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10/06/2015 SALVE REGINA!

: São Roberto Bellarmino ­ Capítulo V ­ As sete palavras de Cristo na Cruz

São Roberto Bellarmino ­ Capítulo V ­ As sete palavras de Cristo
na Cruz

O primeiro fruto que se há de colher da consideração da segunda Palavra dita por Cristo na
Cruz.
Tradução: Permanência

Podemos colher alguns frutos, tirados da segunda palavra dita na Cruz. O primeiro fruto é a
consideração da imensa misericórdia e liberalidade do Cristo, e de como é bom e útil servi­lo.
As muitas dores que Ele, Nosso Senhor, sofria, poderiam ser alegadas como escusa para não
escutar a petição do ladrão; mas, em Sua caridade divina, preferiu olvidar Suas próprias dores
atrozes a não escutar a oração de um pobre pecador penitente. Esse mesmo Senhor não
respondeu nada às maldições e
imprecações dos sacerdotes e soldados, mas ante o clamor de um pecador a se confessar, Sua caridade proibira­lhe
permanecer em silêncio. Quando é ultrajado não abre a boca, porque é paciente; quando um pecador confessa sua culpa,
fala, porque é bondoso. Que dizer, pois, de Sua liberalidade? Os que servem a um chefe temporal com freqüência obtêm
uma magra recompensa por muitos labores. Entre esses não raro vemos os que terão gasto os melhores anos de sua vida
ao serviço de príncipes, e se retiram em idade avançada com mirrado salário. Mas o Cristo é um Príncipe verdadeiramente
liberal, um Amo verdadeiramente magnânimo. Das mãos do bom ladrão não recebe nenhum serviço, exceto algumas
palavras bondosas e o desejo cordial de o assistir, e, como galardão, com que grande prêmio o retribui! Nesse mesmo dia,
todos os pecados que cometera durante sua vida são perdoados; é igualado aos principais de seu povo, a saber, os
patriarcas e os profetas; e, finalmente, o Cristo o eleva para partilhar de sua mesa, de sua dignidade, de sua glória e de
todos os seus bens. “Hoje”, disse, “estarás comigo no Paraíso”. O que Deus diz, faz. Tampouco difere essa recompensa
para algum dia longínquo, mas, àquele mesmo dia, derrama em seu seio “uma medida boa, cheia, recalcada,
transbordante"1.
O ladrão não é o único que experimentara a liberalidade do Cristo. Os apóstolos, que tudo
abandonaram — seja um barco, um ofício de coletor de impostos ou um lar — para servir ao
Cristo, foram feitos por Ele “príncipes de toda a terra"1, submetendo­lhes demônios, serpes e
toda casta de enfermidades. Se algum homem deu por esmola alimento ou vestimenta aos
pobres em nome de Cristo, escutará estas palavras consoladoras no Dia do Juízo: “Tive fome, e
me deste de comer... estava desnudo, e me vestiste"3, receba tua recompensa, e entra na posse
do meu Reino Eterno. Enfim, para não nos demorarmos em muitas outras promessas de
recompensa, poderia o homem crer na quase inacreditável liberalidade do Cristo, se não fosse o
mesmo Deus quem prometesse que “todo o que deixar a casa, ou os irmãos ou irmãs, ou o pai
ou a mãe, ou os filhos, ou os campos, por causa do meu nome, receberá o cêntuplo e possuirá a
vida eterna"4?
São Jerônimo e os outros santos doutores interpretam o texto acima citado desta maneira: se um
homem, pelo amor do Cristo, abandona tudo nesta vida presente, receberá uma dupla
recompensa em adição à vida de valor incomparavelmente maior que a pequenez da que se
deixara. Em primeiro lugar, receberá um gozo ou dom espiritual nessa vida, cem vezes mais
precioso que o objeto temporal que pelo Cristo desprezara; um homem espiritual escolheria
antes conservar esse dom à substituí­lo por cem casas ou campos, ou outras coisas semelhantes.
Em segundo lugar — como se Deus Todo­poderoso considerasse tal recompensa como de
pequeno ou nenhum valor — o feliz comerciante que troca bens terrenos por celestiais receberá
no outro mundo a vida eterna, palavra esta que contém um oceano de todo o bem.
Essa é, pois, a maneira por que o Cristo, o grande Rei, mostra sua liberalidade aos que se
entregam sem reservas aos seus serviços. Não são estultos os homens que, abandonando as
bandeiras de tal monarca, desejam fazer­se escravos de Mamón, da gula, da luxúria? Mas os
que ignoram aquilo que Cristo considera como verdadeira riqueza poderiam obstar que estas
promessas não passam de palavras, pois muitas vezes verificamos que os amigos diletos do
Senhor são pobres, esquálidos, abjetos e sofridos e, por outro lado, nunca enxergamos a tal
recompensa centuplicada, que se diz tão magnífica. Assim é porque o homem carnal não pode
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10/06/2015 SALVE REGINA!: São Roberto Bellarmino ­ Capítulo V ­ As sete palavras de Cristo na Cruz

ver o cêntuplo que Cristo prometeu, pois não tem olhos com que possa vê­los; não participará
jamais desse gozo durável, que engendra uma consciência pura e um verdadeiro amor de Deus.
Contudo, darei um exemplo para mostrar que até um homem carnal pode apreciar os deleites e
as riquezas espirituais. Lemos, num livro de exemplos sobre os varões ilustres da ordem
Cisterciense, que um certo homem, nobre e rico, chamado Arnulfo, abandonou toda sua fortuna
e fez­se monge cisterciense, vivendo sob a autoridade de São Bernardo. Deus testou a virtude
desse homem mediante dores amargas e muitos tipos de sofrimentos, em particular no final de
sua vida; numa certa ocasião, quando sofria mais agudamente que de costume, clamou com voz
forte: “Tudo o que dissestes, oh! Senhor Jesus, é verdade”. Ao perguntar­lhe, os que estavam
presentes, qual a razão de sua exclamação, respondeu­lhes:
”O Senhor, em Seu Evangelho, diz que os que abandonam suas riquezas e todas as coisas por
Ele receberiam o cêntuplo nesta vida e, após, a vida eterna. Compreendo largamente a força e a
gravidade desta promessa, e reconheço que estou agora a receber o cêntuplo por tudo que
abandonei. Em verdade, a grande amargura desta dor me é tão agradável por causa da
esperança [que tenho] na Divina Misericórdia, que me estenderão os sofrimentos, dos quais não
consentiria libertar­me, ainda que a cem vezes o valor da matéria mundana que abandonei.
Porque, em verdade, a alegria espiritual que se concentra na esperança do que há de vir
ultrapassa cem vezes toda alegria mundana, que brota do presente”.
O leitor, ao ponderar estas palavras, poderá julgar em quão grande estima se há de ter a virtude
vinda do céu da esperança infalível, da felicidade eterna.
1.     Lc 6,38.
2.     Sal 45,17.
3.     Mt 25,35.36.
4.     Mt 19, 29.

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