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Guia do Sobrevivente | Princípios das Facas de Sobrevivência

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Guia do Sobrevivente | Princípios das Facas de Sobrevivência

APOSTILA
Princípios da cutelaria de sobrevivência

2018
BATATA SOBREVIVENCIALISTA

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Dedico esse tratado à


Walkiria, a mãe de todas; Anamaria, minha pequena bravinha;
Lurdinha, a bruta; e Mia Khalifa, a perversa.
Estas são meus amores, minhas facas de sobrevivência.

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Introdução

A FERRAMENTA “ALPHA” DO SOBREVIVENTE

No início não podíamos dizer que o homem usava roupas. Sim, ele se enrolava em
peles para se aquecer do frio e suportar o clima.

Se escondia na noite, coletava de dia. Não cozinhava, comia crú ou mergulhava em


fontes de água quente. Se defendia na paulada e na pedrada.

Um dia a pedra rachou e cortou uma vez, duas, três e isso se tornou um padrão, com
essa lasca ele cortou carne, fez tiras de couro e de plantas, cortou madeira e
costurou roupas. O mais importante, o homem se equalizou aos predadores e agora
ele tinha um dente tão ou mais letal que o de qualquer outro predador, ele tinha
uma faca.

Simples, rudimentar e segundo alguns uma invenção melhor que a roda para a
evolução humana, milênios depois dos homens da caverna as facas ainda estão
presentes, e em cada peça o peso de milhares de anos de evolução e uso. Tão
presente em cada casa quanto a água e o fogo, estão as facas.

Não houve período da humanidade onde as facas não estivessem presentes e não
fossem itens valiosos.

Eu quero trazer a voz do aço. Pois sobreviventes são forjados em aço, vontades e
histórias.
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Este volume vai tratar das modernas facas de sobrevivência, ainda que muito antiga,
a tempera do aço é recente em comparação ao uso primitivo das facas e só uma
parcela ínfima de sua história. Mais recentes são as divisões por modelos e formas
ou tipos e emprego.

Sobrevivência como uma disciplina de treinamento e estudo é ainda mais atual,


antes era só “viver” sem um manual de técnicas, com a centralização em grandes
cidades e a necessidade militar de atuação em outros países, por vezes diferentes ou
inóspitos.

Cabe aqui lembrar que um homem que dormisse no ano 700 DC e acordasse mil
anos depois, em 1700, notaria bem pouca diferença no mundo. Mudanças
ocorreram, mas levavam muito tempo.

No início de 1900, a palavra sobrevivência era relativamente comum, e entendida


como um conjunto de regras em muitos lugares e por muitas publicações. Já em
1945, 95% da população mundial sabiam e tinham incorporadas ao seu dia a dia,
técnicas básicas para sobreviver.

Sabiam purificar água e fazer fogo, sabiam o que comer e o que não comer,
conheciam alguns remédios eficientes e medicina básica de emergência, além de
manejar ferramentas. Era difícil encontrar uma casa, mesmo que paupérrima, sem
um machado e um facão para lenha.

Também em 1945, as lanternas como conhecemos hoje já existiam.

A Sobrevivência como disciplina militar, visando ambientes muito hostis, se


popularizou chegando ao meio civil por associações de esportistas como
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montanhistas e grupos de caçadores. Escoteiros estavam em seu auge e a vida ao ar


livre já ganhava uma conotação diferenciada, já soando como uma fuga bem vinda
das cidades e suas indústrias.

Na idade média as robustas e caras facas eram, uma das tantas ferramentas, usadas
pelo camponês para viver, bem diferente das modernas e acessíveis ferramentas
domésticas das casas atuais.

Houveram uns poucos anos onde a faca de sobrevivência, sem de fato ser definida
como tal, se instalou num limbo existencial, mas grandes guerras resolveram esse
problema pois os homens ainda precisavam entrar em lugares ruins, inóspitos e
perigosos.

Este é o breve relato de como as grandes facas domésticas e pessoais da idade


média e renascença receberam sua novíssima denominação: FACAS DE
SOBREVIVÊNCIA.

Importante conhecer um pouquinho de história antes de definir conceitualmente o


que é, ou não, uma faca de sobrevivência.

Faca de sobrevivência não é a faca da cozinha de casa. Não é uma ferramenta


simples e ordinária, não é qualquer coisa que corte.

Faca de sobrevivência é o primeiro de seus últimos recursos. Quando tudo dá errado,


quando os planos falham e as coisas saem o trilho, quando o mundo te obriga a viver
por sua própria sorte, sabedoria e habilidade a faca é o mais funcional dos recursos.
Escolher certo esta ferramenta é somar pontos aos dados, e sim pode fazer diferença
entre viver e morrer.
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Nesta publicação eu espero esclarecer alguns pontos que vão ajudá-lo e escolher a
melhor faca de sobrevivência para o seu uso. Você vai conhecer o suficiente para
suas escolhas serem mais ajustadas e precisas e, assim, obter vantagens em
situações difíceis.

Vamos estudar essas facas sob o olhar técnico e não apaixonado, focado em meios e
funções convencionadas por especialistas, grupos militares ao redor do mundo e
instituições sérias. Não é o tratado definitivo sobre o tema, mas é um bom norte
para criar ou rever conceitos.

Espero mesmo poder te ajudar a lidar com esta ferramenta que é o alpha do
sobrevivente desde o início do nosso tempo na terra, e estará conosco no fim de
tudo.

Batata

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Artesania, design e construção

Anatomia de uma faca

Todas as ferramentas têm algum tipo de nomenclatura para se referir a partes


específicas de sua constituição. Facas, dada à imensa quantidade de tipos e modelos,
e de construtores independentes ou não, seguem essa regra.
Existe um mercado colossal, porém, menor que a paixão pelas lâminas, o que leva a
nomenclaturas regionais, exclusivas por modelos e até por aplicação, um exemplo
são as facas de cozinha e as tratadas aqui de sobrevivência, nas facas de cozinha,
partes como o ricasso na base da lâmina são chamadas de “gavião”.

A importância de se conhecer a anatomia de uma faca está diretamente ligada a


escolha de compra, “dorso robusto” ou “fio escandinavo” remetem a modelos e usos

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específicos que podem afetar a função da ferramenta e sua utilização, dados


importantes, que em tempos de compras online e contatos a distância com
empresas e cuteleiros fazem diferença.

Algumas facas têm uma grande história registrada, como por exemplo, seus
criadores, medidas, dureza e métodos de confecção, outras seguem um modelo que
se convencionou sem muitas regras. Aqui cabe somente pincelar os modelos
clássicos, cabendo ao sobrevivente uma pesquisa mais aprofundada caso tenha uma
preferência pelos clássicos.

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Padrão

A) Bushcraft

B) Bowie

C) Skinner

D) Hunter

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Tipos de Pontas

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As pontas influenciam diretamente no manuseio e aplicação das lâminas de


sobrevivência.

Determinam o tipo de corte, a potência e a resistência da lâmina, potencializam ou


restringem ações como perfuração e desbaste de materiais, por exemplo, uma faca
usando ponta padrão com dorso reto e desbaste comum vai perfurar bem menos
que uma faca feita em clip point ou spear point, que são projetadas para isso.

Um breve olhar sobre as pontas mais comuns, tanto em facas artesanais quanto em
peças industriais.

Spear point
Ponta de lança, uma faca com a forma de uma adaga para potencializar a perfuração,
seja o abate de caça ou em defesa pessoal, possui corte no dorso e ângulos de
entrada agressivos.

Drop Point
Mistura uma boa capacidade de perfurar com uma massa extra de aço na ponta,
formando um conjunto forte e resistente a impactos e pancadas.

Clip point
Faca clipada, um agressivo desbaste côncavo e afiado culminando em uma ponta
aguda. É a alma das grandes facas bowie e de muitas facas de caça, o que se ganha
em perfuração, se perde em força, este modelo deixa a ponta mais frágil e
quebradiça.

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Straigth back
O padrão, a mais básica das facas, um dorso forte com toda a massa do corpo da
lâmina, menos perfuração e mais força e área de corte.

As demais variações descritas na imagem são mais exóticas e menos aplicáveis em


facas de sobrevivência.

A ponta tipo tanto é forte e combativa, mas cria um ângulo de ataque desconfortável
para a função simples de cortar.

As facas tipo kukri vão exigir habilidades específicas e treinamento acima da média
para cumprir funções básicas.

Recurve é um conjunto faca/ponta forte e indicado para trabalhos pesados, é a base


da lendária nessmuk, porém é péssimo para perfurar.

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Tipos de Desbaste e Afiação

A forma do desbaste da lâmina diz muito sobre sua atuação em sobrevivência.

Desbaste é basicamente a retirada mecânica de material do corpo de uma barra de


aço através de ferramentas ou forja à quente onde a lâmina é moldada a pancadas.
Em ambos os processos o importante é o material resultante, ou seja o corpo da faca,
isso irá determinar ângulos de corte, resistência mecânica a impactos e pancadas,
limites de torção, quebra e o mais importante, o tipo de afiação possível que
influência diretamente no emprego da lâmina.

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Côncavo ou hollow
Chamado de desbaste de rebolo, não é o mais indicado para facas de sobrevivência
por ter pouca massa na área de corte, geralmente suportando pouca torção,
privilegia a afiação.

Full flat ou totalmente reto


Funciona como uma pirâmide invertida, uma forma forte que se mantém regular e
com boa massa metálica e funciona muito bem com aços especiais.

Parcial flat
Parcialmente reto este desbaste reserva muito material no dorso da faca, tornando o
conjunto forte e robusto e ainda com um bom ângulo de corte.

Convexo
Um perfil que se inicia no full flat totalmente reto e termina em uma curva leve, é a
mais forte e funcional das afiações de sobrevivência, também a mais simples de
repor em campo.

Escandinavo ou scandi
Essa é a afiação padrão das facas de bushcraft e de artesania mateira, neste
desbaste o ângulo agressivo se projeta das faces da lamina terminando em zero
absoluto.

Zero
Um desbaste onde as duas faces da faca se encontram é um full flat extremo usado
em facas de courear ou em aços extremamente duros e navalhas com pouca
aplicação prática em facas de sobrevivência.

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Cabo oco, espiga e full tang

Vamos nos ater aqui ao que é mais comum e não as exceções, e lembre-se, existem
exceções boas e ruins.

A quantidade de aço que vai dentro de uma faca é substancialmente relevante,


quando não partir a faca ao meio, é desejável.

Uma faca de sobrevivência deve ser monobloco, isso significa a mesma peça de aço
da ponta ao pomo. Geralmente soldas, engates e encaixes são um ponto fraco e, em
alguns processos como o chopping e o battoning, facas em um único bloco de aço
são mais resistentes.

Em teoria isso desqualifica as facas de cabo oco automaticamente correto?

Sim e não.

A grande maioria das facas com cabo oco serão meras porcarias cinematográficas,
umas poucas e raras são equiparáveis as facas monobloco, porém o diabo é achar
essas facas, o que torna mais seguro e fácil investir em facas full tang.

Facas full tang tem todo seu contorno, lâmina e cabo em uma única peça de aço,
sem emendas ou soldas e são as opções lógicas para facas de sobrevivência.

Uma faca com espiga, embora ainda feita em um bloco só, tem um afunilamento de
aço no cabo, tornando geralmente a lamina mais larga, a empunhadura é engastada
e se une ao aço no quesito resistência do cabo, óbvio que por mais forte que seja
esta empunhadura, as peças integrais de aço ainda serão mais fortes.
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Torna-se óbvio a todos os sobreviventes :

Faca de sobrevivência é monobloco ou fulltang no geral, por conta da resistência,


exceto que o usuário pesquise as exceções.

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Empunhaduras

Vamos tratar aqui do cabo da faca propriamente dito, os materiais possíveis são
infinitos, porém existe um padrão já aclamado:

 Madeira tem boa resistência e pode ser moldado com facilidade, pode
apodrecer, empenar e trincar com o tempo;
 Talas de micarta são um composto a base de resinas e tecido, amplamente
aclamado no cenário de sobrevivência por sua resistência, estabilidade e
assim como a madeira, capacidade de moldar a mão do usuário;
 Termoplásticos e polímeros estão presentes na lista, facas de qualidade tem
materiais ótimos, de alto desempenho, enquanto peças de baixa qualidade
exibirão injetados ou borracha simples;
 Cabos de corda são comuns e um trunfo, uma boa porção de corda de
paraquedas podendo ser usada em emergências, mas algum cuidado deve se
ter aqui, pois a corda deve ser trocada com regularidade. Sangue, poeira,
pedras, terra e cristais de areia vão entrar pelos vãos das fibras e diminuir o
desempenho da corda e limitar sua função.

Cabe aqui algumas considerações práticas: uma faca de sobrevivência sofre impactos
e muito castigo em seu uso real, a escolha do material do cabo deve ser cuidadosa
para garantir a empunhadura correta.

Durante a prática, movimentos vigorosos e rápidos vão exigir uma pegada firme e
aderente, facas industriais saem com um padrão, o que não significa que se
enquadre a você, teste antes de investir se suas mãos se adaptam a faca. No caso de
peças artesanais, solicite ao cuteleiro os ajustes necessários para o uso confortável
da faca.
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Pomo e quebra crânio

Estes são os recursos nas facas que mais lembram martelos, e em alguns casos são
de fato.

Não cabe aqui grandes explicações, o pomo clássico é reto, segue a espessura do
cabo e exibe uma parte alargada e plana na face, já o quebra crânio pode ser simples
ou extremamente elaborados, mas a função é bater e quebrar materiais duros com o
peso e a largura geralmente grandes deste tipo de faca.

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Recursos especiais em lâminas

A) Serra
Usadas para desbastar materiais moles com alguma precisão, geralmente
empregadas em facas grandes e totalmente inúteis em facas pequenas, uma serra só
é eficiente para materiais com um terço do seu tamanho, logo uma serra de 10
centímetros vai cortar com eficácia um galho de 3 cm.

B) Serrilhado
Pode ser usado em todas as partes do fio ou dorso da faca, com tipos e funções
diferentes, geralmente empregado para cortar fibras muito lisas, escamar peixes em
facas de pesca ou como serra fina para materiais delicados, como pão. Geralmente é
o ultimo recurso de afiação a se perder em uma faca e o mais fácil de afiar.

C) Contra fio
É a afiação feita no dorso da faca, geralmente na ponta para impor mais dano a
penetração, geralmente possui perfil de corte diferente do desbaste do fio principal.

D) Gut hook
Gancho clássico das facas skinner destinado ao manuseio de caça e couro.

E) Furos e moscas
São chamados de furos ou moscas as furações prévias em uma faca, na lâmina,
destinadas a quebrar espinhos, torcer arame ou receber amarração, usados por
exemplo para criar uma lança acoplando a faca a uma vara.

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F) Desbaste vazado ou bizel


Trata-se de um rebaixo clássico em facas militares, replicado em facas de combate
pelo mundo todo, sua função é “fazer o inimigo sangrar até a morte” - desculpe não
resisti!! -, mentira, o bisel retira peso da lamina, pode operar como chave (quando
feito em forma de chave de boca) e o tal “sangramento” é uma lenda. Na primeira e
segunda guerra os soldados usavam suas facas para abrir latas o rebaixo em suas
laminas permitiam a entrada de ar na lata evitando que a comida pressurizada
vazasse. Tirar mais sangue do inimigo ou encher de ar a ferida veio por associação e
não condiz com a realidade.

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Tamanho das facas de sobrevivência

Facas de sobrevivência são grandes e robustas para atender o emprego técnico de


utilização. Fim! - e aqui não há discussão.

Falamos de técnica de sobrevivência aplicada moderna sem nada de poético ou


subjetivo, desconsideramos habilidade, conhecimentos especiais ou treinamentos.
Também não levamos em conta localização ou clima.

Pegue uma pessoa comum, sem nenhum conhecimento, ofereça o curso básico de
sobrevivência, essa pessoa vai precisar de uma faca grande e forte.
Grande, porém é relativo. Na Europa são facas grandes as lâminas com 15
centímetros ou mais e com 3 milímetros de espessura, já para os americanos uma
polegada a mais, 17,5cm, caracteriza uma faca grande.

Há quem classifique por peso, sendo acima de 450 gramas a faca ideal independente
do comprimento, considera-se aqui a massa de aço e sua capacidade de trabalho.
Em um resumo muito simplista e ordinário, o tamanho das facas se divide em antes
do aço tratado termicamente e depois.

Antes, as facas eram de osso, pedras lascadas ou metais leves e maleáveis, então
eram pequenas e tinham somente funções utilitárias, retire armas da equação, já
que não são facas de sobrevivência. Com o advento do aço temperado isso mudou.

Com o aço temperado as facas se tornaram longas, e esse filho tem tantos pais que
não dá pra numerar aqui; em cada trecho do mundo, das ilhas no Japão às forjas
espanholas, em vilas de nórdicos do norte e nos confins da África, nas mãos dos

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ferreiros árabes, as facas dos camponeses ou da realeza, no deserto ou no frio


extremo do ártico, as facas que fizeram estes povos prosperar eram longas.

O motivo é bem simples, uma faca longa e pesada faz tudo que uma faca pequena
faz nas mãos do homem comum, já uma faca pequena é limitada e não tem a
desenvoltura de uma faca longa.

Em termos mais modernos, com o aumento da tecnologia, as facas se acomodaram


ao momento e quando a sobrevivência começou a ser registrada como uma “arte”
ou disciplina, um padrão foi-se formando, em 1900 um sólido conceito de regra se
manteve por pelo menos os 80 anos seguintes, empurrado pela doutrina militar e
eventos globais como as grandes guerras, a crescente industrialização e meios de
comunicação.

No fim do século, as clássicas facas militares de trincheira sofreram um grande


aperfeiçoamento em design, ainda assim, o tamanho e peso eram regras.
Funcionalidades como serras, bizel, cabo oco e novos e resistentes materiais
aumentavam os recursos.

Na era da Internet, onde cada ser humano obteve seu próprio veículo de
comunicação regras foram quebradas, pequenas facas de caça foram adotadas como
facas de sobrevivência, técnicas e floreios, usos extremos, mitos, lendas, certezas e
um inimaginável acervo de suposições e testes, mas as facas pequenas, mesmo
robustas, continuam pequenas e não conseguem reproduzir os feitos das grandes.
Então…

Facas de sobrevivência são grandes e robustas para atender o emprego técnico de


utilização, e fim.
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Emprego padrão de facas de sobrevivência

Estes listados são só os principais entre muitos, em um fórum americano foram


listados mais de 2000 aplicações para uma faca de sobrevivência sem repetir
nenhuma, obvio que “limpar as unhas”, “cutucar esquilos” e “intimidar pessoas” está
na lista, misturados a usos reais e úteis… pelo menos mundanos e ordinários.

 Criação de insumos – use a faca para fabricar coisas úteis e outras ferramentas,
copos, pratos, gamelas, talheres, espetos, suportes e o que mais sua
criatividade permitir;
 Construção de abrigo – Cortar varas e pequenos troncos, limpar folhas, coletar
musgo, coletar material para cobertura, fazer grandes entalhes de encaixe;
 Obtenção de fogo – De riscar uma pederneira a fabricar um conjunto primitivo;
 Processamento de lenha – rachar madeira;
 Primeiros socorros - cortar ataduras, retirar espinhos, farpas e ferrões, cortar
as roupas de um acidentado ou cortar talas improvisadas;
 Arma de proteção – Primaria, seu dente longo, sua presa mortal que te
equaliza aos predadores;
 Arma de caça – Improvisar uma lança ou entalhar um arco, courear, limpar e
processar animais;
 Ferramenta de escavação – sim cavar uma canaleta para escoar água, sacar
uma raiz da terra ou um buraco pra obter água limpa;
 Martelo – Pomo ou mesmo com a face da faca se ela for pesada suficiente pra
isso;
 Manutenção de outras ferramentas – raspar o grude de resina do facão,
refazer um cabo de machado ou reparar uma lona estourada;

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 Gancho /estaca – sim estaca, porque não, se uma estaca escapa durante uma
tempestade a noite, da mesma forma uma fruta no alto de uma árvore pode
ser acessada usando uma vara e uma amarra;
 Preparo de alimentos – faca é faca, alimentos precisam ser processados,
embalagens abertas, tempero picado;
 Abrir trilhas ou picadas – derrubar mato e obstáculos para abrir caminho;
 Arrombar/abrir- sabe aquele alimento em lata ou aquela peça que emperra e
engripa seu dia?
 Fabricação de cordas – retirar cascas de árvores, cipós, raízes, amaciar o
material;
 Resgate - cortar cordas, cabos arames, sinalizar, cortar cintos, quebrar vidro,
fios.

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Metalurgia

A) Tipos de aço

A mais clássica das perguntas: devo escolher aço carbono ou aço inoxidável?

O Brasil é o único país do mundo que exige que facas para o manuseio de alimentos
em açougues sejam compostas de aço inox com cabo injetado, aqui pra nós este
dado é só uma curiosidade, mas que tem algum fundamento prático, facas assim
não deixam “gosto” no alimento nem armazenam microrganismos em partes móveis.

O “gosto” é uma característica peculiar das lâminas de aço carbono, dada sua
propensão a oxidação e uma das principais diferenças entre os aços inox.

Inox precisa de menos manutenção, opera melhor em ambientes molhados, seja


água doce ou salgada, pode ou não ter uma carga alta de carbono para uma
resistência melhor, mas via de regra, são aços mais moles, com menos retenção de
fio e o que se economiza com polimentos e ferrugem, se gasta com afiação e
assentamento do fio.

Pior de tudo, os aços inox mais comuns do mercado, geralmente ligas chinesas, são
ruins mesmo com tratamento térmico industrial.

No Brasil a aplicação deste aço em facas de sobrevivência é quase exclusiva para


facas industriais importadas e não as produzidas por cuteleiros locais.

Mais carbono, mais poder. É um trocadilho com muitas exceções, mas com um bom
fundo de verdade.
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O carbono oferece dureza tanto para o corpo da faca como para o fio, aceita muitos
componentes que melhoram a qualidade do aço no geral e, com isso, vários tópicos
importantes para a sobrevivência são facilmente atendidos.

A grande mágica de tudo, e o que simplificará nossas explanações aqui é o fato do


tratamento térmico do aço carbono ser simples e absolutamente eficiente, tão eficaz
que pode ser feito na cozinha de casa com o mesmo resultado obtido por uma
forjaria industrial, ou até melhor.

Maior resistência do fio, maior tenacidade, resistência à abrasão e impactos, isso é


tudo que uma boa faca de sobrevivência precisa e, via de regra, o aço carbono
atende melhor que o inox, com raras exceções.

B) Coeficiente pessoal de escolha das facas

Pare, respire, pense qual é o seu limite e não o limite da faca que quer comprar.

Sim, há um limite para a tecnologia humana e metalurgia é uma ciência com muita
matemática envolvida. Isenta de misticismo, fé ou achismos, mas não de lendas e
mitos.

Nenhuma faca é indestrutível. Não há magia envolvida (quae nunca). E o mito:


“Facas aumentam a habilidade do usuário”.

A “melhor faca do mundo” é uma percepção subjetiva e relativa ao usuário, mesmo


que ela atenda todos os critérios técnicos possíveis, não será nem de perto unanime
na opinião dos demais.
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Assim como o aço tem um limite, você também o tem e ignorá-lo vai fazer com que
você escolha a faca errada.

Você acha que, em algum momento vai precisar cortar um tronco e pequenas tiras
para manter seu fogo vivo? Se sua resposta for sim, esqueça facas pequenas e
frágeis como faca principal, estas servirão na cozinha ou como peso morto.

Pensa em cravar sua faca em uma árvore a pauladas e usá-la como degrau para
alcançar uma fruta? Não? Ótimo, então você não precisa de um tarugo de aço afiado
com um centímetro de dorso!

Por mais esdruxulo que pareça estes exemplos, são considerações reais,. Concentre-
se em buscar uma faca que lhe sirva realmente, o mais ajustada possível a sua
realidade. Jogue com seus limites pessoais e os limites metalúrgicos da ferramenta
em uma balança.

Deixo aqui a dica de ouro: TUDO em sobrevivência está relacionado a reparo prévio,
inclusive se preparar para adquirir sua ferramenta primária.

C) Alguns aços comuns em cutelaria de sobrevivência

Vale a pena conhecer um pouco sobre aços em cutelaria e saber o que esperar de
sua faca.

Conhecendo os diversos tipos de aço, mesmo que bem por cima você evita cair em
discursos ilusórios, papo de vendedor e propaganda de marcas.

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Atualmente o mercado, principalmente o de facas industrializadas prometem


mundos e fundos para justificar seus preços, materiais baratos ou não adequados
para certos tipos de faca aparecem como a solução da lavoura, mas aço é aço,
cutelaria é arte e ciência, e cada aço vai desempenhar um papel diferente.

Então vamos lá:

D2
Um material usado em ambientes industriais, é um aço de ferramentas. Possui alta
dureza e tenacidade relativamente alta, tornando-o também a uma excelente opção
na cutelaria. Não é um aço inoxidável tecnicamente falando, mas é bem resistente à
corrosão. O D2 geralmente tem 12% de cromo e 14%, ou mais, de inox.

VG10

Aço japonês de alta resistência à corrosão e ótima aplicação em cutelaria, entretanto


não é usado com grandes durezas. Na minha opinião, mais indicado para canivetes
do que para facas de sobrevivência, é caro e perde em desempenho para aços mais
baratos e comuns.

8Cr13MoV (qualquer uma das séries CR)

Um lindo e imponente nome para um aço mediano, lógico no que tange facas de
sobrevivência, ótimo para facas pequenas e utilitárias de campo, é um aço chinês
sem carbono suficiente para segurar uma retenção de fio duradoura. Aqui uma dica
de ouro, essa família de aços vai de 1Crxxx até 9Crxxx o top de linha chinês, fuja de
tudo abaixo de 8Cr.

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420 HC
Outro aço adorado pelos chineses, HC significa “Alto Carbono” o que não é bem uma
verdade, esse aço inox não tem carbono que baste para segurar uma afiação mais
fina, não forma os cristais necessários para uma boa dureza. É um aço ruim para
facas de sobrevivência. Tem algo de bom, esse aço não enferruja. Tente sair fora
disso.

440C

Esse aço inox tem 0,95% de carbono é um aço barato e melindroso, seu tratamento
térmico para ser bom exige cuidados especiais e temperaturas abaixo de zero. É o
mais usado no Brasil dos inoxidáveis, muito comum em facas americanas e chinesas
de boas marcas. Infelizmente é o mais falsificado, é muito comum encontrar uma
faca de aço 420 ordinário sendo vendida como 440c.

Dica: este aço faz uma boa faísca na pederneira.

5160 (AÇO MOLA MODERNO)

É o mais comuns dos “aços de mola” e o mais usado por cuteleiros no Brasil. Alta
resistência, alta tenacidade, com ele se produz todo tipo de cutelaria; de machados
à espadas, facas pequenas, grandes e de sobrevivência. O cuteleiro pode selecionar
a dureza desejada pra mais ou pra menos com fórmulas seguras e simples.

Os “aços mola” possuem uma longa família que inclui o 5150, 6150, 6150 H, 9850
todos com médias de carbono a 0,5 e 1,2. Em termos de sobrevivência, carbono é
poder.

Essa linha de aço é uma evolução tecnológica dos aços-ferramenta comuns da


família 1000, a grande diferença é o fato de saírem “aditivados” no mercado, em

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termos simples é possível medir doses de vanádio, tungstênio e outros componentes


avançados em sua composição básica, o que os torna superior em desempenho aos
aços da família 1000.

A família 1000

Aços ferramenta (e a analogia não poderia ser melhor) se presta para uma enxada
que abre terra e quebra pedra, serve pra faca, não é simples?

Trataremos aqui dos aços acima de 1040 já que é o mínimo para uma boa tempera e
dureza. Você vai encontrar esta liga na maioria absoluta dos facões de mato,
algumas correntes e cabos de aço de qualidade, 1050 é o aço de espadas e dos
antigos machados, pás e enxadas de arar manual. 1070 é o aço padrão pós Segunda
Guerra Mundial para facas militares, peças de colheitadeira, esteiras, molas e eixos
de caminhão, é o material dos discos de arado. Sua ultima evolução é o 1095, aço
que pode receber diversos aditivos em sua composição com potencial incrível para
facas de sobrevivência.

1095 cromo vanádio: essa é a receita das facas Kabar, com uma leve mudança de
dureza (para mais) temos as mundialmente aclamadas Esse. 1095 é o aço da série
1000 que mais se aproxima do desempenho dos aços mola.

52100

1% de carbono, uma alta dose de cromo, este é o aço padrão usado em rolamentos.
Na cutelaria produz facas poderosas, duras e com ótima retenção de fio, é um aço
barato, que na minha opinião, deveria ser mais explorado no país.

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K100 ou VC130

Do céu ao inferno, ou você tem uma ótima faca, ou um cristal frágil. É um aço
poderoso com 2% de carbono, capaz de criar um fio sólido e perene, difícil de usinar,
difícil de desbastar, difícil de afiar... mas, capaz de feitos impressionantes em uso
natural ou urbano sem perder o fio. Tudo depende do artesão, com a tempera e
revenimentos perfeitos esse material é o céu, errou ela se quebra. É um
investimento arriscado.

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Bainhas

As bainhas podem ser feitas de um único componente ou compostas de diversas


combinações de materiais resistentes, podem ser um estojo simples para portar a
faca ou uma plataforma multipropósitos com diversas funcionalidades, bolsos,
espaços para acomodar pederneiras, afiadores, cordas, kits de sobrevivência,
multiferramentas e o que mais for possível pensar, cada mínimo detalhe extra em
sobrevivência é bem vindo.

Neste quesito há algumas regras que devem ser observadas:

 Bainhas para faca de sobrevivência devem ser fortes o suficiente para conter a
faca caso o usuário caia sobre ela, porque sim, e isso é bem possível, já que
geralmente a faca está na cintura;
 Bainhas devem ter engates seguros e firmes para não se soltar por acidente,
bem como presilhas fortes para evitar que a faca caia do estojo em qualquer
posição;
 Uma boa bainha não pode ser cortada pela faca que hospeda, muito menos
danificar o fio com pinos, rebites e engates no lugar errado.

Principais componentes de uma bainha de faca:

Couro
São clássicas e usadas desde… bom desde sempre, o couro endurecido de animais,
tem boa capacidade para proteger lâmina e usuário com eficácia mas requer
cuidados, retém água, sujeira e umidade, empenam no sol e frios extremos e
algumas laminas de sobrevivência super afiadas tem o mal habito de cortar couro
feito manteiga.
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Kydex
Em termos simples é um acrílico termoplástico moldável, a prova d’água, super
resistente a abrasão e impactos. Com o projeto correto uma das melhores capas
possíveis para facas de sobrevivência, infelizmente ainda caro no país.

Cordura
É um tecido a base de nylon, muito resistente a cortes e abrasões, de secagem
rápida, muito utilizado em equipamentos táticos e militares. Bainhas de cordura
geralmente tem um case interno para acomodar a lamina feito de um termoplástico
anti corte. Cordura formam bainhas adaptáveis e com muitos recursos extras, como
bolsos e engates.

PVC E plásticos
Muito usado em facas industriais existem ótimos projetos onde a bainha vale mais
que a faca que ela abriga, e outros péssimos, sem segurança alguma ou escoamento
de água, verdadeiras armadilhas. Cabe aqui um olhar clínico e com atenção ao
adquirir estes itens.

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Afiação

Nunca confie em um instrutor de sobrevivência que diz que a afiação da faca ou a


retenção de fio não são fatores importantes. São sim.

Não é a faca do churrascão com a galera que você usa feliz e faceiro, é uma lâmina
que vai operar no pior momento, na hora de maior tensão e necessidade, em um
momento onde as portas do inferno se abrem, tudo que a faca precisa é cortar.
Cortar bem, cortar limpo. Não dá pra parar tudo e se preocupar com afiação, micro
afiação, polimento.

Treino é treino, jogo é jogo! - e você não deve esquecer isso.

Conheça alguns meios de reafiar sua faca de sobrevivência:

A) Afiação em campo
Materiais leves de carregar e simples de usar são os afiadores portáteis, pequenos
estropos de couro com pasta, partes de lixas e pedras de afiar pequenas. Não é onde
se repara grandes danos como dentes e amassados, foque em áreas menos
danificadas.

B) Afiação doméstica
A mais esmerada, conta com materiais melhores e maiores, boas pedras, lixas
variadas, encaixe para mesa e até morsas para prender a faca e fazer grandes
reparos com limas e ferramentas elétricas.

É a base do preparo prévio, um fundamento do sobrevivencialista, manter sua


ferramenta e suas habilidades prontos pra tudo. Estude pratique.
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C) Manutenção

Sem manutenção o carro não anda, o avião não voa e a faca não funciona.

Mantenha a bainha segura, verifique presilhas, costuras e rebites a cada uso;


Lubrifique a lâmina para evitar ferrugem, mesmo que vá guardar a faca por
pouco tempo;
Verifique parafusos e partes móveis, pancadas podem afrouxar os parafusos
do cabo e trincar a empunhadura;
Guarde sua faca afiada e pronta pra uso;
Facas de sobrevivência não são brinquedos, são armas funcionais e
ferramentas perigosas e devem ser guardadas em local seguro;
Converse com seus filhos e crianças da casa sobre o perigo e responsabilidade
no uso de facas, não perca a chance de ensiná-los com ferramentas adequadas para
seu tamanho.

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Sessão final, a dança das facas

Vou levar isso para o lado pessoal, finalmente.

No decorrer desta publicação você chegou a algumas conclusões, assim espero.

A primeira é que você precisa de uma faca dedicada a situações de sobrevivência,


ela precisa ser feita em um bloco só, full tang e de um bom aço. Sua faca deve ser
grande o bastante para cumprir o trabalho esperado de uma ferramenta em
ambiente inóspito e capaz de defender sua vida como um recurso concreto. Sua faca
é sua ferramenta principal.

Chegou a hora de aditivar essas conclusões e subir o nível do emprego das facas.

A faca não vai lhe conceder poderes e habilidades especiais, se você vacilar vai errar,
se você errar vai se cortar ou pior, sem a devida prática a ferramenta pode fazer mais
mal que bem. Não é uma faca de cozinha, é mais pesada e encorpada, corta mais e
mais fundo, a potência que transforma troncos em lascas também decepa dedos e
quebra ossos.

Facas de sobrevivência são perigosas, são foices portáteis.

Uma boa faca de sobrevivência dura uma vida, ou duas se seus descendentes
curtirem o modelo, e isso significa que você tem tempo pra lapidar suas habilidades
com esmero, e esse é um acessório tão importante quanto a bainha.

Com a faca correta nas mãos, resta melhorar o indivíduo:


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Faça cursos de sobrevivência: cursos e treinamentos de sobrevivência dão uma boa


visão prática das funções necessárias à sua faca de sobrevivência, quebra conceitos,
paradigmas e agrega o bom e velho conhecimento que não pesa na mochila.

Aprenda combate com facas: que adianta citar com todas as letras que sua faca é
uma arma se você não treinar seu uso e conhecer seus recursos de combate?
Qualquer arma exige responsabilidade e acredite não basta correr gritando e
apontar a coisa pra frente. Muitas modalidades de artes marciais e cursos de
combate usando facas estão disponíveis. Combate é treino e não sorte! Treine,
treine e treine até não errar mais.

Aprenda afiar com esmero: da pedra de rio irregular ao mais sofisticado meio
doméstico, do fio grosseiro ao mais polido, se você não sabe afiar sua faca, pra que
diabos você tem uma faca?

Aprenda construir sua faca do zero: sim, como são feitas as facas? O que é
tratamento térmico? Como se faz a guarda e o pomo? Como desbasta? Aprenda
construir uma faca, saiba o básico, tente uma vez reformar ou mudar peças baratas,
nada irá te ensinar a manutenção básica de laminas melhor que saber criá-las.

Aprenda usos e técnicas especiais: chopping, batoning, são técnicas de corte


extremas, pauladas sucessivas no dorso daquela faca valiosa. Cavar a beira de um
lago pra coletar água destruindo a pintura de proteção da lâmina.

Cortar uma tábua cravejada de pinos e pregos.

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Cortar seda pura, borracha, mangueiras, cabos de aço e arames, corte couro,
martele pregos, corte um bife em uma peça de carne, faça uma sopa, teste o fio em
diversos tipos de madeira, fure um carro antigo no ferro velho, quebre vidro.

Corte coisas grandes e tente fazer trabalhos delicados. Loucura? Não! Experiência!

Você não sabe qual é o desafio que virá, não sabe o cenário que vai enfrentar com
sua faca. Quais recursos vai ter a mão? Eu adoraria te dizer, mas não posso, ninguém
pode, seu desafio é só seu, prepare-se para ele.

Use EPI: Luvas, aventais, óculos são acessórios, conhece um mestre no uso de facas,
olhe as mãos dele e verá cicatrizes cruéis. Ser responsável é uma regra.

Emprego prático

Um instrutor lhe dirá que suas lâminas de sobrevivência são a faca e o facão.
Outro criou seu método com faca e machado.
Uma faca. Tripla redundância, canivete e facão e assim vamos até esgotar o que há
de possível em cutelaria de sobrevivência.

Vou lhe mostrar o que eu faço e por que.

Faca limpa e faca suja, um dueto que opera independente de qualquer outra
ferramenta média ou grande, ou recurso disponível.

A faca limpa

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É uma faca menor, portátil, manobrável e utilitária. Robusta o quanto baste para não
se partir à toa e excepcionalmente construída com dureza alta. É a lamina do
artesanato, do entalhe e da cozinha de campo, é quem faz a função utilitária.

Essa faca chama pra si algumas funções:

 Cozinhar e tratar alimentos (cortar comida em tábuas destrói o fio, logo


aposto em dureza e retenção);
 Uso em primeiros socorros, como retirar uma farpa, cortar uma gaze;
 Manutenção e ajustes de equipamentos, como cortar tecido, lonas etc;
 Preparar iscas de fogo;
 Entalhes e desbastes delicados;
 Cortar cordas, barbantes e amarrações;
 Servir de faca backup da faca maior.

A faca suja

Seu emprego é menos poético, uma lâmina pesada, longa com alta resistência
mecânica a porradas e impactos, uma ponta proeminente para perfurar e corpo para
cortar o que vier.

 Derrubar troncos e rachar lenha;


 Construir abrigos;
 Arma de combate;
 Abater animais;
 Escavar terra;
 Cutucar coisas, raspar resina de árvores, remexer no lixo, destruir coisas.

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Vantagens e desvantagens desta montagem

Sinergia – Com as duas lâminas em emprego conjunto o sobrevivente vai preservar


mais o fio de ambas as facas, poupando re-afiações em campo.

Função e desempenho – A faca menor cumpre seu papel em trabalhos delicados e a


maior, opera livre, em seu ambiente mais bruto, é como ter a ferramenta certa para
a função certa.

Agilidade – Em campo estamos sujeitos a toda sorte de grudes, sim eu disse grudes,
de uma carniça no couro de um animal a resina de árvores, lama, mofo, bolor e
excremento de animais, claro que você pode usar uma vareta pra lidar com isso, mas
nem sempre, esses grudes dão trabalho, consomem calorias e um baita tempo para
sair. Como cozinhar ou cortar um esparadrapo com a faca suja de sangue e
carrapatos daquela capivara caçada para o almoço? Foi um exemplo extremo, mas
real.

Redundância - Óbvio, perdeu uma faca ou ela se partiu por algum motivo, sempre
haverá a outra para cumprir a missão.

Mas nem tudo são flores... desvantagens da montagem com duas facas:

Investimento – Pois é boas facas são caras, possuir uma faca de qualidade é difícil,
duas já complica a vida de muita gente.

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Peso – Uma faca grande vai pesar mais de meio quilo fácil, a menor ainda é robusta
e vai na casa dos 200 a 400 gramas, chegamos a quase um quilo em ferramentas, se
você é um aventureiro ou pratica esportes de aventura este peso faz muita diferença.

A montagem e disciplina das facas limpas e sujas é completamente focada em


sobrevivência base para sobrevivencialistas, praticantes de técnicas mateiras,
bushcrafters e acampadores que avaliam o preparo prévio em sobrevivência, com
possibilidades reais de ocorrência, e almejam um desempenho confortável na
manutenção das técnicas vitais.

Cabe que, em sua grande maioria, uma boa faca já faz toda diferença e é um dos 10
itens essenciais da sobrevivência.

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