua imediata adjacência, os antigos
bairros da cidade existente, nem os “nichos residenciais” e os modos de morar que
podem ser caracterizados como resistência, que foram o foco do trabalho de
dissertação de mestrado em 2002 (VENANCIO) e que foram mais uma vez vistos
em trabalhos de pesquisa que contaram com bolsistas de iniciação científica
(ARAÚJO, 2007; SANTOS, 2009; FREIRE, 2010) ou com trabalhos de extensão
(FILGUEIRAS e MENEZES, 2008; FILGUEIRAS, 2008) que revisitaram e
atualizaram o levantamento urbanístico de 1998 (DPHAP-MA/IPLAM). Todos
confirmando que o centro é ainda um lugar de morar e que estes modos de morar
ainda mantêm as mesmas características identificadas em 2002.
157

Mapa Modos de Morar na Cidade Dispersa

Olho d’Água e Calhau


Renascença e Ponta d’Areia
Conjuntos Residenciais/
Bairros segmentos médios
Conjuntos Habitacionais/
Bairros Populares
Ocupação Informal

Figura 54: Modos de Morar na Cidade Dispersa. Mapa elaborado pela autora.
O mapa apresenta os modos de morar que foram criados a partir do Plano Diretor de 1974, derivados
em grande parte dos modos de urbanizar adotados: a praia como atração, os loteamentos para a
elite. Os conjuntos residenciais para os segmentos médios e os conjuntos habitacionais para os
segmentos populares. Identifica-se nos mapas também as ocupações informais.

4.2 O CENTRO HISTÓRICO

O centro da cidade, transformado em cidade histórica, por outro lado, ao


manter o uso comercial passou a se relacionar com a cidade dispersa como centro
desta cidade. Certamente isto também é visto e vivenciado de forma diferente de
acordo com a experiência urbana e com os modos de morar. Para uns a distância
era bem vinda porque mantinha longe a turbulência, o barulho e a poluição da
concentração (modos de morar nos bairros litorâneos); para outros a distância era
um mal necessário (conjuntos residenciais de classes médias) para poder viver na
sua casa própria e de modo mais individualizado; ou era um terrível fardo a ser
percorrido para o trabalho (conjuntos residenciais mais afastados e a periferia
marginalizada). Finalmente, era o centro mais bem equipado, com ofertas mais
diversificada, com as melhores escolas, para aqueles modos de morar que
construíam outro centro para si.
158

Deste modo, o centro se mantém como lugar de consumo, como lugar de


morar e passa a assumir a sua condição de consumo do lugar. A seguir, apresenta-
se a criação e consolidação do Centro Histórico de São Luís.

4.2.1 O Programa de Preservação e Revitalização do Centro Histórico de São


Luís.

Enquanto se produz a cidade dispersa, trata-se de delimitar, na cidade antiga,


um centro histórico. É preciso notar que, depois da instituição da cidade histórica no
Plano Diretor de 1974, o governo seguinte tentou alguns programas para a
preservação e valorização do centro histórico como atestam as notícias no Jornal O
Imparcial (28/02/1976), mas as tentativas não surtiram maiores efeitos práticos e a
construção da cidade dispersa acabou por envolver todos os esforços do governo de
Nunes Freire (governador no período 1975-1978, indicado por Victorino Freire).
Retomou-se então o processo da preservação e valorização do centro histórico no
governo de João Castelo (1979-1982), candidato indicado de José Sarney.
Em outubro de 1979, cinco anos depois da elaboração do Plano Diretor,
praticamente uma década depois da visita de Michel Parent, aconteceu a I
Convenção Nacional da Praia Grande. Tinha início o Programa de Preservação e
Revitalização do Centro Histórico de São Luís. Abriu-se uma etapa que acabou por
consolidar o Centro Histórico de São Luís.
O Programa poderia ser interpretado, embora a literatura oficial não o
reconheça, como a continuidade do PD/1974, cumprindo o objetivo de elaboração
de planos específicos para o conjunto histórico delimitado. No entanto, esta
continuidade não é reclamada nem pela prefeitura, nem pelos órgãos de
preservação que seriam, pelo menos em teoria, os responsáveis, designados pelo
Plano Diretor, nem pelo governo do Estado do Maranhão que retoma o processo de
conservação.
Da parte dos órgãos de conservação a omissão pode se explicar pelo fato de
que o Departamento do Patrimônio Histórico, Artístico e Paisagístico do Maranhão
(DPHAP-MA) embora estivesse criado ainda não estava estruturado de forma
23
definitiva. O Patrimônio , além de não ter uma sede em São Luís, cumpria a sua
tarefa de reconhecimento da importância do patrimônio histórico urbano dentro do

23
Órgão responsável pelo Patrimônio Histórico nacional.
159

escopo de suas atividades, a principal os processos de tombamento, o inventário


dos bens, a documentação dos bens tombados.
Outra explicação leva em consideração que a conservação do patrimônio
histórico está profundamente relacionada com interesses políticos na medida em
que trabalha com a memória, com a identidade de um povo e sua cultura. Neste
sentido, é perfeitamente possível que as omissões tenham a ver com escolhas
políticas de quem, este ou aquele chefe de estado, deveria ser considerado
responsável pelas ações de proteção desse patrimônio.
Ainda outra explicação possível é a crença dominante que planos diretores
são instrumentos inúteis, que não são obedecidos. Se isso muitas vezes é verdade
em geral e se no caso em particular de São Luís as intenções de valorização do
patrimônio histórico não se materializaram em ações por vários anos desde a
aprovação do plano em 1974 não dá para apagar o fato de que é exatamente no
PD/1974 que se inicia, de fato, a cidade histórica. Ou melhor, se inventa.
Certamente não se está falando da cidade material, mas da sua instituição
como cidade histórica. É no Plano Diretor de 1974 que é declarada a intenção de
proteção ao patrimônio histórico urbano, consolidando o que já vinha se anunciando
desde a década de 1960, depois da visita de Parent, estendendo-se a noção de
patrimônio do monumento isolado ou do conjunto de monumentos ao sítio urbano. A
partir deste momento passou a fazer parte da preocupação dos planos para a
urbanização de São Luís e do imaginário da população esta nova condição da
cidade24, mesmo que em diferentes graus de entendimento e de aceitação.
A pouca importância dada ao fato poderia sugerir a intenção de deslocamento
do início da prática concreta de intervenção para o Programa de Preservação e
Revitalização do Centro Histórico. Que era o passo seguinte do Plano de Renovação
da Praia Grande – São Luís Maranhão, elaborado por John Gisiger (1979). O
arquiteto americano trabalhara, segundo Andrés (2004) de forma autônoma, mas
recebeu apoio do governo de Estado para esta missão tendo sido o plano publicado
com auxílio do governo do Estado o governo de João Castelo. Não era mais a
prefeitura que liderava o processo, porém. Era a Secretaria de Planejamento do
Estado do Maranhão.

24
Importante também notar que a instituição da cidade histórica apresenta características diferentes
da proteção de monumentos isolados. São Luís possuía monumentos isolados desde 1940 e mesmo
conjuntos arquitetônicos.
160

A afirmação de que tudo ficou no papel também deve ser relativizada. Em


primeiro lugar o governo do Estado se animara a propor a realização de um projeto
de recuperação do patrimônio histórico (O IMPARCIAL, 26/01/1976).

O governador Nunes freire definiu ante-ontem durante uma reunião com seu
secretariado, a localização de dois projetos que modificarão a atual
estrutura urbana de São Luís, sendo que um deles se volta para a
preservação do passado enquanto o segundo adequa a cidade para o papel
que lhes está reservado no futuro. O primeiro projeto é o de recuperação da
Praia Grande, um dos maiores patrimônios arquitetônicos coloniais do País
o qual abrigará o centro cultural de São Luís. Dentro do projeto inclui-se a
localização na Praia Grande da Reitoria da Universidade Estadual (a
federação das Escolas Superiores será transformada em Universidade) da
Escola de Música, a de Arte dramática, além de outros órgãos ligados à
área da cultura. Conta com o apoio do IPHAN e a promessa de
financiamento de 80% do custo global do projeto por parte da Secretaria de
Planejamento da Presidência da República. Prevê-se ainda o engajamento
da Embratur. (grifos nossos)

Nota-se na primeira parte da notícia a tensão entre as duas condições. São


dois projetos, um voltado para o passado, outro para o lugar que São Luís queria
ocupar no futuro, a criação da UEMA. No meio da desorganização da prefeitura,
que inclusive trocou de prefeito inúmeras vezes, a recuperação da Praia Grande
ficou esquecida, até ser retomada no governo seguinte.
Ao mesmo tempo, se se ficou apenas na intenção de preparar outros planos
específicos para a cidade histórica, ou para o centro histórico que haviam sido
indicados no PD/74, não se pode esquecer que tudo isto, na prática e por lei, fora
delegado aos órgãos do Patrimônio.
O plano diretor aprovado entregara nas mãos dos responsáveis pela
conservação não apenas a execução do que já fora delineado no escopo do próprio
plano, mas também a elaboração de projetos específicos e mesmo a aprovação das
intervenções pontuais na Zona Tombada. Os trabalhos prosseguiram muito de
acordo com a prática que até então se desenvolvia em relação ao patrimônio
histórico: estudos, levantamentos, inventários.
De qualquer maneira, em 1979, tem início o Programa de Preservação e
Revitalização do Centro Histórico de São Luís. Fruto de um episódio curioso,
relatado por Luiz Phelipe Andrés25: a publicação da proposta do arquiteto John
Gisiger com o título de Renovação Urbana da Praia Grande- São Luís, Maranhão.
Este título provocou uma forte reação nas autoridades da Secretaria de Patrimônio
Histórico Nacional, comandada por Aloísio Magalhães. Todos queriam discutir e,

25
Informação obtida nas palestras proferidas por Andrés sobre o PPRCHSL.
161

naturalmente, evitar a renovação urbana, que parecia uma proposta contrária aos
interesses da conservação do patrimônio histórico urbano como bem cultural.
A proposta de Gisiger não era de renovação urbana no sentido de destruir as
estruturas antigas. Ou pelo menos as que o Plano considerava valiosa. No entanto,
em muitos aspectos não cumpria exatamente a cartilha dos órgãos da conservação.
A rápida incursão neste projeto tem a intenção de determinar a concepção que
orientava a intervenção na Praia Grande.

4.2.1.1 O Plano de Renovação Urbana da Praia Grande – São Luís, Maranhão.

No prefácio, Bernardo Coelho de Almeida ressalta a diferença entre a visão


de Bandeira Tribuzi e o projeto apresentado por John Gisiger.

Bandeira pensava que, ali onde imponentes sobrados relembram a


opulência de uma cidade de fausto e riqueza, deveria instalar-se a
Universidade do Maranhão. Sonho daquele que como José Chagas,
Ferreira Gullar e tantos outros, devotava a inspiração poética à beleza
extraordinária que envolve a monumental Praia Grande.
Gisiger é pragmático. Para ele a Praia Grande deve continuar com as suas
características heterogêneas de ocupação reunindo atividades
institucionais, turísticas, culturais e comerciais: secretarias, repartições
públicas, estabelecimentos de ensino especializado; bancos, cartórios,
consultórios, médicos e de advocacia hotéis pousadas restaurantes, cafés,
lojas de artesanato, museus teatros, cinemas, boates, galerias de arte, lojas
de varejo (de roupas, moveis, eletrodomésticos, livros,etc.).
Diz ele que a renovação urbana da Praia Grande pode certamente constituir
um feito da maior importância dentro de uma planificação governamental
maranhense uma vez que se trata de um logradouro cujo patrimônio
histórico e arquitetônico representa um potencial inestimável no que
respeita à humanização da cidade e ao desenvolvimento turístico
(GISIGER, 1979, p. 3).

A diferença era que o projeto de Tribuzi propunha trazer para o centro


histórico o campus da Universidade Federal, o que já havia sido proposto por Michel
Parent. O de Gisiger tratava a Praia Grande como um centro comercial e
institucional, bem mais próximo de como vinha sendo tratado o centro de São Luís,
como um todo, pelo Plano Diretor vigente, o de 1974. Inclusive porque, entre o que
Bernardo Almeida chama de características heterogêneas de ocupação, não se
incluía o uso residencial. O objetivo da renovação urbana da Praia Grande era,
explicitamente, recuperar a vitalidade econômica:

O Estado de deterioração em que se encontra hoje a parte mais antiga de


São Luís representa uma perda monumental, tanto em termos culturais
quanto econômicos. O presente projeto objetiva proporcionar a essa área, o
dinamismo e a distinção que ela merece (GISIGER, 1979, p.1).
162

A importância e a viabilidade do empreendimento, segundo Gisiger estavam


baseados em alguns fatores. O primeiro era o patrimônio histórico valioso, uma área
extensa, homogênea e ainda intacta. As questões eram as mesmas que se
colocavam no relatório de Parent e no de Viana de Lima. São Luís possuía:

um dos mais expressivos conjuntos da arquitetura colonial brasileira


enquanto Salvador, Olinda, Ouro Preto e as outras cidades históricas
possuem conjuntos importantes somente São Luís, entre as capitais
brasileiras, contém uma área tão extensa homogênea e ainda intacta. Não
se pode presumir, porém, que essa falta de contaminação, resultado da
morosidade do desenvolvimento econômico do Estado, continuará
indefinidamente. A preservação desse patrimônio excepcional deverá ser
tratada com a urgência já proposta no Plano Diretor de São Luís, como
também pela UNESCO no relatório elaborado pelo Arquiteto Viana de Lima.
(grifos nossos) (GISIGER, 1979, p.1).

Gisiger, ao contrário dos outros documentos oficiais, reconhecia as propostas


do Plano Diretor de São Luís, o de 1974, dizendo compartilhar, portanto atribuindo
ao Plano Diretor, as mesmas preocupações em relação à urgência de tratar da
preservação do patrimônio histórico.
O segundo fator era o valor econômico do patrimônio imobiliário da Praia
Grande. Gisiger estranhava o fato de a Praia Grande ser bem localizada e apesar
disto ser também uma das zonas menos rentáveis do centro. Para ele, isto só se

explicava pela dificuldade do acesso e pelo Estado de conservação da área, “pois

as áreas vizinhas mantêm valores imobiliários entre 100% e 200% superiores”. Não
computava o abandono dos casarões pela falência econômica, nem a proverbial
aversão dos comerciantes e da elite de São Luís a essa área. Nem registrava a
compra destes casarões (muitos ainda abandonados) pelo próprio Estado.
Pensava em enfrentar duas questões: o acesso, que seria resolvido pelo Anel
Viário em construção; e a recuperação do valor das edificações que deveria ser
resolvido pela recuperação da infraestrutura e pelas reformas internas “para adaptá-
las às necessidades funcionais” contemporâneas. Isto feito e a Praia Grande teria
“condições de se transformar no bairro comercial e institucional mais valorizado da
cidade, sem, todavia, perder suas características peculiares” (GISIGER, 1979, p. 1).
Isto, porém, não era tudo. Havia um terceiro fator que era a oportunidade para
o turismo que a recuperação da Praia Grande representava. Por fim, embora não
menos importante, se colocava o valor histórico e cultural que, ao ser preservado
permitiria “a criação de um ambiente eminentemente humano e de excepcional
163

qualidade urbanística”. Desta maneira, imaginava-se que poderia ser o


prolongamento natural do centro. Quanto ao uso residencial:

a ocupação residencial da Praia Grande deverá sofrer alterações graduais;


com o aumento das atividades institucionais e comerciais as residências
unifamiliares paulatinamente cederão espaço para usos mais intensos
devendo diminuir a população permanente de 5000 pessoas
aproximadamente, das quais cerca de 50% de baixa renda, concentrando-
se as moradias na parte sul da área. Ao lado disso, com a valorização dos
imóveis surgirá a tendência de os dormitórios mais rústicos, bem como o
baixo meretrício, deslocaram-se para os bairros. O uso residencial deverá
continuar como o apropriado para os pavimentos superiores dos edifícios,
especificamente o da residência em trânsito: hotéis e pensões.
(GISIGER,1979, p.6).

Ao assumir a retirada do uso residencial do centro, torna-se ainda mais claro


que a visão de centro e, consequentemente de cidade, era muito próxima da visão
do urbanismo funcionalista, ainda que se admitisse em algum nível o uso
residencial. Não se propunha exatamente a saída dos moradores, mas acreditava-se
na tendência do deslocamento das atividades mais “rústicas” para outras regiões.
Um processo de gentrificação era o que se esperava.
Resumindo sua proposta, Gisiger (1979, p.3) defende o que chamou de um
plano global. Este plano deveria coordenar esforços públicos e particulares
coordenando “realisticamente, tanto os interesses econômicos quanto os culturais”.

Figura 55: Delimitação da área do projeto de Renovação Urbana de John Gisiger,


Fonte: GISIGER, 1979, p. 4.
Definição da área de ação: a Praia Grande. Estrategicamente localizada entre as áreas
residenciais. Próximo ao centro comercial, à orla e às atividades do Distrito Industrial e do
Porto.

Defendia que os investimentos públicos não deveriam ser aplicados em


reformas de edifícios isolados (“esforços louváveis, mas de pouco impacto”), mas
164

deveriam ser destinados à implantação de uma infraestrutura geral: melhorias dos


acessos e da circulação de veículos, com reserva de áreas para estacionamento,
criação de vias pedestres, remanejamento de utilidades públicas e desenvolvimento
de focos de interesse turístico e cultural. As intervenções do governo deveriam ser
focadas nos prédios mais importantes.
A ideia era que os proprietários de imóveis se sentissem estimulados a
melhorá-los a partir da valorização imobiliária decorrente da recuperação da
infraestrutura da área, incentivados ainda através de um programa especial de
financiamento e de assistência técnica que o governo deveria implantar, por
entender que as reformas das edificações pelos particulares era uma questão de
interesse público. Recomendava, porém: “obviamente, as alterações arquitetônicas
terão que atender à orientação do Iphan” (GISIGER, 1979, p. 3).
Uma questão que tem revelado enorme dificuldade em ser cumprida, porque,
seguindo a mesma tradição que levara para o funcionalismo público os atingidos
pela falência, como assinalara Tribuzi (apud Meireles, 1993), os proprietários
esperam que o poder público trate também da reforma do seu imóvel. Desta forma,
embora o PPRCH tenha conseguido incentivar alguns particulares a investir no
Centro Histórico este investimento tem se limitado a atividades culturais, de turismo
e de lazer, mantendo-se o comércio tradicional, fora da área da Praia Grande.
O Plano de Gisiger trazia, pelo viés econômico, a integração com o centro,
com a dinâmica da cidade. Tentava, certamente, conciliar a revitalização com os
valores artísticos e históricos da arquitetura colonial. No entanto, considerava
provável:

que o remanejamento previsto implique em demolição ou alteração de


edificações existentes, visando a criação de novas vias de circulação,
praças, estacionamentos, ou outras áreas públicas. É também provável que
o projeto conceda prioridade ao tratamento de áreas em torno de prédios,
ou conjuntos de prédios de excepcional importância arquitetônica.
(GISIGER,1979, p. 8).

Neste sentido trazia a proposta de hierarquizar as edificações da área em


termos de valor histórico-arquitetônico: muito importantes, significativas e
conflitantes.
165

Figura 56 Figura 57
Figura 56: Localização das edificações muito importantes na Praia Grande.
Fonte: GISIGER,1979, p. 8
Figura 57: Localização das edificações muito importantes e significativas na Praia Grande.
Fonte: GISIGER, 1979, p 9.

Figura 58: Localização das edificações muito importantes, significativas, compatíveis e conflitantes,
na Praia Grande. Fonte: Gisiger, 1979, p10.

As edificações consideradas muito importantes eram as que deveriam ser


recuperadas prioritariamente, segundo critérios que facilitassem a sua adaptação ao
uso contemporâneo. Recomendava-se a conservação das fachadas, considerando-
se de “importância secundária as modificações internas”. Perfaziam o total de 12%
do total da área da Praia Grande, ou da área do projeto.
As edificações significativas, no total de 392, eram aquelas cuja recuperação
deveria ser programada e cuja remoção deveria ser considerada somente em troca
de grande benefício público. Por fim, as classificadas como conflitantes, que eram
141 edificações, um bom número delas localizado na periferia da Praia Grande,
deveriam ser demolidas ou disfarçadas.
A proposta era ocupar o lugar das demolições com a construção de boa parte
dos estacionamentos previstos na renovação urbana da Praia Grande.
166

Estacionamentos que permitiriam a presença dos funcionários das repartições


públicas instalados ali. Na verdade, além destes deveriam haver muitos outros
estacionamentos nas áreas próximas à orla marítima, na medida em que se
pretendia uma grande recuperação econômica da região.
O Plano de Renovação incluía como proposta, aterros para estacionamentos
e propostas de mudanças importantes, como a abertura de uma via de acesso para
o Largo do Carmo através da Praça Benedito Leite.

Figura 59: Praça Benedito Leite Figura 60: Proposta para a Praça Benedito Leite.
Fonte: Gisiger, 1979.

Gisiger assumia que a proposta de “cortar” a Praça Benedito Leite ao meio


era uma proposta que ele apresentava com receio, pois mexia no conjunto histórico
tombado, descaracterizando-o. Justificava-a, no entanto, pela necessidade de uma
ligação direta entre a Avenida Pedro II, que passava em frente ao Palácio dos Leões
e o Largo do Carmo (GISIGER, 1979, p. 26)
O título de Renovação Urbana assustou o Iphan. Foi assim que o próprio
Aloísio Magalhães sugeriu então a realização de uma reunião de especialistas de
todo o país para debatê-la. Finalmente, aconteceu em outubro de 1979 a I
Convenção Nacional da Praia Grande. Teve início o Programa de Preservação e
Revitalização do Centro Histórico de São Luís.
O Programa de Preservação e Revitalização do Centro Histórico de São Luís
se baseou nos projetos de Gisiger, mas também nos relatórios anteriores de Viana
de Lima e de Michel Parent. Comum a todos, a integração do patrimônio histórico no
processo de desenvolvimento do Estado, seu aproveitamento como atração turística
e cultural e a recuperação das infraestruturas como alavanca da revitalização.
Obviamente, as propostas que o Iphan considerava em desacordo com o
ideário da conservação não foram levadas adiante. No entanto, reteve-se o sentido
167

de revitalização econômica e, principalmente, a área objeto da recuperação. Perdeu-


se, no entanto, o Largo do Carmo, que ficou de fora do projeto de renovação. E
mesmo as propostas do PPRCH não seguiram nos mínimos detalhes a cartilha
conservacionista.
Suas diretrizes foram elaboradas após inúmeros debates com a presença de
técnicos, especialistas, representantes da comunidade e da universidade, após
contatos e visitas aos órgãos de Patrimônio de outros estados. A partir dessas
discussões formou-se o Grupo de Trabalho do Projeto Praia Grande (GTPPP)
coordenado pelo Governo do Maranhão. Contava com representantes da Prefeitura,
do Estado e da Universidade Federal. Finalmente foi criado, em São Luís, um
escritório do IPHAN em 1980.
A escolha de iniciar os trabalhos pela área da Praia Grande sugere,
novamente, a retomada do antigo Projeto Praia Grande, aquele apresentado ao
Governo Federal no encontro em Salvador. Entretanto, não há referência ao antigo
projeto nos textos relacionados ao Programa. De qualquer maneira, há diferenças
importantes. O primeiro baseava-se na instituição de um centro administrativo dos
três níveis de governo. O segundo tinha em mente uma intervenção que devolvesse
à cidade um espaço urbano de grande qualidade que estava em processo de
degradação, sem abrir mão, entretanto do centro administrativo.
O trabalho de elaboração e condução deste projeto merece destaque pelo
modo participativo com que foi realizado, em plena ditadura militar, vários anos
antes da discussão da prática da inclusão das comunidades no planejamento de
ações de intervenção na cidade, o chamado planejamento participativo.

Ao lado da atuação das autoridades e técnicos, contou-se com a efetiva


participação dos usuários, comerciantes e representantes da comunidade
local, como o Sindicato do Comércio Varejista de Feirantes de São Luís,
Sindicato dos Moços Remadores e Contramestres, Sindicato dos
Condutores Autônomos de Veículos, dos Carroceiros, etc. Para tanto, foram
realizadas reuniões e debates junto ao pessoal da área, para consulta e
participação na elaboração dos projetos e aprovação final das medidas e
soluções adotadas.(GOVERNO DO ESTADO DO MARANHÃO, 1997, p.44).

Certamente, esta participação permitiu a permanência de comerciantes locais


e interferiu em decisões importantes como a criação dos boxes para venda de
produtos regionais no pátio interno da Casa das Tulhas, que se transformou desta
maneira na Feira da Praia Grande.
168

A convenção trazia outra novidade: a sugestão de delimitação da área da


Praia Grande como centro histórico.

devido ao tamanho do Centro Histórico de São Luís e à inexistência de


recursos para seu imediato tratamento como um todo, definiu-se, pela sua
significância e tradição, a área da Praia Grande propriamente dita (Praça do
Comércio) e suas adjacências como sendo aquela que abrange em todos
os aspectos as características marcantes do Centro Histórico. (ANDRÉS,
1998, p.82)

Não foi neste momento que começou a separação entre centro histórico e
centro-que-não-é-histórico. Havia, como foi visto no capítulo anterior o tombamento
federal, a “zona tombada” e “zona de proteção à zona tombada” no PD/74. No
entanto, esta nova demarcação era diferente e excluía um ponto de encontro
importante para a cidade, o lugar das reuniões populares, onde a população resistira
na greve de 1951: o Largo do Carmo, a Praça João Lisboa.

Figura 61: Centro Histórico: a delimitação da Praia Grande.


Fonte: Autora, a partir de imagem do Google Earth. Acessado em 17/09/2008
Limite de Tombamento Federal
Área inscrita na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO
Tombamento Estadual

Desde o seu início, não foi obedecida pelo Programa de Preservação e


Revitalização do Centro Histórico de São Luís, a delimitação do tombamento federal
de 1974 que abrangia um perímetro muito maior. Interessante que o Projeto de John
Gisiger incluía o Largo do Carmo, talvez pela percepção da sua importância.
Outra consequência é que esta escolha instituiu a separação entre o Centro
Histórico que deveria ser recuperado por apresentar problemas de abandono e
degradação de suas estruturas e o centro urbano, do Largo do Carmo à Praça
Deodoro. Foi esta demarcação que se consolidou nos anos que se seguiram, no
imaginário popular e na prática institucional, como o centro histórico. A Praia Grande
e adjacências. Uma área que, conforme a melodia política vai mais ou menos para o
lado do Desterro, onde estão as moradias populares.
169

A primeira etapa do PPRCHSL foi realizada entre 1981 e 1982 e recuperou


prioritariamente, mediante reforma e ampliação, a Feira da Praia Grande 26. Depois
de um período sem muitas obras no governo de Luís Rocha, aconteceu o projeto
Reviver com José Sarney, Presidente do Brasil e Epitácio Cafeteira governador do
Estado.

4.2.1.2 O Projeto Reviver

A publicação sobre o Projeto Reviver (PEREIRA, 1992) apresenta a cidade


como um organismo vivo e complexo. Com o título “Poema em pedra e cal”, o texto
introdutório utiliza uma argumentação que, sutilmente, associa pedra e cal, ou a
materialidade da cidade, das suas construções, com um organismo vivo.

A cidade de São Luís é um elaborado organismo vivo. Quando vista pelo


mapa, se assemelha a uma grande árvore com raízes, tronco e galhos que
crescem com os bairros em infinitas e inextricáveis ramificações. Quando
pensamos nela como um corpo humano surgem as inevitáveis
comparações que falam do coração da cidade, das artérias ou do sistema
nervoso, formado pelas redes de energia elétrica e comunicações.
(PEREIRA, 1992, p. 17)|

O uso da comparação com o organismo vivo serviu de inspiração para


projetos de cidades ideais. Serve para naturalizar processos. É uma forma de
lembrar a nossa vivência e aproximar a cidade dos processos naturais. É também
um apelo para as pessoas se identificarem com a cidade.

Na maltratada e antiga árvore que é São Luís não resta dúvida de que o
Centro Histórico realiza o papel de uma sólida raiz. Nas imediações da
Praia Grande, foi plantada sua semente no início do século XVII e foi a partir
desse núcleo original que toda a cidade se desenvolveu até os dias de hoje.
(PEREIRA, 1992, p. 17)|

O centro histórico como raiz, como essencial para a identidade, a


personalidade de São Luís que além do mais, unifica a todos,

Essa comparação nos ajuda a responder uma indagação muitas vezes


colocada sobre porque é importante investir na preservação do centro
histórico mesmo quando os grandes galhos representados pelos bairros
periféricos, sempre populosos e carentes, estão permanentemente
atacados por toda espécie de pragas que são os gravíssimos problemas
sociais. (PEREIRA, 1992, p. 17)|

26
Área interna da Casa das Tulhas em acordo com os próprios feirantes; realizou obras de caráter
social, com a recuperação de um imóvel em ruínas para sediar o Albergue do Voluntariado de Obras
Sociais (hoje sede da SEPLAN-MA) e obras de interesse urbanístico, mediante a recuperação de
logradouros públicos, como o Beco da Prensa e a Praça da Praia Grande (ANDRÉS, 1998).
170

Recorrente, encontrada aqui e ali a afirmação de que é importante investir na


preservação do Centro Histórico, em contraposição a investir nos bairros periféricos
que vivenciam muitos problemas, é uma colocação plena de nuances. Remete ao
pensamento de que investir em patrimônio histórico é uma ação elitista, pensamento
presente em muitos dos defensores das políticas para uma cidade mais igualitária.
Remete, por outro lado, ao pensamento de que é preciso explicar, ou como preferem
alguns, educar a população sobre a importância do patrimônio histórico. Interessante
que esteja colocada como que se desculpando, pela iniciativa de revitalização de um
espaço público. Sinal da nova situação política, de retorno à democracia?
Argumento para convencer os mais resistentes à valorização da cultura?
No quadro da cidade de São Luís, plena de problemas com suas áreas
populares é uma justificativa que intencionalmente ou não, busca institucionalizar a
imagem de que conservar e muito bem conservado o núcleo original de uma cidade,
ou melhor, sua raiz, cérebro e coração, unifica a todos, todos os diferentes
segmentos sociais, de todas as partes da cidade. Elimina as diferenças. Porque,
“assim como a semente de uma planta determina a sua espécie, é o centro histórico
que determina as extraordinárias características arquitetônicas e urbanísticas que
conferem a personalidade de São Luís”. Da cidade de todos e todas, desprezadas
as diferenças.

Nas últimas décadas a despeito de muitos esforços realizados esse núcleo


vital da nossa cidade esteve gravemente ameaçado. Há apenas cinco anos
tínhamos todos os elementos para escrever a crônica de uma cidade
abandonada, apenas registrando a situação do centro histórico. Aliás, este
registro foi muito bem realizado por vários cronistas de renome na imprensa
local.
São Luís que em priscas eras (1850) foi considerada a quarta cidade mais
importante do Império Brasileiro, viveu uma triste história de descaso e
abandono. (PEREIRA, 1992, p. 18)|

Ao se registrar o abandono, faz-se questão de também registrar que não é


qualquer abandono, é o abandono do núcleo vital que, admirado em priscas eras
pela sua urbanidade, tinha perdido exatamente esta urbanidade admirada.
Esta é uma mudança importante em relação às propostas anteriores que
tratavam da inserção do histórico na dinâmica da cidade, fosse pela via de um
centro administrativo, no Projeto Praia Grande, pela criação de um centro turístico,
no Plano Diretor de 1974, ou pela revitalização econômica, no Plano de Renovação
da Praia Grande. Certamente todos os outros ressaltavam o valor histórico e artístico
da arquitetura colonial, mas este valor servia a um propósito mais pragmático.
171

A abordagem do Reviver inverte esta relação. Pelo menos no discurso.


Coloca para a população a importância da conservação como conservação da
identidade. E de uma identidade respeitada no passado, vinculando-se a reabilitação
do patrimônio histórico à conservação da memória e da história.
O texto se preocupa em assinalar o Projeto Praia Grande, de 1981/82 como
um movimento de exceção da destruição.

Com exceção do período de 1981 a 82, quando o governo estadual através


do Projeto Praia Grande realizou as quatro obras da Feira, Praça, Albergue
e Beco da Prensa, o panorama se aproximava mais do aspecto de uma
cidade bombardeada ou sacudida por um terremoto. (PEREIRA, 1992, p.
18)|

Novamente, como já havia feito a prefeitura de São Luís ao fazer a divulgação


do PD/1974, o novo governo se apresentava como o defensor dos valores de
resgate da memória, de respeito à história, de recuperação da urbanidade. Era ele
quem se preocupava com a urbanidade perdida, com o patrimônio histórico e
artístico destruído. De novo, a população estava meio que alheia ao processo de
abandono de um núcleo tão importante. O poder público ainda era o grande salvador
de situações complicadas, aquelas que nem a população se dá conta. Se em 1974
se estava seduzido pelos novos modos de morar, agora

Muita gente acabou se acostumando e não se alarmava mais com aquele


quadro. Uma espécie de síndrome da convivência, do contato cotidiano, que
faz com que sem querer, as pessoas se acostumem com determinadas
situações e deixem de se indignar ou então se cansem de fazê-lo.
(PEREIRA, 1992, p. 18)|

No entanto, enquanto não fica claro (no texto) se é mesmo a população ou se


são os dirigentes locais anteriores a “muita gente que acabou se acostumando com
aquele quadro”, quem não se preocupava ou não se incomodava com o problema,
os visitantes, os turistas, ou quem “chegava depois de um período fora” podia
constatar o grande grau de degradação de São Luís. A urbanidade recuperada
servia a todos, agora como atração turística. O apelo, no entanto, ainda era no
sentido de embelezamento da “nossa casa” para receber as visitas.
O discurso (PEREIRA, 1992, p. 18-21) é voltado de forma eloquente para a
salvação de “edificações que fizeram a glória da capital maranhense durante o
apogeu dos séculos XVIII e XIX”, e que “jaziam sob escombros”. Ou permaneciam
em péssimas condições “ostentando suas carcaças desfeitas em ruínas
enegrecidas”. Suas fachadas, algumas as últimas ainda de pé, se encontravam
172

“ironicamente apoiadas num emaranhado de paus podres, pareciam uma estrutura


de palafita”.
A comparação com as estruturas informais, inevitável, é também um apelo
para que se revertesse esta situação no centro da cidade, a situação da herança de
um passado glorioso e rico, ou glorioso porque rico, que se ia embora, que se
destruía, que se transformava em escombros. Novamente a síndrome da
decadência a qual se retorna periodicamente, fazia ainda mais sentido naquele
momento, que se buscava glorificar a de re aedificatoria que se promovia,
lembrando a especial conjuntura política, a aliança entre Cafeteira e José Sarney.
As palavras usadas para descrever a situação são “lixo”, “célula cancerosa”,
“antro de banditismo”. Cada uma das edificações arruinadas ou em péssimo estado
de conservação é descrita de forma contundente. Enfatizavam-se as ameaças à
segurança. Descreve-se de forma incisiva o “quadro doloroso”. Um quadro que
avançava para o espaço público urbano. Atingindo o organismo vivo da cidade, “o
mal não se restringia às edificações e atacava as entranhas da cidade, suas artérias
seu sistema circulatório, seu sistema nervoso”.
O quadro exposto de forma tão contundente motivava protestos de várias
entidades: “campanhas contra a pichação eleitoral surtiram efeito surpreendente
durante a eleição municipal de 1988”. A “imprensa sempre denunciou o abandono”.
Contrariando a síndrome da convivência com o descaso (que parece afinal ser
dirigida para os governantes anteriores) havia indignação com a degradação da
área. Se população ou governo anterior, não importa. O mais importante é que
naquele momento havia uma proposta de Reviver a urbanidade perdida.
A crítica abrangia todos os objetos da reforma depois efetuada,
cuidadosamente. Ou seja, fala-se no texto de certa edificação em ruína e logo
depois se falava de sua recuperação, de sua reabilitação. É tratado o Cais da
Sagração que sofria com imensas rachaduras. A Rua Portugal que vivia “um brutal
congestionamento, onde era permitida a entrada de qualquer veículo, inclusive
caminhões de grande porte, que invadiam praças e calçadas, tirando dos pedestres,
a mínima liberdade de caminhar em segurança”. Falava-se do perigoso emaranhado
de fios elétricos, dos grandes transformadores e dos postes de concreto que
contribuíam para descaracterizar o conjunto. E das inundações, comuns na
temporada de chuvas.
173

Figura 62: Largo do Comércio, 1979 Figura 63: Proposta para o Largo do Comércio
Fonte: TERCIANO, 1987.

“As coisas começaram a mudar”, diz o texto (PEREIRA, 1992, p. 22)|, “em
março de 1987”. O primeiro ano do Governo de Epitácio Cafeteira. A resposta
destes problemas vinha na forma das obras realizadas: o drama das constantes
inundações de inverno foi resolvido com a renovação das redes de água e esgoto
que passaram a ser subterrâneas e incluía a desobstrução das galerias
subterrâneas que constituíam “um impressionante complexo de túneis construídos
provavelmente no final do século XVIII que se destinava ao escoamento de águas
pluviais”. Aqui ficava implícito, de passagem, o quanto as estruturas antigas ainda
eram capazes de responder a este problema.
Reconstruíram-se espaços públicos que estavam destruídos ou deteriorados
como o Largo do Comércio. Construíram-se novas praças nos antigos terrenos
baldios que haviam sido transformados em depósitos de lixo. Colocou-se nova
iluminação pública, também subterrânea permitindo a substituição dos postes e a
retirada do emaranhado de fios. As calçadas de cantaria foram restituídas a suas
dimensões originais. As escadarias foram recuperadas e, da mesma maneira,
construídas novas. Foram construídos ou ampliados estacionamentos junto ao anel
viário. A área da Praia Grande passou a ser exclusivamente reservada a pedestres.
174

Figura 64: Praça do Comércio Figura 65: Proposta para a Praça do Comércio
Fonte: ANDRÉS, 1997

O Projeto Reviver abrangia obras de reabilitação de várias edificações, de


“dezenas de imóveis pertencentes ao Estado”. Inclusive fora da Praia Grande.
Ressalta-se que uma restauração em especial mereceu um destaque maior:
“sobreveio uma onda impressionante”, diz o texto(PEREIRA, 1992, p. 23)|. Era a
restauração integral da antiga fábrica Cânhamo, localizada a uma curta distância da
Praia Grande, no Bairro da Madre Deus, transformada em centro de comercialização
de artesanato do Maranhão, o Ceprama que sintetizava “a filosofia do programa”.
Porque é “um espaço arquitetônico antes deteriorado e inacessível”, que foi
“recuperado e aberto à comunidade, constituindo-se ao mesmo tempo atração
turística e fonte de geração de emprego e renda”. Sintetizada desta maneira, as
intenções e o pensamento por trás do projeto ficam claros: recuperar espaços
deteriorados e inacessíveis para a comunidade, gerando no processo emprego e
renda e abrindo espaço para a consolidação da atividade do turismo cultural.
O espaço concebido é um espaço embelezado, limpo, pronto para consumo,
novamente. Foi uma onda impressionante porque, embora o texto não registre,
colocou na ordem do dia, para aquele e para os governos que se seguiram, a
recuperação de várias outras edificações de valor histórico e artístico. Além disso, a
onda levou o Projeto Reviver para fora da área da Praia Grande, executando obras
de infraestrutura, paisagismo, urbanização e restauração de edificações no Desterro
(Convento das Mercês), na Madre Deus (o Ceprama), na Praça João Lisboa, na Rua
das Hortas (Casa de Josué Montelo).
175

Foto 31: CEPRAMA – Antes da Reabilitação Foto 32: CEPRAMA_ Depois da Reabilitação
Fonte: PEREIRA, 1992, p. 23

Na Rua do Sol, a duplicação do Museu Histórico e Artístico do Maranhão


inaugurado na década de 1966 (no governo de Sarney) que se juntava ao Museu de
Artes Visuais27, os dois ligados por um pátio construído no terreno vazio entre eles,
ampliavam o circuito cultural para além do Centro Histórico da Praia Grande.
Ampliavam o alcance do Reviver que extrapolava as edificações e o ambiente
urbano, incluindo nele a recuperação de alguns bem culturais móveis como a
coleção de gravuras da coleção de Arthur Azevedo.
Também na Beira-Mar, a avenida e a duplicação da ponte do São Francisco
que, sendo “passagem obrigatória de quem vem da zona norte para o centro, [...]
tinha sua estrutura ameaçada”, vivendo engarrafamentos frequentes (PEREIRA,
1992, p. 20). A recuperação da infraestrutura para vivenciar os edifícios históricos foi
a justificativa que levou os recursos para a cidade moderna.
Tendo recuperado uma grande parte dos imóveis pertencentes ao Estado,
acreditava-se que a iniciativa privada, a partir daí também fosse atraída pelo
investimento feito na área, como imaginara Gisiger.
Finalmente, os realizadores assumiam que muita coisa ainda devia ser feita:
“afinal um conjunto que esteve por muitas décadas abandonado criava uma situação
impossível de reverter em três anos”. Mas comemorava, com razão, o êxito do
projeto. A ênfase no fato do governador ter sido eleito pela maioria esmagadora dos

27
A duplicação do Museu incluía o prédio vizinho onde funcionara a Reitoria da Universidade Federal
do Maranhão que se mudara para o Palácio Cristo-Rei, comprado pela UFMA no reitorado do escritor
Josué Montelo.
176

maranhenses marca o papel que o Projeto Reviver desempenhava para a


construção da imagem deste governo.

O projeto Reviver é o mais ousado empreendimento preservacionista jamais


executado em qualquer centro histórico em nosso país. Resgata uma
grande dívida para com a cidade de São Luís e lava a alma do povo
maranhense. Coloca o Maranhão na vanguarda das ações de preservação
no plano internacional e foi implementado por um governo eleito pela
maioria esmagadora dos maranhenses. (PEREIRA, 1992, p. 31)|

Ao final da década de 1980, São Luís tinha um Centro Histórico que


começava a dar alento à proposta, finalmente, de desenvolvimento do turismo e
motivava, sob a liderança do seu principal artífice e articulador, o engenheiro Luís
Phelipe Andrés, o pedido de inclusão de São Luís na Lista do Patrimônio Mundial da
Unesco.
O Projeto Reviver foi a maior e mais decisiva etapa do Programa de
Preservação e Reabilitação do Centro Histórico de São Luís iniciado em 1979.
Terminada esta etapa, o centro histórico estava consagrado. Não se pode mais
entender São Luís sem o seu Centro Histórico.
177

5 ENTRE DUAS CONDIÇÕES URBANAS: A CIDADE DISPERSA E O CENTRO


DIVIDIDO.

Onde se apresenta a urbanização contemporânea e as tensões entre a


cidade dispersa que se produziu e o centro dividido entre um Centro Histórico
consolidado e um centro-que-não-é-histórico.

Este capítulo busca compreender as transformações na cidade e em


particular no centro de São Luís, a partir da década de 1990, momento em que a
decisão de construir uma nova cidade e conservar a cidade histórica parecia em
pleno processo de consolidação. É neste sentido que se identificam as tensões entre
a expansão, isto é, a cidade dispersa que se produziu e o Centro dividido entre um
Centro Histórico consolidado como Patrimônio da Humanidade e um centro-que-
não-é-histórico. O Programa de Reabilitação de Centros Urbanos do Ministério das
Cidades e seu rebatimento em São Luís, o Plano de Revitalização do Centro
Histórico de São Luís.
A década de 1990 seguia-se aos anos de entusiasmo que testemunharam a
reinserção do Estado no cenário nacional e um crescimento que parecia a
recuperação econômica tão esperada. De um lado, São Luís tinha um Centro
Histórico que começava, finalmente, a dar alento à proposta, de desenvolvimento do
turismo e de sua inclusão no mundo globalizado. Do outro, a cidade se alimentava
dos novos empreendimentos industriais.
Além disso, um maranhense ocupara a presidência do país e em momento de
retomada da democracia. Estas condições mantinham o mesmo clima de
entusiasmo, entre as forças político-hegemônicas no Estado, dos primeiros tempos
do Maranhão Novo. Depois do governo de Cafeteira, Edson Lobão, candidato de
José Sarney, se elegeu Governador do Estado do Maranhão em 1990.
Esta é a década na qual a influência das políticas neoliberais sobre a
urbanização se faz presente. Na prefeitura, um novo Plano Diretor. No Governo do
Estado, o Novo Tempo de Roseana Sarney.
A “novidade”, que aparecera já na década de 1980 é o surgimento de um
novo ator na produção do espaço urbano: o prefeito. Nem precisaria dizer que de
fato a prefeitura existia, os prefeitos atuavam com seus planos e projetos, basta ver
o Plano Diretor Municipal de 1974 sob a direção do prefeito Haroldo Tavares. O que
178

se quer assinalar, no entanto, é que, embora atuantes, eles estavam vinculados,


necessariamente, à mesma linha política do governador.
Logo na primeira eleição livre, em 1985, a população de São Luís elegeu a
prefeita Gardênia Gonçalves, mulher e correligionária de João Castelo, oposição ao
Presidente e ao Governador, inaugurando um período no qual o Governo do Estado
e a Prefeitura Municipal vão estar em campos políticos distintos. Em 1989, Jackson
Lago do Partido Democrático Trabalhista (PDT), que havia sido secretário de
Cafeteira28, se elegeu como prefeito (1989/1992) iniciando um período de 20 anos
do PDT, ou de seus aliados, na Prefeitura de São Luís.
A entrada em cena da prefeitura traz um componente interessante na medida
em que a luta política também se traduz no espaço urbano de São Luís, mesmo nos
menores detalhes. A situação funciona da mesma forma em relação ao que se pode
chamar de gestão do Centro Histórico. Como o principal agente do processo é o
Governo do Estado do Maranhão, que elaborou o Programa de Preservação e
Revitalização em suas várias etapas, a Prefeitura abraçou a causa no outro centro, o
centro patrimonializado fora da Praia Grande.
A porção do centro deixada de fora pelo Programa e pelo tombamento federal
foi tombada pelo Estado em 1986 (ANDRÉS, 1998, p.106). Este fato proporciona
uma dupla leitura. Primeiro, a leitura de que o conjunto urbano prevaleceu sobre os
monumentos isolados. Cumpriam-se, pelo menos em parte, as recomendações de
Viana de Lima (1973) e de Michel Parent (1966). As dificuldades de aceitar o
tombamento extensivo em nível federal, recomendada pelos dois relatórios dos
técnicos da Unesco, se resolvia, ou se atenuava com o tombamento estadual. Com
isto a cidade existente seria valorizada.
A rigor deveria significar tão somente uma divisão de responsabilidade, uma
descentralização, porque a nova área tombada deveria merecer a mesma atenção,
submetida às mesmas normas e legislação que o tombamento federal era objeto. Na
prática, como em muitos outros setores, o sistema segue uma hierarquia onde o
tombamento federal é mais importante que o estadual, este funcionando mais como
apoio. O que significa que se é mais tolerante, no sentido de não ser tão rigoroso
com as normas do patrimônio quando se trata de tombamento estadual. Nem tão
generoso quanto se trata das propostas de reabilitação.

28
Interessante notar que o candidato de Cafeteira era o também ex-secretário Carlos Guterres, do
PMDB. A eleição de Jackson Lago acentua o caráter de oposição da São Luís, Ilha Rebelde.
179

Esta interpretação remete à segunda leitura, a leitura que este instrumento


poderia facilitar a tarefa da “zona de proteção à zona tombada”, divisão que havia
sido instituída no PD/74 (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1977, p 36). Uma das pistas:
a iniciativa é consolidada pela criação de uma Comissão do Patrimônio Histórico de
São Luís que já na administração municipal de Gardênia Gonçalves instituía:

Por proposição da Secretaria Municipal de Urbanismo (entidade


responsável pela fiscalização urbanística e emissão de alvarás de
construção e reformas no Centro Histórico e demais zonas do município),
na gestão do arq. Ronald de Almeida Silva foi lavrado Convênio entre
aquele órgão e a SPHAN-2ª DR, o Departamento de Patrimônio Histórico,
Artístico e Paisagístico da Secretaria da Cultura do Estado, com
interveniência do Projeto Praia Grande, para estabelecimento da referida
comissão, com a função oficial de analisar os projetos de construção,
reforma, ampliação e preservação de prédios no Centro Histórico de São
Luís (ANDRÉS, 1998, p. 106).

Dentro da visão oficial da conservação o momento do tombamento é o


momento em que o patrimônio toma corpo, que ele passa a existir e merecer a
conservação. Tem sido também uma senha para os responsáveis pela gestão do
urbano saírem de cena e passarem para os órgãos de conservação a
responsabilidade do bem tombado. Não tem outro significado a comissão criada. A
partir deste momento, a prefeitura municipal passou aos órgãos da preservação a
responsabilidade pela aprovação de “projetos de construção, reforma, ampliação e
preservação de prédios no Centro Histórico de São Luís”.
Isto vai ser tanto mais verdade quanto mais a prefeitura se ocupar da
conservação e preservação ao longo dos anos criando ela mesma, nos mesmos
moldes dos governos federal e estadual os seus organismos de gestão da
conservação, primeiro ligados à Fundação Municipal de Cultura, depois a um Núcleo
Gestor do Centro Histórico de São Luís e, finalmente, à Fundação Municipal do
Patrimônio Histórico.
De qualquer maneira, o tombamento da área estadual teve repercussões
importantes. Na década de 1980 aconteceram, não apenas obras de recuperação do
seu acervo arquitetônico e urbano, mas também projetos como o idealizado pela
Universidade Federal (COMISSÃO CEDATE-MEC/ UFMA1983) que contando com a
contribuição de Edgar Graeff, propunha a instalação do seu campus no centro
mediante a compra de vários imóveis na área de tombamento estadual em 1983. O
projeto não foi concretizado.
180

Esta linha de atuação teve o reforço do próprio Reviver, quando o PPRCHSL,


expandiu-se para além do Centro Histórico delimitado. Foram obras focadas na
restauração, reforma e adaptação de vários monumentos isolados. Às vezes,
distantes do próprio centro histórico, como a Fábrica do Anil. Às vezes, acenando
com a esperança de que o entusiasmo do Reviver pudesse alcançar a agora
devidamente tombada e, portanto, alçada a categoria de monumento, área estadual.
Este é o caso da restauração do Teatro Arthur Azevedo entre 1991-1994
(ANDRÉS, 1998, p. 106), sempre bom lembrar dentro do perímetro de tombamento
federal e dentro do programa, mas não do centro histórico, o centro histórico que se
confunde com a Praia Grande e adjacências. Da mesma maneira, foram realizadas
obras de recuperação do espaço urbano na Rua Grande (SOUZA, P., 1992), a mais
importante rua comercial de São Luís por iniciativa da prefeitura, que assumindo sua
responsabilidade tratava de contribuir com a reabilitação da cidade e da Rua Grande
como centro comercial. E com outras recuperações como a da Rua de Nazaré e a
da Praça João Lisboa.
Ainda como expressão dessa repercussão e já trazendo um sentido e um
gosto da modernidade que avançava firmemente do outro lado da cidade, aconteceu
a adaptação do “miolo” de duas quadras inteiras, na área estadual para acomodar
as Lojas Americanas (1989) e um shopping center, o Shopping Colonial que
inaugurou em 1995. Intervenções controversas, devido à polêmica decisão de
permitir a demolição dos interiores, mantendo-se as fachadas, de várias habitações.
Casarões que, é necessário dizer, funcionavam muito bem como residências até
então e que foram vendidos dentro do mesmo espírito que as primeiras residências
haviam sido, confirmando a tendência de mudança de uso residencial para o
comercial.
Estas iniciativas selam o destino da área estadual como centro comercial e de
negócios, incentivando a saída dos seus moradores. Por vários motivos, inclusive o
fato de que com a substituição do uso residencial para o comercial, a região vai
ficando desabitada à noite, sem movimento. Ainda mais que, a essa época, os
bairros da cidade nova já haviam consolidado certo apelo urbano, no Renascença II,
com a combinação shopping center/incentivo à verticalização, como será visto um
pouco mais adiante, neste capítulo.
No entanto, antes disto um motivo bem simples já colocava o uso comercial
em posição de vantagem sobre o habitacional. O uso comercial era valorizado, o
181

residencial não. Desde o PD/74 que considerava uma zona tombada com uso
residencial predominante e uma zona tombada com uso comercial predominante e
que propunha o crescimento zero do uso residencial (PREFEITURA DE SÃO LUÍS,
1974). Como isto não impedia a troca do uso residencial pelo uso comercial, a
valorização do uso comercial já era uma realidade, reconhecida inclusive pelo Plano
de Renovação da Praia Grande.
Deste modo, a substituição do uso residencial pelo comercial se dá por
mecanismos do mercado imobiliário. Neste contexto, a possibilidade de demolir o
interior era e ainda é uma tentação 29. Bom notar que esta ação era incentivada
também no Plano de Renovação da Praia Grande, de Gisiger (1979). E muitas e
cada vez mais residências tiveram e têm seu interior demolido para poder acomodar
confortavelmente o uso comercial, notadamente empreendimentos comerciais ou de
serviços. Porque as residências, estas continuam obrigadas a seguir as normas que
não permitem que se juntem, ou modifiquem, os interiores para a construção de
residências maiores. Conflito sempre presente nas relações do Patrimônio com os
moradores de todo o centro, que vão sentir mais decisivamente não somente estas
restrições, mas todas as mudanças que aconteceram desde o momento em que se
inventou a cidade histórica (LEITE FILHO, OLIVEIRA, GOMES, 1997; VENANCIO,
2002).
Por outro lado, não há dúvida que as novas áreas residenciais destinadas às
classes de maior poder aquisitivo ofereciam a vantagem de proporcionar residências
maiores e mais modernas e uma maior proximidade das praias. Com o acesso
garantido pela construção da ponte, entretanto, ficavam apenas a poucos minutos
do centro. Desta forma, a cidade histórica se manteve como centro econômico e
funcional, como centro administrativo e até como centro cultural. O centro assumia o
duplo papel de lugar de consumo – por ser a área mais bem equipada e mais bem
servida da cidade. E do consumo do lugar, como coloca Lefebvre (1991) como
Centro Histórico que recuperara o significado de histórico e o prestígio em nível
nacional e estava em processo para ter tudo isto reconhecido em nível internacional.
29
As Lojas Americanas já haviam se instalado um pouco antes, na Rua Grande, usando o mesmo
artifício. Naquela ocasião, porém, o fato foi comemorado como vitória, pois a construção das
Americanas aconteceu contrariando a sua primeira intenção de derrubada das moradas coloniais. A
solução de conciliação foi exatamente a de conservarem-se as fachadas, demolindo-se o interior para
satisfazer a exigência do programa da cadeia de lojas, incluindo-se uma inusitada solução do
estacionamento no telhado. Abriu-se caminho para que os interiores, todos, inclusive os das portas-e-
janelas dessem lugar aos grandes magazines, aos bancos com seus estacionamentos, a todos e
quaisquer empreendimentos que necessitassem da transformação do espaço interior.
182

A própria Prefeitura foi além das intervenções de recuperação dos espaços


antigos, e construiu um novo espaço público no centro, a Praça Maria Aragão30,
desenhada por Oscar Niemeyer, que, marco do seu governo, é uma demonstração
de que a administração de Jackson Lago também tinha suas raízes no centro
tradicional.

1
3

Figura 66: Localização das intervenções da Prefeitura Municipal no Centro de São Luís..
Fonte: Google Earth. Modificado pela Autora
Legenda
Limite de Tombamento Federal
Área inscrita na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO
Tombamento Estadual
Centro Histórico
1 Praça João Lisboa e Rua de Nazaré
2 Praça Maria Aragão
3 Rua Grande

A década de 1990, portanto, foi um ponto de inflexão. O centro lugar de


consumo era um centro urbano vivo e vibrante. O Centro Histórico era alimentado
pelos investimentos que haviam sido feitos e pela perspectiva de mais investimentos
a chegar, inclusive internacionais. Estava dividido, porém. O seu papel, sua
integridade e integração na cidade contemporânea seria determinado pelas políticas
traçadas.
Certamente, naquele momento já estavam consolidados outros paradigmas
no urbanismo. Não se tratava mais da destruição criativa, da renovação urbana, da
substituição do velho pelo novo. As novas palavras de ordem já se faziam ouvir: o
respeito às preexistências, o respeito à diversidade. Entretanto, não vai ser o centro

30
Maria Aragão (1910/1991), liderança do PCB, médica, negra, foi perseguida e presa pela ditadura.
183

histórico recuperado e a intervenção na cidade existente, o motor principal da


elaboração de outro Plano Diretor pela Prefeitura de São Luís, em 1992.
As motivações vão ser outras. Neste ponto, é importante voltar o olhar para o
processo de construção da cidade moderna, para os espaços que haviam sido
criados, para os novos modos de morar.
A cidade, àquela altura, apresentava-se claramente dispersa. E como diz
Secchi (2010) a dispersão incomoda. Pelos gastos com a infraestrutura, pela
dificuldade maior de resolver os problemas de transporte público ou de trânsito
urbano, porque estava se tornando rotina os espaços livres serem ocupados de
maneira espontânea e informal. No Olho d’Água havia a Divinéia, no São Francisco,
Ponta d’Areia e Renascença I havia a Ilhinha e seus desdobramentos, nas margens
da Lagoa da Jansen, debaixo da ponte do São Francisco.
A falta de uma legislação mais atuante que impedisse as “invasões”, ou o
“grilo chique31” também incomodava. Isto tudo sem falar dos atentados ao meio-
ambiente que eram cometidos a torto e a direito, especialmente a destruição dos
mangues e dos babaçuais da Ilha. Mais importante, uma grande crise na construção
civil, que perdera o incentivo do financiamento federal com a extinção do Banco
Nacional de Habitação.
Havia, além disso, uma novidade na região do Renascença: o Tropical
Shopping Center. Térreo, horizontal, aberto, concentrava lojas mais sofisticadas dos
que as que se localizavam no centro. Contava com lanchonetes, um restaurante e
um cinema. Inaugurou em 1986, coincidindo com o tombamento estadual do centro.
Situação que lembra a do Plano Diretor de 1974, de retirada da pressão imobiliária
no centro, ou na cidade existente, com a abertura de novas frentes de ocupação,
desta vez do comércio.
Burnett (2007) vai apontar a instalação deste primeiro shopping center da
cidade como uma influência decisiva nos modos de ocupação da área litorânea
“que irá, paulatinamente, acarretar mudanças na própria legislação urbanística da
cidade” (BURNETT, 2007,p.189). E completa:

A combinação ‘residência & shopping center’, em um ambiente urbano


caracterizado pela precariedade de equipamentos de usos coletivos, foi
fundamental para consolidar o padrão dos condomínios verticais que

31
Grilo chique foi como se chamou a construção de casas de veraneio nas areias e dunas da Praia
de Araçagi por pessoas de média e alta renda. Teve início no final da década de 1980, a solução na
justiça se arrastando por vários anos.
184

sinalizaram para um segmento da construção civil, então órfã dos incentivos


estatais desde a crise e posterior desmantelamento do SFH, com um
mercado de retorno seguro e lucrativo. Este é o fato que promove a
mudança da ocupação da região e, por extensão, da estrutura da indústria
da construção civil local que, agora sim, se volta decisivamente para a nova
tipologia arquitetônica. (BURNETT, 2007, p.189).

Ao falar de precariedade de equipamentos de usos coletivos como


característica do ambiente urbano, Burnett dá pistas sobre a estrutura e dinâmica de
São Luís. A primeira é sobre o lugar que concentrava serviços e comércio: o centro
urbano, o centro antigo que continuava como tradicionalmente o fazia, concentrando
as atividades que funcionariam em equipamentos coletivos como o shopping center
que se criara. Carência de equipamentos coletivos se relaciona com outros espaços
para o consumo, ou de concentração de serviços, ou mesmo de lazer, todos
concentrados até então no centro antigo.
O centro funcionava perfeitamente no papel que lhe havia sido reservado no
momento da criação da nova cidade, bem ao gosto dos paradigmas do urbanismo
dos modernos. Mas, o reconhecimento da precariedade sugeria que a cidade
dispersa precisava de outros centros de comércio e de serviços, além do centro
tradicional. O São Francisco que poderia ter substituído o centro urbano, antes o
complementava. Os outros centros de bairro como os da Cohab e do Cohatrac que
começavam a aparecer atendiam a uma população mais localizada, não atraindo a
elite, que continuava a usar o centro.

Foto 37: Vista aérea do Tropical Shopping Center


Fonte: http://www.jornalpequeno.com.br/blog/robertlobato.
Acesso: 23 de novembro de 2010
Ao fundo se avista o Centro Universitário do Maranhão – Uniceuma (1990) e prédios
comerciais e residenciais.
185

Deste modo, o shopping center construído ali, próximo do conjunto residencial


do Renascença II, incentivava a ocupação daquela área, tem razão Burnett.
Principalmente porque sugeria a possibilidade de construção de uma nova
urbanidade, a possibilidade de um novo centro, mais próximo dos novos bairros.
Villaça (2000) defende que as transformações de nossas cidades são fruto da
disputa pela apropriação de uma boa localização somada à luta pelo domínio dos
meios e condições de transporte para alcançá-la. É esta disputa que leva à
produção de espaços urbanos diferenciados, que leva ao que ele chama de sítios
sociais muito particulares, ou seja, à segregação espacial dos bairros residenciais
das distintas classes sociais, que constitui uma das características mais fortes da
urbanização brasileira.
Ele acrescenta que o que as classes sociais procuram – e do que a classe
dominante não abre mão – é a possibilidade do controle do tempo de deslocamento,
possibilidade de opção, para a realização de suas atividades. As camadas mais
altas da população trocando as vantagens de morar na cidade, em áreas mais bem
equipadas do ponto de vista da vida urbana, mais próximas dos locais de trabalho,
de estudo, do comércio, dos serviços, pelo conforto do morar mais sossegadamente
em áreas ainda não urbanizadas, o automóvel mantendo a possibilidade do alcance
do centro sem mudanças significativas de tempo, ou com um conforto maior.
Então, quando essas elites passam a não ir mais ao centro, ou não querem
mais ir, seus outros interesses suplantando as vantagens que o centro antigo
poderia oferecer, ou se o tempo de deslocamento mesmo com o uso do automóvel
não é mais suportável, o centro vai até às elites.

Assim se as classes de alta renda se deslocam para a periferia – o que só


foi possível porque houve um Estado que construiu boas rodovias e uma
economia que produziu automóveis – para lá também vão (já há décadas)
as escolas dessas classes, seus shoppings e até o centro da cidade.
(VILLAÇA, 2000, p. 244)

Dito de outra forma, as classes mais abastadas ao se mudarem para outras


regiões acabam por construir para si um novo centro. De outro ponto de vista, o
comércio passa a considerar interessante investir nestas localizações. Em São Luís,
tudo sugere que chegara este momento, o momento da construção de um novo
centro para as elites. É preciso, no entanto, um olhar mais de perto, principalmente
analisando esta questão no contexto de São Luís.
186

Burnett, citando Marques, coloca outros fatores que levaram a prefeitura a


revisar o Plano Diretor. Entre eles, “um crescimento populacional de 85% em apenas
cinco anos” (Marques, apud BURNETT, 2007, p. 187) provocado por “modificações
na estrutura fundiária do campo maranhense e pela atratividade que a capital, como
destinatária dos grandes investimentos econômicos, começa a provocar nos
movimentos migratórios até mesmo dos estados vizinhos”. Na verdade
preocupações sobravam. Incluindo uma imensa crise na construção civil que, extinto
o BNH, ficara sem opção. Bom lembrar que o mercado imobiliário, depois de uma
década de intensa atividade respondendo ao crescimento e à instalação das duas
indústrias, estava parado. Tudo isto em um contexto em que começavam a se
adotar as ideias neoliberais, em um contexto no qual

não obstante a economia maranhense encontrar-se definitivamente


integrada à dinâmica da economia nacional, a abrupta redução no fluxo de
investimentos públicos e privados no Estado e as restrições sobre os gastos
públicos levaram a que a década de 1990 se configurasse na verdadeira
“década perdida” (de baixo crescimento) para o Maranhão. (HOLANDA,
2004, p.9)

Felipe Holanda reconhece nesta década de 1990 o segundo ponto de


descolamento da economia de São Luís. Os gastos privados se reduziam por conta
do término do período de instalação da Vale e da Alumar que haviam gerado
inúmeros investimentos em construção e aquecido o mercado imobiliário. Os
investimentos do Estado diminuindo por conta das novas políticas neoliberais. Em
uma situação na qual o maior cliente pagador e o maior empregador é o próprio
Estado, pode-se imaginar a situação de crise, especialmente para o setor de
construção civil.
Com tudo isto acontecendo, a Prefeitura se decidiu por um novo Plano Diretor
para o Município em 1992 e pela criação do Instituto de Pesquisa e Planejamento
Municipal (IPLAM)32, com o objetivo de unificar suas ações de planejamento.

5.1 O PLANO DIRETOR DE 1992

Entre os muitos motivos para a reavaliação do Plano Diretor não parece estar,
portanto, o bem sucedido Projeto Reviver, o que por si só já é uma indicação de
como era visto o Centro Histórico. O centro era o centro da cidade, na acepção que

32
Atual ICID – Instituto da Cidade.
187

se consagrou com o urbanismo modernista: centro comercial, centro administrativo,


centro de negócios, centro político, centro cívico.
Naquele momento a recuperação da Praia Grande, mesmo depois do
Reviver, não era vista como uma possibilidade de volta à cidade, de ponto de partida
para a re-concentração, de ponto de partida para o re-agrupamento da cidade, para
a reversão da dispersão, para a reversão da desconcentração. Os novos
paradigmas de respeito à cidade existente, vão se desenhando na perspectiva de
um centro histórico espaço da cultura, do lazer e do turismo.
A ideia da desconcentração, que vinha sendo construída desde o Plano
Diretor de 1974, de construção de uma nova cidade com bairros modernos, cada
qual com seu centro de bairro, é ainda a base do pensamento deste novo plano. A
questão é que, enquanto os novos bairros deveriam ter como complemento o seu
espaço comercial, o centro deveria continuar sendo o central business district ,
reafirmando-se a representação do centro que não serve como área residencial.

Figura 67: Zoneamento de acordo com o Plano Diretor 1992. No detalhe: a nova Zona Administrativa.
Fonte: Prefeitura de São Luís, 2006. Modificado pela Autora.
188

Para agravar a situação o Plano Diretor de 1992 delimitou uma nova zona
administrativa, próxima às áreas nobres, local para onde já vinham se mudando,
desde o final da década de 1980, diversos órgãos públicos.
No momento em que o Reviver recuperava a Praia Grande, esta nova área
administrativa sugere o abandono da ideia inicial do Projeto Praia Grande (1972), a
ideia de instalar ali o centro administrativo, concentrando os diversos órgãos
públicos naquela região. Na prática, desde então, os diferentes níveis de governo
têm se mudado para a nova região administrativa. O que reforça a representação do
centro histórico como atração cultural, ou como atração do turismo cultural.
Por outro lado, os objetivos do Plano Diretor apresentam um amplo espectro
de intenções. A administração de Jackson Lago, naquele momento clamava o seu
comprometimento com os setores populares fazendo notar que implantara, desde o
começo, mecanismos de participação da população.
Assim, o Plano Diretor de 1992 trata da participação dos cidadãos nas
decisões que afetam a organização do espaço. Preocupa-se com a qualidade e a
oferta de prestação de serviços públicos e a qualidade do ambiente urbano.
Preocupa-se com a transparência da ação do governo e a ampliação do acesso à
informação por parte da população. Com a melhoria da qualidade de vida na cidade
e a redução das desigualdades entre suas regiões. Com a eliminação do déficit de
infraestrutura, equipamentos sociais e serviços urbanos que pudessem contemplar,
de modo especial, a população de baixa renda. Preocupa-se com as populações
mais carentes e determina a criação de Zonas de Interesse Social (ZIS), que
buscavam assegurar a permanência de núcleos populares já consolidados.
Ao mesmo tempo, é interessante observar como se manifestam, no plano, os
problemas sentidos pela cidade, como, por exemplo, o objetivo da melhoria do
transporte coletivo, garantindo aos usuários maior cobertura, maior frequência,
pontualidade, segurança, conforto e tarifa justa. Eram todas reivindicações da
população em relação ao transporte, mas também projetos acalentados pela
prefeitura que depois foram desenvolvidos na forma dos terminais de integração.
Outros projetos são reivindicações também, mas não vão sair do papel.
Falam da cidade como ela era, porém. Como exemplo, a segurança do pedestre na
sua locomoção que ainda é um grande problema, especialmente nas tais avenidas
ditas de alta velocidade. Na verdade já eram um problema quando criadas, agora,
quando são “urbanizadas”, ou seja, quando se instalam nelas edifícios comerciais e
189

de serviços mantendo-se o mesmo padrão anterior, o padrão de quando eram


estradas no meio do nada, o padrão “sem calçadas e sem sinais de trânsito”, tornam
impossível a sua travessia pelo pedestre comum. Ou mesmo o caminhar.
Em relação aos modos de morar algumas propostas se destacam:
 A elaboração de implantação de projetos de vias de interligação de corredores entre
bairros e na periferia;
 O complemento da malha viária, de modo a possibilitar a ligação entre domicílio, polos
de empregos e polos prestadores de serviços;
 A implantação de praças de serviços, contendo equipamentos sociais e espaços livres,
como meio de acelerar e reforçar a constituição de polos de atração em bairros;
(PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1992)

É possível ver, também neste quadro, questões originadas por e na


construção da cidade dispersa. Por exemplo, as vias de interligação são necessárias
para resolver o problema dos loteamentos e conjuntos habitacionais criados de
forma individualizada a tal ponto que dificultam não apenas a interação entre os
bairros, mas também a mobilidade entre eles. Observa-se a dispersão da cidade, a
separação e o isolamento das áreas residenciais do comércio e dos serviços aqui
representados como “polos de empregos e polos prestadores de serviços”.
E principalmente a intenção de consolidar a desconcentração iniciada no
primeiro plano diretor ao se enunciar claramente a necessidade de “acelerar e
reforçar a constituição de polos de atração em bairros”.
As duas diretrizes seguintes vão ser fundamentais para a mudança nos
modos de urbanizar:
 A implantação de Operações Urbanas, entendidas como inversões conjuntas dos
setores privado e público, destinadas a produzir transformações urbanas localizadas;
 A utilização de mecanismos tributários e de incentivos urbanísticos para estimular a
utilização de terrenos desocupados em áreas dotadas de infraestrutura urbana.
(PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1992).

São elas que vão possibilitar um novo modo de morar, a morada vertical,
incentivando o adensamento e a verticalização. Na verdade, o PD/92 inclui vários
dos instrumentos que estavam sendo discutidos no processo de aprovação do
Estatuto da Cidade. No entanto, apesar da atualidade dos instrumentos
disponibilizados (ESPÍRITO SANTO33, 2006, p. 80):

o PD/1992 encontrou a mesma dificuldade apresentada por vários


municípios do País a partir daquela data: os instrumentos, para sua plena
utilização, além de suas leis complementares específicas, necessitariam

33
O Arquiteto e Urbanista José Marcelo do Espírito Santo é Presidente do Instituto da Cidade (ICID),
antigo IPLAM, tendo assumido o cargo após a saída do Arquiteto e Urbanista Gustavo Marques,
fundador do Instituto na década de 1990. Espírito Santo foi o responsável pela condução do processo
de revisão do Plano Diretor de 1992, em 2006, na administração de Tadeu Palácio, do PDT.
190

estar distribuídos no território municipal. Ou seja, deveriam constar num


mapa da cidade anexado à lei do Plano Diretor, informando de maneira
clara em quais trechos da cidade os instrumentos propostos poderiam ser
utilizados. Desta forma apenas o solo criado, aprovado em lei específica
juntamente com o Plano Diretor, teve utilização prática na cidade.

A explicação faz parecer que esta exigência é uma exigência burocrática, que
nada mais faz do que dificultar a aplicação dos instrumentos, quando na verdade,
“constar no mapa” mais que facilita o entendimento, permite o planejamento do
território e impede o uso aleatório do instrumento. Não tendo sido feito, não foi
possível a lei ser aplicada. Curiosamente, só o instrumento que interessava ao
mercado imobiliário foi devidamente regulamentado. O instrumento das operações
urbanas vai ser adotado, regulamentado e aplicado. Com tanta constância e
intensidade que vai acabar sendo a regra em vez da exceção em determinados
pontos da cidade, como por exemplo, no Renascença II.
Repete-se o padrão “a cidade aqui, o patrimônio lá”. O outro lado da história
ou o lado do poder público da representação, “a casa é minha, o patrimônio é deles”
identificada como a representação dos moradores do centro histórico (VENANCIO,
2002). As diretrizes, embora venham encabeçadas pela advertência de que a
proteção do patrimônio fica incorporada ao processo permanente de planejamento
não avançam na direção de dizer como e quando isto será feito.
Fazem parte da política de valorização do Patrimônio Cultural do Município:
I. Definição de critérios de intervenção para áreas de proteção e
conjuntos urbanos de interesse;
II. Elaboração de projetos e normas edilícias especiais para a
reciclagem e recuperação dos conjuntos tombados ou bens tombados
isoladamente;
III. Inventário, classificação e cadastramento do patrimônio cultural e sua
atualização permanente;
IV. Definição de critérios para instalação de mobiliário urbano, de
vinculação publicitária, anúncios indicativos, artefatos e equipamentos de
uso público.
Art. 46 - Considera-se bem cultural passível de preservação aquele que
atenda a alguma das seguintes exigências:
a) Seja parte integrante de um conjunto de bens de valor cultural;
b) Apresente características morfológicas e de ocupação típica de uma
determinada época;
c) Constitua-se em testemunho de uma das etapas da evolução
histórica e arquitetônica da área na qual está inserido;
d) Possua inequívoco valor afetivo coletivo ou se constitua em marco na
história da comunidade.
Art. 47 - O Poder Executivo encaminhará Projeto de Lei dispondo sobre o
tombamento de bens culturais e sobre a criação de áreas de proteção aos
bens tombados. (PREFEITURA DE SÃO LUÍS, 1992)

Não poderia ser mais amplo e inespecífico. Não menciona o já definido


Centro Histórico, nem as áreas tombadas. E, principalmente, trata o patrimônio
191

cultural como um bem isolado, explícita e implicitamente, em vez de percebê-lo na


sua condição de parte da cidade, de bairro e de centro urbano, embora haja no
interior do Plano, importantes considerações sobre a função social da cidade e da
propriedade, de instrumentos que bastava terem sido definidos para o centro que
poderiam ter contribuído para sua conservação.
Então, se o PD/74 contribuiu paradoxalmente para a instauração do Centro
Histórico como parte de uma cidade moderna, como objeto de turismo,
considerando-a inadequada para abrigar os novos modos de morar, o segundo não
mudou em nada esta representação. Manteve a mesma visão de centro inadequado
aos modos de morar modernos.
Por outro lado, o IPLAM é uma instância de pesquisa e planejamento
importante que procedeu ao levantamento urbanístico do centro de São Luís em
1998, em parceria com o governo do Estado.

Figura 68: Centro Histórico de São Luís Mapa de Usos em 1998


Fonte: ICID, 2010
No mapa é possível ver claramente a mancha amarela que corresponde ao uso habitacional tendo ao
centro a Rua Grande. Observa-se também a diferença entre os dois centros, o Centro Histórico e o
centro-que-não-é-histórico. No primeiro o uso institucional (verde) predomina, enquanto no segundo a
predominância é do uso residencial. No primeiro, ainda havia em 1998 uma grande concentração de
móveis sem uso (rosa).
192

Este levantamento revelou um centro que se dizia perdido. Ou se perdendo.


Revelou um centro, onde o uso majoritário era o uso residencial, exatamente na
área que se denomina aqui de centro-que-não-é-histórico, ou na zona tombada
estadual. As áreas que permaneciam e que ainda permanecem, os chamados
nichos residenciais.
Os dados sobre o estado de conservação, como se verá no mapa a seguir
também era um indicativo da vivacidade do centro como lugar de morar. O uso se
mantinha e as residências estavam em um ótimo estado de conservação.

Figura 69: Centro Histórico de São Luís – Estado de Conservação em 1998. Estado de Conservação
dos Imóveis do Centro. Levantamento Urbanístico de 1998.
Fonte: Prefeitura de São Luís, Instituto da Cidade, 2009.
É possível notar que o Centro Histórico-Praia Grande também se apresenta diferente do Centro-que-
não-é-histórico em relação ao estado de conservação dos imóveis, mostrando uma maior
quantidade de imóveis em péssimas condições e em ruínas.

Mesmo assim, não se tratou de incentivar a manutenção da ocupação


residencial do centro. Pelo contrário, acabou-se ampliando a tendência de
substituição do uso residencial pelo comercial, estimulando, porque permitindo,
todos os usos nas áreas antes residenciais do centro e de sua adjacência imediata,
ampliando a zona determinada no PD/74 de zona tombada com uso comercial
predominante.
193

Mesmo porque os dados não foram levantados para serem usados para a
determinação de usos, ou estratégias de ocupação do centro, mas destinados a
orientar diretrizes para a conservação dos imóveis e das vias do centro histórico não
rompendo também com a tradição de separação institucional de quem deve cuidar
da área considerada patrimônio histórico. De qualquer maneira não passaram dos
estudos, não se concretizando em legislação.
Ainda assim, é importante notar que o Plano Diretor de 1992 foi importante e
interferiu na configuração espacial da cidade e nos modos de morar. Especialmente
porque foi neste plano que aconteceu uma correta apreensão dos imensos vazios
criados na cidade pela urbanização dispersa. A cidade se tornara a cidade dos
caminhos, das estradas, dos labirintos e dos pedaços de cidade que não
conseguiam nem ao menos se unir, os pedaços deliberadamente espalhados pelo
território.
Mogin (2009) faz notar que a ideia da cidade compacta, a que proporciona a
experiência urbana em seu primeiro sentido, mesmo fragilizada, está presente no
imaginário coletivo. A ideia da concentração que possibilita a experiência da vivência
compartilhada, a experiência de se expor para a vida pública, permanece como uma
ideia mental de cidade e, mais que isso, permanece como um comportamento dos
citadinos ainda que sob o bombardeio da ideia de uma sociedade individualizada. A
cidade ela mesma, um misto de concreto e imaginário, de físico e de mental.
É neste sentido que se pode interpretar o novo modo de morar que se criou
na nova espacialidade originada do novo Plano Diretor.
Uma contribuição importante para esta nova espacialidade foi o fato de que a
proposta de mudança na legislação, como foi já salientado, promoveu o
adensamento de determinadas áreas da cidade. Para Espírito Santo (2006, p.80):

Um dos principais objetivos da Lei de Zoneamento de 1992 foi o incentivo à


ocupação dos vazios urbanos existentes em quantidade significativa na
cidade. Da mesma forma a ocupação dessas áreas associadas aos índices
não atrativos nas faixas limítrofes do município impediriam o crescimento da
cidade em direção a São José de Ribamar. O incentivo a essa ocupação foi
efetivado através dos índices urbanísticos, que, em vários trechos da área
urbana tiveram, por exemplo, seu gabarito ampliado de forma significativa
(de seis para doze pavimentos) reforçados pela implantação do solo criado
que possibilitou edifícios de até 15 andares. (grifos nossos).

Os vários trechos mencionados por Espírito Santo tinham endereço certo: as


áreas do Renascença, Ponta d’Areia e os chamados corredores principais, as
avenidas que atravessavam a cidade na área nobre.
194

Figura 70: Novos Gabaritos e sua localização Figura 71: Operações Urbanas PD/92
Fonte: Prefeitura de São Luís, 2006 em Espírito Santo, 2006

No que acabou por se tornar uma área nobre prestigiada, no Renascença II,
alterou-se o gabarito máximo das edificações de seis para dez andares com
possibilidade de atingir a altura de quinze andares, através do instrumento da
operação urbana de solo criado, o único devidamente regulamentado.
No entanto, intencionalmente ou não, a proposta de diminuir os “vazios
urbanos” se transformou no incentivo ao mercado imobiliário. Espírito Santo (2006,
p.80) faz notar que o adensamento se concentrou tão somente no Renascença II,
que aqui se reconhece pelo seu nome oficial, Loteamento Boa Vista, o trecho
compreendido entre as avenidas Colares Moreira e Holandeses

Os índices urbanísticos distribuídos pelo território municipal seriam


responsáveis pelas densidades projetadas, que garantiriam uma ocupação
induzida nos vazios urbanos identificados. Estas densidades, porém,
quando comparadas às densidades atuais, revelam a grande concentração
construtiva apresentada em apenas alguns pontos da cidade – em particular
sobre áreas do Loteamento Boa Vista, em trecho compreendido entre as
avenidas Colares Moreira e Holandeses – e um total desinteresse pelo
mercado imobiliário local na urbanização de outras áreas. (ESPÍRITO
SANTO, 2006, p.80)

O que ele não diz é que nos lotes onde deveriam ser construídas casas
isoladas, seguindo a estratégia de desestimular o crescimento em direção aos
municípios vizinhos, uma casa isolada por lote, em cada um destes lotes começam a
ser construídas de oito a dez casas, o conjunto se configurando como condomínios
fechados, em completo desacordo com os índices propostos no Plano Diretor de
1992 (RIBEIRO, 2007).
De qualquer maneira, seguindo a mudança que aconteceu nas leis de uso do
solo com o aumento do gabarito das edificações, a indústria da construção civil
encontrou um novo filão: nas torres residenciais se instalou um novíssimo modo de
195

morar, em apartamentos, que naquele momento se reinventaram, adquirindo o


requinte necessário para atrair novos moradores das classes mais altas
(ASSUNÇÃO, 2006 e TARGINO, 2008). A proposta e o local encontraram eco na
população. Construiu-se de forma intensa.
A verticalização, portanto, acontece por uma conjunção de fatores e
interesses por parte do mercado imobiliário, da indústria da construção civil, dos
empresários de diversos setores comerciais e do próprio poder público, aliados a
uma visão de planejamento urbano.
A verticalização, o apartamento, não era propriamente uma novidade em São
Luís. Como símbolo de modernização, compareceu prontamente ao chamado de
construção da modernidade. Os primeiros se instalaram nos anos 1940, mas até a
década de 1960, não passavam dos quatro ou seis andares e em sua grande
maioria destinavam-se aos segmentos médios da população. O primeiro edifício de
apartamentos de dez andares, visto como um modo de morar sofisticado, o Edifício
Caiçara, foi construído na segunda metade da década de 1960, depois que o bonde
saiu de circulação em São Luís, na prefeitura de Cafeteira (1966-1970), no lugar
destes trilhos, no coração de São Luís: a Rua Grande, o centro comercial tradicional.
Carregava os signos das cidades modernas: comércio e serviços nos primeiros
andares e residências a partir do segundo. As famílias modernas aderindo com
satisfação. Mantém o uso residencial até hoje (FIGUEIREDO, 2006).
Com a mudança nos modos de urbanizar e a prioridade da construção da
cidade dispersa, a construção de edifícios de apartamentos no centro ou em
qualquer lugar na cidade antiga ficou na contramão e poucos foram construídos, de
modo esparso pela cidade, ainda majoritariamente destinados aos segmentos
médios, poucos destinados às classes de alta renda.
Reinventam-se, no entanto, depois do PD/92, com toda pompa e
circunstância. O apartamento se afirma como moradia ao incorporar características
mais sofisticadas e ao trazer para o domínio privado atividades de lazer que criam
um espaço coletivo restrito a seletos membros de uma comunidade.
Fato que também revela uma característica dos nossos tempos atuais que
privilegia o shopping center como ponto de encontro e o viver entre muros altos e
protegidos do contato com o contexto urbano que o cerca. E que confirma que,
como já observa Lílian Vaz (2002), à medida que a habitação coletiva se aprimora
196

ela passa a ser absorvida pelas camadas mais privilegiadas e se transforma em


símbolo de uma modernidade desejada.
A classe média alta aderindo, os apartamentos crescem em tamanho e
sofisticação. São três ou quatro suítes, com closets, banheiras de hidromassagem e
outras atrações. As áreas comuns incluem além dos tradicionais playgrounds e
salões de festa, piscinas, saunas, churrasqueiras, fitness centers, salas de vídeo,
pequenos auditórios, espaços teen, espaços baby, espaços femme, home office,
sala de cinema, de bricolagem, quadras de todos os esportes e tudo mais que a
imaginação permitir (TARGINO, 2008 ).

Foto 38: Vista do início do Renascença da Avenida dos Holandeses, na altura do Calhau
Foto 39: Vista do Renascença na mesma Avenida dos Holandeses na altura da Ponta do Farol.
Fonte: autora, 2010.

Este processo não acontece sem a participação da população. “Novos modos


de morar”, “modos de morar modernos”, acabam por se revelar como impregnados,
acima de tudo, de um significado de prestígio social. Como diz Baudrillard (1995) a
escolha do lugar de residência, do colégio dos filhos, da rede de relações, a simples
posse deste ou daquele objeto em si mesma é um “cartão de cidadania”.
Confirmando a tese de Villaça (2001), de que a escolha do lugar de morar pelos
segmentos mais avançados arrasta para si os equipamentos desejados por esta
população, para esta nova área cujo adensamento havia sido cuidadosamente
preparado pela nova legislação, seguiram escolas particulares, de todos os níveis
inclusive universidades. Seguiram bancos, comércio e serviços e por último, já nos
anos 2000, uma área de lazer à beira da recuperada, revitalizada, gentrificada,
Lagoa da Jansen.
Ao primeiro shopping, seguem-se outros empreendimentos, centros de
comércio e edifícios dedicados principalmente a alojar serviços, escritórios e
197

consultórios de profissionais liberais, tanto na sua vizinhança imediata como em


locais ainda não ocupados, estes últimos com a expectativa de repetir o mesmo
processo de construção de condomínios residenciais à sua volta. Especial destaque
para um novo shopping, no Jaracati, ao lado do sítio Santa Eulália, cuja construção
coincide com outro marco importante para a conservação: o momento em que São
Luís é considerada patrimônio da humanidade, em 1997. O São Luís Shopping
inaugurou em 1999.
Desta vez a esperada construção de nova área residencial nas imediações,
não aconteceu. Embora tenham se instalado mais empreendimentos e construídas
novas avenidas periféricas, como a Avenida Ferreira Gullar, ao longo do Rio Anil que
se liga à malha viária antiga, os condomínios residenciais, passados já mais de dez
anos não se instalaram ali. No entanto, isso não pode ser computado como
fracasso. Pelo contrário. É só lembrar que esta é a área escolhida para se instalar o
novo setor administrativo no Plano Diretor de 1992. A zona administrativa. Para lá
foram se mudando as diversas instâncias do poder público, do Governo de Estado,
do Poder Judiciário, da Promotoria Pública.
Os apartamentos sofisticando-se despertam o interesse dos moradores das
casas térreas. As casas que outrora já tinham sido casas de veraneio e fim-de-
semana, que foram reformadas ou não, começam a cumprir o ciclo da transformação
já vivido na área central: comércio, serviço e até uso institucional, como é o caso do
São Francisco e do Renascença I e mesmo do Olho d’Água (TARGINO, 2008 ).
Onde a verticalização não era permitida pelo Plano Diretor se constroem os
condomínios fechados de casas isoladas, criando-se outro filão para o mercado
imobiliário e para a indústria da construção civil (RIBEIRO,2007).
Para Burnett (2006, p. 15)
vale assinalar o surgimento entre nós – logicamente, já experimentado em
outras cidades brasileiras – do condomínio horizontal, outra proposta de
privatização da cidade, tal qual seu congênere vertical e o shopping center.
Disponível para aqueles que não se rendem à praticidade dos
apartamentos, o agrupamento de unidades unifamiliares que dividem os
gastos com segurança, lazer e manutenção, é o mais novo sucesso
empresarial e, do ponto de vista urbano, uma ameaça mais letal que as
torres: prescindindo de grandes glebas para se realizar, os condomínios
horizontais fechados interferem na estrutura viária dos bairros, nos recursos
ambientais coletivos e no próprio poder municipal de controle e fiscalização
urbana desta nova tipologia, a “cidade amuralhada” do século XXI.

É bom notar que as intervenções na cidade dispersa não se limitaram à


construção do Tropical Shopping. Nos anos 1980 terminou o processo de duplicação
198

das avenidas, as vias estruturantes do PD/74, especialmente a dos Holandeses, que


dá acesso aos bairros próximos da orla litorânea.

Avenida Litorânea

Avenida dos Holandeses

Figura 72: Vista das Novas Avenidas: Avenida dos Holandeses e Avenida Litorânea
Imagem histórica do Google Earth. Data das imagens: 3/01/2004. Modificada pela autora.
Completa-se, com Edson Lobão, a construção da Avenida Litorânea, tão propagandeada desde o
primeiro momento da urbanização modernizadora e cuja construção tivera início ainda com Luís
Rocha (1983-1986) e continuara no Governo de Cafeteira (1986-1990).

O governo de Edson Lobão dá continuidade tanto ao Programa de


Preservação e Revitalização do Centro Histórico como à construção da nova cidade.
Na década de 1990, finalmente se completa um dos projetos acalentados há muito:
a conquista da orla pelo asfalto, a Avenida Litorânea abrindo o caminho para a vida
urbana à beira-mar, à semelhança de outras cidades nordestinas. Neste ponto é
importante dar um crédito ao PD/92 que limitou o gabarito das edificações na orla a
três pavimentos.
Curiosamente, (ou seguindo o plano de ocupação do “miolo” antes de ocupar
a beira-mar) na Avenida Litorânea, como já havia acontecido na Ponta d’Areia, são
construídos pouquíssimos edifícios residenciais, reservando-se a área para hotéis,
pousadas, restaurantes, enfim, lazer e turismo. As casas (que estavam lá antes
mesmo da Avenida Litorânea se completar) seguindo esta linha de transformação,
deixam de ser casas para serem hotéis, pousadas, bares ou restaurantes.
Os agentes imobiliários, que decididamente se consolidaram como os
principais promotores da urbanização, desinteressados de construir edifícios de três
andares, ficaram aguardando acontecer sua reivindicação de uma alteração de
gabarito na Avenida Litorânea. Esta vai ser apresentada de forma contundente no
199

início dos anos 2000, transformando-se em uma força para a revisão do Plano
Diretor de 1992, em 2006 (BURNETT, 2009, 445-446).
Por outro lado, a área do Renascença II, ao ter aumentado a densidade,
atraiu para si um grande número de atividades que permitem o andar pela cidade
que é o tradicional modo de se apropriar do espaço urbano. Muitos dos moradores,
em geral os que experimentaram o morar em casas em áreas afastadas do centro,
são enfáticos em afirmar que “agora ficou mais fácil porque os meninos vão
sozinhos ao colégio, às aulas de natação, inglês ou balé.” (ASSUNÇÃO, 2006).
Escola de natação, de inglês e de balé que, atraídas pela concentração se
instalaram na nova espacialidade.
Recriava-se, em outro lugar e em outra escala, a espacialidade do São
Francisco e as características de expansão urbana que se pretendera definir ali, já
desde o primeiro plano diretor. O bairro adquiriu características da urbanidade da
cidade e da experiência urbana em seu primeiro sentido (MOGIN, 2009). Depois de
anos de prática de construção de espaços recortados, longe de tudo e confinados
em seus próprios limites, há a possibilidade de retorno à construção da urbanidade.
A urbanidade de poder se movimentar a pé de casa para o trabalho, para as
compras, para atividades cotidianas, contando ainda com uma boa diversidade de
serviços e comércio. É um novo modo de morar que se afirma.

5.2 NOVOS MODOS DE MORAR: DO ALTO DAS TORRES OU ATRÁS DOS


MUROS.

O Renascença II vai abrigar um novo modo de morar: a morada vertical. Um


novo modo de morar que se define por uma urbanidade moderna, pela praticidade e
pela segurança. Nas falas dos moradores observa-se a satisfação do morar
moderno, a praticidade de morar em apartamento. Neste modo de morar não é

preciso “ter muitos empregados, cuidar do jardim, do quintal, do cachorro. Não

preciso de vigia, de jardineiro...” (ASSUNÇÃO, 2006).


Em pouco tempo alguns moradores passaram a comparar a região com
bairros da zona sul do Rio de Janeiro. A urbanidade moderna não é feita das
cadeiras na calçada como no centro e em certos bairros. Mas, o contato, o se expor
para a vizinhança e o compartilhar os espaços públicos com os outros, está
presente, na ida ao shopping, na ida ao café (ou a versão maranhense do café, uma
200

padaria mais sofisticada) da esquina ou simplesmente no caminhar para as


atividades cotidianas, aproveitando inclusive a Lagoa da Jansen. (ASSUNÇÃO,
2006 e TARGINO, 2008)
Neste momento, mudou a relação com o centro antigo. Se, para os
moradores dos bairros residenciais próximos à praia, a distância do centro fazia
parte do modo de morar adotado e se resolvia pelo deslocamento individual no
automóvel particular, para este novo modo de morar, outro centro começava a se
construir em substituição ao antigo. Certamente não foi de imediato, ou melhor, não
bastou a construção do Tropical Shopping em 1986. Foi necessária a mudança da
legislação, a transferência das escolas particulares, a universidade particular, enfim
uma nova convenção urbana no sentido usado por Abramo 34 (1995).
Do ponto de vista das pessoas que haviam se recusado a adotar os novos
modos de morar distantes da urbanidade do centro, o Renascença oferecia uma
alternativa atraente: a experiência urbana (MOGIN, 2009) no seu primeiro sentido,
mas renovada e moderna. Não à toa, o modernismo que infligira mudanças no
centro e introduzira novos modos de morar, nos anos 2000, na representação dos
moradores estava relacionado com os modos de morar em apartamento
(VENANCIO, 2002).
A morada vertical, o novo modo de morar, atinge o centro. Especialmente os
segmentos médios que ali permaneciam. E começa a atingir o comércio (incólume
até então) e os serviços. Começa a mudar a rotina da classe média alta com a saída
das escolas particulares mais tradicionais do centro. O centro passa a ser cada vez
menos necessário para os novos modos de morar do outro lado do Rio Anil.
Ao mesmo tempo à praticidade da urbanidade moderna, se acrescentam dois
componentes: a privacidade e a segurança. Moradores estão prontos a afirmar que
morar em apartamento é mais seguro, porque “se pode sair sem preocupações, só
precisa fechar a porta” (ASSUNÇÃO, 2006; TARGINO, 2008). Em muitos casos a

34
Convenção Urbana é uma forma de resposta dos agentes produtores da espacialidade urbana
construída a um ambiente urbano em constante processo de modificação. Abramo (1995, p. 526-
537) lança mão do conceito de divisão econômico-social do espaço - DESE - de Lipietz que é a
forma pela qual as classes sociais se apropriam da espacialidade. Para que a DESE se reproduza é
necessário que haja um mecanismo regulador da apropriação do solo, que vai assumir formas
diferentes conforme o regime seja concorrencial ou monopolista. No primeiro, cada produtor da
materialidade residencial é incapaz de modificar as características socioeconômicas da
espacialidade. No segundo, que corresponde ao fordismo, capitais individuais têm o poder de
modificar a DESE propondo novas espacialidades que substituam as anteriores. A incerteza seria
um dos traços característicos do regime urbano fordista, na medida é preciso negar a
espacialidade passada, para impor o markup urbano. (ABRAMO,1995).
201

insegurança deixada para trás se relacionava com a ausência de vizinhos nas áreas
que já viviam um processo de abandono e de substituição do uso residencial pelo
uso comercial, como a cidade antiga ou o São Francisco, que a esta altura também
vive o seu momento de esvaziamento. Em outros, a insegurança era o isolamento
das casas, cercadas de muros altos, que deixam as ruas sem movimento. Nos
bairros do Olho d’Água e do Calhau. Em outros ainda, a presença incômoda das
“invasões”, que não estavam presentes no Renascença II.
Esta questão vai ser decisiva para dar outra conotação ao modo de morar. Do
Alto das Torres ou atrás dos muros, um novo modo de morar começa a se afirmar
(TARGINO, 2008). Na medida em que a tipologia dos novos prédios que se
esmeram em construir espaços para os carros exige andares de garagens
subterrâneas e altas muralhas para garantir a proteção, os edifícios são isolados das
ruas. A urbanidade começa a ceder espaço para o medo.
Nas ruas, agora isoladas dos edifícios pelas muralhas, o uso do automóvel
ganha um novo álibi: a segurança. Mesmo a escola sendo na esquina, rapidamente
o medo faz a caminhada das crianças impossível e a rotina de ir e vir de carro
continua. As muitas vagas na garagem atestando, ou desafiando e estimulando, a
posse de um carro para cada membro da família.
Ainda outro aspecto a considerar é que ao medo da violência, na propaganda
dos novos modos de morar, se soma o desejo do isolamento. O modo de morar se
modifica. A praticidade e a urbanidade cedem lugar a outra característica: a
segurança e o isolamento dos iguais nas comunidades, que traz junto, de maneira
ainda mais exacerbada, o componente de prestígio social. Os enclaves privados, os
guetos dos ricos (PAQUOT, 2009), o fechamento das fronteiras (BAUMAN, 2001). É
esta característica que vai alimentar a produção dos enclaves residenciais privados,
os chamados condomínios fechados.
Por outro lado, em pouco tempo, a influência decisiva do mercado imobiliário
começa a construir a representação do “novo espaço é sempre melhor que o outro”.
A incentivar a valorização de um, em detrimento da desvalorização do outro. Ou de
todos os outros. Embora não se perca a urbanidade já conquistada no bairro,
começa a ser divulgada (pelo próprio mercado imobiliário) a representação do
Renascença como bairro saturado, congestionado (TARGINO, 2009), justamente
por conta da urbanidade, da diversidade.
202

O mapa a seguir apresenta a localizaçao dos novos modos de morar, no alto das
torres ou atrás dos muros:

Mapa dos Novos Modos de Morar depois de 1992

Figura 73: Mapa dos Novos Modos de Morar depois de 1992


Mapa elaborado pela autora.
Neste mapa, sobrepõem-se ao primeiro mapa, as modificações ocorridas a partir do Plano Diretor de
1992 e identificam-se a produção da verticalização e dos condomínios fechados.

Neste ponto é preciso repetir que enquanto se constroem os edifícios no


Renascença, a indústria da construção civil luta para aumentar a altura das
edificações e, consequentemente, o número de unidades de apartamentos, em
outros trechos da cidade.
Enquanto espera vai ganhando terreno naquelas áreas nas quais a legislação
não permite a construção vertical, mas determina lotes para uma edificação que são
suficientemente grandes para que sejam construídas várias casas. De início se
configura mais como uma alternativa à morada vertical com casas individuais,
juntinhas umas às outras, com áreas comuns menos sofisticadas que os
apartamentos, mas que em compensação podiam ser adquiridas a um custo menor
(RIBEIRO, 2007).
Como os edifícios de apartamentos, os condomínios fechados não eram uma
novidade em São Luís, tanto de apartamentos como de casas individuais.
203

Foto 39: Condomínio Jardim dos Faraós (1982)– Olho D’Água. Fonte: CORDEIRO, 2010

A inclusão de “itens de lazer” como são chamados pelo mercado imobiliário


as inúmeras áreas coletivas que passaram a fazer parte do pacote condomínio
fechado, é que passou a ser uma novidade, junto com a sua sofisticação.
Um dos pioneiros destes condomínios aconteceu pela mão da Alumar que
adotou este modo de morar para seus funcionários. Dois condomínios, um mais
sofisticado, para os funcionários mais graduados, com amplas residências, com
casas individuais e um edifício de apartamentos de seis andares, instalados no meio
de uma grande área verde, uma espetacular área de lazer, que na verdade se
dividia em duas, uma para a prática de esportes, uma para o convívio social, o que
por si só para os padrões da época já constituía uma inovação. Ainda, como
novidade, completava o condomínio a instalação de uma escola que, importada de
Belo Horizonte, servia aos funcionários da Alumar, independente de serem
moradores do condomínio, admitindo também o ingresso da população local.

Escola
Pitágoras
Cohajap

Figura 74: Condomínio Buritis (1982)


Observe-se do outro lado o Conjunto Habitacional do Jardim Primavera (Cohajap) que tem
aproximadamente a mesma área que o condomínio. Ao lado, outros condomínios fechados de casas
isoladas.
Fonte: Google Earth. Acessado em 28/12/2010. Modificado pela autora.

Localizado entre a Avenida São Luís Rei de França, antiga estrada do Turu e
a nova Avenida Daniel de La Touche, ficava também perto da praia. Primeiros sinais
204

dos enclaves residenciais privados que vão proliferar duas décadas depois, tudo
rodeado de jardins e com ampla segurança.
Os condomínios da Alumar traziam em si o caráter do morar seletivo e do
enclave dos iguais, do expurgo dos estranhos que nos fala Bauman (2001). Levaria
ainda uma década para se consolidar como a residência dos segmentos mais
abastados da cidade. Começam a se multiplicar já no final da década de 1990,
especialmente como opção à verticalização. Depois da segunda metade da década
de 2000, como aconteceu com os apartamentos, se sofisticaram visando conquistar
as classes de poder aquisitivo maior, são clubes de morar, são bairros projetados.
Evidencia-como aponta Bauman (2001): o aprofundamento da segregação
espacial e o desprezo ainda maior pelos espaços públicos coletivos uma vez que a
atração desses condomínios é exatamente o morar com tudo por perto, os
condomínios-com-tudo-dentro, acentuando a substituição dos espaços públicos
coletivos por espaços privados de encontro e lazer. Os labirintos adquirem um novo
significado ao incluírem em seu desenho as ruas sem saída, de caminhos
interrompidos que dificultam as passagens, os acessos.
Agora, os pedaços da cidade embora próximos, são separados por barreiras
ainda maiores, os muros fortificados, as cercas elétricas, as câmeras de segurança.
Retorna-se à construção da cidade dispersa, da descontinuidade do construído na
beira das avenidas-estradas, de um lado, enquanto do outro os vazios urbanos são
preenchidos com espaços cercados por muros e fortemente protegidos.

Foto 41, 42.e 43: Condomínios Fechados em São Luís.


Fonte: Autora, 2010.
Na cidade dispersa, os condomínios continuam a sair na beira das estradas.

Foto 44: Avenida dos Holandeses.


Fonte: Paulo Rodrigues, 2010.
205

Foto 45: Avenida Holandeses e Avenida Colares Moreira


Fonte: Paulo Rodrigues, 2010.

5.3 O NOVO TEMPO DE ROSEANA SARNEY

Faz-se necessário para compreender melhor não apenas a continuidade do


processo, mas o impacto do novo Plano Diretor de 1992 e das novas espacialidades
no centro antigo, analisar brevemente o contexto político do Governo Roseana
Sarney e as políticas estaduais de produção do espaço. Roseana Sarney se elegeu
como governadora do Estado em 1994, reelegendo-se em 1998. Se o governo do
pai é o Maranhão Novo, o da filha vai ser o governo do Novo Tempo. De novo, o
novo, a mudança, é a marca que se quer imprimir. “Vou marcar o meu mandato pela
visão de um Novo Tempo. Tempo de mudar, tempo de construir, tempo de melhorar
a sorte do povo”. (Discurso de posse em O Estado do Maranhão 1/01/1995, Caderno
Política p. 3 apud GONÇALVES, 2006, p.44)
Se antes o Maranhão Novo significava a mudança, o abandono, a morte das
práticas arcaicas dos governantes passados, a derrota da oligarquia de Victorino
Freire, que mudanças o Novo Tempo significava considerando que os últimos
governos haviam sido apoiados pelo seu próprio grupo político?
É o historiador Wagner Cabral Costa (1997, p.28) quem analisa:

O discurso do “Novo Tempo” é pensado como a inserção do Maranhão nos


novos tempos da globalização e do neoliberalismo, com suas perspectivas
amplamente desfavoráveis à classe trabalhadora. Novamente, um discurso
imposto a partir de fora, dos processos mais gerais que atuam na sociedade
brasileira e mundial, evidenciando a grande capacidade mimética da
oligarquia.

A inserção do Maranhão nos novos tempos da globalização e do


neoliberalismo significou Roseana Sarney de mãos dadas com Fernando Henrique
Cardoso. Em 1994, o Novo Tempo foi o tempo da reforma administrativa, o tempo
de cortar custos, privatizações, parcerias público-privadas, aproveitamento turístico
do Estado, planejamentos estratégicos. Programas do tipo Comunidade Solidária.
Fortalecimento do mecenato no campo da cultura. Fortalecimento da cultura popular.
206

É interessante notar, lembrando o pensamento de Nestor Garcia Canclini


(1998), como o poder público em São Luís, especialmente ligado ao Maranhão
Dinástico como chama Fátima Gonçalves (2001), ao se colocar como modernizador,
para legitimar sua hegemonia, busca persuadir a população que ao mesmo tempo
em que se renova a cidade e a sociedade prolongam-se tradições compartilhadas
(GARCIA CANCLINI, 1998, p.159). Desta forma, se apropriam dos bens históricos e
das tradições populares. A favor dos Sarney, pai e filha, é preciso lembrar a tradição
intelectual que ambos apreciam cultivar. Porém, como nota Garcia Canclini (1998,
p.160), não se pode deixar de pontuar que:
Precisamente porque o patrimônio cultural se apresenta alheio aos debates
sobre a modernidade ele constitui o recurso menos suspeito para garantir a
cumplicidade social. Esse conjunto de bens e práticas tradicionais que nos
identificam como nação ou como povo é apreciado como um dom, algo que
recebemos do passado com tal prestígio simbólico que não cabe discuti-lo.
As únicas operações possíveis – preservá-lo restaurá-lo, difundi-lo são a base
mais secreta da simulação social que nos mantém juntos.

É assim que, como o pai José Sarney, que trabalhara com as tradições
culturais em São Luís, retirando do espaço marginal brincadeiras populares como o
bumba-meu-boi e o tambor de crioula (SARNEY, 2010, p.199), também Roseana
Sarney se identifica com a cultura popular. Restaurou o Carnaval de rua (que os
são-luisenses anunciam como o quarto melhor carnaval do Brasil), deu destaque às
brincadeiras populares, participa delas. Deu continuidade de conservação do Centro
Histórico, culminando com sua inclusão na lista do Patrimônio Mundial da Unesco.
Por outro lado, o Estado, através do Instituto de Previdência Social do
Maranhão (IPEM), financiou a construção de vários conjuntos habitacionais pela
cidade para funcionários públicos estaduais, desde que se começara a construir a
cidade moderna, como já foi visto. Processo que não parou mesmo depois de extinto
o BNH, tendo sido realizado inclusive no Centro Histórico, já na década de 2000.
O governo de Roseana Sarney manteve um programa específico de
financiamento para construção ou reforma da casa, o programa Minha Casa. Se
Sarney deixou um conjunto habitacional denominado Maranhão Novo, a filha
construiria o Novo Tempo35.

35
O interessante deste programa: o Novo Tempo foi construído na proximidade do Renascença II, já
em pleno processo de verticalização e consagração como área nobre. Nas terras do governo, na
proximidade do Sítio Santa Eulália que Cafeteira, quando Governador do Estado tentara construir
sem sucesso, por problemas de conservação do meio-ambiente, versão dos opositores, por
problemas políticos, na versão do próprio Governador Cafeteira.
207

Além disso, outro programa de intervenção no espaço público vai ter impacto
na cidade, especialmente nos bairros: os Vivas. Viva Madre Deus, Viva Renascença,
Viva Cohatrac e assim por diante. Um programa de construção de praças públicas
com pequenos anfiteatros que se incorporaram na vida dos bairros e passaram a ser
usados como espaços de promoção de festas e de encontro. Uma maneira de tentar
se aproximar de setores vinculados à cultura popular (ou cooptá-los, como apontam
os mais radicais opositores).
Nem é preciso dizer que se continuou construindo infraestrutura viária, agora
incluindo também os viadutos que passam por cima das avenidas de alta
velocidade. Os grandes investimentos em projetos urbanos se dividiram entre a
cidade antiga e a moderna: o Centro Histórico e a urbanização da Lagoa da Jansen.
Entretanto, apesar do investimento no Centro Histórico, o governo Estadual
começou a deixar o centro, para se instalar na área nobre, movimento que já vinha
sendo ensaiado desde o final da década de 1980. Demonstrando que se ia
consolidando a representação do centro histórico como atração do turismo
internacional, papel que vai sendo destinado ao Centro Histórico na cidade
contemporânea.
Se as políticas da Prefeitura não se ocuparam da conservação urbana no
Plano Diretor, as do Governo do Estado se ocupam de construir a conservação
apartada dos modos de morar contemporâneos, tratando de consolidar a posição de
centro cultural, de lazer, de turismo. A divisão entre o Centro histórico e o Centro-
que-não-é-histórico se torna cada vez mais evidente.

5.4 O CENTRO DIVIDIDO

Depois do Reviver e da continuidade do PPRCHSL nos anos 1990 do


governo de Edson Lobão, nos anos de 1995/1996 destacam-se a promoção cultural
da Praia Grande em atendimento à realização da Reunião Anual da Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a possibilidade de trazer para o
Centro Histórico os recursos do Programa de Desenvolvimento do Turismo
(Prodetur) e o começo das negociações para sua inclusão na Lista do Patrimônio
Mundial da Unesco.
A preparação da cidade para a reunião da SBPC consolidou o Centro
Histórico como área de lazer. Merece destaque a importância que eventos especiais,
em particular os que têm a capacidade de atrair visitantes, de atrair turistas,
208

assumem para justificar ou acelerar obras em sítios urbanos degradados históricos


ou não. Nas grandes metrópoles são as olimpíadas, os grandes campeonatos
mundiais. Em São Luís, a 47ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da
Ciência desempenhou este papel. De fato, este pode ser considerado um grande
momento para o Centro Histórico de São Luís. A Praia Grande brilhava com as
obras recém-terminadas, os restaurantes e os bares cheios, confirmando a tradição
de área de lazer que a acompanha até hoje.
Depois disso, com o Centro Histórico consolidado tem início o processo de
solicitação da inclusão de São Luís na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco.
Apresentam-se, de forma organizada os objetivos do PPRCHSL.

QUADRO 2:
Objetivos do Programa de Preservação e Revitalização do Centro Histórico de São Luís
1. Proporcionar a manutenção do uso residencial nas áreas do Centro Histórico.
2. Intensificar as atividades de assistência e promoção social, e priorizar ações de fomento a
geração de emprego e renda. Apoiar a instalação de centros profissionalizantes.
3. Incentivar as manifestações culturais e educacionais mediante o estabelecimento de centros
culturais e de criatividade e do fortalecimento das instituições públicas e privadas que se
dedicam à ação e difusão cultural, bem como apoiar as manifestações artísticas de indivíduos
ou grupos comunitários sediados na área.
4. Restaurar e preservar o patrimônio arquitetônico e ambiental urbano do Centro Histórico,
reintegrando-se à dinâmica social e econômica da cidade, em condições adequadas de
utilização e apropriação social.
5. Promover a revitalização econômica do comércio varejista, especialmente de gêneros
alimentícios regionais e artesanato e das atividades relacionadas ao turismo cultural.
6. Adequar as redes de utilidades, serviços e logradouros públicos: água, esgoto, drenagem,
energia elétrica, telefone, limpeza urbana, transporte, saúde, segurança, praças e rede viária,
de forma a beneficiar a população residente e usuários, propiciando ademais uma ocupação
mais coerente e diversificada no Centro Histórico.
7. Dinamizar as atividades portuárias tradicionais, visando à revitalização das funções
econômicas e culturais mais representativas do Centro Histórico, relativas à pesca artesanal
e ao transporte hidroviário de passageiros e carga.
8. Contribuir para o incremento do associativismo e consolidação das entidades de classe, de
forma a garantir uma participação efetiva da comunidade no processo de preservação e
revitalização do Centro Histórico.
9. Garantir, no âmbito da Coordenadoria do Programa, um processo permanente de avaliação
critica do Programa de Preservação e Revitalização do Centro Histórico de São Luís.
10. Assegurar o compromisso político da administração pública quanto à inclusão dos temas
relativos à restauração e à conservação dos bens culturais nos planos de governo estadual e
municipal.
Fonte: ANDRÉS, 1998

A partir deste ponto o Turismo assume uma importância maior. Ganha


importância o “incentivo às atividades de turismo cultural e de lazer, vocação
inequívoca do Centro Histórico de São Luís, que já passou a receber um contingente
expressivo de visitantes nacionais e internacionais a partir do processo de
revitalização iniciado em 1980”. (ANDRÉS, 1998, p.107).
209

Considerando que tudo começou com a intenção de aproveitar a cidade


histórica para o turismo cultural na visita de Parent ou para o “tourisme d’art”, como
constava no relatório de Viana de Lima (1973), se está de volta ao começo.
No entanto, mesmo tendo como defesa e como objetivo central as
possibilidades turísticas, o projeto incluiu obras relacionadas com o bairro popular do
Desterro, mais especificamente a recuperação e a ampliação da sua infraestrutura, a
recuperação de edificações e a revitalização das atividades portuárias. Ainda é
possível identificar um esforço no sentido de conciliar a permanência do uso
residencial e das manifestações culturais locais, além da promoção de emprego e
renda com o desenvolvimento do turismo, nas propostas. Parte foi realizada, parte
não pelo Governo do Estado. Parte significativa foi absorvida pelos projetos
elaborados pela prefeitura posteriormente, embora, como de costume, não se tenha
assumido esta apropriação. Nem todas foram realizadas, ou ainda não foram
realizadas.
Por outro lado, não dá para deixar de acentuar que neste processo de
preservação e revitalização do Centro Histórico de São Luís foram recuperados os
espaços públicos e a infraestrutura urbana, tornando-se disponível para a população
um sítio urbano em condições adequadas de utilização e apropriação. Que, a
recuperação dos solares e casarões proporcionou a instalação de órgãos públicos
de todos os níveis. De centros culturais, de centros de criatividade e
profissionalizantes, de diversas instituições de ensino, como a Escola de Música do
Estado, e o Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual do
Maranhão, entre outras.
Nem dá para esquecer também que, ao lado das intervenções diretas no
ambiente físico, o programa obteve um relativo sucesso com relação a favorecer a
permanência da população existente o que, no entanto, não impediu a vinda de
novas atividades e de novos usuários, entre eles os moradores do programa de
habitação e mesmo antes deles, os artistas, os responsáveis pela cultura popular, os
turistas, os habitantes de São Luís em geral, em busca de lazer. Na verdade,

O novo cenário configurado no Centro Histórico a partir da inauguração em


1989 recoloca tanto os bens culturais na vida urbana contemporânea como
faz surgir novos atores nas cenas cotidianas da revitalizada Praia Grande.
As mudanças no ambiente cultural proporcionam a produção e o consumo
de novos artefatos e serviços que sedimentam a vocação da área para polo
de lazer, turismo e serviços. (SOUZA, A., 1999, p.60):
210

Pode-se acompanhar o autor (SOUZA, A.,1999, p.168) que as manifestações


culturais têm a sua própria dinâmica e não acontecem em decorrência do programa
de reabilitação. De fato, se isso é verdade por um lado, por outro, foi feito um grande
investimento na recuperação de prédios para abrigar atividades culturais. O tempo
mostrou que esta ligação tem se intensificado, os grupos e as brincadeiras
populares tradicionais, elegendo o Centro Histórico como seu lócus privilegiado,
congregando a população, envolvendo os mais diversos segmentos, de tal forma
que um não consegue mais ser pensado sem o outro. Confirmando que a
reabilitação da área não somente é irreversível, mas foi completamente apreendida
pela população.
Importante acrescentar que o objetivo do incremento do turismo vem sendo
alcançado, o selo patrimônio da humanidade garantindo a inclusão de São Luís na
rota do turismo cultural. Queira-se ou não, a conquista deste título, coloca a cidade
como ponto de interesse mundial e, é imperativo admitir, como atração da indústria
do turismo cultural, em nível global. Imperativo também admitir que o poder público
coloque como um dos objetivos a recuperação do investimento feito, o turismo a
principal estratégia de venda da cidade que, agora, é mercadoria valorizada.
Em compensação é possível encontrar imóveis fechados, aguardando um
futuro investimento, a especulação imobiliária mostrando a sua face. Ou ainda, nota-
se a presença de várias edificações abandonadas ou em ruínas, a presença de
muitos cortiços na espera de sua reabilitação e a ausência sentida de mais
investimentos de comércio e serviços não diretamente voltados para o suporte das
atividades do turismo, além da ansiosamente aguardada intervenção no bairro
residencial do Desterro e no Portinho.
Entretanto, a grande ausência neste processo é a do centro-que-não-é-
histórico. E esta ausência tem que ser buscada no início do Programa, na década de
1970. Para começar, ele não abrange o centro como um todo, não incluindo nem
mesmo o conjunto da área de tombamento federal, limitando-se à Praia Grande e
adjacências. Ao resto do centro fica reservada a face normativa da política de
conservação mesmo depois de ter sido efetivado o tombamento da área estadual
em 1986. O que não impediu que os conflitos para evitar a descaracterização
fossem mais agudos, muitas vezes resultando em batalhas perdidas.
É preciso, então caracterizar este abandono e degradação. O tombamento
desta parte da cidade não aconteceu por conta de monumentos isolados, seus
211

palácios, igrejas e fontes, monumentos históricos tombados, quase todos,


individualmente, pelo patrimônio histórico nacional, alguns recuperados por
intervenções recentes. Este outro centro, o centro-que-não-é-histórico também
apresenta a mesma tipologia característica da porta-e-janela, das moradas coloniais,
dos sobrados e solares e, principalmente, evidencia-se a permanência do traçado
original. Este o motivo do tombamento e, nunca é demais repetir, da inscrição na
Lista do Patrimônio Mundial. O interessante é que nem mesmo a área do patrimônio
mundial é reconhecida e tratada com o mesmo peso do Reviver.
A degradação se manifesta no abandono dos casarões. No perigo que este
abandono significa de desabamento a qualquer chuva. Manifesta-se nas ruínas
ocupadas por abrigos improvisados e precários. Nos estacionamentos, escondidos
pelas fachadas escoradas ou abertamente “clandestinos” quando o casarão já
tombou, com direito a pagamento mensal pela vaga. Manifesta-se nas calçadas
esburacadas. Na falta de manutenção das infraestruturas de água e luz. Na
desvalorização dos imóveis. Na falta de uso dos equipamentos coletivos. E também
na descaracterização do patrimônio histórico. Que aconteceu, apesar de ali pertinho
se desenvolver um processo tão importante de revitalização e preservação.
Algumas questões se colocam: em primeiro lugar, a constatação de que se o
patrimônio histórico personifica o passado que se quer preservado, a proposta de
conservação o insere no presente. Dessa maneira, os diferentes valores que são
atribuídos aos monumentos vão estar ligados tanto ao passado quanto ao presente,
já apontava Alois Riegl (1984) em “O culto moderno dos monumentos” de 1903. De
um lado a categoria dos valores de rememoração, ligados ao passado e à memória:
o valor histórico que implica na relação do monumento com um fato histórico
específico e importante para a comunidade, e o valor de ancianidade que remete à
idade do monumento. De outro, os de contemporaneidade que se relacionam com o
presente: o valor de uso e o valor artístico. São estes valores que vão influenciar
diretamente as políticas de preservação.
Nesse sentido, se dentro do contexto da criação da São Luís moderna, o
histórico significava o obsoleto, o Reviver trouxe consigo também a reabilitação do
conceito, principalmente ao ser reconhecido internacionalmente com o selo de
patrimônio da humanidade. Histórico significa agora a ligação com o mundo.
De um lado, enquanto a cidade nova sonhava em ser aceita num mundo
globalizado, era a cidade antiga quem reatava a velha ligação com o mundo, do
212

tempo do Brasil colônia, ao ser incluída, pela força de sua história, na Lista de
Patrimônio Mundial da Unesco.
Não se pode desprezar o fato de que a grife patrimônio cultural insere este
mesmo patrimônio no circuito do turismo universal propiciando a transformação do
patrimônio em um negócio, ou em uma distração, para o lazer e o turismo cultural.
Dessa maneira, o patrimônio pode ser pretexto para a criação da cidade-atração –
tomando emprestado aqui a expressão de Marcia Sant’anna (2004). Para que, ao se
trocar a renovação pela reabilitação, pela revitalização, pela requalificação se
obtenha como resultado a teatralização da vida cotidiana, a museificação, o que é o
contrário de uma revitalização segundo os usos contemporâneos.
Muitas políticas de reabilitação de centros antigos, históricos ou não, têm sido
marcadas pelo que Arantes (2000, p. 11-74) chamou de estratégia fatal. São
políticas que, “a pretexto de valorizar os valores locais e sua morfologia” algumas
vezes “têm servido de maquiagem para a entropia galopante das metrópoles”,
fazendo uso do que ela chama de “estratégias culturais da cidade-empreendimento,
levando o tudo é cultura a se transformar no culturalismo de mercado”, de tal forma
que esses processos se “caracterizariam por uma ironia objetiva”, por converterem
“as melhores intenções no seu avesso, realizando, não por desvio, mas por
finalidade interna, o contrário do que prometiam” (ARANTES, 2002, p.11).
Ao avaliar o Projeto Reviver, acompanhando aqui a denominação preferida
pela população, encontra-se como pano de fundo a intenção e a prática, de se
contrapor ao que a autora chama de “núcleo duro produtivista do sistema”. “Nada
mais antivalor (de troca) do que o lugar redescoberto e contraposto ao espaço
homogêneo dos mercados” (Arantes, 2000, p.44) que recupera o valor de uso do
espaço e valoriza o contexto e o habitat reanimando a vida dos bairros sem violentar
seus moradores, comprovando que a prática de recuperação de espaços urbanos
degradados tem proporcionado usos e contrausos por parte da população (LEITE,
2004), que mais que a justifica, a torna necessária.
De qualquer maneira, por um lado, reforçou-se a ideia de promoção de São
Luís mediante a sua identidade de Patrimônio Mundial. Ganhou força também a
ideia de captação de recursos nacionais e internacionais em nome desta condição
de patrimônio da humanidade. Por outro lado, reforçou-se a sua inadequabilidade
aos tempos modernos. Naquele momento, na década de 1990, questionava-se
inclusive a sua capacidade de continuar a funcionar como centro administrativo, de
213

negócios, de serviços. A ideia de desconcentração, de construção de bairros com


centros comerciais e de serviços se ampliou.
Por outro lado, a inclusão de São Luís na lista do Patrimônio Mundial teve
uma repercussão positiva no sentido da proposta de estender as reformas urbanas
realizadas na Praia Grande para além do Largo do Carmo, de forma a incluir todo a
área de tombamento federal. O que foi feito nos primeiros anos do século XXI.
Entretanto, o movimento se esgotou ali. E nem mesmo o fato da área inclusa
no patrimônio mundial ultrapassar a Praia Grande conseguiu levar para esta área os
projetos e planos. A divisão estava consolidada. De um lado, o Centro Histórico, do
outro, o centro-que-não-é-histórico. Esta divisão fica ainda mais clara quando são
discutidos os projetos e planos de habitação no centro histórico. É o que trata a
seguir, com foco para as propostas tratadas pelo Governo do Estado no PPRCHSL
e nas propostas elaboradas pela Prefeitura Municipal no âmbito do Programa de
Reabilitação de Centros Urbanos do Ministério das Cidades.

5.4.1 A Habitação no Centro Histórico

O Projeto Piloto de Habitação, na área da Praia Grande aconteceu em 1995.


De forma audaciosa, o programa recuperou um casarão que estava ocupado
ilegalmente, um cortiço, mantendo os moradores no local. Uma proeza digna de nota
e uma experiência inovadora.
Os moradores continuaram a ocupar o mesmo casarão que, reformado,
permitia mais conforto. Não se repetiu, porém. Não se propagou a solução para os
outros cortiços, pois os órgãos financiadores não se dispuseram, depois dessa
experiência a financiar outras segundo o mesmo modelo, usando os mesmos velhos
argumentos. O da “sustentabilidade”, que se baseia na premissa que os projetos de
recuperação do patrimônio histórico não podem ser eternamente sustentados pelo
governo. Ou o outro, que aparece também entre os argumentos favoritos, que é a
falta de educação, ou melhor, de “educação patrimonial” por parte de moradores
que, não sabendo como se comportar, não conseguem manter os imóveis em boas
condições.
Os dois se convertendo em um só, o problema, de difícil solução, de passar
para os usuários moradores, pessoas comuns, a manutenção dos imóveis-
monumentos. Ainda mais considerando que os moradores não são necessariamente
os proprietários. De difícil solução, porque o projeto piloto exigia, como exigem
214

projetos deste tipo, que o Estado se responsabilizasse pela sua existência em vários
planos, do financeiro ao da assistência social. E este é um preço que não se está
disposto a pagar.
Desta forma esta iniciativa inovadora, que traz em si a possibilidade de
resolução de um dos problemas mais cruciais gerados pelo abandono das áreas
centrais, é subestimada nas discussões do PPRCHSL e consequentemente nunca
retomada. Nem quando projetos foram feitos com a assistência de organizações
estrangeiras. Nem mesmo, quando o governo federal lançou o Programa de
Reabilitação de Centros Urbanos focado no uso residencial como instrumento desta
reabilitação.
O objetivo de manutenção dos moradores da região então ficou (ainda está) à
espera de outras ações para poder se efetivar. É sempre importante lembrar que
mesmo a área do Desterro não é contemplada nas ações concretas de reabilitação
do patrimônio histórico urbano senão já nos anos 2000, com a recuperação da
infraestrutura e construção das redes de água e luz subterrâneas. Os projetos mais
especificamente relacionados com a habitação vão acontecer mais tarde, em 2005
sob a direção do Núcleo Gestor da Prefeitura e ainda estão à espera de sua
realização.
Depois do Projeto Piloto de Habitação, o Estado criou outro programa.
Diferente do primeiro, mas se apoiando na importância de manter o uso habitacional.

Esse é o programa, [...] que se reveste da maior relevância para a


revitalização socioeconômica do Centro Histórico, uma vez que deverá
ensejar uma elevação considerável dos padrões de qualidade de vida da
população residente e permitir, ainda, que outras famílias de média e baixa
renda encontrem opções dignas e acessíveis de moradia, em áreas
próximas aos locais de trabalho, dispondo de infraestrutura e serviços
públicos adequados. Ao mesmo tempo, o Programa de Habitação, se bem
conduzido, deverá ensejar uma forte participação das comunidades
residentes e visitantes no processo de preservação e revitalização do
acervo do Centro Histórico de São Luís. (ANDRÉS, 1998, p.107)

O objetivo de revitalização socioeconômica seria atendido pela elevação


considerável dos padrões de qualidade de vida da população residente, era o que
argumentava o plano. Na verdade, não se elevaria porque a população residente
teria sua renda aumentada, mas porque seria chamada a residir (como de fato
aconteceu) uma população diferente, os funcionários públicos estaduais. A mudança
em relação ao projeto anterior era a chegada de outras famílias que, se esperava,
pudessem mudar o padrão de consumo local. A proposta não está, no entanto, no
215

mesmo patamar de propostas de busca de moradores de classe média dentro do


mercado imobiliário pura e simplesmente, sob o ponto de vista dos seus
realizadores. Ela se coloca como uma resposta à necessidade de moradia próxima
aos locais de trabalho dos funcionários públicos estaduais 36.
Retoma-se em 2000, a promoção da habitação em moldes diferentes. São, na
verdade duas frentes, ambas bem sucedidas, a outra é a Casa dos Artistas, antigos
galpões industriais reabilitados para uso de artistas locais, o ateliê no primeiro andar,
a residência no segundo.

Fotos 46 e 47: Programa de Habitação no Centro Histórico de São Luís.


Fonte: Andrés, 2002

Fotos 47: Imóvel Habitação Antes da recuperação Foto 48: Imóvel depois da recuperação
Fonte: Andrés (2002).

O Programa de Habitação propôs a recuperação de onze prédios com esta


finalidade. Recuperou sete. Todos prédios de propriedade do governo de Estado.

36
A partir de um sorteio o funcionário assumia o compromisso, por escrito, de residir no imóvel
sorteado. Em contrato, renovado a cada ano, autorizava o desconto do valor da mensalidade em
folha de pagamento. O não cumprimento destas cláusulas, deixar de residir ou não pagar o aluguel,
levaria à perda do direito de uso. Em compensação, é garantido o direito de compra em 10 anos e o
direito a usar os aluguéis devidamente corrigidos como parte do pagamento. Por sua vez, os aluguéis
compõem um fundo para manutenção dos próprios prédios e da área em volta. Cabem aos
moradores as despesas de uso das áreas comuns e a eleição de um síndico que deve cumprir a
dupla função de administração do prédio e de representação junto ao governo.
216

Alguns dos quais haviam sido utilizados por repartições que migraram, desde a
década de 1980, intensificando-se na década de 1990, do centro para edificações
consideradas pelo próprio governo de Estado como mais modernas e mais eficientes
na nova área administrativa próxima das áreas nobres.
É possível tirar algumas lições. A primeira e óbvia é que programas de
habitação no centro histórico dão certo. No entanto, enquanto novos moradores
chegam ao Centro Histórico, os antigos ainda aguardam solução para suas
moradias. Nos cortiços ou nas residências do Bairro do Desterro. Ou no centro-que-
não-é-histórico .
Neste último, falta aos moradores, sempre faltou, incentivos para permanecer
ou mesmo fazer frente a todos os problemas que o centro passou a viver cada vez
que se anunciam novos e mais modernos modos de morar. Mais especificamente
depois da construção da nova centralidade no Renascença II. A insistência em não
atender a esta população e mesmo em negar a sua existência, sugere que a
representação dominante é a de que o centro não deve abrigar o uso residencial.
Que deve seguir sendo o centro da cidade no sentido que o urbanismo moderno
consagrou. Ou melhor, servindo à cidade enquanto for conveniente para ser
descartado quando não o for mais.
Da mesma forma, no cômputo geral de reformar sete edificações das onze
propostas, garantiu-se apenas um pouco mais da metade do que era projetado.
Pode-se associar a interrupção do programa, em grande parte, à saída do governo
de Estado do Maranhão do Centro Histórico que começou quando do momento de
rompimento do governador José Reinaldo Tavares com o grupo político de José
Sarney e culminou com a retirada de Luís Phelipe Andrés que era o coordenador do
PPRCH desde sua instituição até 2005, até 2006, quando assumiu o governo o Dr.
Jackson Lago.
A reabilitação de edificações para uso habitacional, nas palavras do próprio
governo federal (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2005), para uso social, foi retomada
pela prefeitura de São Luís. Tão cedo quanto em 2002, em parceria com a Caixa
Econômica Federal, em parceria com instituições francesas e espanholas. Ou em
parceria com o Ministério das Cidades, desta vez em outro programa, o Programa de
Revitalização do Centro Histórico de São Luís e outro plano, o Plano de
Revitalização do Centro Histórico de São Luís, com foco na reabilitação do bairro do
Desterro. Posteriormente passou a incluir também a Reabilitação do Bairro do
217

Diamante (2008), um dos onze bairros que, para a prefeitura compõem o centro
histórico de São Luís.
Antes, porém de discutir o Plano de Revitalização elaborado pela prefeitura
observa-se que os anos 2000 trouxeram novos atores para o processo de
conservação. Em primeiro lugar, a própria prefeitura passa a se ocupar mais
diretamente do Centro Histórico, empurrada e estimulada pela condição de
Patrimônio da Humanidade. É a prefeitura que passa a adotar o slogan São Luís,
Patrimônio da Cidade em todos os documentos oficiais, nos ônibus, nos táxis, nos
monumentos públicos. Ocupa-se da conservação reproduzindo o mesmo tipo de
estrutura, criando um órgão específico para orientar e fiscalizar intervenções, mesmo
quando cria um Núcleo Gestor como uma tentativa de coordenação da atuação dos
diferentes órgãos, a intenção é agrupar e coordenar ações conjuntas dos órgãos da
conservação mantendo uma separação explícita entre os responsáveis pela
intervenção na cidade e a conservação.
Em segundo lugar, tão logo foi criado, o Ministério das Cidades elegeu suas
prioridades: a Reabilitação de Centros Urbanos, o Plano Diretor Participativo e a
Regularização Fundiária. Isto, por si só, mostra a importância que era dada naquele
momento aos centros urbanos e sua reabilitação. Mais que isto, é um convite à
integração entre a prática da conservação e a intervenção no espaço urbano, ou
melhor, a tratar os espaços históricos, patrimonializados ou não, como espaços
urbanos, como espaços da cidade que realmente são.
Em São Luís, as duas discussões, a do Plano Diretor Participativo e da
Reabilitação de Áreas Urbanas centrais começam tão cedo quanto em 2003. No
entanto, seguem paralelas. Examina-se aqui, em primeiro lugar o processo de
revisão do Plano Diretor, o Plano Diretor participativo, para em seguida analisar o
Programa de Reabilitação.

5.5 PROGRAMAS DO MINISTÉRIO DA CIDADE: PLANO DIRETOR


PARTICIPATIVO E REABILITAÇÃO DE CENTROS URBANOS.

5.5. 1 O Plano Diretor Participativo, a Revisão do Plano Diretor em 2006

A revisão do Plano Diretor do Município de São Luís, feita no calor do


movimento de elaboração de Planos Diretores Participativos trata a cidade de
maneira ambígua. Segue as questões centrais do Estatuto da Cidade em seus
218

objetivos e diretrizes gerais. Prevê o uso dos instrumentos do Estatuto. Trata do


direito à cidade. Fala do respeito aos diferentes modos de vida e de cultura urbana.
Insere a preocupação com a urbanidade. Radicaliza a abordagem no que diz
respeito à política de desenvolvimento urbano voltada intencionalmente para
diminuir as desigualdades socioespaciais, propondo o retorno para a coletividade,
em áreas carentes, da valorização imobiliária de áreas da cidade decorrentes de
investimentos públicos.
O Plano aprovado apresenta propostas abrangentes o suficiente para parecer
contemplar todas as necessidades. Impossível, no entanto, desdobrar estas ideias e
propostas. Nenhuma das leis complementares que deveriam ser aprovadas para
que o plano pudesse ser aplicado foram sequer elaboradas. Mais grave, nem se
desenvolveram, ou foram postas em prática, as propostas do plano de
macrozoneamento que demonstrava e afirmava a necessidade de qualificação das
diversas áreas da cidade. Nem mesmo a tão propalada revisão da Lei de Uso
Ocupação e Parcelamento do Solo e muito menos a regulamentação dos
instrumentos que poderiam ajudar o acesso às estruturas urbanas por parte das
populações carentes.
Além disso, é bom lembrar que a ideia de retorno da valorização imobiliária de
áreas nobres da cidade decorrentes de investimentos públicos, para ser aplicado em
áreas carentes da cidade é uma versão (ou pode ser, na medida em que não foi
explicado este mecanismo específico) do já aplicado mecanismo imobiliário da
Surcap (embora não seja assumido) na década de 1970. Sem o necessário
esclarecimento de como se daria este processo, não dá para comemorar.
Burnett (2009, p.448) avalia a revisão do Plano em 2006 da seguinte maneira:

Apesar dos esforços dos setores populares e acadêmicos de dar


centralidade, nas discussões, sobre a cidade informal, aos poucos vai se
evidenciando que o principal objetivo do executivo municipal era o
atendimento ao prazo legal exigido pelo EC, que ameaçava o mandato do
prefeito com um processo por improbidade administrativa. Com isso, o
caráter burocrático do processo vai se consolidando e o plano acabará por
se constituir em um amontoado de intenções gerais, sem revisão da
LUOPSU e sem definição de nenhuma das Políticas Setoriais. Para lograr
tal vitória, a prefeitura concentra no Conselho seu “núcleo duro” de
planejamento que, através de vários artifícios, consegue esvaziar o
conteúdo dos debates e manter a população afastada das audiências.

Cumprida a exigência da lei, o plano, com seu belo discurso, foi parar na
gaveta. Alimentando duas crenças muito arraigadas: a primeira que planos diretores
não servem para nada, são gerais, idealistas, impossíveis de serem realizados. A
219

segunda, a crença de que não existe planejamento participativo ou melhor que é


impossível realizar planejamento participativo.
Planejamento participativo que envolva setores populares é preciso dizer,
porque a participação das entidades representativas das elites não só é sempre bem
vinda como é incentivada, basta ver a elaboração dos planos que substituíram o
Plano Diretor na condução das intervenções urbanas em São Luís, como é o caso
do Planejamento Estratégico da Cidade, elaborado após a aprovação do Plano
Diretor. Denominado Planejamento Estratégico “São Luís + 400 anos” (Estado do
Maranhão, 25/03/2008) advogou uma construção coletiva e inédita em São Luís,
ignorando solenemente que outra construção coletiva já havia elaborado o Plano
Diretor de 2006.
De qualquer maneira, não é intenção aqui aprofundar a discussão sobre este
plano, mas simplesmente pontuar a direção que se optou seguir no que diz respeito
à construção do novo e o respeito ao passado e às preexistências. O que se pode
dizer é que a concepção de espaço se revela no silêncio das leis não aprovadas e
na desarticulação dos espaços democráticos de discussão: o espaço urbano deve
ser organizado e produzido sob a orientação da articulação política-economia, como
já fazia notar Gottdiener (1999). Ou seja, comandado, orientado, ordenado pelo
poder público em nome dos interesses econômicos dos setores dominantes. O
comando e a orientação da urbanização ficando ao sabor dos interesses do
mercado imobiliário.
Isto é exatamente o que vem acontecendo. E enquanto nos gabinetes
continuam as discussões e os projetos intermináveis, sobre desenvolvimento
sustentável, sobre conservação integrada e outras, muitas com financiamentos
internacionais, muitas dando origem a projetos e planos que não saem do papel, a
cidade se constrói sob o comando dos empreendedores imobiliários que adotaram
como último modelo de desenvolvimento da cidade e de modo de morar os
condomínios fechados. Em grande e feroz velocidade. Dentro deste quadro
ultrapassando a fronteira do cômico se não fosse trágico pode se considerar como
humor negro o preenchimento dos espaços livres da cidade com condomínios
privados fechados, solidamente murados.
Com a afirmação da dinâmica de valorização-de-uma desvalorização-de-outra
localização implantada por este mercado imobiliário, mais uma vez, E embora o
Plano seja pródigo ao falar de reabilitação e conservação urbana, não apresenta
220

representação diferente dos dois anteriores. O centro, apesar da recuperação do


Reviver, continua (precisa continuar) sendo representado por esta articulação
política-econômica como inadequado aos novos tempos, como inadequado aos
novos modos de morar. Perfeitamente adequado e absolutamente importante como
atração turística, porém. Os centros seguem separados, muito embora os planos
tratem de habitação social e muito embora São Luís tenha toda a experiência de
promoção da habitação no Centro Histórico. E ainda seja uma importante área
residencial. É o que se examina a seguir.

5.5.2 A Reabilitação de Centros Urbanos

São Luís participa do Programa de Reabilitação de Centros Urbanos (2005),


que depois passou a se chamar Programa de Reabilitação de Áreas Centrais, desde
o início, com um programa elaborado pelo Núcleo Gestor do Centro Histórico de São
Luís: o Programa de Revitalização do Centro Histórico de São Luís. Também o
primeiro plano foi o Plano de Revitalização do Centro Histórico de São Luís, tendo
como área de ação a região do Desterro. Seguindo a tradição já consolidada, a
reabilitação das áreas centrais não incluiu o centro-que-não-é-histórico.
Desde a criação do Ministério das Cidades, em 2003, a reabilitação destas
áreas passou a ser uma preocupação no âmbito das políticas urbanas
desenvolvidas pelo governo federal. Na visão do Ministério das Cidades, estes
centros decadentes e abandonados, mas com uma boa infraestrutura e bons
equipamentos, poderiam, ao receber programas de habitação, especialmente os de
interesse social, ser repovoados e voltar a se integrar na vida da cidade. A habitação
e especialmente a habitação social é a proposta para esta reabilitação.
Como pano de fundo o desafio de “fazer cidades para todos”, palavra de
ordem consagrada pelo Governo Federal. De sobrepor-se à dualidade entre cidade
formal e informal, entre a cidade precária e a cidade urbanizada, entre a cidade
incluída e excluída dos plenos direitos de cidadania.
Constatava-se, conforme palavras do texto que tem o título de Morar no
Centro, opção que surge, que “além de serem verdadeiros tesouros arquitetônicos
os centros das grandes cidades brasileiras têm outra riqueza potencial: uma grande
quantidade de imóveis vazios” (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2005 p. 9). Que
poderiam ser aproveitados para solucionar, pelo menos em parte o déficit
221

habitacional. A proposta era reocupar o território desocupado, reabilitar o território


como área residencial.
É interessante avaliar o conceito de reabilitação que o manual apresenta.
Reabilitar é:

Realizar uma ação coordenada de investimentos públicos e privados que,


pela sua força, garanta a permanência da população já residente e promova
a melhoria das condições de vida e das atividades que concentra. Feito
isso, esta área trabalhada poderá atrair novos usuários e novos
investimentos e estará apta a receber todo o dinamismo do capital em
transformação.(MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2008, p.11 )

Para resolver o problema dos imóveis vazios, deve-se atuar em duas frentes:
manter os moradores existentes e atrair novos usuários e investimentos. Aqui se
revela a outra face desta política: o próprio conceito de reabilitar traz em si a
intenção de atrair novos usuários e novos investimentos de forma a tornar apta a
área em questão a receber o capital em transformação.
A reabilitação como um modo de urbanizar atua como ferramenta do
desenvolvimento econômico (o dinamismo do capital em transformação, no texto) da
maneira que já fazia notar Harvey (2008). Como aponta Lefebvre (2000), a
hegemonia de uma política em que o fator econômico é o mais importante não deixa
de fora a cidade histórica.
De novo, a responsabilidade cai nos ombros das pessoas, da população. Os
imóveis estão vazios porque:

Muitas famílias de classe média optaram por sair do centro nas últimas
décadas porque preferiam morar em apartamentos ou casas mais
modernos, em bairros mais segregados, ou porque consideravam as
condições do centro deterioradas. Para as famílias de menor renda, o
acesso a essas unidades deixadas vazias no centro é economicamente
impossível e as opções mais viáveis continuaram sendo os cortiços, favelas
e loteamentos precários na periferia (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2008, p.
16)

Este texto é do segundo texto produzido pelo Ministério das Cidades sobre a
reabilitação urbana. Denomina-se Manual de Reabilitação de Áreas Centrais 37
(MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2008). Foi escrito no século XXI. A comparação com
o texto de trinta anos atrás, que apresentava o PD/74 para a população de São Luís
é inevitável. Lá o interesse por novos modos de morar é o responsável pela

37
Foram publicadas duas versões do Manual de Reabilitação de áreas centrais, os mesmos textos
ligeiramente alterados com diferenças de enfoque.
222

indiferença. Aqui, nos anos 2000, a indiferença (da população) é apresentada como
tendo evoluído para a posição radical do abandono.
Nenhuma palavra sobre as dificuldades de financiamento para compra de
imóvel usado em sítios históricos. Ou da restrição de investimentos para reforma da
moradia, ou das legislações que recomendavam e favoreciam o uso comercial em
detrimento do residencial, ou da recomendação de crescimento zero do uso
residencial em determinados centros, como o de São Luís, ou da ampla oferta da
casa própria fora do centro.
No texto da primeira publicação do Ministério das Cidades que se intitulava
Reabilitação de Centros Urbanos o enfoque era um pouco diferente:

As causas de tal processo são múltiplas, assim como as características de


cada cidade são diferentes. No entanto, alguns fenômenos se repetem: a
degradação do patrimônio histórico, a precariedade ambiental e
habitacional, a concentração de atividades informais, a mudança no perfil
socioeconômico dos moradores e dos usuários, a concentração de grupos
sociais vulneráveis. (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2005, p.17)

Continuando:
essa situação de esvaziamento resulta na subutilização dos recursos
disponíveis nas áreas centrais infraestrutura, sistema de transportes e
estoque imobiliário, além de contribuir para a expansão urbana e para
adensamento populacional em áreas não servidas de infraestrutura e
distantes dos locais de trabalho. Do ponto de vista dos recursos públicos,
além de não utilizar o que já existe, exige novos investimentos em áreas
antes não ocupadas. (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2005, p.18)

Esta argumentação é muito interessante na medida em que a situação do


centro da cidade brasileira é produto de uma prática de urbanização que vem
ocorrendo há muito tempo. Tanto a prática da segregação espacial, seguindo o
interesse de poder transformar o espaço em mercadoria, como a prática da
construção nova como incentivo à indústria da construção civil. Uma prática que o
próprio texto reconhece: “A prática da construção nova como única forma de
provisão habitacional, seja pelo setor privado ou por programas públicos de
habitação em detrimento da recuperação do estoque construído, foi um fator
determinante neste processo” (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2005, p.18).
Nenhuma destas possíveis causas, no entanto, é questionada de frente. Nem
pelos textos, nem pelos programas. Não se propõe a extinção da produção da
habitação em áreas ainda não urbanizadas, por exemplo. Nem mesmo a redução do
ritmo. Ou, quem sabe, trazer parte desta produção, produzida pelo mesmo governo
223

federal para as áreas centrais, ou para os centros urbanos. Como já pontuado por
Helena Galiza (2009).
Nem mesmo os programas de habitação, relançados muito corretamente pelo
governo federal, atuam nesta direção. Tampouco se abrem amplas linhas de
financiamento para a reforma de residências no centro a não ser com limitações
sérias. Dentro destas, uma das mais importantes é o não reconhecimento do conflito
entre os proprietários que não moram nestas habitações e os seus inquilinos que
querem morar. Os proprietários, pressionados pela legislação alegam falta de
dinheiro para as obras que devem ser realizadas. Usam a mesma argumentação e
deixam os imóveis fechados, deteriorando-se. Ou alugam para usos comerciais ou
de serviços, expulsando os inquilinos.
No entanto, a existência dos imóveis abandonados e vazios e da
infraestrutura ociosa é vista como uma boa oportunidade para a renovação do uso
residencial da população de faixa de renda mais baixa, que, aliás, já está lá, pelo
menos em São Luís, no Desterro. Sob o ponto de vista da representação dominante,
pragmaticamente, resolvem-se vários problemas. Ocupam-se as edificações
abandonadas, recrutam-se novos guardiões para o patrimônio cultural, resolve-se
parte do déficit habitacional e minimiza-se o problema das ocupações irregulares.
Por outro lado, os programas sociais parecem resolver a questão da
condução da urbanização pelo mercado imobiliário. Se as habitações no centro
estão abandonadas e vazias, porque as classes médias não as querem, então elas
podem ser ofertadas tranquilamente para as classes de rendimento mais baixo e
resolver, também tranquilamente, o problema de déficit habitacional.
Como não há perspectivas, sob o ponto de vista do poder público, de que
estas pessoas consigam manter os imóveis no estado em que estes mesmos órgãos
exigem, não pode haver habitação no centro histórico se esta não for destinada às
classes de maior poder aquisitivo. É o que parece dizer o texto. Como já o
demonstraram várias outras experiências, em outros países. Uma situação que
parece resultar em um beco sem saída. A conservação em fim de linha,
parafraseando Arantes (1996).
Manifesta-se a preocupação com esta situação. Certamente, o esvaziamento
do centro não é um fenômeno isolado e restrito ao nosso país, faz questão de
mostrar o texto e acrescentar que nos Estados Unidos e na Europa, no entanto, a
224

volta à cidade tem se caracterizado por processos de gentrificação. Evitá-los se


coloca como um grande objetivo do programa:

Para evitar este efeito perverso, uma das preocupações fundamentais do


Programa Nacional de Reabilitação é a manutenção ou promoção da
diversidade de funções e a presença de pessoas de diferentes estratos
sociais nas áreas de intervenção, mediante mecanismos efetivos,
fundamentados no Estatuto da Cidade. Por esse motivo, a promoção da
habitação social nas áreas centrais constitui-se em um dos seus eixos
principais de atuação (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2008, p.17).

O que se quer, portanto é:


Ser um instrumento para garantir o uso e a ocupação democrática e
sustentável dos centros urbanos, assim como a preservação do patrimônio
cultural e ambiental. Deve também estimular a diversidade funcional,
recuperar atividades econômicas e buscar a complementaridade entre os
diferentes usos. (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2008, p.17)

Afirma-se que “a recuperação do estoque imobiliário permite propiciar ou


reforçar o uso residencial com a permanência e a atração da população de diversas
classes sociais, incluindo os de baixa-renda”. (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2005,
p.18)
Neil Smith (2006) já questionava porque o inverso não era verdadeiro, porque
não se incentiva a habitação social nas áreas ditas nobres, pelo menos nos Estados
Unidos. Vale a pergunta aqui também.
De qualquer maneira, o que se quer afirmar é que não há possibilidade de
reabilitação sem a concordância da classe média, este é o sentido de atrair “as
diversas classes sociais”. Os textos acima, é bom notar, são sutilmente
contraditórios. Se não se quer a gentrificação, porque se traça uma política de
atração de “outras classes sociais”, que é um eufemismo para dizer que se precisa
do dinheiro da elite para esta região?
Esta questão fica ainda mais paradoxal se levar em consideração a
permanência do uso residencial no centro de São Luís (VENANCIO, 2002; ARAÚJO,
2007; FILGUEIRAS, 2008; SANTOS, 2010). Da classe média. Se o objetivo é atrair
esta classe média, porque a relutância em admitir a sua permanência?
Ainda assim, esta questão foge completamente do controle, parecendo ficar o
problema sem solução, porque mesmo se não se quiser atrair a classe média,

O problema é que à medida que o espaço é recuperado ou revitalizado,


aumenta a disputa pelos imóveis, ou passa a acontecer, repetindo-se um
processo bem conhecido quando da urbanização das ocupações
irregulares: com o aumento dos preços dos imóveis passa a ser impossível
dar continuidade aos programas habitacionais e para as atividades
225

econômicas tradicionais. Sem mencionar o efeito que esse movimento


causa nos aluguéis. (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2008, p.20)

Apresenta-se uma possível solução:

Há então necessidade dos instrumentos reguladores do Estatuto da Cidade.


Parte do patrimônio do governo pode ser disponibilizado para viabilizar as
intervenções de interesse social, através do uso direto destas áreas,
associado com usos voltados ao mercado que gerem recursos para a
efetivação do conjunto de ações (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2008, p.20).

Que é uma falsa questão. Na medida em que os instrumentos existem há


muito tempo e não são aplicados. Sequer se tem um plano para fazê-lo. De qualquer
maneira, “viabilizar a reforma de imóveis em centros de cidades é tarefa
extremamente complexa” (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2008, p.20). Por conta, diz
o texto, do valor da terra, por conta das legislações incidentes, por conta da logística
envolvida e, sobretudo, por conta dos preconceitos e disposições em contrário da
sociedade à habitação de interesse social em áreas tidas como valorizadas.
Sobretudo, responsabiliza-se de novo, a questão cultural. A população que
não aceita que o poder público resolva os problemas mais urgentes. No mínimo
curiosa esta colocação. Há que se resolver a contradição: ou a população optou por
morar em áreas mais bem cuidadas e por isso mais valiosas ou quer conservar para
si as áreas centrais valiosas e exige a sua reabilitação.
Depois desta afirmação vale a pergunta: os centros urbanos são, afinal, uma
área que ninguém quer? A representação mais comum é que sim, é esta
representação de que os centros são obsoletos que torna estranho o fato de alguém
querer morar lá, que afasta os moradores para outras áreas.
Pelo menos até que se mostre que elas podem ser bem atraentes. Em São
Luís isto quer dizer até que os investimentos feitos pelo poder público as tornem
bem atraentes. No entanto, o que está no manual sugere um ato falho, motivado
talvez pelo fato de que os centros são valiosos porque se transformaram, pelo
abandono, em reserva de terras, da mesma maneira que os lotes vazios na cidade
dispersa ficaram (e ficam) esperando por novas oportunidades.
Se na expansão para terras não urbanizadas o Estado se prontifica a
construir as vias de acesso, a colocar a infraestrutura necessária, luz, água, telefone
e tudo o mais que possa tornar a vida mais atraente, nas áreas centrais decadentes
e degradadas, o Estado “tem que” investir, ou se espera, até o infinito, o Estado
226

intervir para reverter a situação de abandono e degradação. Tornadas atraentes,


estas áreas centrais reabilitadas estarão prontas para serem reconquistadas.
Em São Luís esta questão adquire outro significado. Basta lembrar o que
Tribuzi (1981) colocava da prática do Estado como o grande pagador para entender
que o mecanismo deste Estado de patrocinar a recuperação do espaço público e a
iniciativa privada tomando a iniciativa de recuperar os seus próprios imóveis, não vai
acontecer. O que mais facilmente acontece é os proprietários esperarem a
oportunidade de um projeto devidamente financiado com verbas do governo para
tomar qualquer iniciativa. Em um movimento muito semelhante ao abrigar-se no
emprego público como uma saída para a falência.
Esta é uma das grandes contradições. A habitação social precisa de subsídio.
As áreas de interesse social precisam de regulamentação de proteção. Sendo
assim, a definição e a implementação dos instrumentos do Estatuto, especialmente
os relacionados à função social da propriedade e da função social da cidade são
aspectos essenciais para a viabilidade e para a coerência dos Planos de
Reabilitação que se propõe a priorizar a habitação social. No entanto, esbarram
mais uma vez na questão do desafio à consagrada lógica capitalista de produção do
espaço (HARVEY, 2008). Assim, a proposta da habitação social no centro histórico é
plena de contradições. Para tornar ainda mais evidentes estas contradições,
examina-se, a seguir, o Plano de Revitalização do Centro Histórico de São Luís que
teve como objeto o bairro do Desterro.

5.5.2.1 Plano de Revitalização do Centro Histórico de São Luís: o Desterro.

Figura 75 : Desterro
Fonte: Santos, 2008.
227

Cidade com o maior conjunto arquitetônico histórico da América Latina, a


capital do Maranhão, São Luís, recupera 27 casarões do seu Centro
Histórico, numa grande operação envolvendo os Ministérios das Cidades e
da Cultura, prefeitura de São Luís, cooperações técnicas francesa e
espanhola, Iphan e Caixa. A iniciativa faz parte do Plano de Reabilitação do
Centro Histórico de São Luís, que com recursos do Programa Nacional de
Reabilitação foi lançado no segundo semestre de 2005 e prevê
investimentos da ordem de R$ 6 milhões (MINISTÉRIO DAS CIDADES,
2005, p.57)

Assim, se apresenta a experiência de São Luís, que vai tratar do Centro


Histórico como o bairro popular do Desterro. O maior conjunto arquitetônico histórico
de São Luís é, mais uma vez, a soma dos imóveis do centro. Da zona tombada
federal em conjunto com a zona tombada estadual.

A capital do Maranhão abriga nada menos que 5.607 imóveis dentro da


área de tombamento. Desse total, cerca de 1,2 mil estão dentro da área de
preservação considerada Patrimônio da Humanidade, sob a proteção do
Iphan. (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2005, p.57)

A repetição do número 5607 parece mágica. Usada exaustivamente tantas


vezes quantas necessárias para iluminar a grandiosidade do conjunto urbano
construído. Atrás do número esconde-se a realidade de qual área, de fato, recebe a
atenção das políticas, planos e projetos, de conservação. E que não inclui como
quer fazer crer a afirmação, todo o sítio histórico e nem mesmo todo o sítio inscrito
na Lista do Patrimônio Mundial.
Desta vez, o plano tem o foco no Desterro. Novamente, a história se repete.
Não há recurso para tratar todo o centro agora no século XXI, como não havia
quando da instalação do PPRCH em 1979. Anos depois de muitos recursos
aplicados nos projetos urbanos da área.
O Plano de Revitalização deu origem a duas publicações da Prefeitura de São
Luís. Uma mais poética, apresenta o Desterro, sua história, sua cultura, focando sua
identidade, seu modo peculiar de morar. A segunda apresenta as propostas do
plano propriamente dito.
A primeira publicação, intitulada “Desterro, um bairro além dos mapas”,
apresenta o Desterro como: “Um bairro onde o mundo privado se expandiu do cerco
das paredes internas das casas e invadiu as ruas, confrontando a imposição dos
modelos habitacionais burgueses” (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO LUÍS, 2005,
p.12). E continua:
228

A princípio foi este viver urbano diferenciado, aliado ao fato do bairro


compor as feições iniciais de São Luís, os principais elementos motivadores
da sua escolha para estudo [...]. Além disso, as dificuldades encontradas
para abarcar todo o centro histórico. (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO
LUÍS, 2005, p.12)

O Desterro foi escolhido para ser o centro histórico do século XXI. Agora,
aparentemente pelo seu viver urbano diferenciado. Porque se apresentava carente
de atenção, esquecido. Pode-se computar como pontos positivos um projeto urbano,
em São Luís, tratar de um bairro popular. No entanto, mais uma vez, o centro não foi
beneficiado com uma visão do conjunto. Novamente foram ignorados os moradores
do centro como um todo. Novamente passou despercebida a sua diversidade e a
existência dos nichos residenciais.
O plano de reabilitação advoga para si a descoberta do valor do Desterro.
Propõe uma revitalização que tem como primeira premissa que a maior riqueza do
Desterro é “sua gente, que faz com que toda esta gama de tradições e costumes
permaneça viva”. Exalta-se o Desterro porque ali permaneceram também tradições
culturais que fazem dele “lugar de manifestações populares como os desfiles da
escola de samba Flor do Samba, as rodas de tambor de crioula, assim como as
festas religiosas” (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO LUÍS, 2005, p.17) e os
pescadores na área do Portinho.

Foto 50 e 51: Ruas do Desterro


Fonte: Alunos Curso de Arquitetura e Urbanismo, 2008

Uma gente que permaneceu e que fez permanecer os casarões ao


transformá-los em cortiços, fazendo com que “de maneira pouco ortodoxa, esse
movimento de ocupação possibilitasse uma sobrevida maior ao conjunto de
casarões históricos” (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO LUÍS, 2005, p 17). Ou são
229

famílias que estão presentes na área há sucessivas gerações, interagindo com as


mudanças que remodelaram hábitos.
Ressaltam-se o valor histórico, o valor cultural, o caráter popular do Bairro.
Além do porto, da ligação de sua população com o mar, o Desterro é bairro das
moradias populares. Também é bairro isolado com fama de marginal devido ao fato
de ter abrigado, depois de doação do governo, a zona do baixo meretrício.

De certa forma foi este isolamento que garantiu a continuidade [...] enquanto
um bairro residencial, já que boa parte do Centro Histórico perdeu esta
característica, sendo transformado em um espaço voltado para fins
turísticos ou para abrigar órgãos da administração pública. (PREFEITURA
MUNICIPAL DE SÃO LUÍS, 2005, p.17)

É interessante observar como se ressalta que tanto o ambiente construído


como os modos de morar no Desterro se mantiveram porque o bairro estava isolado.
Da vida econômica, do movimento de modernização. Depois do processo de
conservação do patrimônio histórico, que foi transformando os casarões em órgãos
da administração pública ou para fins turísticos.
Uma característica que faz parte da elite dominante de não ver que a vivência
da vida moderna pode assumir diferentes características. De não ver que há modos
de viver que são diferentes dos escolhidos por ela ou dos que são impostos pelo
mercado imobiliário. Ou que espera, como faz notar Massey (2008) que o
desenvolvimento seja o mesmo para todas as áreas. Estas que não acompanharam
o mesmo movimento, ainda vão acompanhar. Se não o fizeram foi porque ficaram
isoladas. A re-ligação com o mundo moderno vai fazer com que acertem o passo.
A mesma dificuldade que se manifesta no fato de não se conseguir ver a
diversidade do centro, as formas de morar que se mantiveram, que são diferentes
das da elite dominante.
Finalmente, o isolamento não tem problema, diz o texto, porque:

O Desterro possui um grande potencial urbanístico porque parte de seu


acervo arquitetônico tem relevante valor histórico e ambiental, apesar de
encontrar-se subutilizado – parte dos casarões com uso apenas no térreo,
ficando os outros pavimentos com área utilizável obsoleta (PREFEITURA
MUNICIPAL DE SÃO LUÍS, 2005, p.15)

Pode-se notar que a reabilitação da área residencial (e toda o discurso do


valor de sua gente) submerge frente ao potencial urbanístico, a visão de maximizar a
sua utilização. Ou seja, se o Desterro estava afastado do mundo moderno, pode
aproveitar agora o potencial turístico e adentrar a modernidade. E aproveita-se a
230

ocasião para colocar o que realmente interessa aos olhos dos promotores desta
proposta:
Nas condições atuais, o baixo valor imobiliário de seus casarões –
consequência da estagnação, da degradação física da área e da imagem de
segurança do bairro – é um facilitador para a aquisição por investidores dos
mais variados setores. (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO LUÍS, 2005,
p.35)

Palavras-chave: baixo valor imobiliário e facilitador para a aquisição por


investidores dos mais variados setores. Nem precisava ser tão explícito. Entretanto,
esta posição não deixa dúvida de que mais uma vez, o que se vê é a oportunidade
de criar situações de investimentos, sob o manto da proteção ao patrimônio
histórico.
Analisa-se que “há um alto potencial para implantação e promoção de
unidades habitacionais, administrativas, institucionais, comerciais e culturais”.
Potencial de “atividades turísticas”. Como não poderia deixar de ser, com potencial
também de “construção de estacionamentos”. Com o baixo valor imobiliário, o
Desterro se apresenta como uma grande oportunidade para investimento. De fora.
Vindo das camadas médias. Ou dos estrangeiros, que se instalam já há algum
tempo no Centro Histórico.
A dualidade, no entanto precisa ser mantida, justamente porque dentro do
Programa de Reabilitação de Áreas Centrais, é preciso que qualquer promoção de
investimento esteja disfarçada de promoção da habitação social. Reconhece-se,
portanto, como um dos grandes problemas “a falta de incentivo à moradia já
existente e à implantação de pequenos comércios de subsistência”. Exatamente
porque debate-se a necessidade de promover a vinda de mais moradores para a
área, mas garantindo a permanência dos moradores originais:

temos que tentar evitar o afastamento da população inicial, que visivelmente


não pode arcar com os custos de manutenção dos imóveis, abrandando sua
remoção e sua substituição por famílias mais abastadas, aptas a sustentar o
custo da restauração. (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO LUÍS, 2005,
p.57)

O problema é claramente colocado: a visão oficial trabalha com o fato de que


as famílias residentes não podem sustentar o uso habitacional. As que podem, ou
poderiam, devem ser atraídas. Para isto deve-se preparar o Desterro, para isso sua
revitalização. Dentro do mesmo espírito de promoção do desenvolvimento que não
desafia a hegemonia do econômico, como diz Harvey (2008).
231

A outra publicação da prefeitura intitulada “Uma proposta de reabilitação”


apresenta as propostas para o Desterro. Logo de cara analisa que a legislação
contém (muitas vezes) leis divergentes entre si no que diz respeito a conceitos de
conservação, preservação e intervenção. Estas divergências, segundo o texto, tem
tornado insuficientes o controle e a fiscalização da área, além de dificultar as ações
de salvaguarda do patrimônio cultural intangível e a gestão da preservação. Os
principais problemas: gestão desarticulada, falta de integração dos atores
envolvidos. Não há instrumentos de monitoramento e controle. Há, faz questão de
pontuar o texto, por outro lado, uma desarticulação da comunidade que torna a ser
responsabilizada pelas dificuldades da conservação.
Apresenta como proposta dois planos: um Plano de Preservação dos Sítios
Históricos38 que estava em desenvolvimento (pelo IPHAN), em fase de discussão, e
o Plano de Revitalização do Centro Histórico de São Luís, da Prefeitura. Entre os
dois planos se delineiam três áreas de atuação: plano de melhorias físicas; plano de
promoção de atividades econômicas; plano de dinamização cultural e educação
patrimonial.

Para tornar possível a adaptação plena da dinâmica do crescimento urbano,


o centro da cidade precisaria ser remodelado continuamente, observando
sempre o entrosamento entre as necessidades funcionais demandadas e a
capacidade operacional instalada (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO
LUÍS, 2005 b, p.11)

Necessidades funcionais e capacidade operacional que não são exatamente


definidas, mas podem ser deduzidas. É interessante como se coloca o conceito de
contínua remodelação sem que se explique exatamente o que seria. Entretanto, a
explicação, ainda segundo os autores dos projetos, não tarda: “precisamos
transformar o centro da cidade em alternativa atraente para o mercado imobiliário,
dadas as suas qualidades e de infraestrutura implantada e sua riqueza histórica e
cultural ” (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO LUÍS, 2005 b, p.12).
Deste modo, sintetizam-se as proposições:

A gestão do patrimônio incentivada pelo Plano busca sua salvaguarda


através de ações de estabilização de prédios em risco, implantação de
unidades habitacionais que beneficiem todas as classes sociais presentes
na área, a instalação de novos comércios e serviços, os investimentos
privados e a participação social. (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO LUÍS,
2005 b, p.57)

38
Este plano começou a ser delineado em 2004. Não foi finalizado tendo sido realizado apenas um
termo de referência.
232

São propostas, ressalta-se no plano, que apresentam desafios. Um dos


maiores, a gestão integrada do patrimônio cultural. Com a certeza de que
“tendências contemporâneas de gestão pública são marcadas pela descentralização
e participação da comunidade” adotam-se o planejamento estratégico como
metodologia e o desenvolvimento sustentável e a conservação integrada como
premissas. (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO LUÍS, 2005 b, p.15). Mais um
motivo para ter se voltado o olhar para o centro como um todo, buscando a aliança
com os moradores que ainda lá permanecem. Mais uma vez, porém, não houve esta
preocupação. No entanto, a prefeitura define como Centro Histórico o Centro Urbano
inteiro. Desde a elaboração de seu Plano de Gestão.

5.5.2.2 O Plano de Gestão do Centro Histórico

O Programa de Reabilitação de Áreas Centrais coincide com um momento em


que a prefeitura de São Luís buscava se consolidar no processo de gestão do
Centro Histórico. Com efeito, desde a inclusão de São Luís na lista da Unesco, em
1997, a chamada para que as cidades assumissem o compromisso com a
conservação do patrimônio histórico, especialmente em nível de planejamento e
gestão do território urbano, colocou a prefeitura no centro do processo de
conservação do patrimônio histórico.
Uma das primeiras iniciativas foi a elaboração nos primeiros anos da década
de 2000, de um Plano Municipal de Gestão do Centro Histórico de São Luís do
Maranhão39. Nunca plenamente implementado, sempre na espera de recursos como
aponta Espírito Santo (2009, p. 169-197).
Naquele momento, São Luís era Patrimônio da Humanidade. De espaço
urbano decadente, o centro histórico é um espaço com potencial “econômico,
cultural e turístico”. Por isso, apresenta-se uma proposta de gestão com a finalidade
de contribuir para o desenvolvimento e reabilitação da área que apresenta potencial
econômico-cultural e turístico mediante a estruturação de um sistema de gestão que
pudesse equilibrar transformação e conservação, preservando a autenticidade e o
uso do patrimônio.

39
Diretamente relacionado com um Curso de Especialização em Gestão de Sítios Históricos do
Centro de Estudos em Conservação Integrada (CECI) realizado através de convênio entre a UEMA e
o MDU/CECI no ano de 1999, que teve a participação de membros da prefeitura ligados ao IPLAM
em uma parceira articulada entre UEMA/PREFEITURA.
233

A proposta de gestão gira em torno da criação de “uma estrutura fixa em


interface contínua com os diversos atores sociais que atuam na área”. Esta estrutura
deveria garantir um processo “contínuo, permanente e sustentável de revitalização,
independente de qualquer projeto isolado”. Prevê instâncias de participação da
sociedade e ações em parceria com outras instituições e com os moradores e
comerciantes do centro. Propõe um processo de monitoramento que introduz uma
questão fundamental: a necessidade de uma cultura de manutenção.
Mais importante: este plano reforçava a visão de que o patrimônio histórico
urbano é assunto de planejamento e de gestão da cidade. Que deveria ser tratado
pelos órgãos de planejamento e urbanismo da Prefeitura em cooperação com o
órgão específico do patrimônio cultural.
Além disso, delimitava a sua área de abrangência além do Centro Histórico.
Ou seja:

A sua área física de abrangência extrapola os limites dos perímetros das


áreas tombadas pelo Estado, pela Federação e da área protegida da
UNESCO, e abrange toda a área envolvida pelo Anel Viário, incluindo a ZC
(Zona Central) e as ZIS (Zonas de Interesse Social) definidas pela Lei de
Zoneamento, Parcelamento, Usos e Ocupação do Solo de São Luís (1992).
Compreende, ainda, os onze bairros localizados nesta área (IPLAM, 2000).

A prefeitura toma o anel viário como referência do território que deveria ser
requalificado e considera os onze bairros contidos neste limite como o Centro
Histórico de São Luís.
No entanto, se os bairros estão claramente identificados para a prefeitura, não
há um trabalho voltado para o que se denominou aqui de centro-que-não-é-histórico.
Nem sequer há um trabalho voltado para o conhecimento do centro como um todo.
Ao levantamento urbanístico de 1998 não se seguiram outros. O resultado é um
imenso desconhecimento do que é o centro de São Luís por parte da prefeitura.
Quem nele vive, quem nele trabalha, como se vive, como se relaciona com o resto
da cidade. O problema é tanto maior quanto o centro-que-não-é-histórico mantém
uma diversidade que é simplesmente desconhecida, ou propositadamente
escamoteada, em todos os planos.
Embora a construção da cidade moderna tenha introduzido a tendência à
homogeneização dos espaços, a tendência a determinar, por força do preço do
metro quadrado, o grupo de pessoas que podem consumir este ou aquele espaço,
que podem morar nesta ou naquela casa, o centro ainda apresenta traços fortes
234

desta diversidade, a presença de antigos moradores que permanecem, gostam e


querem permanecer. E moradores novos.
Diversidade que é reconhecida pela prefeitura, por exemplo, quando ela
determina e faz projetos para o Bairro do Desterro (PREFEITURA MUNICIPAL DE
SÃO LUÍS, 2005, 2005b) , ou para o Diamante (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO
LUÍS, 200?), uma das louváveis iniciativas de reabilitação de um dos bairros do
centro, solicitada pelos próprios moradores. O Desterro e o Diamante têm histórias
diferentes, apresentam características demográficas bem diferentes entre si.
O reconhecimento da diversidade não é, no entanto oficial. Este não
conhecimento tem alimentado, durante todo o tempo de existência de cidade
histórica, a convicção de que “não há moradores” no centro, que todos optaram
pelos novos modos de morar. Ou se há, eles são “ocupantes ilegais” das
edificações abandonadas. Que permaneceram ou para lá migraram as pessoas de
mais baixa renda que não têm como reclamar ou que está habituada ao descaso.
Este desconhecimento da realidade é assumido pelo plano de gestão que vai propor
mecanismos de superação.
Não foi o que aconteceu. Das propostas prioritárias instalou-se o Núcleo
Gestor em 2003 que passou a coordenar os processos de conservação em nome da
prefeitura sob o comando não do IPLAM, mas da Fundação Municipal de Cultura
primeiro e depois de uma Fundação Municipal do Patrimônio Histórico, criada no ano
de 2005. Os instrumentos de planejamento, a regulamentação do uso do solo para o
Centro Histórico e a regulamentação da lei do instrumento do potencial construtivo
não saíram do papel. Ou melhor, saíram deste papel e entraram em outro (papel), o
novo plano que espera os recursos de um Plano de Aceleração do Crescimento das
Cidades Históricas (PACH, 2009) para onde migraram todos os planos não
realizados.
Ao ser consultado a respeito do plano, José Antônio Viana Lopes (2008 b),
um dos seus autores, diretor da Fundação do Patrimônio Histórico e vinculado ao
Instituto de Planejamento do Município, considerou como mais importantes as
seguintes ações:
a) Atualização e complementação dos diagnósticos existentes sobre o
Centro Histórico e entorno, em seus aspectos urbanísticos,
socioeconômicos, cultural, ambiental e habitacional;
b) Definição de objetivos e diretrizes para a conservação integrada do
centro incluindo os eixos estruturantes (eixo urbanístico, eixo econômico,
cultural), projetos estratégicos de acordo com os aspectos citados e as
235

lacunas identificadas no diagnóstico e critérios de prioridade para sua


execução. Também a identificação de possíveis fontes de financiamento
para os projetos e a elaboração do cronograma de execução determinando
as metas a curto, médio e longo prazos.
c) Elaboração da minuta do projeto de lei de Zoneamento, Uso e
Ocupação do Solo na Área Urbana Central, incluindo usos e ocupação
das diferentes zonas e imóveis, os critérios de intervenção (arquitetônica,
paisagística, volumétrica, mobiliário urbano, engenhos publicitários, etc.)
nos mesmos e a definição de graus de intervenção nos imóveis
(preservação total, parcial, consolidação, reconstituição, etc.).

Os grifos são de Lopes (2008 b). Diz ele “Esta estrutura, capaz de incluir o
Centro na política urbana do Município, permitiria também incluir os instrumentos de
planejamento do Estatuto das Cidades e operacionalizar um processo de
intervenções que considerasse as qualidades da área”. Não é possível deixar de
concordar que este seria de fato o maior avanço no processo de conservação do
centro de São Luís. Há um único ponto de discordância: o centro está incluído na
política urbana do Município, desempenhando o papel que lhe vem sendo atribuído
nesta política. O papel duplo de lugar de consumo e de consumo do lugar, levado ao
extremo da divisão entre um centro histórico e um centro-que-não-é-histórico.
Enquanto for necessário, o centro continua funcionando como centro comercial e de
negócios. Quando não for mais, confirmando a tese de que centros realmente se
desintegram, reforçando a representação de que este processo é normal, natural,
que cidades realmente, crescem, se desenvolvem e morrem, restará para o centro a
opção de morrer. Como terceira opção, como as cidades ao contrário dos humanos
podem renascer, pode ser que em algum momento volte a haver interesse em sua
recuperação, revitalização, requalificação, reabilitação... Em nome de uma nova
frente para o desenvolvimento do capitalismo (HARVEY, 2008).
Neste ponto é importante uma breve reflexão sobre as representações acerca
do Centro Histórico e do centro-que-não-é-histórico. É o que se vai apresentar a
seguir.

5.6 A Representação do Centro Histórico

Programa de Preservação e Revitalização do Centro Histórico de São Luís.


Foram estas as palavras escolhidas: preservar e revitalizar. Preservar é defender, é
guardar, resguardar, livrar. Dos perigos da destruição. Revitalizar é dar vida nova. É
revigorar. Revitalizar para preservar? Preservar para revitalizar? Revitalizar e
preservar? As palavras que são usadas para dar nome às políticas voltadas para a
236

conservação sugerem dois tipos de atitude para com os centros antigos. Preservar
implica em cuidados, em proteção. Revitalizar implica dar vida nova, revigorar.
O primeiro grupo sugere uma atitude de aceitação do valor do objeto
construído como ele se apresenta, de tal forma que este objeto não deve mudar. O
segundo, uma atitude de intervenção que muda ou deve mudar o estado de coisas.
Revitalização, renovação, reabilitação, reconquista, recuperação, requalificação,
qualquer uma destas palavras sugere o movimento de volta, de retorno. De volta por
conta do abandono, de volta por conta do descaso, ou da indiferença. De volta ao
estado inicial onde não havia sinais de abandono, de descaso ou de indiferença.
Este segundo grupo de palavras tem também o sentido de uma redescoberta.
Tem o sentido de restituir ao sítio e suas estruturas a capacidade que ele havia
perdido de atender as necessidades da vida cotidiana. Envolve decisões do tipo
mudanças de uso e adaptações das estruturas aos modos de vida atual. Sugere a
intervenção que pode dar sentido a esta volta. Que pode fazer de novo valer a pena
a permanência, seja do sítio urbano, seja da edificação, que se considerava perdida.
O recorte que delimitou o centro histórico como a Praia Grande e adjacências
trazia esta implicação. A Praia Grande já vinha sendo abandonada, desde a
segunda metade do século XX por conta da falência econômica que se abatera
sobre as companhias ali situadas. Por conta também da saída da elite que se
incomodava com os usos inconvenientes da área, que incluía as atividades
costumeiras da proximidade de um porto comercial, atividades de atacado, e a Zona
do Baixo Meretrício (ZBM) que fora instituída através de doação por parte do
governo interventor na década de 1940.
Esta condição já se fazia notar à época do PD/1974 que, além disso,
prevendo, por um lado, que a modernização iria golpear fortemente a área, por outro
vendo a oportunidade do aproveitamento da área para o turismo cultural, assume o
Projeto Praia Grande, a proposta de compra dos casarões que abrigavam as
atividades que haviam falido na Praia Grande para abrigar as repartições dos três
níveis de governo. O Plano de Renovação da Praia Grande de John Gisiger (1979)
propõe sua revitalização pela recuperação das estruturas degradadas e apoio e
financiamento para reforma pela iniciativa privada. O PPRCH dá início a estas
propostas e recupera para a cidade uma área cultural e de lazer importantes. São
Luís se tornou o patrimônio da humanidade. Todos os projetos na Praia Grande.
237

Com isto, o grande ausente do processo é o outro centro. A divisão feita pelo
Programa, intencionalmente ou não declara o abandono do restante do centro, o
centro que ao contrário da Praia Grande permanecia (como permanece) vivo e
vibrante, integrado à vida cotidiana da cidade. Na verdade, separam-se ali os dois
centros, um histórico a ser protegido. O outro destinado a ser o centro da cidade
moderna, enquadrado na divisão funcional própria dos paradigmas do urbanismo
modernista como centro comercial e de serviços.
O que sugere que a representação do centro histórico como o centro que
precisa ser resgatado da degradação e do abandono é a representação dominante,
a conservação neste caso significando as ações empreendidas para reverter este
abandono e degradação.
A preservação como continuidade, como conservação, tende a enfrentar uma
dificuldade maior frente à tensão da integração do histórico à condição
contemporânea. A conservação parece ser tratada como alternativa para tratar
daquilo que as forças econômicas, os diversos mercados do capitalismo não estão
interessados. Para resolver os problemas criados pelo abandono de estruturas
valiosas. Não à toa, a construção da cidade moderna nas terras não urbanizadas em
São Luís, foi comemorada como uma grande vantagem para a conservação urbana,
na medida em que se retiravam as pressões da renovação imobiliária no centro
antigo.
O desejo de recuperar estruturas de valor histórico e cultural, ou artístico é
legítimo e tem estado presente em nossa época colocando a ação de projetar o
urbano em um contexto de tensão da reorganização espacial que oscila entre uma
extensão modernizadora e a reconstrução da cidade existente (PINHEIRO
MACHADO, COSTA, 2009, p. 174).
Não é isto que se está questionando. Entretanto, a dificuldade de tratar o
centro ainda vivo, de forma a permitir a sua continuidade e evitar a sua degradação,
sugere que a conservação como a maioria dos conceitos que circulam atualmente
como muito bem notou Harvey (2008), não desafiam ou não conseguem ou não
sabem, desafiar “a hegemonia do mercado liberal e neoliberal, ou os modos
dominantes da ação legal ou estatal”. Porque, como diz ele, “vivemos em um mundo
no qual os direitos da propriedade privada e da taxa de lucro superam todas as
outras noções de direito”.
238

É como se a implementação das políticas de conservação fosse mais fácil (ou


possível, ou mesmo desejável) em áreas abandonadas e degradadas, onde a
negociação de novos usos é facilitada pelo não uso imediatamente anterior. Ou
onde o abandono proporcionasse o congelamento do imóvel conservando-o mais
autêntico, sem que a intervenção do morador de classe média em sua ânsia de
modificar o que é seu, seja em busca de maior conforto, seja pelo não entendimento,
ou discordância da importância do patrimônio histórico, evidencie a
descaracterização. Em um ambiente em que os interesses do comércio ou do
mercado não estejam presentes para pressionar concessões à autenticidade. Tudo
isso criando um ambiente com todas as variáveis controladas, um ambiente de mais
fácil conservação.
Um controle que, é preciso esclarecer, não se refere apenas à aplicação e
fiscalização das normas da conservação e tampouco à não-participação da
população nas decisões, mas que se refere à (re)-construção de uma nova
realidade, da realidade da conservação que, de uma maneira ou de outra não é mais
a realidade da cidade existente previamente. Dessa forma, as políticas de
conservação se materializaram na forma da reabilitação, da requalificação, da
revitalização das áreas abandonadas e degradadas para salvá-las, para impedir o
seu desaparecimento enquanto que na área ainda habitada convenientemente, em
pleno funcionamento, com uma vida cotidiana vibrante, foram aplicadas as normas,
a legislação da conservação, e a recuperação dos monumentos mais importantes.
É preciso pensar se é possível manter essa separação de centro histórico e
centro-que-não-é-histórico, na medida em que o próprio tombamento federal e a
área inclusa na Lista do Patrimônio Mundial da Humanidade estão divididos entre as
dois centros.
No entanto, para isto é preciso superar a dificuldade de ver o espaço antigo
como adequado à vida cotidiana contemporânea, incluindo o morar, o uso
residencial, representação que está presente tanto nos planos que tratam da
urbanização dispersa como nos planos relacionados com a cidade histórica.
239

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta tese se colocou o desafio de refletir sobre as tensões entre a expansão


modernizadora e o centro de São Luís. Refletir sobre a prática da urbanização
dividida entre a construção da cidade contemporânea e a conservação do centro
histórico e as tensões que se colocam neste processo.
Compreendendo-se urbanismo como o compreende Secchi (2006, p. 9 -10)
cuja história não é apenas uma história de fatos, de projetos, de políticas, ou de
suas realizações e de suas consequências, mas também uma história de ideias e
imaginários. Compreendendo-se urbanização como resultado de ações previstas e
não previstas, do poder público e de pessoas e grupos de pessoas.
Compreendendo-se, também, como diz Lefebvre (2000), que o processo de
produção do espaço urbano não é natural, nem o espaço é neutro. Pelo contrário, o
espaço é carregado de ideologias, de intenções políticas, de intenções de moldar
comportamentos e hábitos.
Observou-se que, em primeiro lugar, a expansão foi mais que a ocupação de
terras ainda não urbanizadas, a expansão produziu um espaço desenhado segundo
uma articulação de interesses políticos e econômicos determinados, sugerindo a
intenção de organizar toda a sociedade, de controlar a localização das atividades, de
controlar e organizar os fluxos. Evidentemente, tudo isto realizado sob o manto da
racionalidade de uma representação do espaço profundamente influenciada pelo
raciocínio funcional importado da produção industrial. Uma urbanização orientada
por uma representação de espaço que trouxe para a cidade a lógica de produção
industrial, transformando o espaço em mercadoria colocando em primeiro plano o
valor de troca, relegando para o segundo plano o valor de uso (LEFEBVRE, 2000).
Foi observado que um dos pontos mais importantes desta urbanização, da
qual o Plano Diretor de 1974 é a expressão, foi a principal estratégia adotada: as
operações imobiliárias de venda de terrenos para a elite como uma maneira de gerar
recursos de forma a aplicá-los na urbanização das áreas carentes da cidade.
Esta proposta poderia se inserir no campo daquelas que vêm sendo
colocadas em pauta para garantir o direito à cidade. Continha, sem dúvida o germe
da defesa de uma cidade mais justa. Revelou-se, porém, plena de ambiguidades,
uma daquelas propostas que, como aponta Otília Arantes (2002, p.11), o urbanismo
modernista conhece bem, uma proposta que “se caracteriza por uma ironia objetiva”
240

porque daquelas que “convertem as melhores intenções no seu avesso, realizando,


não por desvio, mas por finalidade interna, o contrário do que prometiam”.
Se a prática pode ser invocada como critério da verdade, o espaço assim
instrumentalizado (LEFEBVRE, 2009), ou seja, as operações imobiliárias
idealizadas, muito embora tenham permitido o projeto de urbanização das palafitas
Kennedy-Barés realizado ainda sob a administração do prefeito Haroldo Tavares,
não resolveu o problema das palafitas ou das áreas carentes da cidade.
Poder-se-ia dizer que esta era uma proposta que necessariamente exigia
tempo para sua realização completa, ou seja, exigia o compromisso dos prefeitos
seguintes, o compromisso com a mesma linha de pensamento. Ou dizer das
dificuldades politicas, das trocas de administração, dos problemas de levar a
proposta à realização e desta maneira condenar a transposição para a prática, ainda
sustentando a validade e o mérito da proposta idealizada.
Entretanto, não se pode deixar de apontar que, tanto na prática como na
teoria, a proposta foi o cerne da operação de instrumentalização do espaço de modo
a reservar os melhores espaços da cidade para a burguesia, para a classe mais
abastada e produzir o espaço abstrato de que fala Lefebvre (2000), o espaço
produzido dentro da lógica dos diferentes mercados capitalistas, o financeiro, o
imobiliário, o fundiário, o da indústria do turismo.
Exigiu a homogeneização do espaço de modo a facilitar a sua transformação
em mercadoria, exigindo, também, a segregação socioespacial, atuando de maneira
completamente inversa ao que se propunha no início, obtendo resultados contrários
aos pretendidos, favorecendo particularmente os mercados fundiário e imobiliário e
desta maneira aprofundando as desigualdades sociais ao promover a segregação
espacial e contribuindo para o surgimento de um ainda maior número de ocupações
informais.
Deste modo pode ser observado que, em São Luís, o espaço foi produzido
como produto, como mercadoria e foi usado como ferramenta de ação e dominação
(LEFEBVRE, 2000). Especialmente ao definir a estrutura espacial baseada na
estrutura social, fazendo uso do zoneamento. Como ferramenta de ação
especialmente ao criar uma cidade dispersa, que proporcionou práticas espaciais
diferentes e uma nova condição urbana (MOGIN, 2009). Tudo isto com o auxílio da
técnica, com o auxílio do “altamente interessado emprego de um supostamente
desinteressado conhecimento” (LEFEBVRE, 2000, p.15).
241

Neste movimento de ocupação da orla litorânea e de segregação espacial, se


criou a cidade dispersa. A dispersão, como Secchi (2009) pontua, foi, também em
São Luís, um novo modo de produção de espaço onde novos interesses estavam
presentes, notadamente os interesses dos mercados fundiários que se criaram no
processo de transferência de terras da União para o Estado, do Estado para o
município e daí para os mercados fundiário e imobiliário. Interesses também de
outra força econômica que se criou no mesmo processo: a indústria da construção
civil. Revelou-se, portanto, a urbanização também como instrumento de
desenvolvimento do capitalismo como apontava David Harvey (2008).
A cidade dispersa que se produziu foi caracterizada pela descontinuidade do
construído. Por ter formação diferente da cidade compacta gerou práticas espaciais
diferentes e o que se pode chamar de diferenciação territorial da vida cotidiana
(BARATTUCCI, 2006). Desta maneira observou-se que a dispersão é um novo modo
de produção de espaço, mas é também um novo modo de morar. Um modo de
morar individualizado e separado da cidade, dos centros concentradores das
atividades de trabalho. A cidade dispersa se caracteriza, então, pela individualização
dos modos de morar, pela multiplicação dos deslocamentos dos automóveis e pelas
distâncias percorridas cotidianamente. O que equivale a dizer, o uso obrigatório dos
meios rodoviários de locomoção, pelas avenidas que passaram a compor a extensa
malha viária construída para dar suporte ao funcionamento da cidade dispersa.
Observou-se que a dispersão aconteceu como consequência da decisão de
urbanizar a orla litorânea buscando, ao mesmo tempo, alcançar os extremos
distantes do centro urbano, os limites do município. Foi consequência também da
decisão de comandar a distribuição no território de todos os segmentos sociais, mas
justificada, em parte, como alternativa à concentração, ou melhor, ao que ela
representa, no sentido apontado por Secchi (2006).
Em São Luís, a concentração, materializada na cidade existente, passou a ser
questionada a partir da construção da nova cidade baseada fundamentalmente na
construção de novos modos de morar. A cidade existente foi representada, na
propaganda do Plano Diretor e no próprio texto do plano, como inadequada para os
novos modos de viver e de morar modernos. No texto de propaganda, a
representação do espaço associava à vida moderna os novos modos de morar em
áreas residenciais monofuncionais, isoladas dos problemas vividos pelas pessoas
na cidade. Desta forma o congestionamento do trânsito, ou os serviços urbanos
242

deficientes, ficavam associados à condição de cidade compacta, à concentração de


pessoas e atividades em um espaço circunscrito e não à maneira que estes
problemas eram enfrentados pelo poder público.
Certamente, não se está querendo representar a cidade existente de forma
romântica, como o paraíso idealizado. Havia muitos problemas a serem resolvidos,
sem dúvida. O que se quer enfatizar é que todos estes problemas passaram a ser
associados à cidade compacta, associados ao fato desta cidade ter sido planejada
para outras épocas, para outro estilo de vida. Um problema que se solucionaria,
somente com a construção de outra cidade, uma cidade moderna.
Esta cidade moderna era, por sua vez, associada à recuperação da economia
falida e com o processo de modernização, que tivera início no Maranhão Novo e que
era profundamente imbricado com os interesses desenvolvimentistas da ditadura
militar de construir uma sociedade industrial moderna. Todas estas questões
escamoteadas na representação da cidade existente como inadequada aos tempos
modernos, ou melhor, aos modos de morar modernos.
Reforçando esta representação da cidade inexistente como inadequada aos
modos de morar modernos, reforçaram-se as funções de comércio, de serviços e
institucionais no centro, à moda da bem conhecida solução de central business
district do urbanismo modernista; decretou-se crescimento zero do uso residencial
no centro e inventou-se a cidade histórica. Estratégias que, mesmo que não
tivessem a intenção, dificultaram, cada uma à sua maneira, o morar no centro.
A invenção da cidade histórica parece estar também relacionada com as
políticas da ditadura, que viam na promoção da conservação do patrimônio uma
oportunidade de afirmar um caráter nacionalista que ajudava a difundir uma imagem
de que o cerceamento das liberdades democráticas se justificava pela necessidade
de proteger o Brasil de interesses alienígenas, com isso tentando disfarçar o seu
caráter contrário aos interesses da maioria da população. Porque, como lembra
Garcia Canclini (1998), o patrimônio, ao ser identificado como símbolo da nação e
apreciado como um dom, como algo que recebemos do passado, se torna base de
uma simulação social que mantêm juntos a todos.
O patrimônio histórico transformado em símbolo da nação unificava a todos.
Para o governo federal, que incentivava planos diretores para implementar a sua
proposta de desenvolvimento, era obrigatório incluir a proteção do patrimônio em
cada um destes planos para reafirmar esta imagem.
243

Para legitimar sua hegemonia, os modernizadores (e era nesta condição que


se colocavam tanto a ditadura como o Maranhão Novo de José Sarney), se
colocavam em uma posição que sugeria que ao mesmo tempo em que renovavam a
sociedade, prolongavam tradições compartilhadas, o próprio projeto de governo do
Maranhão Novo se apoiando na recuperação da urbanidade perdida de um passado
glorioso.
Por outro lado, para o campo da conservação do patrimônio era uma brecha
importante a ser aproveitada: era uma oportunidade de preservar importantes
monumentos. E de preservar espaços urbanos de extrema qualidade e significado
social. É neste sentido que se pode entender as contribuições das missões da
Unesco, a de Michel Parent (1966/67) e a do arquiteto Viana de Lima (1972), que
influenciaram decisivamente os planos e projetos para São Luís. A proposta de
integração do patrimônio ao desenvolvimento econômico pela via do turismo se
colocava como uma perfeita simbiose, se o turismo propunha fazer uso do
patrimônio, o patrimônio usava o turismo como álibi para sua conservação.
Bom lembrar ainda que esta proposta resolvia uma série de problemas: dava-
se um destino aos casarões abandonados pela elite por ocasião da falência,
ressarcindo-se de alguma maneira os prejuízos aos proprietários e se abria a
possibilidade de aproveitamento do patrimônio como atração turística.
A representação que se queria consolidar é que era possível a convivência de
uma cidade moderna e uma cidade histórica. A expansão para longe da cidade
existente foi mesmo comemorada como o afastamento necessário da pressão
imobiliária do centro que tornaria possível a sua conservação. Coloca-se a questão
se o inverso seria verdadeiro, ou seja, se a transformação em histórico teria levado
os investimentos imobiliários para a área de expansão, desta vez reforçando a
construção da cidade nova e dispersa, que era a prioridade do Plano Diretor de
1974. Intencionalmente ou não, foi isto exatamente que aconteceu com relação aos
investimentos na construção da habitação que configuraram a cidade dispersa.
A transformação da cidade colonial, do centro da cidade, em cidade histórica
sugere, de novo, uma proposta que trazia em si a “ironia objetiva” (ARANTES, 2002,
p.11). Reconhecia-se que o espaço deveria ser valorizado, enquanto a
representação de inadequado aos modos de viver modernos desqualificava o
espaço histórico, associando-o à representação de espaço de morar obsoleto e
ultrapassado.
244

Desta forma, a cidade histórica passava a ser questionada como espaço de


morar. Esta representação se estende a toda a cidade existente, gerando uma
primeira tensão entre modos de morar modernos e modos de morar ditos
ultrapassados. Uma representação que tem impedido de reconhecer a presença do
uso residencial no centro ao longo destes anos. E histórico passava a significar
velho, obsoleto, inadequado.
Por outro lado, a desqualificação do uso comercial no centro tradicional seria
altamente prejudicial, mesmo catastrófico, para uma das forças econômicas mais
fortes no contexto daquela época em São Luís. Como lembra Castells (2005), para o
centro comercial tradicional a concentração traz benefícios suficientes para
compensar o preço elevado dos terrenos e os problemas da organização derivados
da congestão deste espaço. Em São Luís esta realidade é realçada no próprio Plano
Diretor de 1974. Ao mesmo tempo, a consagração deste centro comercial como o
centro de toda a cidade, o centro concentrando as funções comerciais e de serviços,
o centro de negócios e administrativo, significava a separação funcional tão cara aos
projetos do urbanismo modernista, cada função em seu lugar, reforçando a ideia das
áreas exclusivamente residenciais, a ideia da separação do espaço da moradia dos
espaços do trabalho.
Era também uma forma de resolver uma questão não implícita, mas
certamente presente: o que fazer com aqueles espaços transformados em
históricos, especialmente os ricos casarões, quando fossem abandonados pela elite
que deveria comprar (e se mudar) para os novos espaços oferecidos. Se os
casarões não serviam para morar, com as devidas adaptações poderiam servir para
abrigar comércio, serviços e as mais diversas instituições. Isto sem falar no turismo,
no uso cultural e de lazer. A cidade transformada em histórica deveria resolver o
problema do que fazer com o espaço antigo ao recuperar-se este espaço para o
turismo, lazer e atividades culturais. Especialmente o espaço da Praia Grande.
Esta vai ser a segunda tensão entre as duas condições urbanas, desta vez
concentrada na própria cidade existente, a tensão entre a condição de centro
histórico e centro integrado à cidade contemporânea.
Se, quando analisando a tensão entre os novos modos de morar e os modos
de morar ditos ultrapassados notou-se que a diferenciação territorial da vida
cotidiana que é outro modo de caracterizar a criação de práticas espaciais diferentes
proporcionadas pela dispersão, gerou não um, mas diferentes modos de morar que
245

proporcionam experiências diferentes, é possível também dizer que estas


experiências são unificadas pela mesma condição de cidade dispersa (e moderna)
em sua relação com a cidade existente. O centro se torna o centro desta cidade
moderna para todos os modos de morar, embora sob diferentes perspectivas.
Afirmaram-se modos de morar diferentes: um modo de morar da burguesia,
da elite, que se recolheu na distância dos antigos balneários estabelecendo um
modo de morar individual e isolado (morar na praia, no Olho d’Água-Calhau), que se
propagou também em outras áreas residenciais (conjuntos residenciais criados para
segmentos médios mesmo sem a presença muito próxima da praia); um modo de
morar que se caracterizava como extensão da cidade existente, beneficiando-se da
proximidade maior e trabalhando com a perspectiva de utilização da praia (Núcleo
do São Francisco, Renascença, Ponta D’Areia); um terceiro modo de morar que,
distante da cidade, criou para si uma “sub-cidade”, um sub-centro apoiado na prática
espacial da unidade de vizinhança (os conjuntos habitacionais mais numerosos ou
aqueles agrupamentos criados pela junção de dois ou mais conjuntos tanto
construídos para setores populares como no Cohab-Cohatrac, a Cidade Operária e
o Maranhão Novo-Bequimão como os segmentos criados ou apropriados pelos
segmentos médios como o núcleo Cohama-Vinhais-Cohajap- Cohajoli).
Assim, a tensão entre as duas condições urbanas não permitiu que se
afirmasse um único modo de morar na cidade dispersa. Também não
desapareceram os modos de morar consolidados na cidade existente. Não
desapareceram os modos de morar citadinos no centro da cidade, ou na sua
imediata adjacência, os antigos bairros da cidade existente, nem os “nichos
residenciais” e os modos de morar que podem ser caracterizados como resistência,
que foram o foco do trabalho de dissertação de mestrado em 2002 (VENANCIO) e
que foram revisitados em trabalhos de pesquisa que contaram com bolsistas de
iniciação científica (ARAÚJO, 2007; SANTOS, 2009; FREIRE, 2010) ou com
trabalhos de extensão (FILGUEIRAS e MENEZES, 2008; FILGUEIRAS, 2008) que
revisitaram e atualizaram o levantamento urbanístico de 1998 (DPHAP-MA/IPLAM).
Todos confirmando que o centro é ainda um lugar de morar e que estes modos de
morar ainda mantêm as mesmas características identificadas em 2002.
Finalmente, embora não tenha sido objeto específico de estudo não se pode
deixar de notar os modos de morar nos espaços que são deixados de fora da
urbanização, os espaços da cidade informal. Estes modos de morar contingentes,
246

das ocupações informais estão presentes na cidade revelando a incapacidade de


resolver o problema mais básico de permitir a todos a moradia digna na cidade.
É importante também observar que de maneira nenhuma se coloca que a
escolha do modo de morar não tem condicionantes práticos como a própria condição
financeira das pessoas, mas procurou-se extrair como a população se apropria
desta nova condição de cidade dispersa na construção da sua vida cotidiana e como
se relaciona com a cidade como um todo.
De qualquer forma, mesmo continuando como um lugar de morar o uso
comercial se ampliou consideravelmente e o centro passou a se relacionar com a
cidade dispersa como centro desta cidade. Certamente isto também é visto e
vivenciado de forma diferente de acordo com a experiência urbana e com os modos
de morar.
Para uns a distância era bem vinda porque mantinha longe a turbulência, o
barulho e a poluição da concentração (o morar na praia); para outros a distância era
um mal necessário (conjuntos residenciais de classes médias) para poder viver na
sua casa própria, com privacidade e de modo mais individualizado; ou era um
terrível fardo a ser percorrido para o trabalho (conjuntos residenciais mais afastados
e subúrbios sem unidade de vizinhança). Finalmente, era o centro mais bem
equipado, com ofertas mais diversificada, com as melhores escolas, para aqueles
modos de morar que construíam outro centro para si (conjuntos residenciais
apoiados em unidades de vizinhança).
Ao lado da tensão entre a condição de cidade compacta que se transformou
em centro e a cidade dispersa, a tensão entre as duas condições do centro, o centro
histórico e o centro da cidade, esta tensão parece ter sido em parte responsável pelo
deslocamento da proposta de valorização do patrimônio para as áreas já
marginalizadas pelas forças econômicas dominantes. Ou seja, embora o
tombamento federal incluísse o lugar do encontro político e o centro comercial mais
ativo, o Largo do Carmo (Praça João Lisboa), foi a Praia Grande que se consagrou
como Centro Histórico. A Praia Grande que era a área da concentração dos imóveis
que testemunharam a pujança econômica do século XIX e a consequente falência
no início do século XX. A marginalização decorrente exatamente desta falência,
agravada pelo deslocamento das atividades portuárias para o novo Porto de Itaqui.
Não foi, no entanto, o primeiro movimento, a divisão entre os dois centros. A
estratégia de conservação adotada em primeiro lugar pelo governo federal e que
247

parece ter sido aceita pelo poder público em São Luís, fora desenhada com o duplo
objetivo de impedir que a modernização destruísse as estruturas antigas sob o ponto
de vista do campo da conservação (Relatório de Parent, 1966) e de integrar este
patrimônio como objeto do turismo de arte, no desenvolvimento econômico em
curso. A proposta no PD/74 trabalhava com a recuperação tanto dos principais
monumentos isolados como dos principais conjuntos urbanísticos no centro como
um todo, seguindo a proposta de Viana de Lima.
O segundo plano, o Plano de Renovação Urbana da Praia Grande já
considerava como objeto de atuação a Praia Grande. Trabalhava com a proposta de
revitalização econômica buscando a sua integração ao centro comercial, reforçando
a centralidade da cidade, acrescentando-se as atividades turísticas e
administrativas. Aqui se manifesta uma tensão no campo da conservação urbana: a
proteção e a preservação para evitar a sua destruição no processo de
desenvolvimento ou a sua recuperação para fazer parte deste desenvolvimento.
Em São Luís, com a transformação do centro da cidade em centro da cidade
dispersa, o centro à disposição para ser recuperado ou o que estava necessitando
ser recuperado, era a área que estava menos integrada à vida contemporânea,
aquela que já sofrera a falência econômica, a Praia Grande. Este era o centro que
deveria ser salvo. Ou reconquistado. Esta representação, vai se materializar no
Programa de Preservação e Revitalização do Centro Histórico de São Luís. A Praia
Grande como centro histórico.
Deste modo o centro histórico passou a ser representado como aquele que
não estava integrado na vida cotidiana da cidade. Ser histórico passou a ser visto
como uma maneira de reintegrar o que estava “fora” da cidade, o que não era visto
mais como um centro urbano. Ou aquele que não estava funcionando como centro
urbano. Esta é a representação que se expressa nos planos até o PPRCH. Com isto
a conservação da cidade, ou da parte que estava integrada à cidade, do centro vivo,
é colocada em segundo plano e sob a direção das normas e da legislação.
A representação do espaço histórico é a do espaço que deveria ser valorizado
e integrado no novo desenvolvimento por meio do turismo, do lazer e das atividades
culturais, em nome da conservação. Como diz Lefebvre (1991), o espaço a ser
consumido. Por outro lado, o espaço do consumo (LEFEBVRE, 2008) se concentrou
no centro vivo e vibrante, integrado à vida contemporânea, o centro comercial e de
248

negócios que era o centro da cidade existente, da cidade compacta, mas era
também o centro da cidade moderna.
A dualidade lugar do consumo e consumo do lugar que para Lefebvre (2000)
é o que garante a sobrevivência do centro, se manifesta de forma separada. Cada
um dos centros desempenhando uma das funções. Esta divisão se torna ainda mais
concreta quando o PPRCH define como Centro Histórico a Praia Grande.
Este fato sugere que as restrições inerentes ao tombamento e às normas da
conservação geraram contradições com uma força econômica das mais poderosas,
o comércio de São Luís, de tal forma que o centro comercial fica, de certa maneira,
fora do controle rígido. Ficou de fora, de direito, enquanto não se instituiu o
tombamento estadual do centro. Depois do tombamento, feito em 1986, as
restrições foram sempre negociadas e as concessões feitas em benefício da
dinâmica econômica. De qualquer maneira, mesmo aqui a tensão entre as duas
condições se manifesta na realização de projetos de recuperação do espaço do
centro comercial, como a recuperação da Rua Grande em 1992, sugerindo uma
tentativa de levar a experiência e o valor do Reviver para o centro comercial.
Por outro lado, o Projeto Reviver, a maior etapa do PPRCH realizada de 1987
a 1989 consagrou definitivamente o Centro Histórico de São Luís. Como área de
cultura e lazer, como atração turística, como parte da identidade de São Luís. Não é
mais possível pensar São Luís sem seu Centro Histórico.
Ao fim da década de 1980 estes sintomas, mais a sobrevivência do PPRCH
com a troca de governo de Estado sugeriam que mais uma vez se acreditava na
possibilidade de convivência entre as duas “cidades” ou entre as duas condições. O
Reviver havia reabilitado o significado de histórico, que havia sido associado à
obsolescência. As etapas previstas para o futuro extrapolavam o centro histórico
limitado à Praia Grande. Além disso, incluía-se abertamente a manutenção do uso
residencial, desenvolvendo-se o pioneiro projeto piloto de habitação. Principalmente
a possibilidade de atração de recursos abria as portas para se pensar na
convivência da cidade histórica com a cidade moderna.
Entretanto, como a iniciativa privada não abre mão do apoio do Estado, na
construção da cidade moderna, no momento de inflexão da década de 1990 quando
o financiamento da construção da casa própria se encerrou com o fechamento do
BNH, foi o poder público que se voltou para apoiar as forças econômicas
interessadas no fortalecimento do mercado imobiliário e da construção civil mediante
249

a construção da cidade moderna. Uma nova frente de desenvolvimento do


capitalismo (HARVEY, 2008) se abre: a construção de um novo centro urbano.
Então, ainda que naquele momento, o sucesso do Reviver tivesse levantado a
possibilidade da cidade antiga conviver com a cidade contemporânea e que, do
outro lado, a dispersão da cidade incomodasse, a solução adotada não foi fortalecer
o uso residencial no centro, mas o deslocamento do centro, a invenção de um novo
centro urbano na cidade nova. Ainda próximo do centro antigo, no entanto.
Reinventa-se a urbanidade do bairro do São Francisco e se constrói para a classe
média um novo centro e um novo modo de morar que resgata, ou tenta resgatar, o
primeiro sentido da experiência urbana, o que Mogin (2009) chama da experiência
que reinventa o prazer de estar junto.
A reconstrução da urbanidade no bairro nobre do Renascença foi em parte
uma resposta ao sucesso de centro comercial instalado naquela região, o Tropical
Shopping Center. Este novo fato vai influenciar mudanças no padrão de ocupação
das áreas nobres residenciais do outro lado da ilha que vão se materializar em leis
de zoneamento e uso do solo. O gabarito das edificações aumentado nas áreas
novas e nobres propiciou a verticalização, que se apresenta cada vez mais
sofisticada, especialmente concentrada nesta área, os apartamentos ou
condomínios crescendo em área privativa, mas principalmente em áreas comuns.
Curiosamente, a concentração ainda é responsabilizada pelo novo centro, na
medida em que era o centro antigo que, congestionado, pedia o aparecimento de
outros espaços comerciais pela cidade. Coincidentemente (ou não) no mesmo ano
de 1986, acontecera o tombamento do restante do centro, única iniciativa ativa do
governo de Luís Rocha em relação à proteção do sítio histórico. Tomando como
base o mesmo raciocínio do primeiro tombamento, o do afastamento da pressão
imobiliária do centro (ou do direcionamento dos investimentos para fora do centro) o
processo volta a se repetir. Com uma diferença: desta vez alcança, ou está dirigida
de forma direta ao setor comercial e de serviços.
Deste modo, ao se partir para a elaboração de novo plano diretor, a tensão
entre as duas condições entre a concentração e a dispersão ainda se fez presente.
A concepção de espaço do Plano Diretor de 1992 não mudou no que diz respeito à
sua instrumentalização (LEFEBVRE, 2000). Usa-se o espaço como instrumento de
resposta à crise do mercado imobiliário com a mudança no gabarito das edificações,
gerando-se um novo modo de morar, no alto das torres. Passa ao largo da cidade
250

antiga tratando-se da criação de uma nova urbanidade, de um novo centro, um


centro para a nova cidade, na área nobre. O impacto sobre a cidade antiga não se
fez esperar. O centro que até então havia se mantido como o centro da cidade
passou a dividir este lugar com uma nova centralidade, na área nobre da cidade
dispersa.
Não se dissipou a tensão entre as duas experiências urbanas, entre o privado
e público como coloca Mogin (2009). O novo modo de morar visava (e conseguiu) a
adesão da classe média ainda moradora da cidade antiga. Os programas que
vinham se afirmando no Centro Histórico que incluíam o Programa de Habitação e
que pela primeira vez haviam se estendido para a área de patrimônio histórico
perdem espaço e se recolhem novamente ao centro histórico ao tempo que o centro
comercial começa a se “mudar” (ou a se duplicar) para o outro centro.
O centro histórico consolidou sua condição de espaço como objeto de
consumo (LEFEBVRE, 2010) justo no momento em que começava a se voltar para a
integração com o centro comercial e começava a implantar, com sucesso o
programa de habitação para os funcionários públicos estaduais. Não sem motivos,
porque este é o momento em que as políticas neoliberais assumem a condução do
processo das políticas urbanas.
Ao primeiro shopping seguem-se outros empreendimentos. Centros de
comércio e edifícios, dedicados principalmente a alojar serviços, escritórios e
consultórios de profissionais liberais, tanto na sua vizinhança imediata como em
locais ainda não ocupados, estes últimos com a expectativa de repetir o mesmo
processo de construção de condomínios residenciais à sua volta. Especial destaque
para um novo shopping, no Jaracati, ao lado do sítio Santa Eulália, cuja construção
coincide com outro marco importante para a conservação: o momento em que São
Luís é considerada patrimônio da humanidade, em 1997.
No entanto, isso não pode ser computado como fracasso. Pelo contrário. É
para lá que tem seguido, da mesma forma espalhada, avançando para os outros
bairros da orla marítima, as instituições do Estado constituindo um novo centro
administrativo. Consolidando a zona administrativa criada no Plano Diretor de 1992.
Neste processo vem acontecendo ao mesmo tempo dois movimentos: o
primeiro, de construção nos vazios urbanos ora maximizados pela implantação de
condomínios verticais ora ocupados por condomínios horizontais fechados e o
segundo, de expansão para terras ainda não urbanizadas, que dá continuidade ao
251

padrão da cidade esgarçada. Um e outro seguindo a mesma lógica de construção de


enclaves privados que busca a sua afirmação como a materialização espacial de um
novo modo de morar. Condomínios verticais, condomínios horizontais ou
loteamentos fechados atraem os futuros moradores com a perspectiva de morar
“dentro de um clube”, com programas cada vez mais mirabolantes, com segurança
máxima, oferecendo uma vida isolada do convívio da sociedade como um todo.
Ao mesmo tempo, os novos condomínios são adaptados para todos os
segmentos da população, ao ritmo das leis do zoneamento e uso do solo e do poder
financeiro dos novos moradores, reforçando-se dessa maneira o padrão de
privatização da cidade, aprofundando-se a segregação espacial.
Voltando a olhar os três períodos abordados nos três capítulos é possível
identificar o primeiro como o período de construção da nova cidade, da cidade
dispersa, onde o espaço concebido segue a orientação de separar e
compartimentalizar o espaço. Onde é essencial a separação entre a moradia e o
trabalho, a separação funcional, a separação espacial dos diversos segmentos da
sociedade. A cidade histórica primeiro, o centro histórico depois, se integram nesta
representação como partes desta separação funcional: o espaço cuja função é ser
histórico, carregando o sentido de histórico como ultrapassado e obsoleto,
inadequado para os tempos modernos.
O segundo período, que corresponde ao momento de produção da cidade
dispersa, é também o momento de produção do Centro Histórico como centro de
lazer, de cultura e de atração do turismo cultural e sua inclusão na lista da Unesco.
Recupera-se o sentido de histórico e São Luís ganha uma identidade que passa a
exibir para o mundo.
No terceiro período poderia se ter apostado na conservação da cidade
existente e aprofundado a ideia do respeito a estas estruturas preexistentes,
ampliando a base da conservação. No entanto, a opção foi aprofundar a separação
do centro histórico com a função de ser histórico, acrescido agora da função de
atração do turismo cultural internacional, continuando inadequado para a vida
contemporânea. Por trás destas escolhas, os interesses econômicos dos mercados
fundiário e imobiliário e da indústria da construção civil, e a incapacidade, ou a
dificuldade de desafiar a sua hegemonia. Desta forma, a transformação da cidade
histórica tem tido um papel importante na construção da cidade contemporânea.
A seguir apresentam-se quadros resumos destes três períodos identificados.
252
253
254
255

Neste ponto, é preciso ressaltar que, ao avaliar o projeto de reabilitação do


centro histórico de São Luís, o Projeto Reviver, acompanhando aqui a denominação
preferida pela população, encontra-se como pano de fundo a intenção e a prática, de
se contrapor ao que Otília Arantes (2000, p.44) chama de “núcleo duro produtivista
do sistema”. Uma prática que recupera o valor de uso do espaço e valoriza o
contexto e o habitat reanimando a vida dos bairros sem violentar seus moradores,
comprovando que a prática de recuperação de espaços urbanos degradados tem
proporcionado usos e contrausos por parte da população (LEITE, 2004), que mais
que a justifica, a torna necessária.
Na verdade, imaginar o que teria acontecido sem a definição da cidade
histórica no plano diretor de 1974, sem o Reviver, sem a inclusão de São Luís na
Lista do Patrimônio Mundial não remete a uma cidade conservada, com suas
residências e comércio funcionando. O cenário de destruição e de perda de
significado do patrimônio urbano construído pelo Brasil afora autoriza a dizer que a
decisão de expansão para outras áreas, de levar a cidade moderna em outra direção
e a definição de uma área de preservação histórica, contribuiu sim para a
manutenção da cidade antiga. Da mesma forma, é possível dizer que a reabilitação
do Centro Histórico e sua condição de Patrimônio da Humanidade colocaram na
ordem do dia a discussão da permanência dos espaços antigos, mais que isso a
democratização de espaços públicos para sua população.
O que não quer dizer que as tensões foram resolvidas. Pelo contrário. Uma
das principais, a tensão entre a cidade como espaço de convivência, como espaço
destinado a maximizar a interação social, como diz Doreen Massey (2008) onde a
organização de espaços que promovam o encontro é fundamental e a cidade feita
de um aglomerado de espaços privados, ou melhor, privatizados, onde a entrada só
é permitida aos iguais, onde o expurgo dos desiguais impera (BAUMAN, 2001). Qual
o papel reservado para o Centro Histórico nesta concepção de cidade está em
aberto para o futuro.
O centro urbano antigo divide (ou compete) com as novas centralidades, o
seu papel de centro funcional, de comércio e serviços. Não se pode deixar de
observar, no entanto, que enquanto estas atuam como centros locais ou servindo a
uma parcela privilegiada da população, é a área central que se oferece para a
maioria, por sua tradição, por uma maior oferta, pela sua acessibilidade.
256

Entretanto, em um contexto no qual o que se valoriza são os espaços


homogêneos derivados da segregação espacial, o oferecer-se para a maioria da
população não é mais uma vantagem. Pelo contrário. Neste caso, a nova
centralidade das elites disputa com o centro antigo não a presença da maioria da
população, mas os consumidores, os empreendimentos mais bem sucedidos, as
sedes principais dos bancos, a vinda destes garantida pela oferta de um espaço
urbano tido como o adequado para o desenvolvimento dessas atividades. Desta
forma, o fortalecimento da ideia de que o centro antigo não atende às necessidades
da cidade contemporânea é absolutamente necessário. Por outro lado, São Luís é
Patrimônio da Humanidade. Nesta condição as atenções continuam a se dividir entre
a construção da cidade contemporânea e a conservação do centro histórico.
Ao mesmo tempo, outra questão surgiu na reflexão sobre o processo: o
campo da conservação também tem trabalhado no mesmo campo da representação
do espaço histórico inadequado à vida cotidiana ainda que por motivos diferentes.
Uma questão que se coloca ao se observar a imensa dificuldade de atuar na
conservação em espaços “vivos”. Ou até mesmo de considerar como históricos
estes espaços “vivos” e conservados. Coloca-se a questão de se, neste momento,
esta representação não é um sinal de que a conservação se adequa aos interesses
econômicos, ou se “conforma” em aproveitar as brechas deixadas pelos interesses
econômicos hegemônicos (histórico é o valioso que ninguém mais quer) ou trabalha
no mesmo campo da produção capitalista do espaço por meio das intervenções de
reconquista dos espaços valiosos redescobertos.
O principal problema desta representação em São Luís é a divisão entre os
dois centros. É preciso pensar mesmo, se é possível manter essa separação de
centro histórico e centro-que-não-é-histórico, na medida em que o próprio
tombamento federal e a área inclusa na Lista do Patrimônio Mundial da Humanidade
estão divididos entre os dois centros. No entanto, para isto é preciso superar
exatamente a dificuldade de ver o espaço antigo como adequado à vida cotidiana
contemporânea, incluindo o morar, o uso residencial, representação que está
presente tanto nos planos que tratam da urbanização dispersa como nos planos
relacionados com a cidade histórica. E esta é a conservação urbana que interessa.
257

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267

ANEXOS

ANEXO 1 - EDIFÍCIO CAIÇARA: ENTRE A MODERNIDADE E A TRADIÇÃO.


ESTUDO SOBRE UM MODO DE MORAR EM SÃO LUÍS – MARANHÃO.

Tayana do Nascimento Santana Campos Figueiredo – Bolsista BIC-FAPEMA


Orientadora: Marluce Wall de Carvalho Venâncio

O Edifício Caiçara permaneceu e permanece como único exemplar de


edifício residencial na área central da cidade de São Luís. Foi tomado como ponto
de partida e de reflexão para se identificar e analisar momentos iniciais das novas
lógicas espaciais e culturais que reverteram à continuidade histórica dos modos de
habitar na cidade. Desse modo, a trajetória do Edifício Caiçara no tocante ao seu
significado no contexto sócio-espacial ao longo de diferentes temporalidades, do
momento da sua construção nas décadas de 1960/1970 até os dias atuais se
apresentou, então, como uma questão de estudo. Para responder tal questão foi
formulado um objetivo geral que buscou compreender a emergência da residência
multifamiliar (edifício de apartamentos) como expressão de um modo de habitar
que caracteriza um rompimento com a morfologia existente em um tecido urbano
tradicional, tendo como referência concreta de estudo o edifício Caiçara, situado
na Rua Grande na cidade de São Luís. Como objetivos específicos a pesquisa
privilegiou (1) analisar a trajetória do Edifício Caiçara no tocante à sua
materialidade (tipologia e características formais) e ao seu significado no contexto
sócio-espacial ao longo de diferentes temporalidades: o momento da sua
construção nas décadas de 60/70 e os dias atuais; (2) Demarcar as motivações,
os interesses e os significados culturais presentes no novo modo de habitar a
cidade, representado pelo edifício Caiçara.No trabalho de investigação, o estudo
foi dividido em pesquisa bibliográfica e em campo. A pesquisa bibliográfica e
documental apoiou-se em referências teóricas, através das quais se aprofundou o
estudo de temas capazes de contribuir para a apreensão de aspectos materiais e
simbólicos envolvidos na construção e trajetória do Edifício Caiçara como
modernidade, movimento moderno de arquitetura, verticalização e moradia. A
pesquisa de campo focou-se nas questões relativas mais especificamente ao
Edifício Caiçara tendo em vista a compreensão desta modalidade arquitetônica
vertical de moradia ao longo de sua existência. Para a reconstrução de parte
significativa da história dessa forma de habitar, entrevistou-se 26 moradores em
26 apartamentos, dos 48 que formam o Edifício (sendo que três deles
encontravam-se fechados); 7 ex-moradores e 7 profissionais pesquisadores. Na
realização das entrevistas foi utilizado o recurso do gravador, que garantiu o
registro e a posterior transcrição dos depoimentos além dos modelos de
questionários com perguntas específicas para os três grupos. Através das
entrevistas com os moradores foram analisados quesitos objetivos - como o perfil
do morador (idade, sexo,grau de instrução,área de atividade
profissional,quantidade de moradores por apartamento e local de trabalho) - e
subjetivos (caracterização das relações de vizinhança, motivações para morar no
Edifício, vantagens e desvantagens de morar na área central). A análise das
268

entrevistas foi feita a partir do agrupamento dos temas em tabelas. De acordo com
os dados que compõem o perfil dos moradores, percebeu-se que a maioria dos
entrevistados (38,4%) apresenta idade entre 40 e 60 anos, seguida dos moradores
entre 61 e 80 anos que apareceram em 30,8% dos casos. 42,3% dos
entrevistados são aposentados e maior parte desse valor é formada por mulheres.
Foi quantificado o grau de instrução dos moradores entrevistados sendo 53,8%
que apresentam ensino médio (maioria) e 46,1% que apresentam ensino superior.
Os 53,8% são formados por pessoas que trabalham e estudam. Os índices
também nos permitem confirmar um dado apontado por vários moradores durante
as entrevistas: - o fato de o Edifício Caiçara ser uma forma de habitação favorável
funcionalmente às pessoas mais idosas. Para tal, são destacados fatores como
segurança, a proximidade dos serviços (hospitais, bancos, escolas) e comércio
(lojas, supermercados) e igrejas. Ou seja, a pessoa idosa sente-se livre e
independente diante da praticidade que um bairro que pode ser percorrido a pé
proporciona ao cotidiano. Este é um dado importante quando se lida com a
questão da promoção habitacional em áreas centrais, pois fica claro que essa é
uma fatia da população que, certamente, demanda por moradia nessas áreas. Os
dados referentes ao perfil familiar demonstraram que há um equilíbrio entre os
moradores que vivem sozinhos e as famílias que possuem 2 ou 3 componentes. O
sexo feminino prepondera sobre os moradores do sexo oposto. Dentre os
condôminos que moram sem família, é importante relembrar a presença das
senhoras aposentadas que moram em seus apartamentos organizados e
encontram-se sempre dispostas a exercerem seus compromissos e atividades no
bairro: seja visitar um amigo, ir a um médico, ir à Igreja ou pegar um táxi para
visitar um parente. Nos quesitos relativos aos aspectos da relação entre o morador
e o edifício, constatou-se que 57,69% moram há menos de 5 anos no Edifício, ou
seja, a maioria dos moradores. Quando questionados sobre os relacionamentos
com os vizinhos, as respostas dos moradores variaram entre “relações de
amizade” (30,8%), “relações cordiais” (10%), não tomaram conhecimento
(23,08%) e apenas nas reuniões de condomínio (7,69%). Sistematizaram-se
também os argumentos relativos às motivações dos entrevistados para morar no
Caiçara onde a maioria se mostra satisfeita em ali morar, devido a fatores ligados
ao cotidiano da vida citadina, como a proximidade de funções urbanas como
comércio, serviços e escolas, igrejas bem como a segurança proporcionada pelo
prédio. Os entrevistados alegam uma grande identificação com o bairro do Centro
como a grande motivação para morar no prédio (46,15%). Aparece também a
segurança (34,61%), o gosto pelo apartamento (26,92%), a localização
privilegiada (26,92%), a proximidade do trabalho (23,08%), a comodidade
(15,38%), o fato de possuírem familiares residentes no bairro do Centro (15,38%),
de terem herdado um imóvel (3,85%) e o interesse cultural pelo bairro (3,85%).
Dos 26 entrevistados, apenas três pretendem se mudar do Edifício enquanto que
a outra parcela, (80,79% dos moradores) pretende não se mudar. Assim, pode-se
concluir que os habitantes do Caiçara estão, na sua maioria, satisfeitas com essa
modalidade habitacional da área central. A elaboração sobre a visão dos ex-
moradores toma por base depoimentos de 7 ex-moradores do Edifício Caiçara,
incluindo-se moradores antigos e com muito tempo de residência neste endereço,
como também moradores que permaneceram apenas 1 ano. Os aspectos
269

abordados nas entrevistas foram de cunho mais subjetivo, captados através de


perguntas que exigiram respostas longas que foram gravadas e posteriormente
transcritas. Durante as entrevistas, ao transformar em memória coletiva a
experiência individual de ter morado no Caiçara, um sentimento forte de nostalgia
e lamentação se fez presente, principalmente, nos depoimentos dos mais antigos
ex-moradores. Apontam também o fato do Caiçara ter se popularizado,
enfrentando um processo de degradação análogo ao próprio bairro no qual se
implanta. Essas visões nascem dos mesmos ex-moradores nostálgicos com
relação ao Centro da década de 1960 e, se opõe, a visão prática e positiva dos
moradores atuais. Outros ex-moradores, apesar de algumas críticas, deixam claro
que voltariam a morar no prédio. A efetivação da pesquisa nos permite concluir ao
seu final, que de fato o ambiente construído resulta de múltiplas determinações,
são produtos (ao mesmo tempo em que ajudam a produzir) de sistemas e
processos econômicos, políticos, espaciais e culturais. Assim, a construção do
Edifício Caiçara, na cidade de São Luís na década de 1960, manifesta de modo
particular e tardio, a busca dos ideais modernos em arquitetura e nos modos de
morar, iniciados na sociedade brasileira na passagem do século XIX para o século
XX. Os depoimentos e narrativas dos seus moradores apontam para o fato de que
morar no Caiçara significa qualidade de vida devido à sua localização, à
proximidade do comércio e de serviços essenciais e à facilidade de acesso a
todos os pontos da cidade, a proximidade da Igreja que freqüente por possibilitar a
convivência com os vizinhos e amigos e a continuidade de suas relações de
amizade. Ao mesmo tempo observando a vida no Edifício pode-se constatar a
convivência da permanência de antigos costumes, como o de ficar com as portas
abertas, com o fato de muitos moradores apenas se cumprimentarem
cordialmente nos elevadores. Que podemos extrair dessa condição?
Primeiramente que o moderno pode conviver com o antigo. Que o edifício Caiçara,
moderno na década de 1960, pertence ao centro antigo em diferentes
temporalidades. Na primeira, entre as décadas de 1960 e 1970, como uma
arquitetura da novidade, uma referência para a arquitetura moderna em São Luís
em forma de marco vertical no Centro da cidade habitada por famílias de classe
média e alta da época. Na segunda, que coincide com a atualidade, avistamos um
Edifício que, acompanhando a própria crise da função-moradia no bairro central,
ressemantizou-se como uma edificação que pertence ao Centro e é sinônimo de
qualidade de vida. A pesquisa indica, finalmente, que o Centro pode ser um bom
lugar de morar e, neste caso, que o Edifício Caiçara, localizado na principal rua
comercial da cidade se mantém como um símbolo arquitetônico que além de
contribuir para a constituição do patrimônio moderno da cidade ainda seduz e
agrada uma série pessoas interessadas em morar contando com a praticidade que
um Edifício Multifamiliar de apartamentos tem, aliando a isto um contexto urbano
tradicional, que por ser vivo, é belo, forte e capaz de promover desenvolvimento à
cidade.
REFERÊNCIAS
BARROS, Waldenira. Imagens do Moderno em São Luís. São Luís: Edições
FUNC, 2001.
270

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da


modernidade. São Paulo: Companhia da Letras, 1997.
RIBEIRO Jr, José Reinaldo Barros. Formação do Espaço Urbano de São Luís:
1612-1991. São Luís Edições. FUNC, 1999.
271

ANEXO 2 – TORRES DE SÃO LUÍS: UM ESTUDO DA RESIDÊNCIA


MULTIFAMILIAR EM SÃO LUÍS
Denise Sanches Assunção – Bolsista BIC-FAPEMA
Orientadora: Marluce Wall de Carvalho Venancio

Estudo sobre o processo de verticalização de São Luís com foco na habitação


coletiva limitando-se aos bairros do São Francisco e Renascença devido à
presença bastante expressiva de tais edificações. Identificam-se elementos
caracterizadores dos prédios, incluindo-se o ano da construção, a partir da
década de 1970 até 2003 e os principais fatores que interferiram em sua
modificação. Identificam-se o gabarito (número de pavimentos), cujo fator
determinante de seu aumento foi a elaboração do Plano Diretor da cidade, em
1992, que, ao mudar a Lei de Uso do Solo para aquela área permitiu que hoje
os prédios tenham até 15 pavimentos; identificam-se a modificação ocorrida no
número de quartos, verificando-se a expansão do número de suítes, a
presença de semi-suítes e o aumento do número de quartos (boa parte dos
edifícios novos possui no mínimo três quartos) e do número de banheiros, pois
com o aumento de suítes, a quantidade de banheiros também cresceu. Pode-
se observar que essas são características dos prédios mais novos, enquanto
os mais antigos a presença de suíte é mais rara, o mesmo acontecendo com o
tamanho total dos apartamentos que eram bem menores e com o número de
quartos. A consolidação da moradia vertical transformou também a área de
lazer, provocou o aumento do programa interno e evidenciou uma maior
sofisticação conferindo ao morar em condomínios verticais uma condição de
prestígio social que não estava evidenciada de maneira tão marcante nos
primeiros prédios. Consoante com isso é possível identificar a presença de
uma cada vez mais sofisticada área de lazer, que não estava presente, ou se
apresentava apenas timidamente no inicio do processo. Analisam-se dados
coletados em pesquisa de campo, que buscou informações quanto à
localização dos edifícios junto à Prefeitura Municipal de São Luís, a fim de que,
a partir dessa informação, fosse estabelecida uma base quantitativa de
exemplares por bairros a serem selecionados para estudo. O critério para sua
seleção foi o de escolher uma quantidade bastante significativa de cada
década que representasse bem a evolução das residências multifamiliares.

Quantidade de prédios por bairro, no período de 1974


a 2004

70
60 SÃO FRANCISCO
50
RENASCENÇA
40
quantidade PONTA D'AREIA
30
20 PONTA DO FAROL
10 SÃO MARCOS
0
BAIRROS

Quantidade de prédios por bairro, no período de 1974 a 2004.


Fonte: Denise Assunção
272

Confirma-se, em primeiro lugar, que o processo de consolidação da moradia


em edifícios residenciais verticais ainda que iniciado na década de 1970, como
parte do processo de modernização da cidade como bem apontam BARROS
(2001) e RIBEIRO JR (1999) começa a se consolidar a partir das modificações
no Plano Diretor de 1992 (Prefeitura de São Luís, 1992).
E em segundo lugar, evidencia-se a presença muito maior de edifícios
residenciais na área do Renascença nos sugere que é exatamente a
regulamentação estatal, nesse caso a modificação da Lei do Uso do Solo de
1992 que orienta e incentiva a verticalização,
Por fim, o estudo dessa verticalização não poderia deixar de abordar o ponto
de vista dos moradores. Foram então realizadas entrevistas com os moradores
de vários dos edifícios. Privilegiou-se a metodologia da entrevista em
profundidade buscando apreender como estes moradores se relacionavam
com o ambiente construído, sua casa e com o contexto da cidade.

REFERENCIAS:
BARROS, Valdenira. Imagens do Moderno em São Luís. São Luís. Studio 11.
2001.
RIBEIRO Jr, José Reinaldo. Formação do Espaço Urbano de São Luís:
1612-1991. São Luís. Edições FUNC. 1999.
SÃO LUÍS. Legislação Urbanística Básica de São Luís. São Luís: Prefeitura
Municipal de São Luís, 1992.
273

ANEXO 3 – CONDIÇÕES DE HABITABILIDADE NO CENTRO HISTÓRICO: UM


ESTUDO SOBRE O MORAR CONTEMPORÂNEO NA MORADIA COLONIAL

Christiana Pecegueiro Maranhão Santos – Bolsista BIC- FAPEMA


Orientadora: Marluce Wall de Carvalho Venancio

As diferenças nos modos de morar ao longo do tempo revelam evolução,


variações de objetivos, estilos. A casa é espelho de uma sociedade. Como diz
Rapoport (1969), “O aspecto cultural é fator determinante para proporcionar um
conjunto arquitetônico homogêneo. A homogeneidade da construção deriva do
fato de a casa ser muito mais a expressão de uma sociedade do que a obra de
um indivíduo, ou seja, ela é a transcrição direta e inconsciente das necessidades
e dos valores de uma cultura no plano material”. Nela reflete suas necessidades e
costumes. Inicialmente, o abrigo servia somente para proteger seus moradores
das intempéries. Com o passar do tempo este espaço foi ganhando cômodos
dispostos de maneira que pudesse somar outras funções. Já não bastava
somente proteger, necessitava também ser confortável. Nesta pesquisa foi feito
um recorte temporal na história das moradias no Brasil e no Maranhão,
enfatizando o estilo de residência encontrada na época colonial, séculos XVIII e
XIX e analisar como se deram essas adaptações. Quando os portugueses aqui
chegaram, a arquitetura vernacular dos índios deu lugar às moradias com
características européias à medida que a influência da metrópole portuguesa era
inserida no Brasil. Estudar a evolução da moradia auxilia na compreensão de
como isso se aplica no Centro Histórico de São Luís, já que os casarões,
construídos em época diferente à atual estão sendo utilizados em sua maioria
como residências uni e multifamiliares. O objetivo da pesquisa foi se aprofundar
em duas investigações: a análise de como ocorreu essa adaptação do modo de
vida ao longo do tempo; e como se vive atualmente no imóvel colonial, a realidade
em que estão inseridos os moradores do Centro, as condições gerais de
habitabilidade dos principais setores habitacionais do Centro Histórico,
considerando as diferenças sócio-econômicas. Para melhor condição de análise,
a metodologia consistiu em, um primeiro momento, realizar o embasamento
teórico por meio de busca bibliográfica sobre a história da habitação e construção
do conceito de habitabilidade, para a partir dela embasar a pesquisa em questão.
Posteriormente, foram escolhidas as áreas que iriam ser analisadas, limitando-se
a quatro pontos habitacionais: a área denominada Pólo Santo Antônio (adjacência
da Igreja de Santo Antônio), as proximidades da Avenida D. Pedro II (Rua Dr.
Neto Guterres e Rua Graça Aranha), o Bairro do Desterro e as habitações
reformadas pelo Governo do Estado, localizados no Bairro da Praia Grande,
fazendo um apanhado geral das suas condições e quais foram os efeitos dos
programas habitacionais voltados para habitação desenvolvida no Centro
Histórico de São Luís. A visita aos imóveis e entrevista com os moradores foi de
fundamental importância para complementação de informações acerca do grau de
satisfação e condições de moradia. As fotografias tiradas na visita aos locais
servem como mais um meio de complementação de dados. Na cidade de São
Luís e em outros centros históricos pelo mundo esse pensamento de valorização
do Centro encontra-se cada vez mais ativo. Apesar de ainda não serem
suficientes, as iniciativas de preservação do Centro Histórico ludovicense
apresentam resultados e mostra ser de grande importância a preocupação em
integrar diversos serviços no Centro que preservam a vida no local e o valoriza.
274

Na maioria dos prédios preservados, tanto na área de proteção estadual quanto


federal, predomina o uso residencial unifamiliar e grande parte dele encontra-se
ocupado, apesar de não ser sua totalidade. Na área estadual 53,05% dos imóveis
se destinam a esse tipo de residência, enquanto o uso residencial multifamiliar
corresponde a 0,51%. Alguns programas de reabilitação de imóveis foram
executados, tanto destinados à habitação de interesse social, lançados por
iniciativa do Governo do Estado e mais recentemente pela Fundação Municipal do
Patrimônio Histórico que inicia seu projeto piloto para Habitação de interesse
social, na Rua Humberto de Campos; como os voltados para funcionários
públicos da rede estadual. Essas iniciativas foram de grande importância para
aqueles que vêem no Centro Histórico uma boa oportunidade de moradia, perto
de seu trabalho, contribuindo para a manutenção da vida nessa região e do
próprio acervo arquitetônico, na preocupação em valorizar o conjunto
paralelamente com o social, em uma conservação integrada e sustentável. O
projeto do bairro do Desterro e o projeto piloto de habitação do Governo do
Estado, localizada no imóvel do Beco Pacotilha são exemplos de ações voltadas
para a habitação social. O bairro do Desterro, refletindo vocação portuária tendo
abrigado durante muito tempo um porto com funções comerciais, é um povoado
que faz parte do núcleo inicial da capital maranhense, juntamente com o bairro da
Praia Grande, este consolidado como espaço mercantil.
Porém, apesar das dificuldades, naquela região e nas outras áreas
entrevistadas, segundo as conversas com os moradores, boa parte sente-se
satisfeito em morar ali: desde crianças, jovens universitários a aposentados que
não “trocam sua casa por gaiola”, como foi dito por um morador. Porém, não
deixam de destacar os vários problemas como a grande quantidade de imóveis
sem uso, que facilita a violência, e outros ocupados por famílias, mas que não
possui as mínimas condições de moradia. Como disse a moradora da Rua
Saavedra: “Era calmo demais, não se andava trancada, agora passa o dia inteiro
assim”, que há 55 anos habita próximo à Igreja Santo Antonio. Ao contrário do
que se pode pensar, o Centro ainda pode ser considerado um local
predominantemente residencial, como evidencia o gráfico de usos do Centro
Histórico na área federal (gráfico1). Outra iniciativa com a intenção de incentivar o
uso residencial no Centro Histórico, no início dos anos 90 foi proporcionada pela
intervenção estatal um Subprograma de Habitação que contempla em um
primeiro momento a reforma de nove prédios, antes ocupados por repartições
públicas, transformados em imóveis multifamiliares para abrigar funcionários
públicos do estado, beneficiando-os com residências próximas ao local de
trabalho. Inicialmente foi realizado um projeto piloto destinado à moradia social no
imóvel localizado no Beco Pacotilha nº 36. Percorrendo pelo prédio, observa-se
que, o fato de os moradores estarem inseridos em uma habitação coletiva, ainda
encontra-se a interação entre os moradores. A impessoalidade ainda é menor se
comparada com grande parte das edificações multifamiliares que sequer
conhecem seu vizinho (nos novos apartamentos), provavelmente pelo fato de que
a coletivização dos banheiros tenha proporcionado uma interação maior entre os
moradores. Durante as entrevistas, confirmou-se o conceito construído
inicialmente de habitabilidade. Além das necessidades básicas que todo indivíduo
possui e sem as quais não é capaz de viver dignamente, como o acesso aos
serviços de infraestrutura básica, também se encontram outros fatores mais
subjetivos de acordo com a necessidade de cada um e do que cada considerava
importante e essencial para a rotina. Alguns moradores expressam essa
275

insatisfação devido a limitações como falta de estacionamento, ausência da TV a


cabo, distribuições dos cômodos, proximidade com locais mal freqüentados, entre
outros motivos. O modo de vida se adapta ao casarão histórico ao mesmo tempo
em que se tenta adaptar o máximo possível o casarão histórico para o novo estilo
de vida, contemporâneo.

Gráfico 1. Usos no Centro Histórico de São Luís/MA na área Estadual.

ÁREA FEDERAL
20,86 19,94
18,3 Comercial
13,19 13,49 12,07 Servicos
Institucional
0 2,15
Industrial
Residencial Unifamiliar

Misto
Multifamiliar

Sem Uso
Industrial
Institucional
Servicos
Comercial

Residencial
Unifamiliar

Resid.
Resid. Multifamiliar
Misto
Sem Uso

Imagens nºs 1 e 2: Imóvel localizado no Beco Pacotilha, residência de interesse


social e a planta baixa mostrando ao fundo do lote os banheiros coletivos.

Foto nº 3 – Detalhe da parede desmoronada Foto nº 4 – Rua da Saavedra, Centro – São


do imóvel do Beco Pacotilha nº 194. Luís, MA
276

Foto nº 5 – Rua de Santo Antonio, Centro – Foto nº 6 – Beco do Silva, Centro – São Luís,
São Luís, MA MA

Referências:
LEMOS, A. C. A República Ensina a Morar (Melhor). São Paulo: Hucitec, 1999.
p. 10-34, 57-59
LEMOS, Carlos. História da Casa Brasileira. São Paulo: Contexto, 1996. p. 13-
32
RAPOPORT, Amos. House form and culture. New Jersey Prentice Hall.1969
SÃO LUÍS. Prefeitura Municipal. Desterro: um bairro além dos mapas. São
Luís: QG Qualidade Gráfica e Editora, 2005. p. 15-32
SÃO LUÍS. Prefeitura Municipal. Programa de Revitalização do Centro
Histórico de São Luís. Diagnóstico de Habitação do Centro Histórico. Maio,
2007 p. 9-21
VENANCIO, Marluce Wall C. As Razões, as paixões, as contradições de morar
no lugar antigo: uma investigação sobre o habitar contemporâneo no
patrimônio cultural urbano. Polo Santo Antônio, São Luís, Maranhão. 2002.
120f. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Urbano). Programa de Pós-
graduação em Desenvolvimento Urbano. Universidade Federal de Pernambuco,
Recife, 2002.
277

ANEXO 4 – MORAR NO CENTRO, QUEM HÁ DE? ZONA TOMBADA 2 EM SÃO


LUÍS DO MARANHÃO.
Shenna Dallen Araújo – Bolsista BIC- FAPEMA
Orientadora: Marluce Wall de Carvalho Venancio
278
279

ANEXO 5 – DO ALTO DAS TORRES OU ATRÁS DOS MUROS

Renata Soares Targino – Bolsista BIC-FAPEMA


Orientadora: Marluce Wall de Carvalho Venâncio

Os modos de morar da São Luís contemporânea sofreram mudanças.


Em torres verticais e condomínios fechados horizontais, a cidade ganha
novos conceitos no que diz respeito à moradia, o que propicia e estabelece
uma, também nova, relação com o contexto urbano.
Para uma maior precisão de conceitos, “modos de morar”, neste
trabalho, se relaciona, por um lado, com um novo desenho da casa, da
residência, tido como mais adequado ao ritmo de vida “moderna”. Relaciona-
se, por outro lado, com novas formas de organização e funcionamento da
habitação que vai da moradia isolada – unifamiliar –, que são as casas nos
bairros e conjuntos habitacionais, à moradia multifamiliar, os edifícios de
apartamentos, os condomínios horizontais fechados e, mais recentemente
os chamados “flats”, apartamentos com serviços de hotel. “Modos de morar”
está também relacionado com as escolhas do local de moradia, com a
criação de novas áreas residenciais, e com a relação que se estabelece, a
partir da moradia, com a cidade e com a vizinhança.
Nesse sentido, partimos da observação de que os modos de morar
que se apresentam na São Luís contemporânea, especialmente para a
classe média, tomam a forma de condomínios, quer sejam eles verticais, em
prédios de apartamentos, quer sejam horizontais, os chamados
“condomínios fechados”. Logicamente, os outros modos não
desapareceram, mas a produção dos condomínios tem atraído as atenções
e vem se afirmando, como o modo de morar mais adequado à
contemporaneidade. Como ponto central de atração, ambas as formas
apresentam como vantagens a possibilidade de maior segurança e de
instalações de lazer comunitários. A segurança se materializa na forma de
muros os mais altos possíveis, portas de chumbo, câmaras de vigilância,
cercas elétricas e semelhantes.
Os equipamentos comunitários indo do parquinho para a diversão das
crianças às sofisticadas salas de projeção, as academias de ginástica,
sauna, churrasqueira e piscina. A sofisticação e a quantidade de
equipamentos, de segurança ou lazer, variando conforme o tamanho e os
destinatários, quer dizer, a faixa de renda dos destinatários do
empreendimento. Em comum a possibilidade de viver em comunidades
pequenas, compartilhando com seus iguais – igualdade presumida mediante
a capacidade de compra dos moradores e, ou usuários das residências –
que facilitaria manter afastado os perigos da violência urbana.
Algumas questões se levantam: estaríamos dessa maneira
construindo o “morar” ideal? Seriam essas formas a materialização das
necessidades de um novo modo de viver, um modo de viver moderno? Mas
o que é esse “modo de viver moderno”? E esse modo de viver moderno teria
a capacidade de determinar os padrões de uma “qualidade de vida”
almejada por todos?
Muitos estudiosos da nossa época, como o sociólogo Bauman
apontam para o desmanche e a liquefação dos elos que sustentam a
sociedade levando-a para a crescente privatização da vida contemporânea,
o que, traduzindo em outras palavras e para o campo da arquitetura e do
280

urbanismo quer dizer uma crescente privatização dos espaços públicos. Os


modos de viver modernos retratam essa característica sendo os
condomínios fechados o maior exemplo dessa privatização.
O condomínio retrataria a tendência de manter em espaços fechados
todos os elementos necessários para uma “vida de qualidade”. “Cidade de
muros” como diz a socióloga brasileira Tereza Caldeira.
As comunidades fechadas dos condomínios são o reflexo da
exacerbação da segregação espacial. A opção de se afastar da pobreza
mediante estratégias de delimitação de espaços fechados e fortificados para
se proteger dos assaltantes, a cultura e a política do medo cotidiano leva à
construção de espaços fechados, murados, cercados, frutos de uma política
de individualização e de privatização da vida pública, que são uma tendência
da contemporaneidade segundo Bauman. Reflexo de um contexto em que a
busca de segurança ao oferecer a alternativa de refugiar-se em nichos
seguros, constrói espaços altamente segregados que são a negação do
espaço público. Os espaços cercados são então legitimados por serem
espaços de iguais, de indivíduos que partilham a mesma identidade. Manter
a comunidade torna-se um fim em si mesmo, mas com isso vem a idéia da
expulsão, do expurgo dos diferentes, da fronteira fechada para os
estrangeiros. E a negação, a condenação de espaços públicos que se
alimentam da convivência com a diferença e com a diversidade. Uma área
que bem representa esses novos modos de morar de São Luís é a Avenida
dos Holandeses, recebedora, nos últimos tempos, de grandes
empreendimentos residenciais. Tais como os Condomínios Two Towers e
Farol da Ilha, que são apenas uma pequena mostra do que pode ser
encontrado ao longo desta avenida e o que será discutido no trabalho
apresentado.
Neste sentido o trabalho investigou, por um lado, as novas tipologias,
fazendo um levantamento das características morfológicas dos condomínios
fechados, localizados na Avenida dos Holandeses, escolhida tanto pela
concentração destes condomínios como pelo status atribuído a ela de local
sofisticado, utilizando-se de fichas para o registro de cada um dos
condomínios. Por outro lado, desenvolveu entrevistas abertas, em
profundidade com os moradores destes condomínios sobre o modo de vida
adotado.
As pesquisas foram realizadas em campo, através de observações,
anotações e entrevistas e também pela internet, através de sites de
construtoras e imobiliárias. Constituíam-se de: levantamento da localização
dos condomínios; escolha de áreas e condomínios mais representativos
para estudo mais detalhado de suas características espaciais e
arquitetônica; estudo das características espaciais e arquitetônicas dos
condomínios verticais e horizontais; levantamento demográfico e
socioeconômico dos moradores da área objeto de estudo mediante
questionários e entrevistas; entrevistas abertas com os moradores,
buscando caracterizar este novo modo de morar tanto em relação ao uso do
apartamento e do condomínio, identificando-se os aspectos relacionados
com a convivência entre os vizinhos como os costumes e práticas
desenvolvidas por estes moradores em sua relação com a cidade e com o
contexto urbano em que estava envolvido.
281

FICHA Nº 01
Nome: Two Towers Residence
Localização: Ponta d’Areia Ano Conclusão: 2007
Tipologia: Vertical Nº de Pavimentos: 17 Nº de Torres: 02
Apartamentos Tipo: 01
-Área Privativa: 843,92m² - Louçaria -Sauna
-01 apartamento por andar -03 terraços -02 Lavabos
-05 suÍtes - Gabinete -Sala de
repouso
-Suíte Máster com 90,50m² - Adega -Amplo
terraço
(amplo closet, 02 banheiros, ofurô e terraço) - Lavabo -Bar molhado
e bar seco
-Sala Íntima - Ampla Cozinha -Academia
-SaLa de Estar / Jantar - Ponto para split -Piscina
privativa com
-Rouparia -02 dependências de serviço
20,55m x 3,00m - Churrasqueira

Áreas Comuns:
- 01 apartamento por andar - Quadra Poliesportiva - Sala de vídeo
equipada
- 01 elevador semi-panorâmico - Playground - Quadra de
Tênis
- 01 elevador de serviço tipo hospitalar - Pista de Cooper - Gazebo
- Antecâmara de segurança para veículos - Área de
jogos
- Hall de entrada ambientado com pé-direito de 9,00m
- Salão de festas equipado com mesas, cadeiras, freezer e fogão

FONTE: www.franere.com.br
Fonte: Renata Targino (2008)

Referências
BARROS, Valdenira. Imagens do Moderno em São Luís. São Luís. Studio
11. 2001.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
2001
________________. Comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2002.
282

CALDEIRA, Teresa Pires. Cidade de Muros: crime, segregação e


cidadania em São Paulo. São Paulo: Editorial 34- Edusp. 2003.
DAVIS, Mike. Cidade de Quartzo: escavando o futuro em Los Angeles.
São Paulo: Página Aberta, 1993.
HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola,
1993. _____________ Espaços de Esperança. São Paulo: Edições Loyola,
2005
RIBEIRO Jr, José Reinaldo Barros. Formação do Espaço Urbano de São
Luís: 1612-1991. São Luís: Edições FUNC. 1999.
SCOCUGLIA, Jovanka Baracuhy C. Cidade, Habitus e Cotidiano Familiar.
João Pessoa: Centro de Tecnologia/Editora Universitária UFPB
VAZ, Lillian Fessler. Modernidade e moradia: habitação coletiva no Rio
de Janeiro séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2002.
SOMEKH, Nadia. A cidade vertical e o urbanismo modernizador. São
Paulo: Studio Nobel: Editora da Universidade de São Paulo: FAPESP, 1997.
CONSRUTORA FRANERE. Two Towers Residence. Disponível em:
<http://www.franere.com.br/content/imoveis/imovel.php?codigo=64>. Acesso
em: 17 jan. 2008.
AGRA INCORPORADORA e CYRELLA BRAZIL REALTY. Condomínio Farol
da Ilha. Disponível em: <http://www.faroldailha.com.br/>. Acesso em: 21 fev.
2008.